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A saga do homem invisível

Tópico em 'Atualidades e Generalidades' iniciado por Muot-Hart, 29 Set 2003.

Situação do Tópico:
Fechado para novas mensagens.
  1. Muot-Hart

    Muot-Hart Usuário

    |"Fingi ser gari por 8 anos e vivi como um ser invisível"
    |
    |
    |
    |PLÍNIO DELPHINO
    |
    |Psicólogo varreu as ruas da USP para concluir sua tese de mest rado da
    |"invisibilidade pública". Ele comprovou que, em geral , as pessoas
    |enxergam apenas a função social do outro. Quem nã o está bem
    |posicionado sob esse critério, vira mera sombra soc ial.
    |
    |O psicólogo social Fernando Braga da Costa vestiu uniforme e t rabalhou
    |oito anos como gari, varrendo ruas da Universidade de São Paulo. Ali,
    |constatou que, ao olhar da maioria, os trabal hadores braçais são
    |"seres invisíveis, sem nome".
    |
    |Em sua tese de mestrado, pela USP, conseguiu comprovar a exist ência da
    |"invisibilidade pública", ou seja, uma percepção huma na totalmente
    |prejudicada e condicionada à divisão social do t rabalho, onde
    |enxerga-se somente a função e não a pessoa.
    |
    |Braga trabalhava apenas meio período como gari, não recebia o salário
    |de R$400 como os colegas de vassoura, mas garante que teve a maior
    |lição de sua vida: "Descobri que um simples bom d ia, que nunca recebi
    |como gari, pode significar um sopro de vi da, um sinal da própria
    |existência", explica o pesquisador.
    |
    |O psicólogo sentiu na pele o que é ser tratado como um objeto e não
    |como um ser humano. "Professores que me abraçavam nos co rredores da
    |USP passavam por mim, não me reconheciam por causa do uniforme. Às
    |vezes, esbarravam no meu ombro e, sem ao meno s pedir desculpas,
    |seguiam me ignorando, como se tivessem encostado em um poste, ou em um
    |orelhão", diz.
    |
    |Apesar do castigo do sol forte, do trabalho pesado e das humil hações
    |diárias, segundo o psicólogo, são acolhedores com quem os enxerga. E
    |encontram no silêncio a defesa contra quem os ig nora.
    |
    |DIÁRIO - Como é que você teve essa idéia?
    |
    |Fernando Braga da Costa -
    | Meu orientador desde a graduação, o professor José Moura Gonç alves
    |Filho, sugeriu aos alunos, como uma das provas de avalia ção, que a
    |gente se engajasse numa tarefa proletária. Uma form a de atividade
    |profissional que não exigisse qualificação técnica nem acadêmi
    |ca. Então, basicamente, profissões das classes pobres.
    |
    |Com que objetivo?
    |
    |A função do meu mestrado era compreender e analisar a condição de
    |trabalho deles (os garis), e a maneira como eles estão ins eridos na
    |cena pública. Ou seja, estudar a condição moral e ps icológica a qual
    |eles estão sujeitos dentro da sociedade. Outr o nível de investigação,
    |que vai ser priorizado agora no douto rado, é analisar e verificar as
    |barreiras e as aberturas que s e operam no encontro do psicólogo social
    |com os garis. Que bar reiras são essas, que aberturas são essas, e como
    |se dá a apro ximação?
    |
    |Quando você começou a trabalhar, os garis notaram que se trata va de um
    |estudante fazendo pesquisa?
    |
    |Eu vesti um uniforme que era todo vermelho, boné, camisa e tal .
    |Chegando lá eu tinha a expectativa de me apresentar como nov o
    |funcionário, recém- contratado pela USP pra varrer rua com eles. Mas,
    |os garis sac aram logo, entretanto nada me disseram. Existe uma coisa
    |típic a dos garis: são pessoas vindas do Nordeste, negros ou mulatos
    | em geral. Eu sou branquelo, mas isso talvez não seja o difere
    |ncial, porque muitos garis ali são brancos também. Você tem um
    |a série de fatores que são ainda mais determinantes, como a ma
    |neira de falarmos, o modo de a gente olhar ou de posicionar o
    |nosso corpo, a maneira como gesticulamos. Os garis conseguem d
    |efinir essa diferenças com algumas frases que são simplesmente
    | formidáveis.
    |
    |Dê um exemplo?
    |
    |Nós estávamos varrendo e, em determinado momento, comecei a pa pear com
    |um dos garis. De repente, ele viu um sujeito de 35 ou 40 anos de
    |idade, subindo a rua a pé, muito bem arrumado com uma pastinha de couro
    |na mão. O sujeito passou pela gente e nã o nos cumprimentou, o que é
    |comum nessas situações. O gari, se m se referir claramente ao homem que
    |acabara de passar, virou- se pra mim e começou a falar: "É Fernando,
    |quando o sujeito ve m andando você logo sabe se o cabra é do dinheiro
    |ou não. Porq ue peão anda macio, quase não faz barulho. Já o pessoal da
    |out ra classe você só ouve o toc-
    |toc dos passos. E quando a gente está esperando o trem logo pe
    |rcebe também: o peão fica todo encolhidinho olhando pra baixo.
    | Eles não. Ficam com olhar só por cima de toda a peãozada, seg
    |urando a pastinha na mão."
    |
    |Quanto tempo depois eles falaram sobre essa percepção de que v ocê era
    |diferente?
    |
    |Isso não precisou nem ser comentado, porque os fatos no primei ro dia
    |de trabalho já deixaram muito claro que eles sabiam que eu não era um
    |gari. Fui tratado de uma forma completamente di ferente. Os garis são
    |carregados na caçamba da caminhonete jun to com as ferramentas. É como
    |se eles fossem ferramentas també m. Eles não deixaram eu viajar na
    |caçamba, quiseram que eu fos se na cabine. Tive de insistir muito para
    |poder viajar com ele s na caçamba. Chegando no lugar de trabalho,
    |continuaram me tr atando diferente. As vassouras eram todas muito
    |velhas. A únic a vassoura nova já estava reservada para mim. Não me
    |deixaram usar a pá e a enxada, porque era um serviço mais pesado. Eles
    |fizeram questão de que eu trabalhasse só com a vassoura e, mes
    |mo assim, num lugar mais limpinho, e isso tudo foi dando a dim
    |ensão de que os garis sabiam que eu não tinha a mesma origem s
    |ocioeconômica deles.
    |
    |Quer dizer que eles se diminuíram com a sua presença?
    |
    |Não foi uma questão de se menosprezar, mas sim de me proteger.
    |
    |Eles testaram você?
    |
    |No primeiro dia de trabalho paramos pro café. Eles colocaram u ma
    |garrafa térmica sobre uma plataforma de concreto. Só que nã o tinha
    |caneca. Havia um clima estranho no ar, eu era um sujei to vindo de
    |outra classe, varrendo rua com eles. Os garis mal conversavam comigo,
    |alguns se aproximavam para ensinar o servi ço. Um deles foi até o latão
    |de lixo pegou duas latinhas de re frigerante cortou as latinhas pela
    |metade e serviu o café ali, na latinha suja e grudenta. E como a gente
    |estava num grupo g rande, esperei que eles se servissem primeiro. Eu
    |nunca apreci ei o sabor do café. Mas, intuitivamente, senti que deveria
    |tom
    |á-
    |lo, e claro, não livre de sensações ruins. Afinal, o cara tiro u as
    |latinhas de refrigerante de dentro de uma lixeira, que te m sujeira,
    |tem formiga, tem barata, tem de tudo. No momento em que empunhei a
    |caneca improvisada, parece que todo mundo paro u para assistir à cena,
    |como se perguntasse: 'E aí, o jovem ri co vai se sujeitar a beber nessa
    |caneca?' E eu bebi. Imediatam ente a ansiedade parece que evaporou.
    |Eles passaram a conversa r comigo, a contar piada, brincar. "Essa
    |experiência me deixou curado da minha doença burguesa"
    |
    |O que você sentiu na pele, trabalhando como gari?
    |
    |Uma vez, um dos garis me convidou pra almoçar no bandejão cent ral. Aí
    |eu entrei no Instituto de Psicologia para pegar dinhei ro, passei pelo
    |andar térreo, subi escada, passei pelo segundo andar, passei na
    |biblioteca, desci a escada, passei em frente ao centro acadêmico,
    |passei em fren te a lanchonete, tinha muita gente conhecida. Eu fiz
    |todo esse trajeto e ninguém em absoluto me viu. Eu tive uma sensação
    |mu ito ruim. O meu corpo tremia como se eu não o dominasse, uma a
    |ngustia, e a tampa da cabeça era como se ardesse, como se eu t
    |ivesse sido sugado. Fui almoçar não senti o gosto da comida vo
    |ltei para o trabalho atordoado.
    |
    |E depois de oito anos trabalhando como gari? Isso mudou?
    |
    |Fui me habituando a isso, assim como eles vão se habituando ta mbém a
    |situações pouco saudáveis. Então, quando eu via um prof essor se
    |aproximando - professor meu - até parava de varrer, porque ele ia
    |passar por mim, podia tro car uma idéia, mas o pessoal passava como se
    |tivesse passando por um poste, uma árvore, um orelhão.
    |
    |E quando você volta para casa, para seu mundo real?
    |
    |Eu choro. É muito triste, porque, a partir do instante em que você está
    |inserido nessa condição psicossocial, não se esquece jamais. Acredito
    |que essa experiência me deixou curado da min ha doença burguesa. Esses homens hoje são meus amigos. Conheço a família deles, freqüento a casa deles nas periferias. Mudei . Nunca deixo de cumprimentar um
    |trabalhador. Faço questão de o trabalhador saber que eu sei que ele
    |existe. Eles são tratados pior do que um animal doméstico, que sempre
    |é chamado pelo nome. São tratados como se fossem uma coisa.
    |
    |
    |PLÍNIO DELPHINO

     
  2. Gildor

    Gildor Usuário

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