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A Poesia Sobrenatural Antiga em Tolkien e A Canção dos Valar

Neoghoster Akira

Brandebuque
...
"And where the wall is built in new
And is of ivy bare
She paused—then opened and passed through
A gate that once was there."
...
The Little Ghost - Edna St. Vincent Millay

O Poder Ora Fantasmagórico Ora Real das Palavras

Muito se pode concluir dos trabalhos apresentados por Verlyn Flieger e Owen Barfield para se explorar os conceitos e significados em uma obra como a de Tolkien.

Todavia também é verdade que ainda que o autor houvesse terminado de determinar e lapidar cada aresta dos livros de pouco lhe valeria se não fosse o poder de encantamento da poesia nos leitores.

Nos tempos idos do século 18, 19 e começo do século vinte quando as obras de referência a Tolkien foram escritas um tipo de poesia era muito popular entre as pessoas, produzindo um gênero que poderíamos chamar de "Poesia Sobrenatural".

Para quem estuda o assunto em Portugal nessa época, a arqueologia costumava dividir os estudos e reconstrução de textos e significados em uma dessas 3 categorias abaixo, especificamente a literária:

-Arqueologia Literária
-Arqueologia Artísitica
-Arqueologia Usual

Esta primeira categoria em específico se responsabilizava por organizar, estudar e guardar os relatos escritos, inclusive experiências religiosas e transcendentes de santos nas igrejas.

Afinal, depois de tantos séculos era necessário transmitir ao povo o poder da palavra nos relatos com o melhor da exatidão e fidelidade ao significado obrigando os sacerdotes a convocarem quem melhore entendia do assunto, escritores, poetas, músicos...

Eram então elaborados hinos e canções tradicionais, poemas e livros em torno deste tema.

A partir dele (do tema) a obra literária inspiraria a construção de portais, portas, lápides, portões, túmulos... No ocidente e no oriente trechos destes textos foram então gravados em pedras, madeira e metal influenciando fortemente a literatura da época. Exemplos:

fig078.png


Primariamente com objetivo solene, tal poesia encantatória no ocidente teria origem e musicalidade mais misteriosa do que se costuma admitir conforme comenta esse trecho num blog de musicologia de um aluno da UCLA:

Teoria da Música Chinesa e Suas Implicaões para a Música Ocidental
Chinese Music Theory and Its Implications for Western Music

"Legend states that music in China developed when Huangdi (founder of the Chinese Empire) instructed a man by the name of Ling-lun to travel the Kwen-lun mountains. There he found bamboo shoots, and wishing to imitate the nearby birds in the forest of the mountains, he cut the bamboo into what would eventually create the chromatic scale (called Lü in Chinese) through blowing 12 different pitches. This legend is important to state as it gave birth to the belief that each tone in the Lü scale has specific ties to nature.

In the Lü scale, tones like the second tone Tai-tsoh represents rain and the awakening of insects and tones like the eighth tone Lin-tsong represents extreme heat and the beginning of autumn. The significance of this tie to nature is that every note in the Chinese Lü scale illustrates the great care Chinese theorists have approached music.

This is where I believe that the Chinese philosophy of music could help western scholars. Theorists in the west tend to have a scientific, mathematical approach to music theory, but there is little questioning why. They instruct music students to follow part-writing rules of harmony, the melodic rules of counterpoint, but the only explanation they have is “this is the way it is done, and we do not question that.”

Ou seja, academicamente se reconhece a busca de Tolkien pelas narrativas do tempo dos Heróis do mundo antigo, mas que existe também um importante elemento de elas terem emergido primeiro e ainda mais por amor a tipos específicos de encanto na poesia antes de vir por meio de decisões e soluções didáticas, editoriais e acadêmicas.

De que na imitação da natureza a letra criasse laços fortes com os significados do mundo indicando que Verlyn Flieger estaria realmente correta em reservar valor a semântica ao invés de unicamente focar nas regras.


No livro "A History of Japanese Literature, Volume 1: The Archaic and Ancient Ages" de Jin'ichi Konishi, se comenta que a antigüidade buscada por Tolkien não conseguia separar entre religião e literatura, entre a eternidade de um herói militar ou a eternidade buscada por um santo. O trecho:

"...
...there remained no distinction between religion and literature; both narratives and songs drew on Kotodama, the concept of words as incantatory and divine, so that poets no only transmitted meaning but a sense of the Supernatural.
..."

A obra de Jin'Ichi cita que tal condição posteriormente se tornou "dormente" na sociedade, fazendo as pessoas imaginarem que o valor que dão as palavras vem de uma escolha vazia, mas que na verdade precisa ter importância semântica e cultural e não apenas escolha técnica ou se tornaria num idioma artificial sem utilidade.

Reading the Miraculous Powers of Japanese Poetry
Spells, Truth Acts, and a Medieval
Buddhist Poetics of the Supernatural

...
The supernatural powers of Japanese poetry are widely documented in the literature of Heian and medieval Japan. Twentieth-century scholars have tended
to follow Orikuchi Shinobu in interpreting and discussing miraculous verses
in terms of ancient (arguably pre-Buddhist and pre-historical) beliefs in
koto-dama 言霊, “the magic spirit power of special words.” In this paper, I argue
for the application of a more contemporaneous hermeneutical approach to
the miraculous poem-stories of late-Heian and medieval Japan: thirteenth-
century Japanese “dharani theory,” according to which Japanese poetry is
capable of supernatural effects because, as the dharani of Japan, it contains
“reason” or “truth” (kotowari) in a semantic superabundance. In the first sec-
tion of this article I discuss “dharani theory” as it is articulated in a number of
Kamakura- and Muromachi-period sources; in the second, I apply that theory to several Heian and medieval rainmaking poem-tales; and in the third,
I argue for a possible connection between the magico-religious technology of Indian “Truth Acts” (saccakiriyā, satyakriyā), imported to Japan in various
sutras and sutra commentaries, and some of the miraculous poems of the late-Heian and medieval periods.

At some time in or around the fifth year of the Engi era (905), the Japanese court poet Ki no Tsurayuki wrote in his introduction to the anthology
Kokin waka shū古今和歌集 (Collection of Poems, Past and Present)
that Japanese poetry has the power to “move heaven and earth, stir feeling in
unseen demons and gods, soften relations between men and women, and soothe
the hearts of fierce warriors.”
1
His words are well-founded, for the literature of
premodern Japan abounds in tales of poets who have used poetry to a variety of
ends, including to inspire love, cure illness, end droughts, exorcise demons, and
sometimes even raise the dead. Contemporary scholars refer to such stories as katoku setsuwa 歌徳 説話, “tales of the wondrous benefits of poetry.”
...

De fato, "os miraculosos poderes da poesia" citados acima inspirando amor, curando doenças, secas, exorcizando demônios e levantando os mortos são usados em Tolkien em que cada ocasião apresenta e inspira certo tipo de emoção ou clima.

E de maneira semelhante, vários arquétipos e significados de Tolkien são condensados em uma única palavra criando uma força semelhante ao do Kotodama Japonês em trazer ao mesmo tempo razão e verdade encerrados em si durante passagens instigantes dos textos, a mesma força transcendente que move as pessoas. Ainda, segundo o autor acima, o poder do "verso" equivale a meditação e supera o valor da linguagem ordinária por meio de super abundância semântica.

Tanto poder dá uma dimensão diferente no entendimento do mundo primordial dos Valar aonde música e criação se misturam e não tem diferenças. A forja de Aulë seria acionada ao mesmo tempo com poder e com poesia.

Aos Poderes é dado lembrar da música primordial. A eles lhes compete possuir o que conseguiram guardar da música e serem possuídos por estarem dentro da manifestação dela enquanto trabalham.

A entrega honesta ao trabalho ao se tornar ferramenta de um bem maior trata de Aulë especificamente e o pesquisador acima fala do assunto quando comenta da necessidade de habilidade e coração sincero para comover os deuses do Japão com poesia capaz de mudar o coração das pessoas:

To move heaven and earth and stir emotion in demons and gods requires
both deep feeling and good poetry. However deep one’s feelings might be,
if one should write, “How sad, how sad,” demons and gods are not likely
to be moved. But if a poem is born of an earnest heart and is but skillfully
wrought, supernatural beings are sure to be moved of their own accord. Like
-
wise, however elegant the language of a poem, should that poem lack feeling,
demons and gods are unlikely to respond. But when people hear a poem that
is both profound in sentiment and gracefully crafted, their hearts are natu
-
rally touched. So too heaven and earth are moved and demons and gods are
affected.



...
In what way does a poem surpass ordinary language? Because it contains many truths in
a single word, because it exhausts, without revealing, deepest intent, because it summons
forth unseen ages before our eyes, because it employs the ignoble to express the superior,
and because it manifests, in seeming foolishness, most mysterious truth—because of this,
when the heart cannot reach and words are insufficient, if one should express oneself in
verse, the mere thirty-one characters [of a poem] will possess the power to move heaven
and earth, to calm demons and gods.
...

Para os grandes e para os pequenos a poesia funciona como "spell" nos personagens de Ea:

...
"Again she fled, but swift he came.
Tinúviel! Tinúviel!
He called her by her elvish name;
And there she halted listening.
One moment stood she, and a spell
His voice laid on her: Beren came,
And doom fell on Tinúviel
That in his arms lay glistening."

A evocação do nome de Lúthien, não é apenas poesia, ele encerra o significado de amor honesto, manifestado por sua aproximação de Beren. Nas palavras da letra da música oitentista Get Closer de Valerie Doré: "Changing a Spell Can Save You".

https://en.wikipedia.org/wiki/Owen_Barfield

Song of Beren and Lúthien
http://tolkien.cro.net/talesong/s-berenl.html

Project Gutenberg
http://www.gutenberg.org/

Renascence and Other Poems
http://www.gutenberg.org/files/109/109-h/109-h.htm#ghost

NOÇÕES ELEMENTARES DE ARCHEOLOGIA
http://www.gutenberg.org/files/17186/17186-h/17186-h.htm

Reading the Miraculous Powers of Japanese Poetry
https://nirc.nanzan-u.ac.jp/nfile/2859

Teoria da Música Chinesa e Suas Implicaões para a Música Ocidental
https://mixolydianblog.com/2012/07/14/chinese-music-theory-and-its-implications-for-western-music-2/

A History of Japanese Literature, Volume 1: The Archaic and Ancient Ages
https://books.google.com.br/books?id=k4orDgAAQBAJ&pg=PA61&lpg=PA61&dq=supernatural+poetry+japan+kotodama&source=bl&ots=qqlHfD_PQf&sig=eunVK5FIZDKq21xiReJBnIjGZnc&hl=pt-BR&sa=X&ved=0ahUKEwjzw5DlxvXSAhVFlpAKHTy-ChMQ6AEIOTAE#v=onepage&q=supernatural poetry japan kotodama&f=false
 
Última edição:

Eferos Masopias

Senhor dos Pastéis
Pensa num cara que se aprofunda no assunto... se o @Neoghoster Akira vivesse na Terra-Média ia aparecer naquela cena do filme que o Gandalf procura referências ao anel, no primeiro filme. E ele é quem entregaria os pergaminhos ao Gandalf, em vez do mago procurar sozinho!
 

Neoghoster Akira

Brandebuque
Seja bem vindo para incluir novas referências Eferos!

É que eu estava mesmo rastreando raízes das influências de Tolkien. :)

Por exemplo, essa parte dos pergaminhos Gondorianos na guerra do anel, se integraria nas operações de “guerras secretas de Tolkien” na World War.

Segundo os militares, os oficiais britânicos de inteligência estavam responsáveis por mensagens que podiam significar ao mesmo tempo uma coisa e outra. Nas mensagens dele para a esposa havia um lado público e um lado privado. Um sentido para os olhos do inimigo e outro sentido para olhos amistosos evitando que fosse rastreada com facilidade.



Por exemplo, em Tolkien um hobbit não apenas entra no período da primavera, mas a primavera (sua terra) o recebe de braços abertos, ou ainda a pessoa pode se postar diante dos portões da primavera. A mensagem não é simplesmente comunicada de forma simples como um pacote pesado jogado no chão, ela é transmitida preservando também significados intangíveis e valores não-materialistas. A estação do ano não é só um termo morto, mas assume características de personagem, semelhante as “fúrias gregas” na antiguidade. Ela pode ouvir, pode tomar as dores de alguém, a pessoa pode querer fugir dela ou permanecer na estação, pode querer correr o mundo ou descansar dependendo do humor.



Esse foco no juízo do leitor de estar pronto para imprevisibilidade mais perigosa que é a de uma pessoa é algo presente na época que precedeu Tolkien. No transcendentalismo americano do século 19 derivado do romantismo inglês e alemão há uma incrível fé no poder de resolução do indivíduo:

https://en.wikipedia.org/wiki/Transcendentalism



Também ocorreria concentração de significados dentro de uma mesma mensagem em meio a luta quando usam Kotodama no Aikido ao reafirmar a força. Ao invés de haver apenas o banal os sentidos de cada frase vão caminhando na direção do importante e do especial.



Então que Frodo não é fustigado por uma mera missão vaga. Ele corre também porque assume um contrato (como dizem os espiritualistas que usam um vocabulário focando outra semântica). Frodo não apenas corre como se os “cães dos Valar” estivessem em seus pés. Ele mesmo, não apenas poeticamente, começa a ver os cães da destruição se aproximando dos seus pés de todas as direções do futuro, como um grande inimigo.

Yavanna e os outros também, quando trabalham se identificam com seu trabalho de tal forma, de todo coração e toda alma como a poesia das orações no catolicismo. Ouvir cada sentença é como escutar a música clássica “Die Moldau” como poema para um rio. A poesia sobrenatural buscaria cumprir a duríssima tarefa de descrever experiências transcendentes preservando a dignidade e alguma fidelidade em relação a um mundo ou dimensão diferente.

Todavia, com a passagem do tempo esse tipo de informação pode se tornar “selada” não apenas para novos fãs, mas para a própria indústria que pode acreditar que basta apertar um botão para confiar que as pessoas receberam a mensagem. Sem ensinar a reconstruir a semântica original muitos vão vivendo sem perceber o que estavam olhando, os indivíduos cada vez mais estranhos uns aos outros, como se fosse apenas o velho argumento de maniqueísmo nessas histórias.
 

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