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Mitos Transfomados – Parte VIII – Orcs!!!

Sua natureza e origem requerem mais reflexão1. Elas não são fáceis de se trabalhar na sua teoria e o seu sistema.
[1] Como o caso de Aulë e os Anões mostra, somente Eru poderia fazer criaturas com vontades independentes, e com capacidade de raciocínio. Mas os orcs parecem ter ambas: eles podem tentar enganar Morgoth/Sauron, rebelar-se contra ele, ou criticá-lo.

[2] Entretanto, eles devem ser corrupções de alguma coisa pré-existente.

[3] Mas os homens não haviam aparecido ainda, quando os orcs já existiam. Aulë construiu os anões de sua memória da Música; mas Eru não sancionaria o trabalho de Melkor a fim de permitir a independência dos orcs. [A não ser que os orcs fossem ao final remediáveis, ou pudessem ser corrigidos e "salvos"?]

Também parece claro que embora Melkor pudesse corromper e arruinar indivíduos completamente, não é possível contemplar sua perversão absoluta de um povo inteiro, ou grupo de pessoas, e sua criação que afirma hereditariedade [Adicionado posteriormente: Este último deve[se um fato] ser um ato de Eru].

Neste caso os elfos, como uma fonte, são muito improváveis. E os orcs são “imortais” no sentido élfico? Ou os trolls? Parece claramente implícito no Senhor dos Anéis que os trolls existiam no seu próprio direito, mas foram “consertados” por Melkor.

[4] E o que dizer de feras falantes e pássaros com raciocínio e linguagem? Estes têm sido adotados levianamente por mitologias menos “sérias”, mas representam um papel que agora não pode ser cortado. Eles são certamente “exceções” e não muito usados, mas suficientemente para mostrar que eles são uma faceta reconhecida do mundo. Todas as criaturas aceitam-os como naturais, se não comuns. Mas criaturas “racionais” verdadeiras, “povos falantes”, são todas de forma humana/”humanóide”. Somente os Valar e Maiar são inteligências que podem assumir formas de Arda à vontade. Huan e Sorontar poderiam ser Maiar – emissários de Manwë. Mas, infelizmente, no Senhor dos Anéis é dito que Gwaehir e Landroval são descendentes de Sorontar [Thorondor].

Em qualquer caso, é provável ou possível que mesmo os menores dos Maiar tornariam-se orcs? Sim: tanto fora de Arda como dentro dela, antes da queda de Utumno. Melkor corrompeu muitos espíritos – alguns grandes, como Sauron, ou menores, como balrogs. Os menores poderiam ter sido primitivos [e muito mais poderosos e perigosos] orcs; mas, por procriar quando encarnados, eles [como Melian][tornariam-se] cada vez mais ligados à terra, incapazes de retornar ao estado de espírito [mesmo forma demoníaca], até serem libertados pela morte [assassinato], e eles definhariam em força. Quando libertados eles seriam, claro, como Sauron, “condenados”: isto é, reduzidos à impotência, infinitamente recessiva: ainda odiando, mas incapazes cada vez mais de fazê-lo fisicamente eficaz. [ou não seria o estado órquico muito definhado de morte um poltergeist?]

Mas novamente – Eru proveria fëa [espírito] a tais criaturas? Para as águias etc., talvez. Mas não para os orcs.

Entretanto, parece melhor ver o poder de corrupção de Melkor como sempre começando, pelo menos, no nível moral ou teológico. Qualquer criatura que o tomou por Senhor [e especialmente aquelas que blasfemamente chamaram-o de Pai ou Criador] logo tornou-se corrompida em todas as partes de seu ser, o fëa arrastando o hröa [corpo] em sua queda ao Morgothismo: ódio e destruição. Como para os elfos serem “imortais”: eles, na verdade, possuiam vidas excepcionalmente longas, e foram “cansando-se” fisicamente, e sofrendo um enfraquecimento lento e progressivo de seus corpos.

Em resumo: eu acho que deve-se assumir que “falar” não é necessáriamente o sinal da posse de uma “alma racional” ou fëa. Os orcs eram bestas de forma humanizada [para zombar de homens e elfos] deliberadamente pervertidos/convertidos em uma semelhança mais próxima dos homens. Sua “fala” era na verdade “gravações” recitadas, colocadas neles por Melkor. Melkor ensinou-lhes a fala e ao reproduzirem-se, eles herdaram isto; e eles tinham tanta independência como têm cães ou cavalos de seus mestres humanos. Sua fala era largamente ecoada [como papagaios]. No Senhor dos Anéis é dito que Sauron inventou uma linguagem para eles.

O mesmo tipo de coisa pode ser dito de Huan e as águias: eles aprenderam uma linguagem à partir dos Valar – e elevaram-na a um nível superior – mas eles ainda não tinham fëa. Mas Finrod provavelmente foi muito longe na sua afirmação de que Melkor não poderia corromper completamente qualquer obra de Eru, ou que Eru [necessariamente] interferiria para anular a corrupção ou para cessar a existência de Suas próprias criaturas, pois elas teriam sido corrompidas e voltadas para o mal.

Permanece, portanto, terrivelmente possível que houvesse uma linhagem élfica nos orcs. Estes podem então ter sido cruzados com feras [estéreis!] – e posteriormente homens. Seu tempo de vida seria diminuído. E morrendo eles iriam para Mandos e mantidos aprisionados até o Fim.

…as vontades dos orcs e balrogs etc., são parte do poder de Melkor “dispersado”. O espírito deles é de ódio. Mas o ódio é não-cooperativo [exceto sob medo direto]. Daí as rebeliões, motins, etc., quando Morgoth parecia estar distante. Orcs são feras e balrogs Maiar corrompidos. Também, Morgoth, não Sauron, é a fonte das vontades dos orcs. Sauron é apenas outro [senão maior] agente. Orcs podem rebelar-se contra ele sem perder sua própria fidelidade irremediável ao mal [Morgoth]. Aulë queria amor. Mas, claro, não pensava em dispersar seu poder. Apenas Eru pode dar amor e independência. Se um sub-criador finito tenta fazer isto, ele na verdade quer ardorosa obediência absoluta, mas ela vira servidão robótica e torna-se mal.

Isto sugere – embora não seja explícito – que os “orcs” eram de origem élfica. Sua origem é tratada mais claramente em outro lugar. Um ponto apenas é certo: Melkor não poderia “criar criaturas” vivas de vontades independentes.

Ele [e todos os "espíritos" dos "Criados–primeiro", conforme seus limites] poderia assumir formas corpóreas; e ele [e eles] poderia dominar as mentes de outras criaturas, incluíndo elfos e homens, pela força, medo, ou por engôdos, ou por pura magnificência. Os elfos de épocas remotas inventaram e usaram uma palavra ou palavras com uma base [o]rok para indicar qualquer coisa que causasse medo e/ou terror. Isto teria sido originalmente aplicado a “fantasmas” [espíritos assumindo formas visíveis] tão bem quanto a quaisquer criaturas existindo independentemente. Sua aplicação [em todas as línguas élficas] especificamente às criaturas chamadas orcs – assim devo escrevê-la no Silmarillion – foi posterior.

Uma vez que Melkor não poderia “criar” espécies independentes, mas tinha imensos poderes de corrupção e distorção daquelas que caíam em seu poder, é provável que estes orcs tivessem uma origem mista. A maioria deles claramente [e biologicamente] eram corrupções de elfos [e, posteriormente, de homens provavelmente também]. Mas sempre entre eles [como servos especiais e espiões de Melkor, e como líderes] deviam haver numerosos espíritos menores corrompidos que assumiram formas corpóreas semelhantes. [Estes apresentariam personalidades aterrorizantes e demoníacas]

Os elfos teriam classificado as criaturas chamadas “trolls” [no Hobbit e Senhor dos Anéis] como orcs – em personalidade e origem – mas eles eram maiores e mais lentos. Pareceria evidente que os orcs eram corrupções de tipos humanos primitivos.

A origem dos orcs é matéria de debate. Alguns chamavam-os de Melkorohíni, os Filhos de Melkor; mas os mais sábios diziam: não, os escravos de Melkor,  mas não seus filhos; pois Melkor não tinha filhos. De qualquer modo, foi pela malícia de Melkor que os orcs surgiram, e eles foram claramente pretendidos por ele para serem um escárnio dos Filhos de Eru, sendo criados para serem completamente subservientes à sua vontade e cheios de ódio implacável por elfos e homens.

Ora, os orcs das guerras posteriores, depois da fuga de Melkor-Morgoth e seu retorno à Terra-média, não eram “espíritos”, nem fantasmas, mas criaturas vivas, capazes de falar e de algumas habilidades e organização; ou pelo menos capazes de aprender estas coisas de criaturas superiores e de seu mestre. Eles procriavam e multiplicavam-se rapidamente, sempre quando deixados imperturbados. Até onde pode-se compilar das lendas que chegaram até nossos dias de antigamente, parece que os Quendi não haviam encontrado nenhum orc desse tipo antes da chegada de Oromë a Cuiviénen.

Aqueles que acreditam que os orcs surgiram de alguma espécie de homens, capturados e pervertidos por Melkor, afirmam que era impossível para os Quendi terem conhecido os orcs antes da Separação e da partida dos Eldar. Pois embora o momento do despertar dos homens não fosse conhecido, mesmo os cálculos dos mestres de tradição que determinavam-no o mais próximo possível, não designaram uma data antes da Grande Marcha começar, certamente não uma suficiente para permitir a corrupção dos homens em orcs. Por outro lado, é evidente que logo após seu retorno, Morgoth tinha sob seu comando um grande número dessas criaturas, com as quais ele começara a atacar os elfos. Havia ainda menos tempo entre o seu retorno e esses ataques para a procriação dos orcs e para a transferência de seus exércitos para o oeste.

Esta visão da origem dos orcs depara-se com dificuldades de cronologia. Mas, embora os homens possam encontrar conforto nisto, a teoria permanece de qualquer modo a mais provável. Ela concorda com tudo que é sabido sobre Morgoth, e da natureza e comportamento dos orcs – e dos homens. Melkor era impotente para produzir qualquer coisa viva, mas hábil na corrupção de coisas que não originaram-se dele, se pudesse dominá-las. Mas se ele tivesse de fato tentado fazer criaturas por sua própria conta em imitação ou zombaria dos Encarnados, ele teria, como Aulë, sido apenas bem sucedido em produzir fantoches: suas criaturas teriam agido apenas enquanto a atenção de sua vontade estivesse sobre elas, e elas não teriam mostrado relutância em executar qualquer comando seu, ainda que fosse para destruírem a si mesmas.

Mas os orcs não eram desse tipo. Eles eram certamente dominados pelo seu mestre, mas sua dominação era por medo, e eles estavam cientes desse medo e o odiavam. Eles eram de fato tão corruptos que eram impiedosos, e não havia crueldade ou perversão que eles não cometessem; mas esta foi a corrupção de suas vontades independentes, e eles tinham satisfação nos seus atos. Eles eram capazes de agir por si próprios, cometendo atos malignos para seu próprio divertimento; ou se Morgoth e seus agentes estivessem distantes, eles poderiam negligenciar seus comandos. Eles às vezes lutavam entre si, para o detrimento dos planos de Morgoth.

Além disso, os orcs continuaram a viver e se reproduzir, e prosseguiram no seu trabalho de destruição e pilhagem após Morgoth ter sido destronado. Eles também possuiam outras características dos Encarnados. Eles tinham linguagens próprias, e falavam entre si várias línguas de acordo com as diferenças de linhagem que eram discerníveis entre eles. Eles precisavam de comida e bebida, e descanso, embora muitos fossem treinados tão duros como os anões para suportar as adversidades. Eles podiam ser mortos, e eram alvos de doenças; mas à parte desses males, eles morriam e não eram imortais, mesmo de acordo com o modo dos Quendi; de fato, eles pareciam ter por natureza vidas curtas comparadas com a longevidade dos homens de raças superiores, tais como os Edain.

Este último ponto não era bem compreendido nos Dias Antigos. Pois Morgoth possuía muitos servos, dos quais os mais velhos e mais potentes eram imortais, pertencendo de fato, no seu início, aos Maiar; e estes espíritos malígnos, como seu mestre, podiam tomar formas visíveis. Aqueles cujo trabalho era comandar os orcs frequentemente tomavam formas órquicas, porém eram maiores e mais terríveis. Assim as histórias falavam de Grandes Orcs ou capitães-orcs que não eram mortos, e que reapareciam em batalha através dos anos muito mais longos que os períodos das vidas dos homens.

Finalmente, há um ponto irrefutável, embora horrível de se relatar. Tornou-se claro com o tempo que indubitavelmente os homens podiam, em poucas gerações, sob a dominação de Morgoth ou de seus agentes, ser reduzidos quase ao nível órquico em mente e hábitos; e então eles estariam, ou poderiam estar, prontos para cruzar com orcs, produzindo novas linhagens, frequentemente maiores e mais astutas. Não há dúvida de que muito mais tarde, na Terceira Era, Saruman redescobriu isto, ou aprendeu sobre isto em estudo, e em sua sede pela supremacia, praticou isto, seu ato mais maligno: o cruzamento de orcs e homens, produzindo tanto homens-orc, grandes e astutos, como orcs-homens, traiçoeiros e desprezíveis.

Mas mesmo antes dessa perversão de que Morgoth era suspeito, os sábios nos Dias Antigos sempre ensinaram que os orcs não foram feitos por Melkor e, portanto, não eram malignos na sua origem. Eles podiam ter se tornado irredimíveis [pelo menos por elfos e homens], mas eles continuavam dentro da Lei. Isto é, que embora sendo necessário [sendo os dedos da mão de Morgoth] serem enfrentados com a maior severidade, eles não deveriam ser tratados com os seus próprios termos de crueldade e traição. Cativos, não deviam ser atormentados, nem mesmo para descobrir informações para a defesa das casas de elfos e homens. Se quaisquer orcs se rendessem e clamassem por misericórdia, ela seria concedida, a qualquer preço. Este era o ensinamento dos sábios, embora no horror da guerra isto não fosse sempre considerado.

É verdade, claro, que Morgoth mantinha os orcs em horrenda escravidão; pois em sua corrupção, eles haviam perdido quase toda a possibilidade de resistir à dominação de sua vontade. De fato, tão grande era a sua pressão sobre eles que, antes de Angband cair, se direcionasse seu pensamento na direção deles, eles ficariam conscientes de seu “olho” onde quer que estivessem; e quando Morgoth finalmente foi removido de Arda, os orcs que sobreviveram no oeste se dispersaram, sem liderança e quase sem sagacidade, e estiveram por um longo tempo sem controle ou propósito.

Esta servidão à uma vontade central que reduziu os orcs a uma vida quase como a de formigas, foi vista mais claramente na Segunda e Terceira Eras sob a tirania de Sauron, tenente-comandante de Morgoth. Sauron realmente alcançou maior controle sobre seus orcs do que Morgoth jamais havia conseguido. Ele estava, claro, operando em uma escala menor, e ele não tinha inimigos tão grandes e tão ferozes como os noldor no auge de seu poder nos Dias Antigos. Mas ele também herdou destes dias dificuldades, tais como a diversidade de orcs em linguagem e linhagem, e as hostilidades entre eles; enquanto em muitos lugares da Terra-média, após a queda das Thangorodrim e durante a ocultação de Sauron, os orcs, recuperando-se de sua impotência, ergueram pequenos reinos por si próprios e tornaram-se acostumados à independência. Mas Sauron conseguiu em tempo unir a todos em ódio irracional a elfos e aos homens que associaram-se a eles; enquanto que os orcs de seus próprios exércitos treinados estavam tão completamente sob sua vontade que sacrificariam a si mesmos, sem hesitação, ao seu comando.

[Mas havia uma falha no seu controle, inevitável. No reino do ódio e do medo, a coisa mais forte é o ódio. Todos os seus orcs odiavam-se uns aos outros, e precisavam ser mantidos sempre em guerra contra algum "inimigo" para evitar que se matassem entre si] E ele mostrou-se também mais habilidoso do que seu mestre na corrupção dos homens que estavam além do alcance dos sábios, e em reduzí-los à vassalagem, na qual eles marchariam com os orcs, e rivalizariam com eles em crueldade e destruição.

É dessa maneira que provavelmente devemos olhar para Sauron para encontrar uma solução do problema da cronologia. Embora de poder natural imensamente menor do que seu mestre, ele permaneceu menos corrupto, mais audacioso e mais apto à prudência. Pelo menos nos Dias Antigos, e antes de ser privado de seu senhor e cair na insensatez de imitá-lo, e esforçando-se para tornar-se Senhor Supremo da Terra-média. Enquanto Morgoth ainda governava, Sauron não procurou sua própria supremacia, mas trabalhou e planejou para outro, desejando o triunfo de Melkor, que no início ele venerava. Ele, assim, foi frequentemente capaz de concluir coisas, primeiramente concebidas por Melkor, que seu mestre não completou ou não podia completar na pressa furiosa de sua malícia.

Podemos supor, então, que a idéia do cruzamento de orcs partiu de Melkor, a princípio talvez não tanto pela provisão de servos ou da infantaria de suas guerras de destruição, como pela profanação dos Filhos e escárnio blasfemo dos desígnios de Eru. Os detalhes da realização dessa depravação foram, entretanto, deixados principalmente às sutilezas de Sauron. Neste caso, a concepção [em pensamento] dos orcs deve ter surgido há muito tempo, na noite do pensamento de Melkor, embora o início da sua atual reprodução devesse esperar pelo despertar dos homens.

Quando Melkor foi feito prisioneiro, Sauron escapou e permaneceu escondido na Terra-média; e desse modo pode ser compreendido como a reprodução dos orcs [sem dúvida já iniciada] continuou com velocidade crescente durante a era em que os noldor habitavam Aman; então quando retornaram à Terra-média, econtraram-na já infestada por esta praga, para o tormento de todos que lá habitavam, elfos, homens ou anões. Foi Sauron, também, que secretamente reparou Angband para o auxílio de seu mestre quando este retornasse; e lá, os escuros lugares subterrâneos já estavam guarnecidos com exércitos de orcs antes de Melkor por fim voltar, como Morgoth, o Sinistro Inimigo, e os enviou para trazer ruína a tudo que era belo. E embora Angband tenha caído e Morgoth tenha sido removido, eles ainda saem dos lugares sem luz na escuridão de seus corações, e a terra é destruída sob seus pés impiedosos.

  1. Este texto corresponde ao Mitos Transformados, partes VIII a X, publicado no The History of Middle Earth 10  – maiores detalhes aqui []

Casamento Élfico

Os Elfos se casavam apenas uma vez na vida e era por amor e de livre
vontade. Casamento era o curso natural de suas vidas e eles, em sua
maior parte, se casavam na juventude e normalmente antes de seus
quinquagésimos aniversários.
 
 
 
Com bastante frequência ele podiam escolher um ao
outro bastante cedo na juventudo, mesmo como crianças. Se eles eram
crianças [ou seja, não tinham atingido 50 anos] o noivado aguardava o
julgamento dos pais de ambos. Se eles já possuíam a idade apropriada, o
noivado era anunciado em um encontro das duas Casas interessadas e se
permitido os noivos trocavam alianças de prata entre si.

De
acordo com as leis dos Eldas este noivado mantido por pelo menos um ano
e durante este tempo ele poderia ser revogado por uma devolução pública
dos anéis; os anéis então seriam enterrados e nunca usados novamente
para um noivado.

Depois de pelo menos um ano ter se passado
desde a festa de noivado, era função dos noivos indicar a data de seu
casamento e a festa das duas Casas envolvidas. Ao final da festa os
noivos punham-se à frente e a mãe da noiva e o pai do noivo juntava as
mãos do casal e os abençoava.

A forma desta benção não é
conhecida pois nenhum mortal jamais a ouviu, mas os Eldar diziam que
Varda era nomeada como testemunha pela mãe e Manwë pelo pai e o nome de
Eru era mencionado também. Então os noivos devolviam suas alianças de
prata, mas em troca davam finos anéis de ouro usados no indicados da
mão direita.

Para os Noldor existia também um costume no qual
a mãe da noiva deveria dar ao noivo uma jóia em uma corrente ou colar e
o pai do noivo deveria dar um presente igual à noiva. Este presente
poderia ser dado antes da festa de casamento.

Estas cerimônias
não eram obrigatórias para o casamento; eram apenas um modo gracioso de
reconhecer a união das duas Casas. Era no ato da união corpórea que o
casamento era executado e após a qual a união estaria completa. Sempre
foi permitido a qualquer Eldar [se solteiro] casar-se sem cerimônia ou
testemunhas, exceto bençãos e menção de nomes, e em tempos de
problemas, em fugas ou em exílios e viagens, tais casamentos eram
frequentemente realizados.

Não existem registros de nenhum
Elfo que tenha pega a esposa de outro por força porque isto era contra
sua natureza. Alguém forçado a isso poderia rejeitar sua vida corpórea
e passar para Mandos. Isto dificilmente era possível, pois os Eldar
podiam ler na voz e nos olhos do outro quando este era casado ou não.

Segue abaixo a Lei de Ilúvatar sobre casamentos que foi pronunciada
devido aos dois casamentos de Finwë, o que conflita com o enunciado da
primeira linha que diz que os Elfos se casavam apenas uma vez durante a
vida. A Lei sobre casamento como Mandos a disse aos conselheiros dos
Eldar:

“Esta é a Lei de Ilúvatar para vocês, seus filhos, como
vocês sabem. Os Primogênitos deverão tomar uma esposa apenas e não ter
outra na vida enquando Arda perdurar. Contudo esta lei não leva em
consideração a Morte. Este destino é agora existente, pelo direito de
governo que Ilúvatar concedeu a Manwé, que se o espírito de um
parceiro, marido ou esposa, abandonar seu corpo deverá de qualquer
forma passar para a guarda de Mandos, então ao vivo será permitido
tomar outro parceiro. Mas isto apenas poderá ser se a antiga união for
dissolvida para sempre. Então aquele mantido sob a guarda de Mandos
deverá permanecer ali até o final de Arda, e não deverá despertar
novamente ou tomar forma corpórea. Pois ninguém entre os Quendi poderá
ter duas esposas de uma vez vivas e despertas. Mas uma vez que não pode
se rpensado que os vivos poderão, por sua vontade apenas, confinar o
espírito de outro a Mandos, esta desunião deverá ocorrer apenas com o
consentimento de ambos. E após a concessão do consentimento dez anos
dos Valar [9,82 Anos do Sol] deverão se passar antes que Mandos o
confirme. Dentro deste período qualquer parte poderá revogar este
consentimento, mas quando Mandos o confirmar, o o parceiro vivo casior
com outro, será irrevogável até o fim de Arda.”

[De: The History of Middle-Earth 10 - Morgoth`s Ring]

[tradução de Fábio 'Deriel' Bettega]

History of Middle-earth XI – The War of the Jewels

"The War of the Jewels" ou "A Guerra das Jóias" se refere, é claro, à terrível contenda entre os Noldor e seus aliados élficos e humanos contra Morgoth, o Inimigo do Mundo, pela posse das Silmarils. O livro continua o esquema iniciado em "Morgoths Ring" ao mostrar como as lendas dos Dias Antigos foram sendo reelaboradas por Tolkien depois que ele terminou "O Senhor dos Anéis".

 

O foco do livro é o período que segue a chegada dos Noldor à Terra-média até o fim da Primeira Era. O Quenta Silmarillion continua, acompanhada pelos chamados Anais Cinzentos. Não há grandes novidades para quem já conhece "O Silmarillion", com a notável exceção de um belo texto que descreve a relação entre o sindarin e o quenya e como os Noldor se adaptaram, na marra, ao novo idioma (no caso, o élfico-cinzento).

Os grandes atrativos e surpresas do livro vêm depois. O primeiro deles é "The Wanderings of Húrin" (As Andanças de Húrin), que relata parte do que aconteceu ao maior guerreiro humano da Primeira Era depois de ser libertado de Angband. Acredite se quiser, Christopher Tolkien acochambrou em "O Silmarillion": a idéia de Tolkien era que Húrin entrasse em Brethil para vingar a morte de seu filho Túrin, causando uma guerra civil entre os Haladin. Infelizmente, como essa versão estava inacabada, Christopher precisou criar seu próprio final para Húrin.

Fechando com chave de ouro o livro, temos "Quendi and Eldar", um monumental texto filológico que também traz novas revelações sobre a história élfica.

Dos Anões e Homens

Importante texto da série HoME que trata dos Anões, seus clãs, suas alinças com os Homens e também relata sbre os Homens do Norte.
[Christopher Tolkien:Este longo ensaio não possui título, mas em uma página de rosto meu pai escreveu:

"Uma história e comentário extenso sobre a inter-relação das linguagens em O Silmarillion e em O Senhor dos Anéis, originadas de considerações sobre o Livro de Mazarbul, mas tentando clarificar e onde necessário corrigir ou explicar as referências a tais assuntos espalhadaos por O Senhor dos Anéis, especialmente no Apêndice F e na Fala de Faramir no SdA II"

´Fala de Faramir´ é uma referência à conclusão do capítulo A Janelasobre o oeste no As Duas Torres. Para um vago resumo do ensaio ele deu o título Anões e Homens, o qual adotei.

O texto começa manuscrito mas após três páginas e meia torna-se datilografado até sua conclusão (28 páginas ao todo). Ele foi escrito em papéis timbrados fornecidos pela Allen and Unwin, nos quais a última data é Setembro 1969. Uma parte do trabalho foi impressa no Contos Inacabados, Parte Quatro, Seção I, Os Drúedain, mas de outra forma pouco uso foi feito dele naquele livro. Infelizmente a primeira página do texto foi perdida (e já estava faltando quando recebi os papéis de meu pai) e inicia-se no meio de uma frase de um trecho discutindo o conhecimento da Língua Comum.

Em relação à primeira parte do ensaio, que se refere aos Anões Barbalonga, achei que seria útil primeiramente citar o que é dito sobre os Anões nas duas principais fontes anteriores. O texto a seguir é encontrado no capítulo Sobre os Anões do Quenta Silmarillion, como revisado e aumentado em 1951:

A língua-mãe dos Anões foi criada pelo próprio Aulë e suas línguas não tinham parentesco com aquelas dos Quendi. Os Anões não ensinavam de boa vontade suas língua para aqueles de outra raça; e no uso da mesma a tornaram dura e intrincada, assim daqueles poucos que foram recebidos plenamente em amizade poucos a aprenderam bem. Mas eles próprios aprendiam rapidamente outras línguas e em conversações eles podem usar as línguas dos Elfos e Homens com os quais negociam. Mas apenas em segredo eles utilizam sua própria fala e ela (como é dito) muda lentamente, dessa forma mesmo os reinos e casas que há muito se distanciaram podem se entender bem umas às outras. Nos dias antigos os Naugrim habitavam muitas montanhas da Terra-média e lá conheceram os Homens mortais (dizem eles) muito antes dos Eldar; por isso muitas das línguas dos Orientais mostram parenteco com a fala dos Anões ao invés de com a fala dos Elfos.

O segundo trecho é do Apêndice F, Anões.

Na Terceira Era, contudo, ainda se encontrava em muitos lugares uma profunda amizade entre Homens e Anões; e era compatível com a natureza dos Anões o fato de, viajando, trabalhando e comerciando pelas terras afora, como fizeram depois da destruição de suas antigas mansões, usarem as línguas dos homens entre os quais habitavam. Em segredo, porém (um segredo que, ao contrário dos Elfos, não revelavam voluntariamente, nem aos seus amigos), usavam sua estranha língua, pouco mudada pelos anos; pois tornara-se uma língua de tradição, e não de berço, e eles a cultivavam e guardavam como um tesouro do passado. Poucos membros de outras raças conseguiram aprendê-la. Nesta história ela aparece somente como topônimos que Gimli revelou aos companheiros e no seu grito de batalha no cerco do Forte da Trombeta. Esse, pelo menos, não era secreto, e foi ouvido em muitos campos desde que o mundo era jovem. Baruk Khazâd! Khazâd aimênu!" Machado dos Anões! os Anões estão sobre vós!"

O próprio nome de Gimli, porém, eos nomes de toda a sua gente, são de origem setentrional (Humana). Seus nomessecretos e "interiores", seus nomes verdadeiros, jamais foram revelados pelos Anões a quem fosse de raça alheia. Nem mesmo em seus túmulos eles os inscrevem.

Aqui segue o texto do ensaio que eu chamei Dos Anões e Homens.]

…apenas ao falar com outros de diferentes raças e línguas, a divergência poderia ser grande, e a intercomunicação imperfeita [1]. Mas este nem sempre era o caso: dependia da história dos povos relacionados e suas relações com os reinos Numenorianos. Por exemplo, entre os Rohirrim existiam muitos poucos que não compreendiam a Língua Comum e a maioria era capaz de falá-la bastante bem. A casa real, e sem dúvida muitas outras famílias, falavam-na (e escreviam-na) correta e familiarmente. Era de fato a língua nativa do Rei Théoden: ele nasceu em Gondor e seu pai Thengel utilizava a Língua Comum em sua própria casa mesmo após seu retorno a Rohan [2]. Os Eldar usavam-na com o cuidado e perícia que aplicavam a todos os assuntos lingüísticos, e sendo longevos e de longa memória eles tendiam, especialmente quando falavam formalmente ou sobre assuntos importantes, usar uma linguagem de certa forma arcaica [3].

Os Anões eram, de muitas maneiras, um caso especial. Eles tinham uma antiga língua própria da qual se orgulhavam bastante; e mesmo quando, como entre os Anões Barbalonga do Oeste, cessou de ser sua língua nativa e tornou-se uma “língua de livro”, foi cuidadosamente preservada e ensinada a todas as suas crianças bastante cedo. Servia, portanto, como lingua franca entre todos os Anões de todos os tipos; mas também era a língua escrita utilizada em todas as histórias e conhecimentos importantes, e no registro de todos os assuntos que não tinham intenção de serem lidos por outros povos. Este Khuzdul (como eles a chamavam), parcialmente devido à sua própria secritude natural, parcialmente por sua dificuldade inerente [4], raramente era aprendida por aqueles de outra raça.

Os Anões não eram, contudo, lingüístas hábeis – em muitos aspectos eles não era adapatáveis – e falavam com um notável sotaque anão. Eles também nunca inventaram nenhuma forma de escrita alfabética [5]. Eles, contudo, rapidamente reconheceram a utilidade dos sistemas Élficos, quando eles finalmente se tornaram suficientemente amigos com qualquer Eldar para aprendê-los. Isto ocorreu principalmente na convivência próxima de Eregion e Moria na Segunda Era. Em Eregion não apenas a Escrita Feanoriana, que há muito tornara-se um modo de escrita utilizado comumente (com várias adaptações) entre todos os povos “alfabetizados” em contato com as colônias Numenorianas [6], mas também o antigo alfabeto “rúnico” de Daeron elaborado[> usado] pelos Sindar era conhecido e utilizado. Isto se devia, sem dúvida, à influência de Celebrimbor, um Sinda que se dizia descendente de Daeron [7]. Em todo caso, mesmo em Eregion as Runas eram principalmente um “assunto de sabedoria” e raramente utilizadas informalmente. Elas, contudo, capturaram a maneira dos Anões; pois embora os Anões ainda morassem em seus próprios reinos populosos, como Moria, e saíssem em viagens apenas para visitar seus parentes, eles tinham pouco contato com outros povos exceto seus vizinhos imediatos, e necessitavam escrever muito pouco; embora fossem orgulhosos das inscrições, de todos os tipos, feitas em pedra. Para tais propósitos as Runas era convenientes, sendo originalmente utilizadas para tal.

Os Anões Barbalonga adotaram as Runas, modificando-as para seus próprios usos (especialmente a escrita do Khuzdul); e eles aderiram a ela mesmo ao final da Terceira Era, quando estavam esquecidas pelos demais exceto os mestres da sabedoria dos Elfos e Homens. De fato, era geralmente suposto pelos não estudados que ela haviam sido inventadas pelos Anões, e eram amplamente conhecidas como “letras dos Anões” [8].

Aqui estamos interessados apenas na Língua Comum. A Língua Comum, quando escrita de alguma forma, em seu início era expressa através da Escrita Feanoriana [9]. Apenas ocasionalmente e escritas não feitas com caneta ou pincel alguns Elfos de descendência Sindarin usavam as Runas de Daeron. Os Anões originalmente aprenderam a Língua Comum de ouvido o melhor que puderam e não tiveram oportunidade de escrevê-la; mas na Terceira Era foram obrigados, devido ao comércio e outros assuntos com Homens e Elfos, a aprender a ler a Língua Comum escrita e muitos acharam conveniente aprender a escrevê-la de acordo com os costumes gerais do Oeste. Mas eles apenas o faziam nos assuntos com outros povos. Para seus próprios propósitos (como dito) eles preferiam as Runas e aderiam a elas.

Portanto em documentos tais como o Livro de Mazarbul – não “secreto” mas direcionado principalmente a Anões, e provavelmente mais tarde tendo como intenção fornecer material para crônicas [10] – eles usavam as Runas. Mas a escrita estava misturada e irregular. Em geral e por intenção básica era uma transcrição da escrita corrente da Língua Comum em Runas; mas esta era freqüentemente “incorreta”, devido à rapidez e conhecimento imperfeito dos Anões; e isto misturado com os numerosos casos de palavras escritas foneticamente (de acordo com a pronúncia dos Anões) – por exemplo, letras que na pronúncia coloquial do final da Terceira Era cessaram de ter qualquer função eram algumas vezes omitidas [11].

Na preparação de um exemplo do Livro de Mazarbul, e fazendo três páginas rasgadas e parcialmente ilegíveis [12], eu segui o princípio geral mantido no todo: a Língua Comum era representada como o inglês de hoje, formal ou coloquial conforme o caso exigia. Consequentemente o texto foi feito na língua inglesa atual, modificada para parecer que os escritores estavam com pressa e tinham um conhecimento imperfeito da forma escrita e que estavam, também, (na primeira e terceira páginas) transliterando o inglês em um alfabeto diferente – um que, por exemplo, não empregasse qualquer letra em mais de um valor distinto, por isso a distribuição do inglês k,c – c,s foi reduzido a k – s; enquanto que o uso de s e z é variável uma vez que o inglês usa s frequentementem como se fosse z. Adicionalmente alguns documentos deste tipo quase sempre mostravam o uso de letras ou emformas peculiares ou nunca encontradas em outros lugares, algumas poucas das quais também foram acrescentadas: como os símbolos para os pares ingleses de vogais ea, oa, ou (sem relação aos seus sons).

Ficou bastante bom, e talvez dê alguma noção do tipo de texto que Gandalf tentava ler muito rapidamente na Câmara de Mazarbul. Também está de acordo com o tratamento geral das línguas em O Senhor dos Anéis: apenas as formas atuais dos nomes e palavras do período, que estavam nas línguas Élficas, foram preservados como supunha-se serem sua forma real [13]. Além disso, este tratamento foi imposto pelo fato de que, embora a Língua Comum tenha sido rascunhada em termos de elementos fonéticos e estrutura, e um certo número de palavras inventado, é impossível traduzir tais pequenos trechos em formas reais contemporâneas, se fossem visualmentee representados. Mas esta é uma extensão errônea do tratamento lingüístico geral.É uma coisa representar todos os diálogos da história em várias formas de inglês:  supôe-se que isto seja feito por “tradução” – da memória de sons não registrados ou de documentos perdidos e não impressos, seja assim afirmado ou não, qualquer que seja a narrativa lidando com tempos passados ou terras estrangeiras. Mas é outra coisa completamente diferente prover representações visuais de escritos ou gravações supostamente feitos à data da narrativa [14].

O real paralelo neste caso é o relance de Quenya dado no lamento de galadriel – seja na transcrição para o nosso alfabeto (para tornar o estilo da linguagem mais facilmente apreciável) ou na escrita contemporânea (com na The Road Goes Ever On) – seguida por uma tradução. Uma vez que, como dito, a provisão de um texto contemporâneo na Língua Comum não é possivel, o único procedimento adequado era produzir uma tradução para o inglês das palavras legíveis das páginas rapidamente examinadas por Gandalf [15]. Isto foi feito no texto; e pouco da contrução da Língua Comum, suficiente para permitir o texto estar na forma contemporânea, tudo que pôde ser legitimamente feito.

Uma dificuldade especial é apresentada pela inscrição no túmulo de Balin. Ela é efetiva em seu lugar: dando uma idéia do estilo das Runas quando gravadas com mais cuidado para propósitos solenes, e proporcionando um vislumbre de uma língua estranha; embora tudo que era realmente necessário para o conto são as seis linhas [16] (com a tradução da inscrição em letras maiores e mais fortes). A representação da inscrição, entretanto, caiu em alguns absurdos[17].

O uso, na inscrição, de valores e formas mais antigos e mais “corretos” das Argenthas, e não do posterior “uso de Erebor” não é absurdo (embora possivelmente seja uma elaboração desnecessária); está de acordo com a história das Runas como rascunhada no Apêndice E. As Runas mais antigas seriam utilizadas para tal propósito, uma vez que foram utilizadas em Moria antes da fuga dos Anões, e apareceria em outras inscrições afins – e Balin clamava ser descendente e sucessor dos antigos Senhores de Moria. O uso da língua dos Anões (Khuzdul) é possível em uma inscrição tão curta, uma vez que esta língua foi rascunhada em algum detalhe de sua estrutura e com um vocabulário bastante pequeno. Mas os nomes Balin e Fundin em tal contexto são absurdos. Os Anões, como já dito, tinham nomes em sua própria língua; estes eles apenas utilizavam entre eles mesmo (em ocasiões solenes) e os mantinham estritamente secretos a outros povos e portanto nunca os escreviam em textos ou inscrições que pudessem ser vistos por estranhos. Em tempos ou locais onde eles tinham assuntos, seja de negócios ou amizade, com seus vizinhos, eles adotaram “nomes externos” para conveniência [19].

Estes nomes tinham forma geralmente adaptada à estrutura da Língua Comum [> à estrutura da língua das quais derivavam]. Muito frequentemente eles possuíam significados reconhecíveis naquela língua ou eram nomes comuns na mesma; algumas vezes eram nomes [> comuns na mesma, sendo nomes] utilizados pelos Homens na vizinhança em que residiam, e eram derivados da línguas Humanas nas quais eles poderiam continuar a ter um significado, embora nem semprefosse o caso [esta frase foi riscada][20]. Se os nomes adotados que possuíam significados foram escolhidos por estes significados terem algumas relação com seus “nomes internos” não pode ser determinado. Os nomes adotados poderiam ser alterados e algumas vezes eram – geralmente em consequência de algum evento, como uma migração dos Anões os de seus amigos, que os separassem.

O caso dos Anões de Moria é um exemplo da adoção de nomes das línguas Humanas do Norte, não da Língua Comum[21]. Poderia ter sido melhor, nesse caso, dar os nomes em suas formas originais. Mas continuando com a teoria (necessária para reduzir o peso da invenção de nomes em diferentes estilos de linguagem) que nome derivados de línguas e dialetos Humanos do Oeste historicamente relacionados à Língua Comum deveriam ser representados por nomes encontrados (ou construídos de elementos encontrados em) línguas relacionadas aos inglês, os nomes dos Anões foram tomados do Norueguês, uma vez que as línguas humanas das quais eles os adotaram é bastante próxima da língua do sul da qual se derivou a língua de Rohan (representada pelo Inglês Antigo, devido ao seu grande arcaísmo se comparada àqueles elementos da Língua Comum derivados da línguas de mesmo parentesco). Em consequência nomes como Balin não apareceriam em nenhuma inscrição contemporânea utilizando Khuzdul [22].

Relacionamentos dos Anões Barbalongas e Homens [23]

Nas tradições dos Anões da Terceira Era os nomes dos locais onde cada um dos Sete Ancestrais “acordaram” foram preservados; mas apenas dois deles são conhecidos dos Elfos e Homens do Oeste: o mais ocidental, o local do acordar dos ancestrais dos Barbas-de-fogo e dos Vigalargas; e aquele do ancestral dos Barbalongas[24], o mais antigo a ser criado e o primeiro a acordar. O primeiro foi o norte das Ered Lindon, o grande muro leste de Beleriand, do qual as Montanhas Azuis da Segunda Era e eras posteriores são remanescentes; o segundo foi o Monte Gundabad (originalmente um nome Khuzdul), o qual era, portanto, reverenciado pelos Anões e sua ocupação na Terceira Era pelos Orks [N.T. escrito assim mesmo, com K] de Sauron foi uma das principais razões de seu grande ódio aos Orks [25]. Os outros dois locais eram a leste, a distâncias tão grandes ou maiores do que entre as Montanhas Azuis e Gundabad: a origem dos Punhos-de-Ferro e dos Barba-Bífidas e àquele dos Ferrolho-Negros e Pés-de-Pedra. Embora estes quatro pontos fossem bastante separados os Anões das diferentes famílias estavam em contato, e nas primeiras eras mantinham assembléias de representantes no Monte Gundabad. Em tempos de grande necessidade mesmo os mais distantes mandariam auxílio para qualquer um de seu povo; como no caso da grande Guerra contra os Orks (Terceira Era, 2793-2799). Embora não gostassem de migrar e fazer moradias permanentes ou “mansões” longe de suas casas originais, exceto  sob grande pressão de inimigos ou após alguma catástrofe como a ruína de Beleriand,eram grandes e resistentes viajantes e hábeis construtores de estradas; e também todas as famílias dividiam uma língua comum [26].Mas em dias distantes os Anões eram secretivos [riscado: - e nenhum mais do que os Barbalongas - ] e possuíam poucos negócios com os Elfos. No Oeste ao fim da Primeira Era os negócios dos Anões das Ered Lindon com o Rei Thingol terminaram em desastre e na Ruína de Doriath, a lembrança da qual continuou a envenenar as relações entre Elfos e Anões em Eras posteriores. Àquele tempo as migrações dos Homens do Leste e Sul trouxeram grupos avançados a Beleriand; mas não eram em grande número, embora mais ao leste em Eriador e Rhovanion (especialmente as áreas mais ao norte) seus parentes tenham ocupado a maior parte da terra. Lá os negócios entre Homens e os Barbalongas logo começaram. Para os Barbalongas, embora os mais orgulhosos das Sete Casas, também eram os mais sábios e os de visão mais longa. Homens mantinham-nos em temor e eram ávidos por aprender com eles; e os Barbalongas tinham grande interesse em usar os Homens para seus próprios interesses. Portanto cresceu a economia, naquela região, mais tarde característica dos negócios entre Anões e Homens (incluindo Hobbits): Homens tornaram-se os principais fornecedores de comida, comocriadores de gado, pastores e cultivadores, pela qual os Anões trocavam por trabalho como construtores, fazedores de estradas, mineradores e criadores de muitos artefatos, de ferramentas úteis a armas e muitas outras coisas de grande custo de habilidade. Para o grande proveito dos Anões. Não apenas para ser contado em horas de trabalho, embora em tempos iniciais os Anões devem ter obtido bens que eram o produto de maior e mais extenso esforço do que as coisas ou serviços que eles davam em troca – antes dos Homens se tornarem mais sábios e desenvolverem habilidades deles mesmos. A principal vantagem para eles era a liberdade de continuar com seus trabalhos sem obstáculos e de refinar suas artes, especialmente na metalurgia, à maravilhosa habilidade que alcançaram antes do declínio e do diminuir de Khazad.

Este sistema se desenvolveu lentamente, e foi muito antes dos Barbalongas sentirem qualquer necessidade de aprender a língua de seus vizinhos, muito menos adotar nomes através dos quais eles pudessem sem conhecidos individualmente para os “de fora”. Este processo não começouem trocas ou negócios, mas na guerra; pois os Barbalongas se expandiram para o sul nos Vales do Anduin e fizerem sua “mansão” e forte principalem Moria; e também a leste para as Colinas de Ferro, cujas minas eram a principal fonte de minério de ferro. Eles consideravam as Colinas de Ferro, as Ered Mithrim e as escarpas leste das Montanhas Nebulosas como de sua posse. Mas eles estavam sob ataque dos Orks de Morgoth. Durante a Guerra das Jóias e o Cerco de Angband, quando Morgoth precisou de toda sua força, estes ataques cessaram; mas quando Morgoth caiu e Angband foi destruída, hordas de Orks fugiram para o leste procurando moradia. Estavam agora sem mestre e sem qualquer liderança geral, mas eram bem armados e muito numerosos, cruéis, selvagens e sem piedade no ataque. Nas batalhas que se seguiram os Anões ficaram em menor número e embora fosse os guerreiros mais irredutiveis de todos os Povos Falantes eles ficaram satisfeitos em fazer aliança com os Homens.[27]

Os Homens com os quais eles então se associaram eram em maior parte aparentados em raça e língua com os homens altos e em sua maioria com belos cabelos povo da “Casa de Hador”, a mais renomada e numerosa dos Edain, os quais foram aliados dos Eldar na Guerra das Jóias. Estes homens, ao que parece, foram em direção oeste até encontrarema Grande Floresta Verde e então se dividiram: alguns chegaram ao Anduin e cruzaram-no em direção norte para os Vales; alguns cruzaram o norte da Floresta e as Ered Mithrim. Apenas uma pequena parte deste povo, já muito numeroso e dividido em muitas tribos, passou para Eriador e finalmente para Beleriand. Eles eram um povo bravo e leal, de bom coração, odiadores de Morgoth e seus servos; e a príncipio recusaram o pedido dos Anões, temendo que estivessem sob a Sombra (como disseram) [28]. Mas eles ficaram satisfeitos com a aliança, pois eles eram mais vulneráveis aos ataques dos Orks: eles residiram principalmente em vilas e agrupamentos espalhados, e se se uniam em pequenas cidades defendiam-na pobremente, no máximo comfossos e cercas de madeira. Também tinham apenas armamento leve, principalmente arcos, pois possuíam pouco metal e os poucos ferreiros entre eles não possuíam grandes habilidade. Estas coisas os Anões consertaram em troca do grande serviço que os Homens poderiam oferecer. Eles eram adestradores de bestas e aprenderam a maestria dos cavalos, e muitos eram cavaleiros hábeis e sem medo [29]. Estes freqüentemente cavalgavam longe como batedores e mantinham vigilância dos movimentos dos inimigos; e se os Orks ousassem se reunir em campo aberto para algum grande ataque, eles poderiam reunir uma grande força de arqueiros montados para cercá-los e destruí-los. Desta forma a Aliança dos Anões e Homens no Norte rapidamente veio a comandar uma grande força no começo da Segunda Era, rápida em ataque e valente e bem preparada na defesa, e naquela região cresceram o respeito e a estima entre Anões e Homens, e algumas vezes grande amizade.
Foi àquele tempo, quando os Anões eram associados aos Homens tanto na guerra quanto no ordenar das terras que eles obtiveram[30], que os Barbalongas adotaram a língua dos Homens para se comunicarem com eles. Eles não tinham desejo de não ensinar sua própria língua aos Homens com os quais tinham uma amizade especial, mas os Homens a achavam difícil e eram lentos a aprender mais do que palavras isoladas, muitas das quais eles adotaram e inseriram em seus próprias línguas. Mas em um ponto os Barbalongas eram tão rigidamente secretivos quanto todos os outros Anões. Por razões que nem os Elfos nem os Homens entenderam completamente eles não revelavam nenhum nome pessoal a pessoas de outra raça [31], nem mais tarde quando eles adquiriram as artes da escrita jamais permitiram que estes fossem gravados ou escritos. Eles então pegaram nomes em forma dos Homens, pelos quais poderiam ser conhecidos a seus aliados [32]. Este costume permaneceu entre os Barbalongas até a Quarta Era e além do escopo destas histórias. Aparentemente quando falando com Homens com os quais tinham uma amizade próxima, ao falar das histórias e memórias de seus povos, eles também davam nomes similares aos Anões lembrados em seus anais muito antes do encontro de Anões e Homens. Mas destes tempos antigos apenas um nome foi preservado na terceira Era: Durin, o nome que eles deram ao primeiro ancestral dos Barbalongas e pelo qual ele foi conhecido entre Elfos e Homens. (Parece ter sido simplesmente uma palavra para “rei” na língua dos Homens do Norte na Segunda Era) [33]. Assim não são conhecidos listas de nomes dos Barbalongas anteriores à ruína de Moria (Khazaddum), 1980 da Terceira Era; mas eles eram todos do mesmo tipo, isto é, em uma língua dos Homens há muito “morta”.

Isto apenas pode ser explicado supondo-se que estes nomes do início da Segunda Era foram adotados pelos Anões, e preservados com tão poucas alterações quanto sua própria língua, e continuaram sendo dados (e freqüentemente repetidos) por algo em torno de quatro mil anos ou mais desde que a Aliança foi destruída pelo poder de Sauron! Desta forma eles logo se tornaram, para os Homens de mais tarde, nomes especiais de Anões [34], e os Barbalongas adquiriram um vocabulário de nomes tradicionais peculiares a eles mesmo, enquanto mantinham seus verdadeiros nomes “internos” completamente em segredo.

Muitas mudanças aconteceram enquanto a Segunda Era prosseguia. Os primeiros navios dos Numenorianos apareceram às costas da Terra-média por volta de 600 da Segunda Era, mas nenhum rumor desse acontecimento atingiu o distante Norte. Ao mesmo tempo, contudo, Sauron saiu do seu esconder-se e se revelou com bela aparência. Por muito tempo ele deu pouca atenção a Anões e Homens e dedicou-se a ganhar a amizade e confiança dos Eldar. Mas lentamente ele voltou a seguir Morgoth e começou a buscar poder atarvés da força, tomando o comando novamente e direcionando os Orks e outras criaturas malignas da Primeira Era, e secretamente construindo sua grande fortaleza na terra cercada de montanhas, no sul, que mais tarde ficou conhecida como Mordor. A Segunda Era tinha atingido apenas a metade de seu curso (por volta de 1695) quando ele invadiu Eriador e destruiu Eregion, um pequeno reino estabelecido pelos Eldar que migraram da ruína de Beleriand e que também formaram uma aliança com os Barbalongas de Moria. Isto marcou o fim da Aliança entre Barablongas e Homens do Norte. Pois embora Moria continuasse inexpugnável por muitos séculos, os Orks, reforçados e comandados por servos de Sauron invadiram as montanhas novamente. Gundabad foi retomada, as Ered Mithrim infestadas e a comunicação entre Moria e as Colinas de Ferro cortadas por um tempo. Os Homens da Aliança foram envolvidos em uma guerra não apenas contra os Orks mas também com Homens estrangeiros malignos. Pois Sauron conseguiu domínio sobre muitas tribos selvages do Leste (corrompidas no passado por Morgoth), e ele agora os instigou a tomar a terra e saquear o Oeste. Quando a tempestade passou [35], os Homens da antiga Aliança estavam reduzidos e separados, e aqueles que permaneciam nas antigas regiões estavam empobrecidos, e viviam principalmente em cavernas ou nas bordas da Floresta.

Os mestres Élficos do conhecimento mantinham que, em matéria de línguas, as mudanças na fala (como em todos os aspectos de seus vidas) dos Povos Falantes foram muito mais lentas nos Dias Antigos do que se tornaram mais tarde. As línguas dos Eldar mudaram principalmente em aparência; a dos Anões resistia a mudanças pela própria vontade destes; as muitas línguas dos Homens mudavam sem atenção no rápido passar de suas gerações. Em Arda todas as coisas mudavam, mesmo no Reino Abençoado dos Valar; mas lá a mudança era tão lenta que não podia ser observada (exceto talvez pelos Valar) em grandes eras do tempo. A mudança na linguagem dos Eldarpoderia portanto ser parada em Valinor [36]; mas em seus dias iniciais os Eldar continuaram a aumentar e refinar sua língua, e a alterá-la, mesmo em estrutura e sons. Tais mudanças, contudo, para permanecerem uniformes requeriam que os falantes deveriam continuar em comunicação. Por isso aconteceu que as línguas dos Eldar que permaneceram na Terra-média divergiram das línguas dos Altos Eldar de Valinor tão grandemente que nenhuma delas poderia ser entendida por falantes da outra; pois elas foram separadas por tão grande espaço de tempo, durante o qual mesmo o Sindarin, a mais bem preservada delas na Terra-média, foi sujeita a grades mudanças nos anos que se passaram, mudanças que os Teleri estavam menos interessados  em conter ou direcionar que os Noldor.

 

II.
Os Atani e suas línguas[37]

Os Homens entraram em Beleriand ao final da Primeira Era. Aqueles com os quais estamos lidando e cujas linguagens tiveram anotações preservadas pertencem principalmente aos três povos, diferentes em fala e raça, mas conhecidos em comum pelos Eldar como os Atani (Sindarin Edain)[38]. Estes Atani era a vanguarda de grupos muito maiores das mesmas famílias migrando para oeste. Quando a Primeira Era terminou e Beleriand foi destruída e a maior parte dos Atani que sobreviveram passaram sobre o mar para Númenor, seus parentes mais atrasados estavam ou em Eriador, alguns estabelecidos, outros ainda vagando ou nunca cruzaram as Montanhas Nebulosas e estavam, espalhados entre as Colinas de Ferro e o Mar de Rhun a leste da Grande Floresta, ou nas bordas da qual, tanto a leste como a oeste, muitos se fixaram.Os Atani e seus parentes eram os decendentes de povos que nas Eras Escuras resistiram a Morgoth ou tinham renunciado a ele, e migraram para oeste de suas casas, localizadas no extremo Leste, buscando pelo Grande Mar, do qual rumores distantes os alcançaram. Eles não sabiam que o próprio Morgoth havia deixado a Terra-média[39]; pois eles estavam sempre em guerra com as coisas vis que ele gerou, e especialmente com Homens que fizeram dele seu Deus e acreditavam que não podiam prestar-lhe serviço mais prazeiroso do que destruir os “renegados” com todo tipo de crueldade. Foi no Norte da Terra-média, ao que parece, que os “renegados” sobreviveram em números suficientes para manter suas independências como povos bravos e duros; mas de seu passado eles preservaram apenas lendas, e suas histórias orais alcançavam no passado não mais do que umas poucas gerações de Homens.

Quando suas vanguardas finalmente alcançaram Beleriand e o Litoral Oeste eles desanimaram. Pois eles não podiam seguir adiante, mas também não encontraram paz, apenas terras engajadas na guerra com o próprio Morgoth, que havia fugido de volta à Terra-média. “Por eras esquecidas”, eles disseram, “nós vagamos, procurando escapar dos Domínios do Senhor do Escuro e de sua Sombra, apenas para encontrá-lo aqui à nossa frente” [40]. Mas sendo um povo tão bravo quanto desesperadorapidamente se tornaram aliados dos Eldar,foram instruídos por eles e tornaram-se enobrecidos e avançados em conhecimentos e artes. Nos anos finais da Guerra das Jóias eles proporcionaram muitos dos mais valentes guerreiros e capitães dos exércitos dos reis Élficos.

Os Atani eram três povos, independentes em organização e lideranças, cada um dos quais diferindo em fala e também em formas corpóreas dos demais – embora todos eles mostrassem traços de terem se misturado no passado com Homens de outros tipos. Estes povos os Eldar nomearam o Povo de Beor, o Povo de Hador e o Povo de Haleth, em razão dos nomes dos chefes que os comandava quando chegaram pela primeira vez em Beleriand [41]. O Povo de Beor foram os primeiros Homens a entrar em Beleriand – eles foram encontrados nos vales de Beleriand Oriental pelo Rei Finrod, o Amigo dos Homens, pois eles haviam encontrado uma passagem através das Montanhas. Eles eram um povo pequeno, tendo não mais, como é dito, do que dois mil homens adultos; e eles pobres e parcamente equipados, mas foram forçados a viagens duras e cansativas carregando grandes cargas, pois eles não tinham bestas de carga. Não muito depois, a primeira das três hostes do Povo de Hador veio do sul e  duas outras de quase mesmo tamanho se seguiram antes do outono daquele ano. Eles eram um povo mais numeroso; cada uma das hostes era tão grande quanto todo o Povo de Beor, e eles eram melhor armados e equipados; também possuíam muitos cavalos e alguns burros além de pequenos rebanhos de ovelhas e cabras. Eles cruzaram Eriador e alcançaram o sopé leste das Montanhas (Ered Lindon) um ano ou mais à frente de todos outros, mas não tentaram encontrar nenhuma passagem e voltaram atrás procurando um estrada através das Montanhas, as quais, como seus batedores a cavalo reportaram, ficavam cada vez menores ao sul. Alguns anos mais tarde, quando o outro povo estava fixado, o terceiro povo dos Atani entrou em Beleriand [42]. Eles eram, provavelmente, mais numerosos que o Povo de Beor, mas nenhuma contagem correta deles foi feita; pois eles vieram secretamente em pequenos grupos e se escondiam nas florestas de Ossiriand onde os Elfos não demonstravam amizade para com eles. Além disso eles possuíam dissensões  internas e Morgoth, agora ciente da chegada de Homens hostis em Beleriand, enviou seus servos para os afligir. Aqueles que eventualmente se deslocaram para oeste e entraram em amizade e aliança com os Eldar foram chamados de Povo de Haleth, pois Haleth era o nome da chefe que os conduziu para as florestas ao norte de Doriath onde lhes foi permitido viver.

O Povo de Hador sempre foi o maior em números entre os Atani, e em renome (exceto apenas por Beren, filho de Barahir, descendente de Beor). Em sua maior parte eles eram um povo alto, com cabelos amarelados ou dourados e olhos azuis-acinzentados, mas não existiam poucos dentre eles com cabelos escuros, mas todos belos [43]. De qualquer forma eram aparentados com o Povo de Beor, como o mostrava suas línguas. Não era necessário conhecimentos de línguas para perceber que elas eram bastante próximas, pois embora pudessem entender uns aos outros apenas com dificuldade eles possuíam muitas palavras em comum. Os sábios Élficos [44] eram da opinião de que ambas as línguas eram descendentes de uma que divergiu (devido à algum tipo de divisão do povo que a falava) no decorrer de, talvez, mil anos de lenta mudança na Primeira Era [45]. Embora o tempo possa muito bem ter sido menor e a mudança mais acelerada pelo misturar dos povos; pois a língua de Hador era aparentemente menos mudada e mais uniforme em estilo, enquanto a linguagem de Beor continha muitos elementos que eram estrangeiros em caráter. Este contraste em fala era provavelmente conectado com as diferenças físicas observáveis entre os dois povos. Existiam homens e mulheres de cabelos claros entre o Povo de Beor, mas a maioria deles tinha cabelo castanho (e geralmente olhos castanhos), e muitos tinham a pela menos bonita, alguns tendo, de fato, pele escura. Homens tão altos quanto os do Povo de Hador eram raros entre eles, e muitos eram mais troncudos e de compleição mais compacta [46]. Em associação com os Eldar, especialmente com os seguidores do Rei Finrod, eles tornaram-se tão desenvolvidos em artes e maneiras quanto o Povo de Hador, mas se estes os ultrapassavam em rapidez de mente e corpo, em generosidade nobre e agradável [47], o Povo de Beor eram os mais firmes nas resistência às dificuldades e tristezas, lentos nas lágrimas e nas gargalhadas; sua força não necessitava de esperança para mantê-la. Mas estas diferenças de corpo e mente tornaram-se menos marcantes com o passar das gerações, pois os dois povos tornaram-se muitos misturados por casamentos e por desastres da Guerra [48].

O Povo de Haleth eram estranhos para os outros Atani, falantes de uma língua diferente; embora mais tarde tenham se unido a eles na aliança com os Eldar, permaneceram um povo à parte. Entre eles aderiam à própria língua, e embora por necessitade tenham aprendido Sindarin para se comunicarem com os Eldar e os outros Atani, muitos o falavam com dificuldades e alguns daqueles que raramente se aventuravam além das bordas de suas próprias florestas não a usavam de forma alguma [49]. Eles de boa vontade não adotavam novas coisas ou costumes e mantinham muitas práticas que pareciam estranhas aos Eldar e aos outros Atani, com os quais eles tinham poucos negócios exceto na guerra. De qualquer forma, eles eram conhecidos como aliados leais e guerreiros irredutíveis,apesar das companias que eles mandavam às batalhas além de suas bordas serem pequenas. Pois eles eram e continuavam a ser um povo pequeno, preocupado principalmente com a proteção de suas próprias florestas, e eram excelentes em batalhas dentro delas. De fato por muito tempos mesmo aqueles Orks especialmente treinados para tal [batalhas em florestas] não se aproximavam de seus limites. Uma das muitas práticas comentadas era a de que muitos guerreiros eram mulheres,mas poucas destas lutaram nas grandes batalhas. Este costume era evidentemente antigo[50]; pois sua chefe Haleth era uma renomada amazona com uma guarda pessoal de mulheres.

[Christopher Tolkie: A este ponto um subtítulo foi escrito a lápis no texto datilografado: os Druedain (Homem Pukel); após isto não existem mais divisões com subtítulos inseridos. Junto com o paragráfo que conclui a seção II acima, o texto sobre os Druedain que se segue é dado no Contos Inacabados, terminando com a história chamada A Pedra Fiel; e não há necessidade de repeti-la aqui [51]. Ao final da história há uma passagem comparando Hobbits e Drugs, o qual é dado de forma reduzida no Contos Inacabados e colocado aqui completo; o texto atual então segue até o fim, ou melhor, abandono, do ensaio. ]

Este longo texto sobre os Druedain foiaqui colocadopois lança alguma luz sobre os Homens Selvagens que continuavam a sobreviver ao tempo da  Guerra do Anel no final leste das Montanhas Brancas e o reconhecimento de Merry deles como sendo as formas vivas dos Homens Pukel esculpidos em Dun Harrow. A presença de membros da mesma raça entre os Edain de Beleriand portanto faz outra conexão entre O Senhor dos Anéis e O Silmarillion, e permite a introdução de personagens de alguma maneira similares aos Hobbits de O Senhor dos Anéis em algumas das lendas da Primeira Era (por exemplo o velho servo (Sadog) de Hurin, na lenda de Turin) [52].

Os Drugs ou Homens Pukel não devem, contudo, ser confundidos com ou considerados uma mera variante do tema hobbit. Eles eram bastante diferentes em forma física e aparência. Sua altura média (1,20 m) era alcançada apenas por hobbits excepcionais; eles eram de constituição mais pesada e forte; e suas características faciais não eram agradáveis (julgadas por parâmetros humanos gerais). Fisicamente eles compartilhavam a ausência de pelos na face; mas enquanto o cabelo dos hobbits era abundante (mas próximo e encaracolado), os Drugs tinham apenas cabelo esparso e fino e nenhum pelo em suas pernas e pés. Em caráter e temperamento eles eram algumas vezes felizes e alegres, como hobbits, mas tinham um lado sinistro em suas naturezas em podiam ser sarcásticos e rudes; e eles possuíam ou acreditava-se possuírem poderes estranhos ou mágicos. (Os contos, como o “A Pedra Fiel”, que fala da transferência de parte de seus “poderes” para seus artefatos, lembra uma miniatura da transferência do poder de Sauron para as fundações de Barad-dur e o Anel Governante) [53]. Também os Drugs eram um povo frugal,comiam com parcimônia mesmo em tempos de paz e abundância e não bebiam nada exceto água. Em alguns aspectos eles lembravam mais os Anões: em constituição, estatura e resistência (embora não em cabelo); em suas habilidades em esculpir pedra; no lado sinistro de seus caráteres; e nos “estranhos poderes”. Embora as habilidades “mágicas” creditadas aos Anões fossem muito diferentes; também os Anões eram mais “sinistros” etinham vida longa, enquanto os Drugs tinham vida curta se comparados a outros tipos de Homens.

Os Drugs encontrados nos contos da Primeira Era – co-habitando com o Povo de Haleth, que era um povo das florestas – davam-se por contente em viver em tendas ou alojamentos leves contruídos ao redor de troncos de grandes árvores, pois eram uma raça dura. Para seus antigos lares, de acordo com suas lendas, eles utilizavam cavernas nas montanhas, mas principalmente as usavam como depósitos apenas ocupados como moradias e locais de dormir em climas severos. Eles possuíam refúgios similares em Beleriand para os quais todos excetos os mais duros se recolhiam em tempos de tempestade ou clima ruim, mas estes locais eram guardados e nem mesmo seus amigos mais próximos entre o Povo de Haleth eram bem-vindos lá.

Hobbits, por outro lado, eram em praticamente todos os aspectos Homens normais, mas de estatura muito baixa. Eles eram chamados “halflings” (N.T. “metade do comprimento/altura”); mas isto se refere à altura normal de Homens de descendência Numenoriana ou à altura dos Eldar (especialmente aqueles de origem Noldorin), que aparentemente seria de cerca de sete de nossos pés (N.T. cerca de 2,10 m) [54]. Sua altura referente aos períodos mencionadosera normalmente mais de três pés (N.T. 90 cm) para homens embora muito poucos excedessem três pés e seis polegadas (N.T. 1,05 m); mulheres raramente excediam 3 pés. Eles não eram tão numerosos ou variados quanto os Homens comuns, mas evidentemente mais numerosos e adaptáveis a diferentes modos de vida e habitat que os Drugs, e quando eles se encontraram pela primeira vez nas histórias já mostravam divergências de cor, estatura e constituição e em seus modos de vida e preferências por tipos diferentes de regiões de moradia (ver o Prólogo do O Senhor dos Anéis). Em seu passado não registrado eles devem ter sido um povo primitivo, mesmo “selvagem” [55], mas quando os encontramos eles tinham (em graus variados) adquirido muitas artes e costumes através do contato com Homens, e em menos extensão com Anões e Elfos. Eles reconheciam seu parentesco com Homens de estatura normal, mas consideravam Anões e Elfos, fossem amigos ou hostis, como estranhos, com os quais suas relações eram difíceis e nubladas pelo medo [56]. O comentário de Bilbo (O Senhor dos Anéis I) [57] que a co-habitação do Povo Grande e do Povo Pequeno no mesmo local em Bri era peculiar e não encontrada em nenhum outro lugar provavelmente era verdadeira a seu tempo (final da Terceira Era) [58]; mas parece que de fato os Hobbits gostavam de viver com ou perto de um Povo Grande de tipo amigável, que com sua grande força os protegiam de muitos perigos e inimigos e outros Homens hostis e recebiam em troca muitos serviços. Por isso é digno de nota que os Hobbits do oeste não preservaram traços ou memória de uma língua própria deles. A língua que eles falavam quando entraram em Eriador era evidentemente adotada dos Homens dos Vales do Anduin (relacionados aos Atani, em particular àqueles da Casa de Beor [> das Casas de Hador e Beor]); e depois de sua adoção da Língua Comum eles mantiveram muitas palavras daquela origem. Isto indica uma associação próxima com o Povo Grande; pois a rápida adoção da Língua Comum em Eriador [59] mostra os Hobbits sendo especialmente adaptáveis neste aspecto. Também a divergência dos Stoors, que se associaram com Homens de um tipo diferente antes de irem para o Condado.

A vaga tradição preservada pelos Hobbits do Condado dizia que eles haviam vivido nas terras à margem de um Grande Rio, mas há muito a deixaram e encontraram uma rota através ou ao redor de altas montanhas, quando não mais se sentiram bem em seus lares devido à multiplicação do Povo Grande e de uma sombra de medo que caiu sobre a Floresta. Isto evidentemente reflete os problemas de Gondor na parte inicial da Terceira Era. O aumento dos Homens não era o aumento normal daqueles com os quais viviam em amizade, mas o constante aumentar dos invasores do Leste, ao sul sendo detidos por Gondor, mas no Norte além dos limites do Reino perturbando os antigos habitantes “Atanicos” e mesmo ocupando a Floresta em certos locais e atravessando-a até o vale do Anduin. Mas a sombra de que a tradição fala não é somente devido à invasão humana. Claramente os Hobbits perceberam, antes mesmo dos Magos e dos Eldar se tornarem completamente cientes, o ressurgir de Sauron e sua ocupação de Dol Guldur [60].

Sobre as relações de diferentes tipos de Homens em Eriador e Rhovanion com os Atani e outros homens das lendas da Primeira Era e a Guerra das Jóias veja O Senhor dos Anéis III [no capítula "A janela para o oeste"]. Lá Faramir faz um breve relato da classificação atual em dos Homens em Gondor em três tipos: Altos Homens ou Numenorianos (de descendências mais ou menos pura); Homens Médios e Homens da Escuridão. Os Homens da Escuridão era um termo genérico aplicado a todos aqueles que eram hostis aos Reinos, e que eram (ou pareciam a Gondor serem) movidos por algo mais do que a ambição humana por conquista e saque, um ódio fanático pelos Altos Homens e seus aliados como inimigos de seus deuses. O termo não toma conotações de diferenças de raça, cultura ou língua. Com relação aos Homens Médios Faramir fala principalmente dos Rohirrim e atribuia a eles descendência direta do Povo de Hador da Primeira Era. Esta era uma crença geral em Gondor àquele tempo [61], e foi usada para explicar (para o conforto do orgulho Numenoriano) da cessão de tão grande parte do Reino para o povo de Eorl.

O termo Homens Médios, contudo, era de origem antiga. Foi cunhado na Segunda Era pelos Humenorianos quando começaram a estabelecer portos e assentamentos no litoral oeste da Terra-média. Surgiu entre os colonizadores no Norte (entre Pelargir e o Golfo de Lune) ao tempo de Ar-Adunakhor; pois os colonizadores dessa região se recusaram a se unir à rebelião contra os Valar e foram aumentados por muitos exilados dos Fiéis que fugiram da perseguição por eles e os demais Reis de Numenor. Foi portanto modelado na classificação pelos Atani dos Elfos: os Alto Elfos (ou Elfos da Luz) eram os Noldor que retornaram em exílio do Oeste Distante; os Elfos Médios eram os Sindar, que apesar do parentesco próximo aos Alto Elfos tinham permanecido na Terra-média e nunca viram a luz de Aman; e os Elfos da Escuridão eram aqueles que não viajaram ao Litoral oeste e não tiveram desejo de ver Aman. Esta não era igual às classificações feitas pelos Elfos, as quais não nos interessam aqui, exceto o fato de que “Elfos Escuros” ou “Elfos da Escuridão” era usado por eles, mas de nenhuma forma implicava em qualquer mal ou subordinação a Morgoth; se referia apenas à ignorância da “luz de Aman” e incluía os Sindar. Aqueles que nunca fizeram a jornada para o Litoral oeste eram chamados de “os Relutantes” (Avari).É duvidoso se qualquer dos Avari alguma vez tenha alcançado Beleriand [62] ou foi conhecido pelos Numenorianos.

Nos dias dos primeiros assentamentos de Numenor existiam muitos Homens  de diferentes tipos em Eriador e Rhovanion; mas em sua maior partemoravam distantes da costa. A região de Forlindon e Harlindon era habitada por Elfos e eram a parte principal do reino de Gil-galad, que se extendia ao norte do Golfo de Lune para incluir as terras a leste das Montanhas Azuis e oeste do Rio Lune tão longe quanto o Pequeno Lune [63]. (Além disso era território Anão)[64]. Ao sul do Lune ele não tinha limites claros, mas as Colinas das Torres (como mais tarde foram chamadas) eram mantidas como um posto avançado[65]. O Minhiriath e a metade oeste de Enedhwaith entre o Greyflood e o Isen ainda eram cobertos por uma densa floresta[66]. O litoral da Baía de Belfalas ainda era basicamente desolado, exceto por um porto e um pequeno agrupamento de Elfos na foz da confluência do Morthond e Ringlo [67].  Mas isso foi muito antes dos colonos Numenorianos das cercanias da Foz do Anduin terem se aventurado ao norte de seu grande porto em Pelargir e fazerem contato com Homens que residiam em vales em ambos os lados das Montanhas Brancas. Seu termo Homens Médios era portanto aplicado originalmente aos Homens de Eriador, os que moravam mais a oeste dentre todos da Humanidade na Segunda Era e conhecidos dos Elfos do reino de Gil-galad [68]. Àquele tempo existiam muitos homens em Eriador, principalmente, ao que parece, de parentesco original com o Povo de Beor, embora alguns fossem parentes do Povo de Hador. Eles moravam ao redor do Lago Evendim, nas Depressões Norte, na Colina do Tempo e nas terras entre elas, tão longe quanto o Brandywine, a oeste do qual eles frequentemente vagavam, porém não residiam lá. Eles eram amigáveis com os Elfos, embora sob temor e amizade próxima entre eles era rara. Também temiam o Mar e não olhavam para ele. (Sem dúvida rumores de seus terrores e da destruição da terra além das Montanhas (Beleriand) os alcançaram, e alguns de seus ancestrais podem de fato terem sido fugitivos, parte dos Atani que não deixaram a Terra-média mas fugiram para leste).

Portanto o termo Numenoriano Homem Médio é confuso em sua aplicação. Seu principal teste era o sentimento geral de amizade com relação ao Oeste (a Elfos e Numenorianos), mas era aplicado usualmente apenas a Homens cuja estatura e aparência fossem similares àquelas dos Numenorianos, emboraa definição de “amicabilidade” fosse mais importante e não confinada a povos de apenas um tipo racial. Era uma marca de todos ostipos de Homens que eram descendentes daqueles que abjuraram a Sombrade Morgoth e seus servos e vagaram para oeste para escapar da mesma- e certamente incluía ambas as raças de pequena estatura, Drugs e Hobbits. Também precisa ser dito que a “animosidade” com relação aos Numenorianos e seus aliados não era sempre devido à Sombra, mas em dias tardios às ações dos próprios Numenorianos, portanto muitos moradores das florestas do litoral sul das Ered Luin, especialmente em Minhiriath, eram, como reconhecidos por historiadores mais tardios, da raça do Povo de Haleth; mas eles tornaram-se inimigos amargos dos Numenorianos, devido ao rude tratamento e à devastação das florestas[69], e este ódio continuou não apaziguado em seus descendentes, fazendo-os se unir com qualquer inimigo de Numenor. Na Terceira Era seus sobreviventes eram o povo conhecido em Rohan como os Dunlendings.

Também existe o assunto da linguagem. Foi após seiscentos anos depois da partida dos sobreviventes dos Atani por sobre o mar para Numenor que o primeiro navio da Terra-média saiu do oeste e aportou no Golfo de Lune [70].

[Christopher Tolkien: A história que se segue recontando o encontro dos marinheiros Numenorianos com doze Homens de Eriador na Colina das Torres, seu mútuo reconhecimento de um parentesco distante e a descobertar de que suas línguas embora profundamente alteradas eram de origem comum, foi dada nos Contos Inacabados [71]. Seguindo-se à conclusão daquele trecho (que termina com as palavras “eles perceberam que compartilhavam muitas palavras ainda claramente reconhecíveis e outras que poderiam ser compreendidas com atenção, e eram capazes de conversar de com certa dificuldade sobre assuntos simples”) o ensaio continua como se segue.]

Então veio aos Numenorianos que o parentesco de linguagem, mesmo que reconhecível apenas sob estudos atenciosos, era uma das marcas dos “Homens Médios” [72].

Os sábios dos dias tardios mantinham que as línguas dos Homens na Terra-média, pelo menos aquelas dos Homens “sem sombra”, mudaram menos rapidamente antes da Segunda Era e da mudança do mundo com a Queda de Numenor. Visto que em Numenor ela mudava ainda mais lentamente devido à longevidade dos Atani. Ao primeiro encontro dos Marinheiros e os Homens de Eriador ocidental foi apenas seiscentos anos após os Atani terem partido sobre o mar, e o Adunaico que eles falavam poderia apenas dificilmente ter mudado; mas fazia mil anos ou mais que os Atani que alcançaram Beleriand haviam se separado de seus parentes. Mesmo agora em um mundo mutável línguas que foram separada há quinze séculos podem ser reconhecidas como aparentadas para aqueles não estudados na história das línguas.

Ao longo da passagem dos longos anos a situação mudou. O antigo Adunaico de Numenor tornou-se inusado pelo tempo – e por negligência. Pois devido à desastrosa história de Númenor ela não era mais mantida com honra pelos “Fiéis” que controlavam a Costa de Lune até Pelargir. Pois as línguas Élficas eram proscritas pelos Reis rebeldes e apenas o uso do Adunaico era permitido e muitos dos antigos livros em Quenya ou em Sindarin foram destruídos. Os Fiéis, portanto, usavam Sindarin, e naquela língua construíram nomes para todos os lugares que criaram na Terra-média [73]. Adunaico foi abandonado à mudança descuidada e corrupção como língua de uso diário, e a única língua dos não estudados. Todos os homens de alta linhagem e todos aqueles que eram ensinados a ler e escrever usavam Sindarin, até mesmo como língua diária entre eles. Em algumas famílias oSindarin tornou-se a língua nativa e a língua vulgar de origem Adunaica era apenas aprendida casualmente quando necessária [74]. O Sindarin, contudo, não era ensinada a estrangeiros, tanto porque era mantida como uma marca de descendência Numenoriana quanto porque se provou difícil de adquirir – muito mais do que a “língua vulgar”. Portanto aconteceu que enquanto os assentamentos Numenorianos aumentavam em poder e faziam contato com os Homens da Terra-média (muitos dos quais acabaram sob governo Numenoriano, ampliando sua população) a “língua vulgar” começou a se expandir amplamente como lingua franca entre os povos de muitos tipos diferentes. Este processo se iniciou no final da Segunda Era, mas tornou-se de importância geral principalmente após a Queda e o estabelecimento dos “Reinos no Exílio” em Arnor e Gondor, Estes reinos penetraram fundo na Terra-média, e seus reis eram reconhecidos além de suas bordas como senhores. Portanto no Norte e Oeste todas as terras entre as Ered Luin e o Greyflood e Hoarwll [75] tornaram-se regiões de influência Numenoriana nas quais a “língua vulgar” tornou-se amplamente corrente. Ao Sul e Leste Mordor permaneceia impenetrável; mas embora a extensão de Gondor ser limitada ele era mais populoso e poderoso que Arnor. As fronteiras do antigo reino continham aquelas terras marcadas nos mapas do fim da Terceira Era como Gondor, Anorien, Ithilien, Ithilien Sul e Rohan (anteriormente chamada Calenardhon) a oeste do Entwash [76]. Sobre sua extensão em seu pico de poder, entre os reinos de Hyarmendacil I e Romendacil II (Terceira Era 1015 a 1366) ver O Senhor dos Anéis Apêndice A [77]. As amplas terras entre Anduin e o Mar de Rhun nunca foram, contudo, efetivamente ocupadas ou assentadas e o único verdadeiro limite norte do Reino a leste do Anduin era formado pelas Emyn Muil e os pântanos a sul e leste das mesmas. Contudo a influência Numenoriana alcançava muito além destas fronteiras extendidas, passando pelos Vales do Anduin a suas fontes e alcançando as terras a lestre da Floresta, entre o Rio Celon [78] (Corredor) e o Rio Carnen (Água Vermelha).

Dentro das fronteiras originais dos Reinos a “língua vulgar” logo tornou-se a fala corrente e eventualmente a língua nativa de praticamente todos os habitantes de qualquer origem emigrantes aos quais foram permitidos se fixarem dentro das fronteiras a adotaram. Seus falantes geralmente a chamavam Westron (de fato Aduni, e Annunaid em Sindarin). Mas ela se espalhou muito além das fronteiras dos Reinos – inicialmente em negócios com “os povos dos Reinos” e mais tarde como uma “língua Comum” conveniente para o relacionamento entre povos que mantinham muitas línguas próprias. Os Elfos e Anões a usavam uns com os outros e com Homens

[Christopher Tolkien: O texto termina aqui abruptamente (sem sequer um ponto final após a última palavra, embora isso possa não ser significante), no meio de uma página]

Notas:

[1] Um caso notável é o da conversação entre Ghan, chefe dos Homens Selvagens, e Théoden. Provavelmente poucos dos Homens Selvagens além de Ghan usavam a Língua Comum e ele tinha apenas um vocabulário de palavras limitado aos hábitos de sua língua nativa.

[2] Os Reis e seus descendentes após Thengel também conheciam a língua Sindarin – a língua dos nobres de Gondor [vide Apêndice A (II), na lista dos Reis do Marco, sobre a estadia de Thengel em Gondor. É dito que após seu retorno a Rohan "a língua de Gondor foi usada em sua casa, e nem todos os homens acharam isso bom".]

[3] O efeito sobre faladores atuais da Língua Comum em Gondor sendo comparável àquele que sentiríamos se um estrangeiro, um linguísta tanto hábil quando estudado, ao ser cortez ou lidando com assuntos importantes usasse fluentemente um inglês de, digamos, cerca de 1600 D.C., mas adaptado à nossa pronúncia atual.

[4] Estrutural e gramaticalmente diferia grandemente de todas as outras línguas do Oeste àquele tempo; embora tivesse algumas características em comum com o Adunaico, a antiga língua “nativa” de Númenor. Isto deu origem à teoria (provável) de que em um passado não registrado algumas das línguas dos Homens – incluindo os elementos dominantes entre os Atani do qual o Adunaico foi derivado – teria sido influenciado pelo Khuzdul.

[5] Ele tinha, é dito, um complexo sistema próprio pictográfico ou ideográfico de escrita ou inscrição. Mas este eles mantinham resolutamente secreto.

[6] Incluindo seus inimigos tais como Sauron e seus maiores seguidores, os quais era de fato parcialmente de origem Numenoriana.

[7] [Christopher Tolkien: Como Gil-galad, Celebrimbor foi uma figura que apareceu inicialmente em O Senhor dos Anéis cuja origem meu pai mudou muitas vezes. A mais antiga referência ao assunto é encontrada no texto pós-Senhor dos Anéis "Sobre Galadriel e Celeborn" onde é dito (conforme Contos Inacabados):

"Galadriel e Celeborn tinham como companhia um artífice Noldorin chamado Celebrimbor. Ele era de origem Noldorin e um dos sobreviventesde Gondolin, onde fora um dos maiores artífices de Turgon - mas ele também havia adquirido alguma mancha de orgulho e uma obsessão quase "anã" com artefatos."

Ele aparece como um dos joalheiros de Gondolin no texto "A Elessar" (também do Contos Inacabados); mas contra a passagem no "Sobre Galadriel e Celeborn" acima citada meu pai anotou que seria melhor "torná-lo um descendente de Fëanor". Portanto na Segunda Edição (1966) de O Senhor dos Anéis, ao final das anotações antes do Contos dos Anos da Segunda Era, ele adicionou a sentença: "Celebrimbor era senhor de Eregion e o maior dentre seus artífices; ele era descendente de Fëanor".

Em uma de suas cópias de O Retorno do Rei ele sublinhou o nome Fëanor nesta sentença e escreveu as seguintes duas notas na página oposta (o começo da primeira diz, acredito eu: "Então qual era seu parentesco? Ele deve ser descendente de um dos filhos de Feanor, sobre cujas progênies nada foi dito").

"Como ele poderia sê-lo? Os únicos descendentes de Feanor foram seus sete filhos, seis dos quais alcançaram Beleriand. E nada foi dito sobre suas mulheres e filhos. Parece provável que Celebrinbaur (punhos-de-prata, > Celebrimbor) fosse filho de Curufin, mas embora herdando sua perícia ele era um Elfo de temperamento completamente diferente (sua mãe se recusou a tomar parte na rebelião de Feanor e permaneceu em Aman com o povo de Finarphin). Durante sua morada em Nargothrond como refugiado eleamou Finrod "e sua esposa, e estava contra as atitudes de seu pai e não iria com ele. Ele mais tarde tornou-se grande amigo de Celeborn e Galadriel"".

A segunda nota diz:

"Maedhros o mais velho aparentemente não se casou assim como os dois mais jovens (gêmeos, um dos quais por um maléfico infortúnio foi queimado com os navios); Celegorm também, uma vez que pretendia tomar Lúthien como esposa. Mas Curufin, o mais querido de seu pai e principal herdeiro de suas habilidades, era casado, e teve um filho que veio com ele para o exílio, embora sua esposa (não nomeada) não. Outros casados eram Maelor e Caranthir".

Sobre a forma Maelor, ver HoME X, pag 182 $41. A referência na primeira daquelas notas à esposa de Finrod Felagund é notável, uma vez que, há muito, nos Anais Cinzentos, a história que emergiu foi de que Felagund não tinha esposa e que "aquela a quem ele amou foi Amarië dos Vanyar, e não foi permitido a ela que partisse com ele ao exílio". Aquela história foi, de fato, abandonada, ou esquecida, mas agora retorna.

Estas notas sobre Celebrimbor filho de Curufin foram a base das passagens introduzidas editorialmente no Silmarillion publicado e no "Sobre os Anéis de Poder". Mas em escrito tardio (1968 ou mais tarde) sob o assunto de palavras Eldarin para "mão" meu pais
escreveu isso:

"Eldarin Comum tinha uma raiz KWAR "pressionar junto, amassar". Um derivativo era *kwara: Quenya quar, Telerin par, Sindarin paur. Esta pode ser traduzida "punho", embora seu uso principal seja em referência a uma mão fortemente fechada como quando no uso de um implemento ou ferramenta ao invés de "punho" no sentido usado em socar. Por exemplo o nome Celebrin-baur> Celebrimbor. Esta era uma forma Sindarizada do Telerin Telperimpar (Quenya Tyelpinquar). Era um nome frequente entre os Teleri, os quais em adição à navegação e construção de navios também eram renomados artífices em prata. O famoso Celebrimbor, heróico defensor de Eregion na guerra da Segunda Era contra Sauron, era um Teler, um dos três Teleri que acompanhou Celeborn no Exílio. Ele era um grande artífice da prata e foi para Eregion atraído pelos rumores do maravilhoso metal encontrado em Moria, prata-de-Moria, para o qual ele deu o nome mithril. No trabalhar desta ele se tornou um rival dos Anões, ou melhor um igual, pois existia grande amizade entre os Anões de Moria e Celebrimbor, e eles dividiam suas habilidades e segredos de artífice. Da mesma forma Tegilbor era utilizado para alguém hábil em caligrafia (tegil era uma forma Sinderizada do Quenya tekil "caneta", não conhecida dos Sindar até a chegada dos Noldor)".

Quanto meu pai escreveu isto ele ignorou a adição ao Apêndice B na Segunda Edição, afirmando que Celebrimbor "era descendente de Fëanor"; sem dúvida ele esqueceu que aquela teoria foi publicada, pois ele certamente se lembrariacaso se sentisse preso a ela. Sobre a afirmação de que Celebrimbor era "um dos três Teleri que acompanharam Celeborn no exílio" veja o Contos Inacabados.

E mesmo aqui neste presente ensaio, de mais ou menos a mesma época das palavras Eldarin para "mão" acima citadas, uma origem radicalmente diferente de Celebrimbor é dada: "um Sinda que afirmava descender de Daeron".]

[8] Elas não aparecem, contudo, nas inscrições no Portão Oeste de Moria. Os Anões diziam que em cortesia aos Elfos que as letras Feanorianas foram utilizadas naquele portão, uma vez que ele se abria para sua região e era principalmente utilizado por eles. Mas os Portões Leste, que foram destruídos na guerra contra os Orks, abriam-se para o mundo aberto e era menos amigável. Ele possuía inscrições Rúnicas em várias línguas: magias de proibição e exclusão em Khuzdul e comandos para que todos que não tivessem a permissão do Senhor de Moria deveriam partir escritos em Quenya, Sindarin, Língua Comum, línguas de Rohan, de Dale e de Dunland.

[Christopher Tolkien: Na margem ao lado do parágrafo a esta altura do texto meu pai escreveu:

“N.B. Foi dito por Elrond nO Hobbit que as Runas foram inventadas pelos Anões e escritas com canetas de prata. Elrond era meio-Elfo e um mestre do conhecimento e da história. Então ou devemos tolerar esta discrepância ou modificar a história das Runas, fazendo a Argenthas Moria grandemente um assunto de invenção dos Anões.”

Em notas associadas a este ensaio eles é visto ponderando o último curso, considerando a possibilidade de que de fato os Anões Barbalonga foram os originais criadores das Runas; e que foi delas que Daeron derivou suas idéias, mas uma vez que as primeiras Runas não eram bem organizadas (e diferiam de uma mansão dos Anões para outra) ele as ordenou em um sistema lógico.

Mas sem dúvida no Apêndice E(II) ele afirmou bastante explicitamente a origem das Runas: “As Cirth foram criadas primeiramente em Beleriand pelos Sindar”. Foi Daeron de Doriath que desenvolveu a “forma mais rica e ordenada” das Cirth, o Alfabeto de Daeron, e seu uso em Eregion levou à sua adoção pelos Anões de Moria, de onde o nome Argenthas Moria. Portanto a inconsistência, se existe uma, dificilmente pode ser removida; mas de fato não existia nenhuma. Eram as “runas da lua” que Elrond declarou (ao final do

 

Glorfindel

Glorfindel

No verão de 1938, quando meu pai estava refletindo sobre O Conselho de Elrond no O Senhor dos Anéis, ele escreveu: ‘Glorfindel fala de sua origem em Gondolin’ [VI.214]. Mais de trinta anos depois ele levantou a questão se Glorfindel de Gondolin e Glorfindel de Valfenda eram realmente um e o mesmo, e esta foi discutida em duas discussões, junto com outros escritos breves ou fragmentários associados com eles. Eu irei me referir a estes como ‘Glorfindel I’ e ‘Glorfindel II’. A primeira página de Glorfindel I está faltando, e a segunda página começa com as palavras ‘como guardas ou assistentes’. Então se segue:
Um Elfo que conhecesse a Terra-média e tivesse lutado nas longas guerras contra Melkor seria uma companhia realmente adequada para Gandalf. Nós podemos então razoavelmente supor que Glorfindel [possivelmente como um de um pequeno grupo, mais provavelmente como uma companhia única] desembarcou com Gandalf-Olórin por volta de 1000 da Terceira Era. Esta suposição pode realmente explicar o ar de poder especial e santidade que cercava Glorfindel – percebava como o Rei-Bruxo fugiu dele, enquanto todos os outros [como o Rei Eárnur] embora corajosos não conseguiam fazer seus cavalos encará-lo [Apêndice A [I, iv]]. De acordo com os registros [completamente independente deste caso] sobre a natureza Élfica dados em outro local, e suas relações com os Valar, quando Glorfindel foi morto seu espírito foi para Mandos e foi julgado, e então permaneceu nos Salões de Espera até que Manwë lhe concedesse liberdade. Os Elfos eram por natureza destinados a serem ‘imortais’, até os limites desconhecidos da vida na Terra como um mundo habitável, e seus desligamentos corporais eram mortificantes. Era o dever dos Vala, então, restaurá-los, se eles fossem mortos, para a vida encarnada, se eles assim o desejassem – a não ser por alguma razão grave [e rara]: como os feitos de grande mal, ou quaisquer feitos de malícia dos quais permanecessem obstinadamente sem arrependimento. Quando eles eram re-incorporados eles podiam permaneceer em Valinor ou retornar para a Terra-média se seu lar tivesse sido lá. Nós podemos então razoavelmente supor que Glorfindel, após a purificação ou perdão de sua parte na rebelião dos Noldor, foi liberto de Mandos e tornou-se ele mesmo novamente, mas permaneceu no Reino Abençoado – pois Gondolin foi destruída e todos ou a maioria de seus parentes tinham perecido. Nós podemos dessa forma compreender porqeu ele parecia uma figura tão poderosa e quase ‘angelical’. Pois ele tinha retornado à primitiva inocência dos Primogênitos, e tinha então vivido entre aqueles Elfos que nunca se rebelaram, e em companhia dos maiar por eras: desde os últimos anos da Primeira Era, através da Segunda Era até o final do primeiro milênio da Terceira Era: antes dele retornar à Terra-média. É também bastante provável que ele já em Valinor tenha se tornado um amigo e um seguidor de Olórin. Mesmo nos breves vislumbres dados sobre ele em O Senhor dos Anéis ele aparece como especialmente preocupado com Gandalf, e foi um [o mais poderoso, ao que parece] daqueles mandados de Valfenda quando as preocupantes notícias de que Gandalf não reaparecera para guiar ou proteger o Portador do Anel chegaram a Elrond.O segundo ensaio, Glorfindel II, é um texto de cinco páginas manuscritas que sem dúvida segui-se ao primeiro depois de um curto intervalo; mas um pedaço de papel no qual meu pai apressadamente colocou alguns pensamentos sobre a matéria presumivelmente veio entre eles, visto que ele disse ali que enquanto gandalf poderia ter vindo com Gandalf, ‘parece bem mais verossímel que ele tenha sido mandado na crise da Segunda Era, quando Sauron invadiu Eriador, para auxiliar Elrond, e embora não [ainda] mencionado nos anais relatando a derrota de Sauron ele representou um notável e heróico papel na guerra.’ Ao final desta nota ele escreveu as palavras ‘navio Numenoriano’, presumivelmente indicando como Glorfindel poderia ter cruzado o Grande Mar.Seu nome é de fato derivado do mais antigo trabalho na mitologia: A Queda de Gondolin, escrito em 1916-1917, no qual a linguagem Élfica que no final das contas tornou-se aquela do tipo conhecido como Sindarin estava em uma forma primitiva e desorganizada, e sua relação com o tipo chamado Alto Élfico [por si mesmo bastante primitivo] ainda era aleátorio. A intenção era que significasse ‘Tranças Douradas’, e foi o nome dado ao ‘Gnomo’ [Noldo] heróico, um líder de Gondolin, que na passagem de Cristhorn [‘abismo das �?guias’] lutou com um Balrog [>Demônio], a quem ele matou ao custo de sua própria vida.Seu uso em O Senhor dos Anéis é um dos casos do uso de alguma forma aleatório dos nomes encontrados nas antigas lendas, agora conhecidas como sendo O Silmarillion, e que escapou à reconsideração na versão final publicada de O Senhor dos Anéis. Isto é desafortunado, uma vez que agora o nome é difícil de encaixar no Sindarin, e possivelmente não pode ser Quenyarin. Também na agora organizada mitologia, dificuldades estão presentes nas coisas anotadas sobre Glorfindel em O Senhor dos Anéis, se Glorfindel de Gondolin é supostamente a mesma pessoa que Glorfindel de Valfenda.

Como mencionado anteriormente: ele foi morto na Queda de Gondlin ao final da Primeira Era, e se um líder daquela cidade deveria ser um Noldo, um dos Senhores Élficos na tropa do Rei Turukáno [Turgon]; de qualquer maneira quando A Queda de Gondolin foi escrito ele certamente foi pensado como um. Mas os Noldor em Beleriand eram exilados de Valinor, tendo se rebelado contra a autoridade de Manwë, supremo líder dos Valar, e Turgon fora um dos apoiadores mais determinados e sem arrependimento da rebelião de Fëanor. Não há’como escapar disso. Gondolin no O Silmarillion é dita ter sido construída e ocupada por um povo de origem quase inteiramente Noldorin. Poderia ser possível, embora inconsistente, supor que um príncipe de origem Sindarin uniu-se à tropa de Turgon, mas isto iria contradizer inteiramente o que é dito de Glorfindel em Valfenda em O Senhor dos Anéis, onde é dito ele ser um dos ‘senhores dos Eldar de além do mais distantes mares… que havia morado no Reino Abençoado.’ Os Sindar nunca haviam deixado a Terra-média.

Esta dificuldade, muito mais séria que a linguística, deve ser considerada primeiro. De qualquer modo a solução mais simples à primeira vista deve ser abandonada: aquela na qual temos uma mera duplicação de nome, e que Glorfindel de Gondolin e Glorfindel de Valfenda são pessoas diferentes. Esta repetição de um nome tão impressionante, embora possível, não é crível. Nenhum outro personagem de destaque nas lendas Élficas como relatadas em O Silmarillion e O Senhor dos Anéis tem um nome usado por outra personalidade Élfica de importância. Também pode ser percebido que a aceitação de Glorfindel de antigamente e da Terceira Era realmente explica o que é dito dele e aprimora a história.

Quando Glorfindel de Gondolin foi morto seu espírito deveria, de acordo com as leis estabelecidas pelo Um, ser obrigado a retornar imediatamente para a terra dos Valar. Lá então ele deveria ser julgado, e permaneceria nos ‘Salões de Espera’ até que Manwë lhe concedesse perdão. Elfos foram destinados a serem ‘imortais, isto é não morrer dentro dos limites desconhecidos estabelecidos pelo Um, que no máximo seria até o fim da vida da Terra como um mundo habitável. Suas mortes – por qualquer ferimento a seus corpos que fosse tão severo que não pudesse ser curado – e o desligamento corporal de seus espíritos era um assunto ‘não-natural’ e doloroso. Era então dever dos Valar, por comando do Um, restaurá-los à vida encarnada, se assim o desejassem. Mas esta ‘restauração’ poderia ser adiada por Manwë, se o fëa enquanto vivo tivesse cometido atos malignos e recusado a se arrepender deles, ou ainda mantinha qualquer malícia contra qualquer outra pessoa entre os vivos.

Agora Glorfindel de Gondolin era um dos Noldor exilados, rebeldes contra a autoridade de Manwë, e eles estavam todos sob a proibição imposta por ele: eles não poderiam retornar em forma corpórea ao Reino Abençoado. Manwë, contudo, não estava preso à suas próprias regrasm e sendo o governante supremo do Reino de Arda poderia colocá-las de lado, quando desejasse. Pelo que é dito em O Silmarillion e O Senhor dos Anéis é evidente que ele era um Elda de espírito nobre e elevado e pode-se assumir que, embora tenha deixado valinor na tropa de Turgon, então incorrendo na proibição, ele o fez relutantemente devido ao parentesco e lealdade para com Turgon , e não teve parte no fratricídio de Alqualondë.

Mais importante: Glorfindel sacrificou sua vida na defesa dos fugitivos das ruínas de Gondolin contra um Demônio saído de Thangorodrim, e assim permitindo Tuor e Idril filha de Turgon e seus filho Eärendil escapar, e buscar refúgio nas Bocas do Sirion. Apesar dele não ter sabido a importância disto [e teria defendido-os mesmo eles sendo fugitivos de qualquer nível], este feito foi de vital importância para os desígnios dos Valar. É então inteiramente para manter o propósito geral de O Silmarillion a descrição da história subsequente de Glorfindel. Após a purificação de qualquer culpa que ele tivesse assumido na rebelião, ele foi liberto de Mandos, e Manwë o restaurou. Ele tornou-se então novamente uma pessoa vivente encarnada, e foi-lhe permitido morar no Reino Abençoado; pois ele tinha recuperado a graça e inocência primordial dos Eldar. Por longos anos ele permaneceu em valinor, em reunião com os Eldar que não se rebelaram, e em companhia dos Maiar. Para estes ele tinha se tornado quase um igual, pois embora ele fosse um encarnado [para quem uma forma corporal não feita ou escolhida por si mesmo é necessária] seu poder espiritual foi grandemente aumentado pelo seu auto-sacrifício. Em algum momento, provavelmente no início de sua residência provisória em Valinor, ele tornou-se um seguido, e um amigo, de Olórin [Gandalf], que como é dito em O Silmarillion tinha um amor e preocupação especiais pelos Filhos de Ilúvatar. Aquele Olórin, como era possível a um dos Maiar, já tinha visitado a Terra-média e tinha conhecido não apenas os Elfos Sindarin e outros no âmago da Terra-média, mas também com os Homens, mas nada é [>ainda foi] dito sobre isto.

Glorfindel permaneceu no Reino Abençoado, sem dúvida a princípio por sua própria escolha: Gondolin fora destruída, e todos os seus parentes tinham perecido, e estavam nos Salões de Espera inacessíveis pelos vivos. Mas sua longa residência temporária durante os últimos anos da Primeira Era, e pelo menos vários anos na Segunda Era, sem dúvida estavam de acordo com os desejos e desígnios de Manwë.

Quanto então Glorfindel retornou para a Terra-média? Isto deve provavelmente ter ocorrido antes do final da Segunda Era, e a ‘Mudança do Mundo’ e o Afundamento de Númenor, após o que nenhuma criatura viva corpórea, ‘humana’ ou de tipos inferiores poderia retornar dos Reinos Abençoados que haviam sido ‘removidas dos Círculos do Mundo’. Isto de acordo com uma regra geral procedente de Eru; e de qualquer forma, até o final da Terceira Era, quando Eru decretou que o Domínio dos Homens deveria começar, Manwë poderia ter recebido a permissão de Eru para fazer uma exceção em seu caso, e para ter planejado alguns modos de transporte para Glorfindel até a Terra-média, isto é improvável e faria de Glorfindel ter poder e importâncias maiores do que parecia ajustar-se a ele.

Nós então podemos melhor supor que Glorfindel retornou durante a Segunda Era, antes que a ‘sombra’ se estendesse em Númenor, e enquanto os Numenorianos ainda eram saudados pelos Eldar como poderosos aliados. Seu retorno deve ter sido para o propósito de fortalecer Gil-galad e Elrond, quando crescente mal das intenções de Sauron foi finalmente percebido por eles. Poderia, então, ter sido tão cedo quanto 1200 da Segunda Era, quando Sauron veio em pessoa para Lindon e tentou ludibriar Gil-galad, mas foi rejeitado e mandado embora. Mas poderia ter sido, talvez mais provavelmente, tão tarde quanto 1600, o Ano do Terror, quando Barad-dûr foi completada e o Um Anel forjado, e Celebrimbor finalmente tomou consci6encia da armadilha em que caíra. Pois em 1200, embora cheio de ansiedade, Gil-galad sentia-se forte e capaz de lidar com Sauron com descaso. E também a este tempo seus aliados Numenorianos tinham começado a fazer portos permanentes para seus grandes navios, e também muitos deles tinham começado a morar lá definitivamente. Em 1600 tornou-se claro a todos os líderes dos Elfos e Homens [e Anões] que a guerra contra Sauron era inevitável, agora desmascarado como um novo Senhor Escuro. Eles então começaram a se preparam para seu ataque; e sem dúvida mensagens e pedidos urgente por ajuda foram recebidos em Númenor [e em Valinor].

O texto acaba aqui, sem indicação de que está incompleto, embora a ‘dificuldade linguística’ a que ele se refere não foi levantada.

Escrito ao mesmo tempo que os textos ‘Glorfindel’ existe uma discussão da reincarnação Élfica. Ele tem duas versões, uma um rascunho bastante bruto [parcialmente escritos de fato no manuscrito de Glorfindel I] em relação ao outro. Este texto não está incluído aqui, exceto sua parte conclusória, que se refere à crença dos Anões no renascimento ou reaparição de seus pais, mais notavelmente Durin. Eu entrego esta passagem na forma em que está no rascunho original. Ela foi escrita rapidamente [com pontuação omitida, e formas variantes ou frases atropelando0se umas às outras] que na versão impressa que se segue não foi de modo algum transportada; mas são anotados pensamentos emergentes de uma matéria relativa à qual muito pouco é encontrada nos escritos de meu pai.

Esta falsa noção está conectada com várias idéias estranhas que tanto Elfos quanto Homens tinham em relação aos Anões, as quais eram de fato grandemente derivadas dos próprios Anões. Pois os Anões afirmavam que os espíritos dos Sete Pais de suas raças de tempos em tempos renasciam entre seus clãs. Isto é notável principalmente no caso da raça dos barbalongas cujo antepassado primeiro era chamado Durin, um nome tomados de tempo sme tempos por um de seus descendentes, mas não por outros exceto aquels em linha direta de descendência de Durin I. Durin I, o mais antigo dos pais, ‘acordou’ a muito tempo atrás na Primeira Era [suipostamente logo após o despertar dos Homens], mas na Segunda Era vários outros Durin apareceram como reis dos barbalongas [Anfagrim]. Na Terceira Era Durin VI foi morto por um Balrog em 1980. Foi profetizado [pelos Anões], quando Daín Pé-de-Ferro assumiu a realeza em 2941 da Terceira Era [após a Batalha dos Cinco Exércitos], que na sua linha direta apareceria um dia um Durin VII – mas ele seria o último. Sobre estes Durin os Anões reportaram que eles retinham na memória suas vidas anteriores como Reis, como se fosse real, e natualmente incompleta, como se eles tivessem vivido anos consecutivos como uma única pessoa.

Como isto poderia ter chegado ao Elfos não é conhecido; nem os Anões falam muito mais sobre o assunto. Mas os Elfos de Valinor conhecem um estranho conto sobre a origem dos Anões, o qual os Noldro trouxeram para a Terra-média, e declaram que o aprenderem do próprio Aulë. Este poderá sem encontrado entre vários assuntos menores encluídos em notas dou apêndices de O Silmarillion, e não é relatado completamente aqui. Para o presente propósito é suficiente recordar que o criador direto da raça dos Anões foi o Vala Aulë.

Aqui está uma breve versão da lenda da Criação dos Anões, a qual eu omiti; meu pai escreveu no texto: ‘Não é o lugar para contar a história de Aulë e os Anões.’ A conclusão então se segue:

Os Anões acrescenta que àquele tempo Aulë conquistou para eles este privilégio que os distinguia dos Elfos e dos Homens: que os espíritos de cada um dos Pais [como Durin] poderiam, ao final da longa duração da vida destinada aos Anões, adormeceriam, e então descansariam em um túmulo de seus próprios corpos, em descanso, e ali seus cansaços e ferimento que sofreram seriam curados. Então após longos anos eles deveriam acordar e tomar sua realeza novamente.

A segunda versão é bem mais breve, e sobre a questão do ‘renascimento’ dos pais diz apenas: ‘… a reaparição, a longos intervalos, da pessoa de um dos Pais dos Anões, nas linhas de seus reis – especialmente Durin – não é, quando examinada, provavelmente um caso de renascimento, mas da preservação do corpo de um prévio Rei Durin [é dito] para o qual a certos intervalos seu espírito retorna. Mas as relações dos Anões com os valar e especialmente com o Vala Aulë são [ao que parece] bastante diferentes daquelas de Elfos e Homens.’

[Tradução de Fábio Bettega]

Gil-galad

O Parentesco de Gil-galad

Meu pai originalmente supôs que Gil-galad era o filho de Felagund Rei de Nargothrond. Esta informação provavelmente é encontrada pela primeira vez no texto FNII da Queda de Númenor (HoME 5 pag 33); e continuou sendo sua crença até após o término de O Senhor dos Anéis, como visto no principal texto inicial do Conto dos Anos e no Sobre os Anéis de Poder, onde, no texto publicado (O Silmarillion) Fingon é uma alteração editorial de Felagund.

 

Em adições de data incerta feitas no Quenta Silmarillion (HoME 11 pag 242) é dito que Felagund enviou sua mulher e filho Gil-galad de Nargothrond para os Portos de Falas para garantir-lhes segurança. Deve ser notado também no texto do Conto dos Anos acima referido que não apenas Gil-galad era o filho de Felagund mas Galadriel era irmã de Gil-galad (e portanto filha de Felagund). Surgiu, contudo, nos Anais Cinzentos de 1951 (HoME 11 pag 44 $108) que Felagund não tinha esposa, pois à Vanya Amarië a quem ele amava não foi permitido deixar Aman.

 

Aqui algo deve ser dito sobre Orodreth, filho de Finarfin e irmão de Felagund, que  tornou-se o segundo Rei de Nargothrond. Nas árvores genealógicas dos descendentes de Finwë, que podem ser datadas de 1959 mas que meu pai continuava utilizando e alterando quando esreveu o texto sobre The Shibboleth of Feanor, a curiosa história de Orodreth pode ser traçada. Colocada o mais concisamente possível, Finrod (Felagund) a início tinha um filho chamado Artanaro Rhodothir (e portanto contradizia a história dos AnaisCinzentos de que ele não tinha esposa) o segundo Rei de Nargothrond e pai de Finduilas. Portanto “Orodreth” fora agora movido para uma geração abaixo, tornado-se o filho de Finrod ao invés de seu irmão. No próximo estágio meu pai (recordando, aparentemente, a história dos Anais Cinzentos) anotou que Finrod “não tinha filhos {ele deixara a esposa em Aman)” e moveu Artanaro Rhodothir para se tornar,

ainda na mesma geração, o filho do irmão de Finrod, Angrod (que com Aegnor manteve Dorthonion e foi morto na Batalha das Chamas Repentinas).

 

O nome do filho de Angrod (ainda mantendo a identidade de “Orodreth”) foi então alterado de Artanaro para Artaresto. Em uma nota isolada encontrada com as genealogias, escrita com grande rapidez mas ainda assim datada, Agosto de 1965, meu pai sugeriu que a melhor solução para o problema do parentesco de Gil-galad era encontrá-lo como “o filho de Orodreth”, ao qual aqui é dado o nome de Artaresto, e continua:

 

Finrod deixou sua esposa em Valinor e não tinha filhos no exílio. O filho de Angrod era Artaresto, que era amado por Finrod e escapou quando Angrod foi morto, e morou com Finrod. Finrod fez dele seu “regente” e ele o sucedeu em Nargothrond. Seu nome Sindarin era Rodreth (alterado pata Orodreth devido ao seu amor pelas montanhas ……. Seus filhos eram Finduilas e Artanaro = Rodnor mais tarde chamado Gil-galad. (A mãe deles era uma dama Sindarin do Norte. Ela chamou seu filho Gil-galad). Rodnor Gil-galad escapou e eventualmente chegou à Foz do Sirion e foi Rei dos Noldor lá.


 

As palavras que eu não consegui ler aparentemente contém uma preposição e um nome próprio, e este último pode ser Faroth (o Alto Faroth a oeste do rio Narog). Na última das tabelas genealógicas Artanaro (Rodnor) chamado Gil-galad aparece, com uma nota de que “ele escapou e morou na Foz do Sirion”. A única mudança posterior foi a rejeição do nome Artaresto e sua substituição por Artaher, Sindarin Arothir; e portanto nos apêndices Arothir [Orodreth] é nomeado como o “parente e regente” de Finrod, e Gil-galad é “o filho de Arothir, sobrinho de Finrod”.


A genealogia final era:

 

                              Finrod Felagund ---- Angrod
                                               |
                                   Artaher/Arothir [Orodreth]
                                               |
                                  Artanaro/Rodnor/Gil-galad

Uma vez que Finduilas permaneceu sem correção na última genealogia como a filha de Arothir, ela tornou-se irmã de Gil-galad.* 

Portanto não há dúvidas de esta era a última palavra de meu pai sobre o assunto; mas nada de sua concepção tardia e radicalmente alterada tocou as narrativas existentes e foi obviamente impossível incluí-las no Silmarillion publicado. De qualquer modo teria sido muito melhor deixar o parentesco de Gil- Galad obscuro [N.T. no Silmarillion publicado].

 

Também devo mencionar que no texto publicado sobre Aldarion e Erendis (Contos Inacabados) a carta de Gil-galad para Tar-Meneldur abre “Ereinion Gil-alad filho de Fingon”, mas o original era “Finellach Gil-galad da Casa de Finarfin” (onde Finellach foi mudado de Finhenlach, e este de Finlachen). E também no texto de Uma Descrição da Ilha de Númenor (Contos Inacabados) eu imprimi “Rei Gil-galad de Lindon” onde o original era “Rei Finellach Gil-galad de Lindon”; eu mantive, contudo, as palavras “sua parente Galadriel”, uma vez que Fingon e Galadriel eram primos de primeiro grau. Não há traços entre as muitas notas e sugestões escritas nas tabelas genealógicas da descendência proposta de Gil-galad a partir de Finarfin; mas de qualquer forma Aldarion e Erendis e o proximamente relacionado Descrição de Numenor precediam por algum tempo (eu agora sou inclinado a datá-los de cerca de 1960) a tranformação de Gil- Galad no neto de Angrod, com o nome Artanaro Rodnor, que aparece pela primeira vez como uma nova decisão na nota de Agosto de 1965 citada acima. Uma análise muito mais detalhada do admitidamente complexo material do que a que eu fiz vinte anos atrás torna claro que Gil-galad como filho de Fingon (ver HoME 11 pag 243) era uma idéia efêmera.

 

[Nota do Tradutor]* O texto acima é de Christopher Tolkien, com excessão do trecho em itálico, que é do próprio Tolkien. Interessante reparar nesse texto, além do mea culpa de Christopher quanto ao parentesco incorreto de Gil-galad publicado no Silmarillion, o número de “influências editoriais” exercidas por ele sobre os textos do pai.

The History of Middle-earth VII – The Treason of Isengard

No sétimo livro da série "The History of Middle-earth", entitulado "The Treason of Isengard" (A Traição de Isengard), Christopher Tolkien continua seu relato da evolução de "O Senhor dos Anéis", chegando ao fim da narrativa de "A Sociedade do Anel" e aos primeiros capítulos de "As Duas Torres". Como acontece em "The Return of the Shadow", aqui também vemos diferenças surpreendentes entre as primeiras versões dos textos e a versão finalmente publicada por Tolkien.
 

É nesse momento (por volta de 1940) que o personagem Saruman e o papel de sua traição finalmente emergem. No Conselho de Elrond, após muitas incertezas a respeito dos membros da Sociedade do Anel, os Nove que conhecemos são finalmente definidos.

Outro fato curioso é a grande indecisão sobre o nome verdadeiro de Trotter (depois Strider/Passolargo). Embora esse personagem finalmente se transforme num humano, já que antes era concebido como um hobbit, o Professor hesitou muito quanto ao seu nome: Aragorn, Ingold, Tarkil e Elfstone foram cogitados, até a definição de Aragorn.

Lothlórien e sua rainha Galadriel, elementos fundamentais na estrutura narrativa de "O Senhor dos Anéis", apareciam de forma bastante distinta: basta dizer que Frodo olharia no espelho do rei de Lórien, chamado Galdaran.

Contudo, talvez a diferença mais chocante dos textos de "The Treason of Isengard" em relação ao texto publicado seja a ausência completa de Arwen e de seus irmãos Elladan e Elrohir. Nessa fase da história, Elrond não possuía filhos, e Aragorn deveria se casar com Éowyn no fim do livro.

"The Treason of Isengard", além de traçar essa interessante evolução, traz também outros atrativos para o fã de Tolkien: a versão completa do poema de Bilbo sobre Eärendil, nunca publicada, mapas e desenhos feitos pelo próprio Tolkien e um apêndice sobre as runas dos anões.