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valinor

Mitos Transformados – ARDA

O texto final, entitulado Aman, é um manuscrito claro, escrito com
pouca hesitação ou correção. Eu o tomei como um ensaio independente, e
em dúvida do melhor lugar para inseri-lo deixei-o para o final; mas
quando este livro já estava completo e preparado para publicação me dei
conta de que ele de fato tem um relacionamento muito próximo ao
manuscrito de Athrabeth Finrod ah Andreth
[Nota do Tradutor] O texto em itálico a seguir e
de Christopher Tolkien. O texto normal é de J.R.R. Tolkien. O livro a
que se refere C. Tolkien no parágrafo abaixo é o The History of Middle-earth 10 e o final a que ele se refere é o final da seção Myths Transformed.
O
manuscrito inicia com uma seção introdutória, começando com a afirmação
de que alguns homens acreditavam que seus hroar não tinham vida curta
por natureza, mas assim tornou-se pela malícia de Melkor. Eu não
percebi a relevância de algumas linhas no cabeçalho da primeira página
do Athrabeth, que meu pai riscou: estas linhas começam com as palavras
“o hroa, e ele poderia continuar a viver, um corpo sem mente, nem mesmo
uma besta mas sim um monstro”, e terminava “… a própria Morte, tanto
em agonia quanto em terror, entraria pessoalmente em Aman com os
Homens”. Esta passagem é virtualmente idêntica à conclusão do texto
atual, cuja última página começa precisamente no mesmo ponto.

Fica claro, portanto, que Aman originalmente ficava no Athrabeth, mas
meu pai o removeu para uma forma estanque e copiou a passagem final em
uma folha em separado. Ao mesmo tempo, presumivelmente, ele deu ao
restante (o Athrabeth e sua introdução) os títulos de “Da Morte e dos
Filhos de Eru, e da Desfiguraçãodos Homens e A Conversa de Finrod e
Andreth[1].
Seria preferível colocar Aman com o
Athrabeth na Parte Quatro, mas eu acredito que seja desnecessário em
tal estágio tardio iniciar uma mudança ampla na estrutura do livro, e
assim o deixei aqui em separado.

Aman
Em Aman as coisas eram bastante diferentes da Terra-média. Mas elas
lembravam o modo de vida dos Elfos, assim como os Elfos se pareciam
mais com os Valar e Maiar do que os Homens.Em Aman a duração
da unidade de “ano” era a mesma da dos Quendi. Mas por uma razão
diferente. Em Aman esta duração era estipulada pelos Valar para suas
próprias necessidades e era relacionada ao processo que pode ser
chamado de “Envelhecimento de Arda”. Pois Aman estava em Arda e
portanto no Tempo de Arda (o qual não era eterno, seja ArdaDesfigurada
ou não). Portanto Arda e todas as coisas nela precisam envelhecer,
embora lentamente, enquanto parte do início para o fim. Este
envelhecimento pode ser percebido pelos Valar aproximadamente naquele
período de tempo (proporcional à duração total de Arda) ao qual eles
chamaram Ano; mas não em menor período[2].Mas para os
próprios Valar e também para os Maiar em certo grau: eles poderiam
viver em qualquer velocidade de pensamento ou movimento que eles
escolhessem ou desejassem[3] *.

* Eles podiam se mover para
frente ou para trás em pensamento, e retornar tão rapidamente que para
aqueles que estavam em suas presenças eles não pareceriam ter se
movido. Tudo que era passado podia ser totalmente percebido; mas
existindo agora no Tempo, o futuro eles apenas poderiam perceber ou
explorar tanto quanto fora feito claro a eles na Música, ou, tanto
quanto cada um deles estava especialmente interessado nesta ou naquela
parte dos desígnios de Eru, sendo Seu agente ou Subcriador. Nesta forma
de percepção eles não podiam prever nenhum dos atos dos Filhos, Elfos e
Homens, em cuja concepção e introdução em Eä nenhum Valar tomou
qualquer parte; em relação aos Filhos eles apenas podiam deduzir
chances, da mesma forma que os próprios Filhos, embora com muito maior
conhecimento dos fatos e dos eventos contribuintes no passado, e com
muito mais inteligência e sabedoria. Mas mesmo assim sempre restava
alguma incerteza sobre as palavras e feitos dos Elfos e Homens no
Termpo ainda não realizado.

A unidade, ou Ano dos Valar, não
era, portanto, relacionado às taxas normais de “crescimento ” de
nenhuma pessoa ou coisas que ficava em Aman. O tempo em Aman era o
tempo real, não apenas um modo de percepção. Assim, digamos, 100 anos
se passavam na Terra-média como parte de Arda e também 100 anos se
passavam em Aman, como parte de Arda. Foi, contudo, devido ao fato de
que a velocidade de “crescimento” dos Elfos estava de acordo com a
unidade de tempo Valariana + que tornou possível para os Valar levarem
os Elfos a residirem em Aman.

(+ não pelos desígnios dos
Valar, mas sem dúvida não por acaso. Ou seja, pode ser que Eru, ao
criar a natureza dos Elfos e Homens e suas relaçoes uns com os outros e
com os Valar ordenou que o “crescimento” dos Elfos deveria se dar de
acordo com a percepção Valariana da progressão ou envelhecimento de
Arda, assim os Elfos seriam capazes de co-habitar com Valar e Maiar.
Uma vez que os Filhos apareceram na Música, e também na Visão, os Valar
conheciam ou intuiam muito da natureza dos Elfos e Homens antes deles
virem a existir. Eles certamente conheciam que os Elfos deveriam ser
“imortais” ou de vida muito longa, e os Homens de vida curta. Mas foi
provavelmente apenas durante a viagem de Oromë entre os pais dos Quendi
que os Valar descobriram precisamente qual era o mode de suas vidas com
relação ao passar do Tempo).

Em um Ano dos Valar os Eldar
morando em Aman cresciam e se desenvolviam de maneira muito parecida
com os mortais em um ano na Terra-média. Aos registrar os eventos em
Aman, portanto, nós podemos fazer como os Elfos e utilizar a unidade
Valariana[4], mas não devemos esquecer que dentro de tal “ano” os Eldar
experimentavam uma imensa série de delícias e realizações que mesmo o
mais hábil dos Homens não poderia alcançar em doze vezes doze anos
mortais[5]. De qualquer forma os Eldar “envelheciam” à mesma velocidade
em Aman do que em seu surgir na Terra-média.

Mas os Eldar não
eram nativos de Aman, a qual não fora feita, pelos Valar, para eles. Em
Aman, antes da chegada deles, moravam apenas os Valar e seus parentes
menores, os Maiar. Mas para ser prazer e uso existiam em Aman também
uma grande quantidade de criaturas, sem medo, de vários tipos: animais
ou criaturas que se moviam, plantas que eram estáticas. Lá,
acredita-se, existiam contra-partes de todas as criaturas que existiam
ou haviam existido na terra, e outras feitas apenas para Aman. E cada
tipo tinha, como na Terra, sua própria natureza e velocidade natural de
crescimento.

Uma vez que Aman foi feita para os Valar, para
que pudessem ter paz e prazer, a todas as criaturas que foram
transplantadas ou treinadas ou criadas ou trazidas a existir com o
propósito de habitar em Aman foi dada uma velocidade de crescimento tal
que um ano de vida natural de suas espécies na Terra deveria ser um Ano
dos Valar em Aman.

Para os Eldar esta era uma fonte de
prazer. Pois em Aman o mundo parecia a eles como a Terra parecia aos
Homens, mas sem a sombra da morteà espreita. E na Terra para ele todas
as coisas em comparação a eles mesmos estavam murchando, rapidamente
mudando e morrendo, em Aman elas permanceiam e não enganavam tão cedo o
amor com suas mortalidades. Na Terra enquanto uma criança élfica
simplesmente cresce para tornar-se um adulto, em uns 3000 anos,
forestas surgem e somem, e toda a aparência da terra pode mudar,
enquanto inumeráveis flores e pássaros poderiam nascer e morrer dia
após dia sob o sol.

E por isso tudo Aman é também chamada o
Reino Abençoado, e nisso encontra sua benção: na saúde e na felicidade.
Por em Aman nenhuma criatura sofre nenhuma doença ou desordem em suas
naturezas; nem existe nenhum decair ou envelhecer além do da própria
Arda. Então todas as coisas chegam à sua forma completa e virtualmente
permanecem nesse estado, alegremente, envelhecendo e cansando-se da
vida não mais rapidamente do que os próprios Valar. E esta benção
também foi garantida aos Eldar.

Na terra os Quendi não
sofriam de doenças e a saúde de seus corpos era mantida pela força de
seu fëar longevo. Mas seus corpos, sendo da matéria de Arda, não era
tão resistente quanto seus espíritos; pois a longevidade dos Quendi era
derivada primariamente de seus fëar, cuja natureza ou “destino” era
habitar Arda até seu fim. Portanto, após a vitalidade do hröa ter se
expandido e alcançado o crescimento pleno ele começava a enfraquecer ou
ficar cansado. Muito lentamente, de fato, mas perceptivelmente para
todos os Quendi. Por um tempo ele seria fortificado e mantido pelo seu
fëa incansável e então sua vitalidade começaria a decair e seu desejo
pela vida física e felicidade nela passam cada vez mais rápido. Então
um Elfo poderia começar (como eles dizem agora, pois estas coisas não
apareceram completamente nos Dias Antigos) a “esvair-se”, até que o fëa
consumisse o hroa até que permanecesse apenas no amor e na memória do
espírito que o habitara.

Mas em Aman, uma vez que suas
bençãos se derramavam sobre o hroar dos Eldar, como sobre todos os
corpos, os hroar envelheciam junto com os fear e os Eldar que
permaneciam no Reino Abençoado aproveitavam na maturidade plena em em
pleno poder de corpo e espírito unidos por eras além de nossa
compreensão mortal.

Aman e os Homens Mortais[6]
Se
é assim em Aman, ou era antes da Mudança do Mundo, e nela os Eldar
tinham saúde e felicidade duradouras, o que podemos dizer dos Homens?
Nenhum homem jamais colocou os pés em Aman ou pelo menos nenhum
retornou após ter posto; pois os Valar proibiram. Por que? Para os
Numenorianos eles disseram que assim o fizeram porque Eru proibiu-os de
receber Homens no Reino Abençoado; edeclararam também que lá os Homens
não seriam abençoados(como imaginavam) mas amaldiçoados e poderiam ” se
apagar tão rapidamente como uma chama muito brilhante”.Além
dessas palavras não podemos ir a não ser em suposições. Mesmo assim
vamos considerar o assunto. Os Valar não foram apenas proibidos por Eru
de tentar, eles sequer podiam alterar a natureza ou “destino” de Eru,
de qualquer um dos Filhos, no qual estava inclusa a velocidade de seu
crescimento (relativamente ao total da vida de Arda) eà duração de suas
vidas. Mesmo os Eldar permaneceram imutáveis neste aspecto.Vamos
supor que os Valar também tivessem admitido em Aman alguns dos Atani, e
(assim podemos considerar toda a vida de um Homem em tal estado) que
crianças “mortais” lá nasceram, assim como os filhos dos Eldar. Então,
mesmo em Aman, uma criança mortal deveria crescer para sua maturidade
em cerca de vinte anos do Sol, e o período natural de sua vida, o
período de coesão de hroa e fea, não seria mais do que, digamos, 100
anos. Não muito mais, mesmo que seu corpo não sofresse de doenças ou
desordens em Aman, onde tais males não existiam (a menos que os Homens
levassem tais males consigo – por que não? Mesmo os Eldar levaram ao
Reino Abençoado alguma coisa da Sombra sobre Arda sob a qual eles
surgiram).

Mas em Aman tal criatura seria uma coisa
passageira, a de mais rápida passagem entre todas. Pois toda a sua vida
duraria pouco mais do que metade de um ano, e enquanto todas as outras
coisas vivas pareceriam a ela dificilmente mudar,permanecendo estáticas
em vida e felicidade com esperança não reduzida de anos infindos, ele
iria surgir e sumir – assim como na Terra a gramasurge na primavera e
murcha no inverno. Então ele se tornaria cheio de inveja, tomando-se
como vítima de uma injustiça, não tendo as graças concedidas a todos os
outros seres. Ele não daria valor ao que tem,sentindo que está entre a
menor e menos valorosa de todas as criaturas, cresceriam rapidamente
até se tornarem adultos, e odiariam àqueles mais bem dotados de
benções. Ele não poderia escapar do medo e tristeza de sua rápida
mortalidade que é seu quinhão sobre a Terra, na Arda Desfigurada, mas
seria assediado por eles até a perda de todo o prazer.

Mas
alguém poderia perguntar: porque a benção da longevidade não poderia
ser dada a ele, como a é para os Eldar? Isto deve ser respondido.
Porque isto traz felicidade aos Eldar, sendo sua natureza diferente da
dos Homens. A natureza de um fea Élfico é permanecer no mundo até seu
fim, e um hroa Élfico é também longevo por natureza; assim um fea
Élfico percebendo que seu hroa permanece com ele, também incansável e
permanecendo descansado em felicidade corporal, teria uma felicidade
maior e mais duradoura. De fato alguns dos Eldar duvidam que alguma
graça ou benção especial foi reservada a eles, além da entrada em Aman.
Pois eles afirmam que a falha de seus hroar em permanecerem em
incansável vitalidade tanto quanto seus fear – um processo não
observado até eras tardias – é devido ao Desfigurar de Arda, e veio com
a Sombra e a mancha de Melkor que toca toda a matéria (ou hroa)[7] de
Arda, se não toda Eä. Então tudo que aconteceria em Aman é que a
fraqueza do hroar Élfico não se desenvolveria à saúde de Aman e à Luz
das �?rvores.

Mas vamos supor que a “benção de Aman” também
fosse garantida aos Homens*. Então o que? Teria um grande bem sido
feito a eles? Seus corpos continuariam a atingir a maturidade
rapidamente. Na sétima parte de um ano um homem nasceria e se tornaria
adulto, tão rápido quanto um pássaro nasceria e voaria do ninho em
Aman. Mas então ele não iria enfraquecer ou envelhecer mas permaneceria
vigoroso e em felicidade de uma criatura corpórea. Mas e sobre o fea
desse Homem? Sua natureza ou “destino” não poderia ser mudada, nem pela
saúde de Aman nem pela vontade do próprio Manwë. Mesmo assim (como os
Eldar sustentam) é sua natureza e destino sob a vontade de Eru que ele
não permaneça em Arda por muito tempo, mas parta para algum outro
lugar, talvez retornando diretamente aEru para outro destino ou
propósito que está além do conhecimento ou suposição dos Eldar.

Muito
rapidamente então o fea e hroa de um Homem em Aman não mais estariam
unidos em paz, mas se oporiam, para grande dor de ambos. Sendo o hroa
pleno de vigor e felicidade da vida oprimiria o fea, uma vez que sua
partida traria a morte; e contra a morte ele se revoltaria como se
revoltaria uma grande besta cheia de vida contra o caçador ou partiria
selvagemente sobre ele. Mas a fea estaria como em uma prisão,
tornando-se mais e mais cansada de todos os prazeres do hroa, até
desgostar deles, desejando mais e mais ter partido, até que mesmo
aqueles assuntos de seu pensamento recebidos através do hroa e seus
sentidos se tornassem sem sentido. O Homem então não seria abençoado,
mas amaldiçoado; e ele amaldiçoaria os Valar e Aman e todas as coisas
de Arda. E ele não deixaria Aman de livre vontade, pois significaria
morte rápida, e com violência tentaria permancer. Mas se ele
permanecesse em Aman[8], o que ele se tornaria, até que Arda finalmente
se completasse e ele encontrasse alívio?

Ou o fea seria
completamente dominado pelo hroa e ele se tornaria mais como uma besta,
embora uma atormentada por dentro, ou, se seu fea fosse forte, ele
poderia deixar o hroa. Então uma de duas coisas ocorreria: ou isto
seria conseguido em ódio, através de violência, e o hroa, em plena
vida, seria rendido e morreria em súbita agonia; ou o fea desertaria o
hroa rapidamente e sem piedade, que continuaria a viver, um corpo sem
mente, nem mesmo uma besta e sim um monstro, um trabalho próprio de
Melkor no meio de Aman, que os os próprios Valar iriam destruir.

(*
Ou (como alguns homens sustentam) que seus hroar não eram naturalmente
de vida curta, mas assim se tornou através da malícia de Melkor sobre e
além da Desfiguração geral de Arda e esta ferida poderia ser curada e
desfeita em Aman).

Mas estas coisas não são nada além
suposições, e podem-ser; pois Eru e os Valar sob Ele não permitiram aos
Homens como eles são [9] que residissem em Aman. Pode ser que os Homens
em Aman não pudessem escapar das garras da morte, mas a teria em grau
maior e por longas eras. E além disso, parece provavel que a própria
morte, tanto em agonia e horror, poderia, com os Homens, adentrar a
própria Aman.

A este ponto Aman, como originalmente
escrito continuava com a aspalavras “Alguns Homens defendiam que seus
hroar não tinham por natureza, vida curta…” que são o começo da
passagem introdutória do Athrabeth.

Notas de Christopher Tolkien

[1] O número III e título adicional “O Desfigurar dos Homens” (os
outros títulos permaneceram) foi dado à segunda parte, enquanto Aman
foi numerada II. Nenhum escrito numerado I foi encontrado.

[2] Será visto que, como consequência da transformação do “mito
cosmogônico”, uma concepção inteiramente nova do “Ano Valariano”
surgiu. A elaborada computação do Tempo no Annals of Aman foi
baseada no “ciclo” ou “as Duas Árvores que cessaram de existir em
relação ao moviumento diruno do Sol que tinha surgido – surgiu um “novo
calendário”. Mas o “Anos dos Valar” é agora, como parece, uma “unidade
de percepção” da passagem do Tempo de Arda, derivada da capacidade dos
Valar perceberem tais intervalos do processo do envelhecer de Arda, do
seu começo ao seu fim. Ver nota 5.

[3] Meu pai escreveu a seguinte passagem (“Eles podiam se mover para
frente ou para trás em pensamento…”) no corpo do manuscrito a este
ponto, mas em uma pequena letra itálica, e eu preservei esta forma no
texto impresso; similarmente à passagem que interrompe o texto
principal às palavras “unidade de tempo Valariana”.

[4] “Nós podemos… utilizar a unidade Valariana”: em outras palavras,
presumivelmente, a antiga estrutura de datas na crônica de Aman poderia
ser mantida, mas o significado daquelas datas em termos de Terra-média
seriam radicalmente diferentes. Ver nota 5.

[5] Existe agora uma vasta discrepância entre os Anos dos Valar e os
“anos mortais”; ver também “toda a sua vida duraria pouco mais do que
metade de um ano” e “na sétima parte de um ano um homem nasceria e se
tornaria adulto”. Em notas não dadas neste livro, nas quais meu pai
estava calculando tendo como base o Despertar dos Homens, ele expressa
que 144 Anos do Sol = 1 Ano dos Valar (em conexão a isto ver Apêndice D
dO Senhor dos Anéis: “Parece claro que os Eldar na Terra-média…
contavam longos períodos, e apalavra Quenya yen… realmente
significava 144 de nossos anos”) colocando o evento “após ou à mesma
época do saque a Utumno, Ano dos Valar 1100”, um gigantesco intervalo
de tempo poderia ser visto agora entre o “surgir” dos Homens e sua
primeira aparição em Beleriand.

[6] O subtítulo Aman e Homens Mortais foi uma adição posterior.

[7] Com este uso da palavra hroa ver “o hroa, a “carne” ou matéria física, de Arda” (texto VIII do Mitos Transformados).

[8] Esta passagem, a partir de “E ele não deixaria Aman de livre vontade…” foi uma adição posterior. Quando o texto foi escrito ele continuava de “todas as coisas de Arda” para “o que ele se tornaria”

[9] As palavras “como eles são” são uma adição posterior, ao mesmo tempo que aquele da nota 6 e 8.

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Mitos Transfomados – Parte VIII – Orcs!!!

Sua natureza e origem requerem mais reflexão ((Este texto corresponde ao Mitos Transformados, partes VIII a X, publicado no The History of Middle Earth 10  – maiores detalhes aqui )). Elas não são fáceis de se trabalhar na sua teoria e o seu sistema.
[1] Como o caso de Aulë e os Anões mostra, somente Eru poderia fazer criaturas com vontades independentes, e com capacidade de raciocínio. Mas os orcs parecem ter ambas: eles podem tentar enganar Morgoth/Sauron, rebelar-se contra ele, ou criticá-lo.

[2] Entretanto, eles devem ser corrupções de alguma coisa pré-existente.

[3] Mas os homens não haviam aparecido ainda, quando os orcs já existiam. Aulë construiu os anões de sua memória da Música; mas Eru não sancionaria o trabalho de Melkor a fim de permitir a independência dos orcs. [A não ser que os orcs fossem ao final remediáveis, ou pudessem ser corrigidos e “salvos”?]

Também parece claro que embora Melkor pudesse corromper e arruinar indivíduos completamente, não é possível contemplar sua perversão absoluta de um povo inteiro, ou grupo de pessoas, e sua criação que afirma hereditariedade [Adicionado posteriormente: Este último deve[se um fato] ser um ato de Eru].

Neste caso os elfos, como uma fonte, são muito improváveis. E os orcs são “imortais” no sentido élfico? Ou os trolls? Parece claramente implícito no Senhor dos Anéis que os trolls existiam no seu próprio direito, mas foram “consertados” por Melkor.

[4] E o que dizer de feras falantes e pássaros com raciocínio e linguagem? Estes têm sido adotados levianamente por mitologias menos “sérias”, mas representam um papel que agora não pode ser cortado. Eles são certamente “exceções” e não muito usados, mas suficientemente para mostrar que eles são uma faceta reconhecida do mundo. Todas as criaturas aceitam-os como naturais, se não comuns. Mas criaturas “racionais” verdadeiras, “povos falantes”, são todas de forma humana/”humanóide”. Somente os Valar e Maiar são inteligências que podem assumir formas de Arda à vontade. Huan e Sorontar poderiam ser Maiar – emissários de Manwë. Mas, infelizmente, no Senhor dos Anéis é dito que Gwaehir e Landroval são descendentes de Sorontar [Thorondor].

Em qualquer caso, é provável ou possível que mesmo os menores dos Maiar tornariam-se orcs? Sim: tanto fora de Arda como dentro dela, antes da queda de Utumno. Melkor corrompeu muitos espíritos – alguns grandes, como Sauron, ou menores, como balrogs. Os menores poderiam ter sido primitivos [e muito mais poderosos e perigosos] orcs; mas, por procriar quando encarnados, eles [como Melian][tornariam-se] cada vez mais ligados à terra, incapazes de retornar ao estado de espírito [mesmo forma demoníaca], até serem libertados pela morte [assassinato], e eles definhariam em força. Quando libertados eles seriam, claro, como Sauron, “condenados”: isto é, reduzidos à impotência, infinitamente recessiva: ainda odiando, mas incapazes cada vez mais de fazê-lo fisicamente eficaz. [ou não seria o estado órquico muito definhado de morte um poltergeist?]

Mas novamente – Eru proveria fëa [espírito] a tais criaturas? Para as águias etc., talvez. Mas não para os orcs.

Entretanto, parece melhor ver o poder de corrupção de Melkor como sempre começando, pelo menos, no nível moral ou teológico. Qualquer criatura que o tomou por Senhor [e especialmente aquelas que blasfemamente chamaram-o de Pai ou Criador] logo tornou-se corrompida em todas as partes de seu ser, o fëa arrastando o hröa [corpo] em sua queda ao Morgothismo: ódio e destruição. Como para os elfos serem “imortais”: eles, na verdade, possuiam vidas excepcionalmente longas, e foram “cansando-se” fisicamente, e sofrendo um enfraquecimento lento e progressivo de seus corpos.

Em resumo: eu acho que deve-se assumir que “falar” não é necessáriamente o sinal da posse de uma “alma racional” ou fëa. Os orcs eram bestas de forma humanizada [para zombar de homens e elfos] deliberadamente pervertidos/convertidos em uma semelhança mais próxima dos homens. Sua “fala” era na verdade “gravações” recitadas, colocadas neles por Melkor. Melkor ensinou-lhes a fala e ao reproduzirem-se, eles herdaram isto; e eles tinham tanta independência como têm cães ou cavalos de seus mestres humanos. Sua fala era largamente ecoada [como papagaios]. No Senhor dos Anéis é dito que Sauron inventou uma linguagem para eles.

O mesmo tipo de coisa pode ser dito de Huan e as águias: eles aprenderam uma linguagem à partir dos Valar – e elevaram-na a um nível superior – mas eles ainda não tinham fëa. Mas Finrod provavelmente foi muito longe na sua afirmação de que Melkor não poderia corromper completamente qualquer obra de Eru, ou que Eru [necessariamente] interferiria para anular a corrupção ou para cessar a existência de Suas próprias criaturas, pois elas teriam sido corrompidas e voltadas para o mal.

Permanece, portanto, terrivelmente possível que houvesse uma linhagem élfica nos orcs. Estes podem então ter sido cruzados com feras [estéreis!] – e posteriormente homens. Seu tempo de vida seria diminuído. E morrendo eles iriam para Mandos e mantidos aprisionados até o Fim.

…as vontades dos orcs e balrogs etc., são parte do poder de Melkor “dispersado”. O espírito deles é de ódio. Mas o ódio é não-cooperativo [exceto sob medo direto]. Daí as rebeliões, motins, etc., quando Morgoth parecia estar distante. Orcs são feras e balrogs Maiar corrompidos. Também, Morgoth, não Sauron, é a fonte das vontades dos orcs. Sauron é apenas outro [senão maior] agente. Orcs podem rebelar-se contra ele sem perder sua própria fidelidade irremediável ao mal [Morgoth]. Aulë queria amor. Mas, claro, não pensava em dispersar seu poder. Apenas Eru pode dar amor e independência. Se um sub-criador finito tenta fazer isto, ele na verdade quer ardorosa obediência absoluta, mas ela vira servidão robótica e torna-se mal.

Isto sugere – embora não seja explícito – que os “orcs” eram de origem élfica. Sua origem é tratada mais claramente em outro lugar. Um ponto apenas é certo: Melkor não poderia “criar criaturas” vivas de vontades independentes.

Ele [e todos os “espíritos” dos “Criados–primeiro”, conforme seus limites] poderia assumir formas corpóreas; e ele [e eles] poderia dominar as mentes de outras criaturas, incluíndo elfos e homens, pela força, medo, ou por engôdos, ou por pura magnificência. Os elfos de épocas remotas inventaram e usaram uma palavra ou palavras com uma base [o]rok para indicar qualquer coisa que causasse medo e/ou terror. Isto teria sido originalmente aplicado a “fantasmas” [espíritos assumindo formas visíveis] tão bem quanto a quaisquer criaturas existindo independentemente. Sua aplicação [em todas as línguas élficas] especificamente às criaturas chamadas orcs – assim devo escrevê-la no Silmarillion – foi posterior.

Uma vez que Melkor não poderia “criar” espécies independentes, mas tinha imensos poderes de corrupção e distorção daquelas que caíam em seu poder, é provável que estes orcs tivessem uma origem mista. A maioria deles claramente [e biologicamente] eram corrupções de elfos [e, posteriormente, de homens provavelmente também]. Mas sempre entre eles [como servos especiais e espiões de Melkor, e como líderes] deviam haver numerosos espíritos menores corrompidos que assumiram formas corpóreas semelhantes. [Estes apresentariam personalidades aterrorizantes e demoníacas]

Os elfos teriam classificado as criaturas chamadas “trolls” [no Hobbit e Senhor dos Anéis] como orcs – em personalidade e origem – mas eles eram maiores e mais lentos. Pareceria evidente que os orcs eram corrupções de tipos humanos primitivos.

A origem dos orcs é matéria de debate. Alguns chamavam-os de Melkorohíni, os Filhos de Melkor; mas os mais sábios diziam: não, os escravos de Melkor,  mas não seus filhos; pois Melkor não tinha filhos. De qualquer modo, foi pela malícia de Melkor que os orcs surgiram, e eles foram claramente pretendidos por ele para serem um escárnio dos Filhos de Eru, sendo criados para serem completamente subservientes à sua vontade e cheios de ódio implacável por elfos e homens.

Ora, os orcs das guerras posteriores, depois da fuga de Melkor-Morgoth e seu retorno à Terra-média, não eram “espíritos”, nem fantasmas, mas criaturas vivas, capazes de falar e de algumas habilidades e organização; ou pelo menos capazes de aprender estas coisas de criaturas superiores e de seu mestre. Eles procriavam e multiplicavam-se rapidamente, sempre quando deixados imperturbados. Até onde pode-se compilar das lendas que chegaram até nossos dias de antigamente, parece que os Quendi não haviam encontrado nenhum orc desse tipo antes da chegada de Oromë a Cuiviénen.

Aqueles que acreditam que os orcs surgiram de alguma espécie de homens, capturados e pervertidos por Melkor, afirmam que era impossível para os Quendi terem conhecido os orcs antes da Separação e da partida dos Eldar. Pois embora o momento do despertar dos homens não fosse conhecido, mesmo os cálculos dos mestres de tradição que determinavam-no o mais próximo possível, não designaram uma data antes da Grande Marcha começar, certamente não uma suficiente para permitir a corrupção dos homens em orcs. Por outro lado, é evidente que logo após seu retorno, Morgoth tinha sob seu comando um grande número dessas criaturas, com as quais ele começara a atacar os elfos. Havia ainda menos tempo entre o seu retorno e esses ataques para a procriação dos orcs e para a transferência de seus exércitos para o oeste.

Esta visão da origem dos orcs depara-se com dificuldades de cronologia. Mas, embora os homens possam encontrar conforto nisto, a teoria permanece de qualquer modo a mais provável. Ela concorda com tudo que é sabido sobre Morgoth, e da natureza e comportamento dos orcs – e dos homens. Melkor era impotente para produzir qualquer coisa viva, mas hábil na corrupção de coisas que não originaram-se dele, se pudesse dominá-las. Mas se ele tivesse de fato tentado fazer criaturas por sua própria conta em imitação ou zombaria dos Encarnados, ele teria, como Aulë, sido apenas bem sucedido em produzir fantoches: suas criaturas teriam agido apenas enquanto a atenção de sua vontade estivesse sobre elas, e elas não teriam mostrado relutância em executar qualquer comando seu, ainda que fosse para destruírem a si mesmas.

Mas os orcs não eram desse tipo. Eles eram certamente dominados pelo seu mestre, mas sua dominação era por medo, e eles estavam cientes desse medo e o odiavam. Eles eram de fato tão corruptos que eram impiedosos, e não havia crueldade ou perversão que eles não cometessem; mas esta foi a corrupção de suas vontades independentes, e eles tinham satisfação nos seus atos. Eles eram capazes de agir por si próprios, cometendo atos malignos para seu próprio divertimento; ou se Morgoth e seus agentes estivessem distantes, eles poderiam negligenciar seus comandos. Eles às vezes lutavam entre si, para o detrimento dos planos de Morgoth.

Além disso, os orcs continuaram a viver e se reproduzir, e prosseguiram no seu trabalho de destruição e pilhagem após Morgoth ter sido destronado. Eles também possuiam outras características dos Encarnados. Eles tinham linguagens próprias, e falavam entre si várias línguas de acordo com as diferenças de linhagem que eram discerníveis entre eles. Eles precisavam de comida e bebida, e descanso, embora muitos fossem treinados tão duros como os anões para suportar as adversidades. Eles podiam ser mortos, e eram alvos de doenças; mas à parte desses males, eles morriam e não eram imortais, mesmo de acordo com o modo dos Quendi; de fato, eles pareciam ter por natureza vidas curtas comparadas com a longevidade dos homens de raças superiores, tais como os Edain.

Este último ponto não era bem compreendido nos Dias Antigos. Pois Morgoth possuía muitos servos, dos quais os mais velhos e mais potentes eram imortais, pertencendo de fato, no seu início, aos Maiar; e estes espíritos malígnos, como seu mestre, podiam tomar formas visíveis. Aqueles cujo trabalho era comandar os orcs frequentemente tomavam formas órquicas, porém eram maiores e mais terríveis. Assim as histórias falavam de Grandes Orcs ou capitães-orcs que não eram mortos, e que reapareciam em batalha através dos anos muito mais longos que os períodos das vidas dos homens.

Finalmente, há um ponto irrefutável, embora horrível de se relatar. Tornou-se claro com o tempo que indubitavelmente os homens podiam, em poucas gerações, sob a dominação de Morgoth ou de seus agentes, ser reduzidos quase ao nível órquico em mente e hábitos; e então eles estariam, ou poderiam estar, prontos para cruzar com orcs, produzindo novas linhagens, frequentemente maiores e mais astutas. Não há dúvida de que muito mais tarde, na Terceira Era, Saruman redescobriu isto, ou aprendeu sobre isto em estudo, e em sua sede pela supremacia, praticou isto, seu ato mais maligno: o cruzamento de orcs e homens, produzindo tanto homens-orc, grandes e astutos, como orcs-homens, traiçoeiros e desprezíveis.

Mas mesmo antes dessa perversão de que Morgoth era suspeito, os sábios nos Dias Antigos sempre ensinaram que os orcs não foram feitos por Melkor e, portanto, não eram malignos na sua origem. Eles podiam ter se tornado irredimíveis [pelo menos por elfos e homens], mas eles continuavam dentro da Lei. Isto é, que embora sendo necessário [sendo os dedos da mão de Morgoth] serem enfrentados com a maior severidade, eles não deveriam ser tratados com os seus próprios termos de crueldade e traição. Cativos, não deviam ser atormentados, nem mesmo para descobrir informações para a defesa das casas de elfos e homens. Se quaisquer orcs se rendessem e clamassem por misericórdia, ela seria concedida, a qualquer preço. Este era o ensinamento dos sábios, embora no horror da guerra isto não fosse sempre considerado.

É verdade, claro, que Morgoth mantinha os orcs em horrenda escravidão; pois em sua corrupção, eles haviam perdido quase toda a possibilidade de resistir à dominação de sua vontade. De fato, tão grande era a sua pressão sobre eles que, antes de Angband cair, se direcionasse seu pensamento na direção deles, eles ficariam conscientes de seu “olho” onde quer que estivessem; e quando Morgoth finalmente foi removido de Arda, os orcs que sobreviveram no oeste se dispersaram, sem liderança e quase sem sagacidade, e estiveram por um longo tempo sem controle ou propósito.

Esta servidão à uma vontade central que reduziu os orcs a uma vida quase como a de formigas, foi vista mais claramente na Segunda e Terceira Eras sob a tirania de Sauron, tenente-comandante de Morgoth. Sauron realmente alcançou maior controle sobre seus orcs do que Morgoth jamais havia conseguido. Ele estava, claro, operando em uma escala menor, e ele não tinha inimigos tão grandes e tão ferozes como os noldor no auge de seu poder nos Dias Antigos. Mas ele também herdou destes dias dificuldades, tais como a diversidade de orcs em linguagem e linhagem, e as hostilidades entre eles; enquanto em muitos lugares da Terra-média, após a queda das Thangorodrim e durante a ocultação de Sauron, os orcs, recuperando-se de sua impotência, ergueram pequenos reinos por si próprios e tornaram-se acostumados à independência. Mas Sauron conseguiu em tempo unir a todos em ódio irracional a elfos e aos homens que associaram-se a eles; enquanto que os orcs de seus próprios exércitos treinados estavam tão completamente sob sua vontade que sacrificariam a si mesmos, sem hesitação, ao seu comando.

[Mas havia uma falha no seu controle, inevitável. No reino do ódio e do medo, a coisa mais forte é o ódio. Todos os seus orcs odiavam-se uns aos outros, e precisavam ser mantidos sempre em guerra contra algum “inimigo” para evitar que se matassem entre si] E ele mostrou-se também mais habilidoso do que seu mestre na corrupção dos homens que estavam além do alcance dos sábios, e em reduzí-los à vassalagem, na qual eles marchariam com os orcs, e rivalizariam com eles em crueldade e destruição.

É dessa maneira que provavelmente devemos olhar para Sauron para encontrar uma solução do problema da cronologia. Embora de poder natural imensamente menor do que seu mestre, ele permaneceu menos corrupto, mais audacioso e mais apto à prudência. Pelo menos nos Dias Antigos, e antes de ser privado de seu senhor e cair na insensatez de imitá-lo, e esforçando-se para tornar-se Senhor Supremo da Terra-média. Enquanto Morgoth ainda governava, Sauron não procurou sua própria supremacia, mas trabalhou e planejou para outro, desejando o triunfo de Melkor, que no início ele venerava. Ele, assim, foi frequentemente capaz de concluir coisas, primeiramente concebidas por Melkor, que seu mestre não completou ou não podia completar na pressa furiosa de sua malícia.

Podemos supor, então, que a idéia do cruzamento de orcs partiu de Melkor, a princípio talvez não tanto pela provisão de servos ou da infantaria de suas guerras de destruição, como pela profanação dos Filhos e escárnio blasfemo dos desígnios de Eru. Os detalhes da realização dessa depravação foram, entretanto, deixados principalmente às sutilezas de Sauron. Neste caso, a concepção [em pensamento] dos orcs deve ter surgido há muito tempo, na noite do pensamento de Melkor, embora o início da sua atual reprodução devesse esperar pelo despertar dos homens.

Quando Melkor foi feito prisioneiro, Sauron escapou e permaneceu escondido na Terra-média; e desse modo pode ser compreendido como a reprodução dos orcs [sem dúvida já iniciada] continuou com velocidade crescente durante a era em que os noldor habitavam Aman; então quando retornaram à Terra-média, econtraram-na já infestada por esta praga, para o tormento de todos que lá habitavam, elfos, homens ou anões. Foi Sauron, também, que secretamente reparou Angband para o auxílio de seu mestre quando este retornasse; e lá, os escuros lugares subterrâneos já estavam guarnecidos com exércitos de orcs antes de Melkor por fim voltar, como Morgoth, o Sinistro Inimigo, e os enviou para trazer ruína a tudo que era belo. E embora Angband tenha caído e Morgoth tenha sido removido, eles ainda saem dos lugares sem luz na escuridão de seus corações, e a terra é destruída sob seus pés impiedosos.

Lúthien e Morgoth

Melkor Morgoth

Melkor deve ser feito muito mais poderoso em sua natureza original (cf. “Finrod e Andreth”). O maior poder abaixo de Eru (isto é, o maior poder criado).[1] (Ele devia criar/inventar/começar; Manwë (menos grandioso) devia aperfeiçoar, realizar, completar.

[Nota do tradutor: o uso constante e alternado do futuro e do presente dos tempos verbais no texto dá-se pelo caráter de “esboço ensaístico” do mesmo, pretendido como tal para elucidar a personalidade de Melkor em uma possível versão reescrita do Quenta Silmarillion.]

Posteriormente, ele não deve ser capaz de ser controlado ou “acorrentado” por todos os Valar unidos. Observe-se que, nos primórdios de Arda, ele foi capaz de, sozinho, expulsar os Valar da Terra-média, em retirada.A guerra contra Utumno só foi empreendida pelos Valar com relutância, e sem esperança de vitória real, mas deu-se como uma ação de proteção ou distração, para permitir-lhes retirarem os Quendi de sua esfera de influência. Mas Melkor já havia progredido de algum modo na direção do caminho que o tornaria “o Morgoth, um tirano (ou uma tirania e vontade centrais), mais seus agentes”.[2] Apenas o total continha o antigo poder do Melkor completo; de modo que, se “o Morgoth” pudesse ser alcançado ou separado temporariamente de seus agentes, ele estaria muito mais próximo de ser controlável e em um nível de poder tal como o dos Valar. Os Valar percebem que podem lidar com seus agentes (isto é,
exércitos, Balrogs, etc.) gradualmente. De forma que eles chegam, por fim, à própria Utumno e descobrem que “o Morgoth” não possui no momento “força” suficiente (em qualquer sentido) para defender-se do contato pessoal direto. Manwë finalmente encara Melkor mais uma vez, como ele não havia feito desde que entrou em Arda. Ambos assombram-se: Manwë por perceber o declínio em Melkor como uma pessoa, Melkor por também perceber isto a partir de seu próprio ponto de vista: ele agora possui menos força pessoal do que Manwë, e não pode mais intimidá-lo com seu olhar.Ou Manwë deve contar-lhe isso ou ele mesmo deve perceber repentinamente (ou ambas opções) que isso aconteceu: ele está “disperso”. Mas o desejo de possuir criaturas sujeitas a ele, dominadas, tornou-se habitual e necessário a Melkor de modo que, mesmo se o processo fosse reversível (possivelmente o era apenas pela auto-humilhação e arrependimento absolutos e verdadeiros), ele não pode realizá-lo por si próprio.* Assim como com todos os outros personagens, deve haver um momento de estremecimento no qual isso está em jogo: ele quase se arrepende – e não o faz, e torna-se muito mais cruel e mais tolo.* Uma das razões para esse seu auto-enfraquecimento é a de que ele deu às suas “criaturas”, Orcs, Balrogs, etc., poder de recuperação e multiplicação. De modo que eles irão se reuinir novamente sem ordens específicas adicionais. Parte desse poder criativo nativo perdeu-se ao criar um crescimento maligno independente, fora de seu controle.Possivelmente (e ele acha isso possível) ele poderia, neste momento, ser humilhado contra sua própria vontade e “acorrentado” – se e antes que suas forças dispersas reagrupem-se. Portanto – tão logo tivesse rejeitado mentalmente o arrependimento – ele (assim como Sauron posteriormente do mesmo modo) faz um arremedo de auto-humilhação e arrependimento pelo qual, na verdade, sente um tipo de prazer pervertido como ao profanar algo sagrado – [pois a mera contemplação da possibilidade de arrependimento genuíno, se essa não viesse então especialmente como uma graça direta de Eru, ao menos foi uma última centelha de sua verdadeira natureza primordial.] Ele dissimula remorso e arrependimento. Ele realmente ajoelha-se diante de Manwë e rende-se – em primeiro lugar, para evitar ser acorrentado com a corrente Angainor da qual, uma vez sobre ele, teme jamais libertar-se. Mas ele também subitamente tem a idéia de penetrar na exaltada estabilidade de Valinor e arruiná-la. Assim, ele se oferece para tornar-se “o menor dos Valar” e servo de todos eles, para ajudar (por conselhos e habilidade) a reparar todas as perversidades e ferimentos que causara. É essa oferta que seduz ou ilude Manwë – Manwë deve ser mostrado como tendo sua própria falha inata (embora não seja um pecado)**: ele fica absorto (em parte por medo absoluto de Melkor, em parte pelo desejo de controlá-lo) na correção, cura, reordenamento – até na “manutenção do status quo” – levando à perda de todo o poder criativo e mesmo à fraqueza ao lidar com situações difíceis e perigosas. Contra o conselho de alguns dos Valar (tais como Tulkas), ele atende à súplica de Melkor.

** Cada criatura finita deve possuir alguma fraqueza: que é alguma incapacidade de lidar com algumas situações. Não é pecaminoso quando não ocorre voluntariamente e quando a criatura dá o melhor de si (mesmo se não for o que deveria ser feito) do modo como esta vê a situação – com a intenção consciente de servir a Eru.

Melkor é levado de volta à Valinor, indo por último (exceto por Tulkas***, que o segue carregando Angainor e fazendo-a ressoar para que Melkor lembre-se dela).

*** Tulkas representa o lado bom da “violência” na guerra contra o mal. Essa é uma ausência de todo compromisso que irá confrontar mesmo males aparentes (tais como a guerra) em vez de parlamentar; e não acredita (em qualquer tipo de orgulho) que qualquer um inferior a Eru possa reparar isso, ou reescrever o conto de Arda.

Mas no conselho, não é dada a Melkor liberdade imediata. Os Valar reunidos não tolerarão isso. Melkor é remetido a Mandos (para lá
permanecer em “reclusão” e meditar, e completar seu arrependimento – e também seus planos para a reparação).[3]

Ele começa então a duvidar da sensatez de sua própria política, e teria rejeitado tudo e irromperia em uma rebelião flamejante – mas ele agora está absolutamente isolado de seus agentes e em território inimigo. Ele não pode. Portanto, ele engole o amargo remédio (mas isso aumenta enormemente seu ódio, e posteriormente ele sempre acusou Manwë de ser desleal).

O resto da história, com a libertação de Melkor, e a permissão para estar presente no Conselho, sentando aos pés de Manwë (conforme o
modelo de conselheiros malignos em contos posteriores que, pode-se dizer, deriva desse modelo primordial?), pode então proceder mais ou menos como já contado.

Notas:

[1] Cf. as palavras de Finrod no Athrabeth: “não há poder algum concebivelmente maior que Melkor, salvo apenas Eru”.

[2] A referência mais antiga à essa idéia da “dispersão” do poder original de Melkor é encontrada nos Anais de Aman §179: “Pois ele cresceu em malícia e, transmitindo de si mesmo o mal que concebera em mentiras e criaturas ou perversidade, seu poder passou para elas e foi dispersado, e ele próprio tornou-se ainda mais ligado à terra, negando-se a sair de suas fortalezas sombrias.”

Cf. também Anais §128 – A expressão “o Morgoth” é usada várias vezes por Finrod no Athrabeth.[3] “seus planos para a reparação”: isto é, a reparação dos males que ele produziu.
DwarvesSoFar

Dos Anões e Homens

Importante texto da série HoME que trata dos Anões, seus clãs, suas alianças com os Homens e também relata sobre os Homens do Norte.
[Christopher Tolkien:Este longo ensaio não possui título, mas em uma página de rosto meu pai escreveu:

“Uma história e comentário extenso sobre a inter-relação das linguagens em O Silmarillion e em O Senhor dos Anéis, originadas de considerações sobre o Livro de Mazarbul, mas tentando clarificar e onde necessário corrigir ou explicar as referências a tais assuntos espalhadaos por O Senhor dos Anéis, especialmente no Apêndice F e na Fala de Faramir no SdA II”

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Tim Kirk - Bilbo et Gollum

Adivinhas no Escuro

Quando da publicação de O Senhor dos Anéis, Tolkien reescreveu determinadas partes de O Hobbit, para que fechasse com a narrativa da saga maior. Segue, também, em notas de rodapé, as modificações feitas pelo professor, conforme a edição brasileira, além de outros comentários acerca do capítulo. Agradeço ao Pandatur Parmandil por ter encontrado este texto, que há muito procuro.
Quando Bilbo abriu seus olhos, ele pensou se realmente o fizera, pois continuava tão escuro quanto quando estava com eles fechados. Não havia ninguém perto dele. Imagine seu medo! Ele não
podia ver nada, ouvir nada ou sentir nada, exceto a pedra do chão.
Lentamente, se levantou e foi engatinhando, até que tocasse a parede do túnel; mas nem para cima, nem para baixo, ele pôde encontrar alguma coisa: nada mesmo, nem sinal dos goblins, nem sinal dos anões. Sua cabeça rodava, e ele estava longe de ter certeza sequer sobre a direção que corria quando caiu. Ele supôs da melhor maneira que pôde, e engatinhou por um longo caminho, até que, de repente, sua mão encontrou o que parecia ser um pequeno anel de metal frio caído no chão do túnel.
Era um ponto decisivo em sua carreira, mas ele não sabia disto. Ele
colocou o anel em seu bolso, praticamente sem pensar; ele certamente não parecia ser útil naquele momento. Ele não foi muito além, mas sentou no chão frio e entregou-se à mais completa infelicidade, por um bom tempo. Ele pensou nele mesmo, fritando bacon e ovos em sua cozinha em sua casa – pois ele sentia por dentro que era hora de alguma refeição; mas isso apenas o deixou mais infeliz.
Ele não podia pensar no que fazer; nem podia ele pensar no que aconteceu; ou por que ele havia sido deixado para trás; ou por que, se ele tivesse sido deixado para trás, os goblins não o haviam capturado, nem por que sua cabeça estava tão dolorida. A verdade é que ele estava deitado e imóvel, fora do alcance da visão e esquecido, em um canto muito escuro por um longo tempo.  Depois de um tempo, ele tateou atrás de seu cachimbo. Não estava quebrado, o que já era alguma coisa. Então ele tateou atrás de sua bolsa, e havia algum tabaco ali, e isso era mais alguma coisa. Então ele tateou atrás de fósforos, mas não pode encontrar nenhum, e isso destruiu completamente suas esperanças. Era melhor assim, acabou concordando, quando pensou melhor. Sabe-se lá o que seria atraído pelo riscar de fósforos e pelo cheiro de tabaco em buracos escuros daquele lugar horrível. Mesmo assim, naquele momento ele se sentiu aniquilado. Mas, ao tatear seus bolsos e em si mesmo atrás de fósforos, sua mão acabou tocando o punho de sua pequena espada – a adaga que pegara dos trolls, da qual ele havia esquecido; tampouco, felizmente, havia sido encontrada pelos goblins, já que a usava dentro das calças.
Então ele a desembainhou. Ela brilhou pálida e fraca diante de seus olhos. “Então esta é uma lâmina élfica também,” pensou, “e os goblins não estão muito perto, mas também não estão longe o suficiente.”
Mas de alguma forma, ele estava confortado. Era um tanto esplêndido usar uma lâmina forjada em Gondolin para a guerra dos goblins que muitas canções celebravam; e também ele percebeu que essas armas causavam uma grande impressão nos goblins que atacavam de repente.
“Voltar?” pensou. “Não adiantará nada! Ir para os lados? Impossível! Seguir adiante? A única coisa a fazer! Adiante, então!”
Então ele se levantou e avançou a passadas largas, segurando sua
pequena espada em sua frente e com uma das mãos tateando a parede, e seu coração batendo como um tambor. Agora, certamente pode-se dizer que Bilbo estava em um aperto. Mas você deve lembrar que o aperto não era tão grande para ele como seria para mim ou para você. Hobbits não são como pessoas comuns; e, afinal, se as tocas deles são lugares alegres e devidamente arejados, bem diferente dos túneis dos goblins, ainda assim eles estão mais acostumados a túneis do que nós, além de não perdem facilmente o senso de direção debaixo da terra – não quando suas cabeças já haviam se recuperado de uma pancada. Além disso, eles podem se movimentar silenciosamente, e se esconder com facilidade, e se recuperam maravilhosamente de quedas e ferimentos, e têm um cabedal de sabedoria e ditados sábios que os homens nunca ouviram, ou há muito esqueceram.

 

Eu não gostaria de estar no lugar do Sr. Bolseiro, de qualquer forma.   túnel não parecia ter fim. Tudo o que ele sabia é que seguia para baixo e mantinha a mesma direção, a não ser por uma curva ou duas. De quando em quando, haviam passagens que conduziam para os lados, pelo que podia notar pelo brilho da espada, ou podia sentir com a sua mão na parede. E adiante ele foi, descendo cada vez mais; e ainda assim não ouvia som algum, a não ser uma ocasional batida de asas de morcego, o que o assustava no início, mas que depois se tornou freqüente demais para se preocupar. Não sei por quanto tempo ele seguiu dessa forma, odiando seguir em frente, não ousando parar, em frente e em frente, até ficar mais que cansado. Era como correr todo o caminho até o dia seguinte, e seguir para os dias além.

De repente, sem aviso, estava caminhando pela água! Ugh! estava congelante. Aquilo o fez estacar. Ele não sabia se era apenas uma poça no caminho, ou a beira de uma corrente subterrânea que cruzava a passagem, ou a margem de um lago subterrâneo negro e profundo. A espada mal estava brilhando. Ele parou, e, quando prestou atenção, pôde ouvir gotas pinga-pinga-pingando de um teto invisível e caindo na água: mas não parecia haver nenhum outro tipo de som.

“Então é uma poça ou um lago, e não um rio subterrâneo,”pensou. Mesmo assim, não ou sou atravessar na escuridão. Ele não sabia nadar; e também imaginava seres nojentos e viscosos, com grandes olhos cegos e esbugalhados, serpenteando na água. Existem coisas estranhas vivendo nas poças e lagos nos corações das montanhas: peixes cujos antepassados entraram, sabe-se lá quantos anos atrás, e nunca mais saíram novamente, e seus olhos cresceram mais e mais e mais, de tanto tentar enxergar na escuridão; também há coisas mais pegajosas que peixes. Mesmo nos túneis e nas cavernas que os goblins fizeram para si, existem coisas que vivem em segredo, que entraram furtivamente e se entocaram no escuro. Além disso, algumas dessas cavernas existem desde eras antes dos goblins, que apenas as ampliaram e as interligaram com passagens, e os proprietários originais ainda permanecem lá em cantos escusos, movimentando-se furtivamente e farejando tudo.

Lá no fundo, na beira da água escura, vivia o velho Gollum, uma pequena criatura viscosa. Eu não sei da onde veio, nem o que ele era. Ele era Gollum – escuro como a escuridão, exceto por dois grandes olhos redondos e pálidos em seu rosto magro. Ele tinha um pequeno barco, e remava pelo lago quase sem nenhum ruído; pois era realmente um lago, largo e profundo e mortalmente frio. Ele impelia o barco com seus grandes pés pendendo nas bordas, mas nunca erguia uma onda na água. Não ele. Com seus olhos pálidos como lamparinas, ele procurava por peixes cegos, que ele pegava com seus dedos longos tão rápido como um pensamento. Ele gostava de carne também. Gostava de goblins, quando podia apanhá-los; mas ele cuidava para nunca ser descoberto. Ele apenas os estrangulava por trás, quando algum descia sozinho até perto da água, enquanto ele rondava por ali. Era raro acontecer, pois eles tinham o pressentimento de que havia algo desagradável estava espreitando por lá, bem nas raízes da montanha. Haviam chegado até o lago, quando estavam abrindo os túneis, muito tempo atrás, e descobriram que não podiam mais avançar; então o caminho terminava naquela direção, e não havia motivo para irem até lá – a não ser que o Grande Goblin os mandasse. Algumas vezes ele tinha vontade de comer um peixe do lago, e algumas vezes nem o goblin e nem o peixe retornavam.

Na verdade, Gollum vivia em uma ilha de pedra viscosa no meio do lago. Ele estava observando Bilbo à distância, com seus olhos pálidos como telescópios. Bilbo não podia vê-lo, mas ele imaginava um monte de coisas sobre Bilbo, pois ele podia ver que ele não era nenhum goblin.
Gollum entrou em seu barco e afastou-se da ilha enquanto Bilbo estava sentado na borda, completamente atarantado, no fim do seu caminho e no fim de seu juízo. De repente surgiu Gollum, sussurrando e chiando:  “Que beleza e que moleza, meu preciossso! Acho que temos um lauto banquete, pelo menos um bom bocado para nós, gollum!” E quando ele dizia gollum, fazia um ruído horrível na garganta, como se estivesse engolindo alguma coisa. Foi assim que ele conseguiu esse nome, apesar de sempre chamasse a si mesmo de “meu precioso”. 1
O hobbit pulou quase que para fora de sua própria pele quando o chiado chegou-lhe aos ouvidos e, de repente, viu os olhos pálidos e salientes voltados para ele. “Quem é você?”, perguntou ele, erguendo a adaga à sua frente.  “O que é ele, preciossssso?”, sussurrou Gollum (que sempre falava consigo mesmo porque nunca tinha ninguém para conversar). Era o que vinha descobrir, pois, na verdade, não estava com muita fome no momento, apenas curioso; do contrário ele teria agarrado primeiro e sussurrado depois.
“Eu sou o Senhor Bilbo Bolseiro. Eu perdi os anões e perdi o mago, e não sei onde estou; e não quero saber, se puder sair daqui.”

“O que ele tem nas mãoses?”, sussurrou Gollum, olhando para a espada, da qual ele não gostou muito.

“Uma espada, uma lâmina que vem de Gondolin!”

“Ssssss!”, disse Gollum, ficando muito educado. “Você pode sentar aqui e conversar com nós só um pouquinho, meu preciosssso. Você gosta de adivinhas, vai ver que gosta, não gosta?” Ele estava ansioso para parecer amigável, pelo menos no momento, e até descobrir mais sobre a espada e sobre o hobbit, se ele realmente estava sozinho, se ele realmente era bom de se comer, e se Gollum estava realmente faminto.
Adivinhas era tudo o que ele conseguiu pensar. Propô-las e algumas vezes adivinhá-las era o único jogo que já tinha jogado com outras criaturas divertidas, sentadas em suas tocas, muito tempo atrás, antes de perder todos os seus amigos e fosse expulso, e rastejasse mais e mais para as profundezas escuras das montanhas.

“Muito bem”, disse Bilbo, que estava ansioso por concordar, até que descobrisse mais sobre a criatura, se realmente estava sozinho, se era feroz, se estava faminto ou se era amigo dos goblins.
“Você pergunta primeiro”, disse ele, pois não teve tempo de pensar  uma adivinha. Então Gollum chiou:

Tem raízes misteriosas,
É mais alta que as frondosa
Sobe, sobe e também desce,
Mas não cresce nem decresce.

“Fácil!”, disse Bilbo. “Montanhas, eu suponho.”
“Ele adivinha fácil? Precisa fazer uma competição com nós, preciosso. Se ele perguntar para nós, e nós não responder, nós dá um presente pra ele, gollum!” 2
“Certo!”, disse Bilbo, não ousando discordar, e quase estourando os miolos tentando lembrar de adivinhas que pudessem salvá-lo de ser devorado.

Trinta cavalos brancos na colina avermelhada
Primeiro cerceiam,
Depois pisoteiam,
Depois não fazem nada.

Foi tudo o que conseguiu lembrar para perguntar – a idéia de comida
ainda povoava seus pensamentos. A adivinha era bem velha também, e Gollum sabia da resposta tão bem quanto vocês.
“Barbada, barbada,” ele chiou, “Dentess! dentess!, meu preciosso; mas nós só tem seis!” Então ele perguntou a sua segunda:

Sem asas volita,
Sem vozes ele ulula,
Sem dentes mordica
Sem boca murmura.

“Um minutinho!’, gritou Bilbo, ainda incomodado pensando em comida. Por sorte já ouvira algo parecido antes e, colocando a cabeça no lugar, pensou na resposta. “Vento, vento, é claro.”, disse ele, e ficou tão satisfeito que inventou uma na hora. “Esta vai confundir essa criaturinha subterrânea nojenta”, pensou ele.

Um olho no azul dum rosto
Viu outro no verde de outro.
“Aquele olho é como este olho”
Disse o primeiro olho,
“Mas lá em baixo é o seu lugar,
Aqui em cima é o meu lugar.”

“Ss, ss, ss”, disse Gollum. Estivera debaixo da terra por um longo tempo, e já começava a esquecer esse tipo de coisa. Mas exatamente quando Bilbo começava a alimentar esperanças de que o patife não conseguiria responder, Gollum trouxe memórias de muitas eras passadas, de quando vivia com a avó numa toca na margem de um rio. “Sss, sss, meu preciosso”, disse ele. “Sol sobre as margaridas, é essa a resposta, é sim”.
Mas aquele tipo de adivinhas comuns, de cima da terra, estavam começando a cansá-lo. Além disso, faziam-no lembrar de tempos em que era menos solitário, furtivo e nojento, e isso o deixava nervoso. Mas ainda, o deixavam faminto; então, dessa vez, tentou algo mais difícil e desagradável:

Não se pode ver, não se pode sentir,
Não se pode cheirar, não se pode ouvir.
Está sob as colinas e além das estrelas,
Cavidades vazias – ele vai enchê-las.
De tudo vem antes e vem em seguida,
Do riso é a morte, é o fim da vida.

Infelizmente para Gollum, Bilbo já ouvira esse tipo de coisa antes, e,
de qualquer modo, a resposta o envolvia. “O escuro!”, disse ele, sem
coçar nem quebrar a cabeça.

Caixinha sem gonzos,tampa ou cadeado,
Lá dentro escondido um tesouro dourado,

Perguntou ele para ganhar tempo, até que pudesse pensar numa verdadeiramente difícil. Aquela ele considerava uma barbada, terrivelmente fácil, mas acabou se tornando um grande desafio para Gollum. Ele chiava para si mesmo, suspirava e balbuciava.
Depois de algum tempo, Bilbo ficou impaciente. “Então, o que é?” disse. A resposta não é uma chaleira fervendo, como dá a entender com esse barulho que está fazendo.”
“Dá uma chance pra nós, deixa ele dar uma chance pra nós, preciosso…ss…ss.”

“Bem,” disse Bilbo, depois de um longo tempo “qual é a sua resposta?”
Então, de repente, Gollum lembrou-se de quando roubava ninhos, há muito tempo atrás, e sentava-se às margens do rio e ensinava a sua avó, ensinava a sua avó a chupar – “Ovosos!”, ele sibilou. “Ovosos é o que é!” Então ele perguntou:

Como a morte, não tenho calor,
Vivo, mas sem respirar;
Sem sede, sempre a beber,
Encouraçado, sem tilintar.

Ele, em seu pensamento, achou que era uma adivinha terrivelmente fácil, pois ele pensava o tempo todo na sua resposta. Mas não conseguiu pensar em nada melhor no momento, de tão atrapalhado que ficou com a questão do ovo. Mas mesmo assim era um grande desafio para o pobre Bilbo, que não tinha nada a ver com a água, a não ser por obrigação. Imagino que você saiba a resposta, e, caso não saiba, consiga adivinhá-la num piscar de olhos, já que está sentado em casa, e não existe o perigo de ser devorado para atrapalhar seus pensamentos. Bilbo sentou-se e limpou a garganta duas vezes, mas não saiu resposta alguma.
Depois de um tempo, Gollum começou a sibilar para si mesmo com prazer. “É bom, não é, preciosso? É suculento? Deliciosamente triturável?” E começou a espiar Bilbo, da escuridão.
“Um momento,” disse o hobbit, tremendo. “Eu acabei de lhe dar uma bela chance, um minuto atrás.”
“Ele deve se apressar, apressar!” disse Gollum, começando a descer do seu barco na margem para chegar até Bilbo. Mas quando colocou seu comprido pé de pato na água, um peixe se assustou e pulou para fora, caindo nos pés de Bilbo.
“Ugh!”, disse ele, “é gelado e viscoso!” – então ele adivinhou. “Peixe! Peixe!”, gritou. “É um peixe!”
Gollum ficou terrivelmente desapontado; mas Bilbo perguntou outra charada, tão rápido quanto pode, para que Gollum tivesse que voltar para o seu barco para pensar.

Sem pernas ficou sobre uma perna, duas pernas sentou próximo em três pernas, quatro pernas ganhou alguma coisa.

Não era o momento ideal para esse tipo de adivinha, mas Bilbo estava com pressa. Gollum poderia ter problemas para adivinhá-la, se tivesse perguntado em outra ocasião. Naquela circunstância, falando de peixes, sem pernas não era difícil, e, depois disso, ficava fácil de adivinhar.
“Peixe em uma mesa pequena, um homem à mesa, sentado em um banco e o gato fica com as espinhas.” era a resposta, e Gollum a deu rapidamente. Então ele pensou que havia chegado a hora de se perguntar algo horrível e difícil. Isso foi o que ele perguntou:

Essa é a coisa que a tudo devora
Feras, aves, plantas, flora.
Aço e ferro são sua comida,
E a dura pedra por ele moída;
Aos reis abate, à cidade arruína,
E a alta montanha faz pequenina.

O pobre Bilbo ficou sentado no escuro pensando em todos os nomes de gigantes e ogros que ouvira em contos, mas nenhum deles tinha feito todas essas coisas. Ele sentia que a resposta era totalmente diferente, e que ele deveria conhecê-la, mas não conseguia pensar nela. Ele começou a ficar com medo, e isso é ruim quando se está tentando pensar.

Gollum começou a sair do seu barco. Pulou na água e avançou até a margem; Bilbo podia ver seus olhos vindo em sua direção. Sua língua parecia presa em sua boca; ele queria gritar “Me dê mais tempo! Me dê tempo!”, mas tudo o que saiu num guincho repentino foi:

“Tempo! Tempo!”

Bilbo fora salvo por pura sorte. É claro que aquela era a resposta correta.  Gollum ficou novamente desapontado; e agora ele estava ficando com raiva, e também cansado do jogo. Aquilo o deixara realmente muito faminto. Desta vez ele não voltou para o barco. Ele sentou ao lado de Bilbo na escuridão. Isso deixou Bilbo terrivelmente desconfortável e atrapalhou o seu raciocínio.

“Tem que fazer outra pergunta pra nós, preciosso, sim, ssim, sssim.Ssó mais uma pergunta pra nóss adivinhar, sim, ssim.” Disse Gollum.

Mas Bilbo não conseguia pensar em nenhuma pergunta com aquela coisa nojenta, úmida e fria sentada ao lado dele, apalpando e cutucando. Ele se coçava, se beliscava e mesmo assim não conseguia pensar em nada.
“Pergunta pra nós! Pergunta pra nós!” Disse Gollum.
Bilbo se beliscava e se esbofeteava; ele segurou sua pequena espada; ele até apalpou o seu bolso com a outra mão. Ali ele encontrou o anel que pegara no corredor e do qual se esquecera.

“O que tenho em meu bolso?”, disse ele em voz alta. Ele estava falando consigo mesmo, mas Gollum pensou que era uma adivinha, e isso o deixou terrivelmente perturbado.
“Não é justo! Não é justo!”, ele sibilou. “Não é justo, meu precioso, é justo perguntar pra nós o que tem no bolsso nojento dele?”
Bilbo viu o que estava acontecendo e, sem nada melhor para perguntar, insistiu na sua pergunta: “O que tenho em meu bolso?”, falou ainda mais alto.

“Ssssssss”, sibilou Gollum, “Tem que nos dar três chances, meu preciosso, três chancesss.”
“Muito bem! Tente adivinhar!” disse Bilbo.
“Mãoses!”, disse Gollum.
“Errado”, disse Bilbo que, por sorte, acabara de tirar as mãos dos bolsos. “Tente de novo!”
“Sssssss”, disse Gollum, mais decepcionado do que nunca. Ele pensou em todas as coisas que levava em seus bolsos: espinhas de peixe, dentes de goblins, conchas molhadas, um pedaço de asa de morcego, uma pedra afiada para afiar as suas presas e outras coisas nojentas. Ele tentou pensar em coisas que outras pessoas carregam em seus bolsos.
“Faca!”, disse finalmente.
“Errado!”, disse Bilbo, que havia perdido a sua há algum tempo.

“Última chance!”
Agora Gollum estava em uma situação muito melhor do que quando Bilbo lhe perguntou a questão do ovo. Ele sibilou, resmungou e balançou para frente e para trás, batia os pés no chão, se contorcia e se entortava todo; mas mesmo assim não ousava desperdiçar sua última tentativa.
“Vamos!” disse Bilbo, “Eu estou esperando!” Ele tentou soar corajoso e confiante, mas não tinha muita certeza de como o jogo iria terminar, quer Gollum acertasse, quer não.
“O tempo acabou!”, disse ele.
“Barbante, ou nada!”, guinchou Gollum, o que não foi muito honesto – tentar duas respostas de uma só vez.

“Errou as duas,” gritou Bilbo, muito aliviado; e levantou-se imediatamente, apoiando as costas na parede mais próxima e desembainhou sua pequena espada. 3 Mas curiosamente ele não precisava ter se assustado. Pois se havia uma coisa que Gollum tinha aprendido há muito tempo atrás era que nunca, nunca se deve trapacear num jogo de adivinhas, que é um jogo sagrado e de imensa antiguidade. E também havia a espada. Ele simplesmente se sentou e sibilou.
“E o presente?” perguntou Bilbo. Não que se importasse muito, mas ainda pensava que havia vencido de forma justa e com muita dificuldade.
“Devemos dar a ele a coisa, preciosso? Ssim, nóss tem. Nós tem que buscar, preciosso, e dar o presente como prometemoss.”, disse Gollum, remando de volta para o seu barco, e Bilbo pensou que seria a última vez que ouviria falar dele. Mas não. O hobbit já estava pensando em voltar pelo corredor – ele já tinha aturado o suficiente de Gollum e da margem da água escura – quando o ouviu lamentando e guinchando na escuridão. Ele estava em sua ilha (do que, obviamente, Bilbo nada sabia), fuxicando aqui e ali, procurando e buscando em vão e revirando seus bolsos.
“Onde está? Onde esstá?” Bilbo o ouviu guinchar.
“Perdido, perdido, meu preciosso, perdido, perdido! Droga e praga! Nós não temos o presente que prometemos, e nós não temos nem pra nós mesmos!”
Bilbo se virou e esperou, imaginando qual seria o motivo de tamanha algazarra. Isso se provou um lance de sorte, no fim das contas. Pois Gollum retornou e sapateou e sussurrou e resmungou, e no fim, Bilbo concluiu que Gollum tinha um anel – um anel maravilhoso, muito bonito, um anel que havia sido dado como presente de aniversário, eras e eras atrás, quando tais anéis não eram tão incomuns. Algumas vezes ele guardava no seu bolso; geralmente ele deixava em um buraco na pedra em sua ilha; algumas vezes ele o usava – quando estava realmente faminto e cansado de peixe, e se esgueirava pelos corredores escuros atrás de goblins errantes. Então ele se aventurava até por lugares iluminados por tochas que incomodavam seus olhos e os deixava doloridos; mas ele estaria seguro. O sim! Seguro o bastante, pois se você colocasse o anel em seu dedo, você ficaria invisível e só poderia ser visto na luz do sol, e mesmo assim apenas sua sombra seria vista, e seria uma sombra fraca e trêmula.
Eu não sei quantas vezes Gollum pediu desculpas a Bilbo. Ele ficava dizendo “Nós sente muito; nós não queria trapacear, nós queria dar nosso único, único presente, se ganhasse a competição.” Ele até se ofereceu para pegar uns peixes suculentos para Bilbo como compensação.
Bilbo estremeceu só de pensar nisso. “Não, obrigado!”, disse ele, o mais educadamente possível.
Ele estava pensativo, e lhe ocorreu a idéia de que Gollum devia ter perdido o anel em algum momento e que ele devia tê-lo encontrado, e que ele tinha aquele anel em seu bolso. Mas ele resolveu não contar para Gollum.
“Achado não é roubado!”, disse para si mesmo; e ,estando em uma situação delicada ouso dizer, ele estava certo. De qualquer forma o anel pertencia a ele agora.
“Não se preocupe.”, disse. “O anel seria meu agora se você o encontrasse, então você teria perdido ele de qualquer forma. E eu vou deixar para lá com uma condição.”
“Ssim, qual é? O que quer fazer, precioso?”
“Me ajude a sair deste lugar.”, disse Bilbo.
Agora Gollum teve de concordar com isso, já que não costumava trapacear. Ele ainda queria muito descobrir se o estranho era saboroso ou não; mas agora ele tinha que desistir dessa idéia toda. Pois ainda tinha a pequena espada; e o estranho estava bem desperto e atento, não desprevenido como Gollum gostava das coisas que atacava. Então, talvez era melhor deixar assim.

E foi assim que Bilbo descobriu que o túnel acabava na água e não seguia adiante para o outro lado, onde a parede da montanha era escura e sólida. Ele também descobriu que devia ter passado por uma das passagens para a direita antes de chegar ao fundo; mas ele não podia seguir as indicações de Gollum para encontrar o caminho para fora novamente, e então ele obrigou a criatura infeliz a lhe acompanhar e mostrar o caminho.

Enquanto caminhavam juntos pelo túnel, com Gollum saltitando ao seu lado, Bilbo ia caminhando delicadamente, pensando se devia experimentar o anel. Então o anel escorregou para o seu dedo.
“Onde está? Para onde foi?”, disse Gollum imediatamente, olhando ao redor com seus grandes olhos.
“Aqui estou, atrás de você.”, disse Bilbo, tirando o anel de seu dedo e
se sentindo muito feliz por tê-lo e por descobrir que realmente faz o
que Gollum disse.
Agora retomaram a caminhada, enquanto Gollum contava os túneis para a esquerda e para a direita. “Um à esquerda, um à direita, dois à direita, três à direita, dois à esquerda”, e assim seguiram adiante. Ele começou a ficar mais e mais agitado e assustado enquanto se afastavam mais e mais da água, mas finalmente ele parou próximo a uma pequena abertura à esquerda (que levava para cima) – “seis à direita, quatro à esquerda.”

“Aqui está a passagem”, ele sussurrou, “tem que se espremer para entrar e andar abaixado. Nós não vai junto, preciosso, nós não vai. Gollum!”
Então Bilbo se esgueirou pelo arco e disse adeus à criatura nojenta, e ficou muito feliz em fazê-lo. Ele não se sentiu à vontade até que tivesse certeza de que ela tinha ido embora, e manteve a cabeça para fora no túnel principal ouvindo até que não mais escutasse os passos de Gollum retornando para o seu barco. Então ele entrou no novo túnel. Era um túnel estreito e mal feito. Mas era perfeito para um hobbit, a não ser quando, no escuro, batia o pé em pedras escuras e nojentas no chão; mas devia ser um tanto baixo para goblins. Mas ele não sabia que mesmo os goblins eram acostumados a esse tipo de coisa, e que se moviam rapidamente, caminhando abaixados com suas mãos quase tocando ao chão.
Isso fez Bilbo esquecer do perigo de encontrá-los, então seguiu rápida e temerariamente.
Logo a passagem começou a subir novamente, e depois de um tempo tornou-se íngreme, o que acabou atrasando Bilbo. Mas por fim a subida acabou e o túnel fez uma curva e foi pra baixo novamente, e lá, no fundo de um pequeno declive, ele viu, infiltrando-se por outra curva – um vislumbre de luz. Não uma luz avermelhada como da chama de uma tocha ou lamparina, mas uma luz pálida de ar livre. Então ele começou a correr. Correndo tanto quanto suas perninhas permitiam, ele fez a curva e chegou subitamente a um lugar aberto onde a luz, depois de tanto tempo na escuridão, parecia estonteantemente clara. Na verdade era apenas uma réstia de sol que entrava por uma soleira, onde uma grande porta, uma porta de pedra, fora deixada levemente aberta.
Bilbo piscou, e então subitamente viu os goblins, goblins em armaduras completas com espadas desembainhadas sentados logo na entrada, e observando com os olhos bem abertos, vigiando a passagem que levava até ali! Viram-no antes que ele os visse, e com um grito de deleite, partiram para cima dele.
Se foi um acidente ou presença de espírito eu não sei. Acidente penso eu, pois o hobbit não estava acostumado com seu novo tesouro. De qualquer forma, ele colocou o anel em sua mão esquerda – e os goblins pararam de súbito. Não conseguiam ver nem sinal dele. Então gritaram duas vezes mais alto que antes, mas não de deleite. 4

“Onde está ele?”, gritaram.
“Voltem para a passagem!”, gritavam alguns.
“Por aqui!”, berravam alguns. “Por ali!”, berravam outros.
“Vigiem a porta!”, gritou o capitão.
Soavam assobios, armaduras se chocavam, espadas tilintavam, goblins praguejavam, xingavam e corriam de um lado para o outro, caindo uns sobre os outros, cada vez mais furiosos. Azáfama terrível, tumulto e desordem.
Bilbo estava terrivelmente amedrontado, mas teve o bom senso de compreender o que acontecera e de se esconder atrás de um grande barril que continha bebida para os guardas-goblins, saindo assim do caminho e evitando que tropeçassem nele, que o pisoteassem até a morte ou que o capturassem pelo tato.
“Preciso chegar até a porta, preciso chegar até a porta!”, dizia a si mesmo, mas demorou muito até que se arriscasse a tentar. E então foi como um terrível jogo de cabra-cega. O lugar estava cheio de goblins correndo de lá para cá, e o pobrezinho do hobbit, esquivando-se para um lado e para o outro, foi derrubado por um goblin, que não conseguiu descobrir no que tropeçara, afastou-se de quatro, passou entre as pernas do capitão no último momento, levantou-se e correu para a porta.

Ainda estava aberta, mas um goblin a havia empurrado e ela quase se fechara.
Bilbo fez força, mas não conseguiu movê-la. Tentou esgueirar-se pela fresta. Espremeu-se, espremeu-se e entalou. Foi horrível. Os botões de sua roupa se engancharam entre a borda da porta e o batente. Ele podia ver lá fora, o ar livre: havia alguns degraus que desciam por um vale estreito entre altas montanhas; o sol surgia por trás de uma nuvem e brilhava por trás da porta – mas ele não conseguia passar.
De repente, um dos goblins gritou lá dentro: “Há uma sombra ao lado da porta. Tem alguma coisa lá fora!”
Bilbo ficou com o coração na boca. Fez uma tremenda contorção. Os
botões voaram em todas as direções. Passou, com um casaco e um colete rasgados, descendo os degraus aos saltos como um cabrito, enquanto os goblins perplexos ainda catavam seus belos botões de latão na soleira da porta.
É claro que logo vieram atrás dele, gritando, chamando e caçando em meio às árvores. Mas eles não gostam de sol: ele deixa suas pernas bambas e sua cabeça tonta. Não conseguiram encontrar Bilbo, que estava usando o anel, e entrava e saía furtivamente das sombras das árvores, depressa e em silêncio, e mantendo-se fora do alcance do sol; assim, logo voltaram, resmungando e praguejando, para guardar a porta.
Bilbo tinha escapado.

NOTAS:

1. Na primeira edição de O Hobbit (1937), Gollum usa a frase “meu precioso” apenas para referir a si mesmo. Na segunda edição (1951), na qual o papel de Gollum foi significativamente alterado, a frase pode ser tomada como referência ao Anel, como acontece em O Senhor dos Anéis. A palavra gull em norueguês arcaico significa “ouro”. Nos manuscritos mais antigos, aparece como goll. Uma forma flexionada seria gollum, “ouro, tesouro, algo precioso”. Também pode significar “anel”, como pode se perceber na palavra composta “fingr-gull”, “anel de dedo” – questões que podem ter ocorrido a Tolkien.

2. 1951: “e nós não responder, nós faz o que ele quer, que tal? Nós mostra o caminho da saída, sim!”

3. A partir deste ponto, o livro original se diferencia em muito da versão de 1951, publicada no Brasil. Não irei comparar as duas versões, portanto segue só a versão de 1937.

4. Aqui termina o trecho que difere da edição de 1951.

Gil-galad

O Parentesco de Gil-galad

Meu pai originalmente supôs que Gil-galad era o filho de Felagund Rei de Nargothrond. Esta informação provavelmente é encontrada pela primeira vez no texto FNII da Queda de Númenor (HoME 5 pag 33); e continuou sendo sua crença até após o término de O Senhor dos Anéis, como visto no principal texto inicial do Conto dos Anos e no Sobre os Anéis de Poder, onde, no texto publicado (O Silmarillion) Fingon é uma alteração editorial de Felagund.

 

Em adições de data incerta feitas no Quenta Silmarillion (HoME 11 pag 242) é dito que Felagund enviou sua mulher e filho Gil-galad de Nargothrond para os Portos de Falas para garantir-lhes segurança. Deve ser notado também no texto do Conto dos Anos acima referido que não apenas Gil-galad era o filho de Felagund mas Galadriel era irmã de Gil-galad (e portanto filha de Felagund). Surgiu, contudo, nos Anais Cinzentos de 1951 (HoME 11 pag 44 $108) que Felagund não tinha esposa, pois à Vanya Amarië a quem ele amava não foi permitido deixar Aman.

 

Aqui algo deve ser dito sobre Orodreth, filho de Finarfin e irmão de Felagund, que  tornou-se o segundo Rei de Nargothrond. Nas árvores genealógicas dos descendentes de Finwë, que podem ser datadas de 1959 mas que meu pai continuava utilizando e alterando quando esreveu o texto sobre The Shibboleth of Feanor, a curiosa história de Orodreth pode ser traçada. Colocada o mais concisamente possível, Finrod (Felagund) a início tinha um filho chamado Artanaro Rhodothir (e portanto contradizia a história dos AnaisCinzentos de que ele não tinha esposa) o segundo Rei de Nargothrond e pai de Finduilas. Portanto “Orodreth” fora agora movido para uma geração abaixo, tornado-se o filho de Finrod ao invés de seu irmão. No próximo estágio meu pai (recordando, aparentemente, a história dos Anais Cinzentos) anotou que Finrod “não tinha filhos {ele deixara a esposa em Aman)” e moveu Artanaro Rhodothir para se tornar,

ainda na mesma geração, o filho do irmão de Finrod, Angrod (que com Aegnor manteve Dorthonion e foi morto na Batalha das Chamas Repentinas).

 

O nome do filho de Angrod (ainda mantendo a identidade de “Orodreth”) foi então alterado de Artanaro para Artaresto. Em uma nota isolada encontrada com as genealogias, escrita com grande rapidez mas ainda assim datada, Agosto de 1965, meu pai sugeriu que a melhor solução para o problema do parentesco de Gil-galad era encontrá-lo como “o filho de Orodreth”, ao qual aqui é dado o nome de Artaresto, e continua:

 

Finrod deixou sua esposa em Valinor e não tinha filhos no exílio. O filho de Angrod era Artaresto, que era amado por Finrod e escapou quando Angrod foi morto, e morou com Finrod. Finrod fez dele seu “regente” e ele o sucedeu em Nargothrond. Seu nome Sindarin era Rodreth (alterado pata Orodreth devido ao seu amor pelas montanhas ……. Seus filhos eram Finduilas e Artanaro = Rodnor mais tarde chamado Gil-galad. (A mãe deles era uma dama Sindarin do Norte. Ela chamou seu filho Gil-galad). Rodnor Gil-galad escapou e eventualmente chegou à Foz do Sirion e foi Rei dos Noldor lá.


 

As palavras que eu não consegui ler aparentemente contém uma preposição e um nome próprio, e este último pode ser Faroth (o Alto Faroth a oeste do rio Narog). Na última das tabelas genealógicas Artanaro (Rodnor) chamado Gil-galad aparece, com uma nota de que “ele escapou e morou na Foz do Sirion”. A única mudança posterior foi a rejeição do nome Artaresto e sua substituição por Artaher, Sindarin Arothir; e portanto nos apêndices Arothir [Orodreth] é nomeado como o “parente e regente” de Finrod, e Gil-galad é “o filho de Arothir, sobrinho de Finrod”.


A genealogia final era:

 

                              Finrod Felagund ---- Angrod
                                               |
                                   Artaher/Arothir [Orodreth]
                                               |
                                  Artanaro/Rodnor/Gil-galad

Uma vez que Finduilas permaneceu sem correção na última genealogia como a filha de Arothir, ela tornou-se irmã de Gil-galad.* 

Portanto não há dúvidas de esta era a última palavra de meu pai sobre o assunto; mas nada de sua concepção tardia e radicalmente alterada tocou as narrativas existentes e foi obviamente impossível incluí-las no Silmarillion publicado. De qualquer modo teria sido muito melhor deixar o parentesco de Gil- Galad obscuro [N.T. no Silmarillion publicado].

 

Também devo mencionar que no texto publicado sobre Aldarion e Erendis (Contos Inacabados) a carta de Gil-galad para Tar-Meneldur abre “Ereinion Gil-alad filho de Fingon”, mas o original era “Finellach Gil-galad da Casa de Finarfin” (onde Finellach foi mudado de Finhenlach, e este de Finlachen). E também no texto de Uma Descrição da Ilha de Númenor (Contos Inacabados) eu imprimi “Rei Gil-galad de Lindon” onde o original era “Rei Finellach Gil-galad de Lindon”; eu mantive, contudo, as palavras “sua parente Galadriel”, uma vez que Fingon e Galadriel eram primos de primeiro grau. Não há traços entre as muitas notas e sugestões escritas nas tabelas genealógicas da descendência proposta de Gil-galad a partir de Finarfin; mas de qualquer forma Aldarion e Erendis e o proximamente relacionado Descrição de Numenor precediam por algum tempo (eu agora sou inclinado a datá-los de cerca de 1960) a tranformação de Gil- Galad no neto de Angrod, com o nome Artanaro Rodnor, que aparece pela primeira vez como uma nova decisão na nota de Agosto de 1965 citada acima. Uma análise muito mais detalhada do admitidamente complexo material do que a que eu fiz vinte anos atrás torna claro que Gil-galad como filho de Fingon (ver HoME 11 pag 243) era uma idéia efêmera.

 

[Nota do Tradutor]* O texto acima é de Christopher Tolkien, com excessão do trecho em itálico, que é do próprio Tolkien. Interessante reparar nesse texto, além do mea culpa de Christopher quanto ao parentesco incorreto de Gil-galad publicado no Silmarillion, o número de “influências editoriais” exercidas por ele sobre os textos do pai.
Círdan

Círdan

CírdanEsse texto é retirado do HoME 12 e os comentários feitos por Christopher Tolkien ao texto de seu pai, J.R.R. Tolkien, encontram-se em itálico 
Este breve manuscrito também é associado com a discussão de Glorfindel: o rascunho• do mesmo é encontrado no verso de uma das páginas do texto Glorfindel II.

Está é apalavra Sindarin para ´Armador´, [29] e descreve sua função posterior na história das Primeiras Três Eras, mas seu nome ´próprio´,isto é, seu nome original entre os Teleri, dos quais ele fazia parte, nunca é utilizado [30]. É dito nos Anais da Terceira Era (c. 1000) que ele poderia ver mais longe e profundamente o futuro do que qualquer um na terra-média [31]. Isto não inclui os Istari (que vieram de Valinor), mas inclui mesmo Elrond, Galadriel e celeborn.

Círdan era um Elfo Telerin, um dos mais nobres daqueles que não foram transportados a Valinor, mas vieram a se tornar os Elfos-cinzentos[32]. Ele era parente de Olwë, um dos dois reis dos Telerin e senhor daqueles que partiram por sobre o Grande Mar. Ele é também parente de Elwë [33], o irmão mais velho de Olwë, aceito como Alto Rei de todos os Teleri em Beleriand, mesmo após ele ter se recolhido ao reino protegido de Doriath. Mas Círdan e seu povo permaneceram de muitas formas distintos do resto dos Sindar. Eles mantiveram o alntigo nome Teleri (em Sindarin tardio [34] Eorm Telir ou Telerrim) e permaneceram de muitas forma um povo à parte, falando, mesmo em tempos posteriores, uma língua mais arcaica [35]. Os Noldor os chamavam Falmari, “povo das ondas”, e outros Sindarin de Falathim, “povo da costa espumante” [36].

Foi durante a longa espera dos Teleri pelo retorno da ilha flutuante, sobre a qual os Vanyar e Noldor foram transportados sobre o Grande Mar, que Círdan direcionou seus pensamentos e habilidade para a construção de barcos, pois ele e todos os demais Teleri se tornaram impacientes. Apesar de tudo é dito que por amor e lealdade aos seus Círdan era o líder daqueles que procuraram longamente por Elwë quando este estava perdido e não foi ao litoral para partir da Terra-média. Assim ele adiou sem maior desejo: ver o Reino Abençoado e encontrar novamente Olwë e seus parentes próximos. Dessa forma ele não atingiu o litoral até praticamente todos os Teleri seguidores de Olwë terem partido.

Então, é dito, ele permaneceu abandonado olhando o mar, e era noite, mas muito distante ele podia ver o brilhar da luz sobre Eressëa antes desta desaparecer no Oeste. Então ele gritou alto: ´Seguirei aquela luz, sozinho se ninguém quiser ir comigo, pois o navio que eu estiveconstruindo está agora quase pronto´. Mas quando ele disse isso recebeu em seu coração uma mensagem, que ele reconheceu vir dos Valar, embora em sua mente ele tenha lembrado como uma voz falando em sua própria língua. E a voz o alertou para não tentar este feito: pois sua força e habilidade não seriam capazes de construir nenhum barco capaz de desafiar os ventos e ondas do Grande Mar ainda por longos anos. ´Permaneça até aquele tempo, pois quando ele chegar seu trabalho será da máxima importância, e será lembrado em canções por muitas eras´. ´Eu obedeço´, Círdan respondeu, e então pareceu a ele ter visto (em uma visão, talvez) uma forma como a de um navio branco, brilhando sobre ele, que navegou para o oeste através do ar, e enquanto diminuia ao longe parecia como uma estrela de brilho tão grande que lançava uma sombra de Círdan sobre a praia onde ele estava.

Como sabemos agora, esta era a previsão do navio que após os ensinamentos de Círdan e com seus conselhos e ajuda, Earendil construiu, e no qual ele finalmente atingiu as prais de Valinor. Daquela noite em diante Círdan recebeu um poder de previsão em todos os assuntos importantes, além da medida de todos os outros Elfos na Terra-média.

Este texto é extraordinário pois por um lado nada é dito sobre a história e importância de Círdan como aparece em outros lugares, enquanto por outro lado quase tudo que é dito aqui é único. Nos “Anais Cinzentos” é dito (XI.8, $14):

Ossë persuadiu muitos a ficarem em Beleriand, e quando o Rei Olwë e seu grupo embarcaram na ilha e passaram sobre o Mar eles permaneceram no litoral, e Ossë retornou a eles e continuou sua amizade com eles. E ele ensinou-os a arte da contrução de navios e da navegação, e eles setornaram um povo de marinheiros, os primeiros da Terra-média.

Mas de Ossë agora não existe menção, a construção de navios no litoral de Beleriand é dito ter começado nos longos anos de espera dos Teleri pelo retorno de Ulmo, e é mencionado como (ver nota 29) como uma evolução de uma arte já desenvolvida entre os teleri durante a Grande
Jornada.

Outras características deste texto que não aparecem em nenhum outrolugar (em adição, claro, da história do desejo de Círdan de cruzar o Mar até Valinor e sua visão do navio branco indo a oeste através da noite, acima dele) são o fato dos teleri terem se demorado nas costas do Mar de Rhun durante a Grande Jornada (nota 29) que Círdan era olíder destes que buscavam por Elwe Thingol, seu parente, e que Eärendil foi ´ensinado´ por Círdan, que o auxiliou na construção de Vingilot.

Notas

29. Mesmo antes de chegarem a Beleriand os Teleri desenvolveram a arteda construção de barcos: primeiro como balsas e logo como barcos com remos em imitação aos pássaros aquáticos dos lagos próximos às suas casas iniciais ou especialmente durante sua longa permanência nos litorias do ´Mar de Rhun´, onde seus navios se tornaram maiores e mais fortes. Mas em todos estes trabalhos Círdan sempre foi o principal e mais inventivo e hábil.

30. Apenas Pengoloh menciona uma tradição entre os Síndar de Doriath de que este era em sua forma arcaica Nowë, cuja significado original é incerto, assim como o de Olwë.

31. [Apêndice B (nota de topo da Terceira Era): ´Pois Círdan via mais longe e mais profundamente do que qualquer outro na Terra-média´ (dito no contexto da entrega de Narya, o Anel de Fogo, a Mithrandir). Esta afirmação aqui na qual é dita ´nos Anais da Terceira Era (c.1000)´ é confusa, mas presumivelmente relatada às palavras da mesma passagem do Apêndice B ´Quando talvez mil anos se passaram… os Istari ou Magos apareceram na Terra-média´.]

32. Um nome Queny dado pelos exilados Noldor, e primariamente aplicado ao povo de Doriath, povo de Elwë Capa-cinzenta.

33. [Que Círdan era um parente de Elwë é mencionado no “Quendi e Eldar”]

34. Este é usado como um termo geral para o dialeto Teleriano do Eldarin, para o que veio a ser depois das mudanças de longos anos em beleriand, embora não seja inteiramente uniforme em seu desenvolvimento.

35. [“Quendi e Eldar”: ´Os Eglain tornaram0se um povo de alguma formaseparado dos Elfos do interior, e ao tempo da chegada dos Exilados sua língua era de muitas formas diferente´. (os Eglain eram o povo de Círdan)].

36. [Para Falatrhim ver “Quendi e Eldar”; e sonre Falmari: ´os Elfos do Mar se tornaram em Valinor os Falmari, pois faziam música junto às ondas quebrando na praia.´]