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A grande fuga

Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por imported_rodrigo_, 11 Out 2010.

  1. Os tempos de escola eram mesmo muito bons. Estranha-me ver as pessoas falando dessa época como um período difícil, até cruel. O termo em voga hoje é o bullying – essa violência realmente execrável, sobretudo quando as ações se dão contra crianças. Do que vivi, lembro-me das brincadeiras – que fiz sofrer e sofri. Às vezes até podiam exceder alguns limites do bom tom, entretanto, até onde sei, nunca foram capazes de grandes estragos: no máximo umas risadas por alguns minutos ou dias, que no momento talvez tenham gerado algum constrangimento, mas, hoje, viraram nostálgicas porém fruitivas recordações. Todos conseguimos sobreviver, e acredito que eu não seja o único a carregar um conjunto de boas lembranças avassalador em relação ao de más.

    O ser humano parece ter uma característica realmente a lamentar: a dificuldade em perceber os bons momentos enquanto eles acontecem, em detrimento da obstinação por salientar as coisas ruins.
    Tenham por base a minha geração, a famigerada geração Twitter, que, num primeiro momento, parece ter como mais pungente peculiaridade o fato de não conseguir desenvolver um pensamento em mais de 140 caracteres. Não é com facilidade que vislumbramos algum legado para o futuro deixado por essa geração. Mas, ao fazer uma breve análise, vemos que isso sempre foi assim. Beatniks, hippies, punks, todos, no seu tempo, considerados a geração maldita, a ruína do futuro, a deterioração. Prevejo que um dia lembremos desse momento como uma fase mais profícua do que aparenta ser (ainda que eu não acredite muito em contribuições via Twitter).

    Então é o que acontece: passados anos, quando o tempo nos distancia daquela realidade vivida, conseguimos ver de fora o que não víamos de dentro. Ou talvez também seja o tempo que nos embace a realidade, moldando-a ao nosso desejo, fazendo-a parecer melhor do que de fato era. Igualmente isso não importa. Enquanto não inventarem uma máquina do tempo, escreverei sobre o passado, e não do passado. E o passado do qual escrevo é o que tenho presente em mente, é claro.

    Mas voltemos à escola. Mais especificamente à que me vem em mente enquanto escrevo, o Ginásio do Areal. Ginásio do Areal: entra burro, sai marginal. Depois de anos nesta instituição, saí de lá apenas burro, o que, dado o destino pessimista que o adágio vaticinava, julguei ser uma grande vitória..

    Recordo-me com regozijo das pequenas faltas cometidas no ano em que cursei a sétima série pela segunda vez, encaradas com um certo orgulho rebelde de quem subverte a ordem. Não posso deixar de explicar o porquê de ter cursado a sétima séria pela segunda vez: foi porque rodei na primeira vez. Sim, eu sei que isso é óbvio. Essa não é, ainda, a explicação. O fato é que eu, desde bem pequeno, já tinha uma certa resistência em aceitar imposições estúpidas. E o sistema de ensino é por si só recheado de imposições estúpidas.

    Naquele ano, rodei em Português e Matemática. Vejamos: análise sintática, objeto direto, adjunto nominal, morfologia, locução adjetiva, particípio (diabos, que merda é essa?!) e alguém em sã consciência vai se sujeitar a isso? Não há a menor necessidade em saber identificar essas coisas todas. Quem já viu uma aula de Inglês em um filme americano sabe como funciona (e assim funciona mesmo): o professor pede para que os alunos leiam um romance, conto, poesia ou o que for e em aula todos discutem interpretações e significados. Aprendendo a ler se aprende a escrever. O resto não importa. Mas nós, idiotas, temos de aprender a identificar a porra do particípio. E, quanto à Matemática, esse negócio de álgebra, polinômios, ângulos, MMC, geometria, bem, eu digo que 99,78% da população brasileira não só nunca vai necessitar usar como nem sabe quando se aplica.

    O grande problema desse pseudo-ensino que existe nas escolas é que a imensa maioria dele não tem utilidade prática nenhuma. O ambiente escolar deveria formar pessoas conscientes da sua realidade. A Matemática habituando as pessoas a lidar com juros, como os de cartão de crédito e banco; as aulas relativas às ciências mostrando aos seus alunos como prevenir e lidar com doenças triviais, por exemplo, e as de Português orientadas a fazer com que o aluno goste de ler, desprezando as enfadonhas e desnecessárias análises sintáticas e os não menos fastidiosos (ao menos quando se tem perto de quinze anos) clássicos da literatura nacional. No equivalente ao Ensino Médio na Alemanha, jovens de dezesseis anos têm como disciplina Ciência Política; aqui, nós estamos tentando entender se o spin (uma setinha que eu não sei qual a finalidade) fica para baixo ou para cima naqueles quadradinhos que eu não faço ideia do que representem.

    E, por tudo isso, decidi: Eu, senhor do meu destino, ser autônomo e dotado de vontade; eu, maior do que essa invenção débil e improfícua que é o sistema de ensino, rejeito esta formadora de criaturas anestesiadas. Eu piso em cima do polinômio!, arremesso o spin pro espaço!, cuspo no particípio!, eu taco fogo na tundra e esmurro o ribossomo! Contra toda a forma de ensino irrelevante! Vamos, liturgia escolar, curve-se aos meus pés e peça misericórdia... Nessa época, minha módica atividade intelectual consistia em me divertir com uns poucos livros de aventura, como as investigativas do Conan Doyle e as desbravadoras do Júlio Verne. E foi aí que eu, todo orgulhoso e livre-pensador, rodei: Português e Matemática. Particípio e polinômio. Não é fácil declinar das regras do jogo. Sei disso porque até hoje eu resisto, não sem temer pelo futuro, e, no entanto, sem cogitar mudar.

    Mas foi até bom falar no ribossomo. Me fez lembrar da professora de Ciências, a Fernanda. Ah, professora, nós gostávamos de você... Ela tinha uma postura diferente, falava com deferência e decisão e seus movimentos seguiam a mesma linha, perfeitamente adequados à maturidade vigorosa dos seus trinta e poucos. Ficava muito bem de pé lá na frente, estampando seu porte íntegro e sóbrio, suas calças jeans que tão bem cobriam suas pernas. Usava blusas lisas e óculos de leitura. Balzac apreciaria. E então lá da frente ela falava, aparentando tranquilidade mas raramente sorrindo. Vamos, garota, conte pra gente sobre esse tal citoplasma e tudo o que ele tem de fazer pra manter a consistência e a forma da célula. Silêncio, néscios, que eu tô prestando atenção!

    Teve aquela aula sobre reprodução e fecundação, em que ela resolveu nos dar a oportunidade de escrever as dúvidas nuns papeizinhos, para evitar constrangimentos. Foi hilária a risada irresistível que ela deu ao ler a uma pergunta que parecia mais destinada a um padre no confessionário: se era errado ver Cine Privé; depois, ao responder sobre a possibilidade de a vagina de uma mulher voltar ao tamanho normal após ser penetrada por um cavalo, fez uma expressão de quem achou aquilo vulgar demais, retomando sua conduta solene de sempre.

    Toda essa aparência austera se refletia nas suas avaliações. Com ela, me obriguei a estudar. Ademais, havia constantemente trabalho para casa. Toda semana, e era sempre muita coisa - cerca de trinta questões para responder. Valia nota e ela verificava em aula, sem falta. Isso eu não fazia. Não fazer os trabalhos é bem tranquilo quando não se é o único. Antes das aulas em que seriam corrigidos os exercícios, eu sempre procurava os mais irresponsáveis da turma, a fim de constatar que não era o único a não fazer. Aquilo me acalmava. Ocorre que, depois de um tempo, até mesmo os mais irresponsáveis começaram a fazer as tais atividades, dada a inexorabilidade da professora quanto às notas. E aí eu percebi que eu era o mais vadio da turma.

    Quando se está no Ensino Fundamental, é terrível ser o único a não fazer os trabalhos. Na faculdade, basta se levantar e sair, ir para casa ou ficar zanzando pelo Campus, esperando a aula em questão acabar. Quando pequenos, isso é impossível. Temos de encarar, impreterivelmente, o olhar implacável do professor. Ficar no pátio é impossível, pois sempre terá um monitor a nos vigiar e mandar de volta para a aula, isso caso não haja advertência por escrito. Então, a opção para não assistir aula era uma só: fugir da escola.

    Eis o momento máximo da subversão. Lá no Ginásio, havia poucas opções. Uma delas era passar pela secretaria, determinado, ignorando as advertências dos funcionários, reto porta afora. Essa era uma possibilidade perigosa, pois o servidor poderia saber o nosso nome e entregar para alguém da direção. Tinha uma parte da escola, ao lado da diretoria, que era fechada com uma tela de arame. Depois de um tempo, alguém muito esperto abriu na parte de baixo da tela um buraco. Por toda aquela época, eu e mais dois colegas, o Juliano e o Tiago, que também repetiam o ano comigo – só aluno bom -, usamos aquela rota de fuga. Era um rombo de bom tamanho, onde eu jogava a minha mochila na frente, passava o tronco e depois arrastava as pernas até a saída. O Tiago fazia o mesmo. Mas o Juliano, bem, o Juliano se jogava no chão e, um cotovelo em frente ao outro, rastejava até a saída. Parecia que estava na guerra. E, para nós, aquilo era mesmo quase uma operação de guerra, haja visto o perigo que julgávamos correr. Passando a grade, estávamos no estacionamento dos professores. Uma olhadela para ver se não havia ninguém por ali e seguíamos em corrida desenfreada até a esquina. Vitória. Liberdade.

    Usamos desse artifício por um bom tempo, até que um dia fomos lá e o rombo estava coberto. Nesse dia, fugíamos de uma aula de Matemática. A professora, uma loira de olhos azuis de meia idade de quem esqueci o nome, já nos havia visto escapar da sua aula, e não tínhamos como voltar. Devíamos achar outra solução, portanto. Havia muro em volta de toda a escola. Só poderíamos pular. O problema é que, perto desses muros, sempre tinha algum dos muitos pavilhões do colégio, e deles poderíamos ser vistos. Com exceção de um: o muro dos fundos.
    Quem conhece a escola, sabe que ela é bem extensa. Depois dos pavilhões onde se dão as aulas, existem quadras, depois uns outros pavilhões quase abandonados e um gramado sem nada. A fuga seria por lá. Atravessamos o prédio, circundamos as quadras, onde os pequenos jogavam, e fomos em direção ao tal muro. De repente, avistamos a professora loira de olhos azuis e meia idade de quem esqueci o nome vindo em nossa direção, sem ter ainda nos fitado diretamente. Aquilo era algo realmente inusitado. Ela estaria nos perseguindo? Parecia que sim.

    No impulso, corremos para nos esconder atrás de um desses pavilhões do fundo, quase abandonados. Eu, lépido e matreiro, escapuli discretamente para trás do pavilhão; o Tiago fez o mesmo; o Juliano veio em disparada e se jogou como um puma suicida para trás de uma moita. Parecia que estava na guerra. Provavelmente foi aí que a nossa acossadora nos percebeu, não sei se do barulho da queda do Juliano ou se das risadas que eu e o Tiago emitíamos. Em seguida, deu-se um silêncio cheio de tensão. Tentávamos ouvir alguma aproximação, passos. Nesse momento, ouço o barulho de algo caindo perto de nós, como uma pequena lata que quica e rola do chão.

    - GRANADA! - exclamo.

    E não é que a desgraçada tinha levado isso tudo a sério mesmo? Parecia que estava na guerra. Nem deu tempo de correr. Em seguida, a granada explodiu. O ruído foi perturbador. Pedaços de grama e terra saltavam no chão, pairando no ar em meio da fumaça que nos turvava a vista, fazendo arder os olhos. Isso, aliado ao forte odor de grama queimada, dava à cena um aspecto dantesco. As crianças que estavam na quadra corriam sem saber para onde. Seus gritos terríveis dispersavam o mais absoluto caos. Nesse momento, avistei a mulher vindo em nossa direção. Corria com uma fúria indescritível. Sem muito pensar, investimos em direção ao muro. Ela, temendo não chegar a tempo, nos arremessava pedras, das quais tentávamos desviar. Ao chegar no muro, o Tiago foi o primeiro a pular; depois o Juliano. Sempre tive dificuldades com muros, mas, com ajuda, consegui. No meio da fumaça, vimos ela lá, parada. Não foi dessa vez, sua canalha... Aula, só amanhã.
    Ao descer, esfolei a perna no muro. O Juliano mostrou um corte profundo no abdômen, em decorrência da explosão. Um estilhaço acertara a cabeça do Tiago, de onde escorria sangue. As roupas, totalmente esfarrapadas.

    Era sempre bom voltar para casa na hora que bem entendia, a despeito de todas as regras. Uma sensação de autodeterminação fazia com que fossem liberadas todas essas substâncias químicas que não sei o nome, responsáveis pelas sensações de satisfação. Hoje, escolhi chegar em casa mais cedo. Hoje, poderei ver Malhação desde o início. Hoje, vou tomar o café da tarde sem precisar chegar atrasado no futebol das seis. É... Os tempos de escola eram mesmo muito bons.
     

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