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Chutando o Hobbit

Quando se trata dos romances de fantasia de J.J.R. Tolkien, a verdade é que os críticos ou os amam ou os odeiam: com relação à Terra-média, não há meio-termo. Este tem sido o caso desde que Tolkien, um filólogo de Oxford, publicou pela primeira vez seu romance épico O Senhor dos Anéis em três volumes (A Sociedade do Anel, As Duas Torres e O Retorno do Rei), entre 1954 e 1955. Em 1956, W.H. Auden escreveu no New York Times que, em alguns aspectos, a história de Tolkien sobre a demanda do hobbit Frodo para destruir o “Um Anel” de Sauron ultrapassava até mesmo a obra Paradise Lost, de Milton. Mas naquele mesmo ano, Edmund Wilson, que naquela época era um homem de letras proeminente na América, rejeitou O Senhor dos Anéis como sendo uma “bobagem”, em uma crítica para o The Nation, intitulada “Ooh, Aqueles Horríveis Orcs?”. Wilson também atacou os defensores de Tolkien, como Auden e C.S. Lewis, observando que “certas pessoas” talvez especialmente na Grã-Bretanha “têm um apetite vitalício por lixo juvenil.”

A crítica zombeteira de Wilson inaugurou uma estimável tradição de ataques a hobbit, mas o resistente sucesso da ficção de Tolkien tem prejudicado seus detratores literários. Em 1961, Philip Toynbee escreveu de forma otimista, no The Observer de Londres, que os trabalhos de Tolkien haviam “partido para um esquecimento misericordioso”. Quarenta anos depois, O Senhor dos Anéis já vendeu 50 milhões de cópias em inúmeras línguas, influenciando tudo, desde Star Wars até Led Zeppelin, e desenvolvendo por si só o gênero de ficção de fantasia no processo. (O romance de Tolkien de 1937, O Hobbit, vendeu quase a mesma quantidade de cópias). Nos dias de hoje, os fãs de Tolkien estão fazendo a contagem regressiva das semanas que faltam até dezembro, quando A Sociedade do Anel, o primeiro dos três arrasa-quarteirão de Tolkien projetados pela New Line, estreará nos cinemas.

Na Grã-Bretanha, os méritos literários de Tolkien têm sido o assunto de muitos debates públicos. Em 1996, uma pesquisa de 26.000 leitores feita pela loja de livros Waterstone coroou O Senhor dos Anéis como “livro do século”. Escrevendo na W: The Waterstone’s Magazine, Germaine Greer expressou seu descontentamento com os resultados da pesquisa. “Desde que cheguei a Cambridge como estudante em 1964 e encontrei uma tribo de mulheres adultas usando mangas bufantes, abraçando ursinhos e tagarelando com excitação sobre os feitos de hobbits, tem sido meu pesadelo que Tolkien pudesse se tornar o escritor de maior influência do século XX. O sonho ruim se materializou.”

Em sua curta introdução para a edição crítica de “O Senhor dos Anéis” de J.R.R. Tolkien, feita no ano passado pela Chelsea House, Harold Bloom — o famoso “Falstaffiano” professor de inglês de Yale que se auto-designou guardador da grande lista da literatura Ocidental — chama o romance de Tolkien de “inflado, escrito em demasia, tendencioso e moralista ao extremo”. Bloom conclui: “Se Tolkien é ou não um autor para o próximo século me parece algo aberto a dúvidas.”

No entanto, o fato de que Harold Bloom editou dois livros de críticas sobre Tolkien sugere que O Senhor dos Anéis pode estar à beira de alguma forma de inclusão no cânon da literatura. Certamente há suficiente conhecimento sobre Tolkien aí afora para confirmar isso. A adoradora legião de defensores literários de Tolkien insiste que a história dos hobbits e da Terra-média é um trabalho literário notável, original e, acima de tudo, totalmente moderno, que tem sido injustamente difamado por literatos esnobes.

Embora ainda marginalizados na academia, os Tolkenianos podem estar ganhando espaço. Em maio, a Houghton Mifflin publicou J.R.R. Tolkien: Autor do Século, uma extensa defesa da ficção de Tolkien feita pelo professor da Universidade de St. Louis T.A. Shippey. Shippey é um estudioso sério, e de fato passou a ser detentor da cadeira de língua inglesa e literatura medieval na Universidade de Leeds, quando Tolkien a deixou vaga em 1925. O livro de Shippey foi lançado um ano atrás no Reino Unido e causou debates tipicamente cruéis: um crítico a rejeitou como sendo “um trabalho de polêmica típica de revistas de fãs discutido de forma beligerante.”

No começo do mês, o Instituto Medieval da Universidade Ocidental de Michigan em Kalamazoo “cuja reunião anual é o ponto zero para medievalistas profissionais” devotou três sessões inteiras a Tolkien pela primeira vez. O conhecimento de Tolkien havia há muito atraído os medievalistas; seu famoso texto de 1936, “Beowulf: O Monstro e os Críticos” foi recentemente anotado pelo poeta da Universidade de Harvard (e tradutor de Beowulf) Seamus Heaney como “a publicação que se destaca” em matéria de críticas a Beowulf. “As pessoas estão começando a levar Tolkien seriamente”, diz o professor de inglês da Universidade de Maryland e apresentador em Kalamazoo Verlyn Flieger, que publicou dois livros sobre Tolkien. “Ele já esteve morto por tempo suficiente.”

Em certos aspectos, o conhecimento sobre Tolkien lembra o conhecimento sobre James Joyce, digamos, ou sobre William Faulkner. Críticos derramam-se sobre a correspondência de Tolkien e seus papéis e rascunhos não-publicados — muitos dos quais foram postumamente lançados por seu filho e promotor literário Christopher Tolkien — buscando dicas sobre a mente e universo imaginado do escritor. Há biografias e bibliografias de Tolkien; há organizações de estudos sobre Tolkien; há Tolkenianos de universidades assim como inúmeros independentes.

Da mesma forma que aconteceu com Joyce, a linha entre estudos sobre Tolkien e grupo de fãs de Tolkien fica um pouco tênue. Considere a professora de inglês Jane Chance, da Universidade de Rice, que organizou os painéis de Tolkien no Kalamazoo, publicou dois livros sobre Tolkien e ensina “Inglês 318: J.R.R. Tolkien”. O resumo soa como muitas outras aulas de literatura das faculdades: “O curso traçará a tensão entre o exílio … e a comunidade, diferenciação e heroísmo, identidade e marginalização, vingança e perdão.”

Mas quando perguntei à Chance como é ensinar Tolkien, a resposta dela foi surpreendente: “Eu posso apenas responder de forma muito pessoal, por ter ensinado Shakespeare e Tolkien: não vejo nenhuma diferença.”.Certamente que O Senhor dos Anéis é um texto rico e de várias camadas, e que seu autor era um homem de grande conhecimento e imaginação que criou um vasto e detalhado mundo ficcional de surpreender a mente, completo com sua própria história, civilizações e línguas. Fazer um tour pela Terra-média com Tolkien pode ser como fazer um tour pelo Mediterrâneo com Heródoto. Ainda assim, quando os Tolkenianos conclamam as honras de “autor do século” e atacam as cercas ao comparar seu homem com o Bardo, não é de se admirar que os tipos como Harold Bloom estejam evitando dar seu selo de aprovação.

Além disso, parte dos problemas para alguns dos mais céticos críticos é a cultura política que o cercava. Alguns detratores, como Greer, não conseguem esquecer os anos 60, quando pichações e camisetas “Frodo Vive” eram abundantes. Apesar das políticas católicas conservadoras — alguns diriam reacionárias — de Tolkien, O Senhor dos Anéis tornou-se leitura obrigatória para adeptos da contra-cultura durante a era do Vietnã. Os ativistas anti-guerra viram, no conselho do mago Gandalf de destruir o poderoso porém corruptor Anel, em vez de usá-lo como uma arma contra Sauron, uma clara alusão ao flagelo das armas nucleares. Defensores do meio-ambiente, enquanto isso, apontaram para os amados Ents de Tolkien, as criaturas arbóreas ruminantes que “despertam” para proteger sua floresta de Fangorn do amante de machados Saruman — que com sua mente de metal e rodas … não se importa com coisas que crescem, exceto as que lhe servirem no momento”. E também há os freqüentes intervalos dos hobbits para aproveitar os cogumelos e “erva de fumo”. Adeptos da maconha sentiram que sabiam exatamente onde Tolkien estava se dirigindo.

O próprio Tolkien não era fã desses fãs, dentre os quais alguns até hoje encaram o famoso comentário “Eu sou de fato um hobbit” como um convite para se encontrarem e se vestirem como os personagens da obra. David Bratman, antigo editor do informe sobre estudos tolkenianos Mythprints, diz que os “cultos deploráveis” a Tolkien (nas palavras do próprio autor) não deveriam ser usados contra ele (Tolkien). “Artistas não deveriam ser culpados por atraírem seguidores tolos”, concordou outro crítico britânico em 1992, “ou se devessem ser culpados, deveríamos também depreciar Blake, Byron, e D.H. Lawrence.”

Fãs vestidos de elfos à parte, por que não deveria ser admitido o ingresso de Tolkien ao panteão literário? Bom, uma razão, alegam seus detratores, é que sua prosa é intoleravelmente arcaica. “Às vezes, lendo Tolkien, me recordo do Livro de Mórmon”, escreve Bloom. Os versos de Tolkien — que recheiam o texto de O Senhor dos Anéis — é geralmente considerados até piores.

Mas as objeções críticas a O Senhor dos Anéis não são meramente estilísticas; muitos consideram as sensibilidades de Tolkien pré-modernistas, até mesmo retrógradas. A visão de mundo de Tolkien estava longe de olhar para frente. Ao contrário, seus traumas de juventude da Primeira Guerra Mundial o tornaram recluso e devotamente anti-moderno para o resto de sua vida. “Alguém precisa passar pessoalmente sob a sombra da guerra para sentir sua opressão”, escreveu Tolkien. “Por volta de 1918, todos os meus amigos mais próximos estavam mortos, menos um.” E assim Tolkien enterrou-se no estudo de línguas antigas e na construção de uma teoria de fantasia — exposta em seu influente ensaio “Sobre Contos de Fadas” — enfatizando seu poder em acessar realidades profundas e talvez míticas sob a superfície da vida cotidiana.

Freqüentemente, esta teoria — e a literatura que deveria incorporá-la — tem sido zombada como sendo escapista. Dessa forma, o fardo ficou a cargo dos Tolkenianos mostrar que, apesar de seu arcaísmo, Tolkien era mesmo assim um autor moderno. Shippey, por exemplo, vê O Senhor dos Anéis como um trabalho moderno infalível em sua tentativa, por meio do modo fantasioso, de lidar com maior dos traumas do século XX: a evidência de mal humano radical apresentado pelas duas guerras mundiais. Durante o sítio à cidade de Minas Tirith pelas forças de Mordor em O Retorno do Rei, Tolkien fornece esta cena de um disparos por meio de catapultas:

“Por todas as ruas e alamedas por trás do Portão caíam pequenos projetos redondos que não explodiam. Mas, quando os homens corriam para saber o que poderia ser aquilo, soltavam gritos ou choravam. O Inimigo estava arremessando para dentro da Cidade todas as cabeças daqueles que tinham caído na luta… Eram horripilantes de se olhar, pois, embora estivessem esmagadas e disformes, e alguns tivessem sido cruelmente estraçalhadas, muitas ainda conservavam seus traços, indicando que aqueles homens tinham morrido em sofrimento.”

Embora esta chuva de cabeças ocorra num mundo de fantasia, o sentido do brutalmente horrível transmite a experiência de Tolkien como veterano das trincheiras na I Guerra Mundial. De fato, Shippey agrupa Tolkien com George Orwell, Kurt Vonnegut e William Golding como sendo autores que se voltaram para fantasia ou mundos imaginários a fim de lidar com experiências traumáticas de guerra. Nem 1984, nem Animal Farm — que ocuparam o segundo e terceiro lugares, respectivamente, atrás de O Senhor dos Anéis na pesquisa da Waterstone — poderiam ser descritos como trabalhos de “realismo” literário. No entanto, aceitamos a ambos como respostas profundamente sérias e políticas à s experiências de Orwell com o fascismo e comunismo.

Tolkien alega que ele jamais cedeu a alegorias em seus escritos, mas ele não negou “aplicabilidade”. Dessa forma, O Senhor dos Anéis pode ser lido como sua resposta à modernidade, ao mundo das guerras catastróficas, armas terríveis, e a industrialização, que Tolkien sentiu ser a destruidora de sua amada Inglaterra eduardiana e rural (representada em seus livros pelo pacífico, se não paroquiano, lar do “Condado”). E se o Um Anel de Tolkien representa a tecnologia, ou a orgulhosa capacidade humana de adulterar a natureza, então a mensagem é: destrua-o para sempre

Alguns estudiosos enxergam nas anti-tecnológicas visões de Tolkien uma poderosa tensão enviro-Luddita [1]. Em seu livro de 1997, Defendendo a Terra-média: Tolkien, Mito e Modernidade, Patrick Curry trata Tolkien como um tipo de precursor do movimento Verde — um Lorax literário. “Em todos os meus trabalhos eu tomo partido das árvores contra todos os inimigos delas”, escreveu Tolkien em 1972. Porém, há em Tolkien mais do que apenas a admiração pela natureza; há o oposto, uma profunda desconfiança em relação a todas as coisas “não naturais”. Quando o mago Saruman tem a presunção de remendar a natureza, o Ent Barbárvore reage dizendo “Isto seria um mal negro!” Os Jeremy Rifkins e Kirkpatrick Sales do mundo — juntamente com outros opositores da pesquisa de genoma, clonagem e biotecnologia humana — encontrariam um espírito familiar em Tolkien. Neste caso, o Unabomber também.

Mas provavelmente, a razão principal pela qual Tolkien não foi bem aceito pela maioria dos críticos, é que seus escritos não estão de acordo com os princípios do modernismo literário. A linguagem de Tolkien em sua maior parte aniquila a ironia, suas imagens tendem a ser genéricas e, com algumas exceções, seus personagens são inexplorados. Em Aspectos de um Romance, que é a marca registrada da teoria modernista literária de E.M. Forster, história e enredo são gentilmente zombados. Mas em O Senhor dos Anéis, o enredo é, provavelmente, o elemento literário mais irresistível. Leitores imersos em literatura modernista simplesmente não sabem como responder à prosa de Tolkien.

Eles também têm trabalho para compreender a abordagem filológica de Tolkien: ele estudou literatura e história das línguas com a mesma ênfase. Tolkien uma vez escreveu sobre seus livros que “a invenção das línguas é a fundação… Para mim, os nomes vêm antes e a história segue”. Ao ler isto, os críticos compreensivelmente acusaram Tolkien de usar jogos de palavras para composição de literatura. Shippey observa com tristeza que isto ocorre simplesmente porque, na batalha por ascensão em meio a paradigmas literários que competem dentro da academia, a filologia perdeu.

É muito difícil agora buscar um curso de filologia do tipo que Tolkien aprovaria em qualquer universidade britânica ou americana. Os misologistas[2] venceram, no mundo acadêmico; assim como os realistas, os modernistas, os pós-modernistas, os desprezadores da fantasia. Mas eles perderam fora do mundo acadêmico.

E é a isto que os Tolkenianos se apegam. Ao celebrar a resistente condição de best-seller de Tolkien, eles implicitamente reivindicam um mandato para buscar do passado os valores, modos acadêmicos e gostos literários que nos permitiriam melhor apreciar seus escritos. E, no entanto, considerando seu amplo ataque à modernidade, pode ser que a tentativa de pensar em Tolkien como escritor para este século falhe inevitavelmente.

Ainda assim, os Tolkenianos tem a surpreendente popularidade de O Senhor dos Anéis a seu lado — um fator-chave na reputação literária de Charles Dickens, por exemplo. Alguns Tolkenianos observam, com conhecimento de causa, que os filmes que estão para chegar vão, sem dúvida, conectar a geração Harry Potter a Senhor dos Anéis (embora os puristas possam estar secretamente nervosos sobre McLanche Feliz dos Hobbits). Enquanto isso, críticas referentes à obra de Tolkien já se tornaram um corpo de trabalho substancial, muito do qual não pode ser rejeitado de cara como panfletagem de fãs. Quando se trata de Tolkien, diz Jane Chance, “o popular se transformou em canônico” — ou, de qualquer forma, está ficando cada vez mais assim. Em última análise, a estatura literária de Tolkien pode ser garantida por puro impulso.

Notas de Tradução

[1] “Ludita” se refere a Ludd, líder de uma revolta contra máquina e manufatura, na Inglaterra da Revolução Industrial.

[2] misologistas são pessoas que querem vencer uma discussão, não chegar à verdade através da discussão.

[este texto foi originalmente publicado em 06 de abril de 2001]


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