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A moça estranha

Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por Excluído046, 7 Jan 2011.

  1. Excluído046

    Excluído046 Banned

    [align=justify]Eu é que não vou provar, nem desaprovar. Era muito estranha aquela moça, minha senhora. Ela vinha não sei de lá aonde se vai e termina mundão que Deus fez. Veio toda cara fechada pra cima de mim. Disse que queria conversar. E vinha dois dias por semana. Ou a semana toda, não sei bem. Sei que ela chegava falando que queria conversar. Mas até onde eu sei, pra conversar tem que falar, não tem, dona? Só eu falava, quase o tempo todo. Ela me interrompia, algumas vezes, para fazer alguma pergunta. Eu ficava muito tempo respondendo, e quando terminava, ela dizia que já era hora de ir embora.

    Certo dia ela começou a falar desembestada. Arrumou uma explicação, que deve de ter vindo dos livros que ela sempre carregava na bolsa, para eu não gostar de leite e de queijo. Eu não fico bisbilhotando bolsa de ninguém, não, senhora. Minha mãe me ensinou a não olhar as coisas dos outros. Eu sei dos livros porque ela tirava eles de dentro da bolsa. Tinha hora que tirava com pressa, do mesmo jeito que as parteiras tiravam os meninos da barriga das mulheres lá de perto da minha casa. Eu não via o parto, moça direita não vê essas coisas, mas os meninos dos outros trabalhadores viam, e me contavam como é que era.

    Eu lembro direitinho o que ela falou. Sou boa com as lembranças. Na escola, as professoras diziam que eu tinha memória boa, que devia estudar Matemática. Mas eu parei de ir lá, minha mãe disse que eu tinha que cuidar das coisas da casa. Disse que eu era importante, era uma aprendiz de dona de casa. Mas eu fiquei é com muito gosto de ouvir isso. Eu gostava de ir na escola, mas lá eu não aprendia a ser dona de casa. E minha mãe disse que uma mulher tinha que saber cuidar de tudo, tudinho, da casa. Meu pai falava que eu tinha que estudar, que filha dele era inteligente e que todo mundo ia ficar se enchendo de orgulho de mim. Mas minha mãe dizia que não estava dando conta do serviço de casa. Dizia tanto que convenceu meu pai a não me deixar mais ir para a escola, e acabei por ficar em casa ajudando ela.

    A moça começou a perguntar do que eu gostava e do que não gostava. Ela ficou assustada, e me fez parar de falar, quando eu disse que não gostava de leite e que não gostava queijo. Mas como é que uma moça criada no interior não gosta de leite e queijo? Eu não gosto de leite, o leite puro. Eu gosto dele com aquele pó de chocolate, gosto dele batido com banana, mas ele puro não desce. Me dá até arrepios de pavor de ter de tomar leite puro. E o queijo me desce azedo, azedo por demais. Mais azedo do que o jiló é amargo. Não gosto de coisas amargas, não, minha senhora.

    Eu que me gabava da minha memória, fiquei até admirada com a memória da moça. Ela começou a falar de coisas que eu tinha dito há muito tempo pra ela. Parei de mamar bem cedo. Mamar no peito. Minha mãe estava de resguardo, eu tinha menos de um mês de nascida, meu pai emburrou com minha mãe, bateu a porta do quarto na cara dela. Naquela madrugada, eu bebi água com açúcar, na mamadeira que minha madrinha daqui da cidade tinha levado para mim. Muito boa era a senhora minha madrinha. Que Deus a tenha em um santo lugar. Ela levava iogurte no potinho para mim, sempre que ia lá na minha casa. Levava aquela manteiga amarelinha, que não era igual a manteiga da roça. Manteiga era boa, eu passava nas roscas que mamãe fazia, e comia com café. Às vezes eu clareava o café com um pouco de leite, mas eu não sentia o gosto do leite, aquele gosto puro, aquele gosto ruim.

    A moça começou a falar umas coisas que me confundiam. Ela disse que eu não bebia leite porque eu queria muito o leite, e ele tinha sido tirado de mim. E aí, ela disse que eu não comia queijo, porque o queijo me lembrava o leite, que era branco igual’ele. Mas disse que eu gostava muito de iogurte que minha madrinha levava para mim. Eu até juntava os potinhos, até mamãe os ver e jogar fora brigando comigo porque lixo tem de ir pro lixo, e dona de casa que acumula lixo em casa é abandonada pelo marido, que procura outras mulheres na rua. A estranha moça dizia que eu gostava do iogurte porque era o leite idealizado, existe essa palavra, minha senhora? Pensei que eu tivesse esquecido a palavra, então está certo, idealizado. O leite que era dado para mim, como se jorrasse do lugar de criança chupar, no colo da mãe. Não falo essa palavra. Todo mundo sabe onde tem leite na mãe. A senhora bem sabe. Aquele iogurte rosa, cremoso, me descia deslizando feito chinelo deslizando na lama em dia de muita chuva na roça pela garganta.

    Ela foi embora. Voltou mais duas vezes, depois do dia que disse por que eu não gostava de leite e queijo. Perguntou o quê eu tinha pra falar com ela sobre os últimos dias, e eu disse que não queria falar, eu queria, queria falar que tinha comido uma pizza gostosa por demais, quando minha tia me trouxe para visitar a cidade. E a pizza era de queijo. Minha tia disse que era de quatro queijos, eu não falei nada, minha tia estava começando a variar da cabeça, onde já se viu, existe um queijo só. O amargo do queijo nem era tão ruim. Era só misturar ele com uma massa, que dava para descer.

    Ela disse que também não ia falar. Olhava para mim, eu olhava para o chão, não sabia se tinha que falar. Ela me trouxe iogurte. E não voltou mais. Disseram que ela estava fazendo uma pesquisa, para ser doutora. Nunca vi doutora que não anda de branco e que não receita remédio. Ela era uma moça estranha mesmo. Doutora estranha. Ela nunca voltou para me dizer como é que eu consertava aquele defeito de não gostar de leite e de queijo. Para que estudar, estudar, estudar e não ensinar? Mas ela não era professora, era doutora. A senhora é professora? Se for, pode me ensinar a gostar de leite e de queijo?[/align]
     
  2. Rodovalho

    Rodovalho Usuário

    Talvez a doutora sofra do mesmo mal que acomete os produtores de documentários em favelas e afins. Sobem no morro, fazem as filmagens e vazam sem deixar nenhuma contribuição.

    Nossas escolas não fazem boas donas de casa. Boas donas de casa são aquelas que não têm medo de serem abandonadas pelos maridos.

    E os acadêmicos têm o mal dos alquimistas. Não compreendem o que julgam saber, e complicam ainda mais para ninguém entender. Desaprendem por desistência.

    Ok, a doutora tinha boas intenções. Mas essa muié aí que ela foi ajudar é muito cabeça dura!
     
  3. Excluído046

    Excluído046 Banned

    Perfeito. :sim:

    :rofl: :rofl: :rofl:
     
  4. Rachel

    Rachel Usuário

    Para mim essa doutora tá mais p psicóloga que p médica, ela fica analizando a mulher o tempo todo !
     
  5. Excluído046

    Excluído046 Banned

    Ela não pode ser uma psicóloga que está fazendo seu Doutorado? XD
     
  6. Vinnie

    Vinnie Usuário

    Entendi que ela deu alta à moça depois da história da "pizza de quatro queijos".


    Curti muito a narrativa da mulher simples... muito bem feita.


    Manda mais. :lily:
     
  7. _Paulinha

    _Paulinha Usuário

    Adorei Valentina!! Parabéns
    Mas ela chegou a contar que comeu a pizza? Ela não queria falar...
    Entendi que a doutora era terapeuta dela em algum tipo de estágio e foi substituída por essa nova "a professora" porque foi continuar os estudos. Só terapeuta/psicólogo para desenvolver um trabalho assim, com base na conversa e na explicação de sentimentos antigos, profundos e escondidos.
    Achei lindinho o gesto da doutora de levar um yogurte para ela na despedida - o yogurte era a mais doce lembrança que ela tinha da infância...
    Fiquei com muito dó dela quando a mãe resolveu que ela não deveria estudar para se tornar dona de casa e a fez acreditar que aquilo era a única coisa digna a ser feita por ela. E ela aceitou como uma verdade absoluta...
    Eu tb já devo ter aceitado muitas coisas como dogmas, sem questionar e sem refletir sobre elas - pensar nisso me enlouquece...
     
  8. Vinnie

    Vinnie Usuário

    Podescrer... ela não chegou a falar... o supletivo aqui não tinha se ligado nessa, Paulinha.:hahano:
     
  9. Excluído046

    Excluído046 Banned

    É tão gostoso ler comentários sobre um texto nosso. A cada interpretação proposta, o texto ganha outras cores, outra forma. Eu não sou partidária do "o autor quis dizer isso", eu prefeiro o "talvez, ele quisesse dizer isso, mas o texto DISSE isso". Acho que o texto merece uma certa autonomia.

    Gostei dos questionamentos seus, Vinnie e Paulinha, sobre ela ter, efetivamente, falado ou não se comeu a pizza. A narradora diz que queria falar, mas não diz se fala. Entretanto, talvez com o seu humilde 'existe um queijo só', ela estivesse assumindo que o leite não deixava de ser leite porque estava com achocolatado. Talvez ela tivesse conseguindo racionalizar certas coisas. E, agora, como leitora (não sou mais autora do texto, quando coloquei o ponto final, o texto se livrou de mim), eu proponho uma leitura: e se a moça pensa que não falou sobre a pizza e, na realidade, falou? Isso justificaria a leitura do Vinnie de ela ter sido liberada da terapia.

    Essa angústia não é só sua, Paulinha. Muitas vezes, reproduzimos hábitos, discursos, sem ao menos saber, essencialmente, do que se trata. Se pensarmos nisso, acabamos enlouquecendo. Então, vamos de Clarice: "pensar é um ato, sentir é um fato". Sentimos a necessidade de mudança, sentimos a necessidade de viver em outra perspectiva. E viver, "viver ultrapassa todo o entendimento". A verdade é que "a gente só sabe bem aquilo que não entende."
     
  10. Vinnie

    Vinnie Usuário


    Ha! ha! Um supletivo não tão supletivo assim!!! :rofl:


    Vlw.
     
  11. _Paulinha

    _Paulinha Usuário

    Aê Vinnie, smartão, pegou de primeira, hein?!
    Ficou muito profundo esse conto. Muito bom.
    Valentina, manda mais que faremos um clube só com os seus...uhuhu!!
    Kss.
     
  12. carlo jorge

    carlo jorge Usuário

    OLÁ!
    Boa narrativa de conceitos que pregam a nossa vida, dogmas, preconceitos, acertos e desacertos, o que desejam que façamos e o que querem que sejam nosssas vida.
    Parabens!
     

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