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A história de “O Hobbit”: como tudo começou

Tudo o que me lembro sobre o início de O Hobbit é de sentar para corrigir provas para o Certificado Escolar no cansaço interminável daquela tarefa anual imposta sobre acadêmicos sem dinheiro e com filhos. Em uma folha em branco rabisquei: ‘Numa toca no chão vivia um hobbit’. Não sabia e não sei por quê.”

J.R.R. Tolkien, Carta 163

 

Assim começa uma das mais empolgantes histórias já vistas no mundo. O Hobbit foi o um sucesso de vendas, e abriu a caminho para a publicação de outras obras famosas de Tolkien, como O Senhor dos Anéis. O livro foi traduzido para mais de 35 línguas, de Armênio a Ucraniano, passando por Catalão, Esperanto e Chinês.

Tolkien começou a escrever O Hobbit por volta de 1930, e o lia para seus filhos à noite. Não eram raras as paródias do livro escritas pelas quatro crianças da casa. É evidente que John, Michael, Christopher e a pequena Priscilla tiveram um papel fundamental na composição da história.

O papel em que Tolkien rascunhou a primeira frase não sobreviveu. O fragmento mais antigo de O Hobbit que sobreviveu foi um manuscrito de seis páginas (três folhas). É um pedaço da festa inesperada. Não tem “começo” nem “fim”, indicando que fazia parte de um manuscrito maior, que se perdeu.

É um texto muito próximo do Uma Festa Inesperada que conhecemos hoje. Mas muitos dos nomes eram diferentes. Que tal ler uma história em que o anão Gandalf e seus companheiros tentam recuperar um tesouro do terrível dragão Pryftan, ajudados pelo mago Bladorthin, que tem um mapa feito pelo avô de Gandalf, Fimbulfambi?

Uma das páginas do manuscrito contém um adendo interessante: o mapa de Fimbulfambi, a primeira versão do que viria a ser o Mapa de Thrór. Confiram abaixo:

O mapa de Fimbulfambi – a primeira versão do mapa de Thrór

Tolkien, na mesma época, fez uma cópia datilografada do manuscrito, mas que cobria uma parte maior: começava na famosa frase ‘Numa toca no chão vivia um hobbit’, mas termina logo depois do mago Bladorthin revelar a localização da porta secreta.

Tolkien não avançou mais na escrita por um longo tempo. Quando resolveu retomá-la, recomeçou exatamente do mesmo ponto onde a cópia datilografada termina. A intrigante abertura foi se transformando numa história completa. O Professor produziu nessa época 155 páginas manuscritas. Embora ele fizesse várias pequenas pausas, para produzir rascunhos e planejar o que estava por vir, foi uma escrita constante de um modo geral. Ele costumava escrever nos intervalos entre os semestres de Oxford.

Essa segunda fase da composição cobre a história que vai até mais ou menos o atual capítulo XIV (Fogo e Água). É praticamente a história que conhecemos hoje, embora haja algumas diferenças na nomenclatura, – o mago Bladorthin só passou a se chamar Gandalf no fim do processo de composição dessa fase – embora haja algumas diferenças no enredo. Por exemplo, em um dos rascunhos Bilbo entra secretamente na Montanha Solitária e mata Smaug.

Depois de outra longa pausa, Tolkien retoma a história, do ponto onde a havia abandonado, e a termina. Essa última seção, que vai do meio do capítulo XIV até o fim do livro, foi certamente escrita entre dezembro de 1932 e janeiro de 1933.

Esse não é o livro que conhecemos hoje. Tolkien fez cópias datilografadas e várias revisões posteriormente. Mas foi basicamente essa história que chegou às mãos de um editor em Londres, que a transformou em um sucesso literário. Mas essa é outra história.

O nome ‘Bilbo’

Bilbo é, claro, um sobrenome real que, embora raro, sobrevive nos tempos modernos: quando meu pai estava crescendo perto de Hopo, Arkansas, no começo dos anos 30, entre seus vizinhos estavam os Bilbos, alguns dos quais ainda viviam na área em meados da década de 70. Infelizmente, a pessoa com este sobrenome mais conhecida é o notório senador Theodore Bilbo, do Mississippi (1877-1947) um político infame, mesmo para os padrões não tão exigentes do seu tempo, por seu racismo e sua corrupção; por sorte, ele não pode ser a fonte para o uso do nome por Tolkien, pois não alcançou a proeminência nacional até 1934, tempo em que Tolkien já tinha completado o primeiro rascunho para o Hobbit.

Finalmente, como o Oxford English Dictionary (OED) testemunha, “bilbo” também existe, sozinho ou em combinação, em muitos substantivos comuns arcaicos, o mais importante desses sendo o nome de espada bem-temperada e flexível, originada de Bilbao, na Espanha. Tais “espadas-bilbow” eram frequentemente simplesmente chamadas “uma Bilbo”, frequentemente com a inicial maiúcula (sem dúvida por causa do substantivo próprio que deu a elas o seu nome) […] Similarmente, um tipo de algemas era conhecido em meados do século XVI como “um bilbo” ou “um bilbow”, e um jogo de bilboquê popular nos séculos XVIII e XIX era chamado “bilbo-catch” [bilbo-captura”] (mais antigamente bilboquet [NT: daí o nome em português!]. Mas parece improvável que o nome do nosso Bilbo derive de algum desses[…].

(Excerto do livro Mr Baggins, primeiro volume da série The History of The Hobbit, do estudioso tolkieniano John D. Rateliff).