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Seres Fantásticos na Literatura – Lobisomens

De onde vêm as narrativas sobre Lobisomens? E a sua ligação com a Lua e a Prata? Haverá comprovação científica para as histórias de homens transformados em lobos?

Os inúmeros livros e filmes que apresentam os lobisomens como personagens refletem a universalidade desse ser fantástico, pois no folclore mundial são incontáveis as narrativas sobre o assunto. Busquei alguns subsídios para entender essa criatura na obra do maior especialista brasileiro em folclore: Luís da Câmara Cascudo. Segundo Cascudo, o lobisomem é um motivo mítico universal. Foi citado por Plínio o Antigo, Heródoto, Pompônio Mela, Plauto, Varrão, Santo Agostinho, Isócrates, Ovídio, Petrônio e vários outros escritores.

Note-se que tais autores não encaravam o lobisomem como um personagem literário, mas como uma realidade – um ser fantástico, porém real. Na Grécia chamavam-no licantropo; em Roma, versiopélio; para os eslavos, volkdlack; para os saxões, werwolf ou werewolf; para os germanos, wahwolf; para os nórdicos, hamramr; em russo obototen; em francês, loup-garou; em espanhol, lubizon ou lobinsón. Consta que existem ainda versões na China e no Japão, e que “na África existe a tradição sagrada das transformações animais, homens-lobos, homens-tigres, homens-hienas etc.[1]

Até existe, na realidade, uma doença chamada Hipertricose Lanuginosa Congênita, conhecida como a Síndrome do Lobisomem. As pessoas que sofrem dessa doença acabam cobertas por pelos, com exceção das palmas das mãos e dos pés. Há uma lanugem que aparece nos recém nascidos e deveria desaparecer normalmente pouco antes do nascimento. Mas algumas pessoas não a perdem, e são então diagnosticadas com hipertricose, tornando-se parecidas aos lobisomens da ficção: um pelo fino e felpudo cresce sobre quase todo seu corpo.

Consta que foram registrados apenas 50 casos, no mundo, de hipertricose congênita. Existe ainda a Hipertricose Adquirida, quando o crescimento de pêlos se dá após o nascimento. Para tal condição os pesquisadores ainda não encontraram cura, apenas desenvolveram tratamentos com técnicas de depilação que utilizam laser e eletrólise.

Como virar Lobisomem

Mas esse tipo de doença não tem nada a ver com os contos populares, nos quais o lobisomem é descrito como um metamorfo ou transmorfo: um ser humano que se transforma em animal. A autora britânica J. K. Rowling o chamaria de uma variação do Animago… embora na série Harry Potter criaturas como o lobisomem Remus Lupin sejam mais temidas que admiradas. E nessa série de livros parece que a transformação pode atacar tanto homens como mulheres, enquanto nas histórias do povo quase sempre o licantropo pertence ao sexo masculino.

Voltando ao folclore, explica-se que a transformação ocorre por estar o homem sujeito a um fado, uma maldição, um castigo. Há inúmeras explicações para seu surgimento. Ele pode ser filho de uma união incestuosa (pai e filha, mãe e filho, irmão e irmã, ou filho de compadre com comadre, de padrinho com afilhada). Pode ser o primeiro filho homem após uma série de sete filhas. Em certas regiões da Rússia, dizia-se que quem nascesse no dia 24 de dezembro tornar-se-ia lobisomem; na França e na Alemanha havia a tradição de que, se alguém dormisse ao relento numa noite de Lua Cheia, sofreria a transformação. E há, é claro, a ideia da passagem do fado pela contaminação do sangue: o homem mordido por lobisomem também se torna um, e se alguém se sujar com seu sangue pode ser contaminado.

Em algumas narrativas oriundas do interior do Brasil, ainda segundo Cascudo, a metamorfose ocorreria às sextas-feiras, da meianoite às duas horas. Outras histórias dizem que, se quisesse virar um bicho sanguinário, a pessoa precisaria, na noite de quinta para sexta-feira, procurar uma encruzilhada onde os animais tivessem o costume de espojar-se; em seguida, tirar as roupas e esfregar-se no chão de terra como as bestas. E a transformação se faria…

Acreditava-se, na Idade Média, que as pessoas acusadas de ser lobisomens poderiam ser desmascaradas cortando-se sua pele, pois o pelo do lobo apareceria sob a ferida. Há narrativas de lobisomens que devoravam corpos recém-enterrados, e daqueles que, nas noites de Lua Cheia, caçavam as crianças que encontrassem para se alimentar. Outras dão conta de que a metamorfose era obra de feiticeiros malignos em rituais demoníacos. Havia até quem jurasse que pessoas excomungadas pela Igreja Católica se transformariam em lobisomens.

O Ciclo do Noivo Animal

Podemos traçar o caminho que tais narrativas fizeram, vindas dos mitos, até chegar ao folclore e, dele, à literatura. Na mitologia de várias regiões há histórias antiquíssimas que falam de homens ou mulheres transformados em animais. E, em muitas delas, a magia que causou a transformação e a prisão na animalidade é desfeita apenas quando o personagem principal encontra um parceiro do sexo oposto.

Essas histórias foram agrupadas num corpo de estudos que se convencionou chamar de Ciclo do noivo animal. Sua versão mais ancestral parece ser o mito grego Eros e Psichê, conhecido através de um texto de Apuleius, filósofo e escritor nascido no século II em uma colônia romana na Numídia (hoje Algéria). Nessa história temos vários dos motivos que depois aparecerão em contos de fadas: a união de um homem (ou mulher) transformado ou disfarçado de animal com uma jovem (ou rapaz); várias provas pelas quais ele, ela, ou ambos devem passar; e a redenção de um deles ou de ambos, através da coragem e do amor do parceiro(a).

Algumas histórias populares pertencentes a esse ciclo são bastante conhecidas. Temos, dos Irmãos Grimm, Rosa Branca e Rosa Vermelha, na qual um urso pede abrigo durante o inverno severo na casa da floresta em que moram duas irmãs e sua mãe. Depois de várias peripécias com um anão maligno, o urso se transforma em um belo príncipe e se casa com uma das irmãs. Também recontada por Grimm, O Rei sapo traz um sapo nojento a quem a Princesa deve convidar para comer em sua mesa e dormir em sua cama, em agradecimento por ele ter recuperado sua bola de ouro caída em um poço. Naturalmente, o sapo se desencanta pela ação da princesa, revelando-se humano, e um Rei.

Na história francesa A Bela e a Fera, a jovem Bela é obrigada a ir morar num castelo habitado por uma fera repugnante e ameaçadora; a princípio ela o detesta, mas aos poucos vai aprendendo a amá-lo e, quando Fera está prestes a morrer, Bela o salva demonstrando seu amor. Ele então se desencanta e retoma a forma humana

Um conto romeno chamado O Porco encantado tem como protagonista a filha mais nova de um rei, destinada a se casar com um porco. Destino tão ingrato é amenizado pelo fato de que, à noite, o porco se transforma em homem. Porém, ao tentar desfazer a transformação com a ajuda de uma feiticeira, a moça só consegue perdê-lo. E terá de passar por inúmeras provas, sendo a última terrível, para reencontrá-lo e tê-lo como marido na forma humana.

No conto norueguês A Leste do Sol e Oeste da Lua, encontramos os mesmos elementos, embora o marido a quem a protagonista é prometida seja um urso branco; e sua transformação em homem é complicada, pois ele cai sob o poder de um grupo de trolls e só depois de muito sacrifício, e da ajuda dos quatro Ventos, a moça o encontra e casa-se com ele.

Dizem os estudiosos que, na verdade, todas essas histórias falam sobre a jornada do ser em busca de sua humanidade, da necessidade que toda pessoa tem de alcançar a maturidade. Apenas quando o homem e a mulher se desligam do mundo infantil e lutam por seu crescimento como pessoas, é que poderão ser felizes, completos – a completude simbolizada pelo encontro com o parceiro ideal. Mas recuperar a humanidade, quando se está preso na animalidade, não é fácil. Os heróis das histórias, sejam homens ou mulheres, devem passar por muitos sacrifícios e provar sua maturidade através do sofrimento, para obter a transformação. [2]

Mitologia Lupina

Na cultura Greco-Romana houve mitos e rituais envolvendo homens-lobo, como a história de Licaon, da qual encontramos uma versão nas Metamorfoses de Ovídio. [3]

Licaon (Grécia)

Zeus, o senhor do Olimpo, às vezes descia do monte em que viviam os deuses e percorria a terra disfarçado de mortal. Numa dessas viagens, horrorizado ao ver como o mal se disseminava entre os homens, ele parou na região da Arcádia. Anoitecia, e o mais poderoso dos deuses pediu abrigo no palácio do governante: Licaon, que era tido como um tirano infame. O povo da Arcádia sabia que um deus estava entre eles, pois Zeus não ocultou sua natureza divina. Porém Licaon, o rei, duvidou e zombou das reverências e preces que seu povo fazia ao visitante. Rindo, declarou:

– Descobrirei se este é mesmo um deus ou um mero mortal!

O rei planejou naquela noite matar seu hóspede, quando ele adormecesse. Mas antes preparou-lhe um jantar macabro: tomou um prisioneiro, cortou sua garganta, retalhou sua carne ainda quente e mandou que seus pedaços fossem cozidos e assados.

Ao ver a carne humana servida diante dele como uma iguaria, Zeus se enfureceu. Com um golpe na mesa do jantar, atraiu um raio que trouxe a maldição ao rei tirano e a todos os seus descendentes!

Licaon tentou falar, mas não conseguiu. Tentou fugir da ira de Zeus e disparou a correr, deixando o palácio e ganhando os campos. Conforme corria, sua boca espumava, seus braços se tornaram pernas, suas mãos viraram patas. Ele chegou ao local em que pastava um rebanho de ovelhas e caiu sobre elas com uma fúria bestial; só pensava em matar e destroçar.

Era ainda o mesmo Licaon, mas não era mais um homem.

Transformara-se em lobo.

Outra história interessante, e que teria dado origem a rituais que hoje nos parecem estranhos, é a que veio da lenda sobre a fundação de Roma.

Luperci Sodalis – os Amigos do Lobo (Roma)

Conta-se que a cidade de Roma nasceu da disputa entre dois irmãos. O trono de Alba-a-Grande, capital das terras italianas ocupadas pela linhagem de Enéias, de Tróia, era disputado pelos descendentes de seu duodécimo rei: Amúlio e Numitor. Amúlio se apoderou do reino assegurando que o irmão não tivesse descendentes: matou o filho dele e obrigou Réia Sílvia, a filha de Numitor, a se tornar uma Vestal. Como sacerdotisa de Vesta, ela seria obrigada a permanecer virgem e não deixaria herdeiros ao trono.

O deus Marte, porém, engravidou Réia Sílvia, que deu à luz dois meninos. O rei Amúlio, descobrindo, mandou prender a mãe e jogar as crianças no rio Tibre. Aconteceu, contudo, que as águas do rio transbordaram e certas partes do leito secaram, deixando os bebês num terreno seco e cercado pela mata selvagem. Ora, uma loba que passava ouviu o choro de ambos. Diz a tradição que ela dera à luz mas perdera os filhotes; carregou os gêmeos para uma caverna próxima e amamentou-os.

Fáustolo, um pastor da região, seguiu a loba e encontrou os bebês. Então levou os gêmeos para sua esposa, que os criou. Receberam os nomes de Rômulo e Remo. Quando adultos, descobriram de quem descendiam, libertaram sua mãe e restituíram o trono de seu avô, Numitor. Na região em que foram encontrados pela Loba, fundaram uma cidade que receberia o nome derivado de um deles: Roma.

Um mito romano dizia que a Loba fora na verdade o deus Pã transformado em animal; e julgava-se que certa gruta, nas colinas que cercavam Roma, teria sido o local em que Rômulo e Remo foram amamentados. Sacerdotes romanos passaram a realizar rituais nessa gruta e em suas cercanias. Eles se autodenominavam luperci sodalis, os amigos do lobo, e ali realizavam cerimônias de purificação. Em certa época do ano, sacrificavam lobos ou cães, vestiam a pele ainda sangrenta dos animais e entravam em transe. Segundo a tradição, tornavam-se lobos, ou homens-lobos.

O povo acorria aos rituais, chamados Lupercalia ou Lupercais; eram festas em honra ao deus Pã. Os sacerdotes, sob as peles de lobos e ungidos com sangue, uivavam. Munidos de chicotes, com eles fustigavam os fiéis, que através do açoite se sentiam purificados. Essas práticas duraram séculos, e considera-se que as Lupercais foram uma das origens do Carnaval. Só deixaram de ser realizadas no ano 494, quando um Papa as proibiu por serem ritos pagãos. Mas elas espalharam a crença de que era possível homens se transformarem em lobos.

A Lua cheia e a Prata

Já as referências à ocorrência da transformação com a chegada da Lua Cheia vêm de textos medievais, como os do cronista católico inglês do século XIII, Gervase de Tilbury, que escreveu um Descriptio totius orbis, espécie de miscelânea contendo narrativas diversas que na época eram consideradas “científicas”, e somente mais tarde seriam vistas como folclóricas. Desde que as histórias de Tilbury se tornaram populares no século XIII, então, a maioria das narrativas associa o lobisomem à Lua. Mas por que associá-lo à prata?

Algumas tradições dizem que as balas de prata são a única coisa que pode matar um lobisomem. A primeira referência a esse método parece ter vindo das histórias, aparentemente reais, das Bestas de Gévaudan, na França do século XVIII. Consta que eram lobisomens que teriam matado dezenas de pessoas. O escritor Chevalley, ao contar sobre Jean Chastel, um dos matadores de tais bestas, declarou ter fabricado balas de prata com as quais conseguiu matar uma delas. Parece ser a primeira referência a esse metal como letal para os metamorfos.

Porém as tradições sobre a prata sugerem que não é o mero contato com ela que é nocivo ao lobisomem, e sim o poder simbólico do metal, associado tradicionalmente à Lua. Objetos de prata eram oferecidos à deusa grega Ártemis, mais tarde chamada pelos romanos Diana, senhora da Lua. E assim como o poder da prata estaria na Lua, que comanda a transformação dos lobisomens, o poder das velas de cera estaria na consagração que elas teriam sofrido em um templo religioso.

Isso, sim, o elemento sagrado, é que seria capaz de afetar uma maldição tão profunda quanto a que infecta os homens-lobo. Talvez seja por isso que, nas tradições da Península Ibérica, que trouxeram os mitos do licantropo ao Brasil, existe uma forte conexão com o Cristianismo. É dito que, para fazer efeito contra esses seres, uma arma de fogo deveria ter suas balas untadas com cera. Porém não pode ser cera comum, e sim a cera de uma vela benta. Tais velas podem ter sido consagradas de várias formas: ter recebido a bênção de um sacerdote, terem sido acesas dentro de um templo, ou ter ardido durante a missa. Cascudo nos fala da necessidade de a vela estar presente durante três missas ou um rito especial, como a Missa do Galo, na noite de Natal.

Seja qual for a origem da cera, as narrativas indicam que, assim como no caso da prata, sua força não está na vela e sim na ligação com o ritual sagrado.

Entre os autores modernos, há visões diferentes. Em The Graveyard book, de Neil Gaiman, por exemplo, encontramos a afirmação de que os lobisomens são benignos. Chamados os Cães de caça de Deus, eles seriam seres guardiães do Bem e perseguidores dos que praticam o Mal. [4] Na obra da polêmica Stephanie Meyer, em Lua Nova o jovem Jacob se transforma em lobo pois a capacidade de metamorfose faz parte de sua herança indígena, não tem nada a ver com um fado ou castigo. E, para quem quer ficção fantástica genuinamente brasileira, podemos indicar nosso próprio Sangue de Lobo, que tem como protagonista um licantropo em busca de cura para a maldição da Lua Cheia…[5]

A Reversão da maldição, ou: é possível desencantar um lobisomem?

Se, na série Harry Potter a maldição que persegue Remus Lupin só termina com sua morte,[6] as narrativas do folclore brasileiro propõem que a maldição dos homens transformados em lobo não é irreversível, pode ser desfeita. Mais uma vez citando Câmara Cascudo, descobrimos que para dar fim à sina dos lobisomens, é preciso feri-los, fazer seu sangue correr. Note-se que Cascudo fala em sangramento, não em lobicídio – não se cogita matar o lobisomem, pois imagina-se que a morte do lobo seria também a morte do homem.

Além da exigência de “correr sangue”, existem ainda as sugestões de que faz parte da sina do licantropo a corrida, a peregrinação. A maldição lançada (seja pelo destino, pelo demônio ou por seus próprios pecados) traria consigo a obrigação de o homem-lobo sair do lugar em da transfiguração e percorrer sete locais, voltando ao começo da corrida para readquirir a forma humana.

Algumas fontes dizem que a corrida aos sete lugares deve começar numa sexta-feira à meia noite e terminar às duas horas da manhã. Outras dizem que na verdade são sete vezes sete locais: sete cemitérios, sete igrejas, sete vilas acasteladas, sete partidas do mundo, sete outeiros, sete encruzilhadas, sete espojadouros.

O “7” como número mágico ou sagrado é comum em muitas culturas. A razão de o lobisomem ter de peregrinar por sete locais é, contudo, inexplicável. Talvez faça isso para fugir dos cachorros que, dizem as histórias, o perseguem. Talvez a corrida diminua a força da Lua Cheia sobre o homem condenado a ser lobo, ou talvez a peregrinação por locais sagrados (igrejas, cemitérios) seja importante para a quebra do encantamento. Uma coisa é evidente: o local original da transformação em lobo deve ser o ponto de partida do peregrino.

O que concluímos? Que o fascínio dos leitores pelas histórias de maldições, transformações, vampiros, lobisomens e outros seres fantásticos é muito antiga. Sua razão pode estar na busca das pessoas pelo encontro com o parceiro ideal, como ocorre no ciclo do Noivo Animal. Ou no fascínio pelo nosso próprio sangue, líquido misterioso que é o fluido da vida e que causa um misto de repulsa e atração… Seja como for, as histórias de lobisomens estão aí, perpetuando-se, emocionando e encantando – no bom sentido! – leitores e ouvintes.

*


Luís da Câmara Cascudo. Dicionário do Folclore Brasileiro. Ed. …

[2] Veja-se a esse respeito A Psicanálise dos Contos de Fadas, de Bruno Bettelheim. Ed. Paz e Terra.

[3] Ovídio. Metamorfoses. Ed. Madras.

[4] Neil Gaiman. O Livro do Cemitério. Ed. Rocco.

[5] Helena Gomes e Rosana Rios. Sangue de Lobo. Ed. DCL / Farol Literário.  Veja também p Blog do livro: http://sangue-de-lobo.blogspot.com/

[6] J. K. Rowling. Harry Potter e as Relíquias da Morte. Ed. Rocco.

Mundos Subterrâneos na Literatura Fantástica

A Literatura é um produto cultural nascido do gênero milenar que chamamos Mitos. As narrativas míticas, ligadas às crenças de cada povo e às suas maneiras de ver o mundo, trazem relatos estruturados em torno de arquétipos – modelos ideais que existem desde sempre e permanecem no inconsciente humano. Os mitos foram criados por autores anônimos e serviram a vários propósitos. Sua forma – a narrativa oral – e seu conteúdo – histórias de deuses e heróis, tentando explicar as forças da Natureza e a ação do homem sobre ela – geraram, através dos séculos, inúmeros sucedâneos, como a Literatura sacra, a Profana, a Poesia, o Drama… Conforme o tempo passava, as histórias religiosas foram perdendo seu valor sagrado, porém seus elementos e motivos permaneceram em contos populares, ajudando a estruturar as diversas tradições dos diversos povos. Vêm daí as histórias folclóricas, como os contos de fadas que, assim como a mitologia, tornar-se-iam matéria-prima para a Literatura Fantástica, gênero amplo que inclui a Literatura de Fantasia, a Gótica ou de Horror e até a Ficção Científica, sem esquecermos sua influência na Literatura Infantil e Juvenil.

Em toda essa ficção – oral, escrita ou representada – existe uma estrutura comum sobre a qual é tecida a efabulação. Tal estrutura muito frequentemente pertence àquela que foi chamada a Jornada do Herói.

O herói é o protagonista da história, que, do começo ao fim da obra, percorre certa trajetória que implica em aprendizado, crescimento, amadurecimento. (Na verdade, se analisarmos o grande fascínio que os jogos eletrônicos – pinballs, videogames, jogos de computadores, simuladores etc. – exercem sobre crianças e jovens, veremos que, além de serem Role Playing Games simplificados, eles trabalham os elementos essenciais da ficção, suprindo uma lacuna que a falta do hábito da leitura causou em várias gerações. Através dos jogos eletrônicos o jogador vivencia uma trajetória de personagem, passando por provas e ameaças até obter sucesso numa missão. E o jovem neles encontra ressonância para a necessidade de ficção que lhe alimentará o imaginário).

A psicologia Junguiana nos diz que os personagens das histórias costumam pertencer aos arquétipos que citamos, tornando-se modelos, matrizes de comportamento. E encontrar funções arquetípicas nas histórias que ouvimos ou lemos teria, segundo os psicólogos, ação terapêutica, ajudando-nos a compreender nosso próprio psiquismo num nível inconsciente.

Voltando aos mitos, os mais antigos são geralmente os Mitos Cosmogônicos: histórias que narram a criação do universo de acordo com cada religião ou crença. Há também os Mitos de Criação, que contam como surgiram todas as coisas que existem sobre a Terra. Os Mitos Etiológicos explicam a razão de tudo: como cada ser se tornou o que é hoje. E nos Mitos Heróicos, figuras de heróis – e mesmo antepassados do povo gerador da narrativa em questão – passam por aventuras difíceis: devem salvar princesas, enfrentar monstros terríveis ou inimigos poderosos, punir tiranos, fundar cidades, ensinar segredos e técnicas ao povo de sua terra. Algumas civilizações possuem Mitos Escatológicos, que contam o que acontecerá no fim do mundo, quando sua civilização (ou o mundo, ou o universo) declinar e morrer.

Muitos desses mitos, sem deixar de serem cosmogônicos, etiológicos ou heróicos, pertencem também à variante chamada Mitos de Descida. Aqui temos heróis que descem aos mundos inferiores, tradicionalmente considerados terras onde vivem as almas dos mortos.

Ora, como expressão de tradições sagradas, os mitos estão associados a uma ação religiosa (considerando a palavra religião oriunda do latim religare): o ato de contá-los, vivenciá-los, tem o condão de religar, reconectar o homem com o sagrado. Essa “religação” e os poderes que ela confere aparecem nas narrativas sobre êxtases religiosos – que vão desde o transe da Pítia nos templos de Apolo, absorvendo a fumaça de ervas sagradas, passando pelo êxtase dos santos medievais que recebem a Graça após práticas ascéticas, até fiéis que tomam o Santo Daime ou monges que ingressam no Nirvana através da meditação. Também eles estão descendo a um mundo subterrâneo, deixando a superfície da mente para penetrar em suas profundezas – o inconsciente, ou talvez um estágio diferente de existência.

Seja qual for a origem do mito de descida, ele está inserido na experiência da busca do sagrado ou na iniciação aos mistérios, que é obtida pelo indivíduo após a passagem por uma série de provas. Essa pode também ser uma interpretação do chamado monomito, na qual aparece claramente a estrutura da Jornada do Herói. O personagem:

  1. deixa uma situação estável;
  2. enfrenta um conflito;
  3. é conduzido a várias etapas onde é provado, testado (sendo algumas das provas enfrentar suas próprias fraquezas, e em especial o medo da morte – pelo confronto, às vezes literal, com a morte em si). Essas provas supõem a passagem da escuridão, do perigo e do caos para a luz, a ordem, o cosmos;
  4. o herói vence o conflito, as provas, os monstros (ou não);
  5. retorna ao mundo que deixou e ensina o que aprendeu.

Essa trajetória pode ser ainda uma metáfora para todas as dificuldades pelas quais passa cada pessoa ao longo de sua existência, até conseguir um despertar espiritual – e, assim, atingir um novo modo de vida a que os autores esotéricos chamam de “homem novo”.

A descida, então, é uma das etapas atravessadas por heróis e heroínas de milhares de contos, novelas e romances da literatura de todas as partes do mundo. Temos na mitologia vários exemplos. A história da Suméria sobre a Descida de Innana ao Aralu; o herói Polinésio Hutu, jovem maori que desce às terras subterrâneas em busca da alma da princesa Pare; os vários mitos gregos incluem a descida ao Hades. Orfeu vai aos domínios do deus da morte e atravessa o rio Aqueronte em busca da sombra de sua amada Eurídice. Psychê efetua a descida à terra dos mortos forçada pela deusa Afrodite, para obter de Perséfone, numa caixinha, um pouco de sua beleza. E Héracles o faz no seu décimo trabalho, obrigado pelo rei Euristeu a ir capturar o cão-guarda dos infernos, Cérbero, o que ele só pode fazer após se submeter aos Mistérios de Elêusis – e obter a purificação necessária para ir às profundezas e pedir permissão de Hades em pessoa, para capturar o monstro.

Eis o resumo da história de Hutu, vinda da mitologia do povo Maori da Polinésia.

A MORADA DOS MORTOS

Hutu era um rapaz hábil no manejo do dardo. Um dia, lançou seu dardo na aldeia e ele parou diante da casa de uma jovem nobre chamada Pare. A moça se interessou por ele e abriu sua porta, convidando-o a entrar. Mas Hutu, orgulhoso, recusou-se e foi embora. Humilhada, Pare mandou que os criados arrumassem a casa e saíssem; então, chorou muito e, quando não tinha mais lágrimas, enforcou-se. Morreu, e sua alma seguiu para as Moradas dos Mortos.

O povo local começou a murmurar contra Hutu, culpando-o pela morte da princesa. Ele teve remorsos e decidiu ir até as terras em que viviam os mortos para buscar a alma de Pare. Aprendeu as palavras rituais dos sacerdotes e pôs-se a caminho. Na estrada, encontrou Hine-Nui-Te-Po, a Grande Senhora da Noite, e perguntou-lhe como chegar ao Mundo Subterrâneo. Mal humorada, ela indicou uma trilha, mas ele percebeu que aquele era o caminho dos cães para o outro mundo. Hutu voltou e fez uma oferenda para obter da deusa o caminho certo, o dos Homens: daria a ela sua clava, feita de uma pedra rara. Hine-Nui-Te-Po gostou do presente e ensinou a Hutu o caminho verdadeiro do Mundo Subterrâneo; explicou que ele deveria ter cuidado com o vento que sopraria no buraco pelo qual deveria descer, e que não poderia comer nada naquele mundo, se não quisesse ficar preso para sempre.

Deu a ele, para alimentar-se enquanto lá estivesse, raízes de samambaia cozidas.

Hutu partiu pelo caminho ensinado pela Grande Senhora da Noite e encontrou o buraco que levava ao Mundo Subterrâneo. Desceu, tomando cuidado com os ventos, e ao ver-se lá embaixo começou a procurar pela alma de Pare. Os outros mortos disseram que ela estava lá, mas não conseguiam encontrá-la porque Pare ainda estava envergonhada pelo que acontecera, e escondera-se. O rapaz tentou atraí-la para fora da aldeia, e desafiou os guerreiros mortos para uma competição. Eles aceitaram, e fizeram concursos de arremesso de bola e dardo, que atraíram muita gente. Mas a jovem não apareceu.

Hutu criou um novo desafio: amarrou uma corda a uma árvore e, com ajuda dos mortos, vergou-a até a copa chegar ao chão. Subiu na copa com um rapaz em seus ombros e mandou que soltassem a corda. Hutu e o rapaz foram arremessados a grande distância; todos aplaudiram muito. A algazarra atraiu Pare para fora de seu esconderijo. Ela também quis participar da competição; Hutu subiu à copa da árvore, pedindo-lhe que subisse em seus ombros. Quando a corda foi solta, Hutu e Pare foram arremessados a tal distância que a corda se enroscou nas raízes próximas ao buraco para o mundo lá em cima. Levando-a nos ombros, ele subiu pela corda. De volta ao Mundo da Luz, uniu sua alma com seu corpo e ela reviveu.

Tal processo arquetípico de ida ao mundo dos mortos corresponde à chamada morte iniciática: o herói, como os iniciados nos mistérios antigos, deve morrer para a vida profana, com o objetivo de renascer para uma realidade sagrada. A origem dessa jornada está em ritos ancestrais que abordam o mistério eterno da regeneração espiritual; evoluiu de povos tribais para sociedades secretas que existem até hoje, indo da cultura totêmica à cultura histórica.

Os ritos de iniciação, assim como sua contrapartida escrita, os mitos, mantiveram o caráter de provas sucessivas: reclusão, provas, torturas, morte simbólica e a volta à superfície, ou seja, a ressurreição, o renascimento.

Há muitos, muitos outros mitos nesse ciclo. Temos ainda as versões em que o herói é engolido por um monstro, como Jonas no ventre da baleia, o que também configura uma descida aos reinos da morte. Reencontramos esse motivo quando os personagens são devorados e ressurgem, ou quando devem deixar suas terras para ir a reinos mágicos e perigosos, onde podem morrer – às vezes literalmente – antes de voltar à vida.

Um dos mitos citados acima e que melhor exploram a viagem da alma é a história de Eros e Psiquê, pertencente à mitologia grega – não por acaso, Eros significa “amor”, e Psiquê significa “alma”…

O AMOR E A ALMA

Houve um rei que teve três filhas. A mais nova, Psiquê, era tão bela que sua beleza rivalizava com a da deusa Afrodite, e o povo a reverenciava. A deusa irou-se, pois iam cada vez menos pessoas a seus templos prestar-lhe sacrifícios. Como ousavam comparar sua beleza à de uma mortal? Decidiu castigar a moça e pediu que seu filho Eros a fizesse apaixonar-se pelo monstro mais horrendo da terra. O filho de Afrodite era um belo jovem. Com suas setas alvejava homens e mulheres, instilando-lhes o sentimento do amor. Concordou em ajudar a mãe a se vingar daquela que a ofendera; mas não pôde. Uma versão da história diz que, ao ver a beleza de Psiquê, Eros se apaixonou; outra diz que ele se feriu com uma de suas setas.

O pai de Psiquê decidiu perguntar ao oráculo de Apolo, deus da Profecia, com quem Psiquê deveria casar-se, pois, apesar de reverenciada, ela vivia solitária. A resposta do deus foi uma sentença de morte: Psiquê estava destinada a ser a esposa de um monstro. Deveria vestir uma mortalha e ser levada à mais alta rocha no topo de um monte. De lá o monstro a levaria. O rei, a rainha e as irmãs choraram pelo destino da jovem. Mas Psiquê seguiu resignada junto a um cortejo fúnebre para o monte. E lá, sozinha, aguardou a morte.

Porém Zefiro, o deus-vento, a arrebatou e levou até uma floresta junto a um palácio. Entrando, a moça encontrou riquezas que jamais imaginara; vozes misteriosas explicaram que tudo aquilo lhe pertencia. Ela se banhou, vestiu-se e tomou as refeições ali servidas. À noite, no quarto, aproximou-se um homem a quem ela não podia ver na escuridão: era seu marido. Ele passou a dormir com ela todas as noites, e ia embora antes de a manhã nascer. Disse-lhe que correria perigo se deixasse o palácio, e que deveria prometer amá-lo sem jamais ver seu rosto. Psiquê prometeu, pois amava o esposo e sentia-se perfeitamente feliz.

Porém seus pais a julgavam morta e suas irmãs iam ao pé do monte para chorar por ela. A princípio, Psiquê não se preocupou com a família. Mas quis evitar o desespero das irmãs. Suplicou ao esposo que a deixasse vê-las, e ele permitiu; quando elas vieram à montanha, Zéfiro as trouxe à sua presença; ela revelou que estava viva e as levou ao palácio.

As irmãs, com inveja, envenenaram sua felicidade. O marido invisível devia ser um monstro; que motivo teria para proibir a esposa de vê-lo? Aconselharam-na a esperar que ele dormisse e fosse espioná-lo com uma lamparina. Se realmente fosse um monstro, deveria ser morto. Psichê resolveu tirar a dúvida. À noite, pegou uma faca e acendeu uma lamparina.

Mas, ao iluminar o esposo adormecido, não encontrou um monstro, e sim o deus do amor! Seu esposo era Eros. Acidentalmente, Psiquê deixou pingar gotas de óleo da lamparina no ombro dele. Eros acordou com a dor da queimadura e a repreendeu por quebrar a promessa. Não poderiam mais ficar juntos… E partiu, para curar a ferida junto aos deuses.

Psiquê se desesperou. Saiu pelo mundo em busca do esposo, sem saber como ser perdoada. Pediu a ajuda de Deméter e Hera, mas elas não quiseram desagradar Afrodite. Depois de muito vagar, Psiquê decidiu enfrentar a deusa de uma vez e foi ao seu templo. Afrodite a recebeu com ódio e disse que Eros estava ainda ferido pela queimadura; entregou Psiquê a suas servas, a Mágoa e a Tristeza, para ser açoitada. Depois, propôs-lhe tarefas impossíveis: separar um monte de grãos misturados, tosquiar um bando de carneiros selvagens, recolher água na fonte de um alto penhasco guardado por dragões.

Por fim, ordenou-lhe que descesse ao Hades para buscar uma caixa contendo um pouco da beleza da Senhora do Hades, Perséfone. Para cumprir essas tarefas, Psiquê teve a ajuda dos seres da natureza. Ficou, porém, presa no mundo subterrâneo, pois sua curiosidade a levou a abrir a caixinha de Perséfone. Mas Eros se recuperou do ferimento e foi buscá-la no Hades. Mandou-a prostrar-se diante de Afrodite e dar conta da última tarefa; enquanto isso pediu a ajuda de Zeus, o maior dos deuses. Este decidiu que Psiquê e Eros deveriam unir-se. Deu à moça uma bebida que a tornou imortal, e o casal foi recompensado com a união eterna.

Dos mitos e do folclore, o motivo da descida aos mundos subterrâneos chegou à literatura.  No século XIX, o escritor Júlio Verne produziu o maior clássico que lida com essa descida, embora ela seja literal, não simbólica: Viagem ao Centro da Terra.

O francês Jules Verne (1828-1905) tornou-se um precursor da ficção científica ao escrever novelas sobre relatos de viagens, abordando Geografia, História, Astronomia, Biologia, Geologia e outras ciências. Embora não lide exatamente com o fantástico, ele abriu precedentes para os autores do gênero, pois em seu século o desabrochar da ciência tocava as fronteiras do inimaginável. A Viagem ao Centro da Terra foi publicada em 1864, dois anos após o lançamento de Cinco semanas em Balão, sua primeira novela do subgênero que hoje chamamos Ficção Especulativa, e até sua morte produziu ainda mais 63 livros.

Temos aqui uma história que utiliza a Jornada do Herói: os personagens, o Professor Otto Lidenbrock, seu sobrinho Axel Lidenbrock e o guia Hans Bjelke penetram uma cratera e seguem as pistas deixadas pelo pesquisador Arne Saknussemm, que teria descoberto o caminho para o centro da terra. Passam por muitas dificuldades e encontram um mundo misterioso e insuspeito no fundo da terra…

Encontramos também uma novela precursora das aventuras de RPG – um grupo, embora reduzido, embarca numa demanda e enfrenta desafios e provas, cada personagem utilizando seus atributos para assegurar a sobrevivência do grupo.

Verne trouxe para a Literatura a estrutura dos Mitos de Descida e influenciou muitos autores que, depois dele, escreveram aventuras sobre viagens, não apenas para as profundezas, mas para o espaço ou para regiões misteriosas do planeta.

E até hoje, na Literatura, heróis e heroínas enfrentam esse desafio. Descem ao local que mais temem, aos infernos ou às profundezas (literais ou metafóricas) em busca de conhecimento, amor, tesouros, libertação de seus povos e, às vezes, do encontro consigo mesmos. Nessa demanda, Frodo penetra as terras infernais de Mordor; Sparrowhawk, o Gavião, desce às escuras tumbas de Atuan; Nihal, a meio-elfa da Terra do Vento, entra no sombrio Castelo em que reina o Tirano, destruidor de seu povo; Shadow deixa-se sacrificar na árvore de Wotan e experimenta o gosto da morte; Roland percorre as terras devastadas de MidWorld e abre portas para universos paralelos em busca da Torre Negra…

E nós, leitores, vamos junto com eles. Deixamos que os heróis nos descerrem as portas de tantos mundos terríveis e nos mostrem, com seus sofrimentos e suas provas, como podemos sobreviver e voltar para contar aos outros o que existe lá no fundo…

Leituras sugeridas:

Um Mago de Terramar e As Tumbas de Atuan, Ursula K. LeGuin. São Paulo: Brasiliense.

O Senhor dos Anéis, John R. R. Tolkien. São Paulo: Martins Fontes.

Deuses Americanos, Neil Gaiman. São Paulo: Conrad.

A Torre Negra (7 volumes), Stephen King. Rio de Janeiro: Objetiva

Crônicas do Mundo Emerso (3 volumes), Licia Troisi. Rio de Janeiro: Rocco

Seres Fantásticos na Literatura – Dragões

“Há muito tempo, desde o começo da humanidade, o dragão,

com seu corpo de serpente e seus poderes mágicos, esteve presente entre nós,

sugerindo-nos que existe um ser imortal presente no interior de todas as coisas.”

Francis Huxley[1]

O Dragão é provavelmente a criatura fantástica mais conhecida e discutida do mundo. Existe em todas as tradições, sob uma forma ou outra. É ligado aos quatro elementos, ou seja, também é um ser elemental – segundo a teoria filosófica pré-socrática de que o mundo seria composto por quatro elementos básicos: ar, água, terra e fogo. Dizia o filósofo Empédocles (século IV a.C) que essas quatro raízes compunham tudo o que existe, sendo animadas por duas forças contrárias, que foram chamadas de “amor” e “ódio”: ou seja, a força de atração e a força de repulsão. Muitos seres fantásticos da mitologia e da literatura têm essa ligação com algum dos quatro elementos. No caso do Dragão, ele seria um ser do fogo e/ou da água, e seu caráter se altera dependendo da mitologia em questão.

A palavra vem do grego drákon e também do latim draco. Parece derivar do verbo grego derkomai, “ver”; ou deskesthai, “lançar olhares”. Estaria, então, associado à idéia de ver, olhar e, portanto, conhecer. Não é de se admirar, então, que as lendas digam que é perigoso olhar nos olhos de um dragão.

“Muitas tradições falam de um abismo cheio de água revolvida por um espírito ardente

que pode ver graças à sua própria luz. Assim, como nos contam os Upanishads hindus,

o espírito olha faminto ao seu redor; esta ação é que dá ao dragão o seu nome (…)”. [2]

A palavra para designá-los em algumas línguas (Drache, Drake) também designa as serpentes. Outra palavra antiga para dragão é Verme, que vem de Worm ou Wyrm.

O dragão mais antigo das histórias pode ser Tiamat, uma divindade babilônica que personificava o Caos: o universo antes de ser organizado. Diz o Enuma Elish, Mito de Criação Babilônico, que Tiamat era a água salgada, em oposição a Apsu, a água doce. Da mistura de suas águas surgiu o universo, e deu-se à luz os primeiros deuses. Mais tarde os deuses mataram Apsu; Tiamat, com personalidade feminina, voltou-se contra eles e começou a gerar monstros, inclusive os primeiros dragões. Ela seria morta pelo deus-herói Marduk, e de seu corpo ele teria criado o céu, a terra, os astros, os rios, os seres vivos.

Para os chineses, eles são criaturas benignas e de vários tipos: o Dragão Divino, o Dragão Terrestre, o Subterrâneo. Dragões seriam antepassados dos imperadores da China; o primeiro governante a assumir a forma dracônica foi o lendário Fu Hsi. Ainda segundo tradições chinesas, existiam quatro Dragões da Água que governavam os quatro oceanos do mundo: Ao Kuang, Ao Jun, Ao Shun e Ao Chi. Todos eram servos do Imperador de Jade e moravam no fundo das águas.

Vem também da China a crença de que eles teriam atributos de nove “animais”: chifres de cervo, cabeça de camelo, olhos de demônio, pescoço de serpente, barriga de molusco, escamas de peixe, garras de águia, pés de tigre e orelhas de boi.

Seria, então, o dragão um animal que viveu em eras passadas, como os antigos sáurios? Ou será que, quando os antigos encontravam enormes ossadas fósseis, julgavam que aqueles eram ossos de animais desconhecidos, fantásticos? Talvez venham daí as primeiras histórias sobre dragões na cultura humana…

“Os chineses dizem que o fogo do dragão e o fogo humano são coisas opostas. Se o fogo do dragão entrar em contato com algo úmido, lança chamas; e se entrar em contato com a água, incendeia-se.

Se alguém se enfrenta a ele com fogo, conseguirá fazê-lo parar de arder e as chamas se extinguirão.

Isso, por sua vez, pode ser comparado com a correspondência alquímica do dragão com a Matéria Prima e com a regra segundo a qual, para limpar uma substância, não se deve usar água, mas fogo. [3]

Por muito tempo acreditou-se que as salamandras seriam pequenos dragões. Há referências a elas em bestiários medievais e em obras de não-ficção. O próprio Santo Agostinho as cita como animais que vivem no fogo, querendo provar que os corpos humanos poderiam viver no fogo do inferno sem ser consumidos!

E tanto Aristóteles quanto Leonardo da Vinci atestaram a existência real desses animais como capazes de viver nas chamas. Marco Polo diz ter visto em suas viagens tecidos de pele de salamandra, que não queimavam no fogo – embora, na verdade, desconfie-se que esses tecidos eram feitos de amianto.

Como vimos, além do fogo, os dragões são associados fortemente ao elemento água. Ou estão nas nuvens, e são senhores da chuva, ou nos mares e rios; para os chineses, a chuva fina é celestial, mas a tempestade violenta é a “chuva do dragão”… E encontramos em variados folclores a ideia de que, se uma mulher banhar-se em rio ou mar, pode engravidar pela ação de um ser mítico: cobra grande, boto, serpente, sempre uma criatura com características dracônicas. Isso liga os dragões aos m’bois, as cobras gigantes do folclore brasileiro. O m’boi é o arquétipo do dragão na América Latina.

Se no Oriente os dragões estão ligados à chuva, sua capacidade de exalar ou projetar fogo aparece mais nas lendas do Ocidente. Longe da tradição que os considera como benignos ou neutros, em histórias ocidentais ele simboliza forças demoníacas. É esse o sentido da história de São Jorge: o Cruzado (que é o Cristianismo) mata o dragão (vence o demônio) e converte o mundo. Faz sentido um ser infernal ter domínio do elemento fogo, e eis aí porque as pessoas acreditaram em tais criaturas com hálito ardente.

Há na verdade duas histórias de São Jorge. Uma, que pertence à história cristã, conta sobre um cavaleiro da Capadócia que lutou nas Cruzadas. Outra conta sobre um cavaleiro que salvou uma princesa de ser devorada por um dragão. As duas convergiram em uma só, que aparece em variadas versões.

Jorge foi um mártir cristão nascido na Capadócia, na Ásia Menor. Consta que foi morto na Palestina no ano 303, conforme inscrições encontradas numa igreja da Síria e atestadas por um Cânon do Papa Gelasius I, de 494.

Diz uma lenda que em certa cidade pagã da Líbia um dragão aterrorizava o povo, que tentava aplacá-lo com ofertas de ovelhas e de seres humanos em sacrifício. Quando, escolhida por sorteio, a próxima vítima devia ser a filha do rei, o povo a levou até o monstro para ser morta. Nesse momento, um cavaleiro que voltava das Cruzadas chegou lá, matou o dragão, libertou a princesa e todos os habitantes locais se converteram ao Cristianismo como agradecimento ao herói. [4]

Outra versão da história diz que a cidade era Silene, também na Líbia, e que o dragão se abrigava num pântano. Todas as moças já haviam sido sacrificadas a ele: a última viva era a filha do rei. Jorge, o cavaleiro, chegou ao pântano e libertou a princesa. Ela, então, tomou seu cinto e prendeu o dragão pelo pescoço com ele, conduzindo-o para a cidade; lá, em vista de todos, Jorge o matou. Mas não quis aceitar a mão da moça em casamento, mantendo sua castidade de missionário cristão. [5]

Embora São Jorge hoje não seja mais um santo “oficial”, em 1222 o Concílio de Oxford instituiu a Festa de São Jorge no dia 23 de abril, e no século XIV ele se tornou o Santo Padroeiro da Inglaterra. Não é de se admirar, já que o herói mítico mais popular do Reino Unido, Arthur, é um Pendragon, e sua linhagem ostentava o dragão como símbolo. A própria bandeira do País de Gales mostra um dragão vermelho sobre um campo verde e branco. Podemos supor que o branco simboliza o mundo espiritual e o verde o mundo terreno; o dragão colocado sobre ambos demonstra seu domínio sobre céu e terra, espírito e matéria.

A mitologia grega também está repleta de dragões. Um dragão atacou os homens de Cadmo, que buscava sua irmã Europa, raptada por Zeus; o herói o matou e a deusa Atena sugeriu que ele semeasse os dentes do bicho. Dos dentes brotaram da terra guerreiros armados que lutaram até destruir-se; os que sobraram fundar com Cadmo a cidade de Tebas. Heróis como Héracles também enfrentaram dragões; um dos mais famosos foi Ládon, que guardava os pomos de ouro do jardim das Hespérides, filhas de Atlas.

Já na mitologia Nórdica temos Fafner, do Anel dos Nibelungos, o gigante e inimigo dos deuses que, transformado em dragão, dormia sobre o Ouro do Reno. E na mitologia Anglo-Saxã encontramos Grendel, o dragão que atacou a Dinamarca e que seria morto por Beowulf. Em tais relatos, de inspiração europeia, é comum haver uma ligação entre os dragões e tesouros preciosos. Um autor especulou que ouro e pedras preciosas seriam matérias desejáveis aos dragões, pois o ouro, metal incorruptível, formaria um leito não-corrosivo para o verme – algumas histórias falam em dragões que soltam ácido – e as gemas, quase  indestrutíveis, protegeriam seu ventre das armas humanas como uma couraça preciosa. [6]

Na ficção, cada autor utiliza os dragões da forma que deseja. Em ficção científica os mais famosos talvez sejam os Dragões de Pern, descritos pela autora Anne McCaffrey. Na fantasia, temos os dragões descritos por J. R. R. Tolkien, como Glaurung, criado por Morgoth para atacar elfos e humanos. E muitos outros, como os que habitam o mundo de Harry Potter; esses estão divididos em espécies oriundas de vários pontos do mundo. São descritos com características biológicas detalhadas; e sim, cospem fogo.

Nas “Crônicas de Spiderwick”, o personagem Arthur Spiderwick diz que eles pertencem à família Draconidae, em duas espécies: o Wyrm, terrestre (Draco antiquissimus) e o Wyvern, alado (Draco Alatus).

Na Trilogia da Herança, de Christopher Paolini, os dragões estão quase extintos e são ligados a seus cavaleiros desde antes do nascimento – o que os aproxima dos dragões de Pern, que saem do ovo para pessoas específicas, ficando ligados a elas por toda a vida. O mesmo ocorre com dragões nas histórias de Téméraire, da autora americana Naomi Novik. Nessa história alternativa das guerras napoleônicas, os humanos treinam dragões para a guerra numa força aérea, e também existe a ligação profunda, desde que o dragão sai do ovo, entre ele e seu cavaleiro, ou melhor, dragaleiro, já que dragões não são cavalos.

Não é difícil concluir que, muito mais que o unicórnio, a fênix ou os centauros, o dragão é o ser fantástico mais presente em mitos, lendas e ficção. O fascínio que sua figura exerce sobre nós é extraordinário. Do ponto de vista simbólico, podemos até dizer que o dragão representa nosso próprio fogo interior, que algumas tradições esotéricas chamam de Kundalini, o fogo serpentino que se acredita ser a fonte da criatividade e da sexualidade no ser humano.

Não existem limites para a aparição dos dragões na literatura. Animais ou seres racionais superiores, senhores da chuva ou lançadores de fogo, suas histórias ainda vão nos encantar por muitos séculos.

“Aqui é o lugar onde os dragões foram parar. Eles repousam… nem mortos, nem adormecidos.

Nem à espera, porque esperar implica ter alguma expectativa.

É possível que a palavra seja… entorpecidos.

E, embora o espaço que ocupem não seja como o espaço normal,

ainda assim estão amontoados e apertados uns contra os outros.

Não há um centímetro cúbico que não contenha uma pata, garra, escama ou a ponta de uma cauda. O efeito disso é comparável àqueles desenhos de ilusão de ótica,

e nossos olhos acabam percebendo que o espaço entre cada dragão é, na verdade, outro dragão.

É possível imaginar uma lata de sardinhas,

isso se você achar que as sardinhas são enormes, cheias de escamas, orgulhosas e arrogantes.

E que, supostamente, em algum lugar, há um dispositivo de abertura.”

Terry Pratchett[7]

Leituras sugeridas:

O Silmarillion – J. R. R. Tolkien – Ed. Martins Fontes

Crônicas do Mundo Emerso (3 volumes) – Licia Troisi – Ed. Rocco

His Majesty’s Dragon – Naomi Novik – Ballantine Books

The Fire Within – Chris d’Lacey – Scholastic Books

Crônicas de Dragonlance (3 volumes) – Margareth Weis e Tracy Hickman – Ed. Devir

Como criar e cuidar de um dragão – John Topsell – Ed. Marco Zero

Dragonflight – Anne McCaffrey – Ballantine Books


[1] Huxley, Francis. Mitos, Deuses, Mistérios: o Dragão. Espanha: Ed. Del Prado, 1997. Pp. 05-07.

[2] Idem.

[3] Huxley, Francis, op. Cit., p. 9.

[4] Fonte: Microsoft Encarta Enciclopédia, 2000.

[5] Fonte: Francis Huxley, op. Cit., p. 15.

[6] Dickinson, Peter. Flight of Dragons, The. 1979.

[7] Pratchett, Terry. Guardas! Guardas! São Paulo: Conrad do Brasil, 2005. P. 11.

Seres Fantásticos na Literatura: Os Elementais

Se a literatura de fantasia é herdeira direta das mitologias e dos contos folclóricos, não é de se estranhar que ela seja o hábitat natural de centenas de criaturas com que a imaginação humana povoou os mundos ficcionais e até o nosso.

Fadas, gnomos, sereias e outros tantos seres são comuns nas sagas fantásticas e percorreram um longo caminho desde as narrativas ancestrais até o surgimento dos adesivos que, no final do século XX, muita gente usou em seus carros (traziam os dizeres “Eu acredito em duendes”. Havia também os adesivos que diziam “Eu atropelo duendes”, mas isso não interessa a este artigo…).

O que desejamos é verificar a origem e a trajetória de alguns desses personagens míticos, pois mesmo que o interesse das pessoas pelos chamados seres elementais seja efêmero – uma moda que vem e vai – eles permanecem firmes e fortes na literatura.

O termo elemental vem, é claro, da palavra elemento – e da teoria da filosofia pré-socrática de que o mundo seria composto por quatro elementos básicos: ar, água, terra e fogo. O filósofo Empédocles, que viveu em meados do século IV antes de Cristo, pregou que esses quatro elementos ou raízes compunham todas as coisas, e eram animados por duas forças contrárias, o amor e o ódio (poderíamos chamá-las de força de atração e força de repulsão).

É provável que tenha sido devido a essa teoria, aceita por séculos, que surgiram nas histórias humanas os seres ligados às forças elementais. Muitos pesquisadores do passado encontravam narrativas supostamente verídicas sobre eles e às vezes provas físicas de sua existência – mas passamos a observar a sistematização dos quatro tipos dessas criaturas apenas em tempos mais modernos. Pensadores ligados às doutrinas de Paracelso, no Renascimento, e da Teosofia e Antroposofia, dos séculos XIX e XX, afirmaram a realidade da sua existência e os estudaram mais a fundo. Segundo suas crenças, que têm muito de poéticas, mas contam com testemunhos de pessoas que juram terem tido contato com tais espíritos da natureza, eles estariam divididos em:

Elementais da Terra – Os gnomos, que viveriam entre as rochas do subsolo. Podemos classificar também entre esses elementais os trolls, que se seriam feitos da matéria da terra.

Elementais do Fogo – as salamandras; a tradição diz que elas viveriam nas chamas. Talvez possamos incluir nesta categoria os dragões, que em algumas mitologias cospem fogo.

Elementais da água – seres que habitariam os rios e mares: ondinas, náiades, sereias, tritões e vários outros.

Elementais do ar – silfos e sílfides. Os gênios, elfos e fadas também podem pertencer a este elemento, pelo fato de serem alados ou terem poderes sobre o elemento aéreo.

São inúmeros os contos maravilhosos e mitos “estrelando” criaturas elementais: fadas, devas, djins, silfos, sátiros, faunos, elfos, leprechauns, anões, trolls, kobolds, brownies, nixies, pixies, gobelins, povo do musgo, gnomos, selkies, ondinas e tantos outros. A maioria deles aparece pela primeira vez em contos dos Celtas.  Na Mitologia Grega são descritas as ninfas dos rios e das fontes, além dos seres aquáticos que formavam o cortejo de Poseidon e de sua esposa Anfitrite. Vêm da Hélade também as narrativas sobre espíritos das montanhas ou das matas, as dríades e hamadríades e outros seres que interagiam com deuses e mortais. Em mitos Nórdicos e Germânicos os elfos, anões e seres encantados são constantes. E em histórias populares da época medieval vamos encontrar esses mesmos seres, às vezes com outros nomes, sendo alguns deles já demonizados – pois, após o advento do Cristianismo, a maioria dos seres mágicos em quem o povo acreditava foram chamados demônios e diabretes, ligados às forças infernais, com o objetivo claro de afastar as pessoas das tradições pagãs e assim obter mais fiéis – e, por consequência, mais poder.

Autores como William Shakespeare utilizaram a riqueza das tradições Celtas em suas peças, e, no Romantismo, corrente sob cuja influência deu-se o nascimento da novela gótica, temos sempre referências não apenas aos seres mitológicos, mas ainda a criaturas assustadoras e fantasmagóricas. Já na Literatura de Fantasia e Infantil/Juvenil moderna, mais desapegada da necessidade de ater-se apenas à realidade, os elementais voltaram a mover-se com liberdade. Nas prateleiras das livrarias, hoje em dia, encontraremos de tudo: desde os Nibelungos que forjavam metais em cavernas até nobres Elfos de inspiração Tolkieniana e, para nossa alegria, Sacis, Curupiras, Igpupiaras, M’bois e outros habitantes fantásticos das terras brasileiras, sem nos esquecermos dos devas de origem africana, conhecidos como Orixás, igualmente ligados às quatro forças naturais.

Veremos, então, que – como acontece com inúmeros elementos literários – os personagens encantados e encantadores oriundos desses reinos da Natureza podem variar na forma, porém habitam obras vindas de todos os cantos do planeta, sem preconceitos.

É interessante verificar em quantas culturas os elementais da terra são considerados trabalhadores dos metais e das gemas, ligados à ideia de riquezas vindas do solo. São seres telúricos, encarnam as forças da terra. O nome gnomo vem do grego gnosis, conhecimento, talvez pela suposição de que eles saberiam segredos sobre a localização de metais preciosos nas profundezas em que vivem. Foram descritos de muitas maneiras, sendo a descrição mais comum a européia: homenzinhos barbudos e rudes. Como os anões de Tolkien, os Nibelungos eram artífices de metais e preferiam habitar subterrâneos. Assim também são os anões de sagas como Eragon, mas bem mais espertos que os gnomos estúpidos e que vivem discutindo nas histórias de Artemis Fowl (veja abaixo, em Leituras sugeridas). Nos livros de Eoin Colfer, há distinção entre gnomos e anões; estes são descritos como seres da terra, que possuem o maxilar desencaixável para mastigar terra e pedras, capazes de metabolizar esse material ao abrir túneis, expelindo-o, após ser processado, pelas vias naturais… Já nas histórias de Harry Potter os gnomos têm caráter de praga doméstica nos jardins dos bruxos ingleses! Aí, são meros animais que empesteiam jardins. E, na tradição africana, consta que os Orixás relacionados ao elemento terra seriam Oxalá e Xangô.

A relação dos humanos com os elementais da água é bem curiosa. Já citamos os espíritos dos rios e fontes gregos, bem como os tritões que acompanhavam o cortejo de Poseidon. Também da água vêm monstros, demônios e as sereias encantadoras, cujo canto atraía os marinheiros, fazendo-os naufragar, presentes em narrativas antiqüíssimas como a Odisseia de Homero, e descritas de formas diversas, tendo corpos de pássaro ou de peixe. Note-se que na língua inglesa se distingue as sirens (sirenas ou sereias) das mermaids (donzelas do mar). Andersen povoa seu conto “A Pequena Sereia” com todo um povo que habitaria o fundo do mar. Nas “Crônicas de Spiderwick” (veja também em Leituras sugeridas) é dito que elas são seres perigosos pertencentes à família Sirenidae, muito ameaçados pela poluição dos mares. O autor ficcional os descreve em várias espécies, de acordo com o mar que habitam. Já para J. K. Rowling, o povo das águas se chama Merpeople, os Sereianos. Viveriam em todo o planeta, preferindo ser contados entre os animais do que entre os humanóides. Com eles foram assimilados os selkies da Escócia (às vezes chamados homens-foca) e os merrows da Irlanda. Por mais imaginárias que soem suas histórias, contudo, existem até narrativas reais de sereias que teriam vivido entre os humanos! E nas histórias africanas, os Orixás da água seriam Iemanjá (mar), Oxum (rios e cachoeiras) e Nanã (chuva).

Também a respeito dos mais conhecidos elementais do fogo, as salamandras, há referências em bestiários medievais e em obras de não-ficção. Alguns dizem que elas são pequenos dragões; Santo Agostinho cita animais que vivem no fogo, querendo provar que os corpos humanos poderiam viver no fogo do inferno sem serem consumidos… E tanto Aristóteles quanto Leonardo da Vinci atestam a existência real desses animais. Marco Polo até cita ter visto em suas viagens tecidos de pele de salamandra, que não se queimavam no fogo – embora, na verdade, desconfia-se que esses tecidos eram feitos de amianto.

Voltando à ficção, para os bruxos ingleses da saga de Harry Potter as salamandras são lagartos que moram no fogo e se alimentam de chamas, mas fora deles só sobrevivem se comerem pimenta. Considera-se que seu sangue tem propriedades curativas. Sua família, segundo Spiderwick, é a Flammieuntidae, e sua espécie é classificada como Salamander flammulaticus. Quanto aos Orixás, os que se ligam ao fogo são Ogun e Xangô.

Aos elementais do ar, porém, é mais difícil atribuir uma vida “real”. Silfos e elfos fariam parte desse reino, e habitariam montanhas, ventos ou nuvens. Naturalmente, essa classificação está mais ligada às tradições esotéricas e teosóficas do que à mitologia, que via os elfos como meros duendes, mais próprios ao elemento terra. A própria palavra “elfo” vem da mitologia germânica, que acreditava serem eles pequenos, sinistros e misteriosos, dados a pregar peças nos humanos (Sacis?… Embora o cachimbo desses seres sugira sua ligação com o elemento fogo…). Os elfos se misturaram às tradições Celtas provavelmente via cultura Saxã, mesclando-se às narrativas destes sobre povos feéricos. Consta que seu nome vem da palavra alemã alp, pesadelo; na Idade Média acreditava-se que os pesadelos eram culpa de elfos oprimindo o peito de quem dormia para causar-lhes sonhos maus – o equivalente europeu do Jurupari ou da Pisadeira, do folclore brasileiro.

Quando J.R.R.Tolkien, porém, fez uso de tal nome, os elfos se tornaram uma raça anterior à humana; mais nobre e ligada aos destinos da Terra. Eles teriam surgido por criação de Eru Ilúvatar, sendo seus Primogênitos; acordaram sob as estrelas de Elbereth antes de existir o Sol ou a Lua. Criaram a escrita, as artes e todas as coisas belas que antecederam as realizações humanas.

Na série Artemis Fowl, baseada em cultura irlandesa, mas com um toque de tecnologia, os elfos voltaram a ser pequenos e mágicos – muito sarcásticos… enquanto que, para Arthur Spiderwick, personagem das Crônicas, eles seriam pertencentes à família dos Circulifestidae, chamados Wood Elves (Elfos das Florestas), e classificados como Dryas nemorivagans, parentes das Dríades e Hamadríades da mitologia grega. Na mitologia africana, temos Iansã como o Orixá que rege os ventos e os ares.

Autores atuais como Neil Gaiman e Terry Pratchett utilizam esse universo feérico em suas obras. Mas se Pratchett tem uma abordagem satírica, transferindo para o Mundo do Disco tradições de nosso mundo, Gaiman nos presenteia com histórias em que elementais e fadas estão entre nós, em sua forma céltica, poética e às vezes tenebrosa. Bons exemplos são a história em quadrinhos “Sonho de uma noite de verão”, revisitando o clássico de Shakespeare, ou o livro “Stardust”, em que os Thorn atravessam o Muro que separa a cidade de Wall da terra em que Faerie acontece.

Quanto aos dragões… bem, esses seres maravilhosos merecem um artigo só para eles.

Nossa conclusão, após esta pequena viagem pelo mundo dos elementais, é que a contínua popularidade da literatura que os inclui é sinal de que esses seres continuarão por muito tempo a povoar – se não o nosso mundo – as nossas histórias e, consequentemente, os nossos sonhos!

Leituras sugeridas:

Animais Fantásticos e onde habitam – Newt Scamander (J.K. Rowling). SP: Rocco, 2001

As Crônicas de Spiderwick – Tony DiTerlizzi e Holly Black. Rio de Janeiro: Rocco (5 volumes, com títulos e datas de publicação variadas).

O Conto de Fadas – Nelly Novaes Coelho. São Paulo: DCL, 2003.

O Encontro com os Elementais – Cristina Magalhães. Rio de Janeiro: Ed. Objetiva, 1992.

O Livro dos seres imaginários – Jorge Luís Borges. SP: Companhia das Letras, 2008.

Artemis Fowl, o menino prodígio do crime – Eoin Colfer. Rio de Janeiro: Record, 2001.

E mais: Obras variadas de J. R. R. Tolkien, J.K. Rowling e Neil Gaiman

Magos, Bruxas e Feiticeiros: o Bem e o Mal na Literatura de Fantasia

They brought me her heart. I know it was hers – no sow’s heart or doe’s would have continued to beat and pulse after it had been cut out, as that one did.
Neil Gaiman – Snow, Glass, Apples

Nota: se você não leu O Mágico de Oz e Wicked, vai encontrar spoilers neste artigo.

Personagens praticantes de magia aparecem em histórias da tradição oral desde que o mundo é mundo. Muito antes que Harry Potter voasse em sua vassoura nas aulas de vôo de Madame Hooch em Hogwarts, feiticeiros e feiticeiras já andavam às voltas com palavras de poder, encantamentos, vassouras e caldeirões nos mitos e contos de fadas, as narrativas ancestrais que deram origem ao que hoje chamamos de Literatura.

E, embora nessas histórias antigas os bruxos e bruxas tenham sido retratados com frequência como personagens malignos, nem sempre isso aconteceu. Bem antes de a ideia de “Mago do Mal / Mago do Bem” ser personificada em Voldemort / Dumbledore, temos feiticeiras odiadas como Medéia e Circe (mitologia grega), magos nefastos como o tio de Aladim (1001 Noites), e bruxas terríveis como a madrasta de Branca de Neve (Irmãos Grimm); mas encontramos também magos benignos como Merlin nos mitos do Ciclo Arthuriano ou Gandalf na obra de J. R. R.Tolkien, e bruxas ambíguas como a da tradição oral russa, Baba-Yagá, que se apresenta ora com um aspecto maligno, ora com um aspecto maternal.

O arquétipo da bruxa, aliás, é caracterizado por essa ambiguidade: sua origem pode estar em antigas religiões matriarcais, em que se venera a Deusa, a Grande Mãe, que tanto pode doar vida como tirá-la. Há inúmeros exemplos em variadas mitologias (Inanna, Ishtar, Astarté, Ceridwen), mas uma das figuras mais arquetípicas nesse sentido é a deusa Kali, do Hinduísmo – deusa da morte mas também da vida, terrível porém necessária à manutenção da existência. Essa dualidade vai permear as figuras literárias que são sucedâneos do arquétipo da Mãe-Bruxa-Deusa através dos séculos (seja em figuras femininas ou masculinas, devemos notar) e que são descritas como praticantes de magia, feitiçaria, bruxaria – machos ou fêmeas.

Podemos começar a analisar como esses praticantes de magia são vistos nas histórias da literatura (e como com o passar do tempo essa visão muda, transforma-se, enriquecendo nossa percepção da ideia de Bem versus Mal) escolhendo dois casos interessantes.

O primeiro caso une a obra O Mágico de Oz, de L. Frank Baum (1900), a seu sucedâneo, o livro Wicked, de Gregory Maguire (1995).

O Mágico é Oz é considerado o primeiro e mais bem-sucedido livro de Fantasia infanto-juvenil dos Estados Unidos. Foi publicado em 1900, quando seu autor, o eclético Lyman Frank Baum, tinha 44 anos. Baum foi avicultor, produtor teatral e caixeiro-viajante, entre outras coisas; e, como ocorre a muitos escritores (inclusive eu mesma), começou a inventar histórias apenas para contá-las aos filhos. Após o lançamento do livro A Cidade Esmeralda de Oz, cujo título foi alterado para O Maravilhoso Mágico de Oz, ele se firmou como escritor e adaptou a história para uma versão musical, apresentada em Chicago em 1902. Daí o musical foi para a Broadway, e o grande sucesso do livro e da peça o levaram a escrever outras histórias baseadas na Terra de Oz.

Em 1939 seu primeiro livro foi transformado em uma superprodução da Metro sob a direção de Victor Fleming, estrelando Judy Garland e, embora houvesse uma versão anterior, nos primórdios do cinema, esta foi considerada a definitiva. A grande popularidade da produção fez com que a obra se transformasse em uma das histórias mais conhecidas e parodiadas na história das telinhas e telonas. Os personagens se tornaram parte da cultura oral, virtual, televisiva e cinematográfica: quem nunca ouviu falar no Mágico de Oz, na Cidade Esmeralda, nos Munchkins, na Estrada de Tijolos Amarelos, nos sapatos encantados, nos Macacos Voadores e na Boa Feiticeira Glinda, além dos inefáveis Espantalho sem cérebro, Homem de Lata sem coração e Leão covarde? Quem nunca cantarolou a canção “Over the Rainbow”?

A Terra de Oz é um mundo colorido – em oposição ao mundo cinzento original da protagonista, Dorothy (o Kansas). Sob esse ponto de vista, trata-se de uma Utopia: uma terra cheia de magia, animais falantes e bons sentimentos – veja-se como Dorothy encontra acolhida e bondade pelo caminho – exceção feita, é claro, aos antagonistas como a pérfida Bruxa Malvada do Oeste e monstros ocasionais, como os Kalidahs e os Cabeças-de-Martelo. O Mágico (uma tradução para Wizard, que hoje seria traduzida de preferência como Mago, ou Feiticeiro; veja nota de rodapé.[1]) é um governante na Cidade Esmeralda, temido e poderoso. Mais tarde descobrimos que na verdade Oz é humano, e não possui capacidade mágica alguma; usa de tecnologia, truques, para impressionar os Ozianos e se manter no poder (é peculiar como, ao optar pela tecnologia como forma de dominação de um povo, ele se assemelha a Saruman, embora o Istar [mago] de O Senhor dos Anéis possuísse, sim, poderes de magia, apesar de que não pudessem superar os de Gandalf, que o combateu antes e depois de se tornar Gandalf o Branco).[2]

No entanto, Oz não é perverso, é apenas uma fraude, um usurpador; e tem medo dos reais poderes existentes na Terra de Oz – as quatro Bruxas, do Norte, Sul, Leste e Oeste. Nesse cenário, tais personagens (suas designações às vezes são traduzidas como Bruxas, às vezes como Feiticeiras, uma palavra menos carregada de carga semântica negativa) dominam os quatro países, ou regiões, Ozianas: Gillikin ao Norte, Quadling ao Sul, Winkie / Winkus a Oeste e Munchkin a Leste. As Bruxas do Leste e do Oeste são malignas, enquanto as do Norte e do Sul são benignas. A única a ser designada pelo nome, por Baum, é Glinda (segundo ele, a Bruxa Boa do Sul).

O clássico de Baum está novamente em efervescência hoje em dia por obra e graça do autor Gregory Maguire, que em 1995 publicou o best-seller Wicked (Maligna,), uma versão da história de acordo com o ponto de vista da Bruxa Malvada do Oeste – ou, talvez, fosse mais correto chamar o livro de uma versão ampliada das motivações dos personagens, centrada no relacionamento entre Glinda e Elphaba (a Maligna, ou Wicked Witch of the West do título) e levando em conta uma história anterior da Terra de Oz e um detalhamento das relações entre os diversos povos Ozianos.

Em Maligna, Oz não é mais uma Utopia, um mundo colorido e bonitinho, mas um mundo enroscado em diversidades, que fazem com que as diferentes terras / diferentes raças convivam num delicado equilíbrio político – e onde existem dúvidas, preconceitos, divergências religiosas, problemas com a posse dos meios de produção, luta pelo poder, assassinatos, corrupção, erotismo, censura e terrorismo. Ah, sim, e magia.

Essa intrigante e perturbadora fantasia é uma versão do que teria ocorrido na Terra de Oz antes e durante a visita da menina  Dorothy àquele mundo, porém contada do ponto de vista da Bruxa Malvada do Oeste, o que faz com que, como é dito na contracapa do livro, após essa leitura nunca mais olhemos para Oz da mesma forma…

O foco na vida das bruxas é mostrado com detalhes que não existem no livro que deu origem a tudo. Glinda, aqui, será a Bruxa Boa do Norte; Nessarose, a Bruxa Má do Leste; e sua irmã Elphaba, a Bruxa Malvada do Oeste. Tais personagens são desenvolvidas desde a infância/adolescência até o momento em que entram em confronto com o personagem ambíguo do Mágico de Oz (grandes surpresas quando percebemos sua verdadeira natureza…) e da tremenda Madame Morrible – esta sim, a verdadeira malignidade da história, e que não está presente no clássico. A pergunta inicial que Maguire coloca é: por que Glinda é tão amada e Elphaba tão odiada? O que fez as Bruxas serem o que são?Maldade? Bondade? Ou a força onipresente da Propaganda?

Os Munchkins, Winkies e Quadlings são mostrados de uma forma bem diferente do que nas obras originais; e quanto a Dorothy, a garota não é mais apenas a protagonista boazinha que (literalmente) caiu em Oz por obra do acaso – ela aparece como uma inocente útil que se envolve com a luta por poder e liberdade em Oz. Mas, de certa forma, essa noção já estava presente em Baum. No livro original, quando a garota finalmente chega à Cidade Esmeralda (após percorrer a Yellow Brick Road, estrada de tijolos amarelos) e encontra o Mágico, as palavras dele são as seguintes:

– Você não tem o direito de esperar que eu a mande de volta ao Kansas, a menos que você em troca faça algo por mim. Nesta terra todo mundo deve pagar por tudo que obtém. Se você quer que eu use meus poderes mágicos para mandá-la de volta a sua casa, precisa fazer alguma coisa por mim antes. Ajude-me que eu ajudo você.

– Que devo fazer? – perguntou a menina.

– Mate a Bruxa Malvada do Oeste – respondeu Oz.

Maguire leva às últimas consequências esse diálogo. Manipulada por Oz, a criança deve se tornar uma assassina. O resultado é que o Bem e o Mal se confundem, e de repente não podemos distingui-los claramente, pois também nós, leitores, somos ofuscados pelas verdes e hipnotizantes luzes da Cidade Esmeralda. No torvelinho que se segue a personagem mais fascinante é Elphaba, a menina que nasce verde e que, sem perceber, vai sendo transformada pelas circunstâncias na figura que hoje temos como estereótipo da malignidade. Seria ela realmente maligna, ou apenas teria optado por manter seu livre arbítrio diante de um déspota? De repente, o Mágico de Oz não é mais apenas um atrapalhado usurpador, tornou-se uma figura assemelhada a um Sauron (de O Senhor dos Anéis), um Galbatorix (de Eragon), um Tirano (de Crônicas do Mundo Emerso) e tantos outros arquétipos do detentor de poder militar, esteja ele à direita ou à esquerda de uma classe média que preferiria permanecer neutra quanto à política. Perdidos na história, em meio à eterna dualidade do Bem contra o Mal, enxergamos nuances inesperadas nas entrelinhas do discurso que envolve esses dois conceitos – em Wicked não tão rígidos quanto na obra clássica, embora, como vimos, até ali já se abrisse certo espaço para uma discussão não-maniqueísta.

A versão da Broadway para Wicked, um musical magnífico, em cartaz desde 2003, é mais leve e menos complexa que a história do livro, mas transborda de ironia e sarcasmo quanto à hipocrisia de uma sociedade ávida por bodes expiatórios (e um dos bodes expiatórios aqui é mesmo um Bode…). Mas são ricas e interessantíssimas as discussões resultantes desse embate entre O Mágico de Oz livro, musical e filme e Wicked (livro e musical, sem esquecermos que diz-se haver em Hollywood a pré-produção uma versão para cinema, prometida para 2010).
Na saída do teatro, na Broadway, em letras garrafais (verdes, é claro), há os dizeres:

YOU ARE NOW LEAVING OZ. REALITY RIGHT AHEAD.

DRIVE (OR FLY) CAREFULLY.

Ao deixar a Terra de Oz, então, e encontrar a Realidade à nossa frente, restam-nos as dúvidas e a necessidade premente de analisar sempre, duvidar sempre, das noções de Bem e Mal que nos são apresentadas, na ficção ou na realidade.

O segundo caso que gostaríamos de comentar, ao confrontar algumas versões de obras de Fantasia que abordam Magos, Bruxas e Feiticeiros, é a história de Branca de Neve. Certa ocasião, para compor uma peça teatral encomendada, li pelo menos dez versões desse conto folclórico, recontado pelos irmãos Grimm em sua forma mais conhecida. Em todas elas encontrei a garota, Snow White (Branca de Neve) retratada como a proverbial princesinha dos contos de fada, bondosa, amorosa e merecedora de toda a felicidade, enquanto sua Madrasta é maligna, dada a práticas de magia negra e traições sem fim. Os mesmos estereótipos que cercam Dorothy e Elphaba.

Originalmente, como ocorre com os contos de fada, esta não era uma história para crianças; com o tempo, porém, passou a ser; e reconhecemos sua origem não-infantil claramente, ao analisar os castigos a que a Madrasta-Bruxa é submetida no final do conto. Eles dariam inveja a um torturador da Inquisição: vão desde a versão açucarada da Disney, em que a tempestade a faz cair de um precipício, até a condenação à morte, que a faz ser levada a uma praça pública e ter de calçar um par de sapatos de ferro incandescentes, para dançar até cair morta.

Podemos encontrar, porém, uma versão dessa história que faz o que Wicked fez a Oz: mostra a versão do antagonista – não mais a Bruxa Malvada do Oeste, mas a Madrasta de Branca de Neve. Em Smoke and Mirrors, uma coletânea de contos do autor britânico Neil Gaiman, o conto Snow, Glass, Apples retrata Branca de Neve como uma vampira – faz sentido, afinal a garota é branca como a neve, tem a boca vermelha como sangue, e ostenta um aspecto frio, gelado, presente até em seu nome.

Então a inversão acontece novamente: o Bem e o Mal se confundem, e a Rainha, a feiticeira maligna que enfeitiça a enteada com uma maçã envenenada e manda arrancar-lhe o coração, estaria apenas tentando livrar o mundo de uma gélida sugadora de sangue. O que a condena (a Rainha) a uma morte terrível. Perturbador, não?

Não há dúvidas de que, se O Mágico de Oz e Branca de Neve são hoje consideradas histórias exemplares para crianças, reflexões sobre elas a que obras como as de Maguire e Gaiman nos levam são bem-vindas e salutares. Num mundo em que pessoas e instituições, devidamente respaldadas por leis setoriais ou escrituras ditas sagradas, ainda queimam livros (literalmente), e seus autores são execrados por parcelas da população que abençoam a censura, consideram a tortura a terroristas aceitável e certamente aplaudiriam a execução pública de praticantes de magia / bruxaria / feitiçaria ou quaisquer práticas que eles julguem como tais – é mais do que importante discutir os arquétipos e as noções de Bem e Mal presentes nos livros, suas implicações e motivações.

E está aí uma das funções mais importantes da Literatura Fantástica.

Leituras sugeridas:

O Mágico de Oz – L. Frank Baum. Editoras: Ática, Martin Claret, Ediouro, L&PM.

Maligna – Gregory Maguire. Rio de Janeiro: Ediouro, 2007.

Branca de Neve – Irmãos Grimm. Inúmeras editoras.

Smoke and Mirrors – Neil Gaiman. New York: Harper Collins, 1998.


[1] Vejamos as traduções mais correntes para palavras da língua inglesa ligadas aos praticantes de magia: Witch – bruxa, feiticeira. Wizard – mágico, feiticeiro, bruxo, encantador, adivinho.  Sorcerer – mágico, feiticeiro. Sorceress – feiticeira, bruxa. Magician – mágico, prestidigitador. Magi – (plural magus) mágicos, feiticeiros ou astrólogos – esta provavelmente a origem da variação Mage, muito usada em Role Playing Games.

[2] Tolkien, J.R.R., O Retorno do Rei, SP: Martins Fontes/Lisboa: Europa-América.

O Avô dos Castelos Mal-Assombrados

De forma geral, a emergência do gótico no Século das Luzes tem sido associada como uma rebelião contra um ideal estético neoclassicista de ordem e unidade. Uma ressurreição da necessidade do sagrado e da transcendência em um mundo Iluminista secular que nega a existência das forças sobrenaturais, ou uma rebelião da imaginação contra a tirania da razão.
Prof. M. A. Alexander Meireles da Silva. 1

O Terror é um dos subgêneros mais populares dentro dos vários que são rotulados como “Fantástico”. E, no leque que esse subgênero nos abre, temos a presença perene da que se convencionou chamar Literatura Gótica. Diz-nos o professor da USP Ariovaldo José Vidal que o romance gótico é uma espécie de patriarca, forma inaugural do que hoje conhecemos genericamente como história sobrenatural ou de terror. É certo que o gótico, como muitos outros gêneros, conheceu os primeiros cultivadores, logo em seguida um momento de apogeu, para finalmente transformar-se ou se desdobrar em outras formas literárias que, no entanto, guardam, mesmo após tantos anos, traços do velho estilo.[1]

De fato, podemos imaginar um livro feito para aterrorizar (ou um filme, já que o cinema se tornou o mais comum sucedâneo da literatura nestes dias) que não apresente um castelo ou uma casa mal assombrados, com corredores ou subterrâneos sinistros onde antagonistas sombrios aparecem para ameaçar protagonistas desavisados?

Na epígrafe deste artigo, o professor Meireles da Silva explica a emergência do gótico no mundo iluminista como uma forma de protesto contra a ordem excessiva, a placidez que vemos na arte neoclássica. Diante de uma estética (seja escrita ou visual) que prima pela organização e a beleza serena, sempre surgem obras que acabam com toda ordem e desafiam a razão. São as forças sobrenaturais voltando a atacar quando se acreditava que tudo estava resolvido, racional, estabelecido. De súbito, vêm à tona os feios, os obscuros, os sujos, os repugnantes. Temos então espectros, duendes, vampiros, lobisomens, trolls e toda a série de seres malévolos ou simplesmente assustadores que a imaginação humana faz emergir na literatura desde tempos imemoriais – desde que, lá para os idos do Neolítico, os povos da Mesopotâmia conceberam monstros como Tiamat ou Humbaba, para atacar deuses e mortais.[2]

Tal alternância entre uma arte mais racional e uma arte mais instintiva marca todo e qualquer estudo das correntes literárias e artísticas da civilização ocidental. O exemplo óbvio dessa tendência cíclica é o Barroco sucedendo ao Renascimento nas artes visuais, ou o Simbolismo sucedendo (ou mesmo sobrepondo-se) ao Realismo na literatura. Parece que, toda vez que o ser humano encontra uma forma de explicar tudo pela razão, eliminando a emoção, as forças da imaginação reprimida contra-atacam causando um transbordamento emocional – e isso traz de volta os tais monstros primevos para saciar nossa sede por esse tipo de enredo sobrenatural. Para atender ao nosso fascínio pelo fantástico e brincar com nossos medos.

Como já mencionamos antes, alguns autores acreditam que a primeira novela de terror propriamente dita seja o Castelo de Otranto, de Horace Walpole (veja em http://www.valinor.com.br/colunas/torech-ungol/uma-introducao-a-literatura-fantastica/). Publicado em 1764, consta que essa obra teria inspirado nomes como Edgar Allan Poe e Bram Stoker. Já que Walpole foi um aristocrata e sua novela fez muito sucesso, é bem possível que tais autores o tenham lido e que o tom da novela os tenha, sim, influenciado.

A verdade é que dificilmente leremos qualquer novela de terror que não utilize pelo menos um dos elementos que aparecem – pela primeira vez na história da literatura? Talvez… – na história do Castelo de Otranto. Vamos conferir um trecho, em que a personagem Isabela tenta escapar a um óbvio destino nas mãos do vilão da novela.

Firmemente decidida, tomou uma tocha que queimava ao pé da escada e rumou correndo para a passagem secreta. A parte subterrânea do castelo era escavada numa série de vários claustros interligados e não era fácil para alguém em tal estado de ansiedade encontrar a porta que abria para a caverna. Um silêncio assustador reinava nessas regiões subterrâneas, exceto quando, vez por outra, algumas rajadas de vento sacudiam as portas pelas quais ela havia passado e os gongos de ferro ecoavam através daquele longo labirinto de trevas.

Soa familiar? Na cena, Isabela, filha do Marquês de Vicenza, está fugindo do nefando Príncipe Manfredo. Este detém ilegalmente o Principado de Otranto e quer forçar a união de seu filho Conrado com a moça, uma típica donzela virgem e sofredora que se torna joguete nas mãos do malvado. Porém, na própria noite em que se realizaria o casamento, forças estranhas entram em ação e um antigo e imenso elmo de ferro com plumas negras desaba sobre o noivo, matando-o. Manfredo, então, planeja repudiar a própria esposa, Hipólita, para casar-se ele mesmo com Isabela. Através dessa união, o vilão deseja impedir o cumprimento de uma antiga profecia e se manter na posse da propriedade que usurpou. Segue-se uma trama cheia de mais estereótipos, além do castelo sombrio cheio de corredores escuros e passagens secretas e da sempre presente profecia que anuncia o fim dos desmandos cometidos (mas que nunca pode ser impedida). Encontraremos florestas assustadoras propícias à aparição de fantasmas, mocinhas virginais e rapazes heróicos, estátuas que vertem sangue, padres que guardam segredos, herdeiros perdidos e criaturas inocentes condenadas à morte por um tirano…

Devemos, porém, lembrar que provavelmente conhecemos os filhos antes de conhecer o avô! O mesmo acontece com quem leu qualquer obra de fantasia antes de ler J. R. R. Tolkien, e acha estranho encontrar tantos clichês reunidos em O Senhor dos Anéis. Contudo, se hoje nós, autores, brincamos de colocar nossos personagens esgueirando-se por corredores escuros de castelos e casarões, enquanto uma tempestade ruge lá fora e espectros desencarnados se agitam para evitar que vilões consumam seus planos nefastos contra jovens puras, estamos prestando homenagem a quem nos indicou esse caminho: um nobre inglês de vida controversa, filho de um Primeiro Ministro, que deixou como herança uma gráfica própria, inúmeras cartas e uma propriedade tão gótica quanto seus escritos: Strawberry Hill, nos arredores de Londres.

Existe uma boa tradução da obra em português, pela editora Nova Alexandria, em:

http://www.novaalexandria.com.br/materias.php?cd_materias=129&codant=41&hl=Otranto&cd_secao=43&busca=1#129 .

E, como nos diz o já citado prefaciador dessa edição, se o gênero persiste até hoje, fazendo tanto sucesso com autores que se tornaram quase que uma indústria cultural (…) é porque o dia-a-dia do leitor moderno continua cinzento tanto ou mais como no tempo de Walpole, mas também pelo fato de que a imaginação não conhece limites, fazendo-se mais forte justamente no desejo de transpor a realidade conhecida.

Convido-os, então, a transpor a “realidade conhecida” transpondo as grandes portas deste castelo mal-assombrado que assustou muitos leitores nos últimos séculos.

Leituras sugeridas:

Coelho, Nelly Novaes. Literatura e Linguagem. São Paulo: Vozes, 1994.

Walpole, Horace. O Castelo de Otranto. São Paulo: Nova Alexandria, 1996.

Meireles da Silva, Prof. M. A. A. Artigo O Barba azul”: conto de fadas ou conto gótico?

In: http://www.unigranrio.br/unidades_acad/ihm/graduacao/letras/revista/numero9/textoalexanderm.html


[1] Vidal, Ariovaldo José. Apresentação. In: Walpole, Horace, “O Castelo de Otranto”.

[2] Tiamat era o ser primordial da mitologia da Babilônia, às vezes descrito como um dragão, às vezes como uma deusa que deu à luz serpentes e monstros. Foi vencido por Marduk, e de seu corpo se fez o mundo. Já Humbaba era um gigante cujo rosto era feito de entranhas, e que possuía o olhar da morte.

Romanticos, porém Fantásticos

Parece estabelecido por toda a eternidade, em todas as latitudes, que o prazer não deva figurar nos programas das escolas e que o conhecimento não pode ser outra coisa senão fruto de um sofrimento bem comportado.

Daniel Pennac. Como um romance.

A burrice do sistema de educação brasileiro ao tratar do assunto “Literatura” conseguiu, em algumas décadas, transformar o que um dia foi o prazer da leitura em uma forma de tortura lenta e letal, digna dos mais cruéis inquisidores. Estranho. Lembro-me distintamente de, na década de 1960, uma professora minha indicar a leitura de A Moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo, e desencadear a euforia entre os alunos. Li aquele livro umas cinco vezes, encantada com as características românticas presentes na história. Lembro-me ainda de encontrar, na estante de um sebo, um exemplar de As mágoas do jovem Werther, de Goethe, e comprar o livro correndo, para me deliciar com as paixões do personagem – antes, é claro, de ele terminar com a própria existência. Na época, nada acalmava mais as emoções adolescentes do que um bom exemplar do Romantismo na literatura. Victor Hugo, Goethe, Edgar Alan Poe e, em terras tupiniquins, o inefável José de Alencar, além de Machado de Assis em sua primeira fase (Ah! Como era triste ler Helena!), eram autores amados: impossível esquecer o prazer que tive, aos 13 ou 14 anos, quando li O Guarani. A cena final, com Peri e Cecília sumindo no turbilhão do rio, ficou indelevelmente marcada em minha mente. Eu li, ou devorei, vários livros do chamado período romântico por escolha, por vontade própria, pela curiosidade em mergulhar nas histórias.

Por que, então, os autores românticos são hoje execrados pelos leitores jovens? Simples. Porque sua leitura se tornou obrigatória… Porque o Romantismo virou matéria escolar, não mais uma fonte de livros que podem ecoar o turbilhão da puberdade e dar vazão a ele.

Hoje temos autores como André Vianco, Stephanie Meyer, Stephen King, J. K. Rowling como campeões de vendas para o segmento jovem. Uma literatura desprezada pelos críticos e, no entanto, geradora de best-sellers. Literatura – aham! – Fantástica. Terror, magia, fantasia… Mas, e se os leitores soubessem desse segredo tão cuidadosamente guardado pelos professores de Literatura – se todos soubessem que os autores do Romantismo foram pioneiros ao trabalhar o Fantástico? Pior, se soubessem que até autores do chamado Realismo – corrente ainda mais temida que o Romantismo! – cometeram contos fantásticos?

O Romantismo costuma ser definido como a corrente literária que busca solucionar o mistério da existência. Quem é o herói da poesia e do romance dessa época? É o “Eu”, o indivíduo que se sobressai entre as contingências massacrantes ou injustas da sociedade. O “Eu”, esse misterioso e incompreendido ser que habita cada homem, ascende ao plano da literatura como o Herói romântico: ora exaltado, dinâmico e generoso em seus ideais de amor e de solidariedade humana, ora melancólico, deprimido e desesperançado, face às forças contrárias que a vida desencadeia contra ele.[1]

Reação contra um classicismo racional, severo, tanto em forma quanto em conteúdo, os autores românticos chegaram para arrebentar, fazer barulho, negar modelos, gritar, chorar, angustiar-se, brigar pela liberdade – todas as formas de liberdade, até a de morrer de amor! – e pela emoção.

É de se admirar, então, que seus autores não tenham se limitado a falar do real, mas tenham mergulhado também no irreal, no sobrenatural, no fantástico?

São obras românticas por excelência o Werther e o Fausto, de Goethe; Os Miseráveis e Notre Dame de Paris, de Victor Hugo. Na Inglaterra teremos, inseridos nesse rótulo, autores tão diversos quanto Walter Scott, Jane Austen, Charles Dickens, Emily Brontë (Como eu chorei ao ler David Copperfield e O Morro dos Ventos Uivantes!)… No Brasil, os já citados José de Alencar e Joaquim Manuel de Macedo, além de Bernardo Guimarães (A Escrava Isaura), Visconde de Taunay (Inocência), e os poetas Castro Alves, Gonçalves Dias, Álvares de Azevedo. É deste último (como todo bom poeta romântico, morto na juventude) o exemplar:

Cavaleiro das armas escuras,

onde vais pelas trevas impuras

com a espada sangrenta na mão?

Por que brilham teus olhos ardentes

e gemidos nos lábios frementes

vertem fogo do teu coração?

Está aí um poema que poderia ser facilmente transposto para uma cena de cinema, como tantas obras de literatura fantástica e pseudo-histórica que hoje ganham as telas! Sim, os autores românticos foram apaixonados pelo chamado ‘romance histórico’. E, por outro lado, buscaram também o imaginoso, o não-histórico:

Em pólo contrário,o da inverossimilhança ou do fantástico, surgem ainda certas manifestações da prosa romântica. O sentido oculto do mundo manifesta-se como “o maravilhoso”. Mais ou menos em fins do século XVIII o fantástico torna-se uma forma literária bem definida na Inglaterra, uma forma que se funda na impressão do terror, explicada ou não de modo racional. Castelos encantados, mal-assombrados, arrepios noturnos, aparições são a matéria com que trabalham essas narrativas fantásticas. Nathaniel Hawthorne, Edgar Allan Poe, Barbey d’Aurevilly são alguns dos que manipularam o elemento sobrenatural em suas obras. [2]

Mas não foram só eles. Honoré de Balzac, Nikolai Gogol, Théophile Gautier, Ivan Turguêniev, Ambrose Bierce, Robert Louis Stevenson, Henry James, todos deram suas passeadas pelo fantástico, em especial no gênero conto. Na verdade, difícil é encontrar um autor dos séculos XVIII ou XIX que não tenha se aventurado nesse mar. O que estou dizendo? É praticamente impossível encontrar qualquer autor que não tenha escrito ao menos um conto fantástico na vida! E já estou falando dos autores dos séculos XX e XXI…

Voltando ao Romantismo e ao asco que esse rótulo provoca em nossos jovens leitores, talvez isso mudasse se os professores se acostumassem à prática da leitura compartilhada, em voz alta, destacando o prazer da narrativa e se aproveitando da vertente fantástica de todos os autores clássicos. Afinal, como nos diz Ítalo Calvino:

À nossa sensibilidade de hoje, o elemento sobrenatural que ocupa o centro desses enredos aparece sempre carregado de sentido, como a irrupção do inconsciente, do reprimido, do esquecido, do que se distanciou de nossa atenção racional. Aí estão a modernidade do fantástico e a razão da volta de seu prestígio em nossa época. Sentimos que o fantástico diz coisas que se referem diretamente a nós, embora estejamos menos dispostos do que os leitores do século passado a nos deixarmos surpreender por aparições e fantasmagorias, ou melhor, estamos prontos a apreciá-las de outro modo, como elementos da cor da época.[3]

Para quem gosta de fantasia e terror, então, nada melhor do que buscar os clássicos. Bem vindos a essa nova velha faceta do Romantismo!

Leituras sugeridas:

Calvino, Ítalo (org.). Contos fantásticos do século XIX. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

Coelho, Nelly Novaes. Literatura e Linguagem. São Paulo: Vozes, 1994.

Pennac, Daniel. Como um romance. Porto Alegre: L&PM/ Rio de Janeiro: Rocco, 2008.


[1] Coelho, Nelly Novaes. A Era Romântica (século XIX) in: Literatura e Linguagem.

[2] Coelho, Nelly Novaes. Op. Cit.

[3] Calvino, Ítalo. Contos fantásticos do século XIX.