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As Andanças de Húrin (The Wanderings of Hurin)

As andanças do infeliz Húrin, após ser liberto por Melkor.

E assim terminou o conto de Túrin o infeliz, o pior dos trabalhos de Morgoth entre os Homens no mundo antigo. Mas Morgoth não dormiu nem descansou de sua maldade, e esse não foi o fim de seus negócios com a Casa de Hador, contra a qual sua malícia era insaciável, pois Húrin estava sob seu Olho, e Morwen vagava perturbada pelos ermos.Infeliz era a sina de Húrin. Pois tudo o que Morgoth sabia das maquinações de sua malícia, Húrin sabia também; mas suas mentiras eram misturadas com a verdade, e tudo aquilo que era bom era escondido ou distorcido. Aquele que enxerga através dos olhos de Morgoth, querendo ou não, enxerga todas as coisas corrompidas.

Um dos esforços especiais de Morgoth era lançar uma luz maligna sobre tudo aquilo que Thingol e Melian construíram, pois ele os temia e odiava acima de tudo; e quando, então, considerou ter chegado a hora, no ano após a morte de Túrin, libertou Húrin, permitindo que partisse para onde desejasse.

Ele mentiu que fora movido pela pena de um inimigo completamente derrotado, maravilhado por sua resistência. ‘Tal firmeza’, disse ele, ‘deveria ter se mostrado em uma causa melhor, e teria sido recompensada de outra forma. Mas eu não tenho mais uso para você, Húrin, na sua pálida vidinha.’E ele mentiu, pois seu propósito era que Húrin continuasse a estender a sua malícia contra Elfos e Homens, antes de morrer.

Então, mesmo não acreditando em praticamente nada do que Morgoth dissera ou fizera, sabendo que ele não estava piedoso, ele pegou a sua liberdade e seguiu em pesar, amargado pelos artifícios do Senhor do Escuro. Por vinte e oito anos, Húrin estivera cativo em Angband…

É dito que os caçadores de Lorgan seguiram seus rastros e não abandonaram sua trilha até que ele e seus companheiros subiram pelas montanhas. Quando Húrin chegou novamente aos lugares altos, ele olhou de relance pelas nuvens nos picos da Crisaegrim, e ele lembrou de Turgon; e seu coração desejou retornar para o Reino Escondido, se pudesse, ou ao menos lá ele seria lembrado com honra.

Ele não ouviu nenhuma das coisas que aconteceram em Gondolin, e não sabia que Turgon endurecera seu coração contra a sabedoria e a piedade, e não permitia que ninguém entrasse ou saísse por qualquer motivo. Então, sem saber que todos os caminhos estavam trancados além da esperança, ele resolveu rumar em direção a Crisaegrim, mas ele nada falou aos seus companheiros sobre seus propósitos, pois ele ainda estava ligado ao seu juramento de não revelar a ninguém que conhecesse sequer a região em que Turgon habitava.

Porém ele precisava de ajuda; pois ele nunca vivera nos ermos, onde foras-da-lei estavam há muito acostumados à vida dura de caçadores e ceifeiros, e carregavam consigo tanta comida quanto conseguiam, apesar de o Inverno Mortal ter diminuído seus mantimentos. Assim, Húrin falou a eles: ‘Nós devemos abandonar esta terra agora; pois Lorgan não me deixará mais em paz. Rumemos para os vales do Sirion, onde a primavera finalmente chegou!’

Então Asgon os guiou por um dos antigos caminhos que levavam para o leste de Mithrim, e eles desceram pelas nascentes do Lithir, até que chegaram às cachoeiras que corriam até o Sirion ao final da Terra Estreita. E lá eles chegaram exaustos, pois Húrin confiava pouco na ‘liberdade’ que Morgoth lhe garantira. E ele estava correto: Morgoth tinha notícias de todos os seus movimentos, e o tempo em que esteve escondido nas montanhas, a sua descida foi rapidamente espionada. A partir de então, ele foi seguido e observado com tal astúcia que ele raramente tinha qualquer pista disso. Todas as criaturas de Morgoth evitavam o seu caminho, e ele não foi emboscado ou atacado.

Eles rumaram para o sul, pelo lado oeste do Sirion, e Húrin pensava consigo mesmo como se separar de seus companheiros, ao menos por tempo suficiente para poder procurar por uma entrada para Gondolin sem trair a sua palavra. Finalmente eles alcançaram Brithiach, e lá Asgon disse a Húrin: ‘Para onde iremos agora, Senhor? Além deste vau os caminhos são muito perigosos para os homens mortais, se o que dizem é verdade.’

‘Então rumemos para Brethil, que é perto daqui,’ disse Húrin. ‘Eu tenho uma missão lá. Naquela terra meu filho morreu.’

Então, naquela noite eles se abrigaram em um bosque de árvores, as primeiras da Floresta de Brethil em sua fronteira norte, próxima do sul do Brithiach.

Húrin se deitou separado dos outros; e no dia seguinte antes do Sol nascer, enquanto eles dormiam exaustos, ele os abandonou e cruzou o vau e chegou a Dimbar.

Quando os homens despertaram, ele já estava longe, e havia uma grossa neblina da manhã sobre o rio. O tempo passou e, não tendo retornado nem respondido aos chamados, eles começaram a temer que ele fora atacado por alguma fera ou por algum inimigo que espreitava. ‘Nós fomos negligentes’, disse Asgon. ‘A terra está quieta, quieta demais, mas existem olhos sob as folhas e ouvidos atrás das pedras.’

Eles seguiram o seu rastro quando a neblina se ergueu; mas ele levou para o vau e lá desapareceu, e eles estavam perdidos. ‘Se ele nos deixou, deixe-nos voltar para nossa terra,’ disse Ragnir. Ele era o mais novo na companhia, e pouco recordava dos dias que antecederam a Nirnaeth. ‘O raciocínio do velho é selvagem. Ele fala com com a sombra com vozes estranhas enquanto dorme.’

‘Pouco me espanta se for verdade’, disse Asgon. ‘Mas quem mais poderia permanecer tão forte depois de tanta angústia? Não, ele é nosso senhor, faça o que fizer, e eu jurei segui-lo.’

‘Até mesmo para o leste além do vau?’ perguntaram os outros.

‘Não, existe pouca esperança naquele caminho’, disse Asgon, ‘e eu não creio que Húrin irá muito distante por lá. Tudo o que sabemos de seus propósitos é que ele queria ir o mais cedo possível para Brethil, e que ele tem uma missão lá. Nós estamos exatamente na fronteira. Vamos procurar por ele lá.’

‘Com a permissão de quem?’ disse Ragnir. ‘Os homens de lá não gostam de estranhos.’

‘Bons homens habitam lá,’ disse Asgon, ‘e o Senhor de Brethil é parente dos nossos Senhores.’ Mesmo assim, os outros estavam em dúvidas, pois nenhuma notícia tem saído de Brethil nos últimos anos. ‘Pode ser governado por Orcs, pelo que sabemos,’ disseram eles. ‘Nós logo iremos descobrir como andam as coisas’, disse Asgon. ‘Orcs são pouco piores que o povo do Leste, eu acho. Se foras-da-lei devemos permanecer, eu prefiro espreitar pelas belas florestas em vez das colinas geladas.

Então Asgon foi em direção a Brethil; e os outros o seguiram, pois ele tinha um coração resoluto e os homens diziam que ele nascera com boa sorte. Antes do fim daquele dia eles já estavam nas profundezas da floresta, e a chegada deles estava marcada; pois os Haladin estavam mais atentos do que nunca, e observavam suas fronteiras de perto. Na hora cinza que antecede a manhã, praticamente todos os intrusos dormiam, seu acampamento foi cercado e seus vigias foram amordaçados logo que alertaram os outros.

Então Asgon se levantou, e mandou que seus homens não desembainhassem suas armas. ‘Vejam agora,’disse ele, ‘nós viemos em paz! Nós somos Edain de Dorlomin.’

‘Mas o porquê da sua vinda eu não sei,’disseram os vigias. ‘Mas a manhã ainda está escura. Nosso líder irá fazer melhor julgamento de vocês quando estiver mais claro.’

Então, com muitos homens a menos, Asgon e seus homens foram feitos prisioneiros, e suas armas foram tomadas e suas mãos atadas; e assim foram levados para a frente do novo Senhor dos Haladin.

Ele era Harathor, irmão de Hunthor, que morreu na ravina de Taeglin. Pela a morte de Brandir, que não deixara filhos, ele herdara o comando por descendência de Halad. Ele não tinha amor por aqueles da casa de Hador, e não compartilhava do mesmo sangue; e disse para Asgon, quando os capturados estavam perante ele: ‘De Dorlomin você vem, me disseram, e sua fala comprova isso. Mas o porquê da sua vinda eu não sei.’

‘Então são Edain do norte,’disse ele. ‘Sua fala comprova isso, bem como seus equipamentos. Você busca amizade, talvez. Mas ai de mim! coisas más recaíram sobre nós aqui, e nós vivemos com medo. Manthor, meu senhor, Mestre da Marca do Norte, não está aqui, e eu devo, então, obedecer aos comandos de Halad, o líder de Brethil. Para ele vocês devem ser enviados sem mais perguntas. Lá vocês poderão ter alguma sorte!’

Então Ebor falou cortesmente, mas ele não tinha muitas esperanças. Pois o novo líder era agora Hardang, filho de Hundad. Na morte de Brandir sem filhos, ele foi feito Halad, sendo um dos Haladin, da família de Haleth, de onde todos os capitães eram escolhidos. Ele não amava Túrin, e ele agora não possuía amor nenhum pela Casa de Hador, de cuja linhagem ele não fazia parte. Nem tinha muita amizade por Manthor, que também era dos Haladin.

Para Hardang, Asgon e seus homens seguiam caminhos desonestos, e eles foram vendados. Assim, finalmente chegaram ao salão dos capitães em Obel Halad; e seus olhos foram descobertos, e os guardas os conduziram para dentro. Hardang estava sentado em sua grande cadeira, e ele os encarou com frieza.

‘Vocês vêm de Dor-lómin, segundo me disseram,’ disse ele. ‘Mas porque vocês vieram aqui eu não sei. Poucas coisas boas vêm para Brethil daquela terra, e eu não estou olhando para nenhuma coisa boa agora: é um feudo de Angband. Saudações frias encontrarão aqui, se esgueirando até aqui para nos espionar!’

Asgon controlou sua fúria, mas respondeu, determinado: ‘Nós não nos esgueiramos até aqui, senhor. Nós somos tão hábeis nas florestas quanto seu povo, e nós não teríamos sido capturados tão facilmente se tivéssemos qualquer motivo para temer. Nós somos Edain, e não servimos Angband, mas defendemos a Casa de Hador. Nós pensávamos que os homens de Brethil fossem assim também, e amigáveis a todos os homens de boa-fé.’

‘Para aqueles que provaram a sua fé,’ disse Hardang. ‘Ser simplesmente Edain não é suficiente. E, no que concerne à casa de Hador, pouco amor é tido aqui. Por que o povo dessa casa vem aqui agora?’ Isto Asgon não respondeu; pois, devido à hostilidade do líder, ele achou melhor não mencionar Húrin ainda.

‘Percebo que não falarás tudo o que sabes,’ falou Hardang. ‘Que assim seja. Deverei fazer meu julgamento com o que vejo; mas serei justo. Este é meu julgamento. Aqui Túrin, filho de Húrin permaneceu por um tempo, e ele livrou a nossa terra da Serpente de Angband. Por isto, darei a vocês suas vidas. Mas ele desprezou Brandir, justo líder de Brethil, e ele o matou sem justiça ou piedade. Assim, não os darei abrigo. Vocês deverão sair por onde entraram. Vão agora, e se retornarem, retornarão para a morte!’

‘Não devolverão nossas armas?’ perguntou Asgon. ‘Nos lançarão de volta ao ermo sem arco e sem armadura para morrer entre os animais?’

‘Nenhum homem de Hithlum irá portar armas novamente em Brethil,’ disse Hardang. ‘Não com permissão minha. Tirem-nos daqui.’

Mas enquanto eram arrastados para fora do salão, Asgon gritou: Esta é a justiça dos homens do Leste, não dos Edain! Nós não estivemos aqui com Túrin, para o bem ou para o mal. Nós servimos a Húrin. Ele ainda vive. Espreitando pelas suas florestas não o recorda a Nirnaeth? Vai desonrá-lo também, com seu rancor, se ele vier?’

‘Se Húrin vier, você diz?’ disse Hardang. ‘Quando Morgoth dormir, talvez!’

‘Não,’ disse Asgon. ‘Ele retornou. Com ele nós viemos até suas fronteiras. Ele tem uma missão a cumprir aqui, segundo nos disse. Ele virá!’

‘Então eu estarei aqui para encontrá-lo,’ falou Hardang. ‘Mas vocês não estarão. Agora vão!’ Disse ele em escárnio, mas sua face empalideceu em um medo súbito de que acontecera um presságio de que o pior ainda estaria por vir. Então um grande medo da sombra da Casa de Hador caiu sobre ele, e então seu coração ficou negro. Pois ele não era um homem de grande espírito, como eram Hunthor e Manthor, descendentes de Hiril.

Asgon e sua companhia foram vendados novamente, para que não espionassem os caminhos de Brethil, e foram levados para a fronteira norte. Ebor estava insatisfeito quando ouviu do que aconteceu em Obel Halad, e ele falou a eles com cortesia.

‘Ai de mim!’, disse ele, ‘vocês devem seguir em frente novamente. Mas vejam! Eu devolvo a vocês suas armas e equipamentos. Pois é o que meu senhor Manthor faria, no mínimo. Quem dera ele estivesse aqui! Mas ele é o mais bravo entrenós; e pelo comando de Hardang, é o líder da guarda no vau de Taiglin. Lá nós temos mais medo de investidas, e é onde a maioria dos ataques acontece. Bem, isto é o que farei; mas lhes imploro, não entrem em Brethil novamente, pois se o fizerem, nós seremos obrigados a obedecer à palavra de Hardang que se espalhou por todas as fronteiras: matar vocês assim que os encontrar.’

Então Asgon o agradeceu, e os conduziu até as margens de Brethil, e os desejou uma boa jornada.

‘Bem, sua sorte permanece,’ disse Ragnir, ‘pois ao menos não fomos mortos, apesar disso ter quase acontecido. O que faremos agora?’

‘Eu ainda desejo encontrar meu senhor Húrin,’ disse Asgon, ‘e meu coração me diz que ele ainda virá para Brethil.’

‘Para onde não podemos retornar,’ disse Ragnir, ‘ao menos que procuremos por uma morte mais rápida que a fome.’

‘Se ele vier, ele virá, eu acho, pela fronteira norte, entre o Sirion e Taiglin,’ disse Asgon. É por lá que talvez teremos notícias.’

‘Ou flechas,’ disse Ragnir. Mesmo assim eles seguiram o conselho de Asgon e seguiram para o oeste, cuidando sempre as bordas negras de Brethil.

Mas Ebor estava preocupado, e reportou rapidamente a Manthor sobre a vinda de Asgon e suas palavras estranhas sobre Húrin. Mas rumores correram por Brethil sobre este assunto. E Hardang reuniu-se em Obel Halad e se aconselhou com seus amigos.

Agora Húrin, chegando a Dimbar, reuniu todas suas forças e rumou sozinho em direção aos pés negros de Echoriad. Toda a terra estava fria e desolada; e quando ela finalmente apareceu, imensa, à sua frente, e ele não conseguia encontrar formas de seguir adiante, ele parou e olhou em sua volta com pouca esperança. Ele estava agora no pé de uma grande avalanche sob uma imensa parede de pedras, e ele não sabia que era tudo o que restava do antigo Caminho de Escape: o Rio Seco estava seco e o portão arqueado, enterrado.Então Húrin olhou para o céu, pensando que, por algum lance de sorte, ele poderia avistar novamente as Águias, como vira, há muito tempo, em sua juventude. Mas ele viu apenas as sombras sopradas do Leste, e nuvens formando redemoinhos em volta dos picos inacessíveis; e o vento assobiando por sobre as pedras. Mas a vigília das Grandes Águias, e elas marcaram Húrin, lá em baixo, desamparado sob a luz esvanecente. E rapidamente Sorontar, já que as notícias pareciam importantes, reportou a Turgon. Mas Turgon falou: ‘Não! Isso é uma mentira! A não ser que Morgoth esteja dormindo. Você está errado.’
‘Não, não estou,’ respondeu Sorontar. ‘Se as Águias de Manwë cometessem erros desta forma, Senhor, seu esconderijo teria sido em vão.’
‘Então tuas palavras trazem um mau presságio,’ disse Turgon; ‘pois elas só podem significar que mesmo Húrin Thalion sucumbiu à vontade de Morgoth. Meu coração está fechado.’ Mas quando ele dispensou Sorontar, Turgon sentou e pensou, e ele estava preocupado, relembrando os feitos de Húrin. E ele abriu seu coração, e ordenou que as Águias procurassem por Húrin, a que o trouxessem, se pudessem, para Gondolin. Mas era tarde de mais, e elas nunca mais o viram novamente, seja na luz, seja
na sombra.
Pois Húrin permaneceu em desespero perante o severo silêncio de Echoriad, e o sol poente, rasgando as nuvens, manchando seu cabelo branco com vermelho. Então ele gritou no ermo, negligente aos muitos ouvidos, e ele amaldiçoou a terra impiedosa: ‘dura como os corações de Elfos e Homens’. E ele parou, enfim, em frente a uma grande pedra, e abrindo seus braços, olhando em direção a Gondolin, ele chamou com uma grande voz: ‘Turgon, Turgon! Lembre-se do Pântano de Serech!’ E novamente: ‘Turgon! Húrin chama por você. O Turgon, não irás me ouvir dos teus salões escondidos?’Mas não houve resposta, e tudo o que ele ouviu foi o vento na grama seca. ‘E ainda assim eles sibilam em Serech ao por do Sol’, disse ele. E enquanto ele falava, o Sol passou para trás das Montanhas da Sombra, e a escuridão caiu sobre ele, e o vento cessou, e o ermo ficou em silêncio.Entretanto, ouvidos escutaram as palavras que Húrin falou, e olhos marcaram seus gestos; e o relatório de tudo chegou rápido ao Trono Escuro no Norte. Então Morgoth sorriu, e soube claramente que Turgon habitava naquela região, pois devido as Águias nenhum espião dele podia chegar ao alcance do olho da terra atrás das montanhas circulantes. Esse foi o primeiro mal que a liberdade de Húrin causou.

Enquanto a escuridão caía, Húrin pisou em falso na pedra, e caiu desmaiado, em um profundo sono de pesar. Mas em seu sono ele ouviu a voz de Morwen lamentando, e freqüentemente falou seu nome; e pareceu para ele que aquela voz vinha de Brethil. Então, quando despertou com a chegada do dia, ele se ergueu e retornou; e ele chegou novamente ao vau, e, como se guiado por uma mão invisível, ele passou pelas bordas de Brethil, até que, depois de uma jornada de quatro dias, chegou até Taeglin, e toda sua escassa comida acabou, e ele estava faminto. Mas ele prosseguiu como a sombra de um homem levado por um vento negro, e ele chegou ao vau à noite, e lá ele o atravessou até Brethil. Os sentinelas noturnos o viram, mas eles estavam cheios de medo, então eles não ousaram se mover ou gritar; pois eles pensaram que era um fantasma vindo de uma montanha de mortos em combate que caminhava com a escuridão em sua volta. E por muitos dias após, os homens temeram se aproximar do vau à noite, a não ser com grande companhia e com fogo aceso.Mas Húrin passou, e na noite do sexto dia ele chegou finalmente ao lugar da queima de Glaurung, e viu a pedra alta na beirada de Cabed Naeramarth. Mas Húrin não olhou para a pedra, pois ele sabia o que estava escrito ali, e seus olhos perceberam que não estava sozinho. Sentado na sombra da pedra estava uma figura encurvada sobre seus joelhos. Parecia um andarilho sem lar derrotado pela idade, cansando demais para perceber sua chegada; mas seus farrapos eram retalhos de um traje feminino. Húrin parou por um tempo em silêncio, então ela ergueu seu capuz esfarrapado e levantou seu rosto lentamente, com aparência selvagem e faminta como um lobo que fora caçado por muito tempo. Ela era cinzenta, com o nariz fino e com dentes quebrados, e com uma das mãos em forma de garra ela segurava a sua capa na altura do peito. Mas de repente seus olhos encararam os dele e então Húrin a reconheceu; pois apesar de serem selvagens agora, e cheios de medo uma luz ainda brilhava neles que era difícil de suportar: a luz élfica que há muito lhe dera seu nome, Edelwen, a mais orgulhosa das mulheres mortais nos dias antigos.‘Edelwen! Edelwen!’, gritou Húrin; e ela se levantou e cambaleou em frente, e ele a pegou em seus braços.

‘Finalmente você veio,’ ela disse. ‘Eu esperei por tempo demais.’

‘Foi uma estrada negra. Eu vim da forma que pude,’ respondeu.

‘Mas você está atrasado,’ ela disse, ‘atrasado demais. Eles estão perdidos.’

‘Eu sei,’ disse ele. ‘Mas você não está.’

‘Mas quase,’ disse ela. ‘Eu estou acabada. Eu devo partir com o sol. Eles estão perdidos.’ Ela se segurou no casaco dele. ‘Sobrou pouco tempo,’ ela disse. ‘Se você sabe, me diga! Como ela o encontrou?’ Mas Húrin não respondeu, e ele sentou ao lado da pedra com Morwen em seus braços; e eles não falaram novamente. O sol se pôs, e Morwen suspirou e segurou sua mão e ficou inerte; e Húrin soube então que ela morrera.

E assim morreu Morwen, a orgulhosa e bela; e Húrin olhou para ela no crepúsculo, e pareceu que as marcas de pesar e cruel privação suavizaram. Sua face ficou fria e pálida e triste. ‘Ela não foi conquistada,’ ele disse; e ele fechou os olhos dela, e sentou-se imóvel ao lado dela enquanto a noite caía. As águas de Cabed Naeramarth rugiam, mas ele não ouviu som algum, nem viu nada, nem sentiu nada, pois seu coração estava duro como pedra, e ele pensou em permanecer ali sentado até que também morresse.

Então veio um vendo frio e lançou uma chuva fina em seu rosto; e de repente ele estava desperto, e com uma profunda raiva negra cresceu dentro dele como uma fumaça, superando a razão, então tudo o que desejava era buscar vingança pelos seus erros e pelos erros de sua família, acusando em sua angústia todos aqueles que já tiveram negócios
com eles.

Ele levantou e ergueu Morwen; e de repente percebeu que erguê-la estava além de suas forças. Ele estava faminto e idoso, e cansado como o inverno. ‘Fique aqui mais um pouco, Edelwen,’ ele disse, ‘até que eu retorne. Nem mesmo um lobo machucaria mais você. Mas o povo desta terra dura irá se arrepender do dia em que você morreu aqui!’

Então Húrin se afastou, aos tropeços, e voltou para o vau de Taeglin e lá ele caiu ao lado de Haud-en-Elleth, e uma escuridão se abateu sobre ele, e ele permaneceu como se estivesse adormecido. Ao amanhecer, antes que a luz o despertasse totalmente, ele foi encontrado pelos guardas que Hardang mandara manter uma atenção especial naquele lugar.

Foi um homem chamado Sagroth que o encontrou primeiro, e ele o encarou com espanto e sentiu medo, pois ele pensou que soubesse quem aquele homem velho era. ‘Venham!’ gritou ele para os que o seguiam. ‘Olhem aqui! Deve ser Húrin. Os intrusos falaram a verdade. Ele chegou!’

‘Você encontrou problemas, como sempre, Sagroth!’ disse Forhend.

‘O Halad não ficará satisfeito com o que encontraram. O que deverá ser feito? Talvez Hardang ficaria mais satisfeito em ouvir que nós acabamos com os problemas em suas fronteiras e os empurramos para fora.’

‘Empurramos para fora?’ disse Avranc. Ele era filho de Dorlas, um homem jovem, baixo e escuro, porém forte, parecido com Hardang, como fora também seu pai. ‘Empurramos para fora? Que bem isso causaria? Ele voltaria novamente! Ele pode caminhar – todo o caminho desde Angband, se é o que você está pensando. Veja! Ele é horrível e possui uma espada, mas dorme profundamente. Deve ele despertar para mais angústia? Se você quer satisfazer o líder, Forhend, acabe com ele aqui.’

Tamanha era a sombra que agora caía sobre s corações dos homens, enquanto o poder de Morgoth crescia, e o medo se espalhava por toda a terra; mas nem todos os corações tinham escurecido. ‘Envergonhe-se pelo que disse!’ gritou Manthor, o capitão, que vinha por trás e ouviu o que diziam. ‘E principalmente você, Avranc, que jovem obstinado você é! Ao menos você ouviu sobre os feitos de Húrin de Hithlum, ou apenas as conhece de fábulas contadas ao pé do fogo? O que deve ser feito, então? Matá-lo em seu sono, esse é o seu conselho. Do inferno veio essa idéia!’

‘Assim como ele,’ respondeu Avranc. ‘Se realmente ele é Húrin. Quem pode saber?’

‘Pode ser descoberto em breve,’ disse Manthor; e se aproximou de Húrin deitado, ajoelhando-se próximo a ele, e ergueu a sua mão e a beijou. ‘Acorde!’, ele gritou. ‘A ajuda está próxima. E se você é Húrin, não há ajuda que eu creio ser suficiente.’

‘E nenhuma ajuda que ele não irá retribuir com mal,’ disse Avranc. ‘Ele vem de Angband, digo eu.’

‘O que ele pode vir a fazer nós não sabemos,’ disse Manthor. ‘O que ele fez nós sabemos, e nossa dívida ainda não foi paga.’ Então ele falou novamente, em voz alta: ‘Viva Húrin Thalion! Viva o capitão dos homens!’

Então Húrin abriu os olhos, lembrando de palavras malignas que ouvira durante o sono, antes de acordar, e ele viu homens sobre ele com armas em punho. Ele levantou tenso, tateando a sua espada; e ele olhou para eles com raiva e descaso. ‘Malditos!’ ele gritou. ‘Matariam um velho em seu sono? Vocês se parecem com homens, mas são orcs sob a pele, eu acho. Então venham! Matem-me acordado, se é que ousam fazer isso. Mas eu não irei satisfazer seu senhor negro, eu acho. Eu sou Húrin, filho de Galdor, um nome que orcs ao menos lembrarão.’

‘Não, não,’ disse Manthor. ‘Não sonhe. Nós somos homens. Mas esses são dias malignos e de dúvidas, e nós estamos sobre muita pressão. Esta região é perigosa. Não quer vir conosco? Ao menos nós podemos lhe proporcionar comida e descanso.’

‘Descanso?’ disse Húrin. ‘Vocês não podem me proporcionar isso. Mas, em minha necessidade, eu aceitarei comida.’

Então Manhor deu a ele um pouco de pão e carne e água; mas pareceram engasgá-lo, e ele cuspiu fora. ‘A que distância estamos da casa de seu senhor?’ ele perguntou. ‘Até que eu o veja, a comida que negaram à minha amada não descerá pela minha garganta.’

‘Ele se irrita e nos despreza,’ resmungou Avranc. ‘O que eu disse?’ Mas Manthor olhou para ele com piedade, apesar de não entender suas palavras. ‘É uma longa estrada para os cansados, senhor,’ disse ele; ‘e aqueles da casa de Hardang Halad estão escondidos dos estranhos.’

‘Então me leve para lá!’ disse Húrin. ‘Eu irei da forma que puder. Eu tenho uma missão naquela casa.’

Logo eles seguiram em frente. Da sua forte companhia, Manthor deixou muitos cumprindo sua tarefa, mas ele caminhou com Húrin, e com ele levou Forhend. Húrin caminhava como podia, mas depois de um tempo, começou a tropeçar e a cair; e mesmo que sempre se reerguesse e lutasse para continuar, não permitiria que ninguém o ajudasse.

Depois de muitas paradas pelo caminho, finalmente chegaram aos salões de Hardang em Obel Halad, nas profundezas da floresta; e ele sabia da sua chegada, pois Avrang, espontaneamente, correu na frente deles e levou as notícias antes deles; e ele não esqueceu de reportar as palavras selvagens de Húrin quando despertou e quando cuspiu fora sua comida.

Então eles encontraram os salões bem guardados, com muitos homens na cerca do pátio, e homens nas portas. No portão do pátio, o capitão dos guardas os parou. ‘Entreguem o prisioneiro para mim!’ disse ele.

‘Prisioneiro!’ disse Manthor. ‘Eu não trago um prisioneiro, mas um homem a quem você deveria honrar.’

‘Essas são palavras de Halad, não minhas,’ disse o capitão. ‘Mas você pode vir também. Ele também tem palavras para você.’

Então eles levaram húrin até a presença do líder; e Hardang não o cumprimentou, mas sentado em sua grande cadeira, olhou Húrin da cabeça aos pés. Mas Húrin retornou o seu olhar, e se manteve o mais firme que pode, apesar de estar apoiado em seu cajado. Então ele permaneceu um tempo em silêncio, até que ele tombou no chão. ‘Vejam!’ ele disse. ‘Eu vejo que existem tão poucas cadeiras em Brethil que um convidado deva sentar no chão.’

‘Convidado?’ disse Hardang. ‘Nenhum convidado por mim. Mas tragam um banco para o homem. Se ele não desdenhar dele, pois ele cospe em nossa comida.’

Manthor se ofendeu com a descortesia e ouvindo uma risada nas sombras atrás da grande cadeira, ele olhou e percebeu que era Avranc, e seu rosto se escureceu em fúria.

“Me desculpe, senhor,’ disse ele a Húrin. ‘Existe um mal entendido aqui.’ Então se virou para Hardang e se lançou sobre ele. ‘A minha companhia tem um novo capitão agora, meu Halad?’ disse ele. ‘Pois se não eu não entendo como alguém que abandonou o seu posto e desobedeceu minhas ordens possa ficar aqui sem reprova. Ele trouxe notícias antes de mim, eu vejo; mas parece ter esquecido o nome do convidado, ou Húrin Thalion não teria sido deixado em pé.’

‘O nome foi dito para mim,’ respondeu Hardang, ‘assim como suas palavras malignas. Assim é a casa de Hador. Mas é o papel de um estranho se apresentar pela primeira vez em minha casa, e eu esperei ouvi-lo. Assim como a sua missão, já que diz ter uma. Mas sobre seu dever, tais assuntos não devem ser tratados na presença de estranhos.’

Então ele se virou para Húrin, que estava sentado no banco; seus olhos estavam fechados e ele não parecia dar atenção ao que acontecia. ‘Bem, Húrin de Hithlum,’ disse Hardang, qual é a sua missão? É motivo de pressa? Ou não prefere descansar um pouco e falar sobre isso mais tarde, quando estiver mais à vontade? Enquanto isso, podemos providenciar uma comida menos horrível.’ O tom de Hardang era mais gentil, e ele levantou enquanto falava; pois ele era um homem prudente, e ele percebeu o desagrado no rosto dos outros atrás de Manthor.

Então, de repente, Húrin se levantou. ‘Bem, mestre junco do pântano,’ disse ele. ‘Então você se curva com cada respiração? Cuidado para que a minha não lhe derrube. Vá descansar para se fortalecer, então eu o chamarei de novo! Zombador de cabelos cinzentos, mesquinho em relação à comida, que deixa os errantes famintos. Esse banco servirá melhor para você.’ Com isso, ele lançou o banco em direção a Hardang, acertando-o na testa; e se virou para sair do salão.

Alguns dos homens abriu caminho, seja por pena ou medo de sua ira; mas Avranc correu à sua frente. ‘Não tão rápido, Húrin!’ ele gritou. ‘Ao menos não tenho mais dúvidas em relação ao seu nome. Você traz suas maneiras de Angband. Mas nós não amamos os feitos dos orcs neste salão. Você atacou o líder em sua cadeira, e agora você é nosso prisioneiro, independente do seu nome.’

‘Eu o agradeço, capitão Avranc,’ disse Hardang, que estava sentado em sua cadeira, enquanto tentava estancar o sangue que corria de sua sombrancelha. ‘Agora deixe o velho louco ser algemado e mantido cativo, eu o julgarei mais tarde.’

Então eles colocaram tiras de couro nos braços de Húrin, e um cabresto no seu pescoço, e o levaram embroa; e ele não mostrou resistência, pois a fúria havia acabado, e ele caminhou como alguém dormindo, de olhos fechados. Mas Manthor, apesar de Avranc ter olhado bravo para ele, colocou o braço sobre o ombro do velho e o guiou para que não tropeçasse.

Mas quando Húrin foi trancado em uma caverna e Manthor não podia fazer mais nada para ajudá-lo, retornou para o salão. Lá ele encontrou Avranc falando com Hardang, e, apesar de terem se calado quando chegou, ele ouviu as últimas palavras que Avranc falou, e pareceu que Avranc queria que Húrin fosse executado imediatamente.

‘Então, capitão Avranc,’ ele disse, ‘as coisas foram bem para você hoje! Eu já vi você jogar desta forma: atiçar um velho texugo e matá-lo quando ele o morde. Não tão rápido, capitão Avranc! Nem você, Hardang Halad. Este não é assunto para lidar de maneira arrogante, sem controle. A vinda de Húrin, e a forma com que foi recebido, diz respeito a todo o povo, e eles devem ouvir tudo o que é dito, antes de qualquer julgamento.

‘Você deve ir,’ disse Hardang. ‘Retorne para sua missão na fronteira, até que o capitão Avranc apareça para assumir o comando.’

‘Não, senhor,’ disse Manthor, ‘eu não tenho missão. A partir de hoje não estou mais a seu serviço. Eu deixei Sagroth no comando, um homem da floresta que é mais velho e mais sábio que o que você nomeou. Quando chegar a hora, retornarei para minhas próprias fronteiras*. Mas agora eu reunirei o povo.

Quando saiu pela porta, Avranc armou seu arco para matar Manthor, mas Hardang o impediu. ‘Ainda não,’ ele disse. Mas Manhor não viu isso (apesar de algumas pessoas no salão ter percebido), e saiu, e mandou todos aqueles que se dispuseram a agir como mensageiros para reunir os mestres de todas as terras e qualquer outro que se dispusesse a comparecer.

Agora os rumores corriam pelas árvores, e as lendas cresciam quando eram contadas; e alguns disseram isso, e outros aquilo, e a maioria falou em louvor a Halad e se lançou em direção a Húrin como se fosse um maligno chefe orc; pois Avranc também estava ocupado com mensageiros. Logo tinha uma grande multidão de povos, e a vila próxima ao salão dos líderes estava apinhada com tendas e barracas. Mas todos os homens portavam armas, por medo que um alarme repentino viesse das fronteiras.

Quando ele enviou seus mensageiros, Manthor foi até a prisão de Húrin, mas os guardas não o deixaram entrar. ‘Venham!’ disse Manthor. ‘Vocês sabem muito bem que é do nosso bom costume que qualquer prisioneiro deve ter um amigo que possa visitá-lo e ver como ele está sendo alimentado e aconselhá-lo.’

*Pois Manthor era um descendente de Haldad, e ele possuía uma terra pequena na fronteira leste de Brethil, próximo ao Sirion onde ele atravessa Dimbar. Mas todo o povo de Brethil era formado por homens livres, mantendo suas casas e suas terras, sejam maiores ou menores, de direito. Seu senhor era escolhido entre os descendentes de Haldad, por reverência pelos feitos de Haleth e Haldar; e mesmo que a liderança era dada, como se fosse um domínio ou um reino, para os mais velhos da linhagem mais velha, o povo tinha o direito de colocar qualquer um de lado ou tirá-lo de lá, por uma causa grave. E alguns sabiam o suficiente que Harathor tentara que Brandir o Aleijado tivesse tido abdicado em seu favor.

‘O amigo é escolhido pelo prisioneiro,’ responderam os guardas; ‘mas este homem selvagem não tem amigos.’

‘Ele tem um,’ disse Manthor, ‘e eu peço permissão para me oferecer como sua escolha.’

‘O Halad nos proíbe de admitir qualquer um fora os guardas,’ disseram. Mas Manthor, que era sábio nas leis e costumes de seu povo, respondeu: ‘Sem dúvida. Mas neste caso ele não tem direito. Por que o intruso está preso? Nós não algemamos velhos e errantes por falarem rudemente quando irritados. Este está preso por seu ataque a Hardang, e Hardang não pode julgar seu próprio caso, mas deve levar sua queixa para o julgamento do povo. Enquanto isso, ele não pode negar ao prisioneiro todo conselho e ajuda. Se ele fosse sábio, ele veria que não age desta forma, beneficiaria sua própria causa. Mas talvez alguma outra boca falou pela dele?’

‘Verdade,’ disseram. ‘Avranc trouxe a ordem.’

‘Então esqueça,’ disse Manthor. ‘Pois Avranc estava obedecendo outras ordens, para permanecer em sua missão na fronteira. Escolha então entre um jovem desertor e as leis do povo.’

Então os guardas permitiram sua entrada na caverna; pois Manthor era querido em Brethil, e os homens não gostavam dos líderes que tentaram dominar o povo. Manthor encontrou Húrin sentado em um banco. Tinha algemas em seus tornozelos, mas suas mãos estavam livres; e tinha um pouco de comida à sua frente, intocada. Ele não ergueu o olhar.

‘Salve, senhor!’ disse Manthor. ‘As coisas não aconteceram como deviam, nem como eu ordenei. Mas agora você precisa de um amigo.’

‘Eu não tenho amigos, nem desejo algum nesta terra,’ respondeu Húrin.

‘Um amigo está na sua frente,’ respondeu Manthor. ‘Não me rejeite. Por enquanto, pelo menos! O assunto entre você e Hardang Halad deve ser levado para ser julgado pelo povo, e seria bom, pelo que nossas leis permitem, ter um amigo para aconselhá-lo e defender o seu caso.’

‘Eu não irei me defender, e não preciso de conselhos,’ disse Húrin.

‘Você precisa deste conselho, pelo menos,’ disse Manthor. ‘Controle sua ira por enquanto, e coma um pouco, pra que tenha força perante seus inimigos. Eu não sei qual é sua missão aqui, mas ela seria mais rápida se você não estivesse faminto. Não se mate enquanto existe esperança!’

‘Me matar?’ gritou Húrin, e ele cambaleou e se escorou na parede, e seus olhos estavam vermelhos. ‘Devo ser arrastado algemado perante uma ralé de homens da selva para ouvir que tipo de morte irão me dar? Eu me matarei antes, se minhas mãos estiverem livres.’ Então, de repente, rápido como um velho urso em uma cilada, ele saltou para a frente, e antes que Manthor pudesse evitá-lo, ele puxou uma faca do seu cinto. Então ele afundou no banco.

‘Você poderia ter tido a faca como um presente,’ disse Manthor, ‘porém nós não acreditamos no suicídio como uma saída nobre para aqueles que não enlouqueceram. Esconda a faca e a guarde para um uso melhor! Mas tenha cuidado, pois é uma lâmina maldita, de uma forja dos anões. Agora, senhor, não me considerará como amigo? Não diga nada, mas se você comer comigo, considerarei como um sim.’

Então Húrin olhou para ele e a ira deixou seus olhos; e juntos eles beberam e comeram juntos em silêncio. E quando tudo estava terminado, Húrin falou: ‘Pela sua voz você me derrotou. Nunca desde o Dia do Terror eu ouvi a voz de um homem tão bela. Ai de mim! Ela lembra das vozes na casa de meu pai, muito tempo atrás, quando a sombra parecia estar tão longe.’

‘Isto pode muito bem ser verdade,’ disse Manthor. ‘Hiril, minha primeira mãe era irmã de sua mãe, Hareth.’

‘Então você é amigo e parente,’ disse Húrin.

‘Mas não eu sozinho,’ disse Manthor. ‘Nós somos poucos e temos pouco dinheiro, mas nós também somos Edain, e ligados por muitas formas ao seu povo. Seu nome foi por muito tempo mantido honrado aqui; mas nenhuma notícia de seus feitos teria chegado até nós se Haldir e Hundar não tivessem marchado para a Nirnaeth. Lá eles caíram, mas sete dos seus companheiros retornaram, pois eles foram socorridos por Mablung de Doriath e curados de seus ferimentos.

Os dias tem sido escuros desde então, e muitos corações foram escurecidos, mas não todos.’

‘Mas a voz do seu líder vem das sombras,’ disse Húrin, ‘e seu povo o obedece, mesmo em atos de desonra e crueldade.’

‘A tristeza escurece seus olhos, senhor, se é que ouso dizer tal coisa. Mas que isto fique provado, vamos nos aconselhar juntos. Pois eu vejo perigo de mal à nossa frente, tanto para você quanto para meu povo, apesar de talvez a sabedoria possa evitar isso. De uma coisa eu posso alertá-lo, apesar de não lhe agradar. Hardang é um homem menor que seus pais, mas eu não vi maldade nele desde que ele ouviu da sua chegada. Você carrega uma sombra, Húrin Thalion, na qual sombras menores ficam mais escuras.’

‘Palavras negras de um amigo!’ disse Húrin. ‘Por muito tempo vivi na Sombra, mas eu suportei e não me entreguei. Se existe alguma escuridão em mim, é apenas a dor além da dor que me roubou a luz. Mas não faço parte da Sombra.’

‘Mesmo assim, eu lhe digo,’ disse Manthor. ‘que ela segue seus passos. Eu não sei como ganhaste a liberdade; mas o pensamento de Morgoth não o esqueceu. Tenha cuidado.’

‘Não caduque, velho senil, você diria,’ respondeu Húrin. ‘Eu irei suportar isso de você, pela sua bela voz e nosso parentesco, mas não mais! Vamos falar de outras coisas, ou acabamos por aqui.’

Então Manthor foi paciente, e ficou por longo tempo com Húrin, até que a noite trouxe a escuridão para a caverna; e eles comeram juntos mais uma vez. Então Manthor ordenou que uma luz fosse trazida para Húrin; e ele partiu no dia seguinte, e foi para sua tenda com o coração pesado.

No dia seguinte foi proclamado que o debate para o julgamento aconteceria na manhã seguinte, pois quinhentos homens chefes já se apresentaram e este era por costume, o quorum mínimo que se aceitava para um encontro do povo. Manthor foi cedo encontrar Húrin; mas os guardas mudaram. Três homens da guarda privada de Hardang guardavam a porta, e eles não foram amistosos.

‘O prisioneiro está dormindo,’ o líder deles falou. ‘E isso é bom; pode acalmar seu ânimo.’

‘Mas eu sou o amigo que ele escolheu, como foi declarado ontem,’ disse Manthor.

‘Um amigo o deixaria em paz, enquanto ele pode tê-la. Que bem faria acordá-lo?’

‘Por que a minha vinda o acordaria? Os pés de um carcereiro são mais pesados que os meus.’ falou Manthor. ‘Eu desejo ver como ele dorme.’

‘Você pensa que todos os homens mentem, menos você?’

‘Não, não; mas eu acho que alguém esqueceria as nossas leis de bom grado quando elas não servem o seu propósito,’ respondeu Manthor. Mesmo assim pareceu a ele que pouco ajudaria o caso de Húrin se continuasse a discutir, e ele foi embora. Muitas coisas permaneceram sem serem ditas entre eles até que fosse tarde demais. Pois quando ele retornou o dia estava terminando. Nada impediu a sua entrada, desta vez, e ele encontrou Húrin deitado em uma armação de madeira; e ele notou com fúria que ele tinha agora algemas em seus punhos e uma curta corrente entre eles.

‘Um amigo que se atrasa é a esperança que é negada,’ disse Húrin. ‘Esperei por muito tempo por você, mas agora estou com muito sono e meus olhos estão turvos.’

‘Eu vim no meio da manhã,’ disse Manthor, ‘mas eles disseram que você estava dormindo.’

‘Eu estava cochilando, cochilando em uma esperança pálida,’ disse Húrin; ‘mas a sua voz me acordou. Eu estou assim desde que tive meu desjejum. Aquele seu conselho finalmente o tomei, meu amigo; mas comida me faz mais mal do que bem. Agora eu devo dormir. Mas volte pela manhã!’

Manthor teve pensamentos escuros sobre isto. Ele não pode ver o rosto de Húrin, pois havia pouca luz, mas se curvando para baixo ele pode ouvir a sua respiração. Então com uma expressão severa, ele se levantou e pegou os restos da comida, colocando sob seu casaco, e foi embora.

‘Bem, o que você achou do homem selvagem?’ disse o chefe da guarda.

‘Perturbado com sono,’ respondeu Manthor. ‘Ele deve estar bem desperto amanhã. O desperte cedo. Traga comida para dois, pois eu virei quebrar meu jejum com ele.’

No dia seguinte, muito antes do meio da manhã, o debate teve início. Quase mil pessoas chegaram, a maioria homens velhos, já que a vigília nas fronteiras deve ser mantida. Logo o anel do debate estava cheio. Ele tinha a forma de uma grande crescente, com sete fileiras de bancos saindo de um piso plano escavado na encosta da colina. Uma grade alta ficava em volta dela, e a única entrada era por um portão pesado na cerca que se fechava na parte aberta da crescente. No meio da camada mais baixa estava Angbor, ou a Pedra do Destino, uma grande pedra chata na qual o Halad sentaria. Aqueles que eram trazidos para julgamento ficavam na frente da pedra e voltados para a assembléia.

Havia uma grande babel de vozes; mas com o grito de uma trompa, o silêncio caiu, e o Halad entrou, acompanhado por muitos guarda costas. O portão se fechou atrás dele, e ele caminhou lentamente até a Pedra. Então ele parou, olhando para a assembléia e consagrou o debate como de costume. Primeiro ele citou os nomes de Manwë e Mandos, segundo o costume que os Edain aprenderam com os Eldar, e então, falando na língua antiga do povo, que agora estava fora de uso, e declarou aberto o debate, sendo o tricentésimo primeiro debate de Brethil, convocado para julgar um grave assunto.

Quando, como de costume, toda a assembléia gritou em uníssono e na mesma língua ‘Nós estamos prontos’, ele sentou em Angbor, e chamou na língua de Beleriand para os homens que estavam próximos: ‘Soem as cornetas! Que o prisioneiro seja trazido até nós!’

A corneta soou duas vezes, mas por um tempo ninguém entrou, e o som de vozes irritadas podia ser ouvida fora da cerca. Depois de um tempo, o portão foi empurrado e seis homens saíram com Húrin entre eles.

‘Eu sou trazido sob violência e maus tratos,’ ele gritou. ‘Eu não irei caminhar algemado para nenhum debate na terra, nem se reis élficos estivessem presentes. E enquanto eu estiver preso, eu irei negar toda a autoridade e justiça a que me condenem.’ Mas os homens o colocaram no chão à frente da Pedra e o seguraram ali com força.

Agora era costume do debate que, quando qualquer homem era trazido para ele, o Halad deveria ser o acusador, e deveria primeiramente recitar o delito que acusava. A respeito do que era direito do acusado, por ele mesmo ou pela boca de seu amigo, negar a acusação, ou oferecer uma defesa pelo que fez. E depois dessas coisas serem ditas, se algum ponto restava duvidoso ou era negado por um dos lados, testemunhas eram convocadas.

Hardang, então, estava em pé e virado para a assembléia e começou a recitar a acusação. ‘Este prisioneiro,’ disse ele, ‘que está perante vocês, se auto proclama Húrin, filho de Galdor, que um dia foi de Dor-lómin, mas ele veio de uma longa estada em Angband. Seja isto como for.’

Mas sobre isto Manthor se levantou e se colocou perante a Pedra. ‘Com sua licença, meu senhor Halad e povo!’ ele gritou. ‘Como amigo do prisioneiro eu convoco o direito de perguntar: a acusação contra ele envolve de alguma forma a pessoa do Halad? Ou teria o Halad alguma mágoa em relação a ele?’

‘Mágoa?’ gritou Hardang, e a raiva obscureceu seu raciocínio, pois ele não percebeu as intenções de Manthor. ‘Muitas mágoas! Esta não é a última moda em adereços para cabeça para o debate. Eu venho aqui com ferimentos com curativos.’

‘Oras!’ disse Manthor. ‘Mas se é assim, eu peço que a questão não possa ser tratada desta forma. Na sua lei nenhum homem pode recitar a ofensa feita contra si mesmo; nem ele pode sentar na cadeira do julgamento enquanto a acusação é ouvida. Não é esta a lei?’

‘Esta é a lei,’ respondeu a assembléia.

‘Então,’ disse Manthor, ‘antes que a acusação seja ouvida, outro Hardang, filho de Hundad deve ser apontado para a pedra.’

Assim várias vozes se ergueram, mas a maioria das vozes e as vozes mais altas chamavam por Manthor. ‘Não,’ disse ele, ‘eu estou envolvido com uma das partes e não posso ser o julgador. Além disso, é o direito do Halad neste caso nomear aquele que irá tomar o seu lugar, o que ele com certeza sabe muito bem.’

‘Eu o agradeço,’ disse Hardang, ‘mas eu não preciso de um jurista autodidata para me ensinar.’ Então ele olhou para Manthor, como se considerando quem ele deveria nomear. Mas a sua raiva era negra e toda a sabedoria o abandonou. Se ele tivesse escolhido qualquer dos chefes de casa ali presentes, as coisas poderiam ter tomado um rumo diferente. Mas em um momento maligno ele escolheu, para o espanto de todos, gritou: ‘Avranc, filho de Dorlas! Parece que o Halad também precisa de um amigo hoje, quando os juristas estão tão ousados. Eu o convoco para a Pedra.’

O silêncio caiu. Mas quando Hardang se afastou e Avranc foi até a pedra, um grande murmúrio foi ouvido, como o prenúncio de uma tempestade. Avranc era um jovem casado há pouco, e sua juventude fora tomada como ruim por todos os velhos chefes de casa que estavam lá. Pois ele não era querido pelo que era; pois apesar de ser valente, ele era um zombador, como seu pai Dorlas foi antes dele. E lendas negras sussurravam sobre Dorlas, pois, apesar de nada ser dado como verdadeiro, ele foi encontrado morto na batalha com Glaurung, e a espada ensanguentada que jazia ao seu lado era a espada de Brandir.

Mas Avranc não deu atenção aos murmúrios, e se alegrou, como se fosse um assunto simples, que se tratasse rapidamente.

‘Bem,’ disse ele, ‘se isto está definido, não vamos mais perder tempo! O assunto está claro o suficiente.’ Então, se levantando, ele continuou a acusação. ‘Este prisioneiro, este homem selvagem,’ disse ele, ‘vem de Angband, como vocês bem ouviram. Ele foi encontrado dentro de nossas fronteiras. Não por acaso, pois, como ele mesmo disse, tem uma missão a cumprir aqui. O que seria, ele não revelou, mas não pode ser nada de bom. Ele odeia este povo. Logo que nos viu, nos insultou. Nós lhe demos comida e ele a cuspiu. Eu já vi orcs agirem assim, se fossemos tolos o suficiente para demonstrar-lhes piedade. Está claro que ele vem de Angband, seja lá qual for o seu nome. Mas o pior ainda está por vir. Por requerimento próprio, ele foi levado perante o Halad de Brethil – por este homem que se diz agora seu amigo; mas quando ele chegou ao salão, ele se recusou a dizer seu nome. E quando o Halad o perguntou qual era a sua missão e o pediu que descansasse primeiro e falasse depois, se assim o aprouvesse, ele enlouqueceu, começou a insultar o Halad, e de repente arremessou um banco na sua face e o feriu gravemente. Foi bom que ele não tinha nada mais mortal à mão, ou o Halad teria sido morto. É clara a intenção do prisioneiro, e diminui muito pouco a sua culpa o fato de que o pior não tenha acontecido, para o qual a pena é a da morte. Mas mesmo assim, o Halad senta na grande cadeira no seu salão: insultá-lo lá é um ato de maldade, e atacá-lo é um ultraje.

‘Esta, então, é a acusação contra o prisioneiro: que ele veio para cá com más intenções para conosco, e para com o Halad de Brethil em especial (a pedido de Angband, pode se dizer); que, na presença do Halad, ele o desrespeitou, e então tentou matá-lo em sua cadeira. A penalidade está sob o julgamento do debate, mas poderia ser justamente a da morte.’

Então, para muitos pareceu que Avranc falou justamente, e para todos ele falou com habilidade. Por um tempo, ninguém ergueu a voz de lado algum. Então Avranc, sem esconder seu sorriso, levantou-se novamente e disse: ‘O prisioneiro pode agora responder à acusação, se quiser, mas que seja breve e não enlouqueça!’

Mas Húrin não falou, apesar de fazer força contra aqueles que o seguravam. ‘Prisioneiro, não vai falar?’ disse Avranc, e Húrin não lhe respondeu. ‘Que assim seja,’ disse Avranc. ‘Se ele não vai falar, nem para negar a acusação, então não há mais nada a fazer. A acusação é justa, e aquele que está de frente para a Pedra pode propor uma pena que lhe pareça justa para o Debate.’

Mas agora Manthor se levantou e disse: ‘Primeiro devem perguntar a ele por que não falará. E a resposta deverá ser dada por seu amigo.’

‘A questão está feita,’ disse Avranc, dando de ombros. ‘Se você sabe a resposta, fale.’

‘Porque seus pés e mãos estão presos,’ disse Manthor. ‘Nunca antes nós arrastamos algemado para o Debate alguém que ainda não tenha sido condenado. Mas mesmo que seja um Edain, cujo nome merece honra, isso nunca deveria ter acontecido. Sim, não condenado digo eu; pois o acusado deixou muito sem ser dito que este Debate deve ouvir antes de dar o julgamento.’

‘Mas isto é uma tolice,’ disse Avranc. ‘Adan ou não, e qualquer que seja seu nome, o prisioneiro é incontrolável e malicioso. As algemas são uma precaução necessária. Aqueles que se aproximam dele devem estar protegidos da sua violência.’

‘Se deseja criar a violência,’ respondeu Manthor, ‘o que seria mais óbvio do que abertamente desonrar um homem orgulhoso, carregando o peso da tristeza de muitos anos nas costas. A aqui está um, enfraquecido pela fome e por uma longa jornada desarmado em meio a uma hoste. Eu pergunto ao povo aqui reunido: vocês consideram esta precaução digna dos homens livres de Brethil, ou prefeririam que tivéssemos usado a cortesia dos antigos?’

‘As algemas foram colocadas no prisioneiro por ordem do Halad,’ disse Avranc. ‘Para isto nós usamos seu direito de evitar a violência em seu salão. Assim, esta ordem não pode ser impugnada, salvo por toda a assembléia.’

Assim, um grande grito se ergueu na multidão ‘Soltem-no, soltem-no! Húrin Thalion! Soltem H‎úrin Thalion!’ Nem todos tomaram parte neste grito, pois nenhuma voz foi ouvida do outro lado.

‘Não, não!’ disse Avranc. ‘Gritar não irá adiantar nada. Neste caso, devemos votar na forma correta.’

Agora, por hábito, em assuntos graves ou duvidosos, os votos do debate eram dados mostrando cristais, e todos os que entraram portavam consigo dois cristais, um preto e um branco, para sim e para não. Mas juntar e contar os cristais tomava tempo, e enquanto isso, Manthor percebeu que o humor de Húrin piorava cada vez mais.

‘Existe uma forma mais fácil,’ disse ele. ‘Não há perigo aqui para justificar as algemas, pois assim pensam todos aqueles que usaram a voz. O Halad está no anel do debate, e ele pode cancelar sua própria ordem, se assim desejar.’

‘Ele ira,’ disse Hardang, pois pareceu para ele que a assembléia estava impaciente, e ele pensou que agir assim os levaria para seu lado. ‘Que o prisioneiro seja solto, e fique perante você.’

Então as algemas foram retiradas das mãos e dos pés de Húrin. Imediatamente ele se pôs de pé e, dando as costas para Avranc, ele encarou a assembléia. ‘Eu estou aqui,’ disse ele. ‘E vou responder o meu nome. Eu sou Húrin Thalion, filho de Galdor Orchal, senhor de Dor-lómin e uma vez alto capitão do exército do rei Fingon do reino do norte. Que nenhum homem negue isto! E isto deverá ser o suficiente. Eu não vou implorar perante vocês. Façam como quiserem! Também não irei rebater as palavras daquele que abriu o debate e que vocês permitem que sente na cadeira mais alta. Deixe-o mentir da forma que quiser!

‘Em nome dos Senhores do Oeste, que maneiras são estas deste povo, ou o que vocês se tornaram? Enquanto a ruína da Escuridão está sobre vocês, vocês sentam aqui pacientemente e escutam este guarda desertor perguntar sobre o destino da morte sobre mim – porque eu quebrei a cabeça de um jovem insolente, seja em sua cadeira ou fora dela? Ele deveria ter aprendido como tratar os mais velhos antes que vocês o tornassem seu líder.

‘Morte? ‘Perante Manwë, se eu não tivesse suportado tormentos por vinte e oito anos, se eu estivesse como na Nirnaeth, vocês não ousariam sentar aqui e me encarar. Mas eu não sou mais perigoso, pelo que ouvi. Então vocês são bravos. Eu posso ficar aqui, sem algemas para ser usado como isca. Eu fui derrotado na guerra e domado. Domado! Mas não tenham tanta certeza disso!’ Ele ergueu os braços e cerrou os punhos.

Mas nesta hora, Manthor o acalmou, colocando a mão no seu ombro e falou suavemente em seu ouvido. ‘Meu senhor, está se enganando em relação a eles. Muitos são seus amigos, ou o seriam. Mas aqui há homens livres orgulhosos também. Deixe-me falar com eles agora.’

Hardang e Avranc nada disseram, mas sorriram um para o outro, pelo discurso de Húrin, pois pensaram que ele não tinha feito a sua parte de maneira correta. Mas Manthor gritou: ‘Dêem ao Senhor Húrin uma cadeira enquanto eu falo. Vocês compreenderão melhor sua ira, e talvez até perdoar, quando tiverem me ouvido.

‘Ouçam me agora, povo de Brethil. Meu amigo não nega a acusação principal, mas diz que foi abusado e provocado além da conta. Meus senhores, eu era capitão dos vigias da fronteira que encontrou este homem dormindo perto de Haud-en-Elleth. Ou parecia estar dormindo, mas ele estava muito cansado e perto de despertar, e, enquanto estava deitado ele ouviu, temo eu, as palavras que foram ditas.

‘Havia um homem chamado Avranc, filho de Dorlas, eu me lembro, como membro da minha companhia, e ele deveria estar lá agora, pois esta foi a minha ordem. Quando cheguei a Brethil, descobri que Avranc havia dado conselhos ao homem que encontrou Húrin primeiro e adivinhou seu nome. Povo de Brethil, eu o ouvi dizer o seguinte: “Seria melhor matar o velho enquanto dormia e evitar problemas futuros. E isso agradaria ao Halad,” disse ele.

‘Talvez agora vocês irão pensar melhor sobre o fato de que quando o despertei, e ele encontrou homens armados sobre ele, ele disparou palavras amargas para nós. Ao menos um de nós as mereceu. E sobre desprezar nossa comida: ele a pegou de minhas mãos e não cuspiu nela. Ele a cuspiu fora, pois se engasgou com ela. Nunca viram, meus senhores, homens famintos que não conseguiam engolir comida devido à pressa que tinham em fazê-lo? E este homem também estava muito deprimido e cheio de raiva.

‘Não, ele não desdenhou de nossa comida. Se bem que ele o teria feito, se ele soubesse dos esquemas que alguns dos que habitam aqui armaram! Ouçam-me agora e acreditem, se quiserem, pois testemunhas podem ser trazidas. Em sua prisão, o Senhor Húrin comeu comigo, pois eu o tratei com cortesia. Isso foi dois dias atrás. Mas ontem, ele estava sonolento, e não conseguia falar claramente, nem se aconselhar comigo sobre o julgamento de hoje.’‘Isto pouco quer dizer!’ gritou Hardang.Manthor parou e olhou para Hardang. ‘Pouco quer dizer realmente, meu senhor Halad,’ ele disse; ‘pois essa comida foi envenenada.’Então Hardang, irado, gritou: ‘Os sonhos deste preguiçoso tem que ser recitados para nos entediar?’

‘Não falo de sonhos,’ respondeu Manthor. ‘As testemunhas irão falar agora. Eu levei um pouco da comida que Húrin comeu. Perante testemunhas, eu dei para um cão, e ele está dormindo como se estivesse morto. Talvez o Halad de Brethil não planejou isso, mas alguém que está ávido para agradá-lo. Mas com que propósito? Para evitar que ele use da violência, certamente, já que ele estava algemado na prisão? Existe malícia entre nós, povo de Brethil, e eu espero que a assembléia corrija isto!’

Neste momento, uma grande agitação e murmúrios se ergueram no anel do debate e quando Avranc se levantou pedindo silêncio, o clamor aumentou. Finalmente, quando a assembléia se acalmou um pouco, Manthor disse: ‘Posso continuar agora, pois há mais coisas a serem ditas?’

‘Proceda!’ disse Avranc. ‘Mas seja breve. E eu aviso a todos, meus senhores, para que escutem este homem com cautela. Sua boa fé não pode ser confiada. O prisioneiro e ele são parentes.’

Estas palavras não foram sábias, pois Manthor as respondeu imediatamente: ‘Realmente. A mãe de Húrin era Hereth, filha de Halmir, outrora Halad de Brethil, e Hiril, sua irmã era a mãe da minha mãe. Mas sua linhagem não faz de mim um mentiroso. E digo mais, se Húrin de Dor-lómin é meu parente, ele é parente de todos da casa de Haleth. Sim, e de todo este povo. E mesmo assim ele é tratado como um fora da lei, um ladrão, um homem selvagem e sem honra!

‘Vamos continuar com a acusação principal, que o acusador diz que pode ter uma pena próxima daquela da morte. Vocês vêm perante vocês a cabeça quebrada, apresar que parece que está firme sobre seus ombros e que pode usar a língua muito bem. Pois foi ferida com o arremesso de um pequeno banco. Um ato de maldade, vocês diriam. E muito pior quando feito contra o Halad de Brethil enquanto senta em sua grande cadeira.

‘Mas meus senhores, atos malignos podem ser provocados. Que vocês se imaginem no lugar de Hardang, filho de Hundad. Bem, aí vem Húrin, senhor de Dor-lómin, seu parente, perante você: o chefe de uma grande casa, um homem cujos atos são cantados por Elfos e Homens. Mas ele agora está envelhecido, indisposto, cheio de pesar, cansado de viajar. Ele pede para ver você. Lá está você, confortável em sua cadeira. Você não se levanta. Você não fala com ele. Mas você o olha de cima a baixo, enquanto ele está de pé, até que ele cai no chão. Então, cheio de piedade e cortesia, você grita: “Tragam um banco para o homem!”

‘Oh, vergonha e espanto! Ele arremessa o banco na sua cabeça. Oh, vergonha e espanto eu digo, pois você também desonra sua cadeira, que você também desonra o seu salão, que você também desonra o povo de Brethil!‘Meus senhores, eu admito livremente que teria sido melhor se o Senhor Húrin tivesse sido paciente, inacreditavelmente paciente. Por que ele não esperou para ver que futuros desprezos ele deveria suportar? E mesmo assim, enquanto eu estava no salão e vi isso, tudo o que eu conseguia pensar, e é tudo que eu consigo pensar ainda agora e peço que me respondam: O que vocês acham dessas maneiras que possui o homem que tornamos Halad de Brethil?’Muitas vozes se ergueram nesta questão, mas até que Manthor erguesse sua mão, e de repente tudo estava em silêncio novamente. Mas sob a proteção do barulho, Hardang se aproximou de Avranc para falar com ele, e surpreendido pelo silêncio, eles foram pegos falando alto demais, então Manthor e outros também ouviram Hardang falar: ‘Eu me arrependo de ter atrapalhado sua tentativa de matá-lo!’ E Avranc respondeu: ‘Eu vou encontrar tempo para isto.’Mas Manthor continuou. ‘Minhas dúvidas foram sanadas. Estas maneiras não os agrada, eu vejo. Então o que teriam feito com o arremessador do banco? Teriam amarrado-o, colocariam uma coleira em seu pescoço, prenderiam-no em uma caverna, teriam algemado-o, envenenado sua comida, e por fim, arrastado ele até aqui e pedido pela sua morte? Ou teriam libertado-o? Ou teriam, talvez, pedido desculpas, ou ordenado a este Halad que o fizesse?

Assim, mais vozes ainda se ergueram, e homens se levantaram nas bancadas, batendo palmas e gritando: ‘Libertem! Libertem! Libertem ele!’ E muitas vozes foram ouvidas gritando: ‘Fora com este Halad! Coloquem-no nas cavernas!’

Muitos dos homens mais velhos que sentavam nas fileiras de baixo correram e se ajoelharam perante Húrin e pediram o seu perdão; e um ofereceu a ele uma bengala, outro deu a ele um belo manto e um grande cinto de prata. E quando Húrin estava todo vestido, e com uma bengala em sua mão, ele foi até a Pedra e subiu nela, não como um suplicante, mas como um rei; e encarando a assembléia, ele gritou em uma grande voz: ‘Eu agradeço a vocês, mestres de Brethil aqui presentes, que me libertaram da desonra. Ainda existe justiça em sua terra, mas ela estava adormecida e demorou a despertar. Mas agora eu tenho uma acusação a fazer.

‘Qual é minha missão aqui, é o que foi perguntado? O que acham? Túrin, meu filho, e Nienor, minha filha, não morreram nesta terra? Ai de mim! De longe eu fiquei sabendo das dores que aconteceram aqui. É então um espanto que um pai vá procurar as tumbas dos seus filhos? Maior espanto é, pelo que me parece, que ninguém aqui, em momento algum, falou seus nomes para mim.

‘Estão envergonhados que deixaram meu filho Túrin morrer por vocês? Que apenas dois tiveram coragem de ir com ele encarar o terror do verme? Que ninguém ousou ir até lá para socorrê-lo quando a batalha havia terminado, apesar de que o maior dos males havia sido impedido?

‘Envergonhados vocês devem estar. Mas esta não é a minha acusação. Eu não peço que nenhum nesta terra se equipare ao filho de Húrin em valor. Mas se eu perdoar esta dor, devo perdoar isto? Escutem-me, homens de Brethil! Lá está, junto à Pedra Parada que vocês ergueram, uma mendiga. Por muito tempo ela ficou em sua terra, sem fogo, sem comida, sem piedade. Agora ela está morta. Morta. Ela era Morwen, minha esposa. Morwen Edelwen, a dama bela como os elfos que deu vida a Túrin, o matador de Glaurung. Ela está morta.

‘Se vocês, que têm um pouco de piedade, gritarem para mim que não possuem culpa, então eu pergunto quem é o culpado? Por quem no comando ela foi deixada fora para morrer de fome em suas portas como um cão expulso?

‘O seu líder contribuiu para isto? Acredito que sim. Ou ele não teria agido assim comigo, se tivesse a chance? Estas são os seus presentes: desonra, fome, veneno. Vocês não tem parte nisto? Vocês não trabalhariam conforme sua vontade? Então, por quanto tempo, senhores de Brethil, vocês o suportarão? Por quanto tempo vocês irão permitir que este homem chamado Hardang sente em sua cadeira?’

Agora Hardang estava aterrorizado, quando chegou a sua vez, e seu rosto ficou branco com medo e espanto. Mas antes que pudesse falar, Húrin apontou uma longa mão a ele. ‘Vejam!’ ele gritou. ‘Ali ele está com um sorriso de escárnio em seus lábios! Será que se considera a salvo? Pois roubaram minha espada; e eu sou velho e estou cansado, ele pensa. Não, por muitas vezes me chamou de homem selvagem. Ele verá um então! Apenas mãos, mãos, são necessárias para esmagar sua garganta cheia de mentiras.’

Com isto, Húrin deixou a pedra e caminhou a passadas largas em direção a Hardang; mas este se afastou perante Húrin, chamando seus guarda-costas para protegê-lo; e eles foram em direção ao portão. Para muitos isto pareceu que Hardang admitira sua culpa, e eles puxaram suas armas, e desceram da bancada, gritando em direção a ele.

Agora o perigo da batalha estava no interior do anel sagrado. Pois outros se aliaram a Hardang, alguns por amor por ele ou pelos seus atos, que, acima de tudo, eram leais a ele e ao menos o defenderiam da violência, até que pudesse se defender perante o debate.

Manthor estava entre os dois grupos, e gritou para que segurassem suas mãos e que não derramassem sangue no anel do debate; mas a fagulha que ele mesmo criou agora explodiu em chamas além do seu controle, e uma onda de homens o colocou para o lado. ‘Fora com este Halad!’ eles gritavam. ‘Fora com Hardang, levem-no para as cavernas! Abaixo Hardang! Viva Manthor! Nós queremos Manthor!’ E eles se lançaram sobre os homens que barravam o caminho para o portão, para que Hardang tivesse tempo para escapar.

Mas Manthor voltou até Húrin, que agora estava sozinho, perto da Pedra. ‘Ai de mim, Senhor!’ disse ele, ‘eu temia que esse dia guardasse grande perigo para nós. Há pouco que posso fazer, mas ainda eu devo tentar evitar o mal maior. Eles logo sairão, e eu devo segui-los. Você virá comigo?’

Muitos caíram no portão, de ambos os lados, mas ele foi tomado. Lá Avranc lutou bravamente, e ele foi o último a fugir. Mas quando ele se virou para correr, ele de repente puxou seu arco e atirou em Manthor, que estava próximo da Pedra. Mas, devido à sua pressa, ele errou o tiro, e a flecha acertou a pedra, lançando fagulhas atrás de Manthor enquanto quebrava. ‘Da próxima vez será mais perto!’ gritou Avranc, enquanto fugia com Hardang.

Então os rebeldes saíram do anel e perseguiram os homens de Hardang até Obel Halad, quase há meia milha de distância. Mas antes de chegarem lá, o Hardang havia tomado conta do salão e o trancou; e ele agora estava cercado. O salão dos líderes ficava num jardim com uma parede de terra redonda em volta, se erguendo de um dique externo seco. Na parede havia apenas um portão, do qual uma trilha de pedras levava até grandes portas. Os perseguidores passaram pelo portão e rapidamente cercaram todo o salão, e tudo ficou quieto por um tempo.

Mas Manthor e Húrin chegaram até o portão; e Manthor queria negociar, mas os homens disseram: ‘De que servem palavras? Ratos não sairão enquanto cães estão perto.’ E alguns gritaram: ‘Nossos parentes foram assassinados, e nós os vingaremos!’

‘Muito bem’, disse Manthor, ‘permitam ao menos que eu faça o que eu posso!’

‘Então faça!’ disseram eles. ‘Mas não se aproxime demais, ou poderá receber uma resposta afiada.’

Assim, Manthor ficou próximo ao portão e ergueu sua grande voz, gritando para ambos os lados que eles deveriam parar com este fraticídio. E para aqueles que ele estavam dentro, prometeu que aqueles que se apresentassem desarmados poderiam sair livremente, até mesmo Hardang, se ele desse sua palavra de comparecer perante o Debate no dia seguinte. ‘E nenhum homem irá levar armas também,’ disse ele.

Mas enquanto falava, uma flecha saiu de uma janela, que passou perto da orelha de Manthor, e cravou fundo em um dos marcos do portão. Então a voz de Avranc foi ouvida, gritando: ‘A terceira vez será certeira!’

Agora a raiva daqueles que estavam fora se inflamou novamente, e muitos correram até as grandes portas e tentaram quebrá-las; mas lá havia uma surtida, e muitos foram feridos ou mortos, e muitos outros no pátio foram feridos por flechas das janelas. Então os assaltantes, agora cheios de ira, trouxeram galhos e gravetos e muita madeira, e colocaram no portão; e gritaram para aqueles que estavam dentro:

‘Vejam! O Sol está se pondo. Nós lhe daremos até o cair da noite. Se vocês não saírem então, nós iremos queimar o salão com vocês dentro!’

Então todos se afastaram do pátio, para evitar flechadas, mas formaram um anel de homens em volta do dique externo.

O Sol se pôs e ninguém saiu do salão. E quando estava escuro, os assaltantes voltaram ao pátio carregando a madeira, e as empilharam em volta das paredes do salão. Então, alguns carregando tochas acesas, correram pelo pátio para colocar fogo nas madeiras. Um foi morto por uma flechada, mas os outros chegaram às pilhas e logo começaram a queimar.

Manthor ficou horrorizado na ruína do salão e o ato maligno dos homens de queimá-lo. ‘Dos dias escuros do nosso passado isso vem,’ disse ele, ‘antes de virarmos nossos rostos para o oeste. Uma sombra está sobre nós.’ E ele sentiu uma mão no seu ombro, e ele se virou e viu Húrin, que estava atrás dele, com uma expressão austera; e Húrin riu.

‘Vocês são um povo estranho,’ disse ele. ‘Uma hora frios, outra quente. Primeiro ira, então piedade. Sob os pés de seu líder e agora na sua garganta. Abaixo Hardang! Viva Manthor! Você irá aceitar isso?’

‘O povo deve escolher,’ disse Manthor. ‘E Hardang ainda vive.’

‘Não por muito tempo, espero,’ disse Húrin.

Agora as chamas cresceram e logo o salão do Haladin estava queimando em muitos lugares. Os homens de dentro jogaram terra e água sobre a lenha, tudo o que tinham, e uma grande fumaça se ergueu. Então alguns tentaram fugir sob sua proteção, mas poucos passaram pelo anel de homens; a maioria foi preso, ou morto, se tentaram lutar.

Havia uma pequena porta nos fundos do salão com uma varanda arqueada que se aproximava mais da parede do pátio do que as grandes portas na frente; e a parede atrás era mais baixa, porque o salão fora construído nas encostas de uma colina. Quando o telhado pegou fogo, Hardang e Avranc fugiram pela porta dos fundos, alcançaram o topo da parede e rolaram para o dique, e não foram avistados até que tentaram escalar para fora. Mas então, com gritos, homens correram até eles, mas não sabiam quem eram. Avranc se lançou aos pés de um deles, e o derrubou, e Avranc se levantou e fugiu pela escuridão. Mas outro arremessou uma lança nas costas de Hardang enquanto fugia, e ele caiu com um grande ferimento.

Quando descobriram quem ele era, os homens o levantaram e o colocaram aos pés de Manthor. ‘Não o coloque aos meus pés,’ disse Manthor, mas aos pés daquele que ele maltratou. Não tenho nada contra ele.’

‘Não tem?’ disse Hardang. ‘Então deve ter certeza da minha morte. Eu acho que você sempre terá algo contra aquele que foi escolhido pelo povo para ocupar a cadeira em vez de você.’

‘Pense o que quiser!’ disse Manthor, e se afastou. Então Hardang percebeu que Húrin estava ali. E Húrin ficou olhando para Hardang, uma forma escura na penumbra, mas a luz do fogo estava em seu rosto, e ali Hardang não viu piedade.

‘Você é um homem mais forte que eu, Húrin de Hithlum,’ ele disse. ‘Eu tinha tanto medo da sua sombra que toda a sabedoria e generosidade me abandonou. Mas agora eu não acho que nenhuma sabedoria ou piedade me salvaria de você, pois você não tem nem uma coisa nem outra. Você veio me destruir, ao menos nunca negou isto. Mas sua última mentira contra mim, eu a rebato antes de morrer. Nunca’ – mas com um engasgo de sangue em sua garganta, ele caiu para traz e não falou mais nada.

Então Manthor falou: ‘Ai de mim! Ele não devia ter morrido desta forma. A maldade que ele criou não lhe dava o direito de morrer assim.’

‘Por que não?’ disse Húrin. ‘Ele falou palavras odiosas de uma boca podre no final. Que mentiras falei contra ele?’

Manthor suspirou. ‘Nenhuma mentira intencional, talvez,’ ele disse. ‘Mas a última acusação que você apresentou era falsa, eu acho; e ele não teve chance de negá-la. Eu preferiria que tivesse falado para mim antes do Debate!’

Húrin cerrou os punhos. ‘Não é falsa!’ ele gritou. ‘Ela está onde eu falei. Morwen! Ela está morta!’

‘Ai de mim! Senhor, onde ela morreu eu não duvido. Mas disso eu acho que o Hardang não sabia mais do que eu, antes de você falar. Diga-me, senhor: ela alguma vez caminhou mais profundamente nesta terra?’

‘Eu não sei. Eu a encontrei como falei. Ela está morta.’

‘Mas senhor, se ela não caminhou mais, mas, ao encontrar a pedra, lá se sentou, triste e desesperada, no túmulo de seu filho, pelo que posso crer, então…’

‘Então o que?’ disse Húrin.

‘Então, Húrin Hadorion, pela escuridão de sua angústia, saiba disso! Meu senhor, cujo sofrimento é imenso, tão imenso quanto as coisas que vieram a acontecer conosco que nenhum homem e nenhuma mulher se aproximou daquela pedra desde que ela está lá. Não! O senhor Oromë em pessoa pode sentar naquela pedra, com toda a sua caça em sua volta, e não saberíamos. E mesmo que soprasse sua grande corneta, nós não atenderíamos àquele chamado!’

‘Mas e se Mandos, o Justo, falasse, não o ouviria?’ disse Húrin. ‘Agora alguns devem ir para lá, se você possui alguma piedade! Ou irá deixá-la lá, até que seus ossos fiquem brancos? Isto purificaria a sua terra?’

‘Não, não!’ disse Manthor. ‘Eu irei encontrar alguns homens de coração forte e mulheres piedosas, e você nos levará até lá, e faremos o que pede. Mas é uma longa estrada, e este dia está acabando em toda a sua malícia. Um novo dia é necessário.’

No dia seguinte, quando as notícias da morte de Hardang se espalharam, uma grande multidão de pessoas procurou Manthor, implorando para que se tornasse líder. Mas ele disse: ‘Não, isto deve ser apresentado perante o Debate. E não pode ser agora, pois o anel foi maculado, e existem outras coisas que são mais urgentes. Primeiro eu tenho uma missão. Eu devo ir ao campo do verme e até a Pedra dos Infelizes, onde Morwen, sua mãe está abandonada. Alguém irá comigo?’

Então a piedade afetou alguns corações dos que o ouviram; e apesar de alguns terem se afastado com medo, muitos estavam dispostos a ir, mas entre estes, havia mais mulheres do que homens.

Assim, mais tarde, partiram em silêncio, trilhando o caminho que levava pela cachoeira de Celebros. Após oito milhas, a escuridão caiu sobre Nen Girith, e eles passaram a noite da forma que puderam. E na manhã seguinte, eles chegaram ao Campo da Queimada, e eles encontraram o corpo de Morwen ao lado da Pedra Parada. Então olharam para ela com piedade e espanto; pois parecia que olhavam para uma grande rainha cuja dignidade nem a idade nem toda a miséria nem toda a angústia do mundo conseguiria tirar dela.

Então eles desejaram honrá-la em morte; e alguns disseram: ‘Este é um lugar negro. Vamos erguê-la, e levar a Senhora Morwen até o pátio dos túmulos e colocá-la entre os da Casa de Haleth com quem possui parentesco.’

Mas Húrin disse: ‘Não, Nienor não está aqui, mas é melhor que ela fique aqui, próxima de seu filho, em vez de com estranhos. É o que ela teria escolhido.’ Então eles fizeram uma tumba para Morwen sobre Cabed Naeramarth, no lado oeste da Pedra; e quando a terra foi jogada sobre ela, eles escreveram na Pedra: Aqui jaz também Morwen Edelwen, enquanto alguns cantavam na língua antiga os lamentos que há muito foram feitos para aqueles do seu povo que caíram na Marcha além das Montanhas.

E enquanto cantavam, começou uma chuva cinzenta, e todo aquele lugar desolado se encheu de pesar, e o rugir do rio era como o lamento de muitas vozes. E quando tudo terminou, eles se afastaram, e Húrin foi apoiado em sua bengala. Mas dizem que depois deste dia o medo abandonou aquele lugar, mas a tristeza permaneceu, e ficou para sempre sem folhas e descoberto. Mas até o fim de Beleriand, as mulheres de Brethil iriam com flores na primavera, e bacíferos no outono, e cantariam ali por um tempo, para a Senhora Cinzenta que procurou em vão por seu filho. E um vidente e um harpista de Brethil, Glirhuin, fez uma canção falando que a Pedra dos Infelizes não poderia ser maculada por Morgoth, nem nunca derrubada, nem que o Mar engolisse toda a terra. O que de fato aconteceu depois, e ainda a Tol Morwen está sozinha na água, além das novas costas que foram criadas nos dias da ira dos Valar. Mas Húrin não está enterrado lá, pois seu destino o levou adiante, e a Sombra continuou seguindo-o.

Agora, quando a companhia retornou para Nen Girith, eles pararam, e Húrin olhou para trás, além de Taeglin, em direção ao Sol poente que aparecia através das nuvens; e ele estava relutante em retornar para a Floresta. Mas Manthor olhou para o leste e estava preocupado, pois havia um brilho vermelho no céu daquele lado também.

‘Senhor,’ disse ele, ‘fique aqui se quiser, assim como todos os outros que estiverem cansados. Mas eu sou o último dos Haladin, e eu temo que o fogo que foi aceso ainda não tenha se apagado. Devo retornar rapidamente, para que a loucura dos homens não leve Brethil inteira à ruína.’

Mas enquanto ele falava isto, uma flecha saiu do meio das árvores, e ele tropeçou e caiu no chão. Então os homens correram para procurar pelo arqueiro; e eles viram um homem correndo como um cervo pelo caminho até Obel, e ele não foi alcançado; mas eles viram que era Avranc.

Manthor sentou-se, ofegante, encostado em uma árvore. ‘Só um arqueiro ruim erraria o alvo no terceiro tiro,’ ele disse.

Húrin se curvou em sua bengala e olhou para Manthor. ‘Mas você também errou seu alvo, parente,’ ele disse. ‘Você foi um amigo valoroso, e eu acho que você foi com muita vontade na causa que também era sua. Manthor teria sentado de forma mais merecedora na cadeira dos líderes.’

‘Você possui um olho forte, Húrin, para perfurar todos os corações, menos o seu,’ disse Manthor. ‘Sim, sua escuridão também me tocou. Agora ai de mim! Os Haladin se acabaram; pois este ferimento é mortal. Esta não era sua verdadeira missão, homem do norte: levar a ruína a nós para contrapesar com a sua? A Casa de Hador nos conquistou, e quatro de nós caíram sob sua sombra: Brandir, e Hunthor, e Hardang e Mantho. Não é o suficiente? Não partirás e deixar esta terra que morre?’

‘Eu irei,’ disse Húrin. ‘Mas se o poço das minhas lágrimas não estivesse totalmente seco, eu choraria por você, Manthor, pois você me salvou da desonra, e eu o amo como a um filho.’

‘Então, senhor, use em paz o pouco mais de vida que eu ganhei para você,’ disse Manthor. ‘Não leve sua sombra para outros!’

‘Por quê? Não posso mais caminhar pelo mundo?’ disse Húrin. ‘Eu irei continuar até que a sombra de derrube. Adeus!’

E assim Húrin se separou de Manthor. Quando os homens foram medicar seus ferimentos, descobriram que era grave, pois a flecha entrara fundo em seu flanco; e eles quiseram carregar Manthor rapidamente de volta para o Obel, para que fosse cuidado por curandeiros habilidosos. ‘Tarde demais,’ disse Manthor, e ele arrancou fora a flecha, e deu um grande grito, e ficou imóvel. Assim terminou a Casa de Haleth, e homens menores governaram Brethil no tempo que restou.

Mas Húrin ficou em silêncio, e quando a companhia partiu, carregando o corpo de Manthor, ele não se virou. Ele olhou sempre para o oeste até que o Sol caísse na escuridão e a luz falhasse; e então partiu sozinho em direção à Haud-em-Elleth.

* Pois Manthor era um descendente de Haldad, e ele possuía uma terra pequena na fronteira leste de Brethil, próximo ao Sirion onde ele atravessa Dimbar. Mas todo o povo de Brethil era formado por homens livres, mantendo suas casas e suas terras, sejam maiores ou menores, de direito. Seu senhor era escolhido entre os descendentes de Haldad, por reverência pelos feitos de Haleth e Haldar; e mesmo que a liderança era dada, como se fosse um domínio ou um reino, para os mais velhos da linhagem mais velha, o povo tinha o direito de colocar qualquer um de lado ou tirá-lo de lá, por uma causa grave. E alguns sabiam o suficiente que Harathor tentara que Brandir o Aleijado tivesse tido abdicado em seu favor.

Uma nota sobre o Capí­tulo 22 Da Ruí­na de Doriath do Silmarillion publicado

[Nota do Tradutor: Texto de autoria de Christopher Tolkien, contido
no HoME 10. Junto ao texto “Sobre o parentesco de Gil-galad, já
traduzido e publicado na Valinor, este texto é essencial para o estudo
e quantificação da influência pessoal de Christopher Tolkien em “O
Silmarillion” publicado. O ponto-chave de ambos os textos não são as
minúcias sobre o real parentesco de Gil-galad ou qual a melhor solução
possível para “A Queda de Doriath” e sim a interferência pessoal
inserido por C. Tolkien em todo “O Silmarillion”, que é muito mais
ampla e intrusiva do que costuma-se imaginar. C. Tolkien não se
contenta com sua postura de editor dos textos do pai e assume um
indevido papel de co-autor, mas não vou me alongar sobre o assunto
neste momento pois o mesmo é merecedor de um ensaio especial e bem  mais cuidadoso a ser publicado dentro em breve na Valinor.]
Exceto por uns poucos detalhes em textos e notas não publicados, tudo que meu pai escreveu sobre o assunto da ruína de Doriath já foi
lançado: da história original no “Conto de Turambar” (HoME II.113-15) e no “Conto do Nauglafring” (HoME II.221 e próximas), passando pelo “Rascunho da Mitologia” (HoME IV.32-3, com comentários 61-3) e o “Quenta” (HoME IV. 132-4, com comentários 187-91), junto ao pouco que pode ser visualizado no “O Conto dos Anos” e em algumas poucas referências tardias. Se estes materiais forem comparados à história contada em “O Silmarillion” publicado percebe-se logo de início que este último foi fundalmentalmente alterado, para uma forma que emcertas características essenciais não existe referência alguma mesmo nos próprios escritos de meu pai.

Existem alguns problemas bastante evidentes com a antiga história. Se ele voltasse a trabalhar nela algum dia, meu pai sem dúvida encontraria alguma outra solução que não aquela no “Quenta” para a questão “Como o tesouro de Nargothrond foi levado a Doriath?”. Lá, a maldição que Mîm pôs sobre o ouro à sua morte “caiu sobre os seus possuidores. Cada um dos companheiros de Hurin morreu ou foi morto em lutas na estrada; mas Hurin foi a Thingol e pediu sua ajuda e o povo de Thingol levou o tesouro para as Mil Cavernas”. Como é dito no HoME IV.188, “isto arruína o gesto, se Hurin deve chegar diretamente ao rei para enviar o ouro com o qual então ele foi humilhado”. Parece para mim mais provável (mas isto é mera especulação) que o meu pai reintroduziria os fora-da-lei dos antigos Contos (HoME II.113-15,222-3) como os portadores do tesouro (mas não a dura batalha entre eles o os Elfos da Mil Cavernas): nos escritos desordenados ao final do “As Andanças de Hurin” Asgon e seus companheiros reaparecem após o desastre em Brethil e vão com Hurin a Nargothrond.

Como ele trataria o comportamento de Thingol com relação aos Anões é impossível dizer. A história só foi contada inteiramente uma vez, no Conto do Nauglafring, no qual a conduta de Tinwelint (precursor de Thingol) estava em completo desacordo com a concepção posterior do rei (ver HoME II.245-6). No “Rascunho da Mitologia” nada mais é dito sobre o assunto além de que os Anões foram “expulsos sem pagamento”, enquanto no “Quenta” “Thingol… não cumpriu adequadamente sua prometida recompensa por seus trabalhos; e palavras amargas surgiram entre eles, e houve uma batalha nos Salões de Thingol”. Parece não haver dicas ou pistas nos escritos posteriores (no “Conto dos Anos” a mesma frase é utilizada em todas as versões “Thingol discutiu com os Anões”), exceto uma encontrada nas palavras transcritas do “Sobre Galadriel e Celeborn”: Celeborn em sua versão da destruição de Doriath ignora a parte de Morgoth “e os próprios erros de Thingol”.

No “Conto dos Anos” meu pai parece não ter considerado o problema da passagem de um exército Anão para o interior de Doriath apesar do Cinturão de Melian, mas ao escrever as palavras “não pode” na versão D ele mostrou que ele considerava a história que delineou como impossível, por aquela mesma razão. Em outro local ele rascunhou uma possível solução: “De alguma forma deve ser delineado que Thingol foi atraído para fora ou foi à guerra além de suas bordas e lá foi morto pelos Anões. Então Melian parte e com o cinturão removido Doriath é destruída pelos Anões”.

Na história que aparece em “O Silmarillion” os fora-da-lei que vão a Nargothrond com Hurin foram removidos e também a maldição de Mîm; e o único tesouro que Hurin toma de Nargothrond é o Nauglamir – o qual aqui supõe-se feito para Finrod Felagund pelos Anões e que era o tesouro de Nargothrond ao qual eles davam maior valor. Hurin é representado como finalmente livre das ilusões inspiradas por Morgoth em seu encontro com Melian em Menegroth. Os Anões que incrustaram a Silmaril no Nauglamir já estavam em Menegroth, engajados em outros trabalhos e foram eles que mataram Thingol; e àquele tempo o poder de Melian foi retirado de Neldoreth e Region e ela sumiu da Terra-média, deixando Doriath sem proteção. A emboscada e destruição dos Anões em Sarn Athrad foi dada novamente a Beren e os Elfos da Floresta (seguindo a carta de 1963 de meu pai, citada à página 353, onde os Ents “Pastores de Árvores”, são introduzidos).

Esta história não foi tola ou facilmente concebida, mas foi o resultado de uma longa experimentação entre concepções diversas. Neste trabalho Guy Kay assumiu um grande papel e o capítulo como eu finalmente o escrevi deve muito às minhas discussões com ele. É, e era, óbvio que um estava sendo um Passo de uma ordem diferente de qualquer outra “manipulação” dos escritos de meu pai ao longo do livro: mesmo na história de “A Queda de Gondolin”, para qual meu pai nunca retornou, algo poderia ser deduzido sem introduzir mudanças radicais na narrativa. Pareceu àquele tempo que existiam elementos inerentes à história da Ruína de Doriath como ela exitia que eram radicalmente incompatíveis com “O Silmarillion” como projetado e que havia uma escolha inescapável: ou abandonar aquela concepção projetada ou alterar a história. Eu acho agora que aquela foi uma visão equivocada e que as inegáveis dificuldades poderiam ter sido, e deveriam ter sido, ultrapassadas sem exceder tanto as fronteiras da função editorial.

[Tradução de Fábio ´Deriel´ Bettega]

O Conto de Adanel

[O “Conto de Adanel” era é uma versão da história da “Queda dos Homens” como contada na Terra-média entre os Edain da Primeira Era. Está contido no volume 10 da série The History of Middle-earth X, Morgoth’s Ring]

Então Andreth, encorajada por Finrod, disse por fim: “- Este é o conto que Adanel, da Casa de Hador, contou-me”.

Alguns dizem que o Desastre aconteceu no início da história de nosso povo, antes que qualquer um houvesse morrido. A Voz falara a nós, e nós ouvíramos. A Voz disse: “- Vós sois meus filhos. Enviei-vos para aqui habitardes. No devido tempo herdareis toda esta Terra, mas primeiro deveis ser crianças e aprender. Pedi a mim e ouvirei, pois velo por vós”.

Compreendemos a Voz em nossos corações, embora ainda não possuíssemos palavras. Então o desejo pelas palavras despertou em nós, e começamos a criá-las. Mas éramos poucos, e o mundo era vasto e estranho. Embora muito desejássemos compreender, aprender era difícil, e a criação das palavras era lenta.

Naquele tempo com freqüência chamávamos e a Voz respondia. Mas ela raramente respondia nossas perguntas, dizendo apenas: “- Primeiro procurai encontrar a resposta por vós mesmos. Pois tereis alegria na descoberta, e assim saireis da infância e tornar-vos-eis sábios. Não procureis deixar a infância antes de vosso tempo”.

Mas tínhamos pressa, e desejávamos ordenar as coisas à nossa vontade; e as formas de muitas coisas que desejávamos criar despertaram em nossas mentes. Portanto, falávamos cada vez menos à Voz.

Então alguém apareceu entre nós em nossa própria forma visível, mas maior e mais belo, e ele disse que viera por piedade. “Vós não deveríeis ser deixados sozinhos e sem instrução” disse ele. “O mundo está repleto de riquezas maravilhosas que o conhecimento pode revelar. Vós poderíeis ter alimentos mais abundantes e mais deliciosos do que comeis agora. Vós poderíeis ter tranqüilas habitações, nas quais poderíeis manter a luz e afastar a noite. Poderíeis inclusive vestir-vos igual a mim.”

Então olhamos e vede, ele usava vestes que brilhavam como prata e ouro, e tinha uma coroa em sua cabeça e jóias em seu cabelo. “Se desejais ser como eu” disse ele “, ensinar-vos-ei”. Então aceitamo-lo como mestre.

Ele era menos rápido do que esperávamos a ensinar-nos como encontrar, ou criar por nós mesmos, as coisas que desejávamos, embora ele houvesse despertado muitos desejos em nossos corações. Mas se qualquer um duvidasse ou ficasse impaciente, ele trazia e colocava diante de nós tudo o que havíamos desejado. “Sou o Provedor de Presentes” disse ele “, e os presentes nunca faltarão enquanto vós confiardes em mim”.

Por conseguinte, reverenciamo-lo, e por ele fomos cativados, e dependíamos de seus presentes, temendo retornar a uma vida sem eles que agora parecia-nos pobre e dura. E acreditamos em tudo que ele ensinou. Pois estávamos ávidos para saber sobre o mundo e sua existência: sobre as feras e pássaros, e as plantas que cresciam na Terra; sobre nossa própria criação; e sobre as luzes do céu, sobre as estrelas incontáveis, e a Escuridão na qual elas estão.

Tudo o que ele ensinava parecia bom, pois ele possuía um grande conhecimento. Mas cada vez mais ele falava da Escuridão. “Maior de todas é a Escuridão” disse ele “, pois Ela não tem limites. Vim da Escuridão, mas sou Seu mestre. Pois eu criei a Luz. Criei o Sol e a Lua e as incontáveis estrelas. Proteger-vos-ei da Escuridão, que de outro modo devorar-vos-ia”.

Então falamos-lhe da Voz. Mas sua face tornou-se terrível, pois ele enfurecera-se. “Tolos!” disse ele. “Aquela era a Voz da Escuridão. Ela deseja afastar-vos de mim, pois Ela está faminta por vós”.

Ele então foi embora, e não o vimos por um longo tempo, e sem seus presentes éramos pobres. E então chegou um dia no qual a luz do Sol repentinamente começou a falhar, até que foi apagada, e uma grande sombra caiu sobre o mundo, e todas as feras e pássaros temeram. Então ele veio novamente, caminhando através da sombra como um fogo brilhante.

Prostramo-nos. “Há alguns entre vós que ainda estão dando ouvidos à Voz da Escuridão” disse ele “e, portanto, Ela aproxima-se. Escolhei agora! Podeis ter a Escuridão como Senhor, ou podeis ter a Mim. Mas a menos que tomeis a Mim por Senhor e jureis servir-Me, partirei e deixar-vos-ei, pois possuo outros reinos e moradias, e não preciso da Terra, nem vós”.

Então em medo falamos conforme ele ordenara, dizendo: “- Vós sois o Senhor. Apenas a Ti serviremos. À Voz renunciamos e não mais escuta-la-emos”.

“- Que assim seja!” disse ele. “Agora construí a Mim uma casa sobre um local elevado e chamai-na Casa do Senhor. Para lá irei quando desejar. Lá visitar-Me-eis e fazer-Me-eis vossas súplicas”.

E quando tínhamos construído uma grande casa, ele veio e colocou-se diante do alto assento, e a casa foi iluminada como que por fogo. “Agora” disse ele “apareça qualquer um que ainda dê ouvidos à Voz!”

Havia alguns, mas por medo eles permaneceram imóveis e nada disseram. “Então curvai-vos diante de Mim e reconhecei-Me!” disse ele. E todos curvavam-se ao solo diante dele, dizendo: “- Vós sois o Único Grande, e somos Vossos”.

Com isso, ele ergueu-se como em uma grande chama e fumaça, e fomos queimados pelo calor. Mas repentinamente ele partira, e estava mais escuro que a noite, e fugimos da Casa.

Posteriormente sempre íamos com um grande pavor da Escuridão, mas ele raramente aparecia novamente entre nós em uma forma bela, e trazia poucos presentes. Se em grande necessidade ousávamos ir à Casa e orar-lhe para que ajudasse-nos, escutávamos sua voz, e recebíamos suas ordens. Mas agora ele sempre ordenava-nos a executar alguma tarefa ou dar-lhe algum presente antes de ouvir a nossa prece; e as tarefas tornavam-se sempre piores, e mais difícil abrir mão dos presentes.

A primeira Voz nunca mais ouvimos, exceto uma vez. No silêncio da noite Ela falou, dizendo: “- Renunciastes a Mim, mas vós permaneceis Meus. Dei-vos a vida. Agora ela encurtar-se-á, e cada um de vós em pouco tempo virá a Mim, para aprender quem é vosso Senhor: aquele que idolatrais ou Eu que criei-o”.

Então nosso terror pela Escuridão aumento, pois acreditávamos que a Voz era da Escuridão por trés das estrelas. E alguns de nós começaram a morrer em horror e angústia, temendo sair para a Escuridão. Chamamos então por nosso Mestre para que salvasse-nos da morte, mas ele não respondeu. Mas quando fomos à Casa e todos lá curvaram-se, ele por fim veio, grande e majestoso, mas seu rosto era cruel e orgulhoso.

“- Agora sois Meus e deveis fazer Minha vontade” disse ele. “Não preocupo-me que alguns de vós morrais e vades para aplacar a fome da Escuridão, pois de outro modo logo haveria muitos de vós, rastejando como parasitas sobre a Terra. Mas se não fizerdes Minha vontade, sentireis Minha ira, e morrereis mais cedo, pois matar-vos-ei”.

Com isso fomos dolorosamente afligidos, pelo cansaço, fome e enfermidades; e a Terra e todas as coisas nela viraram-se contra nós. Fogo e água rebelaram-se contra nós. Os pássaros e feras evitavam-nos ou, se eram fortes, atacavam-nos. Plantas deram-nos veneno, e temíamos as sombras sob as árvores.

Então ansiamos pela nossa vida como fora antes que nosso Mestre chegasse; e nós o odiamos, mas o temíamos não menos que a Escuridão. E cumprimos sua ordem, e mais do que sua ordem; pois tudo que pensávamos que agradar-lhe-ia, embora maligno, fazíamo-lo, na esperança de que ele aliviaria nossas aflições e que ao menos não mataria-nos.

Para a maioria de nós isso foi em vão. Mas a alguns ele começara a favorecer: os mais fortes e mais cruéis, e aqueles que iam com maior freqüência à Casa. Deu-lhes presentes e conhecimentos que mantiveram em segredo; e eles tornaram-se poderosos e orgulhosos, e escravizaram-nos, de modo que não tínhamos descanso do nosso trabalho no meio de nossas aflições.

Então ergueram-se alguns dentre nós que diziam abertamente em seu desespero: “- Agora finalmente sabemos quem mentiu e quem desejava devorar-nos. não a primeira Voz. É o Mestre que tomamos a Escuridão; e ele não veio dela, como disse, mas nela habita. não mais servi-lo-emos! Ele é nosso Inimigo”.

Então com medo, para que ele não ouvisse-os e punisse a todos nós, matávamo-los se pudéssemos; e aqueles que fugiam nós caçávamos; e, se quaisquer eram pegos, nossos mestres, amigos dele, ordenavam que eles fossem levados à Casa e lá mandados para a morte pelo fogo. Isso agradava-lhe enormemente, seus amigos diziam; e, de fato, por um tempo parecia que nossas aflições foram aliviadas.

Mas conta-se que houve alguns que escaparam-nos, e partiram para países longínquos, fugindo da sombra. Ainda assim eles não escaparam da ira da Voz, pois eles haviam construído a Casa e curvaram-se nela. E por fim chegaram ao final da terra e às praias da água intransponível; e vede, o Inimigo estava lá diante deles.

Os Nomes dos Clãs Eldar

Em Quenya a forma dos nomes dos três grandes Clãs eram Vanyar, Noldor e Lindar. O mais antigo destes nomes era Lindar, o qual certamente remonta aos dias antes da Separação. Os outros dois provavelmente surgiram no mesmo período, mas um pouco mais tarde. Suas formas originais podem ser dadas em Élfico Primitivo como *wanja, *ngolodo e linda/glinda [1].

De acordo com a lenda, preservada de maneira quase idêntica tanto entre os Elfos de Aman quanto entre os Sindar, os Três Clãs eram derivados em princípio dos três Pais-Elfos: Imin, Tata e Enel (sc. Um, Dois, Três) e por aqueles a quem cada um escolheu seguir. Então, a princípio eles tinham simplesmente os nomes Minyar “Primeiros”, Tatyar “Segundos” e Nelyar “Terceiros”. Estes eram contados, dentre os 144 Elfos que primeiramente acordaram, 14, 56 e 74; e estas proporções foram aproximadamente mantidas até a Separação. [2]

É dito que do pequeno clã dos Minyar nenhum se tornou Avari. Os Tatyar foram divididos meio-a-meio. Os Nelyar eram os mais relutantes em deixar seus lares às margens do lago; mas eram bastante coesos e bastante conscientes da unidade separada de seu Clã (como continuaram a ser), portanto quando ficou claro que seus líderes Elwë e Olwë estavam resolvidos a partir e teriam muitos seguidores, muitos dentre os que originalmente tinham se unido aos Avari foram para junto dos Eldar ao invés de se separarem de seus parentes. Os Noldor, de fato, afirmaram que a maior parte dos “Teleri” eram Avari em seus corações, e que apenas os Eglain realmente lamentaram serem deixados em Beleriand.

De acordo com historiadores Noldorin as proporções, de 144, que quando começou a Marcha tornaram-se Eldar ou Avari foram aproximadamente:

Minyar 14: Avari 0 Eldar 14

Tatyar 56: Avari 28 Eldar 28

Nelyar 74: Avari 28 Eldar 46 > Amanyar Teleri 20; Sindar e Nandor 26

Por isso os Noldor eram o maior clã de Elfos em Aman; enquanto os Elfos que permaneciam na Terra-média (os Moriquendi no Quenya de Aman) ultrapassavam os Amanyar na proporção de 82 para 62. [3]

Por quanto tempo os nomes descritivos dos clãs *wanja, *ngolodo e *linda foram preservados entre os Avari não é sabido; mas a existência dos antigos clãs é lembrada e um parentesco especial entre aqueles do mesmo clã original, tenham eles partido ou permanecido, continua reconhecido. Os primeiros Avari que os Eldar encontraram em Beleriand parecem ter dito serem Tatyar, que reconheciam seu parentesco com os Exilados, embora não existam registros da utilização do nome Noldo em nenhuma forma Avarin reconhecível. Eles não eram amigáveis com os Noldor e invejosos de seus parentes mais exaltados, a quem acusavam de arrogância.

Este mal-estar surge em parte do amargor do Debate antes da marcha dos Eldar começa,r e sem dúvida aumentou através de maquinações de Morgoth; mas também lança alguma luz sobre o temperamento dos Noldo, em geral e de Fëanor em particular. De fato os Teleri a seu lado afirmavam que a maioria dos Noldor em Aman eram Avari de coração e retornaram à Terra-média quando descobriram seu erro; eles precisavam de espaço para habitar. Pois em contraste, os elementos Lindarin  nos Avari do oeste eram amigáveis com os Eldar e desejosos para aprender com eles, e tão próximo era o sentimento de parentesco entre os remanescentes dos Sindar, Nandor e Lindarin Avari que mais tarde em Eriador e no Vale do Anduin eles freqüentemente mesclaram-se.

Lindar (Teleri) [4]

Este era, como visto, o maior dos antigos clãs. O nome, mais tarde aparecendo na forma Quenya como Lindar (Lindai em Telerin), já é referenciado na lenda do “Acordar dos Quendi”, a qual sobre os Nelyar que “eles cantaram antes de poderem falar com palavras”. O nome *Linda é portanto claramente um derivativo da raiz primitiva *LIN (mostrando reforço do x médio e do -a adjetival). Esta raiz foi possivelmente uma das contribuições dos Nelyar ao Élfico Primitivo, por reflete suas predileções e associações, e produz mais derivativos nas línguas Lindarin do que em outras. Sua referência primária foi para um som melodioso ou agradável, mas também se refere (especialmente em Lindarin) à água, aos movimentos da qual os Lindar sempre associaram os sons vocais (élficos). Os reforços, tanto do médio -lind como dos iniciais glin-, glind- eram, contudo, quase somente utilizados em sons musicais, especialmente vocais, produzidos com o intuito de serem agradáveis. É, portanto, a este amor dos Nelyar pela música, pelos sons vocais com ou sem o uso de palavras articuladas, ao qual o nome Lindar originalmente de referia; mas também eles amavam a água, e antes da Separação nunca se mudaram para longe do lago e da cachoeira de Cuiviénen e aqueles que se mudaram para o leste se tornaram enamorados do Mar [5].

Em Quenya, ou seja, na língua dos Vanyar e Noldor, aqueles deste clã que se uniram à Marcha foram chamados de Teleri. Este nome era aplicado em particular àqueles que vieram finalmente e por último a Aman; mas mais tarde também foi aplicado aos Sindar. O nome Lindar não foi esquecido, mas nas histórias Noldorin era principalmente utilizado para descrever todo o Clã, incluindo os Avari entre eles. Teleri significa “aqueles no final da linha, os últimos” e foi, evidentemente, um apelido que surgiu durante a Marcha, quando os Teleri, os menos ansiosos a partir, freqüentemente ficavam bastante para trás [6].

Vanyar

Este nome provavelmente foi dado ao Primeiro Clã pelos Noldor. Eles o aceitaram, mas continuaram a chamar a si mesmos mais freqüentemente pelo velho nome numérico Minyar (uma vez que todo este clã uniu-se aos Eldar e alcançou Aman). O nome se referia ao cabelos dos Minyar, que era em quase todos os membros do clã amarelo ou dourado profundo. Esta era considerada uma características bela pelos Noldor (que amavam o ouro), embora eles tivessem em sua maior parte cabelos escuros. Devido ao intercasamento o cabelo dourado dos Vanyar algumas vezes mais tarde apareceu entre os Noldor: notavelmente no caso de Finarfin e seus filhos Finrod e Galadriel, em cujo caso eles vieram da segunda esposa de Finwë, Indis dos Vanyar.

Vanyar portanto surgiu como um derivativo adjetival *wanja da raiz *WAN. Seu sentido primário parece ter sido bastante similar ao uso Inglês (moderno) de “belo” (“fair”) com referência ao cabelo e compleição; embora seu desenvolvimento tenha sido o oposto do Inglês: significa “pálido, de cores claras, não marrom ou escuro” e sua implicação de beleza era secundária. No Inglês o sentido “bonito” é primário. Da mesma raiz derivou-se o nome dado em Quenya à Valië Vána, esposa de Oromë.

Uma vez que os Lindar tiveram pouco contato com os Vanyar tanto na Marcha ou mais tarde em Aman, o nome não era muito usado por eles para o Primeiro Clã. Os Amanyar Teleri tinham a forma Vaniai (sem dúvida tomada dos Noldor), mas o nome parece ter sido esquecido em Beleriand, onde o Primeiro Clã (em lendas e histórias apenas) era chamado de Miniel (Minil no plural).

Noldor

Este nome provavelmente é mais antigo do que Vanyar, e pode ter sido criado antes da Marcha. Foi dado ao Segundo Clã pelos outros. Foi aceito e era usado como nome regular e próprio por todos os membros Eldarin do clã em sua história posterior.

O nome significa “os Sábios”, ou seja, aqueles que tinham grande conhecimento e entendimento. Os Noldor de fato já cedo mostraram terem os maiores talentos entre todos os Elfos tanto para feitos intelectuais como para perícias técnicas.

As formas variantes do nome: (Quenya) Noldo, (Telerin) Goldo, (Sindarin) Golodh/Ngolodh, indicam um Élfico Primitivo *ngoldo. Este é um derivativo da raiz *NGOL “conhecimento, sabedoria”. Isto é visto no (Quenya) Role ´longo estudo (de qualquer assunto), ingole “conhecimento”, ingolmo “mestre do conhecimento”. Em (Telerin) gole, engole têm o mesmos sentidos que em Quenya mas são mais freqüentemente utilizados para o “conhecimento” especial possuído pelos Noldor. Em Sindarin a palavra gul (equivalente ao Quenya nole) possui associações menos laudatórias, sendo utilizada mais freqüentemente como significando conhecimento secreto, especialmente como aquele possuído pelos artífices que criavam coisas maravilhosas; e a palavra tornou-se ainda mais escurecida por seu freqüente uso no componente morgul “artes negras”, aplicada às artes delusórias ou perigosas e conhecimentos derivados de Morgoth. Aqueles dentre os Sindar que já não eram amigáveis aos Noldor atribuíam sua supremacia nas artes e nos conhecimentos aos seus aprendizados a partir de Melkor-Morgoth. Isto é falso, tendo vindo em última análise do próprio Morgoth, embora não seja sem alguma fundamentação (como as mentiras de Morgoth raramente o eram). Mas os grandes dons dos Noldor não vieram dos ensinamentos de Melkor. Fëanor o maior de todos eles nunca teve assuntos com Melkor em Aman e foi seu maior inimigo.

Sindar

A forma menos comum Sindel (plural Sindeldi) também é encontrada no Quenya dos Exilados. Este também é o nome dado pelos Exilados Noldor [7] à segunda maior divisão dos Eldar [8]. Ele se aplicava a todos os Elfos de origem telerin que os Noldor encontraram em Beleriand, embora mais tarde excluísse os Nandor, exceto aqueles que eram diretamente sujeitos a Elwë ou se mesclaram a seu povo. O nome significa “os Cinzentos” ou “os Elfos Cinzentos” e era derivado de *THIN, (Élfico Primitivo) *thindi “cinza, pálido ou cinza prateado”, (Quenya) pinde, (Noldorin) sinde.

Sobre a origem deste nome, ver [7]. Os Mestres do Conhecimento também supuseram que a referência era feita aos cabelos dos Sindar. Elwë de fato tinham um longo e belo cabelo de tonalidade prata, mas esta não parece ter sido uma característica comum dos Sindar, embora fosse encontrada entre eles ocasionalmente, especialmente entre parentes próximos ou distantes de Elwë (como no caso de Círdan) [9]. Em geral os Sindar aparentemente pareciam muito com os Exilados, tendo cabelos escuros, sendo fortes e altos, ainda que ágeis. De fato eles dificilmente poderiam ser separados exceto por seus olhos; pois os olhos de todos os Elfos que habitaram Aman impressionavam àqueles da Terra-média por seu brilho penetrante. Por essa razão os Sindar freqüentemente os chamavam de Lachend (plural Lechind) “olhos de chamas”.

Nandor

Este nome foi feito ao tempo, nos dias tardios da Marcha, quando certos grupos de Teleri desistiram da Jornada; e é especialmente aplicado aos muitos seguidores de Lenwë [10] que recusaram a cruzar as Hithaeglir [11]. O nome era freqüentemente interpretado como “aqueles que voltaram”; mas de fato nenhum dos Nandor parecem ter retornado ou se reunido aos Avari. Muitos permaneceram nas terras que tinham alcançado, especialmente ao lado do Rio Anduin; alguns vagaram para o sul [12].

Existiu contudo, como visto, um pequeno movimento dos Moriquendi para o
oeste durante a prisão de Melkor, e eventualmente, grupos de Nandor, cruzando através do Paço entre as Hithaeglir e as Eryd Nimrais, espalharam-se amplamente em Eriador. Alguns desses ao final entraram em Beleriand, não muito depois do retorno de Morgoth [13]. Estes estavam sob a liderança de Denethor, filho de Denweg (ver [10]), que se tornou um aliado de Elwë nas primeiras batalhas contra as criaturas de Morgoth. O antigo nome Nandor era lembrado apenas pelos historiadores Noldorin em Aman; e eles não sabiam nada da•história posterior deste povo, lembrando apenas que o nome do líder dos que desistiram antes de cruzar as temíveis Hithaeglir era Lenwë (i.e. Denweg). Os Mestrs do Conhecimento Sindar lembravam dos Nandor como Danwaith ou, por confusão com o nome de seu líder, Denwaith.

Este nome eles aplicaram primeiramente aos Nandor que vieram para Beleriand Oriental; mas este povo chamava-se com o velho nome do clã *Lindai, que fora tomado da forma Lindi para sua própria língua. A região onde mais comumente se fixaram como um povo pequeno e independente eles chamaram de Lindon (<*Lindana): esta era a região a oeste das Montanhas Azuis (Eryd Luin), cortada pelos tributários do grande rio Gelion e previamente nomeada pelos Sindar como Ossiriand, a Terra dos Sete Rios. Os Sindar rapidamente reconheceram os Lindi como parentes de origem Lindarin (ou Glinnil em Sindarin), utilizando uma língua que, apesar das grandes diferenças, continuava sendo percebível como aparentada à sua própria; e eles adotaram os nomes Lindi e Lindon, dando-lhes as formas Lindil (sq. Lindel) ou Linedhil, e Lindon ou Dor Lindon. No Quenya dos Exilados as formas utilizadas (derivadas dos Sindar ou diretamente dos Noldor) eram Lindi e Lindon (ou Lindone). Os Exilados Noldor também usualmente se referiam às Eryd Luin como Eryd Lindon, uma vez que a parte mais alta de suas cordilheiras faziam a fronteira oriental da região de Lindon.

Estes nome foram, mais tarde, substituídos entre os Sindar pelo nome “Elfos verdes”, pelo menos no que se referia aos habitantes de Ossiriand; pois eles ocultaram a si mesmos e tomaram tão pouca parte nas lutas contra Morgoth quando podiam. Este nome, (Sindarin) Laegel (plural Laegil, plural de classe Laegrim ou Laegel(d)rim) foi dado tanto devido à verdejante terra de Lindon quanto ao fato de que os Laegrim vestiam-se de verde como um auxílio à sua secritude. Este termo os Noldor traduziram em Quenya como Laiquendi, mas não era muito utilizado.

Notas:

[1] (Nota de J.R.R. Tolkien) Embora este Nome de Clã tenha *glind- em Sindarin, o g- não aparece no Amanya telerin nem no Nandorin, então neste caso pode ter sido uma adição ao Sindarin, que favoreceu e aumentou em muito grupos iniciais deste tipo.

[2] (Nota do Tradutor) a Lenda do Despertar, ou Cuivienyarna, está traduzida para português neste link.

[3] (Nota de Christopher Tolkien) A história encontrada nos Anais de Aman sobre os grupos de Morwë e Nurwë, que recusaram os chamados dos Valar e se tornaram Avari (HoME 10), foi abandonada.

[4] (Nota de Christopher Tolkien) O nome Lindar “Cantores” para os Teleri aparece no “Glossário” para o Athrabeth Finrod ah Andreth (HoME 10) e foi por um longo tempo um nome para a Primeira Família, mais tarde Vanyar. (N.T. a Valinor possui uma versão traduzida para português do Athrabeth Finrod ah Andreth)

[5] (Nota de J.R.R. Tolkien) Por esta razão o mais utilizado dos “títulos” os nomes secundários dos Lindar era Nedilli “Amantes das Águas”.

[6] (Nota de J.R.R. Tolkien) Uma formação agental simples (como *abaro > *abar a partir de *ABA) da raiz *TELE, cujo sentido inicial parece ter sido “fechamento, fim, vindo ao final”: uma vez que em Quenya telda “último, final”; tele- verbo intransitivo “encerrar, terminar” ou “ser a última coisa ou pessoa em uma série ou sequência de eventos”; telya verbo transitivo “teminar, concluir”; telma “uma conclusão, qualquer coisa utilizada para encerrar um trabalho ou assunto”. Este é provavelmente distinto de *tel-u “telhar, por a coroa/topo em um prédio”, visto no Quenya telume “telhado, topo” (esta é provavelmente uma das mais antigas palavras Élficas para os céus, o firmamento, antes do aumento de seu conhecimento e d invenção da palavra Eldarin Menel. Telumehtar “guerreiro do céu”, um antigo nome para Menelmakil, Órion). A palavra telluma “domo, cúpula” é uma alteração de telume sob a influência do Valarin delgsima. Mas *telu pode ser simplesmente uma diferenciação de *TELE, uma vez que o telhado era a parte final de uma construção; telma, que freqüentemente era aplicada ao último item de uma estrutura, como a última rocha ou o pináculo mais alto.

[7] (Nota de J.R.R. Tolkien) Lago Mithrim, significando originalmente “Lagos dos Mithrim”. Mithrim era o nome dado a eles pelos habitantes do sul, devido ao clima mais frio, aos céus cinzentos e às névoas do Norte. Provavelmente foi devido aos Noldor terem entrado primeiramente em contato com este ramo norte que deram em Quenya o nome Sindar ou Sindeldi “Elfos Cinzentos” a todos os habitantes Telerin das terras ocidentas que falavam a língua Sindarin.• Embora esse nome tenha mais tarde também se referido ao nome Thingol (“Manto Cinzento”) de Elwë, uma vez que ele era reconhecido como Alto Rei de todas as terras e seus povos. É dito que os povos do norte vestiam-se em cinza, especialmente após o retorno de Morgoth, quanto secritude tornou-se necessária; e os Mithrim tinha uma arte de vestirem-se com um uma vestimenta cinzenta que os fazia quase invisíveis em locais com sombras ou uma terra pedregosa. Esta arte foi mais tarde utilizada nas terras do sul quandos os perigos da Guerra aumentaram.

[8] (Nota de J.R.R. Tolkien) Ver acima. A proporção, por 144, dos Eldar remanescentes na Terra-Média era contada como 26, dos quais 8 eram Nandor.

[9] (Nota de Christopher Tolkien) Em outros textos posteriores Círdan é citado como sendo parente de Elwë, mas eu não encontrei nenhuma citação sobre a natureza do parentesco.

[10] (Nota de J.R.R. Tolkien) Lenwë é a forma pela qual seu nome era lembrado em histórias Noldorin. Seu nome foi provavelmente *Denwego, Nandorin Denweg. Seus filho era o chefe Nandorin Denethor. Estes nomes provavelmente significavam “ágil-e-ativo” e “ágil-e-fino”, de *dene- “fino e forte, ágil”, e *thara- “alto (ou longo) e esbelto”.

[11] (Nota de Christopher Tolkien) Lenwë foi substituído pelo nome mais permanente Dan do pai de Denethor; deste texto ele foi adotado no Silmarillion.

[12] (Nota de J.R.R. Tolkien) O nome Nandor era um derivativo do elemento *dan, *ndan- indicando• o reverso de uma ação, desfazer ou anular seu efeito, como em “desfazer, voltar atrás (no mesmo caminho), desdizer, devolver (o mesmo presente e não outro em troca)”. A forma original *ndando, entretanto, implicava apenas em “alguém que volta atrás em sua palavra ou decisão”.

[13] (Nota de Christopher Tolkien) A afirmação de que os Nandor entraram em Beleriand “não muito depois do retorno de Morgoth” é outra contradição marcante aos Anais. Anteriormente é dito que eles vieram “antes do retorno de Morgoth”, o que sem dúvida implica no mesmo. Mas no Grey Annals existe uma maravilhosa evocação que “longos anos de paz se seguiram após a chegada de Denethor”, e foram longos de fato: de 1350 a 1495, 145 Anos dos Valar, ou 1389 Anos do Sol. Sou incapaz de explicar estas profundas mudanças na história interna.

[Nota do Tradutor: este é um texto clássico da série The History of Middle-earth, carinhosamente chamada de HoME, tanto em conteúdo quanto em formato. O texto é primariamente lingüístico e é mais voltado a fãs mais avançados em estudos dentro da obra de Tolkien. Perceba como os comentários, tanto de Tolkien pai como do filho, são algumas vezes maiores do que o próprio texto comentado, o que também é uma característica geral dos HoME. Christopher não mais edita profundamente os texto do pai, agora os comenta em detalhes, deixando bem claro que são seus comentários, deixando intocados todos os problemas, inconfruências e paradoxos do texto original. Em termos de conteúdo do texto, é um dos meus preferidos por tratar diretamente dos Clãs Élficos e suas proporções, além de nos fornecer informações únicas sobre cada um deles. Espero que vocês também o apreciem!]

Ambarkanta

Ao redor de todo o Mundo estão as Ilurambar [1], ou as Muralhas do Mundo. Elas são como gelo, vidro e aço, estando acima de toda a imaginação dos Filhos da Terra, frias, transparentes e duras. Elas não podem ser vistas, nem podem ser transpostas, exceto pela Porta da Noite.

Dentro destas muralhas a Terra está situada: acima, abaixo e em todos os lados está Vaiya, o Oceano Envolvente. Mas ele é mais como o mar abaixo da Terra e mais como o ar acima dela. Em Vaiya abaixo da Terra mora Ulmo. Acima da Terra situa-se o Ar, que é chamado Vista, e sustenta pássaros e nuvens. Por esse motivo ele é chamado acima Fanyamar, ou Casa de Nuvens; e abaixo Aiwenórë ou Terra dos Pássaros. Mas este ar situa-se apenas sobre a Terra-média e os Mares Interiores, e seus limites são as Montanhas de Valinor no Oeste e as Muralhas do Sol no Leste. Por este motivo as nuvens raramente chegam a Valinor, e os pássaros mortais não passam para além dos picos de suas montanhas. Mas no Sul, onde há principalmente frio e escuridão, e a Terra-média extende-se próxima às Muralhas do Mundo, Vaiya, Vista e Ilmen sopram juntos e confundem-se mutuamente.

Ilmen é aquele ar que, sendo límpido e puro, é impregnado de luz, embora não a emane. Ilmen fica acima de Vista, e não é grande em profundidade, porém é mais profundo no Oeste e no Leste, e menor no Norte e no Sul. Em Valinor o ar é Ilmen, mas Vista sopra ocasionalmente, especialmente em Casadelfos, parte da qual está na base oriental das Montanhas; e se Valinor é obscurecida e seu ar não é purificado pela luz do Reino Abençoado, ele toma a forma de sombras e névoas cinzentas. Mas Ilmen e Vista misturar-se-ão como sendo um só, porém Ilmen é respirado pelos Deuses, e purificado pela passagem astros; pois em Ilmen Varda decretou o curso das estrelas, e mais tarde do Sol e da Lua.

De Vista não há como sair nem como fugir, exceto para os servos de Manwë, ou para aqueles aos quais ele concede poderes como os de seu povo, que podem sustentar-se em Ilmen ou mesmo em Vaiya superior, que é muito tênue e frio. De Vista pode-se descer para a Terra-média. De Ilmen, pode-se descer para Valinor. Ora, a terra de Valinor estende-se quase até Vaiya, que é mais estreito no Oeste e Leste do Mundo, mas mais profundo no Norte e no Sul. As costas ocidentais de Valinor não estão, portanto, muito longe das Muralhas do Mundo. Contudo, há um abismo que separa Valinor de Vaiya, e ele é preenchido por Ilmen, e por este caminho pode-se descer de Ilmen acima da terra para as regiões inferiores, às raizes da Terra, e para as cavernas e grutas que estão nas fundações das terras e mares. Lá é o lugar de permanência de Ulmo. De lá originam-se as águas da Terra-média. Pois estas águas são compostas por Ilmen, Vaiya e Ambar [que significa Terra], uma vez que Ulmo funde Ilmen e Vaiya e envia-os através dos veios do Mundo para purificar e renovar os mares e rios, os lagos e as fontes da Terra-média. E as águas correntes possuem assim a memória das profundezas e das alturas, e guardam um pouco da sabedoria e música de Ulmo, e da luz dos astros do céu.

Nas regiões de Ulmo as estrelas algumas vezes estão escondidas, e lá a Lua frequentemente vaga e não é vista da Terra-média. Mas o Sol não se demora lá. Ela [2] passa sob a terra às pressas, a fim de que a noite não se prolongue e o mal se fortaleça; ela é puxada através do Vaiya inferior pelos servos de Ulmo, sendo aquecida e preenchida com vida. Assim os dias são medidos pelas rotas do Sol, que navega de Leste a Oeste através do Ilmen inferior, ocultando as estrelas; ela passa sobre o centro da Terra-média sem se deter, e muda seu curso em direção ao norte ou para o sul, não caprichosamente, mas devido à rota e à estação. E quando ela ergue-se acima das Muralhas do Sol é a Aurora, e quando mergulha atrás das Montanhas de Valinor, é o Anoitecer.

Mas os dias em Valinor são diferentes dos da Terra-média. Pois lá a hora de maior luz é o Anoitecer. Então o Sol desce e repousa por algum tempo na Terra Abençoada, deitando-se no seio de Vaiya. E quando ela penetra em Vaiya, o mesmo torna-se ardente e fulgura com um fogo róseo, e por um longo tempo ilumina aquela terra. Mas a medida em que ela passa em direção ao Leste o fulgor desvanece, e Valinor é privada de luz, e é iluminada apenas pelas estrelas; e então os Deuses muito se lamentam pela morte de Laurelin. Ao amanhecer, a escuridão é profunda em Valinor, e as sombras de suas montanhas estendem-se pesadamente sobre as mansões dos Deuses. Mas a Lua não se demora em Valinor, e passa rapidamente sobre ela para mergulhar no abismo de Ilmen, pois ele sempre persegue o Sol, e raramente a alcança, quando então é consumido e obscurecido em sua chama. Mas às vezes acontece de ele chegar sobre Valinor antes de o Sol ter partido, e então desce e encontra sua amada, e Valinor é preenchida com uma luz mesclada tal qual prata e ouro; e os Deuses sorriem lembrando-se da fusão da Laurelin e Silpion há muito tempo atrás.

A Terra de Valinor inclina-se para baixo a partir do sopé das Montanhas, e sua costa ocidental está no nível do fundo dos mares interiores. E não longe dali, como foi dito, estão as Muralhas do Mundo; e no sentido oposto à costa mais ocidental no centro de Valinor está Ando Lómen, a Porta da Noite Eterna que penetra as Muralhas e abre-se para o Vazio. Pois o Mundo encontra-se em meio a Kúma, o Vazio, a Noite sem forma ou tempo. Mas ninguém pode ultrapassar o abismo e a região de Vaiya e chegar àquela Porta, exceto unicamente os grandes Valar. E eles fizeram aquela porta quando Melko foi sobrepujado e colocado na Escuridão Exterior; e ela é guardada por Eärendel [3].

A Terra-média situa-se no meio do Mundo, e é composta de terra e água; sua superfície é o centro do mundo, das fronteiras do Vaiya superior aos confins do inferior. Antigamente assim era a sua forma. Era mais elevada no centro, decaindo de cada lado em vastos vales, mas ergue-se novamente no Leste e Oeste, mais uma vez decaindo para o abismo em suas bordas. Os dois vales eram preenchidos com a água primordial, e as costas destes antigos mares eram no Oeste as regiões montanhosas mais ocidentais e a borda da grande terra, e no Leste as regiões montanhosas e a borda da grande terra sobre o outro lado. Mas ao Norte e ao Sul ela não decaía, e podia-se ir por terra do extremo Sul do abismo de Ilmen ao extremo Norte do mesmo. Os mares antigos, portanto, situam-se em canais, e suas águas não vertiam para o Leste ou Oeste; mas eles não possuíam costas tanto ao Norte como ao Sul, vertiam para o abismo, e suas cachoeiras tornavam-se gelo e pontes de gelo por causa do frio; de forma que o abismo de Ilmen era aqui fechado e pontificado, e o gelo estendia-se ao Vaiya, e até as Muralhas do Mundo.

Ora, é dito que os Valar, entrando no Mundo, desceram primeiro sobre a Terra-média no seu centro, exceto Melko, que desceu no Norte distante. Mas os Valar pegaram uma porção de terra e criaram uma ilha, consagrando-a, e a colocaram no Mar Ocidental e permaneceram nela, enquanto estavam ocupados na exploração e na primeira disposição do Mundo. Como é contado, eles desejaram criar lamparinas, e Melko ofereceu-se para desenvolver uma nova substância de grande força e beleza para seus pilares. Ele levantou estes grandes pilares ao norte e ao sul do centro da Terra, mesmo assim mais perto dele do que o abismo; os Deuses colocaram lamparinas sobre eles, e a Terra teve luz durante algum tempo.

Mas os pilares foram criados com falsidade, sendo talhados em gelo; eles derreteram e as lamparinas caíram em ruína, e sua luz foi derramada. Mas o derretimento do gelo criou dois pequenos mares interiores, ao norte e sul do centro da Terra, e havia uma terra setentrional, uma terra central e uma terra meridional. Então os Valar retiraram-se para o Oeste e abandonaram a ilha; sobre a região montanhosa na margem ocidental do Mar do Oeste, eles elevaram grandes montanhas, e atrás delas criaram a terra de Valinor. Mas as montanhas de Valinor curvam-se para trás, e Valinor é mais ampla no centro da Terra, onde as montanhas andam ao lado do mar; e ao norte e ao sul, as montanhas nivelam-se em direção ao abismo. Há duas regiões da Terra Ocidental que não pertencem à Terra-média e, apesar disso, são exteriores às montanhas: elas são sombrias e vazias. A situada ao Norte é Eruman, e aquela ao Sul é Arvalin [4]; há apenas um desfiladeiro estreito entre elas e as extremidades da Terra-média, mas este desfiladeiro é preenchido com gelo.

Para sua proteção posterior, os Valar empurraram a Terra-média no seu centro e comprimiram-na em direção ao leste, de forma que ela foi encurvada, e o grande mar do Oeste é muito amplo no centro, a mais vasta de todas as águas da Terra. A forma da Terra no Leste era muito semelhante àquela no Oeste, exceto pelo estreitamento do Mar Oriental, e o deslocamento da terra naquela direção. E além do Mar Oriental situa-se a Terra Oriental, da qual pouco sabemos, e é chamada a Terra do Sol; ela possui
montanhas, menores do que as de Valinor, mas ainda assim muito grandes, que são as Muralhas do Sol. Em razão da queda da terra, estas montanhas não podem ser vistas, exceto pelos pássaros que voam às maiores altitudes, através dos mares que as divide das costas da Terra-média.

E o afastamento da terra também ocasionou o aparecimento de montanhas em quatro direções, duas na Terra do Norte e duas na Terra do Sul; aquelas no Norte eram as Montanhas Azuis no lado ocidental, e as Montanhas Vermelhas no lado oriental; e no Sul eram as Montanhas Cinzentas e as Amarelas. Porém Melko fortificou o Norte e lá ergueu as Torres Setentrionais, que também são chamadas de Montanhas de Ferro, e elas voltavam-se para o sul. E na terra central havia as Montanhas de Vento, pois lá um vento fortemente soprava vindo do Leste antes do Sol; e Hildórien, a terra onde os Homens primeiro despertaram, situa-se entre estas montanhas e o Mar Oriental. Mas Kuiviénen [5], onde Oromë encontrou os Elfos, está ao Norte junto às águas de Helkar.

Mas a simetria da antiga Terra foi mudada e partida na primeira Batalha dos Deuses, quando Valinor marchou contra Utumno, que era a fortaleza de Melko, e Melko foi acorrentado. Então o mar de Helkar [que era a lâmpada setentrional] tornou-se um mar interior ou grande lago, mas o mar de Ringil [6] [que era a lâmpada meridional] tornou-se um grande mar fluindo de norte a leste e unindo por canais tanto o Mar Ocidental como o Oriental.

E a Terra foi novamente partida na segunda batalha, quando Melko foi mais uma vez deposto, e ela modificou-se ainda mais pela a deterioração e o passar de muitas eras. Mas a maior mudança ocorreu quando a Forma Primordial foi destruída, e a Terra foi arredondada e separada de Valinor. Isto aconteceu nos dias do ataque dos Númenoreanos sobre a terra dos Deuses, como é contado nas Histórias. E desde aquele tempo o mundo tem esquecido as coisas que haviam anteriormente, e os nomes e as lembranças das terras e águas de antigamente pereceram.

Notas:

[1] O presente texto pertence aos primórdios da mitologia tolkieniana, sendo escrito por volta de 1930. Muito foi modificado pelo próprio Tolkien [alguns pontos mais de uma vez] antes da publicação do Silmarillion, em 1977, editado por seu filho Christopher. Muitos nomes foram deixados de lado, outros sofreram alterações, como é o caso de Ilurambar, forma primitiva de Eärambar. [N. do T.]

[2] No decorrer do texto, Tolkien refere-se ocasionalmente ao sol como “ela” e à lua como “ele”, por ambos serem conduzidos por seus respectivos maiar: Arien [a maia do sol], e Tilion [o maia da lua]. [N. do T.]

[3] Formas primitivas de Melkor e Eärendil respectivamente. [N. do T.]

[4] Formas primitivas de Araman e Avathar respectivamente. [N. do T.]

[5] Forma primitiva de Cuiviénen. [N. do T.]

[6] Formas primitivas de Illuin e Ormal respectivamente. [N. do T.]

Ósanwë-kenta

Investigação acerca da Comunicação de Pensamento
(resumo da discussão de Pengolodh)

No final do Lammas, Pengolodh discute brevemente a transmissão direta de pensamento (sanwë-latya “abertura de pensamento”), fazendo várias afirmações sobre a mesma, que evidentemente são baseadas nas teorias e observações dos Eldar, tratadas em sua plenitude pelos mestres de tradição élficos. Elas estão relacionadas primeiramente com os Eldar e os Valar (incluindo os Maiar menores da mesma ordem). Os Homens não estão especialmente relacionados, exceto até aonde eles estão inclusos em declarações gerais sobre os Encarnados (Mirröanwi). Sobre eles, Pengolodh diz somente: “Os Homens têm a mesma aptidão dos Quendi, mas ela em si é mais fraca, e é mais fraca em ação devido à força do hröa, sobre o qual a maioria dos homens tem pouco controle pela vontade”.Pengolodh inclui essa questão primeiramente devido à sua conexão com a tengwesta (“linguagem”). Mas ele também está preocupado como um historiador em examinar as relações de Melkor e seus agentes com os Valar e os Eruhíni, apesar disso também ter uma conexão com a “linguagem”, uma vez que, como ele aponta, esse, o maior dos talentos dos Mirröanwi, foi tomado por Melkor para sua própria grande vantagem.

Pengolodh diz que todas as mentes (sáma, pl. sámar) são iguais em status, apesar delas se diferenciarem em capacidade e força. Uma mente, por sua natureza, percebe outra mente diretamente. Mas ela não pode perceber mais do que a existência de outra mente (como algo diferente de si própria, embora da mesma ordem) exceto pela vontade de ambas as partes (Nota 1). O grau de vontade, entretanto, não necessita ser o mesmo em ambas as partes. Se chamarmos uma mente de C (para “convidada” ou doadora) e a outra A (para “anfitriã” ou receptora), então C deverá ter completa intenção de inspecionar A ou de informá-la. Mas o conhecimento pode ser ganho ou transmitido por C, mesmo quando A não estiver procurando ou pretendendo transmitir ou aprender: o ato de C será efetivo, se A estiver simplesmente “aberta” (láta; látie “abertura”). Essa distinção, ele diz, é de suma importância.

A “Abertura” é o estado simples ou natural (indo) de uma mente que não está de outra forma ocupada (Nota 2). Na “Arda Não-Desfigurada” (isto é, em condições ideais livres do mal) a abertura seria o estado natural. No entanto, qualquer mente pode ser fechada (pahta). Isso requer um ato de vontade consciente: a Negação (avanir). Ela pode ser feita contra C, contra C e alguns outros, ou ser um isolamento total voltado para a “privacidade” (aquapahtie).

Embora em “Arda Não-Desfigurada” a abertura seja o estado natural, cada mente possui, desde sua primeira percepção como um indivíduo, o direito de fechar-se; e ela possui poder absoluto para tornar isso eficaz pela vontade. Nada pode penetrar a barreira da Negação (Nota 3).

Todas essas questões, diz Pengolodh, são verdadeiras a todas as mentes, dos Ainur na presença de Eru, ou os grandes Valar, tais como Manwë e Melkor, aos Maiar em Eä, e até aos menores dos Mirröanwi. Mas diferentes estados trazem limitações, que não são totalmente controladas pela vontade.

Os Valar entraram em Eä e no Tempo de livre vontade, e eles agora estão no Tempo, enquanto este durar. Eles não podem perceber nada fora do Tempo, salvo pela memória de sua existência antes dele começar: eles podem recordar a Canção e a Visão. Eles estão, certamente, abertos a Eru, mas eles não podem, de sua própria vontade, “ver” qualquer parte de Sua mente. Eles podem se abrir a Eru em súplica, e Ele pode então revelar Seu pensamento a eles (Nota 4).

Os Encarnados possuem pela natureza da sáma as mesmas aptidões; mas a sua percepção é obscurecida pelo hröa, pois seu fëa é ligado ao seu hröa, e seu procedimento normal é através do hröa, que é em si parte de Eä, sem pensamento. O obscurecimento é de fato duplo; pois o pensamento tem que passar do manto de um hröa e penetrar em outro. Por essa razão, nos Encarnados, a transmissão de pensamento requer fortalecimento para ser efetiva. O Fortalecimento pode ser por afinidade, por urgência, ou por autoridade.

A Afinidade pode ser devido ao parentesco; pois isso pode aumentar a semelhança de hröa para hröa, e também dos interesses e modos de pensamento dos fëar residentes; o parentesco também é normalmente acompanhado por amor e simpatia. A Afinidade pode vir simplesmente do amor e amizade, que é a semelhança ou afinidade de fëa para fëa.

A Urgência é transmitida por grande necessidade do “remetente” (como em contentamento, pesar ou medo); e se essas questões forem comuns em qualquer grau ao “receptor”, o pensamento é o mais claro recebido. A Autoridade também pode conceder força ao pensamento de alguém que possui uma responsabilidade quanto a outro, ou de qualquer governante que tenha um direito a emitir comandos ou a buscar a verdade para o bem de outros.

Essas causas podem fortalecer o pensamento para passar os véus e alcançar uma mente receptora. Mas essa mente deve permanecer aberta, e ao menos passiva. Se, estando ciente que ele é endereçado, ela então se fecha, e nenhuma urgência ou afinidade permitirá o pensamento do remetente entrar.

Por fim, a tengwesta também se torna um impedimento. Ela é nos Encarnados mais clara e mais precisa do que sua recepção direta de pensamento. Por ela eles também podem se comunicar facilmente com outros, quando nenhuma força é adicionada ao seu pensamento: como, por exemplo, quando estranhos encontram-se pela primeira vez. E, como vimos, o uso da “linguagem” logo se torna habitual, de modo que a prática do ósanwë (intercâmbio de pensamento) é negligenciada e torna-se mais difícil. Assim, vemos que os Encarnados tendem mais e mais a usar ou empenhar-se a usar o ósanwë somente em grande necessidade ou urgência, e especialmente quando a lambe é inútil. Como quando a voz não pode ser ouvida, o que acontece principalmente por causa da distância. Pois a distância em si não oferece qualquer impedimento ao ósanwë. Mas aqueles que por afinidade bem podem usar o ósanwë, usarão a lambe quando em proximidade, por hábito ou preferência. Nós também ainda podemos notar como os “afinados” podem compreender mais rapidamente a lambe que usam entre si e, realmente, tudo o que diriam não seria posto em palavras. Com menos palavras, eles chegam mais rápido a um melhor entendimento. Não pode haver dúvida que aqui o ósanwë também acontece freqüentemente; pois a vontade de conversar em lambe é uma vontade de comunicar o pensamento, e ela abre as mentes. Pode ser, certamente, que ambos que conversem já saibam parte do assunto e do pensamento do outro quanto a ele, de forma que apenas alusões ao estranho necessitam ser feitas; mas isso não é sempre assim. Os afinados alcançarão um entendimento mais rapidamente do que estranhos sobre assuntos que nenhum dos dois tenha discutido antes, e perceberão mais rapidamente a importância de palavras que, embora numerosas, bem escolhidas e precisas, permanecem inadequadas.

O hröa e a tengwesta têm um efeito inevitavelmente semelhante sobre os Valar, se esses assumem vestes corpóreas. O hröa turvará em certo grau o envio do pensamento em força e precisão, e a recepção dele, se o outro também for encarnado. Se eles tiverem adquirido o hábito da tengwesta, assim como alguns podem ter adquirido o costume de serem ordenados, então isso reduzirá a prática do ósanwë. Mas esses efeitos são em grande parte menos sentidos no caso dos Encarnados.

Pois o hröa de um Vala, mesmo tendo se tornado costumeiro, está muito mais sob o controle da vontade. O pensamento dos Valar é muito mais poderoso e penetrante. E, até onde diz respeito aos seus relacionamentos uns com os outros, a afinidade entre os Valar é maior do que a afinidade entre quaisquer outros seres; de forma que o uso da tengwesta ou da lambe nunca se fez necessário, e apenas com alguns isso se tornou um costume e uma preferência. E quanto aos seus relacionamentos com todas as outras mentes em Eä, seu pensamento freqüentemente possuía a mais alta autoridade, e a maior urgência. (Nota 5)

Pengolodh então prossegue para os abusos do sanwë. “Pois” ele diz, “aqueles que leram até aqui, podem já ter questionado meu conhecimento, dizendo: Isso não parece de acordo com as histórias. Se a sáma era inviolável pela força, como poderia Melkor ter iludido e escravizado tantas mentes? Ou não é totalmente verdadeiro que a sáma pode ser protegida por uma força maior mas também capturada por uma força superior? Razão pela qual Melkor, o maior, e possuidor da mais dura, determinada e cruel vontade, poderia penetrar as mentes dos Valar, mas se continha em relação a eles, de forma que mesmo Manwë ao lidar com ele pode nos parecer às vezes débil, descuidado e ludibriado. Não é dessa forma?”

“Digo que isso não se dá desse modo. Tais coisas podem parecer-se, mas se em gênero elas são totalmente diferentes, elas devem ser distintas. A previdência, que é a previsão, e o prognóstico, que é a opinião tomada pelo raciocínio sobre a presente evidência, podem ser idênticos em sua predição, mas são completamente diferentes em modo, e deveriam ser distinguidos por mestres de tradição, mesmo se a língua habitual, tanto de Elfos como de Homens, lhes der o mesmo nome como áreas da sabedoria”. (Nota 6)

Desse modo, a extorsão dos segredos de uma mente parece vir da leitura da mesma pela força, a despeito de sua negação, pois o conhecimento ganho (à força) pode, às vezes, mostrar-se tão completo como qualquer um que pudesse ser obtido (de livre vontade). Entretanto, ele não vem da penetração da barreira da negação.

Não há, de fato, nenhuma axan para que a barreira não devesse ser forçada, pois isso é únat, uma coisa impossível de ser ou de ser feita, e quanto maior a força exercida, maior a resistência da negação. Mas é uma axan universal que ninguém tomará de outro diretamente pela força ou indiretamente por embuste o que ele tem direito a possuir e guardar a si próprio.

Melkor repudiava todas as axani. Ele também aboliria (por si próprio) todas as únati se pudesse. Realmente, no seu princípio e nos dias de seu grande poder, as mais devastadoras de suas violências vinham então de seu esforço em ordenar Eä para que não houvesse limites ou obstáculos para sua vontade. Mas isso ele não pôde fazer. As únati permaneceram, uma lembrança perpétua da existência de Eru e Sua invencibilidade, uma lembrança também da coexistência de si mesmo com outros seres (iguais na origem, senão em poder) inexpugnável à força. Disso se origina sua incessante fúria implacável.

Ele percebeu que a aproximação aberta de uma sáma de grande poder e força de vontade era sentida por uma sáma inferior como uma imensa pressão, acompanhada por medo. Dominar por influência de poder e medo era seu deleite; mas nesse caso os considerava inúteis: o medo fechava a porta mais rapidamente. Por esse motivo ele tentou o engano e a furtividade.

Aqui ele foi auxiliado pela simplicidade daqueles inconscientes do mal, ou ainda não acostumados a se acautelarem com relação a ele. E por essa razão, foi dito acima que a distinção de franqueza e vontade ativa para entreter era de grande importância. Pois ele chegava furtivamente a uma mente aberta e incauta, esperando estudar parte de seu pensamento antes que este se fechasse, e ainda mais, implantar nele seu próprio pensamento, para enganá-lo e convencê-lo de sua amizade. Seu pensamento era sempre o mesmo, embora variasse para se adaptar a cada caso (até onde o compreendia): ele estava acima de todos benevolentes; ele era rico e poderia dar qualquer presente que desejassem a seus amigos; ele tinha uma afeição especial com aquele ao qual ele se dirigia; mas nele deviam confiar.

Deste modo ele obteve a entrada a muitas mentes, removendo sua negação, e abria a porta com a única chave, embora sua chave fosse falsificada. Mas isso não era o que ele mais desejava, a conquista dos relutantes, a escravização de seus inimigos. Aqueles que o escutavam e não fechavam a porta freqüentemente já eram inclinados à sua amizade; alguns (de acordo com seus limites) já haviam ingressado em caminhos semelhantes ao seu próprio, e lhe davam ouvidos porque esperavam aprender e receber dele ensinamentos que serviriam aos seus próprios propósitos. (Assim ocorreu com aqueles dos Maiar que primeiro e mais precocemente caíram sob sua dominação. Eles já eram rebeldes, mas desprovidos do poder de Melkor e de sua cruel vontade, admiravam-no, e viram em sua liderança a esperança de uma rebelião efetiva.) Porém, aqueles que ainda eram inocentes e não corrompidos no “coração” (Nota 7) ficaram imediatamente cientes de sua entrada, e se davam atenção ao aviso de seus corações, cessavam de escutá-lo, expulsavam-no, e fechavam a porta. Eram estes que Melkor mais desejava subjugar: seus inimigos, pois para ele todos eram inimigos que lhe resistiam à mais ínfima idéia ou reinvidicavam o que quer que fosse como pertencente a si próprios, e não a ele.

Portanto ele procurou meios de vencer a únat e a negação. E essa arma ele encontrou na “linguagem”. Pois agora falamos dos Encarnados, os Eruhíni que ele mais desejava subjugar a despeito de Eru. Seus corpos, sendo de Eä, estão sujeitos à força; e seus espíritos, sendo ligados a seus corpos em amor e solicitude, estão sujeitos ao medo em seu benefício. E sua linguagem, embora venha do espírito ou da mente, atua através e com o corpo: ela não é a sáma nem seu sanwë, mas pode expressar o sanwë ao seu modo e de acordo com sua capacidade. Sobre o corpo e sobre o espírito, portanto, tal pressão e medo podem ser exercidos para que a pessoa encarnada seja forçada a falar.

Assim Melkor ponderou em sua previdência por muito tempo antes que acordássemos. Pois nos dias antigos, quando os Valar instruíram os Eldar recém chegados à Aman a respeito do princípio das coisas e da inimizade de Melkor, o próprio Manwë disse àqueles que escutassem: “Dos Filhos de Eru, Melkor sabia menos do que seus iguais, prestando menos atenção ao que ele poderia ter aprendido, como nós fizemos, na Visão de sua Chegada. Todavia, como agora tememos, uma vez que conhecemos vocês em seu verdadeiro ser, quanto a tudo que possa auxiliar em seus propósitos, sua mente ansiava em alcançar a maestria, e seu propósito saltou adiante mais rapidamente do que o nosso, não estando ligado à nenhuma axan. Desde o princípio ele estava muito interessado na linguagem, aquele talento que os Eruhíni têm por natureza; mas nós não percebemos de imediato a malícia nesse interesse, pois muitos de nós o compartilhavam, e sobretudo Aulë. Mas descobrimos a tempo que ele criara uma linguagem para aqueles que o serviam; e ele aprendeu nossa língua com facilidade. Ele possui uma grande habilidade nessa matéria. Sem dúvida ele dominará todas as línguas, mesmo a bela fala dos Eldar. Portanto, se alguma vez falarem com ele, acautelem-se!”

“Ai de mim!”, diz Pengolodh, “Em Valinor Melkor usava o Quenya com tal maestria que todos os Eldar ficavam impressionados, pois seu uso não podia ser melhorado, raramente sequer igualado, pelos poetas e pelos mestres de tradição”.

Desse modo, por fraude, por mentiras, pelo tormento do corpo e do espírito, pela ameaça de sofrimento a outros bem amados, ou pelo terror absoluto de sua presença, Melkor sempre procurou forçar o Encarnado que caía nas mãos do seu poder, ou chegava ao seu alcance, a falar e lhe contar tudo o que soubesse. Mas sua própria Mentira gerou uma prole interminável de mentiras.

Por essses meios ele destruiu muitos, causou enormes traições, e ganhou conhecimento de segredos para sua grande vantagem e para a ruína de seus inimigos. Mas isso não era feito pela penetração da mente, ou pela leitura dela como ela é, em seu menosprezo. Não, pois embora grande o conhecimento que ele ganhara, por trás das palavras (mesmo daquelas em medo e tormento) sempre estava a sáma inviolável: as palavras não estão nela, embora possam proceder dela (como gritos por trás de uma porta trancada); elas devem ser julgadas e avaliadas pela verdade que possa nelas existir. Por esse motivo, o Mentiroso diz que todas as palavras são mentiras: todas as coisas que ele escuta são passadas adiante com fraude, evasões, significados ocultos e ódio. Nessa vasta malha ele mesmo enredou lutas e fúrias, consumido pela suspeita, incerteza e medo. Não teria sido dessa forma, se ele pudesse ter quebrado a barreira, e visto o coração como ele é em sua verdade revelada.

Se falarmos por último da “tolice” de Manwë e da fraqueza e imprudência dos Valar, tomemos cuidado ao julgar. Nas histórias, realmente, podemos nos impressionar e sofrer ao ler como (aparentemente) Melkor enganou e seduziu outros, e como mesmo Manwë mostra-se, de vez em quando, quase um ingênuo se comparado a ele: como se um pai afável, porém ignorante, estivesse tratando uma criança impertinente que seguramente perceberia na hora apropriada o erro de seus modos. Enquanto que nós, observando e sabendo a conseqüência, vemos agora que Melkor conhecia bem o erro de seus métodos, mas estava fixado neles pelo ódio e orgulho, além de qualquer retorno. Ele poderia ler a mente de Manwë, pois a porta estava aberta; mas sua própria mente era falsa e, mesmo que a porta parecesse aberta, havia portas de ferro no interior, fechadas para sempre.

Como, de outra forma, você a teria? Deveria Manwë e os Valar enfrentar segredos com subterfúgios, traição com falsidade, mentiras com mais mentiras? Se Melkor usurpasse os direitos deles, deveriam eles negar o dele? Pode ódio sobrepujar ódio? Não, Manwë era mais sábio; ou, estando sempre aberto a Eru, feito sua vontade, a qual é mais do que sabedoria. Ele estava sempre aberto porque não possuía nada a esconder, nenhum pensamento que fosse prejudicial para qualquer um ter conhecimento, se pudessem compreendê-lo. De fato Melkor conhecia sua vontade, indubitavelmente; e ele sabia que Manwë era limitado pelos comandos e injunções de Eru, e faria isso ou abster-se-ia em concordância a eles, sempre, mesmo sabendo que Melkor as quebraria (as barreiras) conforme servisse ao seu propósito. Dessa forma, o impiedoso sempre contará com a piedade, e os mentirosos fazem uso da verdade; pois se a piedade e a verdade são mantidas pelo cruel e pelo mentiroso, elas deixaram de ser respeitadas.

Manwë não poderia tentar por pressão forçar Melkor a revelar seus pensamentos e propósitos, ou (se ele usasse palavras) falar a verdade. Se ele falasse e dissesse: isto é verdade, deveriam nele acreditar até que fosse provado falso; se ele dissesse: isto eu farei, como vocês desejam, deveriam lhe permitir a oportunidade para cumprir sua promessa. (Nota 8)

A força e a restrição que foram usadas em Melkor, pelo poder reunido de todos os Valar, não foram usadas para extorquir uma confissão (que era desnecessária); nem para compeli-lo a revelar seu pensamento (o que era ilegal, mesmo que não fosse em vão). Ele foi feito prisioneiro como uma punição pelos seus atos malignos, sujeito à autoridade do Rei. Assim podemos dizer; mas seria melhor dizer que ele foi destituído por um período, estabelecido pela promessa, de seu poder para agir, de forma que ele pudesse repensar e considerar a si mesmo, e ter assim a única oportunidade para que através da piedade pudesse alcançar o arrependimento e a correção. Para a cura de Arda, de fato, mas também para sua própria cura. Melkor tinha o direito à existência, e o direito de agir e usar seus poderes. Manwë possuía a autoridade para governar e ordenar o mundo, tanto quanto pudesse, para o bem-estar dos Eruhíni; mas se Melkor se arrependesse e retornasse à sua lealdade a Eru, deveria lhe ser dada sua liberdade novamente. Ele não pode ser escravizado, nem pode ser negada sua posição. A função do Rei Mais Velho era manter todos seus assuntos em fidelidade a Eru, e nessa fidelidade mantê-los livres.

Portanto, não até o final, e não até pela ordem expressa de Eru e pelo Seu poder, fora Melkor deposto e privado para sempre de todo poder para fazer ou desfazer.

Quem entre os Eldar sustenta que o cativeiro de Melkor em Mandos (que foi alcançado pela força) fora insensato ou ilegal? Mesmo a resolução de atacar Melkor, não meramente para opor-se a ele, para reunir violência com ira para o risco de Arda, foi tomada por Manwë apenas com relutância. E considere: que bem, nesse caso, mesmo o uso ilegal da força conseguiu? Isso o removeu por um tempo e aliviou a Terra-média da pressão de sua malícia, mas isso não erradicou seu mal, pois isso não podia ser feito. A menos que, talvez, Melkor de fato tivesse se arrependido. (Nota 9) Mas ele assim não o fez, e na humilhação ele tornou-se mais obstinado: mais sutil em seu engodos, mais perspicaz em suas mentiras, mais cruel e vil em sua vingança. A mais fraca e mais imprudente de todas as ações de Manwë, como parece a muitos, foi a libertação de Melkor do cativeiro. Disso veio a maior perda e o maior dano: a morte das �?rvores, e o exílio e angústia dos Noldor. Ainda assim, através desse sofrimento também se atingiu, como talvez não pudesse se atingir de outro modo, a vitória dos Dias Antigos: a queda de Angband e a última deposição de Melkor.

Quem pode então dizer com certeza que se Melkor tivesse sido mantido aprisionado, menos mal teria se seguido? Mesmo em sua redução, o poder de Melkor está além da nossa compreensão. Ainda assim, algumas explosões devastadoras de seu desespero não são o pior que podia ter se sucedido. A libertação foi de acordo com a promessa de Manwë. Se Manwë tivesse quebrado essa promessa para seus próprios propósitos, ainda que “bons”, ele teria dado um passo em direção aos caminhos de Melkor. Esse é um passo perigoso. Naquela hora e ato, ele poderia ter deixado de ser o vice-regente do Uno, tornando-se somente um rei que toma vantagem sobre um rival que ele conquistou pela força. Teríamos então os sofrimentos que se sucedessem; ou veríamos o Rei Mais Velho perder sua honra, e então passar, talvez, para um mundo despedaçado entre dois orgulhosos governantes aspirando o trono? Disto podemos estar certos, nós, crianças de força pequena: qualquer um dos Valar poderia ter tomado os caminhos de Melkor e tornado-se como ele: mas um era suficiente.

Notas do Autor para o Ósanwë-kenta

Nota 1 – Aqui níra (“vontade”, como um potencial ou faculdade), uma vez que o requerimento mínimo é que essa faculdade não seja exercida em negação; a ação ou um ato de vontade é nirme; assim como sanwë “pensamento” ou “um pensamento” é a ação ou um ato da sáma.

Nota 2 – Ela pode ser ocupada com o pensamento e ficar desatenta a outras coisas; ela pode ser “voltada em direção a Eru”; ela pode entrar em “conversação de pensamento” com uma terceira. Pengolodh diz: “Apenas grandes mentes podem conversar com mais do que uma outra ao mesmo tempo; várias podem conferenciar, mas então, de uma vez, apenas uma transmite, enquanto as outras recebem”.

Nota 3 – “Mente alguma pode, de qualquer modo, ser fechada contra Eru, tampouco contra Sua inspeção ou contra Sua mensagem. Pode-se não estar atento a esta última, mas não se pode dizer que não a tenham recebido”.

Nota 4 – Pengolodh acrescenta: “Alguns dizem que Manwë, por uma graça especial ao Rei, podia ainda em certa medida perceber Eru; outros dizem que, mais provavelmente, ele permaneceu perto de Eru, e Eru estava na maioria das vezes pronto para ouvi-lo e responder-lhe”.

Nota 5 – Aqui Pengolodh acrescenta uma longa nota sobre o uso dos hröar pelos Valar. Em resumo, ele diz que, embora seja em origem um “auto vestir-se”, ele pode tender a se aproximar do estado de “encarnação”, especialmente com os membros inferiores daquela ordem (os Maiar). “É dito que, quanto mais tempo o mesmo hröa é usado, maior é a ligação ao hábito, e menos deseja o auto vestir-se abandoná-lo. Como vestimenta, pode logo deixar de ser um adorno, e se tornar (como é dito nas línguas tanto de Elfos como de Homens) um hábito, uma roupa costumeira. Ou se entre Elfos e Homens ela seja usada para mitigar o calor e o frio, ela logo torna o corpo vestido menos capaz de suportar tais coisas quando despido”. Pengolodh também cita a opinião de que se um “espírito” (isto é, um daqueles não encarnados pela criação) usa um hröa em auxílio a seus propósitos pessoais, ou (ainda mais) para o deleite de faculdades corpóreas, ele sente a dificuldade aumentar para operar sem o hröa. As coisas que são mais obrigatórias são aquelas que no Encarnado têm a ver com a vida do próprio hröa, seu sustento e propagação. Dessa forma, comer e beber são obrigatórios, mas não o prazer na beleza do som ou forma. A maioria das obrigações é criada ou compreendida.

“Não sabemos as axani (leis, regras, como primeiramente originadas de Eru) que foram estabelecidas sobre os Valar com referência em particular ao seu estado, mas parece claro que não havia uma axan contra tais coisas. No entanto, parece existir uma axan, ou talvez consequência necessária que, se eles estão decididos, o espírito deve então habitar o corpo que é usado, e ficar sob as mesmas necessidades do Encarnado. O único caso que é conhecido nas histórias dos Eldar é o de Melian, que se tornou esposa do Rei Elu Thingol. Isso com certeza não foi feito com maldade ou contra a vontade de Eru, e embora tenha levado ao sofrimento, tanto Elfos como Homens foram enriquecidos”.

“Os grandes Valar não realizam tais coisas: eles não geram, nem comem ou bebem, exceto nos altos asari (festivais), como prova de sua autoridade e habitação de Arda, e para a benção do sustento dos Filhos. Apenas Melkor dentre os Grandes tornou-se por fim limitado a uma forma corpórea; mas assim o era por causa do uso que ele fez disso, no seu intento de se tornar Senhor dos Encarnados, e por causa das grandes perversidades que cometera quando em corpo visível. Ele também dissipou seus poderes nativos para o controle de seus agentes e servos, de forma que ele se tornou no final, em si mesmo e sem o apoio deles, algo enfraquecido, consumido pelo ódio e incapaz de restaurar a si próprio do estado ao qual havia caído. Mesmo a sua forma visível ele não mais podia dominar, de modo que seu horror não podia mais ser mascarado, e isso revelou a maldade de sua mente. Assim também foi com alguns de seus maiores servos, como vemos nestes dias atuais: eles se tornaram unidos às formas de seus atos malignos, e se estes corpos eram tomados deles ou destruídos, eles eram anulados, até que tivessem reconstruído uma imagem de suas habitações anteriores, com a qual eles podiam continuar os cursos malignos nos quais eles haviam se fixado”. (Pengolodh aqui se refere evidentemente a Sauron, em particular, com cuja elevação partiu, por fim, da Terra-média. Mas a primeira destruição da forma corpórea de Sauron foi registrada nas histórias dos Dias Antigos, na Balada de Leithian.)

Nota 6 – Pengolodh aqui elabora (embora não seja necessário ao seu argumento) essa questão de “previsão”. Nenhuma mente, ele afirma, conhece o que nela não está. Tudo o que fora experimentado está nela, apesar de que no caso dos Encarnados, dependendo dos instrumentos do hröa, algumas coisas podem ser “esquecidas”, não estando imediatamente disponíveis para recordação. Mas nenhuma parte do “futuro” lá está, pois a mente não pode vê-lo nem tê-lo visto: isto é, uma mente situada no tempo. Tal mente pode aprender sobre o futuro apenas a partir de outra mente que o tenha visto. Mas isso significa apenas diretamente de Eru, ou por intermédio de alguma mente que tenha visto em Eru alguma parte de Seu propósito (assim como os Ainur, que agora são os Valar em Eä). Só assim um Encarnado pode conhecer algo do futuro: por instrução derivada dos Valar, ou por uma revelação vinda diretamente de Eru. Mas qualquer mente, seja dos Valar ou dos Encarnados, pode deduzir pela razão o que pode ou irá ocorrer. Isso não é previsão, mesmo que possa parecer claro em termos e, de fato, mesmo mais preciso do que vislumbres de previsão. Nem mesmo se isso for formado por visões vistas em sonho, um meio segundo o qual a “previsão” é freqüentemente revelada à mente.

Mentes que possuem grande conhecimento do passado, do presente, e da natureza de Eä, podem predizer com grande precisão, e quanto mais próximo o futuro, mais claro ele se apresenta (exceto, sempre, pela liberdade de Eru). Portanto, muito do que é chamado “previsão”, em palavras desatentas, é apenas a dedução do sábio; e se isso for recebido, como advertência ou instrução, dos Valar, pode ser somente a dedução do mais sábio; embora isso possa às vezes, por outro lado, ser “previsão”.

Nota 7enda. Essa palavra nós traduzimos como “coração”, embora não tenha nenhuma referência física a qualquer órgão do hröa. Ela significa “centro”, e refere-se (embora pela inevitável alegoria física) ao fëa ou a própria sáma, distinto da periferia (aparentemente) de seus contatos com o hröa; autociente; favorecido com a sabedoria primordial de sua estrutura que o faz sensível a qualquer coisa hostil mesmo em seu menor grau.

Nota 8 – Razão pela qual Melkor freqüentemente falava a verdade, e de fato ele raramente mentia sem que houvesse qualquer mescla de verdade. A não ser em suas mentiras contra Eru; e foi talvez por expressar essas mentiras que lhe foi negado qualquer retorno.

Nota 9 – Alguns sustentam que, embora o mal possa então ter sido mitigado, ele não pode ter sido desfeito mesmo pelo arrependimento de Melkor; pois o poder partiu dele e não estava mais sob o controle da sua vontade. Arda foi desfigurada na sua própria existência. As sementes que a mão espalha crescerão e se multiplicarão mesmo que a mão seja removida.