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Mitos Transformados VII – Notas sobre os motivos no Silmarillion

The Histoy of Middle-earth XEste ensaio é encontrado em duas formas. A mais antiga (‘A’) é um texto bastante curto, manuscrito, contendo quatro páginas, entitulado ‘Algumas notas sobre a ”filosofia” do Silmarillion’; é rapidamente expresso e não possui um final claro. O segundo (‘B’) é uma versão grandemente ampliada contendo doze páginas, também manuscritas, de uma expressão mais cuidadosa e iniciando com uma bela caligrafia, mas encerrado também sem um fim, de fato no meio de uma frase. Este é entitulado ‘Notas sobre os motivos no Silmarillion’.

A relação entre as duas formas é tal que em sua maior parte não é necessário fornecer nenhum trecho de A pois todo seu conteúdo é encontrado inserido em B. A partir do ponto onde os Valar são condenados pela elevação das Pelori, contudo, os textos divergem. Em B meu pai insere uma longa amenização da conduta dos Valar, e o ensaio se encerra antes do assunto da seção que encerra A fosse atingida (ver nota 6); esta, portanto, é fornecida no final de B.

O texto de B é subsequentemente dividido e marcado como três seções distintas, sendo elas (i), (ii) e (iii).

Notas sobre os motivos no Silmarillion


(i)

Sauron foi ‘superior’, efetivamente, na Segunda Era do que Morgoth ao fim da Primeira. Porque? Por que, embora ele fosse muito inferior em estatura natural, ele ainda não havia caído tão baixo. Eventualmente ele também dispersou seu poder (de ser) no empreendimento de ganhar controle sobre  outros. Mas ele não foi obrigado a dispender tanto de si mesmo. Para obter domínio sobre Arda Morgoth deixou que a maior parte de seu ser passasse para os constituintes físicos da Terra – de forma que todas as coisas que nascessem na Terra e vivessem nela e por ela, animais ou plantas ou espíritos encarnados, seriam passíveis de ‘mácula’. Morgoth no período da Guerra das Jóias se tornou permanentemente ‘encarnado’: por esta razão ele tinha medo, e travou a guerra quase inteiramente por intermédio de aparatos  ou de subordinados e criaturas dominadas.

Sauron, contudo, herdou a ‘corrupção’ de Arda, e apenas gastou seu poder (muito mais limitado) nos Anéis; pois eram as criaturas da terra, em suas mentes e vontades, que ele desejava dominar. Nesta forma Sauron também foi mais sábio do que Melkor-Morgoth. Sauron não era um iniciante em discórdia; e ele provavelmente conhecia mais da ‘Música’ do que Melkor, cuja mente sempre esteve repleta com seus próprios planos e aparatos, e dava pouca atenção a outras coisas. O momento de maior poder de Melkor, portanto, foi no início físico do Mundo; um vasto desejo demiúrgico por poder e a realização de sua própria vontade e desígnios, em uma grande escala. E mais tarde após as coisas terem ficado mais estáveis, Melkor estava mais interessado em e mais capaz de lidar com uma erupção vulcânica, por exemplo, do que (digamos) uma árvore. É de fato provável que ele simplesmente não fosse consciente das produções menores e mais delicadas de Yavanna: tais como pequenas flores. *

(* [nota de rodapé ao texto] Se tais coisas fossem forçadas à sua atenção ele se enfurecia a as odiava, como vindo de outras mentes que não a dele mesmo.)

Portanto, enquanto ‘Morgoth’, quando Melkor foi confrontado pela existência de outros habitantes de Arda, com outras vontade e inteligências, ele se enraiveceu pelo mero fato de suas existências, e sua única noção que tinha de lidar com elas era pela força física, ou do medo dela. Seu único e último objetivo era a destruição das mesmas. Elfos, e ainda mais Homens, ele desprezava por causa de suas ‘fraquezas’:  que são a falta de força física, ou poder sobre ‘matéria’; mas ele também os temia. Ele estava ciente, ao menos originalmente quando ainda era capaz de pensamento racional, ele não os poderia ‘aniquilar’ **: isto é, destruir seus seres; mas suas ‘vidas’ físicas e formas encarnadas se tornaram gradativamente em sua mente a única coisa que valia a pena ser considerado (+).

(** [nota  entre parênteses inserida no texto] Melkor não poderia, é claro, ‘aniquilar’ nada que fosse feito de matéria, ele poderia apenas arruinar ou destruir ou corromper as formas dadas à materia por outras mentes em suas atividades sub-criativas.)

(+ [nota de rodapé sem indicação de referência ao texto] Por isto)

Ou ele se tornou tão avançado em Mentir que mentiu até mesmo para si mesmo, e fingiu que poderia destruí-los e livrar Arda completamente deles. Por isso ele tinha como objetivo sempre quebrar vontades e subordiná-las ou absorvê-las em sua própria vontade e ser, antes de destruir seus corpos. Isto era niilismo irrestrito e negação seu único último objetivo: Morgoth, sem dúvida, se tivesse sido vitorioso, teria destruído mesmo suas próprias ‘criaturas’, como os Orcs, quando tivessem cumprido seu único objetio ao utilizá-las: a destruição de Elfos e Homens. A impotência e desespero finais de Melkor advem disso: que enquanto ao mesmo tempo os Valar (e na devida proporção Elfos e Homens) podiam amar a ‘Arda Desfigurada’, isto é, a Arda com um ingrediente-Melkor, e podiam ainda curar este ou aquele ferimento, ou produzir a partir de seu próprio desfigurar, do estado em que estava, coisas belas e amáveis, Melkor não podia fazer nada com Arda, a qual não era de sua mente e estava interconectada com os trabalhos e pensamentos de outros: mesmo deixado sozinho ele poderia apenas continuar tempestuosamente até tudo estar nivelado e de volta ao caos sem forma. E mesmo assim ele teria sido derrotado, porque continuaria tendo ‘existido’, independente de sua própria mente, e um mundo em potencial.

Sauron nunca atingiu este nível de loucura niilística. Ele não se opunha à existência do mundo, desde que pudesse fazer com ele o que quisesse. Ele ainda tinha os resquícios de propósitos positivos, que surgiram do bem da natureza da qual ele se originou: havia sido sua virtude (e também, portanto, a causa de sua queda, e do seu retrocesso) amar a ordem e a coordenação, e desgostar toda confusão e fricção excessiva. (Foi a aparente vontade e poder de Melkor em realizar seus desígnios rapidamente e com maestria que inicialmente atraiu Sauron a ele). Sauron fora, de fato, muito semelhante a Saruman, e dessa forma o compreendia rapidamente e poderia adivinhar o que possivelmente pensaria e faria, mesmo sem a ajuda dos palantíri e de espiões; enquando Gandalf o eludia e confundia. Mas, assim como todas as mentes desta origem, o amor (originalmente) ou (mais tarde) mera compreensão por parte de Sauron de outras inteligências individuais era correspondentemente mais fraco; e mesmo sendo o único bem em, ou motivo racional para, todo este ordenamento e planejamento e organização ser o bem de todos os habitantes de Arda (mesmo admitindo o  direito de Sauron como seu senhor supremo), seus ‘planos’, a idéia vinda de sua própria mente isolada, tornou-se o único objetivo de sua vontade, e um fim, o Fim, em si mesma*.

(razão pela qual ele mesmo veio a temer a ‘morte’ – a destruição de sua forma física assumida – acima de tudo, e procurar evitar qualquer tipo de dano a sua própria forma)

Morgoth não possuía um ‘plano’: a menos que a destruição e redução a nada de um mundo no qual ele tinha apenas uma parte possa ser chamada de ‘plano’. Mas isto é, claro, uma simplificação da situação. Sauron não poteria ter servido Morgoth, mesmo em seus últimos estágios, sem se tornar infectado por seu desejo por destruição e sua raiva contra Deus (a qual deve terminar em niilismo). Sauron não poderia, claro, ser um ateísta ‘sincero’. Embora um dos espíritos menores criados antes do mundo, ele conhecia Eru, de acordo com sua capacidade. Ele provavelmente enganou a si mesmo com a noção de que tendo os Valar (incluindo Melkor) falhado, Eru tinha simplesmente abandonara Eä, ou pelo menos Arda, e não se importaria mais com ela. Ele parece ter interpretado a ‘mudança do mundo’ na Queda de Numenor, quando Aman foi removida do mundo físico, desta forma: Valar (e Elfos) foram removidos do controle efetivo, e Homens colocados sob a maldição e ira de Deus. Quando pensava nos Istari, especialmente Saruman e Gandalf, ele os imaginava como emissários dos Valar, procurando reestabelecer o poder perdido e ‘colonizar’ a Terra-média, como um mero esforço de imperialistas derrotados (sem o conhecimento ou sanção de Eru). Seu cinismo, o qual (sinceramente) considerava os motivos de Manwë como precisamente os mesmos que os seus, parecia completamente justificado em Saruman. Gandalf ele não compreendia. Mas certamente ele já hvai se tornado maligno, e portanto estúpido, o sucifiente para imaginar que o comportamente diferente deste era simplesmente devido a uma inteligência mais fraca e a falta de um firme propósito imperioso. Ele seria apenas um Radagast um pouco mais esperto – mais esperto por ser mais lucrativo (mais produtivo em poder) ficar absorvido no estudo de pessoas do que no de animais.

Sauron não era um ateísta ‘sincero’, ele pregava o ateísmo, porque reduzia a resistência a si mesmo (e ele parara de teme as ações de Deus em Arda).  Como visto no caso de Ar-Pharazon. Mas lá foi visto o efeito de Melkor sobre Sauron: ele falava de Melkor nos próprios termos de Mekor: como um deus ou mesmo como Deus. Isto pode ter sido o resíduo de um estado o qual era de uma certa forma uma sombra de bem: a habilidade em Sauron de pelo menos admiriar ou admitir a superioridade de um ser que não ele mesmo.

(* [nota de rodapé ao texto] Mas sua capacidade de corromper outras mentes, e mesmo cooptar seus serviços, era um resíduo do fato de que seu desejo original por ‘ordem’ tinha realmente considerado o bom estado (especialmente bem-estar físico) de seus ‘sujeitos’.)

Melkor, e mais ainda o próprio Sauron mais tarde, ambos lucraram com esta sombra escurecida do bem e os serviços dos ‘adoradores’. Mas pode ser duvidoso mesmo se tal sombra de bem estava sinceramente operativa em Sauron àquele tempo. Seu motivo mais sagaz é povavelmente assim expresso. Para alienar um dos tementes-a-Deus de sua lealdade é melhor propor outro objeto invisível de lealdade e outra esperança de benefícios; propondo a ele um Senhor que irá sancionar o que ele deseja e não proibi-lo. Sauron, aparentemente um rival derrotado na disputa pelo poder mundial, agora um mero prisioneiro, dificilmente poderia propor si mesmo;  mas como antigo servo e discípulo de Melkor, a adoração de Melkor o elevará de prisioneiro a sumo sacerdote. Mas embora o real motivo fosse a destruição dos Numenorianos, este era um motivo particular de vingança contra Ar-Pharazon, pela humilhação. Sauron (ao contrário de Morgoth) ficaria satisfeito com a existência dos Numenorianos, como seus seguidores, e de fato usou muitos deles os quais ele corrompeu à sua lealdade.

(ii)

Ninguém, nem mesmo um dos Valar, pode ler a mente de outro ‘ser igual’:*  ou seja, não pode ‘vê-lo’ ou compreendê-lo completa e diretamente por simples inspeção. Pode-se deduzir muitos de seus pensamentos, a partir de comparações genéricas levando a conclusões relativas à natureza e tendências das mentes e pensamentos, e do conhecimento particular de indivídeuos, e circunstâncias especiais. Mas isso não é leitura ou inspeção de outra mente e sim dedução relativa ao conteúdo de uma sala fechada, ou eventos que acontecem fora de vista. Tampouco a assim chamado ‘transferência de pensamento’ é um processo de leitura-mental: nada mais é do que a recepção, e interpretação pela mente receptora, do impacto de um pensamento, ou padrão de pensamento, emanando de outra mente, a qual tanto é a mente em sua totalidade por si mesma quanto a distante visão de um homem correndo é o próprio homem. Mentes podem exibir ou revelar a si mesmas a outras mentes pela ação de suas próprias vontades (embora seja duvidoso se, mesmo desejando ou permitindo isso, uma mente pode realmente revelar a si mesma completamente a outra mente).

(* [nota marginal]  Todas as mentes racionais ??? espíritos derivando diretamente de Eru são ‘iguais’ – em ordem e posição – embora não necessariamente ‘covalentes’ ou de mesmo poder original.)

É, portanto, uma tentação para as mentes de maior poder governar ou conter a vontade de outras, e mais fracas, mentes, de forma a induzi-las ou forçá-las a se revelar. Mas forçar tal revelação, ou induzi-la por qualquer mentira ou engano, mesmo por supostamente ‘bons’ propósitos (incluindo o ‘bem’ da pessoa assim persuadida ou dominada), é absolutamente proibido. Fazê-lo é um crime, e o ‘bem’ nos propósitos daqueles que cometem este crime rapidamente se corrompe.

Portanto muito poderia ‘acontecer às costas de Manwë’: de fato o âmago de todas as outras mentes, grandes e pequenas, estavam ocultas dele. E com respeito ao Inimigo, Melkor, em particular, ele não podia penetrar por visão-mental à distância seu pensamento e propósitos, uma vez que Melkor permanecia em uma vontade fixa e poderosa em ocultar sua mente: o que, fisicamente expresso, tomava forma na escuridão e nas sombras que o envolviam. Mas Manwë podia usar, claro, e usou, seu grande conhecimento, sua vasta experiência de coisas e de pessoas, sua memória da ‘Música’ e sua própria far sight, e as notícias trazidas por seus mensageiros.

Manwë, como Melkor, praticamente nunca é visto ou ouvido fora ou distante de seus próprios salões e residência permanente.  Por que isso? Por nenhuma razão muito profunda. O Governo é sempre no Salãobranco. Rei Arthur normalmente está em Camelot ou Caerlon, e novidades e aventuras chegam até lá e surgem de lá. O ‘Rei Mais Antigo’ obviamennte não será derrotado ou destruído totalmente, pelo menos não antes de algum ‘Ragnarok’ (1) final – o qual mesmo para nós está no futuro, de forma que ele não pode ter ‘aventuras’ reais. Mas, se você o mantém em casa, o resultado de qualquer evento em particular (uma vez que não pode resultar em um ‘cheque-mate’ final) pode permanecer em suspense literário. Mesmo na guerra final contra Morgoth é Fionwe filho de Manwë que personifica o poder dos Valar. Quando movermos Manwë será a última batalha, e o fim do Mundo (ou da ‘Arda Desfigurada’) como os Elfos diriam.

[A permanência de Morgoth ‘em casa’ tem, como descrito acima, uma razão bastante diferente: seu medo de ser morto ou mesmo ferido (o motivo literário não está presente, pois uma vez que ele está em oposição contra o Rei Mais Antigo, o resultado de qualquer uma de suas ações está sempre em dúvida).]

Melkor ‘encarnou-se’ (como Morgoth) permanentemente. Ele o fez para controlar o hroa (2), a ‘carne’ ou matéria física de Arda. Ele tentou identificar-se com ela. Um procedimento mais vasto e mais perigoso,, embora similar em operação a Sauron com os Anéis. Portanto, fora do Reino Abençoado, toda matéria presumivelmente tinha um ‘ingrediente Melkor’ (3), e aqueles que possuíam corpos, alimentados pelo hroa de Arda, tinham uma tendência, pequena ou grande, em direção a Melkor : não havia nenhum deles completamente livre dele em sua forma encarnada, e seus corpos tinham um efeito sobre seus espíritos.

Mas desta forma Morgoth perdeu (ou trocou ou transmutou) a maior parte de seus poderes ‘angelicais’ originais, de mente e espírito, enquanto ganhava um terrível domínio sobre o mundo físico. Por esta razão ele tinha que ser enfrentado principalmente através de força física, e uma enorme ruína material era a provável consequência de qualquer combate direto com ele, vitorioso ou não. Esta é a principal explicação pela constante relutância dos Valar em confronta Morgoth em batalha aberta. A tarefa e problema de Manwë eram muito mais difíceis do que os de Gandalf. O poder de Sauron, relativamente menor, estava concentrado; o vasto poder de Morgoth estava disseminado.  O todo da ‘Terra-média’ era o Anel de Morgoth, embora temporariamente sua atenção estivesse principalmente no Noroeste. A menos que rapidamente bem sucedida, Guerra contra ele poderia muito bem terminar reduzindo toda a Terra-média ao caos, possivelmente mesmo toda Arda. É fácil dizer: ‘Era a tarefa e função do Rei Mais Antigo governar Arda e tornar possível aos Filhos de Eru viveram nela sem serem molestados’. Mas o dilema dos Valar era este:  Arda só poderia ser liberada por uma batalha física; mas um provável resultado de tal batalha seria a irrecuperável ruína de Arda. Além disso, a erradicação final de Sauron (como um poder direcionando o mal) era alcançável pela destruição do Anel. Tal erradicação de Morgoth não era possível, uma vez que isso requereria a completa desintegração da ‘matéria’ de Arda. O poder de Sauron não estava (por exemplo) no ouro propriamente dito, mas em uma forma particular feita de uma porção em particular do total de ouro. O poder de Morgoth foi disseminado através do Ouro, embora não fosse absoluta em qualquer lugar (pois ele não criou o Ouro) também não estava ausente de parte alguma. (Era este elemento-Morgoth na matéria, de fato, o pré-requisito para a tal ‘magia’ e outras malignidades que Sauron pratricava com ele e sobre ele.)

É bastante possível, claro, que certos ‘elementos’ ou condições da matéria tenham atraído a atenção especial de Morgoth (principalmente, exceto no passado remoto, por razões de seus próprios planos). Por exemplo, todo o ouro (na Terra-média) parece ter tido um aspecto especialmente ‘maligno’ – mas não a prata. A água é representada como sento quase inteiramente livre de Morgoth. (Isto, é claro, não significa que qualquer mar, corrente, rio poço ou mesmo repositório de água em particular não pudesse ser envenenada ou maculada – todas as coisas podiam).

(iii)

Os Valar ‘esvaecem’ e se tornam mais impotentes, precisamente na proporção em que a forma e constituição das coisas se tornaram mais definidas e fixas. Quanto maior o Passado, mais precisamente definido o Futuro e menos espaço para mudanças importantes (ação ilimitada, em um plano físico, que não seja destrutiva em propósito). O Passado, uma vez ‘atingido’, se tornava parte da ‘Música encarnada’. Apenas Eru teria permissão ou poderia alterar a ‘Música’. O último grande esforço, deste tipo demiúrgico, feito pelos Valar foi a elevação da cadeira das Pelori à sua grande altura. É possível ver isto como, se não realmente uma má ação, pelo menos uma ação equivocada. Ulmo a desaprovou (4). Ela tinha um bom, e legítimo, objetivo: a preservação incorrupta de ao menos uma parte de Arda. Mas pareceu ter um motivo egoísta ou negligente (ou desesperado) também; pois o esforço para preservar os Elfos incorruptos lá se provou falho se eles fossem deixados livres: muitos haviam recusado ir ao Reino Abençoado, muito haviam se revoltado e o deixaram. Por outro lado, com relação aos Homens, Manwë e todos os Valar sabiam muito bem que eles não poderiam ir a Aman de forma alguma; e a longevidade (co-extensiva com a vida de Arda) dos Valar e Eldar era expressamente não permitida aos Homens. Portanto o ‘Ocultar de Valinor’ chegou perto de imitar a possessividade de Morgoth com uma posssessividade rival, fixando um domínio privado de luz e benção contra um de escuridão e dominação: um palácio e um jardim prazeiroso (5) (bem cercado) contra uma fortaleza e uma masmorra (6).

Esta aparência de indolência egoísta nos Valar na mitologia como contada (embora eu não a tenha explicado ou comentado) eu acredito ser apenas uma ‘aparência’, e uma na qual estamos aptos a acreditar como verdade, uma vez que todos somos afetados em algum grau pela sombra e mentiras de seu Inimigo, o Caluniador. Deve ser lembrado que a ‘mitologia’ é representada como sendo dois palcos afastados de um registro verdadeiro: é beseada inicialmente nos registros e conhecimentos Élficos sobre os Valar e seus próprios negócios com eles; e estes nos alcançaram (fragmentariamente) apenas através de relíquias das tradições Numenorianas (humanas), derivadas dos Eldar, em seus trechos mais antigos, embora mais tarde suplementada por histórias e contos  antropocêntricos (7). Estes, se verdade, chegaram através dos ‘Fiéis’ e seus descendentes na Terra-média, mas não podiam escapar de todos do enegrecimento devido à hostilidade dos Numenorianos rebeldes aos Valar.

Mesmo assim, e baseando nas histórias como recebidas, é possível ver o assunto de outra forma. O fechamento de Valinor contra os rebeldes Noldor (que a deixaram voluntariamente e depois de avisados) era em si mesmo justo. Mas, se ousarmos tentar penetrar na mente do Rei Mais Antigo, atribuindo motivos e procurando falhas, há coisas a lembrar antes de darmos nosso veridicto. Manwë era o espírito de maior sabedoria e prudência em Arda. Ele é representado como tendo maior conhecimento da Música, como um todo, do que o possuído por qualquer um com uma mente finita; e apenas ele de todas as pessoas ou mentes daquele tempo é representado como tendo o poder de recorrer diretamente a e se comunicar com Eru. Ele deve ter entendido com grande clareza o que podemos perceber apenas de relance: que era o modo essencial do processo da ‘história’ em Arda que o mal deveria constantemente surgir, e que dele um novo bem deveria constantemente advir. Um especial aspecto disso é a estranha maneira pela qual os males do Desfigurador, ou seus herdeiros, são transformados em armas contra o mal. Se considerarmos a situação após a fuga de Morgoth e o reestabelecimento de sua fortaleza na Terra-média, veremos que os heróicos Noldor eram a melhor arma possível com a qual manter Morgoth em cheque, virtualmente sob cerco, e de qualquer forma totalmente ocupado, no limite norte da Terra-média, sem o provocá-lo a um fenesi de destruição niilística. E no meio termo, Homens, ou os melhores elementos na Humanidade, se livrando de sua sombra, entraram em contato com um povo que tinha realmente visto e experimentado o Reino Abençoado.

Em sua associação com os beligerantes Eldar os Homens foram elevados à sua máxima estatura alcançável, e pelos dois casamentos a transferência a eles, ou infusão na Humanidade, da mais nobre linhagem-Élfica foi obtida, em prontidão para o ainda distante, mas inevitável, dia nos quais os Elfos iriam ‘esvaecer’.

A última intervenção dos Valar através de força física, terminando com a destruição de Thangorodrim, pode ser vista não como relutante ou mesmo desnecessariamente atrasada, mas cronometrada com precisão. A intervenção veio antes da aniquilação dos Eldar e dos Edain. Morgoth embora localmente triunfante negligenciou a maior parte da Terra-média durante a guerra; e com isso ele foi de fato enfraquecido: em poder e prestígio (ele perdeu e falhou em recuperar uma das Silmarils), e acima de tudo em mente. Ele ficou absorvido em ‘reinar’, e embora fosse um tirano de tamanho ógrico e poder monstruoso, isto foi uma vasta queda mesmo de sua anterior iniquidade de ódio e seu terrível niilismo. Ele caiu a ponto de apreciar ser um rei-tirano com escravos conquistados, e vastos exércitos obedientes (8).

A guerra foi bem sucedida, e a ruína limitada à pequena (embora bela) região de Beleriand. Morgoth foi então de fato feito prisioneiro em forma física (9), e naquela forma tomado como um mero criminoso para Aman e entregue a Namo Mandos como juiz – e executor. Ele foi julgado, e eventualmente levado para fora do Reino Abençoado e executado: isto é, morto como um dos Encarnados. Ficou então claro (embora deva ter sido compreendido antes por Manwe e Namo) que, embora ele tenha ‘disseminado’ seu poder (sua maligna e possessiva e rebelde vontade) longe e amplamente na matéria de Arda, ele perdeu o controle direto disso, e tudo que ‘ele’, enquanto um resto sobrevivente de um ser inteiro,  manteve como ‘si mesmo’ e sob controle era o espírito terrivelmente diminuído e reduzido que habitava seu auto-imposto (mas agora amado) corpo. Quanto este corpo foi destruído ele estava fraco e inteiramente ‘desabrigado’, e àquele tempo  perplexo e ‘desancorado’ como estava. Nós lemos que ele então foi arremessado no Vazio (10). Isto deve significar que ele foi colocado fora do Tempo e Espaço, toalmente fora de Eä; mas se assim o foi então isto implicaria em uma intervenção direta de Eru (com ou sem súplica dos Valar). Isto pode, contudo, se referir inacuradamente * à extrusão ou fuga de seu espírito de Arda.

(* [nota de rodapé ao texto] Uma vez que as mentes dos Homens (e mesmo dos Elfos) eram inclinadas a confundir o ‘Vazio’, enquanto o conceito de Não-ser, fora da Criação ou Eä, com o sentido de vastos espaços dentro de Eä, especialmente aqueles concebidos para se situarem no insular ‘Reino de Arda’ ( o qual nós deveríamos provavelmente chamar o Sistema Solar).)

Em qualquer caso, ao buscar absorver ou melhor infiltrar-se através da ‘matéria’, o que então restava dele não era mais poderoso o suficiente para revestir-se novamente. (Ele ficaria então fixo no desejo de o fazer: não havia ‘arrependimento’ ou possibilidade de: Melkor havia abandonado para sempre todas as ambições ‘espirituais’, e existia quase unicamente como um desejo de possuir e dominar a matéria, e Arda em particular). Ao menos ele não poderia ainda revestir-se. Não precisamos supor que Manwe foi enganado ao supor que isto tenha sido uma guerra para acabar com as guerras, ou mesmo para acabar com Melkor. Melkor não era Sauron. Nós falamos deles como ‘enfraquecido, diminuído, reduzido’; mas isto é em comparação com os grandes Valar. Ele havia sido um ser de imensa potência e vida. Os Elfos certamente mantinham e ensinavam que os fëar ou ‘espíritos’ podiam crescer com vida própria (independentemente do corpo), assim como poderiam ser feridos e curados, ser diminuídos e renovados (11). Poder-se-ia esperar, portanto, que o espírito negro do ‘restante’ de Melkor, eventualmente e após longas eras crescesse novamente, e mesmo (como alguns defendem) recuperar para si alguma parte de seu poder anteriormente dissipado. Ele o faria (mesmo Sauron não poderia) devido à sua relativa grandeza. Ele não se arrependeu, ou finalmente se livrou de sua obsessão, mas mantinha ainda resquícios de sabedoria, de forma que ele ainda poderia buscar seu objetivo indiretamente, e não simplesmente cegamente. Ele descansaria, buscaria curar a si mesmo, se distrairia com outros pensamentos e desejos e aparatos – mas tudo simplesmente para recuperar força suficiente para retornar a atacar os Valar, e à sua antiga obsessão. Enquanto crescesse ele se tornaria, como fora, uma sombra escura, aguardando nos confins de Arda e a desejando.

De qualquer forma a destruição das Thangorodrim e a extrusão de Mekor foi o fim de ‘Morgoth’ como tal, e daquela era (e muitas eras depois). Foi também, portanto, em um sentido o fim da função e tarefa primordiais de Manwe enquanto Rei Mais Antigo, até o Fim. Ele havia sido o Adversário do Inimigo.

É bastantante razoável supor que Manwe soubesse que sem tardar (pois ele via o ‘tempo’) o Domínio dos Homens começaria, e a criação da história então seria transferida a eles: para sua batalha com o Mal arranjos especiais haviam sido feitos! Manwe sabia de Sauron, é claro. Ele havia comandado que Sauron viesse perante ele para julgamento, mas deixou espaço para o arrependimento e a reabilitação final. Sauron recusou e fugiu, escondendo-se. Sauron, contudo, era um problema com o qual os Homens teriam que lidar afinal: a primeiras de muitas concentrações do mal em pontos-de-poder definidos que eles teriam que combater, assim como era também a última daquelas formas ‘mitológicas’ personalizadas (mas não-humanas).

Deve ser notado que a primeira derrota de Sauron foi obtida pelos Numenorianos sozinhos (embora Sauron não foi de fato derrotado pessoalmente; sua ‘catividade’ foi voluntária e um truque). Na primeira derrota e desencarnamento de Sauron na Terra-média (ignoranto o assunto de Lúthien) (12)


Aqui a versão longa em B se interrompe, ao pé da página. Eu forneço agora a conclusão da versão A a partir do ponto onde o texto diverge (ver nota 6), começando com a sentença correspondente a B ‘O último esforço maior, deste tipo demiúrgico, feito pelos Valar… ’


O último esforço maior, deste tipo demiúrgico, feito pelos Valar foi a elevação das Pelori – mas este não foi um ato bom: chegou próximo a imitar Morgoth em sua própria maneira de agir – à parte o elemento de egoísmo em seu objetivo de preservar Aman como uma região abençoada para viver.

Os Valar eram como arquitetos trabalhando com um plano ‘passado’ pelo Governo. Eles se tornaram menos e menos importantes (estruturalmente!) enquanto o plano se tornava mais e mais completo. Mesmo na Primeira Era nós os vemos após incontáveis eras de trabalho já perto do fim de seu tempo de trabalho – não de sabedoria ou conselho. (Quanto mais sábios eles se tornavam menos poder eles tinham para fazer qualquer coisa – exceto por aconselhamento).

De forma similar os Elfos esvaeceram, tendo introduzido ‘arte e ciência’ (13). Homens também irão ‘esvaecer’, caso se prove que é o plano que as coisas deverão continuar, quando eles completarem sua função. Mas mesmo os Elfos tinham a noção de que este não seria o caso: que o fim dos Homens seria de alguma maneira associado com o fim da história, ou como eles chamavam ‘Arda Desfigurada’ (Arda Sahta), e a obtenção da ‘Arda Curada’ (Arda Envinyanta) (14). (Eles não parecem ter sido claros ou precisos – como poderiam ser! – se Arda Evinyanta era um estado permanente, o qual portanto poderia ser aproveitado apenas ‘fora do Tempo’,  como era: examinando o Conto como um todo englobado; ou um estado de benção intacta dentro do Tempo e em um ‘lugar’ que era de alguma forma um descendente linear e histórico de nosso mundo ou ‘Arda Desfigurada’. Ele frequentemente parecem ter querido dizer ambos. ‘Arda Imaculada’ não existia de fato, mas permanecia em pensamento – Arda sem Melkor, ou melhor, sem os efeitos dele ao se tornar maligno; mas esta é a fonte da qual todas as idéias de ordem e perfeição são derivadas. ‘Arda Curada’ é portanto o encerramento do ‘Conto de Arda’ o qual leva em consideração todos os feitos de Melkor, mas que devem, de acordo com a promessa de Iluvatar, serem vistos como bons; e também um estado de reparação e benção além dos ‘círculos do mundo’.) (15)

O Mal é fissíparo. Mas infértil em si mesmo. Melkor não poderia ‘gerar’, ou ter qualquer esposa (embora tenha tentado violar Arien, isto seria para destruí-la e distanciá-la (16), não para gerar uma descendência ígnea). A partir das dissonâncias na Música – isto é, não diretamente de nenhum de seus dois temas (17), de Eru ou de Melkor, mas a partir de sua dissonância de um em relação ao outro – coisas malignas surgiram em Arda, as quais não se originaram de qualquer plano direto ou visão de Melkor: eles não eram ‘seus filhos’; e, portanto, uma vez que todo o mal odeia, o odiava também. A progenitura das coisas estava corrompida.  Então Orcs? Parte da idéia Elfo-Homem dando errado. Em relação aos Orcs, os Eldar acreditavam que Morgoth de fato os ‘gerou’ capturando Homens (e Elfos) no início e ampliando ao máximo quaisquer tendências corruptas que eles possuíssem.


Apesar de seu estado incompleto (seja devido à perda da conclusão da versão completamente desenvolvida do ensaio ou ao seu abandono, ver nota 6) este é o mais completo registro que meu pai escreveu de como, em seus anos tardios, veio a ‘interpretar’ a natureza do Mal em sua mitologia; nunca em nenhum outro lugar ele escreveu tal exposição da natureza de Morgoth, ou seu declínio, e de sua corrupção de Arda, nem explicitou a distinção entre Morgoth e Sauron: ‘o todo da Terra-média era o Anel de Morgoth’.

Situar este ensaio em relação sequencial aos demais escritos ‘filosóficos’ ou ‘teológicos’ fornecidos neste livro [HoME XI] com qualquer grau de certeza parece dificilmente possível, embora Fionwë filho de Manwë (ao invés de Eonwe arauto de Manwe) pode sugerir que ele se situa em um período relativamente antigo com relação a eles. Ele mostra uma semelhança evidente em tom a muitas das cartas de exposição que meu pai escreveu no final dos anos 1950 e de fato parece-me muito possível que a correspondência que se seguiu à publicação de O Senhor dos Anéis tenha tido parte significativa no desenvolvimento desta examinação das ‘imagens e eventos’ da mitologia (18).

NOTAS

1. Ragnarok: ‘o Destino dos Deuses’ (Nórdico Antigo): ver HoME IX

2. hroa: assim escrito aqui e na segunda ocorrência abaixo (e no texto A), não como em outros lugares hröa, onde significa o corpo de um ser encarnado. A palavra usada para ‘matéria física’ no Leis e Costumes era hrón, mais tarde alterada para orma (nota 26); no Comentário sobre o Athrabeth e no ‘Glossário’ de nomes a palavra é erma.

3. Sobre esta sentença ver p. 271

4. Condenação explícita, fortemente expressa aos Valar pelo Ocultar de Valinor é encontrado na história de mesmo nome em O Livro dos Contos Perdidos (HoME I), mas desaparece em versões posteriores. Da história antiga eu registrei (HoME I) que ‘no Silmarillion não há vestígios do tumultuoso conselho, nenhuma sugestão de desacordo entre os Valar, com Manwe, Varda e Ulmo ativamente desaprovando o trabalho e se distanciando dele’, e eu comentei:

É muito curioso observar que a ação dos Valar aqui surge essencialmente da indolência misturada com medo. Em nenhum lugar a concepção inicial de meu pai sobre os indolentes Deuses aparece mais claramente. Ele manteve, contudo, de forma bastante explícita que a falha deles em travar guerra contra Melko àquele tempo e naquele lugar fora um erro profundo, diminuindo a si mesmos, e (assim parece) irreparável. Eu seu escritos posteriores o Ocultar de Valinor de fato permaneceu, mas apenas como um grande fato de mitológica antiguidade; não há nenhum indício de sua condenação.

As últimas palavras se referem à narrativa constante no Silmarillion. A desaprovação de Ulmo agora reaparece, e é uma evidência adicional de seu isolamento nos conselhos dos Valar (ver nota 11); isto é, suas palavras a Tuor em Vinyamar (tendo falado a ele, entre outras coisas, da ‘ocultação do Reino Abençoado’, embora o que ele disse não seja registrado): Portanto, embora nestes dias de escuridão eu pareça me opor à vontade de meus irmãos, os Senhores do Oeste, dos quais faço parte, para o que fui indicado antes da criação do Mundo’ (Contos Inacabados).

5.  No original pleasaunce (=  pleasance):  um ‘jardim prazeiroso’. Meu pai uso a palavra várias vezes em O Livro dos Contos Perdidos, por exemplo com relação aos jardins de Lorien.

6. A este ponto meu pai mais tarde escreveu no manuscrito:  ‘Ver a forma original curta de Esvaecer dos Elfos (e Homens)’. Esta parece uma clara indicação de que B não foi completado, ou que se o foi a conclusão foi perdida logo no princípio.

7. Confira a afirmação sobre este assunto no breve texto I

8. Uma vez que esta discussão é introduzida em justificação para o Ocultar de Valinor, o ponto em que argumento se baseia parece ser que a história da Terra-média nos últimos séculos da Primeira Era não teriam sido possíveis de conclusão se Valinor tivesse continuado aberta ao retorno dos Noldor.

9. Assim, claro, como aconteceu a Melkor muito antes, após o saque a Utumno.

10. Confira na conclusão de QS (HoME V): ‘Mas o próprio Morgoth os Deuses atiraram através da Porta da Noite no Vazio Atemporal, além das Muralhas do Mundo’.

11. O seguinte foi adicionado marginalmente após a página ter sido escrita:

Se eles não mergulharam abaixo de certo nível. Uma vez que nenhum fëa poderia ser aniquilado, reduzido a zero ou à não-existência,  não é claro o que significa. Portanto Sauron é dito ter caído abaixo do ponto de recuperação, embora anteriormente tenha se recuperado. O que provavelmente significa é que um espírito ‘malicioso’ se torna fixado em um certo desejo ou ambição, e se não pode se arrepender então seu desejo se torna virtualmente seu ser como um todo. Mas o desejo pode estar completamente além da fraqueza para onde caiu, e ele será incapaz de retirar sua atenção do desejo inalcançável, mesmo para cuidar de si mesmo. Permanecerá para sempre em impotente desejo ou memória do desejo.

12. Uma referência para a lenda da derrota de Sauron por Luthién e Huan na ilha de Tol-in-Gaurhoth, onde Beren foi aprisionado (O Silmarillion).

13. Confira na Carta #181 (1956): ‘Neste mundo mitológico os Elfos e Homens são parentes, em suas formas encarnadas, mas com relação a seus “espíritos” para o mundo representam diferentes “experimentos”, cada um dos quais com sua própria tendência natual, e fraqueza. os Elfos representam os aspectos artísticos, estéticos e puramente científicos da natureza Humana elevados a um nível mais alto do que o de fato visto nos Homens’.

14. No texto FM2 de ‘Finwe e Miriel’ (HoME XI, nota de rodapé) ‘Arda Desfigurada’ é Arda Hastaina. Arda Envinyanta, em ambas as ocorrências, foi inicialmente escrita Arda Vincarna.

15. Com relação a esta passagem em parenteses confira especialmente  a nota (iii) no final de Leis e Costumes;

16. No original ‘distain’, um antigo verbo significando ‘manchar’, ‘descolorir’, ‘profanar’.

17. Os Três Temas de Iluvatar na Música dos Ainur são aqui tratados como um único tema, em oposição ao ‘tema’ discordante de Melkor.

18. Em uma carta de junho de 1957 (Carta #200) ele escreveu:

Eu lamento que tudoisso pareça monótono e ‘pomposo’. Mas assim o são todas as tentativas de ‘explicar’ as imagens e eventos de uma mitologia. Natuaralmente as histórias surgem primeiro. Mas isto é, suponho, algum teste de consistência de uma mitologia como tal, se é capaz de algum tipo de explicação racional ou racionalizada.

The History of Middle-earth X

Mitos Transformados II

The History of Middle-earth X
E se quase tudo que que você leu no O Silmarillion fosse diferente? É isso que você pode ler abaixo, em um texto de J. R. R. Tolkien datado de 1951 e incluído na seção Mitos Transformados do The History of Middle-earth X . O Sol surge junto com a Terra (e não é fruto das Duas Árvores), Arda se refere a todo o Sistema Solar e há citações sobre os “Filhos de Deus”. Os comentários em itálico e as notas são de Christopher Tolkien.


II

Este é um texto de natureza mais problemática, um manuscrito a tinta que se divide em duas partes, ambas claramente associadas: uma discussão, com propostas para a “regeneração” da mitologia; e uma narrativa abandonada. Nenhuma das duas possui título ou cabeçalho.
A Criação do Sol e da Lua deve ocorrer muito antes da chegada dos Elfos; e não pode acontecer após a morte das Duas Árvores – se isso de alguma forma aconteceu em conexão com a permanência temporária dos Noldor em Valinor. O tempo disponível é curto demais. Tampouco poderiam existir florestas e flores etc. na terra, se não houve luz desde a derrubada das Lâmpadas! (1)

Mas como poderiam, apesar de tudo, os Eldar serem chamados de “Povo da Estrela”?

Uma vez que se supõe que os Eldar são mais sábios e tem um conhecimento mais verdadeiro da história e natureza da Terra do que os Homens (ou os Elfos Selvagens), suas lendas deveriam ter uma relação mais próxima com o conhecimento agora possuído, pelo menos da forma do Sistema Solar (= Reino de Arda) (2); embora ele não precise, é claro, seguir qualquer teoria “científica” de sua criação ou desenvolvimento.

Portanto parece claro que a mitologia cosmogônica deve representar Arda como ela é, mais ou menos: uma ilha no vazio “entre as inumeráveis estrelas”. O Sol deve ser contemporâneo com a Terra, embora seu tamanho relativo não precise ser considerado,  enquanto que a revolução aparente do Sol sobre a terra será aceita. *

(* [nota marginal] É ou seria de qualquer forma um “fato da vida” para qualquer inteligência que escolhesse a Terra como um lugar de vida e trabalho. [Não há indicação de onde isto deveria ir, mas nenhum outro lugar na página parece adequado.])

As Estrelas, portanto, em geral serão partes distintas e mais remotas do Grande Conto de Eä, que não dizem respeito aos Valar de Arda. Contudo, mesmo se não explicitamente, será uma premissa implícita que o Reino de Arda é de importância central, selecionado entre toda a imensurável vastidão de Eä como cenário para o drama principal do conflito de Melkor com Ilúvatar e os Filhos de Eru. Melkor é o supremo espírito de Orgulho e Revolta, não apenas o principal Vala da Terra, que se voltou para o mal (3).

Varda, conseqüentemente, como um dos grandes Valar de Arda, não pode ser dita ter “acendido” as estrelas, como um ato subcriativo original – pelo menos não as estrelas em geral (4).

A História, parece, deve seguir uma linha como esta. A entrada dos Valar em Eä no começo do Tempo. A escolha do Reino de Arda como seu principal local de moradia (? pelos maiores e mais nobres dos Ainur (5), a quem Ilúvatar tinha intenção de encarregar do cuidado do Eruhíni). Manwë e seus companheiros evitam Melkor e começam a ordenação de Arda, mas Melkor procura por eles e afinal encontra Arda (6), e disputa o reinado com Manwë.

Este período irá, grosseiramente, corresponder às supostas épocas primevas antes da Terra se tornar habitável. Um tempo de fogo e cataclismos.  Melkor desordenou o Sol de forma que em certos períodos ele era quente demais, e em outros frio demais. Se isto foi devido ao estado do Sol ou alterações na órbita da Terra, não é necessário ser definido precisamente: ambos são possíveis.

Mas após uma batalha Melkor é expulso da própria Terra. (A Primeira Batalha?).  Ele percebe que pode adentrar apenas com grande secritude. Neste tempo ele começa a se voltar principalmente para o frio e a escuridão. Seu primeiro desejo (e arma) foi fogo e calor. Foi no controle da chama que Tulkas (? originalmente Valar do Sol) o derrotou na Primeira Batalha. Então Melkor vinha principalmente à noite e especialmente ao Norte e no inverno. (Foi após a Primeira Batalha que Varda fixou certas estrelas como sinais ameaçadores para os habitantes de Arda verem).

Para se opor a isto os Valar fizeram a Lua. De matéria terrena ou do Sol? Ela deve ser uma luz subsidiária para mitigar a noite * (como Melkor a havia feito), e também um “veículo de observação e proteção” para circundar o mundo (7). Mas Melkor reuniu no Vazio espíritos de frio etc. e repentinamente a atacou, expulsando o Valar Tirion (8). A Lua ficou, depois disso, por muito tempo sem condutor e sem rumo e foi chamada Rana (neutro) (9).

(* [nota marginal] Mas não para eliminá-la. Era necessário ter uma alternação, “porque em Eä de acordo com o Conto nada pode perdurar eternamente sem cansaço e corrupção”).

[Se Tulkas veio do Sol, então Tulkas foi a forma que este Vala adotou na Terra, sendo em origem Auron (masculino). Mas o Sol é feminino; e é melhor que o Vala seja Áren, uma dama que Melkor pretendeu tornar sua esposa (ou violou) (10); ela se elevou em uma chama de fúria e tormento e seu espírito foi liberado de Eä, mas Melkor foi enegrecido e queimado, e sua forma depois disso foi escura, e ele se associou à escuridão. (O próprio Sol era neutro Anar ou Úr, comparar com Rana, Ithil.)]

O Sol permaneceu um Fogo Solitário, maculado por Melkor, mas após a morte das Duas Árvores Tilion retornou à Lua, que permaneceu portanto um inimigo de Melkor e seus servos e criaturas da noite – e portanto mais tarde amada pelos Elfos etc.

Após a captura da Lua Melkor começou novamente a ser mais corajoso. Ele estabelece moradas permanentes  no Norte, profundamente abaixo da terra. Dessas moradas ele procede à secreta corrupção que perverte os trabalhos dos Valar (especialmente de Aulë e Yavanna).

Os Valar ficam cada vez mais fatigados. Finalmente descobrindo Melkor e onde ele habitava procuram expulsá-lo novamente, mas Utumno se prova forte demais.

Varda preservara um pouco da Luz Primordial (sua principal preocupação original no Grande Conto). As Duas Árvores são criadas. Os Valar fazem seus locais de repouso e moradia em Valinor, no Oeste.

Um dos objetivos das Árvores (como mais tarde das Jóias) era a cura dos ferimentos de Melkor, mas isto poderia facilmente ter um aspecto egoísta: a permanência da história – não indo adiante com o Conto. Este efeito elas tiveram nos Valar. Eles se tornaram mais e mais enamorados de Valinor, e iam para lá mais freqüentemente e ficavam mais tempo. A Terra-média foi deixada com poucos cuidados, e muito pouco protegida contra Melkor.

Ao final dos Dias de Felicidade, os Valar encontraram a mesa virada. Eles foram expulsos da Terra-média por Melkor e seus espíritos malignos e monstros;  e apenas podiam ir para a Terra-média secreta e brevemente (principalmente Oromë e Yavanna).

Este período deve ser breve. Ambos os lados sabem que a chegada dos Filhos de Deus é iminente. Melkor deseja dominá-los imediatamente com medo e escuridão e escravizá-los. Ele escurece o mundo [adicionado na margem: por 7 anos?] eliminando toda a visão do céu tanto quanto pode, e no extremo sul  (é dito) isto não foi efetivo. Desde o extremo Norte (onde [eram] densas) até o meio (Endor) (11) grandes nuvens surgiram. A Lua e as estrelas estão invisíveis. O dia é apenas um pálido crepúsculo quando muito. A única luz [está] em Valinor.

Varda se eleva em poder com Manwë dos Ventos e lutam contra a Nuvem da Não-Visão. Mas tão rápido quanto ela se parte Melkor fecha a cobertura novamente – ao menos sobre a Terra-média. Então vem o Grande Vento de Manwë, e a cobertura é aberta. As estrelas brilham claras mesmo no Norte (Valakirka) e após a longa escuridão parecem terrivelmente brilhantes.

É na escuridão logo antes disso que os Elfos acordam. As primeiras coisas que eles vêem na escuridão são as estrelas. Mas Melkor traz negrumes do Leste e as estrelas desaparecem no oeste. Por isso eles pensaram desde o início da luz e beleza no Oeste.

A Chegada de Oromë.

A Terceira Batalha e o aprisionamento de Melkor. Os Eldar vão para Valinor. As nuvens lentamente se dispersam após a captura de Melkor, embora Utumno ainda as expila. É mais escuro a leste, mais distante do sopro de Manwë.

A Marcha dos Eldar é através de grandes Chuvas?

Homens despertam em uma Ilha em meio às inundações e portanto saúdam o Sol que parece vir do Leste. Apenas quando o mundo está mais seco eles deixam a Ilha e se espalham.

São apenas os Homens que encontraram Elfos e ouvem os rumores sobre o Oeste que vão naquela direção. Pois os Elfos disseram: “Se você se delicia no Sol, deve andar no caminho que ele faz”.

A chegada dos Home portanto seria bem antes (12).

Isto será melhor; pois meros 400 anos são bastante inadequados para produzir a variedade  e os avanços (por exemplo dos Edain) ao tempo de Felagund (13).

Homens devem acordar enquanto Melkor ainda está em Arda? – devido à sua Queda (14). Portanto em algum momento durante a Grande Marcha.


O texto acaba aqui. Agora se segue e a narrativa associada, idêntica em aparência à discussão anterior (ambos estão escritos na mesma caligrafia bastante incomum).

Após os Valar, que antes eram os Ainur da Grande Música, terem entrado em Eä, aqueles que eram os mais nobres entre eles e compreendiam mais a mente de Ilúvatar procuraram em meio as imensuráveis regiões do Início por aquele lugar  onde deveriam estabelecer o Reino de Arda no tempo que viria. E quando eles escolheram aquele ponto e região onde deveria ela deveria existir, começaram os trabalhos que eram necessários. Existiam outros, incontáveis para nosso pensamento mas cada um conhecido e numerado na mente de Ilúvatar, cujos trabalhos ficavam em outros locais e em outras regiões e histórias do Grande Conto, entre estrelas remotas e mundos além do alcance do pensamento mais distante. Mas destes outros não sabemos nada e não podemos saber, embora os Valar de Arda, talvez, lembrem-se de todos eles.

Líder dos Valar de Arda era aquele a quem os Elfos mais tarde chamaram Manwë, o Abençoado: o Rei Mais Antigo, uma vez que ele foi o primeiro de todos os reis em [Arda>] Eä. Irmão dele era Melkor, o poderoso, e ele havia, como fora contado, caído no orgulho e no desejo de seu próprio domínio. Portanto os Valar o evitaram, e começaram a construção e ordenamento de Arda sem ele. Por essa razão é dito que apesar de agora existir grande mal em Arda e muitas coisas dentro dela estarem em discórdia, de forma que o bem para um parece ser o mal para outro, as fundações deste mundo são boas, e se voltam naturalmente para o bem, curando a si mesma com o poder que foi colocada nela em sua criação; e o mal em Arda falharia e desapareceria se não fosse renovado de fora: isto é : aquele que vem de vontades e ser [sic] outros que não a própria Arda.

E como é bem sabido, o primeiro dentre estes é Melkor. Apesar de serem imensuráveis as regiões de Eä, ainda assim no Início, quando ele poderia ter sido Mestre de tudo que fora feito – pois muitos dos Ainur da Música estavam dispostos a segui-lo e servi-lo, se ele os chamasse – mesmo assim ele não estava satisfeito. E ele procurou por Arda e Manwë, seu irmão, desejando seu reinado, embora pequeno ele pudesse parecer ao seu desejo e ao seu poder; pois ele sabia que àquele reino Ilúvatar designou a maior realeza em Eä, e sob o reino daquele trono surgiriam os Filhos de Deus. E em seu pensamento ele se enganava, pois o mentiroso deve mentir para si mesmo, ele acreditava que sobre os Filhos ele deveria ter poder absoluto e ser deles o único senhor e mestre, de maneira como ele não poderia ser para espíritos de sua própria estirpe, mesmo os subservientes a ele. Pois eles sabiam que o Um É, e devem aquiescer com a rebelião de Melkor por sua própria escolha; enquanto que ele planejava esconder dos Filhos este conhecimento e ser para sempre uma sombra entre eles e a luz.

Melkor não concebia a si mesmo como uma sombra. Pois em seu início ele amava e desejava a luz, e a forma que ele assumiu era excessivamente brilhante; e ele disse em seu coração: “Em tal brilho como o que eu sou os Filhos dificilmente suportarão olhar; portanto o conhecimento de algo mais ou além ou mesmo forçar suas pequenas menter a entender isso não seria bom para deles”. Mas o brilho menor que fica perto de um maior se torna uma escuridão. E Melkor estava ciumento, portanto, de todos os outros brilhos, e desejava tomar toda a luz em si mesmo. Por isso Ilúvatar, na entrada dos Valar em Eä, adicionou um tema à Grande Música que não estava no primeiro Cantar, e chamou um dos Ainur a ele. Este era o Espírito que mais tarde se tornou Varda (e tomando forma feminina veio a ser a esposa de Manwë). A Varda Ilúvatar disse: “Eu te darei um presente de despedida. Deverás levar a Eä uma luz que é sagrada, vindo nova de Mim, não maculada pelo pensamento e desejo de Melkor, e contigo ela deverá entrar em Eä, e ser em Eä, mas não de Eä”. Por esta razão Varda é o mais sagrado e mais reverenciado de todos os Valar, e aqueles que dizem o nome da a luz de Varda dão nome ao amor que Eru tem por Eä, e ficam temerosos, menos apenas do que de nomear o Um. Apesar de tudo este presente de Ilúvatar aos Valar tem seu próprio perigo, assim como todos os seu presentes gratuitos: que no final nada mais é do que dizer que eles têm uma parte no Grande Conto, de forma que este possa ser completo; pois sendo sem perigo eles seriam também sem poder e o ato de dar seria vazio.

Quando então finalmente Melkor descobriu a morada de Manwë e seus amigos e foi para lá com grande rapidez, como um fogo ardente. E vendo que grandes trabalhos já haviam sido realizados em o seu conselho, ele se enfureceu, e desejou desfazer tudo que fora feito ou alterar de acordo com sua própria mente.

Mas isto Manwë não iria permitir, e portanto houve guerra em Arda.  Mas, como está escrito em outro lugar, àquele tempo Melkor foi derrotado com a ajuda de Tulkas (que não estava entre aqueles que começaram a construção de Eä) e foi expulso novamente para o Vazio que circunda Arda. Esta foi chamada a Primeira Batalha; e embora Manwë tenha a vitória, grande dano foi feito ao trabalho dos Valar; e o pior dos feitos da fúria de Melkor podia ser visto no Sol. O Sol foi feito para ser o coração de Arda, e os Valar tinham o propósito de que ele deveria dar luz a todo aquele Reino, incessantemente e sem cansaço ou diminuição, e que de sua luz o mundo deveria receber bem estar e vida e crescimento. Por isso Varda colocou lá o mais ardente e belo de todos aqueles espíritos que haviam entrado com ela em Eä, e que era chamada Ar(i) (15), e Varda deixou sob seus cuidados uma porção do presente de Ilúvatar de forma que o Sol pudesse ser permanente e ser abençoado e dar bênçãos. O Sol, os mestres de conhecimento nos dizem, era no princípio chamado As (que pode ser interpretado da melhor forma possível como Calor, ao qual são assemelhados Luz e Conforto), e que o espírito portanto foi chamado Azië (ou mais tarde Arië).

Mas Melkor, como já foi dito, ansiava por toda a luz, desejando-a ciumentamente para si mesmo. Além disso ele logo percebeu que em As havia uma luz que havia sido oculta dele, a qual tinha um poder, e sobre o qual ele não havia pensado. Portanto, imediatamente cheio de desejo e ira, ele foi até Âs [escrito acima: Asa], e falou a Árië, dizendo: “Eu te escolhi, e deverás ser minha esposa, assim como Varda é para Manwë, e juntos iremos empunhar todo o poder e comando. Então o reino de Arda será meu de fato como de direito, e serás a parceira em minha glória”.

Mas Árië rejeitou Melkor e o refutou, dizendo: “Não fales de direito, coisa que há muito esquecestes. Nem para ti nem apenas por ti Eä foi feita; e não serás Rei de Arda. Cuidado, portanto; pois há no coração de As uma luz na qual não tens parte, e um fogo que não te servirás. Não ponhas tua mão nele. Pois embora teu poder possa destruí-lo, ele irá te queimar e teu brilho será transformado em escuridão”.

Melkor não deu ouvidos ao alerta dela, e falou em sua fúria: “O presente que é negado eu tomo!” e ele violentou Árië, desejando tanto humilhá-la quanto tomar para si os poderes dela. Então o espírito de Árië se elevou como uma chama de tormento e fúria, e partiu para sempre de Arda*, e o Sol foi destituído da Luz de Varda, e foi manchado pelo ataque de Melkor. E ficando por longo tempo sem comando ele queimava com calor excessivo ou ficava frio demais, tão sério era o dano feito a Arda e a forma do mundo foi desfigurada e atrasada, até que com grande esforço os Valar estabeleceram uma nova ordem+. Mas assim como Arie previu, Melkor foi queimado e seu brilho escureceu, e ele não brilhava mais, e a luz doía excessivamente nele, e ele a odiava.

Apesar de tudo Melkor não deixaria Arda em paz; e acima de tudo ele invejava aos Valar suas moradas na Terra, e desejava ferir seus trabalhos lá, ou transformá-los em nada, se pudesse. Portanto ele retornou para a Terra, mas por medo do poder dos Valar e de Tulkas acima de tudo ele, desta vez chegou em segredo. E em seu ódio do Sol ele foi para o Norte à noite no inverno. Inicialmente ele partia quando o longo dia do verão chegava; mas após algum tempo, se tornando corajoso novamente, e desejando um local de moradia seu, ele começou a escavação subterrânea de sua grande fortaleza no extremo Norte, que mais tarde foi chamada Utumno (ou Udun).

(* [nota marginal] De fato alguns dizem que ela foi liberta de Eä.)
(+ [nota marginal] Também alguns dos Sábios disseram que a ordenação de Arda, no que se refere ao local e curso de suas partes, foi desorganizada por Melkor, de forma que a Terra algumas vezes chegava perto demais do Sol, e em outras ficava distante demais.)

Então os Valar, quando ficaram cientes através dos sinais malignos que foram vistos sobre a Terra de que Melkor secretamente retornara, procuram por ele em vão, embora Tulcas e Oromë tenham vagado por toda a Terra-média até o extremo Leste. Quando eles perceberam que Melkor agora usava a escuridão e a noite para seus propósitos, assim como ele anteriormente empunhava a chama, eles se entristeceram,  pois era parte de seu planejamento que deveria haver mudanças e alterações na Terra, sem dia perpétuo nem noite sem fim *. Pois através da Noite os Filhos de Arda deverão conhecer o Dia, e descobrir e amar a Luz; e mesmo a Noite deveria a seu próprio modo ser boa e abençoada, sendo um tempo de repouso, e de introspecção, e também uma visão de coisas elevadas e belas que estão além de Arda, mas são ocultas pelo esplendor de Anar. Mas Melkor a transformaria em um tempo de perigos invisíveis, de medo sem forma, uma vigília insegura; ou um sonho assombrado, levando através desespero à sombra da Morte.

(* [nota de rodapé ao texto] Pois isto era demandado pela natureza de Eä e a Grande História de que nada pudesse permanecer imutável no tempo, e coisas que o fizessem, ou parecessem fazê-lo, ou buscassem fazê-lo, se tornariam um cansaço, e não seriam mais amadas (ou, no melhor caso, negligenciadas).)

Por isso Manwë se aconselhou com Varda, e eles chamaram o auxílio de Aulë. E eles resolveram alterar o comportamento de Arda e da Terra, e em seus pensamentos eles conceberam Ithil, a Lua.  De que forma e com quais esforços eles criaram este grande artefato de seus pensamentos, quem poderá dizer: pois quais dentre os Filhos viram os Valar no ápice de seus poderes ou ouviu seus conselhos na flor de suas juventudes? Quem observou seus esforços enquanto trabalhavam, quem viu a novidade do novo?

Alguns dizem que foi da própria Terra (16) que Isil foi feita, e assim Ambar (17) foi diminuída; outros dizem que a Lua foi feita de coisas iguais à da Terra e das quais é feita a própria Eä no Conto (18).

Agora quanto a Luz estava totalmente completa ela foi colocada acima de Ambar, e direcionada para ir sempre ao redor e retornar, trazendo luz a locais escuros dos quais o Sol partira. Mas era uma luz menor, de forma que o luar não era o mesmo que a luz do sol, e mesmo assim havia mudança de luz sobre a Terra; além disso continuava também a noite sob as estrelas, pois a Lua e o Sol em certos tempos estavam ambos ausentes.

Pelo menos é isto que veio a ser pela profecia dita por Ilúvatar….. o mal de Melkor deveria em sua própria malícia trazer coisas mais belas do que o planejado por ele… Pois alguns afirmam que a Lua estava inicialmente em chamas, mas foi mais tarde tornada [?forte] e vida..: mais tarde, mas enquanto Arda estava sem direção e continuava nos tumultos de Melkor.

Tal é conhecido dos Sábios, que Tilion – [sic] e que Melkor se encheu de uma nova fúria com o nascer da Lua. Portanto por algum tempo ele novamente deixou Ambar e foi para a Noite Exterior, e reuniu para si alguns daqueles espíritos que responderam seu chamado.


Uma página de notas rápidas e disconexas obviamente precedeu este texto, mas deve pertencer mais ou menos ao mesmo tempo: idéias encontradas na discussão e sinopse precedendo a narrativa também são encontradas aqui, tais como “grande escuridão de sombra” criada por Melkor que obstruiu o Sol. Nestas notas continuava perguntando a si mesmo se ele deveria “manter o antiga história mitológica da criação do Sol e da Lua, ou alterar o pano de fundo para uma versão ‘terra redonda'”, e observando que neste caso a Lua seria um trabalho de Melkor para propiciar um ‘refúgio seguro’ – dessa forma retornando à idéia da origem da Lua encontrada anos antes no texto C* do Ainulindalë ($31). Dúvidas e ausência de uma direção certa estão fortemente presentes, enquanto ele lutava com os intratáveis problemas colocados pela presença no Sol nocéu sob o qual os Elfos acordaram, e que estava iluminado apenas pelas estrelas (19).

Há certas características no atual texto que claramente o associam com o Comentário sobre o
Athrabeth (ver notas 2 e 3 abaixo), entre eles o uso do nome Arda para significar o Sistema Solar; mas enquanto que a Terra é chamada de Imbar nos Comentários ela tem aqui o nome mais antigo de Ambar (ver nota 17). Não há dúvidas, acho eu, que o presente texto é o mais antigo dos dois. Por outro lado, nenhuma outra apresentação mais completa ou finalizada das novas concepções em geral, a “nova mitologia”, existe; parece razoável que enquanto estava comprometido em mente com o abandono do antigo mito da origem do Sol e da Lua meu pai deixou em suspenso a formulação e expressão do novo. Pode ser que, embora eu não tenha evidência sobre a questão para um ou outro lado, que ele tenha vindo a perceber a partir de tal escrita experimental como este texto que a antiga estrutura era por demais compreensiva, por demais interconectada em todas as suas partes, de fato suas raízes profundas demais, para suportar tal cirurgia devastadora.


NOTAS


1.
No AAm $15 “aconteceu um grande crescimento de árvores e ervas, e bestas e pássaros vieram” à luz das Lâmpadas: aquela foi a Primavera de Arda. Mas depois da destruição das Lâmpadas Yavanna “adormeceu muitas coisas belas que surgiram durante a Primavera, tanto árvore e erva e besta e pássaro, de forma que não envelheceriam mais e aguardariam por um tempo de acordar que ainda estava por vir” ($30).


2.
Sobre o conhecimento astronômico ser presumido entre os Alto-elfos veja Nota 2 do Comentário sobre o Athrabeth - onde, como aqui, Arda é igualada ao Sistema Solar – e o Texto I do Mitos Transformados.


3.
A idéia deste parágrafo é paralelada na Nota 2 do Comentário sobre o Athrabeth, e a sentença final é bastante similar ao que é dito no próprio Comentário (“Melkor não era apenas um Mal local na Terra…”).


4.
No AAm $24 é dito que após a Queda das Lâmpadas a “Terra-média ficou num crepúsculo sob as estrelas que Varda fizera nas eras esquecidas de seus trabalhos em Eä”, e em $34 Varda olho de cima de Taniquetil e “contemplou a escuridão da Terra sob as estrelas inumeráveis, fracas e distantes”, antes de começar a fazer estrelas novas e mais brilhantes; desta forma também é no Quenta Silmarillion ($19): “Então Varda fez novas estrelas e mais brilhantes devido à chegada dos Primogênitos. E por esta razão ele cujo nome vindo das profundezas do tempo e dos trabalhos de Eä era Tintalle, a Acendedora, que mais tarde foi chamada pelos Elfos Elentári, a Rainha das Estrelas”. Mas se ela talvez ainda pudesse ser chamada Elentári, ela não mais poderia ser chamada Tintalle (contudo, ver nota 3).

Na edição posterior do texto final D do Ainulindalë ($36) as palavras relativas a Varda “ela foi quem construiu as Estrelas” foi alterado para “ela foi quem construiu as Grandes Estrelas”; é possível que isso tenha sido feito à luz das idéias apresentadas aqui.


5.
Compare a Nota 2 de Comentário sobre o Athrabeth, com a  note 13 e com este trecho.


6.
Isto é, claro, bastante diferente da forma da lenda no Ainulindalë ($23): “Mas Melkor, também, estava lá desde o início, e ele interferiu em tudo que foi feito”; enquanto que no texto C* Melkor entrou em Arda antes dos demais Ainur.


7.
A lenda em no Ainulindalë C* de que o próprio Melkor fez a Luz de forma que ele “pudesse observar de lá tudo que acontecesse embaixo” ($31) foi abandonada.


8.
No AAm ($172) e no QS ($75) Tilion não era um Vala, mas “um jovem caçador da companhia de Oromë”. Em AAm $179 aparece a história de que Morgoth atacou Tilion, “enviando espíritos de sombra contra ele”, mas sem sucesso.


9.
Sobre os nomes do Sol e da Lua ver QS $75 e o comentário (HoME V) e a revisão posterior daquele trecho; e também AAm $171 e comentário.


10.
No AAm ($179) é dito que “Arien Morgoth temia com grande medo, e não ousava se aproximar dela”.


11.
Sobre o nome Endor ver AAm $38.


12.
Ver Athrabeth Finrod ah Andreth, nota 16.


13.
“ao tempo de Felagund”: isto é, ao tempo em que Finrod Felagund encontrou os Homens, o primeiro dos Alto-elfos a fazê-lo.


14.
“Homens devem acordar enquanto Melkor ainda está em Arda?”: “Arda” deve ser um erro para “Terra-média” (isto é, ante de seu aprisionamento em Aman).


15.
Um s a lápis está sobre o r de Ar(i).


16.
Acima de Terra meu pai escreveu Ambar, então o riscou, e escreveu “Mar = Casa”. Veja a próxima nota.


17.
Na Nota 2 do Comentário sobre o Athrabeth (e veja nota 12 daquele trecho) aparece Imbar, traduzido “a Habitação”, =Terra, “a principal parte de Arda” (= o Sistema Solar).


18.
A partir deste ponto o manuscrito se torna bastante irregular, ilegível em alguns locais, e logo se encerra.


19.
Em outras notas rápidas (escritas ao mesmo tempo em que o texto II e constituindo uma parte do manuscrito) meu pai escreveu que Varda deu a luz sagrada recebida como um presente de Ilúvatar não apenas ao Sol e às Duas Árvores mas também para a “importante Estrela”. O significadodisso nãoé explicado em parte alguma. Abaixo disso ele escreveu Signifer e muitos nomes Élficos experimentais, como Taengyl, Tengyl, Tannacoli ou Tankol, Tainacolli; e também uma raiz verbal tana “mostrar, indicar”; tanna “sinal”; e kolla “usar, vestir, especialmente uma vestimenta ou capa”, com a nota “Sindikoll-o é masculinizado”.

Textos de Apoio
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Mitos Transformados X – Orcs

The History of Middle-earth 10

Forneço aqui ((Christopher Tolkien escrevendo em primeira pessoa)) um texto de um tipo completamente diferente, um ensaio praticamente finalizado sobre a origem dos Orcs (( Este é o terceiro dos três artigos (numerados de VIII a X) sobre Orcs contidos no Mitos Transformados do The History of Middle-earth X e que a Valinor tem a honra de publicar. Os dois anteriores podem ser vistos em VIII e IX. )). É necessário explicar algo sobre as relações deste texto.

 

Existe um trabalho maior, o qual eu espero publicar no The History of Middle-earth, chamado Essekenta Eldarinwa ou Quendi e Eldar. Ele existe em uma boa cópia datilografada feita por meu pai em sua última máquina de datilografia, tanto a cópia principal quanto a cópia em carbono; e é precedido em ambas as cópias por uma página manuscrita descrevendo o conteúdo do trabalho:Questionamento sobre as origens dos nomes Élficos para os Elfos e seus variados clãs e divisões: com Apêndices sobre seus nomes por outros Encarnados: Homens, Anões e Orcs; e sobre a análise de sua própria língua, Quenya: com uma nota sobre a “Língua dos Valar”.Contando com os apêndices, Quendi e Eldar ocupa perto de cinqüenta páginas datilografadas, e sendo um trabalho altamente finalizado e lúcido do maior interesse.A uma das páginas de rosto meu pai acrescentou o seguinte:Ao qual está acrescentado um resumo do Ósanwë-kenta ou “Comunicação de Pensamento” que Pengolodh colocou ao final de seu Lammas ou “Registro das Línguas”Este é um trabalho em separado ocupando oito páginas datilografadas, paginadas separadamente, mas encontrado junto com ambas as cópias de Quendi e Eldar. Em adição, e não citado nas páginas de rosto, existe ainda outro texto datilografado de quatro páginas (também encontrada com ambas as cópias de Quendi e Eldar) intitulado Orcs; e este é o texto fornecido aqui.Todos os três elementos são idênticos em aparência geral, mas Orcs fica à parte dos demais, não tendo nenhuma relação lingüística; e em vista disso eu pensei que seria legítimo resumi-lo e imprimi-lo neste livro junto com as outras discussões sobre a origem dos Orcs dadas como os textos VIII e IX.Para datar este grupo de textos, uma das cópias está preservada em um jornal dobrado de Março de 1960. Neste meu pai escreveu: “’Quendi e Eldar’ com Apêndices”, e abaixo há uma breve lista dos Apêndices, todos os itens escritos à mesma época, e incluem tanto o Ósanwë quanto Origem dos Orcs (o mesmo é verdade com relação à capa da outra cópia do grupo de textos Quendi e Eldar). Todo o material, portanto já existia quando o jornal foi utilizado para este propósito, e embora, como em outros casos similares, não forneça um terminus ad quem perfeitamente certo, não há razão para duvidar que ele pertença a 1959 – 60.O Apêndice C de Quendi e Eldar, “Nomes Élficos para os Orcs”, é primariamente relacionado com etimologia, mas inicia-se com o seguinte trecho:

Não é aqui o lugar para debater a questão da origem dos Orcs. Eles foram engendrados por Melkor, seu engendramento era o mais maligno e lamentável de seus trabalhos em Arda, mas não o mais terrível. Pois claramente eles, em sua malícia, representariam um escárnio aos Filhos de Ilúvatar, mas completamente subservientes à sua vontade, e criados com um implacável ódio a Elfos e Homens.

Os Orcs das guerras tardias, após a fuga de Melkor-Morgoth e seu retorno à Terra-média, não eram nem espíritos nem fantasmas, mas criaturas vivas, capazes de falar e de algumas habilidades e organização, ou pelo menos capazes de aprender tais coisas de criaturas superiores ou de seu Mestre. Eles procriavam e se multiplicavam rapidamente sempre que deixados imperturbados. É improvável, como uma consideração da origem última desta raça deixará claro, que os Quendi tenham encontrado quaisquer Orcs deste tipo, antes de serem encontrados por Oromë e da separação entre Eldar e Avari.

Mas é sabido que Melkor tornara-se ciente dos Quendi antes dos Valar terem começado sua guerra contra ele, e a felicidade dos Elfos na Terra-média já havia sido escurecida pelas sombras do medo. Formas terríveis começaram a assombrar os limites de suas moradias, e alguns de seu povo desapareceram na escuridão e deles não se ouviu mais nada. Algumas dessas coisas podem ter sido fantasmas e ilusões, mas algumas eram, sem dúvida, formas assumidas pelos servos de Melkor, escarneando e degradando as próprias formas dos Filhos. Pois Melkor tinha a seu serviço um grande número de Maiar, que tinham o poder, assim como seu Mestre, de tomar forma visível e tangível em Arda.

Sem dúvida meu pai foi levado por suas próprias palavras “É improvável, como uma consideração da origem última desta raça deixará claro, que os Quendi tenham encontrado quaisquer Orcs deste tipo, antes de serem encontrados por Oromë” e escrever aquela “consideração”, que segue abaixo. Será visto que uma passagem desta afirmação inicial foi re-utilizada.

 


Orcs ((a partir deste ponto, o texto é do próprio J. R. R. Tolkien))

A origem dos Orcs é um assunto de discussões. Alguns os chamaram de Melkorohíni, os Filhos de Melkor; mas os mais sábios dizem: não, os escravos de Melkor, mas não seus filhos; pois Melkor não tinha filhos (( E uma cópia do texto meu pai escreveu a lápis ao lado desta sentença os nomes Eruseni, Melkorseni. )). Contudo, foi pela malícia de Melkor que os Orcs surgiram, e claramente eles representariam um escárnio aos Filhos de Ilúvatar, sendo gerados para ser completamente subservientes à sua vontade e cheios de um implacável ódio a Elfos e Homens.Os Orcs das guerras tardias, após a fuga de Melkor-Morgoth e seu retorno à Terra-média, não eram nem espíritos nem fantasmas, mas criaturas vivas, capazes de falar e de algumas habilidades e organização, ou pelo menos capazes de aprender tais coisas de criaturas superiores ou de seu Mestre. Eles procriavam e se multiplicavam rapidamente sempre que deixados imperturbados. Tanto quanto pode ser vislumbrado a partir das lendas que chegaram até nós de nossos dias mais antigos (( ‘lendas que chegaram até nós de nossos dias mais antigos'; isto tinha a intenção de ser um texto Élfico. Sauron é citado subseqüentemente como estando no passado; mas na última sentença do ensaio os Orcs são uma praga que ainda aflige o mundo )), parece que os Quendi ainda não haviam encontrado nenhum Orc deste tipo antes da chegada de Oromë a Cuiviénen.Aqueles que acreditam que os Orcs foram gerados a partir de alguma raça de Homens, capturados e pervertidos por Melkor, afirmam que seria impossível para os Quendi ter conhecimento dos Orcs antes da Separação e da partida dos Eldar. Pois, embora o tempo do acordar dos Homens não ser conhecido, mesmo os cálculos dos mestres de conhecimento que o colocam mais cedo não dão a ele uma data muito anterior ao início da Grande Marcha (( O tempo do Acordar dos Homens é agora colocado bem para trás; compare com o texto II, A Marcha dos Eldar atravessa grandes Chuvas? Homens despertam em uma ilha em meio à enchente'; ‘A chegada dos Homens será, portanto, muito anterior'; ‘Homens devem acordar enquanto Melkor ainda está [na Terra-média] – por causa de sua Queda. Portanto em algum período durante a Grande Marcha’. Na cronologia dos Anais de Aman e Anais Cinzentos a Grande Marcha começa no Ano das Árvores 1105, e as companhias mais avançadas de Elfos chegaram ao litoral do Mar em 1125; Homens acordaram em Hildorien no ano do primeiro nascer do Sol, que foi no Ano das Árvores 1500. Portanto, se o Acordar dos Homens está colocado mesmo na parte final do período da Grande Marcha dos Eldar ele terá sido trazido mais de 3500 Anos do Sol para trás. )), certamente não suficiente antes dela de forma a permitir a corrupção de Homens em Orcs. Por outro lado, é claro que logo após seu retorno Morgoth tinha a seu comando um grande número dessas criaturas, com as quais ele sem demora começou a atacar os Elfos.  Houve ainda menos tempo entre seu retorno e esses ataques para a geração dos Orcs e para a transferência de suas hordas para o oeste.Esta visão das origens dos Orcs, portanto, encontra dificuldades de cronologia. Mas embora Homens possam se confortar com isso, a teoria ainda permanece como a mais provável.

Ela está de acordo com tudo que é conhecido de Melkor, e da natureza e comportamento dos Orcs – e dos Homens. Melkor era impotente para produzir qualquer coisa viva, mas habilidoso na corrupção de coisas que não procediam de si mesmo, se ele pudesse dominá-las. Mas se ele de fato tivesse tentado fazer criaturas de si mesmo em imitação ou escárnio dos Encarnados, ele teria, como Aule, tido sucesso em produzir apenas títeres: suas criaturas agiriam apenas enquanto a atenção de sua vontade estivesse sobre elas, e elas não mostrariam nenhuma relutância em executar qualquer comando dele, mesmo se fosse para destruírem a si mesmas.Mas os Orcs não eram desse tipo. Eles certamente eram dominados por seu Mestre, mas seu domínio era pelo medo, e eles estavam cientes desse medo e o odiavam. Eles eram, de fato, tão corrompidos que eram impiedosos, e não havia crueldade ou vileza que eles não cometeriam; mas esta era a corrupção de vontades independentes, e eles tinha  prazer em seus feitos. Eles eram capazes de agir por si mesmos, realizando feitos malignos para seu próprio divertimento, sem terem sido ordenados; ou se Morgoth ou seus agentes estivesse longe, eles poderiam negligenciar seus comandos. Eles algumas vezes lutavam [> Eles odiavam uns aos outros e freqüentemente lutavam] entre eles mesmos, em detrimento dos planos de Morgoth.Além disso, os Orcs continuavam a viver e se reproduzir e a continuar com seus próprios atos destrutivos e saques após Morgoth ter sido derrubado. Eles possuíam também outras características dos Encarnados. Eles tinham idiomas próprios, e falavam entre eles em várias línguas de acordo com as diferenças de linhagem que eram dicerníveis entre eles. Eles precisavam de comida e bebida, e descanso, embora muitos fossem, por treinamento, tão resistentes quando os Anões em resistir a interpéries. Eles poderiam ser mortos, e estavam sujeitos a doenças; mas mesmo sem doenças eles morriam e não eram imortais, nem mesmo de acordo com as maneiras dos Quendi; de fato eles parecem naturalmente ter vidas curtas comparadas com Homens de raça superior, como os Edain.Este último ponto não era bem compreendido nos Dias Antigos. Pois Morgoth tinha muitos servos, dos quais os mais antigos e mais poderosos eram imortais, pertencendo aos Maiar, inicialmente; e estes espíritos malignos, assim como seu Mestre, podiam assumir formas visíveis. Aqueles cujas responsabilidades eram comandar os Orcs freqüentemente assumiam formas Órquicas, embora fossem maiores e mais terríveis ((  Confira com o texto IX: ‘Mas sempre entre eles [Orcs] (como servidores especiais e espiões de Melkor, e como líderes) devem ter existido numerosos espíritos menores corrompidos que assumiram formas corpóreas similares; e também o texto VIII. )). Por isso que as histórias contam de Grandes Orcs ou capitães-Orc que nunca eram mortos, e que reapareciam em batalhas através de períodos muito maiores do que a duração das vidas dos Homens (( A nota de rodapé neste ponto, iniciando com ‘Boldog, por exemplo, é um nome que ocorre muitas vezes nos contos da Guerra’ e ‘é possível que não seja um nome pessoal’, é curiosa. Boldog aparece inúmeras vezes na Balada de Leithian como o nome do capitão-Orc que lidera um ataque a Doriath (referência no Índice para As Baladas de Beleriand); ele reaparece no Quenta (HoME IV), mas não é mencionado depois. Eu não conheço nenhuma outra referência a um Orc chamado Boldog. )). ((* [nota de rodapé ao texto] Boldog, por exemplo, é um nome que ocorre muitas vezes nos contos da Guerra. Mas é possível que Boldog não seja um nome pessoal e sim um título ou mesmo o nome de um tipo de criatura: os Maiar em forma de Orc, apenas menos formidáveis do que os Balrogs)) 

E finalmente, há um ponto relevante, embora horrível de se relatar. Com o tempo ficou claro que os Homens poderiam, sob a dominação de Morgoth ou de seus agentes, em algumas poucas gerações ser reduzidos quase a um nível Órquico em mente e hábitos; e então eles iriam ou poderiam ser induzidos a cruzar com Orcs, produzindo novas linhagens, freqüentemente maiores e mais espertos. Não há dúvida de que muito mais tarde, na Terceira Era, Saruman redescobriu isto, ou aprendeu sobre isso no conhecimento passado, e em seu desejo por comando ele o cometeu, eu feito mais vil: o intercruzamento de Orcs e Homens, produzindo tanto Homens-orc grandes e espertos quanto Orcs-homens traiçoeiros e vis.

Mas mesmo antes de existirem suspeitas quanto a esta maldade de Morgoth os Sábios dos Dias ensinavam que os Orcs não foram ‘feitos’ por Morgoth, e, portanto, não eram originalmente malignos. Eles podem ter se tornado irredimíveis (ao menos para Elfos e Homens), mas eles permaneciam dentro da Lei. Ou seja, embora por necessidade, sendo os dedos da mão de Morgoth, eles devessem sem combatidos com a máxima severidade, eles não poderiam ser lidados nos próprios termos de crueldade e traição. Cativos não deveriam ser torturados, nem mesmo para descobri informação para a defesa das casas dos Elfos e Homens. E se qualquer Orc se rendesse e pedisse misericórdia, isso lhe deveria sem concedido, mesmo a um custo. ((  [nota de rodapé ao texto] Poucos Orcs o fizeram nos Dias Antigos, e em qualquer época nenhum Orc trataria com um Elfo. Pois uma coisa que Morgoth conseguira fora convencer os Orcs além de refutação que os Elfos era mais cruéis que eles mesmos, fazendo prisioneiros apenas para ‘divertimento’ ou para comê-los (como os Orcs faziam, em caso de necessidade)  )) Este era o ensinamento dos Sábios, embora no horror da Guerra ele nem sempre fosse seguido.

É verdade, claro, que Morgoth mantinha os Orcs em selvagem servidão; pois em suas corrupções eles tinham perdido quase toda a possibilidade de resistir à dominação de suas vontades. Tão grande, de fato, esta pressão sobre eles se tornou antes da queda de Angband que, se ele colocasse seu pensamento em direção a eles, eles estariam conscientes de seu ‘olho’ seja lá onde estivesse; e quando Morgoth foi finalmente removido de Arda os Orcs que sobreviveram no Oeste se espalharam, sem líder e quase sem juízo, e estiveram por um longo tempo sem controle ou propósito.

Esta servidão a uma vontade central que quase reduziu os Orcs a uma vida parecida com a de formigas foi vista ainda mais claramente na Segunda e Terceira Era sob a tirania de Sauron, segundo-em-comando de Morgoth. Na verdade Sauron conseguiu um controle ainda maior sobre seus Orcs do que Morgoth conseguira. Ele estava, claro, operando em um escala menor, e ele não tinha inimigos tão grandes e tão sinistros quanto os Noldor em ápice nos Dias Antigos. Mas ele também tinha herdado daqueles dias  algumas dificuldades, como a diversidade de linhagens e línguas dos Orcs, e a disputas entre eles;e em muitos lugares da Terra-média, após a queda de Thangorodrim e durante o tempo de ocultamento de Sauron, os Orcs, recuperando-se de sua impotência, estabeleceram pequenos reinos próprios e se tornaram acostumados à independência. Apesar disso Sauron conseguiu uni-los todos em um ódio sem limites a Elfos e a Homens que se unissem a eles; e os Orcs de seus próprios exércitos treinados estavam tão completamente sobre sua vontade que se sacrificariam sem hesitação a seu comando.* E ele também se provou ainda mais habilidoso do que seu Mestre na corrupção de Homens que estavam além do alcance dos Sábios, e em reduzi-los à vassalagem, na qual eles marchariam com os Orcs, e competiriam com eles em crueldade e destruição.

É, portanto, provavelmente a Sauron que devemos olhar em busca da solução do problema de cronologia. Embora imensamente menor em poder nativo do que seu Mestre, ele permaneceu menos corrupto, mais frio e mais calculista. Isso ao menos nos Dias Antigos e antes dele ter sido afastado de seu mestre e cair na tolice de imitá-lo, se esforçando para tornar a si mesmo supremo Senhor da Terra-média. Enquanto Morgoth continuava, Sauron não buscou sua própria supremacia, mas trabalhou e manipulou para outro, desejando o triunfo de Melkor, a quem no começou ele adorou. Então ele era freqüentemente capaz de obter coisas, inicialmente escondido de Melkor, as quais seu mestre não concluía ou não podia concluir na furiosa velocidade de sua malícia.

(* [nota de rodapé ao texto] Mas restou uma falha em seu controle, inevitável. No reino de ódio e medo, a coisa mais forte é o ódio. Todos os seus Orcs odiavam uns aos outros, e deveriam ser mantidos em guerra com algum ‘inimigo’ para prevenir que se matassem uns aos outros.)

Nós podemos assumir, então, que a idéia da geração dos Orcs veio de Melkor, inicialmente não tanto para a provisão de servos ou infantaria para suas guerras de destruição, como para a desecração dos Filhos e o blasfemo escárnio dos desígnios de Eru. Os detalhes da realização desta vilania foram, contudo, deixados principalmente à sutileza de Sauron. Neste caso a concepção mental dos Orcs pode ter sido muito antes na noite dos pensamentos de Melkor, embora o começo de sua geração de fato devesse esperar o acordas dos Homens.

Quando Melkor foi feito cativo, Sauron fugiu e se escondeu na Terra-média; desta forma pode-se compreender como o cruzamento de Orcs (sem dúvida já iniciado) seguiu em frente com velocidade acelerada durante a era que Noldor residiram em Aman; de tal forma que quando eles retornaram à Terra-média encontraram-na já infestada com esta praga para o tormento de todos que ali residiam, Elfos ou Homens ou Anões. Também foi Sauron que secretamente reparou Angband para o auxílio de seu mestre quando ele retornasse (( Sobre a história posterior de que Angband fora construída por Melkor nos dias antigos e que esta era comandada por Sauron ver HoMe 10, “The Later Quenta Silmarillion”. Lá não há referência a uma reparação de Angband ao retorno de Morgoth, e confira o último desenvolvimento da narrativa no Quenta Silmarillion da história de seu retorno: Morgoth e Ungoliant ‘estavam chegando perto das ruínas de Angband onde sua grande fortaleza ocidental havia estado’ )); e lá os escuros lugares subterrâneos já estariam povoados com hordas de Orcs antes de Melkor finalmente retornar, como Morgoth o Inimigo Negro, e enviá-los para trazer ruína sobre tudo quer fosse belo. E embora Angband tenha caído e Morgoth removido, eles continuam a surgir de locais sem luz e com a escuridão em seus corações, e a terra murchava sob seus pés impiedosos.

Esta então, como parece, foi a visão final de meu pai sobre o assunto: Orcs foram gerados dos Homens, e se ‘a concepção mental dos Orcs pode ter sido muito antes na noite dos pensamentos de Melkor’ foi Sauron quem, durante as eras de prisão de Melkor em Aman, trouxe à existência os exércitos negros que estavam disponíveis a seu Mestre quando este retornou.

Mas, como sempre, não é assim tão simples. Acompanhando uma cópia do texto datilografado deste ensaio estão algumas páginas manuscritas das quais meu pai usou o reverso em branco de papéis dados pelos editores, datado de 10 de Novembro de 1969. Estas páginas possuem duas notas sobre o ensaio ‘Orcs': uma discutindo a grafia da palavra orc; a outra é uma nota surgida de algo do ensaio que não está citado, mas que obviamente é a passagem discutindo a natureza de títeres das criaturas trazidas à existência por algum dos próprios grandes Poderes: a note tinha a intenção de estar relacionadas às palavras ‘Mas os Orcs não eram desse tipo’.

Os orks, é verdade, algumas vezes pereciam ter sido reduzido a uma condição bastante similar, embora continue a existir uma diferença profunda. Aqueles orks que por muito tempo viveram sob a atenção imediata de sua vontade – como vigias de suas fortalezas ou elementos dos exércitos treinados para propósitos especiais em seus desígnios de guerra – agiriam como rebanhos, obedecendo instantaneamente, como tendo uma única vontade, seus comandos mesmo se ordenados a sacrificar suas vidas a seu serviço. E como foi visto quando Morgoth foi finalmente subjugado e excluído, aqueles orks que haviam sido assim absorvidos se espalharam impotentes, sem propósito a não ser fugir ou lutar, e logo morreram ou se mataram.

Outras criaturas originalmente independentes, e Homens entre elas (mas não Elfos ou Anões), também poderiam ser reduzidas a uma condição semelhante. Mas ‘títeres’, sem vida ou vontade independentes,  iria simplesmente parar de se mover  ou fazer qualquer coisa quando a vontade de seu criador fosse reduzida a nada. Em qualquer caso o número de orks que era de tal forma ‘absorvida’ sempre foi uma pequena parte de seu total. Mantê-los em absoluta servidão requeria um grande esforço de vontade. O poder possuído por Morgoth no início era vasto, mas finito; e foi este gasto de vontade nos orks, e ainda mais sobre as outras e muito mais poderosas criaturas a seu serviço, que eventualmente dissiparam tanto seus poderes mentais que a derrubada de Morgoth. Então a maior parte dos orks, embora sob suas ordens e com a sombra escura de seus medos dele, eram apenas intermitentemente objetos de seu pensamento e preocupações imediatas, e quando este era removido eles retornavam à independência e se tornavam consciente de seu ódio dele e de sua tirania. Então eles poderiam negligenciar suas ordens ou se engajar em

 


Aqui o texto é interrompido. Mas a coisa curiosa é que um rascunho para o segundo parágrafo desta nota (escrito no mesmo papel, tendo a mesma data) assim começa:

Mas Homens podiam (e ainda podem) ser reduzidos a tal condição. ‘Títeres’ simplesmente parariam de se mover ou ‘viver’, quando não colocados em movimento pela vontade direta de seu criador. De qualquer forma, embora o número de orks no ápice do poder de Morgoth, e ainda após o retorno dele da prisão, pareça ter sido muito grande, aqueles que eram ‘absorvidos’ foram sempre uma pequena parte do total.

As palavras que eu coloquei em itálico refutam uma concepção essencial do ensaio.A outra nota diz assim:

Orcs
Esta grafia foi retirada do Inglês Antigo. A palavra parecia, por si mesma, bastante adequada às criaturas que eu tinha em mente. Mas o significado de orc no Inglês Antigo – tanto quanto é sabido – não se encaixava (( Ver os Comentários à Quinta Seção dos Anais de Aman. )). Também a grafia do que, na situação lingüística posterior mais organizada deve ter sido uma forma na Língua Comum de uma palavra ou grupo de palavras similares, deveria ser ork. Se nenhuma outra razão então pelas dificuldades de grafia no Inglês moderno: um adjetivo orc + ish se torna necessário, e orcish não satisfaria (( ‘orcish não satisfaria': porque seria pronunciado ‘orsish’. A língua Orkish (Órquica) foi grafada dessa forma em O Senhor dos Anéis desde a Primeira Edição. )). Em qualquer publicação futura eu usarei ork.
No texto IX (a texto breve no qual meu pai declarou a teoria da origem Élfica ser correta) ele grafou a palavra Orks, e disse ‘dessa forma eu deverei grafar em O Silmarillion’. No atual ensaio, obviamente posterior ao texto IX, está gravado Orcs; mas então, em 1969 ou mais tarde, ele afirmou novamente que deveria ser Orks.
Notas

Mitos Transformados

The History of Middle-earth 10J. R. R. Tolkien começou a rever e reanalisar vários aspectos de seu legendarium, de sua mitologia, principalmente na época pós-Senhor dos Anéis. Estas reconsiderações – embora nunca tenha passado do estágio de rascunhos criativos – são de imenso valor ao revelar a opinião de Tolkien sobre certos aspectos de sua obra.

Os textos originais são do The History of Middle-earth 10, com introdução e comentários de Christopher Tolkien. Este artigo introdutório serve de base para os demais textos bem como de índice para os mesmos, na Valinor.

Nesta última seção do livro eu forneço alguns textos tardios de meuc pai, variados em natureza, mas relacionados a, genericamente falando,  uma reinterpretação de elementos centrais na “mitologia” (ou  legendarium, como ele chamava) de acordo com os imperativos de uma  concepção fundamental grandemente modificada.
Alguns destes papéis (há notáveis exceções) oferecerem uma dificuldade excepcional: fluidez de idéias, expressão ambígua e alusiva, passagens ilegíveis. Mas o maior dos problemas é que existe pouca indicação de data externa ou relativa: ordená-los, mesmo em uma seqüência aproximada de composição, parece impossível (embora eu acredite que virtualmente todos eles vieram dos anos que viram a escrita de Leis e Costumes entre os Eldar, o Athrabeth e revisões tardias de partes do Quenta Silmarillion – o final dos anos de 1950, na pós-publicação de O Senhor dos Anéis)

Nestes textos pode ser lido o registro de um prolongado debate interior. Anos antes deste tempo, os primeiros sinais de idéias emergentes puderem ser vistos, sinais que se perseguidos causariam um distúrbio massivo em O Silmarillion: eu mostrei, como acredito, que quando meu pai começou a revisar e reescrever as narrativas existentes dos Dias Antigos, antes de O Senhor dos Anéis estar completo, ele escreveu uma versão do Ainulindalë na qual introduziu uma transformação radical do mito astronômico, mas àquele tempo ele conteve a mão. Mas agora, como será visto em muitos dos ensaios e notas que se segue, ele veio a acreditar que tal vasta agitação era uma necessidade, e ao mesmo tempo ele foi impelido a tentar construir uma base “teórica” ou “sistemática” mais segura para os elementos no legendarium que não seriam removidos. Com seus questionamentos, suas certezas dando espaço à dúvida, suas resoluções contraditórias, estes escritos devem ser lidos tendo-se consciência do estresse intelectual e imaginativo em face de tal desmantelamento e reconstituição, acreditada ser uma necessidade inescapável, mas nunca alcançada.

Os textos, organizados em uma seqüência frouxamente “temática”, são numerados com numerais Romanos. Quase todos receberam pequenas edições menores (assuntos de pontuação, inserção de palavras omitidas e afins). Notas numeradas (não presentes em todos os casos) seguem os textos individuais.

I

II – Criação do Sol e da Lua

III

IV

V

VI – Melkor Morgoth

VII – Notas sobre os motivos no Silmarillion

VIII – Orcs (i)

IX- Orcs (ii)

X- Orcs (iii)

XI- Aman

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Mitos Transformados IX – Orcs

The History of Middle-earth XEsta é outra nota, bastante distinta, sobre a origem dos Orcs, escrita rapidamente a lápis e sem nenhuma indicação de data.
 
 

 
Isto sugere – embora não seja explícito – que os "orcs" eram de origem élfica. Sua origem é tratada mais claramente em outro lugar. Um ponto apenas é certo: Melkor não poderia "criar criaturas" vivas de vontades independentes.

Ele [e todos os "espíritos" dos "Criados–primeiro", conforme seus limites] poderia assumir formas corpóreas; e ele [e eles] poderia dominar as mentes de outras criaturas, incluíndo elfos e homens, pela força, medo, ou por engôdos, ou por pura magnificência. Os elfos de épocas remotas inventaram e usaram uma palavra ou palavras com uma base [o]rok para indicar qualquer coisa que causasse medo e/ou terror. Isto teria sido originalmente aplicado a "fantasmas" [espíritos assumindo formas visíveis] tão bem quanto a quaisquer criaturas existindo independentemente. Sua aplicação [em todas as línguas élficas] especificamente às criaturas chamadas orcs – assim devo escrevê-la no Silmarillion – foi posterior.

Uma vez que Melkor não poderia "criar" espécies independentes, mas tinha imensos poderes de corrupção e distorção daquelas que caíam em seu poder, é provável que estes orcs tivessem uma origem mista. A maioria deles claramente [e biologicamente] eram corrupções de elfos [e, posteriormente, de homens provavelmente também]. Mas sempre entre eles [como servos especiais e espiões de Melkor, e como líderes] deviam haver numerosos espíritos menores corrompidos que assumiram formas corpóreas semelhantes. [Estes apresentariam personalidades aterrorizantes e demoníacas]

Os elfos teriam classificado as criaturas chamadas "trolls" [no Hobbit e Senhor dos Anéis] como orcs – em personalidade e origem – mas eles eram maiores e mais lentos. Pareceria evidente que os orcs eram corrupções de tipos humanos primitivos.

 

 
No rodapé da página meu pai escreveu: "Ver O Senhor dos Anéis Apêndice p. 410"; este é o trecho do Apêndice F relativo aos Trolls.

Parece possível que sua palavras iniciais nesta nota "Isto sugere – embora não seja explícito – que os ‘orcs’ eram de origem élfica" na verdade se refere ao texto anterior fornecido aqui, VIII, onde ele inicialmente escreveu "elfos, como uma fonte, são muito improváveis", mas mais tarde concluiu que "permanece, portanto, terrivelmente possível que houvesse uma linhagem élfica nos orcs". Mas se realmente for isso, as palavras que se seguem "Sua origem é tratada mais claramente em outro lugar" deve se referir a alguma outra coisa.

Ele agora expressamente afirma a visão inicial de que os Orcs eram originalmente Elfos corrompidos, mas observa que "mais tarde" alguns provavelmente derivaram de Homens. Ao dizer isto (como o último parágrafo e a referência ao Apêndice F de O Senhor dos Anéis sugerem) ele parece estar pensando nos Trolls, e especificamente nos Olog-hai, os grandes Trolls que aparecem no final da Terceira Era (como dito no Apêndice F): "Ninguém duvidava que tivessem sido engendrados por Sauron,  mas não se sabia a partir de que linhagem. Alguns afirmavam que não eram trolls e sim orcs gigantes; mas os olog-hai eram, na conformação do corpo e da mente, bem diferentes até mesmo dos maiores orcs, a quem sobrepujavam amplamente em tamanho e força".

A concepção de que entre os Orcs "deviam haver numerosos espíritos menores corrompidos que assumiram formas corpóreas semelhantes" aparece também no texto VIII: "Melkor corrompeu muitos espíritos – alguns grandes, como Sauron, ou menores, como balrogs. Os menores poderiam ter sido primitivos (e muito mais poderosos e perigosos) orcs"

Mitos Transformados VIII – Orcs

The History of Middle-earth 10Este texto faz parte de um conjunto de ensaios intitulados "Mitos Transformados", contidos no The History of Middle-earth 10. A Valinor já possuía grande parte deles e está agora tradiuzindo os faltantes bem como acrescentando as notas e comentário. Este texto VIII trata da origem dos Orcs.
 
 
 

 
Na última sentença da versão curta original do texto VII meu pai
escreveu que os Eldar acreditavam que Morgoth gerou os Orcs ‘capturando
de Elfos (e Homens) cedo’ (isto é, nos primeiros dias de suas
existências). Isto indica que suas visões sobre este assunto mudaram
desde os Anais de Aman.
 
Para a teoria da origem dos Orcs como esta estava,
no ponto dos registros escritos nas narrativas (1), a este tempo ver os
Anais de Aman. Na forma final de Os Anais de Aman ‘isto é tido como
verdade pelos sábios de Eressëa':

que todos aqueles dos Quendi que acabaram nas mãos de Melkor, antes de
Utumno ser quebrada, foram lá postos na prisão e por artes lentas de
crueldade e maldade foram corrompidos e escravizados. Desta forma
Melkor gerou a terrível raça dos Orkor em inveja e paródia aos Eldar,
de quem se tornaram após isto os mais amargos inimigos. Pois os Orkor
tinham vida e se multiplicavam à maneira dos Filhos de Ilúvatar; e nada
do que tem vida por si mesmo, nem a aparência de vida, Melkor jamais
poderia criar, desde sua rebelião no Ainulindalë antes do Começo: assim
dizem os sábios.

No texto datilografado de Os Anais de Aman meu pai escreveu ao lado do
registro da origem dos Orcs: ‘Alterar isto. Orcs não são Élficos’.  

O presente texto, entitulado ‘Orcs’, é um ensaio curto (em grande parte
um registro de ‘pensando com a caneta’) encontrado na mesma pequena
coleção reunida em um jornal de 1959 como os textos III e VI. E como
estes ele foi escrito nos papéis do Merton College de 1955; e como o
texto VI ele faz referência a ‘Finrod e Andreth

 


 
Sua natureza e origem requerem mais reflexão. Elas não são fáceis de inserir na teoria e no sistema.
 
[1] Como o caso de Aulë e os Anões mostra, somente Eru podia criar criaturas com vontades independentes e com capacidade de raciocínio.
Mas os Orcs parecem possuir ambas: eles podem tentar enganar
Morgoth/Sauron, rebelar-se contra ele ou criticá-lo.

[2] ? Portanto, eles devem ser corrupções de alguma coisa pré-existente.

[3] Mas os Homens não haviam ainda aparecido quando os Orcs já
existiam. Aulë construiu os Anões a partir de sua memória da Música; mas Eru não
sancionaria a obra de Melkor de modo a permitir a independência dos Orcs. (A não ser que os Orcs fossem em essência remediáveis ou pudessem
ser corrigidos e "salvos".)


Também parece claro que, embora Melkor pudesse corromper e arruinar
indivíduos completamente, não é possível contemplar sua perversão
absoluta de um povo inteiro, ou grupo de pessoas, e sua criação que
afirma hereditariedade
(2) [Adicionado posteriormente: Este último deve [se
um fato] ser um ato de Eru].

Neste caso os Elfos, como uma fonte, são muito improváveis. E os Orcs
são "imortais" no sentido élfico? Ou os Trolls? Parece claramente
implícito em O Senhor dos Anéis que os Trolls existiam independentemente, mas foram "modificados" por Melkor (3).

[4] E o que dizer de feras falantes e pássaros com raciocínio e fala? Esses foram adotados levianamente por mitologias menos
"sérias", mas representam um papel que agora não pode ser cortado. São certamente "exceções" e não muito usados, mas suficientemente para
mostrar que eles são uma faceta reconhecida do mundo. Todas as
criaturas os aceitam como naturais, se não comuns.

 
Mas criaturas
"racionais" verdadeiras, "povos falantes", são todas de forma
humana/"humanóide". Somente os Valar e Maiar são inteligências que
podem assumir formas de Arda à vontade. Huan e Sorontar poderiam ser
Maiar – emissários de Manwë. (4) Mas, infelizmente, em O Senhor dos Anéis é
dito que Gwaehir e Landroval são descendentes de Sorontar [Thorondor] (5).

De qualquer forma, é provável ou possível que mesmo os menores dos Maiar
se tornariam orcs? Sim: tanto fora de Arda como dentro dela, antes da
queda de Utumno. Melkor corrompeu muitos espíritos – alguns grandes,
como Sauron, ou menores, como Balrogs. Os menores poderiam ter sido orcs
primitivos (e muito mais poderosos e perigosos); mas, por procriarem
quando encarnados, eles (ver Melian) [se tornariam] cada vez mais
ligados à terra, incapazes de retornar ao estado de espírito (mesmo
forma demoníaca), até serem libertados pela morte (assassinato), e definhariam em força. Quando libertados eles estariam, claro, como
Sauron, "condenados": isto é, reduzidos à impotência, infinitamente
recessiva: ainda odiando, mas incapazes cada vez mais de fazê-lo
de modo efetivo fisicamente (ou não seria o estado órquico muito definhado de
morte um poltergeist?).


Mas novamente – Eru proveria fëar a tais criaturas? Para as águias etc., talvez. Mas não para os Orcs (6).

Entretanto, parece melhor ver o poder de corrupção de Melkor como
sempre começando, pelo menos, no nível moral ou teológico. Qualquer
criatura que o tomava por Senhor (e especialmente aquelas que
de modo blasfemo o chamaram de Pai ou Criador) logo tornava-se corrompida
em todas as partes de seu ser, o fëa arrastando o hröa em sua
queda ao morgothismo: ódio e destruição. Quanto aos Elfos serem
"imortais": eles na verdade possuiam vidas excepcionalmente longas, e
foram "cansando-se" fisicamente e sofrendo um enfraquecimento lento e
progressivo de seus corpos.

Em resumo: eu acho que se deve supor que "falar" não é
necessariamente o sinal da posse de uma "alma racional" ou fëa. (7) Os Orcs
eram feras de forma humanizada [para zombar de Homens e Elfos]
deliberadamente pervertidos/convertidos em uma semelhança mais próxima
dos Homens. Sua "fala" era na verdade "gravações" recitadas, colocadas
neles por Melkor. Melkor ensinou-lhes a fala e ao reproduzirem-se herdaram isso; e possuíam tanta independência  quanto, digamos, cães ou
cavalos possuem de seus mestres humanos. Sua fala era em grande parte ecoada (como
papagaios). Em O Senhor dos Anéis é dito que Sauron inventou um idioma para eles (8).

O mesmo tipo de coisa pode ser dito de Huan e as Águias: os Valar lhes ensinaram um idioma e os elevaram a um nível
superior – mas eles ainda não possuíam fëa.

Mas Finrod provavelmente foi longe demais em sua afirmação de que Melkor
não poderia corromper completamente qualquer obra de Eru, ou que Eru (necessariamente) interferiria para anular a corrupção ou para cessar a
existência de Suas próprias criaturas, pois elas teriam sido
corrompidas e voltadas para o mal (9).

Permanece, portanto, terrivelmente possível que houvesse uma linhagem
élfica nos Orcs. (10) Estes podem então ter sido cruzados com feras (estéreis!) – e posteriormente com Homens. Seu tempo de vida seria
diminuído. E morrendo eles iriam para Mandos e seriam mantidos aprisionados
até o Fim.

Ver Melkor. Lá será visto que as vontades dos Orcs e Balrogs etc., são
parte do poder de Melkor "dispersado". O espírito deles é de ódio. Mas
o ódio é não-cooperativo (exceto sob medo direto). Daí as rebeliões,
motins, etc., quando Morgoth parecia estar distante.  Os Orcs são feras e
os Balrogs Maiar corrompidos. Além disso (n.b.), Morgoth, não Sauron, é a fonte das
vontades dos orcs. Sauron é apenas outro (se não maior) agente. Os Orcs
podem se rebelar contra ele sem perder sua própria fidelidade
irremediável ao mal (Morgoth). Aulë queria amor. Mas, claro, não
pensava em dispersar seu poder. Apenas Eru pode dar amor e
independência
. Se um subcriador finito tenta fazer isso, ele na
verdade quer uma ardorosa obediência absoluta, mas ela vira servidão
robótica e torna-se mal.

 
NOTAS

1. Em uma longa carta a Peter Hastings datada de Setembro de 1954, a qual ele não enviou (As Cartas de J. R. R. Tolkien, #153), meu pai escreveu o que se segue com relação à questão de que Orcs ‘poderiam ter "almas" ou "espíritos"':

… uma vez que em meus mitos de forma alguma eu concebo a criação de almas ou espíritos, coisas de uma ordem igual senão de poder igual aos Valar, como uma possível ‘delegação’, eu ao menos representei os Orcs como seres reais pré-existente nos quais o Senhor Escuro exerceu a totalidade de seu poder remodelando-os e corrompendo-os, mas não os criando… podem ter ocorridos outras ‘criações, contudo, as quais eram mais como títeres preenchidos (apenas à distância) com a mente e vontade de seu criados, ou agindo como formigas sob o comando de uma rainha central.

Anteriormente, nesta carta, ele citou as palavras de Frodo a Sam no capítulo "A Torre de Cirith Ungol": ‘A sombra que os criou só pode arremedar, não pode criar: nada realmente novo que se origine dela mesma. Não acho que lhes tenha dado vida, apenas os arruinou e deformou'; e ele continua: "Nas lendas dos Dias Antigos é sugerido que o Diabolus subjugou e corrompeu alguns dos primeiros Elfos…". Ele também disse que os Orcs "são fundamentalmente uma raça de criaturas ‘racionais encarnadas’".

2. No Athrabeth Finrod declarou:

Mas nunca, mesmo na noite, acreditamos que ele [Melkor] pudesse prevalecer contra os Filhos de Eru. Este ele poderia iludir, ou aquele ele poderia corromper; mas mudar o destino de todo um povo dos Filhos, roubá-los de sua herança: se ele pudesse fazer tal coisa à revelia de Eru, então de longe maior e mais terrível é ele do que imaginávamos…

3. Em O Senhor dos Anéis Apêndice F (I) é dito dos Trolls:

Nos seus primórdios, no crepúsculo dos Dias Antigos, eram criaturas de natureza obtusa e bruta, sem outra linguagem que não a dos animais. Mas Sauron fizera uso deles, ensinando-lhes o pouco que eram capazes de aprender e aumentando sua inteligência com maldade.

Na longa carta de Setembro de 1954 citada na Nota 1 escreveu sobre eles:

Eu não estou certo sobre os Trolls. Eu acho que era eram meras ‘imitações’ e portanto (embora aqui eu esteja, claro, usando apenas elementos de antigos mitos bárbaros que não tinham uma metafísica ‘consciente’) eles retornam a simples estátuas de pedra quando não estão no escuro. Mas há outras espécies de Trolls além daqueles bastante ridículos, embora brutais, Trolls-das-rochas, para os quais outras origem são sugeridas. Claro… quando você faz Trolls falarem você está dando a eles poder, o qual em nosso mundo (provavelmente) denota a posse de uma "alma".

4. Ver comentários finais da Sexta Seção de os Anais de Aman. Ao final da página contendo o breve texto V meu pai escreveu rapidamente a seguinte nota, inteiramente desconectada com o assunto do texto:

Coisas vivas em Aman. Assim como os Valar poderiam se vestir como os Filhos, muitos dos Maiar vestiam-se como outras coisas vivas menores, como árvores, flores, bestas. (Huan.).

5. "Lá vinha Gwaihir, o Senhor dos Ventos, e Landroval, seu irmão, as maiores de todas as Águias do Norte, e os mais poderosos descendentes do velho Thorondor"  ("O Campo de Cormallen" em O Retorno do Rei).

6. A este ponto existe uma nota que começa com ‘Crítica de (1) (2) (3) acima’ (ou seja, os pontos iniciais deste texto) e então se refere obscuramente a ‘última batalha e a queda de Barad-dur etc.’ em O Senhor dos Anéis. Em uma visão do que se segue meu pai estava presumivelmente pensando no capítulo ‘A Montanha da Perdição':

De todas as suas planos e teias de medo e traição, de todos os seus estratagemas e guerra sua mente se livrou; e através de todo o seu reino ocorreu um tremor, seus escravos se acovardaaram, seus exércitos pararam, e seus capitães repentinamente sem direção, privados de vontade, hesitaram e se desesperaram. Pois eles foram esquecidos.
    
A nota continua

Eles tinham pouca ou nenhuma vontade quando não ‘cuidados’ de fato pela mente de Sauron. Suas traições e rebeliões davam aquela possibilidade a animais como cães etc.?
       
7. Compare com fim do trecho citado na carta de 1954 na nota 3.

8. Apêndice F (I): ‘Diz-se que a Língua Negra foi inventada por Sauron nos Anos Escuros’.

9. Ver a citação do Athrabeth na nota 2. Finrod de fato não afirma a última parte da opinião aqui atribuída a ele.

10. A afirmação de que ‘permanece, portanto, terrivelmente possível que houvesse uma linhagem élfica nos orcs’ aparece meramente para contradizer o que foi dito sobre serem não mais do que ‘bestas falantes’ sem avançar em novas considerações. No trecho acrescentado ao final do texto a afirmação de que ‘Orcs são bestas’ é repetida.
 

orcs_uruk-hai

Mitos Transfomados – Parte VIII – Orcs!!!

Sua natureza e origem requerem mais reflexão ((Este texto corresponde ao Mitos Transformados, partes VIII a X, publicado no The History of Middle Earth 10  – maiores detalhes aqui )). Elas não são fáceis de se trabalhar na sua teoria e o seu sistema.
[1] Como o caso de Aulë e os Anões mostra, somente Eru poderia fazer criaturas com vontades independentes, e com capacidade de raciocínio. Mas os orcs parecem ter ambas: eles podem tentar enganar Morgoth/Sauron, rebelar-se contra ele, ou criticá-lo.

[2] Entretanto, eles devem ser corrupções de alguma coisa pré-existente.

[3] Mas os homens não haviam aparecido ainda, quando os orcs já existiam. Aulë construiu os anões de sua memória da Música; mas Eru não sancionaria o trabalho de Melkor a fim de permitir a independência dos orcs. [A não ser que os orcs fossem ao final remediáveis, ou pudessem ser corrigidos e “salvos”?]

Também parece claro que embora Melkor pudesse corromper e arruinar indivíduos completamente, não é possível contemplar sua perversão absoluta de um povo inteiro, ou grupo de pessoas, e sua criação que afirma hereditariedade [Adicionado posteriormente: Este último deve[se um fato] ser um ato de Eru].

Neste caso os elfos, como uma fonte, são muito improváveis. E os orcs são “imortais” no sentido élfico? Ou os trolls? Parece claramente implícito no Senhor dos Anéis que os trolls existiam no seu próprio direito, mas foram “consertados” por Melkor.

[4] E o que dizer de feras falantes e pássaros com raciocínio e linguagem? Estes têm sido adotados levianamente por mitologias menos “sérias”, mas representam um papel que agora não pode ser cortado. Eles são certamente “exceções” e não muito usados, mas suficientemente para mostrar que eles são uma faceta reconhecida do mundo. Todas as criaturas aceitam-os como naturais, se não comuns. Mas criaturas “racionais” verdadeiras, “povos falantes”, são todas de forma humana/”humanóide”. Somente os Valar e Maiar são inteligências que podem assumir formas de Arda à vontade. Huan e Sorontar poderiam ser Maiar – emissários de Manwë. Mas, infelizmente, no Senhor dos Anéis é dito que Gwaehir e Landroval são descendentes de Sorontar [Thorondor].

Em qualquer caso, é provável ou possível que mesmo os menores dos Maiar tornariam-se orcs? Sim: tanto fora de Arda como dentro dela, antes da queda de Utumno. Melkor corrompeu muitos espíritos – alguns grandes, como Sauron, ou menores, como balrogs. Os menores poderiam ter sido primitivos [e muito mais poderosos e perigosos] orcs; mas, por procriar quando encarnados, eles [como Melian][tornariam-se] cada vez mais ligados à terra, incapazes de retornar ao estado de espírito [mesmo forma demoníaca], até serem libertados pela morte [assassinato], e eles definhariam em força. Quando libertados eles seriam, claro, como Sauron, “condenados”: isto é, reduzidos à impotência, infinitamente recessiva: ainda odiando, mas incapazes cada vez mais de fazê-lo fisicamente eficaz. [ou não seria o estado órquico muito definhado de morte um poltergeist?]

Mas novamente – Eru proveria fëa [espírito] a tais criaturas? Para as águias etc., talvez. Mas não para os orcs.

Entretanto, parece melhor ver o poder de corrupção de Melkor como sempre começando, pelo menos, no nível moral ou teológico. Qualquer criatura que o tomou por Senhor [e especialmente aquelas que blasfemamente chamaram-o de Pai ou Criador] logo tornou-se corrompida em todas as partes de seu ser, o fëa arrastando o hröa [corpo] em sua queda ao Morgothismo: ódio e destruição. Como para os elfos serem “imortais”: eles, na verdade, possuiam vidas excepcionalmente longas, e foram “cansando-se” fisicamente, e sofrendo um enfraquecimento lento e progressivo de seus corpos.

Em resumo: eu acho que deve-se assumir que “falar” não é necessáriamente o sinal da posse de uma “alma racional” ou fëa. Os orcs eram bestas de forma humanizada [para zombar de homens e elfos] deliberadamente pervertidos/convertidos em uma semelhança mais próxima dos homens. Sua “fala” era na verdade “gravações” recitadas, colocadas neles por Melkor. Melkor ensinou-lhes a fala e ao reproduzirem-se, eles herdaram isto; e eles tinham tanta independência como têm cães ou cavalos de seus mestres humanos. Sua fala era largamente ecoada [como papagaios]. No Senhor dos Anéis é dito que Sauron inventou uma linguagem para eles.

O mesmo tipo de coisa pode ser dito de Huan e as águias: eles aprenderam uma linguagem à partir dos Valar – e elevaram-na a um nível superior – mas eles ainda não tinham fëa. Mas Finrod provavelmente foi muito longe na sua afirmação de que Melkor não poderia corromper completamente qualquer obra de Eru, ou que Eru [necessariamente] interferiria para anular a corrupção ou para cessar a existência de Suas próprias criaturas, pois elas teriam sido corrompidas e voltadas para o mal.

Permanece, portanto, terrivelmente possível que houvesse uma linhagem élfica nos orcs. Estes podem então ter sido cruzados com feras [estéreis!] – e posteriormente homens. Seu tempo de vida seria diminuído. E morrendo eles iriam para Mandos e mantidos aprisionados até o Fim.

…as vontades dos orcs e balrogs etc., são parte do poder de Melkor “dispersado”. O espírito deles é de ódio. Mas o ódio é não-cooperativo [exceto sob medo direto]. Daí as rebeliões, motins, etc., quando Morgoth parecia estar distante. Orcs são feras e balrogs Maiar corrompidos. Também, Morgoth, não Sauron, é a fonte das vontades dos orcs. Sauron é apenas outro [senão maior] agente. Orcs podem rebelar-se contra ele sem perder sua própria fidelidade irremediável ao mal [Morgoth]. Aulë queria amor. Mas, claro, não pensava em dispersar seu poder. Apenas Eru pode dar amor e independência. Se um sub-criador finito tenta fazer isto, ele na verdade quer ardorosa obediência absoluta, mas ela vira servidão robótica e torna-se mal.

Isto sugere – embora não seja explícito – que os “orcs” eram de origem élfica. Sua origem é tratada mais claramente em outro lugar. Um ponto apenas é certo: Melkor não poderia “criar criaturas” vivas de vontades independentes.

Ele [e todos os “espíritos” dos “Criados–primeiro”, conforme seus limites] poderia assumir formas corpóreas; e ele [e eles] poderia dominar as mentes de outras criaturas, incluíndo elfos e homens, pela força, medo, ou por engôdos, ou por pura magnificência. Os elfos de épocas remotas inventaram e usaram uma palavra ou palavras com uma base [o]rok para indicar qualquer coisa que causasse medo e/ou terror. Isto teria sido originalmente aplicado a “fantasmas” [espíritos assumindo formas visíveis] tão bem quanto a quaisquer criaturas existindo independentemente. Sua aplicação [em todas as línguas élficas] especificamente às criaturas chamadas orcs – assim devo escrevê-la no Silmarillion – foi posterior.

Uma vez que Melkor não poderia “criar” espécies independentes, mas tinha imensos poderes de corrupção e distorção daquelas que caíam em seu poder, é provável que estes orcs tivessem uma origem mista. A maioria deles claramente [e biologicamente] eram corrupções de elfos [e, posteriormente, de homens provavelmente também]. Mas sempre entre eles [como servos especiais e espiões de Melkor, e como líderes] deviam haver numerosos espíritos menores corrompidos que assumiram formas corpóreas semelhantes. [Estes apresentariam personalidades aterrorizantes e demoníacas]

Os elfos teriam classificado as criaturas chamadas “trolls” [no Hobbit e Senhor dos Anéis] como orcs – em personalidade e origem – mas eles eram maiores e mais lentos. Pareceria evidente que os orcs eram corrupções de tipos humanos primitivos.

A origem dos orcs é matéria de debate. Alguns chamavam-os de Melkorohíni, os Filhos de Melkor; mas os mais sábios diziam: não, os escravos de Melkor,  mas não seus filhos; pois Melkor não tinha filhos. De qualquer modo, foi pela malícia de Melkor que os orcs surgiram, e eles foram claramente pretendidos por ele para serem um escárnio dos Filhos de Eru, sendo criados para serem completamente subservientes à sua vontade e cheios de ódio implacável por elfos e homens.

Ora, os orcs das guerras posteriores, depois da fuga de Melkor-Morgoth e seu retorno à Terra-média, não eram “espíritos”, nem fantasmas, mas criaturas vivas, capazes de falar e de algumas habilidades e organização; ou pelo menos capazes de aprender estas coisas de criaturas superiores e de seu mestre. Eles procriavam e multiplicavam-se rapidamente, sempre quando deixados imperturbados. Até onde pode-se compilar das lendas que chegaram até nossos dias de antigamente, parece que os Quendi não haviam encontrado nenhum orc desse tipo antes da chegada de Oromë a Cuiviénen.

Aqueles que acreditam que os orcs surgiram de alguma espécie de homens, capturados e pervertidos por Melkor, afirmam que era impossível para os Quendi terem conhecido os orcs antes da Separação e da partida dos Eldar. Pois embora o momento do despertar dos homens não fosse conhecido, mesmo os cálculos dos mestres de tradição que determinavam-no o mais próximo possível, não designaram uma data antes da Grande Marcha começar, certamente não uma suficiente para permitir a corrupção dos homens em orcs. Por outro lado, é evidente que logo após seu retorno, Morgoth tinha sob seu comando um grande número dessas criaturas, com as quais ele começara a atacar os elfos. Havia ainda menos tempo entre o seu retorno e esses ataques para a procriação dos orcs e para a transferência de seus exércitos para o oeste.

Esta visão da origem dos orcs depara-se com dificuldades de cronologia. Mas, embora os homens possam encontrar conforto nisto, a teoria permanece de qualquer modo a mais provável. Ela concorda com tudo que é sabido sobre Morgoth, e da natureza e comportamento dos orcs – e dos homens. Melkor era impotente para produzir qualquer coisa viva, mas hábil na corrupção de coisas que não originaram-se dele, se pudesse dominá-las. Mas se ele tivesse de fato tentado fazer criaturas por sua própria conta em imitação ou zombaria dos Encarnados, ele teria, como Aulë, sido apenas bem sucedido em produzir fantoches: suas criaturas teriam agido apenas enquanto a atenção de sua vontade estivesse sobre elas, e elas não teriam mostrado relutância em executar qualquer comando seu, ainda que fosse para destruírem a si mesmas.

Mas os orcs não eram desse tipo. Eles eram certamente dominados pelo seu mestre, mas sua dominação era por medo, e eles estavam cientes desse medo e o odiavam. Eles eram de fato tão corruptos que eram impiedosos, e não havia crueldade ou perversão que eles não cometessem; mas esta foi a corrupção de suas vontades independentes, e eles tinham satisfação nos seus atos. Eles eram capazes de agir por si próprios, cometendo atos malignos para seu próprio divertimento; ou se Morgoth e seus agentes estivessem distantes, eles poderiam negligenciar seus comandos. Eles às vezes lutavam entre si, para o detrimento dos planos de Morgoth.

Além disso, os orcs continuaram a viver e se reproduzir, e prosseguiram no seu trabalho de destruição e pilhagem após Morgoth ter sido destronado. Eles também possuiam outras características dos Encarnados. Eles tinham linguagens próprias, e falavam entre si várias línguas de acordo com as diferenças de linhagem que eram discerníveis entre eles. Eles precisavam de comida e bebida, e descanso, embora muitos fossem treinados tão duros como os anões para suportar as adversidades. Eles podiam ser mortos, e eram alvos de doenças; mas à parte desses males, eles morriam e não eram imortais, mesmo de acordo com o modo dos Quendi; de fato, eles pareciam ter por natureza vidas curtas comparadas com a longevidade dos homens de raças superiores, tais como os Edain.

Este último ponto não era bem compreendido nos Dias Antigos. Pois Morgoth possuía muitos servos, dos quais os mais velhos e mais potentes eram imortais, pertencendo de fato, no seu início, aos Maiar; e estes espíritos malígnos, como seu mestre, podiam tomar formas visíveis. Aqueles cujo trabalho era comandar os orcs frequentemente tomavam formas órquicas, porém eram maiores e mais terríveis. Assim as histórias falavam de Grandes Orcs ou capitães-orcs que não eram mortos, e que reapareciam em batalha através dos anos muito mais longos que os períodos das vidas dos homens.

Finalmente, há um ponto irrefutável, embora horrível de se relatar. Tornou-se claro com o tempo que indubitavelmente os homens podiam, em poucas gerações, sob a dominação de Morgoth ou de seus agentes, ser reduzidos quase ao nível órquico em mente e hábitos; e então eles estariam, ou poderiam estar, prontos para cruzar com orcs, produzindo novas linhagens, frequentemente maiores e mais astutas. Não há dúvida de que muito mais tarde, na Terceira Era, Saruman redescobriu isto, ou aprendeu sobre isto em estudo, e em sua sede pela supremacia, praticou isto, seu ato mais maligno: o cruzamento de orcs e homens, produzindo tanto homens-orc, grandes e astutos, como orcs-homens, traiçoeiros e desprezíveis.

Mas mesmo antes dessa perversão de que Morgoth era suspeito, os sábios nos Dias Antigos sempre ensinaram que os orcs não foram feitos por Melkor e, portanto, não eram malignos na sua origem. Eles podiam ter se tornado irredimíveis [pelo menos por elfos e homens], mas eles continuavam dentro da Lei. Isto é, que embora sendo necessário [sendo os dedos da mão de Morgoth] serem enfrentados com a maior severidade, eles não deveriam ser tratados com os seus próprios termos de crueldade e traição. Cativos, não deviam ser atormentados, nem mesmo para descobrir informações para a defesa das casas de elfos e homens. Se quaisquer orcs se rendessem e clamassem por misericórdia, ela seria concedida, a qualquer preço. Este era o ensinamento dos sábios, embora no horror da guerra isto não fosse sempre considerado.

É verdade, claro, que Morgoth mantinha os orcs em horrenda escravidão; pois em sua corrupção, eles haviam perdido quase toda a possibilidade de resistir à dominação de sua vontade. De fato, tão grande era a sua pressão sobre eles que, antes de Angband cair, se direcionasse seu pensamento na direção deles, eles ficariam conscientes de seu “olho” onde quer que estivessem; e quando Morgoth finalmente foi removido de Arda, os orcs que sobreviveram no oeste se dispersaram, sem liderança e quase sem sagacidade, e estiveram por um longo tempo sem controle ou propósito.

Esta servidão à uma vontade central que reduziu os orcs a uma vida quase como a de formigas, foi vista mais claramente na Segunda e Terceira Eras sob a tirania de Sauron, tenente-comandante de Morgoth. Sauron realmente alcançou maior controle sobre seus orcs do que Morgoth jamais havia conseguido. Ele estava, claro, operando em uma escala menor, e ele não tinha inimigos tão grandes e tão ferozes como os noldor no auge de seu poder nos Dias Antigos. Mas ele também herdou destes dias dificuldades, tais como a diversidade de orcs em linguagem e linhagem, e as hostilidades entre eles; enquanto em muitos lugares da Terra-média, após a queda das Thangorodrim e durante a ocultação de Sauron, os orcs, recuperando-se de sua impotência, ergueram pequenos reinos por si próprios e tornaram-se acostumados à independência. Mas Sauron conseguiu em tempo unir a todos em ódio irracional a elfos e aos homens que associaram-se a eles; enquanto que os orcs de seus próprios exércitos treinados estavam tão completamente sob sua vontade que sacrificariam a si mesmos, sem hesitação, ao seu comando.

[Mas havia uma falha no seu controle, inevitável. No reino do ódio e do medo, a coisa mais forte é o ódio. Todos os seus orcs odiavam-se uns aos outros, e precisavam ser mantidos sempre em guerra contra algum “inimigo” para evitar que se matassem entre si] E ele mostrou-se também mais habilidoso do que seu mestre na corrupção dos homens que estavam além do alcance dos sábios, e em reduzí-los à vassalagem, na qual eles marchariam com os orcs, e rivalizariam com eles em crueldade e destruição.

É dessa maneira que provavelmente devemos olhar para Sauron para encontrar uma solução do problema da cronologia. Embora de poder natural imensamente menor do que seu mestre, ele permaneceu menos corrupto, mais audacioso e mais apto à prudência. Pelo menos nos Dias Antigos, e antes de ser privado de seu senhor e cair na insensatez de imitá-lo, e esforçando-se para tornar-se Senhor Supremo da Terra-média. Enquanto Morgoth ainda governava, Sauron não procurou sua própria supremacia, mas trabalhou e planejou para outro, desejando o triunfo de Melkor, que no início ele venerava. Ele, assim, foi frequentemente capaz de concluir coisas, primeiramente concebidas por Melkor, que seu mestre não completou ou não podia completar na pressa furiosa de sua malícia.

Podemos supor, então, que a idéia do cruzamento de orcs partiu de Melkor, a princípio talvez não tanto pela provisão de servos ou da infantaria de suas guerras de destruição, como pela profanação dos Filhos e escárnio blasfemo dos desígnios de Eru. Os detalhes da realização dessa depravação foram, entretanto, deixados principalmente às sutilezas de Sauron. Neste caso, a concepção [em pensamento] dos orcs deve ter surgido há muito tempo, na noite do pensamento de Melkor, embora o início da sua atual reprodução devesse esperar pelo despertar dos homens.

Quando Melkor foi feito prisioneiro, Sauron escapou e permaneceu escondido na Terra-média; e desse modo pode ser compreendido como a reprodução dos orcs [sem dúvida já iniciada] continuou com velocidade crescente durante a era em que os noldor habitavam Aman; então quando retornaram à Terra-média, econtraram-na já infestada por esta praga, para o tormento de todos que lá habitavam, elfos, homens ou anões. Foi Sauron, também, que secretamente reparou Angband para o auxílio de seu mestre quando este retornasse; e lá, os escuros lugares subterrâneos já estavam guarnecidos com exércitos de orcs antes de Melkor por fim voltar, como Morgoth, o Sinistro Inimigo, e os enviou para trazer ruína a tudo que era belo. E embora Angband tenha caído e Morgoth tenha sido removido, eles ainda saem dos lugares sem luz na escuridão de seus corações, e a terra é destruída sob seus pés impiedosos.