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10 Regras para Escrever Ficção

Tópico em 'Clube dos Bardos' iniciado por Gigio, 12 Jun 2010.

  1. Gigio

    Gigio Usuário

    Há uns meses, quando saiu um livro chamado "10 Rules of Writing", de Elmore Leonard, o jornal
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    fez uma matéria em que pedia a diversos escritores britânicos de ficção para que fizessem suas próprias listas das 10 regras para se escrever ficção. O resultado veio com com todo tipo de dica: engraçadas, práticas, técnicas, psicológicas, etc. Bem interessante, não apenas para quem pretende escrever, mas também quem tem curiosidade sobre o mundo desses escritores.

    Traduzi algumas listas, selecionando mais pela fama, mas pra quem quiser conferir, lá no jornal existem várias outras...

    Algo que me surpreendeu é a maneira um tanto fascista pela qual esses escritores, que estão entre os melhores, tomam seu próprio exercício de escrita. Falam muito menos de inspiração e criatividade do que de trabalho e disciplina. Substitua-se em alguma dessas listas "escrever" por "servir à pátria" e mantém-se razoavelmente a coerência... Será que isso é uma consequência do jeito britânico de dizer as coisas diretamente, mesmo o que os outros não gostariam de ouvir, ou será que escrever é assim tão pouco divertido?
     
  2. JLM

    JLM mata o branquelo detta walker

    pode ter soado fascista pra vc, mas pra mim pareceu bem pragmática. talvez por eu mesmo acreditar q inspiração é apenas 1% do trabalho d escrita, sendo o restante transpiração, suor, esforço, resumindo: revisões &+ revisões.

    & mesmo assim há diversão, talvez uma diversão bem mais profunda, profissional, até do próprio ser q a q o garotinho experimenta qdo rabisca seu 1º desenho se achando picasso &q os pais aplaudem mas q na verdade ñ passa de rabisco.
     
  3. Indu

    Indu MANDALORIAN

    :rofl:


    Eu achei interessante cada ponto de vista de cada escritor, mas do Neil Gaiman, é o que mais me interessou.
     
  4. Clara

    Clara Antifa Usuário Premium

    Não sei você Gigio, mas eu nunca considerei escrever divertido.
    Mais por causa disso aqui:

    Não consigo me acostumar com isso, odeio ler o que escrevo.


    É por isso que eu prefiro ler a escrever!


    :rofl:


    Nossa que besteira isso! ¬¬
    Como se só existisse meia dúzia de ficções que valem a pena ler no mundo.


    Hein?! Quié isso? o_O
    Essa senhora precisa conhecer uma maravilhosa invenção chamada "Apontador", tem uns até com recipiente pra guardar as aparas e ainda vêm com desenhos da Puca ou do Ben 10!
     
  5. kika_FIL

    kika_FIL Usuário

    MAs assim.... será que deixam a gente entrar no avião com um apontador? hehehehe

    Eu concordo com a parte do rascunho....e editar realmente é a maior parte da escrita (estou descobrindo isso agora)..mas é divertido.... o duro é ter de lidar com as milhares de facetas da história que brigam entre si
     
  6. Katrina

    Katrina Usuário

    Eu já embarquei! XD
    (Em Brasília, Cuiabá e Sampa)
    Meu estojo de lápis e canetas sempre vai na mochila e nunca pediram para eu deixá-lo.
     
  7. kika_FIL

    kika_FIL Usuário

    Mas pra viagens internacionais tb? Sabe como é né? esses escritores já passaram por cima das pontes aéreas... Nunca olharam o qu tenho na bolsa quando entrei em avião, mas nunca saí do país com um apontador na mala...
     
  8. Clara

    Clara Antifa Usuário Premium

    :rofl:

    Eu não sei se pode ou não viajar com apontador de lápis em avião.
    O que sei é que esse conselho foi muito "nada a ver", pareceu que a mulher estava enchendo linguiça pra completar o número dez.
    Melhor seria ter aconselhado a levar sempre consigo algo pra escrever as ideias (bloco, lapiseira, laptop, rímel, lousa mágica, tinta spray) e deixar só oito ou nove dicas, como fez o Gaiman.
    E depois, acredito que um escritor iniciante não tem dinheiro pra ficar saracoteando de avião constantemente, mesmo que viva nas Orópa.
     
  9. Gigio

    Gigio Usuário

    Vocês têm razão. A minha própria experiência também é de que escrever exige grande dedicação e que é muito mais fácil, depois daquele impulso das primeiras ideias, deixar tudo pra lá, como o Gaiman recomenda que não se faça. Mas acho que antes de ler essas regras eu ainda conseguia alimentar a fantasia de que em algum nível de proficiência haveria uma metamorfose...

    Mas acho também que esses escritores foram especialmente cuidadosos com suas dicas para não estimular qualquer maluco a começar a escrever e depois entrar em depressão com o primeiro fracasso. Normalmente somos mais cautelosos, né, com opiniões que podem mudar o destino de alguém, como quando alguém te pergunta algo como "devo pedir demissão?" ou "devo largar a faculdade?".

    Clara, também acho difícil lidar com essa sensação de "superexposição". (Até para escrever no Meia... :timido:) Mas acho que esses escritores dão boas dicas a esse respeito. Como diz a Atwood, isso é natural, porque a gente sabe que "o que fascina A irá entendiar totalmente B". E sendo assim, o melhor caminho, como diz o Gaiman, é fazer "com suficiente segurança e confiança". :sim:
     
  10. Clara

    Clara Antifa Usuário Premium

    :sim:
    Resumindo tudo, esse é o melhor conselho mesmo.
     
  11. Brontops

    Brontops Usuário

    Elmore Leonard, citado inicialmente no post do Gigio, é um escritor policial reconhecido. Eu nunca li nada de Elmore, provavelmente sempre confundir o nome dele com o de James Ellroy, escritor de Dália Negra e Los Angeles - Cidade Proibida e com uma biografia perturbadora (Sua mãe foi assassinada e nunca se descobriu o culpado). James Ellroy é fantástico. Elmore, eu não sei. Mas o jornalista André Forastieri o idolatra.

    Em seu blogue, Forastieri traduziu e publicou "as Dez Regras" que foram a origem da matéria do The Guardian. Segue abaixo os trechos que interessam da postagem:

    http://noticias.r7.com/blogs/andre-forastieri/2009/11/01/dez-regras-para-escrever-um-romance/


    10 Rules of Writing

    1. Nunca comece um livro falando sobre o tempo.
    2. Evite prólogos.
    3. Nunca use nenhum verbo para carregar o diálogo que não seja “dizer” (tipo, “ele disse” em vez de “ele justificou”, “afirmou”, “disparou” etc.)
    4. Nunca use um advérbio junto com “disse” (como em “disse ele seriamente”).
    5. Mantenha seus pontos de exclamação sobre controle.
    6. Nunca use as palavras “suddenly” ou “all hell broke loose”.
    7. Use pouco gírias e dialetos regionais.
    8. Evite descrições detalhadas de personagens.
    9. Não detalhe muito coisas e lugares.
    10. Tente deixar de fora a parte que os leitores tendem a pular.

    A mais importante ficou para fechar.

    “Se soa como algo escrito, eu reescrevo.

    E se a gramática está atrapalhando, passe por cima dela. Não posso permitir que o que aprendi na escola atrapalhe o som e o ritmo da narrativa.

    É minha tentativa de permanecer invisível e não distrair o leitor da história com um texto óbvio.

    Como dizia Joseph Conrad, as palavras não podem bloquear o que você tem a dizer”.
    [hr]
    Sim, concordo... As "regras" não são fascistas... Nem sei bem se eu chamaria todas elas como "regras"... Talvez melhor fosse chamar "métodos". "Métodos" para evitar a dispersão. "Métodos" para se incentivar. "Métodos" para lidar com seus pontos fracos. "Métodos" para desenvolver seu lado crítico. "Métodos" para ter o que dizer. "Regras" me traz a impressão de algo incontornável, o qual você terá que cumprir, como instruções para dirigir um automóvel. Observe que eles mesmos não parecem encarar a maioria de suas "regras" como sagradas. Então melhor não levar isto tudo a ferro e fogo.

    A ideia é uma coisa "pequena"... Muito pequena. O difícil é encontrar a melhor forma de passar esta ideia. Há um texto do Neil Gaiman (se não me engano, disponível em seu blog, "De onde você tira suas ideias?") que reforça exatamente isto.

    Há também um artigo engraçado de Braulio Tavares comenta sobre este conceito que a maioria das pessoas possui sobre a grande importância das ideias para a criação. Vale uma lida:
    http://mundofantasmo.blogspot.com/2010/02/1632-o-beletrista-teorico-562008.html

    Também acho que escrever precisa ser um ato "divertido". Bem, se não for divertido, então pra que escrever? Masoquismo? Ou trabalho? Dizem que Kafka morria de rir de seus contos-pesadelos... Isto pode soar um pouco estranho, mas depois de ler a versão R.Sikoryak misturando Metamorfose & Peanuts, você vai perceber que a história tinha realmente sua graça...

    Abs
     
  12. Brontops

    Brontops Usuário

    Uma postagem do
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    que penso ter a ver com o assunto. Faz referência a um autor que desconheço, David Markson, mencionado em um
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    r:

    http://blog.antonioxerxenesky.com/?p=604

    Sem Regras

    Geralmente as leituras que impactam um leitor são aquelas “diferentes de tudo já visto antes”. Esquisito, então, eu ficar tão impactado com Naquele dia, o último romance do mestre do policial contemporâneo Dennis Lehane (de Sobre meninos e lobos). Por que ele me impressionou tanto? Porque é um livro excelente e porque ele é completamente ordinário. Sim, Naquele dia é narrado em terceira pessoa onisciente. Não há uma diferença muito marcante entre o narrador de Lehane e aquele realista do século XIX, exceto talvez que os Flauberts da vida são mais apaixonados por detalhes e frases elaboradas. Tá, OK, há gazilhões de diferenças. Não é isso que quero dizer. Quero dizer que, em momento algum, a problemática de “como contar uma história” vem à tona em Naquele dia. Não. Nenhum sofrimento quanto a isso, com “o que é literatura” ou “como se pode falar qualquer coisa” ou “quem conta essa história?”. Como um best-seller, só que bom (antes que me acusem de preconceito, que conste que tentei ler o Yalom e o D Brown). Naquele dia é aquilo que eu, enquanto autor, nunca conseguiria fazer, e que muitos autores da minha geração aqui do Brasil também não: uma história bem contada, sem mais. Bons personagens, muitos acontecimentos. Fim. E pensar que eu já disse que escrever ficção em terceira pessoa onisciente nos dias de hoje era impossível, parecia impostura.

    ***

    Não há uma hierarquia entre livros narrados de x maneira ou y, entre livros que questionam o seu próprio objeto e os que não, livros que se vendem como “alta literatura” e livros despretensiosos. Essa é uma lição, talvez.

    ***

    Como é comum ouvir da boca de alguém: “a literatura deveria …”. Deveria o quê? Retratar o mundo como ele é? Dar voz aos que não tem? Questionar seus limites? Repensar sua função? Contar uma história, sem mais nem menos?

    Todos tem uma teoria. Eu tenho a minha, e é a seguinte: o escritor escreve do jeito que ele sabe escrever sobre os assuntos que ele sabe. Ele não escreve “o livro que quer ler”, porque geralmente gosta de coisas muito diversas. As chamadas “influências” nem sempre se mostram vivas no livro.

    Eu sei escrever daquele jeito, do jeito que eu forjei. Mescla de bagagem de leituras, preferências estéticas, experiência de vida e outras coisas que entram na equação e que nunca saberemos ao certo quais são. Meu escritor brasileiro favorito, o André Sant’Anna, escreve de uma maneira que não tem nada a ver com a minha. São maneiras de narrar totalmente válidas, a minha e a dele.

    ***

    No último post defendi o experimentalíssimo David Markson, que construiu sua literatura sobre questionamentos do que é um romance, e aqui defendo o oposto dele, o Dennis Lehane, que só contou histórias. Quem está certo? Vale lembrar a frase de Pynchon, num de seus raros comentários públicos, quando apresentou seu livro Against the Day: “Let the reader decide, let the reader beware. Good luck.” Que o leitor decida.

    ***

    É uma questão de mercado. Não “mercado” no sentido “força opressora invisível”, não. No sentido de que cada autor forma seu público leitor, cava seu nicho. Se você é um leitor que detesta autores que só criam ficção ao redor da própria vida, você evitará até a morte J.M. Coetzee. Se você detesta livros que só falam de outros livros, não lerá Enrique Vila-Matas. Se você detesta livros policiais, não lerá Raymond Chandler. Se você detesta literatura cheia de subjetivismo, fugirá de Lispector. Eu fujo.

    O leitor que decide. A literatura não deveria ser de X ou Y ou maneira. “Os livros não devem falar de si mesmos!”, eu escuto sempre. Puah. O leitor que decida. Cada um lê o que quer. Ninguém te obriga a nada. E o meme da internet tem cada vez mais razão: “Hater’s gonna hate”. Quem odeia X, continuará assim. Evite. Nem chegue perto, economize os trocos.

    ***

    Dizer que a literatura não tem fôrma de bolo é um lugar comum monstruoso. Se não fosse verdade, cansaria repetir. Sendo tão verdadeiro, cabe falar disso mais uma vez sempre que nos deparamos com um livro que nos lembra disso. O meu foi Naquele dia. Agora vou ficar mais uns cinco anos sem dizer que “escrever literatura em terceira pessoa onisciente nos dias de hoje é impossível”. Sim, o post foi, de certa forma, um gigantesco mea culpa. A gente diz cada bobagem nessa vida. Se serve de defesa, que conste que o Sebald já disse algo similar.

    ***

    Não tem regras, o leitor que decida. Hater’s gonna hate, lover’s gonna love. Boa tarde.
     
  13. Gigio

    Gigio Usuário

    Muito engraçado mesmo esse artigo do Braulio Tavares... :lol: Não tinha imaginado que existisse essa praga dos beletristas. E por acaso topei com um caso desses na história que estava lendo hoje, "O Dia do Gafanhoto", do Nathanael West. O livro é de 1939, então o problema não é coisa recente...

    Sobre o artigo do Xerxenesky, o que me surpreendeu mais foi essa afirmação de que os escritores não criam os "livros que querem ler". Como assim?? Pois se essa não é uma das dicas mais comuns. A dica nº 3 da Hilary Mantel, por exemplo, é justamente "escreva um livro que você gostaria de ler". Mas acho que dá para entender em que sentido isso normalmente é aplicado. Quando um escritor vai produzir algo, se encontra cercado por correntes de toda espécie, como de estilo (romance epistolar, realismo fantástico...) e tema (Egito Antigo, vampiros...). Então, "escrever o que se gostaria de ler" se opõe a "escrever o que está em voga". Por exemplo, pode parecer óbvio hoje o sucesso de "Crepúsculo", mas a princípio a ideia da série deve ter soado um tanto ousada.

    Por outro lado, foi interessante o Xerxenesky chamar a atenção para o fato de que não existe uma equação simples entre o gosto enquanto leitor e a capacidade enquanto escritor. Algo que está mais associado à dica nº 4 da Zadie Smith:

     
  14. Brontops

    Brontops Usuário

    Tenho minhas dúvidas que ele se referia aos "temas".

    Bom, como está no blogue dele, talvez o melhor fosse conversar com ele pelos comentários...
    Mas acho que não há problema se eu arriscar uns palpites:
    - tem justamente algo a ver com a sensação/verdade de que o que você escreve/faz não está a altura de seus objetivos/sonhos. Isto portanto não é uma "dica", seria um complemento a regra de Mantel: "Escreva o livro que você gostaria de ler, mas prepare-se: não será o livro que você gostaria de ter lido."
    - Sob o aspecto puramente formal, ele diz que cada um tem sua própria forma de escrever e narrar e isto faz diferença no efeito final da história. Contar uma história no estilo do Saramago tem um efeito bem diferente de se contar a mesma história nas gírias "de mano" dos Racionais MC. Pode ficar cômico, pode ficar mais real, pode ficar incompreensível a quem não for das quebradas... A história é a mesma, mas o impacto, o resultado final será bastante diferente na cabeça do leitor.



    Abs
     
  15. Brontops

    Brontops Usuário

    Outras dez regras, desta vez do escritor brasileiro Nelson de Oliveira:

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    1. Ler muito. Ler de tudo. Ler sem preconceito. Os prosadores devem ler bons poemas. Os poetas devem ler boa prosa. Digo isso porque tenho notado que a maioria dos prosadores não aprecia a arte poética, assim como a maioria dos poetas não aprecia a arte da prosa. Isso não é sinal de inteligência. O escritor iniciante também precisa cultivar o gosto pela reflexão teórica. Livros de filosofia, de crítica e de história da literatura precisam freqüentar sua mesa de trabalho.

    2. Ler muito. Ler de tudo. Ler sem preconceito. Ler o passado e o presente, o cânone e a atualidade. Digo isso porque tenho notado que metade dos escritores iniciantes aprecia somente a literatura contemporânea, enquanto a outra metade aprecia somente os clássicos. Isso não é sinal de inteligência. O passado e o presente precisam estar em perpétuo diálogo.

    3. Ler muito. Ler de tudo. Ler sem preconceito. Ler os brasileiros e os estrangeiros, os daqui e os de lá. Digo isso porque tenho notado que metade dos escritores iniciantes aprecia somente a literatura brasileira, enquanto a outra metade aprecia somente os estrangeiros. Isso não é sinal de inteligência. Certo, eu confesso: eu pertenço ao primeiro time, esse mandamento vale pra mim. Aprecio muito mais a prosa e a lírica brasileiras do que a prosa e a lírica estrangeiras. Por isso tenho me obrigado, ao menos profissionalmente, a estar sempre em contato com os de lá. Minha tese de doutorado foi sobre a lírica portuguesa contemporânea.

    4. Ler muito. Ler de tudo. Ler sem preconceito. Ler desconfiando do que está lendo, ler desconfiando do autor, do editor, do livreiro. Desconfie dos livros de sua predileção, desconfie mais ainda dos autores de sua predileção. Livros e autores, ame-os intensamente, sim, mas jamais se entregue à idolatria cega, pois os escritores são mestres na arte da sedução e do engano.

    5. Ver muito. Ver de tudo. Ver sem preconceito. Cinema, dança, artes plásticas, teatro, seriados de tevê. Ouvir muito. Ouvir de tudo. Ouvir sem preconceito. Música erudita e popular, clássica e contemporânea. Ler muito. Ler de tudo. Ler sem preconceito. Quadrinhos, quadrinhos, quadrinhos. Jogar muito. Jogar de tudo. Jogar sem preconceito. Videogame, RPG, cosplay.

    6. A literatura é antes de tudo linguagem. Linguagem articulada com sensibilidade e talento. Linguagem estética, subjetiva, conotativa, que ultrapassa a linguagem ordinária, objetiva, denotativa. O escritor não deve procurar com avidez o mínimo denominador comum: apenas a linguagem que é acessível à maioria das pessoas. Quem faz isso são os autores de best-sellers, simples contadores de histórias, simples versejadores, não os verdadeiros escritores.

    7. Evite o estereótipo, fuja do clichê, corra do chavão, não marque encontro com o lugar-comum. O critério originalidade não é exclusivo apenas do desfile das escolas de samba, ele ainda faz sentido também na atividade literária.

    8. Bons sentimentos não fazem boa literatura. Afaste-se do tratamento edificante, repleto de boas intenções. A sociedade está cheia de defeitos, porém a melhor forma de propor soluções não é produzir literatura doutrinária, militante, moralista.

    9. A função da boa literatura não é entreter e deleitar, mas inquietar e provocar o leitor. Se a narrativa e o poema passam o tempo todo adulando o leitor, dando-lhe somente o que ele deseja, evitando constrangê-lo ou contrariá-lo, essa narrativa e esse poema são péssimas peças literárias.

    10. Prosadores, evitem as formas consagradas, evitem o conto e o romance realista, inventem sua própria forma, a teoria do efeito único e concentrado (Poe e Tchekov) e a do iceberg (Hemingway e Piglia) pertencem ao passado glorioso. Poetas, evitem as formas clássicas, evitem o verso de medida fixa, inventem sua própria métrica, fujam da rima, o poema regularmente metrificado e rimado pertence ao passado glorioso.

    * Esse decálogo foi montado a partir dos textos da coletânea A oficina do escritor: sobre ler, escrever e publicar, lançada este ano pela Ateliê Editorial.
     
  16. Brontops

    Brontops Usuário

    DECALÓGO DO LEITOR

    Por Alberto Mussa




    I - Nunca leia por hábito: um livro não é uma escova de dentes. Leia por vício, leia por dependência química. A literatura é a possibilidade de viver vidas múltiplas, em algumas horas. E tem até finalidades práticas: amplia a compreensão do mundo, permite a aquisição de conhecimentos objetivos, aprimora a capacidade de expressão, reduz os batimentos cardíacos, diminui a ansiedade, aumenta a libido. Mas é essencialmente lúdica, é essencialmente inútil, como devem ser as coisas que nos dão prazer.

    II – Comece a ler desde cedo, se puder. Ou pelo menos comece. E pelos clássicos, pelos consensuais. Serão cinqüenta, serão cem. Não devem faltar As mil e uma noites, Dostoiévski, Thomas Mann, Balzac, Adonias, Conrad, Jorge de Lima, Poe, García Márquez, Cervantes, Alencar, Camões, Dumas, Dante, Shakespeare, Wassermann, Melville, Flaubert, Graciliano, Borges, Tchekhov, Sófocles, Machado, Schnitzler, Carpentier, Calvino, Rosa, Eça, Perec, Roa Bastos, Onetti, Boccaccio, Jorge Amado, Benedetti, Pessoa, Kafka, Bioy Casares, Asturias, Callado,Rulfo, Nelson Rodrigues, Lorca, Homero, Lima Barreto, Cortázar, Goethe, Voltaire, Emily Brontë, Sade, Arregui, Verissimo, Bowles, Faulkner, Maupassant, Tolstói, Proust, Autran Dourado, Hugo, Zweig, Saer, Kadaré, Márai, Henry James, Castro Alves.

    III – Nunca leia sem dicionário. Se estiver lendo deitado, ou num ônibus, ou na praia, ou em qualquer outra situação imprópria, anote as palavras que você não conhece, para consultar depois. Elas nunca são escritas por acaso.

    IV – Perca menos tempo diante do computador, da televisão, dos jornais e crie um sistema de leitura, estabeleça metas. Se puder ler um livro por mês, dos 16 aos 75 anos, terá lido 720 livros. Se, no mês das férias, em vez de um, puder ler quatro, chegará nos 900. Com dois por mês, serão 1.440. À razão de um por semana, alcançará 3.120. Com a média ideal de três por semana, serão 9.360. Serão apenas 9.360. É importante escolher bem o que você vai ler.

    V – Faça do livro um objeto pessoal, um objeto íntimo. Escreva nele; assinale as frases marcantes, as passagens que o emocionam. Também é importante criticar o autor, apontar falhas e inverossimilhanças. Anote telefones e endereços de pessoas proibidas, faça cálculos nas inúteis páginas finais. O livro é o mais interativo dos objetos. Você pode avançar e recuar, folheando, com mais comodidade e rapidez que mexendo em teclados ou cursores de tela. O livro vai com você ao banheiro e à cama. Vai com você de metrô, de ônibus, e de táxi. Vai com você para outros países. Há apenas duas regras básicas: use lápis; e não empreste.



    VI - Não se deixe dominar pelo complexo de vira-lata. Leia muito, leia sempre a literatura brasileira. Ela está entre as grandes. Temos o maior escritor do século XIX, que foi Machado de Assis; e um dos cinco maiores do século XX, que foram Borges, Perec, Kafka, Bioy Casares e Guimarães Rosa. Temos um dos quatro maiores épicos ocidentais, que foram Homero, Dante, Camões e Jorge de Lima. E temos um dos três maiores dramaturgos de todos os tempos, que foram Sófocles, Shakespeare e Nelson Rodrigues.

    VII - Na natureza, são as espécies muito adaptadas ao próprio hábitat que tendem mais rapidamente à extinção. Prefira a literatura brasileira, mas faça viagens regulares. Das letras européias e da América do Norte vem a maioria dos nossos grandes mestres. A literatura hispano-americana é simplesmente indispensável. Particularmente os argentinos. Mas busque também o diferente: há grandezas literárias na África e na Ásia. Impossível desconhecer Angola, Moçambique e Cabo Verde. Volte também ao passado: à Idade Média, ao mundo árabe, aos clássicos gregos e latinos. E não esqueça o Oriente; não esqueça que literatura nenhuma se compara às da Índia e às da China. E chegue, finalmente, às mitologias dos povos ágrafos, mergulhe na poesia selvagem. São eles que estão na origem disso tudo; é por causa deles que estamos aqui.

    VIII – Tente evitar a repetição dos mesmos gêneros, dos mesmos temas, dos mesmos estilos, dos mesmos autores. A grande literatura está espalhada por romances, contos, crônicas, poemas e peças de teatro. Nenhum gênero é, em tese, superior a outro. Não se preocupe, aliás, com o conceito de gênero: história, filosofia, etnologia, memórias, viagens, reportagem, divulgação científica, auto-ajuda – tudo isso pode ser literatura. Um bom livro tem de ser inteligente, bem escrito e capaz de provocar alguma espécie de emoção.

    IX - A vida tem outras coisas muito boas. Por isso, não tenha pena de abandonar pelo meio os livros desinteressantes. O leitor experiente desenvolve a capacidade de perceber logo, em no máximo 30 páginas, se um livro será bom ou mau. Só não diga que um livro é ruim antes de ler pelo menos algumas linhas: nada pode ser tão estúpido quanto o preconceito.

    X – Forme seu próprio cânone. Se não gostar de um clássico, não se sinta menos inteligente. Não se intimide quando um especialista diz que determinado autor é um gênio, e que o livro do gênio é historicamente fundamental. O fato de uma obra ser ou não importante é problema que tange a críticos; talvez a escritores. Não leve nenhum deles a sério; não leve a literatura a sério; não leve a vida a sério. E faça o seu próprio decálogo: neste momento, você será um leitor.
     
  17. Brontops

    Brontops Usuário

    DECÁLOGO DO ESCRITOR

    Por Miguel Sanches Neto





    Depois de leitor, você pode se tornar, então, escritor– embora, pasme, muitos hoje pulem a leitura, por julgá-la dispensável, e já desejem publicar





    I - Não fique mandando seus originais para todo mundo.Acontece que você escreve para ser lido extramuros, e deseja testar sua obra num terreno mais neutro. E não quer ficar a vida inteira escrevendo apenas para uma pessoa. O que fazer então para não virar um chato? No passado, eu aconselharia mandar os textos para jornais e revistas literárias, foi o que eu fiz quando era um iniciante bem iniciante. Mas os jovens agora têm uma arma mais democrática. Publicar na internet. Há muitos espaços coletivos, uma liberdade de inclusão de textos novos e você ainda pode criar seu próprio site ou blog, mas cuidado para não incomodar as pessoas, enviando mensagens e avisos para que leiam você.



    II - Publique seus textos em sites e blogs e deixe que sigam o rumo deles. Depois de um tempo publicando eletronicamente, você vai encontrar alguns leitores. Terá de ler os textos deles, e dar opiniões e fazer sugestões, mas também receberá muitas dicas.



    III - Leia os contemporâneos, até para saber onde é o seu lugar. Existe um batalhão de internautas ávidos por leitura e em alguns casos você atingirá o alvo e terá acontecido a magia de um texto encontrar a pessoa que o justifica. Mas todo texto escrito na internet sonha um dia virar livro. Sites e blogs são etapas, exercícios de aquecimento. Só o livro impresso dá status autoral. O que fazer quando eu tiver mais de dois gigas de textos literários? Está na hora de publicar um livro maior do que Em busca do tempo perdido? Bem, é nesse momento que você pode continuar sendo um escritor iniciante comum ou subir à categoria de iniciante com experiência. Você terá que reduzir essas centenas e centenas de páginas a um formato razoável, que não tome muito tempo de leitura de quem, eventualmente, se interessar por um livro de estréia. Para isso,
    você terá de ser impiedoso, esquecer os elogios da mulher e dos amigos e selecionar seu produto, trabalhando duro para que fique sempre melhor.



    IV – Considere apenas uma pequenina parte de toda a sua produção inicial, e invista na revisão dela, sabendo que revisar é cortar. O livro está pronto. Não tem mais do que 200 páginas, você dedicou anos a ele e ainda continua um iniciante. Mas um iniciante responsável, pois não mandou logo imprimir suas obras completas com não sei quantos tomos, logo você que talvez nem tenha completado 30 anos. Mas você quer fazer circular a sua literatura de maneira mais formal. Quer o livro impresso. E isso é hoje muito fácil. Você conhece um amigo que conhece uma gráfica digital que faz pequenas tiragens e parcela em tantas vezes. O livro está pronto. E anda sobrando um dinheirinho, é só economizar na cerveja.

    V - Gaste todo seu dinheiro extra em cerveja, viagens, restaurantes e não pague a publicação do próprio livro. Se você fizer isso, ficará novamente ansioso para mandar a todo mundo o volume, esperando opiniões que vão comparar o seu trabalho ao dos mestres. O livro impresso, mesmo quando auto-impresso, dá esta sensação de poder. Somos enfim Autores. E podemos montar frases assim: Borges e eu valorizamos o universal. Do ponto de vista técnico, Borges e eu estamos no mesmo nível: produzimos obras impressas; mas a comparação não vai adiante. Então como publicar o primeiro livro se não conhecemos ninguém nas editoras? E aí começa um outro problema: procurar pessoas bem postas em editoras e solicitar apresentações. Na maioria das vezes isso não funciona. E, mesmo quando o livro é publicado, ele não acontece, pois foi um movimento artificial.



    VI – Nunca peça a ninguém para indicar o seu livro a uma editora. Se por acaso um amigo conhece e gosta de seu trabalho, ele vai fazer isso naturalmente, com alguma chance de sucesso. Tente fazer tudo sozinho, como se não tivesse ninguém mais para ajudar você do que o seu próprio livro. Sim, este livro em que você colocou todas as suas fichas. E como você só pode contar com ele…

    VII - Mande seu livro a todos os concursos possíveis e a editoras bem escolhidas, pois cada uma tem seu perfil editorial. É melhor gastar seu dinheiro com selos e fotocópias do que com a impressão de uma obra que não será distribuída e que terá de ser enviada a quem não a solicitou. Enquanto isso, dedique-se a atividades afins para controlar a ansiedade, porque essas coisas de literatura demoram, demoram muito mesmo. Você pode traduzir textos literários para consumo próprio ou para jornais e revistas, pode fazer resenhas de obras marcantes, ler os clássicos ou simplesmente manter um diário íntimo. O importante é se ocupar. Com sorte e tendo o livro alguma qualidade além de ter custado tanto esforço, ele acaba publicado. Até o meu terminou publicado, e foi quando me tornei um iniciante adulto. Tinha um livro de ficção no catálogo de uma grande editora. E aí tive de aprender outras coisas. Há centenas de livros de iniciantes chegando aos jornais e revistas para resenhas e uma quantidade muito maior de títulos consagrados. E a maioria vai ficar sem espaço nos jornais. E é natural que os exemplares distribuídos para a imprensa acabem nos sebos, pois não há resenhistas para tantas obras.

    VIII – Não force os amigos e conhecidos a escrever sobre seu livro. Não quer dizer que eles não possam escrever, podem sim, mas mande o livro e, se eles não acusarem recebimento ou não comentarem mais o assunto, esqueça e não lhes queira mal, eles são nossos amigos mesmo não gostando do que escrevemos. Se um ou outro amigo escrever sobre o livro, festeje mesmo se ele não entender nada ou valorizar coisas que não julgamos relevantes em nosso trabalho. E mande umas palavras de agradecimento, pois você teve enfim uma apreciação. E se um amigo escrever mal de nosso livro, justamente dessa obra que nos custou tanto? Se for um desconhecido, ainda vá lá, mas um amigo, aquele amigo para quem você fez isso e aquilo.

    IX - Nunca passe recibo às críticas negativas. Ao publicar você se torna uma pessoa pública. E deve absorver todas as opiniões, inclusive os elogios equivocados. Deixe que as opiniões se formem em torno de seu trabalho, e talvez a verdade suplante os equívocos, principalmente se a verdade for que nosso trabalho não é lá essas coisas. O livro está publicado, você já pensa no próximo, saíram algumas resenhas, umas superficiais, outras negativas, uma muito correta. Você é então um iniciante com um currículo mínimo. Daí você recebe a prestação de contas da editora, dizendo que, no primeiro trimestre, as devoluções foram maiores do que as vendas. Como isso é possível? Vejam quantos livros a editora mandou de cortesia. Eu não posso ter vendido apenas 238 exemplares se, só no lançamento, vendi 100, o gerente da livraria até elogiou – enfim uma vantagem de ter família grande.



    X - Evite reclamar de sua editora. Uma editora não existe para reverenciar nosso talento a toda hora. É uma empresa que busca o lucro, que tem dezenas de autores iguais a nós e que quer ter lucro com nosso livro, sendo a primeira prejudicada quando ele não vende. Não precisamos dizer que é a melhor editora do mundo só porque nos editou, mas é bom pensar que ocorreu uma aposta conjunta e que não se alcançou o resultado esperado. Mas que há oportunidades para outras apostas e, um dia, quem sabe…Foi tentando seguir estas regras que consegui ser o autor iniciante que hoje eu sou.
     
  18. Brontops

    Brontops Usuário

    DECÁLOGO DO CRÍTICO

    Por Michel Laub



    Ler por obrigação, ganhar pouco, ser odiado por autores criticados ou ignorados por você. Ante tantos dissabores, saiba para que serve, afinal, fazer crítica literária





    I – Um bom começo pode ser a leitura de O imperador do vinho, de Elin McCoy, a biografia do americano Robert Parker. Trata-se da figura mais polêmica do universo milionário da enologia. Uma nota alta na The Wine Advocate, sua newsletter, é capaz de enriquecer um fabricante; uma nota baixa pode significar a falência. O olfato de Parker é segurado em cerca de US$ 1 milhão. Ao longo dos anos, percebeu-se que ele gostava de vinhos frutados. Muitas propriedades, até algumas tradicionais da França, passaram a chamar especialistas para estudar o solo, mudar a forma do plantio e da colheita, tudo para colher uvas que originassem vinhos adequados a esse gosto.

    II – Saiba que esse talvez seja o exemplo máximo de crítico bem-sucedido no mundo de hoje – rico de fato, influente de fato, uma presença de fato essencial em seu meio. Quase todos os outros profissionais da categoria, trabalhem eles com música, cinema, gastronomia, televisão ou concursos de beleza, estão bem mais próximos da figura descrita por George Orwell em Confissões de um resenhista: “Trinta e cinco anos, mas aparenta cinqüenta(…) [trabalha num] conjugado frio, mas abafado (…). Dos milhares de livros que aparecem todo ano, é quase certo que existam 50 ou 100 sobre os quais teria prazer em escrever. Se for de primeira categoria na profissão, pode conseguir dez ou vinte. É mais provável que consiga dois ou três”.

    III – Ou seja, prepare-se para uma atividade enfadonha e mal-remunerada. Você lerá só por obrigação. Nunca mais irá atrás de um livro indicado por um amigo. Nunca mais fechará um livro com a sensação de que, para o bem ou para o mal, não há nada a dizer sobre ele. Porque sempre haverá o que dizer. Se não houver, as contas não são pagas.

    IV - Não se preocupe, porém. Há muitos truques para encher essas páginas em branco. Se você quer desancar um livro e não sabe como, recorra a alguns adjetivos algo abstratos em se tratando de literatura, mas ainda assim úteis numa resenha. A timidez, por exemplo. Argumente que o autor não explora suficientemente os conflitos de sua obra. Afinal, explorar conflitos é uma tarefa que não tem fim, e há um momento em que todo autor, por mais extrovertido que seja, precisa parar. Outros chavões sempre à mão: excesso de objetividade,excesso de subjetivismo, excesso de frieza, excesso de dramaticidade. A categoria das “idéias fora de lugar”, deslocada de seu contexto original, também ajuda bastante. Um romance correto, instigante e envolvente pode ser atacado por reproduzir um modelo “burguês” de contar histórias, incompatível com o nosso tempo. Um romance sem essas características pode ser destruído, justamente, por ser mal-escrito e não envolver o leitor.



    V - Para o caso contrário, isto é, se você quer elogiar um livro que acha ruim – o das linhas finais do item IV, por exemplo –, há dois recursos clássicos: a) em relação à prosa desagradável, escatológica e/ou ilegível, diga que ela reproduz o incômodo e a irredutibilidade de sentidos do mundo contemporâneo; b) em relação à trama caótica e fragmentária, quando não se entende o que é início, o que é fim e do que é mesmo que estamos falando, afirme que a maçaroca reproduz, como uma “metáfora estrutural”, o caos fragmentário da sociedade pós-industrial.



    VI - Usando desses truques, você está pronto para fazer nome devido à afinação com o vocabulário crítico de sua época. Mas se, por um desses acasos raros, você está decidido a realmente dizer o que pensa, há também dois caminhos a seguir. O primeiro é confiar cegamente nos seus juízos pessoais, não temendo a exposição de seus preconceitos íntimos em público. Assim, você terá mais chances de ser considerado um sujeito ranheta, excêntrico e/ou pervertido.

    VII – O segundo caminho é considerar-se portavoz de um “sistema”, para o qual são válidas mesmo obras que não são do seu agrado (por questões sociológicas, por exemplo). Mesmo que os motivos sejam nobres – sua humildade para não se considerar o juiz definitivo sobre o que é ou não relevante em termos estéticos –, há boas probabilidades de você ser visto como um crítico sem alma, sem coragem, sem graça.

    VIII - Independentemente de sua escolha, é inevitável que você seja desprezado. Todos dirão que seu desejo secreto era ser ficcionista ou poeta, que você é leviano demais, complacente demais, que tem algum interesse obscuro – ascender na carreira, agradar aos pares da universidade, arrumar um(a) namorado(a) – ou está a soldo de alguma entidade obscura – grupos literários rivais, editores, maçons, seitas religiosas, partidos políticos de esquerda (se você escrever numa pequena publicação) ou de direita (se receber salário de alguma corporação de mídia).



    IX - Mais que isso: você será odiado. Pelos autores que você desanca. Pelos autores que você ignora. Pelos autores que você elogia (os motivos serão sempre os errados, na opinião deles). Pelos outros críticos. Por boa parte do público, mesmo por aquele que o lê com freqüência.



    X - Mas se, apesar de tudo isso, você ainda insiste em abraçar a profissão, é bom se perguntar o motivo. Quando criança, usando o olfato, Robert Parker era capaz de listar todos os ingredientes dos pratos que estavam sendo cozinhados na vizinhança, habilidade que o tornaria um campeão absoluto dos “testes cegos” de identificação de uvas e safras. Isso se chama vocação. É o seu caso? Você se sente preparado para conjugar erudição e capacidade interpretativa em tamanha escala? Sendo a resposta afirmativa, trata-se de uma ótima notícia. Não só para você, que talvez tenha achado um modo honesto de ganhar a vida, mas para o próprio meio literário. Porque não há nada de que ele necessite mais, hoje ou em qualquer tempo: alguém que o ajude a firmar tendências, corrigir rumos, separar o joio do trigo. Diferentemente do que se diz, um crítico autêntico não é apenas o advogado do público. Ele é, em última instância, o maior defensor da própria literatura.
     
  19. Brontops

    Brontops Usuário

    Estes 30 mandamentos que postei anteriormente vieram do Palavras Rabiscadas: http://mscamp.wordpress.com/30-mandamentos-para-ser-leitor-escritor-e-critico/

    Entretanto, preciso acrescentar esta frase:

    [size=large]“Devo o meu sucesso a ouvir respeitosamente os melhores conselhos e depois fazer o contrário.” [/size]G. K. Chesterton

    Abs
     
  20. JLM

    JLM mata o branquelo detta walker

    fonte

    q por sua vez saíram da
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