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Círdan

Círdan

CírdanEsse texto é retirado do HoME 12 e os comentários feitos por Christopher Tolkien ao texto de seu pai, J.R.R. Tolkien, encontram-se em itálico 
Este breve manuscrito também é associado com a discussão de Glorfindel: o rascunho• do mesmo é encontrado no verso de uma das páginas do texto Glorfindel II.

Está é apalavra Sindarin para ´Armador´, [29] e descreve sua função posterior na história das Primeiras Três Eras, mas seu nome ´próprio´,isto é, seu nome original entre os Teleri, dos quais ele fazia parte, nunca é utilizado [30]. É dito nos Anais da Terceira Era (c. 1000) que ele poderia ver mais longe e profundamente o futuro do que qualquer um na terra-média [31]. Isto não inclui os Istari (que vieram de Valinor), mas inclui mesmo Elrond, Galadriel e celeborn.

Círdan era um Elfo Telerin, um dos mais nobres daqueles que não foram transportados a Valinor, mas vieram a se tornar os Elfos-cinzentos[32]. Ele era parente de Olwë, um dos dois reis dos Telerin e senhor daqueles que partiram por sobre o Grande Mar. Ele é também parente de Elwë [33], o irmão mais velho de Olwë, aceito como Alto Rei de todos os Teleri em Beleriand, mesmo após ele ter se recolhido ao reino protegido de Doriath. Mas Círdan e seu povo permaneceram de muitas formas distintos do resto dos Sindar. Eles mantiveram o alntigo nome Teleri (em Sindarin tardio [34] Eorm Telir ou Telerrim) e permaneceram de muitas forma um povo à parte, falando, mesmo em tempos posteriores, uma língua mais arcaica [35]. Os Noldor os chamavam Falmari, “povo das ondas”, e outros Sindarin de Falathim, “povo da costa espumante” [36].

Foi durante a longa espera dos Teleri pelo retorno da ilha flutuante, sobre a qual os Vanyar e Noldor foram transportados sobre o Grande Mar, que Círdan direcionou seus pensamentos e habilidade para a construção de barcos, pois ele e todos os demais Teleri se tornaram impacientes. Apesar de tudo é dito que por amor e lealdade aos seus Círdan era o líder daqueles que procuraram longamente por Elwë quando este estava perdido e não foi ao litoral para partir da Terra-média. Assim ele adiou sem maior desejo: ver o Reino Abençoado e encontrar novamente Olwë e seus parentes próximos. Dessa forma ele não atingiu o litoral até praticamente todos os Teleri seguidores de Olwë terem partido.

Então, é dito, ele permaneceu abandonado olhando o mar, e era noite, mas muito distante ele podia ver o brilhar da luz sobre Eressëa antes desta desaparecer no Oeste. Então ele gritou alto: ´Seguirei aquela luz, sozinho se ninguém quiser ir comigo, pois o navio que eu estiveconstruindo está agora quase pronto´. Mas quando ele disse isso recebeu em seu coração uma mensagem, que ele reconheceu vir dos Valar, embora em sua mente ele tenha lembrado como uma voz falando em sua própria língua. E a voz o alertou para não tentar este feito: pois sua força e habilidade não seriam capazes de construir nenhum barco capaz de desafiar os ventos e ondas do Grande Mar ainda por longos anos. ´Permaneça até aquele tempo, pois quando ele chegar seu trabalho será da máxima importância, e será lembrado em canções por muitas eras´. ´Eu obedeço´, Círdan respondeu, e então pareceu a ele ter visto (em uma visão, talvez) uma forma como a de um navio branco, brilhando sobre ele, que navegou para o oeste através do ar, e enquanto diminuia ao longe parecia como uma estrela de brilho tão grande que lançava uma sombra de Círdan sobre a praia onde ele estava.

Como sabemos agora, esta era a previsão do navio que após os ensinamentos de Círdan e com seus conselhos e ajuda, Earendil construiu, e no qual ele finalmente atingiu as prais de Valinor. Daquela noite em diante Círdan recebeu um poder de previsão em todos os assuntos importantes, além da medida de todos os outros Elfos na Terra-média.

Este texto é extraordinário pois por um lado nada é dito sobre a história e importância de Círdan como aparece em outros lugares, enquanto por outro lado quase tudo que é dito aqui é único. Nos “Anais Cinzentos” é dito (XI.8, $14):

Ossë persuadiu muitos a ficarem em Beleriand, e quando o Rei Olwë e seu grupo embarcaram na ilha e passaram sobre o Mar eles permaneceram no litoral, e Ossë retornou a eles e continuou sua amizade com eles. E ele ensinou-os a arte da contrução de navios e da navegação, e eles setornaram um povo de marinheiros, os primeiros da Terra-média.

Mas de Ossë agora não existe menção, a construção de navios no litoral de Beleriand é dito ter começado nos longos anos de espera dos Teleri pelo retorno de Ulmo, e é mencionado como (ver nota 29) como uma evolução de uma arte já desenvolvida entre os teleri durante a Grande
Jornada.

Outras características deste texto que não aparecem em nenhum outrolugar (em adição, claro, da história do desejo de Círdan de cruzar o Mar até Valinor e sua visão do navio branco indo a oeste através da noite, acima dele) são o fato dos teleri terem se demorado nas costas do Mar de Rhun durante a Grande Jornada (nota 29) que Círdan era olíder destes que buscavam por Elwe Thingol, seu parente, e que Eärendil foi ´ensinado´ por Círdan, que o auxiliou na construção de Vingilot.

Notas

29. Mesmo antes de chegarem a Beleriand os Teleri desenvolveram a arteda construção de barcos: primeiro como balsas e logo como barcos com remos em imitação aos pássaros aquáticos dos lagos próximos às suas casas iniciais ou especialmente durante sua longa permanência nos litorias do ´Mar de Rhun´, onde seus navios se tornaram maiores e mais fortes. Mas em todos estes trabalhos Círdan sempre foi o principal e mais inventivo e hábil.

30. Apenas Pengoloh menciona uma tradição entre os Síndar de Doriath de que este era em sua forma arcaica Nowë, cuja significado original é incerto, assim como o de Olwë.

31. [Apêndice B (nota de topo da Terceira Era): ´Pois Círdan via mais longe e mais profundamente do que qualquer outro na Terra-média´ (dito no contexto da entrega de Narya, o Anel de Fogo, a Mithrandir). Esta afirmação aqui na qual é dita ´nos Anais da Terceira Era (c.1000)´ é confusa, mas presumivelmente relatada às palavras da mesma passagem do Apêndice B ´Quando talvez mil anos se passaram… os Istari ou Magos apareceram na Terra-média´.]

32. Um nome Queny dado pelos exilados Noldor, e primariamente aplicado ao povo de Doriath, povo de Elwë Capa-cinzenta.

33. [Que Círdan era um parente de Elwë é mencionado no “Quendi e Eldar”]

34. Este é usado como um termo geral para o dialeto Teleriano do Eldarin, para o que veio a ser depois das mudanças de longos anos em beleriand, embora não seja inteiramente uniforme em seu desenvolvimento.

35. [“Quendi e Eldar”: ´Os Eglain tornaram0se um povo de alguma formaseparado dos Elfos do interior, e ao tempo da chegada dos Exilados sua língua era de muitas formas diferente´. (os Eglain eram o povo de Círdan)].

36. [Para Falatrhim ver “Quendi e Eldar”; e sonre Falmari: ´os Elfos do Mar se tornaram em Valinor os Falmari, pois faziam música junto às ondas quebrando na praia.´]

valinor

Leis e Costumes entre os Eldar

Leis e costumes entre os Eldar pertinentes ao casamento e a outros assuntos relacionados a isso: junto com o Estatuto de Finwë e Míriel e o debate dos Valar à sua realização

LEIS E COSTUMES ENTRE OS ELDAR PERTINENTES AO CASAMENTO E A OUTROS ASSUNTOS RELACIONADOS A ISSO: JUNTO COM O ESTATUTO DE FINWË E MÍRIEL E O DEBATE DOS VALAR À SUA REALIZAÇÃO


Preâmbulo de Ælfwine


[Os eldar cresciam em forma física mais lentamente que os homens, porém com mais rapidez em mente. Eles aprendiam a falar antes de completarem um ano de idade; e ao mesmo tempo eles aprendiam a andar e dançar, pois suas vontades logo vinham ao domínio de seus corpos. Na verdade, havia poucas diferenças entre as duas Famílias, elfos e homens, na infância; e um homem que observasse crianças élficas brincando, poderia muito bem acreditar que elas fossem filhas de homens, de algum povo belo e feliz. Pois nos seus primeiros dias, as crianças élficas deleitavam-se constantemente com o mundo ao redor delas, e o fogo de seus espíritos não as havia consumido ainda, e o fardo da memória ainda era leve sobre elas.

Este mesmo observador poderia ter se assombrado com a estatura e os pequenos membros destas crianças, ao julgar suas idades por suas habilidades com as palavras e graça ao mover-se. Pois ao final do terceiro ano, as crianças mortais começavam a superar os elfos rapidamente em estatura máxima, enquanto os elfos cresciam lentamente na primeira parte da infância. Os Filhos dos Homens podiam alcançar sua altura máxima enquanto os eldar da mesma idade ainda eram fisicamente como mortais de não mais que sete anos de idade. Os eldar não atingiam a estatura e forma, nas quais suas vidas seriam suportadas posteriormente, até o quinquagésimo ano, e algumas centenas de anos passavam antes que se tornassem adultos.]

1 – Do Casamento

Os eldar casavam-se em sua maioria na juventude e logo após o quinquagésimo ano. Eles tinham poucos filhos, mas estes eram muito caros a eles. Suas famílias, ou casas, eram mantidas unidas por amor e por um sentimento profundo pelo parentesco em mente e corpo; e as crianças necessitavam de pouca supervisão ou ensinamentos. Era raro haver mais de quatro crianças em cada casa, e o número crescia menos com o passar das eras; mas nos dias antigos, enquanto os eldar eram poucos e ansiavam por aumentar sua raça, Fëanor foi renomado por ser pai de sete filhos, e as histórias não mencionam ninguém que o tenha superado.

Os eldar casavam-se apenas uma vez em vida, e por amor ou pelo menos por livre vontade de cada parte. Mesmo quando nos dias posteriores, como as histórias revelam, muitos dos eldar na Terra-média tornaram-se corrompidos, e seus corações escurecidos pela sombra que estedia-se sobre Arda, raramente qualquer conto fala de atos de luxúria entre eles.

O casamento, salvo por raros males ocasionais ou por estranhos destinos, era o curso natural da vida de todos os eldar. Acontecia dessa maneira. Aqueles que posteriormente se casariam podiam escolher um ao outro ainda na juventude, mesmo como crianças [e de fato isto acontecia freqüentemente em dias de paz]; mas a não ser que eles desejassem logo estarem casados e fossem da idade apropriada, o noivado aguardaria o julgamento dos pais de ambas as partes.

A seu devido tempo, o noivado era anunciado em um encontro das duas casas envolvidas, e os noivos entregavam alianças de prata um ao outro. De acordo com as leis dos eldar, este noivado estava então comprometido a durar pelo menos um ano, e freqüentemente durava mais. Durante este período, ele poderia ser anulado por um retorno público das alianças, sendo as alianças então derretidas e não usadas novamente para um noivado. Tal era a lei; mas o direito de anulação era raramente usado, pois os eldar não erravam levianamente em tal escolha. Eles não são enganados facilmente pela sua própria raça; e sendo seus espíritos senhores de seus corpos, eles são raramente dominados apenas pelos desejos do corpo, pois eles são por natureza firmes e inabaláveis.

Apesar de tudo, entre os eldar, mesmo os de Aman, o desejo pelo casamento não era sempre realizado. Amor não era sempre correspondido; e mais de um poderia desejar outra por esposa. Cientes disto, o único motivo pelo qual a mágoa entrou na bem-aventurança de Aman, os valar ficaram em dúvida. Alguns sustentavam que isto vinha do desfiguramento de Arda, e da Sombra sob a qual os eldar despertaram; pois daí [eles diziam] vinha somente pesar e desordem. Alguns sustentavam que isto vinha do próprio amor, e da liberdade de cada fëa, e era um mistério da natureza dos Filhos de Eru.

Após o noivado, cabia aos noivos indicar a época de seu casamento, quando pelo menos um ano tivesse passado. Então em um banquete, novamente compartilhado pelas duas casas, o matrimônio era celebrado. Ao final do banquete, os noivos levantavam-se, e a mãe da noiva e o pai do noivo juntavam as mãos do casal e os abençoavam. Pois esta benção era uma forma solene, mas nenhum mortal jamais a presenciou; contudo, os eldar dizem que Varda era nomeada como testemunha pela mãe e Manwë pelo pai; e que além disso o nome de Eru era pronunciado [como raramente fora feito em outras épocas]. Os noivos então recebiam de volta um do outro suas alianças de prata [e as entesouravam]; mas eles davam em troca finos anéis de ouro, que eram colocados no dedo indicador da mão direita.

2 – Dos Nomes

Esta é a maneira pela qual o nome dos filhos era obtido entre os noldor. Logo após o nascimento, a criança era nomeada. Era o direito do pai escolher este primeiro nome, e era ele que anunciava o nome para os parentes da criança de ambos os lados. Este é chamado, por este motivo, o nome-pai, e este vinha primeiro, se outros nomes fossem adicionados posteriormente. Ele permanecia inalterado*, pois ele não recaia na escolha da criança.

* Exceto por mudanças como as que aconteciam na sua forma falada com o passar dos longos anos; pois [como é contado em outro lugar] mesmo as línguas dos eldar estavam sujeitas à mudanças.

Mas cada criança entre os noldor [neste ponto, talvez, eles diferiam dos outros eldar] tinha também o direito de dar um nome à si mesma. Ora, a primeira cerimônia, o anúncio do nome-pai, era chamada Essecarmë ou “Criação do Nome”. Posteriormente, havia outra cerimônia chamada Essecilmë ou “Escolha do Nome”. Esta acontecia sem uma data fixa após a Essecarmë, mas não podia acontecer antes da criança ser considerada pronta e capaz de lámatyávë, como os noldor chamavam: isto é, de satisfação individual nos sons e formas das palavras. Os noldor eram, de todos os eldar, os que adquiriam mais rapidamente o domínio das palavras; mas mesmo entre eles, poucos, pelo menos antes do sétimo ano, tornavam-se completamente cientes de sua lámatyávë, ou tinham ganho domínio completo da linguagem herdada e sua estrutura, assim como expressar essa tyávë habilmente dentro de seus limites. A Essecilmë, portanto, o objeto o qual era a expressão desta característica pessoal**, geralmente acontecia no, ou próximo do, décimo ano.

** Esta lámatyávë era tida como uma marca de individualidade e, de fato, mais importante do que outras, como estatura, cor, e traços faciais.

Em tempos antigos, o “Nome Escolhido”, ou segundo nome, era geralmente idealizado despreocupadamente e, embora moldado conforme a estrutura da linguagem da época, ele freqüentemente não possuia sentido prévio. Em eras posteriores, quando havia uma grande abundância de nomes já em existência, ele era mais freqüentemente selecionado a partir de nomes que eram conhecidos. Mas, ainda assim, alguma modificação do antigo nome podia ser feita.

Ora, estes dois nomes, o nome-pai e o nome escolhido, eram “nomes verdadeiros”, não apelidos; mas o nome-pai era público, e o nome escolhido era privado, especialmente quando usado sozinho. Privado, não secreto. Os nomes escolhidos eram considerados pelos noldor como parte de sua propriedade pessoal, como [dizem] seus anéis, taças, ou facas, ou outras possessões que eles pudessem emprestar, ou partilhar com a família e amigos, mas que não podiam ser pegos sem permissão. O uso do nome escolhido, exceto por membros da mesma casa [pais, irmãs e irmãos], era um sinal de estreita intimidade e amor, quando permitido. Era, portanto, atrevimento ou um insulto usá-lo sem permissão.***

*** Este sentimento não tinha, assim, nada a ver com “magia” ou com tabus, como são encontrados entre os homens.

Uma vez que, entretanto, os eldar eram por natureza imortais dentro de Arda, mas não eram absolutamente imutáveis, após algum tempo alguém poderia desejar um novo nome.† Ele podia então criar para si mesmo um novo nome escolhido. Mas este não anulava o nome anterior, que permanecia parte do “título completo” de qualquer noldo: esta é a seqüência de todos os nomes que foram adquiridos no decorrer da vida.

† Os eldar sustentavam que, à parte dos casos de doença e da destruição de seus corpos eles podiam, no decorrer de seus anos, exercitar e aproveitar todos os variados talentos de sua raça, de habilidade ou de tradição, embora em ordem e graus diferentes. Com tais mundaças de “modo mental” ou inwisti, sua lámatyávë também podia mudar. Mas tais mudanças ou progressões eram na verdade vistas principalmente entre os neri, pois as nissi, ainda que alcançassem a maturidade mais cedo, permaneciam então mais estáveis e menos desejosas por mudanças. [De acordo com os eldar, a única “marca” de qualquer pessoa que não estava sujeita a mudança era a diferença de sexo. Pois isto eles acreditavam pertencer não somente ao corpo [hröa], mas também à mente [indo] igualmente: isto é, à pessoa como um todo. Esta pessoa ou indivíduo, eles freqüentemente chamavam essë [que é “nome”], mas ela também era chamada erdë, ou “singularidade”. Aqueles que retornavam de Mandos, entretanto, após a morte de seu primeiro corpo, retornavam sempre ao mesmo nome e ao mesmo sexo como anteriormente.]

Estas mudanças deliberadas do nome escolhido não eram freqüentes. Havia outra fonte da variedade de nomes usados por qualquer um dos eldar, que na leitura de suas histórias, pode parecer-nos confusa. Esta era encontrada nos Anessi: os nomes dados ou adicionados]. Destes, os mais importantes eram os chamados “nomes-mãe”. As mães freqüentemente davam aos seus filhos nomes especiais de sua própria escolha. Os mais notáveis destes eram os “nomes de discernimento”, essë tercenyë, ou de “previdência”, apacenyë. Na hora do nascimento, ou em alguma outra ocasião de momento, a mãe podia dar um nome ao seu filho, indicando alguma característica dominante de sua natureza percebida por ela, ou alguma visão de seu destino especial. Estes nomes tinham autoridade, e eram considerados nomes verdadeiros quando conferidos solenemente, e eram públicos, não privados, se postos [como às vezes era feito] imediatamente após o nome-pai.

Todos os outros “nomes dados” não eram nomes autênticos e, de fato, podiam não ser reconhecidos pela pessoa a qual eles eram aplicados, a menos que eles fossem adotados ou dados a si próprio. Nomes, ou apelidos desse tipo, podiam ser dados por qualquer pessoa, não necessariamente por membros da mesma casa ou família, em memória de alguma façanha, ou evento, ou em sinal de alguma característica marcante de corpo ou mente. Eles raramente eram incluídos o “título completo”, mas quando o eram, por causa de seu amplo uso e fama, eles eram postos no final em alguma forma como esta: “por alguns chamado Telcontar” [que é Passolargo]; ou “às vezes conhecido como Mormacil” [que é Espada Negra].

Os amilessi tercenyë, ou nomes-mãe de discernimento, tinham uma posição elevada, e no uso geral substituíam algumas vezes, tanto dentro como fora da família, o nome-pai e o nome escolhido, embora o nome-pai [e o escolhido, entre aqueles dos eldar que tinham o costume da essecilmë] permanecesse sempre o nome verdadeiro ou primário, e uma parte necessária de qualquer “título completo”. Os “nomes de discernimento” eram dados mais frequëntemente nos dias antigos dos eldar, e naquela época eles caiam mais facilmente no uso público, pois ainda era o costume o nome-pai de um filho ser a modificação do nome do pai [como Finwë/Curufinwë] ou um patronímico [como Finwion “filho de Finwë”]. O nome-pai de uma filha era freqüentemente derivado do nome da mãe.

Exemplos célebres destas situações são encontrados nas histórias antigas. Assim Finwë, primeiro senhor dos noldor, primeiramente chamou seu filho mais velho de Finwion; mas posteriormente, quando seu talento foi revelado, este foi modificado para Curufinwë. Mas seu nome de discernimento que sua mãe Míriel lhe deu na hora do nascimento foi Fëanáro, “Espírito de Fogo”††, e por este nome ele tornou-se conhecido por todos, e assim ele é chamado em todas as histórias. [É dito que ele também tomou este nome como seu nome escolhido, em honra de sua mãe, que ele nunca viu.] Elwë, senhor dos teleri, tornou-se muito conhecido pelo anessë ou nome dado Sindicollo,”Manto Cinzento”, e daí em diante, na forma modificada da língua sindarin, ele foi chamado Elu Thingol. Thingol, de fato, era o nome mais usado para ele por outros, embora Elu ou Elu-thingol permanecesse seu título correto no seu próprio reino.

†† Embora a forma Fëanor, que é a mais usada com freqüência, fosse uma combinação do quenya Fëanáro e do sindarin Faenor.

3 – Da Morte e a Separação do Fëa e Hröa

Deve ser compreendido que o que já foi dito a respeito da casamento eldarin refere-se à sua natureza e curso normal em um mundo não-desfigurado, ou aos costumes daqueles não-corrompidos pela Sombra e aos dias de paz e ordem. Mas nada, como foi dito, evita completamente a Sombra sobre Arda ou é completamente intocado, a fim de prosseguir inabalado em seus caminhos naturais. Nos Dias Antigos, e nas eras anteriores ao Domínio dos Homens, houve épocas de grande dificuldade e muitos sofrimentos e acasos malígnos. E a morte atingiu todos os eldar, como o fez a todas as coisas vivas em Arda, salvo apenas os valar: pois a forma visível dos valar origina-se de sua própria vontade e com o intuito de tornar o seu verdadeiro ser mais parecido com as vestimentas de elfos e homens do que aos seus corpos.

Ora, os eldar são imortais dentro de Arda de acordo com sua própria natureza. Mas se um fëa [ou espírito] habita e mantém-se unido a um hröa [ou corpo físico] que não é de sua própria escolha mas sim ordenado, e é feito da carne ou substância da própria Arda, então o sucesso desta união seria vulnerável pelos males que infligem dor à Arda, mesmo se esta união fosse pela natureza e com propósito permanente. Pois a despeito desta união, que é de um tipo que, segundo a natureza não-desfigurada, nenhuma pessoa viva [encarnada] pode existir sem um fëa, nem sem um hröa, mesmo o fëa e o hröa não são a mesma coisa; e embora o fëa não possa ser partido ou desintegrado por qualquer violência exterior, o hröa pode ser ferido e completamente destruído.

Se então o hröa é destruído, ou tão ferido que sua saúde cesse, cedo ou tarde ele “morre”. Isto é: torna-se doloroso para o fëa habitá-lo, não sendo nem um auxílio à vida e à vontade, nem uma satisfação usá-lo, de forma que o fëa abandona-o e, sua função chegando a um fim, a coesão é desfeita, e ele retorna novamente à orma [matéria física] geral de Arda. Então o fëa torna-se, como no início, desabrigado, e fica invisível a olhos físicos [embora claramente perceptível pela consciência por outros fëar].

Esta destruição do hröa, causando a morte ou o desalojamento do fëa, foi logo experimentada pelos imortais eldar, quando despertaram no escurecido e desfigurado reino de Arda. Realmente, nos seus primeiros dias, a morte vinha mais facilmente, pois seus corpos eram então pouco diferentes dos corpos dos homens, e o domínio de seus espíritos sobre seus corpos menos completo.

Este domínio era, apesar de tudo, em qualquer época maior do que já foi entre os homens. Desde o início, a principal diferença entre os elfos e homens está no destino e na natureza de seus espíritos. Os fëar dos elfos eram destinados a habitar Arda por toda a vida de Arda, e a morte da carne não anulava este destino. Seus fëar eram tenazes por causa da vida “na vestimenta de Arda”, e de longe excediam os espíritos dos homens em poder sobre esta “vestimenta”, mesmo desde os primeiros dias, protegendo seus corpos de muitas enfermidades e agressões [tais como doenças], e curando-os rapidamente de ferimentos, de modo que eles recuperavam-se de ferimentos que mostravam-se fatais aos homens.

Com o passar das eras, o domínio de seus fëar sempre aumentava, “consumindo” seus corpos [como já foi mencionado]. O final desse processo é a sua “passagem”, como os homens o chamaram; pois o corpo torna-se finalmente, como o era, uma mera memória mantida pelo fëa; e este fim já foi alcançado em muitas regiões da Terra-média, de modo que os elfos são de fato imortais e não podem ser destruídos ou mudados. Tal o é que, quanto mais longe voltamos nas histórias, mais freqüentemente lemos sobre a morte dos elfos de antigamente; e nos dias quando as mentes dos eldalië eram jovens e ainda não totalmente despertas, a morte entre eles parecia diferir pouco da morte dos homens.

O que acontecia então ao fëa desabrigado? A resposta a esta pergunta os elfos não sabiam por natureza. Nos seus primórdios [assim eles relatam] eles acreditavam, ou imaginavam, que eles “entravam no Nada”, e terminavam como as outras coisas vivas que conheciam, mesmo como uma árvore que fora derrubada e queimada. Outros imaginavam mais sombriamente que eles passavam para o “Reino da Noite” e para o poder do “Senhor da Noite”. Essas opiniões eram claramente derivadas da Sombra sob a qual eles despertaram; e foi para libertá-los desta sombra em suas mentes, mais do que dos perigos de Arda desfigurada, que os valar desejaram levá-los para a luz de Aman.

Foi em Aman que aprenderam de Manwë que cada fëa era imperecível dentro da vida de Arda, e que seu destino era habitar Arda até o seu fim. Aqueles fëar, portanto, que no desfiguramento de Arda sofreram uma separação anormal de seus hröar, ainda permaneciam em Arda e no Tempo. Mas neste estado, eles estavam abertos à instrução e comando direto dos valar. Tão logo estivesem sem corpo, eles eram convocados a deixar os lugares de sua vida e morte e ir para os “Salões da Espera”: Mandos, no reino dos valar.

Se obedecessem a esta convocação, diferentes oportunidades apresentariam-se diante deles. O tempo que eles ficavam na Espera dependia parte da vontade de Námo, o Juiz, senhor de Mandos, parte de sua própria vontade. A maior das felicidades, eles julgavam, era após a Espera, renascer, pois então o mal e a tristeza que sofreram no encurtamento de seu curso natural podia ser reparado.

4 – Renascimento e outros destinos daqueles que vão para Mandos

Ora, os eldar diziam que, para cada criança élfica, um novo fëa é dado, não aparentado aos fëar dos pais [exceto pertencer à mesma ordem e natureza]; e este fëa ou não existia antes do nascimento, ou é o fëa de alguém renascido.

O novo fëa, e portanto no seu início todos os fëar, eles acreditavam vir diretamente de Eru e de além de Ëa. Logo, muitos deles sustentavam que não podia se afirmado que o destino dos elfos é estar confinado em Arda eternamente e com ela cessar sua existência. Esta última opinião eles inferiram de seu próprio pensamento, pois os valar, não tomando parte na concepção dos Filhos de Eru, não sabem completamente os propósitos de Eru a respeito deles, nem os objetivos finais que ele prepara para eles.

Mas eles não chegaram a estas opiniões de uma vez ou sem discordância. Em sua juventude, enquanto seu conhecimento e experiência eram pequenos e ainda não haviam recebido a instrução dos valar [ou não a tinham compreendido completamente], muitos ainda sustentavam que na criação de sua raça, Eru entregou-lhes este poder: gerar crianças iguais a eles em todos os aspectos, corporal e espiritualmente; e que, portanto, o FEA de uma criaça vinha de seus pais, assim como o hröa.

Contudo, alguns sempre discordaram dizendo: “De fato, uma pessoa viva pode parecer-se com os pais e ser vista como uma combinação, em vários graus, destes dois; mas esta semelhança é mais logicamente relacionada ao hröa. Ele é mais forte e mais nítido na juventude, enquanto o corpo é dominante e mais semelhante aos corpos de seus pais.” [Isto é verdadeiro para todas as crianças élficas.] “Visto que em todas as crianças, apesar de que em algumas possa ser mais marcante e logo aparente, existe uma parte da personalidade não compreendida pelo parentesco, ao qual pode ser inteiramente contrária. Esta diferença é mais claramente atribuída ao fëa, novo e não aparentado com os pais; pois ela torna-se mais forte e mais clara enquanto a vida prossegue e o fëa aumenta em supremacia.”

Posteriormente, quando os eldar tornaram-se cientes do renascimento, este argumento foi adicioado: “Se os fëar das crianças fossem normalmente derivados dos pais e a eles aparentados, então o renascimento seria antinatural e injusto. Pois ele privaria os novos pais, sem consentimento, de metade de sua linhagem, colocando em sua família uma criança em parte estranha a eles.”

Apesar de tudo, a opinião mais antiga não foi totalmente invalidada. Pois todos os eldar, estando cientes disto em si próprios, falavam da passagem de muita força, mental e corporal, para suas crianças, na concepção e no nascimento. Logo, eles sustentavam que o fëa, embora não criado, extrai energia dos pais antes do nascimento da criança: diretamente do fëa da mãe enquanto ela carrega e nutre o hröa, e igualmente através do pai, cujo fëa está unido com o da mãe e o suporta.

Era por esta razão que todos os pais desejavam viver juntos no ano da gestação, e consideravam a separação nessa época como uma tristeza e aflição, privando a criança de uma parte de sua família. “Pois”, diziam eles, “apesar da união dos fëar do casal não ser quebrada pela distância de lugares, mesmo em criaturas que vivem como espíritos encarnados, fëa somente comuna com fëa em sua totalidade quando os corpos estão juntos”.

Um fëa desabrigado que escolhera, ou ao qual fora permitido retornar à vida, entrava novamente no mundo encarnado através do parto. Somente desse modo ele poderia retornar.* Pois é evidente que a provisão de um lar corpóreo para o fëa, e a união do fëa com o hröa, era feita por Eru aos Filhos, para ser completada no ato da concepção.

* Salvo em raros e estranhos casos: isto é, onde o corpo que o fëa tivesse abandoado fosse intacto, e ainda permanecesse coeso e incorrupto. Mas isto poderia raramente acontecer; pois a morte contra a vontade somente podia ocorrer quando uma grande violência fosse causada ao corpo; e na morte pela vontade, tal como ocasionalmente acontecera por causa de cansaço absoluto ou grande pesar, o fëa não desejaria retornar, até que o corpo, deixado pelo espírito, estivesse dissolvido. Isto acontecia rapidamente na Terra-média. Somente em Aman não havia deterioração. Assim, Míriel lá foi realojada em seu próprio corpo, como é contado mais adiante.

Quanto a esse renascimento, ele não era uma opinião, mas conhecido e certo. Pois o fëa renascido de fato torna-se uma criança, desfrutando uma vez mais de todas as maravilhas e novidades da infância; mas lentamente, e somente após ter adquirido um conhecimento do mundo e o domínio de si mesmo, sua memória despertaria; até que, quando o elfo renascido fosse adulto, recordasse toda sua vida anterior, e então a antiga vida, e a “espera”, e a nova vida tornassem-se uma identidade e uma história ordenada. Esta memória possuiria assim uma satisfação dobrada pela infância, e também uma experiência e conhecimento maiores do que os anos de seu corpo. Deste modo, a violência ou pesar que o renascido sofrera eram reparados e seu ser era enriquecido. Pois os renascidos são duplamente instruídos e duplamente aparentados**, e possuem duas memórias da alegria de despertar e descobrir o mundo dos vivos e o esplendor de Arda. Sua vida é, portanto, como se um ano tivesse duas primaveras e, embora um frio fora de época seguisse-se após a primeira, a segunda primavera e todos os verões posteriores eram mais belos e abençoados.

** Em alguns casos, um fëa renascido poderia novamente ter os mesmos pais. Por exemplo, se seu primeiro corpo tivesse morrido muito jovem. Mas isto não acontecia freqüentemente; nem um fëa reingressava necessariamente na sua antiga família [ou casa], pois normalmente um grande espaço de tempo passava-se antes que desejasse ou lhe fosse permitido retornar.

Os eldar dizem que o renascimento por mais de uma vez é raramente registrado. Mas as razões para isto eles não sabem completamente. Talvez, seja ordenado pela vontade de Eru; enquanto os renascidos [eles dizem] são mais fortes, possuindo maior domínio de seus corpos e sendo mais resignados quanto ao sofrimento. Mas muitos, sem dúvida, que tenham morrido duas vezes, não desejam retornar.

O renascimento não é o único destino dos fëar desabrigados. A Sombra sobre Arda não causava apenas infortúnios e danos ao corpo. Ela podia corromper a mente; e aqueles entre os eldar que foram escurecidos em espírito realizavam feitos não naturais, e eram capazes de ódio e malícia. Nem todos que morreram sofreram inocentemente. Além disso, alguns fëar pesarosos e cansados abandonavam a esperança e, afastando-se da vida, abdicavam de seus corpos, mesmo que estes pudessem ser curados ou estivessem de fato ilesos.*** Poucos destes posteriormente desejavam renascer, não até que ficassem um longo período na “espera”; alguns nunca retornavam. Dos outros, os culpados, muitos eram mantidos por muito tempo na “espera”, e a alguns não era permitido retomar suas vidas novamente.

*** Apesar das tristezas poderem ser grandes e completamente não merecidas, e a morte [ou particularmente o abandono da vida] pudesse ser, então, compreensível e inocente, dizia-se que a recusa de retornar à vida, após o repouso em Mandos, era um erro, mostrando uma fraqueza ou falta de coragem do fëa.

Pois havia, para todos os fëar dos Mortos, um período de Espera, no qual, como quer que tenham morrido, eles eram corrigidos, instruídos, fortalecidos, ou confortados, de acordo com suas necessidades ou merecimento. Se eles assim o consentissem. Mas o fëa em sua nudez é obstinado, e permanece vinculado à sua memória e aos seus antigos propósitos [especialmente se estes eram malignos].

Aqueles que eram curados poderiam renascer, se o desejassem: ninguém é renascido ou mandado de volta à vida contra a vontade. Os outros permaneciam, por desejo ou por ordem, fëar sem forma, e podiam apenas observar o desenrolar do Conto de Arda de longe, não tendo efeito algum neste. Pois era uma sentença de Mandos que apenas aqueles que retornavam à vida podiam operar em Arda, ou comunicar-se com os fëar dos Vivos, mesmo com aqueles que haviam sido caros a eles.

A respeito do destino de outros elfos. especialmente dos elfos-escuros que recusaram o chamado à Aman, os eldar pouco sabem. Os renascidos relatam que em Mandos existem muitos elfos, e entre eles muitos dos Alamanyar [no Silmarillion, Úmanyar], mas que há, nos Salões da Espera, pouca mistura ou comunicação de raça com raça ou, na verdade, de qualquer fëa com outro. Pois o fëa desabrigado é solitário por natureza, e somente volta-se na direção daqueles com os quais, talvez, tivesse formado fortes laços de amor em vida.

O fëa é único e, no final, impregnável. Ele não pode ser levado a Mandos. Ele é convocado; e a convocação procede apenas da autoridade, e é imperativa; ainda assim, ela pode ser recusada. Entre aqueles que recusaram a convocação [ou melhor dizendo, convite] dos valar à Aman nos primeiros anos dos elfos, recusas às convocações a Mandos e aos Salões da Espera são,os eldar dizem, freqüentes. Isto era menos freqüente, entretanto, nos dias antigos, enquanto Morgoth estava em Arda, ou seu servo Sauron depois dele; pois então o fëa desabrigado fugiria aterrorizado da Sombra para qualquer refúgio – a não ser que já estivesse comprometido com a Escuridão e passado ao seu domínio. De qualquer maneira, mesmo alguns daqueles dos eldar que tornaram-se corrompidos recusavam a convocação, e então possuiam pouco poder para resistir às contraconvocações de Morgoth.

Mas pareceria que nestes dias posteriores mais e mais elfos, sejam eles dos eldalië em origem, sejam de outras raças, que demoram-se agora na Terra-média recusam a convocação de Mandos, e vagam desabrigados no mundo†, negando-se a deixá-lo e incapazes de habitá-lo, assombrando árvores, fontes ou lugares ocultos que conheciam. Nem todos destes são amigáveis ou intocados pela Sombra. De fato, a recusa à convocação é em si um sinal de mácula.

† Pois apenas aqueles que desejavam ir a Mandos podiam renascer. O renascimento é uma graça, e vem do poder que Eru entregou aos valar para governar Arda e a reparação de seu desfiguramento. Ele não situa-se no poder de qualquer fëa em si. Somente retornam aqueles que, após Mandos ter pronunciado a sentença de liberação, Manwë e Varda abençoam.

É, portanto, algo imprudente e arriscado, além de ser um ato errado proibido justamente pelos Governantes de Arda, os vivos tentarem se comunicar com os desencarnados, embora os desabrigados possam desejá-lo, especialmente os mais indignos entre eles. Pois os desencarnados, vagando pelo mundo, são aqueles que no mínimo recusaram a porta da vida e continuaram pesarosos e auto-piedosos. Alguns são preenchidos com rancor, desgosto e inveja. Alguns eram escravizados pelo Senhor do Escuro e ainda fazem o seu trabalho, apesar de ele ter partido. Eles não dirão verdades ou sabedoria. Apelar-lhes é uma tolice. Tentar dominá-los e fazê-los servos da própria vontade de alguém é perversidade. Tais práticas são as de Morgoth; e os necromantes são da hoste de Sauron, seu servo.

Alguns dizem que os desabrigados desejam corpos, apesar de não quererem fazê-lo legalmente pela submissão ao julgamento de Mandos. Os perversos entre eles tomarão corpos, se puderem, contra a lei. O perigo de comunicar-se com eles não é, entretanto, apenas o risco de ser iludido por fantasias ou mentiras: há também o perigo da destruição. Pois algum dos famintos desabrigados, se lhe for permitido a amizade de alguém vivo, pode procurar expulsar o fëa de seu corpo; e no duelo pelo domínio, o corpo pode ser gravemente ferido, mesmo se não for arrancado de seu habitante de direito. Ou o desabrigado pode implorar por abrigo e, se lhe for concedido, então ele procurará escravizar seu hospedeiro e usar tanto sua vontade como seu corpo para seus próprios propósitos. É dito que Sauron realizou tais atos, e ensinou seus seguidores com fazê-los.

[Assim pode ser visto que, aqueles que em dias posteriores acreditam que os elfos são perigosos para os homens e que é estupidez ou reprovável procurar conversar com eles, não o dizem sem razão. Pois como, pode ser perguntado, pode um mortal distinguir as raças? De um lado, os desabrigados, rebelam-se pelo menos contra os Governantes, e talvez mesmo mais profundamente sob a Sombra; do outro, os hesitantes, cujas formas corpóreas não podem mais ser vistas por nós mortais, ou enxergadas apenas vagamente e esporadicamente. Mesmo assim a resposta, na verdade, não é difícil. O mal não é uma coisa entre os elfos e outra entre os homens. Aqueles que dão conselhos malignos, ou pronunciam-se contra os Governantes [ou se ousarem, contra o Uno], são corrompidos, e devem ser evitados, encarnados ou desencarnados. Além disso, os hesitantes não são desabrigados, embora possam parecer. Eles não desejam corpos, nem procuram abrigo, nem aspiram ao domínio sobre corpo ou mente. De fato, eles não procuram conversar com os homens de nenhuma maneira exceto, talvez, raramente, para o feito de algum bem, ou porque percebem no espírito de um homem algum amor pelas coisas antigas e belas. Então eles podem revelar-lhe suas formas [apesar de que talvez sua mente compreenda apenas exteriormente], e ele irá contemplá-los em sua beleza. Destes ele pode não ter medo, embora possa sentir um temor por eles. Pois os desabrigados não possuem formas para revelar, e mesmo se estivesse ao alcance de seus poderes [como alguns homens dizem] imitar formas élficas, iludindo as mentes dos homens com fantasias, tais visões seriam distorcidas pelo mal de seu intento. Pois os corações de homens verdadeiros enchem-se de alegria ao contemplar as verdadeiras imagens dos Primogênitos, sua família mais antiga; e esta alegria nenhum mal pode reproduzir. Assim falou Ælfwine.]

Tradução de Gabriel Oliva Brum

Húrin

As Andanças de Húrin

As andanças do infeliz Húrin, após ser liberto por Melkor.
E assim terminou o conto de Túrin o infeliz, o
pior dos trabalhos de Morgoth entre os Homens no mundo antigo. Mas
Morgoth não dormiu nem descansou de sua maldade, e esse não foi o fim
de seus negócios com a Casa de Hador, contra a qual sua malícia era
insaciável, pois Húrin estava sob seu Olho, e Morwen vagava perturbada
pelos ermos.Infeliz era a sina de Húrin.

Pois tudo o que Morgoth sabia das maquinações de sua malícia, Húrin
sabia também; mas suas mentiras eram misturadas com a verdade, e tudo
aquilo que era bom era escondido ou distorcido. Aquele que enxerga
através dos olhos de Morgoth, querendo ou não, enxerga todas as coisas
corrompidas.

Um dos esforços especiais de Morgoth era lançar uma luz maligna sobre
tudo aquilo que Thingol e Melian construíram, pois ele os temia e
odiava acima de tudo; e quando, então, considerou ter chegado a hora,
no ano após a morte de Túrin, libertou Húrin, permitindo que partisse
para onde desejasse.

Ele mentiu que fora movido pela pena de um inimigo completamente
derrotado, maravilhado por sua resistência. ‘Tal firmeza’, disse ele,
‘deveria ter se mostrado em uma causa melhor, e teria sido recompensada
de outra forma. Mas eu não tenho mais uso para você, Húrin, na sua
pálida vidinha.’E ele mentiu, pois seu propósito era que Húrin
continuasse a estender a sua malícia contra Elfos e Homens, antes de
morrer.

Então, mesmo não acreditando em praticamente nada do que Morgoth
dissera ou fizera, sabendo que ele não estava piedoso, ele pegou a sua
liberdade e seguiu em pesar, amargado pelos artifícios do Senhor do
Escuro. Por vinte e oito anos, Húrin estivera cativo em Angband…

É dito que os caçadores de Lorgan seguiram seus rastros e não
abandonaram sua trilha até que ele e seus companheiros subiram pelas
montanhas. Quando Húrin chegou novamente aos lugares altos, ele olhou
de relance pelas nuvens nos picos da Crisaegrim, e ele lembrou de
Turgon; e seu coração desejou retornar para o Reino Escondido, se
pudesse, ou ao menos lá ele seria lembrado com honra.

Ele não ouviu nenhuma das coisas que aconteceram em Gondolin, e não
sabia que Turgon endurecera seu coração contra a sabedoria e a piedade,
e não permitia que ninguém entrasse ou saísse por qualquer motivo.
Então, sem saber que todos os caminhos estavam trancados além da
esperança, ele resolveu rumar em direção a Crisaegrim, mas ele nada
falou aos seus companheiros sobre seus propósitos, pois ele ainda
estava ligado ao seu juramento de não revelar a ninguém que conhecesse
sequer a região em que Turgon habitava.

Porém ele precisava de ajuda; pois ele nunca vivera nos ermos, onde
foras-da-lei estavam há muito acostumados à vida dura de caçadores e
ceifeiros, e carregavam consigo tanta comida quanto conseguiam, apesar
de o Inverno Mortal ter diminuído seus mantimentos. Assim, Húrin falou
a eles: ‘Nós devemos abandonar esta terra agora; pois Lorgan não me
deixará mais em paz. Rumemos para os vales do Sirion, onde a primavera
finalmente chegou!’

Então Asgon os guiou por um dos antigos caminhos que levavam para o
leste de Mithrim, e eles desceram pelas nascentes do Lithir, até que
chegaram às cachoeiras que corriam até o Sirion ao final da Terra
Estreita. E lá eles chegaram exaustos, pois Húrin confiava pouco na
‘liberdade’ que Morgoth lhe garantira. E ele estava correto: Morgoth
tinha notícias de todos os seus movimentos, e o tempo em que esteve
escondido nas montanhas, a sua descida foi rapidamente espionada. A
partir de então, ele foi seguido e observado com tal astúcia que ele
raramente tinha qualquer pista disso. Todas as criaturas de Morgoth
evitavam o seu caminho, e ele não foi emboscado ou atacado.

Eles rumaram para o sul, pelo lado oeste do Sirion, e Húrin pensava
consigo mesmo como se separar de seus companheiros, ao menos por tempo
suficiente para poder procurar por uma entrada para Gondolin sem trair
a sua palavra. Finalmente eles alcançaram Brithiach, e lá Asgon disse a
Húrin: ‘Para onde iremos agora, Senhor? Além deste vau os caminhos são
muito perigosos para os homens mortais, se o que dizem é verdade.’

‘Então rumemos para Brethil, que é perto daqui,’ disse Húrin. ‘Eu tenho uma missão lá. Naquela terra meu filho morreu.’

Então, naquela noite eles se abrigaram em um bosque de árvores, as
primeiras da Floresta de Brethil em sua fronteira norte, próxima do sul
do Brithiach.

Húrin se deitou separado dos outros; e no dia seguinte antes do Sol
nascer, enquanto eles dormiam exaustos, ele os abandonou e cruzou o vau
e chegou a Dimbar.

Quando os homens despertaram, ele já estava longe, e havia uma grossa
neblina da manhã sobre o rio. O tempo passou e, não tendo retornado nem
respondido aos chamados, eles começaram a temer que ele fora atacado
por alguma fera ou por algum inimigo que espreitava. ‘Nós fomos
negligentes’, disse Asgon. ‘A terra está quieta, quieta demais, mas
existem olhos sob as folhas e ouvidos atrás das pedras.’

Eles seguiram o seu rastro quando a neblina se ergueu; mas ele levou
para o vau e lá desapareceu, e eles estavam perdidos. ‘Se ele nos
deixou, deixe-nos voltar para nossa terra,’ disse Ragnir. Ele era o
mais novo na companhia, e pouco recordava dos dias que antecederam a
Nirnaeth. ‘O raciocínio do velho é selvagem. Ele fala com com a sombra
com vozes estranhas enquanto dorme.’

‘Pouco me espanta se for verdade’, disse Asgon. ‘Mas quem mais poderia
permanecer tão forte depois de tanta angústia? Não, ele é nosso senhor,
faça o que fizer, e eu jurei segui-lo.’

‘Até mesmo para o leste além do vau?’ perguntaram os outros.

‘Não, existe pouca esperança naquele caminho’, disse Asgon, ‘e eu não
creio que Húrin irá muito distante por lá. Tudo o que sabemos de seus
propósitos é que ele queria ir o mais cedo possível para Brethil, e que
ele tem uma missão lá. Nós estamos exatamente na fronteira. Vamos
procurar por ele lá.’

‘Com a permissão de quem?’ disse Ragnir. ‘Os homens de lá não gostam de estranhos.’

‘Bons homens habitam lá,’ disse Asgon, ‘e o Senhor de Brethil é parente
dos nossos Senhores.’ Mesmo assim, os outros estavam em dúvidas, pois
nenhuma notícia tem saído de Brethil nos últimos anos. ‘Pode ser
governado por Orcs, pelo que sabemos,’ disseram eles. ‘Nós logo iremos
descobrir como andam as coisas’, disse Asgon. ‘Orcs são pouco piores
que o povo do Leste, eu acho. Se foras-da-lei devemos permanecer, eu
prefiro espreitar pelas belas florestas em vez das colinas geladas.

Então Asgon foi em direção a Brethil; e os outros o seguiram, pois ele
tinha um coração resoluto e os homens diziam que ele nascera com boa
sorte. Antes do fim daquele dia eles já estavam nas profundezas da
floresta, e a chegada deles estava marcada; pois os Haladin estavam
mais atentos do que nunca, e observavam suas fronteiras de perto. Na
hora cinza que antecede a manhã, praticamente todos os intrusos
dormiam, seu acampamento foi cercado e seus vigias foram amordaçados
logo que alertaram os outros.

Então Asgon se levantou, e mandou que seus homens não desembainhassem
suas armas. ‘Vejam agora,’disse ele, ‘nós viemos em paz! Nós somos
Edain de Dorlomin.’

‘Mas o porquê da sua vinda eu não sei,’disseram os vigias. ‘Mas a manhã
ainda está escura. Nosso líder irá fazer melhor julgamento de vocês
quando estiver mais claro.’

Então, com muitos homens a menos, Asgon e seus homens foram feitos
prisioneiros, e suas armas foram tomadas e suas mãos atadas; e assim
foram levados para a frente do novo Senhor dos Haladin.

Ele era Harathor, irmão de Hunthor, que morreu na ravina de Taeglin.
Pela a morte de Brandir, que não deixara filhos, ele herdara o comando
por descendência de Halad. Ele não tinha amor por aqueles da casa de
Hador, e não compartilhava do mesmo sangue; e disse para Asgon, quando
os capturados estavam perante ele: ‘De Dorlomin você vem, me disseram,
e sua fala comprova isso. Mas o porquê da sua vinda eu não sei.’

‘Então são Edain do norte,’disse ele. ‘Sua fala comprova isso, bem como
seus equipamentos. Você busca amizade, talvez. Mas ai de mim! coisas
más recaíram sobre nós aqui, e nós vivemos com medo. Manthor, meu
senhor, Mestre da Marca do Norte, não está aqui, e eu devo, então,
obedecer aos comandos de Halad, o líder de Brethil. Para ele vocês
devem ser enviados sem mais perguntas. Lá vocês poderão ter alguma
sorte!’

Então Ebor falou cortesmente, mas ele não tinha muitas esperanças. Pois
o novo líder era agora Hardang, filho de Hundad. Na morte de Brandir
sem filhos, ele foi feito Halad, sendo um dos Haladin, da família de
Haleth, de onde todos os capitães eram escolhidos. Ele não amava Túrin,
e ele agora não possuía amor nenhum pela Casa de Hador, de cuja
linhagem ele não fazia parte. Nem tinha muita amizade por Manthor, que
também era dos Haladin.

Para Hardang, Asgon e seus homens seguiam caminhos desonestos, e eles
foram vendados. Assim, finalmente chegaram ao salão dos capitães em
Obel Halad; e seus olhos foram descobertos, e os guardas os conduziram
para dentro. Hardang estava sentado em sua grande cadeira, e ele os
encarou com frieza.

‘Vocês vêm de Dor-lómin, segundo me disseram,’ disse ele. ‘Mas porque
vocês vieram aqui eu não sei. Poucas coisas boas vêm para Brethil
daquela terra, e eu não estou olhando para nenhuma coisa boa agora: é
um feudo de Angband. Saudações frias encontrarão aqui, se esgueirando
até aqui para nos espionar!’

Asgon controlou sua fúria, mas respondeu, determinado: ‘Nós não nos
esgueiramos até aqui, senhor. Nós somos tão hábeis nas florestas quanto
seu povo, e nós não teríamos sido capturados tão facilmente se
tivéssemos qualquer motivo para temer. Nós somos Edain, e não servimos
Angband, mas defendemos a Casa de Hador. Nós pensávamos que os homens
de Brethil fossem assim também, e amigáveis a todos os homens de
boa-fé.’

‘Para aqueles que provaram a sua fé,’ disse Hardang. ‘Ser simplesmente
Edain não é suficiente. E, no que concerne à casa de Hador, pouco amor
é tido aqui. Por que o povo dessa casa vem aqui agora?’ Isto Asgon não
respondeu; pois, devido à hostilidade do líder, ele achou melhor não
mencionar Húrin ainda.

‘Percebo que não falarás tudo o que sabes,’ falou Hardang. ‘Que assim
seja. Deverei fazer meu julgamento com o que vejo; mas serei justo.
Este é meu julgamento. Aqui Túrin, filho de Húrin permaneceu por um
tempo, e ele livrou a nossa terra da Serpente de Angband. Por isto,
darei a vocês suas vidas. Mas ele desprezou Brandir, justo líder de
Brethil, e ele o matou sem justiça ou piedade. Assim, não os darei
abrigo. Vocês deverão sair por onde entraram. Vão agora, e se
retornarem, retornarão para a morte!’

‘Não devolverão nossas armas?’ perguntou Asgon. ‘Nos lançarão de volta
ao ermo sem arco e sem armadura para morrer entre os animais?’

‘Nenhum homem de Hithlum irá portar armas novamente em Brethil,’ disse Hardang. ‘Não com permissão minha. Tirem-nos daqui.’

Mas enquanto eram arrastados para fora do salão, Asgon gritou: Esta é a
justiça dos homens do Leste, não dos Edain! Nós não estivemos aqui com
Túrin, para o bem ou para o mal. Nós servimos a Húrin. Ele ainda vive.
Espreitando pelas suas florestas não o recorda a Nirnaeth? Vai
desonrá-lo também, com seu rancor, se ele vier?’

‘Se Húrin vier, você diz?’ disse Hardang. ‘Quando Morgoth dormir, talvez!’

‘Não,’ disse Asgon. ‘Ele retornou. Com ele nós viemos até suas
fronteiras. Ele tem uma missão a cumprir aqui, segundo nos disse. Ele
virá!’

‘Então eu estarei aqui para encontrá-lo,’ falou Hardang. ‘Mas vocês não
estarão. Agora vão!’ Disse ele em escárnio, mas sua face empalideceu em
um medo súbito de que acontecera um presságio de que o pior ainda
estaria por vir. Então um grande medo da sombra da Casa de Hador caiu
sobre ele, e então seu coração ficou negro. Pois ele não era um homem
de grande espírito, como eram Hunthor e Manthor, descendentes de Hiril.

Asgon e sua companhia foram vendados novamente, para que não
espionassem os caminhos de Brethil, e foram levados para a fronteira
norte. Ebor estava insatisfeito quando ouviu do que aconteceu em Obel
Halad, e ele falou a eles com cortesia.

‘Ai de mim!’, disse ele, ‘vocês devem seguir em frente novamente. Mas
vejam! Eu devolvo a vocês suas armas e equipamentos. Pois é o que meu
senhor Manthor faria, no mínimo. Quem dera ele estivesse aqui! Mas ele
é o mais bravo entrenós; e pelo comando de Hardang, é o líder da guarda
no vau de Taiglin. Lá nós temos mais medo de investidas, e é onde a
maioria dos ataques acontece. Bem, isto é o que farei; mas lhes
imploro, não entrem em Brethil novamente, pois se o fizerem, nós
seremos obrigados a obedecer à palavra de Hardang que se espalhou por
todas as fronteiras: matar vocês assim que os encontrar.’

Então Asgon o agradeceu, e os conduziu até as margens de Brethil, e os desejou uma boa jornada.

‘Bem, sua sorte permanece,’ disse Ragnir, ‘pois ao menos não fomos
mortos, apesar disso ter quase acontecido. O que faremos agora?’

‘Eu ainda desejo encontrar meu senhor Húrin,’ disse Asgon, ‘e meu coração me diz que ele ainda virá para Brethil.’

‘Para onde não podemos retornar,’ disse Ragnir, ‘ao menos que procuremos por uma morte mais rápida que a fome.’

‘Se ele vier, ele virá, eu acho, pela fronteira norte, entre o Sirion e
Taiglin,’ disse Asgon. É por lá que talvez teremos notícias.’

‘Ou flechas,’ disse Ragnir. Mesmo assim eles seguiram o conselho de
Asgon e seguiram para o oeste, cuidando sempre as bordas negras de
Brethil.

Mas Ebor estava preocupado, e reportou rapidamente a Manthor sobre a
vinda de Asgon e suas palavras estranhas sobre Húrin. Mas rumores
correram por Brethil sobre este assunto. E Hardang reuniu-se em Obel
Halad e se aconselhou com seus amigos.

Agora Húrin, chegando a Dimbar, reuniu todas suas forças e rumou
sozinho em direção aos pés negros de Echoriad. Toda a terra estava fria
e desolada; e quando ela finalmente apareceu, imensa, à sua frente, e
ele não conseguia encontrar formas de seguir adiante, ele parou e olhou
em sua volta com pouca esperança. Ele estava agora no pé de uma grande
avalanche sob uma imensa parede de pedras, e ele não sabia que era tudo
o que restava do antigo Caminho de Escape: o Rio Seco estava seco e o
portão arqueado, enterrado.Então Húrin olhou para o céu, pensando que, por algum lance de sorte,
ele poderia avistar novamente as Águias, como vira, há muito tempo, em
sua juventude. Mas ele viu apenas as sombras sopradas do Leste, e
nuvens formando redemoinhos em volta dos picos inacessíveis; e o vento
assobiando por sobre as pedras. Mas a vigília das Grandes Águias, e
elas marcaram Húrin, lá em baixo, desamparado sob a luz esvanecente. E
rapidamente Sorontar, já que as notícias pareciam importantes, reportou
a Turgon.
Mas Turgon falou: ‘Não! Isso é uma mentira! A não ser que Morgoth esteja dormindo. Você está errado.’

‘Não, não estou,’ respondeu Sorontar. ‘Se as Águias de Manwë cometessem
erros desta forma, Senhor, seu esconderijo teria sido em vão.’
‘Então tuas palavras trazem um mau presságio,’ disse Turgon; ‘pois elas
só podem significar que mesmo Húrin Thalion sucumbiu à vontade de
Morgoth. Meu coração está fechado.’ Mas quando ele dispensou Sorontar,
Turgon sentou e pensou, e ele estava preocupado, relembrando os feitos
de Húrin. E ele abriu seu coração, e ordenou que as Águias procurassem
por Húrin, a que o trouxessem, se pudessem, para Gondolin. Mas era
tarde de mais, e elas nunca mais o viram novamente, seja na luz, seja
na sombra.
Pois Húrin permaneceu em desespero perante o severo silêncio de
Echoriad, e o sol poente, rasgando as nuvens, manchando seu cabelo
branco com vermelho. Então ele gritou no ermo, negligente aos muitos
ouvidos, e ele amaldiçoou a terra impiedosa: ‘dura como os corações de
Elfos e Homens’. E ele parou, enfim, em frente a uma grande pedra, e
abrindo seus braços, olhando em direção a Gondolin, ele chamou com uma
grande voz: ‘Turgon, Turgon! Lembre-se do Pântano de Serech!’ E
novamente: ‘Turgon! Húrin chama por você. O Turgon, não irás me ouvir
dos teus salões escondidos?’Mas não houve resposta, e tudo o que ele ouviu foi o vento na grama
seca. ‘E ainda assim eles sibilam em Serech ao por do Sol’, disse ele.
E enquanto ele falava, o Sol passou para trás das Montanhas da Sombra,
e a escuridão caiu sobre ele, e o vento cessou, e o ermo ficou em
silêncio.

Entretanto, ouvidos escutaram as palavras que Húrin falou, e olhos
marcaram seus gestos; e o relatório de tudo chegou rápido ao Trono
Escuro no Norte. Então Morgoth sorriu, e soube claramente que Turgon
habitava naquela região, pois devido as Águias nenhum espião dele podia
chegar ao alcance do olho da terra atrás das montanhas circulantes.
Esse foi o primeiro mal que a liberdade de Húrin causou.

Enquanto a escuridão caía, Húrin pisou em falso na pedra, e caiu
desmaiado, em um profundo sono de pesar. Mas em seu sono ele ouviu a
voz de Morwen lamentando, e freqüentemente falou seu nome; e pareceu
para ele que aquela voz vinha de Brethil. Então, quando despertou com a
chegada do dia, ele se ergueu e retornou; e ele chegou novamente ao
vau, e, como se guiado por uma mão invisível, ele passou pelas bordas
de Brethil, até que, depois de uma jornada de quatro dias, chegou até
Taeglin, e toda sua escassa comida acabou, e ele estava faminto. Mas
ele prosseguiu como a sombra de um homem levado por um vento negro, e
ele chegou ao vau à noite, e lá ele o atravessou até Brethil.Os sentinelas noturnos o viram, mas eles estavam cheios de medo, então
eles não ousaram se mover ou gritar; pois eles pensaram que era um
fantasma vindo de uma montanha de mortos em combate que caminhava com a
escuridão em sua volta. E por muitos dias após, os homens temeram se
aproximar do vau à noite, a não ser com grande companhia e com fogo
aceso.

Mas Húrin passou, e na noite do sexto dia ele chegou finalmente ao
lugar da queima de Glaurung, e viu a pedra alta na beirada de Cabed
Naeramarth. Mas Húrin não olhou para a pedra, pois ele sabia o que
estava escrito ali, e seus olhos perceberam que não estava sozinho.
Sentado na sombra da pedra estava uma figura encurvada sobre seus
joelhos. Parecia um andarilho sem lar derrotado pela idade, cansando
demais para perceber sua chegada; mas seus farrapos eram retalhos de um
traje feminino. Húrin parou por um tempo em silêncio, então ela ergueu
seu capuz esfarrapado e levantou seu rosto lentamente, com aparência
selvagem e faminta como um lobo que fora caçado por muito tempo. Ela
era cinzenta, com o nariz fino e com dentes quebrados, e com uma das
mãos em forma de garra ela segurava a sua capa na altura do peito. Mas
de repente seus olhos encararam os dele e então Húrin a reconheceu;
pois apesar de serem selvagens agora, e cheios de medo uma luz ainda
brilhava neles que era difícil de suportar: a luz élfica que há muito
lhe dera seu nome, Edelwen, a mais orgulhosa das mulheres mortais nos
dias antigos.

‘Edelwen! Edelwen!’, gritou Húrin; e ela se levantou e cambaleou em frente, e ele a pegou em seus braços.

‘Finalmente você veio,’ ela disse. ‘Eu esperei por tempo demais.’

‘Foi uma estrada negra. Eu vim da forma que pude,’ respondeu.

‘Mas você está atrasado,’ ela disse, ‘atrasado demais. Eles estão perdidos.’

‘Eu sei,’ disse ele. ‘Mas você não está.’

‘Mas quase,’ disse ela. ‘Eu estou acabada. Eu devo partir com o sol.
Eles estão perdidos.’ Ela se segurou no casaco dele. ‘Sobrou pouco
tempo,’ ela disse. ‘Se você sabe, me diga! Como ela o encontrou?’ Mas
Húrin não respondeu, e ele sentou ao lado da pedra com Morwen em seus
braços; e eles não falaram novamente. O sol se pôs, e Morwen suspirou e
segurou sua mão e ficou inerte; e Húrin soube então que ela morrera.

E assim morreu Morwen, a orgulhosa e bela; e Húrin olhou para ela no
crepúsculo, e pareceu que as marcas de pesar e cruel privação
suavizaram. Sua face ficou fria e pálida e triste. ‘Ela não foi
conquistada,’ ele disse; e ele fechou os olhos dela, e sentou-se imóvel
ao lado dela enquanto a noite caía. As águas de Cabed Naeramarth
rugiam, mas ele não ouviu som algum, nem viu nada, nem sentiu nada,
pois seu coração estava duro como pedra, e ele pensou em permanecer ali
sentado até que também morresse.

Então veio um vendo frio e lançou uma chuva fina em seu rosto; e de
repente ele estava desperto, e com uma profunda raiva negra cresceu
dentro dele como uma fumaça, superando a razão, então tudo o que
desejava era buscar vingança pelos seus erros e pelos erros de sua
família, acusando em sua angústia todos aqueles que já tiveram negócios
com eles.

Ele levantou e ergueu Morwen; e de repente percebeu que erguê-la estava
além de suas forças. Ele estava faminto e idoso, e cansado como o
inverno. ‘Fique aqui mais um pouco, Edelwen,’ ele disse, ‘até que eu
retorne. Nem mesmo um lobo machucaria mais você. Mas o povo desta terra
dura irá se arrepender do dia em que você morreu aqui!’

Então Húrin se afastou, aos tropeços, e voltou para o vau de Taeglin e
lá ele caiu ao lado de Haud-en-Elleth, e uma escuridão se abateu sobre
ele, e ele permaneceu como se estivesse adormecido. Ao amanhecer, antes
que a luz o despertasse totalmente, ele foi encontrado pelos guardas
que Hardang mandara manter uma atenção especial naquele lugar.

Foi um homem chamado Sagroth que o encontrou primeiro, e ele o encarou
com espanto e sentiu medo, pois ele pensou que soubesse quem aquele
homem velho era. ‘Venham!’ gritou ele para os que o seguiam. ‘Olhem
aqui! Deve ser Húrin. Os intrusos falaram a verdade. Ele chegou!’

‘Você encontrou problemas, como sempre, Sagroth!’ disse Forhend.

‘O Halad não ficará satisfeito com o que encontraram. O que deverá ser
feito? Talvez Hardang ficaria mais satisfeito em ouvir que nós acabamos
com os problemas em suas fronteiras e os empurramos para fora.’

‘Empurramos para fora?’ disse Avranc. Ele era filho de Dorlas, um homem
jovem, baixo e escuro, porém forte, parecido com Hardang, como fora
também seu pai. ‘Empurramos para fora? Que bem isso causaria? Ele
voltaria novamente! Ele pode caminhar – todo o caminho desde Angband,
se é o que você está pensando. Veja! Ele é horrível e possui uma
espada, mas dorme profundamente. Deve ele despertar para mais angústia?
Se você quer satisfazer o líder, Forhend, acabe com ele aqui.’

Tamanha era a sombra que agora caía sobre s corações dos homens,
enquanto o poder de Morgoth crescia, e o medo se espalhava por toda a
terra; mas nem todos os corações tinham escurecido. ‘Envergonhe-se pelo
que disse!’ gritou Manthor, o capitão, que vinha por trás e ouviu o que
diziam. ‘E principalmente você, Avranc, que jovem obstinado você é! Ao
menos você ouviu sobre os feitos de Húrin de Hithlum, ou apenas as
conhece de fábulas contadas ao pé do fogo? O que deve ser feito, então?
Matá-lo em seu sono, esse é o seu conselho. Do inferno veio essa idéia!’

‘Assim como ele,’ respondeu Avranc. ‘Se realmente ele é Húrin. Quem pode saber?’

‘Pode ser descoberto em breve,’ disse Manthor; e se aproximou de Húrin
deitado, ajoelhando-se próximo a ele, e ergueu a sua mão e a beijou.
‘Acorde!’, ele gritou. ‘A ajuda está próxima. E se você é Húrin, não há
ajuda que eu creio ser suficiente.’

‘E nenhuma ajuda que ele não irá retribuir com mal,’ disse Avranc. ‘Ele vem de Angband, digo eu.’

‘O que ele pode vir a fazer nós não sabemos,’ disse Manthor. ‘O que ele
fez nós sabemos, e nossa dívida ainda não foi paga.’ Então ele falou
novamente, em voz alta: ‘Viva Húrin Thalion! Viva o capitão dos homens!’

Então Húrin abriu os olhos, lembrando de palavras malignas que ouvira
durante o sono, antes de acordar, e ele viu homens sobre ele com armas
em punho. Ele levantou tenso, tateando a sua espada; e ele olhou para
eles com raiva e descaso. ‘Malditos!’ ele gritou. ‘Matariam um velho em
seu sono? Vocês se parecem com homens, mas são orcs sob a pele, eu
acho. Então venham! Matem-me acordado, se é que ousam fazer isso. Mas
eu não irei satisfazer seu senhor negro, eu acho. Eu sou Húrin, filho
de Galdor, um nome que orcs ao menos lembrarão.’

‘Não, não,’ disse Manthor. ‘Não sonhe. Nós somos homens. Mas esses são
dias malignos e de dúvidas, e nós estamos sobre muita pressão. Esta
região é perigosa. Não quer vir conosco? Ao menos nós podemos lhe
proporcionar comida e descanso.’

‘Descanso?’ disse Húrin. ‘Vocês não podem me proporcionar isso. Mas, em minha necessidade, eu aceitarei comida.’

Então Manhor deu a ele um pouco de pão e carne e água; mas pareceram
engasgá-lo, e ele cuspiu fora. ‘A que distância estamos da casa de seu
senhor?’ ele perguntou. ‘Até que eu o veja, a comida que negaram à
minha amada não descerá pela minha garganta.’

‘Ele se irrita e nos despreza,’ resmungou Avranc. ‘O que eu disse?’ Mas
Manthor olhou para ele com piedade, apesar de não entender suas
palavras. ‘É uma longa estrada para os cansados, senhor,’ disse ele; ‘e
aqueles da casa de Hardang Halad estão escondidos dos estranhos.’

‘Então me leve para lá!’ disse Húrin. ‘Eu irei da forma que puder. Eu tenho uma missão naquela casa.’

Logo eles seguiram em frente. Da sua forte companhia, Manthor deixou
muitos cumprindo sua tarefa, mas ele caminhou com Húrin, e com ele
levou Forhend. Húrin caminhava como podia, mas depois de um tempo,
começou a tropeçar e a cair; e mesmo que sempre se reerguesse e lutasse
para continuar, não permitiria que ninguém o ajudasse.

Depois de muitas paradas pelo caminho, finalmente chegaram aos salões
de Hardang em Obel Halad, nas profundezas da floresta; e ele sabia da
sua chegada, pois Avrang, espontaneamente, correu na frente deles e
levou as notícias antes deles; e ele não esqueceu de reportar as
palavras selvagens de Húrin quando despertou e quando cuspiu fora sua
comida.

Então eles encontraram os salões bem guardados, com muitos homens na
cerca do pátio, e homens nas portas. No portão do pátio, o capitão dos
guardas os parou. ‘Entreguem o prisioneiro para mim!’ disse ele.

‘Prisioneiro!’ disse Manthor. ‘Eu não trago um prisioneiro, mas um homem a quem você deveria honrar.’

‘Essas são palavras de Halad, não minhas,’ disse o capitão. ‘Mas você pode vir também. Ele também tem palavras para você.’

Então eles levaram húrin até a presença do líder; e Hardang não o
cumprimentou, mas sentado em sua grande cadeira, olhou Húrin da cabeça
aos pés. Mas Húrin retornou o seu olhar, e se manteve o mais firme que
pode, apesar de estar apoiado em seu cajado. Então ele permaneceu um
tempo em silêncio, até que ele tombou no chão. ‘Vejam!’ ele disse. ‘Eu
vejo que existem tão poucas cadeiras em Brethil que um convidado deva
sentar no chão.’

‘Convidado?’ disse Hardang. ‘Nenhum convidado por mim. Mas tragam um
banco para o homem. Se ele não desdenhar dele, pois ele cospe em nossa
comida.’

Manthor se ofendeu com a descortesia e ouvindo uma risada nas sombras
atrás da grande cadeira, ele olhou e percebeu que era Avranc, e seu
rosto se escureceu em fúria.

“Me desculpe, senhor,’ disse ele a Húrin. ‘Existe um mal entendido
aqui.’ Então se virou para Hardang e se lançou sobre ele. ‘A minha
companhia tem um novo capitão agora, meu Halad?’ disse ele. ‘Pois se
não eu não entendo como alguém que abandonou o seu posto e desobedeceu
minhas ordens possa ficar aqui sem reprova. Ele trouxe notícias antes
de mim, eu vejo; mas parece ter esquecido o nome do convidado, ou Húrin
Thalion não teria sido deixado em pé.’

‘O nome foi dito para mim,’ respondeu Hardang, ‘assim como suas
palavras malignas. Assim é a casa de Hador. Mas é o papel de um
estranho se apresentar pela primeira vez em minha casa, e eu esperei
ouvi-lo. Assim como a sua missão, já que diz ter uma. Mas sobre seu
dever, tais assuntos não devem ser tratados na presença de estranhos.’

Então ele se virou para Húrin, que estava sentado no banco; seus olhos
estavam fechados e ele não parecia dar atenção ao que acontecia. ‘Bem,
Húrin de Hithlum,’ disse Hardang, qual é a sua missão? É motivo de
pressa? Ou não prefere descansar um pouco e falar sobre isso mais
tarde, quando estiver mais à vontade? Enquanto isso, podemos
providenciar uma comida menos horrível.’ O tom de Hardang era mais
gentil, e ele levantou enquanto falava; pois ele era um homem prudente,
e ele percebeu o desagrado no rosto dos outros atrás de Manthor.

Então, de repente, Húrin se levantou. ‘Bem, mestre junco do pântano,’
disse ele. ‘Então você se curva com cada respiração? Cuidado para que a
minha não lhe derrube. Vá descansar para se fortalecer, então eu o
chamarei de novo! Zombador de cabelos cinzentos, mesquinho em relação à
comida, que deixa os errantes famintos. Esse banco servirá melhor para
você.’ Com isso, ele lançou o banco em direção a Hardang, acertando-o
na testa; e se virou para sair do salão.

Alguns dos homens abriu caminho, seja por pena ou medo de sua ira; mas
Avranc correu à sua frente. ‘Não tão rápido, Húrin!’ ele gritou. ‘Ao
menos não tenho mais dúvidas em relação ao seu nome. Você traz suas
maneiras de Angband. Mas nós não amamos os feitos dos orcs neste salão.
Você atacou o líder em sua cadeira, e agora você é nosso prisioneiro,
independente do seu nome.’

‘Eu o agradeço, capitão Avranc,’ disse Hardang, que estava sentado em
sua cadeira, enquanto tentava estancar o sangue que corria de sua
sombrancelha. ‘Agora deixe o velho louco ser algemado e mantido cativo,
eu o julgarei mais tarde.’

Então eles colocaram tiras de couro nos braços de Húrin, e um cabresto
no seu pescoço, e o levaram embroa; e ele não mostrou resistência, pois
a fúria havia acabado, e ele caminhou como alguém dormindo, de olhos
fechados. Mas Manthor, apesar de Avranc ter olhado bravo para ele,
colocou o braço sobre o ombro do velho e o guiou para que não
tropeçasse.

Mas quando Húrin foi trancado em uma caverna e Manthor não podia fazer
mais nada para ajudá-lo, retornou para o salão. Lá ele encontrou Avranc
falando com Hardang, e, apesar de terem se calado quando chegou, ele
ouviu as últimas palavras que Avranc falou, e pareceu que Avranc queria
que Húrin fosse executado imediatamente.

‘Então, capitão Avranc,’ ele disse, ‘as coisas foram bem para você
hoje! Eu já vi você jogar desta forma: atiçar um velho texugo e matá-lo
quando ele o morde. Não tão rápido, capitão Avranc! Nem você, Hardang
Halad. Este não é assunto para lidar de maneira arrogante, sem
controle. A vinda de Húrin, e a forma com que foi recebido, diz
respeito a todo o povo, e eles devem ouvir tudo o que é dito, antes de
qualquer julgamento.

‘Você deve ir,’ disse Hardang. ‘Retorne para sua missão na fronteira,
até que o capitão Avranc apareça para assumir o comando.’

‘Não, senhor,’ disse Manthor, ‘eu não tenho missão. A partir de hoje
não estou mais a seu serviço. Eu deixei Sagroth no comando, um homem da
floresta que é mais velho e mais sábio que o que você nomeou. Quando
chegar a hora, retornarei para minhas próprias fronteiras*. Mas agora
eu reunirei o povo.

Quando saiu pela porta, Avranc armou seu arco para matar Manthor, mas
Hardang o impediu. ‘Ainda não,’ ele disse. Mas Manhor não viu isso
(apesar de algumas pessoas no salão ter percebido), e saiu, e mandou
todos aqueles que se dispuseram a agir como mensageiros para reunir os
mestres de todas as terras e qualquer outro que se dispusesse a
comparecer.

Agora os rumores corriam pelas árvores, e as lendas cresciam quando
eram contadas; e alguns disseram isso, e outros aquilo, e a maioria
falou em louvor a Halad e se lançou em direção a Húrin como se fosse um
maligno chefe orc; pois Avranc também estava ocupado com mensageiros.
Logo tinha uma grande multidão de povos, e a vila próxima ao salão dos
líderes estava apinhada com tendas e barracas. Mas todos os homens
portavam armas, por medo que um alarme repentino viesse das fronteiras.

Quando ele enviou seus mensageiros, Manthor foi até a prisão de Húrin,
mas os guardas não o deixaram entrar. ‘Venham!’ disse Manthor. ‘Vocês
sabem muito bem que é do nosso bom costume que qualquer prisioneiro
deve ter um amigo que possa visitá-lo e ver como ele está sendo
alimentado e aconselhá-lo.’

*Pois Manthor era um descendente de Haldad, e ele possuía uma
terra pequena na fronteira leste de Brethil, próximo ao Sirion onde ele
atravessa Dimbar. Mas todo o povo de Brethil era formado por homens
livres, mantendo suas casas e suas terras, sejam maiores ou menores, de
direito. Seu senhor era escolhido entre os descendentes de Haldad, por
reverência pelos feitos de Haleth e Haldar; e mesmo que a liderança era
dada, como se fosse um domínio ou um reino, para os mais velhos da
linhagem mais velha, o povo tinha o direito de colocar qualquer um de
lado ou tirá-lo de lá, por uma causa grave. E alguns sabiam o
suficiente que Harathor tentara que Brandir o Aleijado tivesse tido
abdicado em seu favor.

‘O amigo é escolhido pelo prisioneiro,’ responderam os guardas; ‘mas este homem selvagem não tem amigos.’

‘Ele tem um,’ disse Manthor, ‘e eu peço permissão para me oferecer como sua escolha.’

‘O Halad nos proíbe de admitir qualquer um fora os guardas,’ disseram.
Mas Manthor, que era sábio nas leis e costumes de seu povo, respondeu:
‘Sem dúvida. Mas neste caso ele não tem direito. Por que o intruso está
preso? Nós não algemamos velhos e errantes por falarem rudemente quando
irritados. Este está preso por seu ataque a Hardang, e Hardang não pode
julgar seu próprio caso, mas deve levar sua queixa para o julgamento do
povo. Enquanto isso, ele não pode negar ao prisioneiro todo conselho e
ajuda. Se ele fosse sábio, ele veria que não age desta forma,
beneficiaria sua própria causa. Mas talvez alguma outra boca falou pela
dele?’

‘Verdade,’ disseram. ‘Avranc trouxe a ordem.’

‘Então esqueça,’ disse Manthor. ‘Pois Avranc estava obedecendo outras
ordens, para permanecer em sua missão na fronteira. Escolha então entre
um jovem desertor e as leis do povo.’

Então os guardas permitiram sua entrada na caverna; pois Manthor era
querido em Brethil, e os homens não gostavam dos líderes que tentaram
dominar o povo. Manthor encontrou Húrin sentado em um banco. Tinha
algemas em seus tornozelos, mas suas mãos estavam livres; e tinha um
pouco de comida à sua frente, intocada. Ele não ergueu o olhar.

‘Salve, senhor!’ disse Manthor. ‘As coisas não aconteceram como deviam,
nem como eu ordenei. Mas agora você precisa de um amigo.’

‘Eu não tenho amigos, nem desejo algum nesta terra,’ respondeu Húrin.

‘Um amigo está na sua frente,’ respondeu Manthor. ‘Não me rejeite. Por
enquanto, pelo menos! O assunto entre você e Hardang Halad deve ser
levado para ser julgado pelo povo, e seria bom, pelo que nossas leis
permitem, ter um amigo para aconselhá-lo e defender o seu caso.’

‘Eu não irei me defender, e não preciso de conselhos,’ disse Húrin.

‘Você precisa deste conselho, pelo menos,’ disse Manthor. ‘Controle sua
ira por enquanto, e coma um pouco, pra que tenha força perante seus
inimigos. Eu não sei qual é sua missão aqui, mas ela seria mais rápida
se você não estivesse faminto. Não se mate enquanto existe esperança!’

‘Me matar?’ gritou Húrin, e ele cambaleou e se escorou na parede, e
seus olhos estavam vermelhos. ‘Devo ser arrastado algemado perante uma
ralé de homens da selva para ouvir que tipo de morte irão me dar? Eu me
matarei antes, se minhas mãos estiverem livres.’ Então, de repente,
rápido como um velho urso em uma cilada, ele saltou para a frente, e
antes que Manthor pudesse evitá-lo, ele puxou uma faca do seu cinto.
Então ele afundou no banco.

‘Você poderia ter tido a faca como um presente,’ disse Manthor, ‘porém
nós não acreditamos no suicídio como uma saída nobre para aqueles que
não enlouqueceram. Esconda a faca e a guarde para um uso melhor! Mas
tenha cuidado, pois é uma lâmina maldita, de uma forja dos anões.
Agora, senhor, não me considerará como amigo? Não diga nada, mas se
você comer comigo, considerarei como um sim.’

Então Húrin olhou para ele e a ira deixou seus olhos; e juntos eles
beberam e comeram juntos em silêncio. E quando tudo estava terminado,
Húrin falou: ‘Pela sua voz você me derrotou. Nunca desde o Dia do
Terror eu ouvi a voz de um homem tão bela. Ai de mim! Ela lembra das
vozes na casa de meu pai, muito tempo atrás, quando a sombra parecia
estar tão longe.’

‘Isto pode muito bem ser verdade,’ disse Manthor. ‘Hiril, minha primeira mãe era irmã de sua mãe, Hareth.’

‘Então você é amigo e parente,’ disse Húrin.

‘Mas não eu sozinho,’ disse Manthor. ‘Nós somos poucos e temos pouco
dinheiro, mas nós também somos Edain, e ligados por muitas formas ao
seu povo. Seu nome foi por muito tempo mantido honrado aqui; mas
nenhuma notícia de seus feitos teria chegado até nós se Haldir e Hundar
não tivessem marchado para a Nirnaeth. Lá eles caíram, mas sete dos
seus companheiros retornaram, pois eles foram socorridos por Mablung de
Doriath e curados de seus ferimentos.

Os dias tem sido escuros desde então, e muitos corações foram escurecidos, mas não todos.’

‘Mas a voz do seu líder vem das sombras,’ disse Húrin, ‘e seu povo o obedece, mesmo em atos de desonra e crueldade.’

‘A tristeza escurece seus olhos, senhor, se é que ouso dizer tal coisa.
Mas que isto fique provado, vamos nos aconselhar juntos. Pois eu vejo
perigo de mal à nossa frente, tanto para você quanto para meu povo,
apesar de talvez a sabedoria possa evitar isso. De uma coisa eu posso
alertá-lo, apesar de não lhe agradar. Hardang é um homem menor que seus
pais, mas eu não vi maldade nele desde que ele ouviu da sua chegada.
Você carrega uma sombra, Húrin Thalion, na qual sombras menores ficam
mais escuras.’

‘Palavras negras de um amigo!’ disse Húrin. ‘Por muito tempo vivi na
Sombra, mas eu suportei e não me entreguei. Se existe alguma escuridão
em mim, é apenas a dor além da dor que me roubou a luz. Mas não faço
parte da Sombra.’

‘Mesmo assim, eu lhe digo,’ disse Manthor. ‘que ela segue seus passos.
Eu não sei como ganhaste a liberdade; mas o pensamento de Morgoth não o
esqueceu. Tenha cuidado.’

‘Não caduque, velho senil, você diria,’ respondeu Húrin. ‘Eu irei
suportar isso de você, pela sua bela voz e nosso parentesco, mas não
mais! Vamos falar de outras coisas, ou acabamos por aqui.’

Então Manthor foi paciente, e ficou por longo tempo com Húrin, até que
a noite trouxe a escuridão para a caverna; e eles comeram juntos mais
uma vez. Então Manthor ordenou que uma luz fosse trazida para Húrin; e
ele partiu no dia seguinte, e foi para sua tenda com o coração pesado.

No dia seguinte foi proclamado que o debate para o julgamento
aconteceria na manhã seguinte, pois quinhentos homens chefes já se
apresentaram e este era por costume, o quorum mínimo que se aceitava
para um encontro do povo. Manthor foi cedo encontrar Húrin; mas os
guardas mudaram. Três homens da guarda privada de Hardang guardavam a
porta, e eles não foram amistosos.

‘O prisioneiro está dormindo,’ o líder deles falou. ‘E isso é bom; pode acalmar seu ânimo.’

‘Mas eu sou o amigo que ele escolheu, como foi declarado ontem,’ disse Manthor.

‘Um amigo o deixaria em paz, enquanto ele pode tê-la. Que bem faria acordá-lo?’

‘Por que a minha vinda o acordaria? Os pés de um carcereiro são mais
pesados que os meus.’ falou Manthor. ‘Eu desejo ver como ele dorme.’

‘Você pensa que todos os homens mentem, menos você?’

‘Não, não; mas eu acho que alguém esqueceria as nossas leis de bom
grado quando elas não servem o seu propósito,’ respondeu Manthor. Mesmo
assim pareceu a ele que pouco ajudaria o caso de Húrin se continuasse a
discutir, e ele foi embora. Muitas coisas permaneceram sem serem ditas
entre eles até que fosse tarde demais. Pois quando ele retornou o dia
estava terminando. Nada impediu a sua entrada, desta vez, e ele
encontrou Húrin deitado em uma armação de madeira; e ele notou com
fúria que ele tinha agora algemas em seus punhos e uma curta corrente
entre eles.

‘Um amigo que se atrasa é a esperança que é negada,’ disse Húrin.
‘Esperei por muito tempo por você, mas agora estou com muito sono e
meus olhos estão turvos.’

‘Eu vim no meio da manhã,’ disse Manthor, ‘mas eles disseram que você estava dormindo.’

‘Eu estava cochilando, cochilando em uma esperança pálida,’ disse
Húrin; ‘mas a sua voz me acordou. Eu estou assim desde que tive meu
desjejum. Aquele seu conselho finalmente o tomei, meu amigo; mas comida
me faz mais mal do que bem. Agora eu devo dormir. Mas volte pela manhã!’

Manthor teve pensamentos escuros sobre isto. Ele não pode ver o rosto
de Húrin, pois havia pouca luz, mas se curvando para baixo ele pode
ouvir a sua respiração. Então com uma expressão severa, ele se levantou
e pegou os restos da comida, colocando sob seu casaco, e foi embora.

‘Bem, o que você achou do homem selvagem?’ disse o chefe da guarda.

‘Perturbado com sono,’ respondeu Manthor. ‘Ele deve estar bem desperto
amanhã. O desperte cedo. Traga comida para dois, pois eu virei quebrar
meu jejum com ele.’

No dia seguinte, muito antes do meio da manhã, o debate teve início.
Quase mil pessoas chegaram, a maioria homens velhos, já que a vigília
nas fronteiras deve ser mantida. Logo o anel do debate estava cheio.
Ele tinha a forma de uma grande crescente, com sete fileiras de bancos
saindo de um piso plano escavado na encosta da colina. Uma grade alta
ficava em volta dela, e a única entrada era por um portão pesado na
cercaque se fechava na parte aberta da crescente. No meio da camada
mais baixa estava Angbor, ou a Pedra do Destino, uma grande pedra chata
na qual o Halad sentaria. Aqueles que eram trazidos para julgamento
ficavam na frente da pedra e voltados para a assembléia.

Havia uma grande babel de vozes; mas com o grito de uma trompa, o
silêncio caiu, e o Halad entrou, acompanhado por muitos guarda costas.
O portão se fechou atrás dele, e ele caminhou lentamente até a Pedra.
Então ele parou, olhando para a assembléia e consagrou o debate como de
costume. Primeiro ele citou os nomes de Manwë e Mandos, segundo o
costume que os Edain aprenderam com os Eldar, e então, falando na
língua antiga do povo, que agora estava fora de uso, e declarou aberto
o debate, sendo o tricentésimo primeiro debate de Brethil, convocado
para julgar um grave assunto.

Quando, como de costume, toda a assembléia gritou em uníssono e na
mesma língua ‘Nós estamos prontos’, ele sentou em Angbor, e chamou na
língua de Beleriand para os homens que estavam próximos: ‘Soem as
cornetas! Que o prisioneiro seja trazido até nós!’

A corneta soou duas vezes, mas por um tempo ninguém entrou, e o som de
vozes irritadas podia ser ouvida fora da cerca. Depois de um tempo, o
portão foi empurrado e seis homens saíram com Húrin entre eles.

‘Eu sou trazido sob violência e maus tratos,’ ele gritou. ‘Eu não irei
caminhar algemado para nenhum debate na terra, nem se reis élficos
estivessem presentes. E enquanto eu estiver preso, eu irei negar toda a
autoridade e justiça a que me condenem.’ Mas os homens o colocaram no
chão à frente da Pedra e o seguraram ali com força.

Agora era costume do debate que, quando qualquer homem era trazido para
ele, o Halad deveria ser o acusador, e deveria primeiramente recitar o
delito que acusava. A respeito do que era direito do acusado, por ele
mesmo ou pela boca de seu amigo, negar a acusação, ou oferecer uma
defesa pelo que fez. E depois dessas coisas serem ditas, se algum ponto
restava duvidoso ou era negado por um dos lados, testemunhas eram
convocadas.

Hardang, então, estava em pé e virado para a assembléia e começou a
recitar a acusação. ‘Este prisioneiro,’ disse ele, ‘que está perante
vocês, se auto proclama Húrin, filho de Galdor, que um dia foi de
Dor-lómin, mas ele veio de uma longa estada em Angband. Seja isto como
for.’

Mas sobre isto Manthor se levantou e se colocou perante a Pedra. ‘Com
sua licença, meu senhor Halad e povo!’ ele gritou. ‘Como amigo do
prisioneiro eu convoco o direito de perguntar: a acusação contra ele
envolve de alguma forma a pessoa do Halad? Ou teria o Halad alguma
mágoa em relação a ele?’

‘Mágoa?’ gritou Hardang, e a raiva obscureceu seu raciocínio, pois ele
não percebeu as intenções de Manthor. ‘Muitas mágoas! Esta não é a
última moda em adereços para cabeça para o debate. Eu venho aqui com
ferimentos com curativos.’

‘Oras!’ disse Manthor. ‘Mas se é assim, eu peço que a questão não possa
ser tratada desta forma. Na sua lei nenhum homem pode recitar a ofensa
feita contra si mesmo; nem ele pode sentar na cadeira do julgamento
enquanto a acusação é ouvida. Não é esta a lei?’

‘Esta é a lei,’ respondeu a assembléia.

‘Então,’ disse Manthor, ‘antes que a acusação seja ouvida, outro Hardang, filho de Hundad deve ser apontado para a pedra.’

Assim várias vozes se ergueram, mas a maioria das vozes e as vozes mais
altas chamavam por Manthor. ‘Não,’ disse ele, ‘eu estou envolvido com
uma das partes e não posso ser o julgador. Além disso, é o direito do
Halad neste caso nomear aquele que irá tomar o seu lugar, o que ele com
certeza sabe muito bem.’

‘Eu o agradeço,’ disse Hardang, ‘mas eu não preciso de um jurista
autodidata para me ensinar.’ Então ele olhou para Manthor, como se
considerando quem ele deveria nomear. Mas a sua raiva era negra e toda
a sabedoria o abandonou. Se ele tivesse escolhido qualquer dos chefes
de casa ali presentes, as coisas poderiam ter tomado um rumo diferente.
Mas em um momento maligno ele escolheu, para o espanto de todos, griou:
‘Avranc, filho de Dorlas! Parece que o Halad também precisa de um amigo
hoje, quando os juristas estão tão ousados. Eu o convoco para a Pedra.’

O silêncio caiu. Mas quando Hardang se afastou e Avranc foi até a
pedra, um grande murmúrio foi ouvido, como o prenúncio de uma
tempestade. Avranc era um jovem casado há pouco, e sua juventude fora
tomada como ruim por todos os velhos chefes de casa que estavam lá.
Pois ele não era querido pelo que era; pois apesar de ser valente, ele
era um zombador, como seu pai Dorlas foi antes dele. E lendas negras
sussurravam sobre Dorlas, pois, apesar de nada ser dado como
verdadeiro, ele foi encontrado morto na batalha com Glaurung, e a
espada ensangüentada que jazia ao seu lado era a espada de Brandir.

Mas Avranc não deu atenção aos murmúrios, e se alegrou, como se fosse um assunto simples, que se tratasse rapidamente.

‘Bem,’ disse ele, ‘se isto está definido, não vamos mais perder tempo!
O assunto está claro o suficiente.’ Então, se levantando, ele continuou
a acusação. ‘Este prisioneiro, este homem selvagem,’ disse ele, ‘vem de
Angband, como vocês bem ouviram. Ele foi encontrado dentro de nossas
fronteiras. Não por acaso, pois, como ele mesmo disse, tem uma missão a
cumprir aqui. O que seria, ele não revelou, mas não pode ser nada de
bom. Ele odeia este povo. Logo que nos viu, nos insultou. Nós lhe demos
comida e ele a cuspiu. Eu já vi orcs agirem assim, se fossemos tolos o
suficiente para demonstrar-lhes piedade. Está claro que ele vem de
Angband, seja lá qual for o seu nome. Mas o pior ainda está por vir.
Por requerimento próprio, ele foi levado perante o Halad de Brethil –
por este homem que se diz agora seu amigo; mas quando ele chegou ao
salão, ele se recusou a dizer seu nome. E quando o Halad o perguntou
qual era a sua missão e o pediu que descansasse primeiro e falasse
depois, se assim o aprouvesse, ele enlouqueceu, começou a insultar o
Halad, e de repente arremessou um banco na sua face e o feriu
gravemente. Foi bom que ele não tinha nada mais mortal à mão, ou o
Halad teria sido morto. É clara a intenção do prisioneiro, e diminui
muito pouco a sua culpa o fato de que o pior não tenha acontecido, para
o qual a pena é a da morte. Mas mesmo assim, o Halad senta na grande
cadeira no seu salão: insultá-lo lá é um ato de maldade, e atacá-lo é
um ultraje.

‘Esta, então, é a acusação contra o prisioneiro: que ele veio para cá
com más intenções para conosco, e para com o Halad de Brethil em
especial (a pedido de Angband, pode se dizer); que, na presença do
Halad, ele o desrespeitou, e então tentou matá-lo em sua cadeira. A
penalidade está sob o julgamento do debate, mas poderia ser justamente
a da morte.’

Então, para muitos pareceu que Avranc falou justamente, e para todos
ele falou com habilidade. Por um tempo, ninguém ergueu a voz de lado
algum. Então Avranc, sem esconder seu sorriso, levantou-se novamente e
disse: ‘O prisioneiro pode agora responder à acusação, se quiser, mas
que seja breve e não enlouqueça!’

Mas Húrin não falou, apesar de fazer força contra aqueles que o
seguravam. ‘Prisioneiro, não vai falar?’ disse Avranc, e Húrin não lhe
respondeu. ‘Que assim seja,’ disse Avranc. ‘Se ele não vai falar, nem
para negar a acusação, então não há mais nada a fazer. A acusação é
justa, e aquele que está de frente para a Pedra pode propor uma pena
que lhe pareça justa para o Debate.’

Mas agora Manthor se levantou e disse: ‘Primeiro devem perguntar a ele
por que não falará. E a resposta deverá ser dada por seu amigo.’

‘A questão está feita,’ disse Avranc, dando de ombros. ‘Se você sabe a resposta, fale.’

‘Porque seus pés e mãos estão presos,’ disse Manthor. ‘Nunca antes nós
arrastamos algemado para o Debate alguém que ainda não tenha sido
condenado. Mas mesmo que seja um Edain, cujo nome merece honra, isso
nunca deveria ter acontecido. Sim, não condenado digo eu; pois o
acusado deixou muito sem ser dito que este Debate deve ouvir antes de
dar o julgamento.’

‘Mas isto é uma tolice,’ disse Avranc. ‘Adan ou não, e qualquer que
seja seu nome, o prisioneiro é incontrolável e malicioso. As algemas
são uma precaução necessária. Aqueles que se aproximam dele devem estar
protegidos da sua violência.’

‘Se deseja criar a violência,’ respondeu Manthor, ‘o que seria mais
óbvio do que abertamente desonrar um homem orgulhoso, carregando o peso
da tristeza de muitos anos nas costas. A aqui está um, enfraquecido
pela fome e por uma longa jornada desarmado em meio a uma hoste. Eu
pergunto ao povo aqui reunido: vocês consideram esta precaução digna
dos homens livres de Brethil, ou prefeririam que tivéssemos usado a
cortesia dos antigos?’

‘As algemas foram colocadas no prisioneiro por ordem do Halad,’ disse
Avranc. ‘Para isto nós usamos seu direito de evitar a violência em seu
salão. Assim, esta ordem não pode ser impugnada, salvo por toda a
assembléia.’

Assim, um grande grito se ergueu na multidão ‘Soltem-no, soltem-no!
Húrin Thalion! Soltem H‎úrin Thalion!’ Nem todos tomaram parte neste
grito, pois nenhuma voz foi ouvida do outro lado.

‘Não, não!’ disse Avranc. ‘Gritar não irá adiantar nada. Neste caso, devemos votar na forma correta.’

Agora, por hábito, em assuntos graves ou duvidosos, os votos do debate
eram dados mostrando cristais, e todos os que entraram portavam consigo
dois cristais, um preto e um branco, para sim e para não. Mas juntar e
contar os cristais tomava tempo, e enquanto isso, Manthor percebeu que
o humor de Húrin piorava cada vez mais.

‘Existe uma forma mais fácil,’ disse ele. ‘Não há perigo aqui para
justificar as algemas, pois assim pensam todos aqueles que usaram a
voz. O Halad está no anel do debate, e ele pode cancelar sua própria
ordem, se assim desejar.’

‘Ele ira,’ disse Hardang, pois pareceu para ele que a assembléia estava
impaciente, e ele pensou que agir assim os levaria para seu lado. ‘Que
o prisioneiro seja solto, e fique perante você.’

Então as algemas foram retiradas das mãos e dos pés de Húrin.
Imediatamente ele se pôs de pé e, dando as costas para Avranc, ele
encarou a assembléia. ‘Eu estou aqui,’ disse ele. ‘E vou responder o
meu nome. Eu sou Húrin Thalion, filho de Galdor Orchal, senhor de
Dor-lómin e uma vez alto capitão do exército do rei Fingon do reino do
norte. Que nenhum homem negue isto! E isto deverá ser o suficiente. Eu
não vou implorar perante vocês. Façam como quiserem! Também não irei
rebater as palavras daquele que abriu o debate e que vocês permitem que
sente na cadeira mais alta. Deixe-o mentir da forma que quiser!

‘Em nome dos Senhores do Oeste, que maneiras são estas deste povo, ou o
que vocês se tornaram? Enquanto a ruína da Escuridão está sobre vocês,
vocês sentam aqui pacientemente e escutam este guarda desertor
perguntar sobre o destino da morte sobre mim – porque eu quebrei a
cabeça de um jovem insolente, seja em sua cadeira ou fora dela? Ele
deveria ter aprendido como tratar os mais velhos antes que vocês o
tornassem seu líder.

‘Morte? ‘Perante Manwë, se eu não tivesse suportado tormentos por vinte
e oito anos, se eu estivesse como na Nirnaeth, vocês não ousariam
sentar aqui e me encarar. Mas eu não sou mais perigoso, pelo que ouvi.
Então vocês são bravos. Eu posso ficar aqui, sem algemas para ser usado
como isca. Eu fui derrotado na guerra e domado. Domado! Mas não tenham
tanta certeza disso!’ Ele ergueu os braços e cerrou os punhos.

Mas nesta hora, Manthor o acalmou, colocando a mão no seu ombro e falou
suavemente em seu ouvido. ‘Meu senhor, está se enganando em relação a
eles. Muitos são seus amigos, ou o seriam. Mas aqui há homens livres
orgulhosos também. Deixe-me falar com eles agora.’

Hardang e Avranc nada disseram, mas sorriram um para o outro, pelo
discurso de Húrin, pois pensaram que ele não tinha feito a sua parte de
maneira correta. Mas Manthor gritou: ‘Dêem ao Senhor Húrin uma cadeira
enquanto eu falo. Vocês compreenderão melhor sua ira, e talvez até
perdoar, quando tiverem me ouvido.

‘Ouçam me agora, povo de Brethil. Meu amigo não nega a acusação
principal, mas diz que foi abusado e provocado além da conta. Meus
senhores, eu era capitão dos vigias da fronteira que encontrou este
homem dormindo perto de Haud-en-Elleth. Ou parecia estar dormindo, mas
ele estava muito cansado e perto de despertar, e, enquanto estava
deitado ele ouviu, temo eu, as palavras que foram ditas.

‘Havia um homem chamado Avranc, filho de Dorlas, eu me lembro, como
membro da minha companhia, e ele deveria estar lá agora, pois esta foi
a minha ordem. Quando cheguei a Brethil, descobri que Avranc havia dado
conselhos ao homem que encontrou Húrin primeiro e adivinhou seu nome.
Povo de Brethil, eu o ouvi dizer o seguinte: “Seria melhor matar o
velho enquanto dormia e evitar problemas futuros. E isso agradaria ao
Halad,” disse ele.

‘Talvez agora vocês irão pensar melhor sobre o fato de que quando o
despertei, e ele encontrou homens armados sobre ele, ele disparou
palavras amargas para nós. Ao menos um de nós as mereceu. E sobre
desprezar nossa comida: ele a pegou de minhas mãos e não cuspiu nela.
Ele a cuspiu fora, pois se engasgou com ela. Nunca viram, meus
senhores, homens famintos que não conseguiam engolir comida devido à
pressa que tinham em fazê-lo? E este homem também estava muito
deprimido e cheio de raiva.
‘Não, ele não desdenhou de nossa comida. Se bem que ele o teria feito,
se ele soubesse dos esquemas que alguns dos que habitam aqui armaram!
Ouçam-me agora e acreditem, se quiserem, pois testemunhas podem ser
trazidas. Em sua prisão, o Senhor Húrin comeu comigo, pois eu o tratei
com cortesia. Isso foi dois dias atrás. Mas ontem, ele estava
sonolento, e não conseguia falar claramente, nem se aconselhar comigo
sobre o julgamento de hoje.’‘Isto pouco quer dizer!’ gritou Hardang.

Manthor parou e olhou para Hardang. ‘Pouco quer dizer realmente, meu
senhor Halad,’ ele disse; ‘pois essa comida foi envenenada.’

Então Hardang, irado, gritou: ‘Os sonhos deste preguiçoso tem que ser recitados para nos entediar?’

‘Não falo de sonhos,’ respondeu Manthor. ‘As testemunhas irão falar
agora. Eu levei um pouco da comida que Húrin comeu. Perante
testemunhas, eu dei para um cão, e ele está dormindo como se estivesse
morto. Talvez o Halad de Brethil não planejou isso, mas alguém que está
ávido para agradá-lo. Mas com que propósito? Para evitar que ele use da
violência, certamente, já que ele estava algemado na prisão? Existe
malícia entre nós, povo de Brethil, e eu espero que a assembléia
corrija isto!’

Neste momento, uma grande agitação e murmúrios se ergueram no anel do
debate e quando Avranc se levantou pedindo silêncio, o clamor aumentou.
Finalmente, quando a assembléia se acalmou um pouco, Manthor disse:
‘Posso continuar agora, pois há mais coisas a serem ditas?’

‘Proceda!’ disse Avranc. ‘Mas seja breve. E eu aviso a todos, meus
senhores, para que escutem este homem com cautela. Sua boa fé não pode
ser confiada. O prisioneiro e ele são parentes.’

Estas palavras não foram sábias, pois Manthor as respondeu
imediatamente: ‘Realmente. A mãe de Húrin era Hereth, filha de Halmir,
outrora Halad de Brethil, e Hiril, sua irmã era a mãe da minha mãe. Mas
sua linhagem não faz de mim um mentiroso. E digo mais, se Húrin de
Dor-lómin é meu parente, ele é parente de todos da casa de Haleth. Sim,
e de todo este povo. E mesmo assim ele é tratado como um fora da lei,
um ladrão, um homem selvagem e sem honra!

‘Vamos continuar com a acusação principal, que o acusador diz que pode
ter uma pena próxima daquela da morte. Vocês vêm perante vocês a cabeça
quebrada, apresar que parece que está firme sobre seus ombros e que
pode usar a língua muito bem. Pois foi ferida com o arremesso de um
pequeno banco. Um ato de maldade, vocês diriam. E muito pior quando
feito contra o Halad de Brethil enquanto senta em sua grande cadeira.

‘Mas meus senhores, atos malignos podem ser provocados. Que vocês se
imaginem no lugar de Hardang, filho de Hundad. Bem, aí vem Húrin,
senhor de Dor-lómin, seu parente, perante você: o chefe de uma grande
casa, um homem cujos atos são cantados por Elfos e Homens. Mas ele
agora está envelhecido, indisposto, cheio de pesar, cansado de viajar.
Ele pede para ver você. Lá está você, confortável em sua cadeira. Você
não se levanta. Você não fala com ele. Mas você o olha de cima a baixo,
enquanto ele está de pé, até que ele cai no chão. Então, cheio de
piedade e cortesia, você grita: “Tragam um banco para o homem!”

‘Oh, vergonha e espanto! Ele arremessa o banco na sua cabeça. Oh,
vergonha e espanto eu digo, pois você também desonra sua cadeira, que
você também desonra o seu salão, que você também desonra o povo de
Brethil!‘Meus senhores, eu admito livremente que teria sido melhor se o Senhor
Húrin tivesse sido paciente, inacreditavelmente paciente. Por que ele
não esperou para ver que futuros desprezos ele deveria suportar? E
mesmo assim, enquanto eu estava no salão e vi isso, tudo o que eu
conseguia pensar, e é tudo que eu consigo pensar ainda agora e peço que
me respondam: O que vocês acham dessas maneiras que possui o homem que
tornamos Halad de Brethil?’

Muitas vozes se ergueram nesta questão, mas até que Manthor erguesse
sua mão, e de repente tudo estava em silêncio novamente. Mas sob a
proteção do barulho, Hardang se aproximou de Avranc para falar com ele,
e surpreendido pelo silêncio, eles foram pegos falando alto demais,
então Manthor e outros também ouviram Hardang falar: ‘Eu me arrependo
de ter atrapalhado sua tentativa de matá-lo!’ E Avranc respondeu: ‘Eu
vou encontrar tempo para isto.’

Mas Manthor continuou. ‘Minhas dúvidas foram sanadas. Estas maneiras
não os agrada, eu vejo. Então o que teriam feito com o arremessador do
banco? Teriam amarrado-o, colocariam uma coleira em seu pescoço,
prenderiam-no em uma caverna, teriam algemado-o, envenenado sua comida,
e por fim, arrastado ele até aqui e pedido pela sua morte? Ou teriam
libertado-o? Ou teriam, talvez, pedido desculpas, ou ordenado a este
Halad que o fizesse?

Assim, mais vozes ainda se ergueram, e homens se levantaram nas
bancadas, batendo palmas e gritando: ‘Libertem! Libertem! Libertem
ele!’ E muitas vozes foram ouvidas gritando: ‘Fora com este Halad!
Coloquem-no nas cavernas!’

Muitos dos homens mais velhos que sentavam nas fileiras de baixo
correram e se ajoelharam perante Húrin e pediram o seu perdão; e um
ofereceu a ele uma bengala, outro deu a ele um belo manto e um grande
cinto de prata. E quando Húrin estava todo vestido, e com uma bengala
em sua mão, ele foi até a Pedra e subiu nela, não como um suplicante,
mas como um rei; e encarando a assembléia, ele gritou em uma grande
voz: ‘Eu agradeço a vocês, mestres de Brethil aqui presentes, que me
libertaram da desonra. Ainda existe justiça em sua terra, mas ela
estava adormecida e demorou a despertar. Mas agora eu tenho uma
acusação a fazer.

‘Qual é minha missão aqui, é o que foi perguntado? O que acham? Túrin,
meu filho, e Nienor, minha filha, não morreram nesta terra? Ai de mim!
De longe eu fiquei sabendo das dores que aconteceram aqui. É então um
espanto que um pai vá procurar as tumbas dos seus filhos? Maior espanto
é, pelo que me parece, que ninguém aqui, em momento algum, falou seus
nomes para mim.

‘Estão envergonhados que deixaram meu filho Túrin morrer por vocês? Que
apenas dois tiveram coragem de ir com ele encarar o terror do verme?
Que ninguém ousou ir até lá para socorrê-lo quando a batalha havia
terminado, apesar de que o maior dos males havia sido impedido?

‘Envergonhados vocês devem estar. Mas esta não é a minha acusação. Eu
não peço que nenhum nesta terra se equipare ao filho de Húrin em valor.
Mas se eu perdoar esta dor, devo perdoar isto? Escutem-me, homens de
Brethil! Lá está, junto à Pedra Parada que vocês ergueram, uma mendiga.
Por muito tempo ela ficou em sua terra, sem fogo, sem comida, sem
piedade. Agora ela está morta. Morta. Ela era Morwen, minha esposa.
Morwen Edelwen, a dama bela como os elfos que deu vida a Túrin, o
matador de Glaurung. Ela está morta.

‘Se vocês, que têm um pouco de piedade, gritarem para mim que não
possuem culpa, então eu pergunto quem é o culpado? Por quem no comando
ela foi deixada fora para morrer de fome em suas portas como um cão
expulso?

‘O seu líder contribuiu para isto? Acredito que sim. Ou ele não teria agido assim comigo, se tivesse a chance? Estas são os seus presentes: desonra, fome, veneno. Vocês não tem parte nisto? Vocês não trabalhariam conforme sua vontade? Então, por quanto tempo, senhores de Brethil, vocês o suportarão? Por quanto tempo vocês irão permitir que este homem chamado Hardang sente em sua cadeira?’

Agora Hardang estava aterrorizado, quando chegou a sua vez, e seu rosto ficou branco com medo e espanto. Mas antes que pudesse falar, Húrin apontou uma longa mão a ele. ‘Vejam!’ ele gritou. ‘Ali ele está com um sorriso de escárnio em seus lábios! Será que se considera a salvo? Pois roubaram minha espada; e eu sou velho e estou cansado, ele pensa. Não, por muitas vezes me chamou de homem selvagem. Ele verá um então! Apenas mãos, mãos, são necessárias para esmagar sua garganta cheia de mentiras.’

Com isto, Húrin deixou a pedra e caminhou a passadas largas em direção a Hardang; mas este se afastou perante Húrin, chamando seus guarda-costas para protegê-lo; e eles foram em direção ao portão. Para muitos isto pareceu que Hardang admitira sua culpa, e eles puxaram suas armas, e desceram da bancada, gritando em direção a ele.

Agora o perigo da batalha estava no interior do anel sagrado. Pois outros se aliaram a Hardang, alguns por amor por ele ou pelos seus atos, que, acima de tudo, eram leais a ele e ao menos o defenderiam da violência, até que pudesse se defender perante o debate.

Manthor estava entre os dois grupos, e gritou para que segurassem suas mãos e que não derramassem sangue no anel do debate; mas a fagulha que ele mesmo criou agora explodiu em chamas além do seu controle, e uma onda de homens o colocou para o lado. ‘Fora com este Halad!’ eles gritavam. ‘Fora com Hardang, levem-no para as cavernas! Abaixo Hardang! Viva Manthor! Nós queremos Manthor!’ E eles se lançaram sobre os homens que barravam o caminho para o portão, para que Hardang tivesse tempo para escapar.

Mas Manthor voltou até Húrin, que agora estava sozinho, perto da Pedra. ‘Ai de mim, Senhor!’ disse ele, ‘eu temia que esse dia guardasse grande perigo para nós. Há pouco que posso fazer, mas ainda eu devo tentar evitar o mal maior. Eles logo sairão, e eu devo segui-los. Você virá comigo?’

Muitos caíram no portão, de ambos os lados, mas ele foi tomado. Lá Avranc lutou bravamente, e ele foi o último a fugir. Mas quando ele se virou para correr, ele de repente puxou seu arco e atirou em Manthor, que estava próximo da Pedra. Mas, devido à sua pressa, ele errou o tiro, e a flecha acertou a pedra, lançando fagulhas atrás de Manthor enquanto quebrava. ‘Da próxima vez será mais perto!’ gritou Avranc, enquanto fugia com Hardang.

Então os rebeldes saíram do anel e perseguiram os homens de Hardang até Obel Halad, quase há meia milha de distância. Mas antes de chegarem lá, o Hardang havia tomado conta do salão e o trancou; e ele agora estava cercado. O salão dos líderes ficava num jardim com uma parede de terra redonda em volta, se erguendo de um dique externo seco. Na parede havia apenas um portão, do qual uma trilha de pedras levava até grandes portas. Os perseguidores passaram pelo portão e rapidamente cercaram todo o salão, e tudo ficou quieto por um tempo.

Mas Manthor e Húrin chegaram até o portão; e Manthor queria negociar, mas os homens disseram: ‘De que servem palavras? Ratos não sairão enquanto cães estão perto.’ E alguns gritaram: ‘Nossos parentes foram assassinados, e nós os vingaremos!’

‘Muito bem’, disse Manthor, ‘permitam ao menos que eu faça o que eu posso!’

‘Então faça!’ disseram eles. ‘Mas não se aproxime demais, ou poderá receber uma resposta afiada.’

Assim, Manthor ficou próximo ao portão e ergueu sua grande voz, gritando para ambos os lados que eles deveriam parar com este fraticídio. E para aqueles que ele estavam dentro, prometeu que aqueles que se apresentassem desarmados poderiam sair livremente, até mesmo Hardang, se ele desse sua palavra de comparecer perante o Debate no dia seguinte. ‘E nenhum homem irá levar armas também,’ disse ele.

Mas enquanto falava, uma flecha saiu de uma janela, que passou perto da orelha de Manthor, e cravou fundo em um dos marcos do portão. Então a voz de Avranc foi ouvida, gritando: ‘A terceira vez será certeira!’

Agora a raiva daqueles que estavam fora se inflamou novamente, e muitos correram até as grandes portas e tentaram quebrá-las; mas lá havia uma surtida, e muitos foram feridos ou mortos, e muitos outros no pátio foram feridos por flechas das janelas. Então os assaltantes, agora cheios de ira, trouxeram galhos e gravetos e muita madeira, e colocaram no portão; e gritaram para aqueles que estavam dentro:

‘Vejam! O Sol está se pondo. Nós lhe daremos até o cair da noite. Se vocês não saírem então, nós iremos queimar o salão com vocês dentro!’

Então todos se afastaram do pátio, para evitar flechadas, mas formaram um anel de homens em volta do dique externo.

O Sol se pôs e ninguém saiu do salão. E quando estava escuro, os assaltantes voltaram ao pátio carregando a madeira, e as empilharam em volta das paredes do salão. Então, alguns carregando tochas acesas, correram pelo pátio para colocar fogo nas madeiras. Um foi morto por uma flechada, mas os outros chegaram às pilhas e logo começaram a queimar.

Manthor ficou horrorizado na ruína do salão e o ato maligno dos homens de queimá-lo. ‘Dos dias escuros do nosso passado isso vem,’ disse ele, ‘antes de virarmos nossos rostos para o oeste. Uma sombra está sobre nós.’ E ele sentiu uma mão no seu ombro, e ele se virou e viu Húrin, que estava atrás dele, com uma expressão austera; e Húrin riu.

‘Vocês são um povo estranho,’ disse ele. ‘Uma hora frios, outra quente. Primeiro ira, então piedade. Sob os pés de seu líder e agora na sua garganta. Abaixo Hardang! Viva Manthor! Você irá aceitar isso?’

‘O povo deve escolher,’ disse Manthor. ‘E Hardang ainda vive.’

‘Não por muito tempo, espero,’ disse Húrin.

Agora as chamas cresceram e logo o salão do Haladin estava queimando em muitos lugares. Os homens de dentro jogaram terra e água sobre a lenha, tudo o que tinham, e uma grande fumaça se ergueu. Então alguns tentaram fugir sob sua proteção, mas poucos passaram pelo anel de homens; a maioria foi preso, ou morto, se tentaram lutar.

Havia uma pequena porta nos fundos do salão com uma varanda arqueada que se aproximava mais da parede do pátio do que as grandes portas na frente; e a parede atrás era mais baixa, porque o salão fora construído nas encostas de uma colina. Quando o telhado pegou fogo, Hardang e Avranc fugiram pela porta dos fundos, alcançaram o topo da parede e rolaram para o dique, e não foram avistados até que tentaram escalar para fora. Mas então, com gritos, homens correram até eles, mas não sabiam quem eram. Avranc se lançou aos pés de um deles, e o derrubou, e Avranc se levantou e fugiu pela escuridão. Mas outro arremessou uma lança nas costas de Hardang enquanto fugia, e ele caiu com um grande ferimento.

Quando descobriram quem ele era, os homens o levantaram e o colocaram aos pés de Manthor. ‘Não o coloque aos meus pés,’ disse Manthor, mas aos pés daquele que ele maltratou. Não tenho nada contra ele.’

‘Não tem?’ disse Hardang. ‘Então deve ter certeza da minha morte. Eu acho que você sempre terá algo contra aquele que foi escolhido pelo povo para ocupar a cadeira em vez de você.’

‘Pense o que quiser!’ disse Manthor, e se afastou. Então Hardang percebeu que Húrin estava ali. E Húrin ficou olhando para Hardang, uma forma escura na penumbra, mas a luz do fogo estava em seu rosto, e ali Hardang não viu piedade.

‘Você é um homem mais forte que eu, Húrin de Hithlum,’ ele disse. ‘Eu tinha tanto medo da sua sombra que toda a sabedoria e generosidade me abandonou. Mas agora eu não acho que nenhuma sabedoria ou piedade me salvaria de você, pois você não tem nem uma coisa nem outra. Você veio me destruir, ao menos nunca negou isto. Mas sua última mentira contra mim, eu a rebato antes de morrer. Nunca’ – mas com um engasgo de sangue em sua garganta, ele caiu para traz e não falou mais nada.

Então Manthor falou: ‘Ai de mim! Ele não devia ter morrido desta forma. A maldade que ele criou não lhe dava o direito de morrer assim.’

‘Por que não?’ disse Húrin. ‘Ele falou palavras odiosas de uma boca podre no final. Que mentiras falei contra ele?’

Manthor suspirou. ‘Nenhuma mentira intencional, talvez,’ ele disse. ‘Mas a última acusação que você apresentou era falsa, eu acho; e ele não teve chance de negá-la. Eu preferiria que tivesse falado para mim antes do Debate!’

Húrin cerrou os punhos. ‘Não é falsa!’ ele gritou. ‘Ela está onde eu falei. Morwen! Ela está morta!’

‘Ai de mim! Senhor, onde ela morreu eu não duvido. Mas disso eu acho que o Hardang não sabia mais do que eu, antes de você falar. Diga-me, senhor: ela alguma vez caminhou mais profundamente nesta terra?’

‘Eu não sei. Eu a encontrei como falei. Ela está morta.’

‘Mas senhor, se ela não caminhou mais, mas, ao encontrar a pedra, lá se sentou, triste e desesperada, no túmulo de seu filho, pelo que posso crer, então…’

‘Então o que?’ disse Húrin.

‘Então, Húrin Hadorion, pela escuridão de sua angústia, saiba disso! Meu senhor, cujo sofrimento é imenso, tão imenso quanto as coisas que vieram a acontecer conosco que nenhum homem e nenhuma mulher se aproximou daquela pedra desde que ela está lá. Não! O senhor Oromë em pessoa pode sentar naquela pedra, com toda a sua caça em sua volta, e não saberíamos. E mesmo que soprasse sua grande corneta, nós não atenderíamos àquele chamado!’

‘Mas e se Mandos, o Justo, falasse, não o ouviria?’ disse Húrin. ‘Agora alguns devem ir para lá, se você possui alguma piedade! Ou irá deixá-la lá, até que seus ossos fiquem brancos? Isto purificaria a sua terra?’

‘Não, não!’ disse Manthor. ‘Eu irei encontrar alguns homens de coração forte e mulheres piedosas, e você nos levará até lá, e faremos o que pede. Mas é uma longa estrada, e este dia está acabando em toda a sua malícia. Um novo dia é necessário.’

No dia seguinte, quando as notícias da morte de Hardang se espalharam, uma grande multidão de pessoas procurou Manthor, implorando para que se tornasse líder. Mas ele disse: ‘Não, isto deve ser apresentado perante o Debate. E não pode ser agora, pois o anel foi maculado, e existem outras coisas que são mais urgentes. Primeiro eu tenho uma missão. Eu devo ir ao campo do verme e até a Pedra dos Infelizes, onde Morwen, sua mãe está abandonada. Alguém irá comigo?’

Então a piedade afetou alguns corações dos que o ouviram; e apesar de alguns terem se afastado com medo, muitos estavam dispostos a ir, mas entre estes, havia mais mulheres do que homens.

Assim, mais tarde, partiram em silêncio, trilhando o caminho que levava pela cachoeira de Celebros. Após oito milhas, a escuridão caiu sobre Nen Girith, e eles passaram a noite da forma que puderam. E na manhã seguinte, eles chegaram ao Campo da Queimada, e eles encontraram o corpo de Morwen ao lado da Pedra Parada. Então olharam para ela com piedade e espanto; pois parecia que olhavam para uma grande rainha cuja dignidade nem a idade nem toda a miséria nem toda a angústia do mundo conseguiria tirar dela.

Então eles desejaram honrá-la em morte; e alguns disseram: ‘Este é um lugar negro. Vamos erguê-la, e levar a Senhora Morwen até o pátio dos túmulos e colocá-la entre os da Casa de Haleth com quem possui parentesco.’

Mas Húrin disse: ‘Não, Nienor não está aqui, mas é melhor que ela fique aqui, próxima de seu filho, em vez de com estranhos. É o que ela teria escolhido.’ Então eles fizeram uma tumba para Morwen sobre Cabed Naeramarth, no lado oeste da Pedra; e quando a terra foi jogada sobre ela, eles escreveram na Pedra: Aqui jaz também Morwen Edelwen, enquanto alguns cantavam na língua antiga os lamentos que há muito foram feitos para aqueles do seu povo que caíram na Marcha além das Montanhas.

E enquanto cantavam, começou uma chuva cinzenta, e todo aquele lugar desolado se encheu de pesar, e o rugir do rio era como o lamento de muitas vozes. E quando tudo terminou, eles se afastaram, e Húrin foi apoiado em sua bengala. Mas dizem que depois deste dia o medo abandonou aquele lugar, mas a tristeza permaneceu, e ficou para sempre sem folhas e descoberto. Mas até o fim de Beleriand, as mulheres de Brethil iriam com flores na primavera, e bacíferos no outono, e cantariam ali por um tempo, para a Senhora Cinzenta que procurou em vão por seu filho. E um vidente e um harpista de Brethil, Glirhuin, fez uma canção falando que a Pedra dos Infelizes não poderia ser maculada por Morgoth, nem nunca derrubada, nem que o Mar engolisse toda a terra. O que de fato aconteceu depois, e ainda a Tol Morwen está sozinha na água, além das novas costas que foram criadas nos dias da ira dos Valar. Mas Húrin não está enterrado lá, pois seu destino o levou adiante, e a Sombra continuou seguindo-o.

Agora, quando a companhia retornou para Nen Girith, eles pararam, e Húrin olhou para trás, além de Taeglin, em direção ao Sol poente que aparecia através das nuvens; e ele estava relutante em retornar para a Floresta. Mas Manthor olhou para o leste e estava preocupado, pois havia um brilho vermelho no céu daquele lado também.

‘Senhor,’ disse ele, ‘fique aqui se quiser, assim como todos os outros que estiverem cansados. Mas eu sou o último dos Haladin, e eu temo que o fogo que foi aceso ainda não tenha se apagado. Devo retornar rapidamente, para que a loucura dos homens não leve Brethil inteira à ruína.’

Mas enquanto ele falava isto, uma flecha saiu do meio das árvores, e ele tropeçou e caiu no chão. Então os homens correram para procurar pelo arqueiro; e eles viram um homem correndo como um cervo pelo caminho até Obel, e ele não foi alcançado; mas eles viram que era Avranc.

Manthor sentou-se, ofegante, encostado em uma árvore. ‘Só um arqueiro ruim erraria o alvo no terceiro tiro,’ ele disse.

Húrin se curvou em sua bengala e olhou para Manthor. ‘Mas você também errou seu alvo, parente,’ ele disse. ‘Você foi um amigo valoroso, e eu acho que você foi com muita vontade na causa que também era sua. Manthor teria sentado de forma mais merecedora na cadeira dos líderes.’

‘Você possui um olho forte, Húrin, para perfurar todos os corações, menos o seu,’ disse Manthor. ‘Sim, sua escuridão também me tocou. Agora ai de mim! Os Haladin se acabaram; pois este ferimento é mortal. Esta não era sua verdadeira missão, homem do norte: levar a ruína a nós para contrapesar com a sua? A Casa de Hador nos conquistou, e quatro de nós caíram sob sua sombra: Brandir, e Hunthor, e Hardang e Mantho. Não é o suficiente? Não partirás e deixar esta terra que morre?’

‘Eu irei,’ disse Húrin. ‘Mas se o poço das minhas lágrimas não estivesse totalmente seco, eu choraria por você, Manthor, pois você me salvou da desonra, e eu o amo como a um filho.’

‘Então, senhor, use em paz o pouco mais de vida que eu ganhei para você,’ disse Manthor. ‘Não leve sua sombra para outros!’

‘Por quê? Não posso mais caminhar pelo mundo?’ disse Húrin. ‘Eu irei continuar até que a sombra de derrube. Adeus!’

E assim Húrin se separou de Manthor. Quando os homens foram medicar seus ferimentos, descobriram que era grave, pois a flecha entrara fundo em seu flanco; e eles quiseram carregar Manthor rapidamente de volta para o Obel, para que fosse cuidado por curandeiros habilidosos. ‘Tarde demais,’ disse Manthor, e ele arrancou fora a flecha, e deu um grande grito, e ficou imóvel. Assim terminou a Casa de Haleth, e homens menores governaram Brethil no tempo que restou.

Mas Húrin ficou em silêncio, e quando a companhia partiu, carregando o corpo de Manthor, ele não se virou. Ele olhou sempre para o oeste até que o Sol caísse na escuridão e a luz falhasse; e então partiu sozinho em direção à Haud-em-Elleth.

* Pois Manthor era um descendente de Haldad, e ele possuía uma terra pequena na fronteira leste de Brethil, próximo ao Sirion onde ele atravessa Dimbar. Mas todo o povo de Brethil era formado por homens livres, mantendo suas casas e suas terras, sejam maiores ou menores, de direito. Seu senhor era escolhido entre os descendentes de Haldad, por reverência pelos feitos de Haleth e Haldar; e mesmo que a liderança era dada, como se fosse um domínio ou um reino, para os mais velhos da linhagem mais velha, o povo tinha o direito de colocar qualquer um de lado ou tirá-lo de lá, por uma causa grave. E alguns sabiam o suficiente que Harathor tentara que Brandir o Aleijado tivesse tido abdicado em seu favor.

valinor

Uma nota sobre o Capí­tulo 22 Da Ruí­na de Doriath do Silmarillion publicado

[Nota do Tradutor: Texto de autoria de Christopher Tolkien, contido
no HoME 10. Junto ao texto "Sobre o parentesco de Gil-galad, já
traduzido e publicado na Valinor, este texto é essencial para o estudo
e quantificação da influência pessoal de Christopher Tolkien em "O
Silmarillion" publicado. O ponto-chave de ambos os textos não são as
minúcias sobre o real parentesco de Gil-galad ou qual a melhor solução
possível para "A Queda de Doriath" e sim a interferência pessoal
inserido por C. Tolkien em todo "O Silmarillion", que é muito mais
ampla e intrusiva do que costuma-se imaginar. C. Tolkien não se
contenta com sua postura de editor dos textos do pai e assume um
indevido papel de co-autor, mas não vou me alongar sobre o assunto
neste momento pois o mesmo é merecedor de um ensaio especial e bem mais
cuidadoso a ser publicado dentro em breve na Valinor.]
 
 
 
Exceto por uns poucos detalhes em textos e notas não publicados, tudo
que meu pai escreveu sobre o assunto da ruína de Doriath já foi
lançado: da história original no "Conto de Turambar" (HoME II.113-15) e
no "Conto do Nauglafring" (HoME II.221 e próximas), passando pelo
"Rascunho da Mitologia" (HoME IV.32-3, com comentários 61-3) e o
"Quenta" (HoME IV. 132-4, com comentários 187-91), junto ao pouco que
pode ser visualizado no "O Conto dos Anos" e em algumas poucas
referências tardias. Se estes materiais forem comparados à história
contada em "O Silmarillion" publicado percebe-se logo de início que
este último foi fundalmentalmente alterado, para uma forma que em
certas características essenciais não existe referência alguma mesmo
nos próprios escritos de meu pai.

Existem alguns problemas bastante evidentes com a antiga história. Se
ele voltasse a trabalhar nela algum dia, meu pai sem dúvida encontraria
alguma outra solução que não aquela no "Quenta" para a questão "Como o
tesouro de Nargothrond foi levado a Doriath?". Lá, a maldição que Mîm
pôs sobre o ouro à sua morte "caiu sobre os seus possuidores. Cada um
dos companheiros de Hurin morreu ou foi morto em lutas na estrada; mas
Hurin foi a Thingol e pediu sua ajuda e o povo de Thingol levou o
tesouro para as Mil Cavernas". Como é dito no HoME IV.188, "isto
arruína o gesto, se Hurin deve chegar diretamente ao rei para enviar o
ouro com o qual então ele foi humilhado". Parece para mim mais provável
(mas isto é mera especulação) que o meu pai reintroduziria os
fora-da-lei dos antigos Contos (HoME II.113-15,222-3) como os
portadores do tesouro (mas não a dura batalha entre eles o os Elfos da
Mil Cavernas): nos escritos desordenados ao final do "The Wanderings of
Hurin" Asgon e seus companheiros reaparecem após o desastre em Brethil
e vão com Hurin a Nargothrond.

Como ele trataria o comportamente de Thingol com relação aos Anões é
impossível dizer. A história só foi contada inteiramente uma vez, no
Conto do Nauglafring, no qual a conduta de Tinwelint (precursor de
Thingol) estava em completo desacordo com a concepção posterior do rei
(ver HoME II.245-6). No "Rascunho da Mitologia" nada mais é dito sobre
o assunto além de que os Anões foram "expulsos sem pagamento", enquanto
no "Quenta" "Thingol… não cumpriu adequadamente sua prometida
recompensa por seus trabalhos; e palavras amargas surgiram entre eles,
e houve uma batalha nos Salões de Thingol". Parece não haver dicas ou
pistas nos escritos posteriores (no "Conto dos Anos" a mesma frase é
utilizada em todas as versões "Thingol discutiu com os Anões"), exceto
uma encontrada nas palavras transcritas do "Sobre Galadriel e
Celeborn": Celeborn em sua versão da destruição de Doriath ignora a
parte de Morgoth "e os próprios erros de Thingol".

No "Conto dos Anos" meu pai parece não ter considerado o problema da
passagem de um exército Anão para o interior de Doriath apesar do
Cinturão de Melian, mas ao escrever as palavras "não pode" na versão D
ele mostrou que ele considerava a história que delineou como
impossível, por aquela mesma razão. Em outro local ele rascunhou uma
possível solução: "De alguma forma deve ser delineado que Thingol foi
atráido para fora ou foi à guerra além de suas bordas e lá foi morto
pelos Anões. Então Melian parte e com o cinturação removido Doriath é
destruída pelos Anões".

Na história que aparece em "O Silmarillion" os fora-da-lei que vão a
Nargothrond com Hurin foram removidos e também a maldição de Mîm; e o
único tesouro que Hurin toma de Nargothrond é o Nauglamir – o qual aqui
supõe-se feito para Finrod Felagund pelos Anões e que era o tesouro de
Nargothrond ao qual eles davam maior valor. Hurin é representado como
finalmente livre das ilusões inspiradas por Morgoth em seu encontro com
Melian em Menegroth. Os Anões que incrustaram a Silmaril no Nauglamir
já estavam em Menegroth, engajados em outros trabalhos e foram eles que
mataram Thingol; e àquele tempo o poder de Melian foi retirado de
Neldoreth e Region e ela sumiu da Terra-média, deixando Doriath sem
proteção. A emboscada e destruição dos Anões em Sarn Athrad foi dada
novamente a Beren e os Elfos da Floresta (seguindo a carta de 1963 de
meu pai, citada à página 353, onde os Ents "Pastores de �?rvores", são
introduzidos).

Esta história não foi tola ou facilmente concebida, mas foi o resultado
de uma longa experimentação entre concepções diversas. Neste trabalho
Guy Kay assumiu um grande papel e o capítulo como eu finalmente o
escrevi deve muito às minhas discussões com ele. É, e era, óbvio que um
estava sendo um Passo de uma ordem diferente de qualquer outra
"manipulação" dos escritos de meu pai ao longo do livro: mesmo na
história de "A Queda de Gondolin", para qual meu pai nunca retornou,
algo poderia ser deduzido sem introduzir mudanças radicais na
narrativa. Pareceu àquele tempo que existiam elementos inerentes à
história da Ruína de Doriath como ela exitia que eram radicalmente
incompatíveis com "O Silmarillion" como projetado e que havia uma
escolha inescapável: ou abandonar aquela concepção projetada ou alterar
a história. Eu acho agora que aquela foi uma visão equivocada e que as
inegáveis dificuldades poderiam ter sido, e deveriam ter sido,
ultrapassadas sem exceder tanto as fronteiras da função editorial.

 
[Tradução de Fábio ´Deriel´ Bettega]
valinor

O Conto de Adanel

[O “Conto de Adanel” era é uma versão da história da “Queda dos Homens” como contada na Terra-média entre os Edain da Primeira Era. Está contido no volume 10 da série The History of Middle-earth X, Morgoth’s Ring]

Então Andreth, encorajada por Finrod, disse por fim: “- Este é o conto que Adanel, da Casa de Hador, contou-me”.

Alguns dizem que o Desastre aconteceu no início da história de nosso povo, antes que qualquer um houvesse morrido. A Voz falara a nós, e nós ouvíramos. A Voz disse: “- Vós sois meus filhos. Enviei-vos para aqui habitardes. No devido tempo herdareis toda esta Terra, mas primeiro deveis ser crianças e aprender. Pedi a mim e ouvirei, pois velo por vós”.

Compreendemos a Voz em nossos corações, embora ainda não possuíssemos palavras. Então o desejo pelas palavras despertou em nós, e começamos a criá-las. Mas éramos poucos, e o mundo era vasto e estranho. Embora muito desejássemos compreender, aprender era difícil, e a criação das palavras era lenta.

Naquele tempo com freqüência chamávamos e a Voz respondia. Mas ela raramente respondia nossas perguntas, dizendo apenas: “- Primeiro procurai encontrar a resposta por vós mesmos. Pois tereis alegria na descoberta, e assim saireis da infância e tornar-vos-eis sábios. Não procureis deixar a infância antes de vosso tempo”.

Mas tínhamos pressa, e desejávamos ordenar as coisas à nossa vontade; e as formas de muitas coisas que desejávamos criar despertaram em nossas mentes. Portanto, falávamos cada vez menos à Voz.

Então alguém apareceu entre nós em nossa própria forma visível, mas maior e mais belo, e ele disse que viera por piedade. “Vós não deveríeis ser deixados sozinhos e sem instrução” disse ele. “O mundo está repleto de riquezas maravilhosas que o conhecimento pode revelar. Vós poderíeis ter alimentos mais abundantes e mais deliciosos do que comeis agora. Vós poderíeis ter tranqüilas habitações, nas quais poderíeis manter a luz e afastar a noite. Poderíeis inclusive vestir-vos igual a mim.”

Então olhamos e vede, ele usava vestes que brilhavam como prata e ouro, e tinha uma coroa em sua cabeça e jóias em seu cabelo. “Se desejais ser como eu” disse ele “, ensinar-vos-ei”. Então aceitamo-lo como mestre.

Ele era menos rápido do que esperávamos a ensinar-nos como encontrar, ou criar por nós mesmos, as coisas que desejávamos, embora ele houvesse despertado muitos desejos em nossos corações. Mas se qualquer um duvidasse ou ficasse impaciente, ele trazia e colocava diante de nós tudo o que havíamos desejado. “Sou o Provedor de Presentes” disse ele “, e os presentes nunca faltarão enquanto vós confiardes em mim”.

Por conseguinte, reverenciamo-lo, e por ele fomos cativados, e dependíamos de seus presentes, temendo retornar a uma vida sem eles que agora parecia-nos pobre e dura. E acreditamos em tudo que ele ensinou. Pois estávamos ávidos para saber sobre o mundo e sua existência: sobre as feras e pássaros, e as plantas que cresciam na Terra; sobre nossa própria criação; e sobre as luzes do céu, sobre as estrelas incontáveis, e a Escuridão na qual elas estão.

Tudo o que ele ensinava parecia bom, pois ele possuía um grande conhecimento. Mas cada vez mais ele falava da Escuridão. “Maior de todas é a Escuridão” disse ele “, pois Ela não tem limites. Vim da Escuridão, mas sou Seu mestre. Pois eu criei a Luz. Criei o Sol e a Lua e as incontáveis estrelas. Proteger-vos-ei da Escuridão, que de outro modo devorar-vos-ia”.

Então falamos-lhe da Voz. Mas sua face tornou-se terrível, pois ele enfurecera-se. “Tolos!” disse ele. “Aquela era a Voz da Escuridão. Ela deseja afastar-vos de mim, pois Ela está faminta por vós”.

Ele então foi embora, e não o vimos por um longo tempo, e sem seus presentes éramos pobres. E então chegou um dia no qual a luz do Sol repentinamente começou a falhar, até que foi apagada, e uma grande sombra caiu sobre o mundo, e todas as feras e pássaros temeram. Então ele veio novamente, caminhando através da sombra como um fogo brilhante.

Prostramo-nos. “Há alguns entre vós que ainda estão dando ouvidos à Voz da Escuridão” disse ele “e, portanto, Ela aproxima-se. Escolhei agora! Podeis ter a Escuridão como Senhor, ou podeis ter a Mim. Mas a menos que tomeis a Mim por Senhor e jureis servir-Me, partirei e deixar-vos-ei, pois possuo outros reinos e moradias, e não preciso da Terra, nem vós”.

Então em medo falamos conforme ele ordenara, dizendo: “- Vós sois o Senhor. Apenas a Ti serviremos. À Voz renunciamos e não mais escuta-la-emos”.

“- Que assim seja!” disse ele. “Agora construí a Mim uma casa sobre um local elevado e chamai-na Casa do Senhor. Para lá irei quando desejar. Lá visitar-Me-eis e fazer-Me-eis vossas súplicas”.

E quando tínhamos construído uma grande casa, ele veio e colocou-se diante do alto assento, e a casa foi iluminada como que por fogo. “Agora” disse ele “apareça qualquer um que ainda dê ouvidos à Voz!”

Havia alguns, mas por medo eles permaneceram imóveis e nada disseram. “Então curvai-vos diante de Mim e reconhecei-Me!” disse ele. E todos curvavam-se ao solo diante dele, dizendo: “- Vós sois o Único Grande, e somos Vossos”.

Com isso, ele ergueu-se como em uma grande chama e fumaça, e fomos queimados pelo calor. Mas repentinamente ele partira, e estava mais escuro que a noite, e fugimos da Casa.

Posteriormente sempre íamos com um grande pavor da Escuridão, mas ele raramente aparecia novamente entre nós em uma forma bela, e trazia poucos presentes. Se em grande necessidade ousávamos ir à Casa e orar-lhe para que ajudasse-nos, escutávamos sua voz, e recebíamos suas ordens. Mas agora ele sempre ordenava-nos a executar alguma tarefa ou dar-lhe algum presente antes de ouvir a nossa prece; e as tarefas tornavam-se sempre piores, e mais difícil abrir mão dos presentes.

A primeira Voz nunca mais ouvimos, exceto uma vez. No silêncio da noite Ela falou, dizendo: “- Renunciastes a Mim, mas vós permaneceis Meus. Dei-vos a vida. Agora ela encurtar-se-á, e cada um de vós em pouco tempo virá a Mim, para aprender quem é vosso Senhor: aquele que idolatrais ou Eu que criei-o”.

Então nosso terror pela Escuridão aumento, pois acreditávamos que a Voz era da Escuridão por trés das estrelas. E alguns de nós começaram a morrer em horror e angústia, temendo sair para a Escuridão. Chamamos então por nosso Mestre para que salvasse-nos da morte, mas ele não respondeu. Mas quando fomos à Casa e todos lá curvaram-se, ele por fim veio, grande e majestoso, mas seu rosto era cruel e orgulhoso.

“- Agora sois Meus e deveis fazer Minha vontade” disse ele. “Não preocupo-me que alguns de vós morrais e vades para aplacar a fome da Escuridão, pois de outro modo logo haveria muitos de vós, rastejando como parasitas sobre a Terra. Mas se não fizerdes Minha vontade, sentireis Minha ira, e morrereis mais cedo, pois matar-vos-ei”.

Com isso fomos dolorosamente afligidos, pelo cansaço, fome e enfermidades; e a Terra e todas as coisas nela viraram-se contra nós. Fogo e água rebelaram-se contra nós. Os pássaros e feras evitavam-nos ou, se eram fortes, atacavam-nos. Plantas deram-nos veneno, e temíamos as sombras sob as árvores.

Então ansiamos pela nossa vida como fora antes que nosso Mestre chegasse; e nós o odiamos, mas o temíamos não menos que a Escuridão. E cumprimos sua ordem, e mais do que sua ordem; pois tudo que pensávamos que agradar-lhe-ia, embora maligno, fazíamo-lo, na esperança de que ele aliviaria nossas aflições e que ao menos não mataria-nos.

Para a maioria de nós isso foi em vão. Mas a alguns ele começara a favorecer: os mais fortes e mais cruéis, e aqueles que iam com maior freqüência à Casa. Deu-lhes presentes e conhecimentos que mantiveram em segredo; e eles tornaram-se poderosos e orgulhosos, e escravizaram-nos, de modo que não tínhamos descanso do nosso trabalho no meio de nossas aflições.

Então ergueram-se alguns dentre nós que diziam abertamente em seu desespero: “- Agora finalmente sabemos quem mentiu e quem desejava devorar-nos. não a primeira Voz. É o Mestre que tomamos a Escuridão; e ele não veio dela, como disse, mas nela habita. não mais servi-lo-emos! Ele é nosso Inimigo”.

Então com medo, para que ele não ouvisse-os e punisse a todos nós, matávamo-los se pudéssemos; e aqueles que fugiam nós caçávamos; e, se quaisquer eram pegos, nossos mestres, amigos dele, ordenavam que eles fossem levados à Casa e lá mandados para a morte pelo fogo. Isso agradava-lhe enormemente, seus amigos diziam; e, de fato, por um tempo parecia que nossas aflições foram aliviadas.

Mas conta-se que houve alguns que escaparam-nos, e partiram para países longínquos, fugindo da sombra. Ainda assim eles não escaparam da ira da Voz, pois eles haviam construído a Casa e curvaram-se nela. E por fim chegaram ao final da terra e às praias da água intransponível; e vede, o Inimigo estava lá diante deles.

Gil-galad portando Aeglos

Os Nomes dos Clãs Eldar

Em Quenya a forma dos nomes dos três grandes Clãs eram Vanyar, Noldor e Lindar. O mais antigo destes nomes era Lindar, o qual certamente remonta aos dias antes da Separação. Os outros dois provavelmente surgiram no mesmo período, mas um pouco mais tarde. Suas formas originais podem ser dadas em Élfico Primitivo como *wanja, *ngolodo e linda/glinda [1].

De acordo com a lenda, preservada de maneira quase idêntica tanto entre os Elfos de Aman quanto entre os Sindar, os Três Clãs eram derivados em princípio dos três Pais-Elfos: Imin, Tata e Enel (sc. Um, Dois, Três) e por aqueles a quem cada um escolheu seguir. Então, a princípio eles tinham simplesmente os nomes Minyar “Primeiros”, Tatyar “Segundos” e Nelyar “Terceiros”. Estes eram contados, dentre os 144 Elfos que primeiramente acordaram, 14, 56 e 74; e estas proporções foram aproximadamente mantidas até a Separação. [2]

É dito que do pequeno clã dos Minyar nenhum se tornou Avari. Os Tatyar foram divididos meio-a-meio. Os Nelyar eram os mais relutantes em deixar seus lares às margens do lago; mas eram bastante coesos e bastante conscientes da unidade separada de seu Clã (como continuaram a ser), portanto quando ficou claro que seus líderes Elwë e Olwë estavam resolvidos a partir e teriam muitos seguidores, muitos dentre os que originalmente tinham se unido aos Avari foram para junto dos Eldar ao invés de se separarem de seus parentes. Os Noldor, de fato, afirmaram que a maior parte dos “Teleri” eram Avari em seus corações, e que apenas os Eglain realmente lamentaram serem deixados em Beleriand.

De acordo com historiadores Noldorin as proporções, de 144, que quando começou a Marcha tornaram-se Eldar ou Avari foram aproximadamente:

Minyar 14: Avari 0 Eldar 14

Tatyar 56: Avari 28 Eldar 28

Nelyar 74: Avari 28 Eldar 46 > Amanyar Teleri 20; Sindar e Nandor 26

Por isso os Noldor eram o maior clã de Elfos em Aman; enquanto os Elfos que permaneciam na Terra-média (os Moriquendi no Quenya de Aman) ultrapassavam os Amanyar na proporção de 82 para 62. [3]

Por quanto tempo os nomes descritivos dos clãs *wanja, *ngolodo e *linda foram preservados entre os Avari não é sabido; mas a existência dos antigos clãs é lembrada e um parentesco especial entre aqueles do mesmo clã original, tenham eles partido ou permanecido, continua reconhecido. Os primeiros Avari que os Eldar encontraram em Beleriand parecem ter dito serem Tatyar, que reconheciam seu parentesco com os Exilados, embora não existam registros da utilização do nome Noldo em nenhuma forma Avarin reconhecível. Eles não eram amigáveis com os Noldor e invejosos de seus parentes mais exaltados, a quem acusavam de arrogância.

Este mal-estar surge em parte do amargor do Debate antes da marcha dos Eldar começa,r e sem dúvida aumentou através de maquinações de Morgoth; mas também lança alguma luz sobre o temperamento dos Noldo, em geral e de Fëanor em particular. De fato os Teleri a seu lado afirmavam que a maioria dos Noldor em Aman eram Avari de coração e retornaram à Terra-média quando descobriram seu erro; eles precisavam de espaço para habitar. Pois em contraste, os elementos Lindarin  nos Avari do oeste eram amigáveis com os Eldar e desejosos para aprender com eles, e tão próximo era o sentimento de parentesco entre os remanescentes dos Sindar, Nandor e Lindarin Avari que mais tarde em Eriador e no Vale do Anduin eles freqüentemente mesclaram-se.

Lindar (Teleri) [4]

Este era, como visto, o maior dos antigos clãs. O nome, mais tarde aparecendo na forma Quenya como Lindar (Lindai em Telerin), já é referenciado na lenda do “Acordar dos Quendi”, a qual sobre os Nelyar que “eles cantaram antes de poderem falar com palavras”. O nome *Linda é portanto claramente um derivativo da raiz primitiva *LIN (mostrando reforço do x médio e do -a adjetival). Esta raiz foi possivelmente uma das contribuições dos Nelyar ao Élfico Primitivo, por reflete suas predileções e associações, e produz mais derivativos nas línguas Lindarin do que em outras. Sua referência primária foi para um som melodioso ou agradável, mas também se refere (especialmente em Lindarin) à água, aos movimentos da qual os Lindar sempre associaram os sons vocais (élficos). Os reforços, tanto do médio -lind como dos iniciais glin-, glind- eram, contudo, quase somente utilizados em sons musicais, especialmente vocais, produzidos com o intuito de serem agradáveis. É, portanto, a este amor dos Nelyar pela música, pelos sons vocais com ou sem o uso de palavras articuladas, ao qual o nome Lindar originalmente de referia; mas também eles amavam a água, e antes da Separação nunca se mudaram para longe do lago e da cachoeira de Cuiviénen e aqueles que se mudaram para o leste se tornaram enamorados do Mar [5].

Em Quenya, ou seja, na língua dos Vanyar e Noldor, aqueles deste clã que se uniram à Marcha foram chamados de Teleri. Este nome era aplicado em particular àqueles que vieram finalmente e por último a Aman; mas mais tarde também foi aplicado aos Sindar. O nome Lindar não foi esquecido, mas nas histórias Noldorin era principalmente utilizado para descrever todo o Clã, incluindo os Avari entre eles. Teleri significa “aqueles no final da linha, os últimos” e foi, evidentemente, um apelido que surgiu durante a Marcha, quando os Teleri, os menos ansiosos a partir, freqüentemente ficavam bastante para trás [6].

Vanyar

Este nome provavelmente foi dado ao Primeiro Clã pelos Noldor. Eles o aceitaram, mas continuaram a chamar a si mesmos mais freqüentemente pelo velho nome numérico Minyar (uma vez que todo este clã uniu-se aos Eldar e alcançou Aman). O nome se referia ao cabelos dos Minyar, que era em quase todos os membros do clã amarelo ou dourado profundo. Esta era considerada uma características bela pelos Noldor (que amavam o ouro), embora eles tivessem em sua maior parte cabelos escuros. Devido ao intercasamento o cabelo dourado dos Vanyar algumas vezes mais tarde apareceu entre os Noldor: notavelmente no caso de Finarfin e seus filhos Finrod e Galadriel, em cujo caso eles vieram da segunda esposa de Finwë, Indis dos Vanyar.

Vanyar portanto surgiu como um derivativo adjetival *wanja da raiz *WAN. Seu sentido primário parece ter sido bastante similar ao uso Inglês (moderno) de “belo” (“fair”) com referência ao cabelo e compleição; embora seu desenvolvimento tenha sido o oposto do Inglês: significa “pálido, de cores claras, não marrom ou escuro” e sua implicação de beleza era secundária. No Inglês o sentido “bonito” é primário. Da mesma raiz derivou-se o nome dado em Quenya à Valië Vána, esposa de Oromë.

Uma vez que os Lindar tiveram pouco contato com os Vanyar tanto na Marcha ou mais tarde em Aman, o nome não era muito usado por eles para o Primeiro Clã. Os Amanyar Teleri tinham a forma Vaniai (sem dúvida tomada dos Noldor), mas o nome parece ter sido esquecido em Beleriand, onde o Primeiro Clã (em lendas e histórias apenas) era chamado de Miniel (Minil no plural).

Noldor

Este nome provavelmente é mais antigo do que Vanyar, e pode ter sido criado antes da Marcha. Foi dado ao Segundo Clã pelos outros. Foi aceito e era usado como nome regular e próprio por todos os membros Eldarin do clã em sua história posterior.

O nome significa “os Sábios”, ou seja, aqueles que tinham grande conhecimento e entendimento. Os Noldor de fato já cedo mostraram terem os maiores talentos entre todos os Elfos tanto para feitos intelectuais como para perícias técnicas.

As formas variantes do nome: (Quenya) Noldo, (Telerin) Goldo, (Sindarin) Golodh/Ngolodh, indicam um Élfico Primitivo *ngoldo. Este é um derivativo da raiz *NGOL “conhecimento, sabedoria”. Isto é visto no (Quenya) Role ´longo estudo (de qualquer assunto), ingole “conhecimento”, ingolmo “mestre do conhecimento”. Em (Telerin) gole, engole têm o mesmos sentidos que em Quenya mas são mais freqüentemente utilizados para o “conhecimento” especial possuído pelos Noldor. Em Sindarin a palavra gul (equivalente ao Quenya nole) possui associações menos laudatórias, sendo utilizada mais freqüentemente como significando conhecimento secreto, especialmente como aquele possuído pelos artífices que criavam coisas maravilhosas; e a palavra tornou-se ainda mais escurecida por seu freqüente uso no componente morgul “artes negras”, aplicada às artes delusórias ou perigosas e conhecimentos derivados de Morgoth. Aqueles dentre os Sindar que já não eram amigáveis aos Noldor atribuíam sua supremacia nas artes e nos conhecimentos aos seus aprendizados a partir de Melkor-Morgoth. Isto é falso, tendo vindo em última análise do próprio Morgoth, embora não seja sem alguma fundamentação (como as mentiras de Morgoth raramente o eram). Mas os grandes dons dos Noldor não vieram dos ensinamentos de Melkor. Fëanor o maior de todos eles nunca teve assuntos com Melkor em Aman e foi seu maior inimigo.

Sindar

A forma menos comum Sindel (plural Sindeldi) também é encontrada no Quenya dos Exilados. Este também é o nome dado pelos Exilados Noldor [7] à segunda maior divisão dos Eldar [8]. Ele se aplicava a todos os Elfos de origem telerin que os Noldor encontraram em Beleriand, embora mais tarde excluísse os Nandor, exceto aqueles que eram diretamente sujeitos a Elwë ou se mesclaram a seu povo. O nome significa “os Cinzentos” ou “os Elfos Cinzentos” e era derivado de *THIN, (Élfico Primitivo) *thindi “cinza, pálido ou cinza prateado”, (Quenya) pinde, (Noldorin) sinde.

Sobre a origem deste nome, ver [7]. Os Mestres do Conhecimento também supuseram que a referência era feita aos cabelos dos Sindar. Elwë de fato tinham um longo e belo cabelo de tonalidade prata, mas esta não parece ter sido uma característica comum dos Sindar, embora fosse encontrada entre eles ocasionalmente, especialmente entre parentes próximos ou distantes de Elwë (como no caso de Círdan) [9]. Em geral os Sindar aparentemente pareciam muito com os Exilados, tendo cabelos escuros, sendo fortes e altos, ainda que ágeis. De fato eles dificilmente poderiam ser separados exceto por seus olhos; pois os olhos de todos os Elfos que habitaram Aman impressionavam àqueles da Terra-média por seu brilho penetrante. Por essa razão os Sindar freqüentemente os chamavam de Lachend (plural Lechind) “olhos de chamas”.

Nandor

Este nome foi feito ao tempo, nos dias tardios da Marcha, quando certos grupos de Teleri desistiram da Jornada; e é especialmente aplicado aos muitos seguidores de Lenwë [10] que recusaram a cruzar as Hithaeglir [11]. O nome era freqüentemente interpretado como “aqueles que voltaram”; mas de fato nenhum dos Nandor parecem ter retornado ou se reunido aos Avari. Muitos permaneceram nas terras que tinham alcançado, especialmente ao lado do Rio Anduin; alguns vagaram para o sul [12].

Existiu contudo, como visto, um pequeno movimento dos Moriquendi para o
oeste durante a prisão de Melkor, e eventualmente, grupos de Nandor, cruzando através do Paço entre as Hithaeglir e as Eryd Nimrais, espalharam-se amplamente em Eriador. Alguns desses ao final entraram em Beleriand, não muito depois do retorno de Morgoth [13]. Estes estavam sob a liderança de Denethor, filho de Denweg (ver [10]), que se tornou um aliado de Elwë nas primeiras batalhas contra as criaturas de Morgoth. O antigo nome Nandor era lembrado apenas pelos historiadores Noldorin em Aman; e eles não sabiam nada da•história posterior deste povo, lembrando apenas que o nome do líder dos que desistiram antes de cruzar as temíveis Hithaeglir era Lenwë (i.e. Denweg). Os Mestrs do Conhecimento Sindar lembravam dos Nandor como Danwaith ou, por confusão com o nome de seu líder, Denwaith.

Este nome eles aplicaram primeiramente aos Nandor que vieram para Beleriand Oriental; mas este povo chamava-se com o velho nome do clã *Lindai, que fora tomado da forma Lindi para sua própria língua. A região onde mais comumente se fixaram como um povo pequeno e independente eles chamaram de Lindon (<*Lindana): esta era a região a oeste das Montanhas Azuis (Eryd Luin), cortada pelos tributários do grande rio Gelion e previamente nomeada pelos Sindar como Ossiriand, a Terra dos Sete Rios. Os Sindar rapidamente reconheceram os Lindi como parentes de origem Lindarin (ou Glinnil em Sindarin), utilizando uma língua que, apesar das grandes diferenças, continuava sendo percebível como aparentada à sua própria; e eles adotaram os nomes Lindi e Lindon, dando-lhes as formas Lindil (sq. Lindel) ou Linedhil, e Lindon ou Dor Lindon. No Quenya dos Exilados as formas utilizadas (derivadas dos Sindar ou diretamente dos Noldor) eram Lindi e Lindon (ou Lindone). Os Exilados Noldor também usualmente se referiam às Eryd Luin como Eryd Lindon, uma vez que a parte mais alta de suas cordilheiras faziam a fronteira oriental da região de Lindon.

Estes nome foram, mais tarde, substituídos entre os Sindar pelo nome “Elfos verdes”, pelo menos no que se referia aos habitantes de Ossiriand; pois eles ocultaram a si mesmos e tomaram tão pouca parte nas lutas contra Morgoth quando podiam. Este nome, (Sindarin) Laegel (plural Laegil, plural de classe Laegrim ou Laegel(d)rim) foi dado tanto devido à verdejante terra de Lindon quanto ao fato de que os Laegrim vestiam-se de verde como um auxílio à sua secritude. Este termo os Noldor traduziram em Quenya como Laiquendi, mas não era muito utilizado.

Notas:

[1] (Nota de J.R.R. Tolkien) Embora este Nome de Clã tenha *glind- em Sindarin, o g- não aparece no Amanya telerin nem no Nandorin, então neste caso pode ter sido uma adição ao Sindarin, que favoreceu e aumentou em muito grupos iniciais deste tipo.

[2] (Nota do Tradutor) a Lenda do Despertar, ou Cuivienyarna, está traduzida para português neste link.

[3] (Nota de Christopher Tolkien) A história encontrada nos Anais de Aman sobre os grupos de Morwë e Nurwë, que recusaram os chamados dos Valar e se tornaram Avari (HoME 10), foi abandonada.

[4] (Nota de Christopher Tolkien) O nome Lindar “Cantores” para os Teleri aparece no “Glossário” para o Athrabeth Finrod ah Andreth (HoME 10) e foi por um longo tempo um nome para a Primeira Família, mais tarde Vanyar. (N.T. a Valinor possui uma versão traduzida para português do Athrabeth Finrod ah Andreth)

[5] (Nota de J.R.R. Tolkien) Por esta razão o mais utilizado dos “títulos” os nomes secundários dos Lindar era Nedilli “Amantes das Águas”.

[6] (Nota de J.R.R. Tolkien) Uma formação agental simples (como *abaro > *abar a partir de *ABA) da raiz *TELE, cujo sentido inicial parece ter sido “fechamento, fim, vindo ao final”: uma vez que em Quenya telda “último, final”; tele- verbo intransitivo “encerrar, terminar” ou “ser a última coisa ou pessoa em uma série ou sequência de eventos”; telya verbo transitivo “teminar, concluir”; telma “uma conclusão, qualquer coisa utilizada para encerrar um trabalho ou assunto”. Este é provavelmente distinto de *tel-u “telhar, por a coroa/topo em um prédio”, visto no Quenya telume “telhado, topo” (esta é provavelmente uma das mais antigas palavras Élficas para os céus, o firmamento, antes do aumento de seu conhecimento e d invenção da palavra Eldarin Menel. Telumehtar “guerreiro do céu”, um antigo nome para Menelmakil, Órion). A palavra telluma “domo, cúpula” é uma alteração de telume sob a influência do Valarin delgsima. Mas *telu pode ser simplesmente uma diferenciação de *TELE, uma vez que o telhado era a parte final de uma construção; telma, que freqüentemente era aplicada ao último item de uma estrutura, como a última rocha ou o pináculo mais alto.

[7] (Nota de J.R.R. Tolkien) Lago Mithrim, significando originalmente “Lagos dos Mithrim”. Mithrim era o nome dado a eles pelos habitantes do sul, devido ao clima mais frio, aos céus cinzentos e às névoas do Norte. Provavelmente foi devido aos Noldor terem entrado primeiramente em contato com este ramo norte que deram em Quenya o nome Sindar ou Sindeldi “Elfos Cinzentos” a todos os habitantes Telerin das terras ocidentas que falavam a língua Sindarin.• Embora esse nome tenha mais tarde também se referido ao nome Thingol (“Manto Cinzento”) de Elwë, uma vez que ele era reconhecido como Alto Rei de todas as terras e seus povos. É dito que os povos do norte vestiam-se em cinza, especialmente após o retorno de Morgoth, quanto secritude tornou-se necessária; e os Mithrim tinha uma arte de vestirem-se com um uma vestimenta cinzenta que os fazia quase invisíveis em locais com sombras ou uma terra pedregosa. Esta arte foi mais tarde utilizada nas terras do sul quandos os perigos da Guerra aumentaram.

[8] (Nota de J.R.R. Tolkien) Ver acima. A proporção, por 144, dos Eldar remanescentes na Terra-Média era contada como 26, dos quais 8 eram Nandor.

[9] (Nota de Christopher Tolkien) Em outros textos posteriores Círdan é citado como sendo parente de Elwë, mas eu não encontrei nenhuma citação sobre a natureza do parentesco.

[10] (Nota de J.R.R. Tolkien) Lenwë é a forma pela qual seu nome era lembrado em histórias Noldorin. Seu nome foi provavelmente *Denwego, Nandorin Denweg. Seus filho era o chefe Nandorin Denethor. Estes nomes provavelmente significavam “ágil-e-ativo” e “ágil-e-fino”, de *dene- “fino e forte, ágil”, e *thara- “alto (ou longo) e esbelto”.

[11] (Nota de Christopher Tolkien) Lenwë foi substituído pelo nome mais permanente Dan do pai de Denethor; deste texto ele foi adotado no Silmarillion.

[12] (Nota de J.R.R. Tolkien) O nome Nandor era um derivativo do elemento *dan, *ndan- indicando• o reverso de uma ação, desfazer ou anular seu efeito, como em “desfazer, voltar atrás (no mesmo caminho), desdizer, devolver (o mesmo presente e não outro em troca)”. A forma original *ndando, entretanto, implicava apenas em “alguém que volta atrás em sua palavra ou decisão”.

[13] (Nota de Christopher Tolkien) A afirmação de que os Nandor entraram em Beleriand “não muito depois do retorno de Morgoth” é outra contradição marcante aos Anais. Anteriormente é dito que eles vieram “antes do retorno de Morgoth”, o que sem dúvida implica no mesmo. Mas no Grey Annals existe uma maravilhosa evocação que “longos anos de paz se seguiram após a chegada de Denethor”, e foram longos de fato: de 1350 a 1495, 145 Anos dos Valar, ou 1389 Anos do Sol. Sou incapaz de explicar estas profundas mudanças na história interna.

[Nota do Tradutor: este é um texto clássico da série The History of Middle-earth, carinhosamente chamada de HoME, tanto em conteúdo quanto em formato. O texto é primariamente lingüístico e é mais voltado a fãs mais avançados em estudos dentro da obra de Tolkien. Perceba como os comentários, tanto de Tolkien pai como do filho, são algumas vezes maiores do que o próprio texto comentado, o que também é uma característica geral dos HoME. Christopher não mais edita profundamente os texto do pai, agora os comenta em detalhes, deixando bem claro que são seus comentários, deixando intocados todos os problemas, inconfruências e paradoxos do texto original. Em termos de conteúdo do texto, é um dos meus preferidos por tratar diretamente dos Clãs Élficos e suas proporções, além de nos fornecer informações únicas sobre cada um deles. Espero que vocês também o apreciem!]

Ambarkanta

Ambarkanta

Ao redor de todo o Mundo estão as Ilurambar [1], ou as Muralhas do Mundo. Elas são como gelo, vidro e aço, estando acima de toda a imaginação dos Filhos da Terra, frias, transparentes e duras. Elas não podem ser vistas, nem podem ser transpostas, exceto pela Porta da Noite.

Dentro destas muralhas a Terra está situada: acima, abaixo e em todos os lados está Vaiya, o Oceano Envolvente. Mas ele é mais como o mar abaixo da Terra e mais como o ar acima dela. Em Vaiya abaixo da Terra mora Ulmo. Acima da Terra situa-se o Ar, que é chamado Vista, e sustenta pássaros e nuvens. Por esse motivo ele é chamado acima Fanyamar, ou Casa de Nuvens; e abaixo Aiwenórë ou Terra dos Pássaros. Mas este ar situa-se apenas sobre a Terra-média e os Mares Interiores, e seus limites são as Montanhas de Valinor no Oeste e as Muralhas do Sol no Leste. Por este motivo as nuvens raramente chegam a Valinor, e os pássaros mortais não passam para além dos picos de suas montanhas. Mas no Sul, onde há principalmente frio e escuridão, e a Terra-média extende-se próxima às Muralhas do Mundo, Vaiya, Vista e Ilmen sopram juntos e confundem-se mutuamente.

Ilmen é aquele ar que, sendo límpido e puro, é impregnado de luz, embora não a emane. Ilmen fica acima de Vista, e não é grande em profundidade, porém é mais profundo no Oeste e no Leste, e menor no Norte e no Sul. Em Valinor o ar é Ilmen, mas Vista sopra ocasionalmente, especialmente em Casadelfos, parte da qual está na base oriental das Montanhas; e se Valinor é obscurecida e seu ar não é purificado pela luz do Reino Abençoado, ele toma a forma de sombras e névoas cinzentas. Mas Ilmen e Vista misturar-se-ão como sendo um só, porém Ilmen é respirado pelos Deuses, e purificado pela passagem astros; pois em Ilmen Varda decretou o curso das estrelas, e mais tarde do Sol e da Lua.

De Vista não há como sair nem como fugir, exceto para os servos de Manwë, ou para aqueles aos quais ele concede poderes como os de seu povo, que podem sustentar-se em Ilmen ou mesmo em Vaiya superior, que é muito tênue e frio. De Vista pode-se descer para a Terra-média. De Ilmen, pode-se descer para Valinor. Ora, a terra de Valinor estende-se quase até Vaiya, que é mais estreito no Oeste e Leste do Mundo, mas mais profundo no Norte e no Sul. As costas ocidentais de Valinor não estão, portanto, muito longe das Muralhas do Mundo. Contudo, há um abismo que separa Valinor de Vaiya, e ele é preenchido por Ilmen, e por este caminho pode-se descer de Ilmen acima da terra para as regiões inferiores, às raizes da Terra, e para as cavernas e grutas que estão nas fundações das terras e mares. Lá é o lugar de permanência de Ulmo. De lá originam-se as águas da Terra-média. Pois estas águas são compostas por Ilmen, Vaiya e Ambar [que significa Terra], uma vez que Ulmo funde Ilmen e Vaiya e envia-os através dos veios do Mundo para purificar e renovar os mares e rios, os lagos e as fontes da Terra-média. E as águas correntes possuem assim a memória das profundezas e das alturas, e guardam um pouco da sabedoria e música de Ulmo, e da luz dos astros do céu.

Nas regiões de Ulmo as estrelas algumas vezes estão escondidas, e lá a Lua frequentemente vaga e não é vista da Terra-média. Mas o Sol não se demora lá. Ela [2] passa sob a terra às pressas, a fim de que a noite não se prolongue e o mal se fortaleça; ela é puxada através do Vaiya inferior pelos servos de Ulmo, sendo aquecida e preenchida com vida. Assim os dias são medidos pelas rotas do Sol, que navega de Leste a Oeste através do Ilmen inferior, ocultando as estrelas; ela passa sobre o centro da Terra-média sem se deter, e muda seu curso em direção ao norte ou para o sul, não caprichosamente, mas devido à rota e à estação. E quando ela ergue-se acima das Muralhas do Sol é a Aurora, e quando mergulha atrás das Montanhas de Valinor, é o Anoitecer.

Mas os dias em Valinor são diferentes dos da Terra-média. Pois lá a hora de maior luz é o Anoitecer. Então o Sol desce e repousa por algum tempo na Terra Abençoada, deitando-se no seio de Vaiya. E quando ela penetra em Vaiya, o mesmo torna-se ardente e fulgura com um fogo róseo, e por um longo tempo ilumina aquela terra. Mas a medida em que ela passa em direção ao Leste o fulgor desvanece, e Valinor é privada de luz, e é iluminada apenas pelas estrelas; e então os Deuses muito se lamentam pela morte de Laurelin. Ao amanhecer, a escuridão é profunda em Valinor, e as sombras de suas montanhas estendem-se pesadamente sobre as mansões dos Deuses. Mas a Lua não se demora em Valinor, e passa rapidamente sobre ela para mergulhar no abismo de Ilmen, pois ele sempre persegue o Sol, e raramente a alcança, quando então é consumido e obscurecido em sua chama. Mas às vezes acontece de ele chegar sobre Valinor antes de o Sol ter partido, e então desce e encontra sua amada, e Valinor é preenchida com uma luz mesclada tal qual prata e ouro; e os Deuses sorriem lembrando-se da fusão da Laurelin e Silpion há muito tempo atrás.

A Terra de Valinor inclina-se para baixo a partir do sopé das Montanhas, e sua costa ocidental está no nível do fundo dos mares interiores. E não longe dali, como foi dito, estão as Muralhas do Mundo; e no sentido oposto à costa mais ocidental no centro de Valinor está Ando Lómen, a Porta da Noite Eterna que penetra as Muralhas e abre-se para o Vazio. Pois o Mundo encontra-se em meio a Kúma, o Vazio, a Noite sem forma ou tempo. Mas ninguém pode ultrapassar o abismo e a região de Vaiya e chegar àquela Porta, exceto unicamente os grandes Valar. E eles fizeram aquela porta quando Melko foi sobrepujado e colocado na Escuridão Exterior; e ela é guardada por Eärendel [3].

A Terra-média situa-se no meio do Mundo, e é composta de terra e água; sua superfície é o centro do mundo, das fronteiras do Vaiya superior aos confins do inferior. Antigamente assim era a sua forma. Era mais elevada no centro, decaindo de cada lado em vastos vales, mas ergue-se novamente no Leste e Oeste, mais uma vez decaindo para o abismo em suas bordas. Os dois vales eram preenchidos com a água primordial, e as costas destes antigos mares eram no Oeste as regiões montanhosas mais ocidentais e a borda da grande terra, e no Leste as regiões montanhosas e a borda da grande terra sobre o outro lado. Mas ao Norte e ao Sul ela não decaía, e podia-se ir por terra do extremo Sul do abismo de Ilmen ao extremo Norte do mesmo. Os mares antigos, portanto, situam-se em canais, e suas águas não vertiam para o Leste ou Oeste; mas eles não possuíam costas tanto ao Norte como ao Sul, vertiam para o abismo, e suas cachoeiras tornavam-se gelo e pontes de gelo por causa do frio; de forma que o abismo de Ilmen era aqui fechado e pontificado, e o gelo estendia-se ao Vaiya, e até as Muralhas do Mundo.

Ora, é dito que os Valar, entrando no Mundo, desceram primeiro sobre a Terra-média no seu centro, exceto Melko, que desceu no Norte distante. Mas os Valar pegaram uma porção de terra e criaram uma ilha, consagrando-a, e a colocaram no Mar Ocidental e permaneceram nela, enquanto estavam ocupados na exploração e na primeira disposição do Mundo. Como é contado, eles desejaram criar lamparinas, e Melko ofereceu-se para desenvolver uma nova substância de grande força e beleza para seus pilares. Ele levantou estes grandes pilares ao norte e ao sul do centro da Terra, mesmo assim mais perto dele do que o abismo; os Deuses colocaram lamparinas sobre eles, e a Terra teve luz durante algum tempo.

Mas os pilares foram criados com falsidade, sendo talhados em gelo; eles derreteram e as lamparinas caíram em ruína, e sua luz foi derramada. Mas o derretimento do gelo criou dois pequenos mares interiores, ao norte e sul do centro da Terra, e havia uma terra setentrional, uma terra central e uma terra meridional. Então os Valar retiraram-se para o Oeste e abandonaram a ilha; sobre a região montanhosa na margem ocidental do Mar do Oeste, eles elevaram grandes montanhas, e atrás delas criaram a terra de Valinor. Mas as montanhas de Valinor curvam-se para trás, e Valinor é mais ampla no centro da Terra, onde as montanhas andam ao lado do mar; e ao norte e ao sul, as montanhas nivelam-se em direção ao abismo. Há duas regiões da Terra Ocidental que não pertencem à Terra-média e, apesar disso, são exteriores às montanhas: elas são sombrias e vazias. A situada ao Norte é Eruman, e aquela ao Sul é Arvalin [4]; há apenas um desfiladeiro estreito entre elas e as extremidades da Terra-média, mas este desfiladeiro é preenchido com gelo.

Para sua proteção posterior, os Valar empurraram a Terra-média no seu centro e comprimiram-na em direção ao leste, de forma que ela foi encurvada, e o grande mar do Oeste é muito amplo no centro, a mais vasta de todas as águas da Terra. A forma da Terra no Leste era muito semelhante àquela no Oeste, exceto pelo estreitamento do Mar Oriental, e o deslocamento da terra naquela direção. E além do Mar Oriental situa-se a Terra Oriental, da qual pouco sabemos, e é chamada a Terra do Sol; ela possui
montanhas, menores do que as de Valinor, mas ainda assim muito grandes, que são as Muralhas do Sol. Em razão da queda da terra, estas montanhas não podem ser vistas, exceto pelos pássaros que voam às maiores altitudes, através dos mares que as divide das costas da Terra-média.

E o afastamento da terra também ocasionou o aparecimento de montanhas em quatro direções, duas na Terra do Norte e duas na Terra do Sul; aquelas no Norte eram as Montanhas Azuis no lado ocidental, e as Montanhas Vermelhas no lado oriental; e no Sul eram as Montanhas Cinzentas e as Amarelas. Porém Melko fortificou o Norte e lá ergueu as Torres Setentrionais, que também são chamadas de Montanhas de Ferro, e elas voltavam-se para o sul. E na terra central havia as Montanhas de Vento, pois lá um vento fortemente soprava vindo do Leste antes do Sol; e Hildórien, a terra onde os Homens primeiro despertaram, situa-se entre estas montanhas e o Mar Oriental. Mas Kuiviénen [5], onde Oromë encontrou os Elfos, está ao Norte junto às águas de Helkar.

Mas a simetria da antiga Terra foi mudada e partida na primeira Batalha dos Deuses, quando Valinor marchou contra Utumno, que era a fortaleza de Melko, e Melko foi acorrentado. Então o mar de Helkar [que era a lâmpada setentrional] tornou-se um mar interior ou grande lago, mas o mar de Ringil [6] [que era a lâmpada meridional] tornou-se um grande mar fluindo de norte a leste e unindo por canais tanto o Mar Ocidental como o Oriental.

E a Terra foi novamente partida na segunda batalha, quando Melko foi mais uma vez deposto, e ela modificou-se ainda mais pela a deterioração e o passar de muitas eras. Mas a maior mudança ocorreu quando a Forma Primordial foi destruída, e a Terra foi arredondada e separada de Valinor. Isto aconteceu nos dias do ataque dos Númenoreanos sobre a terra dos Deuses, como é contado nas Histórias. E desde aquele tempo o mundo tem esquecido as coisas que haviam anteriormente, e os nomes e as lembranças das terras e águas de antigamente pereceram.

Notas:

[1] O presente texto pertence aos primórdios da mitologia tolkieniana, sendo escrito por volta de 1930. Muito foi modificado pelo próprio Tolkien [alguns pontos mais de uma vez] antes da publicação do Silmarillion, em 1977, editado por seu filho Christopher. Muitos nomes foram deixados de lado, outros sofreram alterações, como é o caso de Ilurambar, forma primitiva de Eärambar. [N. do T.]

[2] No decorrer do texto, Tolkien refere-se ocasionalmente ao sol como “ela” e à lua como “ele”, por ambos serem conduzidos por seus respectivos maiar: Arien [a maia do sol], e Tilion [o maia da lua]. [N. do T.]

[3] Formas primitivas de Melkor e Eärendil respectivamente. [N. do T.]

[4] Formas primitivas de Araman e Avathar respectivamente. [N. do T.]

[5] Forma primitiva de Cuiviénen. [N. do T.]

[6] Formas primitivas de Illuin e Ormal respectivamente. [N. do T.]