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A irmã muda

Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por Haleth, 19 Nov 2010.

  1. Haleth

    Haleth There's no such a thing as a mere mortal

    [align=center](Esse texto, originalmente, pertence ao desafio "Quanto vale uma imagem". Só que eu meio-que-gostei dele, mas não tenho certeza se ele foi bem escrito, se o final ficou claro, embora a intenção não fosse deixá-lo evidente. Coloquei-o aqui porque queria a opinião de vocês. Mesmo. Se puderem comentar, agradeceria profundamente!)[/align]

    -----------------------------------------


    O portão de casa já ganhava cores alaranjadas em sua superfície, e começava a soltar lascas na mão de quem o tocasse. Débora não reparou nisso até aquele dia, quando ao abri-lo, a falta de óleo nas juntas fez da fricção do metal um som estridente, que arranhou os ouvidos e arrepiou os ossos. Largou o portão e levou a mão às orelhas, para se recompor, e então viu a ferrugem nas dobras de suas palmas. Limpou-se na blusa e foi caminhando esfomeada em direção à varanda. O portão continuou aberto.

    O cheiro de comida que sempre a aguardava na volta da escola pairava no ar, mas dessa vez, empestado de fumaça. Em um tom bem humorado, começou a falar alto desde a sala, para que sua voz a precedesse na cozinha.

    - Não acredito que a mãe deixou a comida queimar. Não tem vergonha disso, dona Raquel?

    Chegando à cozinha, parou de súbito à porta. Fora surpreendida pela cena que a aguardava.

    - Gente, o que é isso? O que está acontecendo?

    Silêncio. A mãe pôs uma mecha de cabelo atrás da orelha.

    - Ei, vocês estão me ouvindo? Que caras são essas? Onde está o meu irmão?

    Novamente, só o eco de suas palavras respondeu.

    - Pai, diz alguma coisa! Vocês estão me deixando angustiada!
    - O José está na fábrica, ainda não chegou. Está tudo bem, filha.
    - Como pode dizer que está tudo bem? Vocês já se olharam? A mãe até queimou a comida... O que está acontecendo? Digam, por favor!

    Os pais, que até então mantinham os olhos baixos, vagarosamente dirigiam o olhar para Débora, mas já sabiam o que encontrariam em seu no rosto. Entretanto, no demorado trajeto de suas vistas, o mover de uma cadeira vazia deu alguma vivacidade a seus movimentos. Débora também olhou rapidamente para a cadeira, franzindo as sobrancelhas. Qual não foi a surpresa dos pais ao ver Ana ali, embaixo do assento, encolhida, com os olhos muito abertos e nenhuma expressão no rosto.

    - Meu Deus, Ana, há quanto tempo você está aí? Será que ela ouviu nossa conversa, Daniel?
    - Que conversa, mãe? De que vocês estão falando? Pai, me diz alguma coisa!! - Débora começava a sentir desespero, uma certa histeria já dominava o tom de sua voz.
    - Filha, controle-se, não grite. Vai assustar a Ana.
    - Ela é surda, pai!! Ela não ouviu conversa nenhuma, ela não escuta meus gritos, ela não entende nada, é só uma criança!!! Pelo amor de Deus, alguém me diz alguma coisa?!?!

    Nesse ponto, a súplica se tinha convertido em choro contido. Débora começava a tremer. Mais uma vez, o silêncio.

    - Daniel, fala pra ela de uma vez - foi a voz serena e quase sussurrada da mãe que rompeu a tensão do ambiente. Ana tinha os olhos ainda mais abertos.

    O pai tirou a mão da testa, escorregando-a pelos olhos, descendo pelo nariz, encostando à boca, deslizando pela barba, até parar no pescoço, como se estivesse ele mesmo se degolando. Mas não punha força nas mãos porque não a tinha. Uma extrema fraqueza se apoderara de Daniel, e seus olhos vazios denunciavam isso. Ana mexeu-se silenciosamente debaixo da cadeira.

    - Pai, por favor...

    Débora tinha todos os músculos contraídos. O tremor já havia passado, mas a vibração incontrolável permanecia por dentro, lá no estômago, talvez.

    - Débora - suspirou o pai, procurando as palavras no olhar perdido. - Vamos ter que fazer o que mais temíamos.
    - Mas o quê, pai? A gente teme tanta coisa... Por favor, diga logo. Já tenho 17 anos, posso suportar. Por favor...

    Daniel desfalecia cada vez mais. Tornara-se pálido. A mãe praticamente não estava ali, escutava a conversa sem nada ouvir, seus pensamentos estavam mudos, mais mudos que a própria Ana. A diferença era que Ana não falava porque não conseguia imitar os sons que jamais havia ouvido; a mãe não falava porque não conseguia reproduzir as respostas que desconhecia. Talvez fosse melhor assim.

    Foi então que Ana, num movimento brusco, saiu de baixo da cadeira, derrubando-a com muito estardalhaço. Colocou-se no meio da cozinha, mexia a boca e produzia sons guturais, contorcia-se, numa tentativa infértil de dizer à irmã o que se passava. O pai desviou o rosto, envergonhado. A mãe fechou os olhos, não queria sofrer ainda mais. Débora chorava descontroladamente, atônita.

    Devido ao fracasso em tentar explicar à irmã o que se passava, Ana tomou Débora pela mão, puxou-a com toda a força em direção ao quintal. A moça não apresentava resistência.

    A pequena, em seus passos curtos e firmes, caminhava sem uma direção clara, angustiando ainda mais a irmã, que a essa altura pensava que Ana estivesse com alguma crise nervosa. Um rádio foi ligado dentro de casa, e pouco depois, sem muita certeza, Ana parou, quase no limite da cerca do quintal. Soltou a mão de Débora, e com muita calma, ajoelhou-se na grama. Suas mãos delicadas e infantis iam ao encontro de um dente de leão, que com muito cuidado, arrancaram aquela flor felpuda do talo.

    Débora secava as lágrimas. Já não chorava, apenas soluçava, observando intrigada a ação da irmã mais nova. Com olhos penetrantes, Ana pôs-se de pé e encarou Débora, colocando diante de si aquele dente de leão. Suas unhas estavam brancas, de tanta pressão que usava para segurar a planta entre os dedos. Esperou que o soluço de Débora passasse, sem desviar nem abrandar os olhos.

    Ao sentir que a irmã estava pronta para receber a notícia, soprou suavemente o dente de leão. Mas só Débora pôde ouvir, lá de dentro de casa, o rádio anunciar entre ruídos que Hitler acabara de cruzar a fronteira.
     
  2. Rodovalho

    Rodovalho Usuário

    Primeiro pensei na morte do irmão. Depois pensei no divórcio dos pais. Mas uma invasão nazista?! Nem tinha passado pela minha cabeça. Os nomes são muito brasileiros. A não ser que os nazistas tivessem vencido e estivessem invadindo o Brasil, o que seria uma grande viagem.

    Eu gosto de dentes-de-leão. E de marias-fecha-a-porta. Dengosas? Aquelas plantinhas que quando tocadas se encolhem. São plantas muito frágeis. Um simples sopro. Um simples toque.

    A resposta da mãe poderia ser apenas repetir as notícias que ela nunca tinha pronunciado antes. Quase catatônica.

    Qual era a imagem?
     
  3. abylos

    abylos Usuário Usuário Premium

    amei a forma como voce descreve a sagacidade da menina surda ao explicar como ela enxergava o que tinha acontecido ^^

    acho que essa é a melhor parte do texto...
     
  4. Liv

    Liv Visitante

    Aaah! Minha afilhada :grinlove: uma escritora linda :amor:
     
  5. Haleth

    Haleth There's no such a thing as a mere mortal

    Tenho uma pergunta... em verde

    Pois é... Eu usei nomes judeus que aparecem no Velho Testamento da Bíblia em português. Na Bíblia protestante, os nomes são meio abrasileirados mesmo, tipo Davi (em vez de David), Jó (Job), Jacó (Jacob)... Pra mim soou natural, porque é assim que estou familiarizada a pensar nomes hebraicos. Mas depois que vc falou isso, percebi que a grafia dos nomes faria muita diferença. Ajudaria a situar melhor a história - que, admito, carece de localização tempo-espacial. Deixei quem lê muito às cegas. Acho que ninguém ia imaginar que a história se passa na Polônia até chegar na última frase... Errei nesse ponto (Thanks, JLM).

    Fiquei contente do texto ter te "enganado", a ideia era essa mesma, e tive dúvidas se eu conseguiria fazer isso, rs. Mas... (peraí)

    , relendo tudo à luz do seu comentário, vi que a hipótese da separação dos pais se sustenta até a penúltima frase, quando ela sopra dente de leão. Aí, "do nada" vem a invasão nazista.

    O que vcs entenderam que esse sopro quis dizer?

    Quando escrevi, a ideia era fazer com que, ao terminar a penúltima frase, o leitor concluísse uma coisa, e, ao saber da invasão nazista, ele se questionasse se sua conclusão estava certa. Mas não sei...como a história não estava bem situada no tempo e no espaço previamente, em vez de deixar o final meio abertinho e positivamente duvidoso, acabei deixando mal fechado mesmo - e o Hitler entrando de sola numa história em que ele tanto importava, rs.

    (O Quintana diz que qnd alguém pergunta ao autor o que ele quis dizer com seu texto, é pq um dos dois é burro. No caso, como é a autora perguntando a interpretação de algo que ela mesma escreveu, é porque ou ela se assume como burra ou como iniciante. Entendam como quiserem...rs.)

    Obrigada por opinarem! Vcs não sabem como é bom saber o que os outros pensam do nosso texto, ajuda muito a gnt a se aperfeiçoar! Obrigada mesmo! (É... e se puderem responder a perguntinha verde...rs)

    Ah, a imagem é essa
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    . Mas finjam não terem reparado que a menina é loira. Nunca vi judeu loiro...
     
  6. kika_FIL

    kika_FIL Usuário

    Eu gostei muito do texto.... a tradução do sopro pra mim foi: Kaputt
     
  7. JLM

    JLM mata o branquelo detta walker

    se a invasão era na polônia a menina ñ precisa ser judia. hitler odiava judeus + polenses + testemunhas d jeová. todos os meus parentes descendentes d poloneses, inclusive eu, somos loiros.
     
  8. Rodovalho

    Rodovalho Usuário

    Entendi que o sopro no dente-de-leão foi a gota d'água. Estava por um fio. Mas se era algo assim tão sutil, o irmão dela não teria prioridade na dúvida sobre o que tinha acontecido. Ou sim.
     
  9. abylos

    abylos Usuário Usuário Premium

    RE: Tenho uma pergunta... em verde

    bom, nos milesimos de segundo antes de ler a ultima frase eu fiquei sem entender XD

    depois de ler o final eu entendi como ela demonstrando da melhor forma que encontrou que o mundo deles, tudo o que eles conheciam, tudo o que eles davam valor, em que eles se apoiavam, que eles consideravam inabalavel, tinha ido pelos ares, virado de cabeça pra baixo, sido levado pelo vento. Que suas vidas e seus sonhos haviam sido despedaçados como aquela flor...
    e que as coisas jamais seriam as mesmas...

    agora vi a imagem...
    caramba, voce tirou aquele texto daquela imagem? Parabéns, moça!
     
  10. Haleth

    Haleth There's no such a thing as a mere mortal

    Obrigada, gnt! Vcs são lindhus! =P
    Mas sério, vcs me ajudaram mesmo. Na segunda edição o conto vai ficar melhor. =)
    Tem coisa q a gnt só percebe através dos olhos dos outros, não tem jeito. Obrigada mesmo!
     

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