Como Christopher Lee conheceu Tolkien e conseguiu seu papel em “O Senhor dos Anéis”?

É amplamente conhecido que Sir Christopher Lee conheceu o autor J. R. R. Tolkien e que relia O Senhor dos Anéis pelo menos uma vez por ano. Mas como foi este encontro? E sendo tão devotado assim ao autor inglês, como este celebrado ator conseguiu interpretar um personagem de seu amado livro em uma adaptação cinematográfica do mesmo?

As fontes são antigas, mas em decorrência da morte de Christopher Lee no dia 07 de junho passado, as informações sobre como ele conheceu seu autor preferido e como conseguiu o papel de Saruman na trilogia O Senhor dos Anéis ganharam recentemente novo destaque.

Assim, se você ainda não conhecia os pormenores desta história, leia abaixo o que o próprio Christopher Lee disse sobre isso.

Em entrevista concedida ao australiano  AintitCool (via arquivo do TheOneRing.net) em 2001, foi perguntado ao ator como foi seu encontro com Tolkien. A resposta é a mesma que Christopher Lee tinha publicada em sua home page oficial (que está fora do ar temporariamente). Nela, Lee mostra o quanto ficou literalmente sem palavras ao encontrar por acaso seu autor preferido.

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Repórter: O que você se lembra de seu encontro com Tolkien?

Christopher Lee: Muito pouco. Eu me reunia em Oxford com alguns amigos, e nós estávamos no Randolph Hotel. E alguém disse: “O que você está fazendo aqui, isso tudo é muito certinho. Vamos a um pub.” Isso foi há muito tempo atrás. Há quarenta e cinco anos ou mais. E nós fomos para este pub, que agora é mundialmente famoso, mas eu não me lembro do nome dele. Eu não posso honestamente me lembrar. Estávamos sentados ali conversando e bebendo cerveja ou algo assim, e alguém disse, “Oh, olha quem entrou”.  Era o Professor Tolkien e eu quase caí da cadeira. Eu nem sabia que ele ainda estava vivo. Ele era um homem de aparência bondosa, fumando um cachimbo, caminhando… Um camponês inglês com terra sob os seus pés. E ele era um gênio, um homem de conhecimento intelectual incrível. E ele conhecia alguém do nosso grupo. Ele (o homem no grupo) disse: “Oh Professor, Professor”, e ele veio. E cada um de nós, bem, eu me curvei, claro, e cada um disse: “Como vai você?” E eu apenas disse: “Co… Como… Como…” Eu simplesmente não podia acreditar. Mas eu nunca me esquecerei.

De acordo com o IMDB, depois disso, Christopher Lee e J. R. R. Tolkien se corresponderam e em carta Tolkien deu sua bênção ao ator para que ele interpretasse o Mago Gandalf em uma possível futura adaptação de O Senhor dos Anéis para o cinema. Porém, muitos anos depois, quando a oportunidade chegou, Lee já estava muito idoso para o papel, que exigia algum esforço físico.

Em entrevista concedida em 2010 ao Cinefantastique Online, Sir Christopher Lee confirma o encontro com Tolkien no famoso pub de Oxford, o The Eagle and Child, e conta ele mesmo como chegou ao elenco de O Senhor dos Anéis. Como a entrevista traz muitas informações interessantes e mostra todo o conhecimento que Christopher Lee tinha da obra de Tolkien, mantivemos as partes mais significativas, isto é, as relacionadas a Tolkien e à sua participação na adaptação de O Senhor dos Anéis.

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Lawrence French: O que você pensa sobre o enorme interesse em filmes de fantasia nos dias de hoje?

Christopher Lee: Eu acho que é porque todos nós gostamos de sonhar. Nós não vivemos em um mundo particularmente atraente. Eu realmente não me lembro, exceto quando era menino, de qualquer coisa assim, mas de um mundo muito triste. Sou velho o suficiente para ter visto Hitler em carne e osso. Sou velho o suficiente para poder ter estado em Munique, em 1934, na Noite dos Longos Punhais, quando Hitler massacrou muitos de sua própria gente. Sou velho o suficiente para me lembrar da Segunda Guerra Mundial e todas as outras coisas. Estou simplesmente sendo realista. Então, sim, não vamos perder a fé, sejamos otimistas, vamos acreditar nas coisas boas, mas ainda temos que enfrentar o mundo como ele é. Quando você vive em um mundo como esse, o que pode fazer? Você quer fugir, sair deste mundo de vez em quando, ir para um outro mundo, um mundo mágico, um mundo encantado, onde as coisas acontecem como quando sonhamos, como um mundo de contos de fadas e magos. É como o mágico, o feiticeiro, ou mago que diz: “Veja, nada na manga. Quando eu fizer isso, você entrará em meu mundo encantado!” Sonho, escapismo, é do que estamos falando. Acredito firmemente que é por isso que este tipo de filme é tão universalmente popular, e sempre será, porque as pessoas gostam de entrar em outro mundo.

 Você leu pela primeira vez A Sociedade do Anel quando saiu em 1954?

 Sim, e eu estava imensamente impressionado com o que eu li. Eu ainda acho que O Senhor dos Anéis é a maior realização literária da minha vida. Como tantas outras pessoas, eu mal podia esperar pelo segundo, e depois pelo terceiro livro. Nada como isso já tinha sido escrito. Outros autores, como T.H. White e Lewis Carroll inventaram mundos imaginários, mas Tolkien não apenas inventou um mundo imaginário, ele inventou raças imaginárias, que você pode facilmente acreditar. E ele criou longos apêndices com todas as árvores genealógicas das famílias e os nomes dos Reis do passado e assim por diante. É bastante incrível, realmente, toda a sabedoria e imaginação que entrou em sua escrita. E o que é ainda mais notável é que Tolkien, que era um professor de filologia, inventou novos idiomas. São duas as línguas élficas: o Quenya e o Sindarin. O Quenya é baseado em finlandês, e o Sindarin é basicamente galês. A maioria dos Elfos fala Sindarin. E se você quiser, pode aprender a ler, a escrever e a falar isso, assim como inglês ou qualquer outra língua. Eu sempre pensei que os livros dariam um filme maravilhoso, mas eu também sentia que provavelmente nunca aconteceria, por causa do enorme custo que isso seria para ser feito. Mas se eles nunca fossem feitos, eu sonharia que estaria neles. E isso é apenas para mostrar a você que às vezes os sonhos se tornam realidade.

 Você realmente encontrou J.R.R. Tolkien, não é?

 Sim, por acaso, realmente. Conheci-o com um grupo de outras pessoas em um pub em Oxford que ele costumava ir, The Eagle and Child. Fiquei muito admirado com ele, como você bem pode imaginar, então eu apenas disse: “como é que você está?” Eu também conheci T.H.  White, que escreveu The Once and Future King (O Único e Eterno Rei).

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Depois de ler o livro tantas vezes, você deve ter tido uma profunda compreensão de Saruman e de seu lugar na história.

Sim, a partir da leitura dos livros eu conhecia, naturalmente, Saruman e todos os outros personagens intimamente. E a maneira como ele é apresentado no roteiro é a forma como ele é apresentado nos livros. Saruman é um dos grandes Magos. Quando veio pela primeira vez à Terra-média havia cinco deles. Dois deles, os Magos Azuis, não são mencionados. Os outros três são Saruman, o Branco, que é o maior de todos eles. Então, há Gandalf, o Cinzento e Radagast, o Castanho. Nós não vemos Radagast no livro ou no filme. Então, basicamente, temos dois magos, Gandalf e Saruman. Eles têm corpos humanos, mas eles são imortais. Eles foram enviados para a Terra-média pelos Valar, que são os criadores e guardiães do mundo. Saruman é o número um, o mais poderoso e o mais brilhante de todos eles. E logo no início, Saruman era um mago bom.  A ele foi dado abrigo na torre em Isengard, e ele é o chefe da ordem dos Magos, os Istari, como são chamados. Ele também tem uma das sete grandes pedras videntes, uma Palantír. Ele e Gandalf são amigos há centenas de anos. Mas, como Gandalf descobre no primeiro filme A Sociedade do Anel, ele foi corrompido pelo poder escuro de Sauron. A ambição de Saruman faz com que ele pense que pode assumir como o Senhor dos Anéis, porque em algum momento ele sente que é mais poderoso do que Sauron. Mas este é o maior erro de sua vida, que é de muitos milhares de anos. Portanto, é a história de um grande feiticeiro, um dos maiores e mais brilhantes intelectos, sendo tentado até que a tentação finalmente consegue consumi-lo. Ele, claro, finge ser um servo de Sauron, mas Sauron vê através dele. É um personagem muito complexo, soberbamente escrito por Tolkien, embora muitas pessoas não percebam quem o é o verdadeiro Senhor dos Anéis. Quem você acha que é?

Sauron.

Exatamente, mas um monte de pessoas não percebe isso. É Sauron, porque ele havia feito muitos anéis, e como o poema diz: “Um Anel para a todos governar… e na escuridão aprisioná-los”. Sauron forjou o Um Anel e é quando Sauron descobre que Frodo agora possui o Anel que ele tenta recuperá-lo. Saruman sabe disso e ele quer o anel para si.

O que você pensa de Saruman ter se voltado para o lado escuro e se juntar a Sauron em uma união das duas torres?

Tolkien não explica isso. Possivelmente é a Palantír e o olho que tudo vê de Sauron. Saruman pensa, “se Sauron pode fazer isso, então eu posso”. Embora eu não pense que Saruman perceba plenamente que Sauron está sempre um passo à frente dele. Mas quando vemos primeiro Saruman, você acha que ele é um personagem muito agradável. Ele recebe Gandalf no jardim de Isengard com um sorriso e quando começam a falar sobre o Anel, ele diz: “Você tem certeza sobre tudo isso, o Anel de Poder foi encontrado?” Não há absolutamente nenhuma indicação de quem é Saruman de verdade para o público. Ele só se revela em sua câmara em Orthanc, quando ele diz: “Por que não nos unimos a Sauron?” E Gandalf fica tão horrorizado. Até então, Gandalf nem de longe imaginava que Saruman tivesse ido para o lado escuro. Ele ainda considera-o como seu superior e, como o chefe da ordem. Essa cena também foi meu primeiro dia de filmagem e, posteriormente, teveram de ser refeitas mais cenas, porque quando nós a fizemos pela primeira vez havia alguns Orcs no jardim. Gandalf é surpreendido por isso e ele diz, “Orcs em Isengard?” Por isso foi refeita para mostrá-la sem os Orcs.

Antes de fazer O Senhor dos Anéis você interpretou outro mago em uma série de televisão, The New Adventures of Robin Hood (As Novas Aventuras de Robin Hood).

Isso mesmo, e a única razão pela qual eu fiz isso foi para mostrar a quem estava assistindo que eu poderia desempenhar um mago e que eu seria ideal para o elenco de O Senhor dos Anéis.

What-a-pimpE você enviou uma foto sua como o mago de Robin Hood para Peter Jackson?

Sim, eu lhe enviei uma foto minha todo paramentado como o mago, mas era mais uma brincadeira, realmente. “É assim que eu fico como um mago, não se esqueça disso quando você lançar o filme”. Eu não precisava ter ficado tão ansioso, porque eu acho que Peter já tinha tudo pronto em sua mente. É isso que me disseram, de qualquer maneira, ele nunca pensou em mais ninguém para Saruman, exceto em mim, por isso não fez a menor diferença.

Você já conhecia Peter Jackson antes disso?

Sim, eu conheci o Peter quando eu era o presidente do júri no Festival de Cinema de Avoriaz, de 1993. Peter Jackson concorria com seu filme Braindead, e eu achei o filme muito, muito engraçado, muito parecido com o tipo de comédia do Monty Python. Como eu era presidente do júri, decidimos dar o grande prêmio a Braindead. Desde então, eu acho que sua carreira passou por um crescimento artístico constante. Ele começou com esses filmes de terror bizarros, e, em seguida, ele fez Heavenly Creatures, que foi muito bem feito. Ele é um grande diretor, que melhora cada vez que faz um filme.

Então, Peter Jackson entrou em contato com você sobre aparecer em O Senhor dos Anéis?

Sim, ele me perguntou se eu poderia fazer uma leitura. Algumas pessoas teriam dito não, mas eu certamente não o fiz. Eu me encontrei com Peter aqui em Londres, na sala dos fundos de uma velha igreja. Ele estava lá com um diretor de elenco e Fran Walsh, sua esposa, que também é uma das roteiristas. Eles me pediram para ler uma cena em frente a uma câmera de vídeo, e eu li uma cena entre Gandalf e Frodo. Era uma das primeiras cenas do livro. Eu acho que ele só estava me pedindo para ler algo do livro para dar-lhe uma ideia geral, e minha paixão e amor pelo trabalho era bastante óbvio para ele. Claro que eu teria adorado interpretar Gandalf, mas eu acho que ele nunca pensou em mim como Gandalf, porque naquela época eu já era velho demais para o papel.

Christopher Lee falou mais sobre isso em sua entrevista de 2001, já citada mais acima.

Repórter: Muitas pessoas dizem que você queria fazer Gandalf, anos atrás.

Christopher Lee: Oh, bem… anos atrás, quando os livros saíram! E, eu era muito jovem para fazer Gandalf [32 anos]. Eu era! Quando os livros saíram, alguém me disse: “Você leu esses livros, e você acha que eles serão transformados em um filme?” E eu disse que seria uma coisa maravilhosa, mas que duvidava. E ele disse: “Quem você gostaria de interpretar?” E, é claro que eu disse Gandalf, nada de estranho nisso. Quem não gostaria? Mas agora, eu sou muito velho para fazer Gandalf. E quando eu vi o que Ian [McKellen] fez, além de seu desempenho, e ver o que ele tinha que fazer fisicamente, fiquei extremamente agradecido!

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Você deve ter gostado de trabalhar com Peter Jackson, já que ele conhecia os livros tão bem e ele queria que fosse o mais fiel possível ao que Tolkien escreveu.

Sim, ele certamente compartilha minha paixão, como, aliás, todos nós fizemos. Todo o elenco e toda a equipe teve muita dedicação a este trabalho, e eu nunca tinha experimentado nada parecido. Peter sabia exatamente o que queria e como queria. Eu raramente conheci um diretor que estava tão absolutamente convencido sobre o que deveria ou não deveria aparecer na tela. Ele sempre parecia saber exatamente o que queria e não deixava sequer uma cena passar até conseguiu exatamente o que queria. Às vezes, isso significava muita demora. Mas poderia ser o ritmo da cena, poderia ser a inflexão do diálogo, poderia ser por muitas coisas. A intuição de Peter é extraordinária, em termos de como entregar o diálogo e como fazer a cena. Quando ele finalmente conseguia, dizia: “bem, vamos imprimi-la”, e você sabia que estava tão boa quanto deveria estar, o que é muito encorajador. Um bom diretor é alguém que se preocupa com o que o resultado final vai ser, e Peter Jackson é, certamente, um diretor que se importa. Então, o que estava na página impressa era o que eu fazia. E se Peter Jackson queria mudar isso, eu fazia isso. Se ele queria uma interpretação diferente ou um significado diferente ou uma certa ênfase dada a uma determinada linha, ou uma frase, ou mesmo uma palavra, eu fazia isso. Para mim, ele sempre parecia estar certo.

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Em As Duas Torres, somos apresentados ao seu novo cúmplice, Gríma Língua de Cobra, interpretado por Brad Dourif.

Sim, Brad Dourif é um ator brilhante. Ele é meu braço direito, pode-se dizer assim, que está espionando para mim, enquanto está aconselhando o Rei Théoden de Rohan. Ele tem uma atuação maravilhosa, assim como ele fez em filmes como Um Estranho no Ninho e Mississipi em Chamas. Ele é uma pessoa maravilhosa para se trabalhar e tremendamente entusiasmado com tudo o que faz.

Em As Duas Torres, embora você não tenha muitas cenas, você é um pouco como Harry Lime em The Third Man, uma vez que todos os outros personagens estão constantemente falando sobre você e o que você está planejando fazer.

Sim, Saruman se faz pairar sobre tudo como um tipo de ameaçadora nuvem escura. Todo mundo fala sobre os exércitos de Saruman e as forças de Saruman. Eles falam sobre ele o tempo todo, por isso, embora não tenha tantas cenas minhas como houve no primeiro filme, onde você tinha que estabelecer o personagem, a sombra de Saruman ainda paira sobre tudo o que acontece. Assim, mesmo que ele seja uma presença invisível, quando você vê Saruman, ele é imensamente poderoso e ele ainda passa por todas as emoções que estão no livro: o sentimento de poder, o poder real, o efeito hipnótico de sua voz e o que ele diz e faz. As Duas Torres é realmente uma espécie de confirmação da queda de Saruman, o que é conseguido em parte por seu poder e depois pelo poder que ele tanto desejou. Além disso, várias das minhas cenas que foram cortadas de As Duas Torres estão agora restauradas no DVD das edições estendidas. Agora você pode ver meu encontro com o líder dos Homens Selvagens e Gríma me contando sobre mais um anel, o anel de Barahir que é usado por Aragorn. Barahir foi um dos grandes senhores do Norte na Primeira Era. Ele tinha esse anel que foi transmitido ao longo de milhares de anos e, eventualmente, ele entrou na posse de Isildur.

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Deve ter sido emocionante trabalhar com Ian McKellen nos três filmes. Ele disse que estava realmente entusiasmado por trabalhar com você.

Ah, Ian é um homem tão bom. Ele sempre disse coisas muito agradáveis ​​sobre mim e eu estou feliz em retribuir o elogio. Ele não só é um ator muito distinto e eminente, como tem um maravilhoso histórico – principalmente no teatro – mas também, em certa medida, em filmes. Ele é um grande ator para se contracenar, como eu fiz, e ele já filmava há algumas semanas, enquanto eu estava em meu primeiro dia, o que pode ser difícil, para dizer o mínimo. Minha primeira cena era a do jardim em Isengard, onde eu descia as escadas e encontrava Gandalf. Fiquei até às três da manhã daquele dia trabalhando com Ian McKellen. Mas Ian era imensamente colaborativo e muito encorajador. Isso não acontece com muita frequência nos dias de hoje, em que você está trabalhando com um grande ator e ele ajuda e orienta você. Mas isso é exatamente o que Ian fez comigo no início do filme. Eu estava tão feliz que a maioria das minhas cenas fossem com Ian, especialmente depois que eu iniciei os trabalhos muito ferido, quando uma porta bateu em dois dos meus dedos. Minha mão estava toda enfaixada e ensanguentada, então eu tive que escondê-la, e se você olhar com muito cuidado, você pode ver isso no filme. Foi realmente muito difícil, porque eu estava com muita dor, mas Ian foi extremamente útil, muito encorajador. Ele é uma pessoa tremenda para se trabalhar e você não encontra isso com muita frequência nestes dias. As pessoas estão tão preocupadas com o que eles consideram ser rivalidade, ou confronto. Elas só pensam em si mesmas, e elas não dão a mínima para as outras pessoas que estão trabalhando. Mas a palavra é a colaboração, não confronto, e Ian McKellen é um brilhante exemplo disso. Assim, muitas pessoas pensam que um outro ator poderia ser algum tipo de ameaça para elas, em termos de desempenho. Há algumas grandes estrelas que não querem qualquer outra pessoa no filme com elas, porque elas são tão inseguras de si e você pode ver isso em seus filmes.

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Ian McKellen disse que você o assustou em uma cena em que sorrateiramente chegou por trás dele e rosnou, como se você estivesse interpretando Drácula.

Não, não é verdade de todo. Essa é uma boa história, mas eu não o assustei por atrás. O que ele disse foi que ouvir um rosnado Lee bem de perto é bastante inquietante.

Então você não tentou assustá-lo como Drácula?

Não, de maneira alguma. Esse papel foi interpretado pela última vez por mim há mais de 30 anos atrás! Não tenho mais nenhuma ligação com ele. Nem quero ter.

Na verdade, eu pensei que teria sido maravilhoso se Francis Ford Coppola tivesse usado você como Drácula no início de sua versão para o cinema. Você poderia ter feito o conde da Transilvânia, exatamente do jeito que Stoker o descreveu, como um homem velho e com um bigode. Então, quando Drácula chega a Londres e começa a beber sangue, ele iria ficar mais jovem e ser transformado em Gary Oldman!

Bem, nada foi feito nesse sentido. Isso não aconteceu e é muito tarde agora. Eu vi a versão de Coppola, e ele fez alguns filmes maravilhosos, seu Drácula não foi igual ao do romance de Stoker. Ninguém nunca fez um filme sobre o Drácula, do livro, exatamente como Stoker escreveu. Eles chegaram perto algumas vezes, mas nunca foi feito. O mais próximo que eu já vi, foi quando eu fiz Count Dracula na Espanha, com Herbert Lom e Klaus Kinski. Eu tinha um bigode e ainda consegui dizer algumas das linhas de Stoker, mas era uma bagunça, por razões de produção. No filme de Coppola, Gary Oldman não tem um bigode, e ele estava vestindo o que me pareceu um vestido vermelho! Ele também tinha um penteado que eu pensei que era um absurdo. Não era como Stoker descreveu o personagem. No livro, Stoker descreve Drácula como vestindo preto da cabeça aos pés, sem um único pingo de cor sobre ele. Mas, tanto quanto eu estou preocupado, o personagem já está há muito no passado para mim, e eu realmente não estou tão interessado em falar sobre o passado, apenas sobre o presente e o futuro.

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Você foi amplamente mencionado por dizer que só esperava ainda estar vivo em 2003, para conseguir ver a parte final da trilogia O Senhor dos Anéis...

 Sim, isso é verdade.

 …É por isso que foi, obviamente, perturbador para você quando descobriu que Peter Jackson tinha cortado a sua cena final da morte [de Saruman] em O Retorno do Rei. O designer de produção Grant Major me disse que a cena originalmente deveria aparecer no final de As Duas Torres e depois que não foi utilizada, e que Peter Jackson a colocaria no início de O Retorno do Rei, em seguida, decidiu por cortá-la, porque ele pensou que ela abrandava a abertura do filme.

Sim, eu estava realmente indignado quando Barrie Osborne me ligou para dizer que eu não estaria no terceiro filme. Ele me disse que eles estavam preocupados sobre como manter a minha cena no terceiro filme, porque todo mundo pensaria que era uma continuação das Duas Torres, depois de me ver e Gríma na varanda de Orthanc a olhar horrorizado como tudo à nossa volta estava sendo inundado. Eles sentiram que se incluíssem na abertura no Retorno do Rei, pareceria como uma continuação das Duas Torres. Eu pensei que era um pouco estranho, porque é de fato uma continuação das Duas Torres e é uma parte crucial da história. Você não pode ver Saruman desesperado em uma varanda, enquanto tudo em Isengard está sendo destruído e depois nunca mais vê-lo novamente! O público sentiu que era necessário, na verdade, eles exigiram saber o que aconteceu com Saruman!

A cena restaurada no DVD estendido é maravilhosa, porque depois que você tenta persuadir o Rei Théoden a fazer a paz, você se torna enraivecido, gritando com ele, “O que é a casa de Rohan se não um estábulo com teto de palha onde bandidos bebem em meio ao mau cheiro e seus fedelhos rolam pelo chão junto com os cachorros?” O diálogo vai diretamente em direção ao livro.

Sim, e mesmo na derrota Saruman ainda pode exercer o seu poder e que os deixa desconfortáveis. Veja, eu tinha que fazer o público acreditar que Saruman ainda é um hipnotizador muito considerável, particularmente com a sua voz. Há um capítulo em As Duas Torres chamado “A Voz de Saruman” e Tolkien descreve a voz de Saruman como “baixa e melodiosa, soando muito como um encantamento”. Saruman é capaz de hipnotizar as pessoas com a sua voz e no início ele foi bem-sucedido. As pessoas caem sob seu feitiço, mas não mais o Rei Théoden e Gandalf. Eles agora veem Saruman pelo que ele é. Ele então diz para Gandalf, “Oh, você quer informações. Posso dar-lhe algumas. Todos vocês irão morrer!” Isto é naturalmente cruel e sarcástico. Mais tarde, no livro, Gandalf finalmente ri de Saruman, e, em seguida, outro lado do seu personagem é revelado: o ódio e a fúria quando algo não sai do jeito que ele quer. Assim, parte dele é selvagem e duro, parte dele é sarcasmo e desprezo, e parte dele é “Eu sei de coisas que você não sabe, coisas que você não consegue enxergar”.

Como você sabe muito sobre os livros de Tolkien, você foi algum tipo de conselheiro não oficial do filme?

Não, eu não me lembro disso. Mas os membros do elenco e da equipe estavam sempre tentando me pegar. Eles me faziam perguntas como: “Qual era o nome do pai de Frodo”, ou “qual era o nome desta ou daquela espada”. Coisas como essas. Bem, eles nunca me pegaram, nenhuma vez! Eles tentaram, mas nunca conseguiram.

Além de ser cortado do Retorno do Rei, eu fiquei um pouco surpreso por seu nome não ser mencionado como melhor ator coadjuvante em qualquer um dos anúncios comerciais da New Line Cinema, como ocorreu para os dois primeiros filmes.

Bem, isso não me incomoda, porque não é uma questão de saber se eu sou mencionado, ou se meu nome está em uma determinada posição nos créditos. É o que está na tela que é muito mais importante do que quaisquer comentários críticos. Você estava dizendo algumas coisas muito agradáveis ​​sobre o meu desempenho no filme. Assim algumas pessoas concordam com você e algumas pessoas nem sequer mencionam isso. Mas é o que está na tela que conta. Eu continuo dizendo isso, porque é verdade. É o que está na tela e que o público vê, ou o que a indústria vê e que os membros da Academia veem, qual é coisa realmente importante?

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Sim, exatamente. E agora, depois de seus papéis em O Senhor dos Anéis e nos dois filmes de Star Wars, tudo que você precisa é um papel em um dos filmes de Harry Potter para completar com as três das maiores bilheterias de fantasia do novo milênio.

É engraçado você dizer isso, porque após meu agente ter visto o roteiro do primeiro filme de Harry Potter, ela estava falando com um dos produtores e disse-lhe: “há uma parte no filme que seria ideal para Christopher Lee”. Bem, este produtor lançou-lhe um olhar de absoluto horror e disse: “oh, mas ele já interpretou um mago!” Agora, você pensaria que um produtor esperto poderia dizer: “oh, ele vai fazer um mago em O Senhor dos Anéis, que será um enorme sucesso, vamos levá-lo para Harry Potter”. Eu li o primeiro livro de Harry Potter e parece-me que ele é realmente para as crianças, embora eu ache que adultos possam apreciá-lo também. Por outro lado, O Senhor dos Anéis não é para crianças, e quando eu digo crianças, quero dizer as crianças muito jovens, aquelas com menos de nove ou dez anos, embora alguns deles, sem dúvida, ainda possam lê-lo.

Orson Welles falou sobre o que ele chamou de “ator rei”. Ele achava que um ator fazia o seu melhor trabalho quando interpretava pessoas de grande poder, como reis, primeiros-ministros ou magos.

Sim, esses tipos de personagens são definitivamente um desafio para o ator. No caso de Saruman, o que você tem que fazer é o público acreditar em seu imenso poder. Você tem que fazer as pessoas acreditarem que ele não é um homem, que é um imortal em um corpo humano. A questão é o que ele vai fazer com esse poder? Será que ele pode controlá-lo? Será que ele acredita em seu próprio destino, ou existem dúvidas? Todas essas coisas estão nos livros.

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Você já disse várias vezes que acha que O Senhor dos Anéis entrará para a história do cinema.

Sim, eu disse em meu segundo dia de trabalho no filme, quando os executivos da New Line Cinema chegaram à Nova Zelândia e me perguntaram como eu achava que tudo estava indo. Eu disse: “Vocês estão criando a história do cinema!” Eu acho que todo mundo tem uma conexão com os filmes. Estes filmes serão vistos durante anos e anos, muito depois de os filmes de Harry Potter – e não vou dizer desaparecidos, mas talvez – ter perdido o seu apelo. É a alma de Tolkien na tela. Este filme é um milagre moderno e será lembrado por um longo, longo tempo. O Professor Tolkien teve uma visão por um período muito longo de tempo. Peter Jackson teve uma visão. E eu tenho a minha própria visão: Vejo o Professor Tolkien caminhando até Peter Jackson, apertando sua mão e dizendo: “Muito bem, meu rapaz, muito bem.”