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Mitos Transformados VIII – Orcs

The History of Middle-earth 10Este texto faz parte de um conjunto de ensaios intitulados "Mitos Transformados", contidos no The History of Middle-earth 10. A Valinor já possuía grande parte deles e está agora tradiuzindo os faltantes bem como acrescentando as notas e comentário. Este texto VIII trata da origem dos Orcs.
 
 
 

 
Na última sentença da versão curta original do texto VII meu pai
escreveu que os Eldar acreditavam que Morgoth gerou os Orcs ‘capturando
de Elfos (e Homens) cedo’ (isto é, nos primeiros dias de suas
existências). Isto indica que suas visões sobre este assunto mudaram
desde os Anais de Aman.
 
Para a teoria da origem dos Orcs como esta estava,
no ponto dos registros escritos nas narrativas (1), a este tempo ver os
Anais de Aman. Na forma final de Os Anais de Aman ‘isto é tido como
verdade pelos sábios de Eressëa’:

que todos aqueles dos Quendi que acabaram nas mãos de Melkor, antes de
Utumno ser quebrada, foram lá postos na prisão e por artes lentas de
crueldade e maldade foram corrompidos e escravizados. Desta forma
Melkor gerou a terrível raça dos Orkor em inveja e paródia aos Eldar,
de quem se tornaram após isto os mais amargos inimigos. Pois os Orkor
tinham vida e se multiplicavam à maneira dos Filhos de Ilúvatar; e nada
do que tem vida por si mesmo, nem a aparência de vida, Melkor jamais
poderia criar, desde sua rebelião no Ainulindalë antes do Começo: assim
dizem os sábios.

No texto datilografado de Os Anais de Aman meu pai escreveu ao lado do
registro da origem dos Orcs: ‘Alterar isto. Orcs não são Élficos’.  

O presente texto, entitulado ‘Orcs’, é um ensaio curto (em grande parte
um registro de ‘pensando com a caneta’) encontrado na mesma pequena
coleção reunida em um jornal de 1959 como os textos III e VI. E como
estes ele foi escrito nos papéis do Merton College de 1955; e como o
texto VI ele faz referência a ‘Finrod e Andreth

 


 
Sua natureza e origem requerem mais reflexão. Elas não são fáceis de inserir na teoria e no sistema.
 
[1] Como o caso de Aulë e os Anões mostra, somente Eru podia criar criaturas com vontades independentes e com capacidade de raciocínio.
Mas os Orcs parecem possuir ambas: eles podem tentar enganar
Morgoth/Sauron, rebelar-se contra ele ou criticá-lo.

[2] ? Portanto, eles devem ser corrupções de alguma coisa pré-existente.

[3] Mas os Homens não haviam ainda aparecido quando os Orcs já
existiam. Aulë construiu os Anões a partir de sua memória da Música; mas Eru não
sancionaria a obra de Melkor de modo a permitir a independência dos Orcs. (A não ser que os Orcs fossem em essência remediáveis ou pudessem
ser corrigidos e "salvos".)


Também parece claro que, embora Melkor pudesse corromper e arruinar
indivíduos completamente, não é possível contemplar sua perversão
absoluta de um povo inteiro, ou grupo de pessoas, e sua criação que
afirma hereditariedade
(2) [Adicionado posteriormente: Este último deve [se
um fato] ser um ato de Eru].

Neste caso os Elfos, como uma fonte, são muito improváveis. E os Orcs
são "imortais" no sentido élfico? Ou os Trolls? Parece claramente
implícito em O Senhor dos Anéis que os Trolls existiam independentemente, mas foram "modificados" por Melkor (3).

[4] E o que dizer de feras falantes e pássaros com raciocínio e fala? Esses foram adotados levianamente por mitologias menos
"sérias", mas representam um papel que agora não pode ser cortado. São certamente "exceções" e não muito usados, mas suficientemente para
mostrar que eles são uma faceta reconhecida do mundo. Todas as
criaturas os aceitam como naturais, se não comuns.

 
Mas criaturas
"racionais" verdadeiras, "povos falantes", são todas de forma
humana/"humanóide". Somente os Valar e Maiar são inteligências que
podem assumir formas de Arda à vontade. Huan e Sorontar poderiam ser
Maiar – emissários de Manwë. (4) Mas, infelizmente, em O Senhor dos Anéis é
dito que Gwaehir e Landroval são descendentes de Sorontar [Thorondor] (5).

De qualquer forma, é provável ou possível que mesmo os menores dos Maiar
se tornariam orcs? Sim: tanto fora de Arda como dentro dela, antes da
queda de Utumno. Melkor corrompeu muitos espíritos – alguns grandes,
como Sauron, ou menores, como Balrogs. Os menores poderiam ter sido orcs
primitivos (e muito mais poderosos e perigosos); mas, por procriarem
quando encarnados, eles (ver Melian) [se tornariam] cada vez mais
ligados à terra, incapazes de retornar ao estado de espírito (mesmo
forma demoníaca), até serem libertados pela morte (assassinato), e definhariam em força. Quando libertados eles estariam, claro, como
Sauron, "condenados": isto é, reduzidos à impotência, infinitamente
recessiva: ainda odiando, mas incapazes cada vez mais de fazê-lo
de modo efetivo fisicamente (ou não seria o estado órquico muito definhado de
morte um poltergeist?).


Mas novamente – Eru proveria fëar a tais criaturas? Para as águias etc., talvez. Mas não para os Orcs (6).

Entretanto, parece melhor ver o poder de corrupção de Melkor como
sempre começando, pelo menos, no nível moral ou teológico. Qualquer
criatura que o tomava por Senhor (e especialmente aquelas que
de modo blasfemo o chamaram de Pai ou Criador) logo tornava-se corrompida
em todas as partes de seu ser, o fëa arrastando o hröa em sua
queda ao morgothismo: ódio e destruição. Quanto aos Elfos serem
"imortais": eles na verdade possuiam vidas excepcionalmente longas, e
foram "cansando-se" fisicamente e sofrendo um enfraquecimento lento e
progressivo de seus corpos.

Em resumo: eu acho que se deve supor que "falar" não é
necessariamente o sinal da posse de uma "alma racional" ou fëa. (7) Os Orcs
eram feras de forma humanizada [para zombar de Homens e Elfos] deliberadamente pervertidos/convertidos em uma semelhança mais próxima
dos Homens. Sua "fala" era na verdade "gravações" recitadas, colocadas
neles por Melkor. Melkor ensinou-lhes a fala e ao reproduzirem-se herdaram isso; e possuíam tanta independência  quanto, digamos, cães ou
cavalos possuem de seus mestres humanos. Sua fala era em grande parte ecoada (como
papagaios). Em O Senhor dos Anéis é dito que Sauron inventou um idioma para eles (8).

O mesmo tipo de coisa pode ser dito de Huan e as Águias: os Valar lhes ensinaram um idioma e os elevaram a um nível
superior – mas eles ainda não possuíam fëa.

Mas Finrod provavelmente foi longe demais em sua afirmação de que Melkor
não poderia corromper completamente qualquer obra de Eru, ou que Eru (necessariamente) interferiria para anular a corrupção ou para cessar a
existência de Suas próprias criaturas, pois elas teriam sido
corrompidas e voltadas para o mal (9).

Permanece, portanto, terrivelmente possível que houvesse uma linhagem
élfica nos Orcs. (10) Estes podem então ter sido cruzados com feras (estéreis!) – e posteriormente com Homens. Seu tempo de vida seria
diminuído. E morrendo eles iriam para Mandos e seriam mantidos aprisionados
até o Fim.

Ver Melkor. Lá será visto que as vontades dos Orcs e Balrogs etc., são
parte do poder de Melkor "dispersado". O espírito deles é de ódio. Mas
o ódio é não-cooperativo (exceto sob medo direto). Daí as rebeliões,
motins, etc., quando Morgoth parecia estar distante.  Os Orcs são feras e
os Balrogs Maiar corrompidos. Além disso (n.b.), Morgoth, não Sauron, é a fonte das
vontades dos orcs. Sauron é apenas outro (se não maior) agente. Os Orcs
podem se rebelar contra ele sem perder sua própria fidelidade
irremediável ao mal (Morgoth). Aulë queria amor. Mas, claro, não
pensava em dispersar seu poder. Apenas Eru pode dar amor e
independência
. Se um subcriador finito tenta fazer isso, ele na
verdade quer uma ardorosa obediência absoluta, mas ela vira servidão
robótica e torna-se mal.

 
NOTAS

1. Em uma longa carta a Peter Hastings datada de Setembro de 1954, a qual ele não enviou (As Cartas de J. R. R. Tolkien, #153), meu pai escreveu o que se segue com relação à questão de que Orcs ‘poderiam ter "almas" ou "espíritos"’:

… uma vez que em meus mitos de forma alguma eu concebo a criação de almas ou espíritos, coisas de uma ordem igual senão de poder igual aos Valar, como uma possível ‘delegação’, eu ao menos representei os Orcs como seres reais pré-existente nos quais o Senhor Escuro exerceu a totalidade de seu poder remodelando-os e corrompendo-os, mas não os criando… podem ter ocorridos outras ‘criações, contudo, as quais eram mais como títeres preenchidos (apenas à distância) com a mente e vontade de seu criados, ou agindo como formigas sob o comando de uma rainha central.

Anteriormente, nesta carta, ele citou as palavras de Frodo a Sam no capítulo "A Torre de Cirith Ungol": ‘A sombra que os criou só pode arremedar, não pode criar: nada realmente novo que se origine dela mesma. Não acho que lhes tenha dado vida, apenas os arruinou e deformou’; e ele continua: "Nas lendas dos Dias Antigos é sugerido que o Diabolus subjugou e corrompeu alguns dos primeiros Elfos…". Ele também disse que os Orcs "são fundamentalmente uma raça de criaturas ‘racionais encarnadas’".

2. No Athrabeth Finrod declarou:

Mas nunca, mesmo na noite, acreditamos que ele [Melkor] pudesse prevalecer contra os Filhos de Eru. Este ele poderia iludir, ou aquele ele poderia corromper; mas mudar o destino de todo um povo dos Filhos, roubá-los de sua herança: se ele pudesse fazer tal coisa à revelia de Eru, então de longe maior e mais terrível é ele do que imaginávamos…

3. Em O Senhor dos Anéis Apêndice F (I) é dito dos Trolls:

Nos seus primórdios, no crepúsculo dos Dias Antigos, eram criaturas de natureza obtusa e bruta, sem outra linguagem que não a dos animais. Mas Sauron fizera uso deles, ensinando-lhes o pouco que eram capazes de aprender e aumentando sua inteligência com maldade.

Na longa carta de Setembro de 1954 citada na Nota 1 escreveu sobre eles:

Eu não estou certo sobre os Trolls. Eu acho que era eram meras ‘imitações’ e portanto (embora aqui eu esteja, claro, usando apenas elementos de antigos mitos bárbaros que não tinham uma metafísica ‘consciente’) eles retornam a simples estátuas de pedra quando não estão no escuro. Mas há outras espécies de Trolls além daqueles bastante ridículos, embora brutais, Trolls-das-rochas, para os quais outras origem são sugeridas. Claro… quando você faz Trolls falarem você está dando a eles poder, o qual em nosso mundo (provavelmente) denota a posse de uma "alma".

4. Ver comentários finais da Sexta Seção de os Anais de Aman. Ao final da página contendo o breve texto V meu pai escreveu rapidamente a seguinte nota, inteiramente desconectada com o assunto do texto:

Coisas vivas em Aman. Assim como os Valar poderiam se vestir como os Filhos, muitos dos Maiar vestiam-se como outras coisas vivas menores, como árvores, flores, bestas. (Huan.).

5. "Lá vinha Gwaihir, o Senhor dos Ventos, e Landroval, seu irmão, as maiores de todas as Águias do Norte, e os mais poderosos descendentes do velho Thorondor"  ("O Campo de Cormallen" em O Retorno do Rei).

6. A este ponto existe uma nota que começa com ‘Crítica de (1) (2) (3) acima’ (ou seja, os pontos iniciais deste texto) e então se refere obscuramente a ‘última batalha e a queda de Barad-dur etc.’ em O Senhor dos Anéis. Em uma visão do que se segue meu pai estava presumivelmente pensando no capítulo ‘A Montanha da Perdição’:

De todas as suas planos e teias de medo e traição, de todos os seus estratagemas e guerra sua mente se livrou; e através de todo o seu reino ocorreu um tremor, seus escravos se acovardaaram, seus exércitos pararam, e seus capitães repentinamente sem direção, privados de vontade, hesitaram e se desesperaram. Pois eles foram esquecidos.
    
A nota continua

Eles tinham pouca ou nenhuma vontade quando não ‘cuidados’ de fato pela mente de Sauron. Suas traições e rebeliões davam aquela possibilidade a animais como cães etc.?
       
7. Compare com fim do trecho citado na carta de 1954 na nota 3.

8. Apêndice F (I): ‘Diz-se que a Língua Negra foi inventada por Sauron nos Anos Escuros’.

9. Ver a citação do Athrabeth na nota 2. Finrod de fato não afirma a última parte da opinião aqui atribuída a ele.

10. A afirmação de que ‘permanece, portanto, terrivelmente possível que houvesse uma linhagem élfica nos orcs’ aparece meramente para contradizer o que foi dito sobre serem não mais do que ‘bestas falantes’ sem avançar em novas considerações. No trecho acrescentado ao final do texto a afirmação de que ‘Orcs são bestas’ é repetida.
 

Os Anais de Aman – Primeira Seção

The History of Middle Earth X - Morgoth's RingOs Anais de Aman são uma cronologia detalhada desde a criação do mundo até o final da Primeira Era, incluindo uma explicação sobre a maneira  de contar Anos dos Valar. Foi publicado no The History of Middle Earth X – Morgoth’s Ring e consiste de seis seções – das quais esta é a primeira – cada uma comentada extensivamente por Christopher Tolkien, das quais aqui publicamos a primeira.
Notas de Tradução: Os tempos verbais e a pontuação foram mantidos no original, o que pode causar alguma estranheza, principalmente quando o uso deles, por Tolkien, não é consistente. E, infelizmente, para este texto ser traduzido fora do contexto geral do livro tivemos que retirar/substituir as citações às páginas dos livros, mas mantivemos referências genéricas aos parágrafos e livros. A perda de entendimento é mínima dentro de um texto que já é complexo por si mesmo, principalmente com relação às Notas de Christopher Tolkien.

 

Os Anais de Aman


A segunda versão (anterior aO Senhor dos Anéis) dos Anais de Valinor (AV2) foi publicada no The History of Middle Earth V (HoME V). Lá mencionei que a primeira parte de AV2 fora – anos depois – coberta de correções e de novos trechos e que este novo trabalho era o rascunho inicial dos Anais de Aman. Neste caso eu não perderei tempo com o rascunho original, exceto por alguns pontos levantados pelo mesmo, comentados nas notas. Ele não se estende muito – nem tão longe quanto o surgimento das Duas Árvores, e até onde vai é extremamente parecido com os Anais de Aman; mas meu pai evidentemente decidiu rapidamente embarcar em um texto novo completamente diferente.

Sobre os Anais de Aman, ao qual eu me referirei pelo resto deste texto pela abreviatura ‘AAm’, existe um manuscrito bom e claro, com uma boa quantidade de correções em diferentes ‘camadas’. Adições pertencendo ao tempo da composição, ou logo depois, foram cuidadosamente feitas; e o manuscrito dá a impressão de ser uma ‘cópia boa’, um segundo texto. Mas enquanto passagens do rascunho podem ter sido perdidas, eu duvido muito que um ‘primeiro texto’ completo dos Anais existiu (ver nota 17). O trabalho certamente pertence ao grande desenvolvimento e recontagem dos Assuntos dos Dias Antigos que meu pai realizou quando O Senhor dos Anéis foi concluído, e ele permanece em correlação próxima às revisões daquele tempo dos trechos correspondentes do Quenta Silmarillion (HoME V, referido a partir de agora como QS), o texto que fora abandonado em 1937. De forma igualmente clara ele segue o último texto do Ainulindalë (D).

Existe uma versão datilografada por um amanuense de AAm contendo algumas correções e notas tardias, junto com uma cópia em carbono contendo muito poucas, mas diferentes, correções; sou inclinado a datar este texto de 1958, embora a evidência disto é mais um assunto de inferência e sugestão. Existe também um interessante e divergente texto datilografado da parte mais antiga do trabalho, feita por meu pai.

Eu forneço o texto completo da narrativa dos Anais, incorporando as correções feitas a ele; quando leituras anteriores às correções são de interesse eu as listo nas notas. Eu numero os parágrafos para subseqüente referência, e sendo o texto longo eu por conveniência o dividi em seis seções. As seções são seguidas por notas textuais numeradas (exceto no caso da seção 2) e em seguida por um comentário referenciando os números de parágrafo.

As datas dos Anos das Árvores nos anais foram alteradas com freqüência – em alguns casos há tantas quanto seis substituições – e eu dou apenas a forma final. Uma vez que o contínuo alterar de datas não parece estar em nenhum caso associado com mudanças na narrativa, e uma vez que a articulação final das datas parece ter sido obtida após a conclusão do manuscrito, acredito ser suficiente apontar que meu pai inicialmente permitiu um número de anos maior entre o surgimento das Árvores e sua destruição. Assim inicialmente as Silmarils foram obtidas por Fëanor no Ano das Árvores 1600 (mais tarde 1450), e Tulkas foi enviado para capturar Melkor em 1700 (mais tarde 1490) – embora outras datas tenham sido propostas e rejeitadas como estas. A partir deste ponto a datação revisada (1490 – 1500) é a única, mas aqui também as datas foram muito alteradas em detalhes, e o resultado final não é perfeitamente claro em todos os pontos.

Primeira Seção dos Anais de Aman

A primeira página do AAm existe em duas formas, ambos bons manuscritos, idênticos em tudo exceto no título e no breve preâmbulo.

O primeiro tem o título Os Anais de Valinor, e começa assim: ‘Aqui começam os Anais de Valinor, e falam da chegada dos Valar a Arda’; além do título foi acrescentado: ‘Estes foram escritos por Quennar i Onótimo que aprendeu muito, e emprestou muito, de Rúmil; e foram ampliados por Pengoloð’. Esta última frase foi riscada, e o título e preâmbulo corrigidos para a forma que têm na segunda cópia, como dada abaixo, com Valinor > Aman e a adição das palavras ‘que Rúmil escreveu (fez)’. Eu imagino que meu pai recopiou esta página porque desejava que ela parecesse bem e a rabiscou com estas mudanças. O título Anais de Aman surge neste ponto, portanto, e muito possivelmente o significado final do nome Aman também: ele ocorre uma vez em Ainulindalë D, mas como uma adição ao texto.

OS ANAIS DE AMAN

Aqui começam os Anais de Aman, que Rúmil fez, e fala da chegada dos Valar a Arda:

$1 No Início Eru Ilúvatar criou Ëa, o Mundo que é (1), e os Valar entraram nele, e eles são os Poderes de Ëa. Estes são os nove líderes dos Valar que residiram em Arda: Manwë, Ulmo, Aulë, Oromë, Tulkas, Ossë, Mandos, Lorien (2) e Melkor.

$2 Destes Manwë e Melkor eram os mais poderosos e eram irmãos. Manwë é o senhor dos Valar, e sagrado; mas Melkor se voltou para o desejo de poder e para o orgulho, e tornou-se mal e violento, e seu nome é amaldiçoado, e não é pronunciado; ele é chamado Morgoth. Oromë e Tulkas eram os mais jovens no pensamento de Eru ao divisar o Mundo, e Tulkas veio rapidamente ao reino de Arda. As rainhas dos Valar são sete: Varda, Yavanna, Niënna, Vairë, Vana, Nessa e Uinen. Não menores em poder e majestade são do que os líderes e sempre se sentam nos conselhos dos Valar.

$3 Varda era a esposa de Manwë desde o início, mas Aulë desposou Yavanna, irmã de Varda, em Ëa (3). Vana a bela, irmã mais nova de Varda, é a mulher de Oromë; e Nessa, a irmã de Oromë, é a mulher de Tulkas; e Uinen, senhora dos mares, é mulher de Ossë. Vairë a tecelã mora com Mandos. Nenhuma esposa possui Ulmo, nem Melkor. Nenhum senhor possui Niënna a cheia de pesar, rainha da sombra, irmã de Manwë e Melkor. A mulher de Lorien é Estë a pálida, mas ela não vai aos conselhos dos Valar e não é registrada entre os regentes de Arda, mas é a senhora dos Maiar.

$4 Com estes grandes poderes vieram muitos outros espíritos de mesmo tipo mas menos poder e autoridade; estes são os Maiar, os Belos (4), o povo dos Valar. E entre eles são contados os Valarindi, os descendentes dos Valar, seus filhos nascidos em Arda, mas ainda assim da raça dos Ainur que existia antes do Mundo; eles são muitos e belos.

Neste ponto meu pai escreveu: Isto é retirado do trabalho de Quennar Onótimo. Estas palavras se referem não ao que precede mais à passagem que se segue, chamada Do Início do Tempo e seu Registro (embora no preâmbulo – riscado – da primeira página rejeitada de AAm Quennar i Onótimo é dito ter sido o autor de todos os Anais).

A seção inteira sob o assunto do Registro do Tempo foi mais tarde anotada com lápis: ‘Transferir para o Conto dos Anos’. O Conto dos Anos, uma lista cronológica do mesmo tipo daquela no Apêndice B de O Senhor dos Anéis, existe em diferentes formas, associadas com os Anais mais antigos e mais tardios; a forma mais tardia, associada de perto com AAm e seu acompanhante os Anais Cinzentos (Anais de Beleriand), é talvez o mais complexo e difícil de todos os textos que meu pai deixou. Isto não precisa nos preocupar aqui; mas associados a ele estão dois belos manuscritos (um deles, o mais tardio dos dois, dentre os mais belos que ele fez: veja o frontispício) dando de forma quase idêntica o mesmo texto de Do Início do Tempo e seu Registro como encontrado aqui no AAm, mas o colocando como o início de O Conto dos Anos e o prelúdio à lista cronológica de eventos. Estes dois manuscritos são, claramente, mais tardios que o texto em AAm, e alguns pontos nos quais diferem são dados nas notas. AAm continua:

Isto é retirado do trabalho de Quennar Onótimo (5).

Do Início do Tempo e seu Registro

$5 O tempo começou de fato com o começo de Ëa, e naquele começo os Valar vieram ao Mundo. Mas a medida que os Valar fizeram das eras de seus trabalhos não é conhecida de nenhum dos Filhos de Ilúvatar, até o primeiro florescer de Telperion em Valinor. Depois disso os Valar contaram o tempo pelas eras de Valinor, onde cada era continha cem dos Anos dos Valar; e cada ano desses era mais longo do que nove anos sob o Sol (6).

$6 Agora medido pelo florescer das Árvores havia doze horas em cada Dia dos Valar, e mil desses dias dos Valar formavam um ano em seu reino. Supõe-se pelos Mestres de Conhecimento que os Valar fizeram desta forma as horas das Árvores de tal forma que cem de tais anos assim medidos seriam a duração de uma era dos Valar (7) (assim como tais eras eram nos dias de seus trabalhos antes da fundação de Valinor) (8).  De qualquer forma isto não é sabido com certeza.

$7 Mas para os Anos das Árvores e aqueles que vieram depois (9), um de tal Ano era mais longo do que nove dos anos como são agora. Pois existiam em cada Ano doze mil horas. E as horas das Árvores eram cada uma sete vezes mais longa do que uma hora  em pleno dia na Terra-média, de nascer a nascer do sol, quando a luz e a escuridão são igualmente divididas (10). Portanto cada Dia dos Valar durava quatro e oitenta de nossas horas, e cada Ano quatro e oitenta mil: o que é tanto quanto três mil e quinhentos dos nossos dias, e é pouco mais do que nove e meio de nossos anos (nove e meio e oito centésimos e ainda mais um pouco) (11).

$8 É registrado pelos Mestres do Conhecimento que isto não é exatamente como os Valar criaram no fazer e ordenar (12) da Lua e do Sol. Pois era a intenção deles que dez anos do Sol, não mais nem menos, tivesse a mesma duração que um Ano das Árvores tivera; e era de seu primeiro intento que cada ano do Sol contivesse setecentas vezes a luz do sol e a luz da lua, e cada uma dessas vezes deveria conter doze horas, cada uma durando um sétimo de uma hora das Árvores. Por esse registro cada ano do Sol conteria trezentos e cinqüenta dias plenos de luz dividida entre luz da lua e luz do sol, o que são oito mil e quatrocentas horas, sendo iguais a mil e duzentas horas das Árvores ou um décimo de um Ano dos Valar. Mas a Lua e o Sol se provaram mais indisciplinados e lentos em sua passagem do que os Valar pretendiam, como dito a seguir (13), e um ano do Sol e um pouco maior do que era um décimo de um Ano em Dias das Árvores.

$9 O ano do Sol mais curto foi assim feito (14) por causa da maior velocidade de todo o crescimento, e da mesma forma de toda mudança e esvaecer, que os Valar sabiam que viria a acontecer após a morte das Árvores. E após aquele mal ter acontecido os Valar registraram o tempo em Arda pelos anos do Sol, e ainda o fazem, mesmo após a Mudança do Mundo e o ocultar de Aman; mas dez anos do Sol eles contam agora como um ano (15), e mil como um século. Isto é retirado do Yénonótië de Quennar: quoth Pengoloð (16).

$10 É registrado pelos mestres de conhecimento que os Valar vieram para o reino de Arda, que é a Terra, cinco mil Anos dos Valar antes do primeiro nascer da Lua, o que é tanto quanto dizer quarenta e sete mil e novecentos e um de nossos anos. Destes, três mil e quinhentos (ou trinta e três mil, cento e trinta em nosso registro) se passaram antes que a primeira medida de tempo conhecida pelos Eldar se iniciasse com o florescer das Árvores. Aqueles foram os Dias antes dos dias. Depois disso mil e quatrocentos e noventa e cinco Anos dos Valar (ou catorze mil e trezentos e vinte e dois de nossos anos) se seguiram durante os quais a Luz das Árvores brilhou em Valinor. Estes foram os Dias de Felicidade. Naqueles dias, no Ano mil e cinqüenta dos Valar, os Elfos acordaram em Kuiviénen e a Primeira Era dos Filhos de Ilúvatar começou (17).

1 O Primeiro Ano dos Valar em Arda

$11 Após eras de trabalho nos grandes salões de Ëa além do conhecimento ou registro os Valar desceram à Arda no começo de sua existência, e começaram lá seus trabalhos pré-divididos dando forma a suas terras e águas, das fundações às mais altas torres do Ar.

$12 Mas seus trabalhos foram frustrados e afastados de seus objetivos, pois Melkor reivindicou o domínio de Arda, e reivindicou o reinado e ficou em discórdia com Manwë. E Melkor provocou grande ruína com fogo e frio mortal e desfigurou tudo que os outros Valar fizeram.

1500

$13 Aconteceu que, ouvindo de longe sobre a guerra em Arda, Tulkas o Forte partiu de distantes regiões de Ëa para o auxílio de Manwë. Então Arda foi preenchida com o som de sua risada, mas ele voltou uma face de fúria a Melkor; e Melkor fugiu ante sua ira e sua felicidade, e abandonou Arda, e existiu uma longa paz.

$14 Então os Valar começaram seus trabalhos novamente; e quando as terras e águas estavam ordenadas os Valar tiveram necessidade de luz, para que as sementes imaginadas por Yavanna pudessem crescer e ter vida. Então Aulë fez duas grandes lâmpadas, como se fossem de prata e ouro mas translúcidas, e Varda preencheu-as com fogo sagrado, para dar luz à Terra. Illuin e Ormal foram chamadas. 1900 E foram colocadas sobre pilares poderosos como montanhas no meio de Arda, ao
norte e ao sul.

$15 Então os Valar continuaram seus trabalhos até todo o reino de Arda estar ordenado e preparado, e aconteceu um grande crescimento de árvores e ervas, e bestas e pássaros vieram e residiram nas planícies e nas águas, e as montanhas eram verdes e belas de se olhar. E os Valar fizeram sua morada sobre uma ilha verdejante no meio de um lago; e aquele lago estava entre Illuin e Ormal bem no centro de Arda; e lá ficava a Ilha de Almaren, e por causa da mistura das luzes, todas as coisas eram mais ricas em crescimento e mais belas em cor. Mas os Valar raramente se reuniam lá, pois sempre viajavam por Arda, cada um em seus afazeres.

$16 E veio a acontecer que finalmente os Valar ficaram satisfeitos, e desejaram descansar um pouco do trabalho e observar o crescimento e desenvolvimento das coisas que tinham imaginado e começado. Então Manwë ordenou uma grande festa e convocou todos os Valar e rainhas dos Valar para Almaren, junto com seus povos. E eles vieram a seu comando; mas Aulë, é dito, e Tulkas estavam cansados; pois o ofício de Aulë e a força de Tulkas estiveram a serviço de todos sem cessar nos dias de seus trabalhos.

$17 Melkor sabia de tudo que fora feito; pois mesmo então ele tinha amigos secretos e espiões entre os Maiar que ele convertera à sua causa, e dentre estes o principal, como mais tarde ficou conhecido, era Sauron, um grande artífice da casa de Aulë. E distante em lugares escuros Melkor estava cheio de ódio, invejoso do trabalho de seus pares, os quais ele desejava tornar sujeitos a si mesmo. Então ele reuniu para si espíritos dos vazios de Ëa que ele pervertera a seu serviço e considerou-se forte. E vendo novamente seu tempo ele se aproximou de Arda e olhou sobre ela, e a beleza da Terra e sua Primavera o encheu ainda com mais ódio.

3400

$18 Então os Valar reunidos em Almaren festejaram e ficaram felizes, não temendo nenhum mal, e devido à luz de Illuin eles não perceberam a sombra no Norte que fora lançada de longe por Melkor; pois ele se tornara escuro como a Noite do Vazio (18). E é cantado que na festa da Primavera de Arda Tulkas desposou Nessa a irmã de Oromë, e Vana cobriu-a de flores e ela dançou perante os Valar sobre a grama verde de Almaren.

$19 Então Tulkas dormiu, estando cansado e satisfeito, e Melkor considerou que sua hora havia chegado. Então ele atravessou as Muralhas da Noite (19) com sua horda, e chegou à Terra-média no Norte; e os Valar não estavam cientes dele.

$20 Melkor começou a escavação e construção de uma vasta fortaleza profundamente sob a Terra, embaixo de montanhas escuras onde a luz de Illuin era fraca (20). Este forte ele chamou Utumno. E embora os Valar não soubessem de nada disso ainda, mesmo assim o mal de Melkor e a destruição causada por seu ódio se espalharam, e a Primavera de Arda foi desfigurada, e as coisas vivas se tornaram doentias e apodrecidas ou foram corrompidas em formas monstruosas.

3450

$21 Então os Valar souberam que de fato Melkor estava agindo novamente, e procuraram por seu esconderijo. Mas Melkor, confiando na força de Utumno e no poder de seus servos, veio repentinamente à guerra, e desferiu o primeiro golpe, antes dos Valar estarem preparados. E ele atacou as luzes de Illuin e Ormal e destruiu seus pilares, e quebrou suas lâmpadas. Então na queda dos poderosos pilares as terras se partiram e os mares se elevaram em tumulto; e quando as lâmpadas se derramaram chamas destruidoras se espalharam sobre a Terra. E a forma de Arda e a simetria de suas águas e terras foi desfigurada àquele tempo, de tal forma que depois os planos iniciais dos Valar nunca foram recuperados.

$22 Na confusão e escuridão Melkor escapou, embora o medo tenha caído sobre ele; pois acima do rugir dos mares ele ouviu a voz de Manwë como um poderoso vento, e a terra tremeu sob os pés de Tulkas. Mas ele chegou a Utumno antes que Tulkas pudesse alcançá-lo, pois a maior parte da força deles foi necessária para refrear os tumultos da  Terra, e para salvar da ruína tudo de seus trabalhos que pudesse ser salvo; e depois disso temeram remexer a Terra novamente, até que soubessem onde os Filhos de Ilúvatar estariam morando, que ainda viriam em um tempo que era escondido dos Valar.

$23 Assim terminou a Primavera de Arda. E a morada dos Valar sobre Almaren foi totalmente destruída, e os deuses não tinha residência na face da terra. Então eles partiram da Terra-média e foram para a Terra de Aman, que era a terra mais ocidental dentre todas, nas bordas do mundo; pois seu litoral oeste olhava sobre o Mar de Fora que englobava o reino de Arda, e além estavam as Muralhas da Noite (21). Mas no litoral leste de Aman ficava o ponto extremo do Grande Mar do Oeste; e uma vez que Melkor retornara a Terra-média, e eles ainda não podiam suplantá-lo, os Valar fortificaram sua moradia, e sobre o litoral do Mar eles elevaram as Pelóri, as Montanhas de Aman, as mais altas sobre a terra. E acima de todas as montanhas da Pelóri estava o pico que foi chamado Taniquetil, sobre cujo topo Manwë colocou seu trono. E atrás das muralhas das Pelóri os Valar estabeleceram suas mansões e seus domínios na região que é chamada Valinor. Lá, no Reino Vigiado eles reuniram grande quantidade de luz e todas as coisas mais belas que salvaram da ruína; e muitas outras ainda mais belas eles fizeram novamente, e Valinor se tornou ainda mais bela do que a Terra-média na Primavera de Arda; e era abençoada e sagrada, pois os deuses moravam ali e lá nada esvaecia ou murchava, nem havia qualquer mancha sobre flores ou folhas naquela terra, nem nenhum corrupção ou doença em nada que vivia; pois mesmo as rochas e águas eram abençoadas.

$24 Então os Valar e todo o seu povo estavam cheios de felicidade novamente e por muito ficaram satisfeitos e raramente passavam sobre as montanhas para as Terras de Fora; e a Terra-média ficou num crepúsculo sob as estrelas que Varda fizera nas eras esquecidas de seus trabalhos em Ëa.

3500

$25 E veio a acontecer que, depois que Valinor estava totalmente terminada e as mansões dos Valar estavam estabelecidas e seus jardins e florestas arrumados, os Valar construíram sua cidade no meio da planície além das Pelóri. A cidade eles chamaram de Valmar a Abençoada. E à frente de seu portal ocidental havia um monte verdejante, que estava vazio a não ser por uma cobertura de grama imutável.

$26 Então Yavanna e Niënna foram ao Grande Monte; e Yavanna o abençoou, e sentou-se por muito tempo na grama verde e cantou uma canção de grande poder, na qual estava contido todo seu pensamento sobre as coisas que cresciam na terra. Mas Niënna pensava em silêncio, e molhava o solo com lágrimas. Então todos os Valar se reuniram para ouvir a canção de Yavanna; e a colina estava no centro do Círculo do Destino ante os portões de Valmar, e os Valar sentaram-se ao redor dele em silêncio sobre seus tronos do conselho, com seus povos a seus pés. E enquanto os deuses observavam, veja! Sobre o monte surgiram dois brotos verdejantes, e eles cresceram e se tornaram belos e altos, e eles vieram a florescer.

$27 Assim nasceram no mundo as Duas Árvores de Valinor, de todas as coisas que crescem as mais belas e renomadas, cujo destino está entrelaçado com o destino de Arda. A mais velha das árvores foi nomeada Telperion, e suas flores eram de um branco brilhante, e um orvalho de luz prateada caía delas. Laurelin a Árvore mais jovem foi chamada; suas folhas verdes tinham uma borda dourada, e suas flores eram como agrupamentos de chamas amarelas, e uma chuva de ouro gotejava delas no chão. Destas Árvores vinha uma grande luz, e toda Valinor foi preenchida com ela. Então a felicidade dos Valar aumentou; pois a luz das Árvores era sagrada e de grande poder, tanto que, se alguma coisa era boa ou adorável ou de valor, naquela luz sua adorabilidade e seu valor eram plenamente revelados; e tudo que andava naquela luz estava contente em seu coração.

$28 E a luz que saía das Árvores permanecia por muito tempo, fosse levada pelos ares ou escorrendo na terra para seu enriquecimento. Então de sua abundância Varda costumava coletar uma grande quantidade, e ficava guardada em grandes vasos próximos ao Monte Verde. De lá os Maiar a retiravam e a levavam aos estuários e aos campos, mesmo aqueles distantes de Valmar, de forma que todas as regiões de Valinor se desenvolveram e cresceram ainda mais belas.

$29 Desta maneira começaram os Dias de Felicidade de Valinor, e começou também a contagem do Tempo. Pois as Árvores se desenvolviam até o florescimento e luz totais, e diminuíam novamente, incessantemente, sem mudança de velocidade ou completude. Telperion foi a primeira a florescer, e um pouco antes dela parar de brilhar Laurelin começou a desabrochar; e quando Laurelin diminuiu Telperion acordou  novamente. A partir daí os Valar tomaram o tempo do florescimento, primeiro de Telperion e depois de Laurelin, para ser para eles um Dia em Valinor; e o tempo em que cada Árvore estava florescendo sozinha eles dividiram em cinco horas, cada uma delas igual ao tempo do esvaecer de suas luzes, duas vezes em cada Dia. Existiam, portanto, doze de tais horas em cada Dia dos Valar; e mil desses Dias foram considerados um Ano, quando então as Árvores cresceriam um novo galho e suas estaturas aumentariam.

A seção inicial dos Anais de Aman termina aqui; é seguida por um título Aqui começa o novo Registro sob a Luz das Árvores com datas começando em A.A.1, o Primeiro Ano das Árvores.

NOTAS

1. A definição de Ëa como ‘o Mundo que É’ é encontrada também no surgimento do nome em uma adição ao texto do Ainulindalë D, $20. Eu a dou na forma que está nos textos, Ea, Ëa, .

2. A forma original do nome era Lórien, mas foi alterado para Lŏrien no manuscrito QS.

3. AV2 tem aqui ‘Yavanna, a quem Aulë desposou depois no mundo, em Valinor’; na versão reescrita do manuscrito AV2 que leva diretamente a AAm isto se tornou ‘Yavanna, a quem Aulë desposou em Arda’, onde AAm tem ‘em Ëa’.

4. AV2 tem aqui ‘estes são os Vanimor, os Belos’, alterado na versão posterior (ver nota 3) para ‘estes são os Mairi…’ e então para ‘estes são os Maiar…’. Este é o local onde a palavra Maiar surgiu pela primeira vez.

5. No mais antigo (e único) dos dois manuscritos do início de O Conto dos Anos o título Do Início dos Tempos e seu Registro foi subseqüentemente ampliado pela adição de Do trabalho de Quennar Onótimo; ver nota 6.

6. Quando esta sentença foi escrita pela primeira vez no rascunho do início de AAm (a versão reescrita de AV2) ela dizia: ‘e cada ano desses era tão longo quanto dez anos do Sol como são hoje’; isto é meu, pai ainda mantinha a antiga e muito mais simples contagem indo de AV2 a AV 1. Isto foi alterado no rascunho para ‘e cada ano desses era mais longo do que nove anos sob o Sol como são hoje’. Na versão mais antiga do Conto dos Anos as palavras ‘como são hoje’ foram escritas a lápis após ‘nove anos sob o Sol’, enquanto na segunda se lê ‘do que nove anos sob o Sol’.

A segunda versão do Conto dos Anos, a qual não se refere a Quennar Onótimo no título de Do Início dos Tempos e seu Registro (nota 5), tem aqui ‘Assim falou Quennar Onótimo sobre este assunto’. O que se segue deste ponto em diante em todos os três textos é um texto nitidamente menor, tanto que a referência a Quennar parece mais apropriada aqui.

7. A versão mais tardia (e única) do Conto dos Anos tem ‘um quinto de uma era dos Valar’ ao invés de ‘uma era dos Valar’.

8. A versão mais antiga do Conto dos Anos acrescenta aqui: ‘e cada era dos Valar é uma parte exata (quão grande ou pequena apenas eles sabem) de toda a história de Ëa. Mas estas coisas não são conhecidas com certeza mesmo para os Eldar’; a versão posterior começa a passagem da mesma forma, mas termina: ‘… de toda a história de Ëa de seu início ao Fim que deve ser. Mas estas coisas não são conhecidas com certeza mesmo para [os] Vanyar’.

9. O Conto dos Anos tem aqui: ‘Mas para os Anos das Árvores em comparação com aqueles que vieram depois’, que torna o sentido claro.

10. Na versão mais antiga do Conto dos Anos ‘do nascer do sol ao pôr do sol’ é alterado a lápis para ‘de pôr a pôr do sol’, e a seguinte frase ‘em tais momentos em que luz e escuridão são igualmente divididas’ foi colocado entre colchetes. A segunda versão tem uma leitura diferente: ‘de pôr a pôr do sol nos Litorais do Grande Mar’.

11. Nas versões do Conto dos Anos as palavras ‘(nove e meio e oito centésimos e mais um pouco) são omitidas.

12. Nas versões do Conto dos Anos as palavras ‘e ordenar’ são omitidas.

13. No lugar de ‘como dito a seguir’ (que se refere a relato do Sol e da Lua, mais tarde no AAm) as versões do Conto dos Anos têm ‘como é contado em outro lugar’.

14. No lugar de ‘foi assim feito’ as versões do Conto dos Anos têm ‘foi definido assim pelos Valar’.

15. ‘como um ano’ torna-se nas versões do Conto dos Anos ‘como um ano para si mesmos’.

16. As versões do Conto dos Anos têm aqui ‘Assim falou o Yénonótië de Quennar’. Para Yénonótië confira Yénië Valinóren ‘Anais de Valinor’ nas páginas-título de QS (HoME V), e o nome próprio nome Onótimo; ver as Etimologias, raízes NOT ‘contar’, YEN ‘ano’ (HoME V).

17. O parágrafo $10 tem a seguinte forma no rascunho do início de AAm:

É registrado pelos Mestres de Conhecimento que os Valar vieram para o Reino de Arda, que é a Terra, cinco mil e quarenta anos de nosso tempo antes do primeiro nascer da Lua. E destes, trinta mil se passaram antes que a medida de tempo se iniciasse com o florescer das Árvores. Aqueles foram os Dias antes dos dias. E quinze mil anos se seguiram durante os quais a Luz das Árvores ainda vivia e cerca de seiscentos mais do Novo Sol e Lua após o assassinato das Árvores. E estes foram chamados os Dias Antigos, e seu fim encerrou a Primeira Era do Tempo, e Melkor foi jogado para for do mundo.

Então em AV 1 e AV2 o registro era, portanto (A.V. = Ano(s) dos Valar, A.S. = Ano(s) do Sol):

A.V. 1000 = A.S. 10000 Primeiro florescer das Árvores

A.V. 3000 = A.S. 20000 Surgimento da Lua a primeira revisão dá A.S. 30000 Primeiro florescer das Árvores

Este registro então é substituído de novo:

A.V. 3500 = A.S. 33530 Primeiro florescer das Árvores

A.V. 5300 = A.S. 50775 Surgimento da Lua

Estes números mostrar uma proporção de 1 A.V. = 9,58 A.S. (veja os comentários $5-10). Este último registro foi a forma escrita inicialmente no AAm, a qual então foi modificada muitas vezes até chegar ao texto impresso aqui.

18. O texto era escrito como ‘escuro como a noite que existia antes de Ëa’, alterado mais tarde para ‘escuro como a Noite do Vazio’.

19. O texto como inicialmente escrito tem ‘além dos limites de Ëa’; isto mais tarde foi alterado para ‘pelas Muralhas da Noite além dos limites de Arda’, e então ‘além dos limites de Arda’ foi riscado.

20. O texto como inicialmente escrito tem ‘longe da luz de Illuin’.

21. O texto como escrito tem ‘a qual é a mais ocidental de todas as terras’ e ‘olha sobre o Mar de Fora que englobava o reino de Arda’; as mudanças para o tempo passado talvez foram feitas no tempo da escrita, uma vez que a próxima frase, ‘além estavam das Muralhas da Noite’, tinha o tempo passado como original. Por outro lado as seguintes sentenças têm o tempo presente (‘Mas no litoral leste de Aman está o ponto extremo do Grande Mar do Oeste’), onde está permaneceu.

Comentários sobre a primeira
seção dos

Anais de Aman

$$1-3 Sobre a ocorrência no nome Eru ver Ainulindalë (NT: ainda não traduzido pela Valinor). O relato das inter-relações entre os Valar e as rainhas dos Valar permanece bem próximo daquele em AV2 (HoME V), e mantém frases antigas (como ‘Manwë e Melkor eram os mais poderosos e eram irmãos’) datando da época dos Anais originais (HoME IV). Existem, contudo, alguns desenvolvimentos nesta seção inicial. Sobre a frase em $2, ‘Oromë e Tulkas eram os mais jovens no pensamento de Eru ao divisar o Mundo’, ver HoME V. Tulkas ter vindo a Arda por último deriva do Ainulindalë reescrito ($31).

Não é mais dito, como era no AV2, que Oromë era o filho de Yavanna. Por outro lado, é agora dito, assim como no Quenta (Q) e QS, que Vana era a irmã de Yavanna (e Varda), coisa que não era dita no AV2. Estas diferenças estão, talvez, conectadas; pois se ambos os relatos são combinados a esposa de Oromë é a irmã de sua mãe. Mas podemos apenas estar tendo uma visão muito convencional das relações divinas.

As citações de que Estë ‘não vai aos conselhos dos Valar e não é registrada entre os regentes de Arda’ e de que ela é a líder dos Maiar (ver nota 4 acima), são completamente novas.

$4 O trecho sobre os ‘espíritos menores’ não mostra desenvolvimento significativo daquele em AV2 (HoME V) exceto pela substituição de Vanimor por Maiar (traduzido ‘os Belos’, assim como Vanimor o fora); os Valarindi, Filhos dos Valar, ‘nascidos em Arda’ serem relacionados entre os Maiar, permanece. Sobre a história anterior destes conceitos ver HoME V.

$5 Telperion apareceu pela primeira vez em QS $16 (HoME V), mas não como o nome principal da Árvore Mais Velha, que permaneceu Silpion. Telperion, utilizado em O Senhor dos Anéis, agora se torna o principal.

$$5-10 O relato do Registro do Tempo à primeira vista parece confuso, mas pode ser
clarificado.

(i)
De acordo com o registro pela Árvores

12 horas (uma florada completa de ambas as Árvores) = 1 dia

1.000 dias (12.000 horas) = 1 ano

100 anos = 1 era dos Valar (como os Valar contagem as eras antes das Árvores, de acordo com uma suposição dos Mestres de Conhecimento dos Elfos; ver notas 7 e 8 do texto)

(ii)
Relação do registro pelas Árvores com o registro pelo Sol

1 hora das Árvores = 7 horas de nosso tempo

1 dia das Árvores = (7 x 12) 84 horas de nosso tempo

1 ano das Árvores = (7 x 12.000) 84.000 horas de nosso tempo

Existem (365,25 x 24) 8.766 horas em um Ano do Sol, portanto: 1 ano das Árvores = (84.000 / 8.766) 9,582 Anos do Sol *

(* confira o texto ($7): ‘nove e meio e oito centésimos e ainda mais um pouco’.)

(iii)
Intenção original dos Valar para o novo registro pelo Sol e Lua

12 horas de luz da luz + 12 horas de luz do sol = 24 horas = 1 dia completo

700 vezes de luz do sol e luz da lua = 350 dias completos = 1 Ano do Sol 1 hora = 1/7 de 1 hora das Árvores. Portanto: 1 Ano do Sol teria (24 x 350) 8.400 horas = (8.400 / 7) 1.200 horas das Árvores = 1/10 de um Ano dos Valar (ver (i) acima); portanto 1 Ano dos Valar seria = 10 Anos do Sol

O assunto pode ser mais concisamente expressado:

1 anos das Árvores = (7 x 1200) 84.000 horas de nosso tempo

84.000 – (350 x 24) 8.400 = 10

mas

84.000 – (365,25 x 24) 8.766 = 9,582

(iv)
As datas do primeiro florescer das Árvores e o primeiro nascer da Lua
($10)

As Árvores floriram inicialmente após 3.500 Anos dos Valar terem se passado, o que é dito ser igual a 33.530 Anos do Sol (isto pressupõe uma equivalência de 9,58; 9,582 daria 33.537). A Lua surgiu inicialmente após 5.000 Anos dos Valar terem se passado, o que é dito ser igual a 47.901 Anos do Sol; se a equivalência é 9,582 o número de Anos do Sol deveria ser 47.910, se fOssë 9,58 o número deveria ser 47.900). As Árvores brilharam por 1.495 Anos dos Valar. que é dito serem iguais a 13.222 Anos do Sol (o que pressupõe uma equivalência de quase exatamente 9,58)

$$11-29 A grande expansão da narrativa pré-Senhor dos Anéis (QS, AV2) é em parte derivada do mais recente Ainulindalë (que o AAm seguiu a última versão, D, daquele trabalho é demonstrado por vários detalhes, como por exemplos os nomes Ëa, Illuin e Ormal, o primeiro deles entrando em D por adição posterior, e aqueles das Lâmpadas substituindo Forontë e Hyarantë por correção). Mas existe muito que é completamente novo: que Manwë realizou uma grande festa na Ilha de Almaren, onde Tulkas desposou Nessa; que Sauron era ‘um grande artífice da casa de Aulë’; que os Valar foram incapazes de se sobrepor a Melkor àquele tempo porque precisaram conter as agitações da Terra e preservar o que pudesse do que tinham realizado; e outras características mencionadas abaixo. – A questão cosmológica é discutida ao final deste comentário.

$15 A afirmação de que sob a luz das Lâmpadas ‘aconteceu um grande crescimento de árvores e ervas, e bestas e pássaros vieram’ (confira também $18, onde Vana vestiu Nessa de flores na festa de Almaren) pertence ao Ainulindalë ($31): ‘flores de muitas cores, e árvores cujas flores eram como neve sobre as montanhas… bestes e pássaros vieram’ – onde, contudo, o texto foi corrigido (‘E ainda nenhuma flor havia florescido nem pássaro cantado’). Ver nota 17 e $31.

$20 Uma diferença estrutural entre AAm e o Ainulindalë é que neste último Melkor não começou a escavação de Utumno até a derrubada das lâmpadas e sua escapada dos Valar ($32) – uma história que volta à épocas dos textos do antigo ‘Rascunho da  Mitologia’. Em AAm, por outro lado, Melkor construiu Utumno, ou pelo menos estava bastante avançado no trabalho, antes dos Valar ficarem cientes dele, e foi de Utumno que o apodrecimento e a corrupção se originaram; os Valar então perceberam sua presença em Arda e ‘procuraram por seu esconderijo’, e foi isso (como parece) que levou à súbita emergência de Melkor em guerra aberta e à derrubada das Lâmpadas.

$22 O ataque a Melkor pelos Valar saindo de Valinor, descrito no Ainulindalë ($32), não é mencionado em AAm, que diz apenas que eles ‘ainda não podiam suplantá-lo’, tomando as palavras de QS $12 (HoME V). Que a idéia fora abandonada pode ser vista subseqüentemente, $47.

$23 Que toda vida em Aman estava livre de qualquer esvaecer ou murchar, e livre de corrupção ou doença, não haviam sido dito em textos anteriores.

$24 Mesmo que nos textos de 1930 a antiga idéia dos Contos Perdidos de que as estrelas foram criadas em dois atos separados (HoME I) tenha sido abandonada, ela agora reaparece: Varda fizera as estrelas ‘nas eras esquecidas de seus trabalhos em Ëa’, e mais tarde em AAm ($35) é dito que ‘ela fez estrelas novas e mais brilhantes’ antes do acordar dos Elfos. Presumivelmente isto deve ser associado com a concepção do tardio Ainulindalë ($$14,28) do estabelecimento de Arda ‘em meio a inumeráveis estrelas’.

$$25-6 Que as Árvores cresceram em um monte verdejante no Círculo do Destino é um novo detalhe, embora a implicação de QS $14 (HoME V) é de que as Árvores estavam no Círculo. O Círculo e o Monte aqui são ditos estar ante o portão ocidental de Valmar; nos Contos Perdidos as Árvores estão ao norte da cidade, e estavam algumas ‘léguas separadas’ uma da outra (HoME I).

$28 Este relato de que a luz que gotejava das Árvores sendo recolhida por Maiar dos poços de Arda para ‘aguar’ todas as terras de Valinor tem sua origem na antiga idéia de que as Árvores ‘devem ser aguadas com luz para brotar e viver’ (HoME I).

$29 Ao final deste parágrafo há um novo detalhe digno de nota, que após mil dias as
Árvores cresceriam um novo galho; e que devido a isso o Ano dos Valar foi constituído dessa forma. Parece – e é dito aqui expressamente – que o dia dos Valar tinha doze horas porque o período de luz misturada era exatamente cinco vezes menor que o período de total florescer tanto de Telperion quanto Laurelin; se tivesse sido três vezes menor o dia teria tido oito horas, e assim por diante. O dia dos Valar era, portanto, da natureza das Árvores. Agora aprendemos que o Ano dos Valar de 1.000 dias também era devida à natureza das Árvores, uma vez que após aquele tempo as Árvores cresceriam um novo galho.

Não há a sugestão aqui de que o cálculo que cem anos das árvores constituíam um Ano dos Valar (o que nos vai de retorno ao mais antigo dos Anais, HoME IV) era relacionado com a estrutura interna das Árvores; mas é dito na seção Do Início do Tempo e seu Registro ($6) que os Mestres de Conhecimento supunham que ‘os Valar fizeram desta forma as horas das Árvores de tal forma que cem de tais anos assim medidos seriam a duração de uma era dos Valar (assim como tais eras eram nos dias de seus trabalhos antes da fundação de Valinor)’ – isto é, antes das Árvores. Uma vez que as duas passagens são separadas por apenas algumas páginas no mesmo manuscrito a presume-se que não sejam contraditórias; e tomadas em conjunto o sentido pode apenas ser que os períodos das Árvores, que eram de suas natureza, de qualquer forma eram relacionados a um modo de medida de tempo de antes das Árvores surgirem. Isto por sua vez parece exigir que os Valar sabiam, ou haviam ‘visto’, mesmo antes de Yavanna e Niënna irem ao Monte Verdejante, a natureza periódica da luz das Árvores.

O problema cosmológico é aqui acrescido de novas evidências. Os trechos relevantes nesta primeira seção do AAm são estes:

$1 Ëa é ‘o Mundo que é’; os Valar são ‘os Poderes de Ëa’.

$11 Após eras de trabalho ‘nos grandes salões de Ëa os Valar desceram à Arda no começo de sua existência’.

$13 Tulkas veio a Arda ‘de distantes regiões de Ëa’.

$17 Melkor reuniu espíritos ‘dos vazios de Ëa’; e ele ‘ele se aproximou de Arda e olhou sobre ela’.

$18 Os Valar não perceberam a sombra escura ‘lançada de longe por Melkor’.

$19 Melkor ‘atravessou os limites de Ëa’ > ‘atravessou as Muralhas da Noite nos limites de Arda’ > ‘atravessou as Muralhas da Noite’ (nota 19).

$23 O Mar de Fora ‘que englobava o reino de Arda, e além estavam as Muralhas da
Noite’.

As Muralhas da Noite não haviam sido nomeadas em nenhum outro lugar: mas é difícil de visualizar, especialmente à vista da sentença citada em $23, como elas não poderiam ser igualadas com as Muralhas do Mundo. Eu disse (página 29) que a partida de Melkor de Arda no Ainulindalë – a nova história que surgiu após O Senhor dos Anéis – levanta a questão da passagem das Muralhas do Mundo e da forma que aquele conceito tomou. A idéia de tal passagem de fato surgiu, e ainda de forma mais intrigante, no período anterior, ao final de Q, onde é dito que alguns acreditam que Melko de vez em quando retorna ao mundo, e que ele ‘rasteja de volta escalando as Muralhas’ (HoME IV). O trecho em AAm $19 (como corrigido) é inequívoco: Melkor passou sobre as Muralhas da Noite. Nós retornamos à mais antiga imaginação das Muralhas: confira meu comentário em 1.227, ‘a implicação parece clara de que as Muralhas eram originalmente concebidas como os muros de cidades terrestres, ou jardins – muros com um topo: uma “cerca em forma de anel”’. Então, podemos supor, Melkor podia ‘olhar para baixo para Arda’ ($17); então sua vasta sombra poderia ser lançada mesmo antes que ele atravessasse as Muralhas ($18); e
portanto Tulkas ($13) e os espíritos convocados por Melkor ($19) puderam entrar a ‘região cercada’ (como Arda é definida, página 7).

Mas a frase ‘ele atravessou as Muralhas da Noite’ foi uma correção do que meu pai escreveu inicialmente: ‘ele atravessou os limites de Ëa’. Isto pode significar outra coisa além de que ao entrar em Arda Melkor deixa Ëa? Nesta conexão pode-se retornar aos dois diagramas Ambarkanta de ‘Ilu’ (HoME IV), sobre os quais muito mais tarde (talvez a este tempo) meu pai fez correções a lápis ao Ilurambar ‘as Muralhas do Mundo’, alterando-a para Ëarambar (‘as Muralhas de Ëa’). (Claro, se as Muralhas não são mais concebidas como uma concha esférica – de onde veio a expressão ‘tomaram a forma de globo em meio ao Vazio’ como usada nas versões mais antigas do Ainulindalë – mas como uma fortificação ultrapassável, o Ëarambar não pode ser tomado na mesma concepção que o Ilurambar, mas apenas como um novo nome para as Muralhas, agora diferentemente concebidas; e a substituição do novo nome em antigos diagramas é, portanto, àquele ponto, enganosa). Da mesma forma é difícil perceber o que Ëarambar poderia significar que não ‘as Muralhas que isolavam para fora as vastidões escuras dos “vazios de Ëa” ‘ (uma expressão utilizada em $17), em contraste a Ilurambar ‘as Muralhas que cercavam Ilu’.

A dificuldade com isso, claro, é que Ëa em outro lugar está definido como ‘Universo daquilo que É’ (página 7), ‘Criação do Universo’ (página 39) e Ëa portanto necessariamente inclui Arda; de qualquer forma é abundantemente claro em todos os textos do período tardio que Arda está em Ëa. Mas também, em todo caso, Arda pode ser dita como separada de Ëa quando Ëa é dita ser “Espaço”.

Dentre todas as ambigüidades (mais especificamente, no uso da palavra ‘Mundo’), a evidência parece ser que nestes textos a imagem de mundo do Ambarkanta sobreviveu ao menos na concepção do Mar de Fora e se estendendo às Muralhas do Mundo, agora chamadas Muralhas da Noite – embora as Muralhas tenham sido concebidas de forma diferente (ver também $168). Agora na revisão de ‘O Silmarillion’ feita em 1951 a frase em QS $12 (HoME V) ‘as Muralhas do Mundo isolavam para fora o Vazio e a Escuridão Mais Antiga’ – uma frase em perfeita concordância, claro, com o Ambarkanta – foi mantida. Esta é uma dificuldade central com relação ao Ainulindalë, onde é feito tão claro quanto se poderia desejar que Ëa veio a existir no Vazio, tomou forma de globo em meio ao Vazio ($$11, 20); como então as Muralhas de Arda ‘isolavam para fora o Vazio e a Escuridão Mais Antiga’?

Uma possível explicação, de certa forma, pode ser deduzida em certas palavras citadas acima, do AAm $17: Melkor reuniu espíritos dos vazios de Ëa. Pode ser que, embora AAm não esteja muito tempo distante da última versão (D) do Ainulindalë, a concepção de meu pai de fato agora não está totalmente de acordo com o que ele escreveu lá; que (como sugeri, página 39) ele estava pensando em Arda como tendo sido ‘colocada dentro de uma vastidão indefinida na qual toda a ‘Criação’ está compreendida’, ao invés de uma Ëa limitada posta ela mesmo ‘em meio ao Vazio’. Então, além das Muralhas da Noite, os limites de Arda, pressionaram ‘os vazios de Ëa’. Mas esta sugestão, claro, não elimina todos os problemas, ambigüidades e contradições aparentes na cosmologia do período tardio, as quais foram discutidas anteriormente.

«

Eu mencionei que existe um texto datilografado da parte mais antiga do AAm que é bastante distinto da cópia datilografada pelo amanuense de todo o trabalho. Eu não estava ciente de sua existência quando o texto de O Silmarillion foi preparado para publicação. Ele foi tomado diretamente de e baseado de perto no manuscrito AAm, e foi com certeza feito por meu pai, que inseriu mudanças do manuscrito à medida que datilografava. Na realidade ele possui uma grande quantidade de tais mudanças, a maioria pequena ou muito pequena, mas também algumas alterações e adições importantes; e ele não inclui a seção Do Início do Tempo e seu Registro. Nenhuma dessas mudanças aparecem nas correções feitas na cópia datilografada pelo amanuense ou sua cópia em carbono, exceto a remoção da seção sobre o Registro do Tempo.

Eu irei me referir a este texto como ‘AAm*’. Aparentemente não há maneiras de determinar com certeza quando ele foi feito, e posso apenas registrar minha intuição de que ele é do mesmo período do manuscrito AAm e não de algum tempo posterior. De qualquer forma meu pai logo o abandonou. Pode ser que o colocando de lado meu pai o tenha esquecido ou o perdido; e quando surgiu a oportunidade de ter o trabalho datilografado por um secretário que era um datilógrafo treinado (como parece ser o caso) ele simplesmente entregou o manuscrito AAm como ele era (incluindo portanto a seção sobre o Registro do Tempo, embora AAm* o tenha cortado).

Eu forneço agora as mudanças dignas de nota no AAm* (que se estende um pouco além do ponto alcançado nesta primeira seção).

O preâmbulo

Aqui começam os ‘Anais de Aman’. Rúmil os fez nos Dias Antigos e eles foram mantidos na memória pelos Exilados. Aquelas partes que aprendemos e lembramos foram, portanto, escritas em Númenor antes que a Sombra caísse sobre ela.

Isto é especialmente interessante uma vez que mostra um modo de transmissão diferente da tradição ‘Pengoloð – Ælfwine’: os Anais foram concebidos como um trabalho escrito feito em Númenor, derivando dos ‘Exilados’, os Noldor na Terra-média, que o derivaram do trabalho de Rúmil. A idéia de que Númenor foi um elemento essencial na transmissão das lendas dos Dias Antigos irá reaparecer.

$1 No lugar de ‘líderes dos Valar’ AAm* tem ‘senhores dos Valar’, também subseqüentemente. Lorien foi alterado a lápis no texto datilografado para Lorion (mas não na passagem citada em $3, abaixo).

$2 Em AAm a antiga frase ’Manwë e Melkor eram os mais poderosos e eram irmãos’ foi preservada, mas AAm* tem no lugar:

Melkor e Manwë eram irmão no pensamento de Eru, e os mais antigos de sua raça, e seus poderes era iguais e maiores do que os de todos os outros que residiam em Arda. Manwë é Rei dos Valar…

É dito no tardio Ainulindalë ($$5,9) que Melkor era o mais poderoso dos Ainur, e isto, de fato, vai ao texto B do Ainulindalë, anterior ao Senhor dos Anéis (ver HoME V nota 4 para as diferentes afirmações feitas sobre o assunto). Mais tarde em AAm ($102) Fëanor ‘fecha as portas de sua casa na cara do mais poderoso de todos os moradores em Ëa’.

Este texto tem ‘Oromë e Tulkas eram os mais jovens no pensamento de Eru’ onde AAm tem ‘mais novos’

$3 Existe uma estranha mistura de presente e passado nesta passagem: há ‘Vana a bela é a mulher de Oromë’, ‘Vairë a tecelã mora com Mandos’ mas ‘Nenhuma esposa possuía Ulmo, nem Melkor’, ‘Nenhum senhor possuía Niënna’, ‘A mulher de Lorien era Estë a pálida’.

Agora não é dito que Vana (marcada Vana na primeira ocorrência mas não
subseqüentemente) era a irmã de Yavanna.

Como datilografada, a passagem começando com ‘Nenhum senhor possuía Niënna’ (escrita assim, não Niënna, em todas as ocorrências em AAm*) segue assim:

Nenhum senhor possuía Niënna, rainha da Sombra, irmã de Manwë. A mulher de Tulkas era Nessa a Jovem; e a mulher de Lorien era Estë a Pálida. Este não se sentavam nos conselhos dos Valar mas eram os maiores dentre os Maiar.

No AAm é dito apenas sobre Estë que ‘ela não vai aos conselhos dos Valar’, e seu nome não aparece na lista das rainhas dos Valar: ela é ‘a líder dos Maiar’. No texto atual, mesmo com a exclusão também de Nessa dos conselhos, e a afirmação de que ela e Estë ‘são as maiores dentre os Maiar’, seu nome continua figurando na lista das rainhas. Emendas contemporâneas ao texto datilografado produziram esta mudança notável:

Nenhum senhor possuía Niënna, irmã de Manwë; nem Nessa a Dama Eterna. A mulher de Tulkas era Lëa a Jovem; a mulher de Lorien era Estë a Pálida…

O texto então continua como antes, então as duas que não se sentam nos conselhos dos Valar e são ‘as maiores dentre os Maiar’ tornam-se Lëa e Estë. Não há vestígios deste desenvolvimento em qualquer outro texto, mas Lëa aparece de novo em AAm* no texto datilografado (ver $18 abaixo).

$4 Este parágrafo foi substancialmente ampliado:

Com estes grandes poderes vieram muitos outros espíritos do mesmo tipo, nascidos no pensamento de Eru antes da criação de Ëa, mas tendo menos poder e autoridade. Este são os Maiar, o povo dos Valar; eles são belos, mas seu número não é conhecido e poucos têm nomes entre os Elfos ou Homens.

Há também aqueles a quem chamamos Valarindi, que são ps Filhos dos Valar, nascidos de seu amor depois de suas entradas em Ëa. Eles são os filhos mais velhos do Mundo; e embora seu existir comece dentro de Ëa, mesmo assim são da raça dos Ainur, que eram antes do mundo, e eles têm poder e nível abaixo apenas dos Valar.

$12 No fim deste parágrafo AAm* acrescenta: ‘E passaram muitos anos dos Valar em conflito’.

$14 A data A.V. 1900 da criação das Lâmpadas é omitida em AAm*.

$15 AAm* mantém as palavras de AAm, ‘e aconteceu um grande crescimento de árvores e ervas, e bestas e pássaros vieram…’ Veja o comentário sobre este trecho: a referência à aparição dos pássaros e flores a este tempo foi removida do Ainulindalë D pelo que parece ter sido uma mudança bem antiga no texto, e nisto está a sugestão de que as duas versões do início dos Anais de Aman pertencem mais ou menos à mesma época.

$17 Este parágrafo sofreu várias alterações:

Melkor sabia de tudo que fora feito pois mesmo então ele tinha amigos secretos entre os Maiar, que ele convertera à sua causa, seja no primeiro cantar do Ainulindalë ou mais tarde em Ëa. Destes o principal, como mais tarde ficou conhecido, era Sauron, um grande artífice da casa de Aulë. E distante em lugares escuros, para onde ele havia recuado, Melkor estava cheio de um novo ódio, invejoso do trabalho de seus pares, os quais ele desejava tornar sujeitos a si mesmo. Então ele reuniu para si espíritos dos vazios de Ëa que o serviam, até que ele considerou que era forte; e vendo novamente seu tempo ele se aproximou de Arda e olhou sobre ela, e a beleza da Terra e sua Primavera o deixou maravilhado, mas por não ser dele, resolveu destruí-la.

$ 18 Aqui Lëa a Jovem, mulher de Tulkas, aparece novamente, no texto datilografado e não por emenda (ver em $3 acima), chamada agora Lëa-vinya (‘Lëa a Jovem’):

É dito que naquela festa da Primavera de Arda Tulkas desposou Lëa-vinya, a mais bela das damas de Yavanna, e Vana cobriu-a com as flores que floresceram primeiro; e ela dançou perante os Valar…

Sobre a referência às primeiras flores ver $15 acima.

$19 AAm* tem ‘as Muralhas de Noite’ ao invés de ‘as Muralhas da Noite’, e de novo em $23.

$20 Melkor começou a escavação e construção de uma vasta fortaleza profundamente sob a Terra, [riscado: abaixo das raízes da] longe da luz de Illuin; e ele criou grandes montanhas sobre seus salões. Aquele forte foi mais tarde chamado Utumno o Esconderijo profundo; e por um longo tempo os Valar não souberam de nada disso…

No AAm Utumno foi escavado ‘embaixo de montanhas escuras’; o novo texto, no qual Melkor cria montanha acima dele (como as Thangorodrim acima de Angband), surgiu no momento da datilografia.

$21 Onde AAm tem ‘E ele atacou as luzes de Illuin e Ormal’ AAm* tem:

E ele veio do Norte como uma tempestade escura, e ele atacou as luzes de Illuin e
Ormal.

$22 A conclusão deste parágrafo em AAm, ‘que ainda viriam em um tempo que era
escondido dos Valar’, é omitida no AAm*.

$23 A palavra ‘deuses’ foi removida em AAm* de ambas as ocorrências: no início do
parágrafo ‘os deuses não tinha residência na face da terra’ tornou-se ‘eles não
tinham’, e perto do final ‘pois os deuses moravam ali’ tornou-se ‘pois os
Servos de Ilúvatar moravam ali’.

A Terra de Aman estava ‘nas bordas do mundo antigo’ (isto é, o mundo antes do Cataclismo); ‘nas bordas do mundo’ em AAm. A passagem a respeito de Taniquetil
foi alterada para :

E acima de todas as montanhas das Pelóri estava o pico que foi chamado Taniquetil Oiolossë, o brilhando pico de Sempibranco, sobre cujo topo Manwë colocou seu trono, ante as portas dos salões do domo de Arda.

$25 Em AAm é dito que ‘os Valar construíram sua cidade’; AAm* trás: …no meio da
planície a oeste das Pelóri Aulë e seu povo construíram para eles uma bela cidade. Aquela cidade eles nomearam Valimar a Abençoada.

Isto é uma reaparição dos Contos Perdidos; confira HoME I: ‘Agora eu recontei o estilo das moradias de todos os grandes Deuses as quais Aulë seu artífice criou em Valinor’. – Esta é a primeira ocorrência da forma Valimar (e novamente em $$26,28 deste texto).

$26 Após as palavras ‘Mas Niënna pensava em silêncio, e molhava o solo com lágrimas’ há uma nota de rodapé na nova versão:

Pois é dito que mesmo na Música Niënna atuou pouco, mas prestou muita atenção a tudo que ouviu. Portanto ela é rica em memória, de grande visão, percebendo como os temas deveriam se desenrolar no Conto de Arda. Mas ela tinha pouca alegria, e todo seu amor era mesclado com piedade, lamentando pelos danos ao mundo e pelas coisas que falharam em atingir a completude. Tão grande era sua comiseração, é dito, que ela não pode suportar até o final da Música. Por isso ela não tem a esperança de Manwë. Ele tem maior visão; mas Piedade é o coração de Niënna.

Sobre esta passagem ver nota 2. A afirmação aqui de que Niënna ‘não pode suportar até o final da Música’ é bastante dramática; mas não é dito no que a esperança de Manwë se baseia. Pode ser relevante relembrar a nota de rodapé de Pengoloð ao Ainulindalë D, $19:

E alguns disseram que a Visão cessou antes da completude do Domínio dos Homens e o esvaecer dos Primogênitos; por isso, embora a Música esteja acabada, os Valar não viram com a visão as Eras Tardias ou o final do Mundo.

$28 Por ‘guardada em grandes vasos’ AAm* tem ‘guardada em poços profundos’.

*

Restam a ser consideradas as poucas emendas feitas nesta seção inicial ao texto de AAm datilografado pelo amanuense, e aquelas (quase completamente diferentes) feitas à cópia em carbono. Estas mudanças são apressadas, e casuais, em nenhum sentido uma revisão real do trabalho. Eras foram feitas em algum momento posterior que eu sou incapaz de definir; mas elas tiveram o efeito de trazer o início de AAm em acordo com a forma mais tardia da outra tradição, procedente do capítulo 1 de QS ‘Dos Valar’ e em última análise refletindo no trabalho curto e independente Valaquenta.

No topo da cópia do texto datilografado não apenas a seção sobre o Registro do Tempo foi mas também o comprimido relato dos Valar no início: uma nota na página de rosto do texto informa que os Anais devem começar no Primeiro Ano dos Valar em Arda ($11). Mas mudanças a lápis foram feitas a $$1-4 antes disso:

$1 ‘nove líderes’ > ‘sete líderes’; Ossë e Melkor foram riscados da lista. Sobre a remoção de Ossë ver $70.

$2 A palavra ‘também’ adicionada a ‘As rainhas dos Valar também eram sete’; Estë
adicionada e Uinen removida, de forma que a lista se torna ‘Varda, Yavanna, Niënna, Estë, Vairë, Vana e Nessa’.

$3 ‘Varda era a esposa de Manwë desde o início’ > ‘Varda era a esposa de Manwë desde o início de Arda’

‘e Uinen, senhora dos mares, é esposa de Ossë’ foi riscado (simplesmente uma
conseqüência de Ossë não ser mais listado entre os ‘líderes’).

‘irmã de Manwë e Melkor’ (sobre Niënna) foi riscado.

‘mas ela não vai aos conselhos dos Valar e não é registrada entre os regentes de Arda, mas é a senhora dos Maiar’ (sobre Estë) foi riscado (uma conseqüência de agora Estë ser incluída entre as ‘rainhas’).

$4 Está riscado de ‘E entre eles são contados os Valarindi…’ até o fim do parágrafo (ver abaixo).

$28 ‘grandes vasos’ > ‘poços brilhantes’ (compare com a mudança feita em AAm*).

Mudanças bastante diferentes foram feitas na cópia em carbono nesta seção sobre os Valar. Em $3 ‘a mulher de Oromë’ e ‘mulher de Tulkas’ foram alteradas para a esposa de Oromë e esposa de Tulkas. ‘Nenhum senhor possui Niënna’ foi alterado para ‘Nenhum companheiro tinha Niënna’; e na margem ao lado destas mudanças meu pai escreveu:

Note que ‘esposa’ significa apenas uma ‘associação’. Os Valar não tinham corpos, mas podiam assumir formas. Após a chegada dos Eldar ele mais freqüentemente usavam formas ‘humanas’, embora mais altas (não gigantes) e mais magnificentes.

Ao mesmo tempo a passagem referente aos Valarindi, os Filhos dos Valar, ao final de $34, foi riscada (assim como no texto principal), uma vez que esta nota é a afirmação mais definitiva de que quaisquer concepções desta forma estavam fora de cogitação.

Algumas poucas outras escritas a lápis foram feitas em pontos subseqüentes da cópia em carbono:

$20 Ao lado de Utumno está escrito a lápis: ‘UtupnÅ­ √TUI? ocultar, esconder’; com isto confira AAm* $20: ‘aquele forte foi mais tarde chamado Utumno o Esconderijo profundo’, e veja as Etimologias (HoME V), raiz TUB, onde a forma original do nome é dada como *Utubnu.

$23 Onde a palavras ‘deuses’ foi substituída por ‘os Servos de Ilúvatar’ em AAm* meu pai corrigiu a cópia em carbono do texto datilografado para ‘os Imortais’. Na ocorrência de ‘deuses’ no início do parágrafo ele fez a mesma mudança (para ‘eles’) que em AAm*.

$25 Após ‘um monte verdejante’ foi adicionado Ezellohar; e em $26 Ezellohar substitui ‘aquele Monte Verdejante’.

Está envolvido com a obra de Tolkien desde 1999 – fundador da Calaquendi, fundador da Valinor, fundador do Conselho Branco (Sociedade Tolkien) e presidente por três mandatos. Participou da publicação em livro do Curso de Quenya e é autor do Modo Tengwar Português

O Diálogo de Manwë e Eru

A ressurreição Élfica foi um dos problemas que gerou mais esforço por parte de Tolkien em sua solução. Milhares de linhas foram escritas, dando origem a textos clássicos e essenciais como Athrabeth Finrod ah Andreth, Comentário do Athrabeth Finrod ah Andreth e Leis e Costumes entre os Eldar. E hoje a Valinor tem a honra de publicar O Diálogo de Manwë e Eru, diretamente do The History of Middle-earth X, o qual trata de muitas particularidade espinhosas da ressurreição e renascimento Élfico.
“O Diálogo de Manwë e Eru”
e concepções tardias da reencarnação Élfica

 

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A afirmação no início da Nota 3 do Comentário sobre o Athrabeth Finrod ah Andreth de que “na tradição élfica sua reencarnação era uma permissão especial concedida por Eru a Manwë, depois que Manwë consultou-O diretamente na época do debate a respeito de Finwë e Míriel” parece muito estranha à luz de Leis e Costumes entre os Eldar, onde é dito bem explicitamente que “Um fëa desabrigado que escolhera, ou ao qual fora permitido retornar à vida, entrava novamente no mundo encarnado através do parto. Somente desse modo ele poderia retornar” (para o que tal ‘raro e estranho caso’ como o de Miriel, que foi ‘retornada a seu próprio corpo’, é registrado como a única exceção). Em Leis e Costumes existe uma pressuposição sobre todo o caso de que Miriel poderia, pela natureza das coisas, retornar da morte se ela quisesse; assim disse Ulmo no Debate dos Valar que “o fea de Miriel pode ter partido por necessidade, mas ele partiu no desejo de não retornar” e que “portanto era falta dela”. Não se pode pensar que o Leis e Costumes foi escrito sobre a base de que o renascimento foi apenas “dado como uma permissão especial” por Eru a Manwë “à época do debate relativo a Finwë e Miriel”, uma idéia sobre a qual não há dica ou sugestão naquele trabalho.A explicação disso é que após a escrita de Leis e Costumes as visões de meu pai com relação ao destino dos Elfos que morreram passaram por uma mudança radical, e a passagem citada da Nota 3 do Comentário sobre o Athrabeth não se refere ao “renascimento”, de forma alguma.Existe um texto intitulado “O Diálogo de Manwë e Eru”, que se segue a Leis e Costumes mas precede o Comentário sobre o Athrabeth. Este trabalho (datilografado) foi planejado para ser duplo, a primeira parte sendo as questões de Manwë e as respostas de Eru, e a segunda uma discussão filosófica elaborada sobre o significado e implicações; mas foi abandonado antes de ter sido terminado, e uma segunda e mais ampla versão do ”Diálogo” foi interrompida após apenas poucas páginas. Eu forneço a primeira parte, o “Diálogo”, apenas, na versão curta revisada original.

Manwë falou a Eru, dizendo: “Veja! um mal apareceu em Arda o qual não estávamos esperando: os Filhos Primogênitos, a quem Vós fizestes imortais, sofrem agora separação de espírito e corpo. Muitos dos fear dos Elfos na Terra-média estão agora desabrigados; e mesmo em Aman há um. Os desabrigados convocamos a Aman, para protegê-los da Escuridão, e todos que ouviram nossa voz residem aqui em espera. O que deve ser feito em seguida? Não há meios pelos quais suas vidas podem ser renovadas, para seguirem os cursos que Vós designastes? E o que fazer com os desapossados que lamentam aqueles que se foram?“Eru respondeu: “Que os desabrigados sejam re-abrigados!”

Manwë perguntou: “Como isto deverá ser feito?”

Eru respondeu: “Que o corpo que foi destruído seja refeito. Ou permita-se ao fea nu renascer como uma criança”.

Manwë disse: “É Vossa vontade que tentemos tais coisas? For tememos interferir com Vossos Filhos”.

Eru respondeu: “Não dei aos Valar o governo de Arda, e o poder sobre todas as substâncias desta, para modelá-la por suas vontades sob Minha vontade? Não sejam relutantes nestas coisas. Com relação aos meus Primogênitos, não removeste grandes números deles para Aman da Terra-média onde eu os coloquei?”

Manwë respondeu: “Isto nós fizemos, por medo de Melkor, e com boa intenção, e não sem apreensão, Mas usar nosso poder sobre a carne que Vós designastes, para abrigar ps espíritos de Vossos Filhos, parece um assunto além de nossa autoridade, mesmo não sendo além de nossas habilidades”.

Eru disse: “Eu dou a vocês a autoridade. As habilidades vocês já possuem, se forem prestarem atenção. Olhem e verão que cada espírito dos Meus Filhos retém em si mesmo a completa impressão e memória de sua antiga moradia; e em sua nudez é aberto a vocês, de forma que podem perceber claramente tudo que está nele. Com base nesta impressão podem criar para ele novamente uma tal casa em todos os particulares como era antes do mal ter caído sobre ele. Então podem mandá-lo de volta às terras dos Viventes”.

Então Manwë perguntou mais: “Ó Iluvatar, não falastes vós também de renascimento? Isto está também dentro de nossos poderes e autoridades?”

Eru respondeu: “Estará sob suas autoridades, mas não sob seus poderes. Aqueles que considerarem aptos a renascer, se eles o desejarem e o compreenderem claramente em que incorrem, mandarão para Mim; e Eu os considerarei”.


Será visto que dimensões completamente novas da questão sobre o retorno dos Mortos aos Viventes são criadas. Meu pai veio a pensar que antes da morte de Miriel não houve nenhum “re-abrigar” dos fear dos Mortos, e que foi apenas em resposta ao apelo de Manwë que Eru decretou tal possibilidade e as maneiras pelas quais poderia ser conduzida. Um de tais modos é o renascimento do fea como uma criança, mas tal Morto que assim o desejar deve ser entregue a Eru para aguardar Seu julgamento do caso. A outra maneira é a criação, pelos Valar, de “uma tal casa em todos os particulares como era antes do mal ter caído sobre ele”: a reencarnação do Morto em um hroa idêntico àquele sobre o qual a Morte veio. A longa discussão que se segue ao “Diálogo” é em sua maior parte preocupada com as idéias de “identidade” e “equivalência” em relação a esta forma de reencarnação,  representada como um comentário feito por Mestres de Conhecimento Eldarin.Um manuscrito escrito rapidamente em pequenos pedaços de papel, intitulado “Reencarnação dos Elfos”, parece mostrar as reflexões de meu pai sobre o assunto entre o abandono dO Diálogo de Manwë e Eru e o Comentário sobre o Athrabeth. Nesta discussão ele se refere com uma expressão rápida e elíptica sobre as dificuldades em cada nível (incluindo práticos e fisiológicos) da idéia de reencarnação do fea em uma criança recém-nascida de novos pais, que ao crescer recupera as memórias de sua vida anterior: “a objeção mais fatal” sendo que “isto contradiz a noção fundamental de que fea e hroa são feitos um para o outro: uma vez que o hroar tem uma continuação física, o corpo de renascimento, que tendo pais diferentes, deve ser diferente”, e isto deve ser uma condição de dor para o fea renascido.

Aqui ele estava abandonando, e definitivamente, a concepção de renascimento de há muito como um modo pelo qual os elfos poderiam retornar à vida encarnada: de seu escrutínio da idéia mítica, questionando sua validade nos termos em que ele a adotara, veio a parecer a ele uma falha séria na metafísica da existência Élfica. Mas, ele disse, isto era um “dilema”, pois a reencarnação dos Elfos “parece um elemento essencial dos contos”. “A única solução”, ele decidiu em sua discussão, era a idéia do refazer em forma idêntica o hroa do morto na maneira declarada por Eru nO Diálogo de Manwë e Eru: o fea mantém uma memória, uma impressão, de seu hroa, sua “antiga moradia”, tão poderosa e precisa que a reconstrução de um corpo idêntico pode seguir dela.

A idéia de um “Diálogo” entre Manwë e Eru não foi abandonado, e de fato é citado no “Reencarnação dos Elfos” (mas o “Diálogo” como dado acima já devia existir, uma vez que Eru expressamente declara o renascimento como um modo de reencarnação aberto ao fea “desabrigado”, uma vez que na presente discussão tal idéia é firmemente rejeitada e não encontra lugar na “única solução” para o “dilema”). A nova concepção procede, delineada, como segue. A Música dos Ainur não contém nenhuma previsão da morte dos Elfos e a existência de seus fear “desabrigados”, uma vez que de acordo com sua natureza eles seriam imortais dentro da existência de Arda. Existiam muitos de tais fear de Elfos que morreram na Terra-média reunidos nos Salões de Mandos, mas não foi antes da morte de Miriel em Aman que Manwë apelou diretamente a Eru por conselho. Eru “aceitou e ratificou a posição” – embora deixando claro a Manwë que os Valar deveriam ter contestado a dominação de Melkor na Terra-média bem mais cedo, e que a eles faltou estel: eles deveriam ter acreditado que em uma guerra legítima Eru não teria permitido a Melkor realizar tão grandes danos a Arda que os Filhos não pudessem surgir ou não pudessem habitá-la (confira  LQ $20: “E Manwë disse aos Valar: “Este é o conselho de Iluvatar em meu coração: que nós devemos retomar o governo de Arda, a qualquer custo, e livrar os Quendi das sombras de Melkor”. Então Tulkas ficou satisfeito; mas Aule lamentou, e é dito que ele (e outros Valar) antes não quiseram disputar com Melkor, prevendo as feridas do mundo que adviriam desta batalha”).

É então dito que “todos os fear dos Mortos vão para Mandos em Aman: ou melhor, eles agora são convocados até lá pela autoridade dada por Eru. Um local é feito para eles”. Isto parece significar que a Mandos foi dado o poder de convocar os espíritos dos Mortos para Aman; as palavras seguintes  “Um local é feito para eles” são difíceis de compreender, uma vez que elas parecem negar até mesmo que os Salões de Espera existiam antes de Manwë falar com Eru (apesar da afirmação anterior em “Reencarnação dos Elfos” de que existiam muitos fear desabrigados reunidos em Mandos antes do “Diálogo” acontecer).

Aos Valar agora foi dada a autoridade para reencarnar os fear dos Elfos que morreram em hroar idênticos àqueles que perderam; e o texto continua: O fea re-abrigado normalmente irá permanecer em Aman. Apenas em casos bastante excepcionais, como Beren e Lúthien,  eles serão transportados de volta à Terra-média… uma vez que a morte na Terra-média tinha muito do mesmo tipo de tristeza e separação para Elfos e Homens. Mas, como Andreth viu, a certeza de viver novamente e fazer coisas em forma encarnada faz uma diferença vital para a morte como um terror pessoal (confira o Athrabeth).

No que parece ser um segundo pensamento meu pai então pergunta se não seria possível que o fea “desabrigado” fosse permitido (sendo instruído) reconstruir seu hroa a partir de sua memória (e isto, como parece do bastante tardio texto sobre o assunto da reencarnação de Glorfindel de Gondolin, tornou-se sua visão firme e estabelecida sobre o assunto). Ele escreve aqui: “A memória de um fea da sua experiência é evidentemente poderosa, vívida e completa. Assim a concepção subjacente é que ‘matéria’ será elevada a ‘espírito’, tornando-se parte de seu  conhecimento – e então tornada imortal e sob o comando do espírito. Como os Elfos remanescentes na Terra-média lentamente ‘consumiam’ seus corpos – ou os tornavam vestimentas da memória? A ressurreição do corpo (pelo menos no que se refere aos Elfos) era em um certo sentido incorpórea.  Mas apesar de poder ultrapassar barreiras físicas a vontade, ele também poderia a vontade opor resistência à matéria. Se você tocasse um corpo ressuscitado você o sentiria. Ou se ele desejasse poderia apenas iludi-lo – desaparecer. Sua posição no espaço era à vontade”.

Nem no trecho sobre a reencarnação contido no Comentário sobre o Athrabeth (parágrafo 6) nem na Nota 3 que se refere a ele há qualquer menção sobre renascimento; enquanto que este último evidentemente ecoa as palavras do “Reencarnação dos Elfos”. Isto fica fortemente visível na Nota 3, mesmo que não expressamente dito, que foi apenas ao tempo do diálogo de Manwë com Eru que a Mandos foi dado o poder  de de fato convocar os fear dos Mortos; e a passagem que se segue a esta na Nota é bastante similar ao que é dito na “Reencarnação dos Elfos”:

“Lá lhes era dada a escolha de permanecerem desabrigados ou (se desejassem) serem re-alojados na mesma forma e aspecto que possuíam. Não obstante, geralmente eles devem permanecer em Aman. Portanto, se habitassem na Terra-média, a sua privação em relação aos amigos e parentes, e a privação destes, não era corrigida. A morte não era completamente curada. Mas como Andreth observou, esta certeza a respeito de seu futuro após a morte, e o conhecimento de que eles pelo menos seriam capazes (caso desejassem), como encarnados, de fazer e criar coisas e continuar sua experiência de Arda, tornava a morte para os elfos algo totalmente diferente da como essa era vista pelos homens.”

Um ponto interessante com respeito à cronologia da composição surge da afirmação encontrada tanto na “Reencarnação dos Elfos” quanto na Nota 3 do Comentário de que a morte dos Elfos e a morte dos Homens eram coisas diferentes, “como Andreth observou”. Portanto o Athrabeth já existia quando o “Reencarnação dos Elfos” foi escrito; mas o Comentário se seguiu ao “Reencarnação”. Isto parece ser uma evidência clara de que existiu um intervalo entre a escrita do Diálogo de Finrod e Andreth e a escrita do Comentário sobre o mesmo.

Uma última passagem do “Reencarnação dos Elfos” deve ser mencionada. Em uma espécie de “à parte” do curso de seus pensamentos, movendo-se (ainda) mais rapidamente do que  sua caneta, meu pai anotou que “a exata natureza da existência em Aman ou Eressea após suas ‘remoções’ deve ser dúbia e inexplicada”, da mesma forma que a questão sobre “como ‘mortais’ poderiam ir até lá, de qualquer forma”. Sobre isto ele observou que Eru tinha “muito antes” deixado os Mortos dos mortais sob responsabilidade de Mandos; confira QS $86:

“O que advinha a seus espíritos após a morte os Elfos não sabiam. Alguns dizem que eles também vão para os salões de Mandos; mas seu local de espera não é aquele dos Elfos; e exceto por Manwë apenas Mandos abaixo de Ilúvatar sabe para onde vão após o tempo de sua permanência naqueles salões silenciosos além do Mar do Oeste. A jornada de Frodo (ele foi) a Eressea – então a Mandos? – foi apenas uma forma estendida disso. Frodo eventualmente iria deixar o mundo (desejando fazê-lo). Então a partida no navio foi equivalente à morte”.

Isto pode contrastar com o que ele escreveu no final de registro sobre O Senhor dos Anéis em sua carta de 1951 a Milton Waldman (uma passagem omitida nas Cartas  mas publicada no HoMe IX):

A Bilbo e Frodo foi concedida a graça especial de partir com os Elfos que eles amavam – um final Arturiano, no qual, claro, não é deixado explícito se é uma “alegoria” da morte ou um modo de cura e restauração levando a um retorno.

Em sua carta a Naomi Mitchison de Setembro  de 1954  (Cartas No. 154), contudo, ele disse:

… a idéia mítica subjacente é de que para os mortais, uma vez que sua ‘raça’ não poderia ser alterada para sempre, esta seria apenas uma recompensa estritamente temporária: uma cura e um remediar do sofrimento. Eles não poderiam residir para sempre, e embora não pudesse retornar à terra mortal, eles podiam e iriam ‘morrer’ – de livre vontade e deixar o mundo. (Neste contexto o retorno de Arthur seria totalmente impossível, uma imaginação vã).

E muito mais tarde, em um rascunho de uma carta de 1963 (Cartas No. 246), ele escreveu:

Frodo foi enviado ou a ele foi permitido passar sobre o mar para curá-lo – se tal poderia ser feito, antes dele morrer.  Eventualmente ele iria ‘morrer’: nenhum mortal poderia, ou pode, residir para sempre na terra, ou no Tempo. Então ele foi tanto ao purgatório quanto a uma recompensa, por algum tempo: um período de reflexão e paz e obtenção de uma compreensão mais verdadeira de sua posição  na pequeneza e na grandeza, passando um Tempo na natureza de ‘Arda Não-Desfigurada’, a Terra intocada pelo mal.

 

Tal-elmar

225px-the_peoples_of_middle-earth.jpgA Valinor tem o orgulho de traduzir e publicar Tal-elmar, que é um dos textos mais “diferentes” de Tolkien, com exceção do “The Notion Club Papers” (que logo veremos aqui na Valinor). É um texto do The History of Middle-earth 12, na verdade o fechamento deste volume e de toda a série The History of Middle-earth. Ele mostra a chegada dos Numenorianos à Terra-média através de um dos “Homens Médios”, um membro da raça dos homens aparentada aos numenorianos, mas não tão imponente quanto estes (os “Alto Homens”) nem tem baixa quanro os “Homens Selvagens”. Espero que gostem! Comentários de Christopher Tolkien em itálico e todas as notas são de Christopher Tolkien.
TAL-ELMAR
O conto de Tal-Elmar, até onde o mesmo vai, está preservado em um papel dobrado, datado de 1968, no qual meu pai escreveu a seguinte nota apressada:
Tal-Elmar.Começo de um conto que vê os Numenorianos do ponto de vista dos Homens Selvagens. Ele começa sem muita consideração com a geografia (ou a situação como imaginada em O Senhor dos Anéis). Mas ele permanecer como um conto em separado apenas vagamente conectado com a história desenvolvida nO Senhor dos Anéis ou – como acredito – deve recontar a chegada dos Numenorianos (Amigos-dos-Elfos) antes da Queda e representar suas escolhas de portos permanentes. Portanto a geografia deve ser alterada para se encaixar àquela da foz do Anduin e do Langstrand.

Mas isto foi escrito treze anos depois dele ter abandonado a história e não há sinais dele ter retornado a ela em seus últimos anos. Curta como é e (como parece) incerta em seu direcionamento, tal distanciamento de todas os outros temas narrativos dentro do compasso da Terra-média servirá, talvez, como uma conclusão adequada a esta História.

O texto se encontra em duas partes. A primeira é formada por seis páginas datilografadas que se encerram no meio de uma sentença; mas a primeira parte deste existe também como uma página rejeitada, parte datilografada parte manuscrita (ver nota 5). Além deste ponto a história inteira está na primeira fase de composição. A segunda parte é um manuscrito no qual meu pai escreveu ‘Continuação de Tal-Elmar’ e a data Janeiro 1955; não há indicação de quanto tempo se passou entre as duas partes, mas eu acredito que o trecho datilografado também pertence à década de 1950. É digno de nota que ele estivesse trabalhando nele durante o período de extrema pressão entre a publicação de As Duas Torres e a de O Retorno do Rei. Este manuscrito retoma a história de onde ela parou no trecho datilografado, mas não completa a sentença deixada sem fim; ele se torna progressivamente mais difícil e em uma seção está no limite da legibilidade, com algumas palavras ininterpretáveis. No final da narrativa há passagens experimentais e questionamentos. A não ser em poucos casos, eu não relatei as alterações realizadas no texto e dou apenas a última versão; e em um ou dois casos eu alterei usos inconsistentes de ‘vós’ e ‘você’.

Nos dias dos Reis da Escuridão, quando um homem poderia andar sem molhar os pés desde o Nascer do Sol até o Mar onde ele se põe, viveu em uma cidade paliçada de seu povo nas colinas verdejantes de Agar um velho homem, de nome Hazad Barbalonga (1). Dois orgulhos ele tinha: no número de seus filhos (dezessete ao todo) e no comprimento de sua barba (cinco pés, sem esticar); mas sua satisfação devido à sua barba era a maior das duas. Pois ela permanecia com ele e era macia e obediente à sua mão, enquanto seus filhos em sua maior parte o deixaram e aquele que permaneciam ou visitavam esporadicamente não eram nem gentis nem obedientes. Eles eram muito como Hazad havia sido nos dias de sua juventude: entroncados, de pele escura, baixos, rígidos, de línguas afiadas, mãos pesadas e rápidos à violência.

Exceto por um deles, o mais jovem. Tal-elmar Hazad o havia nomeado. Ele ainda não tinha dezoito anos de idade e vivia com seu pai e os outros dois filhos mais novos. Ele era alto, de pele clara e havia uma luz em seus olhos cinzentos que se inflamava quando ele se enfurecia; e embora fosse raro e nunca sem uma boa razão, era algo a se recordar e ter cuidado. Aqueles que haviam visto o fogo o chamavam de Olhos-brilhantes e o respeitavam, amassem-no ou não. Pois Tal-elmar parecia, dentre aquele povo entroncado e de pele escura, esbelto e sem a força nos pernas e pescoço que eles prezavam, mas um homem que brigasse com ele logo perceberia ele ser mais forte do que parecia, rápido e ligeiro, difícil de segurar e mais difícil ainda de escapar.

Ele tinha uma bela voz, que fazia até mesmo o idioma rude daquele povo mais suave de se ouvir, mas ele não falava muito; e freqüentemente ele permanecia quieto enquanto os outros conversavam, com um olhar em sua face que os demais corretamente interpretavam como orgulho, embora não fosse o orgulho de um mestre, mas antes o orgulho de alguém de uma raça estrangeira que o destino lançou em meio a um povo ignóbil e lá o manteve em servitude. Pois Tal-elmar trabalhava pesado em tarefas domésticas, não sendo nada além do filho mais novo de um homem velho, que tinha pouca riqueza restando além de sua barba e de uma reputação de sabedoria. Mas estranhamente (para aquela cidade) ele servia a seu pai de boa vontade e o amava, mais do que todos os seus irmãos juntos e mais do que era o costume de qualquer filho naquela terra. De fato era mais comum o brilho ser visto em seus olhos quanto estava defendendo seu pai.

Pois Tal-elmar possuía uma estranha crença (de onde ela viera era um mistério) de que os velhos deveriam ser tratados com carinho e cortesia, e deveria ser permitido viver o resto de seus dias com o máximo de conforto que pudessem. ‘Se precisarmos contrariá-los’, ele dizia, ‘que seja com respeito; pois eles já viram muitos anos e, muitas vezes, talvez, enfrentaram os males que ainda não encontramos. E não se ressinta de sua comida ou seu quarto, pois eles trabalharam mais do que você e não recebem agora, tardiamente, mais do que uma parte do pagamento que lhes é devido’. Tal tolice não tinha efeitos nos costumes de seu povo, mas era lei em sua casa; e já se passaram dois anos desde que qualquer de seus irmãos ousou quebrá-la (2).

Hazad amava bastante seu filho mais jovem, em retorno a seu amor e ainda mais por outra razão que ele mantinha em seu coração: sua face e voz o lembravam de outra pessoa que há muito ele sentia falta. Pois Hazad também havia sido o filho mais jovem de sua mãe e ela morrera quando ele era uma criança; e ela não era de seu povo. Tal era o conto que ele ouvira, não abertamente, pois o mesmo não dava moral à sua casa: ela viera de um povo estranho, cheio de ódio e orgulhoso, do qual se ouvia rumores nas terras do oeste e vinha do Leste, como era dito. Altos, belos e com olhos brilhantes eles eram, com armas brilhantes feitas por demônios em colinas de fogo. Lentamente eles iam em direção ao Mar, expulsando em sua passagem os antigos moradores de suas terras.

Não sem resistência. Ocorreram batalhas nas fronteiras do leste e uma vez que o povo mais antigo ainda era numeroso, os recém-chegados algumas vezes sofriam grandes perdas e eram expulsos. De fato pouco se ouvira deles nas Colinas de Agar, distante no oeste, por mais de uma vida de homem, desde a grande batalha sobre a qual canções ainda eram cantadas. No vale de Ishmalog ela fora travada, contavam os sábios, e lá uma grande horda do povo Bárbaro foi emboscada em um local estreito e assassinada aos montes. E naquele dia muitos foram feitos cativos; por isso não havia mais agitação nas fronteiras ou lutas com guardas avançadas: todo um povo da Raça Bárbara estivera se movendo com suas carroças e gado e mulheres.

Buldar, pai de Hazad, estivera no exército do Rei do Norte (3) que fora enviado para Ishmalog (4), e ele trouxe como espólio de guerra um ferimento, uma espada e uma mulher. E ela era afortunada; pois o destino dos cativos era curto e cruel, e Buldar a tomou como esposa. Pois ela era bela e a tendo visto ele não desejava qualquer mulher de seu próprio povo. Ele era um homem de riqueza e poder naqueles tempos e fez como quis, escarnecendo o escárnio de seus vizinhos. Mas assim que sua esposa, Elmar, aprendeu o suficiente da fala de seu novo grupo um dia ela disse a Buldar: eu tenho muito que te agradecer, senhor; mas não penses que terás meu amor. Pois me tiraste de meu próprio povo e daquele que eu amava e do filho que eu dera a ele. A eles sempre sentirei falta e chorarei, e darei meu amor a mais ninguém. Nunca mais serei satisfeita enquanto for mantida cativa entre um povo estranho que eu vejo como baixo e desagradável.

‘Que assim seja’, disse Buldar. ‘Mas não deves pensar que eu deveria deixá-la livre. Pois és preciosa ao meu olhar. E considere bem: em vão é tentar escapar-me. Longo é o caminho até o restante de teu povo, se algum ainda está vivo; e não irias longe das Colinas de Agar e encontrarias a morte ou uma vida muito pior do que a aquela que terias em minha casa. Baixos e desagradáveis nos chamastes. Com razão, talvez. Mas verdade também é que vosso povo é cruel e sem lei e amigos de demônios. São ladrões. Pois nossas terras o são nossas desde há muito, as quais vocês nos arrancam com suas lâminas cruéis. Peles claras e olhos brilhantes não são desculpas para tais atos’.

‘Não são?’, disse ela. ‘Então também não o são pernas grossas e ombros largos. Ou por que meios ganhastes estas terras de que fala? Não existe, como escutei falarem, um povo selvagem em cavernas nas montanhas, que outrora correram livres por aqui, até que seu povo de pele escura veio e os caçou como lobos? Mas eu não falo de diretos, mas de tristeza e amor. Se eu preciso morar aqui, então morarei, como alguém cujo corpo está aqui à tua vontade, mas meu pensamento longe noutro lugar. E esta vingança eu terei: enquanto meu corpo for mantido aqui em exílio, o quinhão de todo este povo diminuirá e o teu mais do que todos; mas quando meu corpo for para dentro desta terra estrangeira e meu pensamento ficar livre dele, então entre os teus surgirá um que é apenas meu. E com seu surgimento chegará o fim do teu povo e a queda do teu rei’.

Após isto Elmar não falou mais nada sobre este assunto; e ela era de fato uma mulher de poucas palavras enquanto sua vida durou, exceto para seus filhos. Para eles falava muito quando ninguém estava perto e ela cantava para eles muitas canções em uma língua bela e estranha; mas eles não lhe davam atenção ou logo esqueciam. Exceto Hazad, o mais jovem; e embora ele fosse, assim como todos os outros filhos, diferentes em corpo, ele era o mais próximo em coração. As canções e a estranha língua ele também esqueceu quando cresceu, mas sua mãe ele nunca esqueceu; e ele se casou tarde, pois nenhuma mulher de seu povo lhe parecia desejável, ele que conhecera o que a beleza em uma mulher deveria ser (5).

Não que existissem muitas para cortejar, pois como Elmar falara, o povo de Agar diminuiu com os anos, devido a climas ruins e pestes, e mais do que todos foi atingido Buldar e seus filhos; e eles se tornaram pobres e outras famílias tomaram o poder deles.  Mas Hazad não sabia da previsão de sua mãe, e devido à sua memória amava Tal-elmar, e por isso assim o nomeara em seu nascimento.

Por acaso em uma manhã de primavera quando seus outros filhos partiram para o trabalho Hazar manteve Tal-elmar a seu lado, e andaram juntos e se sentaram sobre o verdejante topo da colina acima da cidade de seu povo; e eles olharam para o sul e oeste onde podiam ver ao longe a grande baía onde o Mar adentrava na terra, e brilhava como vidro cinzento. E os olhos de Hazad estavam ficando fracos com a idade, mas os de Tal-elmar eram aguçados e ele viu o que pensou ser três pássaros estranhos sobre as águas, brancos ao sol, e eles estavam deslizando com o vento oeste em direção a terra; e ele pensou no  porque eles ficam no o mar e não voavam.

‘Eu vejo três estranhos pássaros sobre a água, pai’, ele disse. ‘Não são como nenhum outro que eu tenha visto’.

‘Aguçados podem ser teus olhos jovens, meu filho’, disse Hazad, ‘mas pássaros na água não podes ver. Três léguas distantes daqui onde sentamos está o litoral mais próximo. O sol te confunde ou algum sonho está em ti’.

‘Não, o sol está atrás de mim’, disse Tal-elmar. ‘Eu vejo o que vejo. E se não são pássaros então o que são? Muito grandes devem ser, maiores do que os Cisnes de Gorbelgod (6), dos quais falam as lendas. E veja! Vejo agora outro vindo atrás, mas com menos clareza, pois suas asas são negras’.

Então Hazad ficou preocupado. ‘Um sonho está em você, como eu disse, meu filho’, ele respondeu; ‘mas um sonho ruim. Já não é a vida dura o suficiente aqui, que logo que a primavera veio e o inverno finalmente terminou, precisas trazer uma visão de um passado negro?’

‘Esquecestes, pai’, disse Tal-elmar, ‘que sou teu filho mais novo e enquanto ensinastes muitos conhecimentos às orelhas surdas de meus irmãos a mim destes menos de tua reserva. Não sei nada do que se passa em tua mente’.

‘Não conheces?’, disse Hazad, forçando a visão ao olhar para o Mar. ‘Sim, possivelmente já faz muito tempo que falei sobre isto; não é mais do que a sombra de um sonho no fundo de minha memória. Três povos temos como inimigos. Os homens selvagens das montanhas e florestas; mas a estes só quem vaga sozinho precisa temer. O Povo Bárbaro do Leste; e eles ainda estão bem longe e são o povo da minha mãe, embora eu não duvide de que eles não honrariam o parentesco se viessem aqui com suas espadas. E os Altos Homens do Mar. Estes, de fato, podemos temer como à Morte. Pois eles idolatram a Morte e assassinam homens cruelmente em honra à Escuridão. Do Mar eles vêm e se possuem alguma terra deles mesmos, antes de aportaram nos litorais do oeste, não sabemos onde pode ser. Lendas terríveis chegaram a nós dos litorais, norte e sul, onde ele há muito estabeleceram suas fortalezas negras e seus túmulos. Mas aqui eles não vêm desde os dias de meu pai, e então vinham apenas para pilhar e capturar homens e partiam. Este era a modo de agir deles. Eles chegavam em barcos, mas não barcos como alguns de nosso povo utilizam nos grandes rios ou lagos, para transporte ou pesca. Maiores do que grandes casas eram os barcos dos Go-hilleg, e eles mantinham espaços para homens e mercadorias, além de serem empurrados pelos ventos; pois os Homens-do-mar estendiam grandes tecidos como asas para pegar os ventos e os prendiam em postes altos como árvores da floresta. Então eles chegavam ao litoral, onde existisse proteção ou tão próximo quanto conseguissem; e então enviavam barcos menores carregados com mercadorias e coisas estranhas tão belas quanto úteis que nosso povo desejava. Estas coisas eles vendiam por um pequeno preço ou davam como presentes, fingindo amizade e piedade por nossas necessidades; e eles moravam por um tempo e espionavam a terra e o número do povo, e então partiam. E se não retornasse as pessoas deveriam ficar gratas. Pois se viessem novamente seria em outra forma. Vinham então em grande número: dois barcos ou mais, juntos, cheios de homens e não de mercadorias, e sempre um dos malditos navios possuía asas negras. Pois aquele é o Barco da Escuridão, e nele levavam embora a pilhagem maligna, cativos amontoados como bestas, as mais belas mulheres e crianças, ou homens jovens sem defeitos físicos, e este era o fim deles. Alguns dizem que eles eram utilizados como carne; outros que eles eram mortos com tormentos sobre pedras negras em idolatria à Escuridão. Talvez ambos estejam corretos. As horríveis asas dos Homens-do-Mar não foram vistas nestas águas por muitos anos; mas relembrando a sombra do medo no passado eu falei e falo de novo: já não é nossa vida dura o suficiente sem a visão de uma asa negra sobre o mar brilhante?’

‘Dura o bastante, de fato’, disse Tal-elmar, ‘ainda assim não tão dura que eu queira deixá-la ainda. Venha! Se o que você disse é real então devemos correr para a cidade e avisar os homens, e nos preparar-nos para fuga ou defesa’.
or for defence.’

‘Eu irei’, disse Hazad. ‘Mas não te espantes se os homens rirem de mim como se eu estivesse fora do meu juízo. Eles acreditam pouco em coisas que não tenham acontecido durante seus próprios dias. E tenha cuidado, caro filho! Eu corro pouco perigo, além de morrer de fome em uma cidade vazia, só com loucos e velhos. Mas tu estarias dentre os primeiro pegos pelo Barco Negro. Não te coloques na dianteira de nenhum apressado conselho de guerra’.

‘Veremos’, respondeu Tal-elmar. ‘Mas tu és minha principal preocupação nesta cidade, onde tenho e dou pouco amor. Não partirei de teu lado de boa vontade. Mesmo assim esta é a cidade de meu povo e nosso lar, e os aptos estão fadados a defendê-la, assim como eu’.

Então Hazad e seu filho desceram a colina e era meio-dia; e na cidade estavam poucas pessoas além das idosas e crianças, por todos os capazes estavam nos campos, ocupados com o árduo trabalho da primavera. Não havia vigia, pois as Colinas de Agar estavam distantes das fronteiras hostis onde o poder do Quarto Rei (7) terminava. O mestre da cidade sentava à porta de sua casa ao sol, dormindo ou placidamente observando os pequenos pássaros que juntavam pedaços de comida da lama seca e batida do lugar aberto no meio das casas.

‘Saudações! Mestre de Agar!’ disse Hazad, e curvou-se, mas o mestre, um homem gordo com olhos de lagarto, apenas piscou e não retornou o cumprimento.

‘Saudações ao trono, Mestre! E que por muito você possa continuar assim!’ disse Tal-elmar, e havia um brilho em seus olhos. ‘Não devemos perturbar seus pensamentos, ou seu sono, mas há novidades às quais, talvez, você deva dar atenção. Não há vigia posto, mas por acaso estávamos no topo da colina e vimos o mar ao longe e lá – aves de mau agouro sobre a água’.

‘Navios dos Go-hilleg’, disse Hazad, ‘com grandes tecidos-de-vento. Três brancos – e um negro’.

O mestre bocejou. ‘Quanto a tu, ancião de olhos cansados’, ele disse, ‘não podes diferenciar o mar de uma nuvem. E quanto a este rapaz folgado, o que sabe ele de barcos ou tecidos-de-vento, ou todo o resto, exceto por teus loucos ensinamentos? Vá aos quebradores de pedra nômades (8) com suas histórias de bruxa sobre os Go-hilleg e não me incomode mais com tais tolices. Tenho outros assuntos de mais peso a ponderar’.

Hazad engoliu sua fúria, pois o Mestre era poderoso e não gostava dele; mas a ira de Tal-elmar era fria. ‘Os pensamentos de alguém com tão grandes necessidades devem ser pesados’, disse ele suavemente, ‘embora eu não saiba que pensamento de mais peso poderia interromper seu repouso do que o cuidado com sua própria carcaça. Ele será um mestre sem povo, ou um saco de ossos na colina, se zombar da sabedoria de Hazad filho de Buldar. Olhos cansados podem ver mais do que aqueles fechados pelo sono’.

A obesa face de Mogru o Mestre escureceu e seus olhos ficaram injetados de sangue pela raiva. Ele odiava Tal-elmar, embora nunca antes o jovem tivera lhe dado razão, exceto que não demonstrava medo em sua presença. Agora ele deveria pagar por isso e por sua recém-descoberta insolência. Mogru bateu palmas, mas ainda enquanto o fazia lembrou que não havia ninguém próximo que ousaria se atracar com o jovem, não, nem mesmo três juntos; e ao mesmo tempo ele viu o brilho dos olhos de Tal-elmar. Ele empalideceu, e as palavras que ele estava prestes a falar, ‘Filho de escrava e seu moleque’, morreu em seus lábios. ‘Hazad uBuldar, Tal-elmar uHazad, desta  cidade, não fale assim com o mestre de seu povo’, ele disse. ‘Um posto de vigia foi criado, embora tu que não tens o governo da cidade possas não saber. Aguardarei até ter um relato dos vigias, nos quais confio, que algo de ruim foi visto. Mas se estás tão ansioso vá aos campos e chame os homens’.

Tal-elmar observou-o cuidadosamente enquanto ele falava e leu claramente seus pensamentos. ‘Agora devo esperar que meu pai não tenha se enganado’, ele disse em seu coração, ‘pois menos perigo a batalha me trará do que o ódio de Mogru deste dia em diante. Um posto de vigia! Sim, mas apenas para espionar as indas e vindas do povo da cidade. E no momento em que eu for aos campos um corredor irá reunir seus servos e homens com porretes. Causei um mal a meu pai nesta hora. Bem! Aquele que começou com a pá deve empunhá-la até terminar o canteiro’. Sua fala, portanto continuou com raiva e escárnio. ‘Vá aos quebradores de pedra você mesmo’, ele disse, ‘pois você está acostumado a usar aquele povo matreiro, e prestar atenção aos seus contos quando te servem. Mas meu pai você não escorneará enquanto eu estiver por perto. Podemos muito bem estar em perigo. Portanto você deverá vir conosco ao topo da colina, e ver com seus próprios olhos. E se você não vir nada que justifique, você deverá chamar seus homens para a colina-dos-Debates. Eu serei seu mensageiro’.

E Mogru também observava a face de Tal-elmar pela fenda de suas pálpebras enquanto este falava, e considerou que não estaria sob risco de violência se cedesse dessa vez. Mas seu coração estava repleto de veneno; e não o irritava pouco o esforço de subir a colina. Lentamente ele se pôs de pé.

‘Eu irei’, ele disse. ‘Mas se meu tempo e esforço forem desperdiçados, eu não perdoarei. Auxilie meus passos; jovem, pois meus servos estão nos campos’. E ele tomou o braço de Tal-elmar e se apoiou pesadamente sobre ele.

‘Meu pai é o mais ancião,’ disse Tal-elmar; ‘e o caminho não é curto. Deixe que o Mestre lidere, e nós seguiremos. Aqui está teu bastão!’. E soltou-se do aperto de Mogru, e deu a este seu bastão o qual estava à porta de sua casa; e tomando o braço de seu pai ele aguardou até o Mestre estar preparado. De soslaio e escuro foi o olhar dos olhos-de-lagarto, mas o brilho dos olhos de Tal-elmar que eles vislumbraram feria como uma agulha. Há muito que as pernas obesas de Mogru não desenvolviam tal velocidade entre a casa e o portão; e mais tempo ainda que não carregaram sua barriga pela subida escorregadia da colina além do dique. Ele estava respirando pesadamente e bufando como um cachorro velho, quando chegaram ao topo.

Então novamente Tal-elmar olhou ao longe; mas o imenso e distante mar estava agora vazio, e ele ficou em silêncio. Mogru limpou o suor de seus olhos e seguir seu olhar.

‘Por que razão, pergunto, tiraste o Mestre da cidade de sua casa e o trouxeste a este lugar?’, ele rosnou. ‘O mar permanece onde deveria estar, e vazio. O que dizes?’

‘Tenha paciência e olhe mais perto’, disse Tal-elmar. Para o oeste as colinas bloqueiam a visão de tudo, exceto do mar mais distante; mas se elevando até o largo topo da Colina Dourada eles desciam repentinamente, e em uma abertura profunda um relance da grande baía e das águas próximas a seu litoral norte podia ser visto. ‘O tempo passou desde que estivemos aqui, e o vento está forte’, disse Tal-elmar. ‘Eles chegaram mais perto’. Ele apontou. ‘Lá você verá suas asas, ou seus tecidos-de-vento, chame-os como quiser. Mas qual é seu conselho? E não é um assunto que o Mestre deveria ver com seus próprios olhos?’

Mogru olhou, e bufou, agora tanto pelo medo quanto pelo trabalho de subir a colina, pois mesmo arrogante como parecia ele tinha ouvido muitas lendas terríveis sobre os Go-hilled das anciãs, em sua juventude. Mas seu coração era matreiro e negro pela ira. Olhou de soslaio primeiro para Hazad, e então para seu filho; e lambeu os lábios, mas não deixou que seu sorriso fosse visto.

‘Você pediu para ser meu mensageiro’, ele disse, ‘e assim serás. Vá agora com rapidez e convoque os homens para a colina-dos-Debates! Mas isto não encerrará tua missão’, acrescentou enquanto Tal-elmar se preparava para correr. ‘Direto dos campos deverás ir com toda velocidade para a Praia. Pois ali os barcos, se barcos são, provavelmente irão parar, e os homens desembarcarão. Deverás obter notícias e espionar bem quem desembarcar. Não voltes a não ser que tenhas novidades que auxiliarão em nossos conselhos. Vás e não te poupes! Comando-te. É tempo de perigo para a cidade’.

Hazad pareceu pronto a protestar; mas baixou a cabeça, e não disse nada, sabendo ser em vão. Tal-elmar parou por um momento, observando Mogru, como alguém olharia uma cobra no caminho. Mas ele percebeu que a esperteza do Mestre fora maior que a sua. Ele armara sua própria armadilha, e Mogru a utilizou. Ele declarou tempo de perigo para a cidade, e tinha o direito de ordenar qualquer serviço. Seria morte desobedecê-lo. E mesmo que Tal-elmar não tivesse se nomeado mensageiro (tentando evitar que qualquer palavra secreta passasse aos servos do mestre), ele diria que a escolha foi justa. Um batedor deveria ser enviado, e quem melhor do que um jovem forte e corajoso, de pés rápidos? Mas também havia malícia na missão, uma malícia negra, de qualquer forma. O defensor de Hazad deveria partir. Não havia esperança em seus irmãos: tolos fortes, mas sem coração para desafiar, exceto a seu velho pai. E era provável que ele não retornasse. O perigo era grande.

Mais uma vez Tal-elmar olhou para o Mestre, e então para seu pai, e então vislumbrou o bastão de Mogru. O brilho estava em seus olhos, e em seu coração o desejo de matar. Mogru percebeu e recuou com medo.

‘Vá, vá!’ ele gritou. ‘Eu já te ordenei. És mais rápido em gritar lobo do que em começar a caçada. Vá de uma vez!’.

‘Vá, meu filho!’, disse Hazad. ‘Não desafie o Mestre. Não onde ele tem a razão. Pois então desafiarias toda a cidade, e estaria acima do teu poder. E fosse eu o Mestre, eu te escolheria, mesmo me sendo querido; pois tens mais coração e sorte do que qualquer um deste povo. Mas retorne, e não deixe o Barco Negro tê-lo. Não seja corajoso demais! Pois melhores serão más notícias trazidas por ti, vivo, do que pelos Homens-do-Mar sem aviso’.

Tal-elmar se curvou e fez o sinal de submissão para seu pai, mas não para o Mestre, e se afastou dois passos. E então se virou. ‘Ouça, Mogru, a quem um povo inferior em sua tolice nomeou mestre’, ele disse. ‘Talvez eu retorne, contra tuas expectativas. Meu pai eu deixo em teu cuidado. Se eu retornar, seja com uma palavra de paz, seja com o inimigo em meu encalço, então teu tempo como mestre estará encerrado, e tua vida também, se eu descobrir que ele sofreu algum mal ou desonra que poderias ter evitado. Teus homens-de-faca e portadores-de-porretes não te ajudarão. Eu apertarei teu pescoço gordo com minhas mãos vazias, se precisar; ou te caçarei através dos ermos até as poços escuros’.  Então um novo pensamento o acossou e ele se dirigiu ao Mestre, e pegou seu bastão.

Mogru se encolheu, e estendeu um braço gordo, como para se defender de um golpe. ‘Está louco hoje’, coaxou. ‘Não cometas violência contra mim ou a pagarás com tua morte. Não ouviste as palavras de teu pai?’

‘Eu ouvi, e eu obedeço’, disse Tal-elmar. ‘Mas a primeira missão é para os homens, e há necessidade de rapidez. Pouca honra tenho entre eles, pois sabem bem que escarneces de nós. Que atenção prestarão, se os bastardos da Escrava, como nos nomeais quando não estou perto, chegar (9) gritando convocações para a colina-dos-Debates em teu nome e sem prova. Teu bastão servirá. É bem conhecido. Não, não irei bater-te com ele ainda!’

Com isso ele então pegou o bastão das mãos de Mogru e desceu correndo a colina, seu coração ainda quente demais com a ira para pensar no que estaria à sua frente. Mas quando ele convocou os homens nas terras inclinadas do sul e agitou o bastão entre deles, aconselhando que se apressassem, correu para o pé da colina, e além dos grandes gramados, e então chegou ao primeiro caminho estreito das florestas. Escuro ele se estendia ante ele no vale entre Agar e as colinas do litoral.

Ainda era manhã, mais de uma hora antes do meio-dia, mas quando ele chegou embaixo das árvores parou e começou a pensar, e percebeu que estava perturbado de medo. Raramente ele vagava longe das colinas de sua casa, e nunca sozinho, nem muito longe na floresta. Pois todo o seu povo temia a floresta (10).

Aqui o trecho datilografado é interrompido, não ao pé da página, e o manuscrito ‘Continuação de Tal-Elmar’ (como o nome agora é escrito) começa.

É rápido para os olhos viajarem até litoral, mas lento para os pés; e a distância era maior do que parecia. A floresta estava escura e desconfortável, pois ali ficavam águas estagnadas entre as colinas de Agar e as colinas do litoral; e muitas cobras viviam ali. Era silenciosa também, pois embora fosse primavera poucos pássaros construíam ninhos ali ou mesmo pousavam ao passarem em busca de terras mais abertas perto do mar. Também moravam na floresta espíritos escuros que odiavam homens, ou pelo menos assim diziam as lendas do povo. Sobre cobras e pântano e demônios da floresta Tal-Elmar pensava parado sob a sombra; mas precisou pensar pouco para chegar à conclusão que todos os três eram menos perigosos do que retornar, com uma desculpa mentirosa ou sem nenhuma, para a cidade e seu mestre.Então, talvez auxiliado um pouco por seu orgulho, ele seguiu em frente. E o pensamento veio a ele sob a sombra enquanto procurava por um caminho através do pântano e do emaranhado da floresta: O que eu sei, ou qualquer um de meu povo, mesmo meu pai, desses Go-hilleg dos barcos alados? Pode muito bem ser que eu que sou um estrangeiro entre meu próprio povo ache-os mais agradáveis que Mogru e todos os outros como ele.Com este pensamento crescendo nele, ele se sentiu mais como um homem que vai cumprimentar amigos e parentes do que alguém que se esgueira para espiar um inimigo poderoso, ele passou incólume pela floresta das sombras, e chegou às colinas do litoral, e começou a subir. Ele escolheu uma colina, pois os emaranhados da floresta acompanhavam sua encosta e o topo estava coroado com um grupo denso de árvores baixas. A este esconderijo ele foi e se achegando à borda da colina ele olhou para baixo. Havia lhe tomado um longo tempo, pois sua caminhada havia sido lenta, e agora o sol havia passado do meio e estava descendo em direção ao Mar. Ele estava faminto, mas a isto deu pouca atenção, pois estava acostumado à fome, e poderia suportar os trabalhos de um dia inteiro sem comer, quando precisava. A colina era baixa, mas descia acentuadamente até a água. Ante seus pés estavam terras verdejantes terminando em um trecho de cascalho, além dos quais as águas do estuário brilhavam sob o sol que se punha.Em meio à correnteza e além da parte mais rasa três grandes navios – embora Tal-Elmar não tivesse tal palavra em sua língua para nomeá-los – estavam parados imóveis. Estavam ancorados e com as velas abaixadas. Do quarto, o navio negro, não havia sinal. Mas no gramado próximo à pequena praia de cascalhos havia tendas e pequenos barcos. Homens altos estavam parados ou andando entre eles. Além, nos ‘grandes barcos’ Tal-Elmar podia ver [?outros] em vigia; de quando em quando ele vislumbrava um brilho quando uma arma ou armadura se movia no sol. Ele tremeu, pois os contos das ‘lâminas’ dos Homens Cruéis eram familiares à sua infância.

Tal-Elmar observou por longo tempo, e lentamente ele se deu conta do quão sem esperança era sua missão. Ele poderia olhar até que a luz do dia acabasse, mas ele não poderia contar com precisão suficiente para qualquer uso o número de homens que estavam lá; nem podia descobrir seus propósitos ou seus planos. Mesmo se ele tivesse tanto a coragem quanto a sorte de passar pelos guardas ele não poderia fazer nada de útil, pois ele não entenderia uma palavra sequer do idioma deles.

Ele se lembrou de repente – outro dos esquemas de Mogru para se livrar dele, como ele percebia agora, embora à época ele achasse uma honra – como apenas um ano atrás, quando a minguante vila de Agar foi ameaçada por invasores da vila de Udul distante no interior (11), e todos os homens temiam que um ataque ocorresse, pois Agar era mais seca, mais saudável e estava em local mais defensável (ou assim pensavam os homens da cidade). Então Tal-Elmar foi escolhido para ir e espionar a terra de Udul, por ‘ser jovem, corajoso e conhecer melhor o mundo ao redor’. Assim disse Mogru, verdadeiramente, pois o povo da cidade de Agar era tímido e raramente ia muito longe no campo, nunca se arriscando a ser pego pelo escurecer fora de suas casas.  Enquanto que Tal-Elmar freqüentemente, se tivesse a chance ou nenhum trabalho o exigisse (ou mesmo que o fizesse, algumas vezes), andava longe pelo campo, e embora (sendo assim ensinado desde a infância) temesse o escuro, ele mais de uma vez havia passado a noite longe da cidade, e era conhecido até mesmo por ir à colina de vigia sozinho sob as estrelas.

Mas rastejar dentro dos campos inamistosos de Udul durante a noite era uma coisa diferente e muito pior. Mesmo assim ele ousou fazê-lo. E ele chegou tão perto de umas das cabanas dos vigias que pode ouvir os homens dentro conversando – em vão. Ele não podia entender o sentido de suas palavras. O tom parecia cheio de pesar e cheio de medo (12) (como eram as vozes dos homens à noite no mundo que ele conhecia), e umas poucas palavras ele pareceu reconhecer, mas não o suficiente para compreender. E o povo de Udul eram seus vizinhos mais próximos – de fato, embora Tal-Elmar e seu povo tenham esquecido, e eles tinham esquecido tantas coisas, seus parentes próximos, parte do mesmo povo em anos passados e melhores. Que esperança então havia dele reconhecer qualquer simples palavra, ou mesmo interpretar corretamente as entonações, da língua de um povo estrangeiro separado do dele desde o começo do mundo? Estrangeiro de seu próprio? Meu próprio? Mas eles não eram meu povo. Apenas meu pai. E de novo ele teve a estranha sensação, vinda não sabia de onde para este jovem rapaz, nascido e criado em meio a um povo meio-selvagem e declinante: o sentimento de que ele não estava indo encontrar estrangeiros, mas parentes de longe e amigos.

Ainda assim ele era também um menino de sua vila. Ele estava com medo, e demorou muito até se mover. Finalmente ele olhou para cima. O sol à sua direita estava agora se pondo. Entre dois galhos de árvore ele vislumbrou um pedaço de mar enquanto o grande fogo redondo, avermelhado com a leve névoa marinha, ficou à altura de seus olhos, e as águas estavam pintadas de um flamejante dourado.

Ele já havia visto o sol se pôr no mar, mas nunca desse modo. Ele soube em um piscar (como se viesse daquele fogo) que havia visto desta forma, [? ele fora chamado] (13), que isto significava mais do que a chegada da ‘hora do Rei’, o escuro (14). Ele se levantou e como se levado ou impulsionado andou abertamente colina abaixo e cruzou o longo gramado em direção ao cascalho e às tendas.

Pudesse ele ver a si mesmo ficaria tão surpreso quanto aqueles que o viam da praia. Sua pela nua – pois ele usava apenas um pedaço de tecido ao redor da cintura, e um pequeno manto de … pele jogado para trás e preso com uma tira de couro aos seus ombros – brilhava dourada sob a luz [?do pôr do sol], seu cabelo claro também estava iluminado e seus passos eram leves e livres.

‘Olhe!’ gritou um dos vigias para seu companheiro. ‘Você vê o que vejo? Não é um dos Eldar das florestas que vem falar conosco?’

‘Eu vejo, de fato’, disse o outro, ‘mas se não é algum fantasma da borda da escuridão [?que está chegando] [?nesta terra amaldiçoada] um dos Belos ele não pode ser. Estamos muito ao sul e nenhum mora por aqui. Seria de fato se estivéssemos [?longe ao norte, perto dos Portos]’.

‘Quem conhece todos os modos de agir dos Eldar?’, disse o vigia. ‘Silêncio agora! Ele se aproxima. Deixe-o falar primeiro’.

Então eles ficaram parados, e não fizeram nenhum sinal enquanto Tal-Elmar se aproximava. Quando ele estava a uns vinte passos seu medo retornou e ele parou, deixando seus braços caírem à sua frente e abrindo as palmas em direção aos estranhos em um gesto que todos os homens poderiam compreender.

Então, como eles não se moviam, nem colocavam as mãos em nenhuma arma até onde ele podia ver, ele tomou coragem novamente e falou, dizendo: ‘Saudações, Homens do mar e das asas! Por que vieram aqui? Vieram em paz? Eu sou Tal-Elmar uHazad do povo de Agar. Quem são vocês?’

Sua voz era clara e bela, mas a língua que ele usou não era outra senão uma forma do idioma semi-selvagem dos Homens da Escuridão, como os Homens do Navio os chamavam. O vigia se moveu. ‘Elda!’, ele disse. ‘Os Eldar não usam tal língua’. Ele chamou e imediatamente homens saíram de suas tendas. Ele próprio sacou uma espada, enquanto seu companheiro preparava uma flecha no arco. Antes mesmo que Tal-Elmar pudesse se sentir aterrorizado, antes mesmo de se virar e correr – felizmente, pois ele não sabia nada sobre arcos e teria caído muito antes de escapar, acertado por uma flecha – ele estava cercado por homens armados. Eles o pegaram, mas não com maus tratos, quando o viram desarmado e submisso, e o levaram à tenda onde estava alguém com autoridade.

Tal-Elmar sentia que o idioma era conhecido e apenas oculto dele por um véu.

O capitão disse que Tal-Elmar deveria ser de raça Numenoriana ou de um povo aparentado a eles. Ele deveria ser trado com cortesia. Ele supunha que ele havia sido feito cativo ainda bebê ou nascido de cativos. ‘Ele está tentando fugir para nós’, ele disse.

‘Uma pena ele não lembrar nada da língua’. ‘Ele aprenderá’. ‘Talvez, mas depois de um longo tempo. Se ele a falasse agora, ele poderia nos dizer muito, o que aceleraria nossa missão e reduziria nosso perigo’.

Então finalmente fizeram Tal-Elmar entender seu desejo de saber quantos homens moravam perto; eram eles amigáveis, eram como ele era?

O objetivo dos Numenorianos era ocupar esta terra, e em aliança com os ‘Cruéis’ do Norte expulsar o Povo da Escuridão e fazer um acampamento para ameaçar o Rei. (Ou isto seria enquanto Sauron estava ausente em Númenor?)

Este lugar era no estuário de Isen? ou Morthond.

Tal-Elmar podia contar e entendia números grandes, embora sua linguagem fosse deficiente.

Ou ele entendia Numenoriano? [Adicionado posteriormente: Eldarin – estes eram os amigos-dos-Elfos.] Ele disse quando ouviu um homem falar ao outro: ‘É estranho que vocês falem a língua dos meus longos sonhos. E certamente agora estou em minha terra e não dormindo?’ Então eles se assombraram e disseram: ‘Por que você não falou conosco antes? Você falou como os povos da Escuridão que são nossos inimigos, sendo servos do Inimigo’. E Tal-Elmar respondeu: ‘Porque esta língua só retornou à minha mente ouvindo-o falá-la; e como eu poderia saber que você entenderia a linguagem dos meus sonhos? Você não é como aqueles que falam comigo em meus sonhos. Não, um pouco parecido; mas eles eram mais brilhantes e mais belos’.

Então o homem ficou ainda mais impressionado, e disse: ‘Parece que você falou com os Eldar, acordado ou em uma visão.’

‘Quem são os Eldar?’ disse Tal-Elmar. ‘Esse nome eu não ouvi em meu sonho’.

‘Se você vier conosco talvez possa vê-los’.

Então de repente medo e a lembrança de antigas lendas vieram a Tal-Elmar novamente, e ele recuou. ‘O que farão comigo?’, ele disse. ‘Vão me atrair ao barco de asas negras e entregar-me à Escuridão?’

‘Você ou ao menos seu povo já pertencem à Escuridão’, responderam. ‘Mas porque você fala assim das velas negras? As velas negras são para nós um sinal de honra, pois são a bela noite antes da vinda do Inimigo e sobre o negro estão colocadas as estrelas prateadas de Elbereth. As velas negras de nosso capitão foram adiante na água’.

Tal-Elmar continuou com medo, pois ainda não era capaz de imaginar o negro como qualquer coisa a não ser símbolo da noite de medo. Mas ele pareceu tão corajoso quando pôde e respondeu: ‘Nem todo meu povo. Nós tememos a Escuridão, mas não a amamos nem a servimos. Ao menos alguns de nós. Assim é com meu pai. E a ele eu amo. Eu não serei separado dele nem mesmo para ver os Eldar’.

‘Pena!’, eles disseram. ‘Seu tempo de moradia nessas colinas está chegando ao fim. Aqui os homens do Oeste decidiram fazer suas moradas, e o povo da escuridão deve partir – ou ser morto’.

Tal-Elmar oferece-se como refém.

Não há mais. Ao pé da página meu pai escreveu ‘Tal-Elmar’ duas vezes, e seu próprio nome duas vezes; e também ‘Tal-Elmar em Rhovanion’, ‘Terras Ermas’, ‘Anduin o Grande Rio’, ‘Mar de Rhun’ e ‘Pântano de Etten’.

NOTAS.

1. Na versão rejeitada da seção inicial do texto a história começa: ‘Nos dias dos Grandes Reis quando um homem podia andar sem molhar os pés de Roma até York (não que estas cidades tivessem sido construídas ou imaginadas) morava na cidade de seu povo nas colinas de Agar um velho homem, de nome Tal-argan Barbalonga’, e Tal-argan permaneceu o nome sem correção na página rejeitada. A segunda versão manteve ‘os Grandes Reis’, a mudança para ‘os Reis da Escuridão’ sendo feita mais tarde.

2. Este parágrafo mais tarde foi colocado entre colchetes.

3. Ambas as versões têm ‘o Quarto Rei’, alterada na segunda para ‘o Rei do Norte’ ao mesmo tempo em que ‘os Grandes Reis’ foi alterado para ‘os Reis da Escuridão’ (nota 1).

4. Na versão rejeitada o pai de Tal-argan (Hazad) era chamado Tal-Bulda, e o local da batalha era o vale de Rishmalog.

5. Neste ponto a primeira página rejeitada termina, e o texto se torna a composição principal. Uma nota rascunhada a lápis no topo da página substituta propõe que Buldar pai de Hazad fosse eliminado, e que o próprio Hazad tenha casado com a mulher estrangeira Elmar (que não é nomeada na versão rejeitada).

6. O nome datilografado era Dur nor-Belgoth, corrigido para Gorbelgod.

7. ‘o Quarto Rei’, não foi corrigido aqui: ver nota 3.

8. No original ‘knappers’:  um  ‘knapper’  era alguém que quebrava pedras ou rochas. Esta palavra substituiu ‘tinker’ (algo como cigano), aqui e na próxima ocorrência.

9. Eu deixei o texto aqui como ele é.

10. Uma nota marginal aqui diz que Tal-elmar não tinha ‘nenhuma arma além de pedras de arremesso em um saco’.

11. O texto como escrito tinha ‘distante no interior, e todos os homens temiam’, corrigido para ‘distante no interior. Todos os homens temiam’. Eu alterei o texto para propiciar uma sentença completa, mas meu pai (que estava escrevendo com grande rapidez) sem dúvida não pretendia isso, e teria reescrito o trecho  se alguma vez tivesse retornado a ele.

12. Na margem meu pai escreveu que a vila de Udul estava morrendo de peste, e os invasores estavam de fato desesperadamente procurando por comida.

13. A conclusão do texto está em certos trechos em um manuscrito excruciantemente difícil, e as palavras que eu dei como ‘ele foi chamado’ são dúbias: mas eu não consigo imaginar outra interpretação delas.

14. Contra as palavras ‘nunca ousando ser pegos pelo escuro fora de suas casas’ meu pai escreveu: ‘a Escuridão é “a hora do Rei” ‘. Como pode ser visto em passagens seguintes, o Rei é Sauron.

O Funcionamento dos Palantí­ri

A “sabedoria das pedras” agora esta perdida, e pode ser apenas parcialmente recuperada pela conjectura e por coisas gravadas sobre elas. Elas eram esferas perfeitas, mostrando-se, quando em repouso, feitas de vidro sólido ou cristal de tonalidade preta profunda.
A menor delas tinha aproximadamente um pé de diámetro, mas algumas, certamente a pedra de Osgiliath e Amon Sûl, eram muito grandes e não podiam ser erguidas por apenas um homem. Originalmente elas eram postas em locais adequados para seu tamanho e intenção de uso. Permanecendo em mesas redondas e baixas de mármore negro em um orifício ou depressão central, onde poderiam ser rotacionadas manualmente de acordo com a necessidade. Elas eram pesadas, mas perfeitamente lisas, e não sofreriam nenhum dano se, por acidente ou malícia, elas fossem retiradas e derrubadas de suas mesas. Elas eram realmente inquebráveis por qualquer tipo de violência controladas por homens, mas alguns acreditavam que um grande calor, como o de Orodruin, pode quebrá-las, e supuseram que esse foi o destino da pedra-Ithil (pedra da Lua) na queda de Barad-dûr.
Apesar de não possuir marcas externas de qualquer tipo, elas tinham pólos fixos, e foram originalmente postas em seus lugares de forma a permanecerem “perpendiculares”: seus diâmetros de pólo a pólo apontavam para o centro da Terra, mas o pólo fixo inferior deveria permanecer no fundo. As faces através da circunferência nessa posição eram as faces observáveis, recebendo as visões de fora, mas transmitindo-as ao olho de um “observador” no lado oposto. O Obrservador, então, que desejava olhar para o oeste, tem que se colocar no lado leste da Pedra, e se ele desejava mudar sua visão em direção ao norte deveria se mover para a esquerda, em direção ao sul. Mas as Pedras menores, aquelas em Orthanc, Ithil e Anor, e provavelmente Annúminas, tinham sua orientação fixa em sua situação original, então (por exemplo) sua face oeste iria apenas olhar para o oeste e virada para outras direções era em branco. Se uma Pedra fosse deslocada ou desarranjada, ela poderia ser reajustada pela observação, e então era conveniente rotacioná-la. Mas quando removida e jogada fora, como a Pedra de Orthanc, não seria tão fácil de ser recolocada corretamente. Então foi “por acaso” como os homens dizem (assim como Gandalf teria dito) que Peregrin, mexendo na Pedra, deve tê-la reposicionado no chão mais ou menos “perpendicularmente” e sentado a oeste e fixado a face leste dela na posição apropriada. As Pedras maiores não eram tão fixas, sua circunferência poderia ser rotacionada e ainda assim ver em qualquer direção. 17
Sozinhos, as Palantíri podem apenas “ver”, elas não transmitem sons. Sem controle de uma mente direcionadora, elas eram instáveis e suas visões eram (ao menos aparentemente) aleatórias. De um local alto sua face oeste, por exemplo, poderia olhar uma vasta distância, sua visão embaçada e distorcida para ambos os lados, abaixo e acima, seu primeiro plano obscurecido por coisas atrás reacendendo numa claridade sempre diminuindo. Também, o que eles viam foi direcionado ou obscurecido por acaso, pela escuridão ou encoberto (veja abaixo). A visão das palantíri não era “cegada” ou “obstruida” por obstáculos físicos, mas apenas por escuridão, então elas podem ver através de uma montanha assim como podem olhar aravés de uma pequena escuridão ou sombra, mas não vê nada que não receba alguma luz. Elas podem ver atráves de paredes, mas não vê nada em salas, cavernas ou cofres a menos que haja alguma luz neles; e as Pedras não podem por si prover ou projetar luz. Era possível proteger contra seu campo de visão através processo chamado de “encombrimento”, por qual certas coisas ou áreas seriam vistas na Pedra apenas como uma sombra ou névoa profunda. Como isso era feito (por aqueles com medo das Pedras e da possibilidade de serem vistas por elas) é um dos mistérios perdidos dos Palantíri. 18
Um espectador pode, por sua vontade, concentrar a visão da Pedra em algum ponto, sobre ou próximo a sua linha direta. 19 As “visões” incontroláveis eram pequenas, especilamente nas Pedras menores, embora fossem muito maiores ao olho de um observador que se colocasse em alguma distância da superfície da Palantír (aproximadamente 3 pés no máximo). Mas controladas pela vontade de um habilidoso e forte observador, coisas remotas poderiam ser ampliadas, trazidas como se estivessem mais próximas e mais nítidas, enquanto seu fundo fosse quase suprimido. Assim um homem há uma distância considerável, pode ser visto como uma figura pequena, uma polegada e meia de altura, difícil de ser discernido em contraste com uma paisagem ou uma confluência de outros homens; mas concentração pode ampliar e clareara visão até que fosse visto, ainda que em detalhes reduzidos, como uma imagem de aparentemente um pé ou mais de altura, e reconhecido se ele for familiar ao observador. Grande concentração poderia aumentar ainda mais o detalhe que interessa ao observador, então poderia ver (por exemplo) se ele tem um anel em sua mão.
Mas essa “concentração” era muito cansativa e poderia se tornar exaustiva. Consequentemente só deveria ser realizada quando a informação era urgentemente desejada, e a possibilidade (adicionada a outra informação talvez) do observador de escolher ítens (significantes para ele e de seu interesse imediato) da agitação da visão da Pedra. Por exemplo, Denethor senta em frente a Pedra-Anor ansioso sobre Rohan, e decidindo se deve ou não acender os faróis e enviar a “flecha”, poderia se colocar em linha reta olhando para noroeste pelo oeste através de Rohan, passando perto de Edoras e até o Forte do Isen. Naquele momento poderia ter movimentos visíveis de homens naquela linha. Se sim, ele poderia concentrar no (suposto) grupo, vê-los como cavaleiros, e finalmente descobrir algumas figuras conhecidas para ele: Gandalf, por exemplo, cavalgando com os reforços para o abismo de Helm, e repentinamente ido em direção ao norte. 20
As palantíri não podiam por si observar a mente de um homem, de surpresa ou sem aceitação; para tranferência de pensamento depende da vontade do usuário de ambos os lados e pensamentos (recebidos como palavras) 21 de uma Pedra para outra de acordo.
NOTAS:
17. Uma nota não anexada e tardia nega que as palantíri eram orientadas polarizadamente, mas não dava nenhum outro detalhe.
18. A nota posterior referente a nota 17 trata alguns desses aspectos das palantíri um pouco diferentes; em particular o conceito “encobrimento” parece diferentemente empregado. Nessa nota, muito apressada e um tanto obscura, lê-se o trecho: “Elas retêem as imagens recebidas, de forma que elas contém dentro de si multiplas imagens e cenas, algumas de um passado distante. Elas não podem ‘ver’ no escuro; isto é, coisas que estão no escuro não são gravadas por elas. Elas por si podem ser e normalmente eram guardadas no escuro, pois dessa forma era muito mais fácil de ver as cenas que elas presenciaram, e assim elas passavam séculos para limitar sua superlotação. Como elas eram então ‘obscurecidas’ foi mantido em segredo e, por isso, agora não se sabe. Elas não eram ‘obscurecidas’ por obstáculos físicos, como uma parede, um monte ou floresta, enquanto que os objetos estão em presença de luz. Foi dito, ou suposto, por comentários tardios que as Pedras eram postas em seus lugares originais em caixas esféricas que eram trancadas para prevenir seu mau uso por pessoas não autorizadas; mas esse invólucro também era usado no ofício de obscurecê-las e fazê-las descansar. Essas caixas devem ser feitas de algum metal ou substância desconhecida atualmente.” Rascunhos na margem associadas à essa nota são parcialmente ilegíveis, mas muito pode ser decifrado, o quão remoto é o passado mais claro é a visão, enquanto para visões distantes havia uma “ditância adequada”, variando de acordo com a Pedra, na tal distância os obetos eram mais nítidos. As grandes Palantíri podiam olhar muito além das inferiores; para as inferiores a “distância adequada” era na ordem de quinhentas milhas, como entre a Pedra de Orthanc e a Pedra de Anor. “Ithil era muito perto, mas largamente usada para [palavras ilegíveis], não contatos pessoais com Minas Anor.”
19. A orientaçãonão não era, certamente, dividida em “quadrantes” separados, mas contínuos; então sua linha direta de visão, para o observador sentado no sudeste, poderia ser o noroeste, e assim sucessivamente [nota do Autor]
20. Veja Duas Torres, livro III cáp. 7
21. Numa nota separada esse aspecto é mais explicitamente descrito: “Duas pessoas, cada uma usando uma Pedra ‘em acordo’ com o outro, poderiam conversar, mas não por sons, que as Pedras não transmitem. Olhando um para o outro eles podem trocar ‘pensamentos’ – não todo ou verdadeiro pensamento, ou intenção, mas uma ‘conversa silenciosa’, os pensamentos que eles desejavam transmitir (já formailzado numa forma linguistica nas suas mentes ou realmente falando alto), que poderia ser recebido pelo respondente e, lógico, imediatamente tranformada em ‘fala’, e apenas relatada como esta.”
(Texto publicado originalmente no livro “Contos Inacabados”)

A Lenda do Despertar dos Quendi (Cuivienyarna)

sil-cuivienenEnquanto seus primeiros corpos estavam sendo feitos da “carne de Arda”, os quendi dormiam “no seio da terra”, debaixo  do verde gramado, e despertaram quando tornaram-se adultos. Mas os Primeiros Elfos [também chamados de Não-Nascidos, ou Nascidos de Eru] não acordaram todos ao mesmo tempo. Eru havia então determinado que cada um deveria estar ao lado de seu/sua “parceiro[a] destinado”. Mas três elfos despertaram antes de todos, e eles eram elfos homens, pois elfos homens são mais fortes fisicamente e mais ávidos e aventureiros em lugares estranhos. Estes três pais elfos são chamados nos contos antigos Imin, Tata e Enel. Eles despertaram nessa ordem, mas com pouca diferença de tempo entre cada um; e a partir deles, dizem os eldar, as palavras um, dois e três foram feitas: os mais antigos de todos os numerais.*

* As palavras eldarin a que se refere são min, atta [ou tata] e nel. O oposto é provavelmente histórico. Os Três não possuiam nomes até que desenvolveram uma linguagem, e nomes foram dados [ou tomados] após eles terem desenvolvidos numerais [ou pelo menos os doze primeiros].

Imin, Tata e Enel despertaram antes de suas esposas,e a primeira coisa que eles viram foram as estrelas, pois acordaram no crespúsculo anterior ao amanhecer. E a próxima coisa que viram foram suas esposas destinadas dormindo no gramado verde junto a eles. Eles então ficaram tão encantados com a beleza delas que seu desejo pela fala foi imediatamente acelerado e eles começaram a “pensar em palavras” para falar e cantar. E sendo impacientes, eles não podiam esperar, então acordaram suas esposas. Assim, os eldar dizem, a primeira coisa que cada mulher elfo viu foi seu esposo, e seu amor por ele foi seu primeiro amor; e seu amor e admiração pelas maravilhas de Arda veio posteriormente.

Ora, depois de um tempo, no qual viveram juntos, e inventaram muitas palavras, Imin e Iminyë, Tata e Tatië, Enel e Enelyë caminharam juntos, e deixaram o verde gramado de seu despertar, e logo eles chegaram a outro gramado ainda maior e lá encontraram seis casais de quendi, e as estrelas estavam mais uma vez brilhando no crepúsculo e os elfos homens estavam nesse momento despertando.

Então Imin declarou ser o mais velho e ter o direito da primeira escolha; e ele disse: “Eu escolho estes doze para serem meus companheiros.” E os elfos homens acordaram suas esposas, e tendo vivido juntos por um tempo e aprendido muitas palavras e inventado mais, eles caminharam juntos e logo, em outro vale ainda mais profundo e mais amplo, encontraram nove casais de quendi, e os elfos homens recém haviam acordado sob a luz das estrelas.

Então Tata reclamou o direito da segunda escolha, e ele disse: “Eu escolho estes dezoito para serem meus companheiros.” Então novamente os homens elfos acordaram suas esposas, e eles moraram e falaram juntos, e criaram muitos novos sons e palavras mais longas; e então os trinta e seis caminharam para o exterior juntos, até chegarem a um bosque de bétulas por um rio, e lá eles encontraram doze casais de quendi, e os elfos homens estavam de pé da mesma forma, e olhavam para as estrelas através dos ramos das bétulas.

Então Enel reclamou o direito da terceira escolha, e ele disse: “Eu escolho estes vinte e quatro para serem meus companheiros.” Novamente os elfos homens acordaram suas esposas; e por muitos dias os sessenta elfos moraram à margem do rio, e logo eles começaram a fazer versos e canções para a música da água.

Por fim, mais uma vez todos partiram juntos. Mas Imin notou que cada vez eles encontravam mais quendi do que antes, e ele pensou consigo mesmo: “Eu tenho apenas doze companheiros [embora eu seja o mais velho]; Farei uma nova escolha .” Em pouco tempo eles chegaram a um bosque de abetos na encosta de uma colina, e lá encontraram dezoito casais de quendi, e todos ainda estavam dormindo. Ainda era noite e havia nuvens no céu. Mas antes do amanhecer um vento chegou, e instigou os elfos homens, e eles despertaram e ficaram impressionados com as estrelas; pois todas as nuvens foram sopradas e as estrelas brilhavam de leste a oeste. E por muito tempo os dezoito novos quendi não prestaram atenção aos outros, mas olharam para as luzes de Menel. Mas quando, por fim, voltaram seus olhos novamente para a terra, eles contemplaram suas esposas e acordaram-nas para que olhassem para as estrelas, gritando-lhes elen, elen! E então as estrelas receberam seu nome.

Ora, Imin disse: “Eu ainda não escolherei”; e Tata, então, escolheu estes trinta e seis para serem seus companheiros; e eles eram altos e de cabelos negros e fortes como abetos, e deles a maioria dos noldor posteriormente originou-se.

E os noventa e seis quendi conversaram entre si, e os recém-despertos inventaram muitas palavras novas e belas, e muitos artifícios de linguagem interessantes; e eles riram, e dançaram sobre a encosta da colina, até que finalmente desejaram encontrar mais companheiros. Então todos partiram juntos novamente, até que chegaram a um lago escuro no crepúsculo; e havia um grande penhasco próximo a ele no lado leste, e uma cachoeira descia do alto, e as estrelas reluziam na espuma. Mas os elfos homens já estavam se banhando na cachoeira, e eles haviam despertado suas esposas. Havia vinte e quatro casais; mas até o momento eles não possuiam uma linguagem formada, embora cantassem docemente e suas vozes ecoassem nas pedras, misturando-se com o ímpeto das quedas d’água.

Mas novamente Imin conteve sua escolha, pensando “na próxima vez será uma companhia maior”. Porém Enel disse: “Eu tenho a escolha, e eu escolho estes quarenta e oito para serem meus companheiros.” E os cento e quarenta e quatro quendi por muito tempo moraram próximo ao lago, até que todos adquiriram as mesmas vontades e a mesma linguagem, e estavam alegres.

Por fim Imin disse: “Agora é a hora na qual devemos prosseguir e procurar mais companheiros.” Mas a maior parte dos outros estava satisfeita. Então Imin e Iminyë e seus doze companheiros partiram, e muito vagaram durante o dia e durante o crepúsculo na região ao redor do lago, próximo ao qual todos os quendi haviam despertado – por esta razão ele é chamado Cuiviénen. Mas eles nunca encontraram mais companheiros, pois o conto dos Primeiros Elfos estava completo.

E assim era que os quendi sempre contavam às dúzias, e que 144 foi por muito tempo seu número mais alto, tal que em nenhuma de suas línguas posteriores havia um nome comum para um número maior. E também sucedeu-se que os “Companheiros de Imin” ou a Companhia Mais Velha [da qual vieram os vanyar] eram, apesar de tudo, apenas quatorze ao todo, e a menor companhia; e os “Companheiros de Tata” [dos quais vieram os noldor] eram cinqüenta e seis ao todo; mas os “Companheiros de Enel”, embora fossem a Companhia Mais Jovem, era a maior; deles vieram os teleri [ou lindar], e no início eles eram setenta e quatro ao todo.

Ora, os quendi amavam toda Arda que eles já haviam visto, e coisas verdes que brotavam e o sol de verão eram seu deleite; mas apesar de tudo, eles sempre foram mais tocados no coração pelas estrelas, e as horas de crepúsculo em tempo bom, ao “amanhecer” e ao “anoitecer”, eram as horas de seu maior prazer. Pois nestas horas na primavera do ano, eles despertaram pela primeira vez para a vida em Arda. Mas os lindar, acima de todos os outros quendi, desde o seu princípio eram mais apaixonados pela a água, e cantavam antes que pudessem falar.

Famosa lenda do Despertar dos Elfos, em forma e estilo de Conto de Fadas.

Melkor Morgoth

Melkor deve ser feito muito mais poderoso em sua natureza original (cf. “Finrod e Andreth”). O maior poder abaixo de Eru (isto é, o maior poder criado).[1] (Ele devia criar/inventar/começar; Manwë (menos grandioso) devia aperfeiçoar, realizar, completar.

[Nota do tradutor: o uso constante e alternado do futuro e do presente dos tempos verbais no texto dá-se pelo caráter de “esboço ensaístico” do mesmo, pretendido como tal para elucidar a personalidade de Melkor em uma possível versão reescrita do Quenta Silmarillion.]
Posteriormente, ele não deve ser capaz de ser controlado ou “acorrentado” por todos os Valar unidos. Observe-se que, nos primórdios de Arda, ele foi capaz de, sozinho, expulsar os Valar da Terra-média, em retirada.A guerra contra Utumno só foi empreendida pelos Valar com relutância, e sem esperança de vitória real, mas deu-se como uma ação de proteção ou distração, para permitir-lhes retirarem os Quendi de sua esfera de influência. Mas Melkor já havia progredido de algum modo na direção do caminho que o tornaria “o Morgoth, um tirano (ou uma tirania e vontade centrais), mais seus agentes”.[2] Apenas o total continha o antigo poder do Melkor completo; de modo que, se “o Morgoth” pudesse ser alcançado ou separado temporariamente de seus agentes, ele estaria muito mais próximo de ser controlável e em um nível de poder tal como o dos Valar. Os Valar percebem que podem lidar com seus agentes (isto é,
exércitos, Balrogs, etc.) gradualmente. De forma que eles chegam, por fim, à própria Utumno e descobrem que “o Morgoth” não possui no momento “força” suficiente (em qualquer sentido) para defender-se do contato pessoal direto. Manwë finalmente encara Melkor mais uma vez, como ele não havia feito desde que entrou em Arda. Ambos assombram-se: Manwë por perceber o declínio em Melkor como uma pessoa, Melkor por também perceber isto a partir de seu próprio ponto de vista: ele agora possui menos força pessoal do que Manwë, e não pode mais intimidá-lo com seu olhar.Ou Manwë deve contar-lhe isso ou ele mesmo deve perceber repentinamente (ou ambas opções) que isso aconteceu: ele está “disperso”. Mas o desejo de possuir criaturas sujeitas a ele, dominadas, tornou-se habitual e necessário a Melkor de modo que, mesmo se o processo fosse reversível (possivelmente o era apenas pela auto-humilhação e arrependimento absolutos e verdadeiros), ele não pode realizá-lo por si próprio.* Assim como com todos os outros personagens, deve haver um momento de estremecimento no qual isso está em jogo: ele quase se arrepende – e não o faz, e torna-se muito mais cruel e mais tolo.* Uma das razões para esse seu auto-enfraquecimento é a de que ele deu às suas “criaturas”, Orcs, Balrogs, etc., poder de recuperação e multiplicação. De modo que eles irão se reuinir novamente sem ordens específicas adicionais. Parte desse poder criativo nativo perdeu-se ao criar um crescimento maligno independente, fora de seu controle.Possivelmente (e ele acha isso possível) ele poderia, neste momento, ser humilhado contra sua própria vontade e “acorrentado” – se e antes que suas forças dispersas reagrupem-se. Portanto – tão logo tivesse rejeitado mentalmente o arrependimento – ele (assim como Sauron posteriormente do mesmo modo) faz um arremedo de auto-humilhação e arrependimento pelo qual, na verdade, sente um tipo de prazer pervertido como ao profanar algo sagrado – [pois a mera contemplação da possibilidade de arrependimento genuíno, se essa não viesse então especialmente como uma graça direta de Eru, ao menos foi uma última centelha de sua verdadeira natureza primordial.] Ele dissimula remorso e arrependimento. Ele realmente ajoelha-se diante de Manwë e rende-se – em primeiro lugar, para evitar ser acorrentado com a corrente Angainor da qual, uma vez sobre ele, teme jamais libertar-se. Mas ele também subitamente tem a idéia de penetrar na exaltada estabilidade de Valinor e arruiná-la. Assim, ele se oferece para tornar-se “o menor dos Valar” e servo de todos eles, para ajudar (por conselhos e habilidade) a reparar todas as perversidades e ferimentos que causara. É essa oferta que seduz ou ilude Manwë – Manwë deve ser mostrado como tendo sua própria falha inata (embora não seja um pecado)**: ele fica absorto (em parte por medo absoluto de Melkor, em parte pelo desejo de controlá-lo) na correção, cura, reordenamento – até na “manutenção do status quo” – levando à perda de todo o poder criativo e mesmo à fraqueza ao lidar com situações difíceis e perigosas. Contra o conselho de alguns dos Valar (tais como Tulkas), ele atende à súplica de Melkor.

** Cada criatura finita deve possuir alguma fraqueza: que é alguma incapacidade de lidar com algumas situações. Não é pecaminoso quando não ocorre voluntariamente e quando a criatura dá o melhor de si (mesmo se não for o que deveria ser feito) do modo como esta vê a situação – com a intenção consciente de servir a Eru.

Melkor é levado de volta à Valinor, indo por último (exceto por Tulkas***, que o segue carregando Angainor e fazendo-a ressoar para que Melkor lembre-se dela).

*** Tulkas representa o lado bom da “violência” na guerra contra o mal. Essa é uma ausência de todo compromisso que irá confrontar mesmo males aparentes (tais como a guerra) em vez de parlamentar; e não acredita (em qualquer tipo de orgulho) que qualquer um inferior a Eru possa reparar isso, ou reescrever o conto de Arda.

Mas no conselho, não é dada a Melkor liberdade imediata. Os Valar reunidos não tolerarão isso. Melkor é remetido a Mandos (para lá
permanecer em “reclusão” e meditar, e completar seu arrependimento – e também seus planos para a reparação).[3]

Ele começa então a duvidar da sensatez de sua própria política, e teria rejeitado tudo e irromperia em uma rebelião flamejante – mas ele agora está absolutamente isolado de seus agentes e em território inimigo. Ele não pode. Portanto, ele engole o amargo remédio (mas isso aumenta enormemente seu ódio, e posteriormente ele sempre acusou Manwë de ser desleal).

O resto da história, com a libertação de Melkor, e a permissão para estar presente no Conselho, sentando aos pés de Manwë (conforme o
modelo de conselheiros malignos em contos posteriores que, pode-se dizer, deriva desse modelo primordial?), pode então proceder mais ou menos como já contado.

Notas:

[1] Cf. as palavras de Finrod no Athrabeth: “não há poder algum concebivelmente maior que Melkor, salvo apenas Eru”.

[2] A referência mais antiga à essa idéia da “dispersão” do poder original de Melkor é encontrada nos Anais de Aman §179: “Pois ele cresceu em malícia e, transmitindo de si mesmo o mal que concebera em mentiras e criaturas ou perversidade, seu poder passou para elas e foi dispersado, e ele próprio tornou-se ainda mais ligado à terra, negando-se a sair de suas fortalezas sombrias.”

Cf. também Anais §128 – A expressão “o Morgoth” é usada várias vezes por Finrod no Athrabeth.[3] “seus planos para a reparação”: isto é, a reparação dos males que ele produziu.

Dos Anões e Homens

Importante texto da série HoME que trata dos Anões, seus clãs, suas alianças com os Homens e também relata sobre os Homens do Norte.
[Christopher Tolkien:Este longo ensaio não possui título, mas em uma página de rosto meu pai escreveu:

“Uma história e comentário extenso sobre a inter-relação das linguagens em O Silmarillion e em O Senhor dos Anéis, originadas de considerações sobre o Livro de Mazarbul, mas tentando clarificar e onde necessário corrigir ou explicar as referências a tais assuntos espalhadaos por O Senhor dos Anéis, especialmente no Apêndice F e na Fala de Faramir no SdA II”

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Está envolvido com a obra de Tolkien desde 1999 – fundador da Calaquendi, fundador da Valinor, fundador do Conselho Branco (Sociedade Tolkien) e presidente por três mandatos. Participou da publicação em livro do Curso de Quenya e é autor do Modo Tengwar Português

Adivinhas no Escuro

Quando da publicação de O Senhor dos Anéis, Tolkien reescreveu determinadas partes de O Hobbit, para que fechasse com a narrativa da saga maior. Segue, também, em notas de rodapé, as modificações feitas pelo professor, conforme a edição brasileira, além de outros comentários acerca do capítulo. Agradeço ao Pandatur Parmandil por ter encontrado este texto, que há muito procuro.
Quando Bilbo abriu seus olhos, ele pensou se realmente o fizera, pois continuava tão escuro quanto quando estava com eles fechados. Não havia ninguém perto dele. Imagine seu medo! Ele não
podia ver nada, ouvir nada ou sentir nada, exceto a pedra do chão.
Lentamente, se levantou e foi engatinhando, até que tocasse a parede do túnel; mas nem para cima, nem para baixo, ele pôde encontrar alguma coisa: nada mesmo, nem sinal dos goblins, nem sinal dos anões. Sua cabeça rodava, e ele estava longe de ter certeza sequer sobre a direção que corria quando caiu. Ele supôs da melhor maneira que pôde, e engatinhou por um longo caminho, até que, de repente, sua mão encontrou o que parecia ser um pequeno anel de metal frio caído no chão do túnel.
Era um ponto decisivo em sua carreira, mas ele não sabia disto. Ele
colocou o anel em seu bolso, praticamente sem pensar; ele certamente não parecia ser útil naquele momento. Ele não foi muito além, mas sentou no chão frio e entregou-se à mais completa infelicidade, por um bom tempo. Ele pensou nele mesmo, fritando bacon e ovos em sua cozinha em sua casa – pois ele sentia por dentro que era hora de alguma refeição; mas isso apenas o deixou mais infeliz.
Ele não podia pensar no que fazer; nem podia ele pensar no que aconteceu; ou por que ele havia sido deixado para trás; ou por que, se ele tivesse sido deixado para trás, os goblins não o haviam capturado, nem por que sua cabeça estava tão dolorida. A verdade é que ele estava deitado e imóvel, fora do alcance da visão e esquecido, em um canto muito escuro por um longo tempo.  Depois de um tempo, ele tateou atrás de seu cachimbo. Não estava quebrado, o que já era alguma coisa. Então ele tateou atrás de sua bolsa, e havia algum tabaco ali, e isso era mais alguma coisa. Então ele tateou atrás de fósforos, mas não pode encontrar nenhum, e isso destruiu completamente suas esperanças. Era melhor assim, acabou concordando, quando pensou melhor. Sabe-se lá o que seria atraído pelo riscar de fósforos e pelo cheiro de tabaco em buracos escuros daquele lugar horrível. Mesmo assim, naquele momento ele se sentiu aniquilado. Mas, ao tatear seus bolsos e em si mesmo atrás de fósforos, sua mão acabou tocando o punho de sua pequena espada – a adaga que pegara dos trolls, da qual ele havia esquecido; tampouco, felizmente, havia sido encontrada pelos goblins, já que a usava dentro das calças.
Então ele a desembainhou. Ela brilhou pálida e fraca diante de seus olhos. “Então esta é uma lâmina élfica também,” pensou, “e os goblins não estão muito perto, mas também não estão longe o suficiente.”
Mas de alguma forma, ele estava confortado. Era um tanto esplêndido usar uma lâmina forjada em Gondolin para a guerra dos goblins que muitas canções celebravam; e também ele percebeu que essas armas causavam uma grande impressão nos goblins que atacavam de repente.
“Voltar?” pensou. “Não adiantará nada! Ir para os lados? Impossível! Seguir adiante? A única coisa a fazer! Adiante, então!”
Então ele se levantou e avançou a passadas largas, segurando sua
pequena espada em sua frente e com uma das mãos tateando a parede, e seu coração batendo como um tambor. Agora, certamente pode-se dizer que Bilbo estava em um aperto. Mas você deve lembrar que o aperto não era tão grande para ele como seria para mim ou para você. Hobbits não são como pessoas comuns; e, afinal, se as tocas deles são lugares alegres e devidamente arejados, bem diferente dos túneis dos goblins, ainda assim eles estão mais acostumados a túneis do que nós, além de não perdem facilmente o senso de direção debaixo da terra – não quando suas cabeças já haviam se recuperado de uma pancada. Além disso, eles podem se movimentar silenciosamente, e se esconder com facilidade, e se recuperam maravilhosamente de quedas e ferimentos, e têm um cabedal de sabedoria e ditados sábios que os homens nunca ouviram, ou há muito esqueceram.

 

Eu não gostaria de estar no lugar do Sr. Bolseiro, de qualquer forma.   túnel não parecia ter fim. Tudo o que ele sabia é que seguia para baixo e mantinha a mesma direção, a não ser por uma curva ou duas. De quando em quando, haviam passagens que conduziam para os lados, pelo que podia notar pelo brilho da espada, ou podia sentir com a sua mão na parede. E adiante ele foi, descendo cada vez mais; e ainda assim não ouvia som algum, a não ser uma ocasional batida de asas de morcego, o que o assustava no início, mas que depois se tornou freqüente demais para se preocupar. Não sei por quanto tempo ele seguiu dessa forma, odiando seguir em frente, não ousando parar, em frente e em frente, até ficar mais que cansado. Era como correr todo o caminho até o dia seguinte, e seguir para os dias além.

De repente, sem aviso, estava caminhando pela água! Ugh! estava congelante. Aquilo o fez estacar. Ele não sabia se era apenas uma poça no caminho, ou a beira de uma corrente subterrânea que cruzava a passagem, ou a margem de um lago subterrâneo negro e profundo. A espada mal estava brilhando. Ele parou, e, quando prestou atenção, pôde ouvir gotas pinga-pinga-pingando de um teto invisível e caindo na água: mas não parecia haver nenhum outro tipo de som.

“Então é uma poça ou um lago, e não um rio subterrâneo,”pensou. Mesmo assim, não ou sou atravessar na escuridão. Ele não sabia nadar; e também imaginava seres nojentos e viscosos, com grandes olhos cegos e esbugalhados, serpenteando na água. Existem coisas estranhas vivendo nas poças e lagos nos corações das montanhas: peixes cujos antepassados entraram, sabe-se lá quantos anos atrás, e nunca mais saíram novamente, e seus olhos cresceram mais e mais e mais, de tanto tentar enxergar na escuridão; também há coisas mais pegajosas que peixes. Mesmo nos túneis e nas cavernas que os goblins fizeram para si, existem coisas que vivem em segredo, que entraram furtivamente e se entocaram no escuro. Além disso, algumas dessas cavernas existem desde eras antes dos goblins, que apenas as ampliaram e as interligaram com passagens, e os proprietários originais ainda permanecem lá em cantos escusos, movimentando-se furtivamente e farejando tudo.

Lá no fundo, na beira da água escura, vivia o velho Gollum, uma pequena criatura viscosa. Eu não sei da onde veio, nem o que ele era. Ele era Gollum – escuro como a escuridão, exceto por dois grandes olhos redondos e pálidos em seu rosto magro. Ele tinha um pequeno barco, e remava pelo lago quase sem nenhum ruído; pois era realmente um lago, largo e profundo e mortalmente frio. Ele impelia o barco com seus grandes pés pendendo nas bordas, mas nunca erguia uma onda na água. Não ele. Com seus olhos pálidos como lamparinas, ele procurava por peixes cegos, que ele pegava com seus dedos longos tão rápido como um pensamento. Ele gostava de carne também. Gostava de goblins, quando podia apanhá-los; mas ele cuidava para nunca ser descoberto. Ele apenas os estrangulava por trás, quando algum descia sozinho até perto da água, enquanto ele rondava por ali. Era raro acontecer, pois eles tinham o pressentimento de que havia algo desagradável estava espreitando por lá, bem nas raízes da montanha. Haviam chegado até o lago, quando estavam abrindo os túneis, muito tempo atrás, e descobriram que não podiam mais avançar; então o caminho terminava naquela direção, e não havia motivo para irem até lá – a não ser que o Grande Goblin os mandasse. Algumas vezes ele tinha vontade de comer um peixe do lago, e algumas vezes nem o goblin e nem o peixe retornavam.

Na verdade, Gollum vivia em uma ilha de pedra viscosa no meio do lago. Ele estava observando Bilbo à distância, com seus olhos pálidos como telescópios. Bilbo não podia vê-lo, mas ele imaginava um monte de coisas sobre Bilbo, pois ele podia ver que ele não era nenhum goblin.
Gollum entrou em seu barco e afastou-se da ilha enquanto Bilbo estava sentado na borda, completamente atarantado, no fim do seu caminho e no fim de seu juízo. De repente surgiu Gollum, sussurrando e chiando:  “Que beleza e que moleza, meu preciossso! Acho que temos um lauto banquete, pelo menos um bom bocado para nós, gollum!” E quando ele dizia gollum, fazia um ruído horrível na garganta, como se estivesse engolindo alguma coisa. Foi assim que ele conseguiu esse nome, apesar de sempre chamasse a si mesmo de “meu precioso”. 1
O hobbit pulou quase que para fora de sua própria pele quando o chiado chegou-lhe aos ouvidos e, de repente, viu os olhos pálidos e salientes voltados para ele. “Quem é você?”, perguntou ele, erguendo a adaga à sua frente.  “O que é ele, preciossssso?”, sussurrou Gollum (que sempre falava consigo mesmo porque nunca tinha ninguém para conversar). Era o que vinha descobrir, pois, na verdade, não estava com muita fome no momento, apenas curioso; do contrário ele teria agarrado primeiro e sussurrado depois.
“Eu sou o Senhor Bilbo Bolseiro. Eu perdi os anões e perdi o mago, e não sei onde estou; e não quero saber, se puder sair daqui.”

“O que ele tem nas mãoses?”, sussurrou Gollum, olhando para a espada, da qual ele não gostou muito.

“Uma espada, uma lâmina que vem de Gondolin!”

“Ssssss!”, disse Gollum, ficando muito educado. “Você pode sentar aqui e conversar com nós só um pouquinho, meu preciosssso. Você gosta de adivinhas, vai ver que gosta, não gosta?” Ele estava ansioso para parecer amigável, pelo menos no momento, e até descobrir mais sobre a espada e sobre o hobbit, se ele realmente estava sozinho, se ele realmente era bom de se comer, e se Gollum estava realmente faminto.
Adivinhas era tudo o que ele conseguiu pensar. Propô-las e algumas vezes adivinhá-las era o único jogo que já tinha jogado com outras criaturas divertidas, sentadas em suas tocas, muito tempo atrás, antes de perder todos os seus amigos e fosse expulso, e rastejasse mais e mais para as profundezas escuras das montanhas.

“Muito bem”, disse Bilbo, que estava ansioso por concordar, até que descobrisse mais sobre a criatura, se realmente estava sozinho, se era feroz, se estava faminto ou se era amigo dos goblins.
“Você pergunta primeiro”, disse ele, pois não teve tempo de pensar  uma adivinha. Então Gollum chiou:

Tem raízes misteriosas,
É mais alta que as frondosa
Sobe, sobe e também desce,
Mas não cresce nem decresce.

“Fácil!”, disse Bilbo. “Montanhas, eu suponho.”
“Ele adivinha fácil? Precisa fazer uma competição com nós, preciosso. Se ele perguntar para nós, e nós não responder, nós dá um presente pra ele, gollum!” 2
“Certo!”, disse Bilbo, não ousando discordar, e quase estourando os miolos tentando lembrar de adivinhas que pudessem salvá-lo de ser devorado.

Trinta cavalos brancos na colina avermelhada
Primeiro cerceiam,
Depois pisoteiam,
Depois não fazem nada.

Foi tudo o que conseguiu lembrar para perguntar – a idéia de comida
ainda povoava seus pensamentos. A adivinha era bem velha também, e Gollum sabia da resposta tão bem quanto vocês.
“Barbada, barbada,” ele chiou, “Dentess! dentess!, meu preciosso; mas nós só tem seis!” Então ele perguntou a sua segunda:

Sem asas volita,
Sem vozes ele ulula,
Sem dentes mordica
Sem boca murmura.

“Um minutinho!’, gritou Bilbo, ainda incomodado pensando em comida. Por sorte já ouvira algo parecido antes e, colocando a cabeça no lugar, pensou na resposta. “Vento, vento, é claro.”, disse ele, e ficou tão satisfeito que inventou uma na hora. “Esta vai confundir essa criaturinha subterrânea nojenta”, pensou ele.

Um olho no azul dum rosto
Viu outro no verde de outro.
“Aquele olho é como este olho”
Disse o primeiro olho,
“Mas lá em baixo é o seu lugar,
Aqui em cima é o meu lugar.”

“Ss, ss, ss”, disse Gollum. Estivera debaixo da terra por um longo tempo, e já começava a esquecer esse tipo de coisa. Mas exatamente quando Bilbo começava a alimentar esperanças de que o patife não conseguiria responder, Gollum trouxe memórias de muitas eras passadas, de quando vivia com a avó numa toca na margem de um rio. “Sss, sss, meu preciosso”, disse ele. “Sol sobre as margaridas, é essa a resposta, é sim”.
Mas aquele tipo de adivinhas comuns, de cima da terra, estavam começando a cansá-lo. Além disso, faziam-no lembrar de tempos em que era menos solitário, furtivo e nojento, e isso o deixava nervoso. Mas ainda, o deixavam faminto; então, dessa vez, tentou algo mais difícil e desagradável:

Não se pode ver, não se pode sentir,
Não se pode cheirar, não se pode ouvir.
Está sob as colinas e além das estrelas,
Cavidades vazias – ele vai enchê-las.
De tudo vem antes e vem em seguida,
Do riso é a morte, é o fim da vida.

Infelizmente para Gollum, Bilbo já ouvira esse tipo de coisa antes, e,
de qualquer modo, a resposta o envolvia. “O escuro!”, disse ele, sem
coçar nem quebrar a cabeça.

Caixinha sem gonzos,tampa ou cadeado,
Lá dentro escondido um tesouro dourado,

Perguntou ele para ganhar tempo, até que pudesse pensar numa verdadeiramente difícil. Aquela ele considerava uma barbada, terrivelmente fácil, mas acabou se tornando um grande desafio para Gollum. Ele chiava para si mesmo, suspirava e balbuciava.
Depois de algum tempo, Bilbo ficou impaciente. “Então, o que é?” disse. A resposta não é uma chaleira fervendo, como dá a entender com esse barulho que está fazendo.”
“Dá uma chance pra nós, deixa ele dar uma chance pra nós, preciosso…ss…ss.”

“Bem,” disse Bilbo, depois de um longo tempo “qual é a sua resposta?”
Então, de repente, Gollum lembrou-se de quando roubava ninhos, há muito tempo atrás, e sentava-se às margens do rio e ensinava a sua avó, ensinava a sua avó a chupar – “Ovosos!”, ele sibilou. “Ovosos é o que é!” Então ele perguntou:

Como a morte, não tenho calor,
Vivo, mas sem respirar;
Sem sede, sempre a beber,
Encouraçado, sem tilintar.

Ele, em seu pensamento, achou que era uma adivinha terrivelmente fácil, pois ele pensava o tempo todo na sua resposta. Mas não conseguiu pensar em nada melhor no momento, de tão atrapalhado que ficou com a questão do ovo. Mas mesmo assim era um grande desafio para o pobre Bilbo, que não tinha nada a ver com a água, a não ser por obrigação. Imagino que você saiba a resposta, e, caso não saiba, consiga adivinhá-la num piscar de olhos, já que está sentado em casa, e não existe o perigo de ser devorado para atrapalhar seus pensamentos. Bilbo sentou-se e limpou a garganta duas vezes, mas não saiu resposta alguma.
Depois de um tempo, Gollum começou a sibilar para si mesmo com prazer. “É bom, não é, preciosso? É suculento? Deliciosamente triturável?” E começou a espiar Bilbo, da escuridão.
“Um momento,” disse o hobbit, tremendo. “Eu acabei de lhe dar uma bela chance, um minuto atrás.”
“Ele deve se apressar, apressar!” disse Gollum, começando a descer do seu barco na margem para chegar até Bilbo. Mas quando colocou seu comprido pé de pato na água, um peixe se assustou e pulou para fora, caindo nos pés de Bilbo.
“Ugh!”, disse ele, “é gelado e viscoso!” – então ele adivinhou. “Peixe! Peixe!”, gritou. “É um peixe!”
Gollum ficou terrivelmente desapontado; mas Bilbo perguntou outra charada, tão rápido quanto pode, para que Gollum tivesse que voltar para o seu barco para pensar.

Sem pernas ficou sobre uma perna, duas pernas sentou próximo em três pernas, quatro pernas ganhou alguma coisa.

Não era o momento ideal para esse tipo de adivinha, mas Bilbo estava com pressa. Gollum poderia ter problemas para adivinhá-la, se tivesse perguntado em outra ocasião. Naquela circunstância, falando de peixes, sem pernas não era difícil, e, depois disso, ficava fácil de adivinhar.
“Peixe em uma mesa pequena, um homem à mesa, sentado em um banco e o gato fica com as espinhas.” era a resposta, e Gollum a deu rapidamente. Então ele pensou que havia chegado a hora de se perguntar algo horrível e difícil. Isso foi o que ele perguntou:

Essa é a coisa que a tudo devora
Feras, aves, plantas, flora.
Aço e ferro são sua comida,
E a dura pedra por ele moída;
Aos reis abate, à cidade arruína,
E a alta montanha faz pequenina.

O pobre Bilbo ficou sentado no escuro pensando em todos os nomes de gigantes e ogros que ouvira em contos, mas nenhum deles tinha feito todas essas coisas. Ele sentia que a resposta era totalmente diferente, e que ele deveria conhecê-la, mas não conseguia pensar nela. Ele começou a ficar com medo, e isso é ruim quando se está tentando pensar.

Gollum começou a sair do seu barco. Pulou na água e avançou até a margem; Bilbo podia ver seus olhos vindo em sua direção. Sua língua parecia presa em sua boca; ele queria gritar “Me dê mais tempo! Me dê tempo!”, mas tudo o que saiu num guincho repentino foi:

“Tempo! Tempo!”

Bilbo fora salvo por pura sorte. É claro que aquela era a resposta correta.  Gollum ficou novamente desapontado; e agora ele estava ficando com raiva, e também cansado do jogo. Aquilo o deixara realmente muito faminto. Desta vez ele não voltou para o barco. Ele sentou ao lado de Bilbo na escuridão. Isso deixou Bilbo terrivelmente desconfortável e atrapalhou o seu raciocínio.

“Tem que fazer outra pergunta pra nós, preciosso, sim, ssim, sssim.Ssó mais uma pergunta pra nóss adivinhar, sim, ssim.” Disse Gollum.

Mas Bilbo não conseguia pensar em nenhuma pergunta com aquela coisa nojenta, úmida e fria sentada ao lado dele, apalpando e cutucando. Ele se coçava, se beliscava e mesmo assim não conseguia pensar em nada.
“Pergunta pra nós! Pergunta pra nós!” Disse Gollum.
Bilbo se beliscava e se esbofeteava; ele segurou sua pequena espada; ele até apalpou o seu bolso com a outra mão. Ali ele encontrou o anel que pegara no corredor e do qual se esquecera.

“O que tenho em meu bolso?”, disse ele em voz alta. Ele estava falando consigo mesmo, mas Gollum pensou que era uma adivinha, e isso o deixou terrivelmente perturbado.
“Não é justo! Não é justo!”, ele sibilou. “Não é justo, meu precioso, é justo perguntar pra nós o que tem no bolsso nojento dele?”
Bilbo viu o que estava acontecendo e, sem nada melhor para perguntar, insistiu na sua pergunta: “O que tenho em meu bolso?”, falou ainda mais alto.

“Ssssssss”, sibilou Gollum, “Tem que nos dar três chances, meu preciosso, três chancesss.”
“Muito bem! Tente adivinhar!” disse Bilbo.
“Mãoses!”, disse Gollum.
“Errado”, disse Bilbo que, por sorte, acabara de tirar as mãos dos bolsos. “Tente de novo!”
“Sssssss”, disse Gollum, mais decepcionado do que nunca. Ele pensou em todas as coisas que levava em seus bolsos: espinhas de peixe, dentes de goblins, conchas molhadas, um pedaço de asa de morcego, uma pedra afiada para afiar as suas presas e outras coisas nojentas. Ele tentou pensar em coisas que outras pessoas carregam em seus bolsos.
“Faca!”, disse finalmente.
“Errado!”, disse Bilbo, que havia perdido a sua há algum tempo.

“Última chance!”
Agora Gollum estava em uma situação muito melhor do que quando Bilbo lhe perguntou a questão do ovo. Ele sibilou, resmungou e balançou para frente e para trás, batia os pés no chão, se contorcia e se entortava todo; mas mesmo assim não ousava desperdiçar sua última tentativa.
“Vamos!” disse Bilbo, “Eu estou esperando!” Ele tentou soar corajoso e confiante, mas não tinha muita certeza de como o jogo iria terminar, quer Gollum acertasse, quer não.
“O tempo acabou!”, disse ele.
“Barbante, ou nada!”, guinchou Gollum, o que não foi muito honesto – tentar duas respostas de uma só vez.

“Errou as duas,” gritou Bilbo, muito aliviado; e levantou-se imediatamente, apoiando as costas na parede mais próxima e desembainhou sua pequena espada. 3 Mas curiosamente ele não precisava ter se assustado. Pois se havia uma coisa que Gollum tinha aprendido há muito tempo atrás era que nunca, nunca se deve trapacear num jogo de adivinhas, que é um jogo sagrado e de imensa antiguidade. E também havia a espada. Ele simplesmente se sentou e sibilou.
“E o presente?” perguntou Bilbo. Não que se importasse muito, mas ainda pensava que havia vencido de forma justa e com muita dificuldade.
“Devemos dar a ele a coisa, preciosso? Ssim, nóss tem. Nós tem que buscar, preciosso, e dar o presente como prometemoss.”, disse Gollum, remando de volta para o seu barco, e Bilbo pensou que seria a última vez que ouviria falar dele. Mas não. O hobbit já estava pensando em voltar pelo corredor – ele já tinha aturado o suficiente de Gollum e da margem da água escura – quando o ouviu lamentando e guinchando na escuridão. Ele estava em sua ilha (do que, obviamente, Bilbo nada sabia), fuxicando aqui e ali, procurando e buscando em vão e revirando seus bolsos.
“Onde está? Onde esstá?” Bilbo o ouviu guinchar.
“Perdido, perdido, meu preciosso, perdido, perdido! Droga e praga! Nós não temos o presente que prometemos, e nós não temos nem pra nós mesmos!”
Bilbo se virou e esperou, imaginando qual seria o motivo de tamanha algazarra. Isso se provou um lance de sorte, no fim das contas. Pois Gollum retornou e sapateou e sussurrou e resmungou, e no fim, Bilbo concluiu que Gollum tinha um anel – um anel maravilhoso, muito bonito, um anel que havia sido dado como presente de aniversário, eras e eras atrás, quando tais anéis não eram tão incomuns. Algumas vezes ele guardava no seu bolso; geralmente ele deixava em um buraco na pedra em sua ilha; algumas vezes ele o usava – quando estava realmente faminto e cansado de peixe, e se esgueirava pelos corredores escuros atrás de goblins errantes. Então ele se aventurava até por lugares iluminados por tochas que incomodavam seus olhos e os deixava doloridos; mas ele estaria seguro. O sim! Seguro o bastante, pois se você colocasse o anel em seu dedo, você ficaria invisível e só poderia ser visto na luz do sol, e mesmo assim apenas sua sombra seria vista, e seria uma sombra fraca e trêmula.
Eu não sei quantas vezes Gollum pediu desculpas a Bilbo. Ele ficava dizendo “Nós sente muito; nós não queria trapacear, nós queria dar nosso único, único presente, se ganhasse a competição.” Ele até se ofereceu para pegar uns peixes suculentos para Bilbo como compensação.
Bilbo estremeceu só de pensar nisso. “Não, obrigado!”, disse ele, o mais educadamente possível.
Ele estava pensativo, e lhe ocorreu a idéia de que Gollum devia ter perdido o anel em algum momento e que ele devia tê-lo encontrado, e que ele tinha aquele anel em seu bolso. Mas ele resolveu não contar para Gollum.
“Achado não é roubado!”, disse para si mesmo; e ,estando em uma situação delicada ouso dizer, ele estava certo. De qualquer forma o anel pertencia a ele agora.
“Não se preocupe.”, disse. “O anel seria meu agora se você o encontrasse, então você teria perdido ele de qualquer forma. E eu vou deixar para lá com uma condição.”
“Ssim, qual é? O que quer fazer, precioso?”
“Me ajude a sair deste lugar.”, disse Bilbo.
Agora Gollum teve de concordar com isso, já que não costumava trapacear. Ele ainda queria muito descobrir se o estranho era saboroso ou não; mas agora ele tinha que desistir dessa idéia toda. Pois ainda tinha a pequena espada; e o estranho estava bem desperto e atento, não desprevenido como Gollum gostava das coisas que atacava. Então, talvez era melhor deixar assim.

E foi assim que Bilbo descobriu que o túnel acabava na água e não seguia adiante para o outro lado, onde a parede da montanha era escura e sólida. Ele também descobriu que devia ter passado por uma das passagens para a direita antes de chegar ao fundo; mas ele não podia seguir as indicações de Gollum para encontrar o caminho para fora novamente, e então ele obrigou a criatura infeliz a lhe acompanhar e mostrar o caminho.

Enquanto caminhavam juntos pelo túnel, com Gollum saltitando ao seu lado, Bilbo ia caminhando delicadamente, pensando se devia experimentar o anel. Então o anel escorregou para o seu dedo.
“Onde está? Para onde foi?”, disse Gollum imediatamente, olhando ao redor com seus grandes olhos.
“Aqui estou, atrás de você.”, disse Bilbo, tirando o anel de seu dedo e
se sentindo muito feliz por tê-lo e por descobrir que realmente faz o
que Gollum disse.
Agora retomaram a caminhada, enquanto Gollum contava os túneis para a esquerda e para a direita. “Um à esquerda, um à direita, dois à direita, três à direita, dois à esquerda”, e assim seguiram adiante. Ele começou a ficar mais e mais agitado e assustado enquanto se afastavam mais e mais da água, mas finalmente ele parou próximo a uma pequena abertura à esquerda (que levava para cima) – “seis à direita, quatro à esquerda.”

“Aqui está a passagem”, ele sussurrou, “tem que se espremer para entrar e andar abaixado. Nós não vai junto, preciosso, nós não vai. Gollum!”
Então Bilbo se esgueirou pelo arco e disse adeus à criatura nojenta, e ficou muito feliz em fazê-lo. Ele não se sentiu à vontade até que tivesse certeza de que ela tinha ido embora, e manteve a cabeça para fora no túnel principal ouvindo até que não mais escutasse os passos de Gollum retornando para o seu barco. Então ele entrou no novo túnel. Era um túnel estreito e mal feito. Mas era perfeito para um hobbit, a não ser quando, no escuro, batia o pé em pedras escuras e nojentas no chão; mas devia ser um tanto baixo para goblins. Mas ele não sabia que mesmo os goblins eram acostumados a esse tipo de coisa, e que se moviam rapidamente, caminhando abaixados com suas mãos quase tocando ao chão.
Isso fez Bilbo esquecer do perigo de encontrá-los, então seguiu rápida e temerariamente.
Logo a passagem começou a subir novamente, e depois de um tempo tornou-se íngreme, o que acabou atrasando Bilbo. Mas por fim a subida acabou e o túnel fez uma curva e foi pra baixo novamente, e lá, no fundo de um pequeno declive, ele viu, infiltrando-se por outra curva – um vislumbre de luz. Não uma luz avermelhada como da chama de uma tocha ou lamparina, mas uma luz pálida de ar livre. Então ele começou a correr. Correndo tanto quanto suas perninhas permitiam, ele fez a curva e chegou subitamente a um lugar aberto onde a luz, depois de tanto tempo na escuridão, parecia estonteantemente clara. Na verdade era apenas uma réstia de sol que entrava por uma soleira, onde uma grande porta, uma porta de pedra, fora deixada levemente aberta.
Bilbo piscou, e então subitamente viu os goblins, goblins em armaduras completas com espadas desembainhadas sentados logo na entrada, e observando com os olhos bem abertos, vigiando a passagem que levava até ali! Viram-no antes que ele os visse, e com um grito de deleite, partiram para cima dele.
Se foi um acidente ou presença de espírito eu não sei. Acidente penso eu, pois o hobbit não estava acostumado com seu novo tesouro. De qualquer forma, ele colocou o anel em sua mão esquerda – e os goblins pararam de súbito. Não conseguiam ver nem sinal dele. Então gritaram duas vezes mais alto que antes, mas não de deleite. 4

“Onde está ele?”, gritaram.
“Voltem para a passagem!”, gritavam alguns.
“Por aqui!”, berravam alguns. “Por ali!”, berravam outros.
“Vigiem a porta!”, gritou o capitão.
Soavam assobios, armaduras se chocavam, espadas tilintavam, goblins praguejavam, xingavam e corriam de um lado para o outro, caindo uns sobre os outros, cada vez mais furiosos. Azáfama terrível, tumulto e desordem.
Bilbo estava terrivelmente amedrontado, mas teve o bom senso de compreender o que acontecera e de se esconder atrás de um grande barril que continha bebida para os guardas-goblins, saindo assim do caminho e evitando que tropeçassem nele, que o pisoteassem até a morte ou que o capturassem pelo tato.
“Preciso chegar até a porta, preciso chegar até a porta!”, dizia a si mesmo, mas demorou muito até que se arriscasse a tentar. E então foi como um terrível jogo de cabra-cega. O lugar estava cheio de goblins correndo de lá para cá, e o pobrezinho do hobbit, esquivando-se para um lado e para o outro, foi derrubado por um goblin, que não conseguiu descobrir no que tropeçara, afastou-se de quatro, passou entre as pernas do capitão no último momento, levantou-se e correu para a porta.

Ainda estava aberta, mas um goblin a havia empurrado e ela quase se fechara.
Bilbo fez força, mas não conseguiu movê-la. Tentou esgueirar-se pela fresta. Espremeu-se, espremeu-se e entalou. Foi horrível. Os botões de sua roupa se engancharam entre a borda da porta e o batente. Ele podia ver lá fora, o ar livre: havia alguns degraus que desciam por um vale estreito entre altas montanhas; o sol surgia por trás de uma nuvem e brilhava por trás da porta – mas ele não conseguia passar.
De repente, um dos goblins gritou lá dentro: “Há uma sombra ao lado da porta. Tem alguma coisa lá fora!”
Bilbo ficou com o coração na boca. Fez uma tremenda contorção. Os
botões voaram em todas as direções. Passou, com um casaco e um colete rasgados, descendo os degraus aos saltos como um cabrito, enquanto os goblins perplexos ainda catavam seus belos botões de latão na soleira da porta.
É claro que logo vieram atrás dele, gritando, chamando e caçando em meio às árvores. Mas eles não gostam de sol: ele deixa suas pernas bambas e sua cabeça tonta. Não conseguiram encontrar Bilbo, que estava usando o anel, e entrava e saía furtivamente das sombras das árvores, depressa e em silêncio, e mantendo-se fora do alcance do sol; assim, logo voltaram, resmungando e praguejando, para guardar a porta.
Bilbo tinha escapado.

NOTAS:

1. Na primeira edição de O Hobbit (1937), Gollum usa a frase “meu precioso” apenas para referir a si mesmo. Na segunda edição (1951), na qual o papel de Gollum foi significativamente alterado, a frase pode ser tomada como referência ao Anel, como acontece em O Senhor dos Anéis. A palavra gull em norueguês arcaico significa “ouro”. Nos manuscritos mais antigos, aparece como goll. Uma forma flexionada seria gollum, “ouro, tesouro, algo precioso”. Também pode significar “anel”, como pode se perceber na palavra composta “fingr-gull”, “anel de dedo” – questões que podem ter ocorrido a Tolkien.

2. 1951: “e nós não responder, nós faz o que ele quer, que tal? Nós mostra o caminho da saída, sim!”

3. A partir deste ponto, o livro original se diferencia em muito da versão de 1951, publicada no Brasil. Não irei comparar as duas versões, portanto segue só a versão de 1937.

4. Aqui termina o trecho que difere da edição de 1951.

O Parentesco de Gil-galad

Meu pai originalmente supôs que Gil-galad era o filho de Felagund Rei de Nargothrond. Esta informação provavelmente é encontrada pela primeira vez no texto FNII da Queda de Númenor (HoME 5 pag 33); e continuou sendo sua crença até após o término de O Senhor dos Anéis, como visto no principal texto inicial do Conto dos Anos e no Sobre os Anéis de Poder, onde, no texto publicado (O Silmarillion) Fingon é uma alteração editorial de Felagund.

 

Em adições de data incerta feitas no Quenta Silmarillion (HoME 11 pag 242) é dito que Felagund enviou sua mulher e filho Gil-galad de Nargothrond para os Portos de Falas para garantir-lhes segurança. Deve ser notado também no texto do Conto dos Anos acima referido que não apenas Gil-galad era o filho de Felagund mas Galadriel era irmã de Gil-galad (e portanto filha de Felagund). Surgiu, contudo, nos Anais Cinzentos de 1951 (HoME 11 pag 44 $108) que Felagund não tinha esposa, pois à Vanya Amarië a quem ele amava não foi permitido deixar Aman.

 

Aqui algo deve ser dito sobre Orodreth, filho de Finarfin e irmão de Felagund, que  tornou-se o segundo Rei de Nargothrond. Nas árvores genealógicas dos descendentes de Finwë, que podem ser datadas de 1959 mas que meu pai continuava utilizando e alterando quando esreveu o texto sobre The Shibboleth of Feanor, a curiosa história de Orodreth pode ser traçada. Colocada o mais concisamente possível, Finrod (Felagund) a início tinha um filho chamado Artanaro Rhodothir (e portanto contradizia a história dos AnaisCinzentos de que ele não tinha esposa) o segundo Rei de Nargothrond e pai de Finduilas. Portanto “Orodreth” fora agora movido para uma geração abaixo, tornado-se o filho de Finrod ao invés de seu irmão. No próximo estágio meu pai (recordando, aparentemente, a história dos Anais Cinzentos) anotou que Finrod “não tinha filhos {ele deixara a esposa em Aman)” e moveu Artanaro Rhodothir para se tornar,

ainda na mesma geração, o filho do irmão de Finrod, Angrod (que com Aegnor manteve Dorthonion e foi morto na Batalha das Chamas Repentinas).

 

O nome do filho de Angrod (ainda mantendo a identidade de “Orodreth”) foi então alterado de Artanaro para Artaresto. Em uma nota isolada encontrada com as genealogias, escrita com grande rapidez mas ainda assim datada, Agosto de 1965, meu pai sugeriu que a melhor solução para o problema do parentesco de Gil-galad era encontrá-lo como “o filho de Orodreth”, ao qual aqui é dado o nome de Artaresto, e continua:

 

Finrod deixou sua esposa em Valinor e não tinha filhos no exílio. O filho de Angrod era Artaresto, que era amado por Finrod e escapou quando Angrod foi morto, e morou com Finrod. Finrod fez dele seu “regente” e ele o sucedeu em Nargothrond. Seu nome Sindarin era Rodreth (alterado pata Orodreth devido ao seu amor pelas montanhas ……. Seus filhos eram Finduilas e Artanaro = Rodnor mais tarde chamado Gil-galad. (A mãe deles era uma dama Sindarin do Norte. Ela chamou seu filho Gil-galad). Rodnor Gil-galad escapou e eventualmente chegou à Foz do Sirion e foi Rei dos Noldor lá.


 

As palavras que eu não consegui ler aparentemente contém uma preposição e um nome próprio, e este último pode ser Faroth (o Alto Faroth a oeste do rio Narog). Na última das tabelas genealógicas Artanaro (Rodnor) chamado Gil-galad aparece, com uma nota de que “ele escapou e morou na Foz do Sirion”. A única mudança posterior foi a rejeição do nome Artaresto e sua substituição por Artaher, Sindarin Arothir; e portanto nos apêndices Arothir [Orodreth] é nomeado como o “parente e regente” de Finrod, e Gil-galad é “o filho de Arothir, sobrinho de Finrod”.


A genealogia final era:

 

                              Finrod Felagund ---- Angrod
                                               |
                                   Artaher/Arothir [Orodreth]
                                               |
                                  Artanaro/Rodnor/Gil-galad

Uma vez que Finduilas permaneceu sem correção na última genealogia como a filha de Arothir, ela tornou-se irmã de Gil-galad.* 

Portanto não há dúvidas de esta era a última palavra de meu pai sobre o assunto; mas nada de sua concepção tardia e radicalmente alterada tocou as narrativas existentes e foi obviamente impossível incluí-las no Silmarillion publicado. De qualquer modo teria sido muito melhor deixar o parentesco de Gil- Galad obscuro [N.T. no Silmarillion publicado].

 

Também devo mencionar que no texto publicado sobre Aldarion e Erendis (Contos Inacabados) a carta de Gil-galad para Tar-Meneldur abre “Ereinion Gil-alad filho de Fingon”, mas o original era “Finellach Gil-galad da Casa de Finarfin” (onde Finellach foi mudado de Finhenlach, e este de Finlachen). E também no texto de Uma Descrição da Ilha de Númenor (Contos Inacabados) eu imprimi “Rei Gil-galad de Lindon” onde o original era “Rei Finellach Gil-galad de Lindon”; eu mantive, contudo, as palavras “sua parente Galadriel”, uma vez que Fingon e Galadriel eram primos de primeiro grau. Não há traços entre as muitas notas e sugestões escritas nas tabelas genealógicas da descendência proposta de Gil-galad a partir de Finarfin; mas de qualquer forma Aldarion e Erendis e o proximamente relacionado Descrição de Numenor precediam por algum tempo (eu agora sou inclinado a datá-los de cerca de 1960) a tranformação de Gil- Galad no neto de Angrod, com o nome Artanaro Rodnor, que aparece pela primeira vez como uma nova decisão na nota de Agosto de 1965 citada acima. Uma análise muito mais detalhada do admitidamente complexo material do que a que eu fiz vinte anos atrás torna claro que Gil-galad como filho de Fingon (ver HoME 11 pag 243) era uma idéia efêmera.

 

[Nota do Tradutor]* O texto acima é de Christopher Tolkien, com excessão do trecho em itálico, que é do próprio Tolkien. Interessante reparar nesse texto, além do mea culpa de Christopher quanto ao parentesco incorreto de Gil-galad publicado no Silmarillion, o número de “influências editoriais” exercidas por ele sobre os textos do pai.

Está envolvido com a obra de Tolkien desde 1999 – fundador da Calaquendi, fundador da Valinor, fundador do Conselho Branco (Sociedade Tolkien) e presidente por três mandatos. Participou da publicação em livro do Curso de Quenya e é autor do Modo Tengwar Português