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A Morte de Zina - Rubem Braga

Rodovalho

Usuário
A morte de Zina

Acordo no meio da noite. Meu quarto é outro.
A noite é outra. De repente me vem o sentimento
Agudo de que Zina vai morrer.
Minha irmã e minha madrinha - ela vai morrer

Devem ser esses gritos sobre os telhados e muros.
Todos os gatos estão em fúria de amor esta noite.
Gritam em espasmos desesperados. Gritam a noite inteira
Como crianças que estão sendo terrivelmente torturadas.

Mulheres em dores de parto.
A parede não está a minha direita, sim à esquerda.
Minha mulher ainda não existe, nem meu filho.
Meu quarto é outro. Eu sou outro.
Estou sobressaltado. Esses gritos de gatas
Subitamente me apunhalam, me desesperam, me ferem.
Olho no escuro. Olho fixamente a parede
De um quarto antigo. É 1929.
Sei que Zina vai morrer. No momento
Está gritando. Está no quarto de cima, gritando
De maneira lascinante. Dias e noites gritando.
O menino não nasce. Não pode nascer, não pode nascer.
Parece que os telhados, os muros, todo o morro,
Desde o pé de fruta-pão até os cajueiros
Estão coalhados de gatos em angústia de amor.
A esta hora Zina está no trem martirizante,
Que avança lerdo. Zina está gritando.


Todas as gatas do mundo estão miando em fúria de amor
Dolorosa, lamentosa, furiosamente.
É impossível distinguir os gritos terríveis de Zina
Desses gritos escandalosos de espasmos de cio.

Abro a janela. Vejo o carramanchão, os pés
De pinha, a escada de minha casa. Os gatos miam.
Salto pela janela. Jogo pedras no morro, nos telhados.
Lá em cima o quarto está aceso.
Estão médicos e pessoas da família
E Zina desesperada gritando.
Volto à cama. Os gatos miam.
Toda a noite miando. A noite inteira, inteira.
Zina grita desesperada de dor.
O menino não nasce. Durmo. Tenho 16 anos
E que forte coração! Meus olhos secos.
Meu coração duro. Durmo entre gritos de agonia.
Sei que Zina vai morrer.
Os médicos a levam para o Rio de Janeiro.
Eu penso. No Rio de Janeiro ela vai morrer.
Meus pais, meus irmãos, todos viajam com Zina.
Alguém precisa ficar, eu fico.
Tenho 16 anos. As duas casas desertas.
E a noite outra vez esse desespero dos gatos miando.

Passam dias. O menino nasceu.
Mas abro um telegrama com a morte de Zina.
Passo a noite num banco da estação esperando o trem.
Fumo. Chegam homens e mulheres.
Perguntam a que horas chega o especial. Não sei.
Esperam. Me abraçam.
Até um que é meu inimigo me aperta a mão
Porque Zina morreu.
Tenho os olhos secos. Estou forte e seco.
A um tempo forte, seco e vazio.
A noite inteira esperarei no banco da estação.
A vida inteira esperarei, insone, seco.
No banco da estação. As pessoas chegam, esperam,
Falam, me abraçam, olham o relógio, sussurram.
Me abraçam, dizem: "Meus pêsames".
Vão se embora. Chegam outros. Falam.

Quando Zina chegou morta, eu a vi.
Suas magras mãos estavam amarelas como velho marfim.
Amarelos de formol. Muito finas. Nunca
As mãos de Zina foram assim tão mãos de Zina.
Curvo-me. Olho detidamente as mãos.
Não beijo o rosto. Não beijo a testa
De Zina. Tenho o coração seco, o peito como travado,
Trancado, seco. Os olhos secos.
Muitos choram. Me abraçam.
Minha mãe. Meu pai calado. Os irmãos, as irmãs.
Acompanhamos o caixão de Zina. Pobre Zina.
"Me enterrem em Cachoeiro. Quero ficar em Cachoeiro
Se não ficar muito caro, e não dar muito incômodo.
Me enterrem em Cachoeiro. Não, é bobagem minha.
Me enterrem em qualquer lugar. Não chore, minha mãe".
Despediu-se do marido.
Chamou todos. Mandou lembranças pra mim.
Mandou a benção para mim. Era minha madrinha.
Aqui estamos enterrando Zina.
Zina está morta com 30 anos. O cemitério está cheio.
Estamos gravemente enterrando Zina. Mulheres soluçam.
Choram, são amparadas. "Carmozina,
Carmozina morreu." Me contam. Zina
disse: "Margarida, cuide de meu filho.
Olhe, não é preciso me enterrar em Cachoeiro."
Ouço, tenho os olhos secos.
Tenho o coração seco. Tenho 16 anos.
Sou seco. Gravemente enterramos Zina.

O caixão já está fechado e já desceu.
Começamos a jogar terra.
Então, chegou meu tio. É um homem grande
De botas e bigodes. Veio de longe, a cavalo.
Veio, de botas e bigode,
Porque lá no fundo do sítio
Soube que Zina morreu.
Quando chegou, o caixão já estava fechado,
E já descera. Íamos começando
A jogar terra. Ele chegou
Com a testa suada. Vinha de longe.
Não falou a ninguém. Calado,
Afastou as pessoas, empurrando
Devagar as mulheres em soluços.
Chegou à beira do túmulo de Zina.
Olhou. Meu tio olhava
Como se estivesse completamente
Sozinho. Não havia mais
Ninguém ali, a não ser
Ele - com sua cara de homem rude
E solitário - e o caixão de Zina.
Olhou calado. Nós paramos
De jogar terra, todos paramos.
De repente ele disse:
"Eu queria ver Carmozina.
Eu ainda queria ver Carmozina".
Sua voz era grossa e rouca.
Um soluço rebentou do seu peito.
Montou o cavalo, sumiu.

A casa de zina ficou fechada e sem ninguém morando.
Mamãe as vezes ia lá. Ia na sala de jantar.
Ia no quarto de Zina. Via os vestidos de Zina.
Ficava calada olhando as coisas de Zina.
Ia até a cozinha. Ia à sala de jantar.
Ia na varandinha onde ficavam as gaiolas de canários.
Descia a escada. Subia calada.
Voltava ao quarto de Zina.
Levava horas parada, olhando, no quarto de Zina.

Rezaram missas, puseram luto, choraram muito.
Nem rezei nem chorei.
Vieram pobres mulheres espíritas do Morro da Palha
E disseram a Mamãe: "A senhora
Pode falar com dona Carmozina."
Fizeram uma sessão no quarto de Zina.
Não fui. Só minha mãe e as mulheres.
Mamãe queria falar com Zina.
Quando ela saiu do quarto
Tinha a mesma cara silenciosa, triste.
As mulheres disseram que ela tinha falado com Zina.
Mamãe disse: "É."
Mas a mim disse: "Nada, meu filho,
Não sei não, eu não falei com minha filha.
Minha filha morreu. Quando estou sozinha
Na casa dela, fico na sala de jantar, eu penso
Que Zina está no quarto. Às vezez eu penso que ela
Vai à cozinha. Passa com aquele xalé.
Eu não vejo. Mas acho que ela passa.
Fico mexendo nas coisas de Zina, nas coisas de Zina.
Zina morreu."

Meu pai é que nunca voltou à casa da filha.
Somente de nossa casa
Olhava as janelas fechadas da casa da filha.
Pouco falava de Zina. Até morrer.
Meu pai, nunca mais ninguém meu pai achar graça
Em nada. Primeiro ficou sem trabalhar.
Depois trabalhava com uma fúria seca.
Um vazio feroz.
Ficou doente, foi no Rio se operar.
Voltou, morreu.
Todos estavam juntos em volta dele.
Só eu estava no rio. Quando cheguei
Na estação, cansado da longa viagem,
Meu primo disse: "Ele morreu."
Cheguei em casa. Quando entrei no quarto grande
Ali estavam muitas mulheres em volta do corpo de meu pai.
Estavam caladas. Quando me viram, subitamente
Romperam em soluços e gritos.
Eu disse: "Quero tomar um banho."
Minha mãe estava num canto chorando.
Exatamente jogada num canto chorando, chorando.
Depois a gente falava uma coisa ela dizia: "É."
E ia fugindo pra dentro do quarto, lá ficava chorando.

Depois viajei. Tenho tido
A comum vida de um homem.
Sou pouco dos meus. Muito de muita gente.
Às vezes secretamente solitário
Como toda gente.
Necessito amargamente de pessoas que me amem.
Por isso eu digo: Sou rico.
Tenho desperdiçado muita coisa.
Mas vida não. Vivo com uma certa
Alegre ferocidade. Vou andando.
Tive momento em que fui
Sufocado pela beleza e paixão
Da vida. Tive aflições
Duras. Remorso. Medo. Penúria. Tenho vivido.
Sou um homem. Vivi
Coisas humilhantes, sem perder o orgulho.
Mas sou de natural humilde dentro de mim.
É fácil me ferir. Mas eu pelejo,
Ainda ferido. Eu luto.
Nos momentos piores senti dentro do peito
Alguma coisa dura.
Era talvez a não chorada morte de Zina.
A morte cruel de Zina
Trancada no meu peito.
Dura e pura como um diamante
Ardendo dentro de si mesmo, fechado
dentro do peito.

A morte de Zina foi muito ruim.
Ela não merecia ter morrido assim.
Zina nunca devia ter morrido assim.
Tinha 30 anos. Veja, Zina, é engraçado.
Estou mais velho que você.
Imagino que ela aparece. Apresento:
"Essa é minha mulher, este é meu filho.
Está é Zina."
Zina olha os dois. Diz, ao menino:
"Vai apanhar um pente, eu quero
Te pentear." E a minha mulher:
"Olha, se você quiser, fica com esse cinto.
Acho que fica bem com esse vestido seu."

Lembro de Zina. É magra.
Nem bonita nem feia.
Tem uma graça meio triste.
Vejo seu penteado antigo, amigo.
Seu jeito. Era minha madrinha
Mas não fazia questão de benção.
Dizia: "Oua!, esse meu irmão."
Me olhava com ansiedade.
Nos seus olhos sérios havia
Um límpido carinho.

Não tenho em casa nenhum retrato de Zina.
Devia ter. Mas essas coisas sempre
Eu vou deixando. Não faz mal.
Talvez mesmo tenha algum retrato.
Tenho coisas demais em minha casa.
Distraidamente juntamos coisas.
Muitas são arbitrárias.
Vão pesando sobre a vida.
Sem razão
Um incêndio
Seria salutar.
Eu iria para o outro lado da rua
Com minha mulher e meu filho
E veria tudo queimar. E diria:
"Bem. Tudo queimou.
Vamos até o café."
E minha mulher diria:
"Vamos."

Quase adormeço. Faz calor. Creio que dormi.
Súbito
Desperto outra vez apunhalado, de gritos, tremendo.
Os gatos miam. Gritam, uivam.
Outra vez, escandalosamente, cruéis.
Batem janelas. Sopra o noroeste
Ardente, desigual. Miam
Esses gatos torturados
De amor.

Sou um homem sensível, fraco. Qualquer coisa
Me atinge. Os ventos do sul me fazem triste,
O noroeste me enche o peito,
O terral na madrugada me abençoa. Este vento
Me faz inquieto e feroz.
Os gatos se amam, nesta noite de noroeste.
Seus espasmos são mais agudos.
Estão dolorosamente excitados
e me arrebentam os nervos.

São os gritos de Zina
No desespero.
Nada posso fazer - só ouví-la gritar.
Tenho 33 anos. Levei trompaços.
Agüentei. Mas sou fraco.
A dor atroz de Zina que vai morrer
Me exaspera.
Tenho raiva. Tremo de raiva da injustiça.
Zina, não grite mais. São gatos! Zina!
Sairei com minha espingarda.
Matarei todos os gatos
Pelos telhados da cidade, ridículo, feroz.
Caçarei todos os gatos, um a um, esta noite.

A garganta seca. Desabo
Sobre a mesa. Choro
Como um menino
No quarto.
A água me enche os olhos
Me banha a cara. É um alívio.
Vou dormir. Essas lágrimas
São uma benção de Zina. Adormeço.
Ela está no quarto.
Não grávida. Magra, séria, triste
Olhando o seu irmão.

Rio, 1946
 

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