100 anos de Terra-média |O poema de Tolkien que marca a gênese do Legendarium

O autor John Garth (Tolkien and the Great WarTolkien e a Grande Guerra, inédito no Brasil) publicou na última quarta-feira 24, no britânico The Guardian, um grande texto para celebrar o centenário da gênese da Terra-média.

Em 24 de setembro de 1914, enquanto a Europa caminhava em direção aos dias escuros da Primeira Guerra Mundial, um jovem estudante do Exeter College, em Oxford, chamado John Ronald Reuel Tolkien, escrevia um poema intitulado A Viagem de Éarendel, a Estrela Vespertina, um poema que seria a gênese de um mundo que cativou milhões de leitores em todo o mundo. Segue abaixo o texto de John Garth.

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JRR Tolkien em junho de 1914 - Exeter College
JRR Tolkien em junho de 1914 – Exeter College

Há um século, no dia de hoje, as forças russas estavam iniciando o cerco de 133 dias de Przemyśl e o exército alemão tomava Péronne. Enquanto isso, em uma casa de fazenda em Nottinghamshire, um jovem escrevia um poema sobre um marinheiro que navega dos limites da terra em direção ao céu. A Viagem de Éarendel, a Estrela Vespertina, merece ter o seu dia no centro das atenções ao lado das comemorações de guerra. Pois foi o momento de fundação da Terra-média.

Nem elfos e nem hobbits estavam ainda na mente de J. R. R. Tolkien. Mas o marinheiro das estrelas é lembrado em O Senhor dos Anéis, como Eärendil, antepassado de reis, cuja luz em um frasco de cristal é capaz de quebrar a escuridão de Mordor. Na grande história de fundo de O Silmarillion, ele carrega a última Silmaril, uma joia que preserva a luz imaculada primordial, buscando ajuda contra o primeiro Senhor do Escuro [Morgoth].

Nada disso está no poema de Tolkien de 24 de setembro de 1914. Como um mito de origem inventado para a estrela vespertina [também conhecida como estrela d’alva], tudo é energia e enigma:

Éarendel sprang up from the Ocean’s cup
In the gloom of the mid-world’s rim;
From the door of Night as a ray of light
Leapt over the twilight brim,
And launching his bark like a silver spark
From the golden-fading sand;
Down the sunlit breath of Day’s fiery Death
He sped from Westerland.

[Numa tradução rápida e nada profissional:

Éarendel ascendeu-se sobre a beira do Oceano
Na escura borda do limiar do mundo;
Pela Porta da Noite como um facho de luz
Avançou pela orla do crepúsculo,
E lançando sua barca como um brilho de prata
Da dourada e desvanecida areia;
Desceu pelo ar da flamejante morte do dia
Ele partiu das Terras do Oeste.]

O poema precipita-se por mais cinco estrofes, mas não revela nada de fundo nem intenções. No entanto, é claro que o errante Éarendel tem muito a ver com a situação de Tolkien quando a guerra estourou.

EarendilVingilotSunsetTedNasmith
Eärendil e seu barco Vingilot, por Ted Nasmith

Seu gosto pela poesia tomou forma na escola quando ele traduzia poesia em latim e grego, e pelo seu interesse pelos épicos de Homero e Virgílio. Até 1913, ele havia trilhado o caminho de uma educação clássica na escola e em Oxford. Mas depois ele voltou-se para o inglês, uma disciplina arrivista rigidamente estruturada na filologia germânica. Este foi o estudo da história do inglês e de seus primos, o alemão, as línguas escandinavas e o gótico, e é usado em uma rigorosa comparação para reconstruir a língua ancestral comum falada em tempos anteriores ao alfabeto. Filólogos também reconstroem as lendas não registradas que podem ser vislumbradas em fragmentos dispersos por meio da literatura medieval.

Aos 22 anos, quando Tolkien visitou a fazenda de sua tia em Gedling, em setembro de 1914, ele estava preparando o terreno para uma carreira acadêmica. Mas a guerra ameaçava a todos; seus parentes o incentivaram a se alistar. Em vez disso, ele estava determinado a completar seus estudos. A viagem oblíqua de Éarendel através dos caminhos fixos das estrelas está de acordo com os movimentos visíveis de Vênus, mas também, como eu sugiro em Tolkien and the Great War, corresponde a jornada de Tolkien pelo caminho bem trilhado do alistamento.

A Porta da Noite, por John Howe
A Porta da Noite, por John Howe

Uma visão do historiador Hugh Brogan me fez olhar para o poema de novo, para a revista Tolkien Studies. O que eu achei revela o poema como uma peça ousada de reapropriação cultural, e uma das duas etapas, no final de 1914, fixou Tolkien no limiar da Terra-média. É quase demasiado perfeito que este deva ser um mito de origem e transformação.

Brogan disse-me que achava que Tolkien tinha plagiado Shelley:

Arethusa arose
From her couch of snows
In the Acroceraunian mountains,
From cloud and from crag,
With many a jag,
Shepherding her bright fountains.

Ele certamente parece ter emprestado o esquema de rimas e muito do ritmo, além de um pouco do espírito. Shelley descreve como uma ninfa foge de um deus do rio, buscando refúgio debaixo da terra – um mito de transformação para explicar a origem dos fenômenos naturais. Este é exatamente o tipo de coisa que Tolkien estava tentando fazer para a estrela vespertina.

Sua abertura também tem ecos de uma frase da Eneida, traduzida por um de seus contemporâneos como “Aurora arose/ and left the ocean’s rim.” [“Aurora surgiu/ e deixou a borda do oceano”, em tradução livre] Todavia, o “Ocean’s cup” do poema de Tolkien é traduzido de Beowulf. Éarendel é do inglês antigo também, e tem parentesco com nomes de outras lendas germânicas, que também se relacionam com estrelas.

No entanto, outros referem-se, em vez disso, ao mar; um livro filológico alemão que Tolkien tinha acabado de ler argumentava que todos esses nomes remetem a um conto perdido de um marinheiro definitivo, um Ulisses dos mares do Norte. Mas isso não explicava as referências à estrela. Tolkien abandonou o rigor filológico ao imaginar um mito em que um marinheiro tornava-se a estrela vespertina.

O jovem tenente Tolkien em 1916
O jovem tenente Tolkien em 1916

Isso não é plágio. Tolkien usa conscientemente o modelo clássico de Shelley como um recipiente para um mito em estilo germânico, como se dissesse: já vimos o suficiente do Mediterrâneo, é hora da literatura inglesa olhar para o Norte. O grande passo, entretanto, foi a percepção de que ele poderia transformar a reconstrução filológica em narrativa criativa. Esse é um dos dois princípios que sustentam a Terra-média.

O outro princípio veio dentro de algumas semanas, quando Tolkien estava imerso em uma literatura e língua totalmente diferentes do latim, grego, germânico ou qualquer outra língua indo-européia. Em uma conversa com os colegas sobre o épico finlandês Kalevala, ele chamou a atenção para o fato de que o finlandês vem da família das línguas fino-úgrica. Se o idioma é diferente em sua descendência, suas lendas também o serão, disse ele.

Enquanto isso, Tolkien estava trabalhando por conta própria na história do Kalevala Kullervo. Como se não pudesse evitar, ele ilogicamente começou a substituir alguns dos nomes por outros de uma língua totalmente inventada. Soava muito parecido com o finlandês, no entanto, é reconhecidamente um protótipo do Quenya ou “alto-élfico”. Tolkien passou anos inventando idiomas, muitas vezes inspirados em línguas reais, mas agora, pela primeira vez, um deles estabelecia seu lugar na história.

Foi um grande avanço e que prometia dar vida a sua criação linguística. Tolkien abandonou a história de Kullervo para se dedicar a algo muito mais original. Se línguas e lendas eram interdependentes, como ele percebia agora, iria criar lendas com a sua própria nomenclatura – a marca da Terra-média. E com o seu poema de 24 de setembro de 1914, ele havia encontrado uma maneira de inventar essas lendas. Tolkien poderia ir além da filologia, ao imaginar as origens, em parte esquecidas, de lendas registradas.

Enquanto terminava a licenciatura e depois de se alistar em junho de 1915, Tolkien trabalhou nesta fórmula. Em seu retorno da batalha do Somme, em 1916, ele a usou como base para O Livro dos Contos Perdidos, a primeira versão de O Silmarillion. Essa linha de abertura seminal “In a hole in the ground there lived a hobbit” [de O Hobbit“Numa toca no chão vivia um hobbit”] é geralmente vista como o momento de importante descoberta de Tolkien. Porém, a verdadeira honra deve ir para “Éarendel sprang up from the Ocean’s cup”.

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O poema de Éarendel/Eärendil encontra-se no livro The Book of Lost Tales II (O Livro dos Contos Perdidos II), segundo volume de uma série de 12 da coleção The History of Middle-earth (A História da Terra-média), todos eles inéditos no Brasil.

O autor John Garth, de acordo com o Exeter College Oxford, acaba de publicar um livreto de 64 páginas sobre o período em que Tolkien escreveu o poema de Éarendel e é intitulado Tolkien at Exeter College: How an Oxford undergraduate created Middle-earth (Tolkien no Exeter College: Como um estudante de Oxford criou a Terra-média, em tradução livre, não publicado no Brasil). O livreto relata como Tolkien criou seu mundo ficcional entre 1914-1915 e abarca sua vida desde o período de paz até a guerra. O material também contém esboços originais de Tolkien, alguns nunca vistos, bem como outros materiais de arquivo.

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