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Viajando na maionese de Asas e Cabelos

Michael Martinez

Novos livros de autoridade sobre a Terra-média são escassos e demandam enorme espera. Frequentemente, quando um novo livro é publicado fornecendo novas informações sobre a Terra-média, nossas queridas ideias que nutrimos por tanto tempo sofrem um sério desafio e devem ser reavaliadas.

The History of Middle-earth (HoME) caminha a passos tímidos para um nada profundo desfecho através das notas finais de Christopher Tolkien sobre “Tal-Elmar” finalizando The Peoples of Middle-earth. Seu papel no longo e meticuloso processo de organizar e publicar as anotações e manuscritos de seu pai termina de forma silenciosa. Tantas questões permanecem sem resposta no 12º volume da HoME que muitas pessoas expressam uma enorme frustração com este trabalho. “Isso é tudo que há para se falar sobre a Terra-média?”, perguntam elas.

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Os comerciantes da Terra-média

De vez em quando alguém pergunta que moeda era usada na Terra-média. É difícil de encontrar evidência de moeda (dinheiro) em O Senhor dos Anéis, mas existem sim algumas referências sobre isso. Quando Gandalf chegou à Vila dos Hobbits com uma carroça com fogos de artifício para o último aniversário de Bilbo e Frodo juntos, crianças hobbits o seguiram até Bolsão esperando por uma apresentação do mago. Ao invés disto, Bilbo atira para elas alguns centavos e as manda embora. Mestre Gamgi também relata que Bilbo é esbanjador em se tratando de dinheiro enquanto fala com os amigos.

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Todos os Dragões se Foram?

Eu semprei achei que o filme “Dragonslayer” era um pouco tolo e lento em algumas partes mas existe uma cena memorável que realmente vale o filme, eu acho, para aqueles que o assistem. É aquela onde a cabeça do dragão se eleva até o anão, o jovem mago que na realidade não tem idéia do que está enfrentando.

Eu acho quem propôs a cena deve ter lido Tolkien. Na história de Turin Turambar em O Silmarillion, após Galurung ter destruído Nargothrond e remeteu Turin para o norte, para Dor-lomin em uma expedição sem esperanças, Morwen e Nienor deixaram a segurança de Doriath. Foram alcançadas por Mablung e uma companhia de Elfos cavaleiros que foram, apesar de tudo, persuadidos a acompanhar as mulheres até Nargothrond.

Lá pelo rio Narog Galurung criou uma névoa e dispersou a companhia de Mablung. Morwen é levada para longe por seu cavalao enlouquecido e os Elfos nunca mais tiveram notícias dela. Mas Nienor recupera seu bom senso e retorna até o Amon Ethir, a Colina dos Espiões, que fica diretamente a leste de Nargothrond [atravessando o rio]. “E olhando para o oeste,” é dito na história, “ela olhou diretamente nos olhos de Glaurung, cuja cabeça descansava no topo da colina.

Era realmente um grande dragão.

Eu acho que muitos fãs poderiam dizer que dragões e Tolkien andavam lado a lado. Tolkien definitivamente gostava de contar histórias de dragões. Mesmo que surpreendentemente ele tenha nos contado apenas duas histórias completas sobre dragões. Em 1954 Naomi Mitchson perguntou a Tolkien algumas questões sobre a Terra-média após ter examinado todos os porões de O Senhor dos Anéis. Na Carta 144 ele respondeu a uma pergunta sobre dragões com:

Algumas respostas desgarradas. Dragões. Eles não pararam; uma vez que estiveram ativos em tempos muito mais tardios, próximos do nosso. Teria dito alguma coisa para sugerir o final dos dragões? Se sim, deve ser alterado. A única passagem que posso lembrar é no Vol. I p. 70: “não existe atualmente nenhum dragão na terra cujo fogo seja quente o suficiente”. Mas isso implica, eu acho, que continuam a existir dragões, apenas não da estatura primordial…

O primeiro conto sobre dragões, de Tolkien, está perdido desde há muito tempo atrás, e provavelmente não era muito longo, de qualquer forma. Dessa história ele pôde se lembrar apenas um detalhe, anos mais tarde, quando escreveu para W. H. Auden na Carta 163: “Eu tentei escrever uma história pela primeira vez quando tinha cerca de sete anos. Era sobre um dragão. Não me lembro de nada dela exceto um fato filológico. Minha mãe não disse nada sobre o dragão, mas apontou que não se podia dizer “um verde grande dragão” [“a green great dragon”], mas deveria se dizer “uma grande dragão verde” [“a great green dragon”]. Eu fiquei curioso em saber porquê, e ainda estou.

Quando chegou o tempo de contar a história de um Hobbit, Tolkien precisou de um monstro maior do que todos os outros monstros. Ele tinha goblins e lobos e aranhas, mas ele queria alguma coisa mais aterrorizante, mais poderoso. Ele queria um dragão. De todas as criaturas encontradas em O Hobbit, apenas Smaug parece invencível exceto pela pequena área sem proteção em seu peito. Pode-se muito bem imaginar Beorning desafiando o dragões em sua forma de urso apenas para terminar queimado até torrar. Mesmo uma grande guerreiro e herói como Beorn era, ele não era desafio para um dragão.

Bard o Arqueiro, por outro lado, era descendente de antigos reis cujo reino foi destruído por Smaug. O destino estava ao seu lado, e o poder de falar com os pássaros. Mas talvez se Bard não tivesse a flecha negra que chegou a ele de seus ancentrais mesmo sua habilidade e coragem poderiam não ser suficientes para derrotar o grande dragão [que não era verde].

A flecha negra fora feita pelos Anões de Erebor antes de Smaug ter destruído seu reino. Porque seria uma arma poderoso contra dragões? Anões não gostavam de dragões, e os dragões certamente foram uma praga para os Anões. Mas a flecha era realmente um “flecha mata-dragões” ou era apenas uma flecha de qualidade excepcionalmente boa?

O conflito entre os Anões e os Dragões de Tolkien extende-se desde a Primeira Era. Os Anões de Nogrod e Belegost foram aliados dos Noldor contra Morgoth. Telchar de Nogrod fez um elmo moldado à imagem de Glaurung, pai dos dragões. Este elmo foi dado a Azaghal, senhor de Belegost, que o deu a Maedhros, que o deu a Fingon, que o deu a Hador, primeiro Senhor de Dor-lomin.

Enquanto Hador usou o elmo-Dragão ele foi invencível em batalha. Hador poderia não estar usando o elmo de dragão quendo liderou a ação de retaguarda para Fingolfin logo após a Dagor Bragollach. Hador e Gundor, seu filho mais novo, caíram ante os muros de Eithel Sirion, a mais poderosa fortaleza que protegia ums das principais passagens sobre o Ered Wethrin para Hithlum. Galdor, o Alto, filho mais velho de Hador, herdou o elmo de dragão junto com a nobreza de seu pai, mas “Narn i Hin Hurin” diz que “por azar Galdor não o usava quando defendia Eithel Sirion“, sete anos após a morte de seu pai, “pois o ataque foi repentino, ele correu de cabeça descoberta para os muros e uma flecha órquica atingiu seu olho.

Hurin podia usar o elmo, mas devido à sua baixa estatura ele ficava desconfortável com ele, ele ele preferia olhar seus inimigos diretamente nos olhos. Então o elmo ficou em Hithlum quando Hurin cavalgou para lutar na Nirnaeth Arnoediad, e Morwen, sua esposa, enviou o elmo com seu filho Turin para Doriath. Quando Turin cresceu até a idade adulta e deixou Doriath, Beleg levou a ele o elmo de dragão e com essa herança de sua casa, Turin começou a granhar fama para si mesmo. Desafortunadamente, devido ao orgulho e desafio de Túrin, Morgoth lançou sua vontade contra as crianças de Húrin, e todos os esforços de Turin tornaram-se tristezas.

E chegou o dia em que Turin convenceu Orodreth a cavalgar para uma batalha aberta contra os exércitos de Morgoth, e Glaurung destruiu Orodreth e seu povo. Quando Turin retornou a Nargothrond ele usava o elmo e Glaurung estava com medo dele. Mas o drgão estimulou Turin a levantar o visor, e fazendo assim, expôs-se ao poder de Glaurung.

O elmo de drgão era, portanto, um artefato muito poderoso, e como ele Turin poderia ter tido uma chance em uma batalha contra Glaurung. Ele deveria tentar isso? Mesmo Glaurung não podendo enfeitiça-lo, o drgão teria sido tão vulnerável a Turin?

A primeira aparição de Glaurung dois séculos antes resultou em uma vitória para Fingon e os arqueiros Élficos de Hithlum. Eles cavalgaram ao redor do jovem dragão e o furaram
com muitas flechas, fazendo-o recuar para Angband. Galurung saiu-se melhor na Dagor Bragollach e indubitavelmente forjou sua vingança contra os Elfos com regozijo. Mas menos de uma geração depois ele liderou um grupo de dragões contra o exército de Maedhros na Nirnaeth Arnoediad e desta vez ele foi enfrentado pelos Anões.

Azaghal de Belegost foi de encontro a Glaurung e o feriu, embora este feito tenha custado a vida de Azaghal. Glaurung e suas crias recuaram do campo de batalha. Quando o dragão reapareceu mais tarde ele parecia evitar tentar esmagar guerreiros com sua barriga, como ele tentou esamagar Azaghal, que caiu por baixo dele.

Na confrontação final de Turin com Glaurung ele causou ao dragão um ferimento mortal de modo quase exatamente igual ao que Azaghal feriu a besta, e a espada que Turin usou fora feita por Eol, que aprendeu muito sobre forja de metais com os Anões de Nogrod e Belegost. Glaurung era esperto e cuidadoso, mas quando ele cruzou a ravina de Teiglin, ele não tinha a menor idéia de que Turin o esperava logo abaixo.

Quando Glaurung sentiu a dor ele pulou através da ravina e arrasou o lado mais distante, expelindo chamas até que se tornou muito fraco para continuar. A visão do dragão moribundo deve ter sido aterrorizante para qualquer um próximo. Turin simplesmente caminhou pela ravina e enfiou sua espada na barriga do dragão. E mesmo assim Galurung continuo vivo, e teve força suficiente para fitar os olhos de Turin novamente, e usar o restante de seu poder para sobrepujar a vontade de Turin e fazê-lo desmaiar.

Matar o velho dragão não foi uma tarefa fácil, e não existia guerreiro maior do que Turin, em seu tempo. Então Turin poderia ter realizado o feito sem o elemento surpresa? Eu acho que não. Simplesmente apunhalar Glaurung na barriga não era o suficiente. Azaghal fez isso, mas sua lâmina era muito curta. O ferimento teria que ser profundo e duvido que a maioria das armas teria penetrado tão profundamente. Os Noldor muito provavelmente não tinham dragões em mente quando faziam suas armas.

Os Elfos não se saíram expecialmente mal anos mais tarde quando os drgões ajudaram a destruir a cidade de Gondolin. O povo de Turgon tinha aprendido muito de Maeglin, o filho de Eol, sobre mineração e forja de metais. mas não quer dizer que eles tenham matado algum dragão. Realmente levou toda uma noite para que os dragões, orcs e Balrogs destruíssem a maioria do povo de Turgon. Estes dragões provavelmente não estavam completamente crescidos. Mas também pode ser que Gondolin simplesmente era mais bem defendida que Nargothornd, cujo exército havia perecido principalmente em campo aberto.

Portanto, desde a Dagor Bragollach o placar marcava dragões 4, elfos 0, anões 1/2. Turin continuava como o único indivíduo a ter matado um dragão até o final da Primeira Era. Então Morgoth liberou os dragões alados contra o Exército de Valinor. Se os dragões terrestres era formidáveis, os alados eram devastadores, e o Exército cedeu até que Earendil e as Águias de Manwë chegaram para a batalha.

Tolkien nãos nos fala quanto tempo a batalha durou, mas provavelmente não foi curta. Muitas Águias devem ter perecido mas também muitos dragões, incluindo o próprio Ancalagon. Ancalagon aparece apenas brevemente em O Silmarillion, mas Gandalf o menciona de forma sábia quando estava falando com Frodo. Deduzo, a partir da afirmação de Gandalf, que o grande dragão deve ter aterrorizado o Exército de Valinor por algum tempo. Ele não foi apenas nomeado, mas continuava sendo lembrado com um certo medo e temor cerca de 7.000 anos mais tarde.

Earendil deve ter tido algumas discussão impressionante para obter a permissão de Manwë para liderar um contra-ataque contra os dragões. Ele fora proibido de retornar à Terra-média, e a vontade dos Valar não era algo fácil de alterar. Então a situação em Beleriand [ou no que restou dela] deve ter sido desesperada. E pode-se perguntar como Earendil podia, de qualquer forma, lutar com dragões a partir de um barco voador? Ele tinha a Silmaril com ele, mas seria tudo? Ou ele tinha, como Bard milhares de anos depois, envergado um arco e uma flecha de grande potência Quem poderia ter feito o arco, o próprio Aulë?

A batalha de Earendil com Ancalagon durou um dia e uma noite. A luta deve ter coberto um vasto território, então apenas os Valar e Maiar poderiam ser capazes de ver o conflito final. Earendil deveria ser sido um ponto brilhante no céu, mas seu oponente deve ter feito chover fogo ao redor dele. O reprojeto Vingilot possuía escudos multi-fase moduláveis ou alguém o estava protegendo Earendil. Apesar de tudo, o marinheiro no céu deve ter sido duramente pressionado na ocasião. Pode não ter sido apenas um caso de caça ao dragão, para ele. Ele deveria conduzir o navio e calcular de onde Ancalagon atacaria da próxima vez.

A batalha de Earendil com Angalagon deve ter sido a mãe de todas as lutas dragão-herói, e a palavras falham ao descrever adequadamente o que pode ser vislumbrado apenas pela imaginação. Mas quando Ancalagon caiu e se tornou claro que tudo estava perdido, o que aconteceu aos dragões restantes? Teriam não mais de dois, um macho e uma fêmea, sobrevivido ao ataque final? E, se asim foi, porque os dragões não ressurgiram na Segunda Era?

Aproveitando o assunto, que diabos é um dragão frio [cold-drake]? A única menção de um dragão frio é um breve fato no Apêndice A de O Senhor dos Anéis onde Tolkien diz que um rei Anão e um de seus filhos foram mortos por um dragão frio em frente a seus salões. As pessoas se perguntaram durante os anos quais seriam as diferenças entre um dragão frio e um dragão normal. Sistemas de jogos nos dizem que os dragões frios deve ser um dragão que lança ar frio, usando gelo como arma de sofro ao invés de fogo.

Não estou tão certo de que Tolkien tenha previsto várias armas de sopro. Os dragões frios podem simplesmente ter sido dragões que não lançavam fogo. Embora pareçam um pouco desapontadores, dragões não precisam lançar fogo para serem terríveis e poderosos. As pessoas têm problemas suficientes racionalizando como Morgoth poderia ter gerado dragões e depois dragões alados de dragões não-alados como Glaurung. Seus tamanhos massivos, a habilidade de apenas fita-lo nos olhos e mesmerizá-lo, sua incrível força – seriam armamentos suficientes para o típico dragão faminto. Apostando em lançadores de gelo, dragões de água, e todas as variantes do D&D trivializamos os monstros da Terra-média. Os dragões de Tolkien eram criaturas que você simplesmente não desejaria ter que lidar. Por exemplo, ninguém parece ter matado o misterioso dragão frio.

Os únicos dois dragões nomeados na Terceira Era foram Scatha e Smaug. Smaug, como se percebe, é retratado de forma destacada em O Hobbit. Podemos ler muito sobre ele
. Scatha, por outro lado, mal merece apenas uma nota de rodapé em um apêndice e um comentário de Éowyn no texto principal de O Senhor dos Anéis. O que se passa com ele? Scatha nem mesmo entrou no cânone até que Tolkien estivesse revisando as provas de O Senhor dos Anéis. Portanto, desafortunadamente, não temos muita história para contar aqui.

Mas nós sabemos que Fram era filho de Frumgar, que foi Frumgar quem liderou os Eotheod para o norte, no ano de 1977, para reclamar as terras lestes do que havia sido o reino de Angmar. Os Eotheod não deveriam saber que existiam dragões na área, ou sentiriam que não tinha outra chance a não ser partir de lá. Se Frumgar era um homem no pleno vigor no ano de 1977 então ele provavelmente morreu por volta do ano 2000. Mas quando Fram morreu? Minha aposta é que foi provavelmente em algum momento depois do ano 1981. Este foi o ano no qual os Anões deixaram Khazad-dum, e muitos deles fixaram-se mas Montanhas Cinzentas, que ficavam a leste das Montanhas Nebulosas.

Com Anões e Homens se mudando para a região, e com o legado de Angmar, um punhado de dragões do norte devem ter sido provocados. Mas porque teria havido ali apenas uns poucos dragões? Pode-se pensar que o Rei-bruxo de Angmar desejaria manter uma ou duas ninhadas em mão para ajudar nas guerras. Mas não existem menções de dragões inquietando os Dunedain em Eriador. nem sequer existia um dragão na guerra final de Gondor e Elfos. O amor de Tolkien pelos grandes monstros parece ter sido temperado com cautela. Como as Águias, que ele sentia que não deveriam ser abusados como dispositivos literários, o autor parece ter se refreado de atirar um dragão na mistura cada vez que um grande monstro era necessário.

Os dragões podem ter sido para Melkor o que as Águias eram para Manwë: emissários especiais com uma missão específica. Mas Melkor foi removido do mundo e sua vontade maligna diminuída. Alguns aspectos de Melkor [ou Morgoth] permaneceram em Arda, na Terra-média em particular, porque ele infundiu uma parte de sua força, seu espírito, porto todo o mundo e suas criaturas. Dragões, em particular, devem ter tido uma grande parte de seus espírito maligno. Isto faria deles criaturas “mágicas” e bastante poderosas [bem como totalmente malignas – então não existe esperança de encontrar um dragão bom na Terra-média]. Tolkien parece relembrar isso em “Narn i Hin Hurin”:

Embora andando por suposição [Nienor] encontrou a colina [de Amon Ethir], que estava de fato bem próxima, pela elevação do terreno aos seus pés; e lentamente ele escalou o caminho que conduzia para cima, a partir do leste. Enquanto subia a névoa tornava-se mais fina, até que ela finalmente pode sair dela para a luz do sol no pico nu. Então ela adiantou-se e olhou para o oeste. E lá logo na frente dela estava a cabeça de Galurung, que havia se arrastado para cima pelo outro lado; e antes dela estar ciente de ter olhado em seus olhos, que eram terríveis, sendo preenchidos com o cruel espírito de Morgoth, seu mestre.

Quando Turin pediu aos Homens de Brethil que o ajudassem na luta contra o dragão ele disse: “Eu conheço algo sobre ele. Seu poder está especialmente no espírito maligno que reside nele do que em seu corpo, embora grande ele seja.” Eu por muito tempo pensei no que essas passagens poderiam significar. Morgoth teria aprisionado ou embutido algum espírito no corpo do dragão? Se sim, de onde ele veio? Apenas Iluvatar poderia criar um espírito, e Tolkien era preocupado com a idéia de que Iluvatar poderia criar alguma coisa que ele sabia que se voltaria para o mal, que deveria se tornar maligno. Claro, Iluvatar deveria saber que Melkor eventualmente se tornaria maligno. Então, de alguma forma é razoável dizer que se existe liberdade de escolha para o espírito, então Iluvatar poderia criá-lo. Mas existe liberdade de escolha para monstros como os dragões?

Uma explicação alternativa destas passagen é mais simples: o espírito mencionado é literalmente o espírito de Morgoth. Não a vontade primária de Morgoth, sua atenção ou consciência, se desejar, mas simplesmente uma parte de seu poder, sua força. O Um Anel proporciona um exemplo de como, quando o poder de um grande ser é parcialmente externalizado, a coisa parece ter uma vontade e cosciência como se fosse própia. O Um Anel tentava retornar para Sauron, e de muitas maneiras ele tentava corromper e controlar aqueles que o usavam, ou aqueles que potencialmente poderiam tomá-lo e usá-lo. Através dos anos muitas pessoas tentaram racionalizar como este Anel poderia agir por si mesmo se ele não era de fato um objeto consciente. Analogias com computadores foram formuladas, mas eu acho que tais analogias não entendem bem o ponto.

A energia primordial de um espírito Ainu é uma força encarnada. Ilúvatar deu vontade a estas forças, mas as vontades era apenas aspectos. Um espírito é uma coisa em si mesmo, mas Melkor e Sauron mostraram que eles podiam difundir seus espíritos, dividir suas essências entre múltiplas cascas físicas. Sauron pôs uma grande parte de si no Anel, mas ele permaneceu em sua forma encarnada, seu corpo. Era no corpo que ele continua residindo. E mesmo assim Sauron era capaz de perceber eventos e seres através do Anel, mesmo que de uma forma grosseira. Quando Frodo pos o Anel e usou a Alto Trono no Amon Hen, ele olhou para Barad-dur na visão que se estendeu ante ele e Sauron ficou consciente dele instantaneamente. Tolkien registra que Sauron estava ligado ao Anel enquanto este existisse, mas ele não estava em comunicação com ele. Ser separado do Anel seria como ter um braço dormente, talvez, embora continuemos a sentir formigamento nos dedos – mesmo na escuridão da noite – não podemos ter certeza de onde o mão está.

Em “Myths Transformed” explica este processo com mais detalhes, em um ensaio que explora a natureza dos Valar e Ainur em geral:

Melkor “encarnou” a si próprio [como Morgoth] permanentemente. Ele assim o fez para controlar o hroa, a “carne” ou matéria física, de Arda. Ele tentou identificar-se com ele. Um procedimento mais vasto e mais perigoso, embora de similar espécie às ações de Sauron com os Anéis. Portanto, fora do Reino Abençoado, toda “matéria” provavelmente possui um “ingrediente Melkor”, e aqueles que possuem corpos, nutridos pelo hroa de Arda, possui como que uma tendência, maior ou menor, em direção a Melkor: não existe nenhum deles totalmente livre em suas formas encarnadas, e seus corpos possuem um efeito sobre seus espíritos.

Tolkien, mais além, explica que:

…Além disso, a erradicação final de Sauron [como um poder direcionando o mal] foi alcançada pela destruição do Anel. Tal erradicação de Morgoth não era possível, uma vez que seria necessário a completa desintegração da “matéria” de Arda. O
poder de Sauron não estava [por exemplo] no outo como tal, mas em um aspecto ou forma particular de uma porção particular do ouro total. O poder de Morgoth estava disseminado através de todo o Ouro, se em nenhuma parte absoluto [pois ele não criara o Ouro] em nenhuma parte estava ausente. [Era este elemento Morgoth na matéria, de fato, que era o pré-requisito para a “mágica” e outras perversidades que Sauron praticou com ele e sobre ele.]

Dragões têm uma afinidade por ouro. Eles gostam de reuni-lo em um grande monte e deitar sobre ele. A justificativa de Tolkien poderia ser que que eles eram, dessa forma, nutridos pelo elemento Morgoth que está presente no ouro, uma vez que ele é realmente mais forte no ouro do que em outras substâncias [como prata e água]. Isto poderia explicar como dragões eram capazes de persistir por grandes períodos de tempo sem comer nada. O ouro os sustentava, e é tão importante para eles como comida seria para um homem faminto em uma olha deserta. Poderia também explicar porque os dragões experimentaram um período de declínio. Seus poderes seriam diminuídos sem Morgoth para controlá-los, e até que pudessem acumular novos tesouros eles estariam muito fracos.

Pode ser que os dragões, quando fugiram de Beleriand, tiveram de fugir para as vastidões norte porque eles estavam simplesmente muito fracos para lidar com Anões, Elfos e Homens. Eles tinham se exaurido no suporte a Morgoth e sobreviveram com dificuldade. E uma dependência por ouro e pelo espírito de Morgoth pode explicar porque aparentemente existiam tão poucos dragões até perto do final da Terceira Era. Eles poderiam precisar de ouro para procriar. Morgoth certamente não deveria carecer de ouro em Angband, onde ele poderia minar as profundezas da terra por quaisquer minerais e metais que desejasse. E como os tesouros Élficos eram levados para ele, Morgoth seria capaz de gerar ainda mais dragões, maiores e mais poderosos do que as primeiras gerações.

Dragões seriam, dessa forma, essencialmente artefatos vivos. Especula-se como Morgoth poderia criar dragões. Isto é, que criaturas ele teria unido em um programa controlado de procriação para produzir dragões? Eu não acho que era isso que Tolkien intencionava, tampouco. Particularmente pode ser que ele anteviu Morgoth iniciando com poucas criaturas, digamos lagartos ou cobras, exercendo sua vontade sobre seus corpos. Seu objetivo poderia ter sido produzir uma prole que seriam os dragões. Glaurung era, então, um experimento, um protótipo, e Ancalagon era o modelo de produção final. Cada ninhada de dragões então produzidos teria sido imbuída com parte do poder de Morgoth. Eles tinham “vontades”, mas não necessariamente vontades independentes. Eles eram mais do que fantoches mas menos do que criaturas verdadeiramente sencientes.

Sem a ajuda de intervenção direta de Morgoth, a procriação para os dragões pode ter se tornado uma tarefa grande e onerosa. De fato, deixados por si mesmos, os dragões parecem ter sido menos eficientes do que quando liderando os exércitos de Morgoth. Glaurung levou um longo tempo para fazer seu caminho de Nargothrond para Brethil. Ele aparentemente queimou um caminho através da paisagem, queimando árvores e tudo mais, de vez em quando deitando e dormindo. A turbulência de fogo poderia ser apenas uma expressão da malícia do dragão, ainda que isto provavelmente asseguraria que ninguém permaneceria por perto para perturbá-lo durante as sonecas. Mas deve ter representado um incrível gasto de energia. Em “Narn i Hin Hurin”, Glaurung envia um exército para atacar Brethil e Turin destrói o exército. O dragão aguardou vários meses antes de se movimentar contra os homens da floresta pessoalmente. Ele poderia estar recarregando as baterias, por assim dizer, construindo suas reservas de energia.

Tal limitação torna os dragões incapazes de tomar o mundo sem um grande poder por detrás deles. E também torna possível que pessoas vivam relativamente próximo aos dragões [como os Homens do Lago Comprido e os Elfos de Mirkwood Norte] sem ter que procurar proteção a cada dia. Os dragões, enquanto não fossem perturbados, poderiam sustentar-se em seus tesouros dourados até que fossem movidos à ação por algum motivo. Eles deveriam ter pouco instinto de reprodução, e talvez existisse um conflito entre a necessidade de reproduzir e a de simplesmente existir. Um dragão que tivesse uma cria poderia enfraquecer a si mesmo, talvez até mesmo morrer, a menos que tivesse um tesouro de ouro muito muito grande. Smaug parece ter sido o maior e mais bem sucedido dragão de sua geração. Mas se os tesouros de Erebor e Valle eram mais vastos do que qualquer coisa que sua espécie tenha acumulado desde o final da Primeira Era, ele pode ter ficado de certo modo embriagado com o poder, muito confuso para procurar uma parceira.

Uma depedência pelo ouro e a força de sobrepujar todas menos a mais poderosas das vontades também explica porque o Rei-Bruxo de Angmar seria incapaz de controlar ou criar dragões. Ele poderia simplesmente ser muito fraco para executar a tarefa. Sauron poderia ter sido capaz de exercer sua vontade plena e tomar controle dos dragões. Gandalf certamente temia muito isto de acordo com Tolkien, mas Sauron aparentemente recobrou quase toda a sua força perto do final da Terceira Era [menos a porção armazenada no Anel]. Quando Angmar surgiu por volta do ano 1300, Sauron continuava fraco e se escondendo em Mirkwood. Ele poderia não ser capaz de lidar com os dragões até muito mais tarde.

Mas o ressurgimento dos dragões no norte no século 26 pode ter sido uma indicação de que Sauron estava fazendo alguma coisa com eles. Ele retornou a Dol Guldur em 2460 “pode poder aumentado”, de acordo com o Conto dos Anos no Apêndice B de o Senhor dos Anéis. Os dragões reapareceram no norte por volta do ano 2570. Coincidência? Sauron certamente poderia ter arranjado para os dragões alguns poucos carregamentos de ouro. De fato, ele poderia ter começado a trabalhar em um programa de criação de dragões logo após ter deixado Dol Guldur em 2063 em preparação para seu eventual retorno.

Então parece que a história de Scatha foi um pouco casual. Os dragões seriam incapazes de causar destruição entre os povos do norte até que os Anões começaram a se fixar em grandes números nas Montanhas Cinzentas. Alguma colônia de Anões pode ter acordado Scatha e ele os matou, tomando seu tesouro. Uns poucos sobreviventes podem ter espalhado a história de que um dragão estaria vivendo nas montanhas. Então, o que trouxe Fram para a história? Teria ele partido para matar o dragão esperando ficar com o tesouro? Isto parece tão estranho para os heróicos Rohirrim e seus ancestrais, os Eotheod que ajudaram Gondor. Fram pode ter sido um homem orgulhoso e arrogante, com pouco amor pelos Anões, mas eu acho que não seria característico dele ser ávido e pretencioso o suficiente para ir à caça de dragão. Scatha deve
ter parecido uma ameaça real aos Eotheod.

Se, abastecido por um pequeno tesouro de Anões, Scatha decidiu procurar sua sorte no mundo, ele poderia ter entrado em conflito com os Eotheod. Como um Senhor, Fram deveria ter que tomar uma ação contra o lagarto, assim como Turin fez contra Glaurung na Primeira Era e Bard faria mais tarde contra Smaug. Homens bravos não saem procurando dragões a menos que sejam tolos ou desesperados. Scatha era chamado de “o grande dragão das Ered Mithrin”, então ele deve ter sido o mais poderoso dos dragões de seu tempo. Se ele acumulou um tesouro e ficou mais forte com ele, sua malícia pode tê-lo levado a um alcance cada vez maior.

A aventura de Fram pode ter sido similar à de Turin. Ele poderia ter recrutado uns poucos bravos companheiros para ajudá-lo a caçar o dragão. Talvez tenha havido mais de um encontro. Pode ter ficado apenas entre Scatha e Fram no final, tendo os companheiros de Fram morrido ou fugido em terror. Fram deve ter planejado algumas formas de matar o dragão, mais provavelmente perfurando-o por baixo. O confronto final deve ter sido uma batalha corajosa, de consequências incertas. As montanhas devem ter ecoado com os urros do dragão, e a noite deve ter se acendido por milhas ao redor com as chamas do dragão. Os Eotheod podem ter se aconchegado em suas casas e cantados canções para acalmar seus filhos. Os Anões teriam posto de lado seus martelos e harpas, e escutado a rocha de seus salões ressoar com o som do homem confrontando o dragão.

Ao final Fram derrotou o dragão, e viveu para ostentar o feito. E Tolkien escreveu que “as terras do norte ficaram em paz das grandes lagartos após isto“. Os dragões devem ter sofrido um golpe devastador com a perda de Scatha. Como quando Azaghal feriu Glaurung e os dragões recuaram para Angband com medo, assim os grandes lagartos devem ter voltado para a Urze Seca além das montanhas. Seria medo a única razão de evitarem os Homens? Ou seria o fato de que Scatha possuía o maior poder, e com sua morte aquele poder foi perdido para os dragões? Poderiam eles dividir forças para sobreviver, e se um dragão morria longe dos outros eles se tornavam mais fracos?

A partida de Smaug do norte pode explicar porque os dragões tornaram-se uma ameaça menor e não maior. Enquanto estavam juntos eles eram fortes. Mas quando o mais forte dentre eles partiu, seu total de força deve ter diminuído. Sua força soletiva tinha sido sustentada e nutrida por longos séculos de acúmulo e roubo de ouro dos Anões. Os Anões estiveram fugindo das montanhas por gerações, de qualquer forma. Qual o sentido de permanecer em uma terra onde é provável que você seja assasinado por um dragão? Se nós supusermos que Sauron estava por trás do ressurgimento dos dragões, então ele deve ter fica satisfeito com a conquista de valle e Erebor por Smaug. E como consequência da morte de Smaug teria havido a perda de grande parte do poder-dragão do norte.

É dito que quando Augustus Cesar soube que Quintillius Varus tinha sido derrotado pelos Alemães em Teutoberg Wald, e que três legiões romans foram massacradas, Augustus irrompeu pelo palácio gritando “Varus! Devolva minhas legiões!” Sauron pode ter sentido raiva e desespero similares quando soube da morte de Smaug. Ele não necessariamente tinha imbuído nos dragões alguma parte de sua força [a qual, sem o Anel, era preciosa e pouca]. Mas ele poderia ter gastado uma grande quantidade de recursos nutrindo-os. Tal retrocesso pode ter mudado radicalmente os planos de Sauron. Sua esperança de enviar tropas inrrompendo através do norte do munto teria diminuído.

A vitória sobre Smaug, portanto, anunciava algo mais do que a chance de restauração dos Anões Barbalongas à sua glória anterior. Assinalava a última vez na qual os dragões poderiam estar em aliança com um poder encarnado maior do que si mesmos. Sauron vou vencido menos de 100 anos mais tarde, e embora os dragões tenha sobrevivido sem ele eles estavam completamente por si mesmos. Ele podem ter começado o longo e lento processo de reconstruir suas forças sem ajuda. Mas eles nunca produziram novamente um Smaug ou Scatha, ou qualquer lagarto capaz de destruir um reino inteiro. No máximo eles podiam aterrorizr o campo ou assustar pequenas tribos. E eles estariam sem um propósito real. Embora alguma coisa da vontade de Morgoth tenha sobrevivido neles, não exestiria direção externa através de poderes como Sauron e não existia harmonia ou um senso real de comunidade entre eles.

Os dias dos dragões estariam então contados, e eventualmente se tornaria possível para os homens caçá-los e pegar seus tesouros. E estando sem tesouros eles eventualmente dormiriam para nunca acordar, e as últimas criaturas encantadas de Morgoth estariam restritas a um passado distante, folclore e lendas.

Cuidado com o Padeiro na Cozinha!

Não há nada como um bom vilão de Tolkien e, desafortunadamente, há tão poucos deles. Agora, antes que me enforquem, deixe-me explicar porque eu acho que Tolkien intencionalmente manteve seus bons vilões a um mínimo. Povos realmente malignos eram raros porque eles estariam corrompendo e manipulando todos os demais em direção ao mal. Nem Melkor nem Sauron iriam tolerar um Senhor do Escuro rival. Quase todos os outros caras eram apenas seus servos. É debatível se o Balrog de Moria estaria realmente servindo a Sauron na Terceira Era.

Mas o mal de Tolkien é diferente do mal da maioria das histórias. Ele não está focalizado no mal em seres humanos. Ele está focalizado no mal externo, o qual ele chama algumas vezes de Mal Encarnado. Quase pode-se ouvir estas palavras reverberando quando ele as fala. Trovões ressoariam nos céus, e nuvens bloqueariam o sol. Melkor e Sauron podem ter sido bons no início, mas eles percorreram aquele caminho sombrio que existe à frente de todos. Oras! Melkor abriu o caminho e Sauron o ampliou.

Existe mal humano na Terra-média: ambição, avareza, orgulho e assim por diante. Reis e heróis podem facilmente enlouquecer e deixar o caminho da Bondade e Luz. Tolkien produz sua tragédia a partir deste personagens humanos. Mas nem Melkor nem Sauron são trágicos, embora pudessem ser. Isto é, não existe retorno para a queda destes dois seres anteriormente notáveis e impressionantes. Eles eram Ainur, anjos, filhos do pensamento de Ilúvatar antes de existir um Tempo, antes dos Filhos de Ilúvatar terem sido trazidos à existência. Eles nem sempre foram da escuridão, antigamente eram da luz. E mesmo assim as escolhas que eles fizeram conduziram-nos à destruição. Suas corrupções não possuíam uma conclusão decidida de antemão.

Por outro lado, não há mal menor em Tolkien. Ninguém fica louco em sua vila e envenena o pão, por assim dizer, em um pequeno ato de vingança por zombarias e insultos. Todos os atos de maldade são universalmente desprezados. As pessoas possuem um senso do que é certo e do que é errado, e elas geralmente tentam viver por ele. Exceto por “aqueles outros caras”, os inimigos. Em cada guerra, os vencedores sãos os bons rapazes em sua própria visão. Então os seguidores de Sauron sem dúvida aproveitaram o sucesso que experimentaram porque estavam do lado certo. Eram os malignos Elfos e tirânicos Dunedain que precisariam ser destruídos.

De outra forma, alguém pode apressar-se em apontar, quem poderia pensar que os Orcs são “gente boa”? Mesmo os Orcs pareciam desprezar a si mesmos. Sim e não. Nós definimos bem e mal pelo valores que nos são ensinados ou com os quais crescemos. Os Orcs foram corrompidos. O que eles poderiam considerar bom não necessariamente faria sentido para nós, mas faria sentido para eles. “Quais são as melhores coisas da vida?” “Esmagar seus inimigos. Vê-los correr de você. Ouvir a lamentação de suas mulheres”. Não é exatamente um diálogo clássico de Tolkien, mas reflete os valores dos guerreiros na imaginação de algumas pessoas. [Nota do Tradutor: apesar de Martinez não citar a fonte, é um diálogo do filme “Conan”]

Bem, no sentido do que é o melhor para a comunidade, também existia entre os Orcs. Aragorn apontou que eles poderiam viajar grandes distâncias para vingar um capitão assassinado. Porque? O Orc estava morto, apesar de tudo, certo? O que existia para que os Orcs sobreviventes arriscassem suas vidas tentando se vingar de alguém que matou seu capitão o qual eles provavelmente odiavam? Orgulho. Mas não apenas orgulho. Eles deveriam ter um senso de bando, um sentimento tribal que daria suporte a todos os inevitáveis abusos. O rosnar e lutar e resmungar eram parte de seu sistema social de bando. Galinhas determinam uma hierarquia social e também os Orcs. Este é simplesmentemente o modo como as coisas são. E daí se o principal Orcs matou outros cinco chefes Orc para tomar o poder da tribo?

Os Orcs eram leais a seus mestres. Eles lutavam e morriam aos milhares por Melkor, Sauron e Saruman. Muitos deles devem ter perdido suas vontades próprias, mas mesmo Melkor [Tolkien fala isso em um de seus ensaios] não poderia controlar diretamente todos eles. Eles odiavam seus mestres mas os temiam. E mais, alguns dos Orcs pareciam ter orgulho de seus serviços. Shagrat, por exemplo, estava ferozmente determinado em ver Frodo entregue a Barad-dur. Porque? Gorbag e seus rapazes não pareciam tão determinados. Mesmo quando foi falado a Shagrat que um guerreiro Élfico havia ultrapassado suas defesas, ele insistia em enviar o prisioneiro para Lugburz [embora ao final apenas a cota de mithril de Frodo tenha sido levada]. Shagrat era um “bom Orc”. Ele seria o tipo de Orc que você gostaria de ter a seus serviço se você controlasse orcs. Gorbag não era assim tão bom.

Mas isso não quer dizer que os valores dos Orcs estariam lado a lado com o dos Elfos e Dunedain. Os Orcs viviam suas vidas de acordo com a vontade de seus mestres. Eles poderiam não saber que existia um padrão absoluto de bem e mal, derivados, em última instância, dos valores de Ilúvatar. Seriam os valores Dele que prevaleceriam sobre todos, e eles poderiam não necessariamente coincidir com o de Elfos e Homens. Ilúvatar, por exemplo, permitia ao mal existir. Porque? Esta é a mesma questão feita pela comunidade Judaica-Cristã há muito tempo. Porque Deus permite ao mal existir?

A resposta do Novo Testamente é que, se Deus fosse acabar com o mal hoje, então quase todos no mundo iriam perecer. Ele adia seu julgamento para dar às pessoas tanto tempo quanto Ele achar razoável para que reflitam sobre seus pecados e se afastem deles. Os propósitos de Ilúvatar não são tão claramente explicados. De fato, Tolkien estava perturbado pelas implicações de se extender aquele princípio a Ilúvatar. Ele reconhecia que os Orcs eram seres racionais encarnados, como Homens e Elfos, então Ilúvatar estaria criando espíritos que estariam condenados a liver vidas malignas. Porque Ilúvatar faria isso? Não eram tanto a predestinação quanto as circunstâncias que fariam o destino dos Orcs.

A resposta transtornou Tolkien. Ele decidiu apenas que Ilúvatar sabia o que estava fazendo, mas se os Orcs eram seres racionais encarnados, de alguma forma serviam aos propósitos de Iluvatar. Pode-se facilmente perguntar, contudo, porque Ilúvatar permitiria que um filho nascesse para crescer e se tornar Ar-Pharazon. Qual é a diferença entre o Rei de Numenor que se tornou maligno e os Orcs que foram criados malignos, exceto que aos Orcs não é dada escolha? Gandalf parece estar falando dos Orcs quando diz a Denethor, “E eu, tenho piedade até de seus [de Sauron] escravos“.

O mal existia nos dois lados da guerra. Então mal não era
realmente sobre “nós” e “eles”. É sobre as escolhas feitas dentro dos limites da vida de cada um. Uma escolha órquica de armar emboscadas e roubar pessoas é maligna. Sauron provavelmente não permitia assaltos nas estradas de seu reino. Todos os bens pertenciam a ele e servia a suas necessidades. Coitado do Orc que roubasse uma de suas caravanas de suprimento!

Mas se o mal pode ser encontrado em todo lugar, também é assim com o bem? Esta questão é mais difícil de responder. Os Orcs, em sua maioria, agiam em conformidade com as leis de Sauron. Eles o temiam e temiam a consequencias da desobediência. Mas um Orc cumpridor das leis seria “bom”? Vejamos de outra forma, um Homem vivendo sob o governo de Sauron [muitos viviam] e agindo da mesma forma que os Orcs seria menos maligno por ser um Homem? Seria melhor? Eu acho que não. Ele teria a vantagem da casta, talvez, mas apenas se os Homens em geral fossem tratados melhor que os Orcs, por Sauron. Pode ser que os Orcs tivessem um tratamento melhor [mas provavelmente todo mundo era mal tratado da mesma forma].

Saruman tentou colocar-se como um novo senhor escuro, e ele representa o que Sauron deve ter atingido num estágio bem anterior, antes da Guerra entre Elfos e Sauron. Sauron teve que começar como um Maia solitário em algum momento da Segunda Era. Deve ter levado bastante tempo para acumular seguidores e escravos. E até que se fixasse em Mordor, muito depois de fazer o Um Anel, quão efetivo era seu controle sobre outras criaturas? Quantas outras criaturas ele era capaz de subjugar sob sua vontade?

Quando Sauron começou a dominar os antigos servos de Melkor, ele deveria ser apenas um pouco pior que uma padeiro furioso. Isto é, seus pecados na Primeira Era foram, sem dúvida, numerosos, mas ele desitiu por um tempo. Um longo tempo. Pode ter levado séculos até que Sauron retornasse a seus desígnios malignos. Teria sido apenas um simples momento de fúria que levou-o a retornar ao mal e à escuridão? Teria sido assim que Saruman começou a trilhar o caminho?

A busca pelo mal na Terra-média é quase tão longa como a busca por redenção, aparentemente. Melkor esteve dividido durante o Ainulindale e aparentemente irritou Iluvatar, mas ele foi realmente mau? Quando Melkor entrou em Ea com os outros Valar, ele parece ter trabalhado bastante para ajudá-los a dar forma e substância ao universo. Não existiu nenhuma briga real até que começaram a trabalhar na região que seria conhecida como Arda. Então ele a clamou para si mesmo, ação à qual ele nào tinha direito. Quão longas foram as incontáveis Eras das Estrelas nas quais Melkor [e Sauron, e todos os outros Maiar não nomeados que eventualmente seguiram Melkor ao mal] ainda não tinha se tornado maligno?

Em uma escala menor, quanto tempo levou para os Noldor cairem nas mãos do mal? Eles não eram malignos quando alcançaram Aman. Eles ainda não tinham sucumbido ao pecado do orgulho ao qual Melkor os induziu após ser libertado. Eles não continuavam essencialmente um povo bom no dia em que Melkor foi solto de Mandos? Como aquele dia deve ter sido? E se Fëanor, que colocou-se à parte da Casa de seu pai, já estivesse sucumbindo ao orgulho [que foi sua queda] Melkor teria sentindo a marca de outro mal em Valinor?

Passou-se um longo tempo antes que Melkor de fato atingisse alguma coisa no sentido de corromper os Noldor. E embora Fëanor tenha rejeitado Melkor, os Valar acreditavam que Melkor fora de alguma forma responsável pelo temperamento de Fëanor. Se Melkor não tivesse destruído as Duas Árvores, além de Finwë, Fëanor poderia ter sido um pouco rude, mas ele não teria ultrapassado o limite. Mas fica claro que, quando ele subiu a colina de Tuna em desafio aos Valar e falou a seu povo, Fëanor tinha finalmente cruzado a linha, e os Noldor logo o seguiriam.

É difícil imaginar como os Noldor lentamente caíram pelo pecado do orgulho. Eles tornaram-se arrogantes e abertamente desconfiados uns dos outros. Devem ter havido argumentos e disputas , mas aparentemente nada chegou a brigas e espadas. Os padeiros ocasionalmente furam os bolos dos outros? Qual seria a tendência de um povo que poderia ser tão facilmente [aparentemente] dirigidos contra seus vizinhos [os Teleri de Alqualonde]? Como aconteceu isso, quando Fëanor ordenou a seu povo que roubasse os navios dos Teleri, ninguém perguntou porque Deus precisaria de uma espaçonave [ou, mais apropriadamente, porque Fëanor pensava que tinha o direito de tomar os navios]?

Seria muito tarde para divergências nas fileiras? Mesmo o bem intencionado Fingon foi correndo à batalha sem conhecer as causas justas e injustas dos combatentes e mesmo procurar conhecê-las. Seu ataque irresponsável e precipitado, originado da lealdade, parece ter condenado todo o seu povo. O que teria acontecido se Fingon primeiro tivesse perguntado o que estava acontecendo? O que aconteceria se ele tivesse se recusado a apoiar o roubo dos barcos por Fëanor? Teriam ainda os Noldor se lançado ao exílio ou apenas uma pequena fração do povo seria condenada?

O caminho para a escuridão parece ter muitas armadilhas, mas também existem algumas interrupções. Existem pontos onde pode-se avaliar o que foi feito e voltar atrás. A redenção de Boromir é um exemplo de como alguém poderia começar a trilha o caminho da escuridão mas não fazer a jornada completa. Ele continuou tendo que pagar com a vida por tentar se apoderar do Anel, mas sua morte foi uma morte nobre. Ele sacrificou-se tentando salvar seus dois companheiros.

Diz-se que mesmo Ar-Pharazon hesitou quando Sauron encorajou-o a cortar a Árvore Branca de Númenor. Foi o valente esforço de Isilidur em salvar a fruta antes da Árvore ser destruída que finalmente empurrou Ar-Pharazon para além dos limites. Pode ser afirmado que, mesmo Isildur não fazendo nada, o rei eventualmente concordaria com a sugestão de Sauron. Sauron não demonstrava piedade em seus esforços para corromper e destruir os Numenorianos. Em todo caso, a ação de Isildur estimulou a reação de Ar-Pharazon, e Ar-Pharazon retomou sua jornada na escuridão.

Earnur, o último Rei de Gondor da Linha de Anárion, não tornou-se exatamente mau, mas sucumbiu ao orgulho. E também sua queda foi atrasada. Na primeira vez que o Senhor dos Nazgul lançou um desafio ao rei, o Regente Mardil foi capaz de conter Earnur. Earnur teve uma pausa, mas a certa hora ele retomou seu percurso de auto-destruição. Ele respondeu ao segundo desafio.

Não era fácil para alguém tornar-se maligno, na Terra-média. Os Orcs não foram sempre malignos. Em algum momento em suas origens eles foram bons, tão bons quanto qualquer um. Eles não eram de fato Orcs. Então eventualmente chegou um dia em que eles puderam ser chamados Orcs, mas como foi o processo de transição? E eles teriam ido tão longe no caminho escuro que mesmo que desejassem de todo coração não poderiam retornar? A questão da redemibilidade dos Orcs perturbou Tolkien e incomodou muitos de
seus leitores. Muitas pessoas assumem que os Orcs foram todos destruídos na Guerra do Anel, mas não foi o caso. O Epílogo [que Tolkien foi persuadido a não publicar] indicava que os Orcs continuavam por aí. Sam especulou se os Orcs seriam, em algum momento, completamente destruídos e durante a Segunda Guerra Mundial Tolkien frequentemente fazia referência aos “Orcs” no exército britânico em cartas a seu filho.

Orcs, então, não seriam tão completamente malignos a ponto de sempre poderem ser distinguidos dos Homens. Ou talvez os Homens não seriam sempre tão bons a ponto de poderem ser distinguidos dos Orcs. A desobediência dos Elfos não foi universal como foi a desobediência dos Homens. Os Elfos foram capazes de aprender o erro de seus caminhos e rejeitar o caminho da escuridão. Os Homens tiveram que esperar por outra forma de redenção.

Todavia nós vemos o bem e o mal na Terra-média principalmente pelos olhos dos Hobbits. Existiram algums Hobbits malvados e Hobbits que serviram de livre vontade a Saruman. Mas em geral, os Hobbits possuiam uma inocência, uma fidelidade ao bem, que todos os Homens e Elfos uma vez dividiram. Isto não quer dizr que os Hobbits não partilharam da Queda dos Homens. Eles devem ter sido [como Tolkien disse] um ramo da raça Humana. Mas ele desistiram das trevas e nunca voltaram completamente para ela. Poucos, como Sméagol e Lotho Sacola-Bolseiro, seguiram o caminho e desapareceram no esquecimento.

Para os Hobbits, os Elfos eram bons e os Orcs eram maus. Este pensamento era ao mesmo tempo correto [pois os Hobbits julgavam Elfos e Orcs com base em suas ações] e errado [pois os Hobbits não olhavam mais profundamente em suas próprias experiências]. O que Sam pensava da rebelião de Fëanor? Bem, estaria tudo no passado para ele, sem dúvida. Seria um assunto há muito tempo resolvido. Mas ele teria entendido que os Orcs não eram de fato verdadeiramente culpados por suas naturezas? Ele compreendia por que Gandalf tinha piedade mesmo dos escravos de Sauron, e por quê?

Por outro lado, Hobbits eram geralmente de uma natureza gentil. Eles não batiam em seus filhos, aparentemente não sofriam de alcoolismo, e aparentemente não tinham muitos problemas com assalto a bancos, assassinatos e sequestros. O que um sequestrador Hobbit pediria como resgate, de qualquer forma? Uma carroça de erva-de-fumo? O orgulho e ira que derrubaram outros povos de fato não tinham muito a ver com os Hobbits. Eles eram um povo que tinham grande resistência, mas também falta de ambição. E todos os problemas dos Elfos e Homens parecem ter surgido da ambição. Ou desejo.

Aparentemente o mais ambicioso ato que um Hobbit de fora da família Sacola-Bolseiro poderia expressar seria roubar cogumelos ou conhecer tantas tavernas quanto possível. A ambição de Lotho em tornar-se o Chefe trouxe sobre ele um final triste e patético. Paladin II, o pai de Pippin, ficou horrorizado que alguém pudesse querer se estabelecer como governante do Condado, mas ele não fez nada para contestar Lotho. Os Tuks simplesmente esperaram fora da tormenta em suas próprias terras ao invés de marcharem para a guerra contra os Rufiões. Não parecia importante o suficiente para que Paladin iniciasse uma guerra que poderia resultar na morte de muitos Hobbits.

Em suas atividades de vilão, Lotho realmente parece não ter conseguido muito. No momento em que o leitor fica sabendo o que ele fez para o Condado, traindo-o para Saruman, ele já estava morto. Ele mesmo teve a desculpa de ser reconhecido como um tolo que foi além de suas capacidades. De uma certa forma, Grima Língua-de-Cobra também foi desculpado. Seu mal é mais prontamente reconhecido por Gandalf. Grima queria Eówyn. Mas ele também espera dividir o poder com Saruman. E quando Saruman é humilhado assim também é Grima, que o acompanha como um cão fiel, mas um cão cheio de amargura.

Existe uma hierarquia completa de caras maus que saqueiam os postos inferiores de alguma forma. Sauron permanece no topo, poderoso e vão, imutável. Abaixo dele ficam vários comandantes como Sauron e o Senhor dos Nazgul, poderosos à sua própria maneira, mas muito fracos para prevalecer sobre os Homens. Abaixo de Saruman ficavam servos como Grima e Lotho, criatura pequenas mas ambiciosas com pouco poder real. E mesmo assim ambos causaram grande mau a seus povos. E abaixo de Lotho estão rufiões como Bill Ferny, criminosos brutais sem ambições reais exceto serem maus e mesquinhos.

Existem muitas faces do mal nO Senhor dos Anéis, e graus de maldade e mesquinharia. Existe pouca redenção verdadeira. Boromir poderia ter sido muito pior do que Lotho e Grima. Ele poderia ter rivalizado Saruman, talvez, pois ele já era um príncipe de uma grande nação. Mas quase a totalidade dos que caem permanecem caídos. Mesmo o sábio velho Denethor, que quase voltou da beirada ao final, sofreu o destino que sua loucura decretou. Ele cedeu ao desespero.

O único personagem que Tolkien realmente desculpa completamente é Frodo. Frodo cede ao Anel no final, mas levou meses de tormento demoníaco para que Frodo reclamasse o Anel para si. A exigência não nasceu do orgulho e arrogância, não da ambição de se tornar um grande e poderoso senhor. Foi essencialmente um ato de insanidade, uma insanidade ocasionada pela ruptura de sua mente. Frodo é, de vários modos, reduzido ao estado de um Orc. Não um Orc maligno, mesquinho, cruel, sanguinário. Mas antes um Orc que teve sua livre vontade retirada, suas escolhas negadas. Ele não é melhor do que escravos Orcs que inicialmente cederam às vontade de Melkor e Sauron.

E se existe redenção para Frodo, e perdão, então deve haver redenção e perdão para os Orcs?

Tradução de Fábio Bettega

Mágica, por Melkor. Não Aceitam-se Devoluções

Porque ouro? Eu tive essa questão feita para mim algumas vezes. De onde eu tirei a idéia que os dragões poderiam retirar poder do ouro, ou, mais especificamente, que existe alguma coisa especial no ouro no que se trata de mágica? [Nota do Tradutor: Martinez está se referindo ao ensaio Todos os Dragões se Foram? , de sua própria autoria]
Bem, eu esqueci de mencionar um parágrafo crucial
quando estava citando um ensaio de Tolkien [o qual, a propósito,
Chistopher Tolkien chamou de “Notas Sobre os Motivos do Silmarillion” – os parágrafos sobre o elemento-Morgoth foram movidos do início para o final de seção II]. 

Quando ao final nos referimos à visão de Tolkien de como a mágica funcionava para Sauron, temos as seguinte palavras: “O
poder de Morgoth estava disseminado através de todo o Ouro, se em
nenhuma parte absoluto [pois ele não criara o Ouro] em nenhuma parte
estava ausente. [Era este elemento-Morgoth na matéria, de fato, que era
o pré-requisito para a “mágica” e outras perversidades que Sauron
praticou com ele e sobre ele.]”

Mas o que se segue explica
minha fascinação pelo ouro, e porque eu acho que dragões seriam capazes
de se sustentar a partir dele:

“É bastante possível, claro,
que certos “elementos” das condições da matéria tenham atraído a
atenção especial de Morgoth [principalmente, exceto no passado remoto,
por razões de seus próprios planos]. Por exemplo, todo o ouro [na
Terra-média] parece ter uma tendência especialmente “maligna” – mas não
a prata. A água é representada como quase inteiramente livre de
Morgoth. [Isto, claro, não significa que um mar, rio, poço ou mesmo
vasilhame de água em particular não pudesse ser envenenado ou poluído –
como todas as coisas podiam.]”

Então, não existe uma
conecção específica com dragões, mas Tolkien pelo menos reservou alguns
pensamente para o lugar em particular ocupado pelo ouro na hierarquia
do que podemos chamar “substâncias mágicas” na Terra-média. Ouro é um
elemento fascinante. É o terceiro metal mais condutivo que conhecemos
[apenas cobre e prata são mais efetivos]. Em sua forma mais pura o ouro
pode ser ingerido com segurança [embora sopa de ouro seja muita cara,
segundo me contaram] mas não possui um valor nutritivo para nós.
Dragões podem ou não ter se beneficiado da absorção de algumas libras
de ouro. [Nota do tradutor: libras no sentido de peso]

De
fato, me foi apontado que o tesouro dos dragões incluem mais coisas do
que apenas ouro. A barriga de Smaug, por exemplo, estava incrustrada
com jóias. Mas qualquer um que viu o desenho de Bilbo e Smaug que
Tolkien fez para O Hobbit [entitulada “Conversação com Smaug”] não
poderá deixar de notar que a maior parte da cama do dragão é composta
de ouro. Sim, existe todo tipo de coisas brilhantes espalhadas pela
pilha [incluindo a Pedra Arken no topo da pilha] mas a maior parte do
tesouro é ouro.

Isso não quer dizer que as jóias não sejam
especiais a seu próprio modo. Lembre-se como Ungoliant cobiçou as gemas
que Melkor roubou dos Noldor em Formenos. Ela comeu todas exceto as
Silmarilli e ficava mais poderosa enquanto o fazia. Estas gemas
possivelmente não continham o que Tolkien se referia como
elemento-Morgoth, mesmo Morgoth tendo sido mantido em Aman por um longo
tempo. Então, a questão que surge é se existia algum outro elemento
“mágico” com o qual Ungoliant estava se alimentando ou se ela estava
simplesmente se alimentando da própria essência das pedras preciosas.

Quando Ungoliant sugou a vida das Duas Árvores e depois sorveu a luz
líquida dos Poços de Varda ela cresceu a um tamanho imenso. Ela
tornou-se tão grande e poderosa que Melkor a temeu. Luz era o sustento
de Ungoliant, mas a luz das Duas Árvores seria um produto do que
poderíamos considerar “mágica pura”, o poder de um Vala. Yavanna trouxe
as Duas Árvores à vida pelo poder de sua canção, um ato de sub-criação
inigualado dentro dos Salões de Eä, e que ela disse não ser capaz de
repetir. Assim alimentada pelo poder do encantamento mais poderoso de
Yavanna, Ungoliant tornou-se imensa e mais poderosa do que antes.

Da mesma forma as gemas roubadas dos Noldor eram encantadas. Fëanor
aprendeu como fazer pedras preciosas que brilhavam sob a luz das
estrelas ou que brilhava de acordo com sua vontade. Ele teve muitos
anos, durante os quais construiu um grande tesouro, e este tesouro foi
transportado para Formenos quando Fëanor, Finwë e os filhos de Fëanor e
os Noldor que os seguiram fixaram lá ao norte de Valinor durante o
período do banimento de Fëanor de Tirion. Portanto Ungoliant foi capaz
de se alimentar não apenas com a essência das jóias Noldorin mas também
com o poder que Fëanor [e quaisquer outros artesãos] colocou nelas.

Se os Noldor eram capazes de crias gemas mágicas em Aman, eles não
seriam menos capazes de criá-las na Terra-média. E assim como os Noldor
foram ensinados pelos Valar e Maiar, especialmente por Aulë, também os
Anões foram ensinados pessoalmente por Aulë. Os Anões possuíam suas
próprias habilidade e poderes especiais. Eles podem ter sido menos
poderosos que os Eldar, ou talvez menos ambiciosos [pois eles nunca
fizeram artefatos como os Anéis de Poder ou as Silmarilli]. Mas os
Anões também colocavam seus pensamentos nas coisas que faziam, como o
elmo-dragão de Dor-lomin, que protegia seus portadores de qualquer
dano. E a Flecha Negra de Erebor que Bard usou para matar Samug pode
ter sido um produto de mais do que um artesão experiente. Talvez algum
mestre Anão, morto pelo dragão fazendo com que todo seu conhecimento
fosse perdido com ele, tenha posto um grande esforço na sua criação e
embuiu nela algo de seu poder.

O poder dos Elfos – e dos Anões
– podia não ser igual ao poder de Morgoth ou Yavanna, mas ainda sim
seria uma fonte de encantamento. Um dragão sobre um tesouro Élfico
[como em Nargothrond] ou um tesouro Anão [como em Erebor] poderia sugar
ou simplesmente banhar-se nas energias dos criadores dos itens
encantados tanto quanto ou quase tanto como no elemento-Morgoth contido
no ouro. O que não quer dizer que os dragões tivessem que fazer isso,
mas claramente a passagem de poder de um ser para um objeto é uma idéia
que Tolkien usou várias e várias vezes, e um após o outro ele nos deu
exemplos de poder passando de um objeto para uma criatura. As imensas
energias que Melkor dispersou através de Arda em seus esforços para
identificá-la consigo mesmo poderiam, coletivamente, ofuscar aquelas
dos Elfos e Anões criadores de itens. Mas um tesouro de ouro e gemas
não importa o quão grande fosse seria apenas uma pequena fração da
essência de Arda. Assim cada pequena partícula ajudaria.

Um
senso de escala desenvolve-se quando pesamos os grande poderes
[malignos] da Primeira Era contra aqueles das Eras posteriores. Melkor
governou seu reino a partir de Angband, onde ele estava cercado por
seus servos: Sauron, os Balrogs, Draugluin e os lobisomens, Orcs,
Trolls, Thuringwethil e talvez outras criaturas como morcegos, e outros
monstros não nomeados nas lendas dos Elfos e Edain. Ele criou lá alguns
dragões e nutriu Carcharoth, o grande Lobo. Mas suas criaturas também
residiam por toda a Terra-média. O cerco de Angband foi mais um show do
que qualquer outra coisa, pois as forças de Melkor eram capazes de ir e
vir como queriam através de rotas no norte. E Melkor recrutara muitos
Homens do leste.

Na Segunda Era Sauron começou a agir por si
mesmo. Ele eventualmente reuniu todas as criaturas malignas novamente
mas quase todos os servos Maiar de Melkor haviam perecido ou se
ocultado. E se existiam dragões a seu serviço eles parecem não ter
conseguido muito em Eriador [a menos que quando Sauron queimou as
grandes florestas de Minhiriath e Enedwaith na Guerra dos Elfos e
Sauron ele o tenha feito com a ajuda dos dragões]. Ao final da Era
Sauron tinha escravizado os Nazgul. Uma vez que um vasto exército de
Elfos, Anões e Homens foi capaz de derrotá-lo, Sauron não era tão
poderoso [militarmente] quanto Melkor havia sido ao final da Primeira
Era. Parte da força militar sem dúvida vinha do número de magos ao
serviço de Melkor, e de suas qualidades. Mesmo em seus estado decaídos
os Maiar corrompidos eram bastante poderosos.

Na Terceira Era
Sauron tomou forma muito lentamente, e concentrou seus esforço ao redor
de Dol Guldur por um longo tempo. Ele enviou o Senhor dos Nazgul ao
norte para fundar o Reino-Bruxo de Angmar e de Angmar Sauron atingiu os
Dunedain do Norte [e em uma extensão menor aos Eldar também]. Parte da
estratégia de Angmar parecia ser corromper o Povo das Colinas de
Rhudaur, alguns dos quais se tornaram feiticeiros. Mas, embora temidos
pelos Homens, estes feiticeiros não parecem ter deixado marcas na
história. Eles foram virtualmente eliminados durante ou após a guerra
de 1409.

Embora Tolkien não fale das magias realizadas pelo
Povo das Colinas ele revela alguma coisa sobre os tipos de magia
utilizadas pelo Senhor dos Nazgul e pelos Espectros Tumulares, que
foram enviados pelo Rei Bruxo para habitar os túmulos de Tyrn Gorthad
após a Grande Praga ter destruído a maior parte do povo de Cardolan. Os
Nazgul e os Espectros parecem ter sido adeptos de matar seres vivos, e
os Nazgul especialmente [com suas lâminas Morgul] escravizavam os
espíritos daqueles que matavam. O Espectro Tumular que capturou Frodo e
os Hobbits estava pronto a sacrificá-los, presumivelmente para enviar
seus espíritos a Sauron ou ao Senhor dos Nazgul.

No Morgoth’s
Ring, o ensaio sobre “Morte e separação do fea e hrondo [>hroa]”,
Tolkien fala de como os espíritos dos Elfos assassinados podiam
prolongar-se na Terra-média:

“Mas pareceria que nestes dias
posteriores mais e mais elfos, sejam eles dos eldalië em origem, sejam
de outras raças, que demoram-se agora na Terra-média recusando a
convocação de Mandos, e vagam desabrigados no mundo, negando-se a
deixá-lo e incapazes de habitá-lo, assombrando árvores, fontes ou
lugares ocultos que conheciam. Nem todos destes são amigáveis ou
intocados pela Sombra. De fato, a recusa à convocação é em si um sinal
de mácula.”

“É, portanto, algo imprudente e arriscado,
além de ser um ato errado, proibido pelos Governantes de Arda, os vivos
tentarem se comunicar com os desencarnados, embora os desabrigados
possam desejá-lo, especialmente os mais indignos entre eles. Pois os
desencarnados, vagando pelo mundo, são aqueles que no mínimo recusaram
a porta da vida e continuaram pesarosos e auto-piedosos. Alguns são
preenchidos com rancor, desgosto e inveja. Alguns eram escravizados
pelo Senhor do Escuro e ainda fazem o seu trabalho, apesar de ele ter
partido. Eles não dirão verdades ou sabedoria. Apelar-lhes é uma
tolice. Tentar dominá-los e fazê-los servos da própria vontade de
alguém é perversidade. Tais práticas são as de Morgoth; e os
necromantes são da hoste de Sauron, seu servo.”

Alguns
dizem que aqueles Desabrigados desejavam corpos, embora não desejassem
consegui-los através da lei pela submissão ao julgamento de Mandos. Os
mal intencionados dentre eles iriam tomar corpos, se pudessem, sem
seguir a lei. O perigo de se comunicar com eles era, portanto, não
apenas o perigo de ser iludido por fantasias ou mentiras: também
existia o perigo da destruição. Para um dos famintos Desabrigados, se
fosse admitido à amizade dos Viventes, poderiam procurar expulsar o fëa
do corpo; e na disputa pelo controle o corpo poderia ficar gravemente
ferido, mesmo que não tivesse sido arrancado de seus morador de
direito. Ou os Desabrigados poderiam implorar abrigo, e se admitido,
procurariam escravizar seu anfitrião e usar tanto sua vontade como seu
corpo para seus próprios objetivos. É dito que Sauron fez tais coisas,
e ensinou ao seus seguidores como alcança-las.

Alguém pode se
espantar com o que a última frase significa. Sauron foi conhecido com o
Necromante durante os longos anos em que residiu em Dol Guldur. Ele
operou sem corpo para escravizar outros enquanto recuperava sua força?
Ele algumas vezes abandonava o próprio corpo para trabalhar com
feiticeiros que pensavam que podiam escravizá-lo? O que veio a ser dos
escravos que Sauron obteve desta forma, e quem seriam seus seguidores
que podiam praticar tais enganações? Estariam os Nazgul tomando posse
de tais possíveis feiticeiros? Tais ligações arriscadas com Sauron
poderiam explicar tanto porque ele era capaz de manipular tantos
líderes dos Homens como porque eles se sentiam atraídos por ele em
primeiro lugar. Os xamãs e reis e líderes não saberiam, até ser tarde
demais, que seus predecessores que se tornaram poderosos não eram nada
mais do que avatares de Sauron. Isto não quer dizer que todos os servos
de Sauron seriam diretamente manipulados. Mas os mais poderosos dentre
seus servos e aliados de fato poderiam ser feiticeiros-marionete.

Talvez isto explique o costume bárbaro onde os reis queimavam-se em uma
pira. Denethor II escolher morrer desta maneira e Gandalf o repreendeu
por isso, dizendo que apenas os reis bárbaros eram tratados dessa
forma. Se Sauron não tivesse mais uso para um de seus escravos poderia
ser conveniente destruir todas as evidências de sua possessão do que
deixar que seus seguidores aprendessem a verdade, ou alguma porção
dela. Por outro lado, pode-se argumentar, se Sauron e os Nazgul podiam
controlar pessoas, porque o Senhor dos Nazgul não usou o corpo de
Earnur para ter controle sobre toda Gondor? Pode ser que, se ele
fizesse a tentativa, o Senhor dos Nazgul não tivesse o poder
necessário. Earnur não iria coloborar de livre vontade com um Nazgul ou
mesmo com o próprio Sauron. Sua vontade seria rompida mas ele
provavelmente morreria, consumido pelo esforço.

O medo que
alguns dos Rohirrim demonstram, perguntando-se se Aragorn e seus
companheiros poderiam ser espectros Élficos quando ele toma as Sendas
dos Mortos, também pode dar fundamento à suspeita de que talvez ele
tenham sido possuídos por espíritos Élficos. A especulação implica que
os Rohirrim teriam experiência com homens possuídos por espíritos
Élficos, ou talvez tenham ouvido contos o bastante sobre tais homens
para acreditar que seriam verdade. E finalmente sabemos que Tolkien não
estava apenas revendo o tema quando escreveu o ensaio sobre morte e
conitnuidade do espírito e corpo. Ele estava preenchenco algumas
lacunas na estrutura já estabelecido pelO Senhor dos Anéis.

E
dessa forma nós podemos seguramente deduzir que, no mundo de Aragorn e
seus companheiros, existiam ou existiram homens que tolamente tentaram
tornar-se poderosos através de meios não-naturais. Talvez inspirados
por ou invejosos dos Istari e Elfos, que possuiam tais habilidades
naturalmente, homens foram conduzidos em direção das trevas. E o
aparente aumento no força e sofisticação dos inimigos de Arnor e Gondor
também podem mostrar aqueles homens sucumbindo à tentação de forjar
alianças com espíritos malignos, embora pudessem não ter idéia do que
estavam fazendo.

O que nos traz de volta ao assunto de como os
homens podem ter começado tal experimentação. Mesmo Sauron precisou de
um primeiro voluntário para sucedê-lo. Será que ele descobriu que os
homens já estavam brincando com esta idéia quando tomou forma
novamente? Terá ele plantado as sementes de tais práticas durante a
Segunda Era? Se sim, a antiga sabedoria recuado para o leste distante
mas não poderia estar completamente perdida. Talvez os nazgul tivessem
mantido o conhecimento vivo em antecipação ao eventual retorno de
Sauron. E homens buscando poder poderiam procurar por objetos de poder.
Ouro seria valioso, mas ouro trabalhado pelos Elfos e Anões seria mais
mágico do que qualquer coisa que os Homens pudessem conquistar por si
mesmos.

Portanto, pessoas desejando tornar-se feiticeiro
poderiam barganhar com Elfos e Anões se possuíssem riquezas e recursos
que os Elfos e Anões desejassem. De outra forma, Homens poderiam pilhar
Elfos e Anões na esperança de obter tesouros. A animosidade e
estranhamento que se criou entre Homens e as outras raças durante a
Terceira Era podem ter tido muitas causas, mas Tolkien cita que os
Anões eram frequentemente saqueados pelos Homens, provavelmente mais do
que pelos dragões. E assim geração após geração de feiticeiros e
estudantes de necromancia poderiam lutar e obter artefatos preciosos e
gemas, valorizando-os não por sua beleza mas sim por seus encantamentos.

Não que todos os praticantes de magia tivessem que ser malignos. Os
Numenorianos de Cardolan, pelo menos, tinham modos de criar espadas
encantadas. As espadas do túmulos que Tom Bombadil deu aos Hobbits eram
“imbuídas com feitiços para a destruição de Mordor”. Faramir fala a
Frodo e Sam que mesmo em Gondor alguns de seu povo continuavam a fazer
elixires na desesperada busca por vida longa, e alguns homens
continuavam a se relacionar com os Elfos. Em uma carta para um leitor,
Tolkien fala que Beorn era um homem “ainda que um Troca-Peles e um pouco de mago”.
Tais homens não haviam procurado comunicar-se com espíritos Élficos, os
Desencorporados, ou com Sauron e os Nazgul. Eles teriam procurado uma
sabedoria mais pura.

E uma vez que o poder de Melkor estava
disseminado através do mundo físico existia muito material com o qual
trabalhar. Não é necessário encantar material que já está encantado.
Ouro era um material ruim para armas mas podia ser inserido nas lâminas
de espadas de ferro [como nas lâminas tumulares]. As lâminas tumulares
eram também decoradas com gemas, e feitas de um estranho metal que os
Hobbits não reconheceram. E Denethor reconheceu imediatamente que a
espada de Pippin havia sido feita pelos Dunedain do norte. Ele
reconheceu a arma pelo seu desenho, seus materias ou por alguma outra
coisa?

Os Numenorianos também contruiram a grande torre de
Orthanc, cuja pedra era tão lisa e forte que não podia ser quebrada
pelos Ents. Exista magia envolvida ali? Estaria a pedra negra com a
qual os Numenorianos trabalharam cheia com uma quantidade
extraordinariamente grande da essência de Melkor ou seria simplesmente
suficiente que eles pudessem murmurar ou cantar seus pensamento nela e
a torre se tornaria quase impenetrável? E do que a pedra negra de Erech
era feita? Por que era tão importante para os Homens Mortos de
Dunharrow? Isildur a colocou ali, e seu rei havia feito um juramente
sobre ela. Seria, talvez, a pedra um repositório de elemento-Morgoth
maior do que, digamos, outras pedras de forma e tamanhos similares?

Mas então Isildur teria sido capaz de fazer uso do elemento-Morgoth
para amaldiçoar os Homens de Dunharrow por quebrarem seu juramento?
Como um Homem ele era desprovido do poder necessário para confinar os
espíritos de uma tribo inteira na Terra-média por milhares de anos.
Mesmo o mais poderoso dos feiticeiros entre os Homens parece não ter
atingido nada comparável. Então a maldição de Isildur deve ter sido
ampliada por algo maior, algo mais puro. Mesmo os Valar não tinham a
autoridade de manter os Homens nos Salões de Eä para sempre. Seria um
ato de desafio e rebelião para com Námo manter um espírito Humano tanto
tempo, ao final das contas. Então a vontade e a autoridade que reforçou
a maldição de Isildur deve ter vindo de um poder maior, e este poderia
ser apenas o próprio Ilúvatar.

Como um Rei de Gondor, Isildur era, de fato, um sacerdote de Ilúvatar por parte de seu povo. “Parece que,” Tolkien aponta na Carta 156, “que existia uma “área santificada” no Mindolluin, aproximável apenas pelo Rei…”


“…onde ele antigamente oferecia graças e louvores por parte de seu
povo; mas isto foi esquecido. Foi relembrado por Aragorn, e lá ele
encontrou um broto da Árvore Branca, e a replantou no Pátio da Fonte. É
presumível que com o ressurgimento da linha dos reis sacerdotes [da
qual Lúthien, a Abençoada Dama Élfica, era uma antepassada] o culto a
Deus poderia ser renovado, e Seu Nome [ou título] seria novamente
ouvido com mais frequência. Mas não existiriam templos do Deus
Verdadeiro enquando a influência Numenoriana persistisse.”

Os Reis de Gondor [e, presumivelmente, os Reis de Arnor] estariam
apenas continuando ou revivendo o antigo culto que seus povos
praticavam em Numenor.

“Os Numenorianos então começaram um grande novo bem, como monoteístas;
mas como os Judeus com um único centro físico de “adoração”: o pico da
montanha Meneltarma “Pilar do Céu” – literalmente, pois eles não
concebiam o céu como a residência divina – no centro de Númenor; mas
não possuía construções nem templos, e todas essas coisas tinham uma
associação com o mal….”

Ilúvatar não encheu Arda com sua
essência pessoal como Melkor fez, mas não havia necessidade. Ilúvatar
criou Eä com a Chama Imperecível, e colocou a Chama em seu interior. Os
Salões de Eä eram incontestavelmente identificados com a vontade de
Ilúvatar, e as maquinações mesquinhas de Melkor podiam apenas inserir
uma identificação com Arda. Portanto Ilúvatar é livre para agir em sua
criação assim que desejar. E Gandalf aponta para Frodo que existiam
alguns propósitos-guia funcionando em Arda, quando ele diz “Existe
mais do que um poder funcionando, Frodo. O Anel está tentando voltar
para seu mestre… por trás disso algo mais trabalha, além de qualquer
propósito do Criador do Anel. Não posso colocar isso de forma mais
simples do que dizendo que Bilbo estava marcado para encontrar o Anel,
e não o criador do mesmo…”

E podemos estar certos que Gandalf falava de Ilúvatar pois Tolkien o diz na Carta 156 “Então
Deus e os deus “angelicais”, os Senhores ou Poderes do Oeste, apenas
olhavam através de certos locais como a conversação de Gandalf com
Frodo”
. Tendo os Valar alguma parte na decisão de se Bilbo
encontraria o Anel ou não, Tolkien está claramente incluindo Ilúvatar
na decisão.

A inserção de um elemento divino na “mágica” da
Terra-média então levanta uma questão sobre aplicabilidade. Estaria a
palavra “mágica” sendo muito usada? Nesse ponto Tolkien demonstra
arrependimento em ter usado a palavra, que descreve tanto os trabalhos
sub-criacionais dos Elfos quanto “as fraudes do Inimigo”. Ainda quele
ele defina dois aspectos da mágica, magia [efeitos físico] e goétia
[efeitos na mente e espírito], ele insistiu que tanto um quanto outro
tipo poderiam ser bom ou mau dependendo do motivo do usuário, e que
tanto os personagens bons [Valar, Elfos] quando os Maus [Melkor,
Sauron] utilizaram ambos os tipos de mágica. E mais: todos as “mágicas”
ou poderes vieram em última instância da vontade ou pensamento de
Ilúvatar, que criou os seres que praticavam mágica. Então, se os
poderes de Melkor, ou Ulmo, são o produto do pensamento de Ilúvatar,
ele difere em natureza das intervenções diretas de Ilúvatar?

Em um aspecto, o poder de Melkor é dele próprio: dado a ele
irrevogavelmente por Ilúvatar. Apenas Ilúvatar ou Melkor poderiam
alterar sua força natural. Outros seres, como Manwe e Namo, poderiam
ser capazes de capturas e executar Melkor, e portanto enfraquecê-lo
como resultado dele ser forçadamente desalojado de sua encarnação
física. Mas tal desalojação seria resultado das leis físicas da
Criação. Isto é, Ilúvatar fez as regras que mesmo Melkor tinha que
obedecer. Ele não poderia simplesmente recusar ser morto. Sua
encarnação física era sujeita às consequências da fisicalidade.
Portanto existia uma chance real, embora mínima, de Fingolfin matar
Melkor. E por isso também que Gil-galad e Elendil [ou Isildur, como
alguns acreditam] foram capazes de matar Sauron. Sauron morreu em
Númenor mas a destruição de Númenor foi causada por Ilúvatar. A morte
de Sauron na encosta do Orodruin foi atingida por um ser ou seres com
poderes e estatura muito inferiores a Manwe.

O aspecto divino
da “mágica” é, portanto, identificável com as leis da natureza. Isto é,
a vontade de Ilúvatar não pode ser distinguida de um aspecto de si
mesmo ou de sua criação. Se a Criação deve comportar-se de uma certa
forma, e a própria Criação é atingida pelo poder de Ilúvatar, então
todas as coisas da Criação estão, por extensão, exibindo o poder de
Ilúvatar, embora porções desse poder tenham sido dados irrevogavelmente
a elas.

Pode existir, portanto, um aspecto de Arda [e todos os
Salões de Eä, a Criação] que é muito parecido com o elemento-Morgoth,
embora mais puro e mais consistente: um elemento-Ilúvatar. Não
utilizável com finalidade de conduzir “mágica”, talvez, mas
irrevogavelmente estampado com sua vontade. Coisas existem porque
Ilúvatar disse que ela poderiam existir, e elas funcionam de acordo com
as Leis da Criação que ele definiu. Então, todo o poder dos Ainur e
Elfos e Anões, seja por eles retido ou inserido em outros itens, devem
existir e funcionar de acordo com as leis naturais de Ilúvatar. E o
próprio Ilúvatar portanto não precisaria transgredir suas próprias leis
para executar sua vontade sobre o mundo. O mundo irá executar sua
vontade para ele porque as leis da natureza fderivam de sua própria
vontade.

Isto é, não existe distinção real entre a “mágica” de
Ilúvatar e a “mágica” de Melkor, exceto em escala e pureza de
propósito. O poder de Melkor é incomparavelmente menor do que o de
Ilúvatar, mas a perversão de Melkor também corrompeu seu poder então
ele é impuro. Todo o poder é retirado da mesma forma e corre a partir
da mesma fonte. Mas Ilúvatar concedeu irrevogavelmente poderes, em
alguma proporção, às criaturas de seu pensamento. Os esforços de Melkor
para identificar-se com Arda através da disseminação de sua força
através do mundo foi, de fato, um ato de desafio. E amplamente
infrutífero. Ilúvatar não irá cancelar seus presentes a Melkor, mas
também não é barrado pela vontade de Melkor.

Por outro lado,
tendo feito os Salões de Eä e os populado com os Ainur e outras
criaturas de estatura similar porém inferior, Ilúvatar nãoprecisa
infundir continuamente seu poder em Eä. Então existe um aspecto finito
na mágica. Apenas uma certa quantia desse poder veio para o universo e
apenas uma certa quantia foi adicionada através do nascimento de seres
que possuem a habilidade de encantar coisas. A separação de Aman da
Terra-média de uma certa forma limita ou mesmo reduz a mágica que pode
ser “utilizada” pelos Homens e outros seres. O que Melkor deixou para
trás trata disso disso. Novos Elfos e Anões podem ter nascido, mas seus
poderes são incomparavelmente pequenos perto do poder de Melkor. Assim
que os Elfos partem ou morrer, assim que os Anões morrem, e seus
artefatos desaparecem ou são destruídos, a reserva de mágica disponível
e passível de utilização diminui.

Isto é, com o passar dos
milênios tornar-se-ia mais e mais difícil para os Homens praticarem a
“verdadeira” mágica porque as fontes de mágica dais quais necessitavam
se tornariam cada vez menos. Uma das mais fortes críticas levantadas
contra Tolkien por escritores atuais de fantasia é que parece não haver
limite para a mágica em seu mundo, e nada poderia estar mai longe da
verdade. “Mágica” é extremamente difícil de definir, mas as expressões
de poder, a criação de “artefatos mágicos”, diminuíriam em tamanho e
número com o passar das Eras porque o poder estaria deixando a
Terra-média.

Portanto as Silmarilli de Fëanor e os Anéis de
Poder definem um limite superior da expressão de poder na Terra-média.
Sem dúvida outros grandes trabalhos foram realizados: as cidades de
Gondolin, Mengroth e Khazad-dum eram, de muitas maneiras, “mágicas”.
Mas elas eram os produtos de populações inteiras, o resultados de eras
de trabalho. E mesmo assim nada como elas poderá ser contruído
novamente. Mesmo na Quarta Era, quando Durin VII liderou seu povo
novamente para Khazad-dum, é improvável que eles pudessem reviver a
antiga glória de sua cidade. Apenas um eco do passado poderia ser
alcançado, em parte porque seu número havia se reduzido, mas também
porque eles haviam perdido muito da antiga sabedoria. Khazad-dum era a
última relíquia de eras onde cidades mágicas eram possíveis. Agora elas
são simplesmente lendas.

O medo de Galadriel de que seu povo
pudesse diminuir na Era dos Homens, condenado a se tornar um povo
rústico de cavernas e vales, é portanto assentado sobre um problema
bastante real. Uma vez que os Anéis de Poder deixaram de existir, os
Elfos [que haviam sido protegidos dos efeitos do Tempo] teriam que
deixar a Terra-média. Os Elfos perderam não apenas grande parte de seu
conjunto de talentos, mas também suas “reserva de poder”. Isto é,
restaram menos Elfos para construir novas cidades. Alguns dos Alto
Elfos permaneceram em Imladris e Lindon mas eles nunca mais poderiam
ser uma grande nação Eldarin. Não existiriam mais artefatos, nem
cidades a serem cionstruídas nas terras dos Homens. E os Elfos que
compreendiam que Arda continuava possuindo o elemento-Morgoth poderiam
relutar em utilizá-lo novamente na mesma escala da criação dos Anéis de
Poder. Eles aprenderam através de muitas lições amargas qual era o
preço de trabalhar com tal mágica.

Algo pode ser dito aqui
sobre o Mithril. Se ouro é altamente mágico, Mithril seria ainda mais?
Eu acho que sim. Desafortunadamente é extremamente difícil obtê-lo.
Ouro é bem mais abundante. Também o são as jóias. E muito do mithril
que foi trazido à luz está perdido. Tar-Telemmaite, décimo-quinto rei
de Númenor, coletou todo o mithril que pode encontrar. Sauron também
coletou todo o mithril que pode. Embora seja duvidoso que os
Numenorianos tivessem sido feiticeiros, Sauron pode realmente ter
encontrado usos mágicos para o seu mithril. E quando Barad-dur foi
destruída uma grande quantidade de mithril pode ter sido destruída com
ela. Lentamente o mithril desapareceu da Terra-média.

Pode ter
havido uma boa razão porque o Balrog de Moria escondeu-se em ou perto
de um veio de mithril. O mithril em seu estado natural pode ter
mascarado seu poder. E pode ser que se os dragões pudessem realmente
drenar poder do ouro e jóias que pudessem drená-lo do mithril também.
Mas se prata [prata normal] possuía menos elemento-Morgoth que o ouro,
o mithril possuíram mais do que a prata? Ou, sendo “prata verdadeira”,
o mithril estava praticamente livre do elemento-Morgoth? Nós
provavelmente nunca vamos saber.

[Tradução de Fábio ‘Deriel’ Bettega]

Legolas

Decidi fazer um desafio a mim mesmo e escrever algo a respeito de Legolas, que não tivesse sido dito antes. Parece haver muitas curiosidades acerca desse Elfo. As pessoas querem saber todo tipo de coisas a seu respeito, como a cor de seus cabelos, quem era sua mãe, quando ele nasceu, se ele estava presente na Batalha dos Cinco Exércitos.

Se alguém fosse produzir uma série de TV baseada na Companhia do Anel [a Companhia, não o livro], eles teriam de inventar sua própria história de Legolas. A inevitável exploração do background de cada personagem resultaria em episódios onde Gandalf primeiramente descobre que a Terra Média é perigosa mesmo para os Maiar [digamos, dentro de um ano após ele sair do barco]; onde Aragorn rastreia seu primeiro Orc; onde Gimli aprende a lidar com o fato de ser o filho de Glóin; onde Frodo se lembra do dia em que seus pais se afogaram; onde Pippin observa sua irmã Pearl levar Lalia the Fat para seu último raio de sol; onde Merry entra na Velha Floresta pela primeira vez; onde Sam brinca com Rosie Cotton e os irmãos dela, e quando se dá conta de que a ama, e onde Boromir tenta aceitar o fato de que nunca será Rei de Gondor.Quais seriam os conflitos passados de Legolas? Que tipo de experiência teria um Elfo das Florestas, imortal, para ajudar a definir o caráter de Legolas conforme ele se revelava à Companhia? Há na realidade apenas um momento de dúvida para Legolas na história que Tolkien nos contou, e foi quando ele reconheceu o Balrog. Isso não quer dizer que Legolas tivesse sempre certeza quanto ao que fazer. À maneira típica dos elfos, ele não dá um conselho claro a Aragorn sobre o que fazer quando eles e Gimli estão perseguindo os Orcs que haviam capturado Merry e Pippin. “Meu coração manda seguir em frente,” ele diz. “Mas devemos permanecer juntos. Eu seguirei seu conselho.”O momento de hesitação de Legolas ante o Balrog foi um evento definitivo. Ele entrou em pânico; reconheceu o Balrog pelo que ele realmente era e perdeu a coragem. “Ai! Ai!” gemeu Legolas. “Um Balrog! Um Balrog está vindo!” Ele deixou sua flecha cair no chão ao invés de atirar na coisa. Porém, o encontro pode tê-lo preparado melhor para confrontar o Nazgul alado sobre o Anduin. Legolas tinha pulado sobre o banco e armado uma flecha, procurando um alvo. “Elbereth Gilthoniel!” Ele gritou quando sentiu a aproximação do Nazgul alado. Ele estava assustado e movido pelo medo, mas agora tinha maior coragem.Tal crescimento no caráter de Legolas é bom, mas me lembra de uma premissa tola [engraçada] que foi atribuída ao Tenente Comandante Data na história de “Encounter at Farpoint”. Supostamente, ele estaria servindo à Frota Estelar por coisa de 27 anos; em todo esse tempo, ele não aprendeu virtualmente nada sobre os humanos e suas emoções. O que eles fizeram, designaram-no para servir apenas Vulcanos até que o Capitão Picard o recrutou para a Enterprise?Legolas refere-se a seus companheiros como crianças, e quando ele, Gimli, Aragorn, e Gandalf estão se aproximando de Meduseld, diz que as folhas haviam caído quinhentas vezes em Mirkwood desde que os Rohirrim vieram do norte. Ele também faz esse comentário soar como se ele próprio tivesse vivido por todos estes quinhentos anos. Em outro trecho, ele diz que já havia visto muitas nozes crescerem e morrerem como um carvalho muito velho. Em se tratando de elfos, Legolas provavelmente não é antigo, mas ele parece ter já uma certa idade. E ainda assim, Lórien é um lugar misterioso para ele; Legolas jamais estivera lá. Parece estranho que ele não saiba nada sobre uma terra dos Elfos da Floresta.

Assim, podemos sugerir que Legolas talvez tenha nascido depois que seu pai deixou as Emyn Duir [as Montanhas de Mirkwood] e liderou seu povo para o Norte para fixar-se ao longo do Rio da Floresta. Isso teria sido logo depois de que Sauron se reergueu e estabeleceu-se na colina de Amon Lanc, construindo a fortaleza de Dol Guldur. E ainda assim, uma das inconsistências peculiares da personagem de Legolas é que ele conhece a Balada de Nimrodel. A balada em si tinha de ter sido composta algum tempo depois de 1981, o ano em que Nimrodel e Amroth deixaram Lórien. Quem a escreveu? Como a história chegou a Mirkwood de modo que Legolas pudesse aprendê-la?

A explicação mais cabível parece ser que durante a ausência de Sauron de Dol Guldur [os anos da Paz Vigilante, TA 2063 – 2460], os Elfos de Mirkwood saíram de seu país e viajaram até Gondor. A população de Calenardhon estava em declínio durante estes anos, mas Gondor ainda podia proteger o Anduin de seus inimigos. Celeborn e Galadriel subiram ao trono em Lórien depois da partida de Amroth, e pode ser que não tenham decretado sua política de segredo logo de início. Então alguns Elfos do povo de Thranduil pode de fato ter viajado a Lórien durante esses anos e aprendido a Balada. Legolas diz simplesmente: “Há muito que ninguém de meu povo retornou à terra por que passamos há eras atrás, mas ouvimos que Lórien ainda não foi desertada.”

É algo curioso de se dizer. De quem ouviram que a terra não estava desertada? Provavelmente do povo de Elrond, e Legolas aparentemente aprendeu a tradução Westron da balada em Rivendell. Então, parece que ele era jovem o bastante para nunca ter estado em Lórien, e nem mesmo se aproxinado de lá enquanto seus habitantes ainda eram ativos no resto do mundo. Pode ser, assim sendo, que Legolas tenha nascido durante a Paz Vigilante, e talvez perto de seu fim. Assim, ele seria relativamente velho, mesmo comparado com os vividos Gimli e Aragorn.

E novamente Tolkien coloca uma aparente inconsistência diante de nós. Quando Aragorn e Legolas discutem o aviso de Celeborn sobre a Floresta de Fangorn, Legolas declara não saber de nada, a não ser que antigas canções falam sobre os Onodrim, os Entes. Ele não viajou tão longe quanto Aragorn. Porém, mais tarde, quando adentram Fangorn em busca dos hobbits desaparecidos, Legolas diz: “Ela é velha, muito velha. Tanto que quase me sinto jovem novamente, como não me sentia desde que viajei com vocês, crianças.”

É um comentário bastante estranho para um Elfo que não tenha viajado muito. Mirkwood é uma floresta antiga por si só – mas Mirkwood, ao contrário de Fangorn, tornou-se o lar de criaturas que cortam árvores, abrem caminhos e outras coisas que retiram os anos de uma floresta. Elfos, Homens, Orcs, e mesmo as aranhas gigantes fazem de Mirkwood uma floresta muito diferente. Talvez Legolas estivesse experimentando o sentimento de maravilha que qualquer criança sentiria na primeira vez que visita o mundo lá fora.

Legolas pode ter ido a Rivendell mais de uma vez, pois ele parece se sentir familiarizado com o povo de Elrond. A jornada de Mirkwood a Rivendell não seria muito perigosa por muitos anos após a Batalha dos Cinco Exércitos [haja visto que a maioria dos Orcs das Montanhas Nebulosas foram mortos naquela batalha]. Algumas pessoas já questionaram se Legolas não seria um filho mais jovem de Thranduil; seu papel como mensageiro para Elrond, e mais tarde a permissão de Thranduil para que ele liderasse parte de seu povo para Gondor parece indicar que Legolas talvez não seja o herdeiro de seu pai. É claro que Thranduil pode ter apenas se curvado ao inevitável, a ponto de permitir que Elfos partissem para Gondor.

Se ele tivesse pouco mais de 500 anos na época da Guerra do Anel, Legolas teria vivido vários eventos significativos. Ele se lembraria da chegada de Smaug a Erebor, e da destruição dos reinos de Dale e Erebor. Ele se lembraria do Longo Inverno, e provavelmente teria sido um dos Lordes élficos defendendo Thranduil na Batalha dos Cinco Exércitos. Assim, ele teria conhecido alguns perigos e dificuldades, e seria perfeitamente capaz de cuidar de si mesmo. Ele parece enfrentar os Orcs muito bem em Parth Galen, e depois no Abismo de Helm, para mostrar que é um guerreiro formado; ele também ameaça a vida de Éomer em defesa de Gimli com a segurança de um veterano.

Como Tolkien não menciona Legolas nos escassos relatos da Guerra da Última Aliança, muitos parecem aceitar que ele tenha nascido na Terceira Era, mas pode soar radical para alguns afirmar que ele tenha provavelmente nascido no fim da Terceira Era, ou talvez até durante a Paz Vigilante. Porém, há um precedente para um Elfo “relativamente jovem” chegar à proeminência – quando os Noldor partiram em exílio, Turgon e sua esposa Elenwë provavelmenta não tinham filhos. Sua filha Idril ainda era uma criança quando Elenwë perdeu-se durante a travessia do Helcaraxë; portanto, Idril cresceu na Terra-média.

Orodreth também aparentemente nasceu e foi criado na Terra-média, filho de Angrod e uma Elfa Sindarin [de acordo com a última informação publicada em The Peoples of Middle-earth]. Os filhos de Orodreth eram Finduilas e Gil-galad que seriam ainda mais jovens durante a queda de Nargothrond do que Legolas parece ter sido durante a Guerra do Anel. Voronwë, amigo de Tuor, era filho de Aranwë dos Noldor e uma Elfa Sindarin aparentada de Círdan. E Maeglin, o filho de Eöl e Aredhel, contava apenas duas centenas de anos quando morreu na queda de Gondolin

Thranduil pode ter tido três ou quatro filhos, e Legolas pode muito bem ter sido o caçula da prole. Assim, para ele os eventos da Primeira Era e mesmo a história de Nimrodel e Amroth pareceriam distantes no tempo. Ele seria um estranho em Lórien, e devido aos perigos habitando a Terra-média ele pode não ter começado a se afastar do reino de seu pai antes da Batalha dos Cinco Exércitos. É possível que a Batalha dos Cinco Exércitos tenha sido o primeiro evento de impacto na carreira de Legolas.

Certamente quando o Rei Élfico dO Hobbit parte com seu exército ele não espera por uma batalha. Smaug estava morto e havia muito pouca gente para disputar o tesouro do dragão. Exceto pelo fato de que ele era um Rei em busca de um enorme tesouro de ouro e jóias, ele sequer sentiria a necessidade de um exército. Assim, faria sentido se levasse seu filho caçula com ele.

E depois de tudo isso, ainda temos dúvidas quanto a Legolas. Não podemos afirmar, infelizmente, certeza de nada a respeito de seu passado. Ele provavelmente conhecia Aragorn e Gandalf antes do Conselho de Elrond, mas não há sinal de reconhecimento. Ele provavelmente esteve em Dale e Erebor, mas ele e Gimli não parecem ter se conhecido antes do Conselho de Elrond. É claro, eles viajaram juntos por algumas semanas antes de começarem a se tornar amigos. Legolas parece ter feito os primeiros pasos de amizade quando tentou suavizar suas palavras sobre a história do Balrog na fronteira de Lórien.

É claro que Legolas também perdeu a paciência quando Gimli se recusou a entrar sozinho vendado em Lórien. Aquela foi a única vez em que Legolas jamais foi duro com alguém. Ele estava falando como um orgulhoso Príncipe Élfico ou como um jovem Lord Elfo que ainda não queimara todo o fogo de sua juventude? Legolas ainda tinha curiosidade sobre o mundo, seguindo Aragorn por todo o caminho até Gondor, buscando os caminhos secretos de Fangorn e se deixando envolver pela beleza de Aglarond.

Talvez muitos Elfos tivessem apreciado as vistas que Legolas encontrou  em sua jornada, mas há algo de jovem e revigorante na maneira com que ele olha para trás, aos espíritos seguindo a companhia de Aragorn: “…Legolas, voltando-se para falar a Gimli olhou para trás e o Anão viu diante de si o brilho nos olhos do Elfo….”

Há algo de brincalhão no modo com que Legolas se empenha em um jogo mortal com Gimli no Abismo de Helm. Alguém consegue imaginar Elrond fazendo apostas sobre Orcs no meio de uma séria batalha que decidiria o destino de Rohan? Ou Feanor nessa situação? Embora cheio de fúria como estava, no fim de sua vida ele ainda era o pai severo e controlador; qualquer jovialidade que tenha apresentado em sua juventude há muito tinha se acabado. Assim também foi quanto à jovialidade de Fingolfin, há muito afastada de si quando ele cavalgou para desafiar Morgoth para um duelo. E o Maedhros que repreendeu seus irmãos irados com risosquanto à cessão de Thingol de terras vazias aos Noldor, tornou-se um Lord austero e determinado que, ao término da Terceira Era, estava consumido pelo cansaço e pelo legado da culpa.

Legolas parece muito mais impetuoso quando ele e Gimli estão cavalgando através da massa de Huorns e Entes que salvaram Rohirrim no Abismo de Helm. Ele mal pode se conter enquanto cavalgam por entre as árvores e descobre olhos os observando; dá as costas para a estrada e começa a adentrar a estranha mata. Apenas o cuidado de Gandalf pode trazê-lo de volta de sua curiosa euforia Élfica. É difícil imaginar Celeborn ou Galadriel sendo tão tomados pela curiosidade a ponto de abandonarem sua missão para descobrir mais sobre os olhos na mata.

A personagem Legolas não é tão atraente quanto confusa. Creio que muitas pessoas se questionam a seu respeito porque ele parece um tremendo paradoxo, tão velho quanto jovem, sábio e inexplicavelmente ignorante quanto ao mundo que o cerca. Legolas é um súbito toque de juvetude Élfica no fim dos Dias Antigos. Pode ser que tenha havido poucos Elfos jovens na época, e essa pode ter sido a última grande aventura de um Elfo jovem na Terra-média. Quando Celeborn finalmente cruzou o Mar, Tolkien observa,a última memória viva dos Dias Antigos foi com ele. Mas quando Legolas construiu seu navio e partiu, pode ser que a última fagulha de juventude Élfica tenha desaparecido da Terra-média também.

Amor nas árvores – Um Ensaio sobre Tom Bombadil e Ents

Tom Bombadil e os Ents se enterraram em pequenos nichos, e parece impossível desenterrá-los para uma nova discussão. Devemos tentar mudar isso. A questão mais comum acerca de Bombadil é “Por quê o Anel não o afeta?”. Na verdade, essa questão deveria ser: “Por quê Bombadil não queria o Anel?”. Há uma diferença. Acredito que o Anel afetou o velho Tom, pelo menos a ponto de ter atiçado sua curiosidade e o interessado por tempo suficiente para o satisfazer a si mesmo, considerando se ele ainda era seu próprio mestre.

Quanto aos Ents, praticamente o que todos sempre perguntam é: “Os Ents encontraram as Estesposas?”. E deve ser notado que Tolkien providenciou respostas para ambas as questões. Seus leitores estavam tão intrigados com Bombadil e os Ents que eles indagaram essas questões mais de uma vez. E, no entanto, agora eu percebo que todos perdemos algo importante relacionado ao Tom Bombadil e aos Ents. Eu acho que, talvez, até mesmo Tolkien perdeu.

Ao discutir a importância simbólica de Bombadil, Tolkien escreveu para Naomi Mitcheson na Letter 144:

“Bombadil não é uma pessoa importante – para a narrativa. Eu suponho que ele tenha alguma importância como um “comentário”. Quero dizer, eu não escrevi exatamente daquele jeito: ele é apenas uma invenção (que apareceu primeiramente na Oxford Magazine em 1933), e ele representa algo que sinto ser importante, apesar de que eu não estaria preparado para analisar tal sentimento precisamente. Eu, no entanto, não o manteria, se ele não tivesse algum tipo de função. Posso colocar desta forma. A estória é lançada em termos de um lado bom e mau, beleza contra a feiúra implacável, tirania contra reinado, liberdade moderada com consentimento contra a compulsão que há muito perdera qualquer objetivo a não ser mero poder, e por aí vai; mas ambos os lados em algum grau, conservativo ou destrutivo, querem uma medida de controle. Mas se você tem o controle renunciado, como se fosse tomado um “voto de miséria”, e você se deleita em coisas para o povo sem referência para si próprio, e até certo ponto tendo consciência disso, então a questão dos certos e errados do poder e controle podem se tornar completamente insignificantes para você, e os meios do poder um tanto sem valor. É uma visão pacifista natural, que sempre surge em mente quando há uma guerra. Mas a visão de Valfenda parece ser que há algo excelente a ser representado, mas há, de fato, coisas impossíveis de se arcar; e sobre quais sua existência, no entanto, depende. No fundo, somente a vitória do Oeste permitirá que Bombadil continue, ou mesmo sobreviva. Nada seria deixado para ele no mundo de Sauron.”

“Ele não tem nenhuma conexão na minha mente com as Entesposas. O que acontecera a elas não está resolvido neste livro. Ele é, de certa forma, uma resposta a elas, no sentido que ele é quase o oposto, sendo como Botânica e Zoologia (como ciências) e Poesia, que são opostas à Pecuária e Agricultura e Praticidade”.

Mitcheson leu as páginas-prova para o Senhor dos Anéis antes do livro ser publicado. Ela foi literalmente a primeira dos fãs de Tolkien a perguntar a ele questões sobre a estória e seus personagens. Suas questões (e as respostas de Tolkien) se estenderam através de um amplo espectro de temas. Mas a parte desta carta, que é freqüentemente citada por leitores modernos é a que eu providenciei acima. O breve comentário de Tolkien sobre a importância simbólica de Bombadil gera raivosos infernos relacionados à importância global de Bombadil para o livro.

E, no entanto, ninguém parece perguntar a única questão que seria a mais fácil de responder: Bombadil era feliz no casamento com Fruta D’Ouro? Agora tenho certeza que a maioria das pessoas diriam de imediato “ABSOLUTAMENTE!”. Qual homem não gostaria de ter uma esposa como Fruta D’Ouro? E qual mulher não gostaria de ter um marido como Bombadil? Bem, ok, talvez ele tenha ficado com a melhor parte do trato. E, no entanto, o casamento de Bombadil com Fruta D’Ouro toca em muitas questões que atiçaram o interesse dos leitores ao longo dos anos.

Por exemplo, uma crítica freqüentemente levantada na estória é a de que é um conto de garotos, cheio de caras indo para aventuras, lutando contra monstros terríveis e deixando as garotas em casa. E, no entanto, a aventura de Bombadil se comporta, em parte, dessa forma. Enquanto é verdadeiro que Fruta D’Ouro não encara o Velho Salgueiro-Homem ou a Criatura Tumular, ela, de fato, exerce sua vontade sobre algo mais aterrorizante e poderoso: Bombadil. E antes que você ridicularize isso, pense quem você preferiria enfrentar num duelo: Bombadil, que cospe Criaturas Tumulares antes do café da manhã ou a repugnante Criatura Tumular que não pode prevenir Frodo de chamar Bombadil? Eu escolheria a Criatura de qualquer jeito. Pelo menos eu teria chance de chamar por ajuda.

A única criatura que controla Bombadil, além dele próprio, é Fruta D’Ouro. Ele pertence a ela completamente. Quando Elrond sugere que talvez ele devesse ter chamado Bombadil para seu conselho em Valfenda, Gandalf se opõe, apontando que “Ele não teria vindo.” Ele continua, explicando seu ponto de vista sobre Bombadil: “É melhor dizer que o Anel não tem poder sobre ele. Ele é seu próprio senhor. Mas não pode alterar o próprio Anel, nem desfazer o poder deste sobre os outros. E agora se retirou para uma região pequena, dentro de limites que ele mesmo fixou, embora ninguém consiga enxerga-los, talvez esperando uma mudança dos dias, e não sai dali.”

Por que Bombadil se retirou para sua “pequena terra” e quando? As pessoas perguntam essas questões muitas vezes. É claro que a maioria dos leitores parece sentir que Bombadil nunca tivera liberdade para se mover além de sua terra, que ele deve sempre ter vivido na, ou próximo da, Floresta Velha, desde que o Tempo começara (que deve ser bastante longo – Bombadil “apenas” assumiu que se lembrava da primeira gota de chuva na Terra-Média). Bombadil contou a Frodo e seus companheiros que ele estava lá quando os Elfos passaram em sua jornada para o Oeste, e ele estava lá quando o Senhor do Escuro veio de Fora (presumivelmente quando Melkor escapou de Valinor e retornou à Terra-Média).

Mas Bombadil não falou que ele sentou na mesma colina por eras incontáveis. Ele somente fala que ele estava por perto quando coisas antigas aconteceram. Ele passa a dividir sua sabedoria considerável, por exemplo, sobre a história de Arnor e seus estados sucessivos, Arthedain, Cardolan e Rhudaur. Poderia Bombadil realmente ter aprendido tanto sobre os Dunedáin – até a ponto de se lembrar da beleza de uma princesa ou dama Dunadan – se ele não tivesse viajado e conhecido pessoas? E por que Gandalf falaria “agora se retirou para uma região pequena, dentro de limites que ele mesmo criou”, se Bombadil nunca tivesse vagado para mais além de seus “limites que ele mesmo fixou, embora ninguém consiga enxergá-los”?

A familiaridade de Elrond com Bombadil é revelada através de um breve catálogo de nomes que ele revela no conselho: “Mas tinha me esquecido de Bombadil, se é que esse é o mesmo que caminhava nas florestas e colinas há muito tempo, e mesmo naquela época ele era mais velho que os velhos. Nesse tempo tinha outro nome. Chamavam-no de Iarwain Ben-adar, o mais antigo e sem pai. Mas outros nomes foram dados por vários povos: Forn pelos anões, Orald pelos homens do Norte, e outros nomes além desses.” Bom, as histórias não sugerem que os Anões tenham passado algum tempo nas Colinas dos Túmulos ou na Floresta Velha, então por que eles se incomodariam em dar um nome a Bombadil, a não ser que ele tenha viajado entre eles em algum ponto?

Bombadil é muitas vezes descrito como um espírito livre. De fato, antes de escrever O Senhor dos Anéis, Tolkien se referiu a Bombadil como o “espírito do interior (desaparecendo) de Oxford e Berkshire”. Bombadil existia antes do Senhor dos Anéis, tendo sido introduzido em um mundo não desconfiado através de um poema publicado na Oxford Magazine. Ele se originou de um boneco de um dos filhos de Tolkien, e as aventuras de Bombadil eram somente uma coleção em uma série de coleções de aventuras que Tolkien fez para seus filhos. Então a existência pré-SdA é muito diferente da sua existência em das. Ele é muito menos sofisticado e um tanto variável, um pouco mais volátil. Ele é um clássico jovem aventureiro, andando por aí sem se preocupar com o mundo.

Mas a ênfase deve ser colocada no homem quando Tolkien incorpora Bombadil no mundo da Terra-Média. Em The Road to Middle-Earth, Tom Shippey dispensa Bombadil como um episódio sem importância na estória, mas em seguida concorda com o aspecto mais intrigante de Bombadil: Aquilo que gostaríamos de saber sobre Bombadil é o que ele é, mas isto nunca é perguntado ou respondido diretamente. No capítulo 7, Frodo toma coragem para perguntar quem ele é, apenas para receber as respostas de Fruta D’Ouro, (1) “Ele é”, (2) “Ele é, como já viram”, (3) “Ele é o Senhor da floresta, das águas e das colinas”, e de Bombadil, (4) “Ainda não sabe meu nome? Esta é a única resposta.”

Após recontar a origem poética de Bombadil e sua ressurreição nas páginas de aventuras dos Hobbits, Shippey conclui sua introdução sobre Bombadil dizendo: “O que ele é pode não ser conhecido, mas o que ele faz é dominar.” E, de fato, isto é precisamente o que Bombadil faz, apesar da afirmação de Tolkien que Tom previamente declarara a dominação de outros vontades.

Estará então Tolkien mentindo, ou Bombadil não está dominando vontades? Eu não acho que Tolkien procurasse intencionalmente enganar seus leitores. Por exemplo, note que Fruta D’Ouro não reivindica Bombadil como seu senhor. Ele é “o Senhor da floresta, das águas e das colinas”. Isto é, Bombadil controla coisas que não possuem vontades. Mas Fruta D’Ouro aponta que ele não governa até mesmo as coisas que ele controlou. “Isso seria um fardo pesado demais”, diz ela. “Ninguém jamais prendeu o velho Tom quando ele caminhava pela floresta, atravessava as águas, ou pulava nos topos das colinas, seja de noite, seja de dia”, ela conta a Frodo.

A esse respeito, Tom é muito viril. Ele é o maior lenhador, o verdadeiro esportista, se você quiser, pois ele sempre aceita o desafio, e sempre ganha, mas tendo vencido ele libera seu oponente. Ele é confiante em si mesmo e todos que o conhecem expressam uma tremenda fé nele e em sua habilidade de resolver qualquer situação. Muitos meses depois, no momento em que Laracna está prestes a lançar-se sobre Sam e Frodo, Sam pensa melancolicamente em Bombadil:

“É uma armadilha! – disse Sam, colocando a mão sobre o punho de sua espada; e no momento em que fez isso, pensou na escuridão do túmulo de onde ela vinha. ´Gostaria que o velho Tom estivesse por perto agora’, pensou ele”.

Como Bombadil teria enfrentado a Aranha? Nunca saberíamos, é claro, mas muitos provavelmente argumentariam que a Laracna viraria sopa de aranha para o próximo banquete de Fruta D’Ouro, se ela e Tom viessem a se encontrar. Ele não conhece o medo, e somente respeita os limites que ele próprio criou. E, no entanto, Bombadil reconhece suas limitações. “Tom não é o senhor dos Cavaleiros da Terra Negra, que fica distante de sua região”, ele admoesta os Hobbits, quando estes pedem seu auxílio contínuo em seu caminho. Talvez ele também não seja o mestre das aranhas gigantes. Laracna, afinal, tinha seu próprio objetivo – como os Nazgul uma vez tiveram, mesmo que agora eles estão sob a vontade de Sauron.

Bombadil assim alegoriza muitas das coisas que Tolkien achava que eram boas qualidades em um homem: ele é honesto, fiel, um bom amigo, amado e devoto marido, e ele sabe que não deve exceder suas próprias capacidades. Bombadil é tão certo de si mesmo, pois ele aprendeu tudo o que precisava saber sobre si mesmo. Mas apesar de ter aprendido um bocado sobre “bosques, águas e montanhas” – o suficiente para ser o mestre deles – ele ainda é curioso, e ainda faz perguntas sobre o que está acontecendo além de sua pequena terra.

Bombadil não se senta silenciosamente em seu castelo, fechado para o mundo. Ele é muito consciente do que está acontecendo ao seu redor. Ele continua a interagir com pelo menos alguns de seus vizinhos. No poema “Bombadil goes boating” (Bombadil vai remar), ele visita o fazendeiro Magote no Condado. E apesar de Tolkien ter decidido, enquanto escrevia O Senhor dos Anéis, que Bombadil não visitaria Bri, ele conhece Bri e sabe alguma coisa sobre Cevado Carrapicho, “um homem respeitável” da estalagem Pônei Saltitante. Mais tarde, após Bombadil ter cuidado dos pôneis de Merry por um tempo, chega a Bombadil a informação da quantia que Carrapicho teve que pagar a Merry por aqueles pôneis, após eles terem sido soltos do estábulo da estalagem. Como Bombadil sabia disso? Algo ou alguém deve ter contado a ele, e a fonte de informações mais provável deve ter sido um Elfo ou um Guardião.

Eu acho que Tom se dava bem com os Guardiões. Aragorn o conhecia, e Bombadil conhecia Aragorn (descrevendo Aragorn para os Hobbits, numa visão que ele comunicou a eles após liberta-los dos Túmulos). Desde que os Guardiões passaram a visitar Bri com maior freqüência, e vigiavam o Condado por muitos anos, eles devem ter tido muitas oportunidades de passar pela terra de Bombadil e trocar notícias com ele. Bombadil, afinal, também manteve contato com Gildor Inglorion, uma vez que Gildor pediu para que Bombadil ajudasse Frodo em seu caminho para fora do Condado.

Bombadil, portanto, tem amigos, e ele não é um verdadeiro recluso. Ele permanece interessante e até mesmo poderoso. E isso pode explicar porque Fruta D’Ouro casou-se com ele. No poema The Adventures of Tom Bombadil (As Aventuras de Tom Bombadil), Fruta D’Ouro puxa a barba de Tom, puxando-o para dentro da água e roubando seu chapéu de uma maneira infantil:

There his beard dangled long down into the water:
up came Goldberry, the River-woman’s daughter;
pulled Tom’s hanging hair. In he went a-wallowing
under the water-lilies, bubbling and a-swallowing.

‘Hey, Tom Bombadil! Whither are you going?’
said fair Goldberry. ‘Bubbles you are blowing,
frightening the finny fish and the brown water-rat,
startling the dabchicks, and drowning your feather-hat!’

‘You bring it back again, there’s a pretty maiden!’
said Tom Bombadil. ‘I do not care for wading.
Go down! Sleep again where the pools are shady
far below willow-roots, little water-lady!’

Back to her mother’s house in the deepest hollow
swam young Goldberry. But Tom, he would not follow;
on knotted willow-roots he sat in sunny weather,
drying his yellow boots and his draggled feather.

Up woke Willow-man, began upon his singing,
sang Tom fast asleep under branches swinging;
in a crack caught him tight: snick! it closed together,
trapped Tom Bombadil, coat and hat and feather.*

*Tradução adaptada para o poema:

“Ali sua barba balançava na água. Chega Fruta D’Ouro, Filha do Rio. Puxou o cabelo dependurado de Tom. Para dentro ele foi. Rolando debaixo dos nenúfares, borbulhando e engolindo água.

“Hey, Tom Bombadil! Onde você está indo?”- disse a bela Fruta D’Ouro. “Bolhas você está soprando. Assustando os peixinhos e o rato d´água castanho. Assustando os pintinhos, e afogando seu chapéu de penas!”

“Traga-o já de volta, linda donzela”- disse Tom Bombadil. “Eu não ligo para isso. Afunde! Durma novamente, onde os charcos são sombrios, muito abaixo das raízes de salgueiro, pequena dama da água!”

De volta a casa de sua mãe, no mais profundo e vazio pântano, nadou a jovem Fruta D’Ouro. Mas Tom, ele não a seguiria. Em raízes retorcidas de salgueiro ele se sentou, em tempo ensolarado, secando suas botas amarelas e sua pena”.

Este é um clássico ritual de cortejo. A mulher faz a escolha e testa o homem para ver se ela consegue domina-lo. Se ela conseguir, o ele falha no teste e ela deixa de se interessar por ele. Tom não participaria de jogos infantis e, apesar disso, ele continua com seus afazeres, dispensando Fruta D’Ouro como se ela não tivesse importância para ele. Então ele passa no teste, e mais adiante, no fim do poema, quando Tom chega para toma-la, Fruta D’Ouro está preparada para ser sua esposa.

No entanto, o afastamento de Tom não é presunçoso. Ele é autoconfiante e sabe para onde está indo e o que está fazendo. Ele tem suas prioridades. Ele pode, se um amigo pede, deixar de lado suas preocupações por um tempo e encarregar-se de qualquer outra coisa. Ele faz isso ao pedido de Gildor, quando ele fica de olho em Frodo e seus companheiros. Mas Gandalf rapidamente nota que Bombadil seria uma má escolha para ser o guardião do Um Anel, se o Conselho de Elrond decidisse esconder novamente o Anel de Sauron. O medo de Gandalf é de que Bombadil não entendesse por que todos iriam querer que ele ficasse com o Anel, e de que Bombadil poderia, por fim, esquecer-se sobre isso.

Essas preocupações estão totalmente de acordo com o retrato que Tolkien faz de Bombadil, de um homem decidido e focado. Homens não podem, de fato, ser confiáveis para cuidar de negócios de outrem. Eles têm suas próprias preocupações. Há um jogo de futebol hoje. Terão que esperar para mudar o sofá até amanhã.

A pureza entre Tom e Fruta D’Ouro reside no fato de que ela é sua prioridade número um. Ela está a salvo em casa (como todos que ali visitam), e segura, enquanto Tom estiver por perto. E Tom não deixará que ela enfrente o mundo sozinho. Ele sabe que Sauron está perseguindo os Hobbits. Ele parece até mesmo saber o que o Um Anel é. Mas ele se recusa a deixar sua terra para ajuda-los mais. Seria uma grande aventura, com certeza, e Tom provavelmente aprenderia coisas novas. Mas “Tom tem sua casa para cuidar, e Fruta D’Ouro está esperando”, ele fala aos Hobbits.

De sua parte, Fruta D’Ouro é a Senhora sem falas. Tolkien é cuidadoso em não dá-la título ou status, mas há limites claros entre Tom e Fruta D’Ouro. Enquanto pode parecer que Fruta D’Ouro é rebaixada aos papéis tradicionais na casa (lavar e cozinhar), na realidade a ela é concedida a dignidade de realizar decisões cruciais. “Hoje é o dia de Fruta D’Ouro lavar tudo. O dia de fazer a limpeza do outono”, Bombadil conta aos Hobbits. Tom não designa a ela esses serviços. Ela decide quando irá fazer essas coisas.

À noite, Tom e Fruta D’Ouro se revezam para entreter suas visitas. Ela prepara a comida que eles servem juntos, e ela canta canções junto à lareira antes de recolher à cama. Apesar disso, é Tom quem ensina aos Hobbits muito sobre os perigos do mundo. O mundo além da porta de Tom, com suas árvores malvadas e criaturas tumulares, é um lugar verdadeiramente perigoso.

A imagem que Tolkien retrata, com Tom e Fruta D’Ouro graciosamente fornecendo comida e abrigo para o Povo Pequeno, é tão familiar ao leitor como uma família se reunindo para jantar. Papai Tom e Mamãe Fruta D’Ouro estão cuidando de suas crianças até que eles tenham idade suficiente para sair para o mundo por conta própria. De fato, quando está na hora dos Hobbits partirem e eles se dão conta de que esqueceram de se despedir de Fruta D’Ouro, eles retornam para encontra-la no topo de uma colina:

” – Fruta D’Ouro – gritou ele. – Minha linda senhora, toda vestida de verde-prata! Não lhe dissemos adeus, nem a vimos desde ontem à noite! – Estava tão perturbado que já ia voltando; mas naquele momento um chamado, uma voz cristalina, desceu ondulando colina abaixo. Ali, no topo, estava ela, acenando para eles: os cabelos esvoaçavam soltos, e, conforme captavam a luz do sol, brilhavam e reluziam. Uma luz como o brilho da água sobre a grama orvalhada vinha de seus pés, enquanto dançava.

Os Hobbits correram ladeira acima, e pararam sem fôlego ao lado dela. Fizeram reverências, mas, com um aceno de braço, ela pediu que olhassem em volta; ali, no topo da colina, puderam ver a paisagem sob a luz da manhã. Agora tudo estava claro e podia-se enxergar longe. Na vinda, quando tinham parado no outeiro da Floresta, quase não puderam enxergar nada, por causa da névoa que lhes velava a visão, mas agora o outeiro aparecia, erguendo-se claro e verde por entre as árvores escuras do oeste. Naquela direção, o terreno coberto de vegetação se levantava em cordilheiras verdes, amarelas, avermelhadas sob o sol. Atrás delas se escondia o vale do Brandevin. Ao sul, sobre a linha do Voltavime, havia um brilho distante, como de vidro claro, no ponto em que o rio Brandevin fazia uma grande curva no terreno mais baixo, para depois correr para regiões desconhecidas dos hobbits. Ao norte, além das colinas que iam sumindo, a terra fugia em espaços planos e protuberâncias cinzentas, verdes e cor de terra, até desaparecer na distância sombria e sem forma. Ao leste, as Colinas dos Túmulos se erguiam, topo atrás de topo dentro da manhã, sumindo da visão numa conjetura: não passava de uma conjetura azul, com pontos de um branco remoto, que se misturava ao céu no horizonte, mas que mesmo assim falava-lhes das montanhas altas e distantes, presentes na memória de antigas histórias.

Encheram os pulmões de ar, sentindo que um salto e alguns passos largos os levariam aonde quisessem. Parecia fraqueza de espírito irem andando em direção à estrada ao longo das bordas enrugadas das montanhas, quando na verdade deveriam ir aos pulos, com o mesmo vigor de Tom, sobre os degraus de pedra das colinas, diretamente até as Montanhas.

Fruta D’Ouro dirigiu-lhes a palavra, chamando sobre si seus olhares e pensamentos. – Apressem-se agora, belos convidados! – disse ela. – E continuem firmes em seus propósitos! Rumo ao norte com o vento no olho esquerdo, e sorte em seus passos! Apressem-se enquanto o sol brilha. – E para Frodo, ela disse: – Adeus, amigo-dos-elfos, foi um encontro feliz!

Mas Frodo não teve palavras para responder. Fez uma grande reverência, montou o pônei e, seguido pelos amigos, avançou lentamente, pela descida suave atrás da colina. Perderam de vista a casa de Tom Bombadil e o vale, e depois a Floresta. O ar ficou mais quente entre as paredes verdes formadas pelas encostas das colinas; o cheiro da turfa subia forte e doce. Voltando-se, ao atingirem o fundo do vale verde, viram Fruta D’Ouro, agora pequena e esguia como uma flor ensolarada contra o céu: ainda estava ali, olhando-os, com as mãos estendidas na direção deles. No momento em que olharam, saudou-os com a voz cristalina, e levantando a mão virou-se e sumiu atrás da colina.”

É Fruta D’Ouro que se despede dos Hobbits, e não eles. Ela os leva ao seu caminho com palavras de amizade e encorajamento, mas o rompimento é definitivo. Os Hobbits passaram por uma aventura adolescente que só pode levar para um inevitável rito de passagem, em que Tom (o Pai) observa sua transição final na idade adulta metafórica. Fruta D’Ouro (a Mãe) preparou, assim como Tom, os Hobbits para desafiar o mundo maior. E a alegoria, quer seja intencional ou coincidência, de uma vida familiar harmônica estabelece uma fundação de criação sólida. O leitor está moralmente assegurado de que os Hobbits foram criados sob os valores corretos: eles foram ensinados a ser curiosos, cuidadosos e firmes. A qualquer hora que eles se afastarem de seu caminho escolhido, eles lembrarão de Tom e Fruta D’Ouro de certo modo, tanto quanto uma criança entende o conselho do pai anos depois, após ter feito algo que o pai aconselhou a criança a não fazer.

Desta metáfora para o trabalho, Fruta D’Ouro deve ser tanto mulher como Tom é um homem. Isto é, ela deve ser bonita, tentadora, calorosa, apaixonada e provedora. Fruta D’Ouro é tudo isso e muito mais. Ela acolhe os Hobbits em sua casa, onde está cercada por nenúfares em tigelas. Seu vestido é verde, salpicado de prata, e ela usa um cinto dourado. As primeiras palavras de Frodo a ela são: “Bela senhora Fruta D’Ouro”.

Quando os Hobbits passam a conhecê-la, eles observam Fruta D’Ouro ir e vir. Algumas vezes ela está ali, algumas vezes ela está fora, e Tom somente explica que ela está fazendo suas coisas. Ela é, portanto, um pouco misteriosa, e mantém os Hobbits interessados por não estar sempre lá. Sempre que Fruta D’Ouro entra numa sala, ela deixa todos sem fôlego. Os Hobbits observam ela se mover graciosamente pela sala sem pronunciar uma palavra.

Quando o jantar termina, Tom e Fruta D’Ouro dão aos Hobbits banquinhos para os pés junto à lareira, e Fruta D’Ouro segura uma vela em suas mãos após apagar a maioria das luzes. Ela senta junto à lareira e canta muitas canções para suas visitas. Então, ela é calorosa e amigável, muito franca, mas uma fonte radiante de inspiração poética. Tom, é claro, adora Fruta D’Ouro, e ele constantemente traz presentes para ela, e a acorda cantando debaixo de sua janela. Ele pode ser seu próprio homem, mas ele deixa claro que ele também é o homem de Fruta D’Ouro. E Fruta D’Ouro circula pela casa e coração de Tom como uma primavera refrescando jorrando de um lado da montanha.

Na simbologia dos sonhos, a água é um símbolo de sexualidade quando está relacionada a uma linda mulher. Tolkien cuidadosamente associa Fruta D’Ouro com a água, através de nomeá-la Filha do Rio, os presentes de nenúfares de Tom, assim como seus movimentos fluidos, sua dança encantadora na chuva e sua fala e idioma. Fruta D’Ouro é muito sensual, mas ela é reservada e distante. Isto é, ela se preserva para Tom, e não se abre completamente (sexualmente) para seus hóspedes. O leitor pode tentar imaginar como Tom pode ficar tanto tempo conversando com seus convidados enquanto Fruta D’Ouro está esperando, mas o fato de que Fruta D’Ouro está esperando, e de que Tom volta para ela à noite, mostra que eles não estão tendo nenhum problema com sua intimidade.

E por fim, Fruta D’Ouro toma conta das refeições. Ela seleciona o menu e anuncia quando a comida está pronta. Ela também tenta satisfazer a curiosidade de Frodo sobre Tom, e acalmar os medos dos Hobbits. “Vamos trancar a noite lá fora, pois talvez ainda estejam com medo da neblina, das sombras das árvores, das águas profundas e das coisas hostis. Nada temam! Pois esta noite estão sob o teto de Tom Bombadil.”

Fruta D’Ouro serve como mediadora entre Tom e os Hobbits, assim como uma mãe serve como mediadora entre um pai e seus filhos. Ela abre a casa de Tom para seus hóspedes e se despede deles. Ela mantém a casa em ordem e estabelece o ritmo no qual a vida caseira segue. As coisas acontecem quando Fruta D’Ouro decide que elas devem acontecer, e ela e Tom têm uma vida satisfatória e realizada juntos. Pois cada um procura satisfazer o outro, e não pensam em seus próprios desejos. Cada um está contente.

Mas agora contraste o relacionamento de Bombadil e Fruta D’Ouro com aquele entre os Ents e as Entesposas. Os Ents e as Entesposas se distanciaram talvez porque os Ents eram muito distantes e desinteressados nas prioridades das Entesposas. Enquanto Bombadil e Fruta D’Ouro dividem uma casa, igualmente atendendo às necessidades de seus hóspedes, dividindo o trabalho e as responsabilidades cuidadosamente, as Entesposas, por fim, viviam separadas dos Ents.

Barbárvore conta a Merry e Pippin, de um modo um tanto quanto melancólico, como ele costumava vagar através de centenas de milhas de florestas sem pista, de Beleriand ao Anduin. Ele passou estações inteiras em diferentes partes das terras nórdicas. As Entesposas, por sua vez, queriam vidas estabelecidas e ordenadas. E essa organização incluía dominar outras coisas:

“- É uma história muito triste e estranha – continuou ele depois de uma pausa. – Quando o mundo era jovem, e as florestas eram vastas e selvagens, os ents e as entesposas – e havia entezelas naquela época: ah! como era adorável Fimbrethil, Pé-de-Fada, a dos passos leves, nos dias de minha juventude! – , eles andavam juntos e moravam juntos, mas nossos corações não continuaram crescendo do mesmo modo: os ents devotavam seu amor a coisas que encontravam no mundo, e as entesposas devotavam o seu a outras coisas; pois os ents amavam as grandes árvores e as florestas, e as encostas de colinas altas, e bebiam das nascentes das montanhas, e só comiam frutas que as árvores deixavam cair em seu caminho; e aprenderam com os elfos e conversavam com as árvores. Mas as entesposas se dedicaram a árvores menores, e a campinas ao sol além dos pés das florestas; viram o abrunheiro nas moitas e a macieira selvagem e a cerejeira florescendo na primavera; e as ervas verdes nas terras banhadas pela água e a grama descente nos campos durante o outono. Não desejavam conversar com esses seres, mas eles desejavam ouvi-las e obedecer ao que lhes diziam. As entesposas ordenaram que crescessem conforme seus desejos, e que produzissem folhas e frutos como queriam; pois as entesposas desejavam a ordem, e paz (que para elas queria dizer que as coisas deviam permanecer como elas as tinham colocado). Então as entesposas fizeram jardins nos quais pudessem morar. Mas nós, ents, continuamos vagando, e só íamos aos jardins de vez em quando. Então, quando a Escuridão chegou ao Norte, as entesposas atravessaram o Grande Rio, e fizeram novos jardins, e araram novos campos, e nós as víamos com menos freqüência. Depois que a Escuridão foi derrotada, a terra das entesposas floresceu ricamente, e seus campos ficaram cheios de trigo. Muitos homens aprenderam os ofícios das entesposas e prestavam grandes honras a elas; mas nós ficamos sendo para eles apenas uma lenda, um segredo no coração da floresta. Mas ainda estamos aqui, enquanto que os jardins das entesposas estão abandonados: os homens os chamam agora de Terras Castanhas.”

Enquanto os Ents se viam apenas como gentis pastores de árvores, as Entesposas acreditavam que elas podiam melhorar as coisas ao redor das quais viviam. Aquelas árvores favorecidas pelas Entesposas – macieiras, laranjeiras – foram domesticadas, crescendo em pomares. As Entesposas praticavam agricultura enquanto os Ents praticavam uma silvicultura semi-nômade. Assim como a clássica história de conflito entre os nômades das estepes e as civilizações sedentárias da Europa ou China, os Ents e as Entesposas dedicavam-se a diferentes prioridades. As Entesposas, de fato, sucumbiram aos mesmos desejos dos Elfos: “desejavam a ordem, e paz (que para elas queria dizer que as coisas deviam permanecer como elas as tinham colocado)”.

As Entesposas se tornaram muito dominadoras, muito decididas. Os Ents tinham que visitar as Entesposas. As Entesposas deixaram de pensar nas florestas antigas de onde vieram. Os Ents, em troca, afastaram-se das terras abertas que as Entesposas procuravam. O resultado final provou ser desastroso para a raça. Os Ents não podiam ser encontrados quando os exércitos de Sauron invadiram a terra das Entesposas. Do destino delas, Tolkien pode apenas tristemente especular que “as Entesposas desapareceram por bem, sendo destruídas junto de seus jardins na Guerra da Última Aliança (Segunda Era 3429-3441), quando Sauron exercia uma política de queimadas e queimou suas terras, contra o avanço dos Aliados pelo Anduin…”

Diferentemente de Fruta D’Ouro, as Entesposas se recusavam a ser submissas a seus parceiros. Diferentemente de Tom Bombadil, os Ents se recusavam a ser dominantes. Cada gênero se acostumou tanto a viver se o outro que passaram-se muitos anos após a destruição das terras das Entesposas até os Ents descobrirem sua perda. Era tarde demais para salvar a raça deles.

E enquanto alguns podem inferir, a partir da perda das Entesposas, que Tolkien defendia um papel doméstico para as esposa, era, de fato, a necessidade da domesticação que levou as Entesposas à ruína. Elas queriam que tudo fosse fixo e permanente, de tal forma que os Ents não podiam suportar viver com elas. Fruta D’Ouro, pelo menos, suporta o constante vagar de Bombadil através das paisagens, desde que ele volte para casa à noite.

Ambos, Bombadil e os Ents, exerciam grande poder. Os Ents podiam destruir vastas fortalezas, mudar o curso dos rios, e alterar a paisagem ao liderar seus rebanhos de árvores para novos “pastos”. O poder de Bombadil não é tão claramente revelado ao leitor, mas ele trabalha mais sutilmente. Apesar dos Ents comandarem as árvores e os Huorns, Bombadil opõe-se dominando vontades (tal como a do Velho Salgueiro Homem), apenas suficientemente para assegurar de que tudo continua a salvo e em harmonia.

Ambos, Bombadil e os Ents, acumularam conhecimento, mas enquanto Tolkien descreve Bombadil em termos de “Botânica e Zoologia (como ciências) e Poesia, como opostas à Pecuária e Agricultura e Praticidade”, os Ents (e Entesposas) quase possuem os mesmos atributos contrastantes: os Ents como pastores, as Entesposas como agricultoras, e enquanto Bombadil cria novas poesias, os Ents se contentam em apenas preservá-la.

Se as diferenças entre os relacionamentos pudessem ser resumidas em uma palavra, esta palavra seria arriscar, isto é, ambos Bombadil e Fruta D’Ouro arriscam algo ao permitir ao outro certas liberdades. Os Ents e as Entesposas, por outro lado, eram relutantes ou incapazes de chegar a um meio termo quanto aos seus desejos e necessidades, e, por fim, eles se divorciaram. Tal rejeição não seria natural no ponto de vista católico de Tolkien. Abandonar o casamento seria algo vergonhoso ou até mesmo pecaminoso. Mais importante ainda, tal ato remove toda a esperança de alimentar o relacionamento e os filhos da casa. Não há equilíbrio, harmonia, e o resultado de tal divisão é desastroso para todos os envolvidos.

Bombadil e Fruta D’Ouro vivem bem ao lado da Floresta Velha, mas não dentro dela. Eles são livres para passar por baixo das árvores, mas eles também podem perambular pelas colinas descampadas. Os Ents aprisionaram a si próprios dentro dos limites de seus bosques, enquanto as Entesposas recusavam deixar seu conforto (e falsa segurança) de suas terras altas. Bombadil e Fruta D’Ouro experimentam o melhor de ambos os mundos, enquanto os Ents e as Entesposas polarizaram seus mundos.

Quando Gandalf deixa os Hobbits, virando-se para visitar Bombadil, ele fala, “Ele é um coletor de musgo, e eu tenho sido uma pedra fadada a rolar”. Os dias de “rolar” de Bombadil acabaram-se. Ele fez o que os Ents não puderam: se fixou. Fruta D’Ouro, de sua parte, fez o que as Entesposas não puderam: aceitar um lugar no mundo de seu marido.

Enquanto eu não aconselharia ninguém a modelar suas vidas em Tom e Fruta D’Ouro, seu casamento, sem dúvida, representa tudo o que há de melhor nos relacionamentos, na visão de Tolkien. De fato, Bombadil representa a mitologia de Tolkien: ele é antigo, com uma bela história que encanta os outros, mas ele adquiriu certa maturidade em sua tenra idade, que é estável e permitiu que ele prosperasse. No fim das contas, Bombadil sobreviverá aos Ents, porque apesar de seus modos nômades, ele permanece flexível bastante para realizar quaisquer mudanças que forem necessárias em sua vida. Ele é vibrante e possui um coração jovem. Ele não possui arrependimentos, e nunca olha para trás. Bombadil e Fruta D’Ouro estão fazendo novas memórias.

Tudo o que resta para os Ents, enquanto um por um cai num sono profundo e permanente, é a memória de suas vidas que uma vez foi compartilhada com as Entesposas.

[Tradução de Helena ‘Aredhel’ Felts]