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A Multiplicidade dos estados do Ser - René Guénon

Tópico em 'Atualidades e Generalidades' iniciado por Paganus, 9 Out 2013.

  1. Paganus

    Paganus Visitante

    Do livro 'O simbolismo da Cruz'

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    Um ser qualquer, seja ele humano ou outro, pode evidentemente ser considerado a partir de muitos pontos de vista diferentes; podemos dizer, inclusive, a partir de um número indefinido de pontos de vista de importância muito desigual, mas todos igualmente legítimos em seus domínios respectivos, com a condição de que nenhum deles pretenda ultrapassar seus limites próprios nem sobretudo se tornar exclusivo e desembocar na negação dos demais. Se é verdade que é assim, e que consequentemente não se pode recusar nenhum destes pontos de vista, nem mesmo o mais secundário e contingente dentre eles, lugar que lhe pertence pelo simples fato de que responde a alguma possibilidade, não é menos evidente, por outro lado, que, a partir do ponto de vista metafisico, que é o único que nos interessa aqui, a consideração de um ser sob seu aspecto individual é necessariamente insuficiente, posto que quem diz metafísico diz universal. Nenhuma doutrina que se limita a consideração dos seres individuais poderia pois merecer o nome de metafísica, seja qual for o interesse e valor que possua em outros campos; uma tal outrina sempre pode ser chamada de ''física'', no sentido original desta palavra, posto que se restringe exclusivamente ao domínio da ''natureza'', quer dizer, ao domínio da manifestação, e todavia com a restrição de que considera não mais que a manifestação formal, ou inclusive mais especialmente a um dos estados que a constituem.

    Muito longe de ser uma unidade absoluta e completa em si mesmo, como desejavam a maioria dos filósofos ocidentais e os modernos sem exceção, o indivíduo não constitui na realidade mais do que uma unidade relativa e fragmentária. Não é um todo fechado e que basta a si mesmo, um ''sistema fechado'' à maneira da ''mônada'' de Leibnitz; e a noção de ''substância individual'', entendida nesse sentido, e a que estes filósofos dão em geral uma importância tão grande, não tem nenhum alcance propriamente metafísico; no fundo, não é outra coisa que a noção lógica do ''sujeito'', e, ainda que esse título possa ser de grande uso, não pode transportar-se legitimamente para mais além dos limites deste ponto de vista especial. O indivíduo, considerado inclusive em toda a extensão a que é suscetível, não é um ser total, senão somente um estado particular de manifestação de um ser, estado submetido a certas condições especiais e determinadas de existência, e que ocupa um certo lugar na série indefinida de estados do ser total. É a presença da forma entre estas condições de existência que caracteriza a um estado como individual; não é necessário dizer, além disso, que esta forma não deve ser concebida necessariamente como espacial, já que tal ocorre apenas no mundo corporal, em que o espaço é precisamente uma das condições que lhe definem propriamente [1].

    Devemos recordar aqui, pelo menos sumariamente, a distinção fundamental entre o ''Si mesmo'' e o ''eu'', ou da ''Personalidade'' e da ''individualidade'', sobre a qual já demos todas as explicações necessárias em uma outra parte. [2]. O ''Si mesmo'', temos dito, é o princípio transcendente e permanente do qual o ser manifestado, o ser humano por exemplo, não é mais do que uma modificação transitória e contingente, modificação que não poderia, por outra parte, afetar de nenhum modo ao Princípio. Imutável em sua natureza própria, [o Princípio] desenvolve suas possibilidade em todas as modalidades de realização, de número indefinido, que são para o ser total outros tantos estados diferentes, cada um deles com condições limitativas e determinantes, e dos quais apenas um constitui a porção ou antes a determinação particular deste ser que é o ''eu'' ou a individualidade humana. Além disso, este desenvolvimento não é um desenvolvimento a não ser na medida em que o encaremos a partir da manifestação, fora da qual tudo deve ser na perfeita simultaneidade do ''eterno presente''; e é por isso que a ''permanente atualidade'' do ''Si mesmo'' não é afetada por ele. O ''Si Mesmo'' é assim o princípio pelo qual existem, cada um em seu domínio próprio, que podemos chamar de grau da existência, todos os estados do ser; e isto se deve entender não somente dos estados manifestados, individuais como o estado humano ou supra-individuais, ou, em outros termos, formais ou informais, mas também, ainda que a palavra ''existir'' se torne então imprópria, dos estados não manifestados, que compreendem todas as possibilidades que, por sua natureza mesma, não são suscetíveis de nenhuma manifestação, ao mesmo tempo que as próprias possibilidades de manifestação em modo principial; mas este ''Si mesmo'' não é senão por si mesmo, posto que não tem e não pode ter, na unidade total e indivisível de sua natureza íntima, nenhum princípio que lhe seja exterior.

    Acabamos de dizer que a palavra ''existir'' não pode ser propriamente aploicado ao não manifestado, quer dizer, ao estado principial; com efeito, tomada em seu sentido estritamente etimológico (do latim ex-stare), esta palavra indica o ser dependente em relação a um princípio outro que ele mesmo, ou, em outros termos, àquele que não tem sua razão suficiente nele mesmo, ou seja, ao ser contingente, que é a mesma coisa que o ser manifestado [3]. Quando falamos da Existência, entenderemos pois a manifestação universal, como todos os estados ou graus que compreende, graus que podem ser designados igualmente como um ''mundo'', e que são em uma multiplicidade indefinida; mas este termo não conviria já ao grau do Ser Puro, princípio de toda a manifestação e ele mesmo não manifestado, nem, com maior razão, ao que está mais além do Ser mesmo. Podemos estabelecer em princípio, antes de todas as coisas, que a Existência, considerada universalmente segundo a definição que acabamos de lhe dar, é única em sua natureza íntima, como o Ser é uno em si mesmo, e o é em razão precisamente desta unidade, posto que a Existência Universal não é nada mais que a manifestação integral do Ser, ou, para falar mais exatamente, a realização, em modo manifestado, de todas as possibilidades que o Ser implica e contém principialmente em sua unidade mesma. Por outro lado, da mesma maneira que a unidade do Ser sobre a qual se funda, esta ''unicidade'' da Existência, se nos permitem usar aqui um termo que pode parecer um neologismo [4], não exclui tampouco a multiplicidade dos modos da manifestação ou não é afetada por eles, posto que compreende igualmente todos estes modos por razão mesmo de serem igualmente possíveis, implicando esta possibilidade que cada um deles deve realizar-se segundo as condições que lhe são próprias. Resulta disto que a Existência, em sua ''unicidade'', implica, como já indicamos, um número indefinido de graus, que correspondem a todos os modos da manifestação universal; e esta multiplicidade de graus da Existência implica correlativamente, para um ser qualquer considerado em sua totalidade, uma multiplicidade indefinida de estados possíveis, cada um deles devendo se realizar em um grau determinado da Existência.

    Esta multiplicidade dos estados do ser, que é uma verdade metafísica fundamental, é verdadeira já quando nos limitamos a considerar os estados de manifestação, como acabamos de aqui fazê-lo, e como devemos fazer quando se trata só da Existência; por conseguinte, é verdadeira a fortiori se consideramos de uma só vez os estados de manifestação e os estados de não manifestação, cujo conjunto constitui o ser total, considerado agora não somente no domínio da Existência, inclusive tomada em toda a integralidade de sua extensão, mas também no domínio ilimitado da Possibilidade Universal. Deve-se compreender bem, com efeito, que a Existência não encerra senão as possibilidades de manifestação, e todavia com a restrição de que estas possibilidades são concebidas apenas enquanto efetivamente se manifestam, posto que, enquanto não se manifestam, quer dizer, principialmente, estão no grau do Ser. Por conseguinte, a Existência está longe de ser toda a Possibilidade, concebida como verdadeiramente universal e total, fora e além de todas as limitações, compreendida inclusive esta primeira limitação que constitui a determinação mais primordial de todas, queremos dizer, a afirmação do Ser puro[5].Quando se trata dos estados de não manifestação de um ser, é mister todavia fazer uma distinção entre o grau do Ser e o que está mais além; neste último caso, é evidente que o termo ''ser'' mesmo já não pode aplicar-se rigorosamente em seu sentido próprio; mas, sem embargo, em razão da constituição mesma da linguagem, estamos obrigados a conservar-lhe na falta de outros mais adequado, não atribuindo-lhe então, não mais que um valor puramente analógico e simbólico, sem o qual nos resultaria inteiramente impossível falar de alguma maneira do que se trata. É assim que poderemos continuar falando do ser total como estando ao mesmo tempo manifestado em alguns de seus estados e não manifestados em outros, sem que isso implique de nenhum modo que, para estes últimos, devamos nos deter na consideração do grau que corresponde aquele que é propriamento o do Ser[6].

    Os estados de não manifestação são essencialmente supra-individuais, e, do mesmo modo que o ''Si mesmo'' principial de que não podem ser separados, tampouco poderiam ser individualizados de alguma maneira; quanto aos estados de manifestação, alguns são individuais, enquanto que outros são não individuais, diferença que corresponde, segundo o que temos indicado, à distinção da manifestação formal e da manifestação informal. Se consideramos em particular o caso do homem, sua individualidade atual, que constitui propriamente falando o estado humano, ele não é mais do que um estado de manifestação entre uma indefinidade de outros, que devem ser concebidos todos como igualmente possíveis, e, por isto mesmo, como existindo ao menos virtualmente, se não como efetivamente realizados para o ser que consideramos, sob um aspecto relativo e parcial, neste estado individual humano.

    [1] Ver El Hombre y su devenir según el Vêdânta, cap. II y X.

    [2] Ibid., cap. II.

    [3] Disto resulta que, falando rigorosamente, a expressão vulgar ''existência de Deus'' é um nonsense, seja quando se entende por ''Deus'' o Ser, tal como se faz habitualmente, seja, com maior razão, quando se refira ao Princípio Supremo que está mais além do Ser.

    [4] Este termos é o que nos permite traduzir o mais exatamente possível a expressão árabe equivalente Wahdatul-Wujûd. — Sobre a distinção que há de se fazer entre a ''unicidade'' da Existência, a ''unidade'' do Ser e a ''não-dualidade'' do Princípio Supremo, ver El Hombre y su devenir según el Vêdânta, capítulo VI.

    [5] Há de se destacar que os filósofos, para edificarem seus ''sistemas'', pretendem sempre, conscientemente ou não, impor algumas limitações à Possibilidade Universal, o que é contraditório, mas que é exigido pela constiutição mesma do sistema como tal; poderia ser bastante curioso fazer a hisótira das diferentes teorias filosóficas modernas, que são as que apresentam o caráter mais sistemático, colocando-se do ponto de vista das limitações supostas da Possibilidade Univeral.

    [6] Sobre o estado a que corresponde ao grau do Ser e o estado incondicionado que está mais além do Ser, ver El Hombre y su devenir según el Vêdânta, cap. XIV y XV.
     
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  2. Neoghoster Akira

    Neoghoster Akira Brandebuque

    Existe mesmo uma confusão lógica na cabeça da população no tratamento do "ser ou não ser". Eu tinha lido um texto uma vez sobre esse assunto que é muito interessante.

    Por exemplo, ao mesmo tempo em que a pedra existe como pedra ela exclui as outras existências podendo haver ao mesmo tempo existência e não existência (ação e não ação de acordo com o Tao). A pedra é uma pedra ao mesmo tempo em que não é uma poça de água.

    A partir da famosa pergunta de Shakespeare é possível formular quantas formas de ser podem haver ao mesmo tempo em que se não é.
     
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