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A ambulância

Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por Taiguara, 18 Out 2012.

  1. Taiguara

    Taiguara Usuário

    Era uma manhã de sempre em São Paulo. Eu e os outros fazíamos nossa procissão motorizada rumo ao trabalho. Absorto em pensamentos mesquinhos, eu engatava a primeira e a segunda, flutuando nessa banheira onde a revolta e o conformismo fazem sexo.

    Uma coisa, porém, me chamou a atenção nesse dia, e minha vida nunca mais foi a mesma.

    Pelo retrovisor de meu automóvel, vi chegando, lá de longe, uma ambulância. Ela avançava rapidamente entre as frestas que conseguia abrir com sua sirene escandalosa. Quando se aproximou, afastei meu carro dando espaço, mas não sem observar atentamente a expressão determinada do condutor.

    Com os olhos injetados de concentração, o bravo paladino da saúde abria caminho pelo trânsito como um explorador faz sua trilha pela mata fechada com uma faca. Admirei aquele homem como não havia admirado nenhum outro antes.

    E aquilo despertou em minha mente ideias que me eram completamente inéditas. Enquanto alguns dedicavam as horas de seus dias ao ligeiro resgate dos acidentados, que fazia eu das minhas? Quem eu ajudava sentado ao volante, deixando cada segundo precioso de existência esvair-se? A insatisfação silenciosa que ardia dia após dia por dentro de minhas veias havia finalmente atingido seu limite.

    Sempre dirigi muito bem, e isso ficaria óbvio se eu tivesse espaço para desenvolver velocidades razoáveis, vez ou outra. Eu precisava de uma sirene e alguns doentes para salvar. Todos descobririam meu valor.

    Abandonei meu emprego e resolvi tomar providências para me tornar um motorista de ambulância. Realizei um curso de condução de emergência, pré-requisito para o cargo almejado. Também fiz todos os procedimentos exigidos pelo Detran: gabaritei a prova teórica, passei com maestria pelo teste prático e, rapidamente, estava habilitado na categoria D. Passei a dominar aquele veículo e o asfalto paulistano logo seria meu jardim.

    Infelizmente, o mercado não me considerava pronto para a profissão. Enviei currículos para hospitais públicos, privados, gerais, especializados, em São Paulo e nas cidades vizinhas, sem sucesso. Todos queriam profissionais com experiência na área; de nada valia meu diploma de administração pela Getúlio Vargas, e muito menos o mestrado concluído com nota máxima nos Estados Unidos.

    Para não perder o ânimo, eu alugava vans de porte parecido ao das ambulâncias e guiava até cidades do interior, só para praticar. Assim passaram-se alguns meses, mas persisti.

    Certo dia, já cansado da indiferença de todos perante a minha evidente vocação para a profissão que escolhi — a despeito da remuneração —, recebi um telefonema. Fui chamado para uma entrevista em um hospital particular na região central da cidade.

    No dia marcado, uma quarta-feira à tarde, saí de casa com umas três horas de antecedência. Eu estava confiante e nada poderia dar errado; a vaga era minha e eu sabia. Aguardei pacientemente e, quando chegou o momento de conversar com a psicóloga dos recursos humanos, não falhei. Mostrei a ela que estava pronto para desempenhar tão nobre função.

    Na segunda-feira que se seguiu, lá estava eu em meu novo uniforme branco esperando um chamado. Ansioso, indagava-me quem seria o primeiro a precisar de meus serviços. Talvez uma mocinha atropelada, ou então um velho rico que sofre de problemas cardíacos. Nada disso. Soou o alarme: acidente envolvendo motocicleta e automóvel na Avenida 9 de Julho. Eu me sentia pronto, minha hora finalmente havia chegado.

    Mais por costume que por crença, orei. Pedi a Deus que me ajudasse a cumprir meu trabalho. Pedi a Ele que me desse capacidade para realizar com perfeição a minha função na sociedade, tão penosamente assumida. Após o derradeiro amém, levantei determinado e entrei na ambulância. Chequei brevemente a posição dos espelhos, liguei a sirene e dei a partida.

    O percurso estava tatuado em minha mente. Em ocasiões normais eu teria pegado a Marginal, mas munido de uma sirene o melhor caminho certamente seria a Cidade Jardim. E foi pra lá que nós rumamos, eu, os paramédicos, a enfermeira. Todos ficaram impressionados pela habilidade e precisão com que o novato conduzia a ambulância. Cada ultrapassagem milimétrica gerava olhares espantados de admiração.

    Em poucos minutos, eu não só havia chegado ao destino, tinha também provado que nascera para o ofício. Eu era um gênio na condução de veículos de resgate e eles sabiam disso. Confesso que não foi sem dificuldade que escondi minha felicidade, mas a situação tensa não permitia que eu sorrisse abertamente. Não me privei, porém, de uma leve inclinação de canto de boca.

    Antes de um fiel relato do resultado de meu primeiro resgate, permito-me uma brevíssima explicação sobre a calma que emprego na linguagem do presente escrito. Os acontecimentos que se seguirão não são para mim simples de compreender. Hoje, apenas deixei de questionar todo tipo de força superior que possa existir sobre o que me passou. A tranqüilidade da escrita é, portanto, antes fruto de um alheamento em relação à minha própria vida que uma forma de superação, de esquecimento.

    Ainda entorpecido de orgulho, deixei o carro e fui me posicionar para auxiliar os paramédicos no socorro da vítima, o procedimento padrão. No momento em que pisei na calçada, vi a perna do motoqueiro, em sangue ardente, vermelho, abundante, vermelho. Vermelho. Meus olhos se encheram de vermelho.

    Acordei no hospital, em uma sala desconhecida, sozinho, confuso, sem perceber o que se passara nos últimos minutos, talvez horas. Também não sei quanto tempo se passou até que aparecesse a sardenta garota do RH que havia me entrevistado alguns dias antes. Fui demitido ainda no meu período de teste, por inaptdão.

    A confusão que se apoderou de meus pensamentos durante o episódio permaneceu alojada em meus sentimentos pelos meses que se seguiram. Eu pouco podia distinguir o sono da vigília. Meus dias ganharam uma neblina de fantasia e irrealidade, na mesma medida em que os sonhos se tornaram vivos. O normal era que eu passasse dezessete horas na cama, delirando sobre meu primeiro resgate.

    Cada vez que sonhava, a história tinha um final diferente. Inúmeras vezes fui bem sucedido, socorri o motoqueiro e recebi cumprimentos orgulhosos de meus superiores.

    Durante o pouco tempo que passava acordado, tentava dar alguma atenção ao meu filho, sem poder me concentrar realmente na atividade.

    Minha mulher tentava me animar.

    - Você ainda é o melhor condutor da cidade, dizia.

    - Não preciso de elogios.

    Quem não precisa de elogios? Se os elogios não forem o principal combustível de uma vida, são certamente óleos lubrificantes extremamente necessários ao bom funcionamento dela. Propositalmente, afastava os esforços sinceros e pacientes da esposa que me amava, mesmo sem saber o motivo.

    Ainda assim, o primeiro a perder a paciência fui eu. Um dia, num impulso descontrolado, respondi a um desaforo qualquer dito por ela com um empurrão violento que a lançou ao chão. Olhei imóvel ao espetáculo do choro da mulher, que pedia trêmula que eu fosse embora. E então me fui.

    Hoje, com a ajuda de um psiquiatra, chego a passar semanas sem pensar no dia do resgate. Vejo meu filho a cada quinze dias, na casa da mãe, que prefere não estar presente nas visitas. Ocupo a maioria de meus dias com leituras e contemplação. Trabalho durante as noites, na companhia de lixo, como motorista. O cheiro do lixo já não me desagrada, e não me causa ânsias como o sangue.

    Já sem tristeza nem remorso, chego até a ser irônico ao pensar na minha triste sorte. Ao descobrir minha vocação, descobri também a solidão entorpecida do destino.

    Leonardo Blecher
     

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