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A Solidão intransponí­vel

Creio eu que um dos aspectos mais importantes da vida de qualquer pessoa seja a forma como ela lida com os momentos de solidão. Estar sozinho não é apenas estar afastado das pessoas, isolado. É antes de tudo um estado de espírito incrivelmente cruel. É saber que naquele exato momento você tem um dever tão importante e único e que muitas coisas dependem de você. Embora possa receber ajuda de algumas pessoas que aliviam temporariamente este peso, o fardo está nas suas próprias mãos.

Impossível discorrer sobre isso sem pensar em Frodo e sua jornada rumo à Mordor. Impossível não pensar no pobre Bilbo assustado tendo que encarar Smaug à espreita no interior de Erebor. Impossível não pensar que daqui a exatos sete meses, estarei embarcando rumo à Wellington para tentar conseguir um papel num dos grandes filmes da atualidade. E sinto a mesma solidão e o mesmo peso. Não pelo fato de ir sozinho mas pelo fato de não me sentir completamente preparado. Pelo fato dessa ida gerar expectativas não apenas minhas mas de muita gente que torce por mim. Depois da resposta extremamente delicada e favorável que recebi por e-mail, houve um grande período de agitação em minha vida. Chorei, fiquei feliz, comemorei, pulei, gritei. Meu objetivo maior havia sido alcançado. Eu consegui chamar a atenção de quem eu queria. Mas havia a necessidade de um planejamento. Não me prometeram nada, apenas que eu seria levado em consideração no processo de escalação do elenco. Mas isso mexeu demais comigo. Mudei minha vida completamente para me focar nesta viagem. Mudei de cidade, de emprego, me afastei de pessoas que eu amo, comecei a me focar nos meus objetivos. Digamos que simplesmente eu resolvi assumir o caminho que me foi estabelecido e o momento dos grandes acontecimentos se aproxima. Isso é cada dia mais assustador.

Estes dias eu estava relendo o primeiro capítulo de “O Senhor dos Anéis” e enquanto a festa de Bilbo era preparada o Condado se agitava cada vez mais. Os hobbits fofocavam sobre a morte dos pais de Frodo oferecendo diversas versões do ocorrido, todavia sem chegar a grandes conclusões. Posso dizer que me identifico plenamente com essa parte do livro pois nasci e cresci em um lugar assim. Morei até os dezessete anos em Caçapava e posso afirmar que lá você é definido pela família na qual você nasce e todos já sabem mais ou menos o destino que está traçado para você. Se seu pai tem uma loja de móveis é meio lógico que você seguirá o mesmo caminho. O máximo que vai fazer é comprar um carro, uma casa, casar, ter filhos e morrer. A fofoca corre solta e os poucos que não querem se submeter a estes padrões são considerados estranhos, esquisitos. Pra que sonhar com outras coisas quando aquela vida pacata satisfaz a maioria das pessoas?

Não critico esse modo de viver, pelo contrário, hoje acredito que realmente existam pessoas que são felizes deste jeito. Mas eu sempre fui um dos estranhos. Aquele que olhava os filmes e pensava: “Quero estar lá”. Aquele que era comentado por todos por não ir aos bailinhos do clube da cidade, por não ter uma galerinha animada que sai pra beber todo final de semana. Sempre fui muito sozinho, confesso. E isso nunca me incomodou de fato. Até agora. Mas preciso aproveitar a chance que me foi dada.

Lembro de assistir aos extras da versão estendida dos filmes, e o Peter Jackson dizia emocionado que muita gente ficou sozinha durante as filmagens de “O Senhor dos Anéis” pois os cônjuges, os familiares das pessoas envolvidas não entendiam aquela dedicação toda. Os envolvidos mergulharam a tal ponto no trabalho de contar aquela história que centenas de relacionamentos ruíram. Casamentos acabaram, amizades se romperam, famílias se desfizeram.

Minha vida ano passado era completamente diferente do que é hoje. Isso posso afirmar com certeza. Tive que deixar muita coisa que trabalhei por anos a fio pra me concentrar no que realmente quero, meu projeto de mestrado, por exemplo. Muita gente reclama que às vezes não tem clareza em definir um caminho. Que não sabe o que quer fazer da vida e isso gera insegurança. Mas digo com toda a certeza do mundo, que quando seu caminho se abre perante você de uma forma tão clara, e você toma consciência de tudo que terá que trilhar, é muito mais aterrador. Você é obrigado a reconhecer que às vezes as coisas que você mais ama no mundo terão que ficar para trás, senão seriam apenas um peso no seu caminhar. E isso é duro de admitir. Sempre me pergunto: “Você está disposto a pagar o preço?” E a resposta vem de imediato. Sim, estou disposto. Mas essa solidão que sinto, essa solidão intransponível me acompanhará a cada passo da jornada, como acompanhou Frodo, Bilbo, Tolkien. Estou em boa companhia, então tenho que aprender a lidar com ela. Sete meses, e contando…

De Fã Para Fã

No artigo anterior discutimos um pouco sobre as pessoas que desconhecem o universo criado por Tolkien. Posso afirmar que para esta semana eu tinha um tema completamente diferente do que vou começar a desenvolver agora, mas não pude ignorar meus pensamentos ao ler os inúmeros comentários do último artigo. A maior parte das pessoas que participam de comunidades como a Valinor se considera fã da obra de Tolkien. Isto é fato. Uma comunidade de fãs é o que movimenta as discussões acerca das obras e também o comércio em torno dos derivados das obras escritas como filmes, miniaturas, roupas, e toda espécie de colecionáveis que um fã amaria possuir. Um fã vê sentido em tudo isso, se identifica com a obra de tamanha maneira que passa a buscar mais subsídios para expandir seus conhecimentos e admirar ainda mais aquilo que contempla. E isso é completamente compreensível. Obviamente que existem fãs de diversas categorias e intensidades. Há os que apenas admiram os filmes mas que não tem vontade de explorar os livros, como há aqueles que amam os livros, desprezam os filmes e querem que o Peter Jackson queime no inferno. Existem aqueles que conseguem dosar os dois lados e tentam ampliar as perspectivas nas duas frentes. Não podemos nos esquecer, sobretudo dos fãs que fazem jus à origem da palavra “fan”, abreviação de “fanatic” a qual podemos traduzir como “fanático”. Sim, os fanáticos existem em todos os lugares. De Igrejas a comunidades de Star Wars, os fanáticos sempre existirão e grande parte deles tenta espalhar o conhecimento e a paixão pelo seu objeto como algo único e necessário para toda a humanidade. Acreditem, eu já fui assim. E as conseqüências disso podem não ser das melhores.

gollum_try.jpgMas como sabemos qual é o limite entre a admiração e o fanatismo? É uma questão um pouco complexa pois creio que não aconteça da mesma forma com todo mundo. Porém, uma coisa básica existe em todas as formas de manifestação do fanatismo. O fanático coloca aquele objeto de desejo acima de qualquer coisa e na maioria das vezes acima de si mesmo. Vê nela sua identidade, seu futuro e sua razão de viver. Por isso, digo e repito, eu já fui um fanático. Hoje, após sofrer algumas conseqüências posso dizer que sou um grande fã das obras de Tolkien, mas não são a minha razão de viver. Sei que mesmo que não consiga um bom papel no filme “O Hobbit”, caso eu seja mal sucedido nos testes, tenho a nítida noção de que não será o fim do mundo. E consigo conviver com essa idéia. Há alguns anos atrás, essa idéia nem passaria pela minha cabeça. Eu não queria admirar as obras de Tolkien, eu queria vivenciá-las. Eu pegava a bicicleta aos finais de semana e ia para a zona rural da minha cidade e ficava repetindo falas dos livros e imaginava que lá fosse o Condado. Já pensei em morar numa toca de Hobbit, pra valer. Já forcei meus familiares a assistirem os filmes, e fiquei sem falar com eles uma semana quando todos saíram no meio da Sociedade do Anel dizendo que o filme era chato e longo, com bichinhos esquisitos. Já carreguei o “Um Anel” no pescoço por cerca de dois anos e quando o perdi tive vontade de morrer. Ele me lembrava dos objetivos que eu tinha prometido a mim mesmo. Já fiquei bêbado e conjurei encantamentos élficos para todos meus amigos. E creio que o pior de tudo que fiz nessa fase fanática foi raspar minha cabeça, me pintar de tinta a óleo e ir até São Paulo pintado de cinza, usando uma tanguinha suja e curta para a avant-première de “As Duas Torres” no shopping Frei Caneca. Não digo que foi perigoso pela vergonha ou nada disso, mas porque a tinta a óleo pode ser altamente tóxica e não sai do corpo facilmente. Tive que tomar banho com detergente e mesmo assim existia tinta em alguns lugares onde nunca deveria existir. Tive febre pois fiquei horas a fio pintado e tive reações alérgicas pelo corpo.

Hoje em dia, não faria mais isso. Tenho mais cuidado comigo e compreendo que algumas coisas desta época valeram muito a pena, e outras me expuseram a riscos. Mas somente agora sei diferenciar uma coisa da outra. Para mim, naquela época, tudo estava perfeito.

É realmente muito chato quando alguém despreza algo que temos tanta admiração e carinho. Eu fico chateado quando vou mostrar esse universo pra alguém e a pessoa desconversa. Mas é preciso entender as sutilezas de ser um fã de verdade. Crer na certeza de que não importa o que digam, sua admiração e amor não vão vacilar. Que como foi dito anteriormente, as pessoas são livres para fazer suas próprias escolhas. Nem tudo o que satisfaz os outros, te satisfaz. Então se agarre à sua escolha e sinta-se feliz por fazer parte disso. Saiba que você não é o único a compartilhar uma paixão tão grande por algo assim e existem milhares como você aqui na Valinor. Eu demorei muito para descobrir isso e hoje posso dizer que estou satisfeito. Tenho meus amigos, participo de algumas discussões e estou ansioso pelo Encontro Nacional. Mas não fico mais pregando pra ninguém. O que eu sinto diz respeito a mim, somente. É um tanto clichê, mas hoje prefiro ter qualidade ao invés de quantidade. E que venham as discussões!

Tol… Quem?

Seja numa reunião familiar ou numa mesa de bar, ao discorrer apaixonadamente sobre minha óbvia admiração pelas obras do professor, quase sempre sou interrogado pelos amigos e colegas desavisados: “Peraí, Tol…Tol….Quem?”. É, pode parecer estranho para vocês mas a maioria das pessoas que conheço e convivo não tem a mínima noção de quem seja nosso querido professor. De início eu ficava revoltado e fazia aquele discurso quilométrico que acabava em muitos minutos de um silêncio pesado e desconfortável pra todo mundo. Depois eu tentava culpar Deus e o mundo por não conhecer pessoas que compartilhassem as mesmas paixões, pessoas com as quais eu pudesse comentar partes dos livros ou dos filmes sem ser incomodado pela fatídica pergunta acima. Eu era um tolkieniano fanático, fato.

Mas com o passar dos anos passei a ponderar melhor minhas revoltas e tentei entender porque as coisas não possuíam a amplitude que eu imaginava e desejava. Descobri que no Brasil, entre os jovens de classe média, que supostamente deveriam ter acesso à leitura, há um amplo descaso com a literatura em geral. Pois é, e eu querendo que todos conhecessem um autor inglês. Descobri que a maioria destes meus amigos e colegas não liam um livro por iniciativa própria há muito tempo e que alguns eram avessos à leitura. Mesmo os livros que eram pedidos nos grandes vestibulares eram facilmente substituídos por filmes que adaptavam, ou tentavam adaptar as obras de forma satisfatória. Culpa de uma cultura de massa, extremamente midiática? Talvez. Mas é uma desculpa muito genérica se levarmos em conta outros fatores. Lembro-me de pensar: “Ah, como A História Sem Fim faz sentido agora.” Mas no caso de “O Senhor dos Anéis” os filmes tiveram uma enorme repercussão e mesmo que os créditos mostrassem o nome do verdadeiro autor, a quem esses meus colegas atribuíam a autoria da história?

A maioria ao Peter Jackson e mesmo assim quando não confundiam o nome do diretor com o Michael Jackson ( sim, já aconteceu algumas vezes.). Pois é, eu tento entender até hoje, juro. Mas acabo sempre tentando imaginar como seria uma adaptação dos livros feita pelo Michael Jackson. E sempre chego naquele limite do pensamento no qual você imagina tanta bizarrice que a obra original começa a perder o sentido. Então decido que é melhor voltar e não ir além com essas imagens. Mas confesso que algumas vezes eu não consigo deixar de me irritar com algumas colocações. Há exatamente um ano atrás, estava eu pronto para filmar a cena mais épica do meu curta metragem, aos pés do Pico das Agulhas Negras em Itatiaia quando Bilbo e os anões vêem Erebor pela primeira vez, ao longe.De repente, uma chuva forte começa a despencar. A maquiagem derrete, a capa se molha e todo mundo corre pra “pousada-cabana-taberna” tentando salvar pelo menos a camerazinha. E lá estou eu, imaginem, parecendo que voltei de uma rave doida no Pântano dos Mortos, com um mau humor extremo pois além de me achar a criatura mais medonha do mundo sem barba, tive que refazer todo o processo de maquiagem, ajeitar aquela peruca que era um tanto difícil num banheiro com poças de xixi por toda parte. Uma imagem realmente glamorosa. E a chuva incessante lá fora.

Resolvi me sentar perto da lareira no “salão” principal da pousadinha. Eis que chega uma senhora de uns trinta e cinco anos, olha para minha cara enrolado na capa de lã…..dá um grito e cai no chão tendo convulsões de tanto rir. Eu tentando ignorar a cena pensava nas falas que eu ainda não tinha decorado quando, minutos depois,(sim, minutos), ela chega quase recomposta gritando: “Tira uma foto comigo Peter Pan?” E eu na maior calma respondendo que não era o “Peter Pan” era um outro personagem. A mulher, ainda histérica, continua gritando: “Então você é um príncipe? Cadê a princesa??” E eu já não tão calmo resolvo elevar o tom de voz e dizer que eu era um Hobbit!!!!

Mas é claro que ela não sabia o que era e ficou me chamando de “Robert” o resto da tarde. Aliás, to pensando em fazer um curta chamado “O Robert” porque parece uma conspiração universal. Todo mundo que cruza meu caminho nos últimos meses pergunta o que é o tal “Robert”. Hoje em dia até acho graça e tento desviar do assunto. Mas não sei qual é pior: o “Robert” ou o “Tol…Quem?” . Talvez “Michael Jackson” dirigindo o SDA ainda ganhe este combate. Escolha difícil.

Mas a graça da vida está justamente nestas coisas, eu creio. O ser humano é muito complexo e pelo menos todas as pessoas que converso e que passam a conhecer Tolkien, diga-se de passagem, o verdadeiro autor de “O Senhor dos Anéis” passam a admirar ou mesmo respeitar o trabalho do professor. Mesmo num mundo globalizado, temos nossas escolhas diversas e nem tudo que chega até nós somos obrigados a aceitar. Há uns dez anos atrás, talvez fosse eu perguntando: “Tol Quem?” Por isso aprendi a admirar as pessoas diferentes e a valorizar ainda mais os amigos que possuem uma paixão e uma admiração em comum em relação ao universo de Tolkien. Hoje em dia digo aos meus amigos, que não é preciso gostar mas respeitar um trabalho louvável, sempre. Respeitar sempre, isso já me basta e me faz feliz.

Carta a Tolkien

Com o Ano Novo se aproximando é inevitável pensar em tudo o que aconteceu este ano e não vir à mente, de imediato, um julgamento de nossos atos. Será que realmente tudo o que fizemos valeu a pena? Escrevendo estes artigos e rememorando os últimos anos nos quais passei lutando contra as adversidades, e contra mim mesmo, imaginei o que eu escreveria ao Mestre Tolkien para me ajudar a fazer este balanço. Afinal, é o último artigo.

Primeiramente, eu diria a ele que agradeço imensamente por tudo o que ele escreveu. Cada palavra de cada parte de cada apêndice. Agradeceria por ter nos presenteado com uma obra densa e que conseguimos penetrar pois, antes de tudo, é humana e por isso funciona. Funciona nos livros, funciona nos filmes. E funciona na minha própria vida. Ah, as transformações que ocorreram em minha vida após o contato com suas obras. Uma delas bem aqui. Nunca sonhei que receberia algum convite para escrever artigos. E isso foi uma das coisas mais bacanas deste ano. De fato, em geral, não imagino como seria o chegar de um novo ano sem estar em contato com tudo o que provém de suas obras. Não consigo me imaginar como eu seria hoje se nunca houvesse conhecido seus livros.

Gostaria de agradecer não apenas por sua genialidade e criatividade, mas pelos sentimentos que sua própria história de vida suscita nas pessoas que a conhecem. Gostaria de agradecer sobretudo seu amor por Edith, sua eterna Luthien. De todas as histórias envolvendo a biografia do professor, creio que seja a mais tocante e duradoura em meu coração. E isso se reflete em todos seus escritos. O lutar por algo que vale realmente a pena. Mesmo que todo o entorno seja apenas escuridão, apenas treva densa. Em tempos como o nosso, no qual o cinismo, a crueldade, e a falta de amparo se abate sobre a maioria dos povos do globo, no qual a depressão se tornou um distúrbio quase epidêmico, mesmo com todo avanço tecnológico, a crise da mente e do coração humano se torna evidente. Poucas pessoas podem dizer abertamente que nunca experimentaram um mal estar súbito diante dessa modernidade desenfreada, da falta de consciência ou da crise dela. A maioria das pessoas se prende a questões como: “Quem sou e o que estou destinado a ser?” Mas raras pessoas desafiam o destino e lutam contra tudo em busca de algo impossível. Estes são meus verdadeiros heróis. E o professor é um grande herói a meu ver. Por vencer todas as suas adversidades de sua infância e conquistar de forma heróica o amor da mulher que ele amava intensamente. Ele deve ter se questionado se isso não seria impossível, mas escolheu tentar. Assim como os heróis de suas histórias, seus queridos hobbits que apesar de viverem em uma sociedade bucólica e avessa à aventuras, partem em jornadas grandiosas que até hoje, sensibilizam milhões de pessoas.

E é disso que o mundo está precisando, dessa fantasia que reflete o humano, que faz com que milhões de pessoas lotem os cinemas do mundo para assistirem o pequeno Frodo rumo á Montanha da Perdição. Não uma fuga da realidade, mas um espelho dela em proporções maiores. Ali, diante daquela tela, que muitos teóricos compreendem como uma “janela” e não à toa, estamos vivenciando e identificando os nossos próprios conflitos. Senão não teria sentido algum. É nossa mente, nossa experiência eu media nossos sentimentos, e não o contrário. E neste sentido, a adaptação da obra do professor foi um marco.

E foi assim, tendo contato com suas obras e desdobramentos que me tornei quem eu sou, e com muito orgulho. Foi assim que consegui superar grande parte da minha depressão adolescente. Ainda tenho episódios de depressão, mas basta eu ler um pedaço de qualquer livro ou ler a biografia de Tolkien que consigo me refazer. Agradeço pelas eternas lições que aprendi com seus pequeninos heróis e que vou levar para onde quer que eu vá. Dentro do meu coração.

Quem sabe, um dia, não tomamos um chá das cinco observando as praias brancas que nos chamam?

Atenciosamente,

Guilherme.

Sobre Muralhas e Dragões

Nos artigos anteriores, relatei minhas experiências ao tentar produzir um curta- metragem que fosse ao mesmo tempo, bem produzido e inspirador o bastante para chamar a atenção do diretor Peter Jackson. Todavia, no meio do processo outro diretor foi nomeado e como bem sabemos, trata-se do mexicano Guillermo Del Toro. Confesso que fiquei um pouco desapontado de início, mas ao assistir ao filme “O Labirinto do Fauno” comecei então a apostar todas minhas fichas no Sr. Del toro. De certa forma, para o meu projeto pessoal de conseguir uma pontinha no “Hobbit”, essa foi uma conjunção perfeita. Peter Jackson e Guillermo Del Toro juntos! O neozelandês que todos amam e confiam produzindo e um diretor latino-americano, como….eu! Era isso!

Minhas chances aumentariam exponencialmente uma vez que um latino entende outro latino. Não é mesmo? Afinal, sabemos como é ser taxados de “resto do mundo” e sabemos que internacionalmente não temos as mesmas oportunidades que os norte-americanos e europeus. Sabemos das dificuldades de nosso povo, da corrupção em nossos países, da violência e de como a cultura pode ajudar em um cenário tão penoso e difícil e mesmo assim é pouco incentivada. Sabemos o poder que a fantasia possui mediante uma realidade penosa e desgastada. E acima de tudo, sabemos como é humilhante produzir um filme no limite de um orçamento pequeno, explorar ao máximo a criatividade para não cortar nossas idéias pela metade e encontrar todos os empecilhos possíveis. Era alguém que certamente saberia avaliar meus esforços, melhor do que ninguém.

Durante estes cinco anos, todos os dias eu convivi com o poder da fantasia e as mudanças que ela gerou em minha própria vida. Mas sempre chega o momento da batalha no qual chegamos perante a muralha mais alta. Eu havia me esquecido que o cinema é acima de tudo uma indústria. E uma indústria com cartéis bem definidos. É natural que em um dos ramos que mais movimenta capital no mundo, exista um imenso protecionismo. E onde estávamos mesmo, ah, sim, no “resto do mundo”. Então como eu, um mero latino, da periferia do globo, visava conseguir uma pontinha em uma mega produção hollywoodiana? Não, eu não estava delirando como muitos já supuseram. Eu confiava na acessibilidade dos diretores. Eles eram acessíveis quando produziam seus filmes independentes, quando tinham que ser mais criativos do que famosos, mas acabaram como todos expoentes artísticos, blindados pelas corporações. Ao produzir “O Senhor dos Anéis”, Peter Jackson afirmou que recebeu uma fita – teste do ator Elijah Wood para o papel de Frodo, e com apenas uma entrevista o ator havia conseguido o papel principal de uma mega produção. Coisas como essa, hoje são impensáveis. Em um contato recente que tive com a empresa Wingnut Films me foi revelado que Peter Jackson após os tremendos sucessos de bilheteria, não pode mais, sob pena judicial atestada em contrato formal, receber qualquer material, script, DVD, que ele não tenha pedido para ver. O mesmo acontece com o Sr. Del Toro, e fui informado por seu próprio agente, em pessoa. Aliás, em Hollywood existe agente para tudo. É isso que aprendemos quando vamos atrás de uma carreira internacional. Um bom agente abre portas, um péssimo agente te deixa no anonimato para sempre. Há uma enorme briga por papéis importantes, é tudo um imenso jogo de xadrez. E conseguir um bom representante é muito difícil. Mas alguns atores chegam lá, então não deve ser impossível. Prefiro pensar assim.

Mas nem tudo são perdas. Se eu não consigo chegar até quem eu quero, eu me contento com os representantes. E todos foram muito agradáveis comigo. Aliás, há exatamente uma semana, fui informado pela Wingnut que após um bom tempo, minha caixinha do Hobbit chegou lá. Foi recebida pelo escritório deles e está guardada até começarem a seleção de elenco, ocasião em que será mostrada para os diretores de casting nomeados pela produção. Como existe um padrão em Hollywood em relação às equipes de trabalho de cada diretor, resolvi investigar os prováveis diretores de casting e entrei em contato com eles. Gastei alguns dólares, é verdade, mas os contatos valeram a pena. Essa semana mesmo vou enviar meu material para alguns deles, que responderam afirmativamente, e seja o que Eru quiser. Um bolo de material para a Europa, E.U.A., Nova Zelândia. E lá vamos nós de novo.

Às vezes lemos algumas coisas na internet que nos desanimam, mas temos que ir atrás de outras formas. Em um artigo recente que li, um cara dizia que era pra pensar muito em antes de viajar para a Nova Zelândia esperando participar das filmagens do “Hobbit”, buscando um papel ou apenas figuração. Ele afirmava que os kiwis (neozelandeses) têm prioridade sobre todos e por lei os estrangeiros só podem ocupar cargos dos kiwis, quando os mesmos estiverem em falta. E que a probabilidade de conseguir uma figuração era muito baixa. Por um acaso, ele, um norte-americano, sabe a porcentagem de kiwis que participariam do filme, ou quantos figurantes serão necessários? Lendo coisas assim a gente aprende a se preservar mais. Talvez ele também esteja tentando.

Pra ser sincero, eu fiquei no fundo do poço depois que terminei “O Hobbit”, entrei em depressão, nada me animava muito, minha vida havia perdido o sentido. Acho que deve ter sido algo parecido com depressão pós- parto, como minha amiga sempre diz. Mas com o tempo fui tendo a idéia de produzir algo para os brasileiros, alguma coisa que signifique algo para a comunidade tolkieniana em geral e foi então que tive a idéia do Dragão Verde. Um programa de uma WEBTV que ultimamente tem consumido meus pensamentos. Mas parece que eu sempre esbarro em velhos problemas. Está difícil, mas eu sei que vou conseguir. Produzir um programa não é fácil. Essa semana terminei a animação inicial, uma coisa curta, simples, e que os fãs certamente vão curtir. Mas aí vai um desabafo. Como é difícil achar um dragão tridimensional decente. Tentei fazer um, mas acabei desistindo. Meu Dragão Verde ficou parecendo uma lagartixa “cor-de-burro-quando-foge”. Foi humilhante. Decidi comprar um na internet, mas sinceramente não dá pra gastar 299 dólares em dez segundos de animação. É, custa caro porque é difícil mesmo. Não sou tão inútil assim. Ufa! Acabei encontrando…bem, vocês verão se eu encontrei algo parecido com um dragão, em breve. O teaser deve sair até o final do ano, bem pertinho do Natal. E no início do ano que vem, após as típicas bebedeiras festivas e confraternizações universais, estrearemos no melhor estilo Tolkieniano. De fã para fã. No próximo e último artigo do ano, darei mais informações sobre o desenvolvimento do programa e sobre as idéias do piloto. Então aí vai nosso velho e famigerado amigo:

CONTINUA…

Rumo às Terras Imortais

Depois dos últimos três artigos, sobrou pouca coisa a ser descrita sobre as filmagens do Hobbit em si. Às vezes me pego rindo muito com alguns acontecimentos esparsos que nem eu lembrava direito e que de repente vêm à minha mente. Aos poucos vou compartilhando estes momentos com vocês. Mas confesso que ao lembrar destes momentos, das filmagens, das inúmeras viagens a 25 de março, dos ensaios de roteiro, das madrugadas escrevendo e pesquisando, percebi um imenso vazio. E isso é algo que preciso compartilhar com vocês neste atual momento porque depois que enviei todo o material para a Nova Zelândia percebi o quanto eu era apegado a tudo isso. Digo, trabalhar nesse curta consumiu tempo, energia, disposição, dinheiro. Mas era algo que ocupava meus pensamentos todo santo dia. Mesmo que nada pudesse ser feito naquele momento, eu esquematizava tudo o tempo todo. Eu sabia que nos meus planos de vida ir para São Paulo tinha uma razão. Eu iria estudar, ganhar algum dinheiro e fazer O Hobbit a qualquer custo. E assim o fiz. Isso me impelia a deixar o interior que amava para me perder na cidade grande em busca desse sonho. E agora?

Digamos que tudo o que restou foi a expectativa. No próprio correio fui informado que a Nova Zelândia não aceita madeira vinda de fora. Adivinhem do que era a caixinha que mandei? BINGO! Nem preciso dizer que fiquei desesperado né? A atendente do correio disse que se não fosse madeira pura estava tudo bem, que eles implicam mesmo com madeira maciça. Estou na expectativa. Durmo com meu celular do lado, coisa que sempre odiei fazer, e a cada ligação tenho um sobressalto. É ele, é o Peter Jackson! Mas não é. Se bobear a caixinha nem chegou por lá ainda, e talvez nem caia nas mãos dele diretamente. Começo a lidar com a realidade e não sou muito bom nisso. Mas agora é só deixar nas mãos do destino. Se alguém da alfândega ousar destruir minha caixinha mando quantas outras forem preciso. De papel, metal, pedra. Mas mando! E se nada der certo, sou capaz de levar em mãos e bater na porta da WingNut Films.

Foi ao escrever isso que me dei conta da atual situação. Estou preso entre dois mundos que não me satisfazem mais. De um lado, o interior que eu amava tanto mas que hoje só me mostra a sombra de alguém que um dia fui. De outro, a gigantesca metrópole de São Paulo que em nada me encanta mas me foi necessária. Mas nenhum dos lugares me satisfaz. Embora em São Paulo eu esteja começando a árduos passos produzir um programa sobre Tolkien para internet, é um lugar que não me satisfaz mais. Sempre me perguntei por que Frodo e Bilbo não conseguiram ficar no Condado após suas respectivas jornadas. Agora, finalmente eu entendo. Você simplesmente não se adapta mais. Você fica inquieto e tem a sensação de não pertencer mais àquele lugar. E então decidi que vou continuar com meus planos em relação ao programa mas em outro lugar. Vou cruzar o Grande oceano rumo às Terras Imortais, vulgo Nova Zelândia.

Muitas pessoas devem achar que estou pirando ou algo assim mas há uma lógica enorme nisso tudo. Primeiro, vou garantir que meu material chegue onde quero sem intermediários e malditos agentes alfandegários destruidores de caixas de madeira. Segundo, vou produzir parte do programa lá o que será muito mais interessante pelo fato de eu estar próximo às locações e à produção do filme. Creio que com isso os brasileiros poderão ter mais acesso às informações em tempo real do que acontece por lá. Atualmente me correspondo com algumas pessoas de lá, especificamente da produtora dos filmes. E nada ainda foi iniciado, mas já estão marcando a montagem dos primeiros sets e unidades de trabalho para o começo de 2009. Creio que as filmagens só comecem a ocorrer no meio do ano. Claro que pretendo ir antes disso.
Mas enquanto junto dinheiro e isso não acontece, posso falar um pouquinho das agruras de produzir um programa piloto mesmo que para internet.

Bom, digamos que depois de um bom tempo, eu e minha sócia e amiga Lígia Frigatto, conseguimos uma pequena equipe, parte daquela que me ajudou com o Hobbit. Sim, os Sams do artigo anterior. Comprei iluminação, discutimos o roteiro do piloto e no atual momento estamos preparando um teaser bem curtinho que deve ser disponibilizado para vocês em breve por aqui. Sentimos uma responsabilidade enorme pelo fato de ser um programa único e com 40 minutos de duração. Parece pouco, mas para produzir cada minuto leva-se uma eternidade de pesquisa, ensaios, ilumina aqui e acolá, retoca a maquiagem, etc. Mas podemos garantir que tudo está sendo feito com o maior capricho. Em breve pretendemos filmar a abertura e voluntários são bem vindos sempre. Enfim, estou descobrindo a cada dia que às vezes um sonho impulsiona outro ainda maior e temos que abrir as portas para que as coisas aconteçam.

Agora só nos resta trabalhar bastante, suar a camisa mesmo e ir para a Nova Zelândia buscar uma nova estrada, pois:

“A estrada em frente vai seguindo,
Deixando a porta onde começa.
Agora longe já vai indo,
devo seguir nada me impeça”

Não é mesmo?

O Retorno do Hobbit

Os dias se passaram e depois os meses. Mês após mês, até que toda aquela vontade de criar e toda a esperança de ir um dia para a Nova Zelândia não passava de um sonho perdido e de uma lembrança vaga que agora mais machucava do que inspirava. Quando eu tentava conversar com alguém sobre isso tudo as pessoas diziam que era melhor assim. Que eu deveria me limitar a coisas que eu sabia e podia fazer, e que tudo não passava de um sonho mirabolante. Aliás, este era o consenso geral daqueles que conviviam comigo e para alguns ainda era há bem pouco tempo. Impressionante como em momentos de fragilidade nos deixamos levar por conselhos deste tipo.

Eu passava os dias trabalhando e estudando, ganhava bem mais que a média dos estagiários que eu conhecia por aí o que me dava liberdade para ir ao shopping e gastar duzentos reais em besteiras num único dia. Tinha uma vida boa, mas eu não era feliz. Foram os piores meses da minha vida. Eu estava depressivo, derrotado, apático. Não passava de uma sombra daquele menino sonhador que pensava que podia conquistar o mundo. Um dia, passeando por um shopping no interior, vi o box com os DVDs da trilogia e embora eu tivesse dinheiro o suficiente, não tive coragem de comprar. Era um sentimento de vergonha, rebaixamento. Eu não podia ouvir falar em Tolkien, Peter Jackson. Fugia de tudo que pudesse me lembrar do meu sonho “impossível”. Naquele dia cheguei em casa e chorei. Aquilo não podia continuar. Afinal, o que me impedia de tentar?

Sempre fui uma pessoa que enxerga certos sinais na vida, no cotidiano, nas coisas mais simples. Alguns chamam de intuição, outros de superstição. O fato é que ao voltar para São Paulo decidi economizar meu dinheiro gasto de forma leviana para quem sabe um dia filmar algumas cenas do Hobbit. Sim, de um roteiro de cem páginas, resolvi filmar apenas algumas cenas. Então, enquanto eu não pudesse cuidar do meu próprio filme, eu iria ajudar e aprender com outros produtores e ao mesmo tempo apurar minha atuação, desenvolver novas técnicas e tentar ganhar um pouco de destaque para ser alguém no meio artístico antes de gravar e enviar qualquer coisa de melhor qualidade para o Peter Jackson. Se eu conseguisse chegar ao IMDB, mesmo que não fosse famoso, ele e qualquer pessoa poderia verificar minha experiência como ator, ir atrás de algum trabalho meu. Fiz milhares de testes e fui reprovado em vários. A voz da minha irmã mais velha dizendo: “Você nunca vai participar de um filme na sua vida.”, era algo recorrente na minha mente. Como alguém pode ser tão derrotado e perdedor? Mas um dos testes deu certo e em pouco tempo eu estava envolvido com vários outros filmes, em geral de curta metragem, feito por alunos, inexperientes como eu. Ah, não consigo descrever o quanto eu aprendi. Faltava um iluminador, lá estava eu para ajudar e aprender. Aprendi a mexer com látex, sangue de mentira, câmera, iluminação, figurino. Fiz contatos, amigos do meio que, ao contrário das outras pessoas, me ouviam falar do Hobbit como quem admira uma maravilha rara. Todos me incentivaram demais mas nenhum destes filmes, e foram no total oito em menos de seis meses, me deram algum reconhecimento no IMDB. Bom, para quem não sabe o IMDB que eu cito e repito é uma base de dados mundial de atores, a maior delas. É a abreviação Internet Movie Database e ao menos que você tenha participado de algum filme profissional, com vínculos formais com uma empresa ou emissora, participado de algum festival e que possa ser comprovado, seu nome estará lá. Não era o meu caso. Os filmes dos quais participei eram independentes, de faculdade. Foi então que aconteceu. Ao abrir meu e-mail vi um teste para um filme que aconteceria na Avenida Paulista. Achei que eu tivesse o perfil, marquei a data com a produtora, mas acabei não indo. Não me sentia capaz. Aquela noite eu tive um sonho e nele eu estava ensaiando o roteiro do Hobbit na casa do Peter Jackson com mais alguns atores. Era muito divertido e no sonho conversávamos dos filmes que havíamos feito antes do Hobbit, antes de embarcarmos para a Nova Zelândia, os testes que não passamos, as frustrações. Acordei no meio da noite e pensei: “Por que não fui para aquele maldito teste?”

No dia seguinte acordei e liguei para a produtora. Ainda havia um papel disponível mas precisavam com urgência de alguém. Me descrevi por telefone, ela perguntou se eu sabia falar inglês e a pessoa me passou o endereço dizendo que eu começaria imediatamente. Em menos de duas horas eu estava num trem rumo a Caieiras para filmar um drama/terror chamado The Last Shot que participou da seleção do Sundance e outras coisas importantes. Na janela do trem sucateado e empoeirado eu li meu nome já meio apagado e pensei. É isso, é aqui que tudo recomeça. E foi assim que meu nome apareceu primeiro no IMDB.

Depois disso não só eu passei a confiar mais em mim, como minha família e meus amigos passaram a me apoiar bastante. Às vezes, as pessoas precisam de provas concretas de que você é capaz. Foi assim que comprei minha primeira câmera miniDV. Minha amiga Sol me deu a idéia de comprar uma super câmera, me emprestou o total do dinheiro e eu paguei parcelado pra ela. Ela me ajudou demais, acreditou demais. E logo depois que terminei de pagar a câmera, meu estágio acabou. Peguei o dinheiro acumulado, a câmera e procurei pessoas pra me ajudar a filmar. Mas pouca gente topa se expor assim. Meu maior problema nessa historia toda foi falta de pessoal. E demorou muito tempo para eu perceber que se eu não fizesse as cenas centradas no Bilbo sacrificando de certa forma o restante, eu não conseguiria fazer nada. Marquei reuniões, fiz inúmeros cronogramas, marquei viagens, e sempre o mesmo problema. Pessoas desistindo, com seus próprios problemas pessoais. Creio que fiquei um ano nesse planejamento. Eu já sabia as cenas de cabeça, as locações, o onde, o como e o porquê de tudo, tinha o figurino completo, a câmera mas me faltava ajuda. Essa ajuda pra ser bem sincero apareceu mais no final do ano passado quando uma amiga viajou comigo para o interior gravar algumas cenas e foi reforçada por outro amigo que veio do nordeste só pra me ajudar nas filmagens. Formamos finalmente uma mini equipe. E assim, pudemos produzir esse humilde filminho de cerca de 40 minutos que neste exato instante está voando para o outro lado do mundo enquanto você lê este artigo. Tudo numa caixinha de madeira envernizada, de pequenas dimensões, contendo anos de trabalho, dedicação e estudo. Carregando o meu maior sonho para terras distantes onde tenho a certeza de que um certo alguém que conhecemos tão bem vai saber desvendar seus mistérios e códigos. Sim, a caixa em si é um enigma. Eu a construí para ser única. E até onde eu sei, ela está sendo esperada por alguém especial.

As lições que aprendi são bem claras, acho que todo mundo que leu pelo menos uma parte do artigo consegue ver que a maior das lições aprendidas foi a persistência. Que às vezes por mais que nossos objetivos fiquem desfocados ou até mesmo em segundo plano, temos o poder de ressucitá-los e deixá-los maiores. Mas não foi só isso, descobri também que sozinhos não somos capazes de nada. Que encontrei no meu caminho muitos Gollums e Grimas, mas tive alguns Sams que me ajudaram a cumprir o meu destino. É a eles que devo tudo o que derivar desta empreitada. Descobri que mesmo as pessoas mais poderosas, são mais acessíveis do que pensamos. Enfim, lembro de uma frase meio clichê que vi num outdoor mas que serviu de inspiração para eu chegar até aqui e dizia o seguinte: “O impossível é algo que ninguém ousou tentar.”

Eu tentei, estou tentando. E estou envolvido com novas produções cujos desafios são maiores do que os descritos aqui. Só digo uma coisa: Salve o Dragão Verde!

Recriando a Terra Média no Brasil

Estudando um pouco de cinema aprendi que um bom filme por mais barato que seja começa com um roteiro bem estruturado. Mas como fazê-lo? Realmente não é uma tarefa simples, pois é no roteiro que está a essência de um filme, seu cerne. Existe um tipo de formatação específica bem como uma necessidade de amarrar os núcleos da trama de forma que funcione na tela. Acho que foi na criação do roteiro do Hobbit que eu passei a admirar mais e mais os roteiristas de “O Senhor dos Anéis”. Adaptar um livro não é fácil. Sabe aquela parte do livro que a gente lê, relê e se empolga pensando como seria maravilhoso ver aquilo no cinema?

Mas muitas vezes isso não funciona. O livro e, sobretudo a narrativa que criamos do livro em nossas mentes, nosso filme próprio, interno, tem um tempo diferente do cinema. Ao ler, estamos sendo ativos no processo de criação e de fato tudo que adicionamos nesta nossa visão tem muito a ver com o que somos, vivenciamos e acreditamos. Nosso roteiro básico é o livro, mas nossa adaptação para que aquilo nos satisfaça minimamente é mais rica do que qualquer filme que já existiu. O que obviamente não impede que às vezes vejamos um filme baseado em uma obra ficcional que nos surpreenda. Acontece, pois o trabalho do roteirista é pensar justamente como transformar aquele livro querido e aquelas partes que todo mundo ama, de formas variadas, em algo único que capte a essência do livro e possa tentar agradar os fãs e os não-fãs tanto em estética quanto em conteúdo. É uma tarefa árdua e a responsabilidade é enorme.

E como fazer isso com o Hobbit? Digamos que aquele primeiro roteiro que criei, o tal roteiro megalomaníaco que eu sempre cito, tinha erros gravíssimos. Parecia mais uma peça teatral longa e chata pois eu simplesmente tinha pena de cortar as partes para que funcionassem no vídeo. Pode parecer meio bobo mas vai tentar cortar um filho querido ao meio pra você ver. É aterrador, frustrante e muitas vezes desejei ser russo pra poder fazer filmes de ultra longa duração como aqueles filmes antigos de 7, 8 horas. Mas acho que só eu assistiria.

Enfim, com dor no coração cortei o roteiro pela metade retirando aquelas cenas “lindas mas desnecessárias” que todos amamos nos livros. Depois resolvi procurar uma formatação apropriada para aquele monte de falas em inglês, adicionei a descrição de cada cena e foi quando me bateu uma angústia. Onde eu iria filmar tudo aquilo, e como?

A primeira questão eu resolvi de forma mais simples de início e fui apurando a idéia com o tempo. Como sabemos, moramos em um país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza. Sim, é verdade mas sabemos que não é apenas isso. Embora seja essa a visão que prevaleça sobre nós no exterior sobretudo pelo cinema nacional que produz e exporta filmes que quase sempre remetem ao sertão nordestino, ao Rio de Janeiro ou ao processo de favelização das grandes metrópoles. E neste momento eu tive um “insight” daqueles que só acontecem no ônibus voltando do trabalho ou da escola, um sentimento poderoso que acabei tomando por missão: mudar esse padrão e tentar fazer algo completamente diferente. Afinal, se um pequeno hobbit do Condado conseguiu destruir o Um Anel e o Senhor do Escuro, porque um brasileiro da periferia do mundo não conseguiria filmar uma obra de Tolkien em seu país e mandá-lo para o Peter Jackson? Isso ninguém esperaria. Nós que somos fãs da trilogia, dos livros e dos filmes, sabemos que às vezes é justamente o que se pensou até agora impossível, o mais arriscado, o caminho que ninguém mais trilhou por não acreditar, é justamente o que dá certo. Resolvi arriscar, apostar tudo e empolgado comecei a procurar as locações.

Viajei bastante, procurei em sites até perceber que o Condado sempre esteve perto de mim, na zona rural do Vale do Paraíba. O aspecto rural e o relevo de mares de morros fazem com que o lugar seja digno da trilogia do Peter Jackson.

Para a Floresta das trevas escolhi o Bosque da Física na USP em São Paulo. Um lugar tranqüilo e com muitas, mas muitas aranhas reais. E das grandes. Sempre pensei na Floresta das Trevas como um lugar sombrio, mas mais parecido com uma floresta tropical do que com qualquer outro tipo de floresta. Pelos insetos, pelas aranhas, pelo calor. A mata é muito fechada, tão fechada que de dia parece noite e de noite não se enxerga um palmo na frente do nariz. Então resolvi aproveitar um cenário bem brasileiro, adicionar algumas teias de aranha, um filtro escuro e pronto teríamos nossa Floresta das trevas.

Erebor por outro lado precisava ser um local desolado, sem muito verde com mais pedras de preferência pontiagudas pois essa característica era essencial na minha visão da Desolação do Dragão que cerca a Montanha. Mas onde achar uma montanha dessa proporção em terras brasileiras? Foi quando me lembrei de Itatiaia, sobretudo o Pico das Agulhas Negras que com alguns efeitos acabou se transformando no cenário ideal. Um filtro amarelo quase alaranjado e bem pesado seria usado nestas cenas para demonstrar o cansaço, a fadiga e que aquele não era um lugar comum, era uma terra devastada, triste. Por sorte, ou por azar, o Parque das Agulhas Negras havia passado por um incêndio há algum tempo e a mata não havia se recuperado. O que foi perfeito para a Desolação do Dragão. Para o restante do filme resolvi filmar em brotas e em Campos do Jordão.

Fiz uma lista de possíveis atores, projetei o figurino, deixei meu cabelo crescer até ficar de um tamanho hobbitesco, sempre me baseando mais nos filmes e temperando alguma coisa própria de como eu enxergava o livro. Comecei a trabalhar como professor e a separar grande parte do meu salário para comprar tecidos. Foram inúmeras visitas a 25 de março, a costureiras diferentes até que tudo estivesse nos conformes. E nas madrugadas lá estava eu numa sala de computadores da USP mexendo e remexendo no roteiro.

Mas eu só estava me esquecendo de uma coisa. E a câmera? Eu não tinha nem uma câmera fotográfica pra fazer vídeos de baixa qualidade. Um amigo meu, aquele que me levou pra ver o primeiro filme e me ajudou no começo, cujo apelido pra nós é “Batata” me emprestou uma câmera de 3.1 megapixels que era o top de linha da época. Eu me decepcionei muito com o resultado. Tanto trabalho, tanta dedicação pra nada.

Foi quando eu percebi pela primeira vez que talvez os sonhos realmente cheguem ao fim. Que um hobbit só consegue destruir um Mal Supremo em livros e filmes. Que provavelmente o Peter Jackson iria rir do meu vídeo amador e descartá-lo de vez. Eu havia perdido todas as esperanças, empacotei as roupas, voltei para o mundo real e a rotina me consumiu. Eu havia desistido.

CONTINUA (mais uma vez)…

Numa toca no chão, vivia um hobbit

Numa toca no chão, vivia um hobbit.

E ele saiu dela, foi atrás de seus sonhos e nunca mais conseguiu voltar a ser o que era…

Não consigo imaginar melhor começo para uma coluna que tem por objetivo descrever essa aventura à qual me dediquei durante os últimos cinco anos. Tentar filmar um dos livros mais queridos dos fãs de Tolkien, “O Hobbit”, e tentar fazer disso um bom trabalho, que fosse pelo menos digno de ser enviado a uma pessoa muito especial do outro lado do mundo: Peter Jackson. Isso mesmo, o visionário diretor neozelandês, antigo rei dos filmes de horror tipo B, com produções de um humor ácido e peculiar, em quem ninguém acreditava antes de seu mega sucesso milionário com a adaptação das obras de Tolkien. Talvez esteja aí, minha maior inspiração para este pequeno filme que produzi. Maior inspiração que essa pra mim é impossível, mas não foi a única. Como em toda boa história a ser contada, creio que temos de avaliar como a idéia surgiu e quais os motivos que fizeram essa idéia, maluca para muitos, se desenvolver e ganhar corpo.

Digamos que até janeiro de 2002 eu era um adolescente comum. Um pouco nerd, é verdade, mas ainda assim comum. Tinha na época 15 anos de idade, e estava passando por uma crise emocional tipicamente adolescente pois eu havia sido rejeitado pela milionésima vez e dessa vez eu havia decidido colocar um fim nisso. Não mais me apaixonar, me fechar de vez em todos os sentidos e pensar em mim, nos meus estudos. Meio egoísta né? Bom, é nesse contexto de desilusão que “O Senhor dos Anéis” apareceu em minha vida. Um amigo meu me convidou para ir ao cinema pois sabia que eu não estava muito bem e disse algo sobre um filme “muito louco” que envolvia “duendes, elfos, magos” e “um anel do mal”. Como eu queria que o mundo explodisse, quase não fui. O cinema ficava muito longe, na cidade vizinha de Taubaté, uma vez que Caçapava, minha cidade, não tinha mais nenhuma sala de exibição. Fui a muito contragosto, e até hoje fico pensando como seria minha vida se aquele dia eu tivesse recusado o convite.

Ainda me lembro da sensação de ver aquele filme pela primeira vez, ali, tão diferente da descrição do meu amigo e tão envolvente para alguém que tinha deixado de ter esperanças na vida. Finalmente algo empolgante havia acontecido, era como se eu tivesse descoberto um universo novo, único, mágico. Faltando 14 minutos para o final do filme, eu estava ansioso para ver o desfecho, encontrar o tal do Sauron que morava em Mordor, mas ao invés disso tive que lidar com um “CONTINUA”. E isso não me deixou revoltado, pelo contrário, me deixou sedento e perplexo.

O Guilherme melancólico que entrou no cinema aquela tarde, não foi o mesmo Guilherme que saiu três horas depois. Algo havia se interiorizado, uma nova brasa havia sido acesa. O que era aquela música? E aquelas narrações iniciais? Imediatamente após o filme, meu amigo foi comprar o livro, era lindo, mas eu não podia comprá-lo, pois minhas finanças nunca foram muito grandes. Afinal 75 reais era uma fortuna para um garoto de 15 anos.

No ônibus de volta para a casa, o assunto era um só. O tal filme. Fui dormir feliz, aliviado aquela noite. E prometi que iria rever o filme até entender o que me fascinava tanto nele. Até hoje não entendo muito bem. Eu não tomava mais lanche. O dinheiro do lanche era todo revertido para mais sessões de cinema. Ao todo foram 18 sessões do primeiro filme, contabilizando por cima um total de 54 horas no cinema só em 2002.

A partir de então podemos dizer que eu realmente fui atrás de informações mais concretas, achei a Valinor e desde então tenho comprado e lido a maioria das publicações de Tolkien, meu autor favorito. Mas até então eu era um fã, um grande fã. Nada mais. Fazia algumas maluquices como raspar meu cabelo com maquina zero, pintar meu corpo com tinta acrílica cinza e vir para São Paulo vestido de Gollum/ troll para a avant-premiere de “As Duas Torres” numa promoção que eu havia ganhado na Valinor. Foi neste momento que descobri que eu não era o único envolvido, que havia mais gente como eu. Eu não era um E.T. solitário neste universo. Era assim que me sentia com meus familiares e amigos. Meus amigos até viam e curtiam os filmes. Mas não eram como eu. Eu vivenciava aquilo. Eu tirava ensinamentos preciosos. Meus familiares sempre odiaram os filmes. Quando saíram as duas fitas do primeiro filme, eu aluguei desesperadamente e queria que todos vissem, mas eles odiaram. Não chegaram a uma hora de filme. Simplesmente disseram que eu era um retardado por gostar tanto daquilo. Eu passava horas na casa do meu amigo, aquele que comprou o livro e me levou ao cinema, pois ele havia comprado o DVD e aquilo pra mim era inédito, pois eu nunca havia tido contato com um DVD antes. Não sabia como um player funcionava e achei fantástico, era o meu melhor programa de sábado à tarde. Mas meu amigo começou a ficar saturado com a história e acabou me dando o livro de presente. Acho que foi o melhor presente que ganhei até hoje. Pois ele foi a chave de um novo caminho.

Mas como surgiu realmente a idéia de fazer um curta-metragem do Hobbit?
Um dia eu estava assistindo os extras da Sociedade na casa do meu amigo, e vimos que O Peter Jackson procurava um ator para o papel do Frodo e estava desesperado. E que um dia recebeu uma fita do Elijah Wood com uma cena que ele havia gravado numa montanha perto de Hollywood. Uma espécie de fita-teste. O próprio Elijah em entrevistas havia dito que tinha sido algo muito simples e que ele pediu pro Peter não mostrar isso a ninguém, depois do sucesso dos filmes.

Não que eu um dia quisesse me comparar ao Elijah, mas na época eu pensei: “Se ele pode, por que não eu?” E foi quando me veio a idéia de fazer uma fita para mandar pro Peter, pra fazer parte disso tudo, pra tentar conseguir algo, nem que seja conhecê-lo. Algo feito para ele apenas e pra mais ninguém. Mas gravar o que? Como? Com quem?

Meu inglês não era bom, meus colegas caçoavam de mim, eu era pouco popular na escola com poucos amigos, minha família não era rica e nunca me apoiou plenamente nisso, eu não sabia atuar, nunca havia operado uma câmera, muito menos editado uma fita.

Resolvi alguns problemas primeiro, que eu considerava mais urgentes. Entrei no teatro e comecei a fazer inglês com uma tia minha que morou na Inglaterra por anos. Me dediquei muito, estudei muito, e prometi que iria perseguir meu sonho de conhecer o Peter Jackson e ser parte de um de seus filmes, fazendo o que fosse preciso. Na época, um amigo havia me presenteado com uma réplica do Um Anel que vinha de brinde, eu arrumei um cordão e coloquei no pescoço imediatamente. E ali ele ficou, e era ele meu amuleto quando eu perdia as esperanças em algo.

Conversei com alguns amigos que toparam me ajudar mas nunca realmente se empolgaram com a idéia. E nisso se passou um ano, eu lendo, pensando, estudando. Até que um dia eu percebi que o passo mais óbvio dos estúdios após o último filme seria começar “O Hobbit” uma vez que o “Silmarillion” ou qualquer outro livro seria extremamente difícil e sem a continuidade esperada. Assim, no final de 2002, peguei uma versão online do livro na internet e comecei a ler em inglês. Foi o primeiro esboço de roteiro da minha vida. E tenho guardado até hoje, porque era muito ruim, muito ingênuo e megalomaníaco. Mas foi o começo de tudo, foi uma época da minha vida que eu sabia que aquilo era possível, que eu tinha as maiores esperanças do mundo e que triunfar era apenas uma questão de tempo. Confeccionei as primeiras roupas dos anões de papel crepom, os cintos de papel laminado prata e dourado, as barbas de linha de tricô, e a capa do Bilbo e dos anões de TNT. Iria filmar com a câmera de um amigo, uma VHS de forma linear, e gravar a trilha sonora na hora com um discman e caixinhas de computador. Nem preciso dizer como ficou. Vergonha, Decepção. Eu ainda não estava pronto e isso era visível. Então reformulei meus planos e resolvi fazer da forma certa. Peguei o caminho mais longo e não o atalho. Minha estratégia era clara, sair do meu Condado, ir para a cidade grande para fazer Faculdade de História, estudar mais profundamente Tolkien, me profissionalizar como ator numa escola de renome, estudar cinema, participar de filmes para ganhar experiência e chegar até o Peter sem passar vergonha. Eu estava disposto. Mas será que isso tudo era o suficiente?

CONTINUA (Pra não perder o costume…)