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Athrabeth Finrod ah Andreth

O famoso Diálogo de Finrod e Andreth, através do qual muito se sabe do relacionamento entre os Filhos de Eru, seus passados e futuros.

Da Morte e dos Filhos de Eru, e da Desfiguração dos Homens – O Diálogo [1] de Finrod e Andreth

Ora, os Eldar descobriram que, de acordo com a tradição dos Edain, os Homens acreditavam que seus hröar não eram por natureza justa de vida curta, mas haviam se tornado assim pela malícia de Melkor. Não estava claro para os Eldar o que os Homens queriam dizer: se pela desfiguração em geral de Arda [a qual eles próprios sustentavam ser a causa do desvanecimento de seus próprios hröar]; ou por alguma malícia especial contra os Homens enquanto Homens que havia sido perpetrada nas eras escuras antes que os Edain e os Eldar se encontrassem em Beleriand; ou por ambos. Mas aos Eldar parecia que, se a mortalidade dos Homens viera por malícia especial, a natureza dos Homens havia sido tristemente modificada em relação ao desígnio primeiro de Eru; e isto era matéria de assombro e terror para eles pois, se assim de fato era, então o poder de Melkor devia ser [ou deveria ter sido no princípio] muito maior do que até mesmo os Eldar haviam compreendido; enquanto a natureza original dos Homens devia ter sido de fato estranha, e diferente da de qualquer um dos outros habitantes de Arda.

A respeito dessas coisas está registrado na antiga tradição dos Eldar que certa vez Finrod Felagund e Andreth, a mulher-sábia, debateram em Beleriand há muito tempo. Essa história, que os Eldar chamam de Athrabeth Finrod ah Andreth, é aqui dada numa das formas em que foi preservada.

Finrod [filho de Finarfin, filho de Finwë] era o mais sábio dos Noldor exilados, estando mais preocupado que todos os outros com assuntos do pensamento [ao invés de com a criação ou a habilidade das mãos]; e ele era ávido, além disso, por descobrir tudo o que pudesse a respeito da raça humana. Foi ele o primeiro a encontrar os Homens em Beleriand e travar amizade com eles; e por essa razão era muitas vezes chamado pelos Eldar Edennil, “o Amigo dos Homens”. Seu maior amor era dado ao povo de Bëor, o Velho, pois foram estes os que ele primeiro encontrou nos bosques de Beleriand Oriental.

Andreth era uma mulher da Casa de Bëor, a irmã de Bregor, pai de Barahir [cujo filho foi Beren Uma-mão, o renomado]. Ela era sábia em pensamento, e versada nas tradições dos Homens e em suas histórias; razão pela qual os Eldar a chamavam Saelind, “Coração-sábio”.

Entre os Sábios alguns eram mulheres, e elas eram grandemente estimadas entre os Homens, especialmente por seu conhecimento das lendas dos dias antigos. Outra mulher-sábia era Adanel, irmã de Hador Lórindol, em certa época Senhor do Povo de Marach, cujos conhecimentos e tradições, e também cuja língua, eram diferentes dos do Povo de Bëor. Mas Adanel era casada com um parente de Andreth, Belemir da Casa de Bëor: ele era avô de Emeldir, mãe de Beren. Em sua juventude Andreth habitara por longo tempo na casa de Belemir, e assim aprendera de Adanel muito da tradição do Povo de Marach, além da tradição de seu próprio povo.

Nos anos de paz antes que Melkor quebrasse o Cerco de Angband, Finrod visitava freqüentemente Andreth, a quem amava em grande amizade, pois ele a achava mais pronta a compartilhar seu conhecimento com ele do que a maioria dos Sábios entre os Homens. Uma sombra parecia jazer sobre eles, e havia uma escuridão atrás deles, sobre a qual eram avessos a falar mesmo entre eles próprios. E eles se intimidavam com a majestade dos Eldar, e não revelariam facilmente a estes seu pensamento ou suas lendas. De fato, os Sábios entre os Homens [que eram poucos] em sua maioria mantinham sua sabedoria secreta, e a revelavam apenas àqueles a quem escolhiam.

Ora, aconteceu que num tempo de primavera [2] Finrod era hóspede na casa de Belemir; e ele passou a conversar com Andreth, a mulher-sábia, sobre os Homens e seus destinos. Pois naquele tempo Boron, Senhor do Povo de Bëor, tinha acabado de morrer logo depois de Yule, e Finrod estava entristecido.

“Triste para mim, Andreth”, ele disse, “é a passagem rápida de vosso povo. Pois agora Boron, pai de vosso pai [3], partiu; e embora ele fosse velho, como dizeis, conforme são as idades entre os Homens [4], eu o conheci, contudo, brevemente demais. De fato, me parece ter sido há pouco tempo que vi [5] Bëor no leste desta terra, e contudo agora ele se foi, e seus filhos, e também o filho de seu filho.”

“Agora já faz mais de cem anos”, disse Andreth, “desde que viemos do outro lado das Montanhas; e Bëor e Baran e Boron viveram cada um além de seu nonagésimo ano. Nossa passagem era mais rápida antes que encontrássemos esta terra.”

“Então estais contentes aqui?”, disse Finrod.

“Contentes?”, disse Andreth. “Nenhum coração dos Homens está contente. Toda passagem e morte é uma dor para ele; mas, se o murchar não acontece tão cedo, então isso é alguma melhora, uma pequena suspensão da Sombra”.

“O que quereis dizer com isso?”, disse Finrod.

“Certamente o sabeis bem!”, disse Andreth. “A Escuridão que está agora confinada no Norte, mas que uma vez”; e aqui ela parou e seus olhos se escureceram, como se sua mente tivesse voltado para anos negros que estariam melhor esquecidos. “Mas que uma vez jazeu sobre toda a Terra-média, enquanto vivíeis em vosso contentamento”.

“Não foi acerca da Sombra que perguntei”, disse Finrod. “O que quereis dizer, eu pergunto, com a suspensão dela? Ou como o destino rápido dos Homens está ligado a ela? Vós também, sustentamos [sendo instruídos pelos Grandes que sabem], sois Filhos de Eru, e vosso destino e natureza vêm Dele”.

“Vejo”, disse Andreth, “que nisto vós dos Altos-elfos não sois diferentes de vossos parentes inferiores que encontramos no mundo, embora eles não tenham vivido na Luz. Todos vós, os Elfos, acreditais que morremos rapidamente por nossa verdadeira natureza. Que somos frágeis e breves, e vós sois fortes e duradouros. Podemos ser “Filhos de Eru”, como dizeis em vossa tradição; mas somos filhos e crianças também para vós: para ser amados um pouco, talvez, e contudo criaturas de menor valor, para as quais podeis olhar do alto do vosso poder e do vosso conhecimento, com um sorriso, ou com pena, ou com um sacudir de cabeças”.

“Ah, o que dizeis está perto da verdade”, disse Finrod. “Pelo menos para muitos de meu povo; mas não para todos, e certamente não para mim. Mas considerai bem isto, Andreth: quando vos chamamos “Filhos de Eru” não falamos levianamente; pois tal nome nós jamais pronunciamos por troça ou sem plena intenção. Quando assim falamos, falamos por conhecimento, e não por mera tradição élfica; e proclamamos que sois nossos parentes, num parentesco muito mais próximo [tanto de hröa como de fëa] do que o que une todas as outras criaturas de Arda, e nós a elas.

Outras criaturas na Terra-média nós também amamos em sua medida e espécie: os animais e pássaros que são nossos amigos, as árvores, e mesmo as belas flores que passam mais rapidamente que os Homens. A passagem delas nós lamentamos; mas acreditamos que ela seja uma parte de sua natureza, tanto quanto são suas formas e cores.

Mas por vós, que sois nossos parentes mais próximos, nosso lamento é muito maior. Porém, se considerarmos a brevidade da vida em toda a Terra-média, não devemos acreditar que vossa brevidade é também parte de vossa natureza? Vosso próprio povo não acredita nisso também? E contudo, de vossas palavras e da amargura nelas depreendo que achais que erramos”.

“Acho que errais, e todos os que assim pensam”, disse Andreth; “e que esse mesmo erro vem da Sombra. Mas para falar dos Homens. Alguns dirão isto e outros aquilo; mas a maioria, pouco pensando, irá sempre sustentar que seu breve tempo no mundo sempre foi assim, e assim sempre há de permanecer, gostem ou não. Mas há alguns que pensam de outra forma; os Homens chamam a esses de “Sábios”, mas pouco lhes dão ouvidos. Pois eles não falam com certeza ou em uma voz, não tendo conhecimento certo como o de que vos vangloriais, mas por força dependendo de “tradição”, na qual a verdade [se puder ser encontrada] deve ser vislumbrada. E em cada vislumbre há joio com o trigo que é escolhido, e sem dúvida também trigo com o joio que é rejeitado.

Contudo, entre meu povo, de Sábio para Sábio desde a escuridão, vem a voz dizendo que os Homens não são agora como eram, nem como era sua verdadeira natureza no princípio. E mais claramente ainda isso é dito pelos Sábios do Povo de Marach, que preservaram na memória um nome para Ele que vós chamais Eru, embora no meu povo ele tenha sido quase esquecido. Assim eu aprendi com Adanel. Eles dizem claramente que os Homens não são por natureza de vida curta, mas assim se tornaram pela malícia do Senhor da Escuridão que eles não nomeiam”.

“Nisso eu bem posso acreditar”, disse Finrod: “que vossos corpos sofrem em alguma medida a malícia de Melkor. Pois viveis em Arda Desfigurada, como nós vivemos, e toda a matéria de Arda foi maculada por ele, antes que vós ou nós viéssemos e retirássemos nossos hröar e nosso sustento dela; toda Arda salvo, talvez, apenas Aman antes que ele fosse para lá. Pois sabei que não é de outra forma com os próprios Quendi: a saúde e a estatura deles está diminuída. Já aqueles de nós que habitam a Terra-média, e mesmo nós que retornamos a ela, descobrem que a mudança de seus corpos é mais rápida do que no início. E isso, julgo eu, deve pressagiar que eles provar-se-ão ser menos fortes para durar do que foram designados a ser, embora isto possa não ser revelado claramente por muitos e longos anos.

E da mesma maneira com os hröar dos Homens, eles são mais fracos do que deveriam ser. Assim vem a acontecer que aqui no Oeste, para onde o poder dele antigamente pouco se estendia, eles têm mais saúde, como dizeis”.

“Não, não!” disse Andreth. “Não compreendeis minhas palavras. Pois sois sempre de uma só opinião, meu senhor: os Elfos são os Elfos, e os Homens são Homens, e embora tenham um Inimigo comum, por quem ambos são feridos, ainda assim o intervalo ordenado permanece entre os senhores e os humildes, os primogênitos nobres e duradouros, e os seguidores simples e de breve serviço.

Essa não é a voz que os Sábios escutam desde a escuridão e de além dela. Não, senhor, os Sábios entre os Homens dizem: “Não fomos feitos para a morte, nem sempre nascidos para morrer. A morte foi imposta sobre nós”. E eis que o medo dela está conosco sempre, e fugimos dela para sempre como o cervo do caçador. Mas, quanto a mim, creio que não podemos escapar dela dentro deste mundo, não, nem se pudéssemos chegar à Luz além do Mar, ou àquela Aman da qual falais. Nessa esperança nós partimos, e viajamos durante muitas vidas de Homens; mas a esperança era vã. Assim dizem os Sábios, mas isso não parou a marcha pois, como eu disse, eles são pouco ouvidos. E eis que fugimos da Sombra até as últimas costas da Terra-média, para descobrir apenas que ela está aqui diante de nós!”

Então Finrod ficou em silêncio; mas depois de algum tempo ele disse: “Essas palavras são estranhas e terríveis. E vós falais com a amargura de alguém cujo orgulho foi humilhado, e procura então ferir aqueles com quem fala. Se todos os Sábios entre os Homens falam assim, então bem posso acreditar que sofrestes alguma grande ferida. Mas não pelas mãos de meu povo, Andreth, nem por nenhum dos Quendi. Se nós somos como somos, e vós sois como vos encontramos, isso não é por nenhuma ação nossa, nem por nosso desejo; e vossa tristeza não nos regozija nem alimenta nosso orgulho. Só um diria o contrário: aquele Inimigo que vós não nomeais.

Cuidado com o joio entre vosso trigo, Andreth! Pois pode ser mortal: mentiras do Inimigo que da inveja irão gerar ódio. Nem todas as vozes que vêm da escuridão dizem a verdade para aquelas mentes que escutam estranhas novas.

Mas quem vos fez essa ferida? Quem impôs a morte sobre vós? Melkor, parece claro que diríeis, ou qualquer que seja o nome que tendes para ele em segredo. Pois falais da morte e da sombra dele, como se fossem a mesma e uma só coisa; e como se escapar da Sombra fosse também escapar da Morte.

Mas essas duas coisas não são a mesma, Andreth. Assim julgo, ou a morte não seria encontrada em absoluto neste mundo que ele não concebeu, mas Outro. Não, morte é apenas o nome que damos a algo que ele maculou, e portanto nos parece mau; mas imaculado o seu nome seria bom”.

“O que sabeis da morte? Não a temeis porque não a conheceis”, disse Andreth.

“Nós a vimos, e a tememos”, respondeu Finrod. “Também nós podemos morrer, Andreth; e temos morrido. O pai de meu pai foi cruelmente assassinado, e muitos o seguiram, exilados na noite, no gelo cruel, no mar insaciável. E na Terra-média temos morrido, por fogo e por fumaça, por veneno e pelas cruéis lâminas da batalha. Fëanor está morto, e Fingolfin foi pisoteado [6] sob os pés do Morgoth [7].

Para que fim? Para derrotar a Sombra ou, se isso não puder ser, para impedi-la de espalhar-se uma vez mais por toda a Terra-média – para defender os Filhos de Eru, Andreth, todos os Filhos, e não apenas os orgulhosos Eldar!”

“Eu tinha ouvido”, disse Andreth, “que era para recuperar vosso tesouro, que vosso Inimigo roubara; mas talvez a Casa de Finarfin não pense como os Filhos de Fëanor. Mesmo assim, apesar de todo o vosso valor, digo outra vez: “O que sabeis da morte?”. Para vós ela pode ser em dores, pode ser amarga e uma perda – mas apenas por algum tempo, um pequeno revés na abundância, a menos que me tenham dito uma inverdade. Pois sabeis que, morrendo, não deixais o mundo, e que podeis retornar à vida.

De outra forma é conosco: morrendo nós morremos, e partimos para não voltar. A morte é um fim último, uma perda irremediável. E é abominável; pois também é uma injustiça que é feita contra nós”.

“Tal diferença eu percebo”, disse Finrod. “Diríeis que há duas mortes: uma que é uma ferida e uma perda mas não um fim, e outra que é um fim sem retorno; e os Quendi sofrem apenas a primeira?”

“Sim, mas há outra diferença também “, disse Andreth. “Uma é apenas um ferimento nos acasos do mundo, que os bravos, os fortes ou os afortunados podem esperar evitar. A outra é morte inelutável; e a morte o caçador que no fim não pode ser eludido. Seja um homem forte, ou rápido, ou ousado; seja sábio ou um tolo; seja ele mau, ou seja em todos os atos de sua vida justo e misericordioso, ame ele o mundo ou o abomine, deve morrer e deixá-lo – e se tornar carniça, que os Homens com prazer queimam ou escondem”.

“E, sendo assim perseguidos, os Homens não têm nenhuma esperança?”, disse Finrod.

“Eles não têm nenhuma certeza e nenhum conhecimento, apenas medos, ou sonhos no escuro”, respondeu Andreth. “Mas esperança? Esperança, isso é outro assunto, do qual mesmo os Sábios raramente falam”. A voz dela então se tornou mais suave. “Entretanto, Senhor Finrod da Casa de Finarfin, dos nobres e altivos Elfos, talvez possamos falar dela neste momento, vós e eu”.

“Podemos”, disse Finrod, “mas por enquanto caminhamos nas sombras do medo. Até agora, então, percebo que a grande diferença entre Elfos e Homens está na velocidade do fim. Nisso apenas. Pois se julgais que para os Quendi não há morte inelutável, errais.

Ora, nenhum de nós sabe, embora os Valar possam saber, o futuro de Arda, ou quanto tempo ela foi prescrita para durar. Mas não durará para sempre. Foi feita por Eru, mas Ele não está nela. Apenas o Único não tem limites. Arda, e mesmo Eä, devem portanto ser limitadas. Vós nos vedes, aos Quendi, ainda nas primeiras eras de nosso ser, e o fim está distante. Como talvez entre vós a morte possa parecer a um jovem em seu vigor; salvo que nós temos já longas eras de vida e pensamento atrás de nós. Mas o fim virá. Isso nós todos sabemos. E então deveremos morrer; deveremos perecer completamente, parece, pois pertencemos a Arda [em hröa e em fëa]. E para além disso o quê? “A partida para não retornar”, como dizeis, “o fim último, a perda irremediável”?

Nosso caçador é de pés lentos, mas nunca perde a trilha. Além do dia em que ele soprar sua trombeta, não temos nenhuma certeza, nenhum conhecimento. E ninguém nos fala de esperança.”

“Eu não sabia disso”, disse Andreth, “e contudo…”

“E contudo ao menos o nosso caçador é de pés lentos, diríeis?”, disse Finrod. “É verdade. Mas não está claro que um fado pressagiado e por muito tempo adiado seja de todas as maneiras um peso mais leve do que um que vem logo. Mas se entendi vossas palavras até aqui, não acreditais que essa diferença foi assim concebida no início. Não éreis no princípio condenados à morte rápida.

Muito poderia ser dito acerca dessa crença [seja ela uma suposição verdadeira ou não]. Mas primeiro eu desejaria perguntar: como dizeis que isso veio a acontecer? Pela malícia de Melkor, eu supus, e vós não o negastes. Mas vejo agora que não falais da diminuição que todos em Arda Desfigurada sofrem; mas de algum golpe especial de inimizade contra vosso povo, contra os Homens enquanto Homens. É assim?”

“De fato é”, respondeu Andreth.

“Então isso é matéria de horror”, disse Finrod. “Conhecemos Melkor, o Morgoth, e o sabemos ser poderoso. Sim, eu o vi, e ouvi sua voz; e estive cego na noite que está no coração de sua sombra, da qual vós, Andreth, nada sabeis salvo por ouvir dizer e pela memória de vosso povo. Mas nunca, mesmo na noite, acreditamos que ele pudesse prevalecer contra os Filhos de Eru. Este ele poderia iludir, ou aquele ele poderia corromper; mas mudar o destino de todo um povo dos Filhos, roubá-los de sua herança: se ele pudesse fazer tal coisa à revelia de Eru, então de longe maior e mais terrível é ele do que imaginávamos; então todo o valor dos Noldor é apenas presunção e insensatez – não, Valinor e as montanhas dos Pelóri estão construídas sobre a areia”.

“Vede!”, disse Andreth. “Eu não disse que não conheceis a morte? Eis que quando sois forçados a encará-la em pensamento apenas, como a conhecemos em ato e em pensamento todas as nossas vidas, logo caís em desespero. Nós sabemos, se vós não o sabeis, que o Inominável é o Senhor deste Mundo, e que o vosso valor, e também o nosso, é insensatez; ou pelo menos é infrutífero”.

“Cuidado!”, disse Finrod. “Cuidado para que não digais o impronunciável, conscientemente ou em ignorância, confundindo Eru com o Inimigo, que comprazer-se-ia em ver-vos fazer isso. O Senhor deste Mundo não é ele, mas o Único que o fez, e seu Vice-regente é Manwë, o Rei Mais Velho de Arda que é abençoado.

Não, Andreth, a mente obscurecida e em confusão; curvar-se e contudo abominar; fugir e contudo não rejeitar; amar o corpo e contudo desprezá-lo, o asco do carniceiro: tais coisas podem vir do Morgoth, de fato. Mas condenar os imortais à morte, de pai para filho, e ainda deixar-lhes a memória de uma herança roubada, e o desejo pelo que foi perdido: poderia o Morgoth fazer isso? Não, eu digo. E por essa razão eu disse que, se vossa história é verdadeira, então tudo em Arda é vão, do pináculo de Oiolossë até o mais recôndito abismo. Pois não acredito em vossa história. Ninguém poderia ter feito isso além do Único.

Portanto eu vos digo, Andreth, o que fizestes, vós, os Homens, há muito tempo atrás na escuridão? Como enraivecestes Eru? Pois do contrário todas as vossas histórias são apenas sonhos escuros numa Mente Escura. Direis o que sabeis ou escutastes?”

“Não o farei”, disse Andreth. “Não falamos disso para aqueles de outra raça. Mas na verdade os Sábios são incertos e falam com vozes contrárias; pois o que quer que tenha acontecido há muito tempo, nós fugimos; temos tentado esquecer, e tão longamente tentamos que agora não conseguimos recordar nenhum tempo em que não fôssemos como agora somos – exceto apenas lendas de dias em que a morte vinha menos rapidamente e nosso tempo era muito maior, mas já havia morte”.

“Não conseguis recordar?”, disse Finrod. “Não há histórias de vossos dias antes da morte, ainda que não as desejeis contar a estranhos?”

“Talvez”, disse Andreth. “Se não entre meu povo, então quiçá entre o povo de Adanel”. Ela ficou em silêncio, e fitou o fogo.

“Achais que ninguém sabe exceto vós próprios?”, disse Finrod enfim. “Os Valar não sabem?”

Andreth olhou para cima e seus olhos escureceram. “Os Valar?”, ela disse. “Como deveria eu saber, ou qualquer homem? Vossos Valar não nos importunam com cuidado ou com instrução. Não mandaram nenhuma convocação para nós”.

“O que sabeis deles?”, disse Finrod. “Eu os vi, e habitei no meio deles, e na presença de Manwë e Varda estive na Luz. Não faleis deles assim, nem de nada que está muito acima de vós. Tais palavras vieram primeiro da Boca Mentirosa.

Nunca entrou em vosso pensamento, Andreth, que lá fora em eras há muito passadas podeis ter colocado a vós próprios fora do cuidado dos Valar, e além do alcance de sua ajuda? Ou mesmo que vós, os Filhos dos Homens, não eram um assunto que eles pudessem governar? Pois éreis grandes demais. Sim, é isso que quero dizer, e não apenas lisonjeio vosso orgulho: grandes demais. Os únicos mestres de vós próprios dentro de Arda, sob a mão do Único. Cuidado então com a maneira como falais! Se não desejais falar com outros de vosso ferimento ou de como o sofrestes, prestai atenção antes que [como médicos inábeis] julgueis erradamente a ferida, ou em orgulho coloqueis a culpa em lugar errado.

Mas voltemo-nos agora para outros assuntos, já que não desejais falar mais disso. Gostaria de considerar vosso primeiro estado antes do ferimento. Pois o que dizeis disso é também para mim um assombro, e difícil de entender. Dizeis: “não fomos feitos para a morte, nem sempre nascidos para morrer”. O que quereis dizer: que éreis como nós somos, ou de outra maneira?”

“Esta tradição não vos leva em conta”, disse Andreth, “pois nada sabíamos dos Eldar. Considerávamos apenas morrer e não morrer. De vida tão longa quanto a do mundo, mas não mais longa, não tínhamos ouvido; de fato, até agora tal coisa não havia entrado em minha mente”.

“Para falar com franqueza”, disse Finrod, “eu havia pensado que essa vossa crença de que vós também não fostes feitos para a morte era apenas um sonho de vosso orgulho, gerado em inveja dos Quendi, para igualá-los ou superá-los. Não é assim, dizeis. Contudo, muito antes de chegardes a esta terra, encontrastes outros povos dos Quendi, e recebestes a amizade de alguns. Já não éreis então mortais? E nunca falastes com eles acerca da vida e da morte? Embora sem quaisquer palavras eles logo descobririam vossa mortalidade, e antes de muito tempo perceberíeis que eles não morriam”.

“Não é assim, digo em verdade”, respondeu Andreth. “Podemos ter sido mortais quando encontramos os Elfos pela primeira vez longe daqui, ou talvez não o fôssemos; nossa tradição não o diz, ao menos a tradição que aprendi. Mas já tínhamos nossa tradição, e não precisávamos de nenhuma vinda dos Elfos: sabíamos que em nosso princípio havíamos nascido para nunca morrer. E com isso, meu senhor, queríamos dizer: nascidos para a vida eterna, sem qualquer sombra de qualquer fim”.

“Então os Sábios entre vós já consideraram como é estranha a natureza que eles atribuem aos Atani?”, disse Finrod.

“É assim tão estranho?”, perguntou Andreth. “Muitos dos Sábios sustentam que em sua verdadeira natureza nenhuma das coisas vivas morreria”.

“Nisso os Eldar diriam que eles erram”, disse Finrod. “Para nós vossa afirmação sobre os Homens é estranha, e de fato difícil de aceitar, por duas razões. Afirmais, se entendeis completamente vossas próprias palavras, que tivestes corpos imperecíveis, não restringidos pelos limites de Arda, e mesmo assim derivados de sua matéria e sustentados por ela. E afirmais também [embora isto possais não ter percebido] que tivestes hröar e fëar que estavam desde o princípio em desarmonia. Contudo, a harmonia de hröa e fëa é, acreditamos, essencial para a natureza verdadeira e incorrupta de todos os Encarnados: os Mirröanwi, como chamamos os Filhos de Eru”.

“A primeira dificuldade eu percebo”, disse Andreth, “e para ela nossos Sábios têm sua própria resposta. A segunda, como adivinhastes, eu não percebo”.

“Não?”, disse Finrod. “Então não vedes a vós próprios claramente. Mas pode acontecer com freqüência que amigos e parentes vejam com clareza algumas coisas que estão ocultas de seu próprio amigo.

Ora, os Eldar somos vossos parentes, e vossos amigos também [se puderdes crê-lo], e já vos observamos por três vidas de Homens com amor e preocupação, e muito pensamento. Disto então estamos certos sem debate, ou do contrário toda a nossa sabedoria é vã: os fëar dos Homens, embora de fato estreitamente aparentados aos fëar dos Quendi, não são contudo iguais. Pois, embora o consideremos estranho, vemos claramente que os fëar dos Homens não estão, como os nossos, confinados em Arda, nem Arda é seu lar.

Podeis negar isso? Nós, os Eldar, não negamos que amais Arda e tudo que está nela [na medida em que estejais livres da Sombra] talvez tão grandemente quanto nós. Mas de outra maneira. Cada uma de nossas famílias percebe Arda diferentemente, e se regozija em suas belezas em modo e grau diversos. Como dizê-lo? Para mim a diferença é como a que existe entre aquele que visita um país estranho, e lá habita por algum tempo [mas não precisa fazê-lo], e aquele que sempre viveu nessa terra e precisa viver ali]. Para o primeiro todas as coisas que vê são novas e estranhas, e nesse grau adoráveis. Para o outro todas as coisas lhe são familiares, as únicas coisas que existem, suas, e nesse grau preciosas”.

“Se quereis dizer que os Homens são os Estrangeiros”, disse Andreth.

“Dissestes a palavra”, disse Finrod, “esse nome o demos a vós”.

“Altivamente, como sempre”, disse Andreth. “Mas se somos apenas estrangeiros numa terra em que tudo é vosso, meus senhores, como afirmais, dizei-me: que outra terra ou coisas conhecemos?”

“Não, dizei-me!”, disse Finrod. “Pois se não o sabeis, como podemos sabê-lo? Mas sabeis que os Eldar dizem dos Homens que estes não olham para coisa alguma pelo que ela é; que se eles a estudam, é para descobrir algo mais; que se eles a amam, é somente [assim parece] por que ela lhes lembra de outra coisa mais cara? Mas com o que fazem tal comparação? Onde estão essas outras coisas?

Todos, Elfos e Homens, estamos em Arda e dela somos; e qualquer conhecimento que os Homens possuam é derivado de Arda [ou assim pareceria]. De onde então vem essa memória que tendes convosco, mesmo antes que comeceis a aprender?

Não vem de outras regiões em Arda das quais viestes. Nós também viemos de longe. Mas se vós e eu fôssemos até vossos antigos lares no leste, eu reconheceria as coisas lá como parte de meu lar, mas veria em vossos olhos a mesma admiração e comparação que vejo nos olhos dos Homens em Beleriand, que nasceram aqui”.

“Falais palavras estranhas, Finrod”, disse Andreth, “que eu não ouvi antes. Contudo, meu coração se comove como se por alguma verdade que ele reconhece, mesmo que não a entenda. Mas passageira é essa memória, e parte antes que possa ser agarrada; e então nos tornamos cegos. E aqueles dentre nós que conheceram os Eldar, e talvez os tenham amado, dizem por nossa vez: “Não há cansaço nos olhos dos Elfos”. E descobrimos que eles não compreendem o ditado que existe entre os Homens: o que é visto demais não é mais visto. E eles se admiram muito de que nas línguas dos Homens a mesma palavra possa significar tanto “velho conhecido” quanto “apodrecido”.

Pensamos que era assim apenas porque os Elfos têm vida duradoura e vigor inquebrantável. “Crianças crescidas” nós, os estrangeiros, às vezes vos chamamos, meu senhor. E contudo – e contudo, se para nós nada em Arda mantém seu sabor por muito tempo, e todas as coisas belas se tornam remotas, o que isso significa? Isso não vem da Sombra sobre nossos corações? Ou dizeis que não é assim, mas que essa era nossa verdadeira natureza, mesmo antes do ferimento?”

“Digo que é assim, de fato”, respondeu Finrod. “A Sombra pode ter escurecido vossa inquietação, trazendo cansaço mais célere e logo o transformando em desdém, mas a inquietação sempre esteve lá, creio. E se isso é assim, não podeis agora perceber a desarmonia de que falei? Se de fato vossa Sabedoria tivesse uma tradição como a nossa, ensinando que os Mirröanwi são feitos de uma união de corpo e mente, de hröa e fëa, ou como dizemos em imagem a Casa e o Habitante.

Pois o que é a “morte” que lamentais se não a separação desses dois? E o que é a “imortalidade” que perdestes se não o fato de que os dois deveriam permanecer unidos para sempre?

Mas o que então deveríamos pensar da união no Homem: de um Habitante, que é apenas um estrangeiro aqui em Arda e não está em seu lar aqui, com uma Casa que é feita da matéria de Arda e deve portanto [suporíamos] aqui permanecer?

Ao menos não esperar-se-ia para essa Casa uma vida maior que a de Arda, da qual ela é parte. Contudo, afirmais que a Casa também era imortal, não? Eu preferiria acreditar que tal fëa, por sua própria natureza, iria em algum momento de livre vontade abandonar a casa de sua habitação aqui, ainda que a habitação pudesse ter sido mais longa do que é agora permitido. Então a “morte” [como eu disse] soaria de maneira diversa para vós: como uma libertação, ou um retorno – não, como ir para casa! Mas nisso não acreditais, parece?”

“Não, não acredito nisso”, disse Andreth. “Pois isso seria desprezo pelo corpo, e é um pensamento da Escuridão não-natural em qualquer dos Encarnados, cuja vida incorrupta é uma união de amor mútuo. Mas o corpo não é uma estalagem que mantém um viajante aquecido por uma noite, antes que ele siga seu caminho, e depois recebe outro. É uma casa feita para um habitante apenas, e de fato não apenas casa mas também vestimenta; e não está claro para mim se deveríamos neste caso dizer que a vestimenta é adequada ao usuário e não que o usuário é adequado à vestimenta.

Sustento então que não se deve pensar que a separação destes dois poderia ser de acordo com a verdadeira natureza dos Homens. Pois se fosse “natural” para o corpo ser abandonado e morrer, mas “natural” para o fëa continuar a viver, então de fato haveria uma desarmonia no Homem, e suas partes não estariam unidas por amor. Seu corpo seria na melhor das hipóteses um impedimento, ou uma cadeia. De fato uma imposição, e não uma dádiva. Mas há alguém que impõe, e que concebe cadeias, e se tal fosse a nossa natureza no princípio, então deveríamos derivá-la dele – mas isto, dizeis, não se deve ser falado.

Ai de nós! Lá fora na escuridão os homens o dizem mesmo assim, mas não os Atani como os conheceis, não agora. Sustento que nisto somos como vós sois, verdadeiramente Encarnados, e que não vivemos em nosso ser correto e em sua plenitude salvo numa união de amor e paz entre a Casa e o Habitante. De onde a morte, que os divide, é um desastre para ambos”.

“Cada vez mais assombrais meu pensamento, Andreth”, disse Finrod. “Pois se vossa afirmação é verdadeira, então eis que um fëa que aqui é apenas um viajante está casado indissoluvelmente com um hröa de Arda; dividi-los é um ferimento doloroso, e contudo cada um precisa cumprir sua justa natureza sem tirania do outro. Então a conseqüência deve ser certamente esta: o fëa, quando parte, deve levar consigo o hröa. E o que pode isso significar a não ser que o fëa deverá ter o poder de reerguer o hröa, como seu eterno esposo e companheiro, numa existência [8] eterna além de Eä, e além do Tempo? Assim Arda, ou parte dela, seria curada não apenas da mácula de Melkor, mas libertada até dos limites impostos a ela na “Visão de Eru” da qual os Valar falam.

Portanto eu digo que se é possível crer nisso, então realmente poderosos sob Eru foram os Homens criados em seu princípio; e terrível além de todas as calamidades foi a mudança em seu estado.

É então com uma visão daquilo que fora designado a existir quando Arda estivesse completa – das coisas vivas e mesmo das próprias terras e mares de Arda feitos eternos e indestrutíveis, para sempre belos e novos – que os fëar dos Homens comparam o que vêem aqui? Ou existe em algum outro lugar um mundo do qual todas as coisas que vemos, todas as coisas que tanto Elfos quanto Homens conhecem, são apenas sinais ou lembranças?”

“Se existe, isso reside na mente de Eru, julgo eu”, disse Andreth. “Para tais perguntas como podemos achar as respostas, aqui nas névoas de Arda Desfigurada? De outra forma poderia ter sido, se não tivéssemos sido mudados; mas sendo como somos, mesmo os Sábios entre nós dedicaram pouco pensamento à própria Arda, ou a outras coisas que aqui habitam. Temos pensado principalmente sobre nós mesmos: sobre como nossos hröar e fëar deveriam ter habitado juntos para sempre em júbilo, e sobre a escuridão impenetrável que agora nos espera”.

“Então não apenas os nobres Eldar se esquecem de seus parentes!”, disse Finrod. “Mas isso é estranho para mim, e mesmo como vosso coração o fez quando falei de vossa inquietação, assim agora o meu salta como ao ouvir de boas novas.

Esta então, proponho, era a missão dos Homens, não os seguidores, mas os herdeiros e completadores de tudo: curar a Desfiguração de Arda, já pressagiada antes da concepção deles; e fazer mais, como agentes da magnificência de Eru: alargar a Música e ultrapassar a Visão do Mundo!

Pois essa Arda Curada não será Arda Não-desfigurada, mas uma terceira e maior coisa, e contudo a mesma. Eu conversei com os Valar que estavam presentes no criar da Música antes que o ser do mundo começasse. E agora me pergunto: eles ouviram o fim da Música? Não havia algo dentro dos acordes finais de Eru ou além deles que, estando arrebatados pela Música, eles não perceberam?

Ou novamente, uma vez que Eru é livre para sempre, talvez ele não tenha feito nenhuma Música nem mostrado nenhuma visão além de um certo ponto. Além desse ponto não podemos ver ou saber, até que por nossas próprias estradas cheguemos até lá, Valar ou Eldar ou Homens.

Como um mestre no contar de histórias pode manter oculto o mais grandioso momento até que ele venha no tempo devido. Tal momento pode ser de fato imaginado, em alguma medida, por aqueles que ouviram com coração e mente plenos; mas assim o contador o desejaria. De forma alguma a surpresa e o assombro de sua arte são assim diminuídos, pois dessa maneira nós como que partilhamos de sua autoria. Mas não seria assim, se tudo nos fosse contado num prefácio antes que entrássemos!”

“Qual então diríeis que é o momento supremo que Eru reservou?”, perguntou  Andreth.

“Ah, dama sábia!”, disse Finrod. “Sou um Elda, e novamente estava pensando em meu próprio povo. Mas não, em todos os Filhos de Eru. Eu estava pensando que através dos Sucessores nós poderíamos ter sido libertados da morte. Pois durante todo o tempo em que faláveis da morte como sendo uma divisão dos que estão unidos, pensei em meu coração numa morte que não é assim, mas o fim de ambos juntos. Pois é isso que jaz diante de nós, até onde nossa razão pode ver: o completar de Arda e seu fim, e portanto também o fim de nós, filhos de Arda; o fim quando todas as longas vidas dos Elfos estarão totalmente no passado.

E de repente contemplei como numa visão Arda Refeita; e lá os Eldar completos mas não terminados poderiam habitar no presente para sempre, e lá caminhar, talvez, com os Filhos dos Homens, seus libertadores, e cantar para eles canções tais que, mesmo na Alegria além da alegria, fariam os vales verdes ressoarem e os topos eternos das montanhas reverberarem como harpas”.

Andreth então olhou para Finrod por baixo de suas sobrancelhas: “E o que, quando não estivésseis cantando, diríeis a nós?”, perguntou.

Finrod riu. “Só posso tentar adivinhar”, disse. “Ora, dama sábia, acho que vos contaríamos histórias do Passado e da Arda que fora antes, dos perigos e grandes feitos e da criação das Silmarils! Nós éramos os altivos então! Mas vós, vós estaríeis então em casa, olhando para todas as coisas atentamente, como vossas próprias. Vós seríeis os altivos. “Os olhos dos Elfos estão sempre pensando em alguma outra coisa”, diríeis. Mas vós então saberíeis do que éramos lembrados: dos dias em que primeiro nos encontramos, e nossas mãos se tocaram no escuro. Além do Fim do Mundo nós não mudaremos; pois na memória está o nosso maior talento, como será visto cada vez mais claramente conforme as eras desta Arda passarem: um fardo pesado a ser, temo eu; mas nos Dias dos quais ora falamos uma grande riqueza”. E então ele parou, pois viu que Andreth estava chorando baixinho.

“Ai de nós, senhor!”, disse Andreth. “O que então se pode fazer agora? Pois falamos como se essas coisas o fossem, ou como se certamente fossem ser. Mas os Homens foram diminuídos e seu poder retirado. Não esperamos por nenhuma Arda Refeita: a escuridão jaz diante de nós, e dentro dela fitamos em vão. Se por nossa ajuda vossas mansões eternas devem ser preparadas, elas não serão construídas agora”.

“Não tendes então esperança alguma?”, disse Finrod.

“O que é esperança?”, ela disse. “Uma expectativa do bem, que embora incerta tem algum fundamento no que é conhecido? Então não temos nenhuma”.

“Essa é a coisa que os Homens chamam de “esperança””, disse Finrod. “Amdir nós a chamamos, “olhar para o alto”. Mas existe outra, que é fundada mais solidamente. Estel nós a chamamos, que é “confiança”. Ela não é derrotada pelos caminhos do mundo, pois não vem da experiência, mas de nossa natureza e primeiro ser. Se somos de fato os Eruhin, os Filhos do Único, então Ele não permitir-Se-á ser privado do que é Seu, nem por Inimigo algum, nem mesmo por nós próprios. Este é o último fundamento de Estel, que mantemos mesmo quando contemplamos o Fim: de todos os Seus desígnios o objetivo deve ser para a alegria de Seus Filhos. Amdir não tendes, dizeis. Será que Estel não sobrevive enfim?”

“Talvez”, ela disse. “Mas não! Não percebeis que é parte de nosso ferimento que Estel falhe e suas fundações sejam sacudidas? Somos os Filhos do Único? Não estamos finalmente derrotados? Ou o fomos alguma vez? Não é o Inominável o Senhor do Mundo?”

“Não o digais mesmo em pergunta!”, disse Finrod.

“Isso não pode ser desdito”, disse Andreth, “se desejais entender o desespero no qual caminhamos. Ou no qual a maioria dos Homens caminha. Entre os Atani, como nos chamais, ou os Viajantes [9], como dizemos – os que deixaram as terras do desespero e dos Homens da escuridão e rumaram para o oeste em esperança vã – acredita-se que a cura ainda possa ser encontrada, ou que haja algum caminho de fuga. Mas será isso de fato Estel? Não será, ao contrário, Amdir, mas sem razão; mera fuga num sonho daquilo que despertos eles sabem: que não há escapatória da escuridão e da morte?”

“Mera fuga num sonho, dizeis”, respondeu Finrod. “Nos sonhos muitos desejos são revelados; e o desejo pode ser o último bruxulear de Estel. Mas não quereis dizer sonho, Andreth. Confundis sonho e despertar com esperança e crença, de maneira a fazer um mais duvidoso e o outro mais certo. Será que estão adormecidos os que falam de fuga e cura?”

“Adormecidos ou despertos, eles nada falam claramente”, respondeu Andreth. “Como ou quando a cura virá? Em que forma de ser serão refeitos os que virem esse tempo? E quanto a nós, que antes disso partiremos para a escuridão sem ser curados? Para tais questões apenas os da “Antiga Esperança” [como eles chamam a si próprios] têm alguma idéia de resposta”.

“Os da Antiga Esperança?”, disse Finrod. “Quem são eles?”

“Uns poucos”, disse ela, “mas seu número tem crescido desde que viemos para esta terra, e eles vêem que o Inominável pode [como pensam] ser desafiado. Contudo, essa não é uma boa razão. Desafiá-lo não desfaz sua obra de outrora. E se o valor dos Eldar falhar aqui, então o desespero deles será mais profundo. Pois não era no poder dos Homens, nem no de nenhum dos povos de Arda, que a antiga esperança estava fundada”.

“O que então era essa esperança, se o sabeis?”, Finrod perguntou.

“Eles dizem”, respondeu Andreth, “eles dizem que o próprio Único entrará em Arda, e curará os Homens e toda a Desfiguração do princípio até o fim. Isso, eles dizem também, ou fingem, é um rumor que veio através de anos incontáveis, mesmo dos dias de nosso ferimento”.

“Dizem, fingem?”, disse Finrod. “Não sois então um deles?”

“Como posso sê-lo, senhor? Toda sabedoria está contra eles. Quem é o Único, a quem chamais Eru? Se colocarmos de lado os Homens que servem o Inominável, como muitos o fazem na Terra-média, ainda assim muitos Homens percebem o mundo apenas como uma guerra entre a Luz e a Escuridão equipotentes. Mas direis: não, isso é Melkor e Manwë; Eru está acima deles. É então Eru somente o maior dos Valar, um grande deus entre deuses, como a maioria dos Homens dirá, mesmo entre os Atani: um rei que vive longe de seu reino e deixa que príncipes menores façam lá o que lhes aprouver? Novamente dizeis: não, Eru é Único, sozinho e sem-par, e ele fez Eä, e está além dela; e os Valar são maiores que nós, e contudo não mais próximos de Sua majestade. Não é assim?”

“Sim”, disse Finrod, “dizemos isso, e os Valar nós conhecemos, e eles dizem o mesmo, todos exceto um. Mas qual destes, pensais, é mais passível de mentir: aqueles que se humilham, ou aquele que se exalta?”

“Não tenho dúvidas”, disse Andreth. “E por essa razão o dizer da Esperança ultrapassa meu entendimento. Como Eru poderia entrar na coisa que Ele fez, e da qual Ele é imesuravelmente maior? O cantor é capaz de entrar em sua história ou o desenhista em sua figura?”

“Ele já está dentro dela, assim como está fora”, disse Finrod. “Mas em verdade o “habitar-dentro” e o “viver-fora” não estão no mesmo modo”.

“Realmente”, disse Andreth. “Assim Eru pode, nesse modo, estar presente em Eä, que procedeu dele. Mas eles falam do próprio Eru entrando em Arda, e essa é uma coisa completamente diferente. Como Ele, o maior, poderia fazê-lo? Isso não estraçalharia Arda, ou de fato toda Eä?”

“Não me pergunteis”, disse Finrod. “Essas coisas estão além do alcance da sabedoria dos Eldar, ou talvez da dos Valar. Mas desconfio que nossas palavras podem nos confundir, e que quando dizeis “maior” pensais nas dimensões de Arda, na qual o recipiente maior não pode ser contido no menor.

Mas tais palavras não podem ser usadas a respeito do Imensurável. Se Eru desejasse fazer isso, não duvido que Ele encontraria uma maneira, embora eu não possa prevê-la. Pois, como me parece, ainda que Ele próprio tenha que entrar, Ele deve também permanecer como é: o Autor fora. E contudo, Andreth, para falar com humildade, não consigo conceber de que outra maneira essa cura pudesse ser realizada. Uma vez que Eru certamente não permitirá que Melkor dirija o mundo para sua própria vontade e triunfe no fim. Contudo, não há poder algum concebivelmente maior que Melkor, salvo apenas Eru. Portanto Eru, se não desejar entregar sua obra a Melkor, que do contrário chegaria à vitória, deve entrar para derrotá-lo.

E mais: mesmo se Melkor [ou o Morgoth no qual se tornou] pudesse de alguma forma ser sobrepujado ou lançado fora de Arda, sua Sombra ainda permaneceria, e o mal que ele perpetrou e plantou como uma semente cresceria e multiplicar-se-ia. E se algum remédio para isso deve ser encontrado, antes que tudo esteja terminado, alguma luz nova para se opor à sombra, ou algum lenitivo para os ferimentos, então ele deve, julgo eu, vir de fora”.

“Então, senhor”, disse Andreth, e ela ergueu seu olhar em assombro, “credes  nessa Esperança?”

“Não me pergunteis ainda”, ele respondeu. “Pois ela ainda é para mim como uma estranha nova que vem de longe. Nenhuma esperança como essa foi jamais dita aos Quendi. Para vós apenas ela foi mandada. E contudo através de vós nos podemos ouvi-la e levantar nossos corações”. Ele parou por um momento e então, olhando gravemente para Andreth, disse: “Sim, mulher-sábia, talvez tenha sido ordenado que nós, os Quendi, e vós, os Atani, antes que o mundo envelheça, nós encontrássemos e trouxéssemos novas uns para os outros, e assim soubéssemos da Esperança através de vós: ordenado, de fato, que tu [10] e eu, Andreth, sentássemos aqui e conversássemos, através do golfo que divide nossas gentes, para que enquanto a Sombra ainda paira no Norte nós não estivéssemos de todo amedrontados”.

“Através do golfo que divide nossas gentes!”, disse Andreth. “Não há ponte alguma além de palavras?”. E então ela chorou outra vez.

“Talvez haja. Para alguns. Eu não sei”, ele disse. “O golfo, talvez, está mais entre nossos destinos, pois de resto somos parentes próximos, mais próximos do que quaisquer outras criaturas no mundo. Contudo, perigoso é cruzar um golfo imposto pelo destino; e os que se arriscassem a fazê-lo não encontrariam alegria do outro lado, mas a tristeza para ambos. Assim julgo eu.

Mas por que dizes “meras palavras”? Palavras não ultrapassam o golfo entre uma vida e outra? Entre ti e mim certamente passou mais do que som vazio? Não nos aproximamos de forma alguma? Mas isso é, creio, pouco conforto para ti”.

“Não pedi conforto”, disse Andreth. “Por que preciso dele?”

“Pelo destino dos Homens que te tocou como mulher”, disse Finrod. “Pensas que não sei? Não é ele meu irmão muito amado? Aegnor: Aikanár, a Chama Afiada, célere e sôfrego. E não faz muitos anos desde que vos encontrastes pela primeira vez, e vossas mãos se tocaram neste escuro. Contudo, eras então apenas uma donzela, valente e sôfrega, na manhã sobre os altos montes de Dorthonion”.

“Continuai!”, disse Andreth. “Continuai: e és agora apenas uma mulher-sábia, sozinha, e a idade que não o tocará já pôs o cinza do inverno em teu cabelo! Mas não digais tu para mim, pois assim ele uma vez o fez!”

“Ai de nós!”, disse Finrod. “É esta a amargura, amada adaneth, mulher dos Homens, não é? que perpassou todas as tuas palavras. Se eu tentasse dar-te algum conforto, julgá-lo-ias arrogante vindo de alguém do meu lado do destino que nos separa. Mas o que posso dizer, salvo lembrar-te da Esperança que tu mesma revelaste?”

“Eu não disse que alguma vez ela fora a minha esperança”, respondeu Andreth. “E mesmo que assim fosse, ainda assim eu gritaria: por que esse ferimento deveria vir aqui e agora? Por que deveríamos amar-vos, e por que vós deveríeis amar-nos [se é que nos amais] e ainda assim colocar o golfo entre nós?”

“Porque assim fomos feitos, parentes próximos”, disse Finrod.
“Mas não fizemos a nós mesmos, Andreth, e portanto nós, os Eldar, não colocamos esse golfo. Não, adaneth, não somos altivos nisto, mas cheios de compaixão. Tal palavra pode desagradar-te. Contudo, a compaixão é de dois tipos: uma vem do parentesco reconhecido, e é próxima do amor; a outra vem da diferença de sorte percebida, e é próxima do orgulho. Falo da primeira”.

“Não faleis de nenhuma para mim!”, disse Andreth. “Não desejo nenhuma. Eu era jovem e olhei para a chama dele, e agora estou velha e perdida. Ele era jovem, e sua chama saltou na minha direção, mas ele se afastou, e é jovem ainda. Velas se compadecem de mariposas?”

“Ou mariposas de velas, quando o vento as apaga?”, disse Finrod. “Adaneth, eu te digo, Aikanár, a Chama Afiada, te amava. Por tua causa ele jamais tomará a mão de qualquer noiva de sua própria gente, mas viverá sozinho até o fim, lembrando-se da manhã nos montes de Dorthonion. Mas cedo demais no Vento Norte a chama dele apagar-se-á! Previsão é dada aos Eldar em muitas coisas que não estão distantes, embora raramente de alegria, e digo a ti que viverás muito na medida de tua gente, e ele sairá diante de ti e não desejará retornar”.

Então Andreth se levantou e esticou suas mãos na direção do fogo. “Por que então ele se afastou? Por que deixar-me se eu ainda tinha alguns bons anos para gastar?”

“Ai de nós!”, disse Finrod. “Temo que a verdade não te irá satisfazer. Os Eldar são de uma maneira, e vós de outra; e cada um julga os outros por si mesmo – até que aprenda, o que poucos fazem. Este é um tempo de guerra, Andreth, e em tais dias os Elfos não se casam nem concebem criança, mas preparam-se para a morte – ou para a fuga. Aegnor não tem confiança alguma [nem eu tenho] que este cerco de Angband dure muito; e então o que será desta terra? Se seu coração o governasse, ele teria desejado tomar-te consigo e fugir para longe, para o leste ou o sul, abandonando sua gente, e a tua. Amor e lealdade o prendem à gente dele. E quanto a ti à tua? Tu mesma disseste que não há escapatória por fuga dentro dos limites do mundo”.

“Por um ano, um dia da chama, eu teria dado tudo: parentesco, juventude e a própria esperança; adaneth eu sou”, disse Andreth.

“Isso ele sabia”, disse Finrod; “e ele se retirou e não tomou aquilo que estava diante de sua mão: elda ele é. Pois tais barganhas são pagas em angústia que não pode ser imaginada até que venha, e em ignorância, e não em coragem, os Elfos crêem que elas são feitas”.

Não, adaneth, se algum casamento pode acontecer entre nossa gente e a tua, então será por algum alto propósito do Destino. Breve será e duro no fim. Sim, o fado menos cruel que poderia suceder-lhe seria que a morte logo o encerrasse”.

“Mas o fim é sempre cruel – para os Homens”, disse Andreth. “Eu não o teria importunado, quando minha curta juventude estivesse esgotada. Eu não teria me arrastado como um fardo atrás de seus pés brilhantes, quando eu não mais pudesse correr ao lado dele!”

“Talvez não”, disse Finrod. “Assim o sentes agora. Mas pensas nele? Ele não teria corrido diante de ti. Ele teria ficado a teu lado para te levantar. Então compaixão terias a toda hora, compaixão inescapável. Ele não consentiria em ver-te humilhada.

Andreth adaneth, a vida e o amor dos Eldar repousa muito na memória; e nós [se não vós] preferimos antes ter uma memória que é bela mas inacabada do que uma que continua até um fim triste. Agora ele sempre lembrar-se-á de ti no sol da manhã, e daquela última noite perto da água do Aeluin, na qual ele viu teu rosto espelhado com uma estrela presa entre teus cabelos – sempre, até que o Vento Norte traga a noite de sua chama. Sim, e depois disso, sentar-se na Casa de Mandos nos Salões da Espera até o fim de Arda”.

“E do que me lembrarei?”, disse ela. “E quando eu partir, para que salões irei? Para uma escuridão na qual mesmo a memória da chama afiada será apagada? Mesmo a memória da rejeição. Pelo menos essa”.

Finrod suspirou e se levantou. “Os Eldar não têm palavras de cura para tais pensamentos, adaneth”, disse. “Mas desejarias que Elfos e Homens jamais tivessem se encontrado? A luz da chama, que de outra forma nunca terias visto, não tem valor mesmo agora? Tu te acreditas desprezada? Afasta de ti ao menos esse pensamento, que vem da Escuridão, e então nossa conversa juntos não terá sido totalmente em vão. Adeus!”

A escuridão caiu sobre o aposento. Ele tomou a mão dela na luz do fogo. “Para onde ides?”, ela disse.

“Para o Norte”, ele disse: “para as espadas, e o cerco, e os muros de defesa – para que por ainda algum tempo em Beleriand os rios possam correr limpos, as folhas possam brotar e os pássaros possam construir seus ninhos, antes que a Noite venha.

“Ele estará lá, brilhante e alto, e o vento em seu cabelo? Dizei-lhe. Dizei-lhe para não ser descuidado. Para não buscar o perigo sem necessidade!”

“Direi isso a ele”, disse Finrod. “Mas poderia também dizer-te para não chorar. Ele é um guerreiro, Andreth, e um espírito de ira. Em cada golpe que dá ele vê o Inimigo que há muito te fez este ferimento.

Mas vós não sois de Arda. Para onde fordes, que possais encontrar luz. Espera por nós lá, a meu irmão – e a mim”.

Notas

[1] O sindarin athrabeth [athra = através, peth = palavra] corresponde exatamente ao grego diálogos; por isso optei pelo título “O Diálogo de Finrod e Andreth”. [N. do T.]

[2] Isto seria por volta do ano 409 da Longa Paz [260-455]. Nesse época Belemir e Adanel eram idosos na medida dos Homens, tendo cerca de 70 anos de idade; mas Andreth estava na plenitude do vigor, ainda não tendo 50 [48]. Ela era solteira, como não era incomum entre as sábias humanas. [N. do A.]

[3] No texto do Athrabeth, Tolkien faz a distinção [arcaica no inglês] entre o pronome de tratamento formal singular you e o pronome de tratamento familiar singular thou. Como essa distinção é relevante para o texto, optei por reproduzi-la utilizando respectivamente vós e tu em português, ainda que a princípio isso possa causar certa confusão com o pronome inglês ye [vós, plural]. [N. do T.]

[4] Ele tinha 93 anos. [N. do A.]

[5] No ano 310, cerca de 90 anos antes destes fatos. [N. do A.]

[6] Erro de cronologia. Fingolfin só viria a morrer durante a Dagor Bragollach, quase cinqüenta anos depois desta conversa. [N. do T.]

[7] É interessante o uso que Finrod faz do termo “o Morgoth”, colocando o artigo definido. Aparentemente isso é feito para salientar que Morgoth, “Inimigo Escuro”, é só o epíteto de Melkor, e não seu nome verdadeiro. [N. do T.]

[8] O texto original tem endurance, “resistência”. Não me foi possível encontrar uma solução satisfatória que mantivesse o equivalente do original. [N. do T.]

[9] Seekers, no original. Mais uma vez a tradução literal não funcionaria. [N. do T.]

[10] Aqui Finrod muda para o pronome familiar ou afetivo tu [no original, thou]. O uso do tu e vós no texto em inglês é um tanto inconsistente, mas decidi mantê-lo até o final da narrativa. [N. do T.]

The History of Middle-earth I – The Book of Lost Tales

Quem vê O Silmarillion em sua forma atual talvez não imagine o gigantesco trabalho de transformação e carpintaria literária necessário para que a mitologia dos Dias Antigos tomasse a forma que conhecemos hoje. The Book of Lost Tales I (O Livro dos Contos Perdidos I), o primeiro da série The History of Middle-earth, traz para os leitores as versões mais antigas do universo tolkieniano, algumas datando de 1916.

 

As histórias do livro são relatadas a partir do ponto de vista de Eriol, um marinheiro humano que, após muitas viagens pelos Mares Ocidentais, chega a Tol Eressëa, a Ilha Solitária onde vivem os elfos. Lá, Eriol torna-se amigo dos Eldar e se hospeda em Mar Vanwa Tyaliéva, o lar de Lindo e sua esposa Vairë. Os elfos de Eressëa, a pedido de Eriol, começam a contar toda a história de Valinor e das Terras Exteriores (o nome "Terra-média" ainda não havia sido incorporado à mitologia), desde a criação do Mundo.

Exceto a história da Canção dos Ainur, que essencialmente permaneceu com poucas mudanças até a versão "final" do Silmarillion, quase tudo é diferente do que conhecemos hoje. Ossë e Uinen, por exemplo, são Valar; o conceito dos Maiar ainda não havia sido criado. Os Valar têm filhos: Fionwë Úrion (que depois se tornaria o Maia Eonwë) é filho de Manwë e Varda, assim como Oromë – pasmem! – é filho de Yavanna.

O próprio Morgoth é um inimigo muito mais malicioso, com um senso de humor insolente e cruel, diferente do Senhor do Escuro posterior. A importância das Silmarils para a narrativa ainda não havia aparecido: Melko (assim mesmo, sem "r") rouba todas as jóias dos Noldoli (os futuros Noldor), entre elas as Silmarils. Aliás, o Fëanor que aparece aqui já é um grande artífice, mas não pertence à casa real dos Noldoli. O único filho do rei Finwë Nólemë é Turondo, o futuro Turgon de Gondolin.

A linguagem empregada também é muito mais arcaica e solene que a do atual Silmarillion (se é que isso é possível). E as próprias línguas élficas são bem diferentes, até em termos históricos: o quenya aqui já é o alto-élfico, mas a língua que depois se tornaria o sindarin é na verdade o noldorin ou gnômico (de gnomos, nome que designava os Noldor neste estágio da mitologia). A idéia era que os Noldor, durante seu exílio nas Terras Exteriores, teriam sua língua muito modificada em relação ao quenya.

Fica claro também, para quem lê o Lost Tales, a intenção de Tolkien: criar uma "mitologia para a Inglaterra". Isso aparece tanto na associação dos elfos com os fadas do folclore inglês – Eldamar é também chamada de Faëry ou "Terra das Fadas" – quanto na idéia de que Tol Eressëa, em tempos futuros, se tornaria a Grã-Bretanha. Seja como for, The Book of Lost Tales fornece inúmeras chaves para compreender o desenvolvimento do rico universo criativo de Tolkien.

Conteúdo do Livro

Contos – "The Cottage of Lost Play", "The Music of the Ainur", "The Coming of the Valar and the Building of Valinor", "The Chainin of Melko", "The Coming of the Elves and the Making of Kôr", "The Theft of Melko and the Darkening of Valinor", "The Flight of the Noldoli", "The Tale of Sun and Moon", "The Hiding of Valinor" e "Gilfanon´s Tale: The Travail of the Noldoli and the Coming of Mankind"
Poemas - "You and Me", "Kortirion", "Habannan", "Tinfang Warble", "Over Old Hills", "Kôr", "A Song of Aryador" e "Why the Man in the Moon came down too soon"
Mapas – "The earlist map" e "The World Ship"
Escritos datam de 1916 – 1918

Appendix – Names in the Lost Tales Part I:
Retirado dos primeiros "lexicons" das línguas Élficas e também inclui palavras em "Qenya" e "Goldogrin or Gnomish". Palavras etimologicamente conectadas são dadas tomando como base nomes importantes que as contém.
Escritos datam de 1915

Mitos Transformados – ARDA

O texto final, entitulado Aman, é um manuscrito claro, escrito com
pouca hesitação ou correção. Eu o tomei como um ensaio independente, e
em dúvida do melhor lugar para inseri-lo deixei-o para o final; mas
quando este livro já estava completo e preparado para publicação me dei
conta de que ele de fato tem um relacionamento muito próximo ao
manuscrito de Athrabeth Finrod ah Andreth
[Nota do Tradutor] O texto em itálico a seguir e
de Christopher Tolkien. O texto normal é de J.R.R. Tolkien. O livro a
que se refere C. Tolkien no parágrafo abaixo é o The History of Middle-earth 10 e o final a que ele se refere é o final da seção Myths Transformed.
O
manuscrito inicia com uma seção introdutória, começando com a afirmação
de que alguns homens acreditavam que seus hroar não tinham vida curta
por natureza, mas assim tornou-se pela malícia de Melkor. Eu não
percebi a relevância de algumas linhas no cabeçalho da primeira página
do Athrabeth, que meu pai riscou: estas linhas começam com as palavras
“o hroa, e ele poderia continuar a viver, um corpo sem mente, nem mesmo
uma besta mas sim um monstro”, e terminava “… a própria Morte, tanto
em agonia quanto em terror, entraria pessoalmente em Aman com os
Homens”. Esta passagem é virtualmente idêntica à conclusão do texto
atual, cuja última página começa precisamente no mesmo ponto.

Fica claro, portanto, que Aman originalmente ficava no Athrabeth, mas
meu pai o removeu para uma forma estanque e copiou a passagem final em
uma folha em separado. Ao mesmo tempo, presumivelmente, ele deu ao
restante (o Athrabeth e sua introdução) os títulos de “Da Morte e dos
Filhos de Eru, e da Desfiguraçãodos Homens e A Conversa de Finrod e
Andreth[1].
Seria preferível colocar Aman com o
Athrabeth na Parte Quatro, mas eu acredito que seja desnecessário em
tal estágio tardio iniciar uma mudança ampla na estrutura do livro, e
assim o deixei aqui em separado.

Aman
Em Aman as coisas eram bastante diferentes da Terra-média. Mas elas
lembravam o modo de vida dos Elfos, assim como os Elfos se pareciam
mais com os Valar e Maiar do que os Homens.Em Aman a duração
da unidade de “ano” era a mesma da dos Quendi. Mas por uma razão
diferente. Em Aman esta duração era estipulada pelos Valar para suas
próprias necessidades e era relacionada ao processo que pode ser
chamado de “Envelhecimento de Arda”. Pois Aman estava em Arda e
portanto no Tempo de Arda (o qual não era eterno, seja ArdaDesfigurada
ou não). Portanto Arda e todas as coisas nela precisam envelhecer,
embora lentamente, enquanto parte do início para o fim. Este
envelhecimento pode ser percebido pelos Valar aproximadamente naquele
período de tempo (proporcional à duração total de Arda) ao qual eles
chamaram Ano; mas não em menor período[2].Mas para os
próprios Valar e também para os Maiar em certo grau: eles poderiam
viver em qualquer velocidade de pensamento ou movimento que eles
escolhessem ou desejassem[3] *.

* Eles podiam se mover para
frente ou para trás em pensamento, e retornar tão rapidamente que para
aqueles que estavam em suas presenças eles não pareceriam ter se
movido. Tudo que era passado podia ser totalmente percebido; mas
existindo agora no Tempo, o futuro eles apenas poderiam perceber ou
explorar tanto quanto fora feito claro a eles na Música, ou, tanto
quanto cada um deles estava especialmente interessado nesta ou naquela
parte dos desígnios de Eru, sendo Seu agente ou Subcriador. Nesta forma
de percepção eles não podiam prever nenhum dos atos dos Filhos, Elfos e
Homens, em cuja concepção e introdução em Eä nenhum Valar tomou
qualquer parte; em relação aos Filhos eles apenas podiam deduzir
chances, da mesma forma que os próprios Filhos, embora com muito maior
conhecimento dos fatos e dos eventos contribuintes no passado, e com
muito mais inteligência e sabedoria. Mas mesmo assim sempre restava
alguma incerteza sobre as palavras e feitos dos Elfos e Homens no
Termpo ainda não realizado.

A unidade, ou Ano dos Valar, não
era, portanto, relacionado às taxas normais de “crescimento ” de
nenhuma pessoa ou coisas que ficava em Aman. O tempo em Aman era o
tempo real, não apenas um modo de percepção. Assim, digamos, 100 anos
se passavam na Terra-média como parte de Arda e também 100 anos se
passavam em Aman, como parte de Arda. Foi, contudo, devido ao fato de
que a velocidade de “crescimento” dos Elfos estava de acordo com a
unidade de tempo Valariana + que tornou possível para os Valar levarem
os Elfos a residirem em Aman.

(+ não pelos desígnios dos
Valar, mas sem dúvida não por acaso. Ou seja, pode ser que Eru, ao
criar a natureza dos Elfos e Homens e suas relaçoes uns com os outros e
com os Valar ordenou que o “crescimento” dos Elfos deveria se dar de
acordo com a percepção Valariana da progressão ou envelhecimento de
Arda, assim os Elfos seriam capazes de co-habitar com Valar e Maiar.
Uma vez que os Filhos apareceram na Música, e também na Visão, os Valar
conheciam ou intuiam muito da natureza dos Elfos e Homens antes deles
virem a existir. Eles certamente conheciam que os Elfos deveriam ser
“imortais” ou de vida muito longa, e os Homens de vida curta. Mas foi
provavelmente apenas durante a viagem de Oromë entre os pais dos Quendi
que os Valar descobriram precisamente qual era o mode de suas vidas com
relação ao passar do Tempo).

Em um Ano dos Valar os Eldar
morando em Aman cresciam e se desenvolviam de maneira muito parecida
com os mortais em um ano na Terra-média. Aos registrar os eventos em
Aman, portanto, nós podemos fazer como os Elfos e utilizar a unidade
Valariana[4], mas não devemos esquecer que dentro de tal “ano” os Eldar
experimentavam uma imensa série de delícias e realizações que mesmo o
mais hábil dos Homens não poderia alcançar em doze vezes doze anos
mortais[5]. De qualquer forma os Eldar “envelheciam” à mesma velocidade
em Aman do que em seu surgir na Terra-média.

Mas os Eldar não
eram nativos de Aman, a qual não fora feita, pelos Valar, para eles. Em
Aman, antes da chegada deles, moravam apenas os Valar e seus parentes
menores, os Maiar. Mas para ser prazer e uso existiam em Aman também
uma grande quantidade de criaturas, sem medo, de vários tipos: animais
ou criaturas que se moviam, plantas que eram estáticas. Lá,
acredita-se, existiam contra-partes de todas as criaturas que existiam
ou haviam existido na terra, e outras feitas apenas para Aman. E cada
tipo tinha, como na Terra, sua própria natureza e velocidade natural de
crescimento.

Uma vez que Aman foi feita para os Valar, para
que pudessem ter paz e prazer, a todas as criaturas que foram
transplantadas ou treinadas ou criadas ou trazidas a existir com o
propósito de habitar em Aman foi dada uma velocidade de crescimento tal
que um ano de vida natural de suas espécies na Terra deveria ser um Ano
dos Valar em Aman.

Para os Eldar esta era uma fonte de
prazer. Pois em Aman o mundo parecia a eles como a Terra parecia aos
Homens, mas sem a sombra da morteà espreita. E na Terra para ele todas
as coisas em comparação a eles mesmos estavam murchando, rapidamente
mudando e morrendo, em Aman elas permanceiam e não enganavam tão cedo o
amor com suas mortalidades. Na Terra enquanto uma criança élfica
simplesmente cresce para tornar-se um adulto, em uns 3000 anos,
forestas surgem e somem, e toda a aparência da terra pode mudar,
enquanto inumeráveis flores e pássaros poderiam nascer e morrer dia
após dia sob o sol.

E por isso tudo Aman é também chamada o
Reino Abençoado, e nisso encontra sua benção: na saúde e na felicidade.
Por em Aman nenhuma criatura sofre nenhuma doença ou desordem em suas
naturezas; nem existe nenhum decair ou envelhecer além do da própria
Arda. Então todas as coisas chegam à sua forma completa e virtualmente
permanecem nesse estado, alegremente, envelhecendo e cansando-se da
vida não mais rapidamente do que os próprios Valar. E esta benção
também foi garantida aos Eldar.

Na terra os Quendi não
sofriam de doenças e a saúde de seus corpos era mantida pela força de
seu fëar longevo. Mas seus corpos, sendo da matéria de Arda, não era
tão resistente quanto seus espíritos; pois a longevidade dos Quendi era
derivada primariamente de seus fëar, cuja natureza ou “destino” era
habitar Arda até seu fim. Portanto, após a vitalidade do hröa ter se
expandido e alcançado o crescimento pleno ele começava a enfraquecer ou
ficar cansado. Muito lentamente, de fato, mas perceptivelmente para
todos os Quendi. Por um tempo ele seria fortificado e mantido pelo seu
fëa incansável e então sua vitalidade começaria a decair e seu desejo
pela vida física e felicidade nela passam cada vez mais rápido. Então
um Elfo poderia começar (como eles dizem agora, pois estas coisas não
apareceram completamente nos Dias Antigos) a “esvair-se”, até que o fëa
consumisse o hroa até que permanecesse apenas no amor e na memória do
espírito que o habitara.

Mas em Aman, uma vez que suas
bençãos se derramavam sobre o hroar dos Eldar, como sobre todos os
corpos, os hroar envelheciam junto com os fear e os Eldar que
permaneciam no Reino Abençoado aproveitavam na maturidade plena em em
pleno poder de corpo e espírito unidos por eras além de nossa
compreensão mortal.

Aman e os Homens Mortais[6]
Se
é assim em Aman, ou era antes da Mudança do Mundo, e nela os Eldar
tinham saúde e felicidade duradouras, o que podemos dizer dos Homens?
Nenhum homem jamais colocou os pés em Aman ou pelo menos nenhum
retornou após ter posto; pois os Valar proibiram. Por que? Para os
Numenorianos eles disseram que assim o fizeram porque Eru proibiu-os de
receber Homens no Reino Abençoado; edeclararam também que lá os Homens
não seriam abençoados(como imaginavam) mas amaldiçoados e poderiam ” se
apagar tão rapidamente como uma chama muito brilhante”.Além
dessas palavras não podemos ir a não ser em suposições. Mesmo assim
vamos considerar o assunto. Os Valar não foram apenas proibidos por Eru
de tentar, eles sequer podiam alterar a natureza ou “destino” de Eru,
de qualquer um dos Filhos, no qual estava inclusa a velocidade de seu
crescimento (relativamente ao total da vida de Arda) eà duração de suas
vidas. Mesmo os Eldar permaneceram imutáveis neste aspecto.Vamos
supor que os Valar também tivessem admitido em Aman alguns dos Atani, e
(assim podemos considerar toda a vida de um Homem em tal estado) que
crianças “mortais” lá nasceram, assim como os filhos dos Eldar. Então,
mesmo em Aman, uma criança mortal deveria crescer para sua maturidade
em cerca de vinte anos do Sol, e o período natural de sua vida, o
período de coesão de hroa e fea, não seria mais do que, digamos, 100
anos. Não muito mais, mesmo que seu corpo não sofresse de doenças ou
desordens em Aman, onde tais males não existiam (a menos que os Homens
levassem tais males consigo – por que não? Mesmo os Eldar levaram ao
Reino Abençoado alguma coisa da Sombra sobre Arda sob a qual eles
surgiram).

Mas em Aman tal criatura seria uma coisa
passageira, a de mais rápida passagem entre todas. Pois toda a sua vida
duraria pouco mais do que metade de um ano, e enquanto todas as outras
coisas vivas pareceriam a ela dificilmente mudar,permanecendo estáticas
em vida e felicidade com esperança não reduzida de anos infindos, ele
iria surgir e sumir – assim como na Terra a gramasurge na primavera e
murcha no inverno. Então ele se tornaria cheio de inveja, tomando-se
como vítima de uma injustiça, não tendo as graças concedidas a todos os
outros seres. Ele não daria valor ao que tem,sentindo que está entre a
menor e menos valorosa de todas as criaturas, cresceriam rapidamente
até se tornarem adultos, e odiariam àqueles mais bem dotados de
benções. Ele não poderia escapar do medo e tristeza de sua rápida
mortalidade que é seu quinhão sobre a Terra, na Arda Desfigurada, mas
seria assediado por eles até a perda de todo o prazer.

Mas
alguém poderia perguntar: porque a benção da longevidade não poderia
ser dada a ele, como a é para os Eldar? Isto deve ser respondido.
Porque isto traz felicidade aos Eldar, sendo sua natureza diferente da
dos Homens. A natureza de um fea Élfico é permanecer no mundo até seu
fim, e um hroa Élfico é também longevo por natureza; assim um fea
Élfico percebendo que seu hroa permanece com ele, também incansável e
permanecendo descansado em felicidade corporal, teria uma felicidade
maior e mais duradoura. De fato alguns dos Eldar duvidam que alguma
graça ou benção especial foi reservada a eles, além da entrada em Aman.
Pois eles afirmam que a falha de seus hroar em permanecerem em
incansável vitalidade tanto quanto seus fear – um processo não
observado até eras tardias – é devido ao Desfigurar de Arda, e veio com
a Sombra e a mancha de Melkor que toca toda a matéria (ou hroa)[7] de
Arda, se não toda Eä. Então tudo que aconteceria em Aman é que a
fraqueza do hroar Élfico não se desenvolveria à saúde de Aman e à Luz
das �?rvores.

Mas vamos supor que a “benção de Aman” também
fosse garantida aos Homens*. Então o que? Teria um grande bem sido
feito a eles? Seus corpos continuariam a atingir a maturidade
rapidamente. Na sétima parte de um ano um homem nasceria e se tornaria
adulto, tão rápido quanto um pássaro nasceria e voaria do ninho em
Aman. Mas então ele não iria enfraquecer ou envelhecer mas permaneceria
vigoroso e em felicidade de uma criatura corpórea. Mas e sobre o fea
desse Homem? Sua natureza ou “destino” não poderia ser mudada, nem pela
saúde de Aman nem pela vontade do próprio Manwë. Mesmo assim (como os
Eldar sustentam) é sua natureza e destino sob a vontade de Eru que ele
não permaneça em Arda por muito tempo, mas parta para algum outro
lugar, talvez retornando diretamente aEru para outro destino ou
propósito que está além do conhecimento ou suposição dos Eldar.

Muito
rapidamente então o fea e hroa de um Homem em Aman não mais estariam
unidos em paz, mas se oporiam, para grande dor de ambos. Sendo o hroa
pleno de vigor e felicidade da vida oprimiria o fea, uma vez que sua
partida traria a morte; e contra a morte ele se revoltaria como se
revoltaria uma grande besta cheia de vida contra o caçador ou partiria
selvagemente sobre ele. Mas a fea estaria como em uma prisão,
tornando-se mais e mais cansada de todos os prazeres do hroa, até
desgostar deles, desejando mais e mais ter partido, até que mesmo
aqueles assuntos de seu pensamento recebidos através do hroa e seus
sentidos se tornassem sem sentido. O Homem então não seria abençoado,
mas amaldiçoado; e ele amaldiçoaria os Valar e Aman e todas as coisas
de Arda. E ele não deixaria Aman de livre vontade, pois significaria
morte rápida, e com violência tentaria permancer. Mas se ele
permanecesse em Aman[8], o que ele se tornaria, até que Arda finalmente
se completasse e ele encontrasse alívio?

Ou o fea seria
completamente dominado pelo hroa e ele se tornaria mais como uma besta,
embora uma atormentada por dentro, ou, se seu fea fosse forte, ele
poderia deixar o hroa. Então uma de duas coisas ocorreria: ou isto
seria conseguido em ódio, através de violência, e o hroa, em plena
vida, seria rendido e morreria em súbita agonia; ou o fea desertaria o
hroa rapidamente e sem piedade, que continuaria a viver, um corpo sem
mente, nem mesmo uma besta e sim um monstro, um trabalho próprio de
Melkor no meio de Aman, que os os próprios Valar iriam destruir.

(*
Ou (como alguns homens sustentam) que seus hroar não eram naturalmente
de vida curta, mas assim se tornou através da malícia de Melkor sobre e
além da Desfiguração geral de Arda e esta ferida poderia ser curada e
desfeita em Aman).

Mas estas coisas não são nada além
suposições, e podem-ser; pois Eru e os Valar sob Ele não permitiram aos
Homens como eles são [9] que residissem em Aman. Pode ser que os Homens
em Aman não pudessem escapar das garras da morte, mas a teria em grau
maior e por longas eras. E além disso, parece provavel que a própria
morte, tanto em agonia e horror, poderia, com os Homens, adentrar a
própria Aman.

A este ponto Aman, como originalmente
escrito continuava com a aspalavras “Alguns Homens defendiam que seus
hroar não tinham por natureza, vida curta…” que são o começo da
passagem introdutória do Athrabeth.

Notas de Christopher Tolkien

[1] O número III e título adicional “O Desfigurar dos Homens” (os
outros títulos permaneceram) foi dado à segunda parte, enquanto Aman
foi numerada II. Nenhum escrito numerado I foi encontrado.

[2] Será visto que, como consequência da transformação do “mito
cosmogônico”, uma concepção inteiramente nova do “Ano Valariano”
surgiu. A elaborada computação do Tempo no Annals of Aman foi
baseada no “ciclo” ou “as Duas Árvores que cessaram de existir em
relação ao moviumento diruno do Sol que tinha surgido – surgiu um “novo
calendário”. Mas o “Anos dos Valar” é agora, como parece, uma “unidade
de percepção” da passagem do Tempo de Arda, derivada da capacidade dos
Valar perceberem tais intervalos do processo do envelhecer de Arda, do
seu começo ao seu fim. Ver nota 5.

[3] Meu pai escreveu a seguinte passagem (“Eles podiam se mover para
frente ou para trás em pensamento…”) no corpo do manuscrito a este
ponto, mas em uma pequena letra itálica, e eu preservei esta forma no
texto impresso; similarmente à passagem que interrompe o texto
principal às palavras “unidade de tempo Valariana”.

[4] “Nós podemos… utilizar a unidade Valariana”: em outras palavras,
presumivelmente, a antiga estrutura de datas na crônica de Aman poderia
ser mantida, mas o significado daquelas datas em termos de Terra-média
seriam radicalmente diferentes. Ver nota 5.

[5] Existe agora uma vasta discrepância entre os Anos dos Valar e os
“anos mortais”; ver também “toda a sua vida duraria pouco mais do que
metade de um ano” e “na sétima parte de um ano um homem nasceria e se
tornaria adulto”. Em notas não dadas neste livro, nas quais meu pai
estava calculando tendo como base o Despertar dos Homens, ele expressa
que 144 Anos do Sol = 1 Ano dos Valar (em conexão a isto ver Apêndice D
dO Senhor dos Anéis: “Parece claro que os Eldar na Terra-média…
contavam longos períodos, e apalavra Quenya yen… realmente
significava 144 de nossos anos”) colocando o evento “após ou à mesma
época do saque a Utumno, Ano dos Valar 1100″, um gigantesco intervalo
de tempo poderia ser visto agora entre o “surgir” dos Homens e sua
primeira aparição em Beleriand.

[6] O subtítulo Aman e Homens Mortais foi uma adição posterior.

[7] Com este uso da palavra hroa ver “o hroa, a “carne” ou matéria física, de Arda” (texto VIII do Mitos Transformados).

[8] Esta passagem, a partir de “E ele não deixaria Aman de livre vontade…” foi uma adição posterior. Quando o texto foi escrito ele continuava de “todas as coisas de Arda” para “o que ele se tornaria”

[9] As palavras “como eles são” são uma adição posterior, ao mesmo tempo que aquele da nota 6 e 8.

The History of Middle-earth IV – The Shaping of Middle-earth

The Shaping of Middle-earth (A Formação da Terra-média), quarto livro da série The History of Middle-earth, revela aos leitores uma fase fundamental da evolução da mitologia tolkieniana. Com efeito, é nos textos desse livro, escritos em geral no decorrer dos anos 30, que o ciclo de lendas que hoje conhecemos como parte de O Silmarillion assumiu, em linhas gerais, a forma atual.

 

Um dos primeiros textos a ser apresentado é o chamado "Rascunho da mitologia", um esboço feito por Tolkien de seu projeto para transformar e completar as histórias dos Lost Tales. Baseando-se nesse esboço, Tolkien escreveu, em 1930, o Quenta Noldorinwa ou "A História dos Noldoli", a única versão das lendas dos Dias Antigos que chegou a ser efetivamente completada. Para se ter uma idéia, a versão da queda de Gondolin publicada em O Silmarillion foi fortemente baseada no relato do Quenta Noldorinwa.

Ao mesmo tempo, é nessa versão que povos e personagens importantes ganham um caráter mais definido, e outros fazem sua primeira aparição, como a Casa de Haleth (que era chamado de Haleth, o Caçador – pasmem, Haleth era um homem!). O Quenta Noldorinwa se encerra com a misteriosa Segunda Profecia de Mandos, na qual é pressagiado o Final dos Tempos.

Outros textos muito interessantes também integram The Shaping of Middle-earth: um dos melhores é o Ambarkanta ou "A Forma do Mundo", uma bela descrição cosmológica que mostra como Tolkien concebia a estrutura de seu mundo nesse momento.

Muito interessantes são também os Anais de Valinor e os Anais de Beleriand, que dão uma estrutura cronológica aos acontecimentos do Quenta. Um fato curioso é que, nesse estágio da mitologia, Tolkien havia definido um período muito curto, de cerca de 200 anos, entre a chegada dos Noldoli (Noldor) e o fim do Cerco de Angband. The Shaping of Middle-earth contém também o primeiro mapa detalhado de Beleriand desenhado por Tolkien.

Conteúdo do Livro

Prose fragments following the Lost Tales Três breves textos sobre Tuor e Gondolin e sobre a partida dos Noldor de Aman e sua chegada na Terra-média. 1920

The Earliest Silmarillion (The Sketch of the Mitology) Uma sinopse breve e condensada da mitologia escrita para acompanhar "The Lay of the Children of Húrin". 1926

The Quenta [Noldorinwa] Um versão retrabalhada e expandida do "Sketch". Inclui o poema "The Horns of Ylmir". Também inclui "AElfwines translation of the Quenta into Old English". c. 1930

The First Silmarillion Map Mapa de trabalho por muitos anos, foi muito trabalhado e alterado. 1926

The Ambarkanta Um pequeno tratado sobre a forma do munedo, acompanhado de mapsa. Meados dos anos 1930.

The Earliest Annals of Valinor
Anais dos eventos de Valinor e outro local do começo das coisas até a chegada dos Noldor na Terra-média. Inclui "AElfwines translation of the Annals of Valinor into Old English". 1930

The Earliest Annals of Beleriand Anais dos eventos de Beleriand desde o surgimento do Sol e da Lua até a grande batalha contra Morgoth. Inclui "AElfwines translation of the Annals of Beleriand into Old English". 1930

The History of Middle-earth V – The Lost Road and Other Writings

O leitor que deseja conhecer a fundo as origens da lenda de Númenor e de todas as histórias da Segunda Era da Terra-média terá uma fonte das mais importantes em The Lost Road and other writings (A Estrada Perdida e outros escritos), o quinto livro da série The History of Middle-earth.
 

A Estrada Perdida, texto que dá nome ao livro, é uma das obras mais originais de Tolkien, embora infelizmente incompleta. A idéia do livro surgiu das discussões literárias entre Tolkien e seu grande amigo C.S. Lewis, também professor em Oxford. Os dois combinaram que Lewis iria escrever uma história de viagem espacial, enquanto Tolkien escreveria um história de viagem no tempo.

No fim das contas, apenas Lewis conseguiu terminar e publicar seu livro, com o título Out of the Silent Planet, em 1937. É uma pena que Tolkien não tenha conseguido fazer o mesmo com A Estrada Perdida: a história, cheia de fortes elementos autobiográficos, tem como personagem principal Alboin Errol, um professor universitário com uma paixão pelas línguas do norte da Europa e que, em estranhos sonhos, ouvia fragmentos de idiomas desconhecidos: o eressëano (quenya) e o beleriândico (sindarin). Alboin e seu filho Audoin acabam transportados para Númenor, na pele de Elendil e seu filho Herendil (Isildur e Anárion ainda não haviam surgido), e têm que enfrentar a ameaça de Sauron.

The Lost Road traz também as mais antigas versões das histórias da Segunda Era, como o relato do surgimento e queda de Númenor e da fundação dos reinos numenoreanos na Terra-média. Para citar apenas uma das diferenças nessas versões antigas, Gil-galad era a princípio descendente de Fëanor!

Para os interessados na evolução das línguas élficas, The Lost Road encerra dois tesouros. Em primeiro lugar, as Etimologias, uma lista com centenas de raízes élficas primitivas, seus significados e as palavras derivadas delas existentes em quenya, noldorin (o ancestral do sindarin) e outros línguas élficas. Em segundo lugar, o Lhammas ou "Relato das Línguas", em que as características e parentesco das línguas élficas, como eram imaginadas nesse momento (por volta de 1937), eram concebidas.

Finalmente, The Lost Road também apresenta o Quenta Silmarillion de 1937, novas versões dos Anais de Valinor, Anais de Beleriand e do Ainulindalë, bem como o mapa de Beleriand que serviu de base para os mapas publicados em O Silmarillion.

Conteúdo do Livro

The Fall of Númenor O início do conto de Númenor em várias versões. 1936 – 1937

The Lost Road Um novela viagem no tempo com capítulos sobre Númenor, Scyld e AElfwine. Fragmentado e nunca concluído. Poemas incluem "Ilu Ilúvatar", "King Sheave", "The Nameless Land" e "The Song of Aelfwine". 1936 – 1937

The Later Annals of Valinor Anais de Valinor e outro local desde o início das coisas até o nascimento do Sol. Não muda muito de "The Earliest Annals of Valinor". Meados/final de 1930

The Later Annals of Beleriand Anais dos eventos em Beleriand até a Grande Batalha e a destruição de Beleriand. Muito mais completo e terminado que "The Earliest Annals of Beleriand". Meados/final de 1930

Ainulindalë O mito cosmológico. Segue o "The Lost Tales", mas foi completamente reescrito. Meados/final de 1930

The Lhammas Um texto sobre as línguas Élficas (e algumas outras) e seus inter-ralacionamentos.

Quenta Silmarillion Termina com Turin virando um fora-da-lei, mas inclui o final da chegada de Eärendel em Valinor e a Grande Batalha. Depois deste foi escrito o "History of the Elder Days" que permaneceu esquecido por muito tempo. Final de 1930, revisado em 1937-1938.

The Etymologies Um dicionário etimológico do Élfico. Meados de 1930, grandes revisões em 1938

The Genealogies Árvores genealógicas dos príncipes Élficos e das três casas dos Pais dos Homens e uma tabela de divisões do Quendi. Início de 1930.

The List of Names Origens e definições dos nomes encontrados no "Annals of Beleriand" e "Genealogies". 1930

The Second Silmarillion Map Mapa final de Beleriand, no qual o mapa publicado foi baseado. Impresso como originalmente foi desenhado e escrito.

Lúthien e Morgoth

Melkor Morgoth

Melkor deve ser feito muito mais poderoso em sua natureza original (cf. “Finrod e Andreth”). O maior poder abaixo de Eru (isto é, o maior poder criado).[1] (Ele devia criar/inventar/começar; Manwë (menos grandioso) devia aperfeiçoar, realizar, completar.

[Nota do tradutor: o uso constante e alternado do futuro e do presente dos tempos verbais no texto dá-se pelo caráter de “esboço ensaístico” do mesmo, pretendido como tal para elucidar a personalidade de Melkor em uma possível versão reescrita do Quenta Silmarillion.]

Posteriormente, ele não deve ser capaz de ser controlado ou “acorrentado” por todos os Valar unidos. Observe-se que, nos primórdios de Arda, ele foi capaz de, sozinho, expulsar os Valar da Terra-média, em retirada.A guerra contra Utumno só foi empreendida pelos Valar com relutância, e sem esperança de vitória real, mas deu-se como uma ação de proteção ou distração, para permitir-lhes retirarem os Quendi de sua esfera de influência. Mas Melkor já havia progredido de algum modo na direção do caminho que o tornaria “o Morgoth, um tirano (ou uma tirania e vontade centrais), mais seus agentes”.[2] Apenas o total continha o antigo poder do Melkor completo; de modo que, se “o Morgoth” pudesse ser alcançado ou separado temporariamente de seus agentes, ele estaria muito mais próximo de ser controlável e em um nível de poder tal como o dos Valar. Os Valar percebem que podem lidar com seus agentes (isto é,
exércitos, Balrogs, etc.) gradualmente. De forma que eles chegam, por fim, à própria Utumno e descobrem que “o Morgoth” não possui no momento “força” suficiente (em qualquer sentido) para defender-se do contato pessoal direto. Manwë finalmente encara Melkor mais uma vez, como ele não havia feito desde que entrou em Arda. Ambos assombram-se: Manwë por perceber o declínio em Melkor como uma pessoa, Melkor por também perceber isto a partir de seu próprio ponto de vista: ele agora possui menos força pessoal do que Manwë, e não pode mais intimidá-lo com seu olhar.Ou Manwë deve contar-lhe isso ou ele mesmo deve perceber repentinamente (ou ambas opções) que isso aconteceu: ele está “disperso”. Mas o desejo de possuir criaturas sujeitas a ele, dominadas, tornou-se habitual e necessário a Melkor de modo que, mesmo se o processo fosse reversível (possivelmente o era apenas pela auto-humilhação e arrependimento absolutos e verdadeiros), ele não pode realizá-lo por si próprio.* Assim como com todos os outros personagens, deve haver um momento de estremecimento no qual isso está em jogo: ele quase se arrepende – e não o faz, e torna-se muito mais cruel e mais tolo.* Uma das razões para esse seu auto-enfraquecimento é a de que ele deu às suas “criaturas”, Orcs, Balrogs, etc., poder de recuperação e multiplicação. De modo que eles irão se reuinir novamente sem ordens específicas adicionais. Parte desse poder criativo nativo perdeu-se ao criar um crescimento maligno independente, fora de seu controle.

Possivelmente (e ele acha isso possível) ele poderia, neste momento, ser humilhado contra sua própria vontade e “acorrentado” – se e antes que suas forças dispersas reagrupem-se. Portanto – tão logo tivesse rejeitado mentalmente o arrependimento – ele (assim como Sauron posteriormente do mesmo modo) faz um arremedo de auto-humilhação e arrependimento pelo qual, na verdade, sente um tipo de prazer pervertido como ao profanar algo sagrado – [pois a mera contemplação da possibilidade de arrependimento genuíno, se essa não viesse então especialmente como uma graça direta de Eru, ao menos foi uma última centelha de sua verdadeira natureza primordial.] Ele dissimula remorso e arrependimento. Ele realmente ajoelha-se diante de Manwë e rende-se – em primeiro lugar, para evitar ser acorrentado com a corrente Angainor da qual, uma vez sobre ele, teme jamais libertar-se. Mas ele também subitamente tem a idéia de penetrar na exaltada estabilidade de Valinor e arruiná-la. Assim, ele se oferece para tornar-se “o menor dos Valar” e servo de todos eles, para ajudar (por conselhos e habilidade) a reparar todas as perversidades e ferimentos que causara. É essa oferta que seduz ou ilude Manwë – Manwë deve ser mostrado como tendo sua própria falha inata (embora não seja um pecado)**: ele fica absorto (em parte por medo absoluto de Melkor, em parte pelo desejo de controlá-lo) na correção, cura, reordenamento – até na “manutenção do status quo” – levando à perda de todo o poder criativo e mesmo à fraqueza ao lidar com situações difíceis e perigosas. Contra o conselho de alguns dos Valar (tais como Tulkas), ele atende à súplica de Melkor.

** Cada criatura finita deve possuir alguma fraqueza: que é alguma incapacidade de lidar com algumas situações. Não é pecaminoso quando não ocorre voluntariamente e quando a criatura dá o melhor de si (mesmo se não for o que deveria ser feito) do modo como esta vê a situação – com a intenção consciente de servir a Eru.

Melkor é levado de volta à Valinor, indo por último (exceto por Tulkas***, que o segue carregando Angainor e fazendo-a ressoar para que Melkor lembre-se dela).

*** Tulkas representa o lado bom da “violência” na guerra contra o mal. Essa é uma ausência de todo compromisso que irá confrontar mesmo males aparentes (tais como a guerra) em vez de parlamentar; e não acredita (em qualquer tipo de orgulho) que qualquer um inferior a Eru possa reparar isso, ou reescrever o conto de Arda.

Mas no conselho, não é dada a Melkor liberdade imediata. Os Valar reunidos não tolerarão isso. Melkor é remetido a Mandos (para lá
permanecer em “reclusão” e meditar, e completar seu arrependimento – e também seus planos para a reparação).[3]

Ele começa então a duvidar da sensatez de sua própria política, e teria rejeitado tudo e irromperia em uma rebelião flamejante – mas ele agora está absolutamente isolado de seus agentes e em território inimigo. Ele não pode. Portanto, ele engole o amargo remédio (mas isso aumenta enormemente seu ódio, e posteriormente ele sempre acusou Manwë de ser desleal).

O resto da história, com a libertação de Melkor, e a permissão para estar presente no Conselho, sentando aos pés de Manwë (conforme o
modelo de conselheiros malignos em contos posteriores que, pode-se dizer, deriva desse modelo primordial?), pode então proceder mais ou menos como já contado.

Notas:

[1] Cf. as palavras de Finrod no Athrabeth: “não há poder algum concebivelmente maior que Melkor, salvo apenas Eru”.

[2] A referência mais antiga à essa idéia da “dispersão” do poder original de Melkor é encontrada nos Anais de Aman §179: “Pois ele cresceu em malícia e, transmitindo de si mesmo o mal que concebera em mentiras e criaturas ou perversidade, seu poder passou para elas e foi dispersado, e ele próprio tornou-se ainda mais ligado à terra, negando-se a sair de suas fortalezas sombrias.”

Cf. também Anais §128 – A expressão “o Morgoth” é usada várias vezes por Finrod no Athrabeth.[3] “seus planos para a reparação”: isto é, a reparação dos males que ele produziu.

History of Middle-earth IX – Sauron Defeated

"Sauron Defeated" ou "Sauron Derrotado", o nono livro da monumental série History, recebeu esse título um tanto genérico meio por falta de opção, admite Christopher Tolkien. É que a obra teve de reunir material um tanto díspar, que vai desde a continuação da história textual de "O Senhor dos Anéis" até um romance (abortado) de viagem no tempo, altamente experimental. A diversidade de temas e estilos mostra que, além de genial, Tolkien podia ser muito versátil, enveredando inclusive pela ficção científica tradicional.
 

O início do livro fecha o desenvolvimento de "O Senhor dos Anéis" com as versões preliminares dos capítulos que hoje compõem o Livro VI da Saga do Anel. Alguns detalhes interessantes são a aparição do velho Ghân-buri-Ghân para a coroação de Aragorn e o papel ativo e guerreiro que Frodo, inicialmente, teve durante o Expurgo do Condado.

Mas emocionante mesmo é o Epílogo do livro (que acabou sendo retirado da edição final) em que Sam, já mais velho e rodeado de seus filhos, conta aos pequenos sobre o destino final dos companheiros da Sociedade do Anel e da visita do rei Elessar ao Condado. Abraçado com Rosinha, Sam contempla o céu estrelado da Terra-média e volta para o aconchego do Bolsão, não sem antes ouvir ao longe o barulho do Mar – um prelúdio de sua partida para as Terras Imortais. Como guloseima para os que se interessam pelas línguas élficas, a Carta do Rei no original sindarin também está disponível.

O tom muda bastante na segunda parte do livro, voltando-se para a história de Númenor. É quando surgem os "The Notion Club Papers" (As Palestras do Clube Notion), um romance ousado e infelizmente inacabado no qual Tolkien retoma o antigo "The Lost Road": um grupo de eruditos de Oxford, que se reúne durante os anos 80 do século XX (logo, no que era o futuro para Tolkien), discute as possibilidades da viagem espacial e temporal e acaba redescobrindo o mundo perdido da Segunda Era e da ameaça de Sauron sobre Númenor.

Finalmente, a terceira parte traça a evolução do texto "The Drowning of Anadûnê", uma das principais fontes para o Akallabêth, a Queda de Númenor. Como bônus, temos o início de uma gramática histórica do adûnaico, o idioma numenoreano, feita por um dos membros do Clube Notion – que termina, infelizmente, antes de chegar ao verbo.