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Mythopoeia

Lidar com o desafio de verter os textos de Tolkien em português tem
sido um dos quebra-cabeças mais prazerosos da minha vida. O final dessa
jornada deve ser em dezembro deste ano, quando defendo minha
dissertação de mestrado, mas alguns resultados já estão aparecendo.
É por isso que apresento a vocês, amigos da
Valinor, o primeiro texto do livro “Tree and Leaf” cuja tradução eu
consegui concluir. Trata-se do poema Mythopoeia, que, apesar de pouco
conhecido entre fãs do autor no mundo, é um dos mais importantes para
entender o que ele pensava ser a função e o propósito de seu próprio
trabalho. Após uma pequena introdução (original do meu trabalho na
disciplina Tradução – Teoria e Prática, do Departamento de Letras
Modernas da FFLCH-USP), apresento o texto original do poema e minha
tradução dele. Espero que gostem!

————–

Decidi fazer deste trabalho final o primeiro passo substancial para a
tarefa que me propus realizar em minha dissertação de mestrado: a
tradução comentada do livro Tree and Leaf, do escritor e
filólogo inglês J.R.R. Tolkien. No presente trabalho, traduzi um dos
textos que compõem essa coletânea tolkieniana, o poema Mythopoeia.

É o texto mais curto da coleção, mas nem por isso deixa de oferecer
desafios para o tradutor ou perde em importância numa visão de conjunto
da obra de Tolkien. Muito pelo contrário: ao lado do ensaio On Fairy-Stories, Mythopoeia
é o texto no qual o autor deixa mais claro o seu projeto de uma nova
literatura fantástica e, mais que isso, sua visão mística da criação
literária como “sub-criação”, ou seja, como a contribuição humana à
Criação divina. Tal perspectiva, em grande medida despertada pela
profunda fé católica do autor, vê o “fazer dos mitos” (tradução do
grego Mythopoeia do título) como a mais autêntica atividade
humana, em contraposição aos esforços vãos (quando não totalmente
perversos) de escravizar a natureza por meio da tecnologia.

Como a maioria das obras tolkienianas, Mythopoeia tem uma
história textual complexa e ramificada, que não vem ao caso esmiuçar
aqui. Contudo, a dimensão histórica é importante por outro motivo:
aparentemente o poema é resultado direto das longas conversas entre
Tolkien e seu colega de Oxford, o irlandês C.S. Lewis, acerca do
verdadeiro propósito e valor da mitologia para o mundo real.

Quando os dois escritores se conheceram no final dos anos 20, Lewis era
agnóstico, embora nutrisse uma imensa paixão pela mitologia nórdica.
Com um gosto mitológico parecido, Tolkien decidiu se empenhar na
conversão do amigo ao cristianismo, usando como argumento as verdades
que todos os mitos, e principalmente o mito cristão, seriam capazes de
revelar. A história da conversa que finalmente culminou na conversão de
Lewis está contada em J.R.R. Tolkien: Uma Biografia, de Humphrey Carpenter, mas não é exagero dizer que Mythopoeia é o retrato dessa conversa em forma poética.

De acordo com o biógrafo, a frase dedicatória do poema (que compara os
mitos a “mentiras proferidas através da prata”) foi dita originalmente
pelo próprio Lewis. Da mesma forma, Philomythus (o que ama os mitos) é
Tolkien, enquanto Misomythus (o que odeia os mitos) representa Lewis.
Este é claramente um poema-programa, importante não só em si mesmo como
pelo projeto literário que representa.

Antes de apresentar o poema no original e, a seguir, minha tradução,
faço alguns breves comentários. Em termos formais, o texto não é
exatamente um conundrum, ao menos à primeira vista: pentâmetros
iâmbicos com rimas em dísticos (A-A, B-B, etc.), agrupados em estrofes
de tamanho variável, que por sua vez se dividem em três blocos.

O texto tem um sabor tradicional (que se tentou reproduzir em
português), mas ao mesmo tempo utiliza habilmente alguns termos
tirados, por exemplo, do discurso acadêmico ou da ciência moderna, para
criar desconcerto e ironia. Em português, mantive o decassílabo rimado
(por vezes abusando da elisão, como se poderá notar) e procurei reter
alguns conceitos-chave do original utilizando, sempre que possível,
seus cognatos na língua-alvo.

Seguindo esse exemplo, a idéia foi manter um pouco da sintaxe inglesa
(principalmente no uso de algumas preposições), mesmo que o efeito
soasse um tanto deslocado quando traduzido. Não é possível, no entanto,
reivindicar para a presente tradução o rótulo de estrangeirizadora: o
tom decididamente tradicional do poema em inglês parece proibir grandes
ousadias. Uma coisa certamente se perdeu: por causa da brevidade
métrica exigida, as hábeis repetições e artifícios anafóricos usados
por Tolkien ficaram de fora em diversos casos, o que faz do poema
traduzido algo muito menos “amarrado”.

Bem, o texto fala por si mesmo. Abaixo, segue o poema original e, a seguir, sua tradução.

MYTHOPOEIA

To one who said that myths were lies and therefore worthless, even though ‘breathed through silver’.

Phylomythus to Misomythus

You look at trees and label them just so,
(for trees are trees, and growing is to grow);
you walk the earth and tread with solemn pace
one of the many minor globes of Space:
a stars a star, some matter in a ball
compelled to courses mathematical
amid the regimented, cold, Inane,
where destined atoms are each moment slain.

At bidding of a Will, to which we bend
(and must), but only dimly apprehend,
great processes march on, as Time unrolls
from dark beginnings to uncertain goals;
and as on page oerwritten without clue,
with script and limning packed of various hue,
an endless multitude of forms appear,
some grim, some frail, some beautiful, some queer,
each alien, except as kin from one
remote Origo, gnat, man, stone, and sun.
God made the petreous rocks, the arboreal trees,
tellurian earth, and stellar stars, and these
homuncular men, who walk upon the ground
with nerves that tingle touched by light and sound.
The movements of the sea, the wind in boughs,
green grass, the large slow oddity of cows,
thunder and lightning, birds that wheel and cry,
slime crawling up from mud to live and die,
these each are duly registered and print
the brains contortions with a separate dint.

Yet trees are not trees, until so named and seen –
and never were so named, till those had been
who speechs involuted breath unfurled,
faint echo and dim picture of the world,
but neither record nor a photograph,
being divination, judgement, and a laugh,
response of those that felt astir within
by deep monition movements that were kin
to life and death of trees, of beasts, of stars:
free captives undermining shadowy bars,
digging the foreknown from experience
and panning the vein of spirit out of sense.
Great powers they slowly brought out of themselves,
and looking backward they beheld the elves
that wrought on cunning forges in the mind,
and light and dark on secret looms entwined.

He sees no stars who does not see them first
of living silver made that sudden burst
to flame like flowers beneath an ancient song,
whose very echo after music long
has since pursued. There is no firmament,
only a void, unless a jewelled tent
myth-woven and elf-patterned; and no earth,
unless the mothers womb whence all have birth.

The heart of man is not compound of lies,
but draws some wisdom from the only Wise,
and still recalls him. Though now long estranged,
man is not wholly lost nor wholly changed.
Dis-graced he may be, yet is not dethroned,
and keeps the rags of lordship once he owned,
his world-dominion by creative act:
not his to worship the great Artefact,
man, sub-creator, the refracted light
through whom is splintered from a single White
to many hues, and endlessly combined
in living shapes that move from mind to mind.
Though all the crannies of the world we filled
with elves and goblins, though we dared to build
gods and their houses out of dark and light,
and sow the seeds of dragons, twas our right
(used or misused). The right has not decayed.
We make still by the law in which were made.

Yes! wish-fulfilment dreams we spin to cheat
our timid hearts and ugly Fact defeat!
Whence came the wish, and whence the power to dream,
or some things fair and others ugly deem?
All wishes are not idle, nor in vain
fulfilment we devise — for pain is pain
not for itself to be desired, but ill;
or else to strive or to subdue the will
alike were graceless; and of Evil this
alone is dreadly certain: Evil is.

Blessed are the timid hearts that evil hate,
that quail in its shadow, and yet shut the gate;
that seek no parley, and in guarded room,
though small and bare, upon a clumsy loom
weave tissues gilded by the far-off day
hoped and believed in under Shadows sway.

Blessed are the men of Noahs race that build
their little arks, though frail and poorly filled,
and steer through winds contrary towards a wraith,
a rumour of a harbour guessed by faith.

Blessed are the legend-makers with their rhyme
of things not found within recorded time.
It is not they that have forgot the Night,
or bid us flee to organized delight,
in lotus-isles of economic bliss
forswearing souls to gain a Circe-kiss
(and counterfeit at that, machine-produced,
bogus seduction of the twice seduced).
Such isles they saw afar, and ones more fair,
and those that hear them yet may yet beware.
They have seen Death and ultimate defeat,
and yet they would not in despair retreat,
but oft to victory have turned the lyre
and kindled hearts with legendary fire,
illuminating Now and dark Hath-been
with light of suns as yet by no man seen.

I would that I might with the minstrels sing
and stir the unseen with a throbbing string.
I would be with the mariners of the deep
that cut their slender planks on mountains steep
and voyage upon a vague and wandering quest,
for some have passed beyond the fabled West.
I would with the beleaguered fools be told,
that keep an inner fastness where their gold,
impure and scanty, yet they loyally bring
to mint in image blurred of distant king,
or in fantastic banners weave the sheen
heraldic emblems of a lord unseen.

I will not walk with your progressive apes,
erect and sapient. Before them gapes
the dark abyss to which their progress tends –
if by Gods mercy progress ever ends,
and does not ceaselessly revolve the same
unfruitful course with changing of a name.
I will not treat your dusty path and flat,
denoting this and that by this and that,
your world immutable wherein o part
the little maker has with makers art.
I bow not yet before the Iron Crown,
nor cast my own small golden scepter down.

*

In Paradise perchance the eye may stray
from gazing upon everlasting Day
to see the day-illumined, and renew
from mirrored truth the likeness of the True.
Then looking on the Blessed Land twill see
that all is as it is, and yet made free:
Salvation changes not, nor yet destroys,
garden nor gardener, children nor their toys.
Evil will not see, for evil lies
not in Gods picture but in crooked eyes,
not in the source but in malicious choice,
and not in sound but in the tuneless voice.
In Paradise they no more look awry;
and though they make anew, they make no lie.
Be sure they still will make, not being dead,
and poets shall have flames upon their head,
and harps whereon their faultless fingers fall:
there each shall choose for ever from the All.

MYTHOPOEIA

A alguém que disse que mitos eram mentiras e, portanto, inúteis, mesmo se “respirados através da prata”.

Philomythus a Misomythus

Você vê árvores, e as chama assim,
(pois é o que são e o seu crescer, enfim);
palmilha a terra e com solene passo
pisa um dos globos menores do Espaço:
uma estrela é matéria numa bola
que em matemático trajeto rola
regimentado, gélido, Vazio,
de átomos morrendo a sangue frio.

Por uma Vontade, à qual nos dobramos
mas que nós só de longe captamos,
grandes processos o Tempo completa
de início escuro a incerta meta;
e em página reescrita sem pista,
de letra e margem vária já revista,
eis multidão de formas infinitas,
negras, belas, frágeis ou esquisitas,
cada qual diversa, mas num só rol
de germe, inseto, homem, pedra e sol.
Deus fez pétreas rochas, arbóreas árvores,
terra térrea, estelares fulgores,
e os homens humanos, que andam no chão
e a quem luz e som causam comichão.
O remexer do mar, vento nos galhos,
relva, vacas mugindo nos atalhos,
trovão e raio, aves a cantar,
limo escorrendo a viver e murchar,
cada qual é registrado e impresso
nas contorções do cérebro em recesso.

Mas “árvores” só o são se nomeadas –
e só o foram quando captadas
por quem abriu o hálito da fala,
eco do mundo numa escura sala,
mas nem registro nem fotografia,
sendo risada, juízo e profecia,
resposta dos que então sentiram dentro
profundo movimento cujo centro
é o existir de planta, fera, estrela:
cativos que grade serram sem vê-la,
cavando o sabido da experiência
abrindo o espírito sem consciência.
Grande poder de si mesmos criaram,
e atrás de si os elfos contemplaram
que labutavam nas forjas da mente
luz e treva entretecendo em semente.

Não vê estrelas quem não as vê primeiro
qual prata viva explodindo em chuveiro
chama florida sob canção antiga
cujo eco mesmo de longa cantiga
o perseguiu. Não há um firmamento,
só vazio, se não tenda, paramento
por elfos desenhado; não há terra,
se não ventre de mãe que a vida encerra.

Mentiras não compõem o peito humano
que do único Sábio tira o seu plano,
e o recorda. Inda que alienado,
algo não se perdeu nem foi mudado.
Des-graçado está, mas não destronado,
trapos da nobreza em que foi trajado,
domínio do mundo por criação:
O deus Artefato não é seu quinhão,
homem, sub-criador, luz refratada
em quem matiz branca é despedaçada
para muitos tons, e recombinada
forma viva mente a mente passada.
Se todas as cavas do mundo enchemos
com elfos e duendes, se fizemos
deuses com casas de treva e de luz,
se plantamos dragões, a nós conduz
um direito. E não foi revogado.
Criamos tal como fomos criados.

Sim! Sonhos tecemos para enganar
os corações e o Fato derrotar!
De onde o desejo e o poder pra sonhar,
e as coisas belas ou feias julgar?
Querer não é inútil, nem calor
procuramos em vão – pois dor é dor,
não de ser desejada, mas perversa;
ou ceder a uma vontade adversa
ou resistir seria igual. E o Mal,
desse apenas isto é certo: É o Mal.

Bendito o tímido que o mal odeia,
treme na sombra, e o portão cerceia;
que não quer trégua, e em seu solar,
mesmo pequeno, num velho tear
tece pano dourado à luz do dia
sonhado por quem na Sombra porfia.

Benditos os que de Noé descendem
e com suas arcas frágeis o mar fendem,
sob ventos contrários buscando sé,
rumor de um porto indicado por fé.

Benditos os que em rima fazem lenda
ao tempo não-gravado dando emenda.
Não foram eles que a Noite esqueceram,
ou deleite organizado teceram,
ilhas de lótus, um céu financeiro,
perdendo a alma em beijo feiticeiro
(e falso, aliás, pré-fabricado,
falaz sedução do já-deturpado).

Tais ilhas vêem ao longe, e outras mais belas,
e os que os ouvem podem girar as velas.
Viram a Morte e a derrota final,
sem em desespero fugir do mal,
mas à vitória viraram a lira,
seus corações qual legendária pira,
iluminando o Agora e o Que Tem Sido
com brilho de sóis por ninguém vivido.

Quisera com os menestréis cantar
com minha corda o não-visto tocar.
Quisera navegar com os marinheiros
sobre tábuas em montes altaneiros
e viajar numa vaga demanda,
que alguns ao fabuloso Oeste manda.
Quisera entre os tolos ser sitiado,
que em remoto forte, de ouro guardado,
impuro e escasso, recriam leais
imagem tênue de pendões reais,
ou em bandeiras tecem o brasão
fulgurante de não-visto varão.

Não seguirei seus símios progressivos,
eretos e sapientes. Caem vivos
nesse abismo ao qual seu progresso tende –
se por Deus o progresso um dia se emende
e não sem cessar revolva o batido
curso sem fruto com outro apelido.
Não trilharei sua rota sem vacilo,
que a isto e aquilo chama isto e aquilo,
mundo imutável onde não tem parte
o criador com sua pequena arte.
Eu não me curvo à Coroa de Ferro,
nem meu cetrozinho dourado enterro.

*

No Paraíso pode o olho vagar
do Dia imorredouro contemplar
a ver o que ele ilumina, e nova
Verdade ter com isso como prova.
Olhando a Terra Bendita verá
que tudo é como é, e livre será:
A Salvação não muda, nem destrói,
jardim, criança ou brinquedo corrói.
Mal não verá, pois este está imerso
não no que Deus fez, mas no olhar perverso,
não na fonte, mas em escolha errada,
e não no som, mas na voz quebrantada.
No Paraíso não estão mais confusos;
criam novo, sem mentira nos usos.
Criarão, é certo, não estando mortos,
poetas terão chamas como votos,
e harpas que sem falta tocarão:
do Todo cada um terá quinhão.