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a máquina de fazer espanhóis (valter hugo mãe)

Tópico em 'Literatura Estrangeira' iniciado por Anica, 28 Jun 2011.

  1. Anica

    Anica Usuário

    Você já se apaixonou à primeira página? Comigo isso não acontece muito frequentemente, sou chata e preciso lá de umas 20 páginas para esse tipo de coisa. Mas eis que tinha em mãos a máquina de fazer espanhóis do português valter hugo mãe (é gente, é tudo assim em minúsculas mesmo), e aconteceu. Lendo as primeiras frases, fui completamente tragada pela correnteza de seus longos parágrafos, com o coração até batendo mais forte ao passar em alguns períodos (e isso não é figura de linguagem). “Há alguém por aí que pensa algumas coisas que eu também penso, mas consegue colocar em palavras com uma genialidade sem igual”, passa por minha cabeça enquanto vou virando as páginas. Pronto, me apaixonei.

    Já tinha ouvido falar em valter hugo mãe, apontado como um dos grandes nomes da literatura portuguesa do momento. Mas eu realmente não fazia ideia de que sua prosa teria tanta força, tanto esteticamente quando do ponto de vista dos temas que aborda (e como o faz). A comparação com José Saramago (outro lusitano) é inevitável, mas há de se fazê-la considerando como algo positivo. Não trata-se de autor sem talento querendo copiar um grande mestre. valter hugo mãe tem influência clara, mas estilo próprio.

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  2. Gigio

    Gigio Usuário

    Nossa, Anica, essa resenha realmente foi especial, se apaixonou mesmo... :sim:

    Já tinha ficado super interessado e agora acho que vou aproveitar que o mãe vem para o lançamento na Cultura e ainda pegar um autógrafo! XD

    (Segunda-feira, 11 de julho, às 21 horas, no Conjunto Nacional)
     
  3. Anica

    Anica Usuário

    foi uma surpresa muito boa mesmo, gigio. eu não sei se vc já leu algo dele, mas caso não conheça, recomendo sem medo pq é um livro apaixonante. :sim:
     
  4. Gigio

    Gigio Usuário

    Até difícil comentar alguma coisa depois dessa resenha... :dente: Gostei muito do livro, isso é verdade. Mas acho que gostaria de qualquer coisa que o Valter Hugo Mãe escrevesse, com esse seu jeito de empregar as palavras de uma maneira inovadora, sedutora. Não tenho o livro aqui comigo para citar algo, mas lembro por exemplo de uma situação em que um dos velhinhos, o Sr. Pereira, percebe que teve uma incontinência noturna -- olha, que coisa difícil de tratar --, e o Mãe consegue ir contando isso e mostrando o que está envolvido aí de vergonha, de frustração com o próprio corpo que não se comanda, com a idade, mas ao mesmo tempo de forma carinhosa, como se a gente quisesse dizer "calma, Sr. Pereira, essas coisas são assim mesmo". Isso é que lembra bem o Saramago.

    Quanto ao enredo do livro em si, fico meio na dúvida. É um tema muito triste, esse do asilo, que foi bom ele ter escrito agora, com 40 anos, porque acho que ninguém conseguiria lá pelos 80... É algo que anda sempre entre a busca por um momento mais de vida, no que ela possa ainda ensinar, e a futilidade tão óbvia disso frente à morte. Não sei, o Mãe é também brilhante em não buscar saídas fáceis, mas queria vê-lo em algo que tivesse um motivo, não sei como dizer, mais longe desse limite...

    Não são dois os capítulos assim, Anica, com maiúsculas? Entendi que eram momentos que não dependiam da subjetividade do protagonista. Pode ver que são capítulos em que ele não aparece...
     
  5. Pips

    Pips Old School.

    Só para fazer invejinha que o valter hugo autografou o livro e ainda citou o meia palavra na dedicatória.
     
  6. Gigio

    Gigio Usuário

    Que feio... Eu também tenho e nem falei nada... :lol:

    Ué, Pips, você tava na fila então? Eu era praticamente o último, saí de lá quase 22h...
     
  7. Pips

    Pips Old School.

    Sai de lá umas 21:30
     
  8. DenyYourMaker

    DenyYourMaker Usuário

    walter hugo mãe: http://www.youtube.com/watch?v=YrRE359cVy8
     
  9. Anica

    Anica Usuário

    não tinha visto o post ^^

    então, sobre isso um leitor do skoob postou isso aqui nos comentários da minha resenha, achei bem legal:

     
  10. DenyYourMaker

    DenyYourMaker Usuário

    o desserviço de e. e. cummings.
     
    • Gostei! Gostei! x 1
  11. Calib

    Calib Visitante

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    | De 17 a 23 de junho de 2011
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    (Cosac Naify, 256 páginas, 39 reais) Com belíssima capa ilustrada pelo cartunista Lourenço Mutarelli, chega ao Brasil o último romance de Valter Hugo Mãe, angolano de 40 anos que se radicou em Portugal e é apontado como uma das maiores fontes de vitalidade das letras lusitanas hoje. A partir do ocaso de António Jorge da Silva, barbeiro de 84 anos que é depositado em um asilo depois de perder a mulher, Mãe analisa a decadência de um país. As lembranças do narrador, o próprio Silva, são de um imenso Portugal, robusto e potente, diferente da frágil economia que ele se tornou sob o chapéu da União Europeia. O título do livro é metáfora desse novo país, que injeta em seus habitantes um sentimento de inferioridade diante da sempre rival Espanha e o desejo de migrar para lá. Vale a pena atentar para o estilo bastante particular de Mãe, que escreve em caixa baixa e subverte a pontuação, do que resulta uma prosa bastante orgânica.


    Resenha – a máquina de fazer espanhóis – valter hugo mãe
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    Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

    há bastante tempo desejava ler este livro. fã que sou da cosac naify, a máquina de fazer espanhóis é um dos trabalhos gráficos mais belos da editora. lembro de ter lido, quando pesquisei sobre valter hugo mãe, que josé saramago derramara-se em elogios sobre o escritor angolano. quando vi que ele não só escrevia seu nome em minúsculas, como também escrevera todo este romance sem uma letra maiúscula sequer, não pude deixar de achar algo presunçoso, um desejo exagerado de ser diferente, ao menos na forma.

    fui deixando a compra do livro para depois e esperei até meu aniversário, na última semana. minha querida esposa, andréa, me deu não um, mas dois livros de valter hugo mãe. comecei por este, e adianto que achei… esperem! é melhor eu falar a minha opinião no final, correto? vamos tentar manter um pouquinho de suspense, para variar só um pouco.

    a priori, a máquina de fazer espanhóis conta a história de um silva, antonio jorge da silva, um barbeiro de 84 anos que perde a sua esposa, por quem ainda nutria um intenso e tocante amor. ele tem dois filhos, um dos quais considera deserdado, morto, por não ter vindo da grécia para o enterro da mãe. a outra filha, casada e com seus próprios filhos, decide colocar seu pai num asilo. ele a odeia de todas as formas por isso. odeia o mundo, odeia tudo por causa disso. odeia porque sua esposa morreu e sente falta dela. odeia porque sentiu-se traído pela filha. de início, decide transferir seu ódio para aquele asilo e todos que nele residem. mas as amizades acabam aparecendo, e ele descobre, para seu grande espanto, que o esteves sem metafísica vive naquele asilo.

    aqui é bem conveniente fazer uma pausa. sou um completo ignorante quando o assunto é poesia. conheço o nome de fernando pessoa, mas não lembro de ter ouvido falar de tabacaria, que é considerada a sua grande realização poética. a máquina de fazer espanhóis dialoga muito com este poema. o esteves sem metafísica é um personagem citado no poema, um jovem a quem nada que não fosse o simples da vida importava – ao menos a partir da ótica que o poeta português tinha dele.

    fiz a pausa porque eu também a fiz enquanto lia o livro. meio a contragosto fui conferir o poema e não pude acreditar no que li. tabacaria é isso mesmo. inacreditável. as suas linhas são a prova do gênio humano. reli. e reli.

    o poema começa assim:

    o que dizer disso?

    em determinado momento, o poeta filosofa:

    (para o poema na íntegra – leia somente depois de terminar de ler esta resenha!!!!!!! – acesse
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    )

    não é de se estranhar que os habitantes do asilo sintam-se sortudos de terem ao seu lado uma figura tão emblemática da poesia portuguesa. esteves, o jovem que o poeta via, da sua janela, ir todos os dias à tabacaria, a antítese de fernando pessoa, um homem sem metafísica, sem preocupações transcendentais.

    essa ausência de metafísica é um dos temas fortes do livro, que analisa, por meio da decadência daqueles velhos, partes fundamentais da história recente de portugal, em especial a ditadura de salazar. é um livro político? o silva, o protagonista, nunca quis falar de política, passou a vida se esquivando de discussões desse tipo. queria ficar ao lado de sua esposa, zelava pela segurança dela e de sua família. era, à sua maneira, um homem também sem metafísica.

    ele não acredita em deus e não consegue entender como alguém pode crer no divino.


    em meio à revolta, ao ódio, à ausência de deus e de metafísica, o velho redescobre alguns valores. revisita a sua história e, num ritmo lento, próprio da velhice, aprende coisas novas, o que ele julgava impossível.

    a passagem a seguir ilustra a força da prosa de valter hugo mãe. vemos um silva no auge da sua revolta, quando lhe informam que ele irá ao asilo, ainda amargando a dor da morte da sua amada esposa:


    apesar de parecer um livro sobre o ódio ou o remorso, este é um livro sobre o amor. sobre um homem de 84 anos que estava perdidamente apaixonado pela sua esposa, mesmo depois de cinquenta anos de casado. um homem profundamente magoado com sua filha, mas que dá um pequeno passo rumo ao perdão, descrito de uma maneira simplesmente genial:


    não sei se a história de um velho rancoroso rumo à senilidade parece imediatamente interessante. o autor, contudo, é como um mágico, e empresta tanta vida aos personagens que é como se fossem nossos parentes, como se nós mesmos os tivéssemos encerrado naquele lugar. ao mesmo tempo em que investe nos personagens, valter hugo mãe conta uma história repleta de “aventuras”, que envolve desde memórias a respeito de um jogador de futebol lendário, passando por assombrações e chegando a suspeitas de assassinato.

    este romance da terceira idade (ou quarta, como alguém no próprio livro diz) lembrou-me diversas vezes do genial amor, de michael haneke. ambos tratam da velhice, ambos falam de um amor indiscutivelmente verdadeiro.

    chega de falar. é hora de dar a minha opinião.

    valter hugo mãe pode ter-me parecido presunçoso ao escrever todo um livro – e seu próprio nome – em minúsculas. vocês perceberam que fiz o mesmo, uma espécie de reparação ao meu tolo preconceito. a máquina de fazer espanhóis é literatura de alta qualidade sob qualquer ângulo. é um livro sobre amor, velhice, poesia, metafísica, política e sobre a própria literatura. é rico. não tenho dúvidas de que não explorei toda a riqueza do livro, mas o que consegui captar foi suficiente para convencer-me do talento deste escritor português.

    leiam a máquina de fazer espanhóis. é um direito seu usufruir do melhor que a literatura pode entregar.

    para não encerrar com as minhas palavras, o silva teme pela saúde da sua esposa, quando a leva ao hospital. nega-se a deixá-la passar a noite sozinha. um empregado do hospital insiste que ela não estaria sozinha:


    Minha Avaliação:
    5 estrelas em 5
     

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