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A Lenda do Despertar dos Quendi (Cuivienyarna)

sil-cuivienenEnquanto seus primeiros corpos estavam sendo feitos da “carne de Arda”, os quendi dormiam “no seio da terra”, debaixo  do verde gramado, e despertaram quando tornaram-se adultos. Mas os Primeiros Elfos [também chamados de Não-Nascidos, ou Nascidos de Eru] não acordaram todos ao mesmo tempo. Eru havia então determinado que cada um deveria estar ao lado de seu/sua “parceiro[a] destinado”. Mas três elfos despertaram antes de todos, e eles eram elfos homens, pois elfos homens são mais fortes fisicamente e mais ávidos e aventureiros em lugares estranhos. Estes três pais elfos são chamados nos contos antigos Imin, Tata e Enel. Eles despertaram nessa ordem, mas com pouca diferença de tempo entre cada um; e a partir deles, dizem os eldar, as palavras um, dois e três foram feitas: os mais antigos de todos os numerais.*

* As palavras eldarin a que se refere são min, atta [ou tata] e nel. O oposto é provavelmente histórico. Os Três não possuiam nomes até que desenvolveram uma linguagem, e nomes foram dados [ou tomados] após eles terem desenvolvidos numerais [ou pelo menos os doze primeiros].

Imin, Tata e Enel despertaram antes de suas esposas,e a primeira coisa que eles viram foram as estrelas, pois acordaram no crespúsculo anterior ao amanhecer. E a próxima coisa que viram foram suas esposas destinadas dormindo no gramado verde junto a eles. Eles então ficaram tão encantados com a beleza delas que seu desejo pela fala foi imediatamente acelerado e eles começaram a “pensar em palavras” para falar e cantar. E sendo impacientes, eles não podiam esperar, então acordaram suas esposas. Assim, os eldar dizem, a primeira coisa que cada mulher elfo viu foi seu esposo, e seu amor por ele foi seu primeiro amor; e seu amor e admiração pelas maravilhas de Arda veio posteriormente.

Ora, depois de um tempo, no qual viveram juntos, e inventaram muitas palavras, Imin e Iminyë, Tata e Tatië, Enel e Enelyë caminharam juntos, e deixaram o verde gramado de seu despertar, e logo eles chegaram a outro gramado ainda maior e lá encontraram seis casais de quendi, e as estrelas estavam mais uma vez brilhando no crepúsculo e os elfos homens estavam nesse momento despertando.

Então Imin declarou ser o mais velho e ter o direito da primeira escolha; e ele disse: “Eu escolho estes doze para serem meus companheiros.” E os elfos homens acordaram suas esposas, e tendo vivido juntos por um tempo e aprendido muitas palavras e inventado mais, eles caminharam juntos e logo, em outro vale ainda mais profundo e mais amplo, encontraram nove casais de quendi, e os elfos homens recém haviam acordado sob a luz das estrelas.

Então Tata reclamou o direito da segunda escolha, e ele disse: “Eu escolho estes dezoito para serem meus companheiros.” Então novamente os homens elfos acordaram suas esposas, e eles moraram e falaram juntos, e criaram muitos novos sons e palavras mais longas; e então os trinta e seis caminharam para o exterior juntos, até chegarem a um bosque de bétulas por um rio, e lá eles encontraram doze casais de quendi, e os elfos homens estavam de pé da mesma forma, e olhavam para as estrelas através dos ramos das bétulas.

Então Enel reclamou o direito da terceira escolha, e ele disse: “Eu escolho estes vinte e quatro para serem meus companheiros.” Novamente os elfos homens acordaram suas esposas; e por muitos dias os sessenta elfos moraram à margem do rio, e logo eles começaram a fazer versos e canções para a música da água.

Por fim, mais uma vez todos partiram juntos. Mas Imin notou que cada vez eles encontravam mais quendi do que antes, e ele pensou consigo mesmo: “Eu tenho apenas doze companheiros [embora eu seja o mais velho]; Farei uma nova escolha .” Em pouco tempo eles chegaram a um bosque de abetos na encosta de uma colina, e lá encontraram dezoito casais de quendi, e todos ainda estavam dormindo. Ainda era noite e havia nuvens no céu. Mas antes do amanhecer um vento chegou, e instigou os elfos homens, e eles despertaram e ficaram impressionados com as estrelas; pois todas as nuvens foram sopradas e as estrelas brilhavam de leste a oeste. E por muito tempo os dezoito novos quendi não prestaram atenção aos outros, mas olharam para as luzes de Menel. Mas quando, por fim, voltaram seus olhos novamente para a terra, eles contemplaram suas esposas e acordaram-nas para que olhassem para as estrelas, gritando-lhes elen, elen! E então as estrelas receberam seu nome.

Ora, Imin disse: “Eu ainda não escolherei”; e Tata, então, escolheu estes trinta e seis para serem seus companheiros; e eles eram altos e de cabelos negros e fortes como abetos, e deles a maioria dos noldor posteriormente originou-se.

E os noventa e seis quendi conversaram entre si, e os recém-despertos inventaram muitas palavras novas e belas, e muitos artifícios de linguagem interessantes; e eles riram, e dançaram sobre a encosta da colina, até que finalmente desejaram encontrar mais companheiros. Então todos partiram juntos novamente, até que chegaram a um lago escuro no crepúsculo; e havia um grande penhasco próximo a ele no lado leste, e uma cachoeira descia do alto, e as estrelas reluziam na espuma. Mas os elfos homens já estavam se banhando na cachoeira, e eles haviam despertado suas esposas. Havia vinte e quatro casais; mas até o momento eles não possuiam uma linguagem formada, embora cantassem docemente e suas vozes ecoassem nas pedras, misturando-se com o ímpeto das quedas d’água.

Mas novamente Imin conteve sua escolha, pensando “na próxima vez será uma companhia maior”. Porém Enel disse: “Eu tenho a escolha, e eu escolho estes quarenta e oito para serem meus companheiros.” E os cento e quarenta e quatro quendi por muito tempo moraram próximo ao lago, até que todos adquiriram as mesmas vontades e a mesma linguagem, e estavam alegres.

Por fim Imin disse: “Agora é a hora na qual devemos prosseguir e procurar mais companheiros.” Mas a maior parte dos outros estava satisfeita. Então Imin e Iminyë e seus doze companheiros partiram, e muito vagaram durante o dia e durante o crepúsculo na região ao redor do lago, próximo ao qual todos os quendi haviam despertado – por esta razão ele é chamado Cuiviénen. Mas eles nunca encontraram mais companheiros, pois o conto dos Primeiros Elfos estava completo.

E assim era que os quendi sempre contavam às dúzias, e que 144 foi por muito tempo seu número mais alto, tal que em nenhuma de suas línguas posteriores havia um nome comum para um número maior. E também sucedeu-se que os “Companheiros de Imin” ou a Companhia Mais Velha [da qual vieram os vanyar] eram, apesar de tudo, apenas quatorze ao todo, e a menor companhia; e os “Companheiros de Tata” [dos quais vieram os noldor] eram cinqüenta e seis ao todo; mas os “Companheiros de Enel”, embora fossem a Companhia Mais Jovem, era a maior; deles vieram os teleri [ou lindar], e no início eles eram setenta e quatro ao todo.

Ora, os quendi amavam toda Arda que eles já haviam visto, e coisas verdes que brotavam e o sol de verão eram seu deleite; mas apesar de tudo, eles sempre foram mais tocados no coração pelas estrelas, e as horas de crepúsculo em tempo bom, ao “amanhecer” e ao “anoitecer”, eram as horas de seu maior prazer. Pois nestas horas na primavera do ano, eles despertaram pela primeira vez para a vida em Arda. Mas os lindar, acima de todos os outros quendi, desde o seu princípio eram mais apaixonados pela a água, e cantavam antes que pudessem falar.

Famosa lenda do Despertar dos Elfos, em forma e estilo de Conto de Fadas.

Húrin

As Andanças de Húrin

As andanças do infeliz Húrin, após ser liberto por Melkor.
E assim terminou o conto de Túrin o infeliz, o
pior dos trabalhos de Morgoth entre os Homens no mundo antigo. Mas
Morgoth não dormiu nem descansou de sua maldade, e esse não foi o fim
de seus negócios com a Casa de Hador, contra a qual sua malícia era
insaciável, pois Húrin estava sob seu Olho, e Morwen vagava perturbada
pelos ermos.Infeliz era a sina de Húrin.

Pois tudo o que Morgoth sabia das maquinações de sua malícia, Húrin
sabia também; mas suas mentiras eram misturadas com a verdade, e tudo
aquilo que era bom era escondido ou distorcido. Aquele que enxerga
através dos olhos de Morgoth, querendo ou não, enxerga todas as coisas
corrompidas.

Um dos esforços especiais de Morgoth era lançar uma luz maligna sobre
tudo aquilo que Thingol e Melian construíram, pois ele os temia e
odiava acima de tudo; e quando, então, considerou ter chegado a hora,
no ano após a morte de Túrin, libertou Húrin, permitindo que partisse
para onde desejasse.

Ele mentiu que fora movido pela pena de um inimigo completamente
derrotado, maravilhado por sua resistência. ‘Tal firmeza’, disse ele,
‘deveria ter se mostrado em uma causa melhor, e teria sido recompensada
de outra forma. Mas eu não tenho mais uso para você, Húrin, na sua
pálida vidinha.’E ele mentiu, pois seu propósito era que Húrin
continuasse a estender a sua malícia contra Elfos e Homens, antes de
morrer.

Então, mesmo não acreditando em praticamente nada do que Morgoth
dissera ou fizera, sabendo que ele não estava piedoso, ele pegou a sua
liberdade e seguiu em pesar, amargado pelos artifícios do Senhor do
Escuro. Por vinte e oito anos, Húrin estivera cativo em Angband…

É dito que os caçadores de Lorgan seguiram seus rastros e não
abandonaram sua trilha até que ele e seus companheiros subiram pelas
montanhas. Quando Húrin chegou novamente aos lugares altos, ele olhou
de relance pelas nuvens nos picos da Crisaegrim, e ele lembrou de
Turgon; e seu coração desejou retornar para o Reino Escondido, se
pudesse, ou ao menos lá ele seria lembrado com honra.

Ele não ouviu nenhuma das coisas que aconteceram em Gondolin, e não
sabia que Turgon endurecera seu coração contra a sabedoria e a piedade,
e não permitia que ninguém entrasse ou saísse por qualquer motivo.
Então, sem saber que todos os caminhos estavam trancados além da
esperança, ele resolveu rumar em direção a Crisaegrim, mas ele nada
falou aos seus companheiros sobre seus propósitos, pois ele ainda
estava ligado ao seu juramento de não revelar a ninguém que conhecesse
sequer a região em que Turgon habitava.

Porém ele precisava de ajuda; pois ele nunca vivera nos ermos, onde
foras-da-lei estavam há muito acostumados à vida dura de caçadores e
ceifeiros, e carregavam consigo tanta comida quanto conseguiam, apesar
de o Inverno Mortal ter diminuído seus mantimentos. Assim, Húrin falou
a eles: ‘Nós devemos abandonar esta terra agora; pois Lorgan não me
deixará mais em paz. Rumemos para os vales do Sirion, onde a primavera
finalmente chegou!’

Então Asgon os guiou por um dos antigos caminhos que levavam para o
leste de Mithrim, e eles desceram pelas nascentes do Lithir, até que
chegaram às cachoeiras que corriam até o Sirion ao final da Terra
Estreita. E lá eles chegaram exaustos, pois Húrin confiava pouco na
‘liberdade’ que Morgoth lhe garantira. E ele estava correto: Morgoth
tinha notícias de todos os seus movimentos, e o tempo em que esteve
escondido nas montanhas, a sua descida foi rapidamente espionada. A
partir de então, ele foi seguido e observado com tal astúcia que ele
raramente tinha qualquer pista disso. Todas as criaturas de Morgoth
evitavam o seu caminho, e ele não foi emboscado ou atacado.

Eles rumaram para o sul, pelo lado oeste do Sirion, e Húrin pensava
consigo mesmo como se separar de seus companheiros, ao menos por tempo
suficiente para poder procurar por uma entrada para Gondolin sem trair
a sua palavra. Finalmente eles alcançaram Brithiach, e lá Asgon disse a
Húrin: ‘Para onde iremos agora, Senhor? Além deste vau os caminhos são
muito perigosos para os homens mortais, se o que dizem é verdade.’

‘Então rumemos para Brethil, que é perto daqui,’ disse Húrin. ‘Eu tenho uma missão lá. Naquela terra meu filho morreu.’

Então, naquela noite eles se abrigaram em um bosque de árvores, as
primeiras da Floresta de Brethil em sua fronteira norte, próxima do sul
do Brithiach.

Húrin se deitou separado dos outros; e no dia seguinte antes do Sol
nascer, enquanto eles dormiam exaustos, ele os abandonou e cruzou o vau
e chegou a Dimbar.

Quando os homens despertaram, ele já estava longe, e havia uma grossa
neblina da manhã sobre o rio. O tempo passou e, não tendo retornado nem
respondido aos chamados, eles começaram a temer que ele fora atacado
por alguma fera ou por algum inimigo que espreitava. ‘Nós fomos
negligentes’, disse Asgon. ‘A terra está quieta, quieta demais, mas
existem olhos sob as folhas e ouvidos atrás das pedras.’

Eles seguiram o seu rastro quando a neblina se ergueu; mas ele levou
para o vau e lá desapareceu, e eles estavam perdidos. ‘Se ele nos
deixou, deixe-nos voltar para nossa terra,’ disse Ragnir. Ele era o
mais novo na companhia, e pouco recordava dos dias que antecederam a
Nirnaeth. ‘O raciocínio do velho é selvagem. Ele fala com com a sombra
com vozes estranhas enquanto dorme.’

‘Pouco me espanta se for verdade’, disse Asgon. ‘Mas quem mais poderia
permanecer tão forte depois de tanta angústia? Não, ele é nosso senhor,
faça o que fizer, e eu jurei segui-lo.’

‘Até mesmo para o leste além do vau?’ perguntaram os outros.

‘Não, existe pouca esperança naquele caminho’, disse Asgon, ‘e eu não
creio que Húrin irá muito distante por lá. Tudo o que sabemos de seus
propósitos é que ele queria ir o mais cedo possível para Brethil, e que
ele tem uma missão lá. Nós estamos exatamente na fronteira. Vamos
procurar por ele lá.’

‘Com a permissão de quem?’ disse Ragnir. ‘Os homens de lá não gostam de estranhos.’

‘Bons homens habitam lá,’ disse Asgon, ‘e o Senhor de Brethil é parente
dos nossos Senhores.’ Mesmo assim, os outros estavam em dúvidas, pois
nenhuma notícia tem saído de Brethil nos últimos anos. ‘Pode ser
governado por Orcs, pelo que sabemos,’ disseram eles. ‘Nós logo iremos
descobrir como andam as coisas’, disse Asgon. ‘Orcs são pouco piores
que o povo do Leste, eu acho. Se foras-da-lei devemos permanecer, eu
prefiro espreitar pelas belas florestas em vez das colinas geladas.

Então Asgon foi em direção a Brethil; e os outros o seguiram, pois ele
tinha um coração resoluto e os homens diziam que ele nascera com boa
sorte. Antes do fim daquele dia eles já estavam nas profundezas da
floresta, e a chegada deles estava marcada; pois os Haladin estavam
mais atentos do que nunca, e observavam suas fronteiras de perto. Na
hora cinza que antecede a manhã, praticamente todos os intrusos
dormiam, seu acampamento foi cercado e seus vigias foram amordaçados
logo que alertaram os outros.

Então Asgon se levantou, e mandou que seus homens não desembainhassem
suas armas. ‘Vejam agora,’disse ele, ‘nós viemos em paz! Nós somos
Edain de Dorlomin.’

‘Mas o porquê da sua vinda eu não sei,’disseram os vigias. ‘Mas a manhã
ainda está escura. Nosso líder irá fazer melhor julgamento de vocês
quando estiver mais claro.’

Então, com muitos homens a menos, Asgon e seus homens foram feitos
prisioneiros, e suas armas foram tomadas e suas mãos atadas; e assim
foram levados para a frente do novo Senhor dos Haladin.

Ele era Harathor, irmão de Hunthor, que morreu na ravina de Taeglin.
Pela a morte de Brandir, que não deixara filhos, ele herdara o comando
por descendência de Halad. Ele não tinha amor por aqueles da casa de
Hador, e não compartilhava do mesmo sangue; e disse para Asgon, quando
os capturados estavam perante ele: ‘De Dorlomin você vem, me disseram,
e sua fala comprova isso. Mas o porquê da sua vinda eu não sei.’

‘Então são Edain do norte,’disse ele. ‘Sua fala comprova isso, bem como
seus equipamentos. Você busca amizade, talvez. Mas ai de mim! coisas
más recaíram sobre nós aqui, e nós vivemos com medo. Manthor, meu
senhor, Mestre da Marca do Norte, não está aqui, e eu devo, então,
obedecer aos comandos de Halad, o líder de Brethil. Para ele vocês
devem ser enviados sem mais perguntas. Lá vocês poderão ter alguma
sorte!’

Então Ebor falou cortesmente, mas ele não tinha muitas esperanças. Pois
o novo líder era agora Hardang, filho de Hundad. Na morte de Brandir
sem filhos, ele foi feito Halad, sendo um dos Haladin, da família de
Haleth, de onde todos os capitães eram escolhidos. Ele não amava Túrin,
e ele agora não possuía amor nenhum pela Casa de Hador, de cuja
linhagem ele não fazia parte. Nem tinha muita amizade por Manthor, que
também era dos Haladin.

Para Hardang, Asgon e seus homens seguiam caminhos desonestos, e eles
foram vendados. Assim, finalmente chegaram ao salão dos capitães em
Obel Halad; e seus olhos foram descobertos, e os guardas os conduziram
para dentro. Hardang estava sentado em sua grande cadeira, e ele os
encarou com frieza.

‘Vocês vêm de Dor-lómin, segundo me disseram,’ disse ele. ‘Mas porque
vocês vieram aqui eu não sei. Poucas coisas boas vêm para Brethil
daquela terra, e eu não estou olhando para nenhuma coisa boa agora: é
um feudo de Angband. Saudações frias encontrarão aqui, se esgueirando
até aqui para nos espionar!’

Asgon controlou sua fúria, mas respondeu, determinado: ‘Nós não nos
esgueiramos até aqui, senhor. Nós somos tão hábeis nas florestas quanto
seu povo, e nós não teríamos sido capturados tão facilmente se
tivéssemos qualquer motivo para temer. Nós somos Edain, e não servimos
Angband, mas defendemos a Casa de Hador. Nós pensávamos que os homens
de Brethil fossem assim também, e amigáveis a todos os homens de
boa-fé.’

‘Para aqueles que provaram a sua fé,’ disse Hardang. ‘Ser simplesmente
Edain não é suficiente. E, no que concerne à casa de Hador, pouco amor
é tido aqui. Por que o povo dessa casa vem aqui agora?’ Isto Asgon não
respondeu; pois, devido à hostilidade do líder, ele achou melhor não
mencionar Húrin ainda.

‘Percebo que não falarás tudo o que sabes,’ falou Hardang. ‘Que assim
seja. Deverei fazer meu julgamento com o que vejo; mas serei justo.
Este é meu julgamento. Aqui Túrin, filho de Húrin permaneceu por um
tempo, e ele livrou a nossa terra da Serpente de Angband. Por isto,
darei a vocês suas vidas. Mas ele desprezou Brandir, justo líder de
Brethil, e ele o matou sem justiça ou piedade. Assim, não os darei
abrigo. Vocês deverão sair por onde entraram. Vão agora, e se
retornarem, retornarão para a morte!’

‘Não devolverão nossas armas?’ perguntou Asgon. ‘Nos lançarão de volta
ao ermo sem arco e sem armadura para morrer entre os animais?’

‘Nenhum homem de Hithlum irá portar armas novamente em Brethil,’ disse Hardang. ‘Não com permissão minha. Tirem-nos daqui.’

Mas enquanto eram arrastados para fora do salão, Asgon gritou: Esta é a
justiça dos homens do Leste, não dos Edain! Nós não estivemos aqui com
Túrin, para o bem ou para o mal. Nós servimos a Húrin. Ele ainda vive.
Espreitando pelas suas florestas não o recorda a Nirnaeth? Vai
desonrá-lo também, com seu rancor, se ele vier?’

‘Se Húrin vier, você diz?’ disse Hardang. ‘Quando Morgoth dormir, talvez!’

‘Não,’ disse Asgon. ‘Ele retornou. Com ele nós viemos até suas
fronteiras. Ele tem uma missão a cumprir aqui, segundo nos disse. Ele
virá!’

‘Então eu estarei aqui para encontrá-lo,’ falou Hardang. ‘Mas vocês não
estarão. Agora vão!’ Disse ele em escárnio, mas sua face empalideceu em
um medo súbito de que acontecera um presságio de que o pior ainda
estaria por vir. Então um grande medo da sombra da Casa de Hador caiu
sobre ele, e então seu coração ficou negro. Pois ele não era um homem
de grande espírito, como eram Hunthor e Manthor, descendentes de Hiril.

Asgon e sua companhia foram vendados novamente, para que não
espionassem os caminhos de Brethil, e foram levados para a fronteira
norte. Ebor estava insatisfeito quando ouviu do que aconteceu em Obel
Halad, e ele falou a eles com cortesia.

‘Ai de mim!’, disse ele, ‘vocês devem seguir em frente novamente. Mas
vejam! Eu devolvo a vocês suas armas e equipamentos. Pois é o que meu
senhor Manthor faria, no mínimo. Quem dera ele estivesse aqui! Mas ele
é o mais bravo entrenós; e pelo comando de Hardang, é o líder da guarda
no vau de Taiglin. Lá nós temos mais medo de investidas, e é onde a
maioria dos ataques acontece. Bem, isto é o que farei; mas lhes
imploro, não entrem em Brethil novamente, pois se o fizerem, nós
seremos obrigados a obedecer à palavra de Hardang que se espalhou por
todas as fronteiras: matar vocês assim que os encontrar.’

Então Asgon o agradeceu, e os conduziu até as margens de Brethil, e os desejou uma boa jornada.

‘Bem, sua sorte permanece,’ disse Ragnir, ‘pois ao menos não fomos
mortos, apesar disso ter quase acontecido. O que faremos agora?’

‘Eu ainda desejo encontrar meu senhor Húrin,’ disse Asgon, ‘e meu coração me diz que ele ainda virá para Brethil.’

‘Para onde não podemos retornar,’ disse Ragnir, ‘ao menos que procuremos por uma morte mais rápida que a fome.’

‘Se ele vier, ele virá, eu acho, pela fronteira norte, entre o Sirion e
Taiglin,’ disse Asgon. É por lá que talvez teremos notícias.’

‘Ou flechas,’ disse Ragnir. Mesmo assim eles seguiram o conselho de
Asgon e seguiram para o oeste, cuidando sempre as bordas negras de
Brethil.

Mas Ebor estava preocupado, e reportou rapidamente a Manthor sobre a
vinda de Asgon e suas palavras estranhas sobre Húrin. Mas rumores
correram por Brethil sobre este assunto. E Hardang reuniu-se em Obel
Halad e se aconselhou com seus amigos.

Agora Húrin, chegando a Dimbar, reuniu todas suas forças e rumou
sozinho em direção aos pés negros de Echoriad. Toda a terra estava fria
e desolada; e quando ela finalmente apareceu, imensa, à sua frente, e
ele não conseguia encontrar formas de seguir adiante, ele parou e olhou
em sua volta com pouca esperança. Ele estava agora no pé de uma grande
avalanche sob uma imensa parede de pedras, e ele não sabia que era tudo
o que restava do antigo Caminho de Escape: o Rio Seco estava seco e o
portão arqueado, enterrado.Então Húrin olhou para o céu, pensando que, por algum lance de sorte,
ele poderia avistar novamente as Águias, como vira, há muito tempo, em
sua juventude. Mas ele viu apenas as sombras sopradas do Leste, e
nuvens formando redemoinhos em volta dos picos inacessíveis; e o vento
assobiando por sobre as pedras. Mas a vigília das Grandes Águias, e
elas marcaram Húrin, lá em baixo, desamparado sob a luz esvanecente. E
rapidamente Sorontar, já que as notícias pareciam importantes, reportou
a Turgon.
Mas Turgon falou: ‘Não! Isso é uma mentira! A não ser que Morgoth esteja dormindo. Você está errado.’

‘Não, não estou,’ respondeu Sorontar. ‘Se as Águias de Manwë cometessem
erros desta forma, Senhor, seu esconderijo teria sido em vão.’
‘Então tuas palavras trazem um mau presságio,’ disse Turgon; ‘pois elas
só podem significar que mesmo Húrin Thalion sucumbiu à vontade de
Morgoth. Meu coração está fechado.’ Mas quando ele dispensou Sorontar,
Turgon sentou e pensou, e ele estava preocupado, relembrando os feitos
de Húrin. E ele abriu seu coração, e ordenou que as Águias procurassem
por Húrin, a que o trouxessem, se pudessem, para Gondolin. Mas era
tarde de mais, e elas nunca mais o viram novamente, seja na luz, seja
na sombra.
Pois Húrin permaneceu em desespero perante o severo silêncio de
Echoriad, e o sol poente, rasgando as nuvens, manchando seu cabelo
branco com vermelho. Então ele gritou no ermo, negligente aos muitos
ouvidos, e ele amaldiçoou a terra impiedosa: ‘dura como os corações de
Elfos e Homens’. E ele parou, enfim, em frente a uma grande pedra, e
abrindo seus braços, olhando em direção a Gondolin, ele chamou com uma
grande voz: ‘Turgon, Turgon! Lembre-se do Pântano de Serech!’ E
novamente: ‘Turgon! Húrin chama por você. O Turgon, não irás me ouvir
dos teus salões escondidos?’Mas não houve resposta, e tudo o que ele ouviu foi o vento na grama
seca. ‘E ainda assim eles sibilam em Serech ao por do Sol’, disse ele.
E enquanto ele falava, o Sol passou para trás das Montanhas da Sombra,
e a escuridão caiu sobre ele, e o vento cessou, e o ermo ficou em
silêncio.

Entretanto, ouvidos escutaram as palavras que Húrin falou, e olhos
marcaram seus gestos; e o relatório de tudo chegou rápido ao Trono
Escuro no Norte. Então Morgoth sorriu, e soube claramente que Turgon
habitava naquela região, pois devido as Águias nenhum espião dele podia
chegar ao alcance do olho da terra atrás das montanhas circulantes.
Esse foi o primeiro mal que a liberdade de Húrin causou.

Enquanto a escuridão caía, Húrin pisou em falso na pedra, e caiu
desmaiado, em um profundo sono de pesar. Mas em seu sono ele ouviu a
voz de Morwen lamentando, e freqüentemente falou seu nome; e pareceu
para ele que aquela voz vinha de Brethil. Então, quando despertou com a
chegada do dia, ele se ergueu e retornou; e ele chegou novamente ao
vau, e, como se guiado por uma mão invisível, ele passou pelas bordas
de Brethil, até que, depois de uma jornada de quatro dias, chegou até
Taeglin, e toda sua escassa comida acabou, e ele estava faminto. Mas
ele prosseguiu como a sombra de um homem levado por um vento negro, e
ele chegou ao vau à noite, e lá ele o atravessou até Brethil.Os sentinelas noturnos o viram, mas eles estavam cheios de medo, então
eles não ousaram se mover ou gritar; pois eles pensaram que era um
fantasma vindo de uma montanha de mortos em combate que caminhava com a
escuridão em sua volta. E por muitos dias após, os homens temeram se
aproximar do vau à noite, a não ser com grande companhia e com fogo
aceso.

Mas Húrin passou, e na noite do sexto dia ele chegou finalmente ao
lugar da queima de Glaurung, e viu a pedra alta na beirada de Cabed
Naeramarth. Mas Húrin não olhou para a pedra, pois ele sabia o que
estava escrito ali, e seus olhos perceberam que não estava sozinho.
Sentado na sombra da pedra estava uma figura encurvada sobre seus
joelhos. Parecia um andarilho sem lar derrotado pela idade, cansando
demais para perceber sua chegada; mas seus farrapos eram retalhos de um
traje feminino. Húrin parou por um tempo em silêncio, então ela ergueu
seu capuz esfarrapado e levantou seu rosto lentamente, com aparência
selvagem e faminta como um lobo que fora caçado por muito tempo. Ela
era cinzenta, com o nariz fino e com dentes quebrados, e com uma das
mãos em forma de garra ela segurava a sua capa na altura do peito. Mas
de repente seus olhos encararam os dele e então Húrin a reconheceu;
pois apesar de serem selvagens agora, e cheios de medo uma luz ainda
brilhava neles que era difícil de suportar: a luz élfica que há muito
lhe dera seu nome, Edelwen, a mais orgulhosa das mulheres mortais nos
dias antigos.

‘Edelwen! Edelwen!’, gritou Húrin; e ela se levantou e cambaleou em frente, e ele a pegou em seus braços.

‘Finalmente você veio,’ ela disse. ‘Eu esperei por tempo demais.’

‘Foi uma estrada negra. Eu vim da forma que pude,’ respondeu.

‘Mas você está atrasado,’ ela disse, ‘atrasado demais. Eles estão perdidos.’

‘Eu sei,’ disse ele. ‘Mas você não está.’

‘Mas quase,’ disse ela. ‘Eu estou acabada. Eu devo partir com o sol.
Eles estão perdidos.’ Ela se segurou no casaco dele. ‘Sobrou pouco
tempo,’ ela disse. ‘Se você sabe, me diga! Como ela o encontrou?’ Mas
Húrin não respondeu, e ele sentou ao lado da pedra com Morwen em seus
braços; e eles não falaram novamente. O sol se pôs, e Morwen suspirou e
segurou sua mão e ficou inerte; e Húrin soube então que ela morrera.

E assim morreu Morwen, a orgulhosa e bela; e Húrin olhou para ela no
crepúsculo, e pareceu que as marcas de pesar e cruel privação
suavizaram. Sua face ficou fria e pálida e triste. ‘Ela não foi
conquistada,’ ele disse; e ele fechou os olhos dela, e sentou-se imóvel
ao lado dela enquanto a noite caía. As águas de Cabed Naeramarth
rugiam, mas ele não ouviu som algum, nem viu nada, nem sentiu nada,
pois seu coração estava duro como pedra, e ele pensou em permanecer ali
sentado até que também morresse.

Então veio um vendo frio e lançou uma chuva fina em seu rosto; e de
repente ele estava desperto, e com uma profunda raiva negra cresceu
dentro dele como uma fumaça, superando a razão, então tudo o que
desejava era buscar vingança pelos seus erros e pelos erros de sua
família, acusando em sua angústia todos aqueles que já tiveram negócios
com eles.

Ele levantou e ergueu Morwen; e de repente percebeu que erguê-la estava
além de suas forças. Ele estava faminto e idoso, e cansado como o
inverno. ‘Fique aqui mais um pouco, Edelwen,’ ele disse, ‘até que eu
retorne. Nem mesmo um lobo machucaria mais você. Mas o povo desta terra
dura irá se arrepender do dia em que você morreu aqui!’

Então Húrin se afastou, aos tropeços, e voltou para o vau de Taeglin e
lá ele caiu ao lado de Haud-en-Elleth, e uma escuridão se abateu sobre
ele, e ele permaneceu como se estivesse adormecido. Ao amanhecer, antes
que a luz o despertasse totalmente, ele foi encontrado pelos guardas
que Hardang mandara manter uma atenção especial naquele lugar.

Foi um homem chamado Sagroth que o encontrou primeiro, e ele o encarou
com espanto e sentiu medo, pois ele pensou que soubesse quem aquele
homem velho era. ‘Venham!’ gritou ele para os que o seguiam. ‘Olhem
aqui! Deve ser Húrin. Os intrusos falaram a verdade. Ele chegou!’

‘Você encontrou problemas, como sempre, Sagroth!’ disse Forhend.

‘O Halad não ficará satisfeito com o que encontraram. O que deverá ser
feito? Talvez Hardang ficaria mais satisfeito em ouvir que nós acabamos
com os problemas em suas fronteiras e os empurramos para fora.’

‘Empurramos para fora?’ disse Avranc. Ele era filho de Dorlas, um homem
jovem, baixo e escuro, porém forte, parecido com Hardang, como fora
também seu pai. ‘Empurramos para fora? Que bem isso causaria? Ele
voltaria novamente! Ele pode caminhar – todo o caminho desde Angband,
se é o que você está pensando. Veja! Ele é horrível e possui uma
espada, mas dorme profundamente. Deve ele despertar para mais angústia?
Se você quer satisfazer o líder, Forhend, acabe com ele aqui.’

Tamanha era a sombra que agora caía sobre s corações dos homens,
enquanto o poder de Morgoth crescia, e o medo se espalhava por toda a
terra; mas nem todos os corações tinham escurecido. ‘Envergonhe-se pelo
que disse!’ gritou Manthor, o capitão, que vinha por trás e ouviu o que
diziam. ‘E principalmente você, Avranc, que jovem obstinado você é! Ao
menos você ouviu sobre os feitos de Húrin de Hithlum, ou apenas as
conhece de fábulas contadas ao pé do fogo? O que deve ser feito, então?
Matá-lo em seu sono, esse é o seu conselho. Do inferno veio essa idéia!’

‘Assim como ele,’ respondeu Avranc. ‘Se realmente ele é Húrin. Quem pode saber?’

‘Pode ser descoberto em breve,’ disse Manthor; e se aproximou de Húrin
deitado, ajoelhando-se próximo a ele, e ergueu a sua mão e a beijou.
‘Acorde!’, ele gritou. ‘A ajuda está próxima. E se você é Húrin, não há
ajuda que eu creio ser suficiente.’

‘E nenhuma ajuda que ele não irá retribuir com mal,’ disse Avranc. ‘Ele vem de Angband, digo eu.’

‘O que ele pode vir a fazer nós não sabemos,’ disse Manthor. ‘O que ele
fez nós sabemos, e nossa dívida ainda não foi paga.’ Então ele falou
novamente, em voz alta: ‘Viva Húrin Thalion! Viva o capitão dos homens!’

Então Húrin abriu os olhos, lembrando de palavras malignas que ouvira
durante o sono, antes de acordar, e ele viu homens sobre ele com armas
em punho. Ele levantou tenso, tateando a sua espada; e ele olhou para
eles com raiva e descaso. ‘Malditos!’ ele gritou. ‘Matariam um velho em
seu sono? Vocês se parecem com homens, mas são orcs sob a pele, eu
acho. Então venham! Matem-me acordado, se é que ousam fazer isso. Mas
eu não irei satisfazer seu senhor negro, eu acho. Eu sou Húrin, filho
de Galdor, um nome que orcs ao menos lembrarão.’

‘Não, não,’ disse Manthor. ‘Não sonhe. Nós somos homens. Mas esses são
dias malignos e de dúvidas, e nós estamos sobre muita pressão. Esta
região é perigosa. Não quer vir conosco? Ao menos nós podemos lhe
proporcionar comida e descanso.’

‘Descanso?’ disse Húrin. ‘Vocês não podem me proporcionar isso. Mas, em minha necessidade, eu aceitarei comida.’

Então Manhor deu a ele um pouco de pão e carne e água; mas pareceram
engasgá-lo, e ele cuspiu fora. ‘A que distância estamos da casa de seu
senhor?’ ele perguntou. ‘Até que eu o veja, a comida que negaram à
minha amada não descerá pela minha garganta.’

‘Ele se irrita e nos despreza,’ resmungou Avranc. ‘O que eu disse?’ Mas
Manthor olhou para ele com piedade, apesar de não entender suas
palavras. ‘É uma longa estrada para os cansados, senhor,’ disse ele; ‘e
aqueles da casa de Hardang Halad estão escondidos dos estranhos.’

‘Então me leve para lá!’ disse Húrin. ‘Eu irei da forma que puder. Eu tenho uma missão naquela casa.’

Logo eles seguiram em frente. Da sua forte companhia, Manthor deixou
muitos cumprindo sua tarefa, mas ele caminhou com Húrin, e com ele
levou Forhend. Húrin caminhava como podia, mas depois de um tempo,
começou a tropeçar e a cair; e mesmo que sempre se reerguesse e lutasse
para continuar, não permitiria que ninguém o ajudasse.

Depois de muitas paradas pelo caminho, finalmente chegaram aos salões
de Hardang em Obel Halad, nas profundezas da floresta; e ele sabia da
sua chegada, pois Avrang, espontaneamente, correu na frente deles e
levou as notícias antes deles; e ele não esqueceu de reportar as
palavras selvagens de Húrin quando despertou e quando cuspiu fora sua
comida.

Então eles encontraram os salões bem guardados, com muitos homens na
cerca do pátio, e homens nas portas. No portão do pátio, o capitão dos
guardas os parou. ‘Entreguem o prisioneiro para mim!’ disse ele.

‘Prisioneiro!’ disse Manthor. ‘Eu não trago um prisioneiro, mas um homem a quem você deveria honrar.’

‘Essas são palavras de Halad, não minhas,’ disse o capitão. ‘Mas você pode vir também. Ele também tem palavras para você.’

Então eles levaram húrin até a presença do líder; e Hardang não o
cumprimentou, mas sentado em sua grande cadeira, olhou Húrin da cabeça
aos pés. Mas Húrin retornou o seu olhar, e se manteve o mais firme que
pode, apesar de estar apoiado em seu cajado. Então ele permaneceu um
tempo em silêncio, até que ele tombou no chão. ‘Vejam!’ ele disse. ‘Eu
vejo que existem tão poucas cadeiras em Brethil que um convidado deva
sentar no chão.’

‘Convidado?’ disse Hardang. ‘Nenhum convidado por mim. Mas tragam um
banco para o homem. Se ele não desdenhar dele, pois ele cospe em nossa
comida.’

Manthor se ofendeu com a descortesia e ouvindo uma risada nas sombras
atrás da grande cadeira, ele olhou e percebeu que era Avranc, e seu
rosto se escureceu em fúria.

“Me desculpe, senhor,’ disse ele a Húrin. ‘Existe um mal entendido
aqui.’ Então se virou para Hardang e se lançou sobre ele. ‘A minha
companhia tem um novo capitão agora, meu Halad?’ disse ele. ‘Pois se
não eu não entendo como alguém que abandonou o seu posto e desobedeceu
minhas ordens possa ficar aqui sem reprova. Ele trouxe notícias antes
de mim, eu vejo; mas parece ter esquecido o nome do convidado, ou Húrin
Thalion não teria sido deixado em pé.’

‘O nome foi dito para mim,’ respondeu Hardang, ‘assim como suas
palavras malignas. Assim é a casa de Hador. Mas é o papel de um
estranho se apresentar pela primeira vez em minha casa, e eu esperei
ouvi-lo. Assim como a sua missão, já que diz ter uma. Mas sobre seu
dever, tais assuntos não devem ser tratados na presença de estranhos.’

Então ele se virou para Húrin, que estava sentado no banco; seus olhos
estavam fechados e ele não parecia dar atenção ao que acontecia. ‘Bem,
Húrin de Hithlum,’ disse Hardang, qual é a sua missão? É motivo de
pressa? Ou não prefere descansar um pouco e falar sobre isso mais
tarde, quando estiver mais à vontade? Enquanto isso, podemos
providenciar uma comida menos horrível.’ O tom de Hardang era mais
gentil, e ele levantou enquanto falava; pois ele era um homem prudente,
e ele percebeu o desagrado no rosto dos outros atrás de Manthor.

Então, de repente, Húrin se levantou. ‘Bem, mestre junco do pântano,’
disse ele. ‘Então você se curva com cada respiração? Cuidado para que a
minha não lhe derrube. Vá descansar para se fortalecer, então eu o
chamarei de novo! Zombador de cabelos cinzentos, mesquinho em relação à
comida, que deixa os errantes famintos. Esse banco servirá melhor para
você.’ Com isso, ele lançou o banco em direção a Hardang, acertando-o
na testa; e se virou para sair do salão.

Alguns dos homens abriu caminho, seja por pena ou medo de sua ira; mas
Avranc correu à sua frente. ‘Não tão rápido, Húrin!’ ele gritou. ‘Ao
menos não tenho mais dúvidas em relação ao seu nome. Você traz suas
maneiras de Angband. Mas nós não amamos os feitos dos orcs neste salão.
Você atacou o líder em sua cadeira, e agora você é nosso prisioneiro,
independente do seu nome.’

‘Eu o agradeço, capitão Avranc,’ disse Hardang, que estava sentado em
sua cadeira, enquanto tentava estancar o sangue que corria de sua
sombrancelha. ‘Agora deixe o velho louco ser algemado e mantido cativo,
eu o julgarei mais tarde.’

Então eles colocaram tiras de couro nos braços de Húrin, e um cabresto
no seu pescoço, e o levaram embroa; e ele não mostrou resistência, pois
a fúria havia acabado, e ele caminhou como alguém dormindo, de olhos
fechados. Mas Manthor, apesar de Avranc ter olhado bravo para ele,
colocou o braço sobre o ombro do velho e o guiou para que não
tropeçasse.

Mas quando Húrin foi trancado em uma caverna e Manthor não podia fazer
mais nada para ajudá-lo, retornou para o salão. Lá ele encontrou Avranc
falando com Hardang, e, apesar de terem se calado quando chegou, ele
ouviu as últimas palavras que Avranc falou, e pareceu que Avranc queria
que Húrin fosse executado imediatamente.

‘Então, capitão Avranc,’ ele disse, ‘as coisas foram bem para você
hoje! Eu já vi você jogar desta forma: atiçar um velho texugo e matá-lo
quando ele o morde. Não tão rápido, capitão Avranc! Nem você, Hardang
Halad. Este não é assunto para lidar de maneira arrogante, sem
controle. A vinda de Húrin, e a forma com que foi recebido, diz
respeito a todo o povo, e eles devem ouvir tudo o que é dito, antes de
qualquer julgamento.

‘Você deve ir,’ disse Hardang. ‘Retorne para sua missão na fronteira,
até que o capitão Avranc apareça para assumir o comando.’

‘Não, senhor,’ disse Manthor, ‘eu não tenho missão. A partir de hoje
não estou mais a seu serviço. Eu deixei Sagroth no comando, um homem da
floresta que é mais velho e mais sábio que o que você nomeou. Quando
chegar a hora, retornarei para minhas próprias fronteiras*. Mas agora
eu reunirei o povo.

Quando saiu pela porta, Avranc armou seu arco para matar Manthor, mas
Hardang o impediu. ‘Ainda não,’ ele disse. Mas Manhor não viu isso
(apesar de algumas pessoas no salão ter percebido), e saiu, e mandou
todos aqueles que se dispuseram a agir como mensageiros para reunir os
mestres de todas as terras e qualquer outro que se dispusesse a
comparecer.

Agora os rumores corriam pelas árvores, e as lendas cresciam quando
eram contadas; e alguns disseram isso, e outros aquilo, e a maioria
falou em louvor a Halad e se lançou em direção a Húrin como se fosse um
maligno chefe orc; pois Avranc também estava ocupado com mensageiros.
Logo tinha uma grande multidão de povos, e a vila próxima ao salão dos
líderes estava apinhada com tendas e barracas. Mas todos os homens
portavam armas, por medo que um alarme repentino viesse das fronteiras.

Quando ele enviou seus mensageiros, Manthor foi até a prisão de Húrin,
mas os guardas não o deixaram entrar. ‘Venham!’ disse Manthor. ‘Vocês
sabem muito bem que é do nosso bom costume que qualquer prisioneiro
deve ter um amigo que possa visitá-lo e ver como ele está sendo
alimentado e aconselhá-lo.’

*Pois Manthor era um descendente de Haldad, e ele possuía uma
terra pequena na fronteira leste de Brethil, próximo ao Sirion onde ele
atravessa Dimbar. Mas todo o povo de Brethil era formado por homens
livres, mantendo suas casas e suas terras, sejam maiores ou menores, de
direito. Seu senhor era escolhido entre os descendentes de Haldad, por
reverência pelos feitos de Haleth e Haldar; e mesmo que a liderança era
dada, como se fosse um domínio ou um reino, para os mais velhos da
linhagem mais velha, o povo tinha o direito de colocar qualquer um de
lado ou tirá-lo de lá, por uma causa grave. E alguns sabiam o
suficiente que Harathor tentara que Brandir o Aleijado tivesse tido
abdicado em seu favor.

‘O amigo é escolhido pelo prisioneiro,’ responderam os guardas; ‘mas este homem selvagem não tem amigos.’

‘Ele tem um,’ disse Manthor, ‘e eu peço permissão para me oferecer como sua escolha.’

‘O Halad nos proíbe de admitir qualquer um fora os guardas,’ disseram.
Mas Manthor, que era sábio nas leis e costumes de seu povo, respondeu:
‘Sem dúvida. Mas neste caso ele não tem direito. Por que o intruso está
preso? Nós não algemamos velhos e errantes por falarem rudemente quando
irritados. Este está preso por seu ataque a Hardang, e Hardang não pode
julgar seu próprio caso, mas deve levar sua queixa para o julgamento do
povo. Enquanto isso, ele não pode negar ao prisioneiro todo conselho e
ajuda. Se ele fosse sábio, ele veria que não age desta forma,
beneficiaria sua própria causa. Mas talvez alguma outra boca falou pela
dele?’

‘Verdade,’ disseram. ‘Avranc trouxe a ordem.’

‘Então esqueça,’ disse Manthor. ‘Pois Avranc estava obedecendo outras
ordens, para permanecer em sua missão na fronteira. Escolha então entre
um jovem desertor e as leis do povo.’

Então os guardas permitiram sua entrada na caverna; pois Manthor era
querido em Brethil, e os homens não gostavam dos líderes que tentaram
dominar o povo. Manthor encontrou Húrin sentado em um banco. Tinha
algemas em seus tornozelos, mas suas mãos estavam livres; e tinha um
pouco de comida à sua frente, intocada. Ele não ergueu o olhar.

‘Salve, senhor!’ disse Manthor. ‘As coisas não aconteceram como deviam,
nem como eu ordenei. Mas agora você precisa de um amigo.’

‘Eu não tenho amigos, nem desejo algum nesta terra,’ respondeu Húrin.

‘Um amigo está na sua frente,’ respondeu Manthor. ‘Não me rejeite. Por
enquanto, pelo menos! O assunto entre você e Hardang Halad deve ser
levado para ser julgado pelo povo, e seria bom, pelo que nossas leis
permitem, ter um amigo para aconselhá-lo e defender o seu caso.’

‘Eu não irei me defender, e não preciso de conselhos,’ disse Húrin.

‘Você precisa deste conselho, pelo menos,’ disse Manthor. ‘Controle sua
ira por enquanto, e coma um pouco, pra que tenha força perante seus
inimigos. Eu não sei qual é sua missão aqui, mas ela seria mais rápida
se você não estivesse faminto. Não se mate enquanto existe esperança!’

‘Me matar?’ gritou Húrin, e ele cambaleou e se escorou na parede, e
seus olhos estavam vermelhos. ‘Devo ser arrastado algemado perante uma
ralé de homens da selva para ouvir que tipo de morte irão me dar? Eu me
matarei antes, se minhas mãos estiverem livres.’ Então, de repente,
rápido como um velho urso em uma cilada, ele saltou para a frente, e
antes que Manthor pudesse evitá-lo, ele puxou uma faca do seu cinto.
Então ele afundou no banco.

‘Você poderia ter tido a faca como um presente,’ disse Manthor, ‘porém
nós não acreditamos no suicídio como uma saída nobre para aqueles que
não enlouqueceram. Esconda a faca e a guarde para um uso melhor! Mas
tenha cuidado, pois é uma lâmina maldita, de uma forja dos anões.
Agora, senhor, não me considerará como amigo? Não diga nada, mas se
você comer comigo, considerarei como um sim.’

Então Húrin olhou para ele e a ira deixou seus olhos; e juntos eles
beberam e comeram juntos em silêncio. E quando tudo estava terminado,
Húrin falou: ‘Pela sua voz você me derrotou. Nunca desde o Dia do
Terror eu ouvi a voz de um homem tão bela. Ai de mim! Ela lembra das
vozes na casa de meu pai, muito tempo atrás, quando a sombra parecia
estar tão longe.’

‘Isto pode muito bem ser verdade,’ disse Manthor. ‘Hiril, minha primeira mãe era irmã de sua mãe, Hareth.’

‘Então você é amigo e parente,’ disse Húrin.

‘Mas não eu sozinho,’ disse Manthor. ‘Nós somos poucos e temos pouco
dinheiro, mas nós também somos Edain, e ligados por muitas formas ao
seu povo. Seu nome foi por muito tempo mantido honrado aqui; mas
nenhuma notícia de seus feitos teria chegado até nós se Haldir e Hundar
não tivessem marchado para a Nirnaeth. Lá eles caíram, mas sete dos
seus companheiros retornaram, pois eles foram socorridos por Mablung de
Doriath e curados de seus ferimentos.

Os dias tem sido escuros desde então, e muitos corações foram escurecidos, mas não todos.’

‘Mas a voz do seu líder vem das sombras,’ disse Húrin, ‘e seu povo o obedece, mesmo em atos de desonra e crueldade.’

‘A tristeza escurece seus olhos, senhor, se é que ouso dizer tal coisa.
Mas que isto fique provado, vamos nos aconselhar juntos. Pois eu vejo
perigo de mal à nossa frente, tanto para você quanto para meu povo,
apesar de talvez a sabedoria possa evitar isso. De uma coisa eu posso
alertá-lo, apesar de não lhe agradar. Hardang é um homem menor que seus
pais, mas eu não vi maldade nele desde que ele ouviu da sua chegada.
Você carrega uma sombra, Húrin Thalion, na qual sombras menores ficam
mais escuras.’

‘Palavras negras de um amigo!’ disse Húrin. ‘Por muito tempo vivi na
Sombra, mas eu suportei e não me entreguei. Se existe alguma escuridão
em mim, é apenas a dor além da dor que me roubou a luz. Mas não faço
parte da Sombra.’

‘Mesmo assim, eu lhe digo,’ disse Manthor. ‘que ela segue seus passos.
Eu não sei como ganhaste a liberdade; mas o pensamento de Morgoth não o
esqueceu. Tenha cuidado.’

‘Não caduque, velho senil, você diria,’ respondeu Húrin. ‘Eu irei
suportar isso de você, pela sua bela voz e nosso parentesco, mas não
mais! Vamos falar de outras coisas, ou acabamos por aqui.’

Então Manthor foi paciente, e ficou por longo tempo com Húrin, até que
a noite trouxe a escuridão para a caverna; e eles comeram juntos mais
uma vez. Então Manthor ordenou que uma luz fosse trazida para Húrin; e
ele partiu no dia seguinte, e foi para sua tenda com o coração pesado.

No dia seguinte foi proclamado que o debate para o julgamento
aconteceria na manhã seguinte, pois quinhentos homens chefes já se
apresentaram e este era por costume, o quorum mínimo que se aceitava
para um encontro do povo. Manthor foi cedo encontrar Húrin; mas os
guardas mudaram. Três homens da guarda privada de Hardang guardavam a
porta, e eles não foram amistosos.

‘O prisioneiro está dormindo,’ o líder deles falou. ‘E isso é bom; pode acalmar seu ânimo.’

‘Mas eu sou o amigo que ele escolheu, como foi declarado ontem,’ disse Manthor.

‘Um amigo o deixaria em paz, enquanto ele pode tê-la. Que bem faria acordá-lo?’

‘Por que a minha vinda o acordaria? Os pés de um carcereiro são mais
pesados que os meus.’ falou Manthor. ‘Eu desejo ver como ele dorme.’

‘Você pensa que todos os homens mentem, menos você?’

‘Não, não; mas eu acho que alguém esqueceria as nossas leis de bom
grado quando elas não servem o seu propósito,’ respondeu Manthor. Mesmo
assim pareceu a ele que pouco ajudaria o caso de Húrin se continuasse a
discutir, e ele foi embora. Muitas coisas permaneceram sem serem ditas
entre eles até que fosse tarde demais. Pois quando ele retornou o dia
estava terminando. Nada impediu a sua entrada, desta vez, e ele
encontrou Húrin deitado em uma armação de madeira; e ele notou com
fúria que ele tinha agora algemas em seus punhos e uma curta corrente
entre eles.

‘Um amigo que se atrasa é a esperança que é negada,’ disse Húrin.
‘Esperei por muito tempo por você, mas agora estou com muito sono e
meus olhos estão turvos.’

‘Eu vim no meio da manhã,’ disse Manthor, ‘mas eles disseram que você estava dormindo.’

‘Eu estava cochilando, cochilando em uma esperança pálida,’ disse
Húrin; ‘mas a sua voz me acordou. Eu estou assim desde que tive meu
desjejum. Aquele seu conselho finalmente o tomei, meu amigo; mas comida
me faz mais mal do que bem. Agora eu devo dormir. Mas volte pela manhã!’

Manthor teve pensamentos escuros sobre isto. Ele não pode ver o rosto
de Húrin, pois havia pouca luz, mas se curvando para baixo ele pode
ouvir a sua respiração. Então com uma expressão severa, ele se levantou
e pegou os restos da comida, colocando sob seu casaco, e foi embora.

‘Bem, o que você achou do homem selvagem?’ disse o chefe da guarda.

‘Perturbado com sono,’ respondeu Manthor. ‘Ele deve estar bem desperto
amanhã. O desperte cedo. Traga comida para dois, pois eu virei quebrar
meu jejum com ele.’

No dia seguinte, muito antes do meio da manhã, o debate teve início.
Quase mil pessoas chegaram, a maioria homens velhos, já que a vigília
nas fronteiras deve ser mantida. Logo o anel do debate estava cheio.
Ele tinha a forma de uma grande crescente, com sete fileiras de bancos
saindo de um piso plano escavado na encosta da colina. Uma grade alta
ficava em volta dela, e a única entrada era por um portão pesado na
cercaque se fechava na parte aberta da crescente. No meio da camada
mais baixa estava Angbor, ou a Pedra do Destino, uma grande pedra chata
na qual o Halad sentaria. Aqueles que eram trazidos para julgamento
ficavam na frente da pedra e voltados para a assembléia.

Havia uma grande babel de vozes; mas com o grito de uma trompa, o
silêncio caiu, e o Halad entrou, acompanhado por muitos guarda costas.
O portão se fechou atrás dele, e ele caminhou lentamente até a Pedra.
Então ele parou, olhando para a assembléia e consagrou o debate como de
costume. Primeiro ele citou os nomes de Manwë e Mandos, segundo o
costume que os Edain aprenderam com os Eldar, e então, falando na
língua antiga do povo, que agora estava fora de uso, e declarou aberto
o debate, sendo o tricentésimo primeiro debate de Brethil, convocado
para julgar um grave assunto.

Quando, como de costume, toda a assembléia gritou em uníssono e na
mesma língua ‘Nós estamos prontos’, ele sentou em Angbor, e chamou na
língua de Beleriand para os homens que estavam próximos: ‘Soem as
cornetas! Que o prisioneiro seja trazido até nós!’

A corneta soou duas vezes, mas por um tempo ninguém entrou, e o som de
vozes irritadas podia ser ouvida fora da cerca. Depois de um tempo, o
portão foi empurrado e seis homens saíram com Húrin entre eles.

‘Eu sou trazido sob violência e maus tratos,’ ele gritou. ‘Eu não irei
caminhar algemado para nenhum debate na terra, nem se reis élficos
estivessem presentes. E enquanto eu estiver preso, eu irei negar toda a
autoridade e justiça a que me condenem.’ Mas os homens o colocaram no
chão à frente da Pedra e o seguraram ali com força.

Agora era costume do debate que, quando qualquer homem era trazido para
ele, o Halad deveria ser o acusador, e deveria primeiramente recitar o
delito que acusava. A respeito do que era direito do acusado, por ele
mesmo ou pela boca de seu amigo, negar a acusação, ou oferecer uma
defesa pelo que fez. E depois dessas coisas serem ditas, se algum ponto
restava duvidoso ou era negado por um dos lados, testemunhas eram
convocadas.

Hardang, então, estava em pé e virado para a assembléia e começou a
recitar a acusação. ‘Este prisioneiro,’ disse ele, ‘que está perante
vocês, se auto proclama Húrin, filho de Galdor, que um dia foi de
Dor-lómin, mas ele veio de uma longa estada em Angband. Seja isto como
for.’

Mas sobre isto Manthor se levantou e se colocou perante a Pedra. ‘Com
sua licença, meu senhor Halad e povo!’ ele gritou. ‘Como amigo do
prisioneiro eu convoco o direito de perguntar: a acusação contra ele
envolve de alguma forma a pessoa do Halad? Ou teria o Halad alguma
mágoa em relação a ele?’

‘Mágoa?’ gritou Hardang, e a raiva obscureceu seu raciocínio, pois ele
não percebeu as intenções de Manthor. ‘Muitas mágoas! Esta não é a
última moda em adereços para cabeça para o debate. Eu venho aqui com
ferimentos com curativos.’

‘Oras!’ disse Manthor. ‘Mas se é assim, eu peço que a questão não possa
ser tratada desta forma. Na sua lei nenhum homem pode recitar a ofensa
feita contra si mesmo; nem ele pode sentar na cadeira do julgamento
enquanto a acusação é ouvida. Não é esta a lei?’

‘Esta é a lei,’ respondeu a assembléia.

‘Então,’ disse Manthor, ‘antes que a acusação seja ouvida, outro Hardang, filho de Hundad deve ser apontado para a pedra.’

Assim várias vozes se ergueram, mas a maioria das vozes e as vozes mais
altas chamavam por Manthor. ‘Não,’ disse ele, ‘eu estou envolvido com
uma das partes e não posso ser o julgador. Além disso, é o direito do
Halad neste caso nomear aquele que irá tomar o seu lugar, o que ele com
certeza sabe muito bem.’

‘Eu o agradeço,’ disse Hardang, ‘mas eu não preciso de um jurista
autodidata para me ensinar.’ Então ele olhou para Manthor, como se
considerando quem ele deveria nomear. Mas a sua raiva era negra e toda
a sabedoria o abandonou. Se ele tivesse escolhido qualquer dos chefes
de casa ali presentes, as coisas poderiam ter tomado um rumo diferente.
Mas em um momento maligno ele escolheu, para o espanto de todos, griou:
‘Avranc, filho de Dorlas! Parece que o Halad também precisa de um amigo
hoje, quando os juristas estão tão ousados. Eu o convoco para a Pedra.’

O silêncio caiu. Mas quando Hardang se afastou e Avranc foi até a
pedra, um grande murmúrio foi ouvido, como o prenúncio de uma
tempestade. Avranc era um jovem casado há pouco, e sua juventude fora
tomada como ruim por todos os velhos chefes de casa que estavam lá.
Pois ele não era querido pelo que era; pois apesar de ser valente, ele
era um zombador, como seu pai Dorlas foi antes dele. E lendas negras
sussurravam sobre Dorlas, pois, apesar de nada ser dado como
verdadeiro, ele foi encontrado morto na batalha com Glaurung, e a
espada ensangüentada que jazia ao seu lado era a espada de Brandir.

Mas Avranc não deu atenção aos murmúrios, e se alegrou, como se fosse um assunto simples, que se tratasse rapidamente.

‘Bem,’ disse ele, ‘se isto está definido, não vamos mais perder tempo!
O assunto está claro o suficiente.’ Então, se levantando, ele continuou
a acusação. ‘Este prisioneiro, este homem selvagem,’ disse ele, ‘vem de
Angband, como vocês bem ouviram. Ele foi encontrado dentro de nossas
fronteiras. Não por acaso, pois, como ele mesmo disse, tem uma missão a
cumprir aqui. O que seria, ele não revelou, mas não pode ser nada de
bom. Ele odeia este povo. Logo que nos viu, nos insultou. Nós lhe demos
comida e ele a cuspiu. Eu já vi orcs agirem assim, se fossemos tolos o
suficiente para demonstrar-lhes piedade. Está claro que ele vem de
Angband, seja lá qual for o seu nome. Mas o pior ainda está por vir.
Por requerimento próprio, ele foi levado perante o Halad de Brethil –
por este homem que se diz agora seu amigo; mas quando ele chegou ao
salão, ele se recusou a dizer seu nome. E quando o Halad o perguntou
qual era a sua missão e o pediu que descansasse primeiro e falasse
depois, se assim o aprouvesse, ele enlouqueceu, começou a insultar o
Halad, e de repente arremessou um banco na sua face e o feriu
gravemente. Foi bom que ele não tinha nada mais mortal à mão, ou o
Halad teria sido morto. É clara a intenção do prisioneiro, e diminui
muito pouco a sua culpa o fato de que o pior não tenha acontecido, para
o qual a pena é a da morte. Mas mesmo assim, o Halad senta na grande
cadeira no seu salão: insultá-lo lá é um ato de maldade, e atacá-lo é
um ultraje.

‘Esta, então, é a acusação contra o prisioneiro: que ele veio para cá
com más intenções para conosco, e para com o Halad de Brethil em
especial (a pedido de Angband, pode se dizer); que, na presença do
Halad, ele o desrespeitou, e então tentou matá-lo em sua cadeira. A
penalidade está sob o julgamento do debate, mas poderia ser justamente
a da morte.’

Então, para muitos pareceu que Avranc falou justamente, e para todos
ele falou com habilidade. Por um tempo, ninguém ergueu a voz de lado
algum. Então Avranc, sem esconder seu sorriso, levantou-se novamente e
disse: ‘O prisioneiro pode agora responder à acusação, se quiser, mas
que seja breve e não enlouqueça!’

Mas Húrin não falou, apesar de fazer força contra aqueles que o
seguravam. ‘Prisioneiro, não vai falar?’ disse Avranc, e Húrin não lhe
respondeu. ‘Que assim seja,’ disse Avranc. ‘Se ele não vai falar, nem
para negar a acusação, então não há mais nada a fazer. A acusação é
justa, e aquele que está de frente para a Pedra pode propor uma pena
que lhe pareça justa para o Debate.’

Mas agora Manthor se levantou e disse: ‘Primeiro devem perguntar a ele
por que não falará. E a resposta deverá ser dada por seu amigo.’

‘A questão está feita,’ disse Avranc, dando de ombros. ‘Se você sabe a resposta, fale.’

‘Porque seus pés e mãos estão presos,’ disse Manthor. ‘Nunca antes nós
arrastamos algemado para o Debate alguém que ainda não tenha sido
condenado. Mas mesmo que seja um Edain, cujo nome merece honra, isso
nunca deveria ter acontecido. Sim, não condenado digo eu; pois o
acusado deixou muito sem ser dito que este Debate deve ouvir antes de
dar o julgamento.’

‘Mas isto é uma tolice,’ disse Avranc. ‘Adan ou não, e qualquer que
seja seu nome, o prisioneiro é incontrolável e malicioso. As algemas
são uma precaução necessária. Aqueles que se aproximam dele devem estar
protegidos da sua violência.’

‘Se deseja criar a violência,’ respondeu Manthor, ‘o que seria mais
óbvio do que abertamente desonrar um homem orgulhoso, carregando o peso
da tristeza de muitos anos nas costas. A aqui está um, enfraquecido
pela fome e por uma longa jornada desarmado em meio a uma hoste. Eu
pergunto ao povo aqui reunido: vocês consideram esta precaução digna
dos homens livres de Brethil, ou prefeririam que tivéssemos usado a
cortesia dos antigos?’

‘As algemas foram colocadas no prisioneiro por ordem do Halad,’ disse
Avranc. ‘Para isto nós usamos seu direito de evitar a violência em seu
salão. Assim, esta ordem não pode ser impugnada, salvo por toda a
assembléia.’

Assim, um grande grito se ergueu na multidão ‘Soltem-no, soltem-no!
Húrin Thalion! Soltem H‎úrin Thalion!’ Nem todos tomaram parte neste
grito, pois nenhuma voz foi ouvida do outro lado.

‘Não, não!’ disse Avranc. ‘Gritar não irá adiantar nada. Neste caso, devemos votar na forma correta.’

Agora, por hábito, em assuntos graves ou duvidosos, os votos do debate
eram dados mostrando cristais, e todos os que entraram portavam consigo
dois cristais, um preto e um branco, para sim e para não. Mas juntar e
contar os cristais tomava tempo, e enquanto isso, Manthor percebeu que
o humor de Húrin piorava cada vez mais.

‘Existe uma forma mais fácil,’ disse ele. ‘Não há perigo aqui para
justificar as algemas, pois assim pensam todos aqueles que usaram a
voz. O Halad está no anel do debate, e ele pode cancelar sua própria
ordem, se assim desejar.’

‘Ele ira,’ disse Hardang, pois pareceu para ele que a assembléia estava
impaciente, e ele pensou que agir assim os levaria para seu lado. ‘Que
o prisioneiro seja solto, e fique perante você.’

Então as algemas foram retiradas das mãos e dos pés de Húrin.
Imediatamente ele se pôs de pé e, dando as costas para Avranc, ele
encarou a assembléia. ‘Eu estou aqui,’ disse ele. ‘E vou responder o
meu nome. Eu sou Húrin Thalion, filho de Galdor Orchal, senhor de
Dor-lómin e uma vez alto capitão do exército do rei Fingon do reino do
norte. Que nenhum homem negue isto! E isto deverá ser o suficiente. Eu
não vou implorar perante vocês. Façam como quiserem! Também não irei
rebater as palavras daquele que abriu o debate e que vocês permitem que
sente na cadeira mais alta. Deixe-o mentir da forma que quiser!

‘Em nome dos Senhores do Oeste, que maneiras são estas deste povo, ou o
que vocês se tornaram? Enquanto a ruína da Escuridão está sobre vocês,
vocês sentam aqui pacientemente e escutam este guarda desertor
perguntar sobre o destino da morte sobre mim – porque eu quebrei a
cabeça de um jovem insolente, seja em sua cadeira ou fora dela? Ele
deveria ter aprendido como tratar os mais velhos antes que vocês o
tornassem seu líder.

‘Morte? ‘Perante Manwë, se eu não tivesse suportado tormentos por vinte
e oito anos, se eu estivesse como na Nirnaeth, vocês não ousariam
sentar aqui e me encarar. Mas eu não sou mais perigoso, pelo que ouvi.
Então vocês são bravos. Eu posso ficar aqui, sem algemas para ser usado
como isca. Eu fui derrotado na guerra e domado. Domado! Mas não tenham
tanta certeza disso!’ Ele ergueu os braços e cerrou os punhos.

Mas nesta hora, Manthor o acalmou, colocando a mão no seu ombro e falou
suavemente em seu ouvido. ‘Meu senhor, está se enganando em relação a
eles. Muitos são seus amigos, ou o seriam. Mas aqui há homens livres
orgulhosos também. Deixe-me falar com eles agora.’

Hardang e Avranc nada disseram, mas sorriram um para o outro, pelo
discurso de Húrin, pois pensaram que ele não tinha feito a sua parte de
maneira correta. Mas Manthor gritou: ‘Dêem ao Senhor Húrin uma cadeira
enquanto eu falo. Vocês compreenderão melhor sua ira, e talvez até
perdoar, quando tiverem me ouvido.

‘Ouçam me agora, povo de Brethil. Meu amigo não nega a acusação
principal, mas diz que foi abusado e provocado além da conta. Meus
senhores, eu era capitão dos vigias da fronteira que encontrou este
homem dormindo perto de Haud-en-Elleth. Ou parecia estar dormindo, mas
ele estava muito cansado e perto de despertar, e, enquanto estava
deitado ele ouviu, temo eu, as palavras que foram ditas.

‘Havia um homem chamado Avranc, filho de Dorlas, eu me lembro, como
membro da minha companhia, e ele deveria estar lá agora, pois esta foi
a minha ordem. Quando cheguei a Brethil, descobri que Avranc havia dado
conselhos ao homem que encontrou Húrin primeiro e adivinhou seu nome.
Povo de Brethil, eu o ouvi dizer o seguinte: “Seria melhor matar o
velho enquanto dormia e evitar problemas futuros. E isso agradaria ao
Halad,” disse ele.

‘Talvez agora vocês irão pensar melhor sobre o fato de que quando o
despertei, e ele encontrou homens armados sobre ele, ele disparou
palavras amargas para nós. Ao menos um de nós as mereceu. E sobre
desprezar nossa comida: ele a pegou de minhas mãos e não cuspiu nela.
Ele a cuspiu fora, pois se engasgou com ela. Nunca viram, meus
senhores, homens famintos que não conseguiam engolir comida devido à
pressa que tinham em fazê-lo? E este homem também estava muito
deprimido e cheio de raiva.
‘Não, ele não desdenhou de nossa comida. Se bem que ele o teria feito,
se ele soubesse dos esquemas que alguns dos que habitam aqui armaram!
Ouçam-me agora e acreditem, se quiserem, pois testemunhas podem ser
trazidas. Em sua prisão, o Senhor Húrin comeu comigo, pois eu o tratei
com cortesia. Isso foi dois dias atrás. Mas ontem, ele estava
sonolento, e não conseguia falar claramente, nem se aconselhar comigo
sobre o julgamento de hoje.’‘Isto pouco quer dizer!’ gritou Hardang.

Manthor parou e olhou para Hardang. ‘Pouco quer dizer realmente, meu
senhor Halad,’ ele disse; ‘pois essa comida foi envenenada.’

Então Hardang, irado, gritou: ‘Os sonhos deste preguiçoso tem que ser recitados para nos entediar?’

‘Não falo de sonhos,’ respondeu Manthor. ‘As testemunhas irão falar
agora. Eu levei um pouco da comida que Húrin comeu. Perante
testemunhas, eu dei para um cão, e ele está dormindo como se estivesse
morto. Talvez o Halad de Brethil não planejou isso, mas alguém que está
ávido para agradá-lo. Mas com que propósito? Para evitar que ele use da
violência, certamente, já que ele estava algemado na prisão? Existe
malícia entre nós, povo de Brethil, e eu espero que a assembléia
corrija isto!’

Neste momento, uma grande agitação e murmúrios se ergueram no anel do
debate e quando Avranc se levantou pedindo silêncio, o clamor aumentou.
Finalmente, quando a assembléia se acalmou um pouco, Manthor disse:
‘Posso continuar agora, pois há mais coisas a serem ditas?’

‘Proceda!’ disse Avranc. ‘Mas seja breve. E eu aviso a todos, meus
senhores, para que escutem este homem com cautela. Sua boa fé não pode
ser confiada. O prisioneiro e ele são parentes.’

Estas palavras não foram sábias, pois Manthor as respondeu
imediatamente: ‘Realmente. A mãe de Húrin era Hereth, filha de Halmir,
outrora Halad de Brethil, e Hiril, sua irmã era a mãe da minha mãe. Mas
sua linhagem não faz de mim um mentiroso. E digo mais, se Húrin de
Dor-lómin é meu parente, ele é parente de todos da casa de Haleth. Sim,
e de todo este povo. E mesmo assim ele é tratado como um fora da lei,
um ladrão, um homem selvagem e sem honra!

‘Vamos continuar com a acusação principal, que o acusador diz que pode
ter uma pena próxima daquela da morte. Vocês vêm perante vocês a cabeça
quebrada, apresar que parece que está firme sobre seus ombros e que
pode usar a língua muito bem. Pois foi ferida com o arremesso de um
pequeno banco. Um ato de maldade, vocês diriam. E muito pior quando
feito contra o Halad de Brethil enquanto senta em sua grande cadeira.

‘Mas meus senhores, atos malignos podem ser provocados. Que vocês se
imaginem no lugar de Hardang, filho de Hundad. Bem, aí vem Húrin,
senhor de Dor-lómin, seu parente, perante você: o chefe de uma grande
casa, um homem cujos atos são cantados por Elfos e Homens. Mas ele
agora está envelhecido, indisposto, cheio de pesar, cansado de viajar.
Ele pede para ver você. Lá está você, confortável em sua cadeira. Você
não se levanta. Você não fala com ele. Mas você o olha de cima a baixo,
enquanto ele está de pé, até que ele cai no chão. Então, cheio de
piedade e cortesia, você grita: “Tragam um banco para o homem!”

‘Oh, vergonha e espanto! Ele arremessa o banco na sua cabeça. Oh,
vergonha e espanto eu digo, pois você também desonra sua cadeira, que
você também desonra o seu salão, que você também desonra o povo de
Brethil!‘Meus senhores, eu admito livremente que teria sido melhor se o Senhor
Húrin tivesse sido paciente, inacreditavelmente paciente. Por que ele
não esperou para ver que futuros desprezos ele deveria suportar? E
mesmo assim, enquanto eu estava no salão e vi isso, tudo o que eu
conseguia pensar, e é tudo que eu consigo pensar ainda agora e peço que
me respondam: O que vocês acham dessas maneiras que possui o homem que
tornamos Halad de Brethil?’

Muitas vozes se ergueram nesta questão, mas até que Manthor erguesse
sua mão, e de repente tudo estava em silêncio novamente. Mas sob a
proteção do barulho, Hardang se aproximou de Avranc para falar com ele,
e surpreendido pelo silêncio, eles foram pegos falando alto demais,
então Manthor e outros também ouviram Hardang falar: ‘Eu me arrependo
de ter atrapalhado sua tentativa de matá-lo!’ E Avranc respondeu: ‘Eu
vou encontrar tempo para isto.’

Mas Manthor continuou. ‘Minhas dúvidas foram sanadas. Estas maneiras
não os agrada, eu vejo. Então o que teriam feito com o arremessador do
banco? Teriam amarrado-o, colocariam uma coleira em seu pescoço,
prenderiam-no em uma caverna, teriam algemado-o, envenenado sua comida,
e por fim, arrastado ele até aqui e pedido pela sua morte? Ou teriam
libertado-o? Ou teriam, talvez, pedido desculpas, ou ordenado a este
Halad que o fizesse?

Assim, mais vozes ainda se ergueram, e homens se levantaram nas
bancadas, batendo palmas e gritando: ‘Libertem! Libertem! Libertem
ele!’ E muitas vozes foram ouvidas gritando: ‘Fora com este Halad!
Coloquem-no nas cavernas!’

Muitos dos homens mais velhos que sentavam nas fileiras de baixo
correram e se ajoelharam perante Húrin e pediram o seu perdão; e um
ofereceu a ele uma bengala, outro deu a ele um belo manto e um grande
cinto de prata. E quando Húrin estava todo vestido, e com uma bengala
em sua mão, ele foi até a Pedra e subiu nela, não como um suplicante,
mas como um rei; e encarando a assembléia, ele gritou em uma grande
voz: ‘Eu agradeço a vocês, mestres de Brethil aqui presentes, que me
libertaram da desonra. Ainda existe justiça em sua terra, mas ela
estava adormecida e demorou a despertar. Mas agora eu tenho uma
acusação a fazer.

‘Qual é minha missão aqui, é o que foi perguntado? O que acham? Túrin,
meu filho, e Nienor, minha filha, não morreram nesta terra? Ai de mim!
De longe eu fiquei sabendo das dores que aconteceram aqui. É então um
espanto que um pai vá procurar as tumbas dos seus filhos? Maior espanto
é, pelo que me parece, que ninguém aqui, em momento algum, falou seus
nomes para mim.

‘Estão envergonhados que deixaram meu filho Túrin morrer por vocês? Que
apenas dois tiveram coragem de ir com ele encarar o terror do verme?
Que ninguém ousou ir até lá para socorrê-lo quando a batalha havia
terminado, apesar de que o maior dos males havia sido impedido?

‘Envergonhados vocês devem estar. Mas esta não é a minha acusação. Eu
não peço que nenhum nesta terra se equipare ao filho de Húrin em valor.
Mas se eu perdoar esta dor, devo perdoar isto? Escutem-me, homens de
Brethil! Lá está, junto à Pedra Parada que vocês ergueram, uma mendiga.
Por muito tempo ela ficou em sua terra, sem fogo, sem comida, sem
piedade. Agora ela está morta. Morta. Ela era Morwen, minha esposa.
Morwen Edelwen, a dama bela como os elfos que deu vida a Túrin, o
matador de Glaurung. Ela está morta.

‘Se vocês, que têm um pouco de piedade, gritarem para mim que não
possuem culpa, então eu pergunto quem é o culpado? Por quem no comando
ela foi deixada fora para morrer de fome em suas portas como um cão
expulso?

‘O seu líder contribuiu para isto? Acredito que sim. Ou ele não teria agido assim comigo, se tivesse a chance? Estas são os seus presentes: desonra, fome, veneno. Vocês não tem parte nisto? Vocês não trabalhariam conforme sua vontade? Então, por quanto tempo, senhores de Brethil, vocês o suportarão? Por quanto tempo vocês irão permitir que este homem chamado Hardang sente em sua cadeira?’

Agora Hardang estava aterrorizado, quando chegou a sua vez, e seu rosto ficou branco com medo e espanto. Mas antes que pudesse falar, Húrin apontou uma longa mão a ele. ‘Vejam!’ ele gritou. ‘Ali ele está com um sorriso de escárnio em seus lábios! Será que se considera a salvo? Pois roubaram minha espada; e eu sou velho e estou cansado, ele pensa. Não, por muitas vezes me chamou de homem selvagem. Ele verá um então! Apenas mãos, mãos, são necessárias para esmagar sua garganta cheia de mentiras.’

Com isto, Húrin deixou a pedra e caminhou a passadas largas em direção a Hardang; mas este se afastou perante Húrin, chamando seus guarda-costas para protegê-lo; e eles foram em direção ao portão. Para muitos isto pareceu que Hardang admitira sua culpa, e eles puxaram suas armas, e desceram da bancada, gritando em direção a ele.

Agora o perigo da batalha estava no interior do anel sagrado. Pois outros se aliaram a Hardang, alguns por amor por ele ou pelos seus atos, que, acima de tudo, eram leais a ele e ao menos o defenderiam da violência, até que pudesse se defender perante o debate.

Manthor estava entre os dois grupos, e gritou para que segurassem suas mãos e que não derramassem sangue no anel do debate; mas a fagulha que ele mesmo criou agora explodiu em chamas além do seu controle, e uma onda de homens o colocou para o lado. ‘Fora com este Halad!’ eles gritavam. ‘Fora com Hardang, levem-no para as cavernas! Abaixo Hardang! Viva Manthor! Nós queremos Manthor!’ E eles se lançaram sobre os homens que barravam o caminho para o portão, para que Hardang tivesse tempo para escapar.

Mas Manthor voltou até Húrin, que agora estava sozinho, perto da Pedra. ‘Ai de mim, Senhor!’ disse ele, ‘eu temia que esse dia guardasse grande perigo para nós. Há pouco que posso fazer, mas ainda eu devo tentar evitar o mal maior. Eles logo sairão, e eu devo segui-los. Você virá comigo?’

Muitos caíram no portão, de ambos os lados, mas ele foi tomado. Lá Avranc lutou bravamente, e ele foi o último a fugir. Mas quando ele se virou para correr, ele de repente puxou seu arco e atirou em Manthor, que estava próximo da Pedra. Mas, devido à sua pressa, ele errou o tiro, e a flecha acertou a pedra, lançando fagulhas atrás de Manthor enquanto quebrava. ‘Da próxima vez será mais perto!’ gritou Avranc, enquanto fugia com Hardang.

Então os rebeldes saíram do anel e perseguiram os homens de Hardang até Obel Halad, quase há meia milha de distância. Mas antes de chegarem lá, o Hardang havia tomado conta do salão e o trancou; e ele agora estava cercado. O salão dos líderes ficava num jardim com uma parede de terra redonda em volta, se erguendo de um dique externo seco. Na parede havia apenas um portão, do qual uma trilha de pedras levava até grandes portas. Os perseguidores passaram pelo portão e rapidamente cercaram todo o salão, e tudo ficou quieto por um tempo.

Mas Manthor e Húrin chegaram até o portão; e Manthor queria negociar, mas os homens disseram: ‘De que servem palavras? Ratos não sairão enquanto cães estão perto.’ E alguns gritaram: ‘Nossos parentes foram assassinados, e nós os vingaremos!’

‘Muito bem’, disse Manthor, ‘permitam ao menos que eu faça o que eu posso!’

‘Então faça!’ disseram eles. ‘Mas não se aproxime demais, ou poderá receber uma resposta afiada.’

Assim, Manthor ficou próximo ao portão e ergueu sua grande voz, gritando para ambos os lados que eles deveriam parar com este fraticídio. E para aqueles que ele estavam dentro, prometeu que aqueles que se apresentassem desarmados poderiam sair livremente, até mesmo Hardang, se ele desse sua palavra de comparecer perante o Debate no dia seguinte. ‘E nenhum homem irá levar armas também,’ disse ele.

Mas enquanto falava, uma flecha saiu de uma janela, que passou perto da orelha de Manthor, e cravou fundo em um dos marcos do portão. Então a voz de Avranc foi ouvida, gritando: ‘A terceira vez será certeira!’

Agora a raiva daqueles que estavam fora se inflamou novamente, e muitos correram até as grandes portas e tentaram quebrá-las; mas lá havia uma surtida, e muitos foram feridos ou mortos, e muitos outros no pátio foram feridos por flechas das janelas. Então os assaltantes, agora cheios de ira, trouxeram galhos e gravetos e muita madeira, e colocaram no portão; e gritaram para aqueles que estavam dentro:

‘Vejam! O Sol está se pondo. Nós lhe daremos até o cair da noite. Se vocês não saírem então, nós iremos queimar o salão com vocês dentro!’

Então todos se afastaram do pátio, para evitar flechadas, mas formaram um anel de homens em volta do dique externo.

O Sol se pôs e ninguém saiu do salão. E quando estava escuro, os assaltantes voltaram ao pátio carregando a madeira, e as empilharam em volta das paredes do salão. Então, alguns carregando tochas acesas, correram pelo pátio para colocar fogo nas madeiras. Um foi morto por uma flechada, mas os outros chegaram às pilhas e logo começaram a queimar.

Manthor ficou horrorizado na ruína do salão e o ato maligno dos homens de queimá-lo. ‘Dos dias escuros do nosso passado isso vem,’ disse ele, ‘antes de virarmos nossos rostos para o oeste. Uma sombra está sobre nós.’ E ele sentiu uma mão no seu ombro, e ele se virou e viu Húrin, que estava atrás dele, com uma expressão austera; e Húrin riu.

‘Vocês são um povo estranho,’ disse ele. ‘Uma hora frios, outra quente. Primeiro ira, então piedade. Sob os pés de seu líder e agora na sua garganta. Abaixo Hardang! Viva Manthor! Você irá aceitar isso?’

‘O povo deve escolher,’ disse Manthor. ‘E Hardang ainda vive.’

‘Não por muito tempo, espero,’ disse Húrin.

Agora as chamas cresceram e logo o salão do Haladin estava queimando em muitos lugares. Os homens de dentro jogaram terra e água sobre a lenha, tudo o que tinham, e uma grande fumaça se ergueu. Então alguns tentaram fugir sob sua proteção, mas poucos passaram pelo anel de homens; a maioria foi preso, ou morto, se tentaram lutar.

Havia uma pequena porta nos fundos do salão com uma varanda arqueada que se aproximava mais da parede do pátio do que as grandes portas na frente; e a parede atrás era mais baixa, porque o salão fora construído nas encostas de uma colina. Quando o telhado pegou fogo, Hardang e Avranc fugiram pela porta dos fundos, alcançaram o topo da parede e rolaram para o dique, e não foram avistados até que tentaram escalar para fora. Mas então, com gritos, homens correram até eles, mas não sabiam quem eram. Avranc se lançou aos pés de um deles, e o derrubou, e Avranc se levantou e fugiu pela escuridão. Mas outro arremessou uma lança nas costas de Hardang enquanto fugia, e ele caiu com um grande ferimento.

Quando descobriram quem ele era, os homens o levantaram e o colocaram aos pés de Manthor. ‘Não o coloque aos meus pés,’ disse Manthor, mas aos pés daquele que ele maltratou. Não tenho nada contra ele.’

‘Não tem?’ disse Hardang. ‘Então deve ter certeza da minha morte. Eu acho que você sempre terá algo contra aquele que foi escolhido pelo povo para ocupar a cadeira em vez de você.’

‘Pense o que quiser!’ disse Manthor, e se afastou. Então Hardang percebeu que Húrin estava ali. E Húrin ficou olhando para Hardang, uma forma escura na penumbra, mas a luz do fogo estava em seu rosto, e ali Hardang não viu piedade.

‘Você é um homem mais forte que eu, Húrin de Hithlum,’ ele disse. ‘Eu tinha tanto medo da sua sombra que toda a sabedoria e generosidade me abandonou. Mas agora eu não acho que nenhuma sabedoria ou piedade me salvaria de você, pois você não tem nem uma coisa nem outra. Você veio me destruir, ao menos nunca negou isto. Mas sua última mentira contra mim, eu a rebato antes de morrer. Nunca’ – mas com um engasgo de sangue em sua garganta, ele caiu para traz e não falou mais nada.

Então Manthor falou: ‘Ai de mim! Ele não devia ter morrido desta forma. A maldade que ele criou não lhe dava o direito de morrer assim.’

‘Por que não?’ disse Húrin. ‘Ele falou palavras odiosas de uma boca podre no final. Que mentiras falei contra ele?’

Manthor suspirou. ‘Nenhuma mentira intencional, talvez,’ ele disse. ‘Mas a última acusação que você apresentou era falsa, eu acho; e ele não teve chance de negá-la. Eu preferiria que tivesse falado para mim antes do Debate!’

Húrin cerrou os punhos. ‘Não é falsa!’ ele gritou. ‘Ela está onde eu falei. Morwen! Ela está morta!’

‘Ai de mim! Senhor, onde ela morreu eu não duvido. Mas disso eu acho que o Hardang não sabia mais do que eu, antes de você falar. Diga-me, senhor: ela alguma vez caminhou mais profundamente nesta terra?’

‘Eu não sei. Eu a encontrei como falei. Ela está morta.’

‘Mas senhor, se ela não caminhou mais, mas, ao encontrar a pedra, lá se sentou, triste e desesperada, no túmulo de seu filho, pelo que posso crer, então…’

‘Então o que?’ disse Húrin.

‘Então, Húrin Hadorion, pela escuridão de sua angústia, saiba disso! Meu senhor, cujo sofrimento é imenso, tão imenso quanto as coisas que vieram a acontecer conosco que nenhum homem e nenhuma mulher se aproximou daquela pedra desde que ela está lá. Não! O senhor Oromë em pessoa pode sentar naquela pedra, com toda a sua caça em sua volta, e não saberíamos. E mesmo que soprasse sua grande corneta, nós não atenderíamos àquele chamado!’

‘Mas e se Mandos, o Justo, falasse, não o ouviria?’ disse Húrin. ‘Agora alguns devem ir para lá, se você possui alguma piedade! Ou irá deixá-la lá, até que seus ossos fiquem brancos? Isto purificaria a sua terra?’

‘Não, não!’ disse Manthor. ‘Eu irei encontrar alguns homens de coração forte e mulheres piedosas, e você nos levará até lá, e faremos o que pede. Mas é uma longa estrada, e este dia está acabando em toda a sua malícia. Um novo dia é necessário.’

No dia seguinte, quando as notícias da morte de Hardang se espalharam, uma grande multidão de pessoas procurou Manthor, implorando para que se tornasse líder. Mas ele disse: ‘Não, isto deve ser apresentado perante o Debate. E não pode ser agora, pois o anel foi maculado, e existem outras coisas que são mais urgentes. Primeiro eu tenho uma missão. Eu devo ir ao campo do verme e até a Pedra dos Infelizes, onde Morwen, sua mãe está abandonada. Alguém irá comigo?’

Então a piedade afetou alguns corações dos que o ouviram; e apesar de alguns terem se afastado com medo, muitos estavam dispostos a ir, mas entre estes, havia mais mulheres do que homens.

Assim, mais tarde, partiram em silêncio, trilhando o caminho que levava pela cachoeira de Celebros. Após oito milhas, a escuridão caiu sobre Nen Girith, e eles passaram a noite da forma que puderam. E na manhã seguinte, eles chegaram ao Campo da Queimada, e eles encontraram o corpo de Morwen ao lado da Pedra Parada. Então olharam para ela com piedade e espanto; pois parecia que olhavam para uma grande rainha cuja dignidade nem a idade nem toda a miséria nem toda a angústia do mundo conseguiria tirar dela.

Então eles desejaram honrá-la em morte; e alguns disseram: ‘Este é um lugar negro. Vamos erguê-la, e levar a Senhora Morwen até o pátio dos túmulos e colocá-la entre os da Casa de Haleth com quem possui parentesco.’

Mas Húrin disse: ‘Não, Nienor não está aqui, mas é melhor que ela fique aqui, próxima de seu filho, em vez de com estranhos. É o que ela teria escolhido.’ Então eles fizeram uma tumba para Morwen sobre Cabed Naeramarth, no lado oeste da Pedra; e quando a terra foi jogada sobre ela, eles escreveram na Pedra: Aqui jaz também Morwen Edelwen, enquanto alguns cantavam na língua antiga os lamentos que há muito foram feitos para aqueles do seu povo que caíram na Marcha além das Montanhas.

E enquanto cantavam, começou uma chuva cinzenta, e todo aquele lugar desolado se encheu de pesar, e o rugir do rio era como o lamento de muitas vozes. E quando tudo terminou, eles se afastaram, e Húrin foi apoiado em sua bengala. Mas dizem que depois deste dia o medo abandonou aquele lugar, mas a tristeza permaneceu, e ficou para sempre sem folhas e descoberto. Mas até o fim de Beleriand, as mulheres de Brethil iriam com flores na primavera, e bacíferos no outono, e cantariam ali por um tempo, para a Senhora Cinzenta que procurou em vão por seu filho. E um vidente e um harpista de Brethil, Glirhuin, fez uma canção falando que a Pedra dos Infelizes não poderia ser maculada por Morgoth, nem nunca derrubada, nem que o Mar engolisse toda a terra. O que de fato aconteceu depois, e ainda a Tol Morwen está sozinha na água, além das novas costas que foram criadas nos dias da ira dos Valar. Mas Húrin não está enterrado lá, pois seu destino o levou adiante, e a Sombra continuou seguindo-o.

Agora, quando a companhia retornou para Nen Girith, eles pararam, e Húrin olhou para trás, além de Taeglin, em direção ao Sol poente que aparecia através das nuvens; e ele estava relutante em retornar para a Floresta. Mas Manthor olhou para o leste e estava preocupado, pois havia um brilho vermelho no céu daquele lado também.

‘Senhor,’ disse ele, ‘fique aqui se quiser, assim como todos os outros que estiverem cansados. Mas eu sou o último dos Haladin, e eu temo que o fogo que foi aceso ainda não tenha se apagado. Devo retornar rapidamente, para que a loucura dos homens não leve Brethil inteira à ruína.’

Mas enquanto ele falava isto, uma flecha saiu do meio das árvores, e ele tropeçou e caiu no chão. Então os homens correram para procurar pelo arqueiro; e eles viram um homem correndo como um cervo pelo caminho até Obel, e ele não foi alcançado; mas eles viram que era Avranc.

Manthor sentou-se, ofegante, encostado em uma árvore. ‘Só um arqueiro ruim erraria o alvo no terceiro tiro,’ ele disse.

Húrin se curvou em sua bengala e olhou para Manthor. ‘Mas você também errou seu alvo, parente,’ ele disse. ‘Você foi um amigo valoroso, e eu acho que você foi com muita vontade na causa que também era sua. Manthor teria sentado de forma mais merecedora na cadeira dos líderes.’

‘Você possui um olho forte, Húrin, para perfurar todos os corações, menos o seu,’ disse Manthor. ‘Sim, sua escuridão também me tocou. Agora ai de mim! Os Haladin se acabaram; pois este ferimento é mortal. Esta não era sua verdadeira missão, homem do norte: levar a ruína a nós para contrapesar com a sua? A Casa de Hador nos conquistou, e quatro de nós caíram sob sua sombra: Brandir, e Hunthor, e Hardang e Mantho. Não é o suficiente? Não partirás e deixar esta terra que morre?’

‘Eu irei,’ disse Húrin. ‘Mas se o poço das minhas lágrimas não estivesse totalmente seco, eu choraria por você, Manthor, pois você me salvou da desonra, e eu o amo como a um filho.’

‘Então, senhor, use em paz o pouco mais de vida que eu ganhei para você,’ disse Manthor. ‘Não leve sua sombra para outros!’

‘Por quê? Não posso mais caminhar pelo mundo?’ disse Húrin. ‘Eu irei continuar até que a sombra de derrube. Adeus!’

E assim Húrin se separou de Manthor. Quando os homens foram medicar seus ferimentos, descobriram que era grave, pois a flecha entrara fundo em seu flanco; e eles quiseram carregar Manthor rapidamente de volta para o Obel, para que fosse cuidado por curandeiros habilidosos. ‘Tarde demais,’ disse Manthor, e ele arrancou fora a flecha, e deu um grande grito, e ficou imóvel. Assim terminou a Casa de Haleth, e homens menores governaram Brethil no tempo que restou.

Mas Húrin ficou em silêncio, e quando a companhia partiu, carregando o corpo de Manthor, ele não se virou. Ele olhou sempre para o oeste até que o Sol caísse na escuridão e a luz falhasse; e então partiu sozinho em direção à Haud-em-Elleth.

* Pois Manthor era um descendente de Haldad, e ele possuía uma terra pequena na fronteira leste de Brethil, próximo ao Sirion onde ele atravessa Dimbar. Mas todo o povo de Brethil era formado por homens livres, mantendo suas casas e suas terras, sejam maiores ou menores, de direito. Seu senhor era escolhido entre os descendentes de Haldad, por reverência pelos feitos de Haleth e Haldar; e mesmo que a liderança era dada, como se fosse um domínio ou um reino, para os mais velhos da linhagem mais velha, o povo tinha o direito de colocar qualquer um de lado ou tirá-lo de lá, por uma causa grave. E alguns sabiam o suficiente que Harathor tentara que Brandir o Aleijado tivesse tido abdicado em seu favor.

History of Middle-earth XI – The War of the Jewels

"The War of the Jewels" ou "A Guerra das Jóias" se refere, é claro, à terrível contenda entre os Noldor e seus aliados élficos e humanos contra Morgoth, o Inimigo do Mundo, pela posse das Silmarils. O livro continua o esquema iniciado em "Morgoths Ring" ao mostrar como as lendas dos Dias Antigos foram sendo reelaboradas por Tolkien depois que ele terminou "O Senhor dos Anéis".

 

O foco do livro é o período que segue a chegada dos Noldor à Terra-média até o fim da Primeira Era. O Quenta Silmarillion continua, acompanhada pelos chamados Anais Cinzentos. Não há grandes novidades para quem já conhece "O Silmarillion", com a notável exceção de um belo texto que descreve a relação entre o sindarin e o quenya e como os Noldor se adaptaram, na marra, ao novo idioma (no caso, o élfico-cinzento).

Os grandes atrativos e surpresas do livro vêm depois. O primeiro deles é "The Wanderings of Húrin" (As Andanças de Húrin), que relata parte do que aconteceu ao maior guerreiro humano da Primeira Era depois de ser libertado de Angband. Acredite se quiser, Christopher Tolkien acochambrou em "O Silmarillion": a idéia de Tolkien era que Húrin entrasse em Brethil para vingar a morte de seu filho Túrin, causando uma guerra civil entre os Haladin. Infelizmente, como essa versão estava inacabada, Christopher precisou criar seu próprio final para Húrin.

Fechando com chave de ouro o livro, temos "Quendi and Eldar", um monumental texto filológico que também traz novas revelações sobre a história élfica.