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As 10 Melhores Manchetes da Edição deste mês da Revista Cosmopolitan

As 10 Melhores Manchetes da Edição Terra-média deste mês da Revista Cosmopolitan (cuja capa é estrelada por Éowyn em uma mínima malha de ferro com um decote simplesmente lin-do)

 por Idril Celebrindal


 

 

10. Como transformar o seu Homem em um Orc na cama: O toque de dois segundos que vai levá-lo à loucura!

9. Segredos de beleza das Rainhas Numenorianas

8. Ela é ela, ou ela não é uma ela? Resolvendo os problemas de namoro entre os anões

7. "Eu me apaixonei pelos cachinhos dos seus dedões!" – O que mais excita os caras Hobbit

6. Relacionamentos Elfo-Humano: O que Lúthien, Idril, Mithrellas, e Arwen nunca te contaram

5. Faça o nosso Cosmo-Teste: Com qual herói da Primeira Era você iria pra cama, e por que?

4. Novos modelos de armaduras para a Primavera

3. Galadriel: Poder, cérebro, e beleza (Uma entrevista com uma Cosmo Celebridade)

2. Transformação para Entesposas: Tirando o máximo de proveito das suas bochechas de maçã

… e a manchete número um na Edição Terra-média da Cosmo é:

1. Sutiã de Mithril: Não é mais somente para as donzelas élficas

 

A Queda das Sete Estrelas

Prólogo

Passaram-se dois dias desde que seu marido Harry tinha partido para a guerra em Varnai. Ariel sentada na poltrona tricotava uma roupinha para o bebê que esperava. Localizava-se perto da janela de maneira que a brisa vinha correr por ali refrescando-a, pois era verão e os dias ali costumavam ser quentes.

Ela pensava em Harry quando sentiu um liquido escorrer por suas pernas. Assustada percebeu que era hora. Imediatamente parou seu tricô e gritou. Para sua sorte a vizinha Talra estava ali. Rapidamente veio correndo da copa.

Ariel, o que foi? – Talra perguntou assustada.

A bolsa rompeu – respondeu ela.

A amiga surpresa ajudou- a ir para o quarto. Lá a deitou e já colocando na posição de parto. Pediu que respirasse fundo enquanto ia buscar a parteira. Saiu do recinto ao som dos gemidos de dor de Ariel.

Nos momentos que permaneceu sozinha seus pensamentos foram para Harry. Queria ele ali para ver o bebê. Tinha certeza que sua alegria seria tanta que só de vê-lo esqueceria de toda a dor do parto. Mas o destino não quis assim. A guerra os separara. Temia tanto que não retornasse. Assim como todas em Anfalâr que tinham sido separadas de seus maridos.

A dor que sentia não era o que mais a feria e sim o medo por seu marido. Enquanto poderia estar ali junto a ela durante aquele momento, estava em lugar distante lutando, sem saber se iria voltar ou não. Isso a fazia chorar e desejar que a criança que estava para nascer não tivesse que viver num mundo onde os pais não conhecem os filhos por que estão na guerra.

Depois de alguns minutos Talra voltou com a parteira. A elfa baixinha chegou e logo preparou tudo. Assim, todas as coisas necessárias foram levadas para ali. Ariel  continuou em trabalho de parto “tranqüila”. Depois de várias horas de gritos de dor de Ariel ouviu-se choro significando o nascimento da criança.

Era um menino muito parecido com o pai, possuía os mesmo cabelos castanhos de Harry e olhos iguais aos da mãe que eram azuis.

A parteira segurou o bebê, cortou o cordão umbilical e entregou a mãe. Ariel exausta do parto ao ver a criança chorou feliz por que tudo correra bem. Olhou para o menino e viu o pai dele. Exatamente aquele que havia conquistado seu coração anos atrás. Então decidiu chama-lo de Renato. Pois para ela Harry renascia ali.

Depois daquele momento os dias foram felizes. O filho de Talra havia voltado da casa da avó. O bebê de Ariel crescia feliz e saudável. Entretanto as notícias de Varnai não chegavam preocupando as esposas dos que haviam partido.

Um ano se passou e Renato continuava a crescer forte e bem. Ele já brincava com o filho de Talra que tinha dois anos. Naquele dia ele estava na varanda da casa com o amiguinho, quando Talra entrou na casa de Ariel gritando: – Ariel, venha, eles chegaram. Nossos maridos retornaram!

Aonde estão?- perguntou ela curiosa, parando tudo o que fazia.

Estão na entrada da cidade – afirmou a vizinha.

Exatamente depois de ouvir as palavras da amiga ela saiu em disparada seguida por Talra. Chegando lá viu alguns poucos elfos marchando com as expressões desoladas no rosto. Ficou a procurar o rosto de Harry, mas não via. Começou a sentir-se apreensiva, assim como todas as outras que não encontravam seus maridos dentre os que retornavam.

Ariel não o achando perguntou para um dos que chegavam:

– Por favor poderia me dizer se esses foram os únicos que retornaram daqui?

 Sinto muito senhora não há mais nenhum sobrevivente – afirmou o elfo tentando ser o mais gentil possível.

Foi como se o mundo tivesse caído, suas pernas tremeram mas felizmente conseguiu segurar o baque. Porém não parou por aí, começou a se sentir sufocada no meio daquela gente, então começou a correr desesperada enquanto as lágrimas caíam. Chegou em casa pegou seu filho que brincava, entrou e o abraçou desabando a chorar. Geldan também pranteava mas não era por causa da morte do pai e sim era por que ela o havia separado de sua brincadeira. Afinal ele não podia chorar por quem não conhecia.

Ariel ficou algumas horas sentada ali soluçando, abraçada ao pequeno Geldan tentando não acreditar que aquilo era verdade. Só se levantou dali quando ouviu os gritos da amiga. Ela caiu em total desespero quando soube que seu marido jamais voltaria. Ariel deixou o filho que já dormia, em sua caminha, enxugou as lágrimas do rosto e foi ver o que se passava com Talra.

Saiu de casa correndo e deu de cara com Talra em frente à cerca, berrando:

– Não é possível, ele não pode fazer isso comigo não tem direito de me abandonar aqui sozinha.

Começou a andar em direção a sua moradia, com Ariel olhando espantada seu comportamento. Preocupada com a amiga se aproximou.

– Tudo bem com você?

Talra virou com uma cara de poucos amigos e respondeu:

– Claro que está tudo bem eu só perdi meu marido para sempre, também terei de criar meu filho sozinha além do dinheiro que terei de arranjar magicamente, mas, Ariel, claro que está tudo bem!

Concluiu suas palavras a amiga entrando pela porteira do quintal e indo para casa. Ariel ficando assustada com os dizeres de Talra temeu por ela. Então seguindo-a também atravessou a porteira no entanto quando botou a mão para abrir a porta, estava trancada. Sua mente logo pensou no pior. Desesperada Ariel gritou:

– Talra abra essa porta, vamos conversar, não faça isso. Eu sei que é difícil mas podemos passar por isso juntas!

No entanto ninguém respondeu. Quase já perdendo as esperanças começou a chorar pela amiga, quando uma idéia veio-lhe a cabeça. Quem sabe, talvez desse tempo. Levantou o vestido até o joelho para que pudesse correr melhor e disparou em direção a casa de sua outra vizinha Mariel cujo esposo havia retornado. Iria pedir a ele para ajudá-la a derrubar a porta.

 

Yuri, o marido de Mariel, prontamente decidiu ajudar. Chegando lá rapidamente pôs abaixo a porta. Ariel entrou chamando o nome da amiga com esperança de que ainda estivesse viva. No entanto suas previsões se confirmaram, encontrou Talra caída na cozinha com os pulsos cortados. Ariel desconsolada caiu de joelhos no chão, abraçou o corpo e chorou. Yuri ficou triste ao ver aquela cena. Ele se aproximou pôs a mão no ombro de Ariel e disse:

– Sinto que tenha terminado assim.

Ela nada disse, continuou a chorar a morte de Talra. Ele a deixou alguns minutos ali depois a afastou e pediu que fosse para casa. Ariel calmamente atendeu ao pedido e se retirou. Desolada caminhou pensando nos momentos bons com Talra.

Chegou em casa e viu Lucas filho da amiga sentadinho no sofá esperando que a mãe viesse busca-lo, mas mal sabia el
e que ela nunca viria. Ariel olhou e teve pena. Se aproximou, o pegou no colo.  O menino curioso, perguntou:

– Cadê mamãe?

Ariel comovida, respondeu:

– Sua mãe sou eu.

Disse isso e o levou para o quarto.

 

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Capitulo Um

Passaram-se dezessete anos desde a morte de Talra. Lucas cresceu, assim como Geldan, sendo já quase adultos.  Ambos ainda moravam com Ariel e se dependesse dela não saíram tão cedo, pois tinha medo que lhes ocorresse algo de ruim longe de sua proteção.

No entanto os dois já eram grandes e muito difíceis de se manter longe de confusão, principalmente Lucas. Desde o fim da guerra em Varnai o numero de Viúvas aumentara drasticamente no Vilarejo. Como Lucas era um belo jovem ainda mais com o sangue quente da mãe foi fácil arranjar várias amantes.

Com Geldan não acontecia o mesmo. Não querendo dizer que não fosse belo também ou não gostasse daquilo, mas o fato era que sua cabeça voava longe o fazendo ir sempre para pradarias distantes onde vivia as mais incríveis aventuras. Assim não sobrava tempo para pensar nas elfas. Mesmo assim ainda haviam aquelas que suspiravam por ele.

 Era mais difícil se meter confusão, no entanto quando se envolvia numa fazia Ariel quase arrancar o cabelos de preocupação. Como aconteceu esse ano.

Era mais ou menos por volta da meia noite e Lucas caía de bêbado na taverna da aldeia. Em vão Geldan tentava levá-lo para casa antes de passar mal. Ele, ao irmão de criação, dizia:

– Chega, Lucas, você já bebeu demais. Vamos para casa.

– Não, vou ficar e beber mais!

De repente a porta da taverna abriu e entrou um sujeito trôpego, andava semelhante a um bêbado, mas não parecia estar e sim exausto de tal forma que suas pernas mal suportavam seu peso. Ele foi adentrando no estabelecimento e começando falar.

Durante alguns dias tenho vagado pelas Aldeias dessa região em busca de ajuda para encontrar minha filha que desapareceu na floresta de Wilol.

Os ali presentes ao ouvirem o nome do lugar sentiram um frio na espinha e declinaram com a exceção de Geldan que levantou se oferecendo. Sentia dentro dele um fogo queimando, ele o empurrava para o desafio não sabia como.

É só isso que vocês podem. Um garoto é o único com coragem aqui, bando de covardes – disse vendo que o único a levantar foi Geldan.

Lucas vendo a atitude de seu irmão levantou meio torto e segurou nos ombros dele e começou a sacudi-lo gritando:

– Enlouqueceste Geldan, seu idiota, acabaste de assinar sua sentença de morte. Tu sabes bem o que há em Wilol e conhece o destino dos que lá entram!

Geldan se livrou dos braços do irmão que sacudiam.

Eu só queria ajudar – exclamou.

– E em algum momento pensou na mãe, sabe como a faz sofrer quando se mete em encrenca?

– Até parece que apenas eu a faço sofrer e você quando some porque está com aquelas piranhas velhas!

Lucas ficou vermelho feito um tomate, irado partiu para cima de Geldan. Como estava alcoolizado foi meio atabalhoado atacar. Seu irmão sóbrio desviou facilmente de sua investida e contra-atacou com um forte cruzado de esquerda derrubando-o. Ia bater mais, no entanto para a felicidade de Lucas os elfos dali o seguraram impedindo Geldan de ferir gravemente seu irmão.

O pessoal da taverna revoltado com o sujeito que provocara a briga o hostilizou. O elfo envergonhado com que causara, falou:

Não tinha a intenção de provocar nenhuma briga e sim conseguir ajuda para encontrar minha, então irei sozinho – retirando se do lugar.

Espere eu ainda vou com você – exclamou Geldan saindo do meio da confusão e indo atrás dele.

Não precisa garoto. Fique, parece que tem tantos problemas para resolver quanto eu – disse o sujeito virando e falando frente a frente com Geldan.

Não precisa se preocupar isso é normal acontecer entre eu e Lucas – esclareceu a situação.

O elfo olhou para ele comovido pela vontade de ajudar, mas com uma expressão de negação no rosto partiu deixando a aldeia. Geldan tentou ir atrás dele e continuar negociando a ida, mas Joatez o segurou impedindo que seguisse.

Joatez era como um pai para ele, desde a morte de seu pai havia assumido a responsabilidade junto a sua mãe para ajudar a criá-lo. A amizade com sua família vinha da relação que tinha com seu pai. Assim toda vez que aprontavam lá estava ele a dar bronca junto com Ariel.

Puxou-o de volta para a taverna falando:

– Meu rapaz, não gostei nada do que fez  aqui a Lucas, ele é seu irmão não pode tratá-lo como inimigo.

– Mas ele que começou falando de mim. Disse que só eu preocupava a mãe. Esquece que ele também a perturba em seu sono com seus “encontros amorosos”.

– Em vez de vocês ficarem acusando um ao outro porque não param e respeitam mais sua mãe parando de se envolver em confusão.

Ah!, não dá para ter uma boa relação com Lucas – exclamou irritado Geldan.

Claro que dá e eu vou te mostrar isso – afirmou Joatez.

Levou-o até seu irmão que estava sentado em uma mesa da taverna. Ele dormia tranqüilamente com a cabeça apoiada nela. Joatez trazendo Geldan junto parou à frente dele e disse baixinho ao pé do ouvido:

– Veja como dá, sente-se aí e converse um pouco com seu irmão e aproveite e faça as pazes.

Joatez se virou para continuar seus afazeres, pois era o dono da taverna. Assim deixando sozinho com Lucas.

Geldan sentou na mesa e o acordou. Ele olhou cheio de sono mas raiva ainda estava em seu olhar. Levantou parte do seu corpo que estava apoiada no móvel, ficando sentado direito. Fitou seu irmão com ódio e o interrogou:

– O que faz aqui, Não satisfeito com o que fez?

– Joatez me trousse aqui para fazer as pazes.

– Que pazes?

Se não quer minhas desculpas tudo bem assim me poupa trabalho e tempo, é só falar que eu vou embora! – exclamou Geldan levantado para se retirar.

Tudo bem! Tudo bem! Eu aceito suas desculpas, agora sente! – pediu Lucas

Geldan voltou para onde estava e Lucas começou a falar:

– Eu errei a falar aquilo daquele jeito para você me perdoe, mas não podia deixar se meter em encrenca. Lembra do que aconteceu com minha mãe, Talra, por causa da morte de meu pai, se alguma te ocorre Ariel não iria agüentar e eu perderia minha segunda mãe.

Geldan ficou surpreso com a confissão do seu irmão e também confessou:

– Não pude resistir quando aquele sujeito falou daquela floresta alguma coisa me empurrou tive de levantar.

– Mas, geldan, que impulso é esse que não pode agüentar?

– Sei lá, só sei que acende um fogo em meu coração quando Wilol é mencionada. Lucas tenho que ir lá, sinto algo esquisito e para  descobrir qual o  seu significado Wilol é começo.

Seu irmão ficou parado sem nada a dizer, tentando entender direito às palavras de Geldan. Depois de alguns segundos falou:

– Como assim ir lá?

– Partir rumo a Wilol – respondeu sem medo Geldan

– Está delirando, isso é loucura.

– Eu sei, mas sinto que nossas vidas dependem disso.

– Só que se formos lá aí que não teremos mais vida. Tu sabes bem aquilo é morte certa.

Mais meu coração me empurra – retrucou Geldan.

Seu coração está louco, eu digo é melhor irmos para casa que já é tarde e nada melhor do que uma noite de sono para acalmar os desvaneios de hoje – Terminou o assunto Lucas.

Assim concluíram aquela conversa e foram para casa. Despediram-se de Joatez e saíram da taverna subindo a rua em direção ao lar. Chegaram lá estava tudo apagado significando que Ariel dormia. Entraram devagarzinho para não acorda-la. Dirigiram-se ao quarto lentamente, foram caminhando pelo corredor. Ali rapidamente tiraram os sapatos para dormir. No entanto único a dormir foi Lucas por que Geldan ficou acordado pensado, até não agüentar mais e levantar, arrumar suas coisas e partir.

Saindo ele desceu a rua e tomou a direção para Wilol. Olhou para o horizonte cheio de colinas encobertas da nevoa noturna e quis ver o paredão verde da floresta.

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Capitulo Dois

Amanheceu tranqüilo na Aldeia. Como todo dia Ariel levantou cedo para preparar o café. Olhou pela janela o sol brilhar por entre as colinas, sentiu-se bem e pensou “nada como um dia novo para renovar o animo”. Estava pondo a comida na mesa quando Lucas entrou bocejando e sentou. Olhou faminto para a refeição, mas Ariel sinalizou para ele esperar o irmão. Lucas não entendendo afirmou:

– Mas ele já levantou, Ariel.

– Ainda não.

Levantou sim, não está no quarto – reafirmou Lucas

– Que estranho eu não o vi por aqui.

Deve ter tido ataque de sonâmbulo e ido dormir na sala, quer ver Lucas – concluiu Ariel indo procurar.

No entanto nenhum sinal dele ali, foi no seu quarto idem, foi no quarto dos dois também nada e por foi ao quintal para ter o resultado, ou seja, nada dele em casa. Ariel voltou para cozinha e perguntou a Lucas:

– Lucas o Geldan te disse se ia sair hoje cedo?

– Não ele não falou nada.

 Ué onde se meteu esse menino? – perguntou a si mesma.

Lucas começou a suspeitar para onde Geldan, só podia ter ido a Wilol. Quando tirou essa conclusão deu um soco na mesa de raiva, afinal de tinha pedido para não ir. Acalmou suas idéias e ficou a pensar. Chegou a uma conclusão, tinha que traze-lo e para isso só havia uma coisa a fazer.

Levantou da mesa e foi até onde Ariel estava. Ela no fundo do quintal, se localizava, sentada em pedaço de troco com as mãos apoiando a cabeça. Pensava no paradeiro de seu filho quando Lucas chegou e falou:

– Ariel por que você na vai a taverna e ver se ele está lá, talvez tenha ido cedo para lá e esquecido de avisar.

Boa idéia Lucas – disse ela indo.

Deu certo em sua primeira parte agora só faltava trazer seu irmão de volta. Com falsa possibilidade dada Ariel dava tempo de pegar suas coisas e partir. Assim fez, colocou tudo necessário para uma pequena viagem em sua mochila e pé na estrada.

Geldan nem procurava pensar na reação de Ariel em casa. Não imaginavam sua tristeza quando soubesse de sua fuga. Apenas queria continuar andando e chegar o mais rápido possível a Wilol. Uma parte queria que voltasse enquanto outra o impelia para frente, naquele momento a parte rumo a Wilol ganhava.

Sozinho seguia pelos prados sempre em direção as colinas enevoadas no horizonte. Já distante de casa caminhava por entre a pradaria verde amarelada quando parou e olhou para trás em direção à aldeia. Só a linha do horizonte aparecia, estava tão longe de casa que nem a sombra de seu lar via mais. Geldan pensou na possibilidade de nunca mais voltar, sua imaginação foi direto para a imagem de sua mãe triste recebendo a noticia de sua morte, ela tentava não acreditar, mas Joatez vinha e lhe dizia que haviam achado o corpo e o tinha reconhecido. Ariel caía de joelhos chorava de jeito melancólico e extremamente triste, mas não escandaloso naquele momento a imagem foi sumindo, sendo substituída por um cemitério onde podia ver um túmulo, o seu.

Espantado com aquela visão uma lágrima escorreu pelo seu rosto e a parte que queria voltar quase venceu a que não queria. Com muito esforço deu as costas para seu lar e continuou sua estrada.

Seu caminho era ir até Dateri e depois perguntar como ia para Wilol, mas primeiro tinha de atravessar aquela planície chegando à base das colinas do horizonte, isso durava mais ou menos um dia de viagem.

Conhecia bem a estrada até Dateri, lembrava de muitas vezes quando era mais novo indo para lá. Algumas das vezes que brigava com sua mãe fugia para lá. Foi numa dessas que conheceu seu grande amigo Tergol. Esperava conseguir sua ajuda para chegar até a floresta.

Tantos pensamentos na cabeça, tantos passos dados e havia esquecido de comer. Seu estomago gritava em sua barriga. Não comia desde ontem quando jantara na taverna, por isso estava com uma fome absurda. Por esquecimento, só tinha pegado em casa algumas maçãs.

Parou e pegou duas e comeu. Elas o satisfizeram durante um tempo. Já sem fome continuou a caminhar. Agora, saindo do matagal entrou em uma pequena trilha de terra batida que poucos conheciam. Ela era um atalho para Dateri que Geldan havia descoberto numa de suas fugas. Por ele economizava um dia de viagem em relação à estrada conhecida que dava uma volta em torno das pradarias.

No entanto aquele caminho era mais perigoso, pois passava pelo pântano de Flaug um lugar cheio de poças de lodo que se pisasse era tragado rapidamente para nunca mais voltar à superfície.Essa trilha há muitos anos atrás fora feita pelo povo de Harsaiü na época da perseguição aos adoradores de Fal Rah. Era um caminho de fuga dos exércitos Harsaiürianos em caso de derrota.

Ele seguia ainda um tempo pela p
radaria até entrar nos charcos onde a trilha ia por uma sinuosa faixa de terra firme cercada de poças. Se fosse só isso seria fácil atravessar, no entanto, o problema era que como ela era muito antiga havia partes onde o trecho firme tinha afundado, ou seja, o viajante era obrigado a saltar e ainda tinha mais havia pedaços que enganavam pois parecia seguro mas não era e se pisasse já era.

Geldan estava tranqüilo sabia exatamente como cruzar aquele obstáculo, era simples nos trechos onde a distancia para saltar fosse grande era só subir numa das arvores que rodeavam a trilha e andar um pouco cima dela e depois voltar à estrada, alem disso tinha ao caminhar um galho que usava para testar o solo, assim evitando cair em pedaços enganosos.

Em poucas horas atravessou Flaug, mas a parte mais longa e cansativa da viagem apenas ia começar.  Nesse trecho a trilha saia do pântano e seguia pela base das colinas durante um bom pedaço até começar a subir. Naquela parte deixaria a trilha e adentraria no bosque das raposas onde ele achava realmente perigoso diferente de Flaug que apenas bastava conhecer o lugar. Já o bosque não era simplesmente conhecer o lugar tinha de ter uma boa dose de sorte para conseguir atravessá-lo.

Mas Geldan era corajoso e pretendia fazer aquele caminho até o anoitecer para acampar já bem perto de Dateri, faltando apenas o trecho final. Pensando assim ele começou aquela parte. Ali a trilha deixava de ser terra batida e passava a ser pavimentada com pequenas pedras de forma quadricular. Ela ia serpenteando por entre os pés das colinas até perder de vista.

Andava rapidamente queria ganhar tempo. Calculava mentalmente o tempo antes de o sol se por e chegou a conclusão de que não daria para fazer o planejado por isso aumentou o passo. No entanto parecia não dar certo, pois o dia passava rapidamente indicando em breve inicio da noite e isso era ruim. Por que se estivesse no bosque no meio da noite seria o fim. Era morte certa atravessá-lo de noite, no entanto se parasse e esperasse o próximo dia perderia o dia de vantagem e como tinha certeza que estavam a sua busca, provavelmente quando chegasse a Dateri eles o encontrariam e o mandariam de volta para casa. Não podia arriscar, de dia ou de noite entraria no bosque.

Ocorreu de chegar lá quando o sol se punha. Não havendo jeito de evitar. Saiu da trilha e pisou no gramado verde da colina deparando-se com parede verde do Bosque das Raposas. Sem medo caminhou rumo a ele, iniciando assim a parte mais difícil de sua viagem.

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Capitulo Três

Entrou no Bosque, a luz sumiu deixando o lugar em penumbra. Geldan caminhava muito atento e procurando fazer menos barulho possível.

Não havia trilhas ali, o único jeito era seguir por entre as arvores que, aliás, eram belíssimas, todas formando uma obra de arte da natureza. Bastava observar os pinheiros, os carvalhos, as bétulas e até mesmo as flores brancas do chão balançando com o vento.

No entanto existia um pesar ali, a Gangue Garbaloiü. Conta a história que o bando era um povo habitante do norte há muito tempo atrás, na época da unificação em Anfalâr. O primeiro Hazur com interesse em suas terras atacou e os expulsou para as Colinas e Bosque das Raposas. Revoltados eles formaram um grupo armado e começaram a atacar aqueles que passassem, roubando e algumas vezes até matando. Com o passar dos anos e com os freqüentes ataques aos viajantes de Anfalâr surgiram histórias de que fossem servos de Fal Rah com missão de atormentar os filhos de Al Litüe, mas tudo não passava de uma mentira.

Infelizmente como quase todo mundo, Geldan acreditava nesses boatos. Isso viria a complicar muito sua vida.

Com o sol já posto, sem quase luminosidade nenhuma, a não ser pela luz da lua que penetrava raramente no teto negro do bosque. Geldan continuava sua trajetória. Agora com muita dificuldade pela escuridão. Andava sempre em busca de clareiras onde procurava sempre encontrar a melhor visão para caminhar.

Agora andava rumo a uma a quinhentos metros a sua frente. Ia tateando as arvores tentando sempre evitar colisões. Mas no meio do caminho esbarrou em alguma coisa e caiu, olhou para ver o que era, viu uma forma negra parada a sua frente,no entanto não conseguia identificar direito o que realmente era. Então tolamente gritou:

– Servo da escuridão deixe-me passar!

 Levantando-se e indo a direção a forma ataca-la. Ela muito rapidamente deu um passo para o lado esquivando-se e voltando-se para ele pegando-o de costas. Antes que pudesse fazer algo a forma o imobilizou, falando:

– Se tentar alguma coisa morre.

Geldan ouviu e se espantou. Era uma voz feminina. Será que aquela forma era uma mulher? Ia falar quando recebeu uma pancada na cabeça e desmaiou.

Acordou com uma tremenda dor de cabeça e o sol na cara. Foi tentar proteger os olhos com a mão mas não pode pois ela estava amarrada também não podia mexer o corpo por que estava todo amarrado.

Localizava-se preso a um tronco fincado no chão em meio de uma clareira. Naquele momento sozinho, mas logo apareceu alguém. Era um dos integrantes do bando usava uma capa longa cor marrom meio acinzentada, ela possuía uma gola grande que tapava o rosto deixando apenas aparecer os olhos. O individuo possuía longos cabelos loiros e olho azul, armado com uma faca curta e um arco longo.

O sujeito se aproximou e começou a falar:

Comece a falar o que fazia aqui, antes que os outros do meu bando apareçam e você tenha um desagradável interrogatório.

Geldan reconhecia essa voz. Era aquela de ontem. Tinha o mesmo tom feminino.

Quem é você? – indagou Geldan.

– Não importa. Diga longo o que fazia aqui?

– Não sabia que na Gangue de Garbaloiü havia mulheres.

– Tudo bem se não quer responder minha pergunta, vou embora e deixar que os outros cuidem de você, a escolha foi sua.

A elfa de rosto coberto foi embora. Geldan ficou sozinho mais um tempo até aparecerem três sujeitos vestidos do mesmo jeito que ela. No entanto traziam um brilho diferente nos olhos. Algo de tom cruel. Entretanto quando um se aproximou reconheceu seu rosto, baixou a mascara e falou:

– Geldan, que faz aqui?

Ele também reconhecendo o sujeito exclamou:

– Tergol?

Tergol virou para seus companheiros ordenando:

– Soltem-no imediatamente.

Os dois sem questionar foram até Geldan e cortaram as cordas. Caiu de joelhos chão  assim que foi solto, mas imediatamente se levantou avançando para Tergol gritando:

– Seu traidor mentiu para mim, é um servo de Fal Rah!

Não está enganado, nos não somos servos dele. – disse Tergol espantado com fúria de Geldan que se não fosse pela presença dos companheiros do outro teria o atacado.

– Então se n&a
tilde;o são o que fazem aqui atacando os viajantes?

– Nós não atacamos mais os viajantes inocentes.

– Por que me atacaram?

– Porquê achamos que fosse um inimigo.

– Que inimigo está falando? – indagou Geldan intrigado.

– Harsaiürianos.

– Mas eles não sumiram há muitos anos?

– Não totalmente, e agora estão crescendo novamente. Por isso capturamos você achando que fosse um deles. Pois ultimamente muitos têm circulado por aqui.

Geldan mais calmo perguntou:

– Mas o rei deles não tinha morrido na segunda batalha?

– Sim, no entanto seu espírito maligno sobreviveu de alguma forma se escondendo em Wilol, Agora ele se revelou novamente para seus servos. Já reconstruindo sua Antiga fortaleza de Artua.

De repente bateu em Geldan um desejo crescente de ir até Wilol. Dentro de sua cabeça ouvia cada vez mas alto uma voz o chamado:

– Venha meu fiel servo, siga a escura estrada e chegue a mim.

Ele olhou em volta a procura de quem partia à voz, mas não viu ninguém que tivesse dito aquilo.  No entanto continuava desesperadamente a olhar em volta e nada sempre. Quando tudo começou a girar e escurer. Foi quando perdeu a consciência.

Entres flashes de imagens indistinguíveis, viu sua mãe gritando e pedindo para voltar que ele não era assim antes, era bom.

continua…

Correntes

 

Sinopse: Legolas e Faramir passaram muitos anos juntos dentro das fronteiras de Ithilien. Como eles vieram a dividir o poder? Legolas, Faramir, e um pouco de Aragorn..

Gênero: Drama

Classificação: Livre

Disclaimer: O Senhor dos Anéis pertence a Tolkien. Esta estória foi feita sem interesses comerciais.

Original em Inglês: Chains


 


"Legolas, venha à frente."


Ele o fez, movendo-se deliberadamente ao centro da caverna escondida nos profundos recessos da Henneth Annun, iluminada apenas pela luz tremulante de tochas. Escuro, úmido, e antigo era como esse lugar parecia ser ao elfo. Ele não gostava de estar abaixo do solo, o peso de incontáveis toneladas de rocha e terra suspensas acima dele, as paredes debruçando-se sobre si, mas ainda assim estava lá. Ele podia ir embora, e sabia disso, mas jamais seria-lhe permitido que retornasse.

"Retire suas roupas."

Ainda demonstrando a confiança exterior que todos os elfos parecem possuir, ele retirou os sapatos, cinto, túnica e malha, e, após uma hesitação quase que imperceptível, as suas roupas de baixo. Ele ficou de pé, exposto, na luz tremulante, ele próprio brilhando levemente, um ser de pureza, radiante, preso na iluminação âmbar. Até mesmo os seus cabelos dourados pareciam rivalizar com as chamas. Dez homens estavam de pé ao seu redor, nenhum falhando em apreciar a visão de uma beleza tão selvagem, apesar de apenas dois deles terem a percepção de ler o crescente desconforto do ser do reino da floresta.

"Ajoelhe-se."

Isso era o mais difícil. Nudez não era algo extraordinário entre os elfos, e não era algo muito difícil para eles tolerarem; até mesmo o morar sob a superfície quando as circunstâncias o ditavam, como dentro do palácio de seu pai, mas se ajoelhar perante estranhos era um gesto íntimo de submissão que não vinha facilmente. Mesmo perante senhor e rei, protocolo ordenava ao suplicante que dobrasse apenas um joelho. Ambos os joelhos diminuía a dignidade e subtraía a força, falava de uma inferioridade e necessidade implícitas. A terra macia do chão da caverna foi de pouco consolo.

Um dos homens veio à frente e sussurrou suavemente ao ouvido do arqueiro élfico: “Você não precisa fazer isso. Os Primogênitos não se submetem a ninguém.”

“E se eu não o fizer? Você pensará que sou um covarde?” As palavras duras falaram de sua ansiedade, pois elfos não são nada senão graciosos. “Eu farei o que for necessário, merecerei o meu lugar como qualquer outro. Ou você acha que isso está além de mim?” A cabeça dourada erguida, os olhos azuis brilhando, desafiando o homem que o negasse.

“Não, é claro que não.” A figura suspirou, correndo uma mão pelos seus cabelos castanhos, tirou algo escuro de seu cinto.

“Você confia em mim, Legolas?” Isso era importante. O ritual dependia disso, não poderia prosseguir sem a confiança incondicional do elfo. “Eu não prosseguirei em face da sua dúvida.”

Legolas fechou os olhos e inclinou sua cabeça brevemente, se em impaciência ou apreensão não estava claro, e então acenou com a cabeça uma vez. “Sim, eu confiei em você do momento em que o vi”.

Com um sorriso gentil, Faramir prosseguiu a colocar a venda, mergulhando o elfo da floresta em uma escuridão ainda maior.


Cinco dias atrás, Legolas estava viajando pela floresta, saltando de galho em galho, rindo com seu escolte, encaminhando-se à recém construída casa do primeiro príncipe de Ithilien. Ele conhecia Faramir apenas de passagem, mas já estava impressionado com a profundidade de seus conhecimentos, a sua perspicácia, a sua força interior e a sua calma compaixão. Poucos homens conseguiam atrair a atenção dos Eldar desta forma; Aragorn, é claro, e um ou dois dos seus guardiões. O príncipe Imrahil era um homem interessante, e havia algo sobre Théoden que fazia alguém olhá-lo novamente, mas Faramir era especial. Talvez fosse a sua criação trágica, a perda de seu irmão, ou do amor de seu pai antes mesmo disso, ou da morte prematura de sua mãe no início da sua infância. Ou talvez simplesmente ter crescido à sombra de Mordor. Tanta dor e perda. Ao invés de tornar-se amargo como faria a muitos, parecia ter temperado a sua alma como a mithril finamente forjado; delicado, e ao mesmo tempo forte. Legolas decidiu que gostaria de conhecer mais dele.

Ele encontrou o rei presente ao chegar, visitando o seu regente, segundo ele, mas todos sabiam que ele estava mesmo era escapando do calor recalcitrante da cidade no meio do verão. Não era por acaso que Ithilien era chamada de Jardim de Gondor. De qualquer forma, Legolas estava feliz em ver ambos os homens; o primeiro, um antigo amigo, o segundo, simplesmente um amigo sobre o qual havia muito que se descobrir.

Quanto mais Legolas observava Faramir, mais ele ficava fascinado por ele. Cabelos negros, olhos cinzentos, o mesmo físico básico que o seu povo ao norte, alto, sem ser musculoso, mas sem também ser magro. Ele puxara ao seu pai, diziam, no intelecto e estudos, e na habilidade de ver dentro do coração de outros. Estranho então que Boromir, que de todas as formas era surpreendentemente diferente de seu pai, ser o preferido. Talvez, como o herdeiro aparente, Denethor pode ter pensado em investir mais de si mesmo no seu primogênito, mas não fazia sentido negligenciar o seu filho caçula completamente. Acidentes não eram incomuns, o ‘sobressalente’ era quase tão provável de chegar ao governo quanto o primeiro na linha de sucessão. E dizia-se que a negligência de Denethor não era apenas em longo prazo, mas ocasionalmente abusiva. Estava claro para Legolas que ele entendia muito pouco dos costumes dos Homens. Para os elfos, todas as crianças eram preciosas.

A noite foi passada agradavelmente, cada um recontando os seus vários papéis na Guerra do Anel, e a conclusão triunfante a qual Faramir quase tão terrivelmente perdera. O Regente estava particularmente interessado no interlúdio da Sociedade entre os elfos. Ele não se cansava de ouvir sobre a Senhora Galadriel, cujo nome não era desconhecido em Minas Tirith, nem a casa de Elrond. Como fora tornar-se adulto no Vale Escondido? Foram os filhos do Peredhil que o ensinaram o uso da espada? Ele realmente conhecia Glorfindel, o matador de Balrogs? Por que Lothlórien era chamada de Floresta Dourada? E sobre os anéis Élficos, agora que o Um anel estava destruído?

Oh, ele havia visto muitos senhores e nobres élficos no casamento de Aragorn, é claro, mas estava tão embasbacado que não conseguira tirar muita vantagem da grande oportunidade que se apresentou naquele momento. Sim, a Senhora da Luz era realmente magnífica (apesar de ele particularmente concordar com Éomer de que a Lady Arwen era mais bela); a sabedoria de Elrond brilhava de sua fronte como um farol, os seus filhos de pé por trás dele como avatares dos Valar; e Celeborn, profundo e misterioso, assistia com seriedade enquanto a sua neta se entregava a um rei mortal. Foi um momento saído de lendas, e profundamente intimidante para alguém que sempre vivera na sombra do seu sempre celebrado irmão.

Mas agora, neste pequeno encontro íntimo da realeza, era a sua oportunidade de descobrir o que a sua reticência tinha-lhe negado antes. Quando ele havia exaurido tudo que acontecera dentro da jornada da Sociedade, ele voltou-se então para a Floresta das Trevas, um reino élfico pouco comentado nestes últimos séculos. A reputação de Thranduil, ambas terrível e grandiosa, era quase como se os homens do Sul não conseguissem decidir se o reverenciavam ou se o temiam. Todos sabiam que cavalgar além dos Campos de Lis era convidar a morte, apesar de que se isso era devido ao rei élfico ou aos vários habitantes de Dol Guldur nunca ficara muito claro.

Legolas levou algum tempo detalhando as maravilhas do seu lar, como os Elfos da Floresta haviam lutado uma guerra incessante contra o mal incansável para manter pelo menos as fronteiras norte limpas e iluminadas, e como o seu pai lutara contra as forças de Mordor, Orientais e Orcs, ao mesmo tempo em que o Senhor do Escuro atacara com malícia ainda maior sobre Rohan e Gondor. Se não fosse pela necessidade de Sauron de lutar contra ambos Lórien e a Floresta das Trevas, era improvável que o mundo dos Homens tivesse sobrevivido, apesar dos maiores esforços do portador do Anel.

Foi no segundo dia, enquanto os amigos estavam jantando tarde e especulando sobre o futuro glorioso que agora se revelava, que o mensageiro chegou. Ele fez uma breve reverência ao rei e ao convidado élfico do seu senhor, e então implorou a Faramir por um momento a sós. Não demorou muito para que anfitrião retornasse.

“Meu Senhor, uma questão surgiu e que requer a minha atenção imediata. Eu estarei fora por alguns dias, mas, por favor, continuem a gozar da minha hospitalidade por quanto tempo desejarem.” Apesar de suas palavras, Faramir parecia estar mais chateado que contrito, levando o rei a perguntar se havia algo que ele pudesse fazer.

“É uma questão de Guardiões, Senhor. Nós geralmente mantemos essas coisa entre nós mesmos.”

Aragorn franziu o cenho. “Eu devo saber o que ocorre em meu reino. E eu sou um guardião, apesar de ser se uma ‘casa” diferente, se assim desejar.”

“Sim, mas o Senhor Legolas não é. Esta é uma coisa para Homens.” Faramir olhou para Legolas como se pedindo perdão enquanto falava, não querendo ofender o seu novo amigo, mas sabendo que os seus próprios seguidores não permitiriam que um forasteiro presenciasse os seus mistérios internos.

Legolas tentou reprimir a repentina decepção e sentimento de rejeição que ele sentiu, e ficou surpreendido pela força dos seus próprios sentimentos. Que importância esse assunto dos guardiões tinha para ele? Ele podia sentir os olhos conhecedores de Aragorn sobre si e resistiu à vontade de fechar a cara para ele. Aragorn tinha visto o interesse do seu velho amigo no filho mais jovem de Denethor e podia dizer que, apesar do desconforto visível de Faramir, o elfo ainda assim se sentiu ignorado. Após passar uma grande parte da sua vida adulta sendo considerado pouco mais que um filhote por sua família adotiva, especialmente seus irmãos, ele não pôde deixar de sentir-se ao menos um pouco convencido. Sim, meu amigo, nós também temos segredos.

Faramir sentiu facilmente a afronta do príncipe. O entristecia pensar que esta situação pudesse agora tornar-se um empecilho entre eles. O Elfo era mais maravilhoso que o jovem pudera imaginar. Muitas horas ele havia passado lendo na biblioteca de seu pai, sonhando com o Belo Povo, em discutir história e folclore da sua própria gente com seres que haviam realmente testemunhado os acontecimentos, mas, agora, aquilo que mal havia começado poderia já estar perdido, e Faramir não sabia como aquecer o repentino gelo que ele sentiu no ar. Relutantemente, ele permitiu que o rei o conduzisse até um canto para conversar. Legolas saiu para checar o seu cavalo, que estava muito bem, mas qualquer desculpa servia.

“Não fique consternado, caro Regente, pois Legolas ainda é jovem entre o seu povo e facilmente sente a dor da exclusão.” Aragorn sorriu com compreensão. “Eu acho que talvez ele deseje conhecê-lo melhor e veja isso como uma barreira, tanto para a sua recém-forjada amizade, como para o desejo de dividir os fardos da liderança com você.”

“Mas o que eu posso fazer? Meus homens se oporiam vigorosamente à presença de um não-iniciado em nossos assuntos. O homem em questão seria humilhado.”

O rei ponderou sobre isso por um momento antes de encarar os olhos cinzentos.

“Você espera permitir ao filho único do Rei Thranduil compartilhar o governo de Ithilien, não espera?” Após a rápida afirmativa de Faramir, ele continuou, “Então seria sensato que você lhe dê acesso a todos os assuntos dentro destas fronteiras. É inevitável que, com o passar do tempo, talvez mais cedo do que você pensa, os assuntos dos homens e os dos elfos se encontrem, e talvez até conflitem.” Aragorn virou a cabeça admoestado-o. “Caberá a vocês dois trabalharem juntos para resolver essas questões.”

“Mas, Senhor,” Faramir começou ansiosamente, “meus homens…”

Com um aceno da sua mão, Aragorn o interrompeu. “Sim, eu sei bem da secritude inflexível dos guardiões! Só há uma coisa a fazer – você terá que iniciá-lo você mesmo.”

Foi algo fortuito o fato do guardião do norte ser maduro nos seus anos ou ele não teria sido capaz de esconder o seu divertimento ao ver a cor quase roxa que se espalhou pelo rosto do regente. Ou era verde? Havia muito tempo desde que os homens de Gondor tiveram que lidar com outras raças senão orcs. Os outros Povos Livres da Terra-média eram fábulas de tempos antigos ou, no máximo, habitantes de lugares distantes, não dispostos a se intrometerem nos assuntos dos homens. Mas como isso havia mudado! O novo rei tinha marchado para dentro da Cidade Branca com um elfo e um anão ao seu lado. Os reinos do Oeste haviam sido salvos por hobbits. Magos e Ents e águias eram assunto comum entre todos os homens. Como então manter divisões entre raças que lutaram e morreram juntas contra a Sombra? Faramir logo viu o absurdo da sua objeção já meio-formada.

E, afinal de contas, os seus homens eram uma casta acima do patrulheiro gondoriano comum. Uma pessoa não se embrenha no mato com uma espada e um escudo, esperando acabar com um inimigo que, de nove entre dez vezes, está em número muito maior que o seu. Guardiões eram guerreiros de tocaia, tendo o arco e a flecha como os seus maiores aliados, juntamente com a capacidade de se confundir com o ambiente com tanta naturalidade quanto um cervo. Eles não tinham reforços, ou estoque de suprimentos, ou uma posição fortificada para defender. Guardiões tinham de ser fortes, espertos e, acima de tudo, inquestionavelmente leais, uns aos outros e ao seu líder.

Estes homens não eram recrutados nas ruas. Muitos dos guardiões de Faramir eram soldados há muito no serviço, ávidos por contribuir com mais; alguns estavam dispostos a sacrificar tudo para vingar a morte de um irmão, ou pai perdido para o Inimigo; e alguns eram filhos sem tanta importância dos nobres, sabendo que não seguiriam os passos de seus pais, mas ainda assim querendo fazer suas vidas valer algo. Homens fortes com mentes flexíveis era o que o filho de Denethor havia atraído para o seu serviço. E era com eles que o futuro de Legolas, o ainda não nascido elfo-guardião, estava para ser decidido.


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Dois homens aproximaram-se carregando uma extensão de uma corrente leve. Faramir a pegou em silêncio – na verdade, nenhuma palavra havia sido proferida desde que Legolas falara de sua confiança – e posicionou-se atrás do príncipe. Cuidadosamente, ele levantou os cabelos sedosos, indicando a um terceiro homem que os prendesse frouxamente fora do caminho, e então trouxe o meio da corrente atravessando pela frente do longo e fino pescoço. Cruzando uma vez a nuca, ele a trilhou até o meio das costas do elfo, e então puxou as suas mãos para trás e para cima, amarrando-as na corrente logo abaixo de suas escápulas. Legolas arqueou-se para trás levemente, levantando sua cabeça e suas mãos para tirar a pressão de seu pescoço. Não era tão desconfortável, mas requeria atenção constante para não relaxar e constringir a sua respiração. Faramir enrolou as pontas da corrente nos tornozelos de Legolas, impedindo-o de inclinar-se para frente.

O elfo da floresta achou a escuridão desconcertante. Ele não conseguia ver o que estava por vir, tinha que se esforçar para não se encolher a cada toque inesperado e ante a dureza fria da corrente. Viu-se aguçando os seus ouvidos por pistas, mas os guardiões eram quase silenciosos. Faramir, particularmente, parecia quase indetectável. Normalmente ele conseguia ouvir a respiração de outras raças (anões especialmente!), até mesmo hobbits, silenciosos como eles sabiam ser, mas Faramir, assim como Aragorn, era muito habilidoso para o prover esse tipo de garantia. Legolas pensou brevemente se o homem o estava fazendo de propósito ou se já era simplesmente sua segunda natureza. De qualquer forma, ele sentiu finos traços de suor aparecer no seu lábio superior, ciente de ser o centro das atenções de muitos pares de olhos velados.

Depois de alguns minutos, outros dois homens vieram à frente carregando outra extensão de corrente, mas esta era mais pesada, os elos maiores e menos flexíveis. Faramir a enrolou por sobre o elfo com a ajuda de um outro homem, passando pelo ombro, de volta para cima por entre as pernas, por cima do outro ombro, para baixo através das pernas, apertada o suficiente para tocar, mas não machucar. Então eles retornaram aos seus lugares em silêncio novamente.

Mais uma vez e escuridão o envolveu, fazendo-o se concentrar nas sensações do seu corpo, e não na audiência que ele sabia ainda estar lá. O metal estava esquentando vagarosamente, pressionando os seus ombros, roçando a sua virilha, batendo em seu peito e nas mãos amarradas ao menor movimento. O silêncio era pesado, isolante, fazendo-o perder a noção de tempo e espaço. Cada pequeno desconforto era ampliado, a corrente através do seu torso parecia arrastar-se por sobre ele, o impedindo de se esticar apesar de não ter se encurvado em momento algum enquanto a colocavam. Os seus ombros doíam por manterem suas mãos elevadas, a frente da corrente parecia apertar a sua garganta, apesar de ele saber que na realidade não estava. Quando tempo ele deveria ficar assim? A resistência dos elfos era lendária. Ele podia, se necessário, manter essa posição por toda a noite. Eles o abandonariam? Ele sequer saberia? A idéia de ser deixado amarrado e sozinho nas profundezas da terra brincou com alguns dos medos mais profundos da sua raça.

Faramir observava Legolas da lateral da caverna. Era óbvio para ele que o elfo estava lentamente ficando mais agitado, imaginando coisas que poderiam acontecer ou que não estavam ali, as correntes ficando cada vez mais pesadas do que elas realmente seriam em circunstâncias diversas. Realmente, o peso não era nada para alguém como o elfo, a sua posição forçada sendo apenas estranha, e não dolorosa. Isso viria depois.

Ele olhou brevemente para o homem de pé ao fundo da câmara, mas a sua atenção estava voltada totalmente para o arqueiro, seu amigo. Se em algum momento Faramir falhasse em julgar a situação corretamente, causasse muito dano ao que estava ajoelhado em uma confiança vacilante, o seu rei iria encerrar tudo imediatamente. Elfos eram criaturas estranhas, incrivelmente fortes e resistentes, mas com fraquezas não imaginadas pelos homens. Aragorn era o único com a experiência necessária para supervisionar uma coisa como essa.

Faramir sorriu silenciosamente. Isso iria provavelmente confortar o elfo, saber que o seu melhor amigo estava lá com ele, mas por fim, esse não era o objetivo, era?

Legolas sentiu o início de um medo irracional. Ele não sabia nada sobre esses homens, mesmo Faramir, de quem ele instintivamente gostara, era pouco mais do que uma incógnita. A história entre Homens e Elfos havia sido, na melhor das hipóteses, superficial durante essa última era; muitos tinham razão para desconfiar, e até odiar os Que Chegaram Depois. Alguns haviam feito aliança com um mal indescritível para guerrear contra o seu próprio povo! Onde estava a razão nisso? E aqui ele havia espontaneamente (ou estupidamente?) se colocado à sua mercê. Talvez isso não fosse um rito ao final de tudo; talvez isso fosse apenas um jogo doentio. Talvez Faramir o enganara para participar dessa diversão pervertida e todos os homens eram realmente como o seu pai dissera. Pela primeira vez, Legolas começou a pensar seriamente em resistir enquanto a sua compreensão intelectual da situação desaparecia.

Do outro lado do cômodo, Aragorn viu a sutil mudança na postura de Legolas, e sinalizou a Faramir para continuar. Faramir aquiesceu e deu um passo a frente. Mais homens juntaram-se a ele.

Um clangor pesado veio aos ouvidos de Legolas enquanto ele ouviu um repentino mover de pés e respirações fortes. O que eles estão fazendo? Ele se assustou levemente ao sentir uma mão no seu ombro direito. Ela foi substituída um momento depois por um acolchoado grosso de algum tipo de material macio e aveludado.

“Segure-se,” foi o único aviso que ele recebeu antes que uma pequena extensão da corrente mais grossa que ele jamais imaginara existir ser colocada por sobre seu ombro. Ele supôs ser o tipo de corrente similar à usada para levantar a grade do portão principal de Mina Tirith (antes de Grond o esmagar). Essa corrente não podia ter menos que 40 quilos, fazendo-o grunhir suavemente em surpresa. Felizmente para o seu equilíbrio, ou sua costa, ela foi logo acompanhada por sua gêmea no seu outro ombro. Agora o chão da caverna não parecia mais tão macio aos seus joelhos e os acolchoados não faziam nada para amortecer o primeiro par de correntes agora se enterrando em sua carne. Uma dor genuína logo afastou da sua mente os medos produzidos pela escuridão, para substituí-los por uma vontade incerta de suportar. Ai, mas ele não iria se entregar perante esses homens! Todos eles haviam passado por isso, não haviam? Ajoelhados onde ele estava agora? Ele não iria envergonhar os seus antepassados com uma demonstração de fraqueza. Ele mostraria a eles a fibra dos elfos.

Faramir poderia ter-lhe dito que as correntes usadas nos homens eram consideravelmente menos pesadas, mas ele não o fez.

As novas correntes tentaram levá-lo ao chão, mas aquela através de sua garganta não permitiu. Quando a sua costa curvou-se, a corrente que ia de seus tornozelos ao seu pescoço apertava, forçando-o a ou endireitar-se ou engasgar-se. O sangue correu para sua cabeça quando a corrente cortou ambos o seu ar e a sua circulação, e com a sua costa e os seus ombros gritando em protesto, ele conseguiu erguer-se o suficiente para fazer desaparecer os pontos negros que começaram a se formar por trás da venda. Instintivamente ele tentou libertar as suas mãos para ajudar a suportar o peso adicional, mas conseguiu apenas machucar os seus pulsos. Em um momento, os seus pés deixaram o chão e ele se sentiu tombando para frente sem poder fazer nada, e teve certeza de que ele estava preste a bater com o nariz no nem-um-pouco-macio chão da caverna, quando uma mão na sua testa o empurrou para o seu lugar novamente. Ele não sabia se agradecia ou amaldiçoava o homem.
Faramir observou o elfo lutando com uma crescente preocupação. O destruía por dentro ser o responsável pela figura exausta, trêmula e agonizante à sua frente, e era um dos Primogênitos. Já era difícil o suficiente fazer isso a um homem, mas homens pareciam de alguma forma serem feitos para esse tipo de situação. Elfos estavam acima dessas basicidades, desses testes. Um elfo deveria ser cuidado, protegido, e não esmagado sob quase 100 quilos de aço frio. Mas Legolas havia concordado com isso, havia deixado claro que faria o que quer que fosse para unir-se em parceria completa com o seu vizinho. Então lá ele se ajoelhou, sofrendo, por causa de homens, dos seus homens. Faramir sentiu seu estômago apertar e ficou feliz pelo jantar ter passado há muito. Graças a Deus, havia apenas mais uma corrente.

Legolas finalmente conseguiu encontrar o equilíbrio interior que lhe permitiu suportar a dor, manter-se relativamente parado, e respirar ao mesmo tempo. Não iria durar muito, ele sabia, mas por hora ele estava suportando. Tão concentrado estava no seu próprio estado que ele não ouviu as palavras faladas ao seu ouvido esquerdo. Somente quando Faramir as repetiu, é que ele escutou.

“Legolas.” Faramir falou claramente, com firmeza, como alguém que lê os votos do matrimônio. “Você confia em mim?”

A pergunta que ele havia respondido tão rápida e facilmente quando fora feita há menos de uma hora fez com que o elfo quisesse rir agora, se ele fosse capaz. Confiar? Neste circo demente de torturadores? Ele estava louco? Sim, ele deveria estar para ter concordado com isso. Ele confiava em Faramir? Confiava? Ele não tinha a menor idéia agora.

Faramir esperou com incerteza, convencido de que Legolas iria implorar para ser libertado deste tormento, apenas para torcer silenciosamente que isso não acontecesse. Ele não conhecia o elfo há muito tempo, tendo apenas o encontrado na coroação de Aragorn, no casamento do rei com Arwen e no seu próprio casamento com Éowyn. Mas agora que tudo isso estava acontecendo, é que ele percebeu o quando desejava a amizade de Legolas e a sua confiança. Um elfo! Há nem um ano atrás, eles eram apenas conhecidos em lendas e livros de história, e agora aqui estava um pronto para viver com ele em Ithilien, estabelecer uma colônia desses seres maravilhosos logo aqui, e o que ele estava fazendo? Pedindo a esta criatura etérea que desse um salto de fé enquanto se ajoelhava perante o Regente de Gondor em dor e medo.

Aragorn também esperava, curioso a respeito da resposta pendente de Legolas. No seu lugar, Aragorn teria ordenado que Faramir o soltasse e que depois fosse para o inferno, mas ele também sabia que o filho de Thranduil estava longe de atingir o seu limite. Aragorn não achava que ele desistiria, não na frente de todos esses homens. Ainda assim, como qualquer líder aprende, não é o corpo que primeiro sucumbe, mas a mente.

Legolas desejava ver, precisava olhar dentro dos olhos de Faramir para julgar a sua intenção, se ele realmente queria que a sua vítima tivesse êxito ou se estava simplesmente divertindo-se com a sua dor. Mas ele não podia. Visão, julgamento, eram-lhe negados. Ele podia apenas confiar em seus próprios instintos, e estes, ele estava começando a temer, não valiam um tostão furado no mercado agora. Sobre o que ele devia embasar a sua resposta? Se Aragorn estivesse no lugar de Faramir e pedisse por sua confiança, Legolas a teria dado instintivamente, até ao ponto que Aragorn poderia matá-lo, mas Faramir não havia merecido tal lealdade de sua parte. Elfos são fiéis até a morte, mas não a qualquer um.

Ele pensou novamente sobre o homem cuja respiração ainda soava em seu ouvido, esperando por uma resposta. Ele lembrou de como aqueles rasos olhos cinzentos haviam enchido com interesse à sua chegada, brilhado com alegria quando o elfo aceitou a sua oferta de amizade, e escurecido de preocupação quando ele sugeriu a Legolas que se submetesse a este teste. Aragorn já não o tinha aceitado como uma espécie de irmão há muito perdido? Se eles realmente quisessem o seu mal, certamente ele já não estaria gravemente ferido, se não morto? E eles, muito menos, precisariam pedir a sua permissão para continuar.

Enquanto Legolas se ajustava mais à sua posição e à dor nos seus ombros e joelhos, a sua capacidade de pensar e analisar se restabeleceram. Só por que ele estava enterrado nas entranhas da terra, cercado por estranhos, vulnerável e em dor, não era razão para entrar em pânico, era? Ele quase riu novamente. O que o seu pai diria? O chamaria de perturbado, muito provavelmente. E talvez ele estivesse certo. Ainda assim, não havia como retroceder agora. A escolha era simples na realidade, se alguém considerasse as alternativas: fugir ou prosseguir. Orcs fugiam; elfos, não.

Através dos dentes cerrados veio a sua resposta. “Sim, Faramir. Eu confio em você… por que eu preciso.”

Não surpreendentemente, Faramir achou tal declaração não muito reconfortante ou gratificante. Aragorn quase sorriu em face da sua expressão caída. Talvez ele se sentisse melhor se Aragorn lhe contasse as distâncias que teve de percorrer para assegurar a amizade do elfo, mas isso teria que esperar alguma outra hora. Legolas estava prosseguindo com isso até o seu fim, por razões que não estavam totalmente claras para o rei, mas que eram definitivamente fascinantes de se assistir.

“Muito bem.” Faramir sinalizou a outro dos homens que viesse à frente.

A última corrente era bastante fina e bem curta, nem seque um metro, e em cada ponta havia uma pequena argola. Faramir passou a corrente por uma das argolas para fazer uma volta, como alguém faria para prender um cachorro, e então passou pela cabeça de Legolas. Ele pôs um corte de tecido macio no seu pescoço, e depois ajustou a volta sobre ele, deixando que o restante ficasse pendurado nas suas costas.

Virando-se, ele pegou várias esferas pequenas, pesando meio quilo cada, de um homem, indicando a ele que voltasse para perto da parede. Faramir pendurou o primeiro peso na argola que descansava parcialmente sobre as costas do elfo.

Meio quilo de pressão faz muito pouco para homem ou elfo, mas a tira apertada ao redor do pescoço de Legolas tinha o seu valor. Novamente, ele foi lembrado da sua vulnerabilidade perante essas pessoas. Eles podiam fazer qualquer coisa com ele, ele estava totalmente incapacitado para resistir. Certamente ele poderia debater-se um pouco, cair, até implorar por misericórdia (que os Valar sejam amaldiçoados se ele fizesse isso!), mas no fim das contas, ele era deles. E isso era aterrorizante.

Faramir pendurou outro peso, e depois outro. Logo todos os homens na caverna podiam ouvir a respiração estrangulada do elfo, o seu pânico crescente tornando-se óbvio a todos. Essa era sempre a parte mais difícil do ritual. O orgulho levava muitos a este ponto, como havia acontecido hoje, mas poucos eram capazes de ir adiante, enfrentando um teste que lhes poderia clamar a vida. Era verdadeiramente uma demonstração de fé, não de coragem ou resistência. Qualquer homem podia ser forte e corajoso; de fato, Gondor estava repleta destes homens, e mesmo havendo muito que se admirar neles, um Capitão de Guardiões exigia mais.

Legolas lutou para sustentar-se em face da montante pressão. O sangue voltara aos seus ouvidos, a sua respiração arranhando pra dentro e para fora de sua boca aberta. Ele tentou engolir, mas viu que isso era difícil, a corrente movendo-se por cima da sua garganta quando o seu pomo de adão flexionava por baixo da faixa constritora. Ele começou a lutar genuinamente. Não conseguia respirar. Grandes pontos brilhantes dançavam perante seus olhos fechados enquanto o sangue corria alto o suficiente para afogar todos os outros sons. A sua língua foi forçada para frente da sua boca, quase por sobre a parte inferior da sua mandíbula, enquanto o espaço disponível a ela diminuiu.

Os pontos tornaram-se maiores e mais brilhantes, a sua respiração alta e, mesmo assim, conseguindo pouco volume de ar, a sua mente girando enquanto ele balançava com a tontura trazida pela falta de oxigênio no seu cérebro. Vieram imagens de homens, homens perversos, maliciosos, humilhando um elfo preso na sua armadilha. Realmente, os homens na caverna poderiam estar rindo ou até gritando nesse momento que ele não os ouviria. Elfo tolo. Elfo estúpido. Eles o matariam agora, desfrutando os seus esforços moribundos, e depois contariam vantagem do feito em algum daqueles buracos de cerveja e fumaça que eles tanto gostavam. Ninguém mais se interessava por vinho?

Cada vez com mais velocidade os seus pensamentos giravam, desconjuntados, em pânico, afundando-se na escuridão. Se ele conseguisse simplesmente cair para o lado, ele de repente se deu conta, os pesos bateriam no chão e cessariam de estrangulá-lo. Ele tentou mover-se para um lado, apenas para começar a debater-se genuinamente em terror ao sentir mãos segurando os seus braços, mantendo-o ereto – matando-o.

Então, inesperadamente, ele sentiu um toque em seu rosto, palavras suaves sussurradas em seu ouvido, “Confie em mim, Legolas. Por favor… confie em mim. Eu não vou falhar.” A voz de Faramir, suas palavras, tão quietas, tão tranqüilizantes. O Elda agonizante quase não o escutava. Faramir? Ele ainda estava lá? Por alguma razão isso o surpreendeu. Depois ele se lembrou da caverna, dos guardiões, do seu propósito nesta noite. Apesar da escuridão que se aproximava dos limites da sua mente, ele se forçou a parar e escutar.

“Eu estou com você, Legolas,” a voz continuou, macia e íntima ao seu lado, e ainda assim forte, poderosa. “Nunca irei abandoná-lo, nunca você terá razão para me temer. Eu valorizarei a sua vida como eu valorizo a minha própria vida.” Faramir foi para o outro lado, fazendo o caminho da fina corrente que prendia o pescoço do elfo com a sua mão. “Todos os guardiões são agora seus irmãos. Todos darão suas vidas para protegê-lo. Você não fará o mesmo por eles?”

Aragorn reconheceu as palavras do Juramento dos Guardiões. Seu próprio teste no Norte havia tido uma forma um quê diferente, mas o objetivo tinha sido idêntico: unir mentes semelhantes em uma aliança inquebrável de irmandade. No caso de Aragorn, houvera tons de laços sanguíneos e também devoção ao novo senhor, mas estas eram questões irrelevantes nesta reunião. Ele encontrou-se hipnotizado pela visão de um amigo semiconsciente ajoelhado perante outro no momento crucial deste teste.

Faramir esperou com a respiração presa. Tudo se resumia a esse momento, esta entrega de corpo e alma. Ele sabia que Legolas o faria por Aragorn sem qualquer tipo de hesitação. Era fácil de se ver o amor que o seu rei compartilhava com o arqueiro élfico, mas Faramir não tinha qualquer ilusão reconfortante sobre o seu próprio valor. Ele não era um rei de homens para despertar tal estima em um príncipe dos Primogênitos. Ele não era nada além de um regente, de uma terra rica e poderosa certamente, mas ainda assim de uma linhagem menor, de uma estatura menor. No fim, sua família havia falhado na confiança que fora a eles depositada de entregar um reino são e próspero ao seu governante por direito. Faramir considerava-se mais um sobrevivente do que um herdeiro, e agradecia a nobreza de Aragorn e a sua mentalidade justa por ele ter um lugar nessa nova Gondor. E que ele também havia assegurado um lugar no coração de seu amigo.

A luz do mundo estava se esvaindo rapidamente para Legolas agora, enquanto ele se ajoelhava perante o seu torturador (Salvador?) e tentava entender o que estava acontecendo a ele. Como Faramir havia se transformado de assassino para protetor tão rapidamente? Ele não estava por fim prestes a morrer?E como isso era sobre irmãos? Na sua confusão e aflição, ele quase perdeu o significado do momento, mas então subitamente a escolha posta à sua frente tornou-se clara. Dar a sua vida a Faramir, o seu irmão-guardião, ou tomá-la de volta e romper completamente os laços que poderiam se formar entre eles esta noite. De qualquer forma, ele agora sabia que não morreria; ninguém ali estava tentando matá-lo. Para entrar nesta irmandade ele deveria dar a eles tudo que ele era ou permanecer para sempre um forasteiro. Tudo parecia tão simples. Como ele havia perdido o seu caminho?

Faramir estava falando de novo. “Eu sei que você não pode responder com palavras, mas se você deseja o que lhe é oferecido, mantenha-se parado. Aceite a escuridão, sabendo que nós o traremos de volta. Se você não deseja continuar, caia para o seu lado e nós o soltaremos. Ninguém o está segurando agora.”

Era verdade. Legolas não podia mais sentir as mãos nos seus braços ou sequer a respiração de Faramir no seu rosto. Ele estava isolado no meio da caverna enquanto os homens esperavam por sua decisão. Ele sabia o que significava estar onde o elfo estava agora; a confusão, a dor, a quase total inabilidade de pensar com clareza e sabendo que você deve confiar em si mesmo para reagir sem a devida consideração. Era quase um teste de fé em si mesmo como de fé nos outros.

Legolas sabia como ter fé em si mesmo. Ele concentrou toda a sua força de vontade para permanecer ereto o maior tempo possível, e então lentamente escorregou ao chão quando a escuridão o envolveu.

continua…

Uma Longa Jornada

Sinopse: Durante uma viagem há muito planejada, Aragorn e Legolas encontram sério problemas, e acabam endo que enfrentar alguém que ele jamais esperavam.

Gênero: Drama / Humor

Classificação: Livre

Disclaimer: Não… o Senhor do Anéis não é meu… é dos Tolkien.


 

 

Capítulo I

"Eu nunca vi Glorfindel com tanta raiva como naquele dia!” Aragorn disse, sua voz quase não saindo por causa das risadas. “Eu verdadeiramente temi pela vida do Elladan!”

"Ah, mas eu tenho certeza que tudo não passou de um acidente! Ele jamais faria aquilo de propósito,” Legolas conseguiu dizer, tentando se fazer entender entre gargalhadas.

“É claro que foi um acidente…” Aragorn respondeu com um sorriso. “Sempre é um acidente…”

Isso causou outro acesso de riso nos dois amigos.

Legolas e Aragorn já vinham tentando fazer essa viagem há bastante tempo. Os últimos dois anos haviam sido muito difíceis na Floresta das Trevas, não permitindo ao seu exército se privar de qualquer um de seus guerreiros, os quais estavam constantemente envolvidos em intermináveis patrulhas, lutando para combater o crescente mal que se espalhava por aquelas matas. E Aragorn, por sua vez, havia começado a sua vida como um guardião. Quase nunca voltando para casa, na sua luta constante contras as criaturas do Senhor do Escuro que ousavam cruzar o seu caminho, para mantê-los afastados das vilas e aldeias do Norte.

Mas agora finalmente, após muitos planos, aqui estavam eles, nas planícies de Harlindon, simplesmente desfrutando da companhia um do outro, conversando, caçando, fumando… Aragorn pelo menos, apesar dos muitos protestos por parte do elfo.

Depois que os risos esvaíram-se, os dois amigos permaneceram deitados na relva, olhando as estrelas que agora enfeitavam o céu como um cobertor cintilante de sonhos, tendo Eärendil como a sua mais brilhante jóia.

“A noite está linda,” Aragorn disse em um suspiro, satisfação evidente em sua voz.

"Aye. Elbereth tem sido graciosa esta noite,” respondeu o elfo, concordando com as palavras do guardião. “Já faz muito tempo desde a última vez que eu estive nesta região… mas agora eu recordo o porquê.”

“E qual seria o porquê, mellon nîn?" o jovem humano perguntou, desviando seus olhos do céu para melhor ver o seu amigo.

O elfo apenas deu de ombros. “Fora as estrelas, não há nada de mais pra se ver por aqui.”

O guardião voltou seus olhos para o céu, seus risos recomeçando.

“Eu estou falando sério, humano”, o elfo continuou, tentando soar ameaçador, mas incapaz de manter a seriedade na voz. “Da próxima vez que nós formos viajar, eu farei o planejamento.”

“Como desejar, Vossa Alteza,” Aragorn retrucou curvando de leve a cabeça e fazendo um movimento floreado com sua mão, na melhor imitação de uma reverência jocosa que ele conseguiu ainda deitado, e um grande sorriso estampado em seu rosto.

Legolas apenas expirou dramaticamente, balançando sua cabeça. “Guardiões…”

Aragorn estava para responder quando teve as suas intenções frustradas por um grande bocejo que lhe escapou dos lábios.

Legolas olhou para o seu amigo e sorriu. “É melhor que você descanse um pouco, Estel,” Disse o elfo, pondo-se de pé. “Eu ficarei com a primeira vigília”.

“Tem certeza? Você já ficou com a última. E a anterior,” Aragorn perguntou, não querendo sobrecarregar o amigo.

"Aye. Não se preocupe. Você sabe que caminhar sob as estrelas e por entre estas árvores é descanso suficiente para mim.”
Aragorn consentiu, aceitando com gratidão a chance de dormir e descansar um pouco. Mesmo depois de viver quase toda a sua vida entre elfos, ele jamais poderia entender como alguém poderia deixar de lado uma boa noite sono. Era um dos grandes prazeres da vida.

Ele ainda tinha os olhos fixos na figura de Legolas que se afastava quando percebeu uma mudança repentina na postura do elfo, que se tornou subitamente tensa, em alerta.

Antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, ele ouviu a voz de Legolas num sussurro urgente, confirmando as suas suspeitas.

"Aragorn, nad no ennas." /Aragorn, algo se aproxima/

O humano ficou de pé em uma fração de segundos, ficando ao lado de seu amigo em instante. "Man cenich?" /O que você vê?/

Legolas ficou calado por um momento, seus olhos perscrutando a escuridão, estudando atentamente os seus arredores.

E assim que ele reconheceu a ameaça, a palavra saiu de sua boca como veneno. "Yrch." /orcs/

Aragorn imediatamente levou a mão para sua espada, pronto para desembainhá-la e ficar pronto para a iminente batalha, mas Legolas o deteve, dizendo em um tom baixo, não escondendo a sua preocupação.

"Eles são muitos. Precisamos partir. Não seria sábio enfrenta-los em tamanha desvantagem.”

Ao ouvir tais palavras, Aragorn soube que seria tolice sequer tentar lutar. Para Legolas estar sugerindo que eles não enfrentassem esses inimigos, só poderia significar que certamente estava além de suas possibilidades.

Recolhendo rapidamente os seus poucos pertences, eles começaram a correr o mais rápido que seus pés conseguiam os levar, rumando para a direção oposta àquela de onde os sons vinham.

Eles estavam correndo há apenas alguns momentos, quando Legolas de repente parou, fazendo o humano quase tropeçar por cima dele.

"Por que estamos parando? Nós ainda estamos dentro do alcance deles. Nós temos que…”

Legolas ergueu uma de suas mãos, pedido silêncio, seu rosto uma máscara de concentração.

Quando ele falou de novo, o elfo foi incapaz de esconder a profunda preocupação que permeava a sua voz. “Mais orcs estão vindo dessa direção,” ele disse, virando-se para observar a área, franzindo o cenho. Ele puxou seu arco, rapidamente preparando uma flecha, e finalmente anunciou. “Estamos cercados”

Aragorn ainda estava desembainhando a sua espada quando Legolas começou a atirar flecha após flecha na direção das árvores, cada uma seguida por um grito grotesco, certificando a mira certeira do elfo.

Logo os orcs chegaram e uma batalha desesperada começou. Legolas deixara o seu arco de lado, manejand
o as suas adagas com uma precisão mortal. Aragorn brandia a sua espada, fazendo cair inimigo após inimigo com uma força incansável.

O número de orcs era surpreendente, forçando os dois amigos a lutarem com vigor, indo além dos seus próprios limites, e além do que eles próprios acreditavam serem capazes.

Legolas estava terminando com alguns orcs que o haviam cercado quando, ao olhar pra cima, seus olhos testemunharam o momento exato em que uma flecha afundou-se no peito de Aragorn, levando o homem aos seus joelhos.

Legolas sentiu como se tivesse recebido um soco no estômago. Ele tentou chamar por seu amigo, mas nada saiu de sua boca, tamanho o desespero que se apoderou de sua mente.

Mas esse momento de distração foi a sua desgraça. De repente, ele sentiu uma dor aguda no seu lado, seguida por outra cortando as suas costas.

O que aconteceu depois, o elfo não conseguiu entender exatamente. O que ele pode perceber claramente foi ver-se no chão, sem poder levantar, com uma daquelas bestas de Udûn curvando-se sobre ele. Viu, então, a criatura levantar um grande porrete, e em seguida trazê-lo com velocidade em direção à sua cabeça. Depois disso, mais nada.

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Capítulo II

Aragorn acordou com um susto, levantando-se rapidamente. Ele olhou para o seu peito, apalpando de cima a baixo só para descobrir que não havia nada de errado com ele.
O guardião franziu o cenho, achando isso tudo muito estranho… ele tinha certeza de ter sido atingido por pelo menos duas flechas antes de cair, e ver um orc com um porrete levantado pronto para ferir Legolas e…

“Legolas!”

Ele olhou à sua volta, tentando encontrar o amigo, mas quando a sua mente por fim processou o que seus olhos estavam vendo ao seu redor, ele congelou.

Ele não estava mais em Harlindon. Na realidade, ele não tinha a mínima idéia de que lugar era esse. Não era nada parecido com qualquer coisa ou lugar que ele já tivesse visto antes. O teto era quase tão alto quanto uma montanha, e o piso… este era feito do mais belo artesanato, com desenhos intrincados por toda a sua extensão. O lugar todo parecia resplandecer com uma espécie de poeira brilhante, como se alguém tivesse pegado milhares de estrelas e as espedaçado, espalhando o seu pó por todo o recinto.

Ele ficou parado por um momento, boquiaberto, tentando lembrar-se de que ainda tinha que respirar. Foi então que os seus olhos caíram na figura de Legolas, não distante de onde ele agora estava.

O elfo estava de pé, observando com olhos arregalados um dos pontos distantes daquela espécie de sala onde agora se encontravam e, assim que Aragorn alcançou o seu lado, ele pode ver finalmente o que o arqueiro estivera olhando, e pôde entender a expressão embasbacada, quase que de choque que seu amigo tinha no rosto.

“Legolas? É aquele quem eu acho que seja?” perguntou o humano hesitante, não querendo acreditar nos seus próprios olhos.

Legolas levou ainda um momento até finalmente responder. “Eu espero que não, Aragorn. Pois se for quem nós achamos que é, então nós estamos mortos… literalmente!”

Do outro lado do cômodo, falando com alguns outros que pareciam estar tão perdidos quanto eles mesmos, via-se uma figura incrivelmente alta, apoiada sobre um de seus joelhos a fim de ficar mais próxima dos outros muito menores seres. A sua aparência era austera, porém não desprovida de uma grande beleza. Longos cabelos prateados cobriam-lhe a cabeça, e olhos azuis claros adornavam o seu rosto. Apesar de manter a sua voz em um tom baixo, ela carregava um ar de autoridade que era inconfundível. Este era verdadeiramente um dos Valar.

O Vala levantou-se, permitindo a todos que vissem a sua total estatura, e por um instante Legolas e Aragorn conheceram um momento de medo, mas que logo se esvaiu quando ambos viram no rosto sério, a retidão e a justiça dos Cantores da Criação.

Quando o ser celestial se aproximou, Legolas e Aragorn ajoelharam-se, sem saber ao certo como agir perante um dos Ainur.

“Sejam bem vindos aos meus Palácios, ó viajantes cansados. Me chamo Námo, conhecido por muitos como Mandos, por conta de meus Salões. Vocês estão aqui para serem julgados pelos feitos e ações que realizaram no curso de suas vidas, e então, serem enviados ao seu destino final. Digam-me, agora, os seus nomes.”

“Eu sou Aragorn, filho de Arathorn, meu Senhor”, falou o guardião tentando ao máximo manter a voz sem tremer.

“E eu sou Legolas, filho de Thranduil, excelência,” disse o elfo, tendo a mesma dificuldade que o seu amigo.

“Aragorn e Legolas?”

Em face do inesperado tom áspero de incredulidade e exasperação que eles ouviram vindo do ser sagrado, ambos olharam para cima, a tempo de vê-lo passando uma das mãos por sobre o seu rosto em uma clara demonstração de que ele não estava nem um pouco satisfeito em vê-los ali.

“Vocês poderiam me explicar o que estão fazendo em meus Palácios?”

Eles foram pegos de surpresa pela pergunta. O que ele queria dizer com aquilo? Se eles estavam ali, era por que, provavelmente, os orcs haviam conseguido matá-los, e eles estavam agora, basicamente, mortos! De que outra forma eles poderiam possivelmente ter chegado aqui?

“Sem qualquer intenção de faltar-lhe com o devido respeito, hir hîn,” Legolas disse, soando ambos nervoso e confuso, “mas eu não acho que qualquer um que venha para os seus Salões, o faça por vontade própria.” Ele não estava conseguindo entender por que, logo após as suas – se isso realmente não era um sonho – logo após as suas mortes, eles ainda estariam recebendo uma reprimenda por parte do Vala que deveria ajudá-los a ir para onde quer que eles devessem ir dali.

Mandos deu um profundo suspiro.

“Não era para vocês estarem aqui”, ele disse finalmente, como quem apenas relata um fato óbvio. “Os planos de Ilúvatar para vocês dois vão além desta data.”

Ele novamente fez uma breve pausa, cruzando os braços por sobre o peito, estudando o homem e o elfo agora de pé à sua frente por mais um instante. Então, ele de repente ergueu sua cabeça e disse para aparentemente ninguém, em um tom que traduzia uma ira quase incontida. “Como isso aconteceu e por que eu não fui informado imediatamente?”

Neste momento, um ser – que eles só conseguiriam descrever como uma espécie de espectro de luz – materializou-se perante o Vala, conversando com ele em uma língua estranha e musical que nenhum deles jamais ouvira.

Lentamente, os traços de raiva desapareceram de sua face, permanecendo apenas a mesma indiferença e calma
estóica com as quais ele portara-se desde o início.

“Eu regressarei”, Mandos disse com dureza, e com essas duas palavras, partiu.

Aragorn olhou para Legolas com os olhos maiores que uma lua-cheia. “O que acabou de acontecer aqui?”

“Por que você está perguntando isso de mim? Eu nunca morri antes. Isso é tudo bem novo para mim também”, ele exclamou, ainda um pouco abalado pela conversa que ele acabara de ter com um dos altos seres.

“Isso tem que ser um sonho. É isso. Isso é um sonho ruim, e logo eu vou acordar e você vai estar provavelmente fazendo alguma coisa irritante como você normalmente faz”, Aragorn concluiu, desesperadamente tentando achar algum sentindo em toda aquela bagunça.

“Primeiro, nada do que eu faço é irritante”, eu elfo começou indignado, “e segundo, eu não acho que você esteja sonhando… pois eu nunca dantes ouvi falar de sonhos em grupo. E, caso você não tenha percebido, eu também estou aqui.”

Aragorn olhou ao seu redor mais uma vez, como que para se certificar de que ele realmente estava nos Palácios de Mandos, e mesmo que seus olhos estivessem lhe mostrando isso, ele ainda estava tendo dificuldades em aceitar. “E o que ele estava falando? O que aquilo tudo deve significar? Primeiro ele nos dá as boas vindas… e então nos diz que nós não devíamos estar aqui… que nós não podemos ficar…”

Ele ponderou por um minuto, antes de virar-se para Legolas com os olhos cheios de esperança. “Você acha que ele vai nos mandar de volta?”

Legolas deixou escapar um suspiro… ele não tinha mais certeza de nada naquele momento, e isso era algo que deixava o elfo da floresta muito nervoso. “Eu não sei,” disse ele ao jovem guardião. “Mas eu sei que se eu ficar aqui pensando sobre o que pode e o que não pode acontecer em uma situação sobre a qual eu obviamente não tenho nenhum controle, eu vou acabar enlouquecendo”. E com isso ele começou a se afastar.

“Aonde você está indo?” Aragorn perguntou, seguindo o seu amigo.

“Eu nunca estive em Valinor antes, e já que nós estamos aqui mesmo, podemos explorar um pouco”, o elfo afirmou simplesmente.

“Eu não acho que a gente possa deixar a área dos Palácios…” Aragorn disse, pensativo.

“Você já parou para olhar esses Salões? Eles são gigantescos. Levaria dias para ver tudo o que existe por aqui sem jamais termos que dar um passo fora.”

Aragorn não podia negar a verdade. O lugar era realmente colossal, e incrivelmente belo. E não era como se eles pudessem ir para qualquer outro lugar.

Os dois amigos começaram a caminhar lado a lado, simplesmente admirando a arquitetura à mostra. Logo eles saíram da sala onde haviam acordado, adentrando um longo corredor. Havia quadros enormes adornando as paredes, representando ou belas paisagens, tanto da Terra-média como do que eles supunham ser Valinor, ou o que pareciam ser momentos cruciais na história de Arda. Legolas ficou particularmente atraído por uma pintura que mostrava Menegroth e suas milhares de cavernas, enquanto Aragorn estava hipnotizado por outra que mostrava a coroação de Elros, alto rei de Númenor.

Ao continuarem, eles perceberam que o corredor terminava em uma floresta… em uma imensa e bela floresta que tinha uma montanha solitária em seu meio, toda cercada pelos prédios que faziam parte do complexo arquitetônico que eram os Palácios de Mandos.

“Esse lugar é absolutamente nada do que eu jamais imaginei que fosse.” Legolas disse impressionado, olhando admirado para as mais altas Mallorns que ele já vira.

“Essas árvores… elas brilham como se fossem feitas de ouro,” Aragorn sussurrou, ainda sem ar por conta da incrível vista. “Se Valinor é de fato tão bela como são esses Salões, eu o invejo, meu amigo, quando você decidir atravessar o Belegaer”, ele terminou com um sorriso terno.

O sorriso que Legolas tinha em seu rosto diminui ao ouvir este último comentário. “Agora, eis um problema…,” ele disse, virando-se para encarar Aragorn, “nós já estamos mortos, lembra?”

“Oh… é verdade,” foi a resposta quase inaudível de Aragorn. Por um momento ele havia esquecido da sua nova ‘condição’, e agora, depois do primeiro choque de ver este novo lugar impressionante e de descobrir onde isso era e o que significava, as coisas começaram a se organizar em sua mente. Ele pensou em Arwen, e na vida que eles jamais teriam juntos, e sobre o fato de que a sua morte era o fim da linhagem dos Reis, e da esperança de reunir os reinos dos homens sob uma só bandeira, e isso partiu seu coração. Ele não podia partir agora… não quando ainda havia tanto que ele precisava fazer, tantas batalhas para se travar, tanta esperança para se restaurar.

Legolas pareceu notar o desespero do seu amigo, e colocou uma mão sobre o ombro do humano, apertando levemente. “Não encha a sua mente com pensamentos de desespero, mellon nîn. Mandos ainda não anunciou o nosso destino. Ele ainda pode mudar.”

Aragorn sorriu ao seu amigo, agradecido por ter o elfo ao seu lado, reconfortando-se nas suas palavras.

Tentando tirar os pensamentos do guardião de todo esse assunto, ele sugeriu. “Nós poderíamos pegar esse tempo e ver se a gente consegue ter uma visão melhor desta terra de cima daquela montanha. O que você acha?”
Aragorn olhou para a montanha e, pelo que ele pode perceber, parecia simplesmente impossível de se escalar. As suas laterais eram como que de várias paredes totalmente verticais, sem lugares para que pudessem se sustentar.

“Eu não sei, Legolas. Por alguma razão a idéia de escalar essa montanha não me parece muito apelativa,” ele disse, tentando dissuadir o elfo dessa idéia.

“Aragorn, qual o pior que pode acontecer a esse ponto? Cair? Eu realmente não acho que nós possamos morrer de novo.”

Aragorn se engasgou em uma risada com esse último comentário. Essa situação toda estava ficando cada vez mais surreal.

Mas antes que ele pudesse discutir mais, Mandos apareceu perante eles, ajoelhando-se para ficar mais perto dos dois, e pronto para anunciar os seus destinos.

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Capítulo III

Aragorn sentiu o seu coração acelerar, se é que aquilo era realmente o seu coração batendo. Ele viu quando Legolas ficou sobre um joelho, curvando a cabeça, aguardando o julgamento do Vala, e fez o mesmo.

“Manwë falou, e a sua palavra deverá ser cumprida,” Mandos começou, sua voz profunda e severa, como a de um juiz experiente pronunciando a sentença final de seus réus. “
A vocês foi concedida a graça de retornar à Terra-média, e cumprir o destino que foi traçado pelas mão do próprio Criador.”

Aragorn e Legolas sentiram uma incrível sensação de alegria e exultação enchendo os seus corações, e profunda gratidão a Eru e aos Valar.

Mandos então olhou diretamente dentro dos olhos do humano e do elfo com um olhar mais penetrante que a mais afiada de todas as lâminas, e disse vagarosa e austeramente, como que para se certificar de que ambos entenderiam o verdadeiro significado de cada palavra que estava proferindo. “Entendam isso. Um segunda chance para retornar não é algo dado levianamente pelo Súlimo, e tudo que ele pede a vocês em troca é que a usem com sabedoria. Muito depende de você, Elessar, pois levas em ti a última esperança para o mundo dos homens. E você, Thranduillion, deves auxiliá-lo neste caminho para alcançarem a vitória sobre as forças da escuridão”.

Com isso, Mandos se levandou, estendendo suas mãos sobre eles. “Vão em paz, filhos de Eru. E que a graça de Ilúvatar os proteja.”

 

 

Legolas acordou com o vil odor do campo de batalha agredindo as suas narinas. Abriu os seus olhos vagarosamente, e a primeira coisa que viu foram os corpos de inúmeros orcs espalhados ao seu redor.

De súbito, tudo voltou a sua mente… a viagem com Aragorn, o ataque dos orcs, os dois lutando números infinitos de inimigos, seu amigo caindo atingido por uma flecha, e a dor aguda na sua costa e flanco.
Percebendo que não sentia qualquer tipo de dor, levou suas mãos aos locais onde recebera os ferimento, mas tudo o que encontrou foram as suas vestes rasgadas com longos cortes,  a pele e os músculos abaixo, porém, estavam intactos.

Com a sua cabeça funcionando a mil, ele olhou ao seu redor e viu Aragorn caído de bruços no chão, não muito distante dele, imóvel.

Correndo para o lado de seu amigo, ele o virou cuidadosamente, com a preocupação de não machucar ainda mais o humano já ferido.

Mas, para sua supresa, não havia flechas, ou cortes, ou arranhões… nada. Ele fitou, espantado, os orifícios e os talhos na roupa de seu amigo, constatando que, verdadeiramente, era tudo o que havia.

Aragorn foi despertado pelos movimentos do elfo enquanto este o checava, buscando qualquer indício de ferimentos.

“O que você está fazendo?” Aragorn perguntou, sentando-se e empurrando para longe as mãos do amigo.

“Eu vi você sendo atingido por uma flecha… eu sei que eu vi…” a voz do elfo soou distante, enquanto fitava o seu amigo milagrosamente são. Ele não podia expressar em palavras o alívio que sentia naquele momento, assim como a sua total incompreensão de como isso viera a ocorrer.

Foi então que Aragorn finalmente se lembrou da batalha travada contra os orcs, as suas mãos indo instintivamente para onde lembrava ter sido atingido pelas flechas. Ele olhou ao seu redor para se certificar de que a luta não tinha sido apenas um pesadelo, porém os corpos dos orcs eram a prova suficiente de que ela ocorrera.

“E eu fui…” ele finalmente disse. “Eu não entendo.”

“Eu também não, mellon nîn. Mas agradeço aos Valar por este milagre,” disse o elfo, levantando-se e estendendo a sua mão para ajudar o amigo a pôr-se de pé. “Acho melhor voltarmos. Não sabemos se ainda há mais orcs desse bando espalhados por estas planícies, e eu não quero abusar da boa vontade dos Valar,” ele concluiu com um sorriso.

“Aye,” Aragorn respondeu, ainda muito espantado para conseguir formular uma resposta mais eloqüente.

Os amigos, após empilharem e queimarem os corpos dos orcs, começaram o seu retorno para Valfenda.

“Você acha que alguém vai acreditar se contarmos o que ocorreu hoje?”

Legolas pensou um pouco, sem desviar os olhos do caminho, e respondeu com um sorriso. “Não… não acho que alguém iria acreditar… eu estava lá e ainda não acredito no que aconteceu…”

“É… foi o que eu pensei.”, Aragorn respondeu, rindo-se, já que ele mesmo não entendia o que acontecera.

“Mas uma coisa eu posso afirmar, mellon nîn…” disse o elfo, virando-se para encarar o humano, olhando-o bem nos olhos.

“Sim, Legolas?”

“Da próxima vez que nós formos viajar, eu farei o planejamento.”

FIM

O Conto de Lustion – Primeiro Relato

Sinopse: Esse é o primeiro relato da vida de Lustion, de autoria anônima e encontrado nas páginas do Parma Vanwë Nyaron, O Livro dos Contos Perdidos.

Classificação: 12 anos

Disclaimer: Este é um trabalho de ficção, sem fins lucrativos, baseado na obra de Tolkien.


 

 

Capítulo I: Do nascimento e da resolução de Lustion

Grande foi a felicidade dos Noldor quando se deu o nascimento de Lustion. Naquela época as duas árvores ainda vingavam sobre Ezellohar, e a felicidade dos Eldar era impoluta. Recebeu esse nome, que significa “vazio”, pois a ele seus olhos assimilavam-se, profundos e escuros, parecendo absorver tudo ao seu redor, e ao mesmo tempo transparecendo a grandiosidade de seu espírito. E seu pai Meldan era querido por muitos, pois era um dos grandes senhores dos Noldor em seu tempo, e o nascimento de seu filho foi jubilado por muitos.

Porém, quando ainda era muito novo, Lustion presenciou o mais negro de todos os fatos daquele tempo. Viu Melkor e Ungoliant prostrarem Valinor sob um véu de sombras nunca antes visto, matando as Duas Árvores. Aquelas imagens jamais se apagariam de sua memória, pois amava muito as Duas Árvores, que exerciam nele enorme fascínio e admiração. Então, quando Fëanor filho de Finwë proferiu seu juramento, Meldan decidiu com ele seguir. Mas seu coração estava dúbio e pesaroso por ter que se separar daquele que ele mais estimava, seu filho. E apesar de tudo, não poderia deixar de ajudar àquele que agora era senhor de seu povo, e pelo qual sentia muita compaixão pelas desgraças sofridas. Assim, Lustion despediu-se de seu pai, sem saber se algum dia retornaria a vê-lo.

De fato, os anos passaram-se depressa, e agora já brilhavam tanto Anar quanto Isil sobre o firmamento, e as Árvores eram uma triste lembrança de um passado que não retornaria. Lustion desenvolvera de modo majestoso seus talentos inatos como artífice e navegador, e tornou-se admirado e querido por muitos. Revelava-se nele um espírito incansável e ardente, tal como o líder de seu povo, que perecera além Mar. E sua mente começava a inquietar-se mais do que o comum, pensando em seu pai, e ansiando conhecer novas terras, pois era ávido por novidades e o ócio nunca lhe seduzira.

De seu pai não tivera mais notícias, e sabendo do que ocorrera no episódio do Fratricídio de Alqualondë, julgou que seu pai estava ligado a um negro destino, que acompanhava todos àqueles que partiram com Fëanor no dia de seu nefasto juramento. E seu coração desejou ir em busca de seu pai, que ele amava mais que qualquer coisa. Mas ele não teria a permissão dos Valar para abandonar a Terra  Abençoada, tal como seus antepassados fizeram. Porém mesmo assim ele tentou conseguir tal permissão, indo falar com Manwë e Varda em Ilmarin. E Manwe lhe negou, conforme previsto, tal pedido:

– Ó Lustion filho de Meldan, sabemos que o destino de seu pai é negro, mas não permita que tal destino acometa-se sobre ti também. Pois foi decisão dele seguir esse caminho, e ele não permitiria que seu amado filho partilhasse de tal sina.
– E que espécie de filho poderei me considerar, sem nem ao menos tentar salvar àquele a quem mais estimo nesse mundo? Não serei feliz de qualquer modo vivendo aqui, sabendo que nesse instante meu pai pode estar passando por momentos difíceis, em alguma missão desesperada e derradeira. Infelizmente eu terei que partir, com ou sem vossa permissão.
– Se assim diz, assim será. Partilhará das dores e sofrimentos daqueles que outrora abandonaram este reino, e antes do final te arrependerás de ter contrariado minha decisão e meus conselhos. Pois, se decides partir atrás daqueles que se dispuseram a seguir Fëanor, como um deles será considerado, e sobre ti a mesma sina pesará. Meu coração se entristece ao saber de tua escolha, mas não posso impedi-lo à força.
– Como no passado foi dito: tentarei, através do sofrimento, conquistar a felicidade – disse por final Lustion.

E Manwë nada mais disse. Ele sabia que nada agora impediria a partida de Lustion. E este construiu um barco para si, a fim de cruzar a longa distância que o separava das terras mortais. Branco ele era, com velas douradas, e tão logo Lustion partiu, percebeu que os Valar não lhe impediriam de fato, já que o vento soprava favoravelmente, e o mar não se agitava mais do que o suficiente. Ulmo e Ossë não teriam interesse em impedir aquela pequena embarcação de atingir as costas de Beleriand, seguindo seu destino, qual fosse ele.

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Capítulo II: De Raiva e Pesar

Quando por fim Lustion chegou às praias de Beleriand, adentrando-se até chegar por fim em Cirith Ninniach, ele percebeu que sua missão seria mais complicada do que lhe parecera de início. Não fazia idéia de onde poderia estar seu pai, ou como chegar a tal lugar, tampouco sabia onde poderia encontrar alguém que pudesse lhe informar qualquer coisa a respeito. E assim ele começou a andar por Hithlum, e por acaso, ou talvez destino, ou mesmo ambos, ele não demorou a encontrar alguém. Esta foi a primeira vez, mas certamente não última, que Lustion se deparou com representantes dos Atani, O Segundo Povo. Soube com eles que talvez pudesse encontrar quem procurava adentrando mais em Hithlum, até chegar ao Lago Mithrim, onde habitavam a maioria dos noldorim naquela época.

Percebeu que a terra estava devastada, como que castigada por algum mal poderoso e impiedoso. A desolação dessas terras em nada se comparava à beleza do reino que ele abandonara. E, ao chegar em Mithrim deparou-se finalmente com àqueles a quem procurava. Mas não reconheceu entre eles nenhum dos que ele vira partir de Valinor, e estranhou o escasso número de remanescentes Noldor ali. Assim soube que tanto Fëanor quanto Fingolfin já haviam perecido, e que eles agora abandonavam o Lago para juntar-se àqueles que se reuniam para combater Morgoth. Logo supôs que seu pai havia partido para a batalha, pois essa seria sem dúvida sua atitude. E seus novos companheiros, à simples menção do nome de Meldan, assentiram, sentindo-se honrados e felizes em conhecer o filho deste, de quem ele tanto falava e se orgulhava. Mas estavam pasmos agora, pois pareciam que viam um fantasma na pessoa de Lustion. Intrigado, ele lhes perguntou:

-Por que me olham dessa maneira? Por acaso eu lhes recordo alguma má lembrança?
-Ó filho de Meldan. Se não soubéssemos que você é filho dele, juraríamos que fostes a reencarnação de Fëanor. Pois tanto na aparência, quanto no ardor do espírito você é muito semelhante a ele. Praticamente igual eu poderia dizer, e vejo isso através de seus olhos. Mas não é possível que você seja ele, de qualquer maneira.
– De fato não s
ou ele – disse Lustion – mas não me incomodo com tal comparação. Pois, apesar de tudo, Fëanor ainda é digno de minha admiração. Assim como ele, o que eu mais amo nesse mundo é meu pai, e foi por ele que vim até aqui.

 Então deles recebeu o convite para acompanhá-los em marcha rumo às Thangorodrim. Recebeu uma espada, dado que nenhuma arma trouxera do Reino Abençoado, mas negou qualquer proteção, por mais leve cota ou escudo que fosse, pois não se sentia bem os usando, preferindo usar apenas as roupas de seu corpo, com as quais tinha maior liberdade de movimentos. Armaduras lhe sufocavam, e escudos lhe diminuíam a destreza. Partiram então, e eis que chegaram aos pés das Thangorodrim exatamente no ímpeto inicial da batalha, prontos para ajudar as demais hostes que ali estavam lutando contra os exércitos de Morgoth. E Lustion revelou-se um guerreiro incrivelmente hábil no uso da espada, como era de se prever. O desejo de rever seu pai fazia com que ele não deixasse vivo orc ou troll que cruzasse seu caminho, procurando por todos os lados por muito tempo, tanto quanto fosse possível. De fato, o poder e a vastidão dos exércitos de Morgoth agora faziam-se claros, e a batalha tomava um rumo decadente.

Mas, em meio a tudo, finalmente Lustion avistou a figura inconfundível de seu pai, alto e imponente, e este também o viu e reconheceu o filho que ele deixara do outro lado do Mar. Apesar da tristeza da batalha, a alegria não podia ser maior naquele momento, e Lustion, de súbito, avançou em direção a seu pai, que estava praticamente cercado de inimigos. E o pavor o dominou quando viu que uma criatura atroz aproximava-se repentinamente de seu pai, flanqueando-o. Era um Balrog, saído das profundezas das Thangorodrim. Sua carne ardia em chamas, e o pavor de sua aproximação fazia com que mesmo seus aliados se afastassem, e agora a enorme lâmina flamejante em sua mão descia contra Meldan. A potência do golpe foi tal que escudo e elmo partiram-se, na tentativa de aparar a lâmina descendente. Ainda assim a cabeça de Meldan fora seriamente ferida, e o sangue vertia em meio a seus longos cabelos castanhos, tingindo-os de escarlate E o Balrog pisou em seu pescoço, e quando ia desferir o golpe fatal, Lustion atirou-se com sua espada contra ele, jogando-o de lado. Novamente o valarauko usou de sua lâmina, e lançou um golpe usando toda sua força contra Lustion. Um estrondo ressoou. A espada de Lustion estava partida e seu peito ferido. Imagens seqüenciais lhe vinham à mente. Viu o rosto de seu pai ensangüentado, e a felicidade pela qual procurara esvair-se justamente quando a alcançara.

E a raiva tomou seu ser por completo. Reunindo toda sua força, pegou do chão a espada de seu pai, Amaurëa, a aurora, que mesmo após ceifar muitos inimigos, reluzia de modo assombroso, tal como a manhã de um novo dia que surge após a escuridão da vigília da noite. Empunhando-a, desferiu sucessivos golpes contra o Balrog que não conseguia reagir à tamanha fúria. Os orcs ao redor corriam, assustados ante a presença e a ira de Lustion. Por fim, ele acertou o Balrog com um golpe profundo, enterrando nele a espada de seu pai e derrotando-o. Voltou até seu pai que guardara suas últimas palavras, com o fôlego que lhe restara:

-“Vai Lustion, meu filho. O tempo urge, e a batalha te chama. És motivo de meu orgulho, e apesar de deixar-te agora, sinto que seus feitos trarão glória maior do que a desgraça dessa guerra toda. Teu fim não é aqui nem agora, mas o meu sim. Use o rancor que toma teu coração contra teus inimigos, e apenas contra eles. Seu espírito queima, mas tu irás ter o domínio de teus atos, e então, no final de tudo, nos veremos novamente”.

 Ali teria ficado Lustion, prostrado aos pés de seu pai derramando suas lágrimas, mas o curso da batalha não permitia. Com raiva e sede de vingança estava Lustion, e seus olhos agora brilhavam vermelhos como o fogo, transparecendo seu estado de espírito. Nenhum oponente conseguia fitá-lo nos olhos, e por muitas vezes cantou Amaurëa empunhada por Lustion, antes que o final da batalha se desse.

Mesmo dominado pela ira, um resquício de lucidez ainda sobrara, e então Lustion divisou em meio ao turbilhão da batalha, alguém que lutava com grande fervor, parecendo lutar por uma causa maior, assim como acontecia com ele próprio. De fato, em um momento em que ele acabara de abrir um grande rombo entre um grupo de orcs, ele conseguiu aproximar-se daquele que ele percebia agora também ser um eldar. E então, o guerreiro, que também parecia admirado pelo desempenho de Lustion, disse:

           – Quem és, guerreiro que põe a alma na espada e que tão grande ajuda veio prestar em batalha?
           – Chamo-me Lustion, noldo exilado que vem às pressas auxiliar contra o mal que acomete esta terra.  E quanto a você, com toda essa imponência, mantendo o destemor em hora tão sombria?
A batalha parecia estática para ambos, que agora pareciam não ligar para os perigos que os cercavam.
            – Sou Glaurion, e muito me alegro em encontrar alguém como você em um momento como esse. De grande valia será sua lâmina, e espero que possamos nos encontrar novamente, em um momento melhor, se pudermos sobreviver, para contarmos nossas histórias.
– Assim também espero, e assim creio que será. Pois mesmo que não possamos manter nossas vidas, haveremos de nos reencontrar em outro lugar, muito além daqui, por maior que possa ser a sombra que paira sobre nós.

E, de fato, negro foi o desfecho, pois a traição dos homens decretou a vitória de Morgoth, nessa que seria chamada de Nirnaeth Arnoediad, a Batalha das Lágrimas Incontáveis, nome apropriado aos acontecimentos nela decorridos. E ao final Lustion acabou sendo feito escravo de Morgoth, levado a trabalhar em suas minas em eterna servidão. Antes disso, porém, entregou Amaurëa a um elfo que debandava da batalha, antes que fosse capturado, e no qual ele acreditou haver capacidade suficiente para sobreviver e lhe dar esperanças de um dia reaver a espada que fora de seu pai.

Tornando-se escravo, labutou ao lado de muitos que partilharam o mesmo destino. Conseguiu certa fama ali, destacando-se por sua perseverança e altivez de espírito. E novamente eram feitas comparações com Fëanor. Aparentemente talvez não houvesse nenhum problema quanto a isso, mas à simples menção desse nome o sangue de Melkor gelava, já que ele não podia sequer lembrar daquele elfo pelo qual ele devotou seu maior ódio, e pelo qual possuía tanta inveja e temor. Assim, Lustion acabou sendo torturado e humilhado pelo próprio Morgoth, mas ele não pronunciou nem sequer uma palavra, permanecendo calado, pois seu ódio por Melkor era tanto, que ele guardaria todas as suas forças para vingar seu pai, não sendo necessário desperdiçar palavras em tal situação. Ofensas e torturas jamais poderiam fazê-lo
sofrer como o fez a morte de seu pai.

E durante anos permaneceu na condição de escravo, e ali nos calabouços ele conheceu Fëaruin Amanon, um dos poucos dos quais ele se lembrava de ter visto partindo de Valinor com seu pai, e que viu em Lustion alguém muito valoroso. Certo dia, uma oportunidade de fuga surgiu, e ele, junto de Fëaruin, Glaurion, e alguns outros elfos, conseguiram escapar, atacando um grupo de orcs que os vigiavam desatentos. E, alguns dias após a fuga, acabaram por encontrar um grupo de eldar. Entre eles, ao que parecia, haviam muitos que já conheciam Fëaruin, e então Lustion pôde perceber a importância daquele que ele agora sabia ser um dos príncipes dos Noldor. E, por enorme coincidência e alegria, ele viu entre esse grupo o elfo ao qual ele confiara Amaurëa. E este prontamente veio lhe entregar a espada:

– Por todo este tempo guardei tua espada, pois sabia que um dia nos reencontraríamos, e que eu iria poder devolvê-la em mãos. Pois percebi em você uma força que não pode ser mantida em cativeiro por muito tempo, nem segurada de qualquer maneira.
– Eu lhe agradeço imensamente! Esta espada pertencia a meu pai, que pereceu na batalha. Não imaginas o quão feliz me sinto por poder reavê-la. Tenho uma enorme dívida para contigo agora.
– A tua gratidão já me é mais do que suficiente.

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Capítulo III: De uma nova vida

Então Lustion decidiu partir com eles para o Oeste, além das terras de Beleriand, já que agora ele não tinha mais nada nem ninguém nessa terra, e não tinha para onde ir. Mas ele não se arrependia de ter contrariado o conselho de Manwë, apesar de sentir grande pesar. Agora seria um novo tempo para ele, onde ele poderia descansar e construir uma nova vida. Mas, de qualquer maneira, ele jamais iria se esquecer de que ainda iria descarregar todo o ódio pela morte de seu pai, obtendo sua vingança. 

Eis que após muita caminhada, o grupo chegou às Orocarni. E ali decidiram se instalar, fundando a cidade de Alcarost, a Cidadela de Glória, e seu rei seria Fëaruin. E com isso muito feliz ficou Lustion, pois poderia realmente descansar e pensar em fazer coisas novas. Ali ele tornou-se conselheiro do Rei, pois todos o reconheciam como sendo alguém muito poderoso, sábio e ponderado.

Além de tornar-se conselheiro, ele tornou-se mestre arcano de Alcarost, pois entre suas muitas habilidades, estava a de saber lidar com a sutileza da magia, além de iniciar os mais jovens nessa arte. Pois, quando Lustion demonstrava sua capacidade de manipular a magia, todos viam que ele de fato possuía uma grande capacidade. Suas obras possuíam uma aura especial, e ele podia fazer os frutos dos pomares ficarem mais saborosos, as folhas das árvores resplandecerem douradas, e as crianças se alegravam quando ele chegava. Além disso, ele conseguia dar um ar de magnitude à Cidadela, fazendo com que aos olhos de todos, ela ficasse envolta num manto de beleza e imponência.

 A paz de Alcarost por diversas vezes foi perturbada, e em todas as batalhas que ocorreram, Lustion participou, brandindo Amaurëa contra os inimigos de seu novo lar. E numa dessas batalhas, ele acabou por fazer um inimigo terrível. Naquelas regiões, precisamente mais ao norte, haviam se desenvolvido os antros dos dragões remanescentes da guerra da Ira. Esses eram os últimos dos urulóki, mas seu poder ainda era suficiente para despertar o temor no coração de muitos, e ninguém se atreveria a se aproximar daquelas terras, sabendo da existência de tal perigo.

E numa das batalhas que foi travada diante dos portões de Alcarost, os orcs vieram acompanhados de um desses dragões. Telepso era seu nome, chamado também de O Prateado. Suas escamas eram prateadas de fato, e sua imponência fazia a maioria de seus inimigos correrem de medo assim que o avistassem. Mas quando Lustion encontrou-se com ele em batalha, não sentiu temor, nem fez nenhuma menção de fugir. Assim também eram poucos os que podiam fitar os olhos de Lustion cara a cara em batalha, e Telepso o fez, apesar de sentir-se incomodado por tal fato, pois o olhar de Lustion penetrava na alma de quem o fitasse, podendo despertar ali grandes temores. Porém a corrupção que Melkor fez com esses seres era tamanha, que não permitia que eles sentissem medo ou receio.

Mas Lustion não pôde ficar ali por mais tempo, pois ao mesmo tempo em que o Dragão investia contra ele, vinham agora os reforços dos orcs, que sentiam-se motivados e fortalecidos pela presença do grande lagarto, e assim, por estar sozinho ali, teve que retirar-se para as hostes de seu lado novamente. Tão logo puderam se recompor do avanço da divisão inimiga, as tropas de Alcarost agora empurravam os orcs cada vez mais para longe dos portões, e Telepso não podia fazer muito contra tamanho ímpeto desse enorme grupo que agora o atacava.

Assim ele começou a fugir. E Lustion foi atrás dele, e não percebeu de início que era isso que o dragão queria. Pois assim que Lustion se distanciara de seus companheiros, Telepso virou-se e investiu contra ele, que percebeu seu erro, tendo que enfrentar o grande monstro de frente. Sabia que teria poucas chances, ainda mais sem nenhuma proteção que pudesse defendê-lo da baforada desse ser poderoso. Assim, ele decidiu que era melhor correr até achar uma posição mais favorável para ele, e onde não tivesse de encarar o Dragão abertamente, sem defesa alguma.

Porém Telepso, apesar de grande, era rápido, e quando estava quase alcançando Lustion, baforou seu mortal sopro ígneo, que atingiu Lustion pelas costas, arremessando-o contra o chão. Sentindo a terrível dor que calcinava sua carne, ele virou-se rapidamente com as costas para o chão, e conseguiu desviar da primeira patada que o dragão desferiu. Em seguida, ele posicionou sua espada na frente do dorso, aparando as enormes mandíbulas que tentavam devorá-lo inteiro.

 E a força era tamanha que o Dragão acabou por conseguir cravar suas presas no tórax e nas costas de Lustion. Mas, no mesmo instante em que seus dentes afiados penetraram na carne do elfo, ele sentiu uma dor lancinante, e deu um salto para trás. Pois Lustion ainda estava com braço e espada na boca de Telepso, e quanto mais ele forçava a mandíbula, mais Amaurëa entrava na carne de sua boca. Se ele tivesse insistido em afundar ainda mais seus dentes, ambos teriam perecido, e o relato acabaria aqui. Mas não foi o que aconteceu, e agora o sangue negro saía-lha da boca aos borbotões, e ele acabou por fugir, pois ele não tinha mais condições de batalha.

E talvez tenha sido um grande erro, já que Lustion também não podia mais lutar, em virtude de que o calor e o sangue da boca do Dragão haviam inutilizado sua mão direita, e as perfurações feitas pelos dentes do Dragão somadas às queimaduras nas costas o deixaram seriamente ferido, e mais incapacitado ainda do que a criatura. Permaneceu, porém, consciente, e levantou-se, indo em direção de Alcarost. Assim ele
acabou sendo encontrado, cambaleando, parecendo mais morto do que vivo, pelos remanescentes da batalha, que o estavam procurando.

Ao voltar, soube que Seron, que era um grande amigo seu e naqueles tempos era dos mais honrados dos soldados de Alcarost, havia morrido para o mesmo dragão que quase o matara. E Seron tinha um filho, Vórima, que era um dos discípulos arcanos de Lustion, que acabou-se apegando ao jovem, tomando-o como seu próprio filho. E ele acabou recuperando-se rápido, mostrando que era muito resistente às feridas que os eventos do destino podiam lhe causar.

 Tão logo recuperou-se, começou a bolar uma estratégia para poder derrotar o Dragão. Mas ele não queria ter de esperar até que uma nova batalha houvesse, e mais vidas fossem sacrificadas em virtude disso. Assim, ele decidiu que iria até as proximidades do lar do dragão, e o chamaria para um duelo de um contra um. Ele sabia que apenas um deles sairia vivo, mas não se importava com isso. “Para qualquer bem maior, riscos são necessários, e mesmo que seja a sua vida que esteja em jogo, você deve encará-los.” – dizia ele a todos que tentavam dissuadi-lo de idéia tão desvairada.

Mas Lustion permanecia austero, e mais ponderado do que nunca. Então ele decidiu usar sua capacidade criativa e o poder de sua magia para criar uma roupa que o protegeria do fogo da garganta do dragão, pois ele sentira na pele o poder letal daquela terrível arma. E numa manhã ensolarada de Alcarost, ele partiu, trajado com sua veste, armado de Amaurëa na mão direita, e de uma longa lança na mão esquerda, além de estar acompanhado de Vórima que insistiu para acompanhar seu mestre, pois, se Lustion vencesse o dragão, ele haveria de ver com seus próprios olhos o triunfo daquela batalha, e se Lustion perecesse, ele pereceria junto, pois seu mestre era tudo que ele tinha de mais precioso agora.

Eles seguiam agora, até a morada de Telepso, onde também habitavam outros dragões muito possivelmente, numa região cercada de diversos perigos, e não muitas léguas distante de Alcarost.
 Por fim, chegaram ao topo de uma colina da região. Ali Lustion parou, e começou a analisar o território. Assim, disse à Vórima:
 – Vai até lá embaixo e anuncie, como meu arauto, que eu cheguei até aqui para desafiar Telepso para um duelo no final da tarde de hoje, aqui mesmo nessa Colina. Pois lá embaixo eu percebo que há um grupo de orcs, ou outros seres igualmente repugnantes, que poderão dar esse recado àquele maldito lagarto. Leve minha espada junto, e deixe-a desembainhada. Assim eles não terão coragem para atacá-lo, pois a fama desta espada a precede. Depois volte aqui e traga-me o que conseguiu.

 Vórima desceu, e após alguns minutos retornou. A batalha estava marcada, e Telepso seria avisado pelos orcs que estavam lá embaixo acampados. Lustion então decidiu sentar atrás da Colina, de modo que ficasse oculto aos olhos daquele acampamento.

 E no final da tarde, eles ouviram os passos de Telepso se aproximando, fazendo com que o chão trepidasse, anunciando a chegada do temível lagarto. Lustion colocou-se então de pé no topo da colina, e sua silhueta ao vento era como uma lembrança dos tempos antigos, sua aura transparecia uma imponência majestosa, e as últimas fagulhas do brilho de Anar que descia no poente batiam em suas costas.  Então Telepso, avistando Lustion, escarneceu:

 – Então veio para entregar-me sua vida facilmente, seu tolo? Pois eu não precisarei fazer nenhum esforço para terminar com sua permanência aqui, mas isso me dará muito prazer. Hoje você irá perecer devido à sua ignorância, e não terá a mesma sorte de antes.
 – Ignorante são suas palavras, lagarto maldito. Só saberemos o resultado dessa batalha após um de nós cair. Mas digo-te, que por subestimar-me, não serei eu a cair. E tua língua haverá de se dobrar após perceber que foi derrotado.

 Telepso já ia retrucar as palavras do noldo, quando uma lança cruzou o ar, com sua ponta prateada buscando o olho do Dragão. Telepso desviou, mas foi atingido no lado de sua boca. E ao mesmo tempo em que Lustion arremessara a lança, ele saltou na direção de Telepso, que após sentir a lança cravar-lhe a carne, teve a visão ofuscada pelo Sol, que não estava mais oculto pela presença de Lustion. Isso fora fruto de sua estratégia, fazendo o dragão enfrentá-lo de frente para a luz do grande astro, e o dragão distinguiu apenas uma sombra voando em sua direção. E Telepso não teve tempo para esboçar reação alguma a não ser usar sua arma mais mortal, a baforada. Mas Lustion, usando seu traje mágico, entrou na profusão de chamas, e saiu do outro lado ileso, com a cabeça do Dragão livre para receber o golpe final. Assim, ele caiu diretamente na cabeça de Telepso, cravando a espada até o cabo entre os olhos do Lagarto.

  Sangue negro jorrou da cabeça de Telepso, e ele se debateu bruscamente, arremessando Lustion para longe. Por fim, ele acabou caindo, e não pode sequer dizer mais nenhuma palavra. Estava morto o Prateado, e aquela colina tornou-se famosa posteriormente, devido a essa batalha, sendo chamada de Amon Celeb. Lustion, recompondo-se da queda que levara, dirigiu-se até onde estava o corpo do dragão, e cuidadosamente retirou sua espada da carne do lagarto.

Mesmo após desferir golpe tão poderoso e penetrar no couro do Dragão, a espada permanecia limpa e intacta. Então Vórima veio saudar seu mestre, espantado pelo mesmo ter derrotado o dragão sem sofrer nenhum ferimento. Mas Lustion permaneceu sério, não parecendo totalmente feliz por ter derrotado o dragão. E Vórima não compreendeu a atitude de seu mestre e (praticamente) pai, e preferiu não comentar mais a respeito.

 Em seu íntimo Lustion sabia que aquela criatura não era senão mais uma vítima da perversão e malícia de Melkor que haveria de perdurar para todo o sempre, e sentiu pena, por não ter outra alternativa senão combater qualquer mal que fosse com todas as suas forças. O mal nunca haveria de ser derrotado totalmente, mas não se podia deixar de lutar para que esse mal não sobrepujasse o bem que ainda existia no mundo. Lustion sentia isso passar por sua cabeça, e muito mais, e não trocou palavra com seu discípulo enquanto voltavam à Alcarost, perdendo-se em seus pensamentos.

 Em Alcarost ele retomou o curso de suas atividades, ensinando seu discípulo e filho, e demais iniciados arcanos, postergando seu conhecimento e sabedoria para as gerações vindouras.

Não são esses todos os fatos que são conhecidos de Lustion, e seus outros feitos e o fim de sua vida em Alcarost serão relatados conforme minha memória me auxiliar, e conforme eu possa criar coragem para lembrar de feitos e fatos ainda mais grandiosos e dolorosos, pois meu coração ainda carrega esses sentimentos, e meus relatos
podem vacilar.

Pois Lustion era um noldo, e como tal estava sujeito aos predizeres que Mandos pronunciara outrora em Aman.

Uma Luz na Escuridão

Sinopse: Os pensamentos de Maehdros durante o seu cativeiro nas Thangorodrin.

Classificação: Livre

Gênero: Drama

Disclaimer: Silmarillion não é meu… e nunca sera meu.. é de Tolkien.

 


 

 

Ele abriu os olhos para um mundo fúnebre. Tudo ao seu redor era destruição. Ele podia sentir o vento acariciar o seu rosto, mas esse mesmo vento não trazia qualquer refrigério… trazia apenas o odor vil das criaturas que Morgoth havia criado e guardado dentro daquelas montanhas amaldiçoadas.

Ele se sentia fraco… seu corpo tremia em conseqüência nos maus tratos aos quais ele havia sido submetido. E a dor era algo que ele jamais imaginou que alguém pudesse suportar.

Mas, no entanto, lá estava ele… dependurado por seu braço direito na parede de um penhasco no meio das Thangorodrin… longe de tudo e de todos que ele amava… sem qualquer esperança de liberdade… apenas desespero… com nada além da expectativa da morte como o seu único alento.

Ele não sabia precisar a quanto tempo já estava lá… anos, séculos, milênios… uma eternidade. Ele não mais ousava olhar para o céu… pois se o fizesse, haveria a chance de, em meio a sua angústia, seus olhos avistarem as estrelas… e isso partiria o seu coração, pois o faria lembrar de tudo que perdera, de toda a beleza que um dia desfrutara, e que ainda estava lá fora, porém muito além do seu alcance.

Foi por isso que no primeiro instante que a aquela suave melodia alcançou os seus ouvidos, ele pensou ser um sonho… um sonho amaldiçoado com o único propósito de escarnecer ainda mais de seu sofrimento e de sua angústia. Ele reuniu a pouca força que ainda lhe restava para tentar afastar a música de seus sentidos, mas ela não desapareceu, muito pelo contrário, tornou-se mais forte.

O seu coração, há tanto já sem esperança, há tanto sem uma razão, foi sendo preenchido de uma súbita expectativa. Havia alguém lá fora procurando por ele… alguém que o amava o bastante a ponto de arriscar-se a entrar neste lugar dantesco para resgatá-lo.

Ele conhecia a canção dos seus tempos de criança… e ele conhecia aquela voz. Ah… como ele conhecia aquela amada voz. Era Fingon.

Ele abriu a boca para chamar por aquele que cantava… para fazê-lo saber onde ele estava preso, mas nenhum som deixou a sua boca ressequida.

Novamente ele tentou chamar por seu amigo, tentou fazer com que qualquer som escapasse da sua garganta, um mísero clamor de esperança após tantos anos de choros e gemidos de dor, mas, por uma segunda vez, somente o silêncio foi a sua voz.

A música então começou a se distanciar, e ele sentiu toda a esperança que há tão pouco havia sido restaurada ao seu coração, ser arrancada de forma tão cruel, que a dor causada em muito sobrepujou toda a tortura que Morgoth o fizera suportar.

Depois de tudo pelo que ele havia passado, depois de todos esses anos de tormento, era assim então que ele morreria? À mercê do escárnio de seus inimigos quando a sua salvação tinha estado tão perto?

Ele orou aos Valar, implorou que lhe dessem forças para vencer a escuridão, para tocar a luz uma vez mais, nem que fosse para vir a perecer nos braços de seu amigo, para sentir uma última vez o toque terno de um dos seus. E, enquanto lágrimas fluíam de seus olhos cerrados, a sua voz finalmente fez-se soar naquela tarde sombria, indo ao encontro da de seu amigo… de seu gwador, naquela antiga, mas tão querida canção.

A voz que saiu foi baixa e rouca… tão fraca que por um momento ele achou que Fingon não seria capaz de ouvi-la. Mas ao abrir os olhos, o que ele presenciou foi a visão mais maravilhosa que ele jamais ousara sonhar testemunhar novamente… um raio de luz puro e límpido quebrando aquela desolação. O seu amigo de pé no topo do penhasco, chamando o seu nome, olhando-o com tanto amor e preocupação que fez com que seu coração quase explodisse de alegria.

A esperança havia-lhe sido enviada na forma de seu amigo mais antigo… e naquele momento, apesar de tudo o que o afligia, Maedhros estava finalmente em paz.

 FIM

A Necessidade de Muitos

Sinopse: Quando Legolas é forçado a tomar uma decisão que poderia determinar o destino da Terra-média, o que ele fará? E quais consequências as suas escolhas terão?

Gênero: Drama / Ação / Aventura

Classificação: 13 anos

Disclaimer: Nós possuímos nada do mundo de Tolkien. Nós só pegamos emprestado de vez em quando. Nós prometemos que, assim que terminarmos, a gente devolve ele exatamente como encontramos… ou quase. Também, todas as músicas/poemas usados nessa estória pertencem a Tolkien, a não se que especificado o contrário.

 


 

Capítulo 1 – Atalho para o Desastre

A colina elevava-se por sobre o rio, com uma campina plana, encharcada pelos raios do sol em ambas as margens, e uma mata densa e sombreada nos seus arredores. Uma ravina estreita espreitava-se por um dos lados, o rio correndo rapidamente entre os dois precipícios. O rio era de um azul-safira brilhante, estreito quando se recurvava para dentro da campina e gradualmente alargando-se até desaparecer de vista pela ravina. As folhas novas da primavera eram verdes e vibrantes em seus galhos enquanto balançavam gentilmente com a brisa. A sua coloração era um forte contraste ao marrom das folhas mortas espalhadas pelo chão, reveladas pela neve do inverno que derretia. O céu estava azul e sem nuvens, o ar fresco e límpido. O sol apenas começara a sua descida para trás do horizonte.

Legolas olhou ao seu redor, deixando-se envolver por toda a beleza do lugar e a sua atmosfera. Ele nunca dantes tomara esse caminho para ir a Valfenda. No entanto, pelo jeito ele já iria chegar ao seu destino vários dias após o pretendido, e ele tinha certeza de que essa estrada cortaria um pouco do tempo de sua jornada. Já eram quase três meses desde que o elfo tinha visto o seu melhor amigo pela última vez, e então o mensageiro chegara à Floresta das Trevas com o convite de Aragorn para a celebração do seu aniversário, e Legolas estava mais do que feliz por poder ir. O aniversário de Aragorn era no dia primeiro de março, e Legolas decidiu chegar uma semana antes para poder passar um tempo extra com o humano antes das festividades começarem. Mas parecia que o destino não viu essa decisão com bons olhos. No dia anterior ao marcado para a sua partida, um pequeno grupo de homens chegou. E como a sorte desejou, eles foram enviados como representantes do Senhor Ceoran da cidade de Vaenyc, logo fora dos limites da Floresta das Trevas. Eles queriam uma audiência com o seu pai, e o Rei Thranduil insistiu que Legolas ficasse para estar também presente. Para ele, parecia que Thranduil gostava muito de lembrá-lo de que ele era um príncipe, e em conseqüência os seus deveres sempre deviam passar por cima dos seus desejos. Legolas detestava esse fato, e freqüentemente ficava frustrado com as pessoas do seu reino por serem um constante indicativo disso. No momento, ele estava cada vez mais frustrado com seu pai. Não houvera qualquer necessidade da sua presença durantes as reuniões com os homens de Vaenyc. Legolas havia expressado seus sentimentos sobre a questão para o Rei Elfo, e se despedira de seu pai com palavras duras. Seus olhos brilharam de raiva momentaneamente com a lembrança de sua partida da Floresta das Trevas.

O seu humor, porém, não podia ser abatido por muito tempo, e enquanto o céu flamejava com róseas, laranjas, vermelhos e ocre profundo, e o sol poente delineava as nuvens passantes com dourado, Legolas decidiu que já era hora de montar o acampamento para a noite. Ele manejou seu cavalo até uma área da planície que parecia ideal para armar o acampamento. Ele deslizou graciosamente do elegante animal e começou a descarregar o seu equipamento de sua garupa, cantando para si mesmo o tempo todo.

Adeus nós damos ao conforto e ao lar
Pode a chuva cair e o ventos soprar
Devemos partir quando a aurora surgir
Florestas e montanhas atravessar
Para Valfenda, onde vivem os Eldar
Em clareiras protegidas pela névoa…

A sua voz melodiosa soou pela clareira, e lentamente desapareceu ao final da canção. Quando tudo estava finalmente preparado para a noite, o fogo emitindo um brilho morno e confortante, Legolas caminhou até o seu cavalo. Acariciando gentilmente e carinhosamente a crina do animal, o elfo sussurrou suavemente, "Quel esta, Brethil, mellon nin. Lye caela anlema tul're, voronwer."

//Descanse bem, Brethil, meu amigo. Nós temos um longa jornada amanhã, ó fiel.//

Deixando a sua mão repousar no pescoço do cavalo por um breve momento, ele virou-se e caminhou de volta ao seu acampamento. Após fazer uma refeição leve e colocar um último galho seco no fogo para a noite, Legolas estava para se deitar no seu colchonete quando uma sensação de perigo se apoderou dele. Seu corpo tornou-se tenso e ele ficou incrivelmente imóvel, seus sentidos élficos totalmente alertas. Ele praguejou a si mesmo silenciosamente por ter deixado o seu arco e aljava com as sua adagas do outro lado da fogueira.

De repente, seus ouvidos aguçados perceberam o som da corda de um arco sendo solta, e ele rapidamente girou e esquivou-se para fora do caminho, a flecha não o acertando por pouco. A sorte, no entanto, não estava do seu lado, e uma segunda flecha foi atirada frações de segundo após a primeira. A mira desta foi certeira, e a flecha penetrou profundamente o ombro direito do elfo.

Legolas gritou, mais pela surpresa que pela dor, cambaleando para trás. Apesar de não ter sido longa, essa distração momentânea foi tudo que o seu agressor precisava. Legolas gritou novamente, desta vez por uma pancada forte na sua cabeça. Ele caiu ao chão com um barulho alto enquanto os seus sentidos o deixaram, e ele mergulhou na escuridão.


Ele observou a figura solitária atentamente enquanto ela cavalgava mais pra perto do seu território. Uma onda de esperança e empolgação passou pelo seu corpo, fazendo o seu coração bater mais rápido. Ele não esperava que o elfo pegasse esta rota mas a sorte parecia estar do seu lado neste dia. Por muitos séculos, ele havia planejado e esperado pelo momento e o lugar perfeito para por o seu plano em ação, mas as circunstâncias sempre o impediram de fazê-lo. Eles sempre ou viajavam aos pares quando se aventuravam fora das suas rotas normais ou a rota era muito longe do seu covil. Mas hoje tudo estava perfeito. Finalmente, o dia havia chegado para ele retomar o que era originalmente seu.

Os cantos de sua boca contorceram-se em um sorriso perverso e com o total silêncio de um elfo, ele cruzou o caminho por trás do viajante solitário e, movendo-se para mais perto do seu alvo, escondeu-se por trás de um grande carvalho. Uma flecha já retesada e apontada em seu arco. O elfo ficou tenso, pressentindo o perigo e ele sabia que esta seria a sua única chance mesmo percebendo que ele não tinha um alvo cl
aro. Ele deixou a flecha voar e enquanto a primeira seta deixou o seu arco, uma segunda já estava armada e pronta. O elfo conseguiu esquivar-se do projétil que se aproximava, mas, felizmente, os seus movimentos o trouxeram a uma visão mais limpa, fazendo dele um alvo fácil. A sua segunda flecha acertou o elfo no ombro, o impacto quase o remetendo ao chão. Enquanto o elfo cambaleou e tentou restabelecer o seu equilíbrio, ele foi até a sua vítima em um instante, batendo o punho de sua faca ao lado de sua cabeça. Um grito de triunfo partiu de seus lábios, enquanto ele assistia à queda do elfo ao chão.

 


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Capítulo 2 – Estranhos no Escuro

Legolas foi trazido de volta à consciência por uma dor aguda. Seus olhos abriram, ajustando-se lentamente à penumbra que o cercava. O lugar era escuro e úmido. Sons de água pingando podiam ser ouvidos a certa distância. Enquanto os seus sentidos voltavam ao seu devido foco, ele percebeu que estava preso a superfície rochosa de uma caverna, suas mãos agrilhoadas na parede logo acima de sua cabeça com os seus pés mal tocando o chão. A dormência dolorida nos seus dedos e braços indicava que ele estava naquela posição há algum tempo. Um pequeno fio de sangue escorria pela sua bochecha direita, vindo do corte profundo na sua têmpora, causado pelo baque que o havia deixado inconsciente.

Uma luz fraca emanava de uma tocha no canto distante da sua prisão, tremulando perigosamente perto de se extinguir pela brisa fria que entrava no lugar por um túnel escuro. Uma figura encapuzada ficou de pé à sua frente, olhos vermelhos brilhando como fogo por detrás da escuridão do seu manto. A figura mais uma vez mexeu na flecha que ainda estava incrustada no ombro do elfo, provocando uma onda de dor lancinante espalhar-se pelo seu ombro, fazendo sair um gemido do ser ferido. Um sorriso horrendo formou-se nos lábios da criatura.

"Ah… finalmente acordado”, disse a figura escura enquanto se movia para mais perto de Legolas. “Bem vindo ao meu humilde lar”, ele acrescentou. “Eu espero que você aprecie a sua estada”.

A voz causou um calafrio descer pela espinha de Legolas, enquanto o par de olhos vermelhos observava atentamente os seus próprios olhos azuis. O seu coração batia forte dentro do seu peito e ele engoliu seco tentando ignorar o medo que ameaçava tomar conta de si. “Quem é você?! E o que quer de mim?!” Legolas exigiu com força para tentar encobrir o pequeno tremor na sua voz enquanto lutava contra a corrente que o mantinha prisioneiro, sofrendo com a dor provocada pelo metal que cortava fundo a sua já machucada pele.

"Eu sou Delund”, a criatura respondeu vagarosamente, aproximando-se do elfo, o seu rosto quase tocando o de seu prisioneiro. "E eu quero o Vilya”.O odor horrendo do seu bafo provocou uma careta no elfo, e ele foi forçado a virar o seu rosto para longe de seu algoz.

"Então eu não tenho qualquer utilidade a você. Eu não sei onde o Vilya está”, Legolas respondeu, esperando que a criatura de alguma forma acreditasse nas suas mentiras.

A gargalhada de Delund ecoou pela grande caverna. “Não tente me enganar, Legolas Verdefolha, filho de Thranduil. Eu sei quem você é, pois tenho observado os acontecimentos em Valfenda por muito tempo. Seria melhor se aquele que tivesse adentrado o meu território fosse um dos filhos de Elrond, mas você será suficiente, pois já esperei por tempo demais”.

"Lorde Elrond não abrirá mão do Vilya por minha causa!" o príncipe esbravejou, soltando um grito quando a criatura o acertou no rosto com a costa de sua mão, batendo a sua cabeça na parede da caverna. Pontos brilhantes dançaram perante os seus olhos e ele precisou de toda sua força para não desmaiar. Ele fechou os olhos com força por causa da dor e engoliu a seco quando uma súbita náusea tomou conta de si.

"Elrond é um fraco! Ele não merece ser o portador do Vilya. Gil-Galad foi um tolo em passar o anel a ele! Eu deveria ser o portador e eu SEREI! E você, elfo”, Delund sorriu maliciosamente, "você será a minha chave”.

"Eu prefiro morrer a ver o anel cair nas suas mãos malignas!" Legolas gritou, em seguida urrando de dor quando Delund agarrou a flecha e a arrancou de seu ombro. Um sorriso sinistro apareceu em seu rosto enquanto ele lambeu o sangue vermelho da ponta da flecha. Um calafrio passou pelou corpo do príncipe, que torceu o rosto ao sentir o sangue morno fluindo do ferimento recém-aberto  pela lateral do seu corpo e pela barriga. Delund olhou com desejo para o elfo sangrando e lambeu os lábios, mas teve que reprimir suas vontades, pois tinha coisas mais importantes para fazer. Ele moveu-se em direção da tocha, e curvou-se para pegar uma caixa de madeira que estava logo abaixo. Colocando-a por sobre uma mesa de pedra a alguns metros de distância, ele abriu a tampa, expondo uma longa faca.

"Minha companheira fiel”, Delund traçou a lâmina cuidadosamente com a ponta do seu dedo indicador. "A exterminadora de muitos fracos". Ele ergueu a lâmina para fora da caixa com cuidado e removeu um pequeno frasco que estava no canto interno do contêiner de madeira. Seus dedos trabalharam rápida mas cuidadosamente para abrir o frasco, sem nunca se encostarem ao líquido que ele continha, e espalhou este líquido na lâmina. "Anehpfos, um antigo veneno conhecido por poucos, e que causa grande dor às suas vítimas”.Delund trouxe a lâmina para perto de Legolas e virou a lâmina a centímetros do seu rosto, desfrutando o seu óbvio desespero. De repente, com um movimento do seu pulso, ele abaixou a lâmina, cortando através do peito de Legolas. O elfo engoliu um grito e apertou os olhos quando espasmos de dor tomaram conta de seu corpo. Uma sensação de queimação radiava do seu peito para o resto do corpo enquanto o veneno encontrava o seu caminho para a corrente sangüínea, não deixando qualquer resquício na horrível e profunda ferida. Ele ficou aliviado quando a dor não piorou e permaneceu em um nível ainda tolerável.

"Não fique não aliviado, elfo”, Delund chiou, "A dor aumentará a cada ataque até que você seja consumido por ela. A cada cinco dias, pelo resto da sua vida patética, você sofrerá e irá morrer uma morte horrenda ao final de cem dias… a não ser que você entregue o Vilya para mim”.Uma risada cruel saiu de sua garganta, a voz ecoando pelas paredes da caverna escura.

"Você não vai conseguir!" o jovem elfo gritou com raiva enquanto Delund se aproximou para libertar as correntes que o mantinha de pé contra a parede. Legolas caiu ao chão quando o suporte foi removido, suas pernas falhando em suportar o seu peso depois de tantas horas estando suspenso. Uma dor lancinante apoderou-se de seus braços e mãos quando o sangue voltou a correr pelos membros dormentes e ele gemeu suavemente. Sua reaç&atil
de;o involuntária arrancou um sorriso de satisfação de Delund.

A criatura agarrou a frente da túnica de Legolas e o ergueu com rudeza, atirando-o para dentro do longo túnel que levava à saída da caverna. O elfo tropeçou e caiu algumas vezes durante a jornada o que o fez receber inúmeros chutes brutais no seu peito, machucando suas costelas e agravando ainda mais os seus ferimentos. Levou apenas alguns minutos para que eles alcançassem a entrada da caverna, mas, para Legolas, pareceu uma eternidade. Delund empurrou o príncipe para fora do seu covil em direção da noite escura e impiedosa.

"Vá. E leve a mensagem a Elrond”, ele disse com frieza antes de virar-se e voltar para as sombras.

Continua…

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Capítulo 3 – Talvez Seja Melhor Assim

Uma lufada de vento gelado varreu a floresta e um tremor percorreu a figura magra do elfo. Ele sentiu como se o vento o tivesse atravessado. Entre os seus ferimentos e o veneno que estava provocando um caos dentro de seu corpo, ele guardava desesperadamente a esperança de conseguir terminar o caminho até Valfenda antes que o seu corpo falhasse. Envolvendo os braços de forma apertada ao redor de seu peito, ele cambaleou adiante, e tão concentrado estava em conseguir colocar um pé em frente ao outro, que ele sequer percebeu que os ferimentos do seu ombro e peito ainda sangravam abundantemente. O veneno interferira com a habilidade natural de cura do elfo.

Horas passaram-se desde que ele iniciara a jornada. O elfo, normalmente confiante, começou a tropeçar com mais frequência e estava no brinque de um colapso. A sua determinação se esvaindo a cada passo enquanto o seu corpo gritava para que ele parasse. A dor de cabeça crescente e a visão que se turvava tornavam ainda mais difícil que ele se concentrasse na sua corrente missão. Valfenda estava a cerca de uma hora, mas, no seu estado enfraquecido, esta distância parecia uma eternidade. Tão perto, e ao mesmo tempo tão longe. Ele ponderou se não seria melhor simplesmente deitar e permitir que o destino tomasse o seu rumo ao invés de ter que sofrer o que Delund havia prometido. Lorde Elrond não podia saber dessa ameaça. O que significava que não havia mais ninguém a quem ele podia pedir ajuda. Andando por sobre uma grama mais alta, Legolas arrastou o seu corpo exausto na direção de uma grande árvore e deixou-se ir ao chão. Encostando-se na árvore, ele fechou os olhos em pura exaustão e suspirou com tristeza. Talvez fosse melhor assim.


A cabeça de Elrohir levantou-se rapidamente ao ouvir o som e ele ficou de pé, seus olhos élficos estudando a área à sua direita. “Estel, acorde.” Ele chamou Aragorn suavemente.

"Hmm?" Aragorn se moveu, piscando os olhos para tentar se livrar do sono e buscando determinar se ele estava sonhando ou se alguém estava realmente tentando despertá-lo. Ele se ergueu, apoiando-se em um cotovelo quando Elrohir sacudiu-lhe levemente
o ombro com o pé, seus olhos nunca deixando a área de onde o som havia vindo.

Mais cedo naquele dia, Aragorn e Elrohir tinham decidido caçar um pouco para repor o estoque de comida antes da chegada de Legolas a Valfenda para a celebração do aniversário do guardião. O gêmeo mais velho se voluntariou para ficar para trás e organizar as preparações para o dito evento. O tempo estava fresco e agradável, um dia perfeito para uma caçada, apesar de eles saberem que havia o risco de a temperatura cair ao anoitecer. Elladan convencera o seu irmão humano a empacotar um manto extra no caso do tempo dar uma virada para o pior, e depois de muita persuasão, que no final pareciam mais ameaças, Aragorn finalmente concordou relutantemente. Ele odiava quando seus irmãos davam uma de super-protetores.

A cavalgada até a floresta foi bastante animada, a discussão anterior rapidamente esquecida. Os dois irmãos implicavam um com o outro incansavelmente, enquanto dirigiam-se mais para dentro da floresta, mas, desde então, Elrohir já tinha começado a agir de forma estranha, afirmando que estava ouvindo coisas que não existiam.

“Você ouviu isso?” Elrohir perguntou, a sua voz afastando Aragorn do confortável mundo de sonhos em que ele estava.

Ainda grogue do sono, o guardião olhou o seu irmão com curiosidade. “Ouviu o que?” ele perguntou por entre bocejos. Essa era a quinta vez que o gêmeo afirmava ter ouvido alguma coisa aquela noite e ele começou a pensar no que poderia ter feito o seu irmão ficar tão sobressaltado. No começo, Aragorn ficou um pouco desconcertado, quando Elrohir insistiu que tinha ouvido alguma coisa. Porém, depois do terceiro alarme falso, ele pensou que o elfo tinha finalmente ficado louco. O som de um graveto quebrando trouxe Aragorn aos seus pés em um instante, a sua mão esquerda agarrando o seu arco com força, e a mão direita instintivamente buscando uma flecha das suas costas e encontrando nada se não ar. Aragorn praguejou baixinho e, apesar da seriedade da situação, Elrohir sorriu em face da reação nervosa do irmão. Aragorn então levou sua mão para a lateral do seu saco de dormir, erguendo a aljava, e a prendendo seguramente às suas costas. Ele inclinou a cabeça na direção do som e ouviu atentamente por alguns intantes mas o som não se repetiu. Elrohir estava feliz que o seu irmão tinha ouvido dessa vez pois ele estava começando a achar que a sua própria imaginação tinha tomado conta dele. Ou então ele estava ficando paranóico. Passar muito tempo com um guardião que tinha afinidade para encontrar problema consegue deixar um nervoso.

Acenando a cabeça em direção a sua direita. Elrohir mocionou silenciosamente para Aragorn segui-lo. A noite estava escura e Aragorn mal podia enxergar 1 metro à sua frente. Ele tremeu e imaginou quem ou o que iria se aventurar na floresta nesse frio. Orcs não seriam vistos tão próximos a Valfenda e todas as outras criaturas sãs estariam se escondendo nos seus respectivos abrigos. Puxando o seu manto por sobre os ombros e o amarrando um pouco mais apertado ao seu redor, ele considerou usar o segundo manto mas teve que abandonar esse pensamento quando viu Elrohir se afastando do acampamento para dentro das sombras. Tendo que depender somente da visão aguçada do seu irmão élfico para guiar o caminho, o guardião seguiu os seus passos de perto, pronto para atirar em qualquer coisa que representasse ameaça a eles.

Elrohir parou abruptamente causando Aragorn a bater de cabeça nele, quase derrubando o elfo ao chão. Após se equilibrarem novamente, o gêmeo apontou para uma figura no chão, com abandono encostada contra o tronco da árvore, sua cabeça caída para o lado, como se morta. Aragorn apertou os olhos, esperando ter uma visão melhor da criatura desafortunada, mas os seus olhos humanos não eram feitos para ver no escuro.

Elrohir quase se engasgou quando os seus olhos reconheceram a identidade da figura. "Oh V
alar! É o Legolas!" Todos eles sabiam que Legolas deveria chegar a Valfenda por estes dias e até pensaram que poderiam encontrá-lo durante a sua pequena caçada. Nunca eles esperaram encontrar o príncipe nestas circunstâncias.

Continua…

Valinor – Terra Imperfeita

 

Autor: Marcelo de Freitas Spinola

 

 

Das altas torres da cidade de Tirion, os noldor observavam com alegria, a enorme multidão que passava aos pés do monte Túna. Milhares de atani, naugrins e outros povos da Terra-média percorriam a estrada que atravessava a região que um dia fora chamada de Calacirya. À leste, era possível avistar diversas embarcações trazendo um número ainda maior de visitantes, que eram recebidos pelo belíssimo canto dos teleri. E a oeste já se via uma enorme agitação ao redor de Laurelin, que junto com Telperion, era a fonte de luz de toda Arda. Era tempo de festa em Valinor.

 

Mas nem todos estavam comemorando. Alheio a agitação que tomava conta do reino sagrado, o filho mais velho de Finwë caminhava pelo jardim de sua casa, observando a jóia em sua mão. Fëanor contemplava a luz da última Silmaril, enquanto sua mente vagava entre as lembranças dos dias antigos. Mesmo assim, ele não deixou de notar o pequeno intruso, que se esgueirava entre as árvores de seu jardim.

 

– A festa do ano novo em Valinor é uma oportunidade única para os de sua raça, criança. – disse Fëanor, escondendo rapidamente a Silmaril no bolso de sua roupa. – Essa é uma das poucas épocas em que é permitido que os Atani pisem no solo sagrado de Valinor. São poucos os mortais que tem a chance de participar deste evento e ainda assim você prefere perder tempo invadindo a minha casa?

 

– Perdoe-me senhor, eu não tive a intenção… – disse o jovem, que saiu de trás de uma pequena árvore, a apenas alguns metros de Fëanor. Era uma criança da raça dos homens.

– O que você quer aqui? Visitas a minha casa não estão incluídas nas festividades. – disse Fëanor num tom severo.

 

– Mais um vez eu peço seu perdão meu senhor, pois o que me trouxe aqui foi um poder além de minha vontade. – disse o jovem, que encarava o olhar frio e severo de Fëanor. – Assim que coloquei os meus pés na praia desta terra maravilhosa, um brilho distante, vindo da cidade de Tirion, atraiu mais a minha atenção do que a própria luz das Árvores. Enquanto eu e minha família caminhávamos em direção a Tirion, eu me sentia atraído por aquela luz magnífica e ficava me indagando que tipo de artefato poderia produzir um brilho tão intenso. O poder que ela exercia sobre mim era tanto, que eu acabei me separando de meu grupo e comecei a vagar sozinho pela cidade. A luz me guiava pelas ruas de Tirion e, sem que eu percebesse, ela me trouxe até o jardim de sua casa.

 

Fëanor já sabia aonde aquela história iria acabar. Mas preferiu deixar que ele a terminasse, enquanto segurava o riso e tentava manter uma expressão severa. Foi quando ele se deu conta de que fazia tempo que ele não tinha vontade de rir.

 

– Muitas história são contadas na Terra-média sobre as Silmarils e seu grande criador, o mestre Fëanor. – continuou o rapaz. – E agora eu percebo que a luz que me trouxe até aqui, só poderia ser a luz da última Silmaril: a jóia cujas irmãs foram sacrificadas para que as Árvores de Valinor voltassem a brilhar. O que me leva a supor que estou diante do grande Fëanor. Sendo assim, sou obrigado a pedir o seu perdão uma terceira vez, pois me dei conta de que ainda não lhe cumprimentei da forma que merece. – o jovem fez uma grande reverência diante de Fëanor, permanecendo por algum tempo de cabeça baixa. O jovem ia falar novamente quando foi interrompido por Fëanor.

 

– Para alguém de vida tão curta, você fala demais meu jovem. Você desperdiça muito tempo com histórias e elogios quando deveria ir direto ao assunto. Creio que, depois de ter sido enfeitiçado pelo poder da Silmaril e de ter procurado tanto por ela, nada mais justo que você a veja, não é mesmo? – o rapaz ameaçou falar alguma coisa mas foi interrompido novamente.

 

– Entretanto, estou curioso com uma coisa. – continuou Fëanor. – Como você pode ter visto a Silmaril das praias de Aman, se ela estava trancada dentro de minha casa? Fazem apenas quinze minutos que eu a trouxe para fora. Será que a raça dos homens é assim tão formidável que consegue enxergar até mesmo através das paredes?

 

– Não meu senhor, é que… – disse o jovem, que tentava encontrar as palavras certas, enquanto tentava esconder a vergonha.

– A verdade é o melhor coisa a se falar num momento como esse. – disse Fëanor. – Você já veio a Valinor com a intenção de ver a Silmaril. Provavelmente, você até já sabia onde eu morava, não estou certo?

– Sim, senhor – disse o jovem, que agora já não encarava o elfo, preferindo manter a cabeça baixa.

 

– Mas agora estou curioso. Como já disse, essa é uma oportunidade única para os mortais. Afinal, os anos em Valinor, apesar de agora serem mais curtos do que eram na primeira Era das Árvores, ainda são mais longos do que a vida de qualquer raça mortal da Terra-média. A festa do ano novo em Valinor é um evento que poucos tem o privilégio de participar. E mesmo com tantas coisas maravilhosas a se ver, ainda assim, você veio para cá com a firme intenção de ver a Silmaril. Por quê?

 

– Eu prometi para alguém senhor. – disse o jovem. – Na verdade, foi quase uma aposta. Eu apostei que quando viesse a Valinor, eu conseguiria ver a luz da última Silmaril.

– É mesmo? E para quem você fez tal promessa? – perguntou o noldor.

– Para a bela filha do grande rei de Doriath. – respondeu o jovem.

 

– É mesmo? – Fëanor não conseguia mais esconder o sorriso. – E que tipo de prova você pretende levar para ela, caso consiga colocar os olhos na Silmaril? Por acaso pretende levar a própria jóia, roubando-a de mim?

– Não, não meu senhor. Eu não ousaria fazer isso nem em pensamento. Na verdade, ela não me pediu prova nenhuma. Ela me disse que saberia, simplesmente olhando em meus olhos.

 

– Muito bem então. Estou quase propenso a lhe dar um privilégio que poucos mortais tiveram. Mas antes, eu quero que você me prometa que não contará a ninguém que a viu. Nem mesmo a jovem Lúthien. Afinal, se ela disse que saberia apenas olhando em seus olhos, não é necessário que você conte.

– Sim senhor. Em nome da casa de Bëor, eu juro. – respondeu o jovem, com uma expressão séria.

 

– Então aqui está. – E Fëanor a tirou do bolso e a colocou na palma da mão do menino. Os olhos dele se arregalaram, incrédulos, pois jamais imaginara que a jóia pudesse ser assim tão linda. Fëanor também estava maravilhado, pois agora entendia o que a filha de Thingol queria dizer. Pois os olhos do jovem refletiam de tal forma a luz da Silmaril, que parecia que eles tinham luz própria. Para Fëanor, parecia que as três Silmarils estavam unidas novamente.

 

O jovem ficou parado, em silêncio, observando a Silmaril em sua mão por algum tempo. Foi quando ele percebeu o olhar melancólico de Fëanor para ele.

– Foi difícil não foi? – disse o jovem, enquanto devolvia a jóia para seu dono. – Foi difícil ter que desfazer as outras duas, quando a hora chegou?

 

– Mais do você pode imaginar. – respondeu Fëanor. – Pois naquela época, eu já havia perdido muito, e eu não queria me desfazer da última coisa que ainda me era cara.

Os dois permaneceram sem dizer nada por um longo tempo.

– Obrigado! – disse o jovem, quebrando o silêncio. – Por ter tomado a decisão certa.

 

Fëanor olhou para ele com um sorriso, mas não conseguiu responder.

– Agora já é hora de você ir. Acho que seus pais devem estar procurando por você neste momento.

– Sim senhor! Muito obrigado, senhor. – disse o jovem, enquanto fazia uma longa reverência. E quando ele já estava quase indo embora, o elfo o chamou mais uma vez.

– Em tempo dificeis, seu nome poderia ter sido famoso, jovem Beren, filho de Barahir.

 

O rapaz parou, e com uma expressão de espanto, tentou dizer alguma coisa. Sem conseguir dizer nada, o jovem apenas sorriu para o elfo, e saiu correndo.

 

Fëanor ainda ficou parado por um tempo, segurando a Silmaril em sua mão. Então ele se dirigiu para uma sacada, de onde ele conseguia avistar a multidão, que ainda chegava a Valinor. E ficou pensando nas palavras do jovem Beren.

 

E Fëanor se lembrou daquele dia, no Círculo da Lei, quando decidiu abrir mão das Silmarils, para que as Árvores de Valinor pudessem ser salvas do ataque traiçoeiro de Morgoth e Ungoliant.

Por causa de sua decisão, quando chegou a notícia da morte de Finwë e do saque de Formenos, todo o poder dos Valar e dos Elfos das três casas se uniram a ele. Um exército, cuja marcha fazia a terra tremer, caçou Melkor, que mal conseguira chegar a Angband. Mas mesmo em sua fortaleza, e com o apoio de suas criaturas, ele nada conseguiu fazer contra o poder unificado de Valinor. Melkor foi derrotado, de maneira rápida e definitiva. Com as Silmarils recuperadas, as Árvores de Valinor voltaram a brilhar, pois duas jóias foram sacrificadas para que duas árvores voltassem a viver. E uma vez que o mal havia sido totalmente extinto e Valinor não corria mais riscos, os Valar puderam descer as muralhas das Pelóri, permitindo que a luz das Árvores iluminassem toda Arda. Sem as mentiras de Morgoth, a raça dos homens aceitou a sua mortalidade como uma dádiva dada por Ilúvatar, e passaram a viver em total harmonia. Os reinos de Elfos, Homens e Anões foram prósperos em toda parte.

 

E Valinor, mesmo que ainda permaneça como uma terra proibida para os mortais, se tornou um santuário para todas as raças, que se reunem em épocas de festa para celebrar a obra de Ilúvatar. Valinor era a terra perfeita com que os Valar tanto sonharam.

– A decisão certa. – disse para si mesmo. – Sim, acho que você tem razão.

 

Fëanor sorriu e olhou em direção a Laurelin. Ela já começava a diminuir para dar lugar a luz de Telperion. Depois ele olhou para a última Silmaril. E então, guardando-a em segurança dentro de sua casa, Fëanor saiu para se juntar a festa. Foi quando ele sentiu uma dor aguda em seu peito.

Ele sentiu um gosto estranho e viu que um líquido vermelho descia pelo canto de sua boca. Demorou para ele perceber que era seu próprio sangue, que subia pela sua garganta.

 

Fëanor olhou em volta, e se assustou ao ver a terra árida e os céus escuros de Dor Daedeloth. Foi então que a dor dos ferimentos causados por Gothmog o trouxeram de volta a realidade. Percebeu que seu corpo mutilado estava sendo carregado pelo seus filhos. Sentindo que a morte se aproximava, pediu-lhes que parassem. E nas encostas das Ered Wethrin, enquanto olhava para os cumes das Thangorodrim, Fëanor teve uma segunda visão. E ele viu toda a tristeza e destruição que sua decisão ainda iria causar. Pois se antes ele havia visto a Valinor que poderia ter sido, agora ele via a Valinor que um dia será: uma terra de deuses omissos, um asilo para elfos cansados e arrependidos, um objeto de cobiça para os homens.

 

E seu ódio por Morgoth ardia com uma intensidade ainda maior dentro dele, pois foram suas mentiras que influenciaram sua decisão naquele dia, quando fora convocado ao Círculo da Lei. E Fëanor amaldiçoou o nome de Morgoth três vezes e mesmo sabendo de toda a desgraça que ainda recairia sobre seus filhos, os incumbiu de cumprir a sua vingança. Então seu espiríto partiu e seu corpo, transformado em cinzas, se dissipou como fumaça.

Encantado

Sinopse: escrito para o PROMPT #10 Magia. A primeira vez que Estel visita a Floresta das Trevas com Legolas e os seus irmãos, ele encontra mais do que esperava.
Disclaimer: Não possuo nenhum deles, foi escrito somente por diversão.
Classificação: Livre
Disclaimer: Não possuo nenhum deles, foi escrito por diversão.
Betas: Geris (Gramática e Ortografia), Michelle (Compreensão).
Linha de tempo: III 2948 (Estel 17 anos de idade)
Texto Original: Enchanted
 
 

 
 
 
Estel olhou ao seu redor com um certo nervosismo. Ele nunca tinha visto Legolas tão inquieto, nem quando em face de batalhas. E pior, os membros da escolta e os gêmeos estavam quase tão tensos quanto ele. Ele quase morreu do coração quando Legolas abaixou-se ao seu lado após ter-se aproximado a passos silenciosos.

“Sîdh, mellon nín (Paz, meu amigo). Relaxe. Nós não vamos permitir que nada aconteça com você.”

“Eu sei. Não é isso que está me deixando nervoso.”

“Então o que é?” Legolas parecia estar genuinamente perplexo e Estel percebeu que ele não havia se dado conta do quão tenso ele parecia estar.

“Eu nunca vi você, ou eles” Estel fez menção em direção à escolta do príncipe, “desse jeito.”

Legolas deu um pequeno sorriso, “Você nunca esteve na Floresta das Trevas antes.”

“Eu sei disso…” Estel retrucou frustrado.

Legolas abriu a boca, mas qualquer coisa que ele poderia ter dito foi cortada quando o batedor saltou silenciosamente de uma das árvores.

“Um local apropriado para o acampamento foi localizado.”

Legolas suspirou, e depois levantou.

“Vamos indo,” ele disse suavemente, inclinando sua cabeça em direção a Estel que também se levantou.

Em silêncio, eles seguiram o batedor de volta à área protegida nas margens de um rio de correnteza rápida.

Estel mudou de posição no seu lugar desconfortavelmente por alguns instantes antes de decidir que ele precisava fazer alguma coisa para ajudar a organizar o acampamento para a noite.

“Eu irei buscar um pouco de água,” ele disse já se encaminhando em direção ao rio.

“Estel! Não!” O alarme na voz de Legolas fez com que ele congelasse no lugar e dois dos batedores bloquearam o seu caminho.

Com dois passos largos, o príncipe estava rapidamente ao seu lado. “Goheno nín (perdoe-me), eu deveria tê-lo avisado. O rio é encantado; colocaria você em um estado de sono profundo.”

Estel ficou boquiaberto e passaram-se alguns instantes antes que ele pudesse pensar em uma resposta apropriada.

“E como ele ficou encantando?”

Legolas sorriu e olhou para a água escura. “Ninguém sabe ao certo, mas ele, há muito, tem sido uma defesa para este reino.”

“Defesa contra o que?”

“Inimigos do nosso reino, forças da sombra. E, mais recentemente, as aranhas,” Legolas respondeu.

“Aranhas?”

“Elas têm tentado invadir esta floresta já por muitos séculos,” Legolas respondeu, seus olhos virando-se para examinar as árvores sombrias ao seu redor.

“Como aquelas coisinhas que se escondem nos cantos podem ameaçar todo um reino?” Estel perguntou um pouco confuso.

Legolas olhou para ele sem compreender, até que o elfo loiro percebesse que o adolescente, na realidade, não sabia. Enquanto ele tentava pensar em uma forma de explicar, ambos tiveram sua atenção capturada por um característico som de uma flecha sendo lançada.

Um corpo negro caiu de dentre os galhos fazendo todos os elfos ficarem tensos e examinarem as árvores adjacentes.

Finalmente, um dos integrantes da escolta anunciou suavemente, “Ela estava só.”

Legolas voltou-se a Estel, e o encontrou como o olhar fixo no corpo enrolado da aranha no chão. Gentilmente ele afastou o rapaz do cadáver e o guiou até a fogueira.

 

FIM 

Se Eu Pudesse Mudar

Sinopse: “O seu amor era verdadeiro, mas a guerra os separou. O adeus de Andreth e Aegnor.”
Classificação: Livre
Gênero: Drama, Romance
Disclaimer: Eu não possuo nada relacionado a Tolkien… 
Palavras: 511
Texto Original: If I Could Change
 
 

 
 
 
Aegnor estava com medo.

No curso da sua longa vida, ele havia vivenciado o suficiente para conseguir controlar seus medos, e transformá-los em uma arma poderosa para ser usada contra a sombra.

Ele havia visto os horrores que Ungoliant e Melkor infligiram sobre a Terra Sagrada… ele havia atravessado o Helcaraxë e lutado inúmeras batalhas. O cerco a Angband já durava por mais de 300 anos, mas em seu íntimo ele sabia que esta batalha estava chegando ao fim… assim como o seu tempo na Terra-média.

Ele não tinha medo de morrer. Ele vivera por tempo suficiente nas sombras de Angband para estar pronto para isso. O que ele temia era dizer adeus para as coisas que ele jamais veria de novo… para aquela a quem ele jamais veria de novo.

Aegnor a encontrou no primeiro lugar que procurou… a antiga biblioteca.

“Andreth”, ele sussurrou, sentindo o seu coração partir por saber que esta era a última vez que seus olhos a veriam. Ela, que entre os horrores da guerra o fez ver beleza, e que com as suas palavras gentis e sabedoria além de sua tenra idade, o fez entregar o seu coração nas suas mãos cuidadosas. E ele sabia que ela retribuía o seu amor, e que, se ele pedisse, ela se entregaria a ele pelo resto de sua vida mortal, e oh, como ele desejava passar esses anos preciosos ao seu lado. Mas, não… ele não podia. Ele não podia oferecer a ela um coração que estava fadado a parar de bater brevemente.

E lá ele ficou, enraizado no mesmo lugar, observando Andreth, não querendo abrir mão… não agora. Mas como se percebendo a sua presença, Andreth olhou para cima e, ao vê-lo, um dos sorrisos mais brilhantes que ele jamais vira iluminou o seu rosto, enquanto a jovem donzela se encaminhou para encontrá-lo.

“Meu senhor”, ela disse, com uma graciosa reverência.

Aegnor olhou dentro dos seus olhos e sentiu-se tomado pelo amor e carinho que viu naqueles lagos azuis, e naquele momento ele soube.

Ele soube que estava fadado a amá-la e sofrer a sua ausência por toda eternidade, e que não havia nada que ele pudesse fazer para mudar isso, pois o destino dos Edain não é o mesmo dos Eldar.

“Meu senhor?” ela perguntou, um pouco insegura agora, pois o elfo ainda estava por mover-se ou proferir qualquer palavra. Ele tentou dizer algo, mas as palavras recusavam-se a sair. Tudo o que ele queria era abraçá-la forte e nunca mais soltar, pois talvez assim os Valar não a levariam embora para além dos círculos do mundo quando chegasse a hora.

“Aegnor?” ela perguntou, preocupação já evidente na sua voz, tocando-lhe suavemente a mão.

O toque cálido o pegou desprevenido e ele não pode conter a lágrima descuidada que caiu por seu rosto.

Fechando aquelas pequenas mãos dentro das suas maiores e calejadas mãos de guerreiro, ele as beijou suavemente, e reunindo toda a força que possuía dentro de si, Aegnor falou as palavras que temia mais que o próprio Senhor do Escuro.

“Eu vim aqui dizer adeus”.

 
FIM