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Mitos Transformados VIII – Orcs

The History of Middle-earth 10Este texto faz parte de um conjunto de ensaios intitulados "Mitos Transformados", contidos no The History of Middle-earth 10. A Valinor já possuía grande parte deles e está agora tradiuzindo os faltantes bem como acrescentando as notas e comentário. Este texto VIII trata da origem dos Orcs.
 
 
 

 
Na última sentença da versão curta original do texto VII meu pai
escreveu que os Eldar acreditavam que Morgoth gerou os Orcs ‘capturando
de Elfos (e Homens) cedo’ (isto é, nos primeiros dias de suas
existências). Isto indica que suas visões sobre este assunto mudaram
desde os Anais de Aman.
 
Para a teoria da origem dos Orcs como esta estava,
no ponto dos registros escritos nas narrativas (1), a este tempo ver os
Anais de Aman. Na forma final de Os Anais de Aman ‘isto é tido como
verdade pelos sábios de Eressëa’:

que todos aqueles dos Quendi que acabaram nas mãos de Melkor, antes de
Utumno ser quebrada, foram lá postos na prisão e por artes lentas de
crueldade e maldade foram corrompidos e escravizados. Desta forma
Melkor gerou a terrível raça dos Orkor em inveja e paródia aos Eldar,
de quem se tornaram após isto os mais amargos inimigos. Pois os Orkor
tinham vida e se multiplicavam à maneira dos Filhos de Ilúvatar; e nada
do que tem vida por si mesmo, nem a aparência de vida, Melkor jamais
poderia criar, desde sua rebelião no Ainulindalë antes do Começo: assim
dizem os sábios.

No texto datilografado de Os Anais de Aman meu pai escreveu ao lado do
registro da origem dos Orcs: ‘Alterar isto. Orcs não são Élficos’.  

O presente texto, entitulado ‘Orcs’, é um ensaio curto (em grande parte
um registro de ‘pensando com a caneta’) encontrado na mesma pequena
coleção reunida em um jornal de 1959 como os textos III e VI. E como
estes ele foi escrito nos papéis do Merton College de 1955; e como o
texto VI ele faz referência a ‘Finrod e Andreth

 


 
Sua natureza e origem requerem mais reflexão. Elas não são fáceis de inserir na teoria e no sistema.
 
[1] Como o caso de Aulë e os Anões mostra, somente Eru podia criar criaturas com vontades independentes e com capacidade de raciocínio.
Mas os Orcs parecem possuir ambas: eles podem tentar enganar
Morgoth/Sauron, rebelar-se contra ele ou criticá-lo.

[2] ? Portanto, eles devem ser corrupções de alguma coisa pré-existente.

[3] Mas os Homens não haviam ainda aparecido quando os Orcs já
existiam. Aulë construiu os Anões a partir de sua memória da Música; mas Eru não
sancionaria a obra de Melkor de modo a permitir a independência dos Orcs. (A não ser que os Orcs fossem em essência remediáveis ou pudessem
ser corrigidos e "salvos".)


Também parece claro que, embora Melkor pudesse corromper e arruinar
indivíduos completamente, não é possível contemplar sua perversão
absoluta de um povo inteiro, ou grupo de pessoas, e sua criação que
afirma hereditariedade
(2) [Adicionado posteriormente: Este último deve [se
um fato] ser um ato de Eru].

Neste caso os Elfos, como uma fonte, são muito improváveis. E os Orcs
são "imortais" no sentido élfico? Ou os Trolls? Parece claramente
implícito em O Senhor dos Anéis que os Trolls existiam independentemente, mas foram "modificados" por Melkor (3).

[4] E o que dizer de feras falantes e pássaros com raciocínio e fala? Esses foram adotados levianamente por mitologias menos
"sérias", mas representam um papel que agora não pode ser cortado. São certamente "exceções" e não muito usados, mas suficientemente para
mostrar que eles são uma faceta reconhecida do mundo. Todas as
criaturas os aceitam como naturais, se não comuns.

 
Mas criaturas
"racionais" verdadeiras, "povos falantes", são todas de forma
humana/"humanóide". Somente os Valar e Maiar são inteligências que
podem assumir formas de Arda à vontade. Huan e Sorontar poderiam ser
Maiar – emissários de Manwë. (4) Mas, infelizmente, em O Senhor dos Anéis é
dito que Gwaehir e Landroval são descendentes de Sorontar [Thorondor] (5).

De qualquer forma, é provável ou possível que mesmo os menores dos Maiar
se tornariam orcs? Sim: tanto fora de Arda como dentro dela, antes da
queda de Utumno. Melkor corrompeu muitos espíritos – alguns grandes,
como Sauron, ou menores, como Balrogs. Os menores poderiam ter sido orcs
primitivos (e muito mais poderosos e perigosos); mas, por procriarem
quando encarnados, eles (ver Melian) [se tornariam] cada vez mais
ligados à terra, incapazes de retornar ao estado de espírito (mesmo
forma demoníaca), até serem libertados pela morte (assassinato), e definhariam em força. Quando libertados eles estariam, claro, como
Sauron, "condenados": isto é, reduzidos à impotência, infinitamente
recessiva: ainda odiando, mas incapazes cada vez mais de fazê-lo
de modo efetivo fisicamente (ou não seria o estado órquico muito definhado de
morte um poltergeist?).


Mas novamente – Eru proveria fëar a tais criaturas? Para as águias etc., talvez. Mas não para os Orcs (6).

Entretanto, parece melhor ver o poder de corrupção de Melkor como
sempre começando, pelo menos, no nível moral ou teológico. Qualquer
criatura que o tomava por Senhor (e especialmente aquelas que
de modo blasfemo o chamaram de Pai ou Criador) logo tornava-se corrompida
em todas as partes de seu ser, o fëa arrastando o hröa em sua
queda ao morgothismo: ódio e destruição. Quanto aos Elfos serem
"imortais": eles na verdade possuiam vidas excepcionalmente longas, e
foram "cansando-se" fisicamente e sofrendo um enfraquecimento lento e
progressivo de seus corpos.

Em resumo: eu acho que se deve supor que "falar" não é
necessariamente o sinal da posse de uma "alma racional" ou fëa. (7) Os Orcs
eram feras de forma humanizada [para zombar de Homens e Elfos]
deliberadamente pervertidos/convertidos em uma semelhança mais próxima
dos Homens. Sua "fala" era na verdade "gravações" recitadas, colocadas
neles por Melkor. Melkor ensinou-lhes a fala e ao reproduzirem-se herdaram isso; e possuíam tanta independência  quanto, digamos, cães ou
cavalos possuem de seus mestres humanos. Sua fala era em grande parte ecoada (como
papagaios). Em O Senhor dos Anéis é dito que Sauron inventou um idioma para eles (8).

O mesmo tipo de coisa pode ser dito de Huan e as Águias: os Valar lhes ensinaram um idioma e os elevaram a um nível
superior – mas eles ainda não possuíam fëa.

Mas Finrod provavelmente foi longe demais em sua afirmação de que Melkor
não poderia corromper completamente qualquer obra de Eru, ou que Eru (necessariamente) interferiria para anular a corrupção ou para cessar a
existência de Suas próprias criaturas, pois elas teriam sido
corrompidas e voltadas para o mal (9).

Permanece, portanto, terrivelmente possível que houvesse uma linhagem
élfica nos Orcs. (10) Estes podem então ter sido cruzados com feras (estéreis!) – e posteriormente com Homens. Seu tempo de vida seria
diminuído. E morrendo eles iriam para Mandos e seriam mantidos aprisionados
até o Fim.

Ver Melkor. Lá será visto que as vontades dos Orcs e Balrogs etc., são
parte do poder de Melkor "dispersado". O espírito deles é de ódio. Mas
o ódio é não-cooperativo (exceto sob medo direto). Daí as rebeliões,
motins, etc., quando Morgoth parecia estar distante.  Os Orcs são feras e
os Balrogs Maiar corrompidos. Além disso (n.b.), Morgoth, não Sauron, é a fonte das
vontades dos orcs. Sauron é apenas outro (se não maior) agente. Os Orcs
podem se rebelar contra ele sem perder sua própria fidelidade
irremediável ao mal (Morgoth). Aulë queria amor. Mas, claro, não
pensava em dispersar seu poder. Apenas Eru pode dar amor e
independência
. Se um subcriador finito tenta fazer isso, ele na
verdade quer uma ardorosa obediência absoluta, mas ela vira servidão
robótica e torna-se mal.

 
NOTAS

1. Em uma longa carta a Peter Hastings datada de Setembro de 1954, a qual ele não enviou (As Cartas de J. R. R. Tolkien, #153), meu pai escreveu o que se segue com relação à questão de que Orcs ‘poderiam ter "almas" ou "espíritos"’:

… uma vez que em meus mitos de forma alguma eu concebo a criação de almas ou espíritos, coisas de uma ordem igual senão de poder igual aos Valar, como uma possível ‘delegação’, eu ao menos representei os Orcs como seres reais pré-existente nos quais o Senhor Escuro exerceu a totalidade de seu poder remodelando-os e corrompendo-os, mas não os criando… podem ter ocorridos outras ‘criações, contudo, as quais eram mais como títeres preenchidos (apenas à distância) com a mente e vontade de seu criados, ou agindo como formigas sob o comando de uma rainha central.

Anteriormente, nesta carta, ele citou as palavras de Frodo a Sam no capítulo "A Torre de Cirith Ungol": ‘A sombra que os criou só pode arremedar, não pode criar: nada realmente novo que se origine dela mesma. Não acho que lhes tenha dado vida, apenas os arruinou e deformou’; e ele continua: "Nas lendas dos Dias Antigos é sugerido que o Diabolus subjugou e corrompeu alguns dos primeiros Elfos…". Ele também disse que os Orcs "são fundamentalmente uma raça de criaturas ‘racionais encarnadas’".

2. No Athrabeth Finrod declarou:

Mas nunca, mesmo na noite, acreditamos que ele [Melkor] pudesse prevalecer contra os Filhos de Eru. Este ele poderia iludir, ou aquele ele poderia corromper; mas mudar o destino de todo um povo dos Filhos, roubá-los de sua herança: se ele pudesse fazer tal coisa à revelia de Eru, então de longe maior e mais terrível é ele do que imaginávamos…

3. Em O Senhor dos Anéis Apêndice F (I) é dito dos Trolls:

Nos seus primórdios, no crepúsculo dos Dias Antigos, eram criaturas de natureza obtusa e bruta, sem outra linguagem que não a dos animais. Mas Sauron fizera uso deles, ensinando-lhes o pouco que eram capazes de aprender e aumentando sua inteligência com maldade.

Na longa carta de Setembro de 1954 citada na Nota 1 escreveu sobre eles:

Eu não estou certo sobre os Trolls. Eu acho que era eram meras ‘imitações’ e portanto (embora aqui eu esteja, claro, usando apenas elementos de antigos mitos bárbaros que não tinham uma metafísica ‘consciente’) eles retornam a simples estátuas de pedra quando não estão no escuro. Mas há outras espécies de Trolls além daqueles bastante ridículos, embora brutais, Trolls-das-rochas, para os quais outras origem são sugeridas. Claro… quando você faz Trolls falarem você está dando a eles poder, o qual em nosso mundo (provavelmente) denota a posse de uma "alma".

4. Ver comentários finais da Sexta Seção de os Anais de Aman. Ao final da página contendo o breve texto V meu pai escreveu rapidamente a seguinte nota, inteiramente desconectada com o assunto do texto:

Coisas vivas em Aman. Assim como os Valar poderiam se vestir como os Filhos, muitos dos Maiar vestiam-se como outras coisas vivas menores, como árvores, flores, bestas. (Huan.).

5. "Lá vinha Gwaihir, o Senhor dos Ventos, e Landroval, seu irmão, as maiores de todas as Águias do Norte, e os mais poderosos descendentes do velho Thorondor"  ("O Campo de Cormallen" em O Retorno do Rei).

6. A este ponto existe uma nota que começa com ‘Crítica de (1) (2) (3) acima’ (ou seja, os pontos iniciais deste texto) e então se refere obscuramente a ‘última batalha e a queda de Barad-dur etc.’ em O Senhor dos Anéis. Em uma visão do que se segue meu pai estava presumivelmente pensando no capítulo ‘A Montanha da Perdição’:

De todas as suas planos e teias de medo e traição, de todos os seus estratagemas e guerra sua mente se livrou; e através de todo o seu reino ocorreu um tremor, seus escravos se acovardaaram, seus exércitos pararam, e seus capitães repentinamente sem direção, privados de vontade, hesitaram e se desesperaram. Pois eles foram esquecidos.
    
A nota continua

Eles tinham pouca ou nenhuma vontade quando não ‘cuidados’ de fato pela mente de Sauron. Suas traições e rebeliões davam aquela possibilidade a animais como cães etc.?
       
7. Compare com fim do trecho citado na carta de 1954 na nota 3.

8. Apêndice F (I): ‘Diz-se que a Língua Negra foi inventada por Sauron nos Anos Escuros’.

9. Ver a citação do Athrabeth na nota 2. Finrod de fato não afirma a última parte da opinião aqui atribuída a ele.

10. A afirmação de que ‘permanece, portanto, terrivelmente possível que houvesse uma linhagem élfica nos orcs’ aparece meramente para contradizer o que foi dito sobre serem não mais do que ‘bestas falantes’ sem avançar em novas considerações. No trecho acrescentado ao final do texto a afirmação de que ‘Orcs são bestas’ é repetida.
 

history12_the_peoples_of_middle_earth

Tal-elmar

225px-the_peoples_of_middle-earth.jpgA Valinor tem o orgulho de traduzir e publicar Tal-elmar, que é um dos textos mais “diferentes” de Tolkien, com exceção do “The Notion Club Papers” (que logo veremos aqui na Valinor). É um texto do The History of Middle-earth 12, na verdade o fechamento deste volume e de toda a série The History of Middle-earth. Ele mostra a chegada dos Numenorianos à Terra-média através de um dos “Homens Médios”, um membro da raça dos homens aparentada aos numenorianos, mas não tão imponente quanto estes (os “Alto Homens”) nem tem baixa quanro os “Homens Selvagens”. Espero que gostem! Comentários de Christopher Tolkien em itálico e todas as notas são de Christopher Tolkien.
TAL-ELMAR
O conto de Tal-Elmar, até onde o mesmo vai, está preservado em um papel dobrado, datado de 1968, no qual meu pai escreveu a seguinte nota apressada:
Tal-Elmar.Começo de um conto que vê os Numenorianos do ponto de vista dos Homens Selvagens. Ele começa sem muita consideração com a geografia (ou a situação como imaginada em O Senhor dos Anéis). Mas ele permanecer como um conto em separado apenas vagamente conectado com a história desenvolvida nO Senhor dos Anéis ou – como acredito – deve recontar a chegada dos Numenorianos (Amigos-dos-Elfos) antes da Queda e representar suas escolhas de portos permanentes. Portanto a geografia deve ser alterada para se encaixar àquela da foz do Anduin e do Langstrand.

Mas isto foi escrito treze anos depois dele ter abandonado a história e não há sinais dele ter retornado a ela em seus últimos anos. Curta como é e (como parece) incerta em seu direcionamento, tal distanciamento de todas os outros temas narrativos dentro do compasso da Terra-média servirá, talvez, como uma conclusão adequada a esta História.

O texto se encontra em duas partes. A primeira é formada por seis páginas datilografadas que se encerram no meio de uma sentença; mas a primeira parte deste existe também como uma página rejeitada, parte datilografada parte manuscrita (ver nota 5). Além deste ponto a história inteira está na primeira fase de composição. A segunda parte é um manuscrito no qual meu pai escreveu ‘Continuação de Tal-Elmar’ e a data Janeiro 1955; não há indicação de quanto tempo se passou entre as duas partes, mas eu acredito que o trecho datilografado também pertence à década de 1950. É digno de nota que ele estivesse trabalhando nele durante o período de extrema pressão entre a publicação de As Duas Torres e a de O Retorno do Rei. Este manuscrito retoma a história de onde ela parou no trecho datilografado, mas não completa a sentença deixada sem fim; ele se torna progressivamente mais difícil e em uma seção está no limite da legibilidade, com algumas palavras ininterpretáveis. No final da narrativa há passagens experimentais e questionamentos. A não ser em poucos casos, eu não relatei as alterações realizadas no texto e dou apenas a última versão; e em um ou dois casos eu alterei usos inconsistentes de ‘vós’ e ‘você’.

Nos dias dos Reis da Escuridão, quando um homem poderia andar sem molhar os pés desde o Nascer do Sol até o Mar onde ele se põe, viveu em uma cidade paliçada de seu povo nas colinas verdejantes de Agar um velho homem, de nome Hazad Barbalonga (1). Dois orgulhos ele tinha: no número de seus filhos (dezessete ao todo) e no comprimento de sua barba (cinco pés, sem esticar); mas sua satisfação devido à sua barba era a maior das duas. Pois ela permanecia com ele e era macia e obediente à sua mão, enquanto seus filhos em sua maior parte o deixaram e aquele que permaneciam ou visitavam esporadicamente não eram nem gentis nem obedientes. Eles eram muito como Hazad havia sido nos dias de sua juventude: entroncados, de pele escura, baixos, rígidos, de línguas afiadas, mãos pesadas e rápidos à violência.

Exceto por um deles, o mais jovem. Tal-elmar Hazad o havia nomeado. Ele ainda não tinha dezoito anos de idade e vivia com seu pai e os outros dois filhos mais novos. Ele era alto, de pele clara e havia uma luz em seus olhos cinzentos que se inflamava quando ele se enfurecia; e embora fosse raro e nunca sem uma boa razão, era algo a se recordar e ter cuidado. Aqueles que haviam visto o fogo o chamavam de Olhos-brilhantes e o respeitavam, amassem-no ou não. Pois Tal-elmar parecia, dentre aquele povo entroncado e de pele escura, esbelto e sem a força nos pernas e pescoço que eles prezavam, mas um homem que brigasse com ele logo perceberia ele ser mais forte do que parecia, rápido e ligeiro, difícil de segurar e mais difícil ainda de escapar.

Ele tinha uma bela voz, que fazia até mesmo o idioma rude daquele povo mais suave de se ouvir, mas ele não falava muito; e freqüentemente ele permanecia quieto enquanto os outros conversavam, com um olhar em sua face que os demais corretamente interpretavam como orgulho, embora não fosse o orgulho de um mestre, mas antes o orgulho de alguém de uma raça estrangeira que o destino lançou em meio a um povo ignóbil e lá o manteve em servitude. Pois Tal-elmar trabalhava pesado em tarefas domésticas, não sendo nada além do filho mais novo de um homem velho, que tinha pouca riqueza restando além de sua barba e de uma reputação de sabedoria. Mas estranhamente (para aquela cidade) ele servia a seu pai de boa vontade e o amava, mais do que todos os seus irmãos juntos e mais do que era o costume de qualquer filho naquela terra. De fato era mais comum o brilho ser visto em seus olhos quanto estava defendendo seu pai.

Pois Tal-elmar possuía uma estranha crença (de onde ela viera era um mistério) de que os velhos deveriam ser tratados com carinho e cortesia, e deveria ser permitido viver o resto de seus dias com o máximo de conforto que pudessem. ‘Se precisarmos contrariá-los’, ele dizia, ‘que seja com respeito; pois eles já viram muitos anos e, muitas vezes, talvez, enfrentaram os males que ainda não encontramos. E não se ressinta de sua comida ou seu quarto, pois eles trabalharam mais do que você e não recebem agora, tardiamente, mais do que uma parte do pagamento que lhes é devido’. Tal tolice não tinha efeitos nos costumes de seu povo, mas era lei em sua casa; e já se passaram dois anos desde que qualquer de seus irmãos ousou quebrá-la (2).

Hazad amava bastante seu filho mais jovem, em retorno a seu amor e ainda mais por outra razão que ele mantinha em seu coração: sua face e voz o lembravam de outra pessoa que há muito ele sentia falta. Pois Hazad também havia sido o filho mais jovem de sua mãe e ela morrera quando ele era uma criança; e ela não era de seu povo. Tal era o conto que ele ouvira, não abertamente, pois o mesmo não dava moral à sua casa: ela viera de um povo estranho, cheio de ódio e orgulhoso, do qual se ouvia rumores nas terras do oeste e vinha do Leste, como era dito. Altos, belos e com olhos brilhantes eles eram, com armas brilhantes feitas por demônios em colinas de fogo. Lentamente eles iam em direção ao Mar, expulsando em sua passagem os antigos moradores de suas terras.

Não sem resistência. Ocorreram batalhas nas fronteiras do leste e uma vez que o povo mais antigo ainda era numeroso, os recém-chegados algumas vezes sofriam grandes perdas e eram expulsos. De fato pouco se ouvira deles nas Colinas de Agar, distante no oeste, por mais de uma vida de homem, desde a grande batalha sobre a qual canções ainda eram cantadas. No vale de Ishmalog ela fora travada, contavam os sábios, e lá uma grande horda do povo Bárbaro foi emboscada em um local estreito e assassinada aos montes. E naquele dia muitos foram feitos cativos; por isso não havia mais agitação nas fronteiras ou lutas com guardas avançadas: todo um povo da Raça Bárbara estivera se movendo com suas carroças e gado e mulheres.

Buldar, pai de Hazad, estivera no exército do Rei do Norte (3) que fora enviado para Ishmalog (4), e ele trouxe como espólio de guerra um ferimento, uma espada e uma mulher. E ela era afortunada; pois o destino dos cativos era curto e cruel, e Buldar a tomou como esposa. Pois ela era bela e a tendo visto ele não desejava qualquer mulher de seu próprio povo. Ele era um homem de riqueza e poder naqueles tempos e fez como quis, escarnecendo o escárnio de seus vizinhos. Mas assim que sua esposa, Elmar, aprendeu o suficiente da fala de seu novo grupo um dia ela disse a Buldar: eu tenho muito que te agradecer, senhor; mas não penses que terás meu amor. Pois me tiraste de meu próprio povo e daquele que eu amava e do filho que eu dera a ele. A eles sempre sentirei falta e chorarei, e darei meu amor a mais ninguém. Nunca mais serei satisfeita enquanto for mantida cativa entre um povo estranho que eu vejo como baixo e desagradável.

‘Que assim seja’, disse Buldar. ‘Mas não deves pensar que eu deveria deixá-la livre. Pois és preciosa ao meu olhar. E considere bem: em vão é tentar escapar-me. Longo é o caminho até o restante de teu povo, se algum ainda está vivo; e não irias longe das Colinas de Agar e encontrarias a morte ou uma vida muito pior do que a aquela que terias em minha casa. Baixos e desagradáveis nos chamastes. Com razão, talvez. Mas verdade também é que vosso povo é cruel e sem lei e amigos de demônios. São ladrões. Pois nossas terras o são nossas desde há muito, as quais vocês nos arrancam com suas lâminas cruéis. Peles claras e olhos brilhantes não são desculpas para tais atos’.

‘Não são?’, disse ela. ‘Então também não o são pernas grossas e ombros largos. Ou por que meios ganhastes estas terras de que fala? Não existe, como escutei falarem, um povo selvagem em cavernas nas montanhas, que outrora correram livres por aqui, até que seu povo de pele escura veio e os caçou como lobos? Mas eu não falo de diretos, mas de tristeza e amor. Se eu preciso morar aqui, então morarei, como alguém cujo corpo está aqui à tua vontade, mas meu pensamento longe noutro lugar. E esta vingança eu terei: enquanto meu corpo for mantido aqui em exílio, o quinhão de todo este povo diminuirá e o teu mais do que todos; mas quando meu corpo for para dentro desta terra estrangeira e meu pensamento ficar livre dele, então entre os teus surgirá um que é apenas meu. E com seu surgimento chegará o fim do teu povo e a queda do teu rei’.

Após isto Elmar não falou mais nada sobre este assunto; e ela era de fato uma mulher de poucas palavras enquanto sua vida durou, exceto para seus filhos. Para eles falava muito quando ninguém estava perto e ela cantava para eles muitas canções em uma língua bela e estranha; mas eles não lhe davam atenção ou logo esqueciam. Exceto Hazad, o mais jovem; e embora ele fosse, assim como todos os outros filhos, diferentes em corpo, ele era o mais próximo em coração. As canções e a estranha língua ele também esqueceu quando cresceu, mas sua mãe ele nunca esqueceu; e ele se casou tarde, pois nenhuma mulher de seu povo lhe parecia desejável, ele que conhecera o que a beleza em uma mulher deveria ser (5).

Não que existissem muitas para cortejar, pois como Elmar falara, o povo de Agar diminuiu com os anos, devido a climas ruins e pestes, e mais do que todos foi atingido Buldar e seus filhos; e eles se tornaram pobres e outras famílias tomaram o poder deles.  Mas Hazad não sabia da previsão de sua mãe, e devido à sua memória amava Tal-elmar, e por isso assim o nomeara em seu nascimento.

Por acaso em uma manhã de primavera quando seus outros filhos partiram para o trabalho Hazar manteve Tal-elmar a seu lado, e andaram juntos e se sentaram sobre o verdejante topo da colina acima da cidade de seu povo; e eles olharam para o sul e oeste onde podiam ver ao longe a grande baía onde o Mar adentrava na terra, e brilhava como vidro cinzento. E os olhos de Hazad estavam ficando fracos com a idade, mas os de Tal-elmar eram aguçados e ele viu o que pensou ser três pássaros estranhos sobre as águas, brancos ao sol, e eles estavam deslizando com o vento oeste em direção a terra; e ele pensou no  porque eles ficam no o mar e não voavam.

‘Eu vejo três estranhos pássaros sobre a água, pai’, ele disse. ‘Não são como nenhum outro que eu tenha visto’.

‘Aguçados podem ser teus olhos jovens, meu filho’, disse Hazad, ‘mas pássaros na água não podes ver. Três léguas distantes daqui onde sentamos está o litoral mais próximo. O sol te confunde ou algum sonho está em ti’.

‘Não, o sol está atrás de mim’, disse Tal-elmar. ‘Eu vejo o que vejo. E se não são pássaros então o que são? Muito grandes devem ser, maiores do que os Cisnes de Gorbelgod (6), dos quais falam as lendas. E veja! Vejo agora outro vindo atrás, mas com menos clareza, pois suas asas são negras’.

Então Hazad ficou preocupado. ‘Um sonho está em você, como eu disse, meu filho’, ele respondeu; ‘mas um sonho ruim. Já não é a vida dura o suficiente aqui, que logo que a primavera veio e o inverno finalmente terminou, precisas trazer uma visão de um passado negro?’

‘Esquecestes, pai’, disse Tal-elmar, ‘que sou teu filho mais novo e enquanto ensinastes muitos conhecimentos às orelhas surdas de meus irmãos a mim destes menos de tua reserva. Não sei nada do que se passa em tua mente’.

‘Não conheces?’, disse Hazad, forçando a visão ao olhar para o Mar. ‘Sim, possivelmente já faz muito tempo que falei sobre isto; não é mais do que a sombra de um sonho no fundo de minha memória. Três povos temos como inimigos. Os homens selvagens das montanhas e florestas; mas a estes só quem vaga sozinho precisa temer. O Povo Bárbaro do Leste; e eles ainda estão bem longe e são o povo da minha mãe, embora eu não duvide de que eles não honrariam o parentesco se viessem aqui com suas espadas. E os Altos Homens do Mar. Estes, de fato, podemos temer como à Morte. Pois eles idolatram a Morte e assassinam homens cruelmente em honra à Escuridão. Do Mar eles vêm e se possuem alguma terra deles mesmos, antes de aportaram nos litorais do oeste, não sabemos onde pode ser. Lendas terríveis chegaram a nós dos litorais, norte e sul, onde ele há muito estabeleceram suas fortalezas negras e seus túmulos. Mas aqui eles não vêm desde os dias de meu pai, e então vinham apenas para pilhar e capturar homens e partiam. Este era a modo de agir deles. Eles chegavam em barcos, mas não barcos como alguns de nosso povo utilizam nos grandes rios ou lagos, para transporte ou pesca. Maiores do que grandes casas eram os barcos dos Go-hilleg, e eles mantinham espaços para homens e mercadorias, além de serem empurrados pelos ventos; pois os Homens-do-mar estendiam grandes tecidos como asas para pegar os ventos e os prendiam em postes altos como árvores da floresta. Então eles chegavam ao litoral, onde existisse proteção ou tão próximo quanto conseguissem; e então enviavam barcos menores carregados com mercadorias e coisas estranhas tão belas quanto úteis que nosso povo desejava. Estas coisas eles vendiam por um pequeno preço ou davam como presentes, fingindo amizade e piedade por nossas necessidades; e eles moravam por um tempo e espionavam a terra e o número do povo, e então partiam. E se não retornasse as pessoas deveriam ficar gratas. Pois se viessem novamente seria em outra forma. Vinham então em grande número: dois barcos ou mais, juntos, cheios de homens e não de mercadorias, e sempre um dos malditos navios possuía asas negras. Pois aquele é o Barco da Escuridão, e nele levavam embora a pilhagem maligna, cativos amontoados como bestas, as mais belas mulheres e crianças, ou homens jovens sem defeitos físicos, e este era o fim deles. Alguns dizem que eles eram utilizados como carne; outros que eles eram mortos com tormentos sobre pedras negras em idolatria à Escuridão. Talvez ambos estejam corretos. As horríveis asas dos Homens-do-Mar não foram vistas nestas águas por muitos anos; mas relembrando a sombra do medo no passado eu falei e falo de novo: já não é nossa vida dura o suficiente sem a visão de uma asa negra sobre o mar brilhante?’

‘Dura o bastante, de fato’, disse Tal-elmar, ‘ainda assim não tão dura que eu queira deixá-la ainda. Venha! Se o que você disse é real então devemos correr para a cidade e avisar os homens, e nos preparar-nos para fuga ou defesa’.
or for defence.’

‘Eu irei’, disse Hazad. ‘Mas não te espantes se os homens rirem de mim como se eu estivesse fora do meu juízo. Eles acreditam pouco em coisas que não tenham acontecido durante seus próprios dias. E tenha cuidado, caro filho! Eu corro pouco perigo, além de morrer de fome em uma cidade vazia, só com loucos e velhos. Mas tu estarias dentre os primeiro pegos pelo Barco Negro. Não te coloques na dianteira de nenhum apressado conselho de guerra’.

‘Veremos’, respondeu Tal-elmar. ‘Mas tu és minha principal preocupação nesta cidade, onde tenho e dou pouco amor. Não partirei de teu lado de boa vontade. Mesmo assim esta é a cidade de meu povo e nosso lar, e os aptos estão fadados a defendê-la, assim como eu’.

Então Hazad e seu filho desceram a colina e era meio-dia; e na cidade estavam poucas pessoas além das idosas e crianças, por todos os capazes estavam nos campos, ocupados com o árduo trabalho da primavera. Não havia vigia, pois as Colinas de Agar estavam distantes das fronteiras hostis onde o poder do Quarto Rei (7) terminava. O mestre da cidade sentava à porta de sua casa ao sol, dormindo ou placidamente observando os pequenos pássaros que juntavam pedaços de comida da lama seca e batida do lugar aberto no meio das casas.

‘Saudações! Mestre de Agar!’ disse Hazad, e curvou-se, mas o mestre, um homem gordo com olhos de lagarto, apenas piscou e não retornou o cumprimento.

‘Saudações ao trono, Mestre! E que por muito você possa continuar assim!’ disse Tal-elmar, e havia um brilho em seus olhos. ‘Não devemos perturbar seus pensamentos, ou seu sono, mas há novidades às quais, talvez, você deva dar atenção. Não há vigia posto, mas por acaso estávamos no topo da colina e vimos o mar ao longe e lá – aves de mau agouro sobre a água’.

‘Navios dos Go-hilleg’, disse Hazad, ‘com grandes tecidos-de-vento. Três brancos – e um negro’.

O mestre bocejou. ‘Quanto a tu, ancião de olhos cansados’, ele disse, ‘não podes diferenciar o mar de uma nuvem. E quanto a este rapaz folgado, o que sabe ele de barcos ou tecidos-de-vento, ou todo o resto, exceto por teus loucos ensinamentos? Vá aos quebradores de pedra nômades (8) com suas histórias de bruxa sobre os Go-hilleg e não me incomode mais com tais tolices. Tenho outros assuntos de mais peso a ponderar’.

Hazad engoliu sua fúria, pois o Mestre era poderoso e não gostava dele; mas a ira de Tal-elmar era fria. ‘Os pensamentos de alguém com tão grandes necessidades devem ser pesados’, disse ele suavemente, ‘embora eu não saiba que pensamento de mais peso poderia interromper seu repouso do que o cuidado com sua própria carcaça. Ele será um mestre sem povo, ou um saco de ossos na colina, se zombar da sabedoria de Hazad filho de Buldar. Olhos cansados podem ver mais do que aqueles fechados pelo sono’.

A obesa face de Mogru o Mestre escureceu e seus olhos ficaram injetados de sangue pela raiva. Ele odiava Tal-elmar, embora nunca antes o jovem tivera lhe dado razão, exceto que não demonstrava medo em sua presença. Agora ele deveria pagar por isso e por sua recém-descoberta insolência. Mogru bateu palmas, mas ainda enquanto o fazia lembrou que não havia ninguém próximo que ousaria se atracar com o jovem, não, nem mesmo três juntos; e ao mesmo tempo ele viu o brilho dos olhos de Tal-elmar. Ele empalideceu, e as palavras que ele estava prestes a falar, ‘Filho de escrava e seu moleque’, morreu em seus lábios. ‘Hazad uBuldar, Tal-elmar uHazad, desta  cidade, não fale assim com o mestre de seu povo’, ele disse. ‘Um posto de vigia foi criado, embora tu que não tens o governo da cidade possas não saber. Aguardarei até ter um relato dos vigias, nos quais confio, que algo de ruim foi visto. Mas se estás tão ansioso vá aos campos e chame os homens’.

Tal-elmar observou-o cuidadosamente enquanto ele falava e leu claramente seus pensamentos. ‘Agora devo esperar que meu pai não tenha se enganado’, ele disse em seu coração, ‘pois menos perigo a batalha me trará do que o ódio de Mogru deste dia em diante. Um posto de vigia! Sim, mas apenas para espionar as indas e vindas do povo da cidade. E no momento em que eu for aos campos um corredor irá reunir seus servos e homens com porretes. Causei um mal a meu pai nesta hora. Bem! Aquele que começou com a pá deve empunhá-la até terminar o canteiro’. Sua fala, portanto continuou com raiva e escárnio. ‘Vá aos quebradores de pedra você mesmo’, ele disse, ‘pois você está acostumado a usar aquele povo matreiro, e prestar atenção aos seus contos quando te servem. Mas meu pai você não escorneará enquanto eu estiver por perto. Podemos muito bem estar em perigo. Portanto você deverá vir conosco ao topo da colina, e ver com seus próprios olhos. E se você não vir nada que justifique, você deverá chamar seus homens para a colina-dos-Debates. Eu serei seu mensageiro’.

E Mogru também observava a face de Tal-elmar pela fenda de suas pálpebras enquanto este falava, e considerou que não estaria sob risco de violência se cedesse dessa vez. Mas seu coração estava repleto de veneno; e não o irritava pouco o esforço de subir a colina. Lentamente ele se pôs de pé.

‘Eu irei’, ele disse. ‘Mas se meu tempo e esforço forem desperdiçados, eu não perdoarei. Auxilie meus passos; jovem, pois meus servos estão nos campos’. E ele tomou o braço de Tal-elmar e se apoiou pesadamente sobre ele.

‘Meu pai é o mais ancião,’ disse Tal-elmar; ‘e o caminho não é curto. Deixe que o Mestre lidere, e nós seguiremos. Aqui está teu bastão!’. E soltou-se do aperto de Mogru, e deu a este seu bastão o qual estava à porta de sua casa; e tomando o braço de seu pai ele aguardou até o Mestre estar preparado. De soslaio e escuro foi o olhar dos olhos-de-lagarto, mas o brilho dos olhos de Tal-elmar que eles vislumbraram feria como uma agulha. Há muito que as pernas obesas de Mogru não desenvolviam tal velocidade entre a casa e o portão; e mais tempo ainda que não carregaram sua barriga pela subida escorregadia da colina além do dique. Ele estava respirando pesadamente e bufando como um cachorro velho, quando chegaram ao topo.

Então novamente Tal-elmar olhou ao longe; mas o imenso e distante mar estava agora vazio, e ele ficou em silêncio. Mogru limpou o suor de seus olhos e seguir seu olhar.

‘Por que razão, pergunto, tiraste o Mestre da cidade de sua casa e o trouxeste a este lugar?’, ele rosnou. ‘O mar permanece onde deveria estar, e vazio. O que dizes?’

‘Tenha paciência e olhe mais perto’, disse Tal-elmar. Para o oeste as colinas bloqueiam a visão de tudo, exceto do mar mais distante; mas se elevando até o largo topo da Colina Dourada eles desciam repentinamente, e em uma abertura profunda um relance da grande baía e das águas próximas a seu litoral norte podia ser visto. ‘O tempo passou desde que estivemos aqui, e o vento está forte’, disse Tal-elmar. ‘Eles chegaram mais perto’. Ele apontou. ‘Lá você verá suas asas, ou seus tecidos-de-vento, chame-os como quiser. Mas qual é seu conselho? E não é um assunto que o Mestre deveria ver com seus próprios olhos?’

Mogru olhou, e bufou, agora tanto pelo medo quanto pelo trabalho de subir a colina, pois mesmo arrogante como parecia ele tinha ouvido muitas lendas terríveis sobre os Go-hilled das anciãs, em sua juventude. Mas seu coração era matreiro e negro pela ira. Olhou de soslaio primeiro para Hazad, e então para seu filho; e lambeu os lábios, mas não deixou que seu sorriso fosse visto.

‘Você pediu para ser meu mensageiro’, ele disse, ‘e assim serás. Vá agora com rapidez e convoque os homens para a colina-dos-Debates! Mas isto não encerrará tua missão’, acrescentou enquanto Tal-elmar se preparava para correr. ‘Direto dos campos deverás ir com toda velocidade para a Praia. Pois ali os barcos, se barcos são, provavelmente irão parar, e os homens desembarcarão. Deverás obter notícias e espionar bem quem desembarcar. Não voltes a não ser que tenhas novidades que auxiliarão em nossos conselhos. Vás e não te poupes! Comando-te. É tempo de perigo para a cidade’.

Hazad pareceu pronto a protestar; mas baixou a cabeça, e não disse nada, sabendo ser em vão. Tal-elmar parou por um momento, observando Mogru, como alguém olharia uma cobra no caminho. Mas ele percebeu que a esperteza do Mestre fora maior que a sua. Ele armara sua própria armadilha, e Mogru a utilizou. Ele declarou tempo de perigo para a cidade, e tinha o direito de ordenar qualquer serviço. Seria morte desobedecê-lo. E mesmo que Tal-elmar não tivesse se nomeado mensageiro (tentando evitar que qualquer palavra secreta passasse aos servos do mestre), ele diria que a escolha foi justa. Um batedor deveria ser enviado, e quem melhor do que um jovem forte e corajoso, de pés rápidos? Mas também havia malícia na missão, uma malícia negra, de qualquer forma. O defensor de Hazad deveria partir. Não havia esperança em seus irmãos: tolos fortes, mas sem coração para desafiar, exceto a seu velho pai. E era provável que ele não retornasse. O perigo era grande.

Mais uma vez Tal-elmar olhou para o Mestre, e então para seu pai, e então vislumbrou o bastão de Mogru. O brilho estava em seus olhos, e em seu coração o desejo de matar. Mogru percebeu e recuou com medo.

‘Vá, vá!’ ele gritou. ‘Eu já te ordenei. És mais rápido em gritar lobo do que em começar a caçada. Vá de uma vez!’.

‘Vá, meu filho!’, disse Hazad. ‘Não desafie o Mestre. Não onde ele tem a razão. Pois então desafiarias toda a cidade, e estaria acima do teu poder. E fosse eu o Mestre, eu te escolheria, mesmo me sendo querido; pois tens mais coração e sorte do que qualquer um deste povo. Mas retorne, e não deixe o Barco Negro tê-lo. Não seja corajoso demais! Pois melhores serão más notícias trazidas por ti, vivo, do que pelos Homens-do-Mar sem aviso’.

Tal-elmar se curvou e fez o sinal de submissão para seu pai, mas não para o Mestre, e se afastou dois passos. E então se virou. ‘Ouça, Mogru, a quem um povo inferior em sua tolice nomeou mestre’, ele disse. ‘Talvez eu retorne, contra tuas expectativas. Meu pai eu deixo em teu cuidado. Se eu retornar, seja com uma palavra de paz, seja com o inimigo em meu encalço, então teu tempo como mestre estará encerrado, e tua vida também, se eu descobrir que ele sofreu algum mal ou desonra que poderias ter evitado. Teus homens-de-faca e portadores-de-porretes não te ajudarão. Eu apertarei teu pescoço gordo com minhas mãos vazias, se precisar; ou te caçarei através dos ermos até as poços escuros’.  Então um novo pensamento o acossou e ele se dirigiu ao Mestre, e pegou seu bastão.

Mogru se encolheu, e estendeu um braço gordo, como para se defender de um golpe. ‘Está louco hoje’, coaxou. ‘Não cometas violência contra mim ou a pagarás com tua morte. Não ouviste as palavras de teu pai?’

‘Eu ouvi, e eu obedeço’, disse Tal-elmar. ‘Mas a primeira missão é para os homens, e há necessidade de rapidez. Pouca honra tenho entre eles, pois sabem bem que escarneces de nós. Que atenção prestarão, se os bastardos da Escrava, como nos nomeais quando não estou perto, chegar (9) gritando convocações para a colina-dos-Debates em teu nome e sem prova. Teu bastão servirá. É bem conhecido. Não, não irei bater-te com ele ainda!’

Com isso ele então pegou o bastão das mãos de Mogru e desceu correndo a colina, seu coração ainda quente demais com a ira para pensar no que estaria à sua frente. Mas quando ele convocou os homens nas terras inclinadas do sul e agitou o bastão entre deles, aconselhando que se apressassem, correu para o pé da colina, e além dos grandes gramados, e então chegou ao primeiro caminho estreito das florestas. Escuro ele se estendia ante ele no vale entre Agar e as colinas do litoral.

Ainda era manhã, mais de uma hora antes do meio-dia, mas quando ele chegou embaixo das árvores parou e começou a pensar, e percebeu que estava perturbado de medo. Raramente ele vagava longe das colinas de sua casa, e nunca sozinho, nem muito longe na floresta. Pois todo o seu povo temia a floresta (10).

Aqui o trecho datilografado é interrompido, não ao pé da página, e o manuscrito ‘Continuação de Tal-Elmar’ (como o nome agora é escrito) começa.

É rápido para os olhos viajarem até litoral, mas lento para os pés; e a distância era maior do que parecia. A floresta estava escura e desconfortável, pois ali ficavam águas estagnadas entre as colinas de Agar e as colinas do litoral; e muitas cobras viviam ali. Era silenciosa também, pois embora fosse primavera poucos pássaros construíam ninhos ali ou mesmo pousavam ao passarem em busca de terras mais abertas perto do mar. Também moravam na floresta espíritos escuros que odiavam homens, ou pelo menos assim diziam as lendas do povo. Sobre cobras e pântano e demônios da floresta Tal-Elmar pensava parado sob a sombra; mas precisou pensar pouco para chegar à conclusão que todos os três eram menos perigosos do que retornar, com uma desculpa mentirosa ou sem nenhuma, para a cidade e seu mestre.Então, talvez auxiliado um pouco por seu orgulho, ele seguiu em frente. E o pensamento veio a ele sob a sombra enquanto procurava por um caminho através do pântano e do emaranhado da floresta: O que eu sei, ou qualquer um de meu povo, mesmo meu pai, desses Go-hilleg dos barcos alados? Pode muito bem ser que eu que sou um estrangeiro entre meu próprio povo ache-os mais agradáveis que Mogru e todos os outros como ele.Com este pensamento crescendo nele, ele se sentiu mais como um homem que vai cumprimentar amigos e parentes do que alguém que se esgueira para espiar um inimigo poderoso, ele passou incólume pela floresta das sombras, e chegou às colinas do litoral, e começou a subir. Ele escolheu uma colina, pois os emaranhados da floresta acompanhavam sua encosta e o topo estava coroado com um grupo denso de árvores baixas. A este esconderijo ele foi e se achegando à borda da colina ele olhou para baixo. Havia lhe tomado um longo tempo, pois sua caminhada havia sido lenta, e agora o sol havia passado do meio e estava descendo em direção ao Mar. Ele estava faminto, mas a isto deu pouca atenção, pois estava acostumado à fome, e poderia suportar os trabalhos de um dia inteiro sem comer, quando precisava. A colina era baixa, mas descia acentuadamente até a água. Ante seus pés estavam terras verdejantes terminando em um trecho de cascalho, além dos quais as águas do estuário brilhavam sob o sol que se punha.Em meio à correnteza e além da parte mais rasa três grandes navios – embora Tal-Elmar não tivesse tal palavra em sua língua para nomeá-los – estavam parados imóveis. Estavam ancorados e com as velas abaixadas. Do quarto, o navio negro, não havia sinal. Mas no gramado próximo à pequena praia de cascalhos havia tendas e pequenos barcos. Homens altos estavam parados ou andando entre eles. Além, nos ‘grandes barcos’ Tal-Elmar podia ver [?outros] em vigia; de quando em quando ele vislumbrava um brilho quando uma arma ou armadura se movia no sol. Ele tremeu, pois os contos das ‘lâminas’ dos Homens Cruéis eram familiares à sua infância.

Tal-Elmar observou por longo tempo, e lentamente ele se deu conta do quão sem esperança era sua missão. Ele poderia olhar até que a luz do dia acabasse, mas ele não poderia contar com precisão suficiente para qualquer uso o número de homens que estavam lá; nem podia descobrir seus propósitos ou seus planos. Mesmo se ele tivesse tanto a coragem quanto a sorte de passar pelos guardas ele não poderia fazer nada de útil, pois ele não entenderia uma palavra sequer do idioma deles.

Ele se lembrou de repente – outro dos esquemas de Mogru para se livrar dele, como ele percebia agora, embora à época ele achasse uma honra – como apenas um ano atrás, quando a minguante vila de Agar foi ameaçada por invasores da vila de Udul distante no interior (11), e todos os homens temiam que um ataque ocorresse, pois Agar era mais seca, mais saudável e estava em local mais defensável (ou assim pensavam os homens da cidade). Então Tal-Elmar foi escolhido para ir e espionar a terra de Udul, por ‘ser jovem, corajoso e conhecer melhor o mundo ao redor’. Assim disse Mogru, verdadeiramente, pois o povo da cidade de Agar era tímido e raramente ia muito longe no campo, nunca se arriscando a ser pego pelo escurecer fora de suas casas.  Enquanto que Tal-Elmar freqüentemente, se tivesse a chance ou nenhum trabalho o exigisse (ou mesmo que o fizesse, algumas vezes), andava longe pelo campo, e embora (sendo assim ensinado desde a infância) temesse o escuro, ele mais de uma vez havia passado a noite longe da cidade, e era conhecido até mesmo por ir à colina de vigia sozinho sob as estrelas.

Mas rastejar dentro dos campos inamistosos de Udul durante a noite era uma coisa diferente e muito pior. Mesmo assim ele ousou fazê-lo. E ele chegou tão perto de umas das cabanas dos vigias que pode ouvir os homens dentro conversando – em vão. Ele não podia entender o sentido de suas palavras. O tom parecia cheio de pesar e cheio de medo (12) (como eram as vozes dos homens à noite no mundo que ele conhecia), e umas poucas palavras ele pareceu reconhecer, mas não o suficiente para compreender. E o povo de Udul eram seus vizinhos mais próximos – de fato, embora Tal-Elmar e seu povo tenham esquecido, e eles tinham esquecido tantas coisas, seus parentes próximos, parte do mesmo povo em anos passados e melhores. Que esperança então havia dele reconhecer qualquer simples palavra, ou mesmo interpretar corretamente as entonações, da língua de um povo estrangeiro separado do dele desde o começo do mundo? Estrangeiro de seu próprio? Meu próprio? Mas eles não eram meu povo. Apenas meu pai. E de novo ele teve a estranha sensação, vinda não sabia de onde para este jovem rapaz, nascido e criado em meio a um povo meio-selvagem e declinante: o sentimento de que ele não estava indo encontrar estrangeiros, mas parentes de longe e amigos.

Ainda assim ele era também um menino de sua vila. Ele estava com medo, e demorou muito até se mover. Finalmente ele olhou para cima. O sol à sua direita estava agora se pondo. Entre dois galhos de árvore ele vislumbrou um pedaço de mar enquanto o grande fogo redondo, avermelhado com a leve névoa marinha, ficou à altura de seus olhos, e as águas estavam pintadas de um flamejante dourado.

Ele já havia visto o sol se pôr no mar, mas nunca desse modo. Ele soube em um piscar (como se viesse daquele fogo) que havia visto desta forma, [? ele fora chamado] (13), que isto significava mais do que a chegada da ‘hora do Rei’, o escuro (14). Ele se levantou e como se levado ou impulsionado andou abertamente colina abaixo e cruzou o longo gramado em direção ao cascalho e às tendas.

Pudesse ele ver a si mesmo ficaria tão surpreso quanto aqueles que o viam da praia. Sua pela nua – pois ele usava apenas um pedaço de tecido ao redor da cintura, e um pequeno manto de … pele jogado para trás e preso com uma tira de couro aos seus ombros – brilhava dourada sob a luz [?do pôr do sol], seu cabelo claro também estava iluminado e seus passos eram leves e livres.

‘Olhe!’ gritou um dos vigias para seu companheiro. ‘Você vê o que vejo? Não é um dos Eldar das florestas que vem falar conosco?’

‘Eu vejo, de fato’, disse o outro, ‘mas se não é algum fantasma da borda da escuridão [?que está chegando] [?nesta terra amaldiçoada] um dos Belos ele não pode ser. Estamos muito ao sul e nenhum mora por aqui. Seria de fato se estivéssemos [?longe ao norte, perto dos Portos]‘.

‘Quem conhece todos os modos de agir dos Eldar?’, disse o vigia. ‘Silêncio agora! Ele se aproxima. Deixe-o falar primeiro’.

Então eles ficaram parados, e não fizeram nenhum sinal enquanto Tal-Elmar se aproximava. Quando ele estava a uns vinte passos seu medo retornou e ele parou, deixando seus braços caírem à sua frente e abrindo as palmas em direção aos estranhos em um gesto que todos os homens poderiam compreender.

Então, como eles não se moviam, nem colocavam as mãos em nenhuma arma até onde ele podia ver, ele tomou coragem novamente e falou, dizendo: ‘Saudações, Homens do mar e das asas! Por que vieram aqui? Vieram em paz? Eu sou Tal-Elmar uHazad do povo de Agar. Quem são vocês?’

Sua voz era clara e bela, mas a língua que ele usou não era outra senão uma forma do idioma semi-selvagem dos Homens da Escuridão, como os Homens do Navio os chamavam. O vigia se moveu. ‘Elda!’, ele disse. ‘Os Eldar não usam tal língua’. Ele chamou e imediatamente homens saíram de suas tendas. Ele próprio sacou uma espada, enquanto seu companheiro preparava uma flecha no arco. Antes mesmo que Tal-Elmar pudesse se sentir aterrorizado, antes mesmo de se virar e correr – felizmente, pois ele não sabia nada sobre arcos e teria caído muito antes de escapar, acertado por uma flecha – ele estava cercado por homens armados. Eles o pegaram, mas não com maus tratos, quando o viram desarmado e submisso, e o levaram à tenda onde estava alguém com autoridade.

Tal-Elmar sentia que o idioma era conhecido e apenas oculto dele por um véu.

O capitão disse que Tal-Elmar deveria ser de raça Numenoriana ou de um povo aparentado a eles. Ele deveria ser trado com cortesia. Ele supunha que ele havia sido feito cativo ainda bebê ou nascido de cativos. ‘Ele está tentando fugir para nós’, ele disse.

‘Uma pena ele não lembrar nada da língua’. ‘Ele aprenderá’. ‘Talvez, mas depois de um longo tempo. Se ele a falasse agora, ele poderia nos dizer muito, o que aceleraria nossa missão e reduziria nosso perigo’.

Então finalmente fizeram Tal-Elmar entender seu desejo de saber quantos homens moravam perto; eram eles amigáveis, eram como ele era?

O objetivo dos Numenorianos era ocupar esta terra, e em aliança com os ‘Cruéis’ do Norte expulsar o Povo da Escuridão e fazer um acampamento para ameaçar o Rei. (Ou isto seria enquanto Sauron estava ausente em Númenor?)

Este lugar era no estuário de Isen? ou Morthond.

Tal-Elmar podia contar e entendia números grandes, embora sua linguagem fosse deficiente.

Ou ele entendia Numenoriano? [Adicionado posteriormente: Eldarin - estes eram os amigos-dos-Elfos.] Ele disse quando ouviu um homem falar ao outro: ‘É estranho que vocês falem a língua dos meus longos sonhos. E certamente agora estou em minha terra e não dormindo?’ Então eles se assombraram e disseram: ‘Por que você não falou conosco antes? Você falou como os povos da Escuridão que são nossos inimigos, sendo servos do Inimigo’. E Tal-Elmar respondeu: ‘Porque esta língua só retornou à minha mente ouvindo-o falá-la; e como eu poderia saber que você entenderia a linguagem dos meus sonhos? Você não é como aqueles que falam comigo em meus sonhos. Não, um pouco parecido; mas eles eram mais brilhantes e mais belos’.

Então o homem ficou ainda mais impressionado, e disse: ‘Parece que você falou com os Eldar, acordado ou em uma visão.’

‘Quem são os Eldar?’ disse Tal-Elmar. ‘Esse nome eu não ouvi em meu sonho’.

‘Se você vier conosco talvez possa vê-los’.

Então de repente medo e a lembrança de antigas lendas vieram a Tal-Elmar novamente, e ele recuou. ‘O que farão comigo?’, ele disse. ‘Vão me atrair ao barco de asas negras e entregar-me à Escuridão?’

‘Você ou ao menos seu povo já pertencem à Escuridão’, responderam. ‘Mas porque você fala assim das velas negras? As velas negras são para nós um sinal de honra, pois são a bela noite antes da vinda do Inimigo e sobre o negro estão colocadas as estrelas prateadas de Elbereth. As velas negras de nosso capitão foram adiante na água’.

Tal-Elmar continuou com medo, pois ainda não era capaz de imaginar o negro como qualquer coisa a não ser símbolo da noite de medo. Mas ele pareceu tão corajoso quando pôde e respondeu: ‘Nem todo meu povo. Nós tememos a Escuridão, mas não a amamos nem a servimos. Ao menos alguns de nós. Assim é com meu pai. E a ele eu amo. Eu não serei separado dele nem mesmo para ver os Eldar’.

‘Pena!’, eles disseram. ‘Seu tempo de moradia nessas colinas está chegando ao fim. Aqui os homens do Oeste decidiram fazer suas moradas, e o povo da escuridão deve partir – ou ser morto’.

Tal-Elmar oferece-se como refém.

Não há mais. Ao pé da página meu pai escreveu ‘Tal-Elmar’ duas vezes, e seu próprio nome duas vezes; e também ‘Tal-Elmar em Rhovanion’, ‘Terras Ermas’, ‘Anduin o Grande Rio’, ‘Mar de Rhun’ e ‘Pântano de Etten’.

NOTAS.

1. Na versão rejeitada da seção inicial do texto a história começa: ‘Nos dias dos Grandes Reis quando um homem podia andar sem molhar os pés de Roma até York (não que estas cidades tivessem sido construídas ou imaginadas) morava na cidade de seu povo nas colinas de Agar um velho homem, de nome Tal-argan Barbalonga’, e Tal-argan permaneceu o nome sem correção na página rejeitada. A segunda versão manteve ‘os Grandes Reis’, a mudança para ‘os Reis da Escuridão’ sendo feita mais tarde.

2. Este parágrafo mais tarde foi colocado entre colchetes.

3. Ambas as versões têm ‘o Quarto Rei’, alterada na segunda para ‘o Rei do Norte’ ao mesmo tempo em que ‘os Grandes Reis’ foi alterado para ‘os Reis da Escuridão’ (nota 1).

4. Na versão rejeitada o pai de Tal-argan (Hazad) era chamado Tal-Bulda, e o local da batalha era o vale de Rishmalog.

5. Neste ponto a primeira página rejeitada termina, e o texto se torna a composição principal. Uma nota rascunhada a lápis no topo da página substituta propõe que Buldar pai de Hazad fosse eliminado, e que o próprio Hazad tenha casado com a mulher estrangeira Elmar (que não é nomeada na versão rejeitada).

6. O nome datilografado era Dur nor-Belgoth, corrigido para Gorbelgod.

7. ‘o Quarto Rei’, não foi corrigido aqui: ver nota 3.

8. No original ‘knappers’:  um  ‘knapper’  era alguém que quebrava pedras ou rochas. Esta palavra substituiu ‘tinker’ (algo como cigano), aqui e na próxima ocorrência.

9. Eu deixei o texto aqui como ele é.

10. Uma nota marginal aqui diz que Tal-elmar não tinha ‘nenhuma arma além de pedras de arremesso em um saco’.

11. O texto como escrito tinha ‘distante no interior, e todos os homens temiam’, corrigido para ‘distante no interior. Todos os homens temiam’. Eu alterei o texto para propiciar uma sentença completa, mas meu pai (que estava escrevendo com grande rapidez) sem dúvida não pretendia isso, e teria reescrito o trecho  se alguma vez tivesse retornado a ele.

12. Na margem meu pai escreveu que a vila de Udul estava morrendo de peste, e os invasores estavam de fato desesperadamente procurando por comida.

13. A conclusão do texto está em certos trechos em um manuscrito excruciantemente difícil, e as palavras que eu dei como ‘ele foi chamado’ são dúbias: mas eu não consigo imaginar outra interpretação delas.

14. Contra as palavras ‘nunca ousando ser pegos pelo escuro fora de suas casas’ meu pai escreveu: ‘a Escuridão é “a hora do Rei” ‘. Como pode ser visto em passagens seguintes, o Rei é Sauron.

Dos Anões e Homens

Importante texto da série HoME que trata dos Anões, seus clãs, suas alinças com os Homens e também relata sbre os Homens do Norte.
[Christopher Tolkien:Este longo ensaio não possui título, mas em uma página de rosto meu pai escreveu:

"Uma história e comentário extenso sobre a inter-relação das linguagens em O Silmarillion e em O Senhor dos Anéis, originadas de considerações sobre o Livro de Mazarbul, mas tentando clarificar e onde necessário corrigir ou explicar as referências a tais assuntos espalhadaos por O Senhor dos Anéis, especialmente no Apêndice F e na Fala de Faramir no SdA II"

´Fala de Faramir´ é uma referência à conclusão do capítulo A Janelasobre o oeste no As Duas Torres. Para um vago resumo do ensaio ele deu o título Anões e Homens, o qual adotei.

O texto começa manuscrito mas após três páginas e meia torna-se datilografado até sua conclusão (28 páginas ao todo). Ele foi escrito em papéis timbrados fornecidos pela Allen and Unwin, nos quais a última data é Setembro 1969. Uma parte do trabalho foi impressa no Contos Inacabados, Parte Quatro, Seção I, Os Drúedain, mas de outra forma pouco uso foi feito dele naquele livro. Infelizmente a primeira página do texto foi perdida (e já estava faltando quando recebi os papéis de meu pai) e inicia-se no meio de uma frase de um trecho discutindo o conhecimento da Língua Comum.

Em relação à primeira parte do ensaio, que se refere aos Anões Barbalonga, achei que seria útil primeiramente citar o que é dito sobre os Anões nas duas principais fontes anteriores. O texto a seguir é encontrado no capítulo Sobre os Anões do Quenta Silmarillion, como revisado e aumentado em 1951:

A língua-mãe dos Anões foi criada pelo próprio Aulë e suas línguas não tinham parentesco com aquelas dos Quendi. Os Anões não ensinavam de boa vontade suas língua para aqueles de outra raça; e no uso da mesma a tornaram dura e intrincada, assim daqueles poucos que foram recebidos plenamente em amizade poucos a aprenderam bem. Mas eles próprios aprendiam rapidamente outras línguas e em conversações eles podem usar as línguas dos Elfos e Homens com os quais negociam. Mas apenas em segredo eles utilizam sua própria fala e ela (como é dito) muda lentamente, dessa forma mesmo os reinos e casas que há muito se distanciaram podem se entender bem umas às outras. Nos dias antigos os Naugrim habitavam muitas montanhas da Terra-média e lá conheceram os Homens mortais (dizem eles) muito antes dos Eldar; por isso muitas das línguas dos Orientais mostram parenteco com a fala dos Anões ao invés de com a fala dos Elfos.

O segundo trecho é do Apêndice F, Anões.

Na Terceira Era, contudo, ainda se encontrava em muitos lugares uma profunda amizade entre Homens e Anões; e era compatível com a natureza dos Anões o fato de, viajando, trabalhando e comerciando pelas terras afora, como fizeram depois da destruição de suas antigas mansões, usarem as línguas dos homens entre os quais habitavam. Em segredo, porém (um segredo que, ao contrário dos Elfos, não revelavam voluntariamente, nem aos seus amigos), usavam sua estranha língua, pouco mudada pelos anos; pois tornara-se uma língua de tradição, e não de berço, e eles a cultivavam e guardavam como um tesouro do passado. Poucos membros de outras raças conseguiram aprendê-la. Nesta história ela aparece somente como topônimos que Gimli revelou aos companheiros e no seu grito de batalha no cerco do Forte da Trombeta. Esse, pelo menos, não era secreto, e foi ouvido em muitos campos desde que o mundo era jovem. Baruk Khazâd! Khazâd aimênu!" Machado dos Anões! os Anões estão sobre vós!"

O próprio nome de Gimli, porém, eos nomes de toda a sua gente, são de origem setentrional (Humana). Seus nomessecretos e "interiores", seus nomes verdadeiros, jamais foram revelados pelos Anões a quem fosse de raça alheia. Nem mesmo em seus túmulos eles os inscrevem.

Aqui segue o texto do ensaio que eu chamei Dos Anões e Homens.]

…apenas ao falar com outros de diferentes raças e línguas, a divergência poderia ser grande, e a intercomunicação imperfeita [1]. Mas este nem sempre era o caso: dependia da história dos povos relacionados e suas relações com os reinos Numenorianos. Por exemplo, entre os Rohirrim existiam muitos poucos que não compreendiam a Língua Comum e a maioria era capaz de falá-la bastante bem. A casa real, e sem dúvida muitas outras famílias, falavam-na (e escreviam-na) correta e familiarmente. Era de fato a língua nativa do Rei Théoden: ele nasceu em Gondor e seu pai Thengel utilizava a Língua Comum em sua própria casa mesmo após seu retorno a Rohan [2]. Os Eldar usavam-na com o cuidado e perícia que aplicavam a todos os assuntos lingüísticos, e sendo longevos e de longa memória eles tendiam, especialmente quando falavam formalmente ou sobre assuntos importantes, usar uma linguagem de certa forma arcaica [3].

Os Anões eram, de muitas maneiras, um caso especial. Eles tinham uma antiga língua própria da qual se orgulhavam bastante; e mesmo quando, como entre os Anões Barbalonga do Oeste, cessou de ser sua língua nativa e tornou-se uma “língua de livro”, foi cuidadosamente preservada e ensinada a todas as suas crianças bastante cedo. Servia, portanto, como lingua franca entre todos os Anões de todos os tipos; mas também era a língua escrita utilizada em todas as histórias e conhecimentos importantes, e no registro de todos os assuntos que não tinham intenção de serem lidos por outros povos. Este Khuzdul (como eles a chamavam), parcialmente devido à sua própria secritude natural, parcialmente por sua dificuldade inerente [4], raramente era aprendida por aqueles de outra raça.

Os Anões não eram, contudo, lingüístas hábeis – em muitos aspectos eles não era adapatáveis – e falavam com um notável sotaque anão. Eles também nunca inventaram nenhuma forma de escrita alfabética [5]. Eles, contudo, rapidamente reconheceram a utilidade dos sistemas Élficos, quando eles finalmente se tornaram suficientemente amigos com qualquer Eldar para aprendê-los. Isto ocorreu principalmente na convivência próxima de Eregion e Moria na Segunda Era. Em Eregion não apenas a Escrita Feanoriana, que há muito tornara-se um modo de escrita utilizado comumente (com várias adaptações) entre todos os povos ”alfabetizados” em contato com as colônias Numenorianas [6], mas também o antigo alfabeto “rúnico” de Daeron elaborado[> usado] pelos Sindar era conhecido e utilizado. Isto se devia, sem dúvida, à influência de Celebrimbor, um Sinda que se dizia descendente de Daeron [7]. Em todo caso, mesmo em Eregion as Runas eram principalmente um “assunto de sabedoria” e raramente utilizadas informalmente. Elas, contudo, capturaram a maneira dos Anões; pois embora os Anões ainda morassem em seus próprios reinos populosos, como Moria, e saíssem em viagens apenas para visitar seus parentes, eles tinham pouco contato com outros povos exceto seus vizinhos imediatos, e necessitavam escrever muito pouco; embora fossem orgulhosos das inscrições, de todos os tipos, feitas em pedra. Para tais propósitos as Runas era convenientes, sendo originalmente utilizadas para tal.

Os Anões Barbalonga adotaram as Runas, modificando-as para seus próprios usos (especialmente a escrita do Khuzdul); e eles aderiram a ela mesmo ao final da Terceira Era, quando estavam esquecidas pelos demais exceto os mestres da sabedoria dos Elfos e Homens. De fato, era geralmente suposto pelos não estudados que ela haviam sido inventadas pelos Anões, e eram amplamente conhecidas como “letras dos Anões” [8].

Aqui estamos interessados apenas na Língua Comum. A Língua Comum, quando escrita de alguma forma, em seu início era expressa através da Escrita Feanoriana [9]. Apenas ocasionalmente e escritas não feitas com caneta ou pincel alguns Elfos de descendência Sindarin usavam as Runas de Daeron. Os Anões originalmente aprenderam a Língua Comum de ouvido o melhor que puderam e não tiveram oportunidade de escrevê-la; mas na Terceira Era foram obrigados, devido ao comércio e outros assuntos com Homens e Elfos, a aprender a ler a Língua Comum escrita e muitos acharam conveniente aprender a escrevê-la de acordo com os costumes gerais do Oeste. Mas eles apenas o faziam nos assuntos com outros povos. Para seus próprios propósitos (como dito) eles preferiam as Runas e aderiam a elas.

Portanto em documentos tais como o Livro de Mazarbul – não “secreto” mas direcionado principalmente a Anões, e provavelmente mais tarde tendo como intenção fornecer material para crônicas [10] – eles usavam as Runas. Mas a escrita estava misturada e irregular. Em geral e por intenção básica era uma transcrição da escrita corrente da Língua Comum em Runas; mas esta era freqüentemente “incorreta”, devido à rapidez e conhecimento imperfeito dos Anões; e isto misturado com os numerosos casos de palavras escritas foneticamente (de acordo com a pronúncia dos Anões) – por exemplo, letras que na pronúncia coloquial do final da Terceira Era cessaram de ter qualquer função eram algumas vezes omitidas [11].

Na preparação de um exemplo do Livro de Mazarbul, e fazendo três páginas rasgadas e parcialmente ilegíveis [12], eu segui o princípio geral mantido no todo: a Língua Comum era representada como o inglês de hoje, formal ou coloquial conforme o caso exigia. Consequentemente o texto foi feito na língua inglesa atual, modificada para parecer que os escritores estavam com pressa e tinham um conhecimento imperfeito da forma escrita e que estavam, também, (na primeira e terceira páginas) transliterando o inglês em um alfabeto diferente – um que, por exemplo, não empregasse qualquer letra em mais de um valor distinto, por isso a distribuição do inglês k,c – c,s foi reduzido a k – s; enquanto que o uso de s e z é variável uma vez que o inglês usa s frequentementem como se fosse z. Adicionalmente alguns documentos deste tipo quase sempre mostravam o uso de letras ou emformas peculiares ou nunca encontradas em outros lugares, algumas poucas das quais também foram acrescentadas: como os símbolos para os pares ingleses de vogais ea, oa, ou (sem relação aos seus sons).

Ficou bastante bom, e talvez dê alguma noção do tipo de texto que Gandalf tentava ler muito rapidamente na Câmara de Mazarbul. Também está de acordo com o tratamento geral das línguas em O Senhor dos Anéis: apenas as formas atuais dos nomes e palavras do período, que estavam nas línguas Élficas, foram preservados como supunha-se serem sua forma real [13]. Além disso, este tratamento foi imposto pelo fato de que, embora a Língua Comum tenha sido rascunhada em termos de elementos fonéticos e estrutura, e um certo número de palavras inventado, é impossível traduzir tais pequenos trechos em formas reais contemporâneas, se fossem visualmentee representados. Mas esta é uma extensão errônea do tratamento lingüístico geral.É uma coisa representar todos os diálogos da história em várias formas de inglês:  supôe-se que isto seja feito por “tradução” – da memória de sons não registrados ou de documentos perdidos e não impressos, seja assim afirmado ou não, qualquer que seja a narrativa lidando com tempos passados ou terras estrangeiras. Mas é outra coisa completamente diferente prover representações visuais de escritos ou gravações supostamente feitos à data da narrativa [14].

O real paralelo neste caso é o relance de Quenya dado no lamento de galadriel – seja na transcrição para o nosso alfabeto (para tornar o estilo da linguagem mais facilmente apreciável) ou na escrita contemporânea (com na The Road Goes Ever On) – seguida por uma tradução. Uma vez que, como dito, a provisão de um texto contemporâneo na Língua Comum não é possivel, o único procedimento adequado era produzir uma tradução para o inglês das palavras legíveis das páginas rapidamente examinadas por Gandalf [15]. Isto foi feito no texto; e pouco da contrução da Língua Comum, suficiente para permitir o texto estar na forma contemporânea, tudo que pôde ser legitimamente feito.

Uma dificuldade especial é apresentada pela inscrição no túmulo de Balin. Ela é efetiva em seu lugar: dando uma idéia do estilo das Runas quando gravadas com mais cuidado para propósitos solenes, e proporcionando um vislumbre de uma língua estranha; embora tudo que era realmente necessário para o conto são as seis linhas [16] (com a tradução da inscrição em letras maiores e mais fortes). A representação da inscrição, entretanto, caiu em alguns absurdos[17].

O uso, na inscrição, de valores e formas mais antigos e mais “corretos” das Argenthas, e não do posterior “uso de Erebor” não é absurdo (embora possivelmente seja uma elaboração desnecessária); está de acordo com a história das Runas como rascunhada no Apêndice E. As Runas mais antigas seriam utilizadas para tal propósito, uma vez que foram utilizadas em Moria antes da fuga dos Anões, e apareceria em outras inscrições afins - e Balin clamava ser descendente e sucessor dos antigos Senhores de Moria. O uso da língua dos Anões (Khuzdul) é possível em uma inscrição tão curta, uma vez que esta língua foi rascunhada em algum detalhe de sua estrutura e com um vocabulário bastante pequeno. Mas os nomes Balin e Fundin em tal contexto são absurdos. Os Anões, como já dito, tinham nomes em sua própria língua; estes eles apenas utilizavam entre eles mesmo (em ocasiões solenes) e os mantinham estritamente secretos a outros povos e portanto nunca os escreviam em textos ou inscrições que pudessem ser vistos por estranhos. Em tempos ou locais onde eles tinham assuntos, seja de negócios ou amizade, com seus vizinhos, eles adotaram ”nomes externos” para conveniência [19].

Estes nomes tinham forma geralmente adaptada à estrutura da Língua Comum [> à estrutura da língua das quais derivavam]. Muito frequentemente eles possuíam significados reconhecíveis naquela língua ou eram nomes comuns na mesma; algumas vezes eram nomes [> comuns na mesma, sendo nomes] utilizados pelos Homens na vizinhança em que residiam, e eram derivados da línguas Humanas nas quais eles poderiam continuar a ter um significado, embora nem semprefosse o caso [esta frase foi riscada][20]. Se os nomes adotados que possuíam significados foram escolhidos por estes significados terem algumas relação com seus ”nomes internos” não pode ser determinado. Os nomes adotados poderiam ser alterados e algumas vezes eram – geralmente em consequência de algum evento, como uma migração dos Anões os de seus amigos, que os separassem.

O caso dos Anões de Moria é um exemplo da adoção de nomes das línguas Humanas do Norte, não da Língua Comum[21]. Poderia ter sido melhor, nesse caso, dar os nomes em suas formas originais. Mas continuando com a teoria (necessária para reduzir o peso da invenção de nomes em diferentes estilos de linguagem) que nome derivados de línguas e dialetos Humanos do Oeste historicamente relacionados à Língua Comum deveriam ser representados por nomes encontrados (ou construídos de elementos encontrados em) línguas relacionadas aos inglês, os nomes dos Anões foram tomados do Norueguês, uma vez que as línguas humanas das quais eles os adotaram é bastante próxima da língua do sul da qual se derivou a língua de Rohan (representada pelo Inglês Antigo, devido ao seu grande arcaísmo se comparada àqueles elementos da Língua Comum derivados da línguas de mesmo parentesco). Em consequência nomes como Balin não apareceriam em nenhuma inscrição contemporânea utilizando Khuzdul [22].

Relacionamentos dos Anões Barbalongas e Homens [23]

Nas tradições dos Anões da Terceira Era os nomes dos locais onde cada um dos Sete Ancestrais “acordaram” foram preservados; mas apenas dois deles são conhecidos dos Elfos e Homens do Oeste: o mais ocidental, o local do acordar dos ancestrais dos Barbas-de-fogo e dos Vigalargas; e aquele do ancestral dos Barbalongas[24], o mais antigo a ser criado e o primeiro a acordar. O primeiro foi o norte das Ered Lindon, o grande muro leste de Beleriand, do qual as Montanhas Azuis da Segunda Era e eras posteriores são remanescentes; o segundo foi o Monte Gundabad (originalmente um nome Khuzdul), o qual era, portanto, reverenciado pelos Anões e sua ocupação na Terceira Era pelos Orks [N.T. escrito assim mesmo, com K] de Sauron foi uma das principais razões de seu grande ódio aos Orks [25]. Os outros dois locais eram a leste, a distâncias tão grandes ou maiores do que entre as Montanhas Azuis e Gundabad: a origem dos Punhos-de-Ferro e dos Barba-Bífidas e àquele dos Ferrolho-Negros e Pés-de-Pedra. Embora estes quatro pontos fossem bastante separados os Anões das diferentes famílias estavam em contato, e nas primeiras eras mantinham assembléias de representantes no Monte Gundabad. Em tempos de grande necessidade mesmo os mais distantes mandariam auxílio para qualquer um de seu povo; como no caso da grande Guerra contra os Orks (Terceira Era, 2793-2799). Embora não gostassem de migrar e fazer moradias permanentes ou “mansões” longe de suas casas originais, exceto  sob grande pressão de inimigos ou após alguma catástrofe como a ruína de Beleriand,eram grandes e resistentes viajantes e hábeis construtores de estradas; e também todas as famílias dividiam uma língua comum [26].Mas em dias distantes os Anões eram secretivos [riscado: - e nenhum mais do que os Barbalongas - ] e possuíam poucos negócios com os Elfos. No Oeste ao fim da Primeira Era os negócios dos Anões das Ered Lindon com o Rei Thingol terminaram em desastre e na Ruína de Doriath, a lembrança da qual continuou a envenenar as relações entre Elfos e Anões em Eras posteriores. Àquele tempo as migrações dos Homens do Leste e Sul trouxeram grupos avançados a Beleriand; mas não eram em grande número, embora mais ao leste em Eriador e Rhovanion (especialmente as áreas mais ao norte) seus parentes tenham ocupado a maior parte da terra. Lá os negócios entre Homens e os Barbalongas logo começaram. Para os Barbalongas, embora os mais orgulhosos das Sete Casas, também eram os mais sábios e os de visão mais longa. Homens mantinham-nos em temor e eram ávidos por aprender com eles; e os Barbalongas tinham grande interesse em usar os Homens para seus próprios interesses. Portanto cresceu a economia, naquela região, mais tarde característica dos negócios entre Anões e Homens (incluindo Hobbits): Homens tornaram-se os principais fornecedores de comida, comocriadores de gado, pastores e cultivadores, pela qual os Anões trocavam por trabalho como construtores, fazedores de estradas, mineradores e criadores de muitos artefatos, de ferramentas úteis a armas e muitas outras coisas de grande custo de habilidade. Para o grande proveito dos Anões. Não apenas para ser contado em horas de trabalho, embora em tempos iniciais os Anões devem ter obtido bens que eram o produto de maior e mais extenso esforço do que as coisas ou serviços que eles davam em troca - antes dos Homens se tornarem mais sábios e desenvolverem habilidades deles mesmos. A principal vantagem para eles era a liberdade de continuar com seus trabalhos sem obstáculos e de refinar suas artes, especialmente na metalurgia, à maravilhosa habilidade que alcançaram antes do declínio e do diminuir de Khazad.

Este sistema se desenvolveu lentamente, e foi muito antes dos Barbalongas sentirem qualquer necessidade de aprender a língua de seus vizinhos, muito menos adotar nomes através dos quais eles pudessem sem conhecidos individualmente para os “de fora”. Este processo não começouem trocas ou negócios, mas na guerra; pois os Barbalongas se expandiram para o sul nos Vales do Anduin e fizerem sua “mansão” e forte principalem Moria; e também a leste para as Colinas de Ferro, cujas minas eram a principal fonte de minério de ferro. Eles consideravam as Colinas de Ferro, as Ered Mithrim e as escarpas leste das Montanhas Nebulosas como de sua posse. Mas eles estavam sob ataque dos Orks de Morgoth. Durante a Guerra das Jóias e o Cerco de Angband, quando Morgoth precisou de toda sua força, estes ataques cessaram; mas quando Morgoth caiu e Angband foi destruída, hordas de Orks fugiram para o leste procurando moradia. Estavam agora sem mestre e sem qualquer liderança geral, mas eram bem armados e muito numerosos, cruéis, selvagens e sem piedade no ataque. Nas batalhas que se seguiram os Anões ficaram em menor número e embora fosse os guerreiros mais irredutiveis de todos os Povos Falantes eles ficaram satisfeitos em fazer aliança com os Homens.[27]

Os Homens com os quais eles então se associaram eram em maior parte aparentados em raça e língua com os homens altos e em sua maioria com belos cabelos povo da “Casa de Hador”, a mais renomada e numerosa dos Edain, os quais foram aliados dos Eldar na Guerra das Jóias. Estes homens, ao que parece, foram em direção oeste até encontrarema Grande Floresta Verde e então se dividiram: alguns chegaram ao Anduin e cruzaram-no em direção norte para os Vales; alguns cruzaram o norte da Floresta e as Ered Mithrim. Apenas uma pequena parte deste povo, já muito numeroso e dividido em muitas tribos, passou para Eriador e finalmente para Beleriand. Eles eram um povo bravo e leal, de bom coração, odiadores de Morgoth e seus servos; e a príncipio recusaram o pedido dos Anões, temendo que estivessem sob a Sombra (como disseram) [28]. Mas eles ficaram satisfeitos com a aliança, pois eles eram mais vulneráveis aos ataques dos Orks: eles residiram principalmente em vilas e agrupamentos espalhados, e se se uniam em pequenas cidades defendiam-na pobremente, no máximo comfossos e cercas de madeira. Também tinham apenas armamento leve, principalmente arcos, pois possuíam pouco metal e os poucos ferreiros entre eles não possuíam grandes habilidade. Estas coisas os Anões consertaram em troca do grande serviço que os Homens poderiam oferecer. Eles eram adestradores de bestas e aprenderam a maestria dos cavalos, e muitos eram cavaleiros hábeis e sem medo [29]. Estes freqüentemente cavalgavam longe como batedores e mantinham vigilância dos movimentos dos inimigos; e se os Orks ousassem se reunir em campo aberto para algum grande ataque, eles poderiam reunir uma grande força de arqueiros montados para cercá-los e destruí-los. Desta forma a Aliança dos Anões e Homens no Norte rapidamente veio a comandar uma grande força no começo da Segunda Era, rápida em ataque e valente e bem preparada na defesa, e naquela região cresceram o respeito e a estima entre Anões e Homens, e algumas vezes grande amizade.
Foi àquele tempo, quando os Anões eram associados aos Homens tanto na guerra quanto no ordenar das terras que eles obtiveram[30], que os Barbalongas adotaram a língua dos Homens para se comunicarem com eles. Eles não tinham desejo de não ensinar sua própria língua aos Homens com os quais tinham uma amizade especial, mas os Homens a achavam difícil e eram lentos a aprender mais do que palavras isoladas, muitas das quais eles adotaram e inseriram em seus próprias línguas. Mas em um ponto os Barbalongas eram tão rigidamente secretivos quanto todos os outros Anões. Por razões que nem os Elfos nem os Homens entenderam completamente eles não revelavam nenhum nome pessoal a pessoas de outra raça [31], nem mais tarde quando eles adquiriram as artes da escrita jamais permitiram que estes fossem gravados ou escritos. Eles então pegaram nomes em forma dos Homens, pelos quais poderiam ser conhecidos a seus aliados [32]. Este costume permaneceu entre os Barbalongas até a Quarta Era e além do escopo destas histórias. Aparentemente quando falando com Homens com os quais tinham uma amizade próxima, ao falar das histórias e memórias de seus povos, eles também davam nomes similares aos Anões lembrados em seus anais muito antes do encontro de Anões e Homens. Mas destes tempos antigos apenas um nome foi preservado na terceira Era: Durin, o nome que eles deram ao primeiro ancestral dos Barbalongas e pelo qual ele foi conhecido entre Elfos e Homens. (Parece ter sido simplesmente uma palavra para “rei” na língua dos Homens do Norte na Segunda Era) [33]. Assim não são conhecidos listas de nomes dos Barbalongas anteriores à ruína de Moria (Khazaddum), 1980 da Terceira Era; mas eles eram todos do mesmo tipo, isto é, em uma língua dos Homens há muito “morta”.

Isto apenas pode ser explicado supondo-se que estes nomes do início da Segunda Era foram adotados pelos Anões, e preservados com tão poucas alterações quanto sua própria língua, e continuaram sendo dados (e freqüentemente repetidos) por algo em torno de quatro mil anos ou mais desde que a Aliança foi destruída pelo poder de Sauron! Desta forma eles logo se tornaram, para os Homens de mais tarde, nomes especiais de Anões [34], e os Barbalongas adquiriram um vocabulário de nomes tradicionais peculiares a eles mesmo, enquanto mantinham seus verdadeiros nomes “internos” completamente em segredo.

Muitas mudanças aconteceram enquanto a Segunda Era prosseguia. Os primeiros navios dos Numenorianos apareceram às costas da Terra-média por volta de 600 da Segunda Era, mas nenhum rumor desse acontecimento atingiu o distante Norte. Ao mesmo tempo, contudo, Sauron saiu do seu esconder-se e se revelou com bela aparência. Por muito tempo ele deu pouca atenção a Anões e Homens e dedicou-se a ganhar a amizade e confiança dos Eldar. Mas lentamente ele voltou a seguir Morgoth e começou a buscar poder atarvés da força, tomando o comando novamente e direcionando os Orks e outras criaturas malignas da Primeira Era, e secretamente construindo sua grande fortaleza na terra cercada de montanhas, no sul, que mais tarde ficou conhecida como Mordor. A Segunda Era tinha atingido apenas a metade de seu curso (por volta de 1695) quando ele invadiu Eriador e destruiu Eregion, um pequeno reino estabelecido pelos Eldar que migraram da ruína de Beleriand e que também formaram uma aliança com os Barbalongas de Moria. Isto marcou o fim da Aliança entre Barablongas e Homens do Norte. Pois embora Moria continuasse inexpugnável por muitos séculos, os Orks, reforçados e comandados por servos de Sauron invadiram as montanhas novamente. Gundabad foi retomada, as Ered Mithrim infestadas e a comunicação entre Moria e as Colinas de Ferro cortadas por um tempo. Os Homens da Aliança foram envolvidos em uma guerra não apenas contra os Orks mas também com Homens estrangeiros malignos. Pois Sauron conseguiu domínio sobre muitas tribos selvages do Leste (corrompidas no passado por Morgoth), e ele agora os instigou a tomar a terra e saquear o Oeste. Quando a tempestade passou [35], os Homens da antiga Aliança estavam reduzidos e separados, e aqueles que permaneciam nas antigas regiões estavam empobrecidos, e viviam principalmente em cavernas ou nas bordas da Floresta.

Os mestres Élficos do conhecimento mantinham que, em matéria de línguas, as mudanças na fala (como em todos os aspectos de seus vidas) dos Povos Falantes foram muito mais lentas nos Dias Antigos do que se tornaram mais tarde. As línguas dos Eldar mudaram principalmente em aparência; a dos Anões resistia a mudanças pela própria vontade destes; as muitas línguas dos Homens mudavam sem atenção no rápido passar de suas gerações. Em Arda todas as coisas mudavam, mesmo no Reino Abençoado dos Valar; mas lá a mudança era tão lenta que não podia ser observada (exceto talvez pelos Valar) em grandes eras do tempo. A mudança na linguagem dos Eldarpoderia portanto ser parada em Valinor [36]; mas em seus dias iniciais os Eldar continuaram a aumentar e refinar sua língua, e a alterá-la, mesmo em estrutura e sons. Tais mudanças, contudo, para permanecerem uniformes requeriam que os falantes deveriam continuar em comunicação. Por isso aconteceu que as línguas dos Eldar que permaneceram na Terra-média divergiram das línguas dos Altos Eldar de Valinor tão grandemente que nenhuma delas poderia ser entendida por falantes da outra; pois elas foram separadas por tão grande espaço de tempo, durante o qual mesmo o Sindarin, a mais bem preservada delas na Terra-média, foi sujeita a grades mudanças nos anos que se passaram, mudanças que os Teleri estavam menos interessados  em conter ou direcionar que os Noldor.

 

II.
Os Atani e suas línguas[37]

Os Homens entraram em Beleriand ao final da Primeira Era. Aqueles com os quais estamos lidando e cujas linguagens tiveram anotações preservadas pertencem principalmente aos três povos, diferentes em fala e raça, mas conhecidos em comum pelos Eldar como os Atani (Sindarin Edain)[38]. Estes Atani era a vanguarda de grupos muito maiores das mesmas famílias migrando para oeste. Quando a Primeira Era terminou e Beleriand foi destruída e a maior parte dos Atani que sobreviveram passaram sobre o mar para Númenor, seus parentes mais atrasados estavam ou em Eriador, alguns estabelecidos, outros ainda vagando ou nunca cruzaram as Montanhas Nebulosas e estavam, espalhados entre as Colinas de Ferro e o Mar de Rhun a leste da Grande Floresta, ou nas bordas da qual, tanto a leste como a oeste, muitos se fixaram.Os Atani e seus parentes eram os decendentes de povos que nas Eras Escuras resistiram a Morgoth ou tinham renunciado a ele, e migraram para oeste de suas casas, localizadas no extremo Leste, buscando pelo Grande Mar, do qual rumores distantes os alcançaram. Eles não sabiam que o próprio Morgoth havia deixado a Terra-média[39]; pois eles estavam sempre em guerra com as coisas vis que ele gerou, e especialmente com Homens que fizeram dele seu Deus e acreditavam que não podiam prestar-lhe serviço mais prazeiroso do que destruir os ”renegados” com todo tipo de crueldade. Foi no Norte da Terra-média, ao que parece, que os “renegados” sobreviveram em números suficientes para manter suas independências como povos bravos e duros; mas de seu passado eles preservaram apenas lendas, e suas histórias orais alcançavam no passado não mais do que umas poucas gerações de Homens.

Quando suas vanguardas finalmente alcançaram Beleriand e o Litoral Oeste eles desanimaram. Pois eles não podiam seguir adiante, mas também não encontraram paz, apenas terras engajadas na guerra com o próprio Morgoth, que havia fugido de volta à Terra-média. “Por eras esquecidas”, eles disseram, “nós vagamos, procurando escapar dos Domínios do Senhor do Escuro e de sua Sombra, apenas para encontrá-lo aqui à nossa frente” [40]. Mas sendo um povo tão bravo quanto desesperadorapidamente se tornaram aliados dos Eldar,foram instruídos por eles e tornaram-se enobrecidos e avançados em conhecimentos e artes. Nos anos finais da Guerra das Jóias eles proporcionaram muitos dos mais valentes guerreiros e capitães dos exércitos dos reis Élficos.

Os Atani eram três povos, independentes em organização e lideranças, cada um dos quais diferindo em fala e também em formas corpóreas dos demais – embora todos eles mostrassem traços de terem se misturado no passado com Homens de outros tipos. Estes povos os Eldar nomearam o Povo de Beor, o Povo de Hador e o Povo de Haleth, em razão dos nomes dos chefes que os comandava quando chegaram pela primeira vez em Beleriand [41]. O Povo de Beor foram os primeiros Homens a entrar em Beleriand – eles foram encontrados nos vales de Beleriand Oriental pelo Rei Finrod, o Amigo dos Homens, pois eles haviam encontrado uma passagem através das Montanhas. Eles eram um povo pequeno, tendo não mais, como é dito, do que dois mil homens adultos; e eles pobres e parcamente equipados, mas foram forçados a viagens duras e cansativas carregando grandes cargas, pois eles não tinham bestas de carga. Não muito depois, a primeira das três hostes do Povo de Hador veio do sul e  duas outras de quase mesmo tamanho se seguiram antes do outono daquele ano. Eles eram um povo mais numeroso; cada uma das hostes era tão grande quanto todo o Povo de Beor, e eles eram melhor armados e equipados; também possuíam muitos cavalos e alguns burros além de pequenos rebanhos de ovelhas e cabras. Eles cruzaram Eriador e alcançaram o sopé leste das Montanhas (Ered Lindon) um ano ou mais à frente de todos outros, mas não tentaram encontrar nenhuma passagem e voltaram atrás procurando um estrada através das Montanhas, as quais, como seus batedores a cavalo reportaram, ficavam cada vez menores ao sul. Alguns anos mais tarde, quando o outro povo estava fixado, o terceiro povo dos Atani entrou em Beleriand [42]. Eles eram, provavelmente, mais numerosos que o Povo de Beor, mas nenhuma contagem correta deles foi feita; pois eles vieram secretamente em pequenos grupos e se escondiam nas florestas de Ossiriand onde os Elfos não demonstravam amizade para com eles. Além disso eles possuíam dissensões  internas e Morgoth, agora ciente da chegada de Homens hostis em Beleriand, enviou seus servos para os afligir. Aqueles que eventualmente se deslocaram para oeste e entraram em amizade e aliança com os Eldar foram chamados de Povo de Haleth, pois Haleth era o nome da chefe que os conduziu para as florestas ao norte de Doriath onde lhes foi permitido viver.

O Povo de Hador sempre foi o maior em números entre os Atani, e em renome (exceto apenas por Beren, filho de Barahir, descendente de Beor). Em sua maior parte eles eram um povo alto, com cabelos amarelados ou dourados e olhos azuis-acinzentados, mas não existiam poucos dentre eles com cabelos escuros, mas todos belos [43]. De qualquer forma eram aparentados com o Povo de Beor, como o mostrava suas línguas. Não era necessário conhecimentos de línguas para perceber que elas eram bastante próximas, pois embora pudessem entender uns aos outros apenas com dificuldade eles possuíam muitas palavras em comum. Os sábios Élficos [44] eram da opinião de que ambas as línguas eram descendentes de uma que divergiu (devido à algum tipo de divisão do povo que a falava) no decorrer de, talvez, mil anos de lenta mudança na Primeira Era [45]. Embora o tempo possa muito bem ter sido menor e a mudança mais acelerada pelo misturar dos povos; pois a língua de Hador era aparentemente menos mudada e mais uniforme em estilo, enquanto a linguagem de Beor continha muitos elementos que eram estrangeiros em caráter. Este contraste em fala era provavelmente conectado com as diferenças físicas observáveis entre os dois povos. Existiam homens e mulheres de cabelos claros entre o Povo de Beor, mas a maioria deles tinha cabelo castanho (e geralmente olhos castanhos), e muitos tinham a pela menos bonita, alguns tendo, de fato, pele escura. Homens tão altos quanto os do Povo de Hador eram raros entre eles, e muitos eram mais troncudos e de compleição mais compacta [46]. Em associação com os Eldar, especialmente com os seguidores do Rei Finrod, eles tornaram-se tão desenvolvidos em artes e maneiras quanto o Povo de Hador, mas se estes os ultrapassavam em rapidez de mente e corpo, em generosidade nobre e agradável [47], o Povo de Beor eram os mais firmes nas resistência às dificuldades e tristezas, lentos nas lágrimas e nas gargalhadas; sua força não necessitava de esperança para mantê-la. Mas estas diferenças de corpo e mente tornaram-se menos marcantes com o passar das gerações, pois os dois povos tornaram-se muitos misturados por casamentos e por desastres da Guerra [48].

O Povo de Haleth eram estranhos para os outros Atani, falantes de uma língua diferente; embora mais tarde tenham se unido a eles na aliança com os Eldar, permaneceram um povo à parte. Entre eles aderiam à própria língua, e embora por necessitade tenham aprendido Sindarin para se comunicarem com os Eldar e os outros Atani, muitos o falavam com dificuldades e alguns daqueles que raramente se aventuravam além das bordas de suas próprias florestas não a usavam de forma alguma [49]. Eles de boa vontade não adotavam novas coisas ou costumes e mantinham muitas práticas que pareciam estranhas aos Eldar e aos outros Atani, com os quais eles tinham poucos negócios exceto na guerra. De qualquer forma, eles eram conhecidos como aliados leais e guerreiros irredutíveis,apesar das companias que eles mandavam às batalhas além de suas bordas serem pequenas. Pois eles eram e continuavam a ser um povo pequeno, preocupado principalmente com a proteção de suas próprias florestas, e eram excelentes em batalhas dentro delas. De fato por muito tempos mesmo aqueles Orks especialmente treinados para tal [batalhas em florestas] não se aproximavam de seus limites. Uma das muitas práticas comentadas era a de que muitos guerreiros eram mulheres,mas poucas destas lutaram nas grandes batalhas. Este costume era evidentemente antigo[50]; pois sua chefe Haleth era uma renomada amazona com uma guarda pessoal de mulheres.

[Christopher Tolkie: A este ponto um subtítulo foi escrito a lápis no texto datilografado: os Druedain (Homem Pukel); após isto não existem mais divisões com subtítulos inseridos. Junto com o paragráfo que conclui a seção II acima, o texto sobre os Druedain que se segue é dado no Contos Inacabados, terminando com a história chamada A Pedra Fiel; e não há necessidade de repeti-la aqui [51]. Ao final da história há uma passagem comparando Hobbits e Drugs, o qual é dado de forma reduzida no Contos Inacabados e colocado aqui completo; o texto atual então segue até o fim, ou melhor, abandono, do ensaio. ]

Este longo texto sobre os Druedain foiaqui colocadopois lança alguma luz sobre os Homens Selvagens que continuavam a sobreviver ao tempo da  Guerra do Anel no final leste das Montanhas Brancas e o reconhecimento de Merry deles como sendo as formas vivas dos Homens Pukel esculpidos em Dun Harrow. A presença de membros da mesma raça entre os Edain de Beleriand portanto faz outra conexão entre O Senhor dos Anéis e O Silmarillion, e permite a introdução de personagens de alguma maneira similares aos Hobbits de O Senhor dos Anéis em algumas das lendas da Primeira Era (por exemplo o velho servo (Sadog) de Hurin, na lenda de Turin) [52].

Os Drugs ou Homens Pukel não devem, contudo, ser confundidos com ou considerados uma mera variante do tema hobbit. Eles eram bastante diferentes em forma física e aparência. Sua altura média (1,20 m) era alcançada apenas por hobbits excepcionais; eles eram de constituição mais pesada e forte; e suas características faciais não eram agradáveis (julgadas por parâmetros humanos gerais). Fisicamente eles compartilhavam a ausência de pelos na face; mas enquanto o cabelo dos hobbits era abundante (mas próximo e encaracolado), os Drugs tinham apenas cabelo esparso e fino e nenhum pelo em suas pernas e pés. Em caráter e temperamento eles eram algumas vezes felizes e alegres, como hobbits, mas tinham um lado sinistro em suas naturezas em podiam ser sarcásticos e rudes; e eles possuíam ou acreditava-se possuírem poderes estranhos ou mágicos. (Os contos, como o “A Pedra Fiel”, que fala da transferência de parte de seus “poderes” para seus artefatos, lembra uma miniatura da transferência do poder de Sauron para as fundações de Barad-dur e o Anel Governante) [53]. Também os Drugs eram um povo frugal,comiam com parcimônia mesmo em tempos de paz e abundância e não bebiam nada exceto água. Em alguns aspectos eles lembravam mais os Anões: em constituição, estatura e resistência (embora não em cabelo); em suas habilidades em esculpir pedra; no lado sinistro de seus caráteres; e nos “estranhos poderes”. Embora as habilidades “mágicas” creditadas aos Anões fossem muito diferentes; também os Anões eram mais ”sinistros” etinham vida longa, enquanto os Drugs tinham vida curta se comparados a outros tipos de Homens.

Os Drugs encontrados nos contos da Primeira Era – co-habitando com o Povo de Haleth, que era um povo das florestas - davam-se por contente em viver em tendas ou alojamentos leves contruídos ao redor de troncos de grandes árvores, pois eram uma raça dura. Para seus antigos lares, de acordo com suas lendas, eles utilizavam cavernas nas montanhas, mas principalmente as usavam como depósitos apenas ocupados como moradias e locais de dormir em climas severos. Eles possuíam refúgios similares em Beleriand para os quais todos excetos os mais duros se recolhiam em tempos de tempestade ou clima ruim, mas estes locais eram guardados e nem mesmo seus amigos mais próximos entre o Povo de Haleth eram bem-vindos lá.

Hobbits, por outro lado, eram em praticamente todos os aspectos Homens normais, mas de estatura muito baixa. Eles eram chamados “halflings” (N.T. “metade do comprimento/altura”); mas isto se refere à altura normal de Homens de descendência Numenoriana ou à altura dos Eldar (especialmente aqueles de origem Noldorin), que aparentemente seria de cerca de sete de nossos pés (N.T. cerca de 2,10 m) [54]. Sua altura referente aos períodos mencionadosera normalmente mais de três pés (N.T. 90 cm) para homens embora muito poucos excedessem três pés e seis polegadas (N.T. 1,05 m); mulheres raramente excediam 3 pés. Eles não eram tão numerosos ou variados quanto os Homens comuns, mas evidentemente mais numerosos e adaptáveis a diferentes modos de vida e habitat que os Drugs, e quando eles se encontraram pela primeira vez nas histórias já mostravam divergências de cor, estatura e constituição e em seus modos de vida e preferências por tipos diferentes de regiões de moradia (ver o Prólogo do O Senhor dos Anéis). Em seu passado não registrado eles devem ter sido um povo primitivo, mesmo ”selvagem” [55], mas quando os encontramos eles tinham (em graus variados) adquirido muitas artes e costumes através do contato com Homens, e em menos extensão com Anões e Elfos. Eles reconheciam seu parentesco com Homens de estatura normal, mas consideravam Anões e Elfos, fossem amigos ou hostis, como estranhos, com os quais suas relações eram difíceis e nubladas pelo medo [56]. O comentário de Bilbo (O Senhor dos Anéis I) [57] que a co-habitação do Povo Grande e do Povo Pequeno no mesmo local em Bri era peculiar e não encontrada em nenhum outro lugar provavelmente era verdadeira a seu tempo (final da Terceira Era) [58]; mas parece que de fato os Hobbits gostavam de viver com ou perto de um Povo Grande de tipo amigável, que com sua grande força os protegiam de muitos perigos e inimigos e outros Homens hostis e recebiam em troca muitos serviços. Por isso é digno de nota que os Hobbits do oeste não preservaram traços ou memória de uma língua própria deles. A língua que eles falavam quando entraram em Eriador era evidentemente adotada dos Homens dos Vales do Anduin (relacionados aos Atani, em particular àqueles da Casa de Beor [> das Casas de Hador e Beor]); e depois de sua adoção da Língua Comum eles mantiveram muitas palavras daquela origem. Isto indica uma associação próxima com o Povo Grande; pois a rápida adoção da Língua Comum em Eriador [59] mostra os Hobbits sendo especialmente adaptáveis neste aspecto. Também a divergência dos Stoors, que se associaram com Homens de um tipo diferente antes de irem para o Condado.

A vaga tradição preservada pelos Hobbits do Condado dizia que eles haviam vivido nas terras à margem de um Grande Rio, mas há muito a deixaram e encontraram uma rota através ou ao redor de altas montanhas, quando não mais se sentiram bem em seus lares devido à multiplicação do Povo Grande e de uma sombra de medo que caiu sobre a Floresta. Isto evidentemente reflete os problemas de Gondor na parte inicial da Terceira Era. O aumento dos Homens não era o aumento normal daqueles com os quais viviam em amizade, mas o constante aumentar dos invasores do Leste, ao sul sendo detidos por Gondor, mas no Norte além dos limites do Reino perturbando os antigos habitantes “Atanicos” e mesmo ocupando a Floresta em certos locais e atravessando-a até o vale do Anduin. Mas a sombra de que a tradição fala não é somente devido à invasão humana. Claramente os Hobbits perceberam, antes mesmo dos Magos e dos Eldar se tornarem completamente cientes, o ressurgir de Sauron e sua ocupação de Dol Guldur [60].

Sobre as relações de diferentes tipos de Homens em Eriador e Rhovanion com os Atani e outros homens das lendas da Primeira Era e a Guerra das Jóias veja O Senhor dos Anéis III [no capítula "A janela para o oeste"]. Lá Faramir faz um breve relato da classificação atual em dos Homens em Gondor em três tipos: Altos Homens ou Numenorianos (de descendências mais ou menos pura); Homens Médios e Homens da Escuridão. Os Homens da Escuridão era um termo genérico aplicado a todos aqueles que eram hostis aos Reinos, e que eram (ou pareciam a Gondor serem) movidos por algo mais do que a ambição humana por conquista e saque, um ódio fanático pelos Altos Homens e seus aliados como inimigos de seus deuses. O termo não toma conotações de diferenças de raça, cultura ou língua. Com relação aos Homens Médios Faramir fala principalmente dos Rohirrim e atribuia a eles descendência direta do Povo de Hador da Primeira Era. Esta era uma crença geral em Gondor àquele tempo [61], e foi usada para explicar (para o conforto do orgulho Numenoriano) da cessão de tão grande parte do Reino para o povo de Eorl.

O termo Homens Médios, contudo, era de origem antiga. Foi cunhado na Segunda Era pelos Humenorianos quando começaram a estabelecer portos e assentamentos no litoral oeste da Terra-média. Surgiu entre os colonizadores no Norte (entre Pelargir e o Golfo de Lune) ao tempo de Ar-Adunakhor; pois os colonizadores dessa região se recusaram a se unir à rebelião contra os Valar e foram aumentados por muitos exilados dos Fiéis que fugiram da perseguição por eles e os demais Reis de Numenor. Foi portanto modelado na classificação pelos Atani dos Elfos: os Alto Elfos (ou Elfos da Luz) eram os Noldor que retornaram em exílio do Oeste Distante; os Elfos Médios eram os Sindar, que apesar do parentesco próximo aos Alto Elfos tinham permanecido na Terra-média e nunca viram a luz de Aman; e os Elfos da Escuridão eram aqueles que não viajaram ao Litoral oeste e não tiveram desejo de ver Aman. Esta não era igual às classificações feitas pelos Elfos, as quais não nos interessam aqui, exceto o fato de que “Elfos Escuros” ou “Elfos da Escuridão” era usado por eles, mas de nenhuma forma implicava em qualquer mal ou subordinação a Morgoth; se referia apenas à ignorância da “luz de Aman” e incluía os Sindar. Aqueles que nunca fizeram a jornada para o Litoral oeste eram chamados de “os Relutantes” (Avari).É duvidoso se qualquer dos Avari alguma vez tenha alcançado Beleriand [62] ou foi conhecido pelos Numenorianos.

Nos dias dos primeiros assentamentos de Numenor existiam muitos Homens  de diferentes tipos em Eriador e Rhovanion; mas em sua maior partemoravam distantes da costa. A região de Forlindon e Harlindon era habitada por Elfos e eram a parte principal do reino de Gil-galad, que se extendia ao norte do Golfo de Lune para incluir as terras a leste das Montanhas Azuis e oeste do Rio Lune tão longe quanto o Pequeno Lune [63]. (Além disso era território Anão)[64]. Ao sul do Lune ele não tinha limites claros, mas as Colinas das Torres (como mais tarde foram chamadas) eram mantidas como um posto avançado[65]. O Minhiriath e a metade oeste de Enedhwaith entre o Greyflood e o Isen ainda eram cobertos por uma densa floresta[66]. O litoral da Baía de Belfalas ainda era basicamente desolado, exceto por um porto e um pequeno agrupamento de Elfos na foz da confluência do Morthond e Ringlo [67].  Mas isso foi muito antes dos colonos Numenorianos das cercanias da Foz do Anduin terem se aventurado ao norte de seu grande porto em Pelargir e fazerem contato com Homens que residiam em vales em ambos os lados das Montanhas Brancas. Seu termo Homens Médios era portanto aplicado originalmente aos Homens de Eriador, os que moravam mais a oeste dentre todos da Humanidade na Segunda Era e conhecidos dos Elfos do reino de Gil-galad [68]. Àquele tempo existiam muitos homens em Eriador, principalmente, ao que parece, de parentesco original com o Povo de Beor, embora alguns fossem parentes do Povo de Hador. Eles moravam ao redor do Lago Evendim, nas Depressões Norte, na Colina do Tempo e nas terras entre elas, tão longe quanto o Brandywine, a oeste do qual eles frequentemente vagavam, porém não residiam lá. Eles eram amigáveis com os Elfos, embora sob temor e amizade próxima entre eles era rara. Também temiam o Mar e não olhavam para ele. (Sem dúvida rumores de seus terrores e da destruição da terra além das Montanhas (Beleriand) os alcançaram, e alguns de seus ancestrais podem de fato terem sido fugitivos, parte dos Atani que não deixaram a Terra-média mas fugiram para leste).

Portanto o termo Numenoriano Homem Médio é confuso em sua aplicação. Seu principal teste era o sentimento geral de amizade com relação ao Oeste (a Elfos e Numenorianos), mas era aplicado usualmente apenas a Homens cuja estatura e aparência fossem similares àquelas dos Numenorianos, emboraa definição de “amicabilidade” fosse mais importante e não confinada a povos de apenas um tipo racial. Era uma marca de todos ostipos de Homens que eram descendentes daqueles que abjuraram a Sombrade Morgoth e seus servos e vagaram para oeste para escapar da mesma- e certamente incluía ambas as raças de pequena estatura, Drugs e Hobbits. Também precisa ser dito que a “animosidade” com relação aos Numenorianos e seus aliados não era sempre devido à Sombra, mas em dias tardios às ações dos próprios Numenorianos, portanto muitos moradores das florestas do litoral sul das Ered Luin, especialmente em Minhiriath, eram, como reconhecidos por historiadores mais tardios, da raça do Povo de Haleth; mas eles tornaram-se inimigos amargos dos Numenorianos, devido ao rude tratamento e à devastação das florestas[69], e este ódio continuou não apaziguado em seus descendentes, fazendo-os se unir com qualquer inimigo de Numenor. Na Terceira Era seus sobreviventes eram o povo conhecido em Rohan como os Dunlendings.

Também existe o assunto da linguagem. Foi após seiscentos anos depois da partida dos sobreviventes dos Atani por sobre o mar para Numenor que o primeiro navio da Terra-média saiu do oeste e aportou no Golfo de Lune [70].

[Christopher Tolkien: A história que se segue recontando o encontro dos marinheiros Numenorianos com doze Homens de Eriador na Colina das Torres, seu mútuo reconhecimento de um parentesco distante e a descobertar de que suas línguas embora profundamente alteradas eram de origem comum, foi dada nos Contos Inacabados [71]. Seguindo-se à conclusão daquele trecho (que termina com as palavras ”eles perceberam que compartilhavam muitas palavras ainda claramente reconhecíveis e outras que poderiam ser compreendidas com atenção, e eram capazes de conversar de com certa dificuldade sobre assuntos simples”) o ensaio continua como se segue.]

Então veio aos Numenorianos que o parentesco de linguagem, mesmo que reconhecível apenas sob estudos atenciosos, era uma das marcas dos ”Homens Médios” [72].

Os sábios dos dias tardios mantinham que as línguas dos Homens na Terra-média, pelo menos aquelas dos Homens “sem sombra”, mudaram menos rapidamente antes da Segunda Era e da mudança do mundo com a Queda de Numenor. Visto que em Numenor ela mudava ainda mais lentamente devido à longevidade dos Atani. Ao primeiro encontro dos Marinheiros e os Homens de Eriador ocidental foi apenas seiscentos anos após os Atani terem partido sobre o mar, e o Adunaico que eles falavam poderia apenas dificilmente ter mudado; mas fazia mil anos ou mais que os Atani que alcançaram Beleriand haviam se separado de seus parentes. Mesmo agora em um mundo mutável línguas que foram separada há quinze séculos podem ser reconhecidas como aparentadas para aqueles não estudados na história das línguas.

Ao longo da passagem dos longos anos a situação mudou. O antigo Adunaico de Numenor tornou-se inusado pelo tempo – e por negligência. Pois devido à desastrosa história de Númenor ela não era mais mantida com honra pelos “Fiéis” que controlavam a Costa de Lune até Pelargir. Pois as línguas Élficas eram proscritas pelos Reis rebeldes e apenas o uso do Adunaico era permitido e muitos dos antigos livros em Quenya ou em Sindarin foram destruídos. Os Fiéis, portanto, usavam Sindarin, e naquela língua construíram nomes para todos os lugares que criaram na Terra-média [73]. Adunaico foi abandonado à mudança descuidada e corrupção como língua de uso diário, e a única língua dos não estudados. Todos os homens de alta linhagem e todos aqueles que eram ensinados a ler e escrever usavam Sindarin, até mesmo como língua diária entre eles. Em algumas famílias oSindarin tornou-se a língua nativa e a língua vulgar de origem Adunaica era apenas aprendida casualmente quando necessária [74]. O Sindarin, contudo, não era ensinada a estrangeiros, tanto porque era mantida como uma marca de descendência Numenoriana quanto porque se provou difícil de adquirir - muito mais do que a “língua vulgar”. Portanto aconteceu que enquanto os assentamentos Numenorianos aumentavam em poder e faziam contato com os Homens da Terra-média (muitos dos quais acabaram sob governo Numenoriano, ampliando sua população) a “língua vulgar” começou a se expandir amplamente como lingua franca entre os povos de muitos tipos diferentes. Este processo se iniciou no final da Segunda Era, mas tornou-se de importância geral principalmente após a Queda e o estabelecimento dos “Reinos no Exílio” em Arnor e Gondor, Estes reinos penetraram fundo na Terra-média, e seus reis eram reconhecidos além de suas bordas como senhores. Portanto no Norte e Oeste todas as terras entre as Ered Luin e o Greyflood e Hoarwll [75] tornaram-se regiões de influência Numenoriana nas quais a “língua vulgar” tornou-se amplamente corrente. Ao Sul e Leste Mordor permaneceia impenetrável; mas embora a extensão de Gondor ser limitada ele era mais populoso e poderoso que Arnor. As fronteiras do antigo reino continham aquelas terras marcadas nos mapas do fim da Terceira Era como Gondor, Anorien, Ithilien, Ithilien Sul e Rohan (anteriormente chamada Calenardhon) a oeste do Entwash [76]. Sobre sua extensão em seu pico de poder, entre os reinos de Hyarmendacil I e Romendacil II (Terceira Era 1015 a 1366) ver O Senhor dos Anéis Apêndice A [77]. As amplas terras entre Anduin e o Mar de Rhun nunca foram, contudo, efetivamente ocupadas ou assentadas e o único verdadeiro limite norte do Reino a leste do Anduin era formado pelas Emyn Muil e os pântanos a sul e leste das mesmas. Contudo a influência Numenoriana alcançava muito além destas fronteiras extendidas, passando pelos Vales do Anduin a suas fontes e alcançando as terras a lestre da Floresta, entre o Rio Celon [78] (Corredor) e o Rio Carnen (Água Vermelha).

Dentro das fronteiras originais dos Reinos a “língua vulgar” logo tornou-se a fala corrente e eventualmente a língua nativa de praticamente todos os habitantes de qualquer origem emigrantes aos quais foram permitidos se fixarem dentro das fronteiras a adotaram. Seus falantes geralmente a chamavam Westron (de fato Aduni, e Annunaid em Sindarin). Mas ela se espalhou muito além das fronteiras dos Reinos - inicialmente em negócios com “os povos dos Reinos” e mais tarde como uma “língua Comum” conveniente para o relacionamento entre povos que mantinham muitas línguas próprias. Os Elfos e Anões a usavam uns com os outros e com Homens

[Christopher Tolkien: O texto termina aqui abruptamente (sem sequer um ponto final após a última palavra, embora isso possa não ser significante), no meio de uma página]

Notas:

[1] Um caso notável é o da conversação entre Ghan, chefe dos Homens Selvagens, e Théoden. Provavelmente poucos dos Homens Selvagens além de Ghan usavam a Língua Comum e ele tinha apenas um vocabulário de palavras limitado aos hábitos de sua língua nativa.

[2] Os Reis e seus descendentes após Thengel também conheciam a língua Sindarin – a língua dos nobres de Gondor [vide Apêndice A (II), na lista dos Reis do Marco, sobre a estadia de Thengel em Gondor. É dito que após seu retorno a Rohan "a língua de Gondor foi usada em sua casa, e nem todos os homens acharam isso bom".]

[3] O efeito sobre faladores atuais da Língua Comum em Gondor sendo comparável àquele que sentiríamos se um estrangeiro, um linguísta tanto hábil quando estudado, ao ser cortez ou lidando com assuntos importantes usasse fluentemente um inglês de, digamos, cerca de 1600 D.C., mas adaptado à nossa pronúncia atual.

[4] Estrutural e gramaticalmente diferia grandemente de todas as outras línguas do Oeste àquele tempo; embora tivesse algumas características em comum com o Adunaico, a antiga língua “nativa” de Númenor. Isto deu origem à teoria (provável) de que em um passado não registrado algumas das línguas dos Homens – incluindo os elementos dominantes entre os Atani do qual o Adunaico foi derivado – teria sido influenciado pelo Khuzdul.

[5] Ele tinha, é dito, um complexo sistema próprio pictográfico ou ideográfico de escrita ou inscrição. Mas este eles mantinham resolutamente secreto.

[6] Incluindo seus inimigos tais como Sauron e seus maiores seguidores, os quais era de fato parcialmente de origem Numenoriana.

[7] [Christopher Tolkien: Como Gil-galad, Celebrimbor foi uma figura que apareceu inicialmente em O Senhor dos Anéis cuja origem meu pai mudou muitas vezes. A mais antiga referência ao assunto é encontrada no texto pós-Senhor dos Anéis "Sobre Galadriel e Celeborn" onde é dito (conforme Contos Inacabados):

"Galadriel e Celeborn tinham como companhia um artífice Noldorin chamado Celebrimbor. Ele era de origem Noldorin e um dos sobreviventesde Gondolin, onde fora um dos maiores artífices de Turgon - mas ele também havia adquirido alguma mancha de orgulho e uma obsessão quase "anã" com artefatos."

Ele aparece como um dos joalheiros de Gondolin no texto "A Elessar" (também do Contos Inacabados); mas contra a passagem no "Sobre Galadriel e Celeborn" acima citada meu pai anotou que seria melhor "torná-lo um descendente de Fëanor". Portanto na Segunda Edição (1966) de O Senhor dos Anéis, ao final das anotações antes do Contos dos Anos da Segunda Era, ele adicionou a sentença: "Celebrimbor era senhor de Eregion e o maior dentre seus artífices; ele era descendente de Fëanor".

Em uma de suas cópias de O Retorno do Rei ele sublinhou o nome Fëanor nesta sentença e escreveu as seguintes duas notas na página oposta (o começo da primeira diz, acredito eu: "Então qual era seu parentesco? Ele deve ser descendente de um dos filhos de Feanor, sobre cujas progênies nada foi dito").

"Como ele poderia sê-lo? Os únicos descendentes de Feanor foram seus sete filhos, seis dos quais alcançaram Beleriand. E nada foi dito sobre suas mulheres e filhos. Parece provável que Celebrinbaur (punhos-de-prata, > Celebrimbor) fosse filho de Curufin, mas embora herdando sua perícia ele era um Elfo de temperamento completamente diferente (sua mãe se recusou a tomar parte na rebelião de Feanor e permaneceu em Aman com o povo de Finarphin). Durante sua morada em Nargothrond como refugiado eleamou Finrod "e sua esposa, e estava contra as atitudes de seu pai e não iria com ele. Ele mais tarde tornou-se grande amigo de Celeborn e Galadriel"".

A segunda nota diz:

"Maedhros o mais velho aparentemente não se casou assim como os dois mais jovens (gêmeos, um dos quais por um maléfico infortúnio foi queimado com os navios); Celegorm também, uma vez que pretendia tomar Lúthien como esposa. Mas Curufin, o mais querido de seu pai e principal herdeiro de suas habilidades, era casado, e teve um filho que veio com ele para o exílio, embora sua esposa (não nomeada) não. Outros casados eram Maelor e Caranthir".

Sobre a forma Maelor, ver HoME X, pag 182 $41. A referência na primeira daquelas notas à esposa de Finrod Felagund é notável, uma vez que, há muito, nos Anais Cinzentos, a história que emergiu foi de que Felagund não tinha esposa e que "aquela a quem ele amou foi Amarië dos Vanyar, e não foi permitido a ela que partisse com ele ao exílio". Aquela história foi, de fato, abandonada, ou esquecida, mas agora retorna.

Estas notas sobre Celebrimbor filho de Curufin foram a base das passagens introduzidas editorialmente no Silmarillion publicado e no "Sobre os Anéis de Poder". Mas em escrito tardio (1968 ou mais tarde) sob o assunto de palavras Eldarin para "mão" meu pais
escreveu isso:

"Eldarin Comum tinha uma raiz KWAR "pressionar junto, amassar". Um derivativo era *kwara: Quenya quar, Telerin par, Sindarin paur. Esta pode ser traduzida "punho", embora seu uso principal seja em referência a uma mão fortemente fechada como quando no uso de um implemento ou ferramenta ao invés de "punho" no sentido usado em socar. Por exemplo o nome Celebrin-baur> Celebrimbor. Esta era uma forma Sindarizada do Telerin Telperimpar (Quenya Tyelpinquar). Era um nome frequente entre os Teleri, os quais em adição à navegação e construção de navios também eram renomados artífices em prata. O famoso Celebrimbor, heróico defensor de Eregion na guerra da Segunda Era contra Sauron, era um Teler, um dos três Teleri que acompanhou Celeborn no Exílio. Ele era um grande artífice da prata e foi para Eregion atraído pelos rumores do maravilhoso metal encontrado em Moria, prata-de-Moria, para o qual ele deu o nome mithril. No trabalhar desta ele se tornou um rival dos Anões, ou melhor um igual, pois existia grande amizade entre os Anões de Moria e Celebrimbor, e eles dividiam suas habilidades e segredos de artífice. Da mesma forma Tegilbor era utilizado para alguém hábil em caligrafia (tegil era uma forma Sinderizada do Quenya tekil "caneta", não conhecida dos Sindar até a chegada dos Noldor)".

Quanto meu pai escreveu isto ele ignorou a adição ao Apêndice B na Segunda Edição, afirmando que Celebrimbor "era descendente de Fëanor"; sem dúvida ele esqueceu que aquela teoria foi publicada, pois ele certamente se lembrariacaso se sentisse preso a ela. Sobre a afirmação de que Celebrimbor era "um dos três Teleri que acompanharam Celeborn no exílio" veja o Contos Inacabados.

E mesmo aqui neste presente ensaio, de mais ou menos a mesma época das palavras Eldarin para "mão" acima citadas, uma origem radicalmente diferente de Celebrimbor é dada: "um Sinda que afirmava descender de Daeron".]

[8] Elas não aparecem, contudo, nas inscrições no Portão Oeste de Moria. Os Anões diziam que em cortesia aos Elfos que as letras Feanorianas foram utilizadas naquele portão, uma vez que ele se abria para sua região e era principalmente utilizado por eles. Mas os Portões Leste, que foram destruídos na guerra contra os Orks, abriam-se para o mundo aberto e era menos amigável. Ele possuía inscrições Rúnicas em várias línguas: magias de proibição e exclusão em Khuzdul e comandos para que todos que não tivessem a permissão do Senhor de Moria deveriam partir escritos em Quenya, Sindarin, Língua Comum, línguas de Rohan, de Dale e de Dunland.

[Christopher Tolkien: Na margem ao lado do parágrafo a esta altura do texto meu pai escreveu:

“N.B. Foi dito por Elrond nO Hobbit que as Runas foram inventadas pelos Anões e escritas com canetas de prata. Elrond era meio-Elfo e um mestre do conhecimento e da história. Então ou devemos tolerar esta discrepância ou modificar a história das Runas, fazendo a Argenthas Moria grandemente um assunto de invenção dos Anões.”

Em notas associadas a este ensaio eles é visto ponderando o último curso, considerando a possibilidade de que de fato os Anões Barbalonga foram os originais criadores das Runas; e que foi delas que Daeron derivou suas idéias, mas uma vez que as primeiras Runas não eram bem organizadas (e diferiam de uma mansão dos Anões para outra) ele as ordenou em um sistema lógico.

Mas sem dúvida no Apêndice E(II) ele afirmou bastante explicitamente a origem das Runas: “As Cirth foram criadas primeiramente em Beleriand pelos Sindar”. Foi Daeron de Doriath que desenvolveu a “forma mais rica e ordenada” das Cirth, o Alfabeto de Daeron, e seu uso em Eregion levou à sua adoção pelos Anões de Moria, de onde o nome Argenthas Moria. Portanto a inconsistência, se existe uma, dificilmente pode ser removida; mas de fato não existia nenhuma. Eram as “runas da lua” que Elrond declarou (ao final do

 

Círdan

Círdan

CírdanEsse texto é retirado do HoME 12 e os comentários feitos por Christopher Tolkien ao texto de seu pai, J.R.R. Tolkien, encontram-se em itálico 
Este breve manuscrito também é associado com a discussão de Glorfindel: o rascunho• do mesmo é encontrado no verso de uma das páginas do texto Glorfindel II.

Está é apalavra Sindarin para ´Armador´, [29] e descreve sua função posterior na história das Primeiras Três Eras, mas seu nome ´próprio´,isto é, seu nome original entre os Teleri, dos quais ele fazia parte, nunca é utilizado [30]. É dito nos Anais da Terceira Era (c. 1000) que ele poderia ver mais longe e profundamente o futuro do que qualquer um na terra-média [31]. Isto não inclui os Istari (que vieram de Valinor), mas inclui mesmo Elrond, Galadriel e celeborn.

Círdan era um Elfo Telerin, um dos mais nobres daqueles que não foram transportados a Valinor, mas vieram a se tornar os Elfos-cinzentos[32]. Ele era parente de Olwë, um dos dois reis dos Telerin e senhor daqueles que partiram por sobre o Grande Mar. Ele é também parente de Elwë [33], o irmão mais velho de Olwë, aceito como Alto Rei de todos os Teleri em Beleriand, mesmo após ele ter se recolhido ao reino protegido de Doriath. Mas Círdan e seu povo permaneceram de muitas formas distintos do resto dos Sindar. Eles mantiveram o alntigo nome Teleri (em Sindarin tardio [34] Eorm Telir ou Telerrim) e permaneceram de muitas forma um povo à parte, falando, mesmo em tempos posteriores, uma língua mais arcaica [35]. Os Noldor os chamavam Falmari, “povo das ondas”, e outros Sindarin de Falathim, “povo da costa espumante” [36].

Foi durante a longa espera dos Teleri pelo retorno da ilha flutuante, sobre a qual os Vanyar e Noldor foram transportados sobre o Grande Mar, que Círdan direcionou seus pensamentos e habilidade para a construção de barcos, pois ele e todos os demais Teleri se tornaram impacientes. Apesar de tudo é dito que por amor e lealdade aos seus Círdan era o líder daqueles que procuraram longamente por Elwë quando este estava perdido e não foi ao litoral para partir da Terra-média. Assim ele adiou sem maior desejo: ver o Reino Abençoado e encontrar novamente Olwë e seus parentes próximos. Dessa forma ele não atingiu o litoral até praticamente todos os Teleri seguidores de Olwë terem partido.

Então, é dito, ele permaneceu abandonado olhando o mar, e era noite, mas muito distante ele podia ver o brilhar da luz sobre Eressëa antes desta desaparecer no Oeste. Então ele gritou alto: ´Seguirei aquela luz, sozinho se ninguém quiser ir comigo, pois o navio que eu estiveconstruindo está agora quase pronto´. Mas quando ele disse isso recebeu em seu coração uma mensagem, que ele reconheceu vir dos Valar, embora em sua mente ele tenha lembrado como uma voz falando em sua própria língua. E a voz o alertou para não tentar este feito: pois sua força e habilidade não seriam capazes de construir nenhum barco capaz de desafiar os ventos e ondas do Grande Mar ainda por longos anos. ´Permaneça até aquele tempo, pois quando ele chegar seu trabalho será da máxima importância, e será lembrado em canções por muitas eras´. ´Eu obedeço´, Círdan respondeu, e então pareceu a ele ter visto (em uma visão, talvez) uma forma como a de um navio branco, brilhando sobre ele, que navegou para o oeste através do ar, e enquanto diminuia ao longe parecia como uma estrela de brilho tão grande que lançava uma sombra de Círdan sobre a praia onde ele estava.

Como sabemos agora, esta era a previsão do navio que após os ensinamentos de Círdan e com seus conselhos e ajuda, Earendil construiu, e no qual ele finalmente atingiu as prais de Valinor. Daquela noite em diante Círdan recebeu um poder de previsão em todos os assuntos importantes, além da medida de todos os outros Elfos na Terra-média.

Este texto é extraordinário pois por um lado nada é dito sobre a história e importância de Círdan como aparece em outros lugares, enquanto por outro lado quase tudo que é dito aqui é único. Nos “Anais Cinzentos” é dito (XI.8, $14):

Ossë persuadiu muitos a ficarem em Beleriand, e quando o Rei Olwë e seu grupo embarcaram na ilha e passaram sobre o Mar eles permaneceram no litoral, e Ossë retornou a eles e continuou sua amizade com eles. E ele ensinou-os a arte da contrução de navios e da navegação, e eles setornaram um povo de marinheiros, os primeiros da Terra-média.

Mas de Ossë agora não existe menção, a construção de navios no litoral de Beleriand é dito ter começado nos longos anos de espera dos Teleri pelo retorno de Ulmo, e é mencionado como (ver nota 29) como uma evolução de uma arte já desenvolvida entre os teleri durante a Grande
Jornada.

Outras características deste texto que não aparecem em nenhum outrolugar (em adição, claro, da história do desejo de Círdan de cruzar o Mar até Valinor e sua visão do navio branco indo a oeste através da noite, acima dele) são o fato dos teleri terem se demorado nas costas do Mar de Rhun durante a Grande Jornada (nota 29) que Círdan era olíder destes que buscavam por Elwe Thingol, seu parente, e que Eärendil foi ´ensinado´ por Círdan, que o auxiliou na construção de Vingilot.

Notas

29. Mesmo antes de chegarem a Beleriand os Teleri desenvolveram a arteda construção de barcos: primeiro como balsas e logo como barcos com remos em imitação aos pássaros aquáticos dos lagos próximos às suas casas iniciais ou especialmente durante sua longa permanência nos litorias do ´Mar de Rhun´, onde seus navios se tornaram maiores e mais fortes. Mas em todos estes trabalhos Círdan sempre foi o principal e mais inventivo e hábil.

30. Apenas Pengoloh menciona uma tradição entre os Síndar de Doriath de que este era em sua forma arcaica Nowë, cuja significado original é incerto, assim como o de Olwë.

31. [Apêndice B (nota de topo da Terceira Era): ´Pois Círdan via mais longe e mais profundamente do que qualquer outro na Terra-média´ (dito no contexto da entrega de Narya, o Anel de Fogo, a Mithrandir). Esta afirmação aqui na qual é dita ´nos Anais da Terceira Era (c.1000)´ é confusa, mas presumivelmente relatada às palavras da mesma passagem do Apêndice B ´Quando talvez mil anos se passaram... os Istari ou Magos apareceram na Terra-média´.]

32. Um nome Queny dado pelos exilados Noldor, e primariamente aplicado ao povo de Doriath, povo de Elwë Capa-cinzenta.

33. [Que Círdan era um parente de Elwë é mencionado no "Quendi e Eldar"]

34. Este é usado como um termo geral para o dialeto Teleriano do Eldarin, para o que veio a ser depois das mudanças de longos anos em beleriand, embora não seja inteiramente uniforme em seu desenvolvimento.

35. ["Quendi e Eldar": ´Os Eglain tornaram0se um povo de alguma formaseparado dos Elfos do interior, e ao tempo da chegada dos Exilados sua língua era de muitas formas diferente´. (os Eglain eram o povo de Círdan)].

36. [Para Falatrhim ver "Quendi e Eldar"; e sonre Falmari: ´os Elfos do Mar se tornaram em Valinor os Falmari, pois faziam música junto às ondas quebrando na praia.´]

A Nova Sombra (The New Shadow)

Este conto se inicia nos dias de Eldarion, filho daquele Elessar de
quem as histórias têm muito a dizer. Cento e cinco anos se passaram
desde a queda da Torre Negra, e a história daquele tempo é pouco
lembrada pela maioria do povo de Gondor; mas existiam uns poucos que
continuavam vivendo e que se lembravam da Guerra do Anel como uma
sombra sobre o começo de suas infâncias. Um desses era o velho Borlas
de Pen-arduin. Ele era o filho mais novo de Beregond, o primeiro
Capitão da Guarda do Príncipe Faramir, que se mudara com seu senhor da
Cidade para Emyn Arnen.

 
"Realmente profundas são as raízes
do Mal", disse Borlas, "e a força negra é forte nelas. Aquela árvore
nunca será morta. Deixe os homens podá-las tão freqüentemente quanto
possam, elas lançarão brotos tão logo eles virem as costas. Nem mesmo
na Festa da Derrubada deverá o machado ser pendurado na parede!"

"Claramente você pensa estar falando palavras sábias", disse Saelon.
"Suponho isso pela melancolia em sua voz, e pelo balançar de sua
cabeça. Mas sobre o que é tudo isso? Sua vida parece bastante boa
sempre, para um homem idoso que agora não vai muito longe. Onde você
encontrou um galho de sua árvore negra crescendo? Em seu próprio
jardim?"

Borlas levantou os olhos, e enquanto olhava
penetrantemente para Saelon ele imaginou repentinamente se este jovem
homem, geralmente alegre e freqüentemente meio zombeteiro, tinha mais
em sua mente do que transparecia em sua face. Borlas não tinha intenção
de abrir seu coração a ele, e tendo os pensamentos carregados falou em
voz alta, mais para si mesmo do que para seu companheiro. Saelon não
retornou seu olhar. Estava sussurrando suavemente, enquanto cortava um
apito de salgueiro verde com um afiado canivete.
Os dois homens
estavam sentados em uma árvore perto da escarpada margem leste do
Anduin, onde este corria aos pés das colinas de Arnen. Eles de fato
estavam no jardim de Borlas e sua pequena casa de pedras cinzentas
podia ser vista entre as árvores acima deles na inclinação da colina,
voltada para o oeste. Borlas olhou para o rio, e para as árvores com
suas folhas de Junho, e então longe, para as torres da Cidade sob o
brilho do final da tarde. "Não, não em meu jardim", ele disse,
ponderadamente.

"Então porque você está tão preocupado?"
perguntou Saelon. "Se um homem tem um belo jardim com muros fortes,
então ele possui tanto quando qualquer homem pode administrar para seu
próprio prazer". Ele fez um intervalo. "Enquanto mantiver a força da
vida nele", ele acrescentou. "Quando esta falha, porque se preocupar
com qualquer outro mal menor? Pois então ele deverá deixar seu jardim
para sempre em breve, e outros deverão cuidar das ervas daninhas".

Borlas suspirou, mas não respondeu, e Saelon continuou: "Mas existem
com certeza alguns que não se darão por contentes, e ao fim de suas
vidas preocuparão seus corações sobre seus vizinhos, e a Cidade, e o
Reino, e todo o amplo mundo. Você é um deles, Mestre Borlas, e sempre
tem sido, desde que eu o conheci como um garoto que você pegou em seu
pomar. Já naquele tempo você não estava contente em deixar as desgraças
em paz: me deteria com uma surra ou fortaleceria seus muros. Não. Você
ficou pesaroso e quis me melhorar. Você me recebeu em sua casa e falou
comigo.

"Eu recordo disso bem. "Trabalho de Orcs", você
disse muitas vezes. "Roubando boa fruta, bem, eu suponho que não seria
pior do que trabalho de garotos, se eles estão famintos, ou seus pais
são muito libertários. Mas destruir maçãs que não estão maduras para
estragá-las ou jogá-las! Este é um trabalho de Orc. Como você veio a
fazer tal coisa, rapaz?""

"Trabalho de Orcs! Eu estava
irritado por isso, Mestre Borlas, e muito orgulhoso para responder,
embora estivesse no meu coração para dizer em palavras de crianças: "se
é errado para um garoto roubar uma maçã para comer, também é errado
roubar uma para brincar. Mas não mais errado. Não fale para mim sobre
trabalho de Orc, ou eu poderei lhe mostrar algum!""

"Foi um
erro, Mestre Borlas. Pois eu tinha ouvido contos sobre os Orcs e seus
atos, mas eu ainda não tinha me interessado por eles. Você voltou minha
mente para eles. Eu me afastei dos pequenos roubos [meu pai não era
muito libertário], mas eu não esqueci os Orcs. Comecei a sentir ódio e
pensar na doçura da vingança. Nós brincávamos de Orcs, eu e meus
amigos, e algumas vezes eu pensei: "Deveria eu com meu bando ir e
derrubar suas árvores? Então ele iria pensar que os Orcs realmente
retornaram". Mas isso foi há muito tempo atrás", terminou Saelon, com
um sorriso.

Borlas estava assustado. Ele agora estava
recebendo confidências e não fazendo. E existia algo de inquietante no
tom do jovem, algo que o fez perguntar-se se no fundo do coração, tão
profundo quanto as raízes das árvores negras, o ressentimento infantil
não perdurava. Sim, mesmo no coração de Saelon, o amigo de seu próprio
filho, e o jovem que nos últimos poucos anos tinha mostrado a ele muita
bondade em sua solidão. De qualquer modo ele decidiu não lhe dizer mais
nada de seus próprios pensamentos.

"Ah!" ele disse, "todos
nós cometemos erros. Eu não reivindico sabedoria, meu jovem, exceto
talvez aquela pequena que alguém pode acumular com o passar dos anos.
Sei muito bem a triste verdade de que aqueles que tem boas intenções
podem causar mais mal do que aquelas pessoas que deixam as coisas
acontecerem. Sinto muito agora pelo que eu disse, se provocou ódio em
seu coração. Embora eu continue achando o mesmo: fora de hora talvez,
mas ainda verdade. Certamente mesmo um garoto precisa compreender que
fruta é fruta, e não alcança seu pleno existir até estar madura; então
fazer mau uso dela antes de madura é pior do que apenas roubá-la do
homem que a está cuidando: pois rouba o mundo, impedindo uma boa coisa
de se concretizar. Aqueles que assim o fazem estão unindo forças com
tudo que está fora de ordem, com as geadas e feridas e os ventos ruins.
E este é o estilo dos Orcs."

"E é o estilo dos homens
também," disse Saelon. "Não! Eu não quero dizer dos homens selvagens
apenas, ou aqueles que cresceram "sob a sombra", como dizem. Quero
dizer todos os Homens. Eu não faria mau uso de frutas verdes agora, mas
apenas porque eu não tenho mais nenhum uso para maçãs verdes, nem para
suas orgulhosas razões, Mestre Borlas. E realmente eu acho que suas
razões são tão enfermas quanto uma maçã que ficou muito tempo na loja.
Para as árvores todos os Homens são Orcs. Os Homens consideram a
concretização da história da vida de uma árvore antes de cortá-la? Pois
não importa o propósito: para ter espaço para lavoura, para usar sua
madeira em construções ou como combustível, ou meramente para abrir a
vista? Se as árvores fossem os juízes, poderiam colocar os Homens acima
dos Orcs, ou realmente acima das geadas e feridas? O que é mais
correto, elas poderiam perguntar, ter Homens se alimentando de sua
seiva ou as geadas?

"Um homem," disse Borlas, "que cuida de
uma árvore e a guarda das geadas e muitos outros inimigos não atua como
um Orc ou uma ferida. Se ele come sua fruta, ele não comete um dano.
Ela produz frutas mais abundantemente que suas necessidades para seu
próprio propósito: a continuação de sua própria espécie."

"Deixe-o comer a fruta então, ou brincar com ela," disse Saelon. "Mas
eu falei de matar, cortando ou queimando; e por qual direito os homens
fazem estas coisas às árvores."

"Não, você não falou. Você
falou do julgamento das árvores nesses assuntos. Mas árvores não são
juízes. Os filhos do Único são os mestres. Meu julgamento como um deles
você já conhece. Os males do mundo não estavam a princípio no grande
Tema, mas entraram com as desarmonias de Melkor. Os Homens não surgiram
com estas desarmonias; eles entraram depois como uma coisa nova,
diretamente de Eru, o Único, e então ele foram chamados Seus filhos, e
como tudo que estava no Tema eles possuem, para seu próprio bem, o
direito de usar todas as coisas corretamente, sem orgulho ou malícia,
mas com reverência.

"Se o menor dos filhos de um lenhador
sente o frio do inverno, a mais orgulhosa árvore não ficará ofendida se
for ordenada a ceder sua madeira para aquecer com fogo uma criança. Mas
a criança não pode estragar a árvore com brincadeiras ou malvadezas,
cortar sua casca ou quebrar seus galhos. E o bom lavrador usará
primeiro, se ele puder, madeira morta ou uma árvore velha; ele não
derrubará uma árvore jovem e a deixará apodrecer, sem outra razão a não
ser em seu prazer em lidar com o machado. Isto é Órquico!"

"Mas é sempre como eu disse: as raízes do Mal são profundas, e de longe
vem o veneno que trabalha em nós; por isso, tantos fazem estas coisas
de vez em quando, e tornam-se então realmente como os servos de Melkor.
Mas os Orcs fazem estas coisas todo o tempo; ferem com prazer todas as
coisas que podem sofrer, e são refreados apenas pela falta de poder,
não por prudência ou piedade. Mas já falamos o suficiente sobre isto."

"Por quê!" disse Saelon. "Nós apenas começamos. Não era sobre seu
pomar, nem suas maçãs, nem sobre mim que você estava pensando quando
falou do reaparecimento da árvore negra. Sobre o que você estava
pensando, Mestre Borlas, eu posso adivinhar, apesar de tudo. Eu tenho
olhos e ouvidos, e outros sentidos, Mestre." Sua voz diminuiu e
dificilmente podia ser ouvida sobre o murmúrio de um repentino vento
frio nas folhas, enquanto o sol se punha além de Mindolluin. "Você
então ouviu o nome?" Com pouco mais que um sopro ele formou as
palavras. "De Herumor?"

Borlas olhou para ele com surpresa e medo. Sua boca fez alguns movimentos trêmulos de fala, mas nenhum som veio dela.

"Vejo que ouviu," disse Saelon. "E você parece supreso ao perceber que
eu ouvi sobre ele também. Mas você não está mais surpreso do que eu ao
ver que este nome chegou até você. Pois, como eu digo, eu tenho olhos e
ouvidos aguçados, mas os seus estão agora turvos mesmo para o uso
diário, e o assunto tem sido mantido tão secreto quanto os perspicazes
conseguem."

"Quais perspicazes?" disse Borlas, repentina e
impetuosamente. A visão de seus olhos poderia ser turva, mas eles agora
queimavam com fúria.

"Por quê, aqueles que ouviram o
chamado do nome, claro," respondeu Borlas sem se perturbar. "Eles não
são muitos ainda, para or contra todo o povo de Gondor, mas o número
está aumentando. nem todos estão contentes desde que o Grande Rei
morreu, e alguns agora estão com medo."

"Então, como eu
supus," disse Borlas, "e este é o pensamento que esfria o calor do
verão em meu coração. Pois um homem pode ter um jardim com muros
fortes, Saelon, e mesmo assim não encontrar paz ou satisfação ali.
Existem alguns inimigos que tais muros não manterão afastados; pois seu
jardim é apenas parte de um reino protegido, apesar de tudo. É para os
muros do reino que devemos olhar para sua defesa verdadeira. Mas qual é
o chamado? O que ele poderiam fazer?" ele clamou, colocando sua mão no
joelho do jovem.

"Irei fazer uma pergunta antes de
responder a sua," disse Saelon; e agora ele olhava de forma penetrante
para o velho homem. "Como você, que senta-se aqui no Emyn Arnen e
raramente sai mesmo para a Cidade – como você ouviu os sussuros do nome
dele?"

Borlas olhou para o chão e prendeu duas mãos entre
os joelhos. Por algum tempo ele não respondeu. Finalmente ele olhou
para cima novamente; sua face tinha se enrijecido e seus olhos estavam
mais desconfiados. "Eu não responderei esta pergunta, Saelon," ele
disse. "não antes de eu ter feito a você outra pergunta. Primeiro me
diga," disse ele lentamente, "você é uma daqueles que atenderam ao
chamado?"
Um estranho sorriso tremeluziu pela boca do jovem.
"Ataque é a melhor defesa," ele responder, "ou pelo menos assim nos
ensinou o Capitão; mas quando ambos os lados utilizam este conselho
existe um confronto de batalha. Portanto irei contra você. Não
responderei a você, Mestre Borlas, até que você me diga: você é uma
daqueles que atendeu ao chamado, ou não?"

"Como pode pensar isso?" gritou Borlas.

"E como você pode pensar isso?" perguntou Saelon.

"Quanto a mim," disse Borlas, "todas as minhas palavras não te deram a resposta?"

"Mas quando a mim, você poderia dizer," disse Saelon, "minha palavras
me fazem duvidável? Porque eu defendi um pequeno menino que jogou maçãs
verdes em seus companheiros de jogo em nome de Orcs? Ou porque eu falei
do sofrimento das árvores nas mãos dos homens? Mestre Borlas, não é
sábio julgar o coração de um homem pelas palavras ditas em argumento
sem respeito pelas suas opiniões. Ela podem ter sido ditas para
perturbá-lo. Arrogante talvez, mas possivilmente melhor do que mera
imitação. Eu não duvido que muitos daqueles que falam usam palavras tão
solenes quanto as suas, e falam reverentemente do Grande Tema e tais
coisas – na sua presença. Então, quem deverá responder antes?"

"O mais jovem deverá fazê-lo em cortesia ao idoso," disse Borlas; "ou
entre homens considerados iguais, aquele a quem foi perguntado
primeiro. Você é ambos."

Saelon sorriu. "Muito bem," ele
disse. "Deixe-me ver: a primeira questão que você fez e ficou sem
resposta foi: o que é o chamado, o que eles podem fazer? Você não pode
encontrar nenhuma resposta no passado com toda sua idade e
conhecimento? Eu sou jovem e menos instruído. Contudo, se você
realmente deseja saber, eu talvez possa fazer os sussuros mais claros a
você."

Ele se levantou. O sol tinha se posto por trás das
montanhas; as sombras estavam se aprofundando. O muro oeste da casa de
Borlas no lado da colina estava amarelado no vermelhidão do pôr-do-sol,
mas o rio estava escuro. Ele olhou para o céu, e então para o Anduin.
"É uma bela e tranquila tarde," ele disse, "mas o vento está mudando
para o leste. Existirão nuvens cobrindo a lua esta noite."

"Então, porque tudo isso?" disse Borlas, tremendo um pouco enquanto o
ar esfriava. "A menos que você apenas queira dizer a um velho homem
para se apressar para dentro de casa e poupar seus ossos da dor." Ele
levantou-se e viou-se para o caminho da casa, pensando que o jovem não
tinha intenção de dizer mais nada; mas Saelon parou junto a ele e
pousou uma mão em seu braço.

"Eu te previno para se vestir
bem após o anoitecer," ele disse. "Isto é, se você deseja aprender
mais; pois se deseja, virá comigo em uma jornada esta noite. Eu irei
encontrá-lo no portão leste, atrás da sua casa; ou pelo menos deverei
passar por aquele caminho tão logo esteja completamente escuro, e você
poderá vir comigo ou não, como quiser. Eu estarei vestido de preto, e
qualquer um que vá comigo deve estar vestido da mesma maneira. Adeus
por agora, Mestre Borlas! Aconselhe-se consigo mesmo enquanto a luz
perdura."

Por algum tempo depois de Saelon ter ido embora,
Borlas permaneceu parado, com os olhos fechados e descansando sua testa
contra a casaca de uma árvore ao lado do caminho. Enquanto permanecia
parado procurava em sua mente como esta estranha e alarmante conversa
tinha começado. O que ele faria após o cair da noite ele inda não
considerara.

Ele não estiva de bom humor desde a primavera,
embora suficientemente bem de corpo para sua idade, que o
sobrecarregava menos que sua solidão. Desde que seu filho, Berelach,
tinha se ido novamente em abril – ele estava nos Navios, e agora vivia
a maior parte do tempo perto de pelargir, onde seu trabalho estava -
Saelon tinha sido mais atencioso, a qualquer hora que estivesse em
casa. Ele viaja muito pelo reino atualmente. Borlas não estava certo de
seus negócios, embora ele compreendesse que, entre outros interesses,
ele negociava com madeira. Ele trouxera notícias de todo o reino para
seu velho amigo. Ou para o velho pai de seu amigo; pois Berelach tinha
sido sua constante companhia a certo tempo, embora aparentemente se
encontravam raras vezes hoje em dia.

"Sim, é isso," Borlas
disse para si mesmo. "Eu falei para Saelon de Pelargir, citando
Berelach. Ocorreram algumas pequenas inquietações no Ethir: alguns
marinheiros desapareceram, e também uma pequena embarcação da Esquadra.
Nada demais, de acordo com Berelach.
"A paz torna as coisas
frouxas," ele disse, eu me lembro, na voz de um sub-oficial. "Bem, eles
se foram em alguma brincadeira de si próprios, eu suponho – amigos em
um dos portos mais ocidentais, talvez – sem permissão e sem um piloto,
e afundaram. Serviu muito bem para eles. Nós temos tão poucos
marinheiros de verdade nestes dias. Peixe é mais rentável. Mas pelo
menos todos sabem que as costas ocidentais não são seguras para os
amadores."

"E foi tudo. mas eu falei disso para Saelon, e
perguntei se ele tinha ouvido alguma coisa disso no sul. "Sim," ele
disse, "Eu ouvi. Poucos ficaram satisfeitos com a visão oficial. Os
homens não eram amadores; eram filhos de pescadores. E não tem havido
tempestades fora do litoral há muito tempo.""

Enquanto
ouvia Saelon dizendo isto, repentinamente Borlas lembrou os outros
rumores, os rumores de que Othrondir falara. Era ele que costumava usar
a palavra "ferida". E então, meio que para si mesmo, Borlas falou em
voz alta sobre a �?rvore Negra.

Ele abriu seus olhos e
acariciou o formoso tronco da árvore onde tinha se apoiado, olhando
para cima para suas folhas sombrias contra o claro céu pálido. Uma
estrela brilhou por entre os galhos. Suavemente ele falou novamente,
como se para a árvore.

"Então, o que será feito agora?
Claramente Saelon está envolvido. Mas isto é claro? Existia o som de
zombaria em suas palavras, e escórnia da vida ordenada dos Homens. Ele
não responderia uma questão direta. As roupas negras! E ainda – porque
me convidar para ir com ele? Não para converter o velho Borlas!
Imprestável. Inútil tentar: ninguém poderia esperar vencer um homem que
se lembrava do Mal de antigamente, não importa quão distante. Inútil se
tiver sucesso: o velho Borlas não possui mais uso como ferramenta para
nenhuma mão. Saelon pode estar tentando bancar o espião, procurando
encontrar o que se esconde por detrás dos murmúrios. Preto pode ser um
disfarce, ou um auxílio para se esconder à noite. Mas novamente, o que
poderei fazer para ajudar em qualquer segredo ou missão perigosa? Eu
estaria melhor fora do caminho."

Com isso um pensamento
gélido tocou o coração de Borlas. Colocar fora do caminho – seria isso?
Ele seria atraído para algum lugar onde ele poderia desaparecer, como
os marinheiros? O convite para ir com Saelon foi dado apenas depois de
ter se assustado em revelar que sabia sobre os murmúrios – tendo até
mesmo ouvido o nome. E ele havia declarado sua hostilidade.

Este pensamento decidiu Borlas, e ele sabia que ele estava decidido
agora a fica de pe, vestido de preto, no portão, à primeira escuridão
da noite. Ele fora desafiado, e aceitaria. Ele bateu a palma de sua mão
contra a árvore. "Eu não estou caduco ainda, Neldor," ele disse; "mas a
morte não está tão longe que eu vá perder muitos bons anos, se eu
perder o jogo".

Ele aprumou suas costas e ergue a cabeça, e
caminhou pelo caminho, lenta mas firmemente. O pensamento cruzou sua
mente antes de pisar na soleira da porta: "talvez eu tenha sido
preservado por tanto tempo para este propósito: aquele que deve
continuar vivo, saudável em mente, que lembra o que se pasosu antes da
Grande Paz. O olfato possui uma longa memória. Eu acho que eu poderia
sentir o cheiro do antigo Mal, e conhecê-lo pelo que ele é."

A porta sob a varanda estava aberta; mas a casa atrás estava na
escuridão. Aparentemente não havia nenhum dos sons costumeiros do
anoitecer, apenas um silêncio frágil, um silêncio morto. Ele entrou, um
pouco surpreso. Ele chamou, mas não houve resposta. Ele parou na
estreita passagem que passava através da casa, e parecia que ela estava
envolvida em escuridão: nenhum vislumbre do crepúsculo do mundo lá fora
permanecia aqui. Repentinamente ele sentiu, ou assim pareceu, pois
vinha como se fosse de além dos sentidos: ele sentiu o cheiro do antigo
Mal e o conheceu pelo que ele era.

 
[tradução de Fábio 'Deriel' Bettega] 
Glorfindel

Glorfindel

No verão de 1938, quando meu pai estava refletindo sobre O Conselho de Elrond no O Senhor dos Anéis, ele escreveu: ‘Glorfindel fala de sua origem em Gondolin’ [VI.214]. Mais de trinta anos depois ele levantou a questão se Glorfindel de Gondolin e Glorfindel de Valfenda eram realmente um e o mesmo, e esta foi discutida em duas discussões, junto com outros escritos breves ou fragmentários associados com eles. Eu irei me referir a estes como ‘Glorfindel I’ e ‘Glorfindel II’. A primeira página de Glorfindel I está faltando, e a segunda página começa com as palavras ‘como guardas ou assistentes’. Então se segue:
Um Elfo que conhecesse a Terra-média e tivesse lutado nas longas guerras contra Melkor seria uma companhia realmente adequada para Gandalf. Nós podemos então razoavelmente supor que Glorfindel [possivelmente como um de um pequeno grupo, mais provavelmente como uma companhia única] desembarcou com Gandalf-Olórin por volta de 1000 da Terceira Era. Esta suposição pode realmente explicar o ar de poder especial e santidade que cercava Glorfindel – percebava como o Rei-Bruxo fugiu dele, enquanto todos os outros [como o Rei Eárnur] embora corajosos não conseguiam fazer seus cavalos encará-lo [Apêndice A [I, iv]]. De acordo com os registros [completamente independente deste caso] sobre a natureza Élfica dados em outro local, e suas relações com os Valar, quando Glorfindel foi morto seu espírito foi para Mandos e foi julgado, e então permaneceu nos Salões de Espera até que Manwë lhe concedesse liberdade. Os Elfos eram por natureza destinados a serem ‘imortais’, até os limites desconhecidos da vida na Terra como um mundo habitável, e seus desligamentos corporais eram mortificantes. Era o dever dos Vala, então, restaurá-los, se eles fossem mortos, para a vida encarnada, se eles assim o desejassem – a não ser por alguma razão grave [e rara]: como os feitos de grande mal, ou quaisquer feitos de malícia dos quais permanecessem obstinadamente sem arrependimento. Quando eles eram re-incorporados eles podiam permaneceer em Valinor ou retornar para a Terra-média se seu lar tivesse sido lá. Nós podemos então razoavelmente supor que Glorfindel, após a purificação ou perdão de sua parte na rebelião dos Noldor, foi liberto de Mandos e tornou-se ele mesmo novamente, mas permaneceu no Reino Abençoado – pois Gondolin foi destruída e todos ou a maioria de seus parentes tinham perecido. Nós podemos dessa forma compreender porqeu ele parecia uma figura tão poderosa e quase ‘angelical’. Pois ele tinha retornado à primitiva inocência dos Primogênitos, e tinha então vivido entre aqueles Elfos que nunca se rebelaram, e em companhia dos maiar por eras: desde os últimos anos da Primeira Era, através da Segunda Era até o final do primeiro milênio da Terceira Era: antes dele retornar à Terra-média. É também bastante provável que ele já em Valinor tenha se tornado um amigo e um seguidor de Olórin. Mesmo nos breves vislumbres dados sobre ele em O Senhor dos Anéis ele aparece como especialmente preocupado com Gandalf, e foi um [o mais poderoso, ao que parece] daqueles mandados de Valfenda quando as preocupantes notícias de que Gandalf não reaparecera para guiar ou proteger o Portador do Anel chegaram a Elrond.O segundo ensaio, Glorfindel II, é um texto de cinco páginas manuscritas que sem dúvida segui-se ao primeiro depois de um curto intervalo; mas um pedaço de papel no qual meu pai apressadamente colocou alguns pensamentos sobre a matéria presumivelmente veio entre eles, visto que ele disse ali que enquanto gandalf poderia ter vindo com Gandalf, ‘parece bem mais verossímel que ele tenha sido mandado na crise da Segunda Era, quando Sauron invadiu Eriador, para auxiliar Elrond, e embora não [ainda] mencionado nos anais relatando a derrota de Sauron ele representou um notável e heróico papel na guerra.’ Ao final desta nota ele escreveu as palavras ‘navio Numenoriano’, presumivelmente indicando como Glorfindel poderia ter cruzado o Grande Mar.Seu nome é de fato derivado do mais antigo trabalho na mitologia: A Queda de Gondolin, escrito em 1916-1917, no qual a linguagem Élfica que no final das contas tornou-se aquela do tipo conhecido como Sindarin estava em uma forma primitiva e desorganizada, e sua relação com o tipo chamado Alto Élfico [por si mesmo bastante primitivo] ainda era aleátorio. A intenção era que significasse ‘Tranças Douradas’, e foi o nome dado ao ‘Gnomo’ [Noldo] heróico, um líder de Gondolin, que na passagem de Cristhorn [‘abismo das �?guias’] lutou com um Balrog [>Demônio], a quem ele matou ao custo de sua própria vida.Seu uso em O Senhor dos Anéis é um dos casos do uso de alguma forma aleatório dos nomes encontrados nas antigas lendas, agora conhecidas como sendo O Silmarillion, e que escapou à reconsideração na versão final publicada de O Senhor dos Anéis. Isto é desafortunado, uma vez que agora o nome é difícil de encaixar no Sindarin, e possivelmente não pode ser Quenyarin. Também na agora organizada mitologia, dificuldades estão presentes nas coisas anotadas sobre Glorfindel em O Senhor dos Anéis, se Glorfindel de Gondolin é supostamente a mesma pessoa que Glorfindel de Valfenda.

Como mencionado anteriormente: ele foi morto na Queda de Gondlin ao final da Primeira Era, e se um líder daquela cidade deveria ser um Noldo, um dos Senhores Élficos na tropa do Rei Turukáno [Turgon]; de qualquer maneira quando A Queda de Gondolin foi escrito ele certamente foi pensado como um. Mas os Noldor em Beleriand eram exilados de Valinor, tendo se rebelado contra a autoridade de Manwë, supremo líder dos Valar, e Turgon fora um dos apoiadores mais determinados e sem arrependimento da rebelião de Fëanor. Não há’como escapar disso. Gondolin no O Silmarillion é dita ter sido construída e ocupada por um povo de origem quase inteiramente Noldorin. Poderia ser possível, embora inconsistente, supor que um príncipe de origem Sindarin uniu-se à tropa de Turgon, mas isto iria contradizer inteiramente o que é dito de Glorfindel em Valfenda em O Senhor dos Anéis, onde é dito ele ser um dos ‘senhores dos Eldar de além do mais distantes mares… que havia morado no Reino Abençoado.’ Os Sindar nunca haviam deixado a Terra-média.

Esta dificuldade, muito mais séria que a linguística, deve ser considerada primeiro. De qualquer modo a solução mais simples à primeira vista deve ser abandonada: aquela na qual temos uma mera duplicação de nome, e que Glorfindel de Gondolin e Glorfindel de Valfenda são pessoas diferentes. Esta repetição de um nome tão impressionante, embora possível, não é crível. Nenhum outro personagem de destaque nas lendas Élficas como relatadas em O Silmarillion e O Senhor dos Anéis tem um nome usado por outra personalidade Élfica de importância. Também pode ser percebido que a aceitação de Glorfindel de antigamente e da Terceira Era realmente explica o que é dito dele e aprimora a história.

Quando Glorfindel de Gondolin foi morto seu espírito deveria, de acordo com as leis estabelecidas pelo Um, ser obrigado a retornar imediatamente para a terra dos Valar. Lá então ele deveria ser julgado, e permaneceria nos ‘Salões de Espera’ até que Manwë lhe concedesse perdão. Elfos foram destinados a serem ‘imortais, isto é não morrer dentro dos limites desconhecidos estabelecidos pelo Um, que no máximo seria até o fim da vida da Terra como um mundo habitável. Suas mortes – por qualquer ferimento a seus corpos que fosse tão severo que não pudesse ser curado – e o desligamento corporal de seus espíritos era um assunto ‘não-natural’ e doloroso. Era então dever dos Valar, por comando do Um, restaurá-los à vida encarnada, se assim o desejassem. Mas esta ‘restauração’ poderia ser adiada por Manwë, se o fëa enquanto vivo tivesse cometido atos malignos e recusado a se arrepender deles, ou ainda mantinha qualquer malícia contra qualquer outra pessoa entre os vivos.

Agora Glorfindel de Gondolin era um dos Noldor exilados, rebeldes contra a autoridade de Manwë, e eles estavam todos sob a proibição imposta por ele: eles não poderiam retornar em forma corpórea ao Reino Abençoado. Manwë, contudo, não estava preso à suas próprias regrasm e sendo o governante supremo do Reino de Arda poderia colocá-las de lado, quando desejasse. Pelo que é dito em O Silmarillion e O Senhor dos Anéis é evidente que ele era um Elda de espírito nobre e elevado e pode-se assumir que, embora tenha deixado valinor na tropa de Turgon, então incorrendo na proibição, ele o fez relutantemente devido ao parentesco e lealdade para com Turgon , e não teve parte no fratricídio de Alqualondë.

Mais importante: Glorfindel sacrificou sua vida na defesa dos fugitivos das ruínas de Gondolin contra um Demônio saído de Thangorodrim, e assim permitindo Tuor e Idril filha de Turgon e seus filho Eärendil escapar, e buscar refúgio nas Bocas do Sirion. Apesar dele não ter sabido a importância disto [e teria defendido-os mesmo eles sendo fugitivos de qualquer nível], este feito foi de vital importância para os desígnios dos Valar. É então inteiramente para manter o propósito geral de O Silmarillion a descrição da história subsequente de Glorfindel. Após a purificação de qualquer culpa que ele tivesse assumido na rebelião, ele foi liberto de Mandos, e Manwë o restaurou. Ele tornou-se então novamente uma pessoa vivente encarnada, e foi-lhe permitido morar no Reino Abençoado; pois ele tinha recuperado a graça e inocência primordial dos Eldar. Por longos anos ele permaneceu em valinor, em reunião com os Eldar que não se rebelaram, e em companhia dos Maiar. Para estes ele tinha se tornado quase um igual, pois embora ele fosse um encarnado [para quem uma forma corporal não feita ou escolhida por si mesmo é necessária] seu poder espiritual foi grandemente aumentado pelo seu auto-sacrifício. Em algum momento, provavelmente no início de sua residência provisória em Valinor, ele tornou-se um seguido, e um amigo, de Olórin [Gandalf], que como é dito em O Silmarillion tinha um amor e preocupação especiais pelos Filhos de Ilúvatar. Aquele Olórin, como era possível a um dos Maiar, já tinha visitado a Terra-média e tinha conhecido não apenas os Elfos Sindarin e outros no âmago da Terra-média, mas também com os Homens, mas nada é [>ainda foi] dito sobre isto.

Glorfindel permaneceu no Reino Abençoado, sem dúvida a princípio por sua própria escolha: Gondolin fora destruída, e todos os seus parentes tinham perecido, e estavam nos Salões de Espera inacessíveis pelos vivos. Mas sua longa residência temporária durante os últimos anos da Primeira Era, e pelo menos vários anos na Segunda Era, sem dúvida estavam de acordo com os desejos e desígnios de Manwë.

Quanto então Glorfindel retornou para a Terra-média? Isto deve provavelmente ter ocorrido antes do final da Segunda Era, e a ‘Mudança do Mundo’ e o Afundamento de Númenor, após o que nenhuma criatura viva corpórea, ‘humana’ ou de tipos inferiores poderia retornar dos Reinos Abençoados que haviam sido ‘removidas dos Círculos do Mundo’. Isto de acordo com uma regra geral procedente de Eru; e de qualquer forma, até o final da Terceira Era, quando Eru decretou que o Domínio dos Homens deveria começar, Manwë poderia ter recebido a permissão de Eru para fazer uma exceção em seu caso, e para ter planejado alguns modos de transporte para Glorfindel até a Terra-média, isto é improvável e faria de Glorfindel ter poder e importâncias maiores do que parecia ajustar-se a ele.

Nós então podemos melhor supor que Glorfindel retornou durante a Segunda Era, antes que a ‘sombra’ se estendesse em Númenor, e enquanto os Numenorianos ainda eram saudados pelos Eldar como poderosos aliados. Seu retorno deve ter sido para o propósito de fortalecer Gil-galad e Elrond, quando crescente mal das intenções de Sauron foi finalmente percebido por eles. Poderia, então, ter sido tão cedo quanto 1200 da Segunda Era, quando Sauron veio em pessoa para Lindon e tentou ludibriar Gil-galad, mas foi rejeitado e mandado embora. Mas poderia ter sido, talvez mais provavelmente, tão tarde quanto 1600, o Ano do Terror, quando Barad-dûr foi completada e o Um Anel forjado, e Celebrimbor finalmente tomou consci6encia da armadilha em que caíra. Pois em 1200, embora cheio de ansiedade, Gil-galad sentia-se forte e capaz de lidar com Sauron com descaso. E também a este tempo seus aliados Numenorianos tinham começado a fazer portos permanentes para seus grandes navios, e também muitos deles tinham começado a morar lá definitivamente. Em 1600 tornou-se claro a todos os líderes dos Elfos e Homens [e Anões] que a guerra contra Sauron era inevitável, agora desmascarado como um novo Senhor Escuro. Eles então começaram a se preparam para seu ataque; e sem dúvida mensagens e pedidos urgente por ajuda foram recebidos em Númenor [e em Valinor].

O texto acaba aqui, sem indicação de que está incompleto, embora a ‘dificuldade linguística’ a que ele se refere não foi levantada.

Escrito ao mesmo tempo que os textos ‘Glorfindel’ existe uma discussão da reincarnação Élfica. Ele tem duas versões, uma um rascunho bastante bruto [parcialmente escritos de fato no manuscrito de Glorfindel I] em relação ao outro. Este texto não está incluído aqui, exceto sua parte conclusória, que se refere à crença dos Anões no renascimento ou reaparição de seus pais, mais notavelmente Durin. Eu entrego esta passagem na forma em que está no rascunho original. Ela foi escrita rapidamente [com pontuação omitida, e formas variantes ou frases atropelando0se umas às outras] que na versão impressa que se segue não foi de modo algum transportada; mas são anotados pensamentos emergentes de uma matéria relativa à qual muito pouco é encontrada nos escritos de meu pai.

Esta falsa noção está conectada com várias idéias estranhas que tanto Elfos quanto Homens tinham em relação aos Anões, as quais eram de fato grandemente derivadas dos próprios Anões. Pois os Anões afirmavam que os espíritos dos Sete Pais de suas raças de tempos em tempos renasciam entre seus clãs. Isto é notável principalmente no caso da raça dos barbalongas cujo antepassado primeiro era chamado Durin, um nome tomados de tempo sme tempos por um de seus descendentes, mas não por outros exceto aquels em linha direta de descendência de Durin I. Durin I, o mais antigo dos pais, ‘acordou’ a muito tempo atrás na Primeira Era [suipostamente logo após o despertar dos Homens], mas na Segunda Era vários outros Durin apareceram como reis dos barbalongas [Anfagrim]. Na Terceira Era Durin VI foi morto por um Balrog em 1980. Foi profetizado [pelos Anões], quando Daín Pé-de-Ferro assumiu a realeza em 2941 da Terceira Era [após a Batalha dos Cinco Exércitos], que na sua linha direta apareceria um dia um Durin VII – mas ele seria o último. Sobre estes Durin os Anões reportaram que eles retinham na memória suas vidas anteriores como Reis, como se fosse real, e natualmente incompleta, como se eles tivessem vivido anos consecutivos como uma única pessoa.

Como isto poderia ter chegado ao Elfos não é conhecido; nem os Anões falam muito mais sobre o assunto. Mas os Elfos de Valinor conhecem um estranho conto sobre a origem dos Anões, o qual os Noldro trouxeram para a Terra-média, e declaram que o aprenderem do próprio Aulë. Este poderá sem encontrado entre vários assuntos menores encluídos em notas dou apêndices de O Silmarillion, e não é relatado completamente aqui. Para o presente propósito é suficiente recordar que o criador direto da raça dos Anões foi o Vala Aulë.

Aqui está uma breve versão da lenda da Criação dos Anões, a qual eu omiti; meu pai escreveu no texto: ‘Não é o lugar para contar a história de Aulë e os Anões.’ A conclusão então se segue:

Os Anões acrescenta que àquele tempo Aulë conquistou para eles este privilégio que os distinguia dos Elfos e dos Homens: que os espíritos de cada um dos Pais [como Durin] poderiam, ao final da longa duração da vida destinada aos Anões, adormeceriam, e então descansariam em um túmulo de seus próprios corpos, em descanso, e ali seus cansaços e ferimento que sofreram seriam curados. Então após longos anos eles deveriam acordar e tomar sua realeza novamente.

A segunda versão é bem mais breve, e sobre a questão do ‘renascimento’ dos pais diz apenas: ‘… a reaparição, a longos intervalos, da pessoa de um dos Pais dos Anões, nas linhas de seus reis – especialmente Durin – não é, quando examinada, provavelmente um caso de renascimento, mas da preservação do corpo de um prévio Rei Durin [é dito] para o qual a certos intervalos seu espírito retorna. Mas as relações dos Anões com os valar e especialmente com o Vala Aulë são [ao que parece] bastante diferentes daquelas de Elfos e Homens.’

[Tradução de Fábio Bettega]

History of Middle-earth XII – The Peoples of Middle-earth

Pois é, tudo acaba, até as coisas que parecem inacabáveis – como a série History. Mas tudo bem, o final é em grande estilo. "The Peoples of Middle-earth" (Os Povos da Terra-média), por trás do título assumidamente genérico, traz mais testemunhos memoráveis do gênio criativo tolkieniano – a começar pela contracapa, com a reprodução de um belíssimo manuscrito, iluminado (ou seja, ilustrado) à maneira medieval pelo próprio autor.
 

Os textos voltam a "O Senhor dos Anéis", com a relato de como se desenvolveram os Apêndices da saga. Há coisas como a única genealogia conhecida dos príncipes de Dol Amroth (incluindo os filhos de Imrahil) e até uma raridade: o prefácio de "O Senhor dos Anéis" que existia na primeira edição, com um tom muito mais pessoal que o conhecido por nós (sempre reservado, Tolkien achou que devia alterar isso).

Há também uma série de interessantes ensaios filológicos e históricos. Um deles revela detalhes inéditos sobre a história dos Anões, inclusive os nomes de suas sete casas, além de uma grande aliança entre eles e os antepassados dos Rohirrim durante a Segunda Era. Outro mostra como uma simples desavença sobre a pronúncia das palavras aumentou ainda mais a rixa entre os partidários de Fëanor e os demais Noldor.

Mas as coisas mais legais são provavelmente dois textos curtos e inacabados, que deixam um terrível gostinho de "quero mais". São "The New Shadow" (A Nova Sombra, disponível na Valinor), com a continuação nunca terminada de "O Senhor dos Anéis", e "Tal-Elmar", com um raríssimo relato da chegada dos numenorianos à Terra-média vista pelos olhos dos Homens Selvagens.