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A História ganha vida por meio do trabalho de colorista digital brasileira

Fúria da cidade

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Fotografias de pessoas escravizadas no Brasil coloridas digitalmente por Marina Amaral

Colorir fotografias antigas começou como uma brincadeira quando Marina Amaral era adolescente. Quando descobriu uma coleção de fotografias de guerra, em 2012, em um fórum na internet, a possibilidade de trazer cores e reviver um momento a fez com que estudasse a fundo a colorização digital.

O hobby foi ficando sério, até virar sua profissão. Em 2015, a mineira saiu da faculdade de Relações Internacionais da PUC-MG para se dedicar integralmente à atividade. Atualmente, além de ser um dos principais nomes da colorização digital, assina dois livros junto com o historiador australiano Dan Jones e também está por trás do projeto "Faces of Auschwitz" (Faces de Auschwitz), cuja missão é resgatar a história de milhares de pessoas enviadas ao campo de concentração nazista na Polônia durante a Segunda Guerra Mundial.

O projeto terá também um documentário, que está para ser lançado em breve, e o trabalho de Amaral será exposto em Curitiba (PR) a partir de 31 de março, junto com fotografias do período da escravidão brasileira.

"As cores criam uma ponte entre passado e presente, e intensificam a forma que nos relacionamos com os momentos ou pessoas retratadas nas fotografias. É um meio de compreender aquele evento histórico de maneira emocional, e não apenas em um nível racional", conta a colorista digital ao TAB.

O ofício de colorir


Colorir fotos preto e branco é uma arte originária do século 19, quando todo processo era feito manualmente com diversos tipos de pigmentos e materiais. A técnica ganhou bastante força no Japão com fotógrafos renomados como Yokoyama Matsusabur, que aplicava tinta a óleo em retratos e paisagens de sua autoria a partir da segunda metade do anos 1800. A técnica ficou conhecida como shashin abura-e.
Claro que os softwares de edição de imagens facilitaram o processo de colorização de fotografias, porém a complexidade em colorir fotografias histórias respeitando suas particularidades continua. "O tempo varia de acordo com o nível de detalhes de cada foto", explica. "Posso levar de 40 minutos até 40 dias em uma única imagem. Os meus livros, por exemplo, demoraram dois anos cada um para serem finalizados."

Por trás de cada trabalho há uma extensa pesquisa para respeitar os tons de pele, texturas de tecidos e as cores exatas de cada ambiente. "Em fotos de temática militar, sempre começo pelos uniformes, depois para medalhas, veículos. Agora em fotos de temática mais 'livre', começo pela pesquisa dos tecidos, de prédios que possam ser identificados, placas específicas etc. Muitas vezes consigo encontrar o local exato em que a foto foi tirada."

A mineira é bastante conhecida por colorir fotos de guerra, mas também se dedica a resgatar imagens históricas brasileiras — no Carnaval, revelou dezenas de imagens e coloriu também fotografias icônicas de personalidades históricas. Simultaneamente, a colorista toca o Faces of Auschwitz junto com uma equipe do Museu de Auschwitz-Birkenau, na Polônia.

O projeto começou a tomar forma em 2016, quando a colorista encontrou três fotos de Czeslawa Kwoka, uma das milhares de crianças e adolescentes poloneses enviados para Auschwitz. As fotos foram o último registro da garota de 14 anos que, momentos antes de ser clicada por Wilhelm Brasse, foi espancada por guardas alemães por não entender ordens dadas em alemão. Algum tempo depois, ela morreu com uma injeção letal aplicada no coração. Conhecer a história da garota, morta por ser católica, tocou profundamente Amaral, que coloriu seu retrato.


Czeslawa Kwoka foi executada com uma injeção letal no campo de concentração de Auschwitz em 1943
Imagem: Divulgação/Faces of Auschwitz

Com o apoio do Museu de Auschwitz-Birkenau. Amaral tem acesso a milhares de fotografias de pessoas "indesejadas" que foram enviadas aos campos. O propósito do projeto não é só colorir as imagens, mas também humanizar e individualizar cada história vivida ali. O time multidisciplinar busca sobreviventes da época para contarem seus casos. "A formação da equipe se deu totalmente através das mídias sociais. São todos voluntários, o que faz tudo isso ser ainda mais especial", conta.

O trabalho não é fácil, até porque, 80 anos depois da Segunda Guerra Mundial, restam poucos sobreviventes. "Em 2019 perdi uma grande amiga, Eva Kor, uma das gêmeas sobreviventes dos experimentos de Mengele. A Eva morreu logo após uma palestra para um grupo de jovens em Auschwitz. Ela levou como missão da vida dela, até o último minuto, o propósito de educar e manter a sua experiência — que é de certa forma a experiência de tantos outros — na memória das pessoas", conta Amaral.

Debruçada nas histórias de judeus enviados para Auschwitz, a colorista acompanhou com preocupação o escândalo em torno do vídeo publicado em janeiro pelo ex-secretário especial da Cultura do Brasil, Roberto Alvim, que usou como referência estética e retórica de Joseph Goebbels, ministro da Propaganda na Alemanha Nazista. Preocupada com o revisionismo em torno dos horrores do nazismo, doou diversos livros que abordam o tema para escolas públicas brasileiras.

"Sempre gosto de lembrar que o Holocausto não começou nas câmaras de gás, mas sim no discurso de ódio, na perseguição, no preconceito, e na ignorância. Acredito que a literatura é uma arma poderosa de transformação, com a capacidade de mudar uma sociedade inteira. (...) A educação é o único meio de combater discursos tão absurdos quanto aquele que parafraseou um dos maiores cúmplices e integrantes do regime nazista", conta.

Manter a memória viva do que aconteceu deveria ser uma obrigação para as gerações mais jovens, acredita ela. Através do seu trabalho, Amaral tenta reaproximar o passado histórico a uma geração mais jovem, dando vida e profundidade aos registros impessoais. "Acredito profundamente que cabe às novas gerações preservar essas histórias, não apenas a do extermínio do povo judeu, mas também a dos outros grupos perseguidos, como as Testemunhas de Jeová, os homossexuais, os prisioneiros políticos, e difundi-las para que o Holocausto e o genocídio promovidos pelo regime nazista não se transformem apenas em acontecimentos históricos que marcaram um período remoto, algo distante e quase abstrato."

A colorista digital está também trabalhando em uma série dedicada ao período da ditadura militar no Brasil, resgatando documentos e fotografias da época. "Faces of Auschwitz" ainda não tem data de estreia.

https://tab.uol.com.br/noticias/red...-trabalho-de-colorista-digital-brasileira.htm
 

Fúria da cidade

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Muita gente pensa que colorização de fotos e filmes P&B é algo fácil de fazer, mas os melhores aplicativos do mercado só executam uma parte do trabalho. Existe todo um trabalho artesanal e intelectual humano por trás e isso nem sempre é valorizado. Admiro o trabalho desses profissionais que nos ajudam a enxergar com as cores mais próximas de como ele realmente era.
 

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