Arquivo da tag: Orcs

orcs1.jpg

Mitos Transformados X – Orcs

The History of Middle-earth 10

Forneço aqui ((Christopher Tolkien escrevendo em primeira pessoa)) um texto de um tipo completamente diferente, um ensaio praticamente finalizado sobre a origem dos Orcs (( Este é o terceiro dos três artigos (numerados de VIII a X) sobre Orcs contidos no Mitos Transformados do The History of Middle-earth X e que a Valinor tem a honra de publicar. Os dois anteriores podem ser vistos em VIII e IX. )). É necessário explicar algo sobre as relações deste texto.

 

Existe um trabalho maior, o qual eu espero publicar no The History of Middle-earth, chamado Essekenta Eldarinwa ou Quendi e Eldar. Ele existe em uma boa cópia datilografada feita por meu pai em sua última máquina de datilografia, tanto a cópia principal quanto a cópia em carbono; e é precedido em ambas as cópias por uma página manuscrita descrevendo o conteúdo do trabalho:Questionamento sobre as origens dos nomes Élficos para os Elfos e seus variados clãs e divisões: com Apêndices sobre seus nomes por outros Encarnados: Homens, Anões e Orcs; e sobre a análise de sua própria língua, Quenya: com uma nota sobre a “Língua dos Valar”.Contando com os apêndices, Quendi e Eldar ocupa perto de cinqüenta páginas datilografadas, e sendo um trabalho altamente finalizado e lúcido do maior interesse.A uma das páginas de rosto meu pai acrescentou o seguinte:Ao qual está acrescentado um resumo do Ósanwë-kenta ou “Comunicação de Pensamento” que Pengolodh colocou ao final de seu Lammas ou “Registro das Línguas”Este é um trabalho em separado ocupando oito páginas datilografadas, paginadas separadamente, mas encontrado junto com ambas as cópias de Quendi e Eldar. Em adição, e não citado nas páginas de rosto, existe ainda outro texto datilografado de quatro páginas (também encontrada com ambas as cópias de Quendi e Eldar) intitulado Orcs; e este é o texto fornecido aqui.Todos os três elementos são idênticos em aparência geral, mas Orcs fica à parte dos demais, não tendo nenhuma relação lingüística; e em vista disso eu pensei que seria legítimo resumi-lo e imprimi-lo neste livro junto com as outras discussões sobre a origem dos Orcs dadas como os textos VIII e IX.Para datar este grupo de textos, uma das cópias está preservada em um jornal dobrado de Março de 1960. Neste meu pai escreveu: “’Quendi e Eldar’ com Apêndices”, e abaixo há uma breve lista dos Apêndices, todos os itens escritos à mesma época, e incluem tanto o Ósanwë quanto Origem dos Orcs (o mesmo é verdade com relação à capa da outra cópia do grupo de textos Quendi e Eldar). Todo o material, portanto já existia quando o jornal foi utilizado para este propósito, e embora, como em outros casos similares, não forneça um terminus ad quem perfeitamente certo, não há razão para duvidar que ele pertença a 1959 – 60.O Apêndice C de Quendi e Eldar, “Nomes Élficos para os Orcs”, é primariamente relacionado com etimologia, mas inicia-se com o seguinte trecho:

Não é aqui o lugar para debater a questão da origem dos Orcs. Eles foram engendrados por Melkor, seu engendramento era o mais maligno e lamentável de seus trabalhos em Arda, mas não o mais terrível. Pois claramente eles, em sua malícia, representariam um escárnio aos Filhos de Ilúvatar, mas completamente subservientes à sua vontade, e criados com um implacável ódio a Elfos e Homens.

Os Orcs das guerras tardias, após a fuga de Melkor-Morgoth e seu retorno à Terra-média, não eram nem espíritos nem fantasmas, mas criaturas vivas, capazes de falar e de algumas habilidades e organização, ou pelo menos capazes de aprender tais coisas de criaturas superiores ou de seu Mestre. Eles procriavam e se multiplicavam rapidamente sempre que deixados imperturbados. É improvável, como uma consideração da origem última desta raça deixará claro, que os Quendi tenham encontrado quaisquer Orcs deste tipo, antes de serem encontrados por Oromë e da separação entre Eldar e Avari.

Mas é sabido que Melkor tornara-se ciente dos Quendi antes dos Valar terem começado sua guerra contra ele, e a felicidade dos Elfos na Terra-média já havia sido escurecida pelas sombras do medo. Formas terríveis começaram a assombrar os limites de suas moradias, e alguns de seu povo desapareceram na escuridão e deles não se ouviu mais nada. Algumas dessas coisas podem ter sido fantasmas e ilusões, mas algumas eram, sem dúvida, formas assumidas pelos servos de Melkor, escarneando e degradando as próprias formas dos Filhos. Pois Melkor tinha a seu serviço um grande número de Maiar, que tinham o poder, assim como seu Mestre, de tomar forma visível e tangível em Arda.

Sem dúvida meu pai foi levado por suas próprias palavras “É improvável, como uma consideração da origem última desta raça deixará claro, que os Quendi tenham encontrado quaisquer Orcs deste tipo, antes de serem encontrados por Oromë” e escrever aquela “consideração”, que segue abaixo. Será visto que uma passagem desta afirmação inicial foi re-utilizada.

 


Orcs ((a partir deste ponto, o texto é do próprio J. R. R. Tolkien))

A origem dos Orcs é um assunto de discussões. Alguns os chamaram de Melkorohíni, os Filhos de Melkor; mas os mais sábios dizem: não, os escravos de Melkor, mas não seus filhos; pois Melkor não tinha filhos (( E uma cópia do texto meu pai escreveu a lápis ao lado desta sentença os nomes Eruseni, Melkorseni. )). Contudo, foi pela malícia de Melkor que os Orcs surgiram, e claramente eles representariam um escárnio aos Filhos de Ilúvatar, sendo gerados para ser completamente subservientes à sua vontade e cheios de um implacável ódio a Elfos e Homens.Os Orcs das guerras tardias, após a fuga de Melkor-Morgoth e seu retorno à Terra-média, não eram nem espíritos nem fantasmas, mas criaturas vivas, capazes de falar e de algumas habilidades e organização, ou pelo menos capazes de aprender tais coisas de criaturas superiores ou de seu Mestre. Eles procriavam e se multiplicavam rapidamente sempre que deixados imperturbados. Tanto quanto pode ser vislumbrado a partir das lendas que chegaram até nós de nossos dias mais antigos (( ‘lendas que chegaram até nós de nossos dias mais antigos'; isto tinha a intenção de ser um texto Élfico. Sauron é citado subseqüentemente como estando no passado; mas na última sentença do ensaio os Orcs são uma praga que ainda aflige o mundo )), parece que os Quendi ainda não haviam encontrado nenhum Orc deste tipo antes da chegada de Oromë a Cuiviénen.Aqueles que acreditam que os Orcs foram gerados a partir de alguma raça de Homens, capturados e pervertidos por Melkor, afirmam que seria impossível para os Quendi ter conhecimento dos Orcs antes da Separação e da partida dos Eldar. Pois, embora o tempo do acordar dos Homens não ser conhecido, mesmo os cálculos dos mestres de conhecimento que o colocam mais cedo não dão a ele uma data muito anterior ao início da Grande Marcha (( O tempo do Acordar dos Homens é agora colocado bem para trás; compare com o texto II, A Marcha dos Eldar atravessa grandes Chuvas? Homens despertam em uma ilha em meio à enchente'; ‘A chegada dos Homens será, portanto, muito anterior'; ‘Homens devem acordar enquanto Melkor ainda está [na Terra-média] – por causa de sua Queda. Portanto em algum período durante a Grande Marcha’. Na cronologia dos Anais de Aman e Anais Cinzentos a Grande Marcha começa no Ano das Árvores 1105, e as companhias mais avançadas de Elfos chegaram ao litoral do Mar em 1125; Homens acordaram em Hildorien no ano do primeiro nascer do Sol, que foi no Ano das Árvores 1500. Portanto, se o Acordar dos Homens está colocado mesmo na parte final do período da Grande Marcha dos Eldar ele terá sido trazido mais de 3500 Anos do Sol para trás. )), certamente não suficiente antes dela de forma a permitir a corrupção de Homens em Orcs. Por outro lado, é claro que logo após seu retorno Morgoth tinha a seu comando um grande número dessas criaturas, com as quais ele sem demora começou a atacar os Elfos.  Houve ainda menos tempo entre seu retorno e esses ataques para a geração dos Orcs e para a transferência de suas hordas para o oeste.Esta visão das origens dos Orcs, portanto, encontra dificuldades de cronologia. Mas embora Homens possam se confortar com isso, a teoria ainda permanece como a mais provável.

Ela está de acordo com tudo que é conhecido de Melkor, e da natureza e comportamento dos Orcs – e dos Homens. Melkor era impotente para produzir qualquer coisa viva, mas habilidoso na corrupção de coisas que não procediam de si mesmo, se ele pudesse dominá-las. Mas se ele de fato tivesse tentado fazer criaturas de si mesmo em imitação ou escárnio dos Encarnados, ele teria, como Aule, tido sucesso em produzir apenas títeres: suas criaturas agiriam apenas enquanto a atenção de sua vontade estivesse sobre elas, e elas não mostrariam nenhuma relutância em executar qualquer comando dele, mesmo se fosse para destruírem a si mesmas.Mas os Orcs não eram desse tipo. Eles certamente eram dominados por seu Mestre, mas seu domínio era pelo medo, e eles estavam cientes desse medo e o odiavam. Eles eram, de fato, tão corrompidos que eram impiedosos, e não havia crueldade ou vileza que eles não cometeriam; mas esta era a corrupção de vontades independentes, e eles tinha  prazer em seus feitos. Eles eram capazes de agir por si mesmos, realizando feitos malignos para seu próprio divertimento, sem terem sido ordenados; ou se Morgoth ou seus agentes estivesse longe, eles poderiam negligenciar seus comandos. Eles algumas vezes lutavam [> Eles odiavam uns aos outros e freqüentemente lutavam] entre eles mesmos, em detrimento dos planos de Morgoth.Além disso, os Orcs continuavam a viver e se reproduzir e a continuar com seus próprios atos destrutivos e saques após Morgoth ter sido derrubado. Eles possuíam também outras características dos Encarnados. Eles tinham idiomas próprios, e falavam entre eles em várias línguas de acordo com as diferenças de linhagem que eram dicerníveis entre eles. Eles precisavam de comida e bebida, e descanso, embora muitos fossem, por treinamento, tão resistentes quando os Anões em resistir a interpéries. Eles poderiam ser mortos, e estavam sujeitos a doenças; mas mesmo sem doenças eles morriam e não eram imortais, nem mesmo de acordo com as maneiras dos Quendi; de fato eles parecem naturalmente ter vidas curtas comparadas com Homens de raça superior, como os Edain.Este último ponto não era bem compreendido nos Dias Antigos. Pois Morgoth tinha muitos servos, dos quais os mais antigos e mais poderosos eram imortais, pertencendo aos Maiar, inicialmente; e estes espíritos malignos, assim como seu Mestre, podiam assumir formas visíveis. Aqueles cujas responsabilidades eram comandar os Orcs freqüentemente assumiam formas Órquicas, embora fossem maiores e mais terríveis ((  Confira com o texto IX: ‘Mas sempre entre eles [Orcs] (como servidores especiais e espiões de Melkor, e como líderes) devem ter existido numerosos espíritos menores corrompidos que assumiram formas corpóreas similares; e também o texto VIII. )). Por isso que as histórias contam de Grandes Orcs ou capitães-Orc que nunca eram mortos, e que reapareciam em batalhas através de períodos muito maiores do que a duração das vidas dos Homens (( A nota de rodapé neste ponto, iniciando com ‘Boldog, por exemplo, é um nome que ocorre muitas vezes nos contos da Guerra’ e ‘é possível que não seja um nome pessoal’, é curiosa. Boldog aparece inúmeras vezes na Balada de Leithian como o nome do capitão-Orc que lidera um ataque a Doriath (referência no Índice para As Baladas de Beleriand); ele reaparece no Quenta (HoME IV), mas não é mencionado depois. Eu não conheço nenhuma outra referência a um Orc chamado Boldog. )). ((* [nota de rodapé ao texto] Boldog, por exemplo, é um nome que ocorre muitas vezes nos contos da Guerra. Mas é possível que Boldog não seja um nome pessoal e sim um título ou mesmo o nome de um tipo de criatura: os Maiar em forma de Orc, apenas menos formidáveis do que os Balrogs)) 

E finalmente, há um ponto relevante, embora horrível de se relatar. Com o tempo ficou claro que os Homens poderiam, sob a dominação de Morgoth ou de seus agentes, em algumas poucas gerações ser reduzidos quase a um nível Órquico em mente e hábitos; e então eles iriam ou poderiam ser induzidos a cruzar com Orcs, produzindo novas linhagens, freqüentemente maiores e mais espertos. Não há dúvida de que muito mais tarde, na Terceira Era, Saruman redescobriu isto, ou aprendeu sobre isso no conhecimento passado, e em seu desejo por comando ele o cometeu, eu feito mais vil: o intercruzamento de Orcs e Homens, produzindo tanto Homens-orc grandes e espertos quanto Orcs-homens traiçoeiros e vis.

Mas mesmo antes de existirem suspeitas quanto a esta maldade de Morgoth os Sábios dos Dias ensinavam que os Orcs não foram ‘feitos’ por Morgoth, e, portanto, não eram originalmente malignos. Eles podem ter se tornado irredimíveis (ao menos para Elfos e Homens), mas eles permaneciam dentro da Lei. Ou seja, embora por necessidade, sendo os dedos da mão de Morgoth, eles devessem sem combatidos com a máxima severidade, eles não poderiam ser lidados nos próprios termos de crueldade e traição. Cativos não deveriam ser torturados, nem mesmo para descobri informação para a defesa das casas dos Elfos e Homens. E se qualquer Orc se rendesse e pedisse misericórdia, isso lhe deveria sem concedido, mesmo a um custo. ((  [nota de rodapé ao texto] Poucos Orcs o fizeram nos Dias Antigos, e em qualquer época nenhum Orc trataria com um Elfo. Pois uma coisa que Morgoth conseguira fora convencer os Orcs além de refutação que os Elfos era mais cruéis que eles mesmos, fazendo prisioneiros apenas para ‘divertimento’ ou para comê-los (como os Orcs faziam, em caso de necessidade)  )) Este era o ensinamento dos Sábios, embora no horror da Guerra ele nem sempre fosse seguido.

É verdade, claro, que Morgoth mantinha os Orcs em selvagem servidão; pois em suas corrupções eles tinham perdido quase toda a possibilidade de resistir à dominação de suas vontades. Tão grande, de fato, esta pressão sobre eles se tornou antes da queda de Angband que, se ele colocasse seu pensamento em direção a eles, eles estariam conscientes de seu ‘olho’ seja lá onde estivesse; e quando Morgoth foi finalmente removido de Arda os Orcs que sobreviveram no Oeste se espalharam, sem líder e quase sem juízo, e estiveram por um longo tempo sem controle ou propósito.

Esta servidão a uma vontade central que quase reduziu os Orcs a uma vida parecida com a de formigas foi vista ainda mais claramente na Segunda e Terceira Era sob a tirania de Sauron, segundo-em-comando de Morgoth. Na verdade Sauron conseguiu um controle ainda maior sobre seus Orcs do que Morgoth conseguira. Ele estava, claro, operando em um escala menor, e ele não tinha inimigos tão grandes e tão sinistros quanto os Noldor em ápice nos Dias Antigos. Mas ele também tinha herdado daqueles dias  algumas dificuldades, como a diversidade de linhagens e línguas dos Orcs, e a disputas entre eles;e em muitos lugares da Terra-média, após a queda de Thangorodrim e durante o tempo de ocultamento de Sauron, os Orcs, recuperando-se de sua impotência, estabeleceram pequenos reinos próprios e se tornaram acostumados à independência. Apesar disso Sauron conseguiu uni-los todos em um ódio sem limites a Elfos e a Homens que se unissem a eles; e os Orcs de seus próprios exércitos treinados estavam tão completamente sobre sua vontade que se sacrificariam sem hesitação a seu comando.* E ele também se provou ainda mais habilidoso do que seu Mestre na corrupção de Homens que estavam além do alcance dos Sábios, e em reduzi-los à vassalagem, na qual eles marchariam com os Orcs, e competiriam com eles em crueldade e destruição.

É, portanto, provavelmente a Sauron que devemos olhar em busca da solução do problema de cronologia. Embora imensamente menor em poder nativo do que seu Mestre, ele permaneceu menos corrupto, mais frio e mais calculista. Isso ao menos nos Dias Antigos e antes dele ter sido afastado de seu mestre e cair na tolice de imitá-lo, se esforçando para tornar a si mesmo supremo Senhor da Terra-média. Enquanto Morgoth continuava, Sauron não buscou sua própria supremacia, mas trabalhou e manipulou para outro, desejando o triunfo de Melkor, a quem no começou ele adorou. Então ele era freqüentemente capaz de obter coisas, inicialmente escondido de Melkor, as quais seu mestre não concluía ou não podia concluir na furiosa velocidade de sua malícia.

(* [nota de rodapé ao texto] Mas restou uma falha em seu controle, inevitável. No reino de ódio e medo, a coisa mais forte é o ódio. Todos os seus Orcs odiavam uns aos outros, e deveriam ser mantidos em guerra com algum ‘inimigo’ para prevenir que se matassem uns aos outros.)

Nós podemos assumir, então, que a idéia da geração dos Orcs veio de Melkor, inicialmente não tanto para a provisão de servos ou infantaria para suas guerras de destruição, como para a desecração dos Filhos e o blasfemo escárnio dos desígnios de Eru. Os detalhes da realização desta vilania foram, contudo, deixados principalmente à sutileza de Sauron. Neste caso a concepção mental dos Orcs pode ter sido muito antes na noite dos pensamentos de Melkor, embora o começo de sua geração de fato devesse esperar o acordas dos Homens.

Quando Melkor foi feito cativo, Sauron fugiu e se escondeu na Terra-média; desta forma pode-se compreender como o cruzamento de Orcs (sem dúvida já iniciado) seguiu em frente com velocidade acelerada durante a era que Noldor residiram em Aman; de tal forma que quando eles retornaram à Terra-média encontraram-na já infestada com esta praga para o tormento de todos que ali residiam, Elfos ou Homens ou Anões. Também foi Sauron que secretamente reparou Angband para o auxílio de seu mestre quando ele retornasse (( Sobre a história posterior de que Angband fora construída por Melkor nos dias antigos e que esta era comandada por Sauron ver HoMe 10, “The Later Quenta Silmarillion”. Lá não há referência a uma reparação de Angband ao retorno de Morgoth, e confira o último desenvolvimento da narrativa no Quenta Silmarillion da história de seu retorno: Morgoth e Ungoliant ‘estavam chegando perto das ruínas de Angband onde sua grande fortaleza ocidental havia estado’ )); e lá os escuros lugares subterrâneos já estariam povoados com hordas de Orcs antes de Melkor finalmente retornar, como Morgoth o Inimigo Negro, e enviá-los para trazer ruína sobre tudo quer fosse belo. E embora Angband tenha caído e Morgoth removido, eles continuam a surgir de locais sem luz e com a escuridão em seus corações, e a terra murchava sob seus pés impiedosos.

Esta então, como parece, foi a visão final de meu pai sobre o assunto: Orcs foram gerados dos Homens, e se ‘a concepção mental dos Orcs pode ter sido muito antes na noite dos pensamentos de Melkor’ foi Sauron quem, durante as eras de prisão de Melkor em Aman, trouxe à existência os exércitos negros que estavam disponíveis a seu Mestre quando este retornou.

Mas, como sempre, não é assim tão simples. Acompanhando uma cópia do texto datilografado deste ensaio estão algumas páginas manuscritas das quais meu pai usou o reverso em branco de papéis dados pelos editores, datado de 10 de Novembro de 1969. Estas páginas possuem duas notas sobre o ensaio ‘Orcs': uma discutindo a grafia da palavra orc; a outra é uma nota surgida de algo do ensaio que não está citado, mas que obviamente é a passagem discutindo a natureza de títeres das criaturas trazidas à existência por algum dos próprios grandes Poderes: a note tinha a intenção de estar relacionadas às palavras ‘Mas os Orcs não eram desse tipo’.

Os orks, é verdade, algumas vezes pereciam ter sido reduzido a uma condição bastante similar, embora continue a existir uma diferença profunda. Aqueles orks que por muito tempo viveram sob a atenção imediata de sua vontade – como vigias de suas fortalezas ou elementos dos exércitos treinados para propósitos especiais em seus desígnios de guerra – agiriam como rebanhos, obedecendo instantaneamente, como tendo uma única vontade, seus comandos mesmo se ordenados a sacrificar suas vidas a seu serviço. E como foi visto quando Morgoth foi finalmente subjugado e excluído, aqueles orks que haviam sido assim absorvidos se espalharam impotentes, sem propósito a não ser fugir ou lutar, e logo morreram ou se mataram.

Outras criaturas originalmente independentes, e Homens entre elas (mas não Elfos ou Anões), também poderiam ser reduzidas a uma condição semelhante. Mas ‘títeres’, sem vida ou vontade independentes,  iria simplesmente parar de se mover  ou fazer qualquer coisa quando a vontade de seu criador fosse reduzida a nada. Em qualquer caso o número de orks que era de tal forma ‘absorvida’ sempre foi uma pequena parte de seu total. Mantê-los em absoluta servidão requeria um grande esforço de vontade. O poder possuído por Morgoth no início era vasto, mas finito; e foi este gasto de vontade nos orks, e ainda mais sobre as outras e muito mais poderosas criaturas a seu serviço, que eventualmente dissiparam tanto seus poderes mentais que a derrubada de Morgoth. Então a maior parte dos orks, embora sob suas ordens e com a sombra escura de seus medos dele, eram apenas intermitentemente objetos de seu pensamento e preocupações imediatas, e quando este era removido eles retornavam à independência e se tornavam consciente de seu ódio dele e de sua tirania. Então eles poderiam negligenciar suas ordens ou se engajar em

 


Aqui o texto é interrompido. Mas a coisa curiosa é que um rascunho para o segundo parágrafo desta nota (escrito no mesmo papel, tendo a mesma data) assim começa:

Mas Homens podiam (e ainda podem) ser reduzidos a tal condição. ‘Títeres’ simplesmente parariam de se mover ou ‘viver’, quando não colocados em movimento pela vontade direta de seu criador. De qualquer forma, embora o número de orks no ápice do poder de Morgoth, e ainda após o retorno dele da prisão, pareça ter sido muito grande, aqueles que eram ‘absorvidos’ foram sempre uma pequena parte do total.

As palavras que eu coloquei em itálico refutam uma concepção essencial do ensaio.A outra nota diz assim:

Orcs
Esta grafia foi retirada do Inglês Antigo. A palavra parecia, por si mesma, bastante adequada às criaturas que eu tinha em mente. Mas o significado de orc no Inglês Antigo – tanto quanto é sabido – não se encaixava (( Ver os Comentários à Quinta Seção dos Anais de Aman. )). Também a grafia do que, na situação lingüística posterior mais organizada deve ter sido uma forma na Língua Comum de uma palavra ou grupo de palavras similares, deveria ser ork. Se nenhuma outra razão então pelas dificuldades de grafia no Inglês moderno: um adjetivo orc + ish se torna necessário, e orcish não satisfaria (( ‘orcish não satisfaria': porque seria pronunciado ‘orsish’. A língua Orkish (Órquica) foi grafada dessa forma em O Senhor dos Anéis desde a Primeira Edição. )). Em qualquer publicação futura eu usarei ork.
No texto IX (a texto breve no qual meu pai declarou a teoria da origem Élfica ser correta) ele grafou a palavra Orks, e disse ‘dessa forma eu deverei grafar em O Silmarillion’. No atual ensaio, obviamente posterior ao texto IX, está gravado Orcs; mas então, em 1969 ou mais tarde, ele afirmou novamente que deveria ser Orks.
Notas
Orc_freaky

Mitos Transformados IX – Orcs

The History of Middle-earth XEsta é outra nota, bastante distinta, sobre a origem dos Orcs, escrita rapidamente a lápis e sem nenhuma indicação de data.
 
 

 
Isto sugere – embora não seja explícito – que os "orcs" eram de origem élfica. Sua origem é tratada mais claramente em outro lugar. Um ponto apenas é certo: Melkor não poderia "criar criaturas" vivas de vontades independentes.

Ele [e todos os "espíritos" dos "Criados–primeiro", conforme seus limites] poderia assumir formas corpóreas; e ele [e eles] poderia dominar as mentes de outras criaturas, incluíndo elfos e homens, pela força, medo, ou por engôdos, ou por pura magnificência. Os elfos de épocas remotas inventaram e usaram uma palavra ou palavras com uma base [o]rok para indicar qualquer coisa que causasse medo e/ou terror. Isto teria sido originalmente aplicado a "fantasmas" [espíritos assumindo formas visíveis] tão bem quanto a quaisquer criaturas existindo independentemente. Sua aplicação [em todas as línguas élficas] especificamente às criaturas chamadas orcs – assim devo escrevê-la no Silmarillion – foi posterior.

Uma vez que Melkor não poderia "criar" espécies independentes, mas tinha imensos poderes de corrupção e distorção daquelas que caíam em seu poder, é provável que estes orcs tivessem uma origem mista. A maioria deles claramente [e biologicamente] eram corrupções de elfos [e, posteriormente, de homens provavelmente também]. Mas sempre entre eles [como servos especiais e espiões de Melkor, e como líderes] deviam haver numerosos espíritos menores corrompidos que assumiram formas corpóreas semelhantes. [Estes apresentariam personalidades aterrorizantes e demoníacas]

Os elfos teriam classificado as criaturas chamadas "trolls" [no Hobbit e Senhor dos Anéis] como orcs – em personalidade e origem – mas eles eram maiores e mais lentos. Pareceria evidente que os orcs eram corrupções de tipos humanos primitivos.

 

 
No rodapé da página meu pai escreveu: "Ver O Senhor dos Anéis Apêndice p. 410"; este é o trecho do Apêndice F relativo aos Trolls.

Parece possível que sua palavras iniciais nesta nota "Isto sugere – embora não seja explícito – que os ‘orcs’ eram de origem élfica" na verdade se refere ao texto anterior fornecido aqui, VIII, onde ele inicialmente escreveu "elfos, como uma fonte, são muito improváveis", mas mais tarde concluiu que "permanece, portanto, terrivelmente possível que houvesse uma linhagem élfica nos orcs". Mas se realmente for isso, as palavras que se seguem "Sua origem é tratada mais claramente em outro lugar" deve se referir a alguma outra coisa.

Ele agora expressamente afirma a visão inicial de que os Orcs eram originalmente Elfos corrompidos, mas observa que "mais tarde" alguns provavelmente derivaram de Homens. Ao dizer isto (como o último parágrafo e a referência ao Apêndice F de O Senhor dos Anéis sugerem) ele parece estar pensando nos Trolls, e especificamente nos Olog-hai, os grandes Trolls que aparecem no final da Terceira Era (como dito no Apêndice F): "Ninguém duvidava que tivessem sido engendrados por Sauron,  mas não se sabia a partir de que linhagem. Alguns afirmavam que não eram trolls e sim orcs gigantes; mas os olog-hai eram, na conformação do corpo e da mente, bem diferentes até mesmo dos maiores orcs, a quem sobrepujavam amplamente em tamanho e força".

A concepção de que entre os Orcs "deviam haver numerosos espíritos menores corrompidos que assumiram formas corpóreas semelhantes" aparece também no texto VIII: "Melkor corrompeu muitos espíritos – alguns grandes, como Sauron, ou menores, como balrogs. Os menores poderiam ter sido primitivos (e muito mais poderosos e perigosos) orcs"

Mitos Transformados VIII – Orcs

The History of Middle-earth 10Este texto faz parte de um conjunto de ensaios intitulados "Mitos Transformados", contidos no The History of Middle-earth 10. A Valinor já possuía grande parte deles e está agora tradiuzindo os faltantes bem como acrescentando as notas e comentário. Este texto VIII trata da origem dos Orcs.
 
 
 

 
Na última sentença da versão curta original do texto VII meu pai
escreveu que os Eldar acreditavam que Morgoth gerou os Orcs ‘capturando
de Elfos (e Homens) cedo’ (isto é, nos primeiros dias de suas
existências). Isto indica que suas visões sobre este assunto mudaram
desde os Anais de Aman.
 
Para a teoria da origem dos Orcs como esta estava,
no ponto dos registros escritos nas narrativas (1), a este tempo ver os
Anais de Aman. Na forma final de Os Anais de Aman ‘isto é tido como
verdade pelos sábios de Eressëa':

que todos aqueles dos Quendi que acabaram nas mãos de Melkor, antes de
Utumno ser quebrada, foram lá postos na prisão e por artes lentas de
crueldade e maldade foram corrompidos e escravizados. Desta forma
Melkor gerou a terrível raça dos Orkor em inveja e paródia aos Eldar,
de quem se tornaram após isto os mais amargos inimigos. Pois os Orkor
tinham vida e se multiplicavam à maneira dos Filhos de Ilúvatar; e nada
do que tem vida por si mesmo, nem a aparência de vida, Melkor jamais
poderia criar, desde sua rebelião no Ainulindalë antes do Começo: assim
dizem os sábios.

No texto datilografado de Os Anais de Aman meu pai escreveu ao lado do
registro da origem dos Orcs: ‘Alterar isto. Orcs não são Élficos’.  

O presente texto, entitulado ‘Orcs’, é um ensaio curto (em grande parte
um registro de ‘pensando com a caneta’) encontrado na mesma pequena
coleção reunida em um jornal de 1959 como os textos III e VI. E como
estes ele foi escrito nos papéis do Merton College de 1955; e como o
texto VI ele faz referência a ‘Finrod e Andreth

 


 
Sua natureza e origem requerem mais reflexão. Elas não são fáceis de inserir na teoria e no sistema.
 
[1] Como o caso de Aulë e os Anões mostra, somente Eru podia criar criaturas com vontades independentes e com capacidade de raciocínio.
Mas os Orcs parecem possuir ambas: eles podem tentar enganar
Morgoth/Sauron, rebelar-se contra ele ou criticá-lo.

[2] ? Portanto, eles devem ser corrupções de alguma coisa pré-existente.

[3] Mas os Homens não haviam ainda aparecido quando os Orcs já
existiam. Aulë construiu os Anões a partir de sua memória da Música; mas Eru não
sancionaria a obra de Melkor de modo a permitir a independência dos Orcs. (A não ser que os Orcs fossem em essência remediáveis ou pudessem
ser corrigidos e "salvos".)


Também parece claro que, embora Melkor pudesse corromper e arruinar
indivíduos completamente, não é possível contemplar sua perversão
absoluta de um povo inteiro, ou grupo de pessoas, e sua criação que
afirma hereditariedade
(2) [Adicionado posteriormente: Este último deve [se
um fato] ser um ato de Eru].

Neste caso os Elfos, como uma fonte, são muito improváveis. E os Orcs
são "imortais" no sentido élfico? Ou os Trolls? Parece claramente
implícito em O Senhor dos Anéis que os Trolls existiam independentemente, mas foram "modificados" por Melkor (3).

[4] E o que dizer de feras falantes e pássaros com raciocínio e fala? Esses foram adotados levianamente por mitologias menos
"sérias", mas representam um papel que agora não pode ser cortado. São certamente "exceções" e não muito usados, mas suficientemente para
mostrar que eles são uma faceta reconhecida do mundo. Todas as
criaturas os aceitam como naturais, se não comuns.

 
Mas criaturas
"racionais" verdadeiras, "povos falantes", são todas de forma
humana/"humanóide". Somente os Valar e Maiar são inteligências que
podem assumir formas de Arda à vontade. Huan e Sorontar poderiam ser
Maiar – emissários de Manwë. (4) Mas, infelizmente, em O Senhor dos Anéis é
dito que Gwaehir e Landroval são descendentes de Sorontar [Thorondor] (5).

De qualquer forma, é provável ou possível que mesmo os menores dos Maiar
se tornariam orcs? Sim: tanto fora de Arda como dentro dela, antes da
queda de Utumno. Melkor corrompeu muitos espíritos – alguns grandes,
como Sauron, ou menores, como Balrogs. Os menores poderiam ter sido orcs
primitivos (e muito mais poderosos e perigosos); mas, por procriarem
quando encarnados, eles (ver Melian) [se tornariam] cada vez mais
ligados à terra, incapazes de retornar ao estado de espírito (mesmo
forma demoníaca), até serem libertados pela morte (assassinato), e definhariam em força. Quando libertados eles estariam, claro, como
Sauron, "condenados": isto é, reduzidos à impotência, infinitamente
recessiva: ainda odiando, mas incapazes cada vez mais de fazê-lo
de modo efetivo fisicamente (ou não seria o estado órquico muito definhado de
morte um poltergeist?).


Mas novamente – Eru proveria fëar a tais criaturas? Para as águias etc., talvez. Mas não para os Orcs (6).

Entretanto, parece melhor ver o poder de corrupção de Melkor como
sempre começando, pelo menos, no nível moral ou teológico. Qualquer
criatura que o tomava por Senhor (e especialmente aquelas que
de modo blasfemo o chamaram de Pai ou Criador) logo tornava-se corrompida
em todas as partes de seu ser, o fëa arrastando o hröa em sua
queda ao morgothismo: ódio e destruição. Quanto aos Elfos serem
"imortais": eles na verdade possuiam vidas excepcionalmente longas, e
foram "cansando-se" fisicamente e sofrendo um enfraquecimento lento e
progressivo de seus corpos.

Em resumo: eu acho que se deve supor que "falar" não é
necessariamente o sinal da posse de uma "alma racional" ou fëa. (7) Os Orcs
eram feras de forma humanizada [para zombar de Homens e Elfos]
deliberadamente pervertidos/convertidos em uma semelhança mais próxima
dos Homens. Sua "fala" era na verdade "gravações" recitadas, colocadas
neles por Melkor. Melkor ensinou-lhes a fala e ao reproduzirem-se herdaram isso; e possuíam tanta independência  quanto, digamos, cães ou
cavalos possuem de seus mestres humanos. Sua fala era em grande parte ecoada (como
papagaios). Em O Senhor dos Anéis é dito que Sauron inventou um idioma para eles (8).

O mesmo tipo de coisa pode ser dito de Huan e as Águias: os Valar lhes ensinaram um idioma e os elevaram a um nível
superior – mas eles ainda não possuíam fëa.

Mas Finrod provavelmente foi longe demais em sua afirmação de que Melkor
não poderia corromper completamente qualquer obra de Eru, ou que Eru (necessariamente) interferiria para anular a corrupção ou para cessar a
existência de Suas próprias criaturas, pois elas teriam sido
corrompidas e voltadas para o mal (9).

Permanece, portanto, terrivelmente possível que houvesse uma linhagem
élfica nos Orcs. (10) Estes podem então ter sido cruzados com feras (estéreis!) – e posteriormente com Homens. Seu tempo de vida seria
diminuído. E morrendo eles iriam para Mandos e seriam mantidos aprisionados
até o Fim.

Ver Melkor. Lá será visto que as vontades dos Orcs e Balrogs etc., são
parte do poder de Melkor "dispersado". O espírito deles é de ódio. Mas
o ódio é não-cooperativo (exceto sob medo direto). Daí as rebeliões,
motins, etc., quando Morgoth parecia estar distante.  Os Orcs são feras e
os Balrogs Maiar corrompidos. Além disso (n.b.), Morgoth, não Sauron, é a fonte das
vontades dos orcs. Sauron é apenas outro (se não maior) agente. Os Orcs
podem se rebelar contra ele sem perder sua própria fidelidade
irremediável ao mal (Morgoth). Aulë queria amor. Mas, claro, não
pensava em dispersar seu poder. Apenas Eru pode dar amor e
independência
. Se um subcriador finito tenta fazer isso, ele na
verdade quer uma ardorosa obediência absoluta, mas ela vira servidão
robótica e torna-se mal.

 
NOTAS

1. Em uma longa carta a Peter Hastings datada de Setembro de 1954, a qual ele não enviou (As Cartas de J. R. R. Tolkien, #153), meu pai escreveu o que se segue com relação à questão de que Orcs ‘poderiam ter "almas" ou "espíritos"':

… uma vez que em meus mitos de forma alguma eu concebo a criação de almas ou espíritos, coisas de uma ordem igual senão de poder igual aos Valar, como uma possível ‘delegação’, eu ao menos representei os Orcs como seres reais pré-existente nos quais o Senhor Escuro exerceu a totalidade de seu poder remodelando-os e corrompendo-os, mas não os criando… podem ter ocorridos outras ‘criações, contudo, as quais eram mais como títeres preenchidos (apenas à distância) com a mente e vontade de seu criados, ou agindo como formigas sob o comando de uma rainha central.

Anteriormente, nesta carta, ele citou as palavras de Frodo a Sam no capítulo "A Torre de Cirith Ungol": ‘A sombra que os criou só pode arremedar, não pode criar: nada realmente novo que se origine dela mesma. Não acho que lhes tenha dado vida, apenas os arruinou e deformou'; e ele continua: "Nas lendas dos Dias Antigos é sugerido que o Diabolus subjugou e corrompeu alguns dos primeiros Elfos…". Ele também disse que os Orcs "são fundamentalmente uma raça de criaturas ‘racionais encarnadas’".

2. No Athrabeth Finrod declarou:

Mas nunca, mesmo na noite, acreditamos que ele [Melkor] pudesse prevalecer contra os Filhos de Eru. Este ele poderia iludir, ou aquele ele poderia corromper; mas mudar o destino de todo um povo dos Filhos, roubá-los de sua herança: se ele pudesse fazer tal coisa à revelia de Eru, então de longe maior e mais terrível é ele do que imaginávamos…

3. Em O Senhor dos Anéis Apêndice F (I) é dito dos Trolls:

Nos seus primórdios, no crepúsculo dos Dias Antigos, eram criaturas de natureza obtusa e bruta, sem outra linguagem que não a dos animais. Mas Sauron fizera uso deles, ensinando-lhes o pouco que eram capazes de aprender e aumentando sua inteligência com maldade.

Na longa carta de Setembro de 1954 citada na Nota 1 escreveu sobre eles:

Eu não estou certo sobre os Trolls. Eu acho que era eram meras ‘imitações’ e portanto (embora aqui eu esteja, claro, usando apenas elementos de antigos mitos bárbaros que não tinham uma metafísica ‘consciente’) eles retornam a simples estátuas de pedra quando não estão no escuro. Mas há outras espécies de Trolls além daqueles bastante ridículos, embora brutais, Trolls-das-rochas, para os quais outras origem são sugeridas. Claro… quando você faz Trolls falarem você está dando a eles poder, o qual em nosso mundo (provavelmente) denota a posse de uma "alma".

4. Ver comentários finais da Sexta Seção de os Anais de Aman. Ao final da página contendo o breve texto V meu pai escreveu rapidamente a seguinte nota, inteiramente desconectada com o assunto do texto:

Coisas vivas em Aman. Assim como os Valar poderiam se vestir como os Filhos, muitos dos Maiar vestiam-se como outras coisas vivas menores, como árvores, flores, bestas. (Huan.).

5. "Lá vinha Gwaihir, o Senhor dos Ventos, e Landroval, seu irmão, as maiores de todas as Águias do Norte, e os mais poderosos descendentes do velho Thorondor"  ("O Campo de Cormallen" em O Retorno do Rei).

6. A este ponto existe uma nota que começa com ‘Crítica de (1) (2) (3) acima’ (ou seja, os pontos iniciais deste texto) e então se refere obscuramente a ‘última batalha e a queda de Barad-dur etc.’ em O Senhor dos Anéis. Em uma visão do que se segue meu pai estava presumivelmente pensando no capítulo ‘A Montanha da Perdição':

De todas as suas planos e teias de medo e traição, de todos os seus estratagemas e guerra sua mente se livrou; e através de todo o seu reino ocorreu um tremor, seus escravos se acovardaaram, seus exércitos pararam, e seus capitães repentinamente sem direção, privados de vontade, hesitaram e se desesperaram. Pois eles foram esquecidos.
    
A nota continua

Eles tinham pouca ou nenhuma vontade quando não ‘cuidados’ de fato pela mente de Sauron. Suas traições e rebeliões davam aquela possibilidade a animais como cães etc.?
       
7. Compare com fim do trecho citado na carta de 1954 na nota 3.

8. Apêndice F (I): ‘Diz-se que a Língua Negra foi inventada por Sauron nos Anos Escuros’.

9. Ver a citação do Athrabeth na nota 2. Finrod de fato não afirma a última parte da opinião aqui atribuída a ele.

10. A afirmação de que ‘permanece, portanto, terrivelmente possível que houvesse uma linhagem élfica nos orcs’ aparece meramente para contradizer o que foi dito sobre serem não mais do que ‘bestas falantes’ sem avançar em novas considerações. No trecho acrescentado ao final do texto a afirmação de que ‘Orcs são bestas’ é repetida.
 

Ufthak

Orc de Mordor. Ufthank foi capturado por Laracna. Ela
amarrou o Orc com suas teias preparando para come-lo. Ufthak foi encontrado
dias depois pela companhia de Shagrat em um canto da toca da Laracna. Ufthak
ainda estava vivo, contudo seus companheiros Orcs não o resgataram, pois não
era aconselhável entrar no caminho da Laracna. 

 

Fonte: As Duas Torres: “As escolhas do Mestre Samwise”

Traduzido de: The Thain's Book 

A Estranha História dos Orcs de Tolkien

Um panorama dos fatos da Terra-Média sobre os orcs imaginados por J. R. R. Tolkien, do seu lado cotidiano (o que comem, como se reproduzem) a questões mais existenciais dos orcs na cosmologia da Terra-Média.

“Há elfos, anões, trolls, dragões, príncipes e princesas, feiticeiros e, inevitavelmente, as mais difamadas criaturas fictícias, os orcs, o desprezado proletariado da fantasia conservadora…”
The Socialist Review[1]

 

 
“Eles sabem o que é um Orc”

Este ensaio examina os orcs de Tolkien assim como ele os concebeu. Antes de mais nada, é importante distinguir os orcs de Tolkien de suas adaptações mais amplas na literatura de fantasia.

A ficção escrita por J. R. R. Tolkien tem tido uma enorme influência no gênero da literatura de fantasia. Os personagens arquétipos e artifícios de trama que Tolkien usou em seu principal romance, O Senhor dos Anéis (SdA), têm sido adaptados por dúzias de outros escritores de fantasia, de maneiras mais ou menos criativas. Dos conceitos da Terra-Média de Tolkien, a idéia de orcs se destaca como a mais freqüentemente adaptada com mudanças mínimas[2]. Atingiu-se o ponto onde um crítico de fantasia, Terence Casey, deu um conselho aos escritores aspirantes de fantasia:

“Alguém que tem familiaridade com fantasia geralmente não vai ter um problema com ‘orcs’, seja em um romance ou jogo – eles sabem o que é um orc e estão acostumados com ele. Se você começar a criar seus próprios monstros ao invés de tirá-los da ‘fantasia genérica’, entretanto, a mera novidade deles pode dificultar para as pessoas a suspensão de descrença.”[3]

Esta afirmação é surpreendente por que Tolkien, na criação dos orcs, estava literalmente criando seus próprios monstros. Tolkien também usou os conceitos de elfos, hobbits, anões e reinos de estilo medieval na criação da Terra-Média. Entretanto, todos esses conceitos, ou seus equivalente simbólicos, estavam firmemente estabelecidos na mitologia européia e na literatura da fantasia antes que Tolkien começasse suas próprias obras. Não havia equivalente exato dos orcs[4]. O folclore europeu tem pequenas criaturas do mal – aparições, tommyknockers, duendes – e monstros aterrorizantes, de Grendel como imortalizado em Beowulf aos elementais do mal da tradição celta[5]. Mas não havia ser ou mal sobrenatural que fosse um paralelo dos guerreiros humanos, que os encarasse como iguais e que fossem mandados para exterminá-los.

Tolkien precisava criar seus monstros particulares, e sua novidade tinha um propósito. O estudioso de longa data de Tolkien, Tom Shippey, disse dos orcs de Tolkien: “Pode haver pouca dúvida que os orcs entraram na Terra-Média somente por que a história precisava de um suprimento contínuo de inimigos pelos quais ninguém precisasse sentir qualquer remorso.”[6]

Conseqüentemente, para os propósitos de suas próprias narrativas, Tolkien combinou componentes do então obscuro folclore com concepções mais modernas de violência e mal para modelar os orcs. Heróis eram mais heróicos com orcs para matar. Com orcs às suas ordens, vilões de alto calibre eram mais temíveis. Para estes propósitos, orcs eram um bem-sucedido artifício narrativo – um não visto previamente na literatura de fantasia.

Orcs eram bem mais que uma boa idéia. Houve trabalho autoral requerido para preparar o terreno para esta nova criação, especialmente para fazê-lo de uma maneira que ajudasse o leitor a aceitar o conceito[7]. Tolkien fez isso tão bem que, no processo, criou um novo arquétipo que tornou-se popular. É perturbador pensar que havia uma lacuna na imaginação e no mito para o que os orcs representam, mas sua popularidade mostra que este tinha sido realmente o caso.

Evolução dos Orcs na Terra-Média

Todos sabemos o que é um orc – mas somente para ter certeza, o que são orcs na Terra-Média? Eles são seres bípedes dotados de inteligência, que servem o mal. Tolkien comentou em uma de suas cartas[8] que adaptou a palavra orc da palavra do Inglês Antigo orc, que significa “demônio”, usando este termo “somente por causa de sua adequação fonética”. Nesta mesma carta ele comenta que os orcs “devem muito à tradição dos duendes, especialmente como aparece em George MacDonald”[9].

Em correspondência posterior, Tolkien comenta que a idéia do duende fundiu-se com uma concepção mais moderna; a do mal inerente aos seres humanos. Em correspondência em correspondência no livro publicado Cartas de Tolkien, ele compara humanos maus ou de mentalidade estreita aos orcs diversas vezes, nas cartas 66, 71 e 78, todas no contexto do serviço militar. Isso é mais expresso de maneira mais precisa na carta 153, onde Tolkien diz, como parte de uma idéia mais longa – “orcs, que são fundamentalmente uma raça de criaturas pensantes, ainda que horrivelmente corrompidas, se não mais que tantos Homens que se encontram hoje.”

As origens dos orcs na cosmologia da Terra-Média são descritas em O Silmarillion. Morgoth, um poderoso, egoísta Vala (equivalentes a um deus) caiu no mal, capturou alguns elfos (Quendi) nos primórdios da existência de sua raça.

“É, porém, considerado verdadeiro pelos sábios de Eressëa que todos aqueles quendi que caíram nas mãos de Melkor [depois Morgoth]… por lentas artes de crueldade, corrompidos e escravizados; e assim Melkor gerou a horrenda raça dos orcs, por inveja dos elfos e em imitação a eles, de quem eles mais tarde se tornariam os piores inimigos.”[10]

Esta idéia ajusta-se bem e tem um forte apelo com seu paralelo dos belos elfos diretamente ligados aos feios orcs. Contudo, em seus próprios escritos variados sobre orcs, Tolkien vacilou entre este conceito de orcs-dos-elfos e um conceito relacionado de orcs-dos-homens[11]. Ele mesmo brincou com a idéia de que orcs eram animais astutos, sem o elemento espiritual dos seres inteligentes, ou com o conceito de que orcs eram Maiar (espíritos divinos) servindo Morgoth que tinham sido corrompidos à forma de orcs. Ambos os conceitos de orcs-dos-homens e orcs-como-animais parecem vir da relutância pessoal de Tolkien de macular sua raça “ideal”. Entretanto, ele foi atraído de volta para a idéia de orcs-dos-elfos em diversos rascunhos de seu próprio ensaio sobre orcs, escrito de 1959 a 1960, e reconheceu que orcs-dos-elfos era a origem mais funcional para a linha temporal da Terra-Média que ele desejava.[12]

Christopher Tolkien, editando O Silmarillion depois da morte de J.R.R. Tolkien , optou pela origem orcs-dos-elfos. Ainda assim, este não é o fim do envolvimento dos orcs com outras raças. Em SdA, Tolkien nos presenteia com híbridos de orcs com humanos. Nunca é absolutamente declarado que os Uruk-hai, que podem suportar o sol melhor que orcs comuns, são parcialmente humanos. Isto é fortemente sugerido no diálogo dado ao Ent Barbárvore.

“Os seres malignos que vieram na Grande Escuridão têm como marca a característica de não suportarem o sol; mas os orcs de Saruman suportam, mesmo que o odeiem. Fico imaginando o que ele terá feito. Seriam eles homens que ele arruinou, ou teria ele misturado as raças dos orcs e dos homens. Isso seria uma maldade negra!”[13]

E é confirmado fora do romance em uma citação independente dos escritos posteriores de Tolkien:

“Homens podiam, sob o domínio de Morgoth ou de seus agentes em poucas gerações ser reduzidos quase ao nível de um orc, e então iriam, ou seriam obrigados a se acasalar com orcs, produzindo novas raças maiores e mais astuciosas. Não há dúvida que muito depois, na Terceira Era, Sauron redescobriu ou aprendeu por si mesmo, e em sua cobiça por poder, cometeu seu ato mais perverso: o acasalamento de homens e orcs.”
[14]

A idéia mais importante é que orcs não são uma forma de vida original. Orcs são uma forma de vida previamente existente que foi corrompida. Sua vontade está inextricavelmente ligada à dos principais poderes do mal – primeiro o de Melkor, posteriormente conhecido como Morgoth, e então o de Sauron.[15]

 
A Vida Como um Orc

Embora Tolkien não tenha se importado em deixar sua imaginação permanecer nos orcs, ele comentou os “fatos da vida” básicos deles para fazê-los uma parte sólida e crível da Terra-Média. Tolkien provê o leitor com esta informação através dos pontos de vista de seus protagonistas mais simpáticos, historiadores élficos e hobbits.

A falta de uma língua orc é uma prova que Tolkien, que expandiu os detalhes da Terra-Média para apoiar seu passatempo de criar línguas, não estava criativamente comprometido com eles. “Dizem que não tinham idioma próprio, mas adotavam o que podiam das outras línguas e o pervertiam a seu gosto; produziram, porém, somente jargões grosseiros, insuficientes até mesmo para suas próprias necessidades, a não ser quando usado em pragas e ofensas.”[16] Como resultado, os orcs usavam a Língua Geral da Terra-Média para comunicação entre tribos, e há uma evidente característica orc em seus diálogos. Sauron criou a Língua Negra para ser a língua de todos os seus servos[17], um tipo de esperanto do mal, e como o esperanto, nunca atingiu seu objetivo. Algumas palavras dela eram usadas pelos orcs, inconsistentemente, especialmente entre os orcs de Mordor. Tendo comentado o conceito básico da Língua Negra, Tolkien fez somente observações mínimas sobre seu vocabulário.[18]

Orcs estavam longe de serem invulneráveis; estavam sujeitos à doença, podiam morrer, não eram imortais e “precisavam comer, e beber, e descansar”[19]. Sua comida, apesar de não tentar o apetite, via de regra, pode ser comida por outros povos. Um herói faminto, Tuor, sente fome quando vê orcs assando carne (“até mesmo a carne dos orcs seria boa presa.”[20]). Nas mãos dos Uruk-Hai, Merry e Pippin são alimentados com pão dos orcs[21]. Depois, orcs que mantém Frodo cativo atacam o suprimento de comida dele e o alimentam, apesar de desprezarem especificamente o pão de viagem élfico, lembas[22]. Orcs também comem cavalos, pôneis e burros[23] e mais notoriamente, carne humana[24]. Pippin recusa-se a comer um pedaço de carne seca que um orc dá a ele, “a carne de uma criatura que ele não ousava adivinhar qual seria”. (Página 46) Surpreendentemente, não há referências no cânone a orcs comendo outros orcs, embora presumivelmente a cadeia alimentar em Moria tinha que se fechar de alguma maneira. Orcs temiam que os elfos atormentariam e comeriam seus prisioneiros orcs, apesar de que os elfos não cometiam nenhum dos dois atos[25].

Nos livros, orcs se reproduzem como humanos, hobbits, anões e elfos; o sexo resultando na gravidez e no parto. Tolkien descreve isto discretamente como “procriação intra-corporal” e se refere repetidas vezes aos orcs se ‘multiplicando’[26]. Ele são referidos como ‘reproduzindo-se rapidamente’ e ‘se multiplicavam como moscas’, termos que evocam animais[27]. Como observado previamente, orcs podem e de fato reproduziram com humanos mortais. A despeito destas constantes referências à reprodução dos orcs, Tolkien nunca nos apresenta com um personagem orc identificado como fêmea.

Tolkien mantém silêncio sobre uma pergunta que alguns leitores têm: orcs estupram? Isto parecia inteiramente típico da maldade dos orcs, da qual Tolkien diz, “Eles estavam de fato tão corrompidos que eram impiedosos, e não havia crueldade ou maldade que eles não cometeriam… eles tinham prazer em sua ações. Eles eram capazes de agir por si próprios, cometendo atos de maldade espontâneos para seu próprio divertimento.”[28] Mas Tolkien nunca atribui a eles este tipo de violência em particular. A terrível pergunta sobre orcs acasalando-se com elfos parece lograda pela afirmação de Tolkien que elfos morrem quando estuprados[29], e sendo Tolkien refinado demais para admitir a possibilidade de um elfo voluntariamente fazer sexo com um orc. Este pode ser um aspecto de porque a criação de orcs foi o “maior dos males”[30] de Morgoth. Há também um sinistro subtexto ao seqüestro de elfas[31] por orcs e a captura e tormento da senhora élfica Celebrían[32]. E o programa reprodutivo de Saruman entre mortais e orcs tinha que começar de algum lugar.

Tolkien não diz nada sobre a infância dos orcs ou sua criação. Tolkien gosta de crianças como se percebe em suas citações sobre crianças hobbits e élficas[33]. Esta pode ser a razão de seu silêncio sobre a presumível miséria da infância órquica.

Mas em SdA e n’O Silmarillion, faltam descrições da aparência dos orcs – Tolkien fornece mais descrições em SdA de como os orcs cheiram do que de sua aparência. Em RdR, há uma cena marcante com dois orcs de tamanhos diferentes, um pequeno orc batedor com pele negra e nariz ranhento trabalhando ao lado de um grande orc lutador[34]. Tolkien fornece uma descrição de como ele imaginava os orcs. Ironicamente, ele escreveu isto em uma carta criticando um tratamento proposto para o cinema de seus trabalhos:

“Os orcs são definitivamente especificados como corrupções da forma ‘humana’ vista nos elfos e homens. Ele são (ou eram) baixos, largos, narizes achatado, pele amarelada e com bocas grandes e olhos oblíquos, de fato, versões degradadas e repulsivas (para europeus) dos mais desagradáveis tipos mongóis.”[35]

O datado estereótipo racial nesta declaração é lamentável. Nas comparações orcs/humanos mais focadas de Tolkien em sua correspondência, ele compara membros do Eixo na Segunda Guerra Mundial e mesmo ingleses maus[36] aos orcs. Nos recentes filmes SdA, as interpretações de efeitos especiais dos orcs são muito mais racialmente neutras que a descrição de Tolkien, usando uma paleta de cinza, manchas ou pele desfigurada.

À parte de saques e pilhagens, orcs tinham uma veia criativa; uma repugnante, maligna veia criativa. Uma passagem em O Hobbit descreve a natureza da criatividade órquica: “Não fazem coisas bonitas, mas fazem muitas coisas engenhosas… Martelos, machados, espadas, punhais, picaretas, tenazes, além de instrumentos de tortura, eles fazem muito bem, ou mandam outras pessoas fazerem conforme o seu padrão.”[37]

Prazeres órquicos são poucos, tirando o divertimento que eles tiram da crueldade. Em um possível resquício de suas origens élficas, eles compõe canções e cantam.[38]

Entre si, orcs são capazes de amizades rústicas e alianças de clãs, apesar destas serem frágeis e prováveis de ruirem se eles se zangarem o suficiente. Isto é ilustrado com Ugluk em As Duas Torres, um Uruk-Hai que retorna a um grupo com quem discutiu por causa de ‘camaradas fortes’, e com dois orcs, Shagrat e Gorbag, planejando deixar Mordor algum dia com uns poucos ‘rapazes confiáveis’. Orcs odeiam elfos profundamente. Eles têm uma termo especial de desprezo e medo para mortais numenorianos, ‘tark’. Orcs tem alguns aliados. Sabia-se que faziam alianças com outros homens mortais, particularmente os Orientais[39]. Outro possível reminiscência dos elfos, que se comunicam com ‘bons animais’ é a aliança ocasional com animais maus, como lobos[40] e os lupinos wargs[41].

 
O Mal que os Orcs Fazem

Por que Tolkien nunca nos dá a perspectiva narrativa dos orcs, vivenciamos orcs na Terra-Média através de como seus atos são vistos por outros. Os orcs nunca são apresentados como compassivos, ou gentis, ou desejando se libertar do mal (apesar de desejarem se libertar de seus mestres). A aparição de um orc é causa de medo e um precursor imediato de violência. Às vezes, um ato maldoso de um orc serve para um propósito bom – em diversos pontos da história de SdA, orcs lutando entre si dão aos personagens hobbits chances de desafio ou fuga – mas nenhum orc é deliberadamente útil. Em ocasiões onde orcs se contém em torturar os prisioneiros, observa-se que assim agem sob comando, temendo um mal maior que si mesmos.

A natureza do mal órquico muda para se ajustar à história que Tolkien está contando. Orcs aparecem em cada um dos três romances de Tolkien: O Hobbit, SdA e O Silmarillion. O Hobbit é uma história infantil passada na Terra-Média. Em O Hobbit, esses orcs são, em qualidades e referências literais, confundíveis com ‘duendes’ do folclore e contos de fada vitorianos. A marcante descrição da criatividade dos orcs que Tolkien inclue aqui tem evidentes nuanças da tradição das entidades da mitologia celta. A ligeiramente diminutiva apresentação de orcs como “duendes” os coloca à altura do protagonista do livro, o hobbit Bilbo Bolseiro. Fica implícito em escritos relacionados posteriores que se outro personagem, Gandalf ou Thorin, tivesse narrado os encontros com orcs, eles teriam um tom diferente.[42]

O mais notável incidente com orcs em O Hobbit é a tentativa de Gandalf de conferenciar com os orcs quando o grupo de viagem de anões e hobbit é capturado. Esta é a única ocasião nos trabalhos de Tolkien onde um personagem ‘bom’ tenta argumentar com orcs, como se eles estivessem à altura das outras raças na Terra-Média. Isto está de acordo com a caracterização de Gandalf como uma representação do bem, enviado para inspirar a melhor parte dos habitantes da Terra-Média. O rei orc, Grão-Orc, não está à altura da situação, e segue-se imediatamente uma luta.

SdA, com seus personagens embarcando missão contra o mal, é o romance narrativo mais tradicional dentre os principais escritos de Tolkien. Aqui todas as raças mostradas em O Hobbit são apresentadas em uma perspectiva adulta. Orcs se libertaram de suas associações com os duendes, apesar de que, como em O Hobbit, o primeiro encontro dos protagonistas com os orcs ocorre nas profundezas subterrâneas. Os personagens orcs que aparecem depois na narrativa são cruéis, impetuosos e temíveis – e inconfundivelmente militares, com toque moderno. Pois os soldados orcs têm números atribuídos a eles[43]. Este não é o único lado curiosamente moderno deles; os orcs falam de maneira incisiva, grosseira e seca. Somente os personagens hobbits têm uma qualidade moderna similar em seus diálogos.

Uma nota de rodapé sobre os orcs em SdA é sua aparição no apêndice deste, O Conto dos Anos. Nele é apresentada a idéia de Tolkien de uma história de fundo na qual a atividade dos orcs tem aumentado progressivamente e esta afetou muitos dos protagonistas diretamente, em particular Aragorn e Arwen. Lacônico como um historiador, O Conto dos Anos comenta que a guerra dos Anões e Orcs (notas posteriores do apêndice tornam isto mais vívido e terrível) e um ataque orc no Condado, a idílica terra hobbit de Tolkien. Em adição a isto e ataques a Gondor e Rohan, os orcs a certo momento capturam, envenenam e torturam a mãe de Arwen, Celebrían. Celebrían é resgatada, mas não pode ser curada, e ela parte para as Terras Imortais. Isto dá a partida para uma futura tragédia que parece quase determinada. Os filhos de Celebrían juram vingança e começam a caçar orcs, às vezes na companhia de ancestrais de Aragorn. Em uma dessas caçadas, orcs matam o pai de Aragorn. Assim, anões, homens mortais, elfos e mesmo hobbits sofreram nas mãos dos orcs e teriam sofrido ainda mais se o mal tivesse triunfado.

O Silmarillion é uma cosmologia e história épica da Terra-Média em suas eras antes de SdA acontecer. Nós raramente recebemos detalhes íntimos sobre os personagens deste livro, e, ainda deste forma, orcs são apresentados como hordas do mal sem rosto. Sua criação é examinada, como observado previamente. Quando os elfos primeiramente encontram orcs, os elfos os comentam como a seguir: “E entre eles estavam os orcs, que mais tarde devastariam Beleriand… De onde vinham ou o que eram, os elfos não sabiam, supondo que talvez fossem avari (um tipo de elfo) que houvessem se tornado perversos e brutais no ambiente selvagem. Conta-se que, sob esse aspecto, infelizmente sua suposição estava quase correta.”[44]

Depois da tímida estréia dos orcs, eles participam de uma série de batalhas, com seu sucesso[45] ligado ao destino de seus mestres. Quando seus mestres caem, eles se dispersam e definham, mas como o próprio mal, alguns deles sempre resistem para serem convocados novamente. Mas, de maneira geral, os orcs de O Silmarillion representam um mal muito impessoal. Somente duas vezes há a menção de um ato cruel em específico[46]. Nenhum orc em O Silmarillion – nem em suas anotações originais, registradas na série History of Middle-Earth (HoME) – é digno de um nome.

A série HoME compõe-se doze volumes de anotações de Tolkien e histórias adicionais que nunca tinham sido publicadas. Revendo estes, é notável quão pouco os outros escritos de Tolkien tratam dos orcs que ele criou. Os principais escritos são os ensaios sobre orcs publicados em Morgoth’s Ring que incluem cerca de dez páginas no total. Nestes ensaios acerca de orcs, a preocupação de Tolkien é em como as grandes forças do mal da Terra-Média usam orcs e a significação espiritual destes.
 

O que Significam Orcs na Terra-Média

Orcs têm diversas camadas de significação além de serem alvos para espadas élficas. Como observado, o papel dos orcs nas narrativas de Tolkien é simples. É o lugar deles na cosmologia da Terra-Média que os faz complexos, envolvidos em questões sobre a natureza do mal, livre-arbítrio e redenção.

Por que orcs, na cosmologia de Tolkien, não deveriam existir, eles pareceriam representar o oculto, misterioso e errado – o clássico Outro[47]. A idéia do Outro se fortalece ao se refletir no próprio ser, e o que é refletido nos orcs é a possibilidade do mal corriqueiro em todos os povos, muito especificamente nos humanos.

Ao invés disso, orcs são o mal personificado, e um mal muito específico, a vontade de seus mestres. Tolkien nos dá um acontecimento em RdR que deixa isso claro. Depois de testemunhar um orc matando outro, um ato que impede Sam e Frodo de serem descobertos, Frodo comenta, “Mas este é o espírito de Mordor, Sam; está espalhado em todos os seus cantos. Os orcs sempre se comportam assim quando estão sozinhos, pelo menos é o que contam as histórias.”[48] Frodo continua e adiciona, “Mas você não pode alimentar muita esperança a partir desse fato.”, e realmente, quando quer que um orc apareça, há razão para temer, mesmo desesperar.

O mal dos orcs não é aquele dos mortos-vivos letárgicos. Há uma terrível vitalidade neles, que aparece em sua ferocidade, prontidão para lutar e se reproduzir, e suas emoções impulsivas e instintivas. Orcs estão vivos mas decaídos, são a marca viva e pulsante do cerco do mal no mundo da Terra-Média, um fenômeno que Tolkien resume como ‘Arda desfigurada’.[49]
 

Conclusões Sobre Os Orcs

Se os orcs são Arda desfigurada, eles podem ser redimidos? Talvez. Tolkien reluta em exluir essa possibilidade, embora, como outros pontos cosmológicos em suas anotações, ele explora diversas interpretações. Em um dos textos sobre orcs de Morgoth’s Ring ele diz que orcs ‘podem ser se tornado irredimíveis (pelo menos por elfos e homens), mas que eles tinham permanecido dentro da Lei’. Como parte disso, se um orcs tivesse pedido misericórdia, pessoas boas eram obrigadas a concedê-la, ‘a qualquer custo’. Arrependimento e redenção dos orcs, embora improváveis, deviam receber uma chance.

Significativamente, orcs não estão presentes em uma interpretação de Arda renovada e curada; parece que sendo uma espetacular aberração e escárnio, eles não deveriam existir de maneira alguma. Um comentário na Carta 153 prova o contrário, e, enquanto não apresenta uma solução, resume o enigma dos orcs:

“Eles seriam o maior dos pecados de Morgoth, o abuso de seu maior privilégio, e seriam criaturas nascidas do Pecado, e maus por natureza. (eu quase escrevi irremediavelmente más, mas isso seria ir longe demais. Por que em aceitando ou tolerando sua criação – o que é necessário para sua real existência – mesmo orcs se tornariam parte do mundo, o qual é de Deus e essencialmente bom).”

Tolkien está cônscio de que em sua cosmologia, Morgoth não criou os orcs, mas os corrompeu, e em seu comentário nisto é “Que Deus ‘toleraria’ aquilo, não parece uma doutrina pior que a tolerância da desumanização calculada de homens pelos déspotas que ocorre atualmente,”[50] Isto também ecoa o triste tema que, de todos os seres, grandes e pequenos, da Terra-Média, são os orcs que ele vê como tendo o efeito mais duradouro na humanidade.

Tolkien parece estar ciente da atração sombria que os orcs teriam em alguns leitores, e ter explorado isso, em observações sobre a rebeldia levando ao mal, em uma sequencia inacabada de SdA. Este seqüência, The New Shadow, existe na forma de dez páginas de manuscrito (publicadas em The Peoples of Middle-Earth). É o fragmento inicial de uma história passada em Gondor cerca de cem anos depois do início da Quarta Era. Um notável aspecto da trama está nos ‘cultos de orcs’ entre adolescentes[51]. Nesta futura Gondor, uma vez que os orcs desapareceram o bastante para serem uma peça de folclore ou história, parece haver um apelo de rebeldia em seus atos de maldade vazios e destrutivos, e alguns jovens provocadores começam a brincar fazendo ‘trabalho de orc’. Esta é uma sombra de um plano maligno mais amplo, e um sinal de renovado potencial para corrupção entre os mortais.

Leitores nunca saberão dos detalhes completos do que este trabalho de orc sinalizava. Tolkien tentou trabalhar na história diversas vezes, até quinze meses antes de sua morte.[52] Entretando, ele não terminou a história, dizendo que seu conceito demonstrou ser ‘sinistro e deprimente… não vale a pena fazer.’[53]

Tolkien, no fim, desistiu de aplicar mais criatividade a seus orcs do que o necessário para fazê-los verossímeis dentro da Terra-Média. Em seus escritos, eles não têm nada próprio de valor, são tratados como buchas de canhão, e sua iniden­tificável redenção nunca é mostrada. É um testemunho à criatividade de Tolkien que mesmo seus seguidores do mal, seus duendes crescidos, ecoam em nossas mentes modernas como ferozes arquétipos, são intrigantes e despertam curiosidade. Isto nos traz a observação que começa este ensaio: os fantasistas modernos que adotaram o arquétipo de Tolkien do orc, expandindo suas fundações. Alguns fantasistas, seguindo Tolkien, apresentam orcs como seguidores do mal ainda mais superficiais, seja em imitação ou paródia de Tolkien. Outros têm uma visão mais empática dos orcs, apresentado-os como patinhos feios, arquétipos do homem comum, ou representações de masculinidade poderosa.[54] Parece que os orcs serão redimidos, afinal de contas, em nossas imaginações.

Apêndice: Outros Orcs na Fantasia Moderna

Para apoiar minha afirmação de que a idéia dos orcs teve um grande impacto no gênero de literatura de fantasia, reuni esta lista de rpgs representativos e romances que usam orcs ou paralelos dos orcs.

Orcs nos RPGs

Orcs se tornaram uma parte tão importantes nos rpgs que uma grande convenção de ‘jogos de estratégia’ na Califórnia é chamada “OrcCon”.

O sistema de rpg Dungeons & Dragons publicado pela Wizards of the Coast, um famoso derivado de Tolkien, usa orcs e meio-orcs. Um bom exemplo disso é o livro módulo D&D Fury in the Wasteland: The Orcs of Terrene, o qual “investiga a cultura orc como nenhum outro livro fez antes. Assuntos como ciclo de vida, habitat, recreação, dieta, vestimentas, remédios e cuidados com saúde, relações de raça, comércio, e línguas são todos abordados.”

Sabertooth Games’ WarCry – outra editora de jogos convida os ávidos de poder a “Controlar as hordas da escuridão (Caos, Elfos sombrios, Orcs e Duendes) ou a Grande Aliança (Império, Altos Elfos, e Anões) em grandes batalhas que decidirão o destino de reinos!”

EverQuest – Apontado pela revista Forbes em 2001 como um fenômeno social dentre os jogos online, orcs são uma parte do jogo. Interessante observar que, enquanto orcs são npcs inimigos ou aliados, jogadores com anseios sombrios não podem escolher ser um personagem orc, mas são têm que escolher entre trolls, ogros, bípedes reptilianos do mal e elfos sombrios.


Orcs com qualquer outro nome

Os seguidores do mal destas séries são claramente semelhantes aos orcs.

A série Eragon de Christopher Paolini (2003, Knopf) – tem personagens análogos aos orcs chamados Urgalls.

A série Shannara de Terry Brooks (19 livros de 1977 até hoje, Ballantine Books) – tem personagens análogos aos orcs chamados Gnomes.

A série The Fionvar Tapestry de Guy Gavriel Kay (três livros, publicados em 1984, 1985, 1986, Roc) – tem personagens análogos aos orcs chamados Svart Alfar e Urgaches. Esta série – arthuriana em intento, interpretada por alguns como tolkieniana – foram os primeiros romances de Kay, publicados dez anos depois que ele ajudou Christopher Tolkien a editar “O Silmarillion”.

Orcs chamados “Orcs” em escritos não-Tolkien

Ao contrário de autores que usam similares dos orcs, estes autores chamam um orc de orc, frequentemente para destacar o contraste ou acentuar a sátira entre seus trabalhos e os de Tolkien.

Abacar the Wizard: Book One: A Tale of Magic, War, Elves, Goblins, Orcs, Monsters, Fantasy, and Adventure de Timothy Erenberger (Writer’s Club Press, 2001) – Já no título, orcs são diferenciados dos duendes e monstros como uma categoria distinta.

Grunts! de Mary Gentle (Bantam Press, 1992) – satiricamente consciente de sua derivação de Tolkien, neste romance, orcs (protagonistas empáticos) são contratados para proteger ladrões ‘pequenos’ que roubaram tesouros de um dragão. Entre esses tesouros estão incluídos armas dos Fuzileiros Navais dos EUA.

ORCS: First Blood de Stan Nicholls (série de diversos livros, Gollancz, 1997- 1999) – Aqui os orcs são descritos como, embora sendo feios e estúpidos, protagonistas heróicos/simpáticos.

Red Orc’s Rage de Philip Jose Farmer (Tor Books, 1991) – tecnicamente este pertence à seção “orcs com qualquer outro nome” por seu uso dos semelhantes dos orcs gworls. Entretanto, este livro singular foi escrito para uso em um tipo de psicoterapia, a terapia Tiersian, baseada em leitura de ficção evocativa. Apresenta um personagem problemático sendo convidado, como parte da terapia Tiersian, a projetar sua personalidade em qualquer tipo de pessoa que ele desejar em um mundo de fantasia específico – e ele escolhe o Orc Vermelho, o vilão mais proeminente do mundo de fantasia. Parte de uma série de ficção científica com objetivos terapêuticos, este livro é caracterizado por ser recursivo, auto-referencial e muito bizarro. Leia um artigo sobre terapia Tiersian, com menção do livro específico, aqui. http://www.psychiatrictimes.com/p010756.html

The Orc’s Treasure by Kevin Anderson, (I Books, 2004) – Protagonista orc como anti-herói: “Gree é um orc prosaico, sem muitas aspirações, tão gananciosas e sórdidas como são normalmente.”

The Orc Wars: The Yngling Saga, Books I & II
by John Dalmas, (Baen Books, 1992) – uma mistura de fantasia e ficção científica com orcs (como seguidores de um telepata do mal) e neo-vikings em uma Europa pós-apocaliptica.

The Thousand Orcs by R.A. Salvatore (Wizards of the Coast, 2003) – um romance em um mundo de fantasia que é um derivado do sistema de rpg D&D. A sinopse fala por si mesma: “O bando retorna de Icewind Dale na companhia dos anões de Mithrall Hall, que estão escoltando o rei Bruenor que volta para relutantemente assumir o seu trono. Encorajados por uma sombria aliança com os mortais gigantes gelados, uma horda de orcs está silenciosamente se reunindo, esperando com paciência incomum para se mover contra anões, elfos e humanos sem distinção.” Entretando, este romance em particular apareceu na lista de bestsellers do New York Times – não sendo a primeira vez deste autor nesta série.

Thraxas by Martin Scott (Baen Books, 2000) – ganhador do World Fantasy Award em 2000. Outro uso satírico dos orcs: “é um detetive azarado, um Sam Spade de um mundo de fantasia, vivendo em um mundo mágico que é refrescantemente clichê em suas ciladas…. um mundo povoado por reinos em conflito de humanos, elfos e orcs.”

[1] http://www.socialistreview.org.uk/article.php?articlenumber=7990

[2] Veja no Apêndice, uma lista de interpretações de outros autores de orc e role-playing games que incorporam orcs.

[3] http://www.skotos.net/articles/BSTG_40.shtml

[4] Rose, Carol; Spirits, Fairies, Gnomes and Goblins: An Encyclopedia of the Little People. 1996, ABC-Clio, Santa Barbara, California. Convenientemente, este livro divide a grande quantidade de criaturas folclóricas de todo o mundo em categorias. Criaturas negativas estão incluídas na categoria de demônios (malevolentes), diabos, espíritos associados com animais, espíritos associados com doenças, espíritos associados com florestas e outros lugares. Esta análise ajuda a mostrar que a maioria dos “duendes” são personificações de forças naturais negativas ou lugares perigosos. Orcs são diferentes, pois são apresentados como paralelos e iguais das outras raças da Terra-Média. Podia-se ver um orc cara a cara, eles não eram contos de fada, mas um fato terrível. Os orcs representam nada mais que a vontade e a cobiça do mal.

[5] Briggs, Katharine; An Encyclopedia of Fairies: Hobgoblins, Brownies, Bogies , and Other Spiritual, 1976, Pantheon Books, New York.

[6] Shippey, Tom, The Road to Middle-Earth. HarperCollins, 1992.

[7] Zipes, Jack, The Oxford Companion to Fairy Tales, 2000, Oxford University Press, New York. Esta não é uma referência específica à orcs, mas em referência ao fato que “a concepção de Tolkien de literatura de fantasia… é baseada na suspensão de descrença… que acontece quando, ao contrário dos contos de fadas, nós como leitores compreendemos a fantasia dentro de suas próprias premissas como ‘verdade’. Pois para Tolkien, fantasia autêntica e habilidosa cria a Crença Secundária (diversa da Crença Primária do mito ou religião), colocando o leitor em um estado temporário de encantamento.” Deste modo, Tolkien gastou muita energia autoral em estabelecer o lado prático da Terra-Média.

[8] Carpenter, Humphrey. The Letters of J.R.R. Tolkien. Houghton Mifflin Co., 1995; Carta 144.

[9] George MacDonald era um intelectual vitoriano que, como parte de sua contribuição à área de Artes e Ofícios da cultura vitoriana, escreveu diversas histórias de fantasia para crianças. O seu maior uso de duendes acontece numa composição literária chamada The Princess and the Goblin, na qual são descritos como tendo sido seres humanos comuns, que foram mudados e corrompidos quando foram viver no subterrâneo para evitar suas obrigações. Fãs modernos dos orcs que lerem esta história a acharão incrivelmente melosa.

[10] Tolkien, J.R.R; O Silmarillion (Silma), editado por Christopher Tolkien, Martins Fontes, 2001. Quenta Silmarillion, capítulo III – Da chegada dos elfos e do cativeiro de Melkor, página 49.

[11] Tolkien, J.R.R; Morgoth’s Ring: The Later Silmarillion Part One, Volume 10 of The History of Middle Earth (MR), editado por Christopher Tolkien. Houghton Mifflin Co, 1993. Fonte dos dois ensaios sobre Orcs e Myths Transformed.

[12] Ibid.

[13] Tolkien, J.R.R; As Duas Torres (ADT). Martins Fontes, 2000. Livro III, Capítulo 4 –  Barbárvore, página 70.

[14] MR, Orcs.

[15] MR, Myths Transformed.

[16] Tolkien, J.R.R; O Retorno do Rei (RdR). Martins Fontes, 2001. Apêndice F, página 423.

[17] Ibid.

[18] Allan, Jim (ed.) An Introduction To Elvish (And to Other Tongues and Proper Names and Writing Systems of the Third Age of Middle Earth As Set Forth in the Published Writings of Professor John Ronald Ruel Tolkien), 1978, Bran’s Head Books, Bath, UK.

[19] MR, Orcs.

[20] Tolkien, J.R.R.; Contos Inacabados de Númenor e da Terra-Média (CI), editado por Christopher Tolkien. Martins Fontes, 2002. Capítulo I – De Tuor e sua chegada a Gondolin

[21] ADT , Livro III,  Capítulo 3 – Os Uruk-Hai, página 46.

[22] RdR, Livro VI, Capítulo 1 – A Torre Cirith Ungol, página 185.

[23] Tolkien, J.R.R., O Hobbit, Martins Fontes, 2001, Capítulo 4 – Montanha acima, montanha adentro, página 61.

[24] ADT , Livro III,  Capítulo 3 – Os Uruk-Hai

[25] “Algo que Morgoth havia conseguido era convencer os Orcs além de qualquer contestação que os elfos eram mais cruéis do que eles, mantendo cativos somente por ‘diversão’ ou para comê-los (com os Orcs fariam em caso de necessidade.)” Nota de rodapé em MR, Orcs.

[26] MR, Orcs.

[27] Silma, Dos Anéis do Poder e da Terceira Era, página 369.

[28] MR, Orcs.

[29] MR, Leis e Costumes entre os Eldar.

[30] Silma, Quenta Silmarillion, Capítulo III – Da chegada dos elfos e do cativeiro de Melkor, página 49.

[31] Silma, Quenta Silmarillion, Capítulo XXI – De Túrin Turambar, página 271.

[32] RdR, Apêndice B – O Conto dos Anos.

[33] Tolkien cita resposta: crianças na Terra-Média: Carta 144: “Crianças hobbit são encantadoras…” Em Morgoth’s Ring: crianças élficas – “como se fossem filhos de homens belos e tranqüilos.”

[34] RdR, Livro VI, Capítulo 2 – A Terra da Sombra, página 199.

[35] Carta 210

[36] Carta 78

[37] O Hobbit, Capítulo IV –  Montanha acima, montanha adentro, página 61.

[38] ibid

[39] RdR, Apêndice B – O Conto dos Anos

[40] ADT, Livro III, Capítulo VIII – A estrada para Isengard, página 153.

[41] O Hobbit, Capítulo VI –  Da frigideira para o fogo, página 101.

[42] CI,  Parte III – A Terceira Era, Capítulo 3 – A busca de Erebor.

[43] RdR, Livro VI, Capítulo 2 – A Terra da Sombra, página 199.

[44] Silma, Quenta Silmarillion, Capítulo X – Dos Sindar, página 108.

[45] Depois de diversas derrotas iniciais, Morgoth mudou a forma como os orcs são usados em sua estratégia de batalha, pois “Morgoth percebeu agora que, sem ajuda, orcs não estavam à altura dos Noldor.” Em batalhas posteriores, ele usou Orcs de um modo muito específico, primeiramente visto na grande batalha de Dagor Bragollach. Aqui, ele mandou os Orcs primeiro “em multidões tais como os Noldor nunca tinham visto ou imaginado.” Isto é bem sucedido – até certo ponto; os Orcs ainda temem alguns senhores élficos em específico, e como resultado, certas fortalezas não caem. Em uma batalha posterior, a Nirnaeth Aenordiad, Morgoth levou em conta esta fraqueza dos orcs. Ele repetiu sua estratégia prévia de grandes quantidades de Orcs até que “os Orcs hesitaram, e seu ataque foi retardado, e alguns já estavam tentando fugir.” Então, Morgoth solta suas mais poderosas criaturas do mal na batalha. Significativamente, em Gondolin, mesmo um bando de Orcs deixados na área próxima a Gondolin para destruir qualquer um que escapasse recebe cobertura de um Balrog. Como nota de rodapé, as palavras “Orc” e “Orcs” sempre aparecem com letra maiúscula no texto do Silmarillion, mas não em O Hobbit ou em O Senhor dos Anéis.

[46] Um deles acontece quando os orcs pregam uma senhora élfica, Finduilas, em uma árvore com uma lança para matá-la. (Silma, De Túrin Turambar, página 275.) O outro é o ataque e perseguição pelos orcs, “pelo faro e pelas pegadas” de Isildur na Segunda Era. (Silma, Dos Anéis do Poder e da Terceira Era, página 376).

[47] O ensaio do estudioso de Tolkien Ainur Emlgreen: “The Image of the Enemy: An issue of Race and Class in the works of J.R.R. Tolkien” (A Imagem do Inimigo: Uma discussão sobre Raça e Classe nos trabalhos de J.R.R. Tolkien) traz uma sofisticada análise sobre o tema do orc como Outro).

http://www.ainurin.net/image_of_enemy_intro.htm

[48] RdR, Livro VI, Capítulo 2 – A Terra da Sombra, página 200.

[49] MR, Myths Transformed.

[50] Carta 154.

[51] Carta 338.

[52] Tolkien, J.R.R.; The Peoples of Middle-Earth, Volume 12 of The History of Middle Earth, editado por Christopher Tolkien. Houghton Mifflin Co, 1996.

[53] Carta 256.

[54] Notavelmente, todos esses papéis alternativos para os orcs na fantasia moderna (patinho feio, imagem do homem comum ou poder masculino) remetem a papéis importantes de protagonistas e poderes nos contos de fada europeus. O filho mais novo ou príncipe numa missão se tornou um orc! Referências em toda obra de Zipes.

{mos_vbridge_discuss:112}

orcs_uruk-hai

Mitos Transfomados – Parte VIII – Orcs!!!

Sua natureza e origem requerem mais reflexão ((Este texto corresponde ao Mitos Transformados, partes VIII a X, publicado no The History of Middle Earth 10  – maiores detalhes aqui )). Elas não são fáceis de se trabalhar na sua teoria e o seu sistema.
[1] Como o caso de Aulë e os Anões mostra, somente Eru poderia fazer criaturas com vontades independentes, e com capacidade de raciocínio. Mas os orcs parecem ter ambas: eles podem tentar enganar Morgoth/Sauron, rebelar-se contra ele, ou criticá-lo.

[2] Entretanto, eles devem ser corrupções de alguma coisa pré-existente.

[3] Mas os homens não haviam aparecido ainda, quando os orcs já existiam. Aulë construiu os anões de sua memória da Música; mas Eru não sancionaria o trabalho de Melkor a fim de permitir a independência dos orcs. [A não ser que os orcs fossem ao final remediáveis, ou pudessem ser corrigidos e “salvos”?]

Também parece claro que embora Melkor pudesse corromper e arruinar indivíduos completamente, não é possível contemplar sua perversão absoluta de um povo inteiro, ou grupo de pessoas, e sua criação que afirma hereditariedade [Adicionado posteriormente: Este último deve[se um fato] ser um ato de Eru].

Neste caso os elfos, como uma fonte, são muito improváveis. E os orcs são “imortais” no sentido élfico? Ou os trolls? Parece claramente implícito no Senhor dos Anéis que os trolls existiam no seu próprio direito, mas foram “consertados” por Melkor.

[4] E o que dizer de feras falantes e pássaros com raciocínio e linguagem? Estes têm sido adotados levianamente por mitologias menos “sérias”, mas representam um papel que agora não pode ser cortado. Eles são certamente “exceções” e não muito usados, mas suficientemente para mostrar que eles são uma faceta reconhecida do mundo. Todas as criaturas aceitam-os como naturais, se não comuns. Mas criaturas “racionais” verdadeiras, “povos falantes”, são todas de forma humana/”humanóide”. Somente os Valar e Maiar são inteligências que podem assumir formas de Arda à vontade. Huan e Sorontar poderiam ser Maiar – emissários de Manwë. Mas, infelizmente, no Senhor dos Anéis é dito que Gwaehir e Landroval são descendentes de Sorontar [Thorondor].

Em qualquer caso, é provável ou possível que mesmo os menores dos Maiar tornariam-se orcs? Sim: tanto fora de Arda como dentro dela, antes da queda de Utumno. Melkor corrompeu muitos espíritos – alguns grandes, como Sauron, ou menores, como balrogs. Os menores poderiam ter sido primitivos [e muito mais poderosos e perigosos] orcs; mas, por procriar quando encarnados, eles [como Melian][tornariam-se] cada vez mais ligados à terra, incapazes de retornar ao estado de espírito [mesmo forma demoníaca], até serem libertados pela morte [assassinato], e eles definhariam em força. Quando libertados eles seriam, claro, como Sauron, “condenados”: isto é, reduzidos à impotência, infinitamente recessiva: ainda odiando, mas incapazes cada vez mais de fazê-lo fisicamente eficaz. [ou não seria o estado órquico muito definhado de morte um poltergeist?]

Mas novamente – Eru proveria fëa [espírito] a tais criaturas? Para as águias etc., talvez. Mas não para os orcs.

Entretanto, parece melhor ver o poder de corrupção de Melkor como sempre começando, pelo menos, no nível moral ou teológico. Qualquer criatura que o tomou por Senhor [e especialmente aquelas que blasfemamente chamaram-o de Pai ou Criador] logo tornou-se corrompida em todas as partes de seu ser, o fëa arrastando o hröa [corpo] em sua queda ao Morgothismo: ódio e destruição. Como para os elfos serem “imortais”: eles, na verdade, possuiam vidas excepcionalmente longas, e foram “cansando-se” fisicamente, e sofrendo um enfraquecimento lento e progressivo de seus corpos.

Em resumo: eu acho que deve-se assumir que “falar” não é necessáriamente o sinal da posse de uma “alma racional” ou fëa. Os orcs eram bestas de forma humanizada [para zombar de homens e elfos] deliberadamente pervertidos/convertidos em uma semelhança mais próxima dos homens. Sua “fala” era na verdade “gravações” recitadas, colocadas neles por Melkor. Melkor ensinou-lhes a fala e ao reproduzirem-se, eles herdaram isto; e eles tinham tanta independência como têm cães ou cavalos de seus mestres humanos. Sua fala era largamente ecoada [como papagaios]. No Senhor dos Anéis é dito que Sauron inventou uma linguagem para eles.

O mesmo tipo de coisa pode ser dito de Huan e as águias: eles aprenderam uma linguagem à partir dos Valar – e elevaram-na a um nível superior – mas eles ainda não tinham fëa. Mas Finrod provavelmente foi muito longe na sua afirmação de que Melkor não poderia corromper completamente qualquer obra de Eru, ou que Eru [necessariamente] interferiria para anular a corrupção ou para cessar a existência de Suas próprias criaturas, pois elas teriam sido corrompidas e voltadas para o mal.

Permanece, portanto, terrivelmente possível que houvesse uma linhagem élfica nos orcs. Estes podem então ter sido cruzados com feras [estéreis!] – e posteriormente homens. Seu tempo de vida seria diminuído. E morrendo eles iriam para Mandos e mantidos aprisionados até o Fim.

…as vontades dos orcs e balrogs etc., são parte do poder de Melkor “dispersado”. O espírito deles é de ódio. Mas o ódio é não-cooperativo [exceto sob medo direto]. Daí as rebeliões, motins, etc., quando Morgoth parecia estar distante. Orcs são feras e balrogs Maiar corrompidos. Também, Morgoth, não Sauron, é a fonte das vontades dos orcs. Sauron é apenas outro [senão maior] agente. Orcs podem rebelar-se contra ele sem perder sua própria fidelidade irremediável ao mal [Morgoth]. Aulë queria amor. Mas, claro, não pensava em dispersar seu poder. Apenas Eru pode dar amor e independência. Se um sub-criador finito tenta fazer isto, ele na verdade quer ardorosa obediência absoluta, mas ela vira servidão robótica e torna-se mal.

Isto sugere – embora não seja explícito – que os “orcs” eram de origem élfica. Sua origem é tratada mais claramente em outro lugar. Um ponto apenas é certo: Melkor não poderia “criar criaturas” vivas de vontades independentes.

Ele [e todos os “espíritos” dos “Criados–primeiro”, conforme seus limites] poderia assumir formas corpóreas; e ele [e eles] poderia dominar as mentes de outras criaturas, incluíndo elfos e homens, pela força, medo, ou por engôdos, ou por pura magnificência. Os elfos de épocas remotas inventaram e usaram uma palavra ou palavras com uma base [o]rok para indicar qualquer coisa que causasse medo e/ou terror. Isto teria sido originalmente aplicado a “fantasmas” [espíritos assumindo formas visíveis] tão bem quanto a quaisquer criaturas existindo independentemente. Sua aplicação [em todas as línguas élficas] especificamente às criaturas chamadas orcs – assim devo escrevê-la no Silmarillion – foi posterior.

Uma vez que Melkor não poderia “criar” espécies independentes, mas tinha imensos poderes de corrupção e distorção daquelas que caíam em seu poder, é provável que estes orcs tivessem uma origem mista. A maioria deles claramente [e biologicamente] eram corrupções de elfos [e, posteriormente, de homens provavelmente também]. Mas sempre entre eles [como servos especiais e espiões de Melkor, e como líderes] deviam haver numerosos espíritos menores corrompidos que assumiram formas corpóreas semelhantes. [Estes apresentariam personalidades aterrorizantes e demoníacas]

Os elfos teriam classificado as criaturas chamadas “trolls” [no Hobbit e Senhor dos Anéis] como orcs – em personalidade e origem – mas eles eram maiores e mais lentos. Pareceria evidente que os orcs eram corrupções de tipos humanos primitivos.

A origem dos orcs é matéria de debate. Alguns chamavam-os de Melkorohíni, os Filhos de Melkor; mas os mais sábios diziam: não, os escravos de Melkor,  mas não seus filhos; pois Melkor não tinha filhos. De qualquer modo, foi pela malícia de Melkor que os orcs surgiram, e eles foram claramente pretendidos por ele para serem um escárnio dos Filhos de Eru, sendo criados para serem completamente subservientes à sua vontade e cheios de ódio implacável por elfos e homens.

Ora, os orcs das guerras posteriores, depois da fuga de Melkor-Morgoth e seu retorno à Terra-média, não eram “espíritos”, nem fantasmas, mas criaturas vivas, capazes de falar e de algumas habilidades e organização; ou pelo menos capazes de aprender estas coisas de criaturas superiores e de seu mestre. Eles procriavam e multiplicavam-se rapidamente, sempre quando deixados imperturbados. Até onde pode-se compilar das lendas que chegaram até nossos dias de antigamente, parece que os Quendi não haviam encontrado nenhum orc desse tipo antes da chegada de Oromë a Cuiviénen.

Aqueles que acreditam que os orcs surgiram de alguma espécie de homens, capturados e pervertidos por Melkor, afirmam que era impossível para os Quendi terem conhecido os orcs antes da Separação e da partida dos Eldar. Pois embora o momento do despertar dos homens não fosse conhecido, mesmo os cálculos dos mestres de tradição que determinavam-no o mais próximo possível, não designaram uma data antes da Grande Marcha começar, certamente não uma suficiente para permitir a corrupção dos homens em orcs. Por outro lado, é evidente que logo após seu retorno, Morgoth tinha sob seu comando um grande número dessas criaturas, com as quais ele começara a atacar os elfos. Havia ainda menos tempo entre o seu retorno e esses ataques para a procriação dos orcs e para a transferência de seus exércitos para o oeste.

Esta visão da origem dos orcs depara-se com dificuldades de cronologia. Mas, embora os homens possam encontrar conforto nisto, a teoria permanece de qualquer modo a mais provável. Ela concorda com tudo que é sabido sobre Morgoth, e da natureza e comportamento dos orcs – e dos homens. Melkor era impotente para produzir qualquer coisa viva, mas hábil na corrupção de coisas que não originaram-se dele, se pudesse dominá-las. Mas se ele tivesse de fato tentado fazer criaturas por sua própria conta em imitação ou zombaria dos Encarnados, ele teria, como Aulë, sido apenas bem sucedido em produzir fantoches: suas criaturas teriam agido apenas enquanto a atenção de sua vontade estivesse sobre elas, e elas não teriam mostrado relutância em executar qualquer comando seu, ainda que fosse para destruírem a si mesmas.

Mas os orcs não eram desse tipo. Eles eram certamente dominados pelo seu mestre, mas sua dominação era por medo, e eles estavam cientes desse medo e o odiavam. Eles eram de fato tão corruptos que eram impiedosos, e não havia crueldade ou perversão que eles não cometessem; mas esta foi a corrupção de suas vontades independentes, e eles tinham satisfação nos seus atos. Eles eram capazes de agir por si próprios, cometendo atos malignos para seu próprio divertimento; ou se Morgoth e seus agentes estivessem distantes, eles poderiam negligenciar seus comandos. Eles às vezes lutavam entre si, para o detrimento dos planos de Morgoth.

Além disso, os orcs continuaram a viver e se reproduzir, e prosseguiram no seu trabalho de destruição e pilhagem após Morgoth ter sido destronado. Eles também possuiam outras características dos Encarnados. Eles tinham linguagens próprias, e falavam entre si várias línguas de acordo com as diferenças de linhagem que eram discerníveis entre eles. Eles precisavam de comida e bebida, e descanso, embora muitos fossem treinados tão duros como os anões para suportar as adversidades. Eles podiam ser mortos, e eram alvos de doenças; mas à parte desses males, eles morriam e não eram imortais, mesmo de acordo com o modo dos Quendi; de fato, eles pareciam ter por natureza vidas curtas comparadas com a longevidade dos homens de raças superiores, tais como os Edain.

Este último ponto não era bem compreendido nos Dias Antigos. Pois Morgoth possuía muitos servos, dos quais os mais velhos e mais potentes eram imortais, pertencendo de fato, no seu início, aos Maiar; e estes espíritos malígnos, como seu mestre, podiam tomar formas visíveis. Aqueles cujo trabalho era comandar os orcs frequentemente tomavam formas órquicas, porém eram maiores e mais terríveis. Assim as histórias falavam de Grandes Orcs ou capitães-orcs que não eram mortos, e que reapareciam em batalha através dos anos muito mais longos que os períodos das vidas dos homens.

Finalmente, há um ponto irrefutável, embora horrível de se relatar. Tornou-se claro com o tempo que indubitavelmente os homens podiam, em poucas gerações, sob a dominação de Morgoth ou de seus agentes, ser reduzidos quase ao nível órquico em mente e hábitos; e então eles estariam, ou poderiam estar, prontos para cruzar com orcs, produzindo novas linhagens, frequentemente maiores e mais astutas. Não há dúvida de que muito mais tarde, na Terceira Era, Saruman redescobriu isto, ou aprendeu sobre isto em estudo, e em sua sede pela supremacia, praticou isto, seu ato mais maligno: o cruzamento de orcs e homens, produzindo tanto homens-orc, grandes e astutos, como orcs-homens, traiçoeiros e desprezíveis.

Mas mesmo antes dessa perversão de que Morgoth era suspeito, os sábios nos Dias Antigos sempre ensinaram que os orcs não foram feitos por Melkor e, portanto, não eram malignos na sua origem. Eles podiam ter se tornado irredimíveis [pelo menos por elfos e homens], mas eles continuavam dentro da Lei. Isto é, que embora sendo necessário [sendo os dedos da mão de Morgoth] serem enfrentados com a maior severidade, eles não deveriam ser tratados com os seus próprios termos de crueldade e traição. Cativos, não deviam ser atormentados, nem mesmo para descobrir informações para a defesa das casas de elfos e homens. Se quaisquer orcs se rendessem e clamassem por misericórdia, ela seria concedida, a qualquer preço. Este era o ensinamento dos sábios, embora no horror da guerra isto não fosse sempre considerado.

É verdade, claro, que Morgoth mantinha os orcs em horrenda escravidão; pois em sua corrupção, eles haviam perdido quase toda a possibilidade de resistir à dominação de sua vontade. De fato, tão grande era a sua pressão sobre eles que, antes de Angband cair, se direcionasse seu pensamento na direção deles, eles ficariam conscientes de seu “olho” onde quer que estivessem; e quando Morgoth finalmente foi removido de Arda, os orcs que sobreviveram no oeste se dispersaram, sem liderança e quase sem sagacidade, e estiveram por um longo tempo sem controle ou propósito.

Esta servidão à uma vontade central que reduziu os orcs a uma vida quase como a de formigas, foi vista mais claramente na Segunda e Terceira Eras sob a tirania de Sauron, tenente-comandante de Morgoth. Sauron realmente alcançou maior controle sobre seus orcs do que Morgoth jamais havia conseguido. Ele estava, claro, operando em uma escala menor, e ele não tinha inimigos tão grandes e tão ferozes como os noldor no auge de seu poder nos Dias Antigos. Mas ele também herdou destes dias dificuldades, tais como a diversidade de orcs em linguagem e linhagem, e as hostilidades entre eles; enquanto em muitos lugares da Terra-média, após a queda das Thangorodrim e durante a ocultação de Sauron, os orcs, recuperando-se de sua impotência, ergueram pequenos reinos por si próprios e tornaram-se acostumados à independência. Mas Sauron conseguiu em tempo unir a todos em ódio irracional a elfos e aos homens que associaram-se a eles; enquanto que os orcs de seus próprios exércitos treinados estavam tão completamente sob sua vontade que sacrificariam a si mesmos, sem hesitação, ao seu comando.

[Mas havia uma falha no seu controle, inevitável. No reino do ódio e do medo, a coisa mais forte é o ódio. Todos os seus orcs odiavam-se uns aos outros, e precisavam ser mantidos sempre em guerra contra algum “inimigo” para evitar que se matassem entre si] E ele mostrou-se também mais habilidoso do que seu mestre na corrupção dos homens que estavam além do alcance dos sábios, e em reduzí-los à vassalagem, na qual eles marchariam com os orcs, e rivalizariam com eles em crueldade e destruição.

É dessa maneira que provavelmente devemos olhar para Sauron para encontrar uma solução do problema da cronologia. Embora de poder natural imensamente menor do que seu mestre, ele permaneceu menos corrupto, mais audacioso e mais apto à prudência. Pelo menos nos Dias Antigos, e antes de ser privado de seu senhor e cair na insensatez de imitá-lo, e esforçando-se para tornar-se Senhor Supremo da Terra-média. Enquanto Morgoth ainda governava, Sauron não procurou sua própria supremacia, mas trabalhou e planejou para outro, desejando o triunfo de Melkor, que no início ele venerava. Ele, assim, foi frequentemente capaz de concluir coisas, primeiramente concebidas por Melkor, que seu mestre não completou ou não podia completar na pressa furiosa de sua malícia.

Podemos supor, então, que a idéia do cruzamento de orcs partiu de Melkor, a princípio talvez não tanto pela provisão de servos ou da infantaria de suas guerras de destruição, como pela profanação dos Filhos e escárnio blasfemo dos desígnios de Eru. Os detalhes da realização dessa depravação foram, entretanto, deixados principalmente às sutilezas de Sauron. Neste caso, a concepção [em pensamento] dos orcs deve ter surgido há muito tempo, na noite do pensamento de Melkor, embora o início da sua atual reprodução devesse esperar pelo despertar dos homens.

Quando Melkor foi feito prisioneiro, Sauron escapou e permaneceu escondido na Terra-média; e desse modo pode ser compreendido como a reprodução dos orcs [sem dúvida já iniciada] continuou com velocidade crescente durante a era em que os noldor habitavam Aman; então quando retornaram à Terra-média, econtraram-na já infestada por esta praga, para o tormento de todos que lá habitavam, elfos, homens ou anões. Foi Sauron, também, que secretamente reparou Angband para o auxílio de seu mestre quando este retornasse; e lá, os escuros lugares subterrâneos já estavam guarnecidos com exércitos de orcs antes de Melkor por fim voltar, como Morgoth, o Sinistro Inimigo, e os enviou para trazer ruína a tudo que era belo. E embora Angband tenha caído e Morgoth tenha sido removido, eles ainda saem dos lugares sem luz na escuridão de seus corações, e a terra é destruída sob seus pés impiedosos.

Michael Martinez

Cuidado com o Padeiro na Cozinha!

Não há nada como um bom vilão de Tolkien e, desafortunadamente, há tão poucos deles. Agora, antes que me enforquem, deixe-me explicar porque eu acho que Tolkien intencionalmente manteve seus bons vilões a um mínimo. Povos realmente malignos eram raros porque eles estariam corrompendo e manipulando todos os demais em direção ao mal. Nem Melkor nem Sauron iriam tolerar um Senhor do Escuro rival. Quase todos os outros caras eram apenas seus servos. É debatível se o Balrog de Moria estaria realmente servindo a Sauron na Terceira Era.

Mas o mal de Tolkien é diferente do mal da maioria das histórias. Ele não está focalizado no mal em seres humanos. Ele está focalizado no mal externo, o qual ele chama algumas vezes de Mal Encarnado. Quase pode-se ouvir estas palavras reverberando quando ele as fala. Trovões ressoariam nos céus, e nuvens bloqueariam o sol. Melkor e Sauron podem ter sido bons no início, mas eles percorreram aquele caminho sombrio que existe à frente de todos. Oras! Melkor abriu o caminho e Sauron o ampliou.

Existe mal humano na Terra-média: ambição, avareza, orgulho e assim por diante. Reis e heróis podem facilmente enlouquecer e deixar o caminho da Bondade e Luz. Tolkien produz sua tragédia a partir deste personagens humanos. Mas nem Melkor nem Sauron são trágicos, embora pudessem ser. Isto é, não existe retorno para a queda destes dois seres anteriormente notáveis e impressionantes. Eles eram Ainur, anjos, filhos do pensamento de Ilúvatar antes de existir um Tempo, antes dos Filhos de Ilúvatar terem sido trazidos à existência. Eles nem sempre foram da escuridão, antigamente eram da luz. E mesmo assim as escolhas que eles fizeram conduziram-nos à destruição. Suas corrupções não possuíam uma conclusão decidida de antemão.

Por outro lado, não há mal menor em Tolkien. Ninguém fica louco em sua vila e envenena o pão, por assim dizer, em um pequeno ato de vingança por zombarias e insultos. Todos os atos de maldade são universalmente desprezados. As pessoas possuem um senso do que é certo e do que é errado, e elas geralmente tentam viver por ele. Exceto por “aqueles outros caras”, os inimigos. Em cada guerra, os vencedores sãos os bons rapazes em sua própria visão. Então os seguidores de Sauron sem dúvida aproveitaram o sucesso que experimentaram porque estavam do lado certo. Eram os malignos Elfos e tirânicos Dunedain que precisariam ser destruídos.

De outra forma, alguém pode apressar-se em apontar, quem poderia pensar que os Orcs são “gente boa”? Mesmo os Orcs pareciam desprezar a si mesmos. Sim e não. Nós definimos bem e mal pelo valores que nos são ensinados ou com os quais crescemos. Os Orcs foram corrompidos. O que eles poderiam considerar bom não necessariamente faria sentido para nós, mas faria sentido para eles. “Quais são as melhores coisas da vida?” “Esmagar seus inimigos. Vê-los correr de você. Ouvir a lamentação de suas mulheres”. Não é exatamente um diálogo clássico de Tolkien, mas reflete os valores dos guerreiros na imaginação de algumas pessoas. [Nota do Tradutor: apesar de Martinez não citar a fonte, é um diálogo do filme “Conan”]

Bem, no sentido do que é o melhor para a comunidade, também existia entre os Orcs. Aragorn apontou que eles poderiam viajar grandes distâncias para vingar um capitão assassinado. Porque? O Orc estava morto, apesar de tudo, certo? O que existia para que os Orcs sobreviventes arriscassem suas vidas tentando se vingar de alguém que matou seu capitão o qual eles provavelmente odiavam? Orgulho. Mas não apenas orgulho. Eles deveriam ter um senso de bando, um sentimento tribal que daria suporte a todos os inevitáveis abusos. O rosnar e lutar e resmungar eram parte de seu sistema social de bando. Galinhas determinam uma hierarquia social e também os Orcs. Este é simplesmentemente o modo como as coisas são. E daí se o principal Orcs matou outros cinco chefes Orc para tomar o poder da tribo?

Os Orcs eram leais a seus mestres. Eles lutavam e morriam aos milhares por Melkor, Sauron e Saruman. Muitos deles devem ter perdido suas vontades próprias, mas mesmo Melkor [Tolkien fala isso em um de seus ensaios] não poderia controlar diretamente todos eles. Eles odiavam seus mestres mas os temiam. E mais, alguns dos Orcs pareciam ter orgulho de seus serviços. Shagrat, por exemplo, estava ferozmente determinado em ver Frodo entregue a Barad-dur. Porque? Gorbag e seus rapazes não pareciam tão determinados. Mesmo quando foi falado a Shagrat que um guerreiro Élfico havia ultrapassado suas defesas, ele insistia em enviar o prisioneiro para Lugburz [embora ao final apenas a cota de mithril de Frodo tenha sido levada]. Shagrat era um “bom Orc”. Ele seria o tipo de Orc que você gostaria de ter a seus serviço se você controlasse orcs. Gorbag não era assim tão bom.

Mas isso não quer dizer que os valores dos Orcs estariam lado a lado com o dos Elfos e Dunedain. Os Orcs viviam suas vidas de acordo com a vontade de seus mestres. Eles poderiam não saber que existia um padrão absoluto de bem e mal, derivados, em última instância, dos valores de Ilúvatar. Seriam os valores Dele que prevaleceriam sobre todos, e eles poderiam não necessariamente coincidir com o de Elfos e Homens. Ilúvatar, por exemplo, permitia ao mal existir. Porque? Esta é a mesma questão feita pela comunidade Judaica-Cristã há muito tempo. Porque Deus permite ao mal existir?

A resposta do Novo Testamente é que, se Deus fosse acabar com o mal hoje, então quase todos no mundo iriam perecer. Ele adia seu julgamento para dar às pessoas tanto tempo quanto Ele achar razoável para que reflitam sobre seus pecados e se afastem deles. Os propósitos de Ilúvatar não são tão claramente explicados. De fato, Tolkien estava perturbado pelas implicações de se extender aquele princípio a Ilúvatar. Ele reconhecia que os Orcs eram seres racionais encarnados, como Homens e Elfos, então Ilúvatar estaria criando espíritos que estariam condenados a liver vidas malignas. Porque Ilúvatar faria isso? Não eram tanto a predestinação quanto as circunstâncias que fariam o destino dos Orcs.

A resposta transtornou Tolkien. Ele decidiu apenas que Ilúvatar sabia o que estava fazendo, mas se os Orcs eram seres racionais encarnados, de alguma forma serviam aos propósitos de Iluvatar. Pode-se facilmente perguntar, contudo, porque Ilúvatar permitiria que um filho nascesse para crescer e se tornar Ar-Pharazon. Qual é a diferença entre o Rei de Numenor que se tornou maligno e os Orcs que foram criados malignos, exceto que aos Orcs não é dada escolha? Gandalf parece estar falando dos Orcs quando diz a Denethor, “E eu, tenho piedade até de seus [de Sauron] escravos“.

O mal existia nos dois lados da guerra. Então mal não era
realmente sobre “nós” e “eles”. É sobre as escolhas feitas dentro dos limites da vida de cada um. Uma escolha órquica de armar emboscadas e roubar pessoas é maligna. Sauron provavelmente não permitia assaltos nas estradas de seu reino. Todos os bens pertenciam a ele e servia a suas necessidades. Coitado do Orc que roubasse uma de suas caravanas de suprimento!

Mas se o mal pode ser encontrado em todo lugar, também é assim com o bem? Esta questão é mais difícil de responder. Os Orcs, em sua maioria, agiam em conformidade com as leis de Sauron. Eles o temiam e temiam a consequencias da desobediência. Mas um Orc cumpridor das leis seria “bom”? Vejamos de outra forma, um Homem vivendo sob o governo de Sauron [muitos viviam] e agindo da mesma forma que os Orcs seria menos maligno por ser um Homem? Seria melhor? Eu acho que não. Ele teria a vantagem da casta, talvez, mas apenas se os Homens em geral fossem tratados melhor que os Orcs, por Sauron. Pode ser que os Orcs tivessem um tratamento melhor [mas provavelmente todo mundo era mal tratado da mesma forma].

Saruman tentou colocar-se como um novo senhor escuro, e ele representa o que Sauron deve ter atingido num estágio bem anterior, antes da Guerra entre Elfos e Sauron. Sauron teve que começar como um Maia solitário em algum momento da Segunda Era. Deve ter levado bastante tempo para acumular seguidores e escravos. E até que se fixasse em Mordor, muito depois de fazer o Um Anel, quão efetivo era seu controle sobre outras criaturas? Quantas outras criaturas ele era capaz de subjugar sob sua vontade?

Quando Sauron começou a dominar os antigos servos de Melkor, ele deveria ser apenas um pouco pior que uma padeiro furioso. Isto é, seus pecados na Primeira Era foram, sem dúvida, numerosos, mas ele desitiu por um tempo. Um longo tempo. Pode ter levado séculos até que Sauron retornasse a seus desígnios malignos. Teria sido apenas um simples momento de fúria que levou-o a retornar ao mal e à escuridão? Teria sido assim que Saruman começou a trilhar o caminho?

A busca pelo mal na Terra-média é quase tão longa como a busca por redenção, aparentemente. Melkor esteve dividido durante o Ainulindale e aparentemente irritou Iluvatar, mas ele foi realmente mau? Quando Melkor entrou em Ea com os outros Valar, ele parece ter trabalhado bastante para ajudá-los a dar forma e substância ao universo. Não existiu nenhuma briga real até que começaram a trabalhar na região que seria conhecida como Arda. Então ele a clamou para si mesmo, ação à qual ele nào tinha direito. Quão longas foram as incontáveis Eras das Estrelas nas quais Melkor [e Sauron, e todos os outros Maiar não nomeados que eventualmente seguiram Melkor ao mal] ainda não tinha se tornado maligno?

Em uma escala menor, quanto tempo levou para os Noldor cairem nas mãos do mal? Eles não eram malignos quando alcançaram Aman. Eles ainda não tinham sucumbido ao pecado do orgulho ao qual Melkor os induziu após ser libertado. Eles não continuavam essencialmente um povo bom no dia em que Melkor foi solto de Mandos? Como aquele dia deve ter sido? E se Fëanor, que colocou-se à parte da Casa de seu pai, já estivesse sucumbindo ao orgulho [que foi sua queda] Melkor teria sentindo a marca de outro mal em Valinor?

Passou-se um longo tempo antes que Melkor de fato atingisse alguma coisa no sentido de corromper os Noldor. E embora Fëanor tenha rejeitado Melkor, os Valar acreditavam que Melkor fora de alguma forma responsável pelo temperamento de Fëanor. Se Melkor não tivesse destruído as Duas Árvores, além de Finwë, Fëanor poderia ter sido um pouco rude, mas ele não teria ultrapassado o limite. Mas fica claro que, quando ele subiu a colina de Tuna em desafio aos Valar e falou a seu povo, Fëanor tinha finalmente cruzado a linha, e os Noldor logo o seguiriam.

É difícil imaginar como os Noldor lentamente caíram pelo pecado do orgulho. Eles tornaram-se arrogantes e abertamente desconfiados uns dos outros. Devem ter havido argumentos e disputas , mas aparentemente nada chegou a brigas e espadas. Os padeiros ocasionalmente furam os bolos dos outros? Qual seria a tendência de um povo que poderia ser tão facilmente [aparentemente] dirigidos contra seus vizinhos [os Teleri de Alqualonde]? Como aconteceu isso, quando Fëanor ordenou a seu povo que roubasse os navios dos Teleri, ninguém perguntou porque Deus precisaria de uma espaçonave [ou, mais apropriadamente, porque Fëanor pensava que tinha o direito de tomar os navios]?

Seria muito tarde para divergências nas fileiras? Mesmo o bem intencionado Fingon foi correndo à batalha sem conhecer as causas justas e injustas dos combatentes e mesmo procurar conhecê-las. Seu ataque irresponsável e precipitado, originado da lealdade, parece ter condenado todo o seu povo. O que teria acontecido se Fingon primeiro tivesse perguntado o que estava acontecendo? O que aconteceria se ele tivesse se recusado a apoiar o roubo dos barcos por Fëanor? Teriam ainda os Noldor se lançado ao exílio ou apenas uma pequena fração do povo seria condenada?

O caminho para a escuridão parece ter muitas armadilhas, mas também existem algumas interrupções. Existem pontos onde pode-se avaliar o que foi feito e voltar atrás. A redenção de Boromir é um exemplo de como alguém poderia começar a trilha o caminho da escuridão mas não fazer a jornada completa. Ele continuou tendo que pagar com a vida por tentar se apoderar do Anel, mas sua morte foi uma morte nobre. Ele sacrificou-se tentando salvar seus dois companheiros.

Diz-se que mesmo Ar-Pharazon hesitou quando Sauron encorajou-o a cortar a Árvore Branca de Númenor. Foi o valente esforço de Isilidur em salvar a fruta antes da Árvore ser destruída que finalmente empurrou Ar-Pharazon para além dos limites. Pode ser afirmado que, mesmo Isildur não fazendo nada, o rei eventualmente concordaria com a sugestão de Sauron. Sauron não demonstrava piedade em seus esforços para corromper e destruir os Numenorianos. Em todo caso, a ação de Isildur estimulou a reação de Ar-Pharazon, e Ar-Pharazon retomou sua jornada na escuridão.

Earnur, o último Rei de Gondor da Linha de Anárion, não tornou-se exatamente mau, mas sucumbiu ao orgulho. E também sua queda foi atrasada. Na primeira vez que o Senhor dos Nazgul lançou um desafio ao rei, o Regente Mardil foi capaz de conter Earnur. Earnur teve uma pausa, mas a certa hora ele retomou seu percurso de auto-destruição. Ele respondeu ao segundo desafio.

Não era fácil para alguém tornar-se maligno, na Terra-média. Os Orcs não foram sempre malignos. Em algum momento em suas origens eles foram bons, tão bons quanto qualquer um. Eles não eram de fato Orcs. Então eventualmente chegou um dia em que eles puderam ser chamados Orcs, mas como foi o processo de transição? E eles teriam ido tão longe no caminho escuro que mesmo que desejassem de todo coração não poderiam retornar? A questão da redemibilidade dos Orcs perturbou Tolkien e incomodou muitos de
seus leitores. Muitas pessoas assumem que os Orcs foram todos destruídos na Guerra do Anel, mas não foi o caso. O Epílogo [que Tolkien foi persuadido a não publicar] indicava que os Orcs continuavam por aí. Sam especulou se os Orcs seriam, em algum momento, completamente destruídos e durante a Segunda Guerra Mundial Tolkien frequentemente fazia referência aos “Orcs” no exército britânico em cartas a seu filho.

Orcs, então, não seriam tão completamente malignos a ponto de sempre poderem ser distinguidos dos Homens. Ou talvez os Homens não seriam sempre tão bons a ponto de poderem ser distinguidos dos Orcs. A desobediência dos Elfos não foi universal como foi a desobediência dos Homens. Os Elfos foram capazes de aprender o erro de seus caminhos e rejeitar o caminho da escuridão. Os Homens tiveram que esperar por outra forma de redenção.

Todavia nós vemos o bem e o mal na Terra-média principalmente pelos olhos dos Hobbits. Existiram algums Hobbits malvados e Hobbits que serviram de livre vontade a Saruman. Mas em geral, os Hobbits possuiam uma inocência, uma fidelidade ao bem, que todos os Homens e Elfos uma vez dividiram. Isto não quer dizr que os Hobbits não partilharam da Queda dos Homens. Eles devem ter sido [como Tolkien disse] um ramo da raça Humana. Mas ele desistiram das trevas e nunca voltaram completamente para ela. Poucos, como Sméagol e Lotho Sacola-Bolseiro, seguiram o caminho e desapareceram no esquecimento.

Para os Hobbits, os Elfos eram bons e os Orcs eram maus. Este pensamento era ao mesmo tempo correto [pois os Hobbits julgavam Elfos e Orcs com base em suas ações] e errado [pois os Hobbits não olhavam mais profundamente em suas próprias experiências]. O que Sam pensava da rebelião de Fëanor? Bem, estaria tudo no passado para ele, sem dúvida. Seria um assunto há muito tempo resolvido. Mas ele teria entendido que os Orcs não eram de fato verdadeiramente culpados por suas naturezas? Ele compreendia por que Gandalf tinha piedade mesmo dos escravos de Sauron, e por quê?

Por outro lado, Hobbits eram geralmente de uma natureza gentil. Eles não batiam em seus filhos, aparentemente não sofriam de alcoolismo, e aparentemente não tinham muitos problemas com assalto a bancos, assassinatos e sequestros. O que um sequestrador Hobbit pediria como resgate, de qualquer forma? Uma carroça de erva-de-fumo? O orgulho e ira que derrubaram outros povos de fato não tinham muito a ver com os Hobbits. Eles eram um povo que tinham grande resistência, mas também falta de ambição. E todos os problemas dos Elfos e Homens parecem ter surgido da ambição. Ou desejo.

Aparentemente o mais ambicioso ato que um Hobbit de fora da família Sacola-Bolseiro poderia expressar seria roubar cogumelos ou conhecer tantas tavernas quanto possível. A ambição de Lotho em tornar-se o Chefe trouxe sobre ele um final triste e patético. Paladin II, o pai de Pippin, ficou horrorizado que alguém pudesse querer se estabelecer como governante do Condado, mas ele não fez nada para contestar Lotho. Os Tuks simplesmente esperaram fora da tormenta em suas próprias terras ao invés de marcharem para a guerra contra os Rufiões. Não parecia importante o suficiente para que Paladin iniciasse uma guerra que poderia resultar na morte de muitos Hobbits.

Em suas atividades de vilão, Lotho realmente parece não ter conseguido muito. No momento em que o leitor fica sabendo o que ele fez para o Condado, traindo-o para Saruman, ele já estava morto. Ele mesmo teve a desculpa de ser reconhecido como um tolo que foi além de suas capacidades. De uma certa forma, Grima Língua-de-Cobra também foi desculpado. Seu mal é mais prontamente reconhecido por Gandalf. Grima queria Eówyn. Mas ele também espera dividir o poder com Saruman. E quando Saruman é humilhado assim também é Grima, que o acompanha como um cão fiel, mas um cão cheio de amargura.

Existe uma hierarquia completa de caras maus que saqueiam os postos inferiores de alguma forma. Sauron permanece no topo, poderoso e vão, imutável. Abaixo dele ficam vários comandantes como Sauron e o Senhor dos Nazgul, poderosos à sua própria maneira, mas muito fracos para prevalecer sobre os Homens. Abaixo de Saruman ficavam servos como Grima e Lotho, criatura pequenas mas ambiciosas com pouco poder real. E mesmo assim ambos causaram grande mau a seus povos. E abaixo de Lotho estão rufiões como Bill Ferny, criminosos brutais sem ambições reais exceto serem maus e mesquinhos.

Existem muitas faces do mal nO Senhor dos Anéis, e graus de maldade e mesquinharia. Existe pouca redenção verdadeira. Boromir poderia ter sido muito pior do que Lotho e Grima. Ele poderia ter rivalizado Saruman, talvez, pois ele já era um príncipe de uma grande nação. Mas quase a totalidade dos que caem permanecem caídos. Mesmo o sábio velho Denethor, que quase voltou da beirada ao final, sofreu o destino que sua loucura decretou. Ele cedeu ao desespero.

O único personagem que Tolkien realmente desculpa completamente é Frodo. Frodo cede ao Anel no final, mas levou meses de tormento demoníaco para que Frodo reclamasse o Anel para si. A exigência não nasceu do orgulho e arrogância, não da ambição de se tornar um grande e poderoso senhor. Foi essencialmente um ato de insanidade, uma insanidade ocasionada pela ruptura de sua mente. Frodo é, de vários modos, reduzido ao estado de um Orc. Não um Orc maligno, mesquinho, cruel, sanguinário. Mas antes um Orc que teve sua livre vontade retirada, suas escolhas negadas. Ele não é melhor do que escravos Orcs que inicialmente cederam às vontade de Melkor e Sauron.

E se existe redenção para Frodo, e perdão, então deve haver redenção e perdão para os Orcs?

Tradução de Fábio Bettega