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Númenor, Elendil e viagens no tempo – parte I

Observar a evolução da lenda de Númenor nos escritos
de Tolkien pode revelar muitas coisas interessantes e insuspeitas. E,
principalmente, faz o leitor lamentar o fato de que o velho Professor
deixou incompletas duas obras fantásticas, intimamente relacionadas,
que tratam do reino dos Dúnedain: The Lost Road [A Estrada Perdida], de
1937, e The Notion Club Papers [As palestras do Clube Notion], datado
provavelmente de 1946 ou 1947. Além de terem em comum a temática
numenoreana, esses dois livros inacabados trazem à baila, de forma
bastante incomum, o batidíssimo motivo da Viagem no Tempo, típico da
ficção científica, mas retrabalhado à instigante maneira tolkieniana.

 

 

 
The Lost Road foi publicado no quinto livro da
série The History of Middle-earth, que leva seu nome. Aparentemente, a
idéia para escrever o livro partiu de uma série de conversas entre
Tolkien e seu grande amigo de Oxford, C.S. Lewis. Eles decidiram que
C.S. Lewis iria tentar escrever uma história de viagem espacial – que
se transformou no livro Out of the Silent Planet – enquanto Tolkien
iria se concentrar em viagem no tempo: o nunca completado The Lost Road.

A narrativa, que chegou a ter quatro capítulos escritos antes de ser
enviada à editora Allen & Unwin [e rejeitada para publicação], está
lotada de elementos autobiográficos. O personagem central, Alboin
Errol, filho do professor Oswin Errol, é um adolescente apaixonado por
arqueologia, mitologia e pelas línguas antigas do norte da Europa. Seu
nome é o mesmo de um lendário príncipe dos lombardos, e significa
“amigo-dos-elfos”. Alboin tem um hobby um tanto estranho: a criação de
línguas. Eu disse criação? Não exatamente: em seus sonhos, Alboin
escuta estranhos fragmentos de línguas desconhecidas, que ele tenta
“registrar” quando acorda. Duas línguas, em especial, dominam as noites
do garoto: o eressëano e o beleriândico. Adivinhou? Isso mesmo: o
quenya e o sindarin. E, junto com esses sonhos lingüísticos, ele é
perseguido por um nome – Númenor – e uma imagem ameaçadora: terríveis
nuvens em forma de aves avan̤ando do Oceano, amea̤ando a terra Рas
“Ã?guias dos Senhores do Oeste”.

Ao mesmo tempo, Alboin começa a “ouvir” fragmentos de poemas e canções
em seus sonhos, alguns em línguas “reais” como o anglo-saxão, com um
tema recorrente, resumido na frase: “uma estrada reta havia para o
Oeste, e agora ela está curvada”, e estranhas alusões à Ilha Solitária
dos Elfos e à Terra dos Deuses. Alboin cresce, forma-se em história em
Oxford e perde o pai; logo depois, casa-se, tem um filho chamado Audoin
e fica viúvo. O desenvolvimento do eressëano e do beleriândico não
pára, mas mesmo assim uma inquietação persegue Alboin; um desejo que
ele identifica com um incontrolável anseio por voltar no tempo:

“Considerando os últimos trinta anos, ele sentia que […] seu
estado de espírito mais permanente, embora muitas vezes encoberto ou
suprimido, tinha sido desde a infância o desejo de voltar. De caminhar
no Tempo, talvez, como os homens caminham em estradas compridas; ou de
observá-lo, como os homens podem ver o mundo do alto de uma montanha.
[…] Mas, de qualquer maneira, desejava ver com seus olhos e escutar
com seus ouvidos: ver o aspecto de terras antigas ou mesmo esquecidas,
contemplar homens antigos caminhando, e ouvir suas línguas da maneira
que eles as falavam, nos dias antes dos dias, quando línguas de
linhagem esquecida eram ouvidas em reinos há muito desaparecidos nas
costas do Atlântico”.

Audoin, que recebera esse nome em homenagem ao pai do príncipe lombardo
Alboin, revela ter interesses muito semelhantes aos de seu pai, mas com
a diferença importante de pensar mais por imagens, ao invés de
elementos lingüísticos como Alboin. Este pensa em revelar ao filho as
línguas que estava criando ou “descobrindo”, quando tem um sonho
especialmente perturbador. Nele, um fragmento de eressëano parece
descrever uma terrível catástrofe: os numenoreanos teriam caído sob uma
sombra malévola, feito guerra aos Poderes e Númenor, como conseqüência,
teria submergido no Oceano.

Enquanto tenta decifrar o verdadeiro sentido do fragmento eressëano, o
desejo por voltar no tempo toma cada vez mais conta de Alboin. Ele
deseja uma máquina do tempo, mas tem certeza de que “o tempo não pode
ser conquistado por máquinas”. Ele sente mais uma vez a ameaça das
�guias dos Senhores do Oeste sobre Númenor, e adormece. E, no sonho,
vem a resposta. Uma figura alta e sombria, que recordava a Alboin seu
pai, surge e lhe fala:

“Estou com você. Eu era de Númenor, o pai de muitos pais antes de
você. Sou Elendil, que em eressëano é “amigo-dos-elfos”, e muitos foram
chamados assim desde então. Você pode ter seu desejo”.

Elendil oferece a Alboin a possibilidade de voltar no tempo, e
contemplar aquilo que ele mais desejava e mais temia, com a condição de
que ele levasse Audoin consigo. Mas adverte-o de que, uma vez no
passado, os dois estarão no mesmo estado de suas vidas presentes, e
sujeitos ao perigo e à morte. Alboin passa por um terrível momento de
indecisão, mas decide aceitar a viagem. E pai e filho se vêem em
Númenor, na pele de Elendil e seu filho Herendil [os dois nomes são
traduções de Alboin e Audoin, respectivamente], tendo que enfrentar a
Sombra de Sauron sobre Ponente.

A narrativa de The Lost Road pára exatamente no momento em que Elendil
explica a seu filho a verdadeira natureza e intenções de Sauron, e os
dois decidem lutar contra o servo de Morgoth. Mas, ao que parece,
Tolkien pretendia que a estrutura do livro fosse mais complexa:
voltando progressivamente no tempo, pai e filho iriam se identificar
com Aelfwine e Eadwine na Inglaterra saxã do século IX; com os
lombardos Alboin e Audoin na Itália do século VI; e assim
sucessivamente, passando por camadas cada vez mais profundas das lendas
e mitos do noroeste da Europa, até chegarem a Númenor. Em cada
episódio, um deles deveria pronunciar as terríveis palavras: “Eis as
Ã?guias dos Senhores do Oeste vindo sobre Númenor!”. Infelizmente [ou
felizmente, considerando que todo o desenvolvimento da lenda de Númenor
teria tomado outro rumo], Tolkien jamais passou dos rascunhos para a
conclusão da história.

Parte II – Veja como as idéias presentes em The Lost Road evoluíram de
forma surpreendente e geraram The Notion Club Papers, outra intrigante
obra inacaba de Tolkien!

Está envolvido com a obra de Tolkien desde 1999 – fundador da Calaquendi, fundador da Valinor, fundador do Conselho Branco (Sociedade Tolkien) e presidente por três mandatos. Participou da publicação em livro do Curso de Quenya e é autor do Modo Tengwar Português

Um vislumbre de Arda Curada

Creio que uma pergunta que sempre passa pela cabeça de todos os fãs de
Tolkien é como a sua profunda fé cristã [evidenciada incontáveis vezes
em suas cartas e em sua biografia] se relacionava com o universo
ficcional por ele criado. Uma das mais belas amostras dessa conexão
entre fé e obra literária pode ser encontrada no Athrabeth Finrod ah
Andreth [O Debate de Finrod e Andreth], texto publicado no décimo livro
da série The History of Middle-earth, Morgoth"s Ring.
 
 
 
O Athrabeth, estruturado de forma muito semelhante
[inclusive na temática] aos diálogos platônicos, é o registro de uma
conversa entre o rei de Nargothrond, Finrod Felagund, e Andreth, uma
mulher sábia da casa de Bëor, pouco antes do fim do Cerco de Angband. O
mais sábio dos Noldor exilados e a filósofa humana procuram entender os
destinos de Elfos e Homens em Arda, e principalmente os motivos da
mortalidade humana, e as razões para a existência do Mal.

A discussão travada entre os dois, na qual as feridas geradas pelas
diferenças entre Homens e Elfos surgem com amargura, é complexa demais
para ser tratada de uma só vez. Mas Finrod, depois de ouvir Andreth
dizer que os Sábios entre os Homens acreditavam que estes não eram
mortais por natureza, mas graças à sombra de Morgoth, descobre também a
existência entre os Edain da "Antiga Esperança": a de que Eru iria em
pessoa curar os males de Arda.

"Os da Antiga Esperança dizem que o próprio Único entrará em Arda e irá
curar os Homens e toda a Desfiguração, desde o princípio até o Fim. E
isso eles também dizem, ou fingem acreditar, que é um rumor vindo até
nós de anos incontáveis, até mesmo da época em que fomos feridos".

Mas a própria Andreth parece não acreditar na Velha Esperança, pois crê
que seria impossível que Eru, o Idealizador de Arda, entrasse em sua
Obra e não a destruísse com seu poder. Finrod, contudo, afirma que nada
seria impossível para o Único, e se sente tomado de alegria pela
esperança que as palavras de Andreth lhe haviam dado. A resposta de
Finrod merece ser reproduzida na íntegra:

"Para falar com humildade, Andreth, não consigo imaginar de que
outra maneira tal cura poderia ser realizada, já que certamente Eru não
permitiria que Melkor dirigisse o mundo para sua própria vontade e
triunfasse no fim. Contudo, não há poder concebivelmente maior que
Melkor, salvo apenas Eru. Portanto Eru, se não desejar abandonar sua
obra para Melkor, que do contrário a dominaria, deve entrar nela para
derrotá-lo".

Mais do que isso: Finrod crê que é através dos Homens, e por eles, para
livrá-los da Sombra de Melkor, que Eru entraria em sua obra. E, dessa
forma, ele viria também encarnado em forma humana, como Tolkien explica
no comentário que faz ao Athrabeth. No coração de Tolkien, a esperança
de uma Arda Curada é a mesma que ele tinha, como cristão, na encarnação
de Deus em Jesus.

Está envolvido com a obra de Tolkien desde 1999 – fundador da Calaquendi, fundador da Valinor, fundador do Conselho Branco (Sociedade Tolkien) e presidente por três mandatos. Participou da publicação em livro do Curso de Quenya e é autor do Modo Tengwar Português

Númenor, Elendil e viagens no tempo – parte II

O abandono da narrativa de The Lost Road marcou uma virada importante
na obra tolkieniana. Com efeito, em fins de 1937, Tolkien abandonou
pela primeira vez a grande mitologia dos Dias Antigos que vinha
desenvolvendo há mais de 20 anos, e se voltou para a “seqüência de O
Hobbit”, um pedido insistente dos fãs de Bilbo e do editor de Tolkien,
Stanley Unwin. Essa decisão surgiu principalmente da avaliação que os
manuscritos de O Silmarillion receberam da editora de Stanley, a Allen
& Unwin. Embora reconhecessem o interesse e a qualidade de algumas
passagens [na verdade, apenas trechos da história de Beren e Lúthien
chegaram a ser lidos pelos avaliadores da editora], a opinião dos
editores era de que o livro não alcançaria um público grande o
suficiente para compensar seu lançamento comercial.
 
 
 
Tolkien parece não ter se abatido; nesse momento,
considerava sua mitologia um assunto praticamente privado, e não
acreditava que ela chegasse a ser efetivamente publicada. Voltou-se
então com afinco à criação da “seqüência de O Hobbit”. O resultado,
porém, foi que o novo livro tomou um rumo completamente inesperado. Em
vez de simplesmente continuar a história de O Hobbit, a “seqüência” se
transformou na continuação e conclusão das lendas heróicas de O
Silmarillion. É claro que estamos falando de O Senhor dos Anéis.

A história de Númenor e de sua queda, bem como a dos reinos
numenoreanos na Terra-média, começou a ser esboçada em 1937, mas só
alcançou desenvolvimento verdadeiro durante a elaboração de O Senhor
dos Anéis. Como sabemos, o livro foi sendo escrito em meio a muitas
hesitações e interrupções. Uma das maiores talvez tenha acontecido em
fins de 1944, quando quase todo O Retorno do Rei ainda não havia sido
escrito. Durante mais de um ano e meio Tolkien não conseguiu progredir,
ao mesmo tempo em que uma nova narrativa tomava forma. A única
referência do próprio Tolkien a esse texto está numa carta a Stanley
Unwin, de julho de 1946:

“Em uma quinzena de comparativa folga, por volta do Natal passado,
escrevi três partes de um outro livro, utilizando num escopo e
ambientação completamente diferentes aquilo que possuía algum valor em
The Lost Road” [Letters of J.R.R. Tolkien, 105].

Esse “outro livro”, que viria a se chamar The Notion Club Papers [As
palestras do clube Notion], foi publicado no nono livro da série The
History of Middle-earth, chamado Sauron Defeated. The Notion Club
Papers foi talvez a mais ambiciosa tentativa de Tolkien de entrelaçar
sua mitologia com o mundo moderno através de uma “viagem no tempo”, não
física, mas onírica e até “mediúnica” [se é que se pode usar um termo
espírita, um tanto estranho à mentalidade do católico Tolkien].

O cenário da história não podia ser mais familiar para quem conhece a
biografia do Professor: um grupo de acadêmicos de Oxford, que se
reuniam regularmente para discutir literatura e ler suas obras em
desenvolvimento uns para os outros. O fato curioso, porém, é que
Tolkien coloca esse círculo [muito similar aos Inklings, que o próprio
autor freqüentava junto com C.S. Lewis] no futuro. Isso mesmo: a
história se passa em algumas reuniões do clube Notion em 1987, das
quais as misteriosas atas teriam sido descobertas num saco de lixo em
Oxford no ano de 2012.

As discussões do clube Notion são quase sempre a respeito de
“literatura imaginativa”: viagens no tempo e no espaço, mundos
imaginários, a possibilidade do homem chegar a outros planetas. A
maioria dos membros parece concordar [num ponto de vista tipicamente
tolkieniano] que o tempo e o espaço [ao menos o espaço interestelar] dificilmente serão vencidos por máquinas. A discussão está nesse ponto
quando Michael Ramer, um dos membros do clube e professor de línguas
fino-úgricas [o grupo lingüístico do finlandês] vem como uma sugestão
desconcertante: e se for possível observar outros tempos, e outros
lugares, nos sonhos?

Ramer expõe um “método” que teria desenvolvido para esse fim, e os
membros do clube sentem-se tocados [embora um tanto incrédulos] por
essa estranha possibilidade. As conversas do grupo começam, então, a se
concentrar nas relações entre os sonhos, o “inconsciente” humano e os
mitos e lendas. Ramer tenta demonstrar a força que mitos e sonhos,
especialmente os coletivos, podem ter sobre o mundo real:

“- Não acho que vocês se dêem conta, não acho que nenhum de nós se
dê conta da força, da força demiúrgica que os grandes mitos e lendas
têm. Da profundidade das emoções e percepções que os geraram, e da
multiplica̤̣o delas em muitas mentes Рe cada mente, vejam bem, um
mecanismo de obscuras mas imensuráveis energias. Eles são como um
explosivo: podem gerar lentamente um calor constante para mentes vivas,
mas se detonados de repente, poderiam explodir num estrondo; sim,
poderiam produzir um distúrbio no mundo primário real. […]

Pensem na força emocional gerada por toda a borda ocidental da Europa
pelos homens que finalmente chegaram ao fim do continente, e olharam
para o Mar Sem-litoral, não-cultivado, não-atravessado, inconquistado!
E, contra esse pano de fundo, que estatura prodigiosa outros eventos
adquiririam! Digamos, a vinda, aparentemente daquele Mar, cavalgando
uma tempestade, de homens estranhos com conhecimento superior,
navegando barcos até então não imaginados. E se eles trouxessem
histórias de uma catástrofe distante: batalhas, cidades incendiadas, ou
da destrui̤̣o de regi̵es em algum tumulto da Terra Рfico pasmo ao
pensar em tais coisas nesses termos, mesmo agora”.

Quando a discussão está mais animada do que nunca, Arundel Lowdham, um
professor de anglo-saxão e islandês [isso lembra alguém pra vocês?] faz
finalmente o mundo antigo irromper entre o clube Notion:

“De repente Lowdham falou numa voz mudada, clara e terrível, palavras
numa língua desconhecida; e então, virando-se furiosamente na nossa
direção, ele gritou: ” Eis as águias dos Senhores do Oeste! Elas estão
vindo sobre Númenor!”

Ficamos todos assustados. Vários de nós foram até a janela e ficaram em
pé atrás de Lowdham, olhando para fora. Uma grande nuvem, vindo devagar
do Oeste, estava devorando as estrelas. Conforme se aproximava ela
abria duas vastas asas negras, espalhando-se para o norte e para o sul”.

A partir daí, os eventos se sucedem de maneira vertiginosa na
narrativa. Lowdham revela que, em sonhos [assim como o personagem
Alboin Errol de The Lost Road] ele ouvia estranhos fragmentos de duas
línguas desconhecidas: o avalloniano [quenya] e o adûnaico – isso
mesmo, o idioma dos homens de Ponente! Mais que isso: Lowdham revela
dois textos, um em avalloniano e outro em adûnaico, que relatam a queda
de Númenor [Anadûnê em adûnaico], graças à influência malévola de Zigûr
[Sauron].

Durante um dos encontros do clube, enquanto uma terrível tempestade
vinda do Atlântico se abate sobre a Inglaterra, Lowdham e Jeremy, outro
membro do grupo, têm uma experiência quase mediúnica: os dois falam
entre si como Nimruzîr [Elendil] e Abrazan [Voronwë], e como que
vivenciam mais uma vez a destruição de Númenor. Diante de seus atônitos
colegas, os dois saem no meio da tempestade – a mais devastadora já
registrada na Gṛ-Bretanha Рe partem em busca de respostas sobre
Númenor.

A narrativa foi abandonada no momento em que Lowdham e Jeremy voltam de
suas buscas e começam a relatar ao clube Notion o que descobriram.
Christopher Tolkien, na análise que faz do livro, acredita que a
concepção dele se tornara complicada demais para ser completada. Um
último fato dos mais interessantes: Christopher diz que seu pai errou
na previsão da Grande Tempestade por apenas quatro meses. No livro, ela
acontece em 12 de junho de 1987; de acordo com Christopher, a maior
tempestade já registrada na Inglaterra caiu sobre o país em 16 de
outubro do mesmo ano. Nem os Senhores do Oeste seriam capazes de
explicar essa…

Está envolvido com a obra de Tolkien desde 1999 – fundador da Calaquendi, fundador da Valinor, fundador do Conselho Branco (Sociedade Tolkien) e presidente por três mandatos. Participou da publicação em livro do Curso de Quenya e é autor do Modo Tengwar Português

A verdadeira história de Ereinion Gil-galad

A história de Gil-galad foi traçada por Christopher Tolkien em The
Peoples of Middle-earth, o décimo-segundo livro da série The History of
Middle-earth. Essa história complexa pode ser resumida da seguinte
forma: no princípio (cerca de 1937) ele era um descendente de Fëanor,
tornando-se depois filho de Finrod Felagund. Ele permaneceu nessa
posição durante muito tempo, provavelmente até 1949-1950, quando O
Senhor dos Anéis foi completado. Nessa época, Galadriel era sua irmã, e
portanto também filha de Felagund. Contudo, nos Anais Cinzentos de 1951
(texto que deu origem a grande parte de O Silmarillion como o
conhecemos), surgiu a história de que Finrod não tinha esposa, e
durante algum tempo Fingon se tornou o pai de Gil-galad, que recebeu o
“nome verdadeiro” de Findor.
 
 
 
Mas Tolkien ainda não estava satisfeito com essa
versão. Ele então desenvolveu a idéia (por volta de 1960) de que
Orodreth não era irmão de Finrod Felagund, mas seu sobrinho, filho de
Angrod. O nome de Orodreth foi então mudado para Rodothir, que teve um
filho chamado Rodnor – o futuro Gil-galad. Por volta de 1968, Tolkien
reafirmou essa genealogia, embora mudando o “nome verdadeiro” de
Gil-galad para Ereinion, “rebento do reis”. Christopher explica que não
era possível introduzir essa genealogia em O Silmarillion porque as
narrativas nunca foram modificadas para abrigá-la. Mesmo assim, ele
considera que teria sido melhor deixar a ascendência de Gil-galad
obscura em vista desses fatos.

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Uma festa muito esperada como você nunca viu

Quando se sentou para escrever o primeiro capítulo de sua “nova
história sobre hobbits”, insistentemente pedida por seu editor Stanley
Unwin e pelos fãs de O Hobbit, Tolkien provavelmente não imaginava as
proporções épicas que o livro iria tomar. E tanto é assim que a
primeira versão do capítulo “Uma festa muito esperada” difere
radicalmente da que conhecemos, apesar de algumas frases terem sido
mantidas.
 
 
 
Para começar, a festa de Bilbo comemora seu
septuagésimo aniversário – e não o “onzentésimo”. Ao invés de ser
famoso em todo o Condado por sua viagem, sua riqueza e suas
excentricidades, Bilbo tem uma reputação apenas mediana. Mas o mais
surpreendente é o que acontece no momento do “desaparecimento”. Bilbo
diz que está indo embora porque vai se casar, e enquanto seus parentes
estão atônitos ele calmamente coloca o Anel e some, sem as explosões de
Gandalf. Depois da cena, Tolkien explica aos leitores que na verdade
nosso hobbit tinha ficado sem dinheiro nenhum, e ia em busca de mais
ouro, além de ter voltado a sonhar com aventuras como antigamente. Ele
falara em casar graças a um costume hobbit, no qual o noivo e a noiva
“fugiam” juntos e desapareciam por uns tempos. Assim, pensou Bilbo,
ninguém ia ficar procurando por ele por um bom tempo.

Claro que Tolkien nunca conseguiu completar essa primeira versão, mas a
idéia era que o casamento de Bilbo iria introduzir seu filho, Bingo, o
verdadeiro herói da história, e que depois iria se transformar em
Frodo. Bizarro…

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Terá sido a Guerra do Anel uma luta por liberdade religiosa?

À primeira vista os motivos para a Guerra do Anel e para a resistência
dos Povos Livres ao Senhor do Escuro parecem bem claros: o desejo de
preservar a liberdade política e a integridade física da tirania e
violência do Senhor do Escuro. Contudo, Tolkien aponta como causa
principal da resistência algo muito pouco evidente: a luta por
liberdade religiosa.
 
 
 

Num comentário escrito pelo
Professor sobre uma resenha de O Retorno do Rei de 1956, ele explica da
seguinte forma a causa do conflito na narrativa: “Em O Senhor dos
Anéis, o conflito não é basicamente sobre a ‘liberdade’, embora isso
esteja naturalmente envolvido. É sobre Deus, e seu direito exclusivo à
honra divina. Os Eldar e os numenoreanos acreditavam no Único, o
Verdadeiro Deus, e consideravam a adoração de qualquer outra pessoa uma
abominação. Sauron desejava ser um Deus-Rei, e era considerado assim
por seus servos; se tivesse sido vitorioso, ele exigiria honra divina
de todas as criaturas racionais e poder temporal absoluto sobre o mundo
todo”.

Por incrível que pareça, sob esse
ponto de vista a Guerra do Anel toma os contornos de uma verdadeira
guerra santa, e a luta contra Sauron se transforma numa rebeldia contra
a pior das escravid̵es Рa espiritual.

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Gondor e seus egí­pcios

Os paralelos entre os povos e culturas do universo
tolkieniano e os do “mundo real” são sempre um dos temas preferidos dos
fãs do Professor. E é muito legal conhecer as idéias do próprio Tolkien
sobre esse assunto quando ele comenta, numa carta de 1958 à fã Rhona
Beare, sobre as semelhanças entre os homens de Gondor e alguns povos
antigos:

 

 

“Os numenoreanos de Gondor”, diz o Professor, “eram
altivos, peculiares e arcaicos, e são melhor representados em termos
(digamos) egípcios. Eles se pareciam com “egípcios” em muitas coisas –
o amor pelo gigantesco e pelo massivo, e a capacidade para construí-lo.
E também em seu grande interesse por ancestralidade e túmulos. (Mas
não, é claro, em teologia, a respeito da qual eles eram hebraicos, ou
ainda mais puritanos). Imagino que a coroa de Gondor, o reino do Sul,
era muito alta, como a do Egito, com asas colocadas não exatamente
juntas mas com um certo ângulo”
. Seguindo esse comentário, Tolkien
desenhou na carta uma coroa praticamente idêntica às usadas pelos
antigos faraós, com as afamadas asas de pássaros marinhos nas laterais.

 

Pois
bem, o Egito e Israel são influências, como já vimos. Em outras cartas,
Tolkien amplia esse leque incluindo o Império Bizantino e o Sacro
Império Romano: “O progresso da história [em O Senhor dos Anéis] termina com algo que se parece muito com o reestabelecimento de um
Sacro Império Romano com sua sede em Roma”.

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Descubra os Sete Nomes de Gondolin!

As breves menções em O Silmarillion que atribuem a
Gondolin o título de “Cidade dos Sete Nomes” costumam deixar os
leitores curiosos a respeito das denominações da cidade de Turgon. O
único lugar em que esses nomes são citados é a narrativa “A Queda de
Gondolin”, publicada em The Book of Lost Tales II. Vale a pena conferir
o trecho:

 

 
“Então disse Tuor: ‘Quais são esses nomes?’. E o líder da Guarda
respondeu: ‘É dito e é cantado: Gondobar sou chamada e Gondothlimbar,
Cidade de Pedra e Cidade dos que Habitam na Pedra; Gondolin, a Pedra da
Canção, e Gwarestrin sou nomeada, a Torre de Guarda, Gar Thurion ou o
Lugar Secreto, pois estou oculta dos olhos de Melko; mas aqueles que me
amam mais grandemente chamam-me Loth, pois como uma flor eu sou, e
mesmo Lothengriol, a flor que desabrocha na planície'”.

É preciso ter em mente, porém, que esses nomes foram criados por
Tolkien em torno de 1915-16, o que faz com que eles não sejam
compatíveis com o sindarin “maduro”. Mesmo assim, eles ajudam a ter uma
idéia do papel fundamental que Gondolin desempenhou desde sempre na
imaginação tolkieniana.

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Haleth, O Caçador???

A evolução dos textos que compõem O Silmarillion nunca deixa de
surpreender o leitor. Mas uma das transformações mais surpreendentes e
radicais na estrutura histórica da Primeira Era com certeza é a sofrida
por Haleth, a indomável líder dos Haladin de Brethil. O fato é que, até
a época em que O Senhor dos Anéis foi publicado, Haleth era um homem.
 
 
 
A primeira aparição de Haleth nos textos
tolkienianos data do começo dos anos 30, no Quenta Noldorinwa ou
“História dos Noldor”. A princípio, Tolkien concebera a chegada dos
Edain a Beleriand como liderada por dois personagens principais: Bëor,
o Velho, e Hador, o Cabeça-dourada. Um dos filhos de Hador seria
Haleth, o caçador. Posteriormente, porém, Tolkien decidiu separar
Haleth da Casa de Hador, e criar a Terceira Casa dos Edain, os homens
da floresta de Brethil. Como é possível perceber também, o intervalo de
tempo entre a chegada dos Edain e o fim da Primeira Era era bem menor;
assim, apenas duas gerações separavam Bëor de Beren, o mesmo
acontecendo com Hador, que nas genealogias posteriores tornar-se-ia
membro da QUARTA geração dos Edain em Beleriand.

Pelo menos até 1951 (quando O Senhor dos Anéis já estava concluído)
Tolkien ainda concebia Haleth como homem, como se pode perceber lendo
“Os Anais Cinzentos”, um dos textos-base do Silmarillion publicado por
Christopher Tolkien. Provavelmente foi só em 1958, quando Tolkien
revisou o “Quenta Silmarillion” e escreveu o capítulo “Da Vinda dos
Homens para o Oeste”, que a história de Haleth como a valente filha de
Haldad e única governante feminina da Primeira Era finalmente se
estabeleceu.

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Quantos anos durou a Guerra da Ira?

Tolkien escreveu pouquíssimo material a respeito
do fim da Primeira Era depois que O Senhor dos Anéis foi concluído e
publicado. Praticamente os únicos dados que temos a respeito da Guerra
da Ira, a grande batalha na qual os Dias Antigos terminaram, está no
Conto dos Anos da Primeira Era, publicado no livro The War of the
Jewels.
 
 
 
Como em quase todos os
manuscritos de Tolkien, a quantidade de mudança e correção no Conto dos
Anos foi imensa. Porém, de acordo com Christopher Tolkien, a decisão
final de seu pai sobre a data do início da Guerra da Ira foi 545 da
Primeira Era. Mais surpreendente, porém, é o fato de que a data de
TÉRMINO da guerra é o ano 587. Ou seja: uma longa guerra de quarenta e
dois anos foi necessária para que Morgoth pudesse ser derrotado. E olha
que o texto do capítulo “Da Viagem de Eärendil e da Guerra da Ira”
parece dar a impressão de que houve apenas uma grande batalha…

Outro fato interessante: o Contos
dos Anos também indica o líder do exército dos Vanyar na Guerra, que
teria sido Ingwiel, filho do Rei Supremo Ingwë.

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