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A doutrina dos Yugas

Tópico em 'Atualidades e Generalidades' iniciado por Caio Alves, 5 Fev 2017.

  1. Caio Alves

    Caio Alves Asuka Langley Soryu

    São apenas trechos de um livro clássico de Mircea Eliade, historiador das religiões, que estou lendo, que julguei que mereceriam um tópico pela atenção que dá ao simbolismo do tempo nos mitos hindus:

    Certos mitos indianos ilustram de maneira particularmente feliz esta função capital de «quebrar» o tempo individual e histórico e de atualizar o Grande Tempo mítico. Sobre isto daremos um exemplo célebre, tirado do Brahmavaivarta Pararia, e que o saudoso Heinrich Zimmer resumiu e comentou no seu livro Myths and Symbols in Indian Art and Civilization. Este texto tem o mérito de introduzir de improviso o Grande Tempo como instrumento de conhecimento e portanto de libertação dos laços da Mâyâ.

    Após a sua vitória sobre o dragão Vrtra, Indra decide-se a refazer e a embelezar a residência dos deuses. Viçvakarman, artesão divino, consegue construir, após um ano de trabalho, um magnífico palácio. Mas Indra não se mostra satisfeito: quer aumentar a construção, torná-la mais majestosa, sem semelhante no mundo. Esgotado pelo esforço, Viçvakarman queixa-se a Brahma, o Deus criador. Este promete ajudá-lo e intervém junto de Visnu, Ente Supremo de quem o próprio Brahma não era mais do que um simples instrumento. Visnu encarrega-se de fazer voltar Indra à realidade. Um belo dia Indra recebe no seu palácio a visita de um rapaz andrajoso. Era o próprio Visnu, que tomara este aspeto para humilhar o Rei dos Deuses. Sem lhe revelar de início a sua identidade, chama-lhe «meu filho» e começa a falar-lhe dos inúmeros Indras que até essa altura tinham povoado os inúmeros Universos. «A vida e a realeza de um Indra — disse-lhe ele — duram 71 eons (um ciclo, um mahâyuga compreende 12 000 anos divinos, ou sejam 4 320 000 anos); um dia e uma noite de Brahma, equivalem a 28 existências de Indra. Mas a existência de um Brahma medida nos ditos dias e noites de Brahma, é de apenas 108 anos. Um Brahma segue-se a outro Brahma; um deita-se e outro levanta-se. Não se consegue contá-los. Não tem fim o número destes Brahmas—para já não falar nos Indras...».

    «Mas quem poderá avaliar o número dos Universos, tendo cada um o seu Brahma e o seu Indra? Para lá da mais longínqua visão, para lá de todo o espaço imaginável, os Universos nascem e dissipam-se indefinidamente. Como barcos levíssimos, estes Universos flutuam na água pura e sem fundo que forma o corpo de Visnu. De cada poro desse corpo, um Universo sobe um instante e desintegra-se. Teríeis vós a presunção de os contar? Credes poder enumerar os deuses de todos estes Universos —os Universos presentes e os Universos passados?...»

    Durante o discurso do rapaz, surgira uma procissão de formigas na sala principal ,do palácio. Alinhada numa coluna de dois metros de largura, a massa de formigas exibia-se no soalho. O rapaz vê-as, pára e depois, cheio de espanto, desata num riso súbito. «Porque te ris?» — pergunta-lhe Indra. — «Vi as formigas, ó Indra», desfilando num longo cortejo. Cada uma delas tinha sido antes um Indra. Como vós, cada uma, em virtude da sua piedade subira outrora ao nível de um Rei dos Deuses. Mas agora; após múltiplas transmigrações, cada um se transformou em formiga. Este exército de formigas é um exército de antigos Indras...

    Depois desta revelação, Indra compreende a vaidade do seu orgulho e das suas ambições. Chama o admirável arquiteto Viçvakarman recompensa-o principescamente e renuncia para sempre a aumentar o palácio dos deuses.

    A intenção deste mito é transparente. A evocação vertiginosa dos múltiplos Universos surgindo e desaparecendo do corpo de Visnu é suficiente, em si própria, para despertar Indra: isto é, forçá-lo a ultrapassar o horizonte limitado e estritamente condicionado da sua «situação» de Rei dos Deuses. Seríamos tentados a acrescentar mesmo: da sua «situação histórica»; porque acontece ser Indra o Grande Chefe guerreiro dos deuses num dado momento histórico, numa certa etapa do grandioso drama cósmico. Indra escuta da boca do próprio Visnu uma história verdadeira: a verdadeira história da eterna criação e destruição dos mundos, ao lado da qual a sua própria história, as aventuras heróicas sem fim culminando na vitória sobre Vrtra, parecem ser, efetivamente, «histórias falsas», isto é, acontecimentos sem significado transcendente. A história verdadeira revela-lhe o Grande Tempo, o tempo mítico, que é a 61 verdadeira fonte de todo o ser e de todo o acontecimento cósmico. É por ele poder ultrapassar a sua «situação» histórica-mente condicionada e conseguir rasgar o véu ilusório criado pelo tempo profano, ou seja pela sua própria «história» que Indra é curado do seu orgulho e da sua ignorância; em termos cristãos, ele «salvou-se». E esta função redentora do mito funciona não só para Indra, mas também para cada um dos humanos que ouve a sua aventura. Transcender o tempo profano, reencontrar o Grande Tempo mítico, equivale a uma realização da realidade última. Realidade estritamente metafísica que não pode ser alcançada senão através dos mitos e dos símbolos.

    Este mito tem uma continuação, à qual voltaremos. Por agora precisemos que a concepção do Tempo cíclico e infinito, apresentada de maneira tão atraente por Visnu, é a concepção pan-indiana dos ciclos cósmicos. A crença na criação e destruição periódicas do Universo encontra-se já em Atharva Veda (X, 8, 39-40). Ela pertence, aliás à Weltanschauung de todas as sociedades arcaicas.

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    A doutrina dos «Yugas»

    A Índia elaborou no entanto uma doutrina de ciclos cósmicos ampliando em proporções cada vez mais aterradoras o número das criações e das destruições periódicas do Universo. A unidade de medida do ciclo mais pequeno é o yuga, a «idade». Um yuga é precedido e seguido por uma «aurora» e um «crepúsculo» que ligam as «idades» entre si. Um ciclo completo ou mahâyuga compõe-se de quatro «idades» de duração diferente, aparecendo a mais longa no início do ciclo e a mais curta no seu fim. Os nomes destes yuga são tirados das designações dos «lances» de dados. Krta yuga (do verbo kr, «fazer, cumprir») quer dizer «idade cumprida», ou seja, no jogo de dados, o lance vitorioso, o que tira o dado de quatro pontos. Pois, na tradição indiana, o número quatro simboliza a totalidade, a plenitude e a perfeição. O krta yuga é a idade perfeita; eis porque é também chamada satya yuga, ou seja a «idade real», a verdadeira, a autêntica, a perfeita. De todos os pontos de vista é a idade do ouro, a época beatífica onde reinam justiça, felicidade, opulência. Durante krta yuga, a ordem moral do Universo, o dharma, é respeitado na sua integridade. E o que é mais: é respeitado espontaneamente, sem coacção, por todos os seres pois, durante o krta yuga, o dharma identifica-se de certo modo com a existência humana. O homem perfeito do krta yuga encarna a norma cósmica e por conseguinte a lei moral. A sua existência é exemplar, arquetípica. Noutras tradições extra-indianas, esta idade de ouro equivale à época paradisíaca primordial.

    A idade seguinte, o trela yuga, a «a tríada», assim chamada por causa do dado de três pontos, marca já uma regressão. Os humanos não seguem senão três quartos do dharma. O trabalho, o sofrimento e a morte são agora o apanágio dos homens. O dever já não é espontâneo, mas deve ser aprendido. Os modos próprios das quatro castas começam a ser alterados. Com o dvâpara yuga (a «idade» caraterizada por «dois»), só subsiste na terra metade do dharma. Os vícios e as infelicidades aumentam, a vida humana diminui ainda mais de duração. No kali yuga, a «idade má», resta apenas um quarto do dharma. O termo kali significa o dado marcado por um só ponto, portanto o lance vencido (personificado, aliás, num mau génio); kali significa também «disputa, discórdia» e, em geral, o pior de um grupo de seres ou de objetos. O homem e a sociedade atingem no kali yuga, o seu ponto extremo de desintegração. Segundo o Visnu Purâna (IV, 24), o síndroma do kali yuga reconhece-se pelo fato de durante essa época, só a propriedade conferir categoria social: a riqueza torna-se a única fonte das virtudes, a paixão e a luxúria os únicos laços entre os esposos, a falsidade e a mentira a única condição do êxito na vida, a sexualidade a única via de prazer e a religião exterior, unicamente ritualista, é confundida com a espiritualidade. Depois de vários milénios, nós vivemos; bem entendido no kali yuga.

    Os algarismos 4, 3, 2, e 1 denunciam simultaneamente a duração decrescente de cada yuga e a diminuição progressiva do dharma que resta, à qual corresponde, aliás, uma diminuição da duração da vida humana, acompanhada, como vimos, por um desleixo progressivo dos 63 costumes e por um declínio contínuo da inteligência. Certa escola indiana, como o Pâncarâtra, associa, aliás, à teoria dos ciclos uma doutrina da «queda do conhecimento» (»lema bramça).

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    Pode calcular-se por diferentes processos a duração relativa de cada um destes quatro yuga: tudo depende do valor atribuído aos anos, isto é, se tratamos com anos humanos, ou anos «divinos» — cada um destes compreende 360 dos primeiros. Contentar-nos-emos com alguns exemplos. De acordo com certas fontes (Manu, I, 69 sq.; Mahâbhârata, III, 12. 826), o krta yuga dura 4 000 anos, mais 400 anos de «aurora» e outros tantos de «crepúsculo»; vem em seguida tretâ yuga, de 3 000 anos, dvâpara de 2 000 anos é kali yuga de 1000 anos (mais as «auroras» e os «crepúsculos» correspondentes, bem entendido).

    Um ciclo completo, um mahâyuga, compreende por conseguinte 12 000 anos. A passagem de um yuga a outro verifica-se ao longo de um «crepúsculo» que marca um decrescendo mesmo no interior de cada yuga, terminando cada um deles por uma etapa de trevas. À medida que nos aproximamos do fim do ciclo, isto é, do quarto e último yuga, as «trevas» adensam-se. O último yugà, aquele em que nos encontramos atualmente, é, aliás, considerado como a «idade das trevas» por excelência pois, por um jogo de palavras, relacionaram-no com a deusa Kâli, quer dizer «a Negra». Kâli é um dos muitos nomes da Grande Deusa, da Çakti, mulher do deus Çiva. Não deixou de se relacionar este nome da Grande Deusa com o termo sânscrito kâla, «tempo»: Kâli seria não somente «a Negra», mas também a personificação do Tempo. Haja ou não razão para esta etimologia, a ligação entre kâla, o «Tempo», a deusa Kâli e kali yuga é autorizada no plano da estrutura: o Tempo é «negro» porque irracional, duro, sem piedade, e Kâli, como todas as outras Grandes Deusas, é senhora do Tempo, dos destinos que forja e cumpre. Um ciclo completo, um mahâyuga, termina por uma «dissolução», um pralaya, que se repete de maneira mais radical (mahâpralaya, a «Grande Dissolução» no fim do milésimo ciclo. Pois a especulação ulterior ampliou e reproduziu até ao infinito o ritmo primordial: «criação-destruição-criação», projetando a unidade de medida, o yuga, nos ciclos sucessivamente mais vastos. Os 12 000 anos de um mahâyuga foram considerados como «anos divinos», durando cada um deles 360 anos, o que dá um total de 4 320 000 anos para um único ciclo cósmico_ Um milhar de mahâyuga semelhantes constitui um kalpa («forma»); 14 kalpa perfazem um manvantâra. Chama-se-lhe assim porque se parte do princípio que cada manvantâra é regido por um Manu, o Antepassado-Rei mítico.) Um kalpa equivale a um dia da vida de Brahma; um outro kalpa a uma noite. Cem destes «anos» de Brahma, ou seja 311 000 bilhões de anos humanos, constituem a vida do Deus. Mas esta duração considerável da vida de Brahma não chega sequer para esgotar o Tempo, pois os deuses não são eternos e as criações e destruições cósmicas sucedem-se ad infinitum.

    O que convém fixar desta avalanche de números, é o caráter cíclico do tempo cósmico. De fato, assistimos à repetição infinita do mesmo fenómeno (criação – destruição - nova criação) pressentido em cada yuga («aurora» e «crepúsculo») mas completamente realizado por um mahâyuga. A vida de Brahma compreende assim 2 560 000 destes mahâyuga, retomando cada um as mesmas etapas (krta, tretâ dvâpara, kali) e terminando num pralaya, num ragnarõk (a destruição «definitiva», no sentido de dissolução total do Ovo cósmico, efetuando-se no fim de cada kalpa quando do mahâpralaya. Precisemos que mahâpralaya implica a regressão de todas as «formas» e de todos os modos de existência na prakrti original indiferenciada. No plano mítico subsiste fora do Oceano primordial, na superfície do qual vive o Grande Deus, Visnu).

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    Além da depreciação metafísica da vida humana como história que, em proporção e pelo simples fato da sua duração, provoca uma erosão de todas as formas, esgotando a sua substância ontológica e além do mito da perfeição dos princípios, tradição universal que também aqui encontramos (mito do paraíso que se foi perdendo gradualmente, pelo simples fato de se realizar, tomar forma e durar), o que merece prender a nossa atenção nesta orgia de números é a eterna repetição do ritmo fundamental do Cosmos: a sua destruição e a sua recriação periódicas. Deste ciclo sem princípio nem fim, que é manifestação cósmica da mâyâ, o homem não pode libertar-se senão através de um ato de liberdade espiritual (pois todas as soluções soteriológicas indianas se reduzem à libertação prévia da ilusão cósmica e à liberdade espiritual).

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    As duas grandes heterodoxias, o budismo e o jainismo, aceitam nas suas linhas gerais a mesma doutrina pan-indiana do tempo cíclico, e comparam-no a uma roda de doze raios (esta imagem é já utilizada nos textos védicos cf. Atharva Veda, X, 8, 4, Rig Veda, L, 164, 115, etc.). O budismo adopta como unidade de medida dos ciclos cósmicos o kalpa (pâli: kappa), dividido num número variável do que nos textos é designado por «incalculáveis» (asamkhyeya; pâli asankheyya). As fontes pâlis falam em geral de quatro asankheyya e de cem mil kappa (cf. por exemplo Jâtaka, I, p. 2). Na literatura mâhâyânica, o número de «incalculáveis» varia entre 3, 7 e 33, e estes são relacionados com a carreira de Boddhisattva nos diferentes Cosmos. A progressiva decadência do homem é marcada, na tradição budista, por uma diminuição contínua da duração da vida humana. Assim, segundo Dighanikâya, II, 2-7, na época do primeiro Buda, Vipassi, que fez a sua aparição há 91 kappa, a duração da vida humana era de 80 000 anos; na do segundo Buda, Sikhi (há 31 kappa), de 70 000 anos, e assim por diante. O sétimo Buda, Gautama, aparece quando a vida humana não passa dos 100 anos, isto é, está reduzida ao seu limite extremo. (Voltaremos a encontrar o mesmo motivo nos apocalipses iranianos). Todavia, para o budismo, como para a especulação indiana no seu conjunto, o tempo é ilimitado; e o Boddhisattva encarnará, a fim de anunciar a boa nova da salvação a todos os seres, in aeternum. A única possibilidade de sair do tempo, de quebrar o círculo de ferro das existências, é a abolição da condição humana e a obtenção do Nirvâna. Aliás todos estes «incalculáveis» e todos estes éons sem número têm também uma função soteriológica: a simples contemplação do seu panorama aterroriza o homem e força-o a «realizar» que deve recomeçar biliões de vezes essa mesma existência evanescente e suportar os mesmos sofrimentos sem fim, o que provoca o 66 exacerbamento da sua vontade de evasão, isto é, obriga-o a transcender definitivamente a sua condição de «existente».

    Fonte: Eliade, Mircea. Imagens e símbolos.
     
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  2. Neoghoster Akira

    Neoghoster Akira Brandebuque

    Sobre a roda do destino conta-se dos reinos/domínios ou círculos menores dentro de círculos maiores e aonde a alma se perde, alguns são infernais. Um círculo de destino que esteja pequeno para alguém cuja vida tenha alcançado uma grande percepção de certo local da existência é deixado para trás quando se alcança o entendimento daquele nível (morte). A percepção do tempo, assim como em estados diferenciados (Nirvana), também seria diferente nesses locais uma vez que as leis de cada dimensão vão variando de um local para outro habitado pela alma.

    Na medida em que a pessoa deixa a prisão kármica os acessos aos pensamentos da própria mente também vão se ajustando. Os pensamentos passivos já não são dominantes, cada elemento da mente adquire cada vez mais vida e forma própria. A estrada entre a mente e a obra das mãos adquire novos desafios.
     
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