Descoberto registro hospitalar de Tolkien da Primeira Guerra Mundial

Tolkien_aged_24_in_military_uniform_while_serving_in_the_British_Army_during_the_First_World_War_1916O britânico The Guardian publicou uma interessante notícia para os fãs de Tolkien que se interessam pela sua participação como um jovem tenente do exército britânico durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918): registros médicos do exército mostram que a febre de trincheira contraída por Tolkien pode ter salvo sua vida. Os registros evidenciam que o autor foi enviado para casa, na Grã-Bretanha, pouco antes de seu batalhão ser atingido por um “maciço bombardeio” alemão, durante a terrível batalha do Somme, França, em 1916.

Descoberto pela equipe do Forces War Records quando digitalizavam dezenas de milhares de registros para disponibilizá-los para a consulta de pesquisadores e para o público em geral, pela primeira vez, os documentos de Tolkien mostram que o segundo-tenente de 25 anos foi encaminhado para o hospital de campanha de ambulância em 28 de outubro de 1916. Ele foi tratado lá por dois dias, antes de ser transferido para um trem e enviado para casa, no Reino Unido.

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JRR Tolkien's admission and discharge book

De acordo com o Forces War Records, enquanto Tolkien estava convalescendo, o seu 11º Batalhão de Fuzileiros de Lancashire foi atingido por fogo de morteiros alemães, ferindo muitos na linha de frente com um “maciço bombardeio”.

“É provável que contrair a febre das trincheira pode realmente ter salvado sua vida. Durante o resto da guerra, ele esteve ou no hospital, onde teve várias recaídas, ou de serviço em outros campos em casa”, disse a organização, que descreveu a descoberta dos registros do autor d’O Hobbit como “surpreendente”, porque a maioria dos registros médicos e hospitalares foram destruídos após a guerra, com apenas 2% agora restantes no Arquivo Nacional. Atualmente a equipe está transcrevendo e digitalizando estes documentos – algo que não tinha sido feito por causa da dificuldade de ler os escritos à lápis muito fracos, e interpretar as inúmeras abreviaturas.

Tolkien sofreu de febre das trincheiras, que é transmitida por piolhos. Seus registros detalham que Tolkien tinha uma “febre de origem desconhecida”, além de dores de cabeça, erupções cutâneas, inflamação dos olhos e dores nas pernas.

A companhia de Tolkien foi enviada para a frente de batalha em 14 de Julho de 1916, escreveu seu biógrafo Humphrey Carpenter, com muitos soldados de seu batalhão mortos por tiros de metralhadora. “Corpos estavam em cada esquina, horrivelmente mutilados”, escreve Carpenter. “Aqueles que ainda tinham rostos olhavam com terríveis olhos fixos. As trincheiras da terra de ninguém estavam cheias de corpos inchados e em decomposição. Tudo ao redor era desolação.”

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Carpenter descreve a chegada do autor em um hospital de Birmingham: “Em questão de dias, ele se viu transportado direto do horror das trincheiras para lençóis brancos e uma vista da cidade que ele conhecia tão bem.”

Em dezembro daquele ano, Tolkien recebeu a notícia de que seu amigo G.B. Smith tinha morrido; não muito tempo antes, Smith havia escrito a Tolkien uma carta apelando para ele começar o grande trabalho que havia começado a esboçar há algum tempo, “um projeto grandioso e surpreendente, com poucos paralelos na história da literatura. Ele estava no caminho para criar uma mitologia inteira”, diz Carpenter.

Tolkien viria a publicar O Hobbit em 1937, e O Senhor dos Anéis em 1954. O Forces War Records cita uma carta que Tolkien escreveu, em 1960, na qual ele escreve que “Os Pântanos Mortos e as proximidades do Morannon devem algo ao norte da França depois da Batalha do Somme”, aludindo a passagens de O Senhor dos Anéis, que servem, segundo a organização, “como uma descrição do campo de batalha”:

“O único verde era o da erva daninha que aparecia sobre a superfície oleosa e soturna da água escura. Gramíneas mortas e juncos podres assomavam-se na bruma, como sombras irregulares de verões há muito esquecidos”, escreveu Tolkien em O Senhor dos Anéis. “Correndo para frente de novo, Sam tropeçou, prendendo o pé em alguma velha raiz ou touceira. Ele caiu e apoiou-se pesadamente em suas mãos, que afundou no lodo pegajoso… Por um momento, a água abaixo dele parecia uma janela, envidraçada com vidros sujos, através da qual ele estava olhando. Puxando a mão para fora do pântano, ele pulou para trás com um grito. ‘Há coisas mortas, faces mortas na água’, disse ele com horror.”

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Muitos que escreveram sobre Tolkien acreditam que suas experiências de guerra estão expressas em seus romances mais famosos, como a passagem de Frodo, Sam e Gollum pelos Pântanos Mortos descrita acima. “O Senhor dos Anéis possui paisagens horríveis, e há uma verdadeira sensação de perda que permeia toda a história, bem como o destino dos personagens de O Hobbit. O livro, que foi escrito 21 anos depois de Tolkien ter contraído a febre de trincheira, foi seguido por O Senhor dos Anéis. No prefácio de O Senhor dos Anéis, Tolkien, infelizmente, escreveu: ‘Em 1918, todos menos um dos meus amigos mais próximos estavam mortos’.”

Para o Forces War Records, apesar de um grande número de registros já ter sido transcrito por pessoal especializado, é espantoso se deparar com esse registro particular de Tolkien. Depois da guerra, a maioria dos registros médicos e hospitalares foram destruídos. Em alguns casos, um registro hospitalar pode ser a única prova existente de que o antepassado de alguém lutou na Primeira Guerra Mundial, e ainda mais difícil é encontrar informações sobre homens que, como J.R.R. Tolkien, foram feridos na guerra, mas sobreviveram.

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