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Carta #43

Sobre o assunto casamento e relacionamento entre os sexos.

Os interesses de um homem pelas mulheres podem ser puramente físicos (realmente não podem, é claro: mas quero dizer que ele pode recusa-se a levar em conta outras coisas, para o grande dano de sua alma (e corpo) e delas); ou “amigável”; ou ele pode ser um “amante” (empenhando e misturando todos seus afetos e poderes da mente e corpo em uma emoção poderosamente complexa e energizada pelo “sexo”). Este é um mundo caído. A desarticulação do instinto-sexo é um dos sintomas principais da Queda. O mundo tem ido “de mal a pior” por muitas eras. As várias formas sociais mudam, e cada novo modo tem seus perigos especiais: mas o “duro espírito da concupiscência” vem caminhando por todas as ruas, e se instalou em todas as casas, desde que Adão caiu. Deixaremos de lado os resultados “imorais”. Estes que para o quais você não deseja ser arrastado. Para a renúncia você não teve nenhuma chamada. “Amizade” então? Neste mundo caído a “amizade” que deveria ser possível entre todos os seres humanos, é virtualmente impossível entre o homem e mulher. O diabo é eternamente engenhoso, e sexo é o assunto favorito dele. Ele é bom tanto pegando-o através de generosos motivos românticos ou tenros, quanto através daqueles mais básicos ou animais. Esta “amizade” tem sido freqüentemente tentada: um lado ou o outro quase sempre falha. Mais tarde na vida quando sexo acalma-se, pode ser possível. Pode acontecer entre santos. Para a pessoa comum pode acontecer só raramente: duas mentes que realmente têm uma afinidade principalmente mental e espiritual podem por acidente residir em um corpo de um macho e de uma fêmea, e ainda podem desejar e alcançar um “amizade” totalmente independente de sexo. Mas ninguém pode contar com isto. A outra parte deixará ele (ou ela) mal, é quase certo, por “apaixonar-se”. Mas um rapaz realmente não quer (como via de•regra) “amizade”, até mesmo se ele diz que quer. Existe um monte de rapazes (como•via de•regra). Ele quer amor: inocente, e ainda irresponsável talvez. “Ai de mim! Ai de mim! o amor sempre foi pecaminoso!” como Chaucer diz. Então se ele é um Cristão e é alertado que existe tal coisa como pecado, ele quer saber o que fazer sobre isto.

Existe em nossa cultura Ocidental a romântica tradição cavalheiresca ainda forte, entretanto como um produto da Cristandade (contudo por nenhum meio igual a ética Cristã) mas os tempos são outros. Ela idealiza “amor” – e até onde vai pode ser muito bom, desde que compreenda-se que é mais que prazer físico, e impõe se não pureza, pelo menos fidelidade, e assim abnegação, “serviço”, cortesia, honra, e coragem. Sua fraqueza, certamente, é ter começado como um elegante jogo artificial, um modo de desfrutar amor em benefício próprio sem interesse para (e realmente ao contrário de) o matrimônio. Seu centro não era Deus, mas Deidades imaginárias, Amor e a Dama. Ainda tende a fazer a Dama um tipo de estrela guia ou divindade – do antiquado “sua divindade” = a mulher que ele ama – o objeto ou razão da conduta nobre. Isto é, certamente, falso e na melhor as hipóteses fictício. A mulher é outro humano caído – ser com uma alma em perigo. Mas combinada e harmonizada com religião (como há muito tempo tem sido, produzindo muita desta bela devoção a Nossa Senhora que foi o modo de Deus de refinar nossas naturezas e emoções tão brutas, e também de aquecer e colorir nossa dura, amarga, religião) pode ser muito nobre. Então produz o que eu suponho que ainda é sentido, entre esses que retêm ainda que um vestígio de Cristianismo, ser o ideal mais alto de amor entre o homem e mulher. Porém eu ainda acho que tem perigos. Não é completamente verdade, e não é perfeitamente “teocêntrico”. Leva, ou de qualquer modo tem no passado levado, os rapazes a não verem as mulheres como elas são, como companheiras em um naufrágio que sem estrelas guias. (Um resultado observado é que na verdade faz o rapaz tornar-se cínico). Leva-os a esquecer os desejos, necessidades e tentações delas. Impõe noções exageradas de “amor verdadeiro”, como um fogo sem origem, uma exaltação permanente, não relacionado a idade, procriação, e vida simples, e sem relação a vontade e propósito. (Um resulta disso é fazer os jovens procurarem um “amor” que sempre os manterá satisfeitos e aquecidos em um mundo frio, sem qualquer esforço próprio; e o incuravelmente romântico procura até mesmo na sordidez das cortes de divórcio).

Mulheres realmente não têm muita parte em tudo isso, embora elas possam usar a linguagem do amor romântico, uma vez que está tão entrelaçada em todos os nossos idiomas. O impulso sexual faz as mulheres (naturalmente quando não estragadas pelo egoísmo) muito solidárias e compreensivas, ou especialmente desejosas de assim o serem (ou de assim parecerem), e muito predispostas a entrar em todos os interesses, até onde elas possam, de gravatas à religião, do jovem por quem elas estão atraídas. Necessariamente sem qualquer intenção de enganar: puro instinto: o servidor, instinto de colaborador, generosamente estimulado pelo desejo e pelo sangue jovem. Sob esse impulso elas de fato podem alcançar freqüentemente perspicácia e entendimento extraordinários, até mesmo de coisas contrárias aos seus assuntos naturais: porque é o seu dom por serem receptivas, estimuladas, fertilizadas (em muitos outros aspectos que o físico) pelo macho. Todo professor sabe isso. Como tão rápido uma mulher inteligente pode ser ensinada, captar as idéias dele, ponto de vista – e como (com raras exceções) elas podem ir a lugar nenhum, quando elas largam sua mão, ou quando elas deixam de se interessar por ele. Mas este é o caminho natural delas para amar. Antes que a jovem saiba onde ela está (e enquanto o jovem romântico, quando ele existe, é ainda só um sonho) ela pode de fato “apaixonar-se”. O que para ela, uma jovem ainda pura, significa querer se tornar a mãe dos filhos do jovem, até mesmo se este desejo não está de alguma maneira claro ou explícito para ela. E então coisas vão acontecer: e elas podem ser muito dolorosas e prejudiciais, se as coisas saírem errado. Particularmente se o jovem só quisesse uma estrela guia e divindade temporárias (até que ele achasse uma mais brilhante), e só estivesse desfrutando uma agradável relação temporária com uma titilação de sexo – tudo bastante inocente, é claro, e mundos longe de “sedução”.

Você pode encontrar na vida (como na literatura) mulheres que são inconstantes, ou até mesmo claramente libertinas – eu não me refiro a mero namorico, a prática da luta para o combate real, mas as mulheres que são tolas demais para levar até mesmo o amor a sério, ou são na verdade tão depravadas que se divertem com “conquistas”, ou até mesmo em causar dor – mas estas são anormalidades, embora mesmo educação errada, má criação, e modas deturpadas possa encorajá-las. Muito embora as condições modernas tenham mudado as circunstâncias femininas, e o detalhe do que é considerado decoro, elas não mudaram instinto natural. Um homem tem um trabalho, uma carreira, (e amigos homens) tudo com o qual poderia (e faz quando ele tem qualquer brio) sobreviver ao naufrágio do “amor”. Uma mulher jovem, até aquela “economicamente independente”, como dizem agora (isto na verdade significa realmente subserviência econômica a um macho empregador em vez de um pai ou uma família), começa a pensar no “pé-de-meia” e sonha com uma casa, quase imediatamente. Se ela realmente se apaixona, o naufrágio pode realmente terminar nas pedras. De qualquer maneira mulheres são em geral muito menos românticas e mais práticas. Não se engane pelo fato delas serem mais “sentimentais” no uso das palavras – mais espontâneas com “querido”, e tudo mais. Elas não querem uma estrela guiando. Elas podem idealizar um simples jovem como um herói; mas elas realmente não precisam de qualquer deslumbramento como este para se apaixonar ou assim permanecer. Se elas têm qualquer ilusão é de que elas podem “remodelar” os homens. Elas se darão conta que não, e até mesmo quando a ilusão se desfaz, continua a amá-lo. Elas são, é claro, muito mais realistas sobre a relação sexual. A menos que pervertidas pelos maus costumes contemporâneos elas não falam como via de regra “obscenidades”; não porque elas são mais puras que os homens (elas não são) mas porque elas não acham isto engraçado. Eu soube de algumas que fingiam achar, mas é um fingimento. Pode ser intrigante, interessante, absorvente (até uma grande vantagem também absorver) para elas: mas é só curiosidade natural, um interesse sério, óbvio; onde está a graça?

Elas têm que ser, é claro, ainda mais cuidadosas nas relações sexuais, no que diz respeito a todos os contraceptivos. Enganos são fisicamente e socialmente (e matrimonialmente) prejudiciais. Mas elas são instintivamente, quando não corrompidas, monogâmicas. Homens não são. …. Nem pretendem sê-lo. Os homens só não são, não pela sua natureza animal. Monogamia (embora tenha sido por muito tempo fundamental a nossas idéias herdadas) é para nós homens uma parte da ética “revelada”, de acordo com fé e não com a carne. Cada um de nós poderia procriar sadiamente, em nossos 30 e tantos anos de pleno vigor físico, umas cem crianças, e desfrutar o processo. Brigham Young (eu acredito) era um homem saudável e feliz. É um mundo caído, e não há nenhuma consonância entre nossos corpos, mentes, e almas.

Porém, a essência de um mundo caído é que o melhor não pode ser atingido pelo prazer livre, ou pelo que é chamado “auto-realização ” (normalmente um nome agradável para auto-indulgência, completamente hostil à realização de outros); mas pela negação, pelo sofrimento. Fidelidade em casamentos Cristãos requer isso: grande sacrifício. Para um homem Cristão não há fuga. Matrimônio pode ajudar a santificar & direcionar ao seu objetivo característico seus desejos sexuais; sua condição pode ajudá-lo na luta; mas a luta permanece. Isso não o satisfará – já que a fome pode ser afastada através de refeições regulares. Oferecerá tanto muitas dificuldades à pureza característica daquele estado, quanto provê alívios. Nenhum homem, por mais que verdadeiramente amasse sua noiva e esposa como um homem jovem, viveu fielmente para ela como uma esposa em mente e corpo sem que deliberasse exercício consciente de vontade, sem abnegação. Contam-se muitos poucos – até mesmo aqueles educados “na Igreja”. Daqueles que não, raramente tenho ouvido. Quando o deslumbramento passa, ou simplesmente não atendeu às espectativas, eles pensam que cometeram um engano, e que a sua verdadeira alma-gêmea ainda não foi encontrada. A verdadeira alma-gêmea também muito freqüentemente prova ser a próxima pessoa sexualmente atraente que vier. Alguém com a qual eles na verdade poderiam muito provavelmente casar, se -. Conseqüentemente o divórcio, para prover o “se”. E é claro que eles estão como via de regra totalmente certos: eles cometeram um engano. Só um homem muito sábio no final de sua vida poderia fazer um julgamento são a respeito de quem, entre todas as chances possíveis, ele deveria mais provavelmente ter desposado! Quase todos os matrimônios, até mesmo os felizes, são equivocados: no sentido de que quase certamente (em um mundo mais perfeito, ou até mesmo com um pouco mais de cuidado neste muito defeituoso) ambas as partes poderiam ter achado companheiros mais satisfatórios. Mas a “verdadeira alma-gêmea” é aquela com a qual você está de fato casado. Você realmente não escolhe muito: vida e circunstância fazem a maior parte disso (entretanto se há um Deus esses devem ser seus instrumentos, ou como ele se apresenta). É notório que de fato matrimônios felizes são mais comuns onde a “escolha” pelos jovens é até mesmo mais limitada, por autoridade paterna ou familiar, contanto que haja uma moral social de pura responsabilidade e fidelidade conjugal não romântica. Mas até mesmo em países onde a tradição romântica tem afetado tanto os arranjos sociais que faz com que as pessoas acreditem que a escolha de um companheiro diz respeito somente ao jovem, só a mais rara boa sorte reúne o homem e mulher que realmente estão “destinados” um ao outro, e capazes de um enorme e esplêndido amor. A idéia ainda nos deslumbra, nos pega pela garganta: foram escritos poemas e histórias aos milhares sobre o tema, mais, provavelmente, que o total de tais amores na vida real (ainda que o maior desses contos não fale do casamento feliz de tais grandes amantes, mas da trágica separação deles; como se até mesmo nesta esfera o verdadeiramente grande e esplêndido neste mundo caído esteja mais propício a terminar em “fracasso” e sofrimento). Em tal grande e inevitável amor, freqüentemente amor à primeira vista, nós temos uma visão, eu suponho, do casamento como deveria ter sido em um mundo perfeito. Neste mundo caído nós temos como nossos únicos guias, prudência, sabedoria (rara na mocidade, muito tardia com a idade), um coração puro, e fidelidade de sentimentos….. {mospagebreak} Minha própria história é tão excepcional, tão errada e imprudente em quase todos os pontos que a faz difícil para aconselhar prudência. Ainda que casos difíceis façam uma lei ruim; e casos excepcionais não são sempre bons guias para outros. Para o que serve aqui é como autobiografia – nesta ocasião principalmente direcionada aos detalhes da idade, e finanças.

Me apaixonei por sua mãe na idade aproximada de 18. Completamente verdadeiro, como tem sido mostrado – embora é claro falhas de caráter e temperamento tenham me levado freqüentemente a me desviar do ideal com que eu comecei. Sua mãe era mais velha que eu, e não era católica. Completamente desastroso, já que era tutelado por um guardião¹. E era de certo modo muito desafortunado; e de certo modo muito ruim para mim. Estas coisas são interessantes e nervosamente exaustivas. Eu era um garoto inteligente na agonia do trabalho para uma (muito necessária) bolsa de estudos em Oxford. As tensões combinadas quase produziram um colapso nervoso. Eu não tive sucesso nos meus exames e embora (como anos depois meu Reitor me contou) eu tenha conseguido uma boa bolsa de estudos, só a ganhei por um triz depois da exibição de 60 libras a Exeter: o suficiente com uma bolsa de estudos da escola remanescente] da mesma quantia (ajudada por meu querido antigo guardião). É claro que havia um lado de crédito, não tão facilmente visto pelo guardião. Eu era inteligente, mas não laborioso ou de grande intelecto; uma grande parte do meu fracasso simplesmente era devida a não trabalhar (pelo menos não os clássicos) não porque eu estava apaixonado, mas porque eu estava estudando uma outra coisa: Gótico². Tendo a educação romântica, levei a sério o romance menino-e-menina, e fiz dele a origem do esforço. Naturalmente antes um covarde físico, eu passei de um coelho menosprezado em uma casa de segunda categoria para as cores da escola em dois períodos. Todo aquele tipo de coisa. Porém, um problema surgiu: e eu tive que escolher entre desobedecer e magoar (ou enganar) um guardião que tinha sido um pai para mim, mais que a maioria dos pais verdadeiros, mas sem qualquer obrigação, e “perder” o caso-amoroso até que eu tivesse 21. Eu não lamento minha decisão, entretanto foi muito difícil para minha amada. Mas isso não•foi minha culpa. Ela estava perfeitamente livre e não tinha feito nenhum voto para mim, e eu não teria tido nenhuma reclamação justa (exclua de acordo com o código romântico irreal) se ela tivesse casado com outra pessoa. Durante quase três anos não vi ou escrevi para minha amada. Era extremamente difícil, doloroso e amargo, especialmente no início. Os efeitos não foram muito bons: caí na leviandade e negligência e desperdicei uma boa parte do meu primeiro ano na Faculdade. Mas eu não acho que qualquer outra coisa teria justificado casamento baseado no romance de um garoto; e provavelmente nada mais teria fortificado a vontade o suficiente para garantir a um romance (embora um genuíno caso de verdadeiro amor) permanência. Na noite de meu 21º aniversário eu escrevi novamente a sua mãe – 3 de janeiro de 1913. Em 8 de janeiro eu regressei para ela, e ficamos noivos, e informei à uma família atônita. Eu juntei o que tinha em minhas meias e fiz um anúncio de emprego (tarde demais para salvar Hon. Mods.³ do desastre) – e então guerra começou no ano seguinte, enquanto eu ainda tinha um ano para completar a faculdade. Naqueles dias os camaradas se uniam, ou eram desprezados publicamente. Era uma lugar sórdido para se estar, especialmente para um jovem com muita imaginação e pouca coragem física. Sem diploma: sem dinheiro: noivo. Eu suportei a censura, e sugestões de parentes tornavam-se sinceras, ficava acordado, e vieram os Exames Finais em 1915. Fugi para o exército: julho de 1915. Eu achei a situação intolerável e casei em 22 de março de 1916. Pode me encontrar cruzando o Canal (eu ainda tenho o verso que eu escrevi na ocasião!4 ) para o massacre de Somme.

Pense em sua mãe! Ainda sim hoje não sinto que ela estava fazendo mais do que lhe tinha sido pedido que fizesse – não que isso diminua do crédito disto. Eu era um jovem rapaz, com um diploma razoável, e hábil em escrever versos, algumas libras minguadas (£20 – 40)5, e nenhum perspectiva, um Segundo Tenente seis dias na semana na infantaria onde as chances de sobrevivência estavam severamente contra você (como um subalterno). Ela casou-se comigo em 1916 e John nasceu em 1917 (concebeu e esteve grávida durante o período de fome de 1917 e da grande campanha U-BoatA) na época da batalha de Cambrai, quando o fim da guerra parecia tão distante quanto agoraB. Eu vendi, e usei para pagar a casa de saúde, as últimas de minhas poucas ações Sul-Africanas, “meu patrimônio”.

Fora a escuridão de minha vida, tão frustrada, eu ponho diante de você a única grande coisa para amar na terra: o Santo Sacramento. …. Lá você achará romance, glória, honra, fidelidade, e a verdadeira forma de todos os seus amores em terra, e mais que isso: Morte: pelo paradoxo divino aquela que termina com a vida, e exige a renúncia de tudo, e ainda pelo gosto (ou antegosto) de que sozinha pode o que você busca em suas relações terrestres (amor, fidelidade, alegria) seja mantido, ou assuma aquela aparência de realidade, de duração eterna, que o coração de todo homem deseja.

Notas do Autor

1. O guardião de Tolkien, Padre Francis Morgan, desaprovava seu caso amoroso clandestino com Edith Bratt.

2. Tolkien ficou empolgado durante tempo de escola ao descobrir a existência do idioma Gótico; ver carta #272.

3. Classical Honour Moderations, prêmio com o qual Tolkien foi premiado em segundo lugar.

4. A data real da travessia de Tolkien e seu batalhão pelo Canal foi 6 de junho de 1916. O poema ao qual ele se refere, ´Étaples, Pas de Calais, Junho 1916´, é intitulado ´A Ilha Solitária´, e é sub-intitulado ´Para Inglaterra´, entretanto ele também se relaciona à mitologia de O Silmarillion. O poema foi publicado no Leeds University Vene entre 1914-1924.B – A carta foi escrita durante a Segunda Guerra Mundial, que só terminaria quatro anos mais tarde.

5. Tolkien herdou uma pequena renda de seus pais, proveniente de ações de minas Sul Africanas.

Notas da Tradução

A – “U-Boat” era a designação dada aos submarinos alemães. Em fevereiro de 1917 a Alemanha declarou guerra submarina com esperança de subjulgar a Inglaterra. Esta neutralizou os ataques graças a um sistema de comboios posto em prática em maio de 1917. A ofensiva com submarinos precipitou a entrada dos EUA na guerra em abril de 1917, que constitui uma ajuda decisiva aos aliados.

B – A carta foi escrita durante a Segunda Guerra Mundial, que só terminaria quatro anos mais tarde.

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Carta #211

[Rhona Beare escreveu fazendo várias perguntas, para que ela pudesse passar as respostas de Tolkien aos companheiros em um encontro de admiradores de O Senhor dos Anéis. Por que, ela perguntou, Sam fala a prece Élfica como “O Elbereth Gilthoniel” no capítulo “As Escolhas de Mestre Samwise” quando em outro lugar a forma usada “A Elbereth Gilthoniel”? (Era esta a grafia usada na primeira edição do livro.) Qual é o significado desta prece, e das palavras de Frodo no capítulo anterior, “Aiya Eärendil Elenion Ancalima!”? Senhorita Beare fez então uma série de perguntas numeradas. ” Pergunta 1 “: Por que (I – Fuga para o Vau) o cavalo de Glorfindel é descrito como tendo “rédeas e arreios” quando elfos montam sem arreios, rédeas ou selas? ” Pergunta 2 “: Como Ar-Pharazôn pode derrotar Sauron quando Sauron tinha o Um Anel?  ” Pergunta 3 “: Quais eram as cores dos dois magos mencionados mas não nomeados no livro? ” Pergunta 4 “: Que roupas os povos da Terra-média vestiam? A coroa alada de Gondor era como de uma Valquíria, ou como a ilustrada na embalagem do cigarro Gauloise? Explique o significado de El – em Elrond, Elladan, Elrohir; quando El- significa “elfo” e quando “estrela”? Explique o significado do nome Legolas. O Rei-bruxo montou um pterodáctilo no cerco de Gondor? ” Pergunta 5 “: Quem é o Antigo Rei mencionado por Bilbo em sua canção de Eärendil? Ele é o Um?]

14 outubro 1958 Faculdade de Merton, Oxford,

Cara Senhorita Beare,

Temo que esta resposta chegue muito tarde para ser útil ao evento; mas não foi possível escrever antes. Só agora voltei de minha licença de um ano, cujo objetivo era me permitir completar alguns dos “trabalhos de estudo” negligenciados durante minha preocupação com ninharias não profissionais (como O Senhor dos Anéis): eu recordo o tom de muitos de meus colegas. De fato o tempo esteve principalmente tomado com problemas graves, incluindo a enfermidade de minha esposa; mas passei todo o mês de agosto trabalhando por longas horas, sete dias por semana, contra o tempo, para terminar uma parte do trabalho antes de ir para a Irlanda a negócios profissionais. Só voltei alguns dias atrás, bem a tempo para nossa Festa de São Miguel.

Em uma calmaria momentânea tentarei responder suas perguntas brevemente. Eu não “sei todas as respostas”. Muito de meu próprio livro me confunde; e seja como for muito dele foi escrito tanto tempo atrás (algo em torno de 20 anos) que leio-o agora como se fosse de uma mão estranha.

O uso de O no Livro II cap. 10 é um erro. Meu de fato, assumido da pág. 770, onde Gilthoniel O Elbereth é, evidente, uma cotação do Livro I pág. 82, que era uma “tradução”, inglês em tudo menos nomes próprios. Porém, a prece de Sam está em puro Élfico e deveria ter tido A como no Livro I pág. 246. Considerando que a língua-hobbit é representada como inglês, O poderia ser justificado como uma inexatidão própria dela; mas não me proponho defender isto. Ele foi “inspirado” a fazer esta prece em um idioma que ele não sabia (II 770). Sendo assim, é claro, no estilo e métrica do fragmento de prece, acho que está composto ou inspirado para sua situação em particular.

Significa, mais ou menos: “O Elbereth Inflamadora (no tempo passado: o título pertence a pré-história mítica e não se refere a uma função permanente) do céu contempla ao longe, para ti eu grito agora na sombra (do medo) da morte. Olhai por mim, O Semprebranca!”. Semprebranca é uma tradução inadequada; como é igualmente branca-de-neve do I pág. 81. O elemento ui (oio do Élfico Primitivo) significa sempre; tanto fan- e los(s) conduzem a branco, mas fan conota a brancura das nuvens (ao sol); loss se refere a neve.

Amon Uilos, em Alto-Élfico Oiolosse, era um dos nomes do cume mais alto das Montanhas de Valinor, na qual Manwë e Varda moravam. De forma que um Elfo usando ou ouvindo o nome Fanuilos, não pensaria (ou figuraria) só uma figura majestosa vestida de branco, de pé em um lugar alto e contemplando ao leste para as terras mortais, ele iria ao mesmo tempo imaginar um imenso pico, coberto de neve, coroado com uma nuvem branca fria ou brilhante.

Ancalima = “excessivamente claro”. Elemento kal a raiz habitual para palavras que se referem a luz; kalima, “brilhando claro”; an- superlativo ou prefixo intensivo.

Pergunta 1. Eu poderia, suponho, responder: “um ciclista performático pode dirigir uma bicicleta com guidões!” Mas de fato rédea era normalmente e descuidadamente usada para o que suponho deveria ter sido chamada uma testeira (1). Ou ainda, uma vez que aquela parte foi adicionada há muito tempo (o Capítulo 112 foi escrito muito cedo) eu não tinha considerado os costumes naturais de elfos com animais. O cavalo de Glorfindel teria uma testeira ornamental, que levaria uma pluma, e com as correias incrustadas com jóias e sinos pequenos; mas Glor. certamente não usaria um freio. Eu mudarei rédea e freio para testeira.

Pergunta 2. Esta pergunta, e suas implicações, é respondida em “A Queda de Númenor” que ainda não está publicada, mas que não posso fazê-lo agora. Você não pode exigir muito do Um Anel, por ele ser é claro uma característica mítica, mesmo porque o mundo dos contos é concebido em termos mais ou menos históricos. O Anel de Sauron é apenas um dos vários tratamentos míticos de colocar a vida de alguém, ou poder, em algum objeto externo, o qual esteja mesmo assim exposto a captura ou destruição com resultados desastrosos para si mesmo. Se eu fosse “filosofar” este mito, ou ao menos o Anel de Sauron, deveria dizer que foi um modo mítico de representar a verdade que potencia (ou talvez preferivelmente potencialidade) se for exercitada, e produz resultados, tem que ser externalizada e então passa, em um grau maior ou menor, além do controle direto da pessoa. Um homem que deseja mostrar ” poder” têm que ter servos, que não são como ele. Mas ele depende então deles.

Ar-Pharazôn, como é contado na “Queda” ou Akallabêth, derrotou servos aterrorizados de Sauron, não Sauron. A “rendição” pessoal de Sauron foi voluntária e astuta: ele conseguiu transporte de graça para Númenor! Ele naturalmente tinha o Um Anel, e assim muito cedo dominou as mentes e vontades da maioria dos Númenorianos. (Eu não acho que Ar-Pharazôn sabia qualquer coisa sobre o Um Anel. Os Elfos mantiveram o assunto dos Anéis em segredo absoluto, tanto quanto eles puderam. Em todo caso Ar-Pharazôn não estava em comunicação com eles. No Conto de Anos você achará pistas do problema: “a Sombra cai sobre Númenor”. Depois de Tar-Atanamir (um nome Élfico) o próximo nome é Ar-Adunakhôr um nome Númenoriano. Veja pág. 315 (2). A mudança dos nomes foi com uma completa rejeição da amizade dos elfos, e do aprendizado “teológico” que os Númenorianos tinham recebido deles.)

Sauron foi derrotado primeiro por um “milagre”: uma ação direta de Deus o Criador, mudando a forma do mundo, quando foi invocado por Manwë: veja III pág. 1099. Embora reduzido a “um espírito de ódio transportado por um vento escuro”, não acho que este espírito hesite em levar o Um Anel, no qual o seu poder de dominar mentes agora depende tanto. Que Sauron não tenha sido destruído na raiva do Único não é culpa minha: o problema do mal, e sua tolerância aparente, é um problema permanente para todos que se preocupam com nosso mundo. O indestrutibilidade de espíritos com vontades próprias, até mesmo pelo Criador deles, também é uma característica inevitável, se qualquer um acredita na existência deles, ou inventa-o em uma história.

Sauron ficou, é claro, “confuso” pelo desastre, e enfraquecido (tendo gasto energia enorme na corrupção de Númenor). Ele precisou de tempo para sua própria reabilitação corpórea, e para obter controle sobre seus ex-servos. Ele foi atacado por Gil-galad e Elendil antes que sua nova dominação fosse completamente estabelecida.

Pergunta 3. Eu não nomeei as cores, porque eu não as sei (3). Eu duvido que se eles tivessem cores distintas. A distinção só foi requerida no caso dos três que permaneceram na área relativamente pequena do Noroeste. (Sobre os nomes ver Pergunta 5) Realmente não sei claramente nada sobre os outros dois – uma vez que eles não dizem respeito a história do Noroeste. Acho que eles foram como emissários para regiões distantes, Leste e Sul, longe do alcance Númenoriano: missionários para terras “ocupadas pelo inimigo”, como eram. Que sucesso tiveram que eu não sei; mas eu temo que eles falharam, assim como Saruman, embora indubitavelmente de diferentes modos; e suspeito que eles foram fundadores ou iniciantes de cultos secretos e tradições “mágicas” que sobreviveram à queda de Sauron.

Pergunta 4. Não sei o detalhe das roupas. Eu visualizo com grande clareza e detalhe a paisagem e objetos “naturais”, mas não artefatos. Pauline Baynes tirou sua inspiração para Farmer Giles em grande parte de desenhos medievais – com exceção dos cavaleiros (que são um pouco “Rei-Arthurianos”) o estilo parece ajustar-se bem o bastante. A não ser a masculina, especialmente em partes do norte como o Condado, usariam calções, Ã s vezes escondidos por uma capa ou longo manto, ou somente acompanhado por uma túnica.

Não tenho dúvida de que na área relatada por minha história (que é grande) a “vestimenta” de vários povos, Homens e outros, era muito diversificada na Terceira Era, de acordo com clima, e costume herdado. Como foi nosso mundo, até mesmo se nós só consideramos a Europa e o mediterrâneo e o muito próximo “Leste” (ou Sul), antes da vitória no nosso tempo do estilo menos adorável de vestimenta (especialmente masculino e “neutro”) que a história registrada revela – uma vitória que ainda continua, até mesmo entre aqueles que na maioria odeiam as terras de sua origem. Os Rohirrim não eram “medievais”, em nosso sentido. Os estilos da Tapeçaria Bay eux(feita na Inglaterra) ajustam-se bem, se lembrar-se que o tipo de malha dos soldados parecem estar usando é só um rude sinal convencional para as cotas de elos pequenos.

Os Númenorianos de Gondor eram orgulhosos, peculiares, e arcaicos, e acho que são melhor retratados em (digamos) termos Egípcios. Em muitas formas eles se assemelham aos “Egípcios” – o amor, e poder para construir, o gigantesco e volumoso. E no seu grande interesse em ascendência e em tumbas. (Mas não é claro em “teologia”: nesse respeito eles eram Hebraicos e até mesmo mais puritanos – mas isto levaria muito tempo para descrever: explicar realmente porque não há praticamente nenhuma “religião”, ou mesmo atos religiosos ou lugares ou cerimônias entre os “bons” ou povos anti-Sauron em O Senhor dos Anéis.) Acho que a coroa de Gondor (o Reino do Sul) era muito alta, assim como no Egito, mas com asas fixadas, não para trás mas em um ângulo.

O Reino do Norte tinha só uma tiara (III 1105). conforme a diferença entre o reinos N. e S. do Egito.

El. Dificuldade em distinguir “estrela” e “elfo”, uma vez que são derivados do mesmo elemento básico EL “estrela”; como o primeiro elemento em compostos el- pode significar (ou pelo menos simboliza) ambos. Como uma palavra separada “estrela” era *elen, plural *eleni em Élfico primitivo. Os Elfos foram chamados eleda/elena “um Elfo (Alto-élfico Elda)” porque eles foram encontrados pelo Vala Oromë em um vale sob a luz das estrelas; e eles sempre permaneceram amantes das estrelas. Mas este nome foi especialmente ligado àqueles que eventualmente marcharam para Oeste guiados por Oromë (e a maioria passou para Além Mar).

As formas em Élfico-Cinzento (Sindarin) deveriam ter sido êl, pl. elin; e eledh (pl. elidh). Mas o último termo não era mais usado entre os Elfos-Cinzentos (Sindar) que não atravessaram o Mar; embora permanecesse em alguns nomes próprios como Eledhwen, “beleza Élfica”. Depois do retorno em exílio dos Noldor (parte dos Altos-Elfos), o Alto-Élfico elda foi assumido novamente pelos Elfos-Cinzentos como eld>ell, e se referia aos Altos-Elfos exilados. Esta é, sem dúvida, a origem de el, ell- em tais nomes como Elrond, Elros, Elladan, Elrohir.

Elrond, Elros. *rondo era uma palavra Élfica primitiva “caverna”. Conf. Nargothrond (caverna fortalecida pelo R. Narog), Aglarond, etc. *rosse significava “orvalho, respingo (de cascata ou fonte)”. Elrond e Elros, filhos de Eärendil (amante do mar) e Elwing (espuma élfica), foram assim chamados, porque eles foram levados pelos filhos de Fëanor, no último ato da contenda entre a casa dos alto-elfos dos príncipes Noldorin a respeito das Silmarils; a Silmaril resgatada de Morgoth por Beren e Lúthien, e dada ao Rei Thingol pai de Lúthien, herdada por Elwing filha de Dior, filho de Lúthien. As crianças não foram mortas, mas deixadas como “bebês na floresta”, em uma caverna com uma queda d´água na entrada. Lá eles foram achados: Elrond dentro da caverna, e Elros que chapinhava na água.4

Elrohir, Elladan: estes nomes, dados aos filhos por Elrond, referem-se ao fato de serem “meio-elfos” (III 1096): eles tinham antepassados mortais como também elfos em ambos os lados; Tuor no lado de seu pai, Beren na mãe. Ambos significam elfo+homem. Elrohir poderia ser traduzido “Elfo-cavaleiro”; rohir que é uma forma mais recente de rochir “senhor do cavalo” de roch “cavalo” + hir “mestre”: Élfico primitivo rokko e kher ou kheru: Alto-élfico: rocco, her (heru). Elladan poderia ser traduzido como “Elfo-Númenoriano”. Adan (pl. Edain) era a forma Sindarin para o nome dado os “pais dos homens”, os membros das Três Casas dos amigos-dos-elfos, cujos sobreviventes se tornaram os Númenorianos depois, ou Dún-edain.

Legolas quer dizer “folhas-verdes”, um nome de bosque – forma dialetal do Sindarin puro laegolas: *lasse (Alto-élfico lasse, S. las(s)) “folha”; *gwa-lassa/*gwa-lassie “coleção de folhas, folhagem” (A.E. olassie, S. golas, -olas); *laika “verde” base LAY- como em laire “verão” (A.E. laica, S. laeg (raramente usado, normalmente substituído por calen), base do bosque).

Pterodáctilo. Sim e não. Eu não pretendi que a montaria do Rei-Bruxo fosse o que é chamado agora um “pterodáctilo”, e frequentemente é desenhado (com muito menos evidência sombria que reside por trás de muitos monstros da nova e fascinante mitologia semi-científica da “Pré-História”). Mas obviamente é pterodáctilo e deve muito à nova mitologia, e sua descrição provê até mesmo um tipo de meio no qual poderia ser um último sobrevivente de eras geológicas mais antigas.5

Pergunta 5. Manwë, marido de Varda; ou em Élfico-cinzento Manwë e Elbereth. Desde que os Valar não tinham nenhum idioma próprio, não precisando de um, eles não tinham nomes “verdadeiros”, só identidades, e seus nomes foram conferidos a eles pelos Elfos, sendo em origem portanto, como eram, “apelidos”, referentes a alguma peculiaridade notável, função, ou ação. (O mesmo é verdadeiro sobre os “Istari” ou Magos que eram emissários dos Valar, e da sua espécie). Por conseguinte cada identidade tinha vários “apelidos”; e os nomes dos Valar não eram necessariamente relacionados em idiomas de Élficos diferentes (ou idiomas dos Homens que derivaram seu conhecimento dos Elfos). (Elbereth e Varda “Senhora das Estrelas” e “Enaltecida” não são palavras relacionadas, mas referem-se à mesma pessoa.) Manwë (Ser Santificado) era Senhor dos Valar, e logo o maior ou Mais Antigo Rei de Arda. Arda “reino” foi o nome dado para nosso mundo ou terra, como sendo o lugar, dentro da imensidão de Eä, selecionado para ser a morada e domínio especial do Rei – por causa de seu conhecimento sobre os Filhos de Deus que apareceriam lá. No mito cosmogônico é dito que Manwë é “irmão” de Melkor que é eles eram contemporâneos e equivalentes em poder na mente do Criador. Melkor se tornou o rebelde, e o Diabo destes contos, que disputou o reino de Arda com Manwë. (Ele era normalmente chamado Morgoth em Élfico-cinzento).

O Único não habita fisicamente qualquer parte de Eä.

Devo dizer que tudo isso é “mítico”, e nenhum novo tipo qualquer de religião ou visão. Até onde eu sei isso é uma invenção imaginativa, que expressa, no único modo que posso, algumas de minhas (sombrias) apreensões do mundo. Tudo que eu posso dizer é que, se fosse “história”, seria difícil de ajustar as terras e eventos (ou “culturas”) em tais evidências como nós possuímos, arqueológica ou geológica, relativa a parte mais próxima ou remota do que é chamado hoje Europa; por exemplo, embora o Condado esteja expressamente declarado ter estado nesta região(Prólogo pp. 2 e 3).6 Eu poderia ter adequado as coisas com maior detalhamento, se a história não tivesse se tornado tão desenvolvida, antes que pergunta me ocorresse. Eu duvido se haveria muito a se ganhar com isso; e eu espero que o, evidentemente longo mas indefinido, lapso de tempo entre a Queda de Barad-dûr e nossos Dias seja suficiente para “credibilidade” literária, até mesmo para os leitores familiarizados com o que é conhecido ou imaginado de “pré-história “.

Eu, suponho, construí um tempo imaginário, mas mantive meus pés em minha própria mãe-terra como lugar. Prefiro isso ao modo contemporâneo de buscar mundos distantes no “espaço”. Entretanto é curioso, eles são estrangeiros, e não dignos do amor daqueles do mesmo sangue. O termo Terra-média não é (a propósito, se tal nota for necessária) minha própria invenção. É uma modernização ou alteração (Dicionário do Novo Inglês “uma perversão”) de uma palavra antiga para o mundo habitado dos Homens, o oikoumene: média porque pensava-se vagamente que estava situada entre os Mares e (na imaginação do norte) entre o gelo do Norte e o fogo do Sul. Middan-geard (inglês antigo), midden-erd, middle-erd (inglês medieval). Muitos revisores parecem assumir que a Terra-média é outro planeta!

Teologicamente (se o termo não for muito grandioso) eu imagino que o quadro seja menos dissonante daquele que alguns (incluindo eu mesmo) acreditem ser verdadeiro. Mas desde que eu deliberadamente escrevi um conto, o qual é construído deliberadamente com ou sem certas idéias “religiosas”, mas não é uma alegoria delas (ou qualquer outra coisa), e não as menciona abertamente, muito menos pregam-nas, não começarei agora a descrevê-las, e me arriscar em pesquisas teológicas das quais não tenho condições. Mas eu poderia dizer que se o conto é “sobre” qualquer coisa (outra senão ele mesmo), não é sobre “poder” como parece amplamente suposto. Busca-pelo-Poder é só o motivo que determina como os eventos ocorrerão, e é relativamente sem importância, eu penso. Está principalmente relacionado a Morte, e Imortalidade; e as “fugas”: longevidade contínua, e armazenamento de lembrança.

Sinceramente

J. R. R. Tolkien.

Notas do Autor

1. Esta leitura foi adotada em impressões posteriores.

2. No Apêndice A de O Senhor dos Anéis (p. 1097) o Rei de Númenor precedendo Ar-Adûnakhôr era Tar-Calmacil; a menção aqui de Tar-Atanamir parece ser nada mais que um deslize. Ver p. 252 de Contos Inacabados.

3. Em outra ocasião Tolkien chamou os outros dois magos de Ithryn Luin, os Magos Azuis; ver p. 428 de Contos Inacabados.

4. No Índice de O Silmarillion os nomes Elrond, Elros, e Elwing são traduzidos como “Abóbada de Estrelas”, “Espuma de Estrelas”, e “Respingo de Estrelas”. Estas interpretações dos nomes são mais recentes que as apresentadas na presente carta.

5. Este parágrafo foi retirado de um outro texto da carta (um rascunho). A versão enviada é mais breve neste ponto.

6. “… mas as regiões habitadas pelos Hobbits dessa época são sem dúvida as mesmas onde eles ainda permanecem: o Noroeste do Velho Mundo, a Leste do Mar. “

valinor

Carta #144

[A Sra. Mitchison havia lido provas de páginas dos primeiros dois volumes da trilogia do Senhor dos Anéis, e escreveu a Tolkien com várias perguntas sobre o livro. A carta da leitora perdeu-se, mas Tolkien tinha uma cópia da resposta enviada]

25 de abril de 1954 76 Sandfield Road, Headington, Oxford

Cara Sra. Mitchison,

Foi rude e ingrato de minha parte não ter acusado o recebimento, ou não ter lhe agradecido pelas suas cartas, presentes, e lembranças anteriores – ainda mais assim, uma vez que seu interesse, de fato, tem sido para mim de grande consolo e encorajamento no desespero que naturalmente acompanha os labores de publicar tal trabalho como O Senhor dos Anéis. Mas o mais infortunado é que isto tenha coincidido com um período de trabalhos excepcionalmente árduos e deveres em outras funções, de forma que às vezes eu tenho estado quase que distraído.

Tentarei responder suas perguntas. Posso dizer que elas são muito bem-vindas. Gosto das coisas desenvolvidas em detalhes, e de respostas fornecidas a todas as perguntas razoáveis. Sua carta vai, eu espero, me guiar em escolher o tipo de informação a ser fornecida (como prometido) em um apêndice, e consolidar meu estilo com os editores. Uma vez que o terceiro volume será bem mais fino que o segundo (os eventos se movem mais rapidamente, e menos explicações são necessárias), haverá, eu acredito uma certa parcela de espaço para tal assunto. Meu problema não é a dificuldade de fornecê-lo, mas de escolher dentre todo o material que eu já compus.

Existe é claro um conflito entre técnica “literária”, e a fascinação de elaborar em detalhes uma Era mítica imaginária(mítica, não alegórica: minha mente não trabalha alegoricamente). Como uma história, eu penso que seja bom que houvesse muitas coisas inexplicadas (especialmente se uma explicação de fato existe); e talvez tenha deste ponto de vista errado em tentar explicar demais, e mostrar muita história passada. Por exemplo, muitos leitores ficaram um tanto perdidos no Conselho de Elrond. E até mesmo em uma Era mítica devem haver alguns enigmas, como sempre há. Tom Bombadil é um (intencionalmente).

Mas como muita história adicional (voltada ao passado) como qualquer um poderia desejar de fato existe no Silmarillion e histórias relacionadas e poemas, compondo a História dos Eldar (Elfos). Eu acredito que no caso (que espero que aconteça) de pessoas suficientes estarem interessadas em O Senhor dos Anéis para pagar o custo de sua publicação, os galantes editores possam considerar imprimir algo disso. O Silmarillion foi escrito, de fato, em primeiro lugar, e eu desejava ter a matéria emitida em ordem histórica, o que teria economizado muita alusão e explicação no livro presente. Mas não consegui que fosse aceito. O terceiro volume foi concluído, é claro, há anos atrás, até onde o conto vai. Terminei tal revisão, como parecia necessário, e irá ser montado quase imediatamente. Enquanto isso estou aplicando os fragmentos de tempo que tenho para fazer versões comprimidas de tal material histórico, etnográfico, e lingüístico para que possa entrar no Apêndice. Se lhe interessar, eu lhe enviarei uma cópia (bastante rústica) do material que lida com Idiomas (e Escrita), Povos e Tradução.

A última tem exigido muito raciocínio. Esta raramente parece ser considerada importante por outros criadores de mundos imaginários, porém talentosos como narradores (como Eddison). Entretanto sou um filólogo, e muito embora devesse gostar de ser mais preciso em outros aspectos e características culturais, isso não está dentro da minha competência. De qualquer maneira “o idioma” é o mais importante, pois a história tem que ser contada, e o diálogo conduzido em um idioma; mas o Inglês não pode ter sido o idioma de quaisquer povos naquele tempo. O que eu tenho de fato feito é comparar o Westron ou a amplamente propagada Língua Comum da Terceira Era com o inglês; e traduzir tudo, inclusive nomes como O Condado que estava no Westron em termos ingleses com alguma diferenciação de estilo para representar diferenças dialetais. Idiomas bastante diferentes da Língua Comum foram deixadas de lado. Com exceção de alguns fragmentos da Fala Negra de Mordor, e alguns nomes e um grito de batalha no Idioma dos Anões, esses são quase totalmente Élficos (Eldarin).

Porém, Idiomas que eram relacionados ao Westron apresentaram um problema especial. Eu os transformei em formas de Língua relacionadas ao inglês. Uma vez que os Rohirrim são representados como recém chegados do Norte, e usuários de um idioma Masculino arcaico relativamente não afetado pela influência do Eldarin, eu transformei os seus nomes em formas como (mas não idênticas a) o Inglês Antigo. O idioma de Vale e do Grande Lago iria, se aparecesse, ser representado como mais ou menos Escandinavo em caráter; mas somente é representado por alguns nomes, especialmente aqueles dos Anões que vieram daquela região. Estes são todos nomes Escandinavos Antigos dos Anões.

Anões são representados como mantendo a sua própria língua nativa mais ou menos secreta, e usando para todos propósitos “exteriores” o idioma dos povos que morassem próximos; eles nunca revelam os seus próprios “verdadeiros” nomes pessoais na sua própria língua.)

Supõe-se que o Westron ou Língua Comum seja derivado do viril idioma Adunaico Númenoriano, difundido dos Reinos Númenorianos nos dias dos Reis, e especialmente de Gondor onde permanece falado em estilo mais nobre e bastante mais antigo (um estilo também usualmente adotado pelos Elfos quando eles usam este idioma). Mas todos os nomes em Gondor, com exceção de alguns de origem supostamente pré-histórica, são de forma Élfica, uma vez que a nobreza Númenoriana ainda usava um idioma Élfico, ou poderia usar. Isto era porque eles tinham sido aliados dos Elfos na Primeira Era, e por essa razão à eles tinha sido concedida a ilha Atlântida de Númenor. Duas das línguas Élficas aparecem neste livro. Elas têm algum tipo de existência, uma vez que as compus com alguma integralidade, como também a sua história e descrição da sua relação. Elas são planejadas (a) para serem definitivamente de um tipo Europeu em estilo e estrutura (não em detalhes); e (b) para serem especialmente agradáveis. O primeiro não é difícil de alcançar; mas o último é mais difícil, uma vez que as predileções pessoais dos indivíduos, especialmente na estrutura fonética de idiomas, varia amplamente, até mesmo quando modificadas pelos idiomas impostos (incluindo sua denominada língua “nativa”).

Entretanto, agradei a mim mesmo. O idioma arcaico de tradição é tencionado para ser um tipo de “Latim-Élfico”, e transcrevendo-o em uma ortografia que se assemelha proximamente aquela do Latim (exceto que o y só é usado como uma consoante, como y em Inglês Yes) a semelhança com o Latim foi aumentada visivelmente. De fato poderia ser dito que é composto em uma base de Latim com dois outros ingredientes (principais) que ocorrem para me dar “prazer fonoestético”: Finlandês e Grego. É, porém menos consonantal que qualquer dos três. Este idioma é chamado de Alto-Élfico ou em seus próprios termos, Quenya.

O idioma ativo dos Elfos Ocidentais (Sindarin ou Elfos-cinzentos) é o idioma usualmente encontrado, especialmente em nomes. Este é derivado de uma origem comum a este e ao Quenya; mas as mudanças foram deliberadamente inventadas para conferir a este um caráter lingüístico muito semelhante (entretanto não idêntico) ao Galês Britânico: porque esse é um caráter que eu acho, em alguns modos lingüísticos, muito atraente; e porque parece se ajustar com o estilo bastante “Céltico” de lendas e histórias contadas por seus oradores.

“Elfos” é uma tradução, talvez agora não muito satisfatória, mas originalmente boa o bastante, da palavra Quendi. São representados como uma raça semelhante em aparência (e mais ainda ao passado longínquo) aos Homens, e em dias antigos da mesma estatura. Eu não entrarei aqui nas suas diferenças dos Homens! Mas eu suponho que os Quendi são de fato nestas histórias muito pouco aparentados com os Elfos e Fadas da Europa; e se eu fosse pressionado a racionalizar, eu deveria dizer que eles realmente representam os Homens com faculdades estéticas e criativas prodigiosamente desenvolvidas, maior beleza e vida mais longa, e nobreza – os Primogênitos, predestinados a desaparecer antes dos Seguidores (os Homens), e em última instância a viver somente pela linha fina do seu sangue que fora misturado com aquele dos Homens, dentre os quais estava o único clamor real para “nobreza”.

Eles são representados como tendo ficado logo divididos em duas ou três, variedades. 1º, Os Eldar que ouviram a convocação dos Valar ou dos Poderes para passar da Terra-média através do Mar para o Oeste; e 2º, os Elfos Inferiores que não responderam a este chamado. A maioria dos Eldar depois de uma grande marcha chegou às Orlas Ocidentais e passaram através do Mar; estes eram os Altos Elfos que cresceram imensamente em poderes e conhecimento. Mas parte deles na ocasião permaneceu nas terras costeiras do Noroeste: estes eram os Sindar ou Elfos Cinzentos. Os Elfos inferiores dificilmente aparecem, exceto como parte dos povos do Reino dos Elfos; da Floresta das Trevas Do norte, e de Lórien, regidas pelos Eldar; seus idiomas não aparecem.

Os Altos Elfos encontrados neste livro são Exilados, que retornaram através do Mar para a Terra-média, depois de eventos que são a questão principal do Silmarillion, parte de um dos principais clãs dos Eldar: os Noldor (os Mestres da Tradição). Ou melhor, um último vestígio destes. Pois o próprio Silmarillion e a Primeira Era terminaram com a destruição do mais antigo Senhor do Escuro (de quem Sauron era um mero tenente), e a reabilitação dos Exilados que voltaram novamente através do Mar. Aqueles que hesitaram eram aqueles que estavam apaixonados pela Terra-média e ainda desejavam a beleza inalterada da Terra dos Valar. Por isso a fabricação dos Anéis; pois os Três Anéis foram precisamente dotados com o poder da preservação, não do nascimento. Embora inviolados, porque eles não foram feitos por Sauron nem foram tocados por ele, eles eram, todavia parcialmente produtos da sua instrução, e em última instância estavam sob o controle do Um Anel. Assim, como você verá, quando o Um se vai, os últimos defensores da tradição e da beleza dos Altos-Elfos são despojados de poder para deter o tempo, e partem.

Eu sinto muito pela Geografia. Deve ter sido terrivelmente difícil sem um mapa ou mapas. Haverá no volume I um mapa de parte do Condado e um mapa geral em pequena escala do cenário inteiro de ação e referência (de qual o mapa ao término de O Hobbit é o canto Nordeste). Estes foram desenhados a partir de mapas menos elegantes pelo meu filho, Christopher, que é instruído neste conhecimento. Mas tive só uma prova e essa teve que voltar. Eu comecei sabiamente com um mapa, e fiz a história ajustada a este mesmo mapa (geralmente com cuidado meticuloso para distâncias). O outro modo quase conduz a pessoa a confusões e impossibilidades, e em todo caso é um trabalho cansativo compor um mapa a partir de uma história – como eu receio que você tenha descoberto.

Não posso enviar-lhe meus próprios mapas de trabalho; mas talvez estes desenhos muito rústicos e não inteiramente precisos, feitos apressadamente e em momentos diferentes para os leitores, seriam de alguma ajuda. Talvez quando a senhora tiver terminado com estes mapas ou feito algumas notas não se importe em os mandar de volta. Eu os acharei úteis para fazer alguns mais; mas não posso dar conta disso ainda. Posso dizer que os mapas de meu filho são lindamente claros, até onde a redução na reprodução permite; mas eles não contêm tudo, ai de mim!

Algumas respostas aleatórias. Dragões. Eles não tinham sido extintos; uma vez que estiveram ativos muito tempo mais tarde, próximo do nosso próprio tempo. Eu disse alguma coisa que sugerisse o desfecho final dos dragões? Se disse deveria ser alterado. A única passagem de que posso pensar é no Vol. I pág. 63: “mas hoje em dia não sobrou nenhum dragão na terra cujo velho fogo seja quente o suficiente”. Mas isso implica, eu penso, que ainda há dragões, se não com a sua completa estatura primitiva. Eu tenho uma longa tabela histórica de eventos do princípio ao Fim da Terceira Era. Está bastante cheia; mas concordo que uma forma pequena, contendo eventos importante para este conto seria bastante útil. Se você quiser cópias datilografadas de algum deste material: ex. Os Anéis de Poder; A Queda de Númenor; as Listas dos Herdeiros de Elendil; a Casa de Eorl (Genealogia); Genealogia de Durin e dos Senhores-Anões de Moria; e O Conto dos Anos (especialmente aqueles da Segunda e Terceira Eras), eu tentarei e conseguirei estas cópias logo.

Orcs (a palavra é até onde me diz respeito derivada de fato do Inglês Antigo orc “demon”, mas só por causa de sua adequação fonética) não é em nenhuma parte claramente declarado para ser de qualquer origem em particular. Mas uma vez que eles são os servos do primeiro Senhor do Escuro, e depois de Sauron, nenhum dos quais poderia, ou iria, produzir coisas viventes, eles devem ser “corrupções”. Eles não são baseados em minha experiência direta; mas devem, suponho, uma boa parte a tradição dos goblins (orcs) (goblin é usado como uma tradução em O Hobbit onde orc só ocorre uma vez, eu acho), especialmente como aparece em George MacDonald, exceto pelos pés macios nos quais nunca acreditei. O nome tem a forma orch (plural yrch) em Sindarin, e uruk na Fala Negra de Mordor.

A Fala Negra só era usada em Mordor; só ocorre na inscrição do Anel, e uma oração articulada pelos Orcs de Barad-dûr¹ e na palavra Nazgûl (cf. nazg na inscrição do Anel). A Fala Negra nunca era usada espontaneamente por quaisquer outras pessoas, e conseqüentemente até mesmo os nomes de lugares em Mordor estão em inglês (para a Língua Comum) ou Élfico. Morannon é justamente Élfico para Portão Negro; cf. Mordor significa Terra Negra, Mor-ia Fenda Negra, Mor-thond Raiz-negra (nome de um rio). Rohir-rim é o nome Élfico (Gondoriano) para as pessoas que se chamavam os Cavaleiros do Marco ou Eorlingas. A formação não é planejada para se assemelhar ao hebreu. Os idiomas Eldarin distinguem em formas e uso entre um “partitivo” ou plural “particular”, e o plural geral ou total. Assim yrch “orcs, alguns orcs, des orques” ocorreu nas págs. 359 e 404; os Orcs, como uma raça, ou o todo de um grupo previamente mencionado teria sido orchoth. Em Élfico-Cinzento os plurais gerais muito freqüentemente eram feitos por adição a um nome (ou a um nome de lugar) alguma palavra significando “tribo, tropa, horda, povo”. Assim Haradrim os Sulistas: Quenya rimbe, Sindarin rim, tropa; Onod-rim os Ents. Os Rohirrim é derivado de roch (Quenya rokko) cavalo, e a raiz Élfica kher – “possuir”; de onde Sindarin Rochir “senhor dos cavalos”, e Rochir-rim “a tropa dos Senhores dos cavalos”. Na pronúncia de Gondor o ch (como em Alemão, Galês, etc) tinha sido suavizado a um som de h; assim em Rochann “Hippia” para Rohan.

Beorn está morto; veja pág. 237. Ele apareceu em O Hobbit. Era então o ano 2940 da Terceira Era (Na contagem do Condado 1340). Nós estamos agora nos anos 3018-19 (1418-19). Entretanto, apesar de sua mudança de forma que sem nenhuma dúvida tinha um pouco de magia, Beorn era um Homem.

Tom Bombadil não é uma pessoa importante – para a narrativa. Eu suponho que ele tenha um pouco de importância como um “comentário”. Eu quero dizer, realmente não escrevo assim: ele é apenas uma invenção (que apareceu primeiro na Oxford Magazine por volta de 1933), e representa algo que sinto ser muito importante, embora não esteja preparado para analisar este sentimento precisamente. Porém, não o teria deixado lá, se ele não tivesse algum tipo de função. Poderia pôr isto deste modo. A história é projetada em termos de um lado bom, e um lado mau, beleza contra feiúra desumana, tirania contra monarquia, liberdade moderada com consentimento contra compulsão que perdeu há muito tempo qualquer objetivo exceto mero poder, e assim por diante; mas ambos os lados em algum grau, conservador ou destrutivo, querem uma medida de controle. Mas se você tem, como se fosse tomado “um voto de pobreza”, controle renunciado, e tira seu encanto em coisas para eles mesmos sem referência para você, assistindo, observando, e até certo ponto sabendo, então a questão dos certos e errados do poder e controle poderia ficar totalmente sem sentido para você, e os meios de poder completamente sem valor. É uma visão pacifista natural que sempre surge na mente quando há uma guerra. Mas a visão de Valfenda parece ser que esta é uma excelente coisa para se ter representada, mas que há de fato coisas que não se pode enfrentar; e das quais sua existência todavia depende. No final das contas só a vitória do Oeste permitirá a Bombadil continuar, ou até mesmo sobreviver. Nada seria deixado para ele no mundo de Sauron.

Na minha mente Tom não tem nenhuma ligação•mente com as Entesposas. O que aconteceu com elas não está resolvido neste livro. Ele é, de certo modo, a resposta para elas no sentido de que é quase o oposto, sendo digamos, Botânica e Zoologia (como ciências) da Poesia, como oposto a Pecuária e Agricultura da praticidade.

Eu acho que de fato as Entesposas tenham desaparecido para sempre, sendo destruídas com os seus jardins na Guerra da Última Aliança (Segunda Era 3429-3441) quando Sauron adotou uma política de devastação da terra, e queimou seus campos tentando retardar o avanço dos Aliados que desciam o Anduin². Elas só sobreviveram na “agricultura” transmitida aos Homens (e Hobbits). Algumas, naturalmente, podem ter fugido para o leste, ou até mesmo foram escravizadas: tiranos até mesmo em tais contos devem ter uma base econômica e agrícola para os seus soldados e forjadores. Se qualquer uma sobreviveu então, elas realmente seriam agora muito estranhas aos Ents, e qualquer reaproximação seria difícil – a menos que a experiência da agricultura industrializada e militarizada as tivesse feito um pouco mais anárquicas. Eu espero que sim. Não sei.

As crianças Hobbits eram adoráveis, mas eu receio que os únicos vislumbres delas neste livro são encontrados no começo do volume I. Um epílogo que dá um vislumbre adicional (entretanto de uma família bastante excepcional) foi tão universalmente condenado que decidi não inseri-lo no livro. Deve-se parar em algum lugar. Sim, Sam Gamgi é de certo modo uma relação de Dr. Gamgee, e o seu nome não teria tomado aquela forma, se eu não tivesse ouvido falar do “tecido de Gamge”; havia, eu acredito, um Dr. Gamgee (sem dúvida da família) em Birmingham quando eu era criança. O nome foi de qualquer modo sempre familiar para mim. Gaffer Gamgi surgiu primeiro: ele era um personagem lendário para meus filhos (baseado em um capataz da vida real, não naquele nome). Mas, como você achará explicado, neste conto o nome é uma “tradução” de um verdadeiro nome Hobbit, derivado de uma aldeia (dedicada à feitura de cordas) anglicanizado como Gamwich (pronúncia Gammidge), perto do Campo da Corda³. Uma vez que Sam era amigo íntimo da família Villa (outro nome de aldeia), fui levado à brincadeira Hobbit de ortografia Gamwichy Gamgi, embora não ache que no verdadeiro dialeto Hobbit a brincadeira desse certo.

Não há oponentes específicos aos Magos – uma tradução (talvez não satisfatória, mas inteiramente distinta de outros termos “mágicos”) do Quenya Élfico, Istari. A origem deles não era conhecida por qualquer um exceto uns poucos (como Elrond e Galadriel) na Terceira Era. Diz-se que apareceram primeiro por volta do ano 1000 da Terceira Era, quando a sombra de Sauron começou a crescer novamente sob uma nova forma. Eles sempre pareceram velhos, mas ficaram mais velhos com os seus trabalhos, lentamente, e desapareceram com o fim dos Anéis. Acreditava-se serem Emissários (nos termos deste conto vindos do Oeste Distante além do Mar), e suas funções própria, mantida por Gandalf, e pervertida por Saruman, era encorajar e instigar os poderes nativos dos Inimigos de Sauron. O oposto de Gandalf era, estritamente, Sauron, em uma parte das operações de Sauron; como Aragorn era na outra.

O Balrog é um sobrevivente do Silmarillion e das lendas da Primeira Era. Assim como Laracna. Os Balrogs, de quem os chicotes eram as armas principais, eram os mais antigos espíritos de fogo destruidor, principais servos do Senhor do Escuro da Primeira Era. Supunha-se que eles tivessem sido todos destruídos na queda das Thangorodrim, sua fortaleza no Norte. Mas aqui descobre-se (normalmente há um remanescente especialmente do mal de uma era para outra) que um deles tinha escapado e refugiado-se sob as montanhas de Hithaeglin(as Montanhas Sombrias). É interessante observar que só Legolas, o elfo, sabe o que a coisa era – e indubitavelmente Gandalf.

Laracna (representando a Língua Comum em inglês “she-lob “ = aranha fêmea) é uma tradução de Élfico Ungol “aranha”. Ela é apresentada como descendente das aranhas gigantes dos vales de Nandungorthin, que encontram-se nas lendas da Primeira Era, especialmente a principal delas, o conto de Beren e Lúthien. Esta é constantemente citada, uma vez que como mesmo Sam nota4 esta história é de certo modo só uma continuação adicional desta lenda. Ambos Elrond (e a sua filha Arwen Undómiel, que se assemelha intimamente a Lúthien em aparência e destino) são descendentes de Beren e Lúthien; e assim como Aragorn, porém muito mais afastado. As aranhas gigantes eram nada mais que descendentes de Ungoliant a mais antiga devoradora de luz, que em forma de aranha ajudou o Senhor do Escuro, mas no final disputou com ele. Não há assim nenhuma aliança entre Laracna e Sauron, o representante do Senhor do Escuro; só um ódio comum.

Galadriel é tão antiga ou mais antiga que Laracna. Ela é a última remanescente dos Grandes entre os Altos-Elfos, e “despertou” em Eldamar, além do Mar, muito antes que Ungoliant viesse para a Terra-média e produzisse suas ninhadas lá…

Bem, depois de um longo silêncio você evocou uma resposta razoavelmente longa. Não longa demais, eu espero, até mesmo para tal interesse delicioso e encorajador. Estou profundamente grato por isso; e espero que todos que moram em Carradale aceitem meus agradecimentos. Sinceramente seu,

J. R. R. Tolkien.

Citações:

1. “Uglúk u bagronk sha pushdug Saruman-glob búbhosh skai.” ADT, pág. 465, ed. unificada;

2. “… enquanto que os jardins das Entesposas estão abandonados: os homens os chamam agora de Terras Castanhas.” ADT, pág. 498, ed. unificada;

3. “Meu bisavô e meu tio Andy depois dele,…. ele teve uma cordoaria perto do Campo da Corda por muitos anos.“ ADT, pág. 642, ed. unificada;

4. “Veja só, pensando assim, estamos ainda na mesma história! Ela está continuando. Será que as grandes histórias nunca terminam?” ADT, pág. 751, ed. unificada.

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Carta #214

[Uma resposta para um leitor que mostrou uma aparente contradição em O Senhor dos Anéis: que no capítulo ´ Uma Festa Muito Esperada´ é declarado que ´Hobbits dão presentes a outras pessoas em seus próprios aniversários; contudo Gollum se refere ao Anel como seu ´presente de aniversário´, e conforme ele adquiriu-o, no capítulo ´ A Sombra do Passado´, indica que seu povo recebia presentes em seus aniversários. A carta do Sr. Nunn continuava: ´Então, uma das seguintes alternativas deve ser verdadeira: (1) o povo de Sméagol não era “do tipo hobbit ” como sugerido por Gandalf (I pág. 62); (2) o costume Hobbit de dar presentes só fora desenvolvido à pouco tempo; (3) os costumes dos Stoors [o povo de Sméagol-Gollum] eram diferentes daqueles dos outros Hobbits; ou (5) [sic] há um erro no texto. Eu ficarei muito grato se você puder dispensar um tempo para empreender alguma pesquisa sobre esse assunto importante.]

[Não datado; provavelmente entre 1958 e 1959.]

Caro Sr. Nunn,

Eu não sou um modelo de erudição; mas no assunto da Terceira Era eu me considero um ´arquivo´ vivo. As falhas que possam aparecer em meu registro são, eu acredito, em nenhum caso devido a erros, que são declarações do que não é verdade, mas omissões e falta de informação, principalmente devido à necessidade de compressão, e na tentativa de introduzir informação ´en passant´ no curso de narrativa que naturalmente tendeu a omitir muitas coisas que não afetam diretamente o conto.

No assunto de costumes de aniversário e as discrepâncias aparentes que você nota, podemos então, eu penso, descartar suas alternativas (1) e (5). Você omite (4).

Com respeito a (1) Gandalf certamente diz no princípio ´ eu suponho´ (pág. 62); mas isso está de acordo com seu caráter e sabedoria. Em idioma mais moderno teria dito ele ´eu deduzo´, se referindo a assuntos que não estavam sujeitos a sua observação direta, mas em qual ele tinha formado uma conclusão baseada em estudo. (Você observará no Apêndice B que os Magos não vieram logo antes do primeiro aparecimento de Hobbits em qualquer registro, sendo que nesse tempo eles já eram divididos em três classes marcantes). Mas ele de fato não duvidou de sua conclusão ´ é na verdade tudo igual, etc. ´ (pág. 63).

Sua alternativa (2) seria possível; mas desde que o registro diz na pág. 35 Hobbits (o qual ele usa qualquer que seja sua origem, como o nome para a raça inteira), e não os Hobbits do Condado, ou povo do Condado, deve-se supor que ele queira dizer que o costume de dar presentes era de alguma forma comum a todas as variedades, inclusive Stoors. Mas desde que sua alternativa (3) seja naturalmente verdade, nós poderíamos esperar enraizado mesmo assim um costume a ser exibido de modo bastante diferente em classes diferentes. Com a reemigração do Stoors de volta para Wilderland em 1356 da T.E., todo o contato entre este grupo retrógrado e os antepassados do povo do Condado estava rompido. Mais de 1100 anos passaram-se antes do Incidente de Déagol-Sméagol (c. 2463). À época da Festa em 3001 da T.E., quando os costumes do povo do Condado são superficialmente reportados à medida que eles afetam a história, o intervalo de tempo era quase 1650 anos.

Todos os Hobbits eram lentos no que diz respeito a mudanças, mas os reemigrantes Stoors estavam regressando para uma vida mais selvagem e mais primitiva de pequenas e decrescentes[1] comunidades; enquanto o povo do Condado nos 1400 anos de sua ocupação tinham desenvolvido uma vida social mais organizada e elaborada, na qual a importância da relação familiar para seus sentimentos e costumes foram fortalecidas através de tradições detalhadas, escritas e orais.

Embora eu tenha omitido qualquer dissertação sobre esse curioso mas característico fato de seu comportamento, os fatos relativos ao Condado poderiam ser mostrados em alguns detalhes. Os Stoors do beira-rio devem, naturalmente, permanecer mais conjeturais.

´Aniversários´ tinham uma importância social considerável. Uma pessoa que celebra seu aniversário era chamada um ribadyan (que pode ser traduzido de acordo com o sistema descrito como um aniversariante). Os costumes ligados aos aniversários tinham, embora profundamente arraigados, tornado-se regulamentados por uma etiqueta bastante rígida; e em conseqüência estavam em muitos casos reduzidos a formalidades: como realmente sugerido por ´ não muito caros como regra´ (pág. 35); e especialmente através da pág. 46 11. 20-26. Com respeito a presentes: em seu aniversário o ´ aniversariante´ tanto dava como recebia presentes; mas os processos eram diferentes em origem, função, e etiqueta. A recepção foi omitida pelo narrador (uma vez que não dizia respeito a Festa) mas era de fato o costume mais velho, e conseqüentemente o mais formal. (Isso diz respeito ao incidente de Sméagol-Déagol, mas o narrador, sendo obrigado reduzir isto para seus elementos mais significantes, e a colocá-lo na boca de Gandalf que fala a um hobbit, naturalmente não fez nenhum comentário sobre um costume que o hobbit (e nós) deveria considerar natural em relação a aniversários.)

Recebimento de presentes: este era um ritual antigo ligado com parentesco. Era originalmente um reconhecimento da ligação do aniversariante de uma família ou clã, e uma comemoração de sua ´incorporação´ formal. [2] Nenhum presente era dado por pai ou mãe para suas crianças em seus (das crianças) aniversários (exclua nos casos raros de adoção); mas era de se supor que o chefe renomado da família desse algo, ao menos como ´lembrança´.

Dando presentes: era uma questão pessoal, não limitada a parentesco.

Era uma forma de ´agradecimento´, e tomada como um reconhecimento de serviços, benefícios, e amizade demostrada, especialmente no último ano decorrido.

Pode ser observado que Hobbits, assim que eles se tornassem ´faunts´ (isso é falantes e andantes: normalmente acontecia no terceiro aniversário deles) davam presentes aos seus pais. Supõe-se que estes eram ´confeccionados´ pelo doador (ou seja: achado, cultivado, ou feito pelo ´aniversariante´), começando em crianças pequenas com buquês de flores selvagens. Esta pode ter sido a origem dos presentes de ´agradecimento´ de distribuição mais ampla, e a razão por que permaneceu ´correto´ no Condado tanto para presentes sendo coisas pertencentes ou produzidas pelo doador. Exemplares de produtos de seus jardins ou artesanato tornaram-se os ´presentes dados´ habituais, especialmente entre os Hobbits mais pobres.

Na etiqueta de Condado, à data da Festa, a ´expectativa de recebimento´ era limitada a primos em segundo grau ou parentes mais próximos, e para os residentes dentro de 12 milhas[3]. Até mesmo aos amigos íntimos (se não aparentados) não era ´esperado´ dar, embora pudesse ocorrer. Os limites das residência do Condado era obviamente uma conseqüencia bastante recente da separação gradual das comunidades e famílias aparentadas, e dispersão de parentes, sob condições a muito tempo organizadas. O presente de aniversário recebido(nenhuma dúvida quanto ser uma relíquia dos costumes de pequenas famílias antigas) deve ser entregue pessoalmente, exatamente na véspera do Dia, ou mais tardar antes do ‘nuncheon’ no Dia do Aniversário. Eles eram recebidos reservadamente pelo ´aniversariante´; e era muito impróprio exibi-los separadamente ou em conjunto – justamente para evitar algum embaraço, como pode acontecer em nossas exibições de presentes de casamento (que teria horrorizado o povo do Condado)[4]. O doador poderia dar o presente em uma bolsa e demonstrar sua afeição sem incorrer em comentário público ou ofender (qualquer um) qualquer outro além do recebedor. Mas o costume não exigia presentes caros, e um Hobbit ficaria mais prontamente lisonjeado e encantado por um presente inesperadamente ´bom´ ou desejável que ofendido por uma habitual lembrança de boa-fé da família.

Um sinal disto pode ser visto no relato de Sméagol e Déagol – modificado pelos caráteres individuais destes seres bastante infelizes. Déagol, evidentemente um parente (como sem dúvida eram todos os membros da pequena comunidade), já tinha dado seu presente habitual à Sméagol, embora eles provavelmente tenham partido em sua expedição de manhã bem cedo. Sendo uma alma pequena e má, ele invejou-o. Sméagol, sendo pior e mais avarento, tentou usar o ´aniversário´ como uma desculpa para um ato de tirania. ´Porque eu o quero´ era a declaração franca de sua principal intenção. Mas ele também sugeriu que o presente de Déagol era uma lembrança pobre e insuficiente: em conseqüência Déagol replicou que pelo contrário, aquilo era mais que ele poderia dispor.

A distribuição de presentes pelo ´aniversariante´ – deixando de lado o caso de presentes para pais[5], mencionado acima – sendo pessoal e uma forma de agradecimento, variava muito mais em forma em tempos e lugares diferentes, e de acordo com a idade e importância do ´aniversariante´. O mestre e mestra de uma casa ou toca, no Condado, daria presentes a todos sob seu teto, ou a seu serviço, e normalmente também a vizinhos próximos. E eles poderiam estender a lista como bem entendessem, lembrando-se de quaisquer favores especiais durante o último ano. Era entendido que a oferta de presentes não era firmada por regra; embora a recusa em dar um presente habitual (como por exemplo para uma criança, um criado, ou um vizinho próximo de porta) era tomada como uma repreensão e marca de desgosto severo. Adolescentes e hóspedes (que não têm casa própria) não tinham tais obrigações como os donos da casa; mas eles normalmente davam presentes de acordo com sua posses e afetos. ´Não muito caro como regra´ – aplicados à todos os presentes. Bilbo era tanto nisto como em outros assuntos uma pessoa excepcional, e a Festa dele era até mesmo uma absurdo de generosidade para um Hobbit rico. Mas uma das cerimônias mais comuns de aniversário era dar uma ´festa´ – na noite do Dia do Aniversário. Para todos aqueles convidados eram dados presentes pelo anfitrião, que eram esperados, como parte do entretenimento (sendo secundária a comida oferecida). Mas eles não trouxeram presentes com eles. O povo do Condado teria pensado que seria muito impróprio. Se os convidados já não tivessem dado um presente (sendo um daqueles exigido pelo parentesco), era tarde demais. Para outros convidados seria uma coisa ´não feita´ – pareceria como se estivessem pagando a festa ou comparando festa e presente, e isso era muito embaraçoso. Às vezes, no caso de um amigo muito querido estar impossibilitado vir a uma festa (por causa de distância ou outras causas) um convite simbólico seria enviado com um presente. Neste caso o presente era sempre algo que comer ou beber, com propósito de ser uma amostra do bufê da festa.

Eu acho que será notado que todos os detalhes registrados como ´fatos´ ajustam-se a um quadro definido de sentimento e costume, entretanto este quadro não é esboçado até mesmo na forma incompleta desta nota. Poderia, claro, ter aparecido no Prólogo: por exemplo no meio da pág. 12. Mas embora eu tenha cortado uma grande parte, aquele Prólogo ainda é muito longo e sobrecarregou até mesmo a esses críticos que permitam que tenha algum uso, e não faz (como alguns) avisos aos leitores para esquecê-lo ou saltá-lo.

Incompleto como é, esta nota pode parecer a você muito muito longa; e embora você tenha pedido, é mais do que você perguntou. Mas eu não vejo como eu poderia ter respondido suas questões mais brevemente e de um modo que pudesse satisfazer os elogios que você me faz em ter um interesse em Hobbits suficiente para preencher a lacuna na informação fornecida.

Porém, o fornecimento de informação sempre abre vistas adicionais; e você verá indubitavelmente que o breve relato de ´presentes´ ainda abre mais assuntos antropológicos implícitos para tais termos como parentesco, família, clã, e assim por diante. Eu aventuro-me a somar uma nota adicional neste ponto, para que não, considerando o texto a luz de minha resposta, você deva senti-se inclinado a investigar mais adiante sobre a ´avó de Sméagol´, a qual Gandalf descreve como uma regente (de uma família de reputação alta, grande e mais rica que a maioria, pág. 62) e até mesmo a chama de uma ´ matriarca´ (pág. 66).

Até onde eu sei Hobbits eram universalmente monógamo (realmente eles muito raramente casavam uma segunda vez, até mesmo se esposa ou marido morressem muito jovens); e eu deveria dizer que seus arranjos familiares eram ´patrilinear´ em lugar de patriarcal. Quer dizer, seus nomes de família descenderam em uma linha-masculina (as mulheres adotavam os nomes dos maridos); também o chefe titular da família normalmente era o macho mais velho. No caso de grandes famílias poderosas (como o Tûks), ainda coerente até mesmo quando eles tinham ficado muito numerosos, e mais o que nós poderíamos chamar clãs, o chefe era corretamente o macho mais velho que era considerado a linha mais direta da descendência. Mas o governo de uma ´ família´, como uma unidade real : o ´lar´, não era uma monarquia (exceto por acidente). Era um ´ duarquia´ no qual o mestre e mestra tinham posições sociais iguais, talvez com funções diferentes. A qualquer um era assegurado o direito de ser o representante formal do outro no caso de ausência (inclusive morte). Não havia ´ viúvas dotadas´. Se o mestre morresse primeiro, o lugar dele era tomado pela esposa, e isto incluiu (se ele tivesse assegurada aquela posição) a chefia titular de uma grande família ou clã. Este título não descenderia ao filho, ou a outro herdeiro, enquanto ela vivesse, a menos que ela abdicasse voluntariamente[6]. Poderia, então, acontecer em várias circunstâncias que uma mulher de idade avançada de caráter forte permanecesse ´chefe do família´, até que ela tivesse os netos crescidos.

Laura Bolseiro (neé Grubb) permaneceu ´chefe´ da família dos ´Bolseiros de Hobbiton´, até seus 102 anos. Como ela era 7 anos mais jovem que seu marido(que morreu com a idade de 93 em RC-1300), ela manteve esta posição durante 16 anos, até RC-1316; e seu filho Bungo não se tornou ´chefe´, até ele ter 70, dez anos antes que ele morresse com a prematura idade de 80. Bilbo não o sucedeu até a morte de sua mãe Tûk, Beladona, em 1334, quando ele tinha 44.

A liderança dos Bolseiros então, devido aos eventos estranhos, entra em dúvida. Otho Sacola-Bolseiros era o herdeiro a este título – totalmente aparte de questões de propriedade que teriam surgido se seu primo Bilbo tivesse morrido intestado; mas depois do fiasco legal de 1342 (quando Bilbo retornou vivo depois de ser ´dado como morto´) ninguém ousou presumir a morte dele novamente. Otho morreu em 1412, seu filho Lotho foi assassinado em 1419, e sua esposa Lobelia morreu em 1420. Quando Mestre Samwise informou a ‘partida para o Mar´ de Bilbo (e Frodo) em 1421, ainda sim foi impossível presumir morte; e quando Mestre Samwise tornou-se Prefeito em 1427, uma regra foi feita que: ´se qualquer habitante do Condado for para o Mar na presença de uma testemunha fidedigna, com a intenção expressa de não retornar, ou em circunstâncias que impliquem tal intenção claramente, ele ou ela será julgado para que seja renunciado todos os títulos de direito ou propriedades previamente assegurados ou ocupados, e o herdeiro ou os herdeiros deles entrarão em seguida de posse destes títulos, direitos ou propriedades, como é ordenado por costume estabelecido, ou pelo testamento e disposição do morto, como o caso possa requerer. Presumivelmente o título de ´chefe´ passou então aos descendentes de Ponto Bolseiro – provavelmente Ponto (II).

Um caso famoso, também, era o de Lalia a Grande (ou menos cortesmente a Gorda). Fortinbras II, uma vez chefe dos Tûks e Thain, casou com Lalia dos Clayhangers em 1314, quando ele tinha 36 e ela 31. Ele morreu em 1380 aos 102 anos, mas ela viveu longamente após ele, tendo um fim triste em 1402 com a idade de 119. Assim ela comandou os Tûks e Os Grandes Smials durante 22 anos, um grande e memorável, se não universalmente amado, ´matriarcado´. Ela não estava na famosa Festa (RC-1401), foi assim aconselhada não só por seu grande tamanho e imobilidade, como também pela idade. O filho dela, Ferumbras, não teve nenhuma esposa, sendo incapaz (como alegava) de achar qualquer um que quisesse ocupar apartamentos nos Grandes Smials, sob o comando de Lalia. Lalia, em seus últimos e mais gordos anos, tinha o costume de ser levada na cadeira de rodas para a Grande Porta, para tomar ar nas manhãs agradáveis. Na primavera de RC 1402, sua desajeitada assistente deixou a pesada cadeira correr além da soleira, derrubando Lalia degraus abaixo, indo parar no jardim. Assim terminou um reinado e vida que poderiam bem ter rivalizado com o do Grande Tûk.

Eram grandes os rumores que a assistente era Pérola (a irmã de Pippin), entretanto os Tûks tentaram manter o assunto dentro da família. Na celebração de ascensão de Ferumbras o desgosto e pesar da família foram expressos formalmente pela exclusão de Pérola da cerimônia e banquete; mas não escapou a notícia que mais tarde (depois de um intervalo decente) ela apareceu com um colar esplêndido com as jóias que lhe davam seu nome, que a muito havia pertencido aos bens dos Thains.

Costumes eram diferentes em casos onde o ´chefe´ morria sem deixar nenhum filho. Na família Tûk, desde que o comando era também ligado ao título e (originalmente militar) cargo de Thain[7], a descendência era estritamente através da linhagem masculina. Em outras grandes famílias o comando poderia passar por uma filha do finado direto ao neto primogênito deste (independente da idade da filha). Este último costume era habitual em famílias de origem mais recente, sem registros antigos ou mansões ancestrais. Em tais casos o herdeiro (se ele aceitasse o título de cortesia) toma o nome de família de sua mãe – embora ele freqüentemente tomasse o da família de seu pai também (colocado em segundo). Este era o caso com Otho Sacola-Bolseiro. O comando nominal dos Sacolas tinha vindo através de sua mãe Camélia. Era sua ambição, bastante absurda, alcançar a distinção rara de ser ´chefe´ de duas famílias (ele provavelmente teria se chamado então Bolseiro-Sacola-Bolseiro): uma situação que explicará sua exasperação com as aventuras e desaparecimentos de Bilbo, totalmente aparte de qualquer perda de propriedade envolvida na adoção de Frodo.

Eu acredito que foi um ponto discutível na tradição Hobbit (o qual a decisão do Prefeito Samwise preveniu de ser discutida neste caso de particular) se ´adoção´ por um ´chefe´ sem filhos poderiam afetar a descendência do comando. Era concordado que a adoção de um membro de uma família diferente não pudesse afetar o comando, sendo uma questão de sangue e parentesco; mas havia uma opinião que adoção de um parente íntimo do mesmo nome[8] antes que ele fosse de maior idade, o habilitava a ter todos os privilégios de um filho. Esta opinião (mantida por Bilbo) foi contestada naturalmente por Otho.

Não há nenhuma razão para supor que os Stoors de Wilderland tivessem desenvolvido um sistema estritamente ´matriarcal´, chamando corretamente. Nenhuma pista de tal coisa foi achada entre o elemento Stoor em Eastfarthing e Buckland, entretanto eles mantinham várias diferenças de costumes e leis. O uso de Gandalf (ou propriamente seu relato e o uso do tradutor) da palavra ´matriarca´ não era ´antropológico´, mas significava simplesmente uma mulher que de fato comandou o clã. Nenhuma dúvida que ela tinha sobrevivido ao marido e era uma mulher de caráter dominante.

É provável que, no recessivo e decadente território Stoor de Wilderland, a tribo de mulheres (como freqüentemente será observado em tais condições) tendeu a preservar melhor o caráter físico e mental do passado, e assim tornou-se de importância especial. Mas não é (eu penso) suposto que qualquer mudança fundamental em seus costumes matrimoniais tenham acontecido, ou qualquer tipo de sociedade matriarcal ou poliândrica desenvolveu-se (embora isto pudesse explicar a ausência de qualquer referência ao pai de Sméagol-Gollum). ´Monogamia´ era praticada universalmente neste período no Oeste, e outros sistemas eram vistos com repugnância, como coisas só feitas ´sob a Sombra´.

Eu na verdade comecei esta carta quase quatro meses atrás; mas nunca foi terminada. Logo após ter recebido seus questionamentos minha esposa, que tinha estado doente a maior parte de 1958, celebrou o retorno da saúde com uma queda no jardim, esmagando seu braço esquerdo tão gravemente que ela ainda está incapacitada e engessada. Assim 1958 foi um ano quase completamente frustrado, e com outros problemas, e a iminência de minha aposentadoria que envolve muitas reestruturações, eu não tive nenhum tempo para trabalhar no Silmarillion. Muito embora eu deseje fazê-lo (e, felizmente, Allen e Unwin também parecem querer o mesmo).

[O rascunho termina aqui.]

Notas

[1] entre 2463 e o começo dos questionamentos especiais de Gandalf com relação ao Anel (quase 500 anos depois) eles aparecem ter desaparecido completamente(exceto, é claro, para Sméagol); ou ter fugido da sombra de Dol Guldur.

[2] Antigamente isto aconteceu aparentemente, logo após nascimento, pelo anúncio do nome da criança para a família agregada, ou em comunidades maiores e mais elaboradas para o ´chefe´ titular´ do clã ou família. Veja nota no fim.

[3] Conseqüentemente a expressão Hobbit ´um primo de doze-milhas´ para uma pessoa excluída pela lei, e não é reconhecida nenhuma obrigação além de sua interpretação precisa: aquele que não daria à você nenhum presente se a distância do degrau de entrada dele para seu não estivesse abaixo de 12 milhas (de acordo com a própria medida dele).

[4] Nenhum presente era dado no ou durante a celebração de casamentos de Hobbits, exceto flores (casamentos eram realizados principalmente na Primavera ou nas manhãs do Verão). Ajuda em mobiliar uma casa (se o casal fosse ter uma em separado, ou apartamentos privados em um Smial) era dada muito antes pelos pais de qualquer lado.

[5] Em comunidades mais primitivas, como aquelas ainda vivendo em clã-smials, o aniversariante também fazia um presente para o ´chefe da família´. Não há nenhuma menção dos presentes de Sméagol. Eu imagino que ele era um órfão; e não suponho que ele desse qualquer presente em seu aniversário, guardava (de má vontade) o tributo para sua ´avó´, provavelmente peixe. Um das razões, talvez, para a expedição. Teria sido como Sméagol dar peixe, mas de fato pego por Déagol!

[6] Nós estamos aqui só tratando com ´chefe´ titular não com possessão de propriedade, e sua administração. Estas eram questões distintas; embora no caso da sobrevivência das ´grandes casas´, como Grande Smials ou Salas de Brandy, elas poderiam sobrepor. Em outros casos o comando, sendo um mero título e um assunto de cortesia, era naturalmente raro ser renunciado pelo herdeiro.

[7] Este título e ocupação descendem imediatamente, e não foi mantido por uma viúva. Mas Ferumbras, embora ele se tornasse Thain Ferumbras III em 1380, ainda sim ocupou nada mais que um pequeno apartamento de um filho solteiro no Grande Smials, até as 1402.

[8] os descendentes de um bisavô comum do mesmo nome.