Todos os posts de Reinaldo José Lopes

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Ciência da Terra-média: sobre olifantes e dinossauros

OK, ele pode ter sido cinza como um camundongo e grande como uma casa (como diz a musiquinha de Sam no original inglês do SdA), mas foi criado de forma realista? Em outras palavras, o olifante (ou mûmak) tolkieniano é um paquiderme que poderia ter existido no mundo real? A resposta é, pra variar: depende. Depende de alguns conceitos básicos de física e biologia e do tamanho que a gente escolhe para o nosso olifante.

 

Começando do começo, há uma série de fatores limitantes para o tamanho de um animal, em especial se ele é um mamífero, como se supõe que o nosso olifante era, já que ele não passa de um elefante "sarado", por assim dizer. Grosso modo, pode-se dizer que o mais importante é a relação espacial entre as tripas e a pele de determinado bicho. Para colocar de forma menos tosca: entre a superfície externa e o volume interno do corpo do animal.

O que acontece é geometricamente inescapável: quando maior um bicho fica, seu volume interno fica proporcionalmente mais avantajado quando em comparação com a superfície de sua pele. Por que isso é importante? Ora, porque todo o metabolismo de um ser vivo — os processos básicos que envolvem respiração, nutrição e, erm, excreção — dependem da interação entre volume interno e superfície externa. O organismo acha truques pra controlar os problemas oriundos de quase tudo isso em animais grandes, mas há uma pedra de tropeço inescapável: o calor.

Olifantes superaquecidos
Quanto maior um animal e, portanto, maior seu volume em relação à superfície de sua pele (principalmente no caso de bichos terrestres), fica cada vez mais séria a dificuldade de se livrar do calor produzido pelo metabolismo dele. Mamíferos, como todos sabemos, são bichos de sangue quente, ou seja, mantêm sua temperatura interna constante por meio da autoprodução de calor — o que os coloca numa posição especialmente delicada quando se trata de exportar o excesso de temperatura para o ambiente que os circunda.

Coincidência ou não, nenhum mamífero terrestre jamais sequer chegou perto do tamanhão dos grandes dinossauros. (Os únicos que se comparam são as baleias, que vivem em ambiente aquático, onde é muito mais fácil dispersar calor.) E aí é que voltamos aos olifantes.

O problema é que o próprio Tolkien não nos dá nenhuma indicação clara sobre o tamanhão absoluto das criaturas de Harad. Só diz que os elefantes atuais ficariam no chinelo perto de um mûmak. Bom, isso pelo menos sugere que o maior mamífero terrestre vivo, o elefante africano (Loxodonta africana), com suas dez toneladas, não serve. Curiosamente, sabemos que uma das muitas espécies de mamute, o Mammuthus trogontherii (concepção artística aqui), pode ter alcançado mais de 15 toneladas, mais ou menos o mesmo tamanho do também extinto Indricotherium transouralicum (pode ser visto aqui), um rinoceronte sem chifre que mais parece uma supergirafa.

Ao que tudo indica, esse é o tamanho máximo que um mamífero terrestre pode alcançar sem simplesmente derreter de dentro pra fora. Se os olifantes tinham essa ordem de grandeza, OK — o Professor não falou bobagem. Agora, Peter Jackson que nos desculpe, uma vez que seus olifantes são muito legais, mas ao que tudo indica ele forçou a barra.

Afinal, na versão cinematográfica de "O Retorno do Rei", os bicharocos têm a mesma dimensão de grandes dinos saurópodes (os quadrúpedes pescoçudos, como os diplodocos). Elefantes desse tamanho teriam de remodelar toda a sua biologia — perdendo o sangue quente, provavelmente, além de desenvolver ossos pneumáticos para aliviar o peso do esqueleto e superorelhas pra dispersar o calor — caso quisessem sobreviver minimamente bem.

Portanto, o nosso veredicto é: olifantes do livro? Talvez. Os do cinema? De jeito maneira. E na próxima edição da série "Ciência da Terra-média": imortalidade élfica!

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Banda Amon Amarth lança novo CD

O que esperar de uma banda cujo nome é Amon Amarth – nada menos que "Montanha da Perdição" em sindarin? Nada menos que pauleira pura com inspiração tolkieniana, claro. Uma resenha do site Pitchfork nos chamou a atenção para o lançamento de "Twilight of the Thunder God" (Crepúsculo do Deus do Trovão), novo CD do grupo da capital sueca, Estocolmo.

 

Além do nome tolkieniano, a principal inspiração do pessoal do Amon
Amarth, capitaneado pelo vocalista Johan Hegg (o barbudinho da voz
cavernosa), é a mitologia nórdica, como deixa na cara o título do novo
álbum. Além do visual viking, eles gostam de levar chifres de beber (é,
isso mesmo, chifres de boi preparados para servir como vasilha) ao
palco e brindar aos fãs com eles.

Além da canção-título do disco, em homenagem a Thor (ou seria Tulkas?),
a mitologia escandinava também dá as caras, por exemplo, na faixa
"Guardians of Asgaard" (Guardiões de Asgard).

Quem estiver interessado em variar um pouco, já que nem só de Blind
Guardian vive o fã de Tolkien, pode conferir várias das novas músicas
do Amon Amarth em sua página do MySpace:
http://www.myspace.com/amonamarth . Boa gritaria!

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Ciência da Terra-média: Filologia élfica

"Nenhuma das ciências é mais orgulhosa, mais nobre ou mais polêmica do que a filologia, nem menos misericordiosa diante do erro." A frase é de Jakob Grimm (1785-1863), filólogo alemão (e um dos irmãos Grimm que compilaram contos de fadas, caso você esteja coçando a cabeça). E, fora algum exagero, ele está certíssimo: a filologia é, de fato, uma ciência. O que faz de Tolkien um cientista, senhoras e senhores.

 

O legal nesse caso é que o Professor não se contentou em deixar
separadinhos as suas duas áreas de interesse, a de cientista-filólogo e
a de escritor de ficção. Uma coisa inspirou a outra tão profundamente
que o resultado são as diversas línguas ficcionais da Terra-média, em
especial as línguas élficas. Qualquer um pode "inventar uma língua": o
difícil é fazer isso de forma que reproduza à perfeição o funcionamento
e a evolução das línguas reais, coisa que Tolkien foi magistral em
realizar.

Ciência (quase) exata
Mas, antes de ir adiante em mais este capítulo de "A Ciência da
Terra-média", é bom deixar claro o que a gente quer dizer com os
aspectos científicos da filologia. Tolkien era filólogo de profissão, e
essa disciplina (que hoje geralmente é igualada à lingüística histórica, embora esta última seja na verdade apenas uma parte da própria filologia)
envolve basicamente a história e a evolução dos idiomas do planeta.

Na verdade, a filologia serviu de inspiração até para métodos da
biologia evolutiva, por uma razão muito simples: ela lida com entidades
que se diversificam por meio de um processo de descendência com
modificação. Pense no nosso bom e velho português, por exemplo. Ele não
passa de latim mal falado, em certo sentido — assim como suas
línguas-irmãs, o espanhol, o italiano, o francês e o romeno (pra citar
só as principais), todas filhas de formas populares do latim trazidas
pelos legionários e burocratas do Império Romano.

Cada língua da família neolatina, como é chamada, diversificou-se de
forma distinta de acordo com a influência das línguas originais faladas
pelas populações conquistadas (os celtiberos, no caso dos portugueses)
e pelos povos que chegaram mais tarde (visigodos e árabes, no caso
luso, mais uma vez). Mas o importante aqui é que as modificações nunca
são aleatórias. Pelo contrário, elas acontecem de forma sistemática,
seguindo certas tendências e leis que funcionam de forma universal,
quase matemática.

Explicando melhor: é muitíssimo mais provável que uma palavra que
começa com "b" tenha essa consoante inicial transformada em "m", por
exemplo — ou em outra consoante que usa como ponto de articulação os
lábios (uma consoante labial, como se diz). É muito difícil que ela
simplesmente vire um "t", digamos. O aparelho fonador (basicamente o
aparelho da nossa boca e vias aéreas) é igual para todos os seres
humanos (e provavelmente para elfos, anões, orcs e hobbits também) e
funciona de acordo com leis parecidas, que podem ser resumidas, grosso
modo, numa espécie de lei do menor esforço.

Outro aspecto importante e universal da evolução lingüística é o grau
de resistência dos chamados "cognatos" – o vocabulário central dos
idiomas, que permanece o mesmo, descontadas as transformações
fonéticas, por até milhares de anos. É a força que faz com que em
português, italiano, e francês nós ainda usemos basicamente a mesma
palavra — "homem", "uomo" ou "homme" — para designar o mesmo
conceito. Ou conceitos parecidos — pode haver um deslocamento de
sentido, mas as palavras cognatas ficam dentro do mesmo campo
semântico.

Na boca dos elfos
Tolkien utilizou todos esses conceitos-chave da lingüística histórica
ao criar as línguas da Terra-média. É claro que ele tinha como
principal objetivo criar idiomas que o agradassem esteticamente,
levando em conta suas línguas reais favoritas — finlandês, galês,
latim, espanhol, italiano e grego, mais ou menos nessa ordem –, mas o
fato de seguir as leis naturais de evolução lingüística dão aos idiomas
tolkienianos um grau de "realidade" sem precedentes.

A comparação sistemática entre o quenya e o sindarin dá um ótimo
exemplo disso. A idéia é que as duas línguas élficas tinham um
ancestral comum mas divergiram por milhares de anos, de forma que o
quenya permaneceu altamente arcaico, enquanto o sindarin teve uma
evolução mais profunda e rápida. É muito parecido com algumas línguas
da família indo-européia (a que engloba quase todos os idiomas da
Europa, mais vários na Índia, Irã e outros pedaços da Ásia). Enquanto o
português e as outras línguas latinas se modernizaram muito, outras,
como o russo e o lituano, preservam uma gramática arcaizante, como a do
grego e do latim.

A transformação sistemática de sons de acordo com os mecanismos do
aparelho fonador humano (tá, élfico) aparece quando colocamos lado a
lado cognatos do quenya e do sindarin, como "alda" e "galadh" (árvore)
ou "rocco" e "roch" (cavalo). Repare principalmente nas consonantes
finais do sindarin: elas não passam de versões "aspiradas" (quer dizer,
basicamente a mesma consoante, com a adição de um sopro) do que se vê
em quenya. (Isso não quer dizer, porém, que o sindarin descende do
quenya; o que ocorre é que o quenya preservou características
primitivas da língua-mãe dos dois idiomas.)

Tolkien, como se sabe, apreciava profundamente as línguas célticas, em
especial o galês, e as diferenças entre quenya e sindarin também
refletem fatores observados por filólogos na evolução dos idiomas
célticos. Um deles é a separação entre línguas célticas do grupo "p" e
as do grupo "q" (fonemas "irmãos", originalmente). Como os elfos
chamavam a si mesmos em quenya? Ora, de Quendi, "os que falam". Já nos
portões de Moria nós vemos a palavra Pedo, "fale". Deu pra sacar a
diferença sistemática entre P e Q?

Até o método aparentemente louco do plural do sindarin tem base na
filologia. Se você sempre estranhou o fato do plural de Aran ser Erain
e o de Adan ser Edain em sindarin, pense um pouquinho: onde você já viu
algo parecido? Ora, em inglês, onde o plural de palavras como man é men
e de goose é geese. É um fenômeno conhecido como "mutação-i". É que,
tanto em inglês quanto em sindarin, o plural dessas palavras malucas
era originalmente feito com um -i no final. Esse -i, por sua vez,
influenciava as vogais antes dele, levando à alteração. Ele acabou
caindo, mas a mudança ficou, levando ao plural irregular.

Os exemplos, creio eu, são mais do que suficientes para mostrar o
realismo científico com que o mapa lingüístico da Terra-média foi
montado. No próximo "Ciência da Terra-média": olifantes!

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Ciência da Terra-média: Purê de Laracna

Abençoado seja o trauma de infância de Tolkien. Durante os primeiros anos de sua vida, na África do Sul, o pequeno John Ronald foi picado por uma tarântula, o que inspirou dois dos mais aterrorizadores símbolos do Mal na história da literatura fantástica: Ungoliant e Laracna. Mas será que aranhas tão grandes quanto seres humanos, ou até maiores, poderiam existir de verdade?
 

Esta nossa primeira questão da série "Ciência da Terra-média" é mais
complicada do que parece. Por um lado, bichos do mesmo grande grupo dos
aracnídeos, os artrópodes (relembrando as aulas de biologia: os que têm
patas articuladas e esqueleto externo de quitina, o que inclui também
insetos e crustáceos), já foram maiores do que o que vemos hoje. Em
alguns casos, BEM maiores.

Isso foi no período Carbonífero, há 300 milhões de anos, em que havia
libélulas do tamanho de corvos, centopéias de 2 metros de comprimento
(e mais grossas que um braço humano), sem falar nos chamados
escorpiões-marinhos, que viviam n’água, mas provavelmente tinham
capacidade de andar na terra seca e também chegavam a cerca de 2 m de
comprimento.

O caso dos escorpiões-marinhos é particularmente interessante porque
eles fazem parte do mesmo subgrupo dos artrópodes no qual se encaixam
as aranhas. No caso dos artrópodes terrestres de grande porte, uma das
explicações propostas para o supertamanho durante o carbonífero é a
grande quantidade de oxigênio (em torno de 30%) disponível no ar
daquela época. Argumenta-se que, com tanto oxigênio (o nosso ar tem só
21%), o esforço ligado à respiração seria muito menor, liberando
metabolicamente os artrópodes para ficarem supercrescidos.

Até aí tudo bem — se não fosse o fato de que nem Mordor, nem a Floresta das Trevas e nem Beleriand eram especialmente ricos em
oxigênio, pelo que sabemos — aliás, nos dois primeiros casos, muito
pelo contrário. Além disso, a impressão que a gente tem é que Laracna
ultrapassa até os mais parrudos monstros do Carbonífero em tamanho. E
isso cria alguns problemas sérios.

Tirando uma casquinha

O esqueleto externo de quitina dos artrópodes é trocado periodicamente,
no fenômeno conhecido como muda. O bicho, então, fica temporariamente
mole e vulnerável até que outra "casca" cresça. Até aí, tudo bem —
basta se enfiar na toca e torcer pra que nenhum hobbit apareça.

No entanto, artrópodes grandes demais talvez simplesmente não fossem
capazes de sustentar o próprio peso "mole" enquanto a casca se forma,
por questões estruturais. O resultado? Purê de Laracna — aliás,
autopurê de Laracna. Êta finzinho inglório.

É claro que o "sangue" de Ainur originário de Ungoliant provavelmente
liberta Laracna dessas restrições mais mundanas. De qualquer modo, é
interessante notar outro detalhe biológico: diz-se no SdA que Laracna
tanto se acasalava com seus descendentes quanto os matava, e que eles
eram formas "degeneradas" dela.

Ora, isso é coerente com a biologia reprodutiva de muitas aranhas — é
bem comum as fêmeas matarem os machos e os devorarem — e com o fato de
que o cruzamento entre parentes próximos (no caso, mãe e filhos) gera
descendentes com problemas genéticos. Não que a gente fique com dó, né?

E na próxima "Ciência na Terra-média": o élfico e a evolução lingüística.

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Del Toro ataca de escritor e começa trilogia sobre vampiros

del_toro.jpgGuillermo del Toro ainda está estruturando a produção dos dois filmes de "O Hobbit", mas nem por isso abandona outros projetos. O diretor mexicano acaba de vender os direitos de uma trilogia sobre vampiros (!!!) para editoras de vários países do mundo, informa a versão em espanhol do jornal "New York Daily News".

 

Segundo o diário americano, a primeira parte da trilogia foi um grande
sucesso de pré-venda durante a Feira Internacional do Livro de
Frankfurt (Alemanha). O livro está sendo escrito diretamente em inglês
por Del Toro, que trabalha em parceria com Chuck Hogan, autor de
"Prince of Thieves", "The Killing Moon" e "The Blood Artists".

A publicação da primeira parte da trilogia, que leva o título de "The
Strain", está programada para a primavera de 2009. "Vendemos o livro
para todos os grandes mercados: Alemanha, França, Itália, Espanha,
Inglaterra e Estados Unidos", declarou o diretor.

"O primeiro romance é a base, mas o segundo e o terceiro livros vão
trazer revelações muito interessantes sobre o mito do vampiro", diz Del
Toro, que já tem os títulos dos dois outros romances: "Uncertain Dead"
e "Night Eternal".

Segundo ele, a idéia original era usar a narrativa como série de TV.
Como seria uma produção milionária, ele acabou não conseguindo
financiamento. Vamos ver se, como literatura, vai funcionar.

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Em defesa de uma 'ciência da Terra-média'

Existe alguma chance de usar as palavras "ciência" e "Terra-média" na mesma frase sem que o sentido seja o de contradição absoluta? Afinal, a Terra-média — e em sentido mais amplo Arda, a versão tolkieniana do nosso planeta, já que a Terra-média é só um continente de Arda — não é  uma Terra do Nunca mágica em que as regras chatas do nosso mundo real são subvertidas à vontade pelos poderes de elfos, magos e Valar? Se você tem essa impressão, gostaria de sugerir que não andou prestando muita atenção no que andou lendo. Venho por meio desta defender ao menos a possibilidade de uma "ciência da Terra-média" — trocando em miúdos, o fato de que Tolkien não estava totalmente alheio a fatos científicos quando criou seu mundo.
 

Como vocês devem imaginar, não é o tipo de argumento que se conclui assim de bate-pronto, de forma que eu pretendo transformar essas análises sobre a "ciência da Terra-média" numa série de artigos. O importante por enquanto é mostrar que Tolkien, bem como o mundo que ele criou, não são um vale-tudo mágico nem estão totalmente alheios às descobertas da ciência moderna. E, de qualquer maneira, parece-me ao menos divertido tentar compatibilizar as duas coisas.

Uma das pedras no caminho é o fato de que, por mais caprichoso e detalhista que Tolkien fosse, o fato é que os textos que chegaram até nós, desde "O Senhor dos Anéis" (em menor grau) até "O Silmarillion" e os livros da série "The History of Middle-earth", não são totalmente coerentes do ponto de vista da construção de um universo. É importante lembrar que Tolkien passou a vida inteira trabalhando na sua mitologia particular, e a visão que ele tinha sobre a estrutura dela foi se modificando ao longo do tempo, bem como seu nível de autoexigência.

Explicando melhor: em alguns pontos o Professor se permitiu manter elementos folclóricos "não-sérios" (como os gigantes das montanhas e os trolls de "O Hobbit"), enquanto em outros ele tentava buscar um nível de verossimilhança, credibilidade e até coerência em relação aos fatos científicos estabelecidos que provavelmente o deixariam doido.

Para dar só um exemplo: no fim da vida ele chegou muito perto de jogar fora toda a mitologia sobre a origem do Sol e da Lua que aparece em "O Silmarillion" (em que esses astros derivam das árvores Telperion e Laurelin) para abraçar um surgimento muito mais vagaroso de Arda, no qual o Sol e a Lua existem astronomicamente há muito mais tempo – e no qual o nosso planeta gira em torno deles. E a justificativa que ele próprio dá (e que pode ser conferida em "Morgoth’s Ring", livro número 10 da série "History of Middle-earth") é que com a ciência moderna um mundo mitológico geocêntrico  (ou seja, com a Terra no centro do Universo) deixa de ser crível. 

Outros comentários pessoais de Tolkien, espalhados pelas obras póstumas ou em suas Cartas (estas já disponíveis em português graças ao primoroso trabalho de Gabriel Brum e do pessoal da Arte&Letra), deixam claro que ele estava longe de ser um analfabeto científico.  Ele se mostra extremamente insatisfeito, por exemplo, com a maneira como os livros de ficção científica (uma das paixões dele e praticamente a única coisa que ele curtia da literatura moderna) lidam com a questão da viagem "mais rápida que a luz" e de "mecanismos gravitacionais". A gravidade, diz Tolkien, é uma declaração absoluta do local que você ocupa no Universo. Não dá para sair manipulando a dita cuja desse jeito — o que é uma enunciação elegante, em termos leigos, da relatividade geral de Einstein. 

Tolkien também aborda de forma inteligente asssuntos como paleontologia (falando de dinossauros e pterossauros, esses últimos "modelos" das montarias dos Nazgûl), genética de plantas e até o conceito biológico de espécie, que foi um dos grandes triunfos da Síntese Moderna da teoria evolutiva, que uniu a seleção natural com a genética de populações. Tolkien enuncia precisamente o conceito biológico de espécie ao afirmar que humanos e elfos, por serem capazes de produzir descendentes férteis, biologicamente pertencem à mesma espécie. 

É claro que Arda é um mundo "criacionista", diríamos nós, por ser resultado da intervenção direta do trabalho demiúrgico dos Valar, mas creio que o importante é a visão bastante naturalista (ou seja, ligada a "regras" do mundo natural) que Tolkien tem do funcionamento de seu universo ficcional. O que me vem à cabeça é a famosa frase de Gandalf no passo de Caradhras: "Eu não consigo queimar neve!". Isso deixa claríssimo que mesmo a "magia" tolkieniana não é um vale-tudo: está mais para uma habilidade natural de certos tipos de seres que precisa sempre caminhar de mãos dadas com as leis da natureza, sob pena de simplesmente falhar. Trata-se de uma visão plenamente concordante com o cerne do espírito científico, ainda que, nos detalhes, os personagens de Tolkien façam coisas "cientificamente impossíveis". 

À guisa de introdução, acho que os parágrafos acima são mais do que suficientes. A seguir: o que impede as nossas aranhas de virarem Laracnas?

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O verdadeiro problema com as traduções de O Senhor dos Anéis

o_senhor_dos_aneis.jpg
Quem ficou sabendo da abortada nova tradução de O Senhor dos Anéis (leia aqui, aqui e ouça o podcast) em geral ficou de cabelo arrepiado com coisas como “ananos” em vez de anões e “meões” em vez de Pequenos. São detalhes importantes, claro, mas gostaria de argumentar que o verdadeiro problema com as traduções brasileiras da Saga do Anel é outro. É estilístico, sutil, mas importante. A variedade lingüística da Terra-média é apagada.

Pareceu meio cifrado? Então peço que vocês leiam o ensaio abaixo, originalmente submetido por mim a uma disciplina do doutorado na USP. Os termos usados na tradução são essenciais, claro, mas mais complicado ainda é não seguir o estilo único de Tolkien para retratar a fala de cada grupo da Terra-média.

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O presente trabalho pretende abordar o uso de variantes lingüísticas diferentes para o registro oral de cada um dos grupos étnicos e culturais da Terra-média ficcional de Tolkien – e sua manifestação (ou, para ser mais preciso, a falta dela) nas traduções brasileiras de O senhor dos anéis. Pretendo demonstrar que a diversidade de modalidades lingüísticas no texto original de Tolkien, que é importante justamente como marcador da história prolongada e das diferentes culturas de seu mundo ficcional, é minimizada ou totalmente apagada nos textos traduzidos.

É difícil determinar com precisão as causas desse tipo de fenômeno, mas uma hipótese de trabalho razoável, aqui proposta, envolve dois fatores: o primeiro, e talvez menos importante, é a dificuldade de encontrar equivalentes viáveis para a oralidade do mundo de Tolkien; o segundo, e possivelmente determinante, tem a ver com as restrições impostas ao que é considerado “palatável” pelo mercado editorial numa tradução. Em outras palavras, desvios muito gritantes no que se considera a norma do português escrito, ainda que sob a justificativa de recriar de forma acurada o texto na língua de partida, acabam sendo barrados.
Para a presente análise, será utilizado o texto integral de O senhor dos anéis na edição inglesa em volume único de 1995, o qual será comparado com a presente edição brasileira em volume único, publicada em 2001 e traduzida por Lenita Maria Rímoli Esteves e Almiro Pisetta, e uma nova tradução do livro, ainda inédita, a cargo de Waldéa Barcellos e Ronald Kyrmse. Como revisor técnico, tive acesso a cerca de dois terços dessa nova versão – certamente o suficiente para esse tipo de análise. A comparação, de qualquer maneira, deve se centrar na primeira tradução brasileira, com instâncias acessórias na segunda. Antes de chegar ao cotejamento e análise das traduções, no entanto, é importante esclarecer como se estrutura a diversidade lingüística e as expressões de oralidade dentro da ficção de Tolkien, e quais instâncias dela são especialmente interessantes para este trabalho.
Popular, dialetal, poético

Grosso modo, pode-se dizer que as variantes lingüísticas de Tolkien
se situam num continuum que vai de formas dialetais a mudanças de registro de fala (do informal para o altamente formal e poético). De uma forma ou de outra, todas incorporam elementos de oralidade, tais como pronúncia “desviante” do que poderíamos considerar a norma culta da língua inglesa, uso divergente de estruturas gramaticais (conjugação idiossincrática de verbos, dupla negação – normalmente barrada no inglês) e sintaxe que foge à ordem padronizada SVO (sujeito-verbo-objeto), a mais comum no idioma natal do escritor. Nesse último caso, inversões ou aparentes “truncamentos” da ordem SVO podem refletir tanto a fala “dialetal” e/ou popular quanto a intrusão da linguagem poética tradicional no discurso direto dos personagens.

Vale ressaltar que todas essas variações não são aleatórias, ou formas ahistóricas de diversidade lingüística. Pelo contrário: elas encarnam uma associação estreita com os diversos povos e culturas que habitam a Terra-média de Tolkien. Na verdade, a explicação para essas variedades lingüísticas é bastante elaborada e ocupa a metade do Apêndice F de O senhor dos anéis, levando o subtítulo On translation, ou Da tradução na versão do livro atualmente disponível no Brasil.
Explica-se: usando o artifício já consagrado da pseudotradução, o autor britânico apresenta seu livro como sendo, ele próprio, o texto traduzido e adaptado de um antigo manuscrito da Terra-média, o chamado Livro Vermelho do Marco Ocidental. Nesse caso, o inglês (e, nas nossas traduções, o português) de O senhor dos anéis estaria apenas representando o westron, ou Língua Geral, idioma que teria sido predominante no Ocidente da Terra-média na época em que a trama se passa.

Como é de conhecimento geral, Tolkien se deleitava com a criação de idiomas ficcionais, tendo arquitetado pelo menos dois deles (as chamadas “línguas élficas” conhecidas como quenya e sindarin) em grau de detalhe suficiente para que fãs da obra consigam compor poesias curtas ou textos simplificados em prosa com eles. O westron tem uma existência bem menos palpável – apenas algumas palavras nos foram legadas pelo autor. No entanto, a incorporação desse idioma à “ficção da tradução” tolkieniana forneceu os alicerces para explicar e historicizar a presença da diversidade lingüística na Terra-média.

É que, na história imaginada pelo autor, o westron é originalmente uma língua humana, falada pela etnia conquistadora dos numenoreanos, os quais fundaram reinos e entrepostos comerciais por todo o Ocidente da Terra-média. Nos cerca de 3.000 anos de história imaginária que antecedem a ação principal de O senhor dos anéis, o westron se tornou a língua franca de toda essa região, equivalente em área à Europa entre as Ilhas Britânicas e o estreito de Dardanelos. Inevitavelmente, porém, ao entrar em contato com os idiomas humanos e não-humanos anteriormente presentes nessa vasta região (já que a Terra-média também era habitada por uma série de espécies inteligentes distintas da nossa), o westron foi sendo modificado de forma desigual pelos diversos substratos lingüísticos, adquirindo tanto empréstimos “eruditos” das línguas élficas quanto variantes regionais “populares”.

Esse cenário ficcional cuidadosamente traçado é a desculpa perfeita para que Tolkien, filólogo de formação com grande interesse pelos dialetos regionais e pela toponímia de língua inglesa, incorpore elementos de oralidade “do mundo real” no discurso direto de seus personagens. Para ser mais específico, é possível notar duas influências filológicas na maneira como os personagens da Saga do Anel falam: o dialeto rural das Midlands Ocidentais, onde Tolkien passou a maior parte de sua infância; e a literatura em inglês antigo, ou anglo-saxão, representada por textos como o épico medieval Beowulf e objeto de grande parte do trabalho acadêmico do escritor na Universidade de Oxford.

A primeira influência é preponderante no que poderíamos chamar de representações da fala popular e/ou “desviante” do westron na obra, enquanto a segunda impacta de forma profunda os momentos em que, de improviso, especialmente em ocasiões solenes ou públicas, os personagens ecoam a(s) tradição(ões) poética(s) da Terra-média. Nesses casos, acontece até de o discurso direto em “prosa” corresponder diretamente à chamada rima aliterativa, a forma poética (não-rimada, apesar do nome um tanto enganador) predominante na Inglaterra durante o período anglo-saxão, do século VI ao XI.
Apesar da formalidade, trata-se também, poderíamos afirmar, de uma poesia de matiz “homérica”, fortemente baseada em elementos da cultura oral. Conforme mencionado acima, tanto os dialetos “populares” quanto as tradições “épicas” da Terra-média têm como ponto de contato o uso de uma ordem “afetiva” ou divergente dos elementos sintáticos.

Para a presente análise, os exemplos escolhidos representam as variantes culturais da Terra-média que mais trazem à tona esses elementos de oralidade, e que, coincidentemente, tendem a ser os mais negligenciados pelas traduções. Do lado das variantes dialetais, o exemplo mais marcante é o da fala “popular” dos hobbits, a mais marcada pelo contato de Tolkien com a oralidade das Midlands Ocidentais.

Não é à toa que o autor resolveu atribuir esses traços lingüísticos aos hobbits: na verdade, o “Povo Pequeno” da ficção tolkieniana habita uma versão idílica e romantizada da Inglaterra eduardiana, formada exclusivamente por pequenos vilarejos, bosques e fazendas – daí seu perfil de ingleses rurais. Alicerçando essas características em sua história ficcional, eis o que Tolkien diz: “Os hobbits (…) tinham nessa época adotado a Língua Geral havia provavelmente mil anos. Usavam-na a seu próprio modo, livre e descuidadamente, embora os mais eruditos entre eles ainda tivessem o domínio de uma língua mais formal, quando a ocasião a exigia. (…) A maioria dos hobbits, na verdade, falava um dialeto rústico, enquanto em Gondor e Rohan [reinos humanos] se usava uma linguagem mais arcaica, mais formal e mais concisa”.

E é justamente essa “linguagem mais arcaica, mais formal e mais
concisa”, marcada pela oralidade “poética”, que também é “diluída” na
tradução. Esse é um dos casos mais férteis para a análise que virá a
seguir, mas também é interessante mencionar outra variante com traços
de oralidade, desta vez envolvendo os orcs, criaturas pertencentes a
uma raça guerreira e destrutiva que funciona como tropa de choque e
bucha de canhão dos vilões de O senhor dos anéis. Os orcs apresentam
uma variante dialetal estranhamente “modernizada” e “militarizada”, a
qual, por isso mesmo, destoa dos demais falares da Terra-média.

Tolkien utiliza alguns procedimentos formais sutis, mas eficazes (a
elisão freqüente de pronomes, por exemplo, e um ritmo de fala em
staccato) para caracterizar a cultura orc, e esses traços, como nos
dois outros casos mencionados acima, também tendem a ficar borrados nos
textos traduzidos. A respeito dos orcs, o “tradutor-autor” Tolkien
escreve, ainda no Apêndice F: “Mas os orcs e os trolls falavam de
qualquer maneira, sem amor pelas palavras ou pelas coisas; e sua língua
na verdade era mais degradada e imunda do que a representei. Não acho
que alguém deseje uma descrição mais próxima, embora seja fácil
encontrar modelos. Em geral, pode-se ainda ouvir o mesmo tipo de fala
entre os que têm mentes de orcs; enfadonha e  repetitiva, cheia de ódio
e desprezo, há demasiado tempo afastada do bem para manter até mesmo o
vigor verbal, exceto aos ouvidos daqueles para quem somente o sórdido
soa vigoroso”.

Esses elementos serão analisados individualmente, a começar pelos
traços de oralidade na fala hobbit e sua reprodução (ou não) na língua
de chegada. Salvo quando indicado, todos os exemplos são de discurso
direto.

Hobbits: O discreto charme do campesinato

Tolkien usa uma série de procedimentos, que começam no nível da
pronúncia e escolha vocabular e “sobem” até o nível da sintaxe, para
caracterizar a fala dos hobbits. Não que, dentro da “etnia” (se é que a
palavra pode ser usada para designar tais personagens), não haja algum
grau de variação.

De fato, a classe alta hobbit também domina o westron “clássico” falado
por elfos e humanos de Gondor e Númenor. Mesmo assim, pode-se
considerar que o dialeto hobbit típico é marcado por um conjunto de
procedimentos lingüísticos “dialetais”, entre os quais podem ser
citados o uso freqüente da dupla negativa, “erros” de conjugação verbal
(trocando a primeira pela terceira pessoa do singular nos verbos
auxiliares ingleses, por exemplo), sinônimos “rústicos” para palavras
de uso comum, emprego freqüente de provérbios e expressões de sabedoria
popular e ritmo de fala que poderia ser descrito, de forma, admito, um
tanto impressionista, como “prosa de matuto”.

Os exemplos abaixo, espero, devem deixar mais claras essas
características. Eles serão seguidos das versões apresentadas pelas
duas traduções brasileiras.

A)A decent respectable hobbit was Mr. Drogo Baggins; there was never much to tell of him, till he was drownded.
Um hobbit decente e respeitável, o Sr. Drogo Bolseiro; nunca houve o que dizer dele, até que morreu afogado. (Edição de 2001)

Aqui, é interessante levar em conta dois detalhes. Para suavizar a
inversão (“Um hobbit decente e respeitável era o Sr. Drogo Baggins”,
literalmente), a tradução retira o verbo e insere a vírgula, uma
alteração sutil, mas significativa, no ritmo da frase. Além disso, o
original usa a forma não-padrão drownded (o “correto” seria drowned),
de forma que não há tentativa de reproduzir esse sabor dialetal na
língua de chegada.

B)Don’t go getting mixed in the business of your betters, or you’ll land in trouble too big for you, I says to him
Não
vá se misturar com os negócios que não são para o seu bico, ou você vai
arranjar problemas muito grandes para você, digo eu para ele. (Edição
de 2001)

Aqui, fica clara a preferência por uma forma que já está dentro da
“zona de conforto” idiomática do leitor (em vez de “os negócios dos
seus superiores/melhores”, usa-se “negócios que não são para o seu
bico”). Também não se tenta reproduzir o “erro de conjugação” de I says
to him.


C)Lor bless you, Mr. Gandalf, sir!
Abençoado seja, Sr. Gandalf, senhor! (Edição de 2001)

Embora a tradução reproduza com razoável grau de precisão o ritmo
desordenado e repetitivo da fala hobbit, é curiosa a hipercorreção de
“Abençoado seja” perto da corruptela Lor bless you do original.

D)I’d give a lot for half a dozen taters
Daria qualquer coisa por meia dúzia de batatas (Nova tradução)

De novo, faz-se presente a tentativa de “normalizar” a expressão
para algo facilmente reconhecível na língua de chegada (em vez de
“daria um bocado”, “daria um monte”, a preferência é por “daria
qualquer coisa”). Mais importante ainda, a palavra dialetal taters para
batatas é assimilada ao equivalente tradicional em português. No
entanto, essa assimilação desfaz o contraste com a palavra mais comum
em inglês (potatoes), a qual é utilizada de forma zombeteira logo
depois no texto.

Outros exemplos poderiam ser citados, mas o resultado líquido de
todos esses pequenos detalhes acaba sendo o de reduzir ou apagar as
diferenças entre a fala dos hobbits e a das demais culturas da
Terra-média, com um impacto indireto, mas significativo para o leitor
atento, sobre a ilusão de profundidade cultural que é um dos grandes
trunfos da narrativa de O senhor dos anéis.

Orcs: Escopetas verbais

Não é surpresa que uma raça criada por “engenharia genética mágica”
para servir exclusivamente como bucha de canhão militar use seu idioma
como uma espécie de alinhavado de despachos do front – e é exatamente
isso o que se verifica com os orcs na narrativa de O senhor dos anéis.
Concisão e brutalidade (embora não palavras de baixo calão) também
caracterizam a oralidade orc – é difícil que qualquer sentença se
espalhe por mais de cinco ou seis palavras.

Curiosamente, no entanto, esses detalhes são sistematicamente
suavizados pelas traduções brasileiras, conforme exemplificado abaixo.

A)How do you folk like being called swine?
Pessoal, o que vocês acham de ser chamados de porcos? (Nova tradução)

O uso da vírgula quebra a cadência direta da fala orc, e o vocativo
“pessoal” não tem a impessoalidade (sem trocadilho) e a conotação quase
enraivecida do monossílabo inglês folk. Teria sido melhor omitir a
palavra na língua de chegada, optando por um fraseado mais conciso.

B)Someone else will die too.
Outras pessoas morrerão também. (Nova tradução)

Coincidência ou não, o campo semântico de “pessoa” retorna aqui,
como na tradução anterior – o que parece um equívoco, mais uma vez,
porque o elemento central da frase é justamente sua impessoalidade –
“alguém mais vai morrer”. “Vai morrer”, aliás, talvez fizesse mais jus
ao ritmo do fraseado original, já que o inglês só possui a forma
composta, com verbo auxiliar, do futuro. Na boca de um orc, “morrerão”
soa educado demais.

C)What are they wanted for? Do they give good sport?
Querem os meões para quê? Para se divertir com eles? (Nova tradução)

Aqui, o texto na língua de chegada se rende à tentação de explicitar
o que está implícito no original (que usa um mero “eles”, referindo-se
aos “meões”, ou seja, os hobbits) e a reordenar a sintaxe bruta,
agreste do texto da língua de partida. “São/Dão diversão boa?” estaria
bem mais perto do “ritmo orc”.

D)They’re the apple of the Great Eye.
Eles são o xodó do Grande Olho. (Nova tradução)

Esse último exemplo é uma instância clássica de sair da frigideira e
cair no fogo. O trocadilho em inglês está suficientemente claro: o
Grande Olho (metonímia do vilão-mestre Sauron) tem como “menina dos
olhos” os personagens mencionados. Talvez para evitar a associação com
“meninas” de verdade, a tradução opta por “xodó”, cujas associações
semânticas “fofinhas” são tão ou mais impróprias.

Em conjunto, o discurso direto colocado na boca dos orcs é menos
“dialetal” que o dos hobbits, mas o emprego cuidadoso de vocabulário e
ritmo é capaz, ainda assim, de torná-lo distintivo quando comparado ao
dos demais povos da Terra-média. A suavização do falar orc na tradução
deixa essa distinção menos clara e contribui para diminuir a
complexidade lingüística e cultural de O senhor dos anéis.

A tradição épica oral da Terra-média

Do ponto de vista estilístico, a oralidade poética é talvez o
recurso mais interessante em O senhor dos anéis, com inspiração direta
na rima aliterativa anglo-saxã (empregada em épicos antigos como
Beowulf e, no século 20, recuperada por figuras como Ezra Pound e W.H.
Auden). Embora a tecnologia da escrita seja conhecida e empregada na
Terra-média de Tolkien, as culturas do continente ficcional ainda são
largamente orais, e o autor usa essa condição como um mecanismo para
inserir elementos da tradição poética germânica na maneira como os
personagens “de alta estirpe” dos reinos humanos de Gondor e Rohan
falam.

A sintaxe, nesse caso, é fortemente influenciada pela do inglês
antigo, mesmo em prosa. Como língua sintética, tal qual o latim ou o
grego, o inglês antigo possuía ordem sintática relativamente livre, mas
há uma preferência ligeiramente acentuada pela colocação do objeto
direto ou dos adjuntos no começo da frase. Também é freqüente o emprego
da aliteração nas sílabas tônicas das palavras, uma das características
definidoras da chamada rima aliterativa que parece “vazar” mesmo para
textos em prosa. Tanto em inglês quanto em português modernos, essas
características soam estranhas; o que as traduções fazem, em geral, é
suavizar essa estranheza, como demonstro nos exemplos a seguir.

A)Éowyn I am, Éomund’s daughter.
Sou Éowyn, filha de Éomund. (Tradução de 2001)

Esse exemplo é particularmente importante porque, falando “em prosa”
durante um momento crucial da narrativa, a personagem Éowyn emite dois
perfeitos hemistíquios, ou “meias-linhas”, em rima aliterativa
anglo-saxã. (A aliteração, no caso, é feita pelas duas vogais tônicas
na primeira metade da frase, anterior à cesura marcada pela vírgula, e
pela vogal tônica em “Éomund” na segunda metade da frase.)

Para ser mais preciso, a primeira metade da frase é um hemistíquio do
tipo E e a segunda é um hemistíquio do tipo A segundo os critérios da
rima aliterativa anglo-saxã.  O importante, para que a estrutura
poética permaneça, é que as aliterações permaneçam em posições
equivalentes, e em especial que a aliteração na segunda metade da frase
seja a primeira sílaba tônica dela. Ao não perceber esse detalhe, a
tradução joga por terra a estrutura de rima aliterativa da frase, além
de “normalizar” a sintaxe. Uma tradução que preservasse esses detalhes
teria de ser algo na linha “Éowyn eu sou, de Éomund filha”.

B)Vain was Gandalf’s trust in me.
A confiança que Gandalf depositou em mim foi em vão. (Tradução de 2001)

O caso é simples, mas interessante: “Vã foi a confiança de Gandalf
em mim” seria a tradução mais correta, literal e, por que não dizer,
até mais descomplicada de fazer. Ao colocar o predicativo do sujeito em
primeiro lugar, o fraseado emprestado do inglês antigo põe em relevo o
que realmente importa na frase. A tradução, no entanto, prefere deixar
a sintaxe menos estranha e ser mais explicativa.

C)Helm for Théoden King!
Helm pelo Rei Théoden! (Tradução de 2001)

O diabo está sempre nos detalhes. Em vez de optar pelo mais literal
e esquisito (tanto em português quanto em inglês moderno) “Théoden
Rei”, a tradução coloca as palavras na ordem esperada pelos nossos
ouvidos. No entanto, deixa de lado o fato de que, em inglês antigo, a
“ordem esperada” era justamente essa. A Crônica Anglo-Saxã, que relata
os feitos dos reis ingleses antes da conquista normanda da Inglaterra
em 1066, refere-se exatamente desse jeito aos soberanos: o Rei Alfredo,
o Grande é Aelfred cyning na Crônica. De certa forma, a referência ao
monarca é “des-historicizada” na língua de chegada.

D) Ere the fathers of our fathers rode into the Mark.
Antes que os pais dos nossos antepassados chegassem à Terra dos Cavaleiros. (Nova tradução)

O que aparece de forma mais saliente aqui é um certo grau de
intolerância  com a concretude e o caráter um tanto repetitivo da
“oralidade poética” em O senhor dos anéis. “Os pais de nossos pais”
obviamente não são os avós, e um leitor perceptivo e familiarizado com
esse tipo de linguagem não teria problemas em entender o contexto, mas
a tradução prefere explicar o máximo possível e opta por
“antepassados”.

Outro detalhe interessante é a transformação de Mark em “Terra dos
Cavaleiros”. A palavra Mark é empregada com freqüência por Tolkien, até
por ecoar a Mércia, região do centro-oeste da Inglaterra que englobava
as Midlands Ocidentais durante o período anglo-saxão. O significado
original é “região de fronteira”, mas a tradução opta mais pela clareza
do que pela expressão nuançada.

Conclusão

Espero que, tomados no conjunto, os exemplos citados acima falem por
si sós. O estereótipo da literatura de fantasia como mero “contar de
histórias” cai por terra quando se leva em conta a delicada estrutura
de diversidade cultural, apoiada basicamente em detalhes lingüísticos,
sobre a qual se ergue a narrativa de Tolkien. Os elementos de oralidade
e, por que não dizer, de tradição oral são fundamentais para que ela
funcione. Ignorá-los equivale a um empobrecimento da experiência do
leitor e da sua capacidade de apreender as conexões entre os andares
desse edifício literário.

Yiddish Policeman’s Union, O Hobbit, O Senhor dos Anéis, Preacher, O Silmarillion, Cristianismo Puro

J.R.R. Tolkien: aniversário de falecimento

tolkien_cor.jpg
Antes tarde do que nunca: neste dia 2 de setembro, há exatos 35 anos, o Professor John Ronald Reuel Tolkien (1892-1973) deixava os círculos do mundo, ao morrer com 81 anos de idade.

 
Acho que falo por todos os tolkiendili do mundo quando digo: Professor, Anar kaluva tielyanna! Que o Sol brilhe sobre o seu caminho!

 

Para os que querem aproveitar este dia para recordar Tolkien e sua
obra, recomendamos fortemente a leitura de seu obituário original no New York Times, bem como o de sua biografia, ambos disponíveis aqui na Valinor. Também podem ver o Professor em pessoa no ValinorTube.

Deixe sua mensagem ao Professor no link abaixo (Comentários):

Yiddish Policeman’s Union, O Hobbit, O Senhor dos Anéis, Preacher, O Silmarillion, Cristianismo Puro

Lagarto argentino ganha nome de Vala: Tulkas!

liolaemus_tulkas_01.jpgNosso velho amigo Henrique "Pandatur" Costa nos manda uma divertida notícia tolkieniana do mundo da biodiversidade: um lagarto argentino cujo nome científico homenageia Tulkas, um dos Valar que são tão importantes para a trama de "O Silmarillion". 

Para ser mais preciso, o bicho leva o título oficial de Liolaemus tulkas, e foi descrito pelos argentinos Andrés S. Quintéros, Cristian S. Abdala, Juan Manuel D. Gómez e Gustavo J. Scrocchi na revista científica "South American Journal of Herpetology" (a herpetologia, para quem não sabe, é o estudo dos anfíbios e dos répteis).

O bicho certamente ficaria à vontade nas alturas dos Pelóri, as montanhas de Valinor, já que habita altitudes superiores a 2.000 m na Argentina.  Vejam a sensacional justificativa dos autores para assim designar o animal:

"Etimologia: Na mitologia de J. R. R. Tolkien, ‘Tulkas’ é um dos Ainur ou Poderes que auxiliaram a moldar Arda ou Terra-Média. Uma das características de Tulkas é a de correr mais rápido que qualquer criatura. Liolaemus tulkas é muito veloz em pequenas corridas."
liolaemus_tulkas_02.jpg

 Apenas para exercitar nossa nerdice, é bom lembrar que os Valar é que são os Poderes; a palavra Ainur quer dizer "Sagrados". Nem todos os Ainur são Valar – só os que resolveram "descer" a Arda. E lembrando também que Arda é diferente de Terra-média: esta última é só um continente de Arda. 

Quem quiser ver fotos do bichinho em boa resolução pode visitar o Fórum Valinor, no tópico sobre a descoberta, clicando aqui.

EDIT: Tempo real é apelido. Um dos autores do estudo – argentino e tolkiendili – já visitou a Valinor e até entrou no Fórum para nos agradecer.  

 

Yiddish Policeman’s Union, O Hobbit, O Senhor dos Anéis, Preacher, O Silmarillion, Cristianismo Puro

Martins Fontes cancela nova tradução do SdA

É isso mesmo — não tem mas, nem meio mas. A Editora Martins Fontes, detentora dos direitos autorais de "O Senhor dos Anéis" no Brasil, informa que a nova tradução da obra, traduzida por Waldéa Barcellos e Ronald Kyrmse, não será mais lançada.

 

 

Quem visita a Valinor regularmente soube em primeira mão algumas das
polêmicas escolhas da nova equipe de tradução, incluindo termos como
"ananos" para os tradicionais anões e "meões" para os bons e
velhos pequenos (halflings). A promessa da Martins Fontes também era
corrigir problemas como uma série de parágrafos faltantes na edição
original, problema apontado pela primeira vez também aqui na Valinor
.

Estamos em contato com a editora para saber o motivo do cancelamento, e
também para averiguar futuros planos tolkienianos da Martins Fontes.
Fiquem ligados.

Se este Cisne pode adicionar alguns comentários pessoais, já que
participei da revisão do primeiro e do segundo volumes da tradução
abortada, minha opinião é: já vai tarde. Fora a questão dos parágrafos
sumidos (chata, é verdade, mas não essencial), a nova
versão acrescentava pouco ou nada em termos de qualidade
editorial, além de não fazer jus ao estilo literário tolkieniano, que
é o que realmente importaria numa tradução refeita. 

 Saiba mais a respeito da finada tradução ouvindo a primeira edição do Podcast Valinor!

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