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Amor, estilo Terra-média

Uma das histórias mais conhecidas da Terra-média é o Conto de Beren e Lúthien. O clássico drama do "garoto pobre se apaixona por uma garota rica" combinado com muita aventura, intriga, corrupção e magia. Parece que existe algo para agradar a todos os gostos. Quando os Hobbits pedem a Aragorn que lhes conte uma história naquela noite em que são atacados no Topo do Vento, ele decide falar sobre Beren e Lúthien. De certa forma, Aragorn se vê seguindo os passos de Beren. Como seu antepassado, Aragorn é um Senhor por direito, que perdeu terras e riquezas devido à guerra. E como Beren, Aragorn conhece uma linda princesa em um reino élfico e imediatamente apaixona-se perdidamente por ela.

 

 

O tratamento de Elrond para com Aragorn é muito mais gentil e tolerante do que o tratamento de Thingol para com Beren, pois Elrond é um dos descendentes de Beren e Lúthien, mesmo que ambos tenham morrido muito antes dele ter nascido. Mesmo assim, Elrond pede algo quase tão caro para o casamento com Arwen quanto o que Thingol pediu para o de Lúthien. Para ambos foram pedidas coisas que pareciam tarefas impossíveis de serem realizadas. Aragorn, pelo menos, tinha a vantagem de saber que Elrond queria ver a derrota de Sauron, ao contrário de Thingol, que tencionava enviar Beren para uma possível morte.

Infelizmente, nem todas as histórias de amor da Terra Média terminam tão bem como a de Beren e Lúthien e a de Aragorn e Arwen. Ambos os casais viveram juntos por muitos anos depois que as grandes tarefas impostas sobre eles foram cumpridas; no entanto, esses felizes anos jamais ocorreriam sem que antes se passasse por grande sofrimento, de modo que poderiam ser considerados recompensas realmente difíceis de se conseguir. Beren e Lúthien tiveram que passar por muitos perigos em Angband, e finalmente morreram antes de poderem ser ressucitados e viverem juntos em relativa tranqüilidade. A jornada de Aragorn não foi tão perigosa quanto a de Beren, mas sem dúvida ele sentiu muito mais solidão. Pelo menos, Beren foi acompanhado por Lúthien durante muito tempo na busca pela Silmaril, enquanto que Aragorn teve que viver muitos anos longe de Arwen, sem ter grandes esperanças que ela iria ao menos sentir o mesmo que ele sentia por ela.

O divórcio não é nunca mencionado em qualquer história de Tolkien. Algumas pessoas podem refletir pouco sobre a questão e falar: "Bem… Tolkien foi criado como um Católico e acreditou nos ensinamentos da Igreja por toda a sua vida". Sim, isso é verdade, mas Tolkien era também um indivíduo bastante realista. O divórcio parece não participar de seus romances porque a separação trágica ocupa sua posição. A separação nem sempre faz o amor ficar mais forte, às vezes pode até destruir o relacionamento. O primeiro conto de um casamento que termina em ruínas é o de Húrin e Morwen. Húrin era filho de Galdor, o alto, lorde de Dor Lómin, e considerado por muitos o maior dos guerreiros dentre os humanos. Morwen nasceu em Dorthonion, terra natal dos descendentes de Béor que foram aceitos no Reino de Finrod, Nargothrond. Eles residiam na fronteira ao Norte do Reino de Finrod, atrás da linha de fortalezas dos Noldor que protegiam Ard-galen, a planície entre Angband e os Reinos Élficos.

Morwen era a filha de Baragund, o filho mais velho [e, estranhamente, o herdeiro] de Bregolas, que era o Senhor de Ladros de 448 até 455. Bregolas morreu na luta pouco depois de Dagor Bragollach [A batalha da "Chama Súbita", na qual as legiões de Morgoth quebraram o Cerco de Angband, que tinha durado mais de 400 anos] começar. Barahir assumiu o controle de Dorthonion. Ele era já era mais velho, tendo 55 anos quando Bragollach começou. Talvez tenha sido por ter resgatado Finrod que ele assumiu o posto de Senhor de Ladros, ou porque Baragund abdicou de seu direito em favor de seu tio, pois, ele era claramente um grande líder, como as pessoas precisavam.

Morwen nasceu em 443, tendo apenas 12 anos quando a Dagor Bragollach começou. Muitos de seu povo fugiram para Dor Lómin assim que Bregolas e muitos outros homens morreram em batalha, mas Baragund e outros continuaram ao lado de Barahir, e seguiram ele com fé. Barahir e os descendentes de Beór que mantiveram-se junto a ele agüentaram a situação por um ano, mas em 456 a situação se tornou tão alarmante que a esposa de Barahir, Emeldir, juntou todas as mulheres e crianças que sobraram e as conduziu para o sul de Dorthonion. O caminho de Emeldir passava pelas Ered Gorgoroth, as Montanhas do Horror, aonde aranhas gigantes viviam desde séculos atrás, tornando quase impossível a passagem tanto para humanos quanto para elfos.

Emeldir e sua filha Haril somem subitamente da história após alcançarem Brethil, onde alguns de seus seguidores ficaram, mas Morwen e seu primo Rían [que na época tinha 6 anos] passaram pra Dor Lómin para se juntar ao resto de seu povo. Mesmo que a maioria dos humanos tivesse sido morta em guerra, os descendentes de Beór não deixaram de existir como um povo. Seus filhos cresceram para formar uma nova geração de guerreiros, mas tornaram-se quase que fundidos com os "Marachians" de Dor Lómin.

Ao mesmo tempo em que Morwen estava viajando pelas Ered Gorgoroth, o jovem Húrin e seu irmão Huor estavam apreciando a hospitalidade de Turgon em Gondolin. Eles estavam com parentes em Brethil quando a Dagor Bragollach começou e a tribo de Haleth mandou guerreiros para ajudar a resistir a investida de Morgoth; sendo que a maioria deles morreu, e Húrin e Huor foram separados de seus companheiros e resgatados pelas águias de Manwë, que os levaram para Gondolin, onde ficaram por um ano. Eventualmente, Turgon aceitou deixá-los voltar para Dor Lómin. Tolkien não deixa claro quando Húrin e Morwen se conheceram, mas deve ter sido logo na ocasião de sua chegada a Dor Lómin, ou pouco depois desta [dependendo de quem chegou em Dor-lomin por último]. Ela ainda era muito nova para o casamento, mas no ano 461 teria 18 anos. Túrin nasceu em 464, então Morwen ainda era bastante nova quando casou com Húrin, mas pelos primeiros oito anos seu casamento pareceu ser bom. Eles tiveram três filhos: Túrin, Urwen [que morreu] e Nienor. Húrin nunca viu sua caçula, pois ela nasceu depois da Nirnaeth Arnoediad, no final da qual Húrin foi feito prisioneiro.

Por quase trinta anos, Húrin foi prisioneiro de Morgoth, e Morwen fez tudo o que pôde para proteger Túrin; mas o destino dele e o de Nienor foram obscurecidos pela maldade de Morgoth, e Húrin foi finalmente libertado quando seus filhos já estavam todos mortos. Ele encontrou Morwen em Brethil, esperando por ele perto da pedra que marcava o local onde Túrin havia morrido, e no fim sua reunião foi curta e amarga.

Uma história mais trágica é o conto de Aldarion e Erendis. Por anos, os fãs de Tolkien não tiveram nenhum real conhecimento sobre esse conto, exceto que ele existia, pois Tolkien o mencionou se
m grande ênfase na carta enviada a Dick Plotz [Líder da Sociedade Tolkeniana da América] em 1966, em "A Esposa do Marinheiro", que contava a história de Tar-Aldarion e sua relação trágica com seu pai e esposa. Essa informação foi passada para Robert Foster, que a mencionou na seção de Tar-Aldarion em "O Guia da Terra-média" [Editora Mirage, 1971] e "O Guia Completo da Terra-média" [Del Rey, 1978].

Em 1980, Christopher Tolkien publicou "A Esposa do Marinheiro" em Contos Inacabados, e ela é geralmente mencionada como "Aldarion e Erendis". Aldarion era o sucessor por direito ao trono de Númenor, e descendente de Rian e Huor. Erendis era também descendente de Beór, e descendia de Beleth, a filha de Baragund. Ela não descendia de Elros [Tar-Minyatur], e apesar de viver bastante, ela não tinha o Dom de viver muito mais do que qualquer humano que pertencia aos descendentes de Elros. Aldarion se tornou um marinheiro em sua juventude e apesar de se apaixonar por Erendis e eventualmente se casar com ela, o seu amor por ela era sempre menor em comparação ao seu amor pelo mar.

Erendis foi ficando amarga devido à falta de atenção que o marido lhe dedicava, e parecia odiar o mar. Ela eventualmente o deixou e foi criar sua filha Ancalime sozinha, longe da Corte em Armenelos. O ciúme de Erendis e o seu ressentimento primeiramente foram vistos muito calorosamente pela família de Aldarion e pelo povo de Númenor, mas ela foi ficando tão amarga que caiu em esquecimento. A separação entre Aldarion e Erendis impossibilitou que eles tivessem mais filhos, e Aldarion acabou por criar uma nova Lei de Sucessão na qual permitia Ancalime se tornar a Rainha em exercício de Númenor.

A vida de Ancalime acabou não sendo muito melhor que a de seus pais. Ela era perseguida pelos jovens rapazes de Númenor e acabou se escondendo ainda muito cedo para evitar a "caçada". Disfarçando-se como uma pastora, Ancalime passou seus dias em paz e silêncio até que um jovem pastor a encontrou. Ele se chamava Mamandil e eles se tornaram amigos. Mamandil era um grande cantor e freqüentemente entretinha Ancalime com canções antigas que seus ancestrais descendentes de Edan haviam cantado enquanto cuidavam de seus pastos em Eriador [ mais de 1300 antes ].

Mamadil eventualmente revelou seu verdadeiro nome, Hallacar, filho de Hallatan de Hyarstorni, um dos maiores Lordes Numenorianos e um descendente de Elros. A história de Ancalime e Hallacar nunca foi totalmente criada por Tolkien, mas ela por fim casou-se com ele por razões aparentemente políticas. Qualquer amor que ela sentisse por ele acabou se tornando amargura e mais tarde ódio, quando ela soube a verdade por trás de Hallacar, e é dito que ela o perseguiu a vida inteira. Hallacar realmente pregou-lhe uma peça muito cruel. Ancalime havia proibido que suas criadas se casassem, e em uma festa em sua casa [que Ancalime estava tirando dele], ele casou todas elas. Ele a humilhou, e aquele evento pode ter sido o golpe de misericórdia para a separação final entre eles.

Mesmo assim, Hallacar e Ancalime tiveram um filho, Anarion, que se tornou Rei de Númenor. O casamento de Anarion parece ter sido mais feliz que o de seus pais e o de seus avós. Ele teve no mínimo três filhos, dos quais o terceiro foi Tar-Surien.

Casamentos trágicos não foram confinados apenas aos Numenorianos. Durante a Terceira Era, Minalcar, Regente de Gondor, enviou seu filho Valacar para fechar a aliança com os homens do norte de "Rhovanion" [que é apenas um pequeno reino a leste de "Mirkwood" e não cobria toda a "Wilderland" que também é chamada de "Rhovanion"]. Valacar se casou com Vidumavi, filha de Vidugavia, rei de Rhovanion. O seu filho, Eldacar, nasceu em Rhovanion e foi chamado Vinitharya em sua primeira infância. A linhagem misturada de Eldacar, acabou levando a um conflito para a sucessão do trono de Gondor, que se desenrolou em uma sangrenta guerra civil, que quase arruinou o reino e iniciou o processo de declínio de Gondor.

Os Hobbits também tiveram seus casamentos trágicos, mesmo que o conflito não tivesse sempre sido entre marido e mulher, e nunca tenham levado a uma Guerra Civil. Drogo Bolseiro casou com Primula Brandebuque. Ele foi viver na Terra dos Buques, e acabou por adotar os costumes de seus novos parentes, como o de navegar no rio Baranduin [Brandywine]. Um dia, Drogo e Primula se afogaram em um acidente de barco, deixando seu filho, Frodo, órfão. Frodo foi viver com seu tio Bilbo Bolseiro, chefe oficial da família dos Bolseiros. Mesmo que fosse predestinada a grandeza de Frodo, nenhum Hobbit jamais pensou que este provocaria a Queda de Sauron. Ele pagou um grande preço por isso, pois teve que agüentar um grande tormento espiritual, mesmo depois que Sauron já havia sido vencido. Frodo foi tão "machucado" pela experiência de ser um portador do anel que acabou por ser admitido na Terra Abençoada além do mar, onde ele poderia ter seu espírito curado e uma morte em paz digna de seus feitos.

Um casamento muito mais feliz, sem dúvida, foi o casamento entre Sam Gamgee e Rose Cotton. Sam e Rose eram primos de terceiro grau, então não eram tão próximos. A família de Sam pertencia à classe trabalhadora dos Hobbits. Alguns deles eram "fazedores de corda", e alguns eram jardineiros. O pai de Sam, Hamfast, se tornou um jardineiro na Rua dos Bolseiros, servindo primeiramente Bilbo e mais tarde Frodo, e depois Sam tomou suas responsabilidades de jardineiro para com os Bolseiros.

A família de Rose vivia próxima da cidade de Bywater. Eles eram fazendeiros, mas bastante respeitados e apreciados. Quando Sam ainda era criança, muitas vezes passava seu tempo com os filhos dos Cotton, e até relembrou brincar com eles no lago enquanto ele e Frodo atravessavam Mordor a caminho da Montanha da Perdição. A coragem de Sam e sua fidelidade são geralmente a razão pelos seus créditos. Quando Galadriel recebeu os oito membros que sobreviviam do "Conselho do Anel" em Lórien, ela testou o espírito de cada um deles, e parece que o teste de Sam foi ter a oportunidade de voltar para o Condado e viver ao lado de Rose.

A história de Sam e Rose Cotton dificilmente pode ser percebida entre as páginas do Senhor dos Anéis, e muitos leitores parecem surpresos quando Sam de repente aparece com uma namorada que é orgulhosa dele, mesmo sem que saiba um de seus feitos junto a Frodo pelo bem do mundo, e pouco depois já estão casados. Rose tem uma vida longa pela frente, e nem tudo é fácil, pois, ela e Sam tiveram 13 pequenos hobbits para ser criados e alimentados [e crianças hobbit comem muito!].

Não existe nada realmente trágico quanto ao casamento de Sam e Rose. Ele é quase o casamento ideal. O único porém é que Sam fica dividido entre o amor por Frodo e o seu amor pela Terra-média. Ele se sente preso no próprio mundo que salvou, e Rose, enquanto viva, era a única razão para ele continuar vivendo, sendo o único remédio para a sua alma; pois Sam também havia usado
o Um Anel, e ainda sentia as cicatrizes em sua alma, mesmo que durante sua juventude a ferida não parecesse tão perigosa nem visível quanto a de Bilbo e Frodo. No final, depois da Senhora Rose morrer, e Sam cumprir tudo o que podia, ouve um chamado para o mar, e deixa a Rua dos Bolseiros e sua vida para trás, tomando passagem em um barco que com certeza esperava por ele há muito tempo.

Mas seu casamento, como o de Aragorn, terminou feliz, pois ele estava com Rose e Aragorn estava com Arwen, e mesmo que um ou o outro acabe por deixar a vida, pelo menos tinham memórias felizes para consolá-los, e sabiam que suas vidas haviam sido cheias de amor. E para um Hobbit, viver tão cheio de amor quanto um Rei ou Rainha de Númenor,talvez não seja algo tão pequeno assim.

Tradução de Fábio Bettega

A ponta do iceberg: Bem vindo í  Terra-Média, peregrino!

Em "Rios e Faróis das Colinas de Gondor", J.R.R. Tolkien
adicionou novos elementos para a complexa pseudo-história da
Terra-Média. Ele inventou histórias para as palavras, explicando o
porquê de certas regiões de Gondor terem os nomes que têm.

 

 

 
Arnach é dito ser de origem pré-numenoreana nos
apêndices do Senhor dos Anéis (SdA), e essa hipótese é repetida no
"Rios e Vales de Gondor". Mas uma história conhecida é atribuída ao
nome Arnen, assim como uma explicação intuitiva é oferecida logo após,
como correção. Arnen, ao que parece, foi o nome que Isildur deu à todas
as terras que tomou como suas (Ithilien). Mas eventualmente ficou
associado apenas com os vales, propriamente chamados de Emyn Arnen, que
o autor anônimo de um documento gondoriano chamou de Ondonore
Nomesseron Minaþurie (o símbolo þ é chamado de "thorn" e é associado
com um som similar ao "th-" em "thanks").


O
estudo "The Ondonore Nomesseron Minaþurie" é traduzido como "Estudo
sobre os Nomes dos Locais de Gondor" e é atribuído ao período em que
Meneldil reinou, já que "nenhum evento depois desse foi mencionado".
O documento é citado apenas brevemente (e pode não existir, embora o
texto "Rios e Vales" — publicado no Contos Inacabados e Vinyar Tengwar
nº 42 — diz nada sobre Tolkien ter escrito um documento).


O nome Arnen, como argumenta esse escolástico gondoriano, deve ter sido
uma errônea composição Quenya-Sindarin feita pelos numenoreanos que
exploraram e colonizaram a região (eram soldados, colonizadores e
marinheiros — com certeza, a linha de frente da sociedade
numenoreana). Apesar de derivar principalmente dos numenoreanos Fiéis
do oeste de Numenor, onde muitos Beorians fluentes em Sindarin tinham
feito moradia, essas pessoas tinham pouco ou nenhum conhecimento de
Sindarin e Quenya. Ainda, o autor deduz, Arnen provavelmente
significava originalmente "perto da água" (do Anduin), e Emyn Arnen
simplesmente significava "os vales nascendo em Arnen"


Pelos numenoreanos Fiéis, num aparente ato de rebelião contra os Reis
falantes de Adunaico, terem colocado nomes élficos nos marcos do norte
da Terra-Média, os novos regentes (a Casa de Elendil) aceitaram os
nomes incorretos que "se tornaram comuns". Isto é, os reis e senhores
de tradição aceitaram qualquer nome que eram usados em larga escala no
reino de Gondor.


A Casa de Elendil trouxe
ordem ao caos linguístico que reinou na Terra-Média. Na região de
Gondor, por exemplo, os Numenoreanos acharam "muitos povos
misturados, e numerosas ilhas de povos isolados, que dominam velhas
construções e constroem refúgios montanhosos contra invasores"
. Os "muitos povos misturados",
infelizmente, são mencionados numa nota interminada sobre o nome Bel-,
que coloca Círdan entre os Noldor. Christopher especula que seu pai
percebeu a gafe e decidiu esquecer a passagem inteira. É esta nota que
oferece a história alternativa pro porto de Edhellond, onde diz que
este foi fundado por Sindar ressentido com os Noldor.


Apesar de tudo, ignorando a clara indicação de que Tolkien abandonou a
nota etimológica em Bel-, parece claro que ele estava tentando
permanecer fiel à informação que ele proveu nos apêndices do SdA.
Também parece que ele estava tentando desenhar duas influências
históricas como modelos para o começo de Gondor. Um desses modelos era
pós-romano, pré-Bretanha medieval (por volta do meio do século V).
Durante esse tempo toda a área estava em desenvolvimento, e as línguas
migravam livremente entre os povos.


Alguns
estudiosos acreditavam, mesmo durante a época de Tolkien, que os
Romano-Celtas foram apenas parcialmente doutrinados na cultura Romana
depois de 400 anos, possuído as baixadas e residiram nas costas da
Bretanha. Mais primitivos ou menos romanizados, os celtas moraram em
País de Gales, Cornwall e Escócia. E, claro, ainda haviam celtas na
Irlanda cujos contatos com Roma eram poucos (ao menos, na época de
Tolkien, havia pouca evidência da intrusão romana na Irlanda). Nestes
vários grupos de Celtas (sendo que alguns chegaram pouco antes que os
romanos, e absorveram ou expulsaram povos ainda mais antigos) estavam
mercenários alemães da Saxônia e Dinamarca, os seguidores de Hengist e
Horsa.


O latim estava, então,
misturando-se com os dialetos celtas e germânicos, e era eventualmente
substituído pelos invasores germânicos, apesar de sobreviver em nomes
de lugares (como Londres, de Londinium, Colechester, etc.) que os
germânicos adotaram. Os germânicos aceitavam os nomes que estavam em
uso corrente para regiões e cidades, mas deram seus próprios nomes para
suas cidades, fortalezas, reinos e marcos.


Um desenvolvimento paralelo, do qual Tolkien estava plenamente atento,
ocorreu na América do Norte entre os séculos XVII e XVIII. À medida que
os colonizadores ingleses se espalhavam pela costa norte-americana,
eles se misturaram com os povos nativo-americanos, espanhóis, franceses
e alemães. Os exploradores ingleses , trouxeram consigo as fundações da
língua e cultura inglesas, mas eles não eram pouco mais que
foras-da-lei e rebeldes fugindo da opressão de sua terra natal,
particularmente pela opressão religiosa. Os puritanos que colonizaram a
Nova Inglaterra de certa forma lembram os Fiéis numenoreanos, que
evitavam as crenças adotadas pelos seus reis.


A América do Norte, como a Inglaterra no começo, e como Gondor, está
recheada de nomes de lugares de várias línguas. A mais antiga colônia
européia na costa leste, por exemplo, é St. Augustine (São Agostinho),
fundado pelos franceses, roubado pelos espanhóis, e ultimamente cedido
aos EUA como parte da Florida. Mas há nomes de lugares de línguas
nativo-americanas, e construtos híbridos, assim como feitos do latim e
do grego (como Augusta de Filadélfia, respectivamente).


Quando a Bretanha virou Inglaterra, a antiga cultura romana foi jogada
de lado ou abandonada, e os invasores germânicos tinham que construir
uma herança cultural totalmente nova em termos de literatura, cultura e
arquitetura. Enquanto as revoltadas colônias americanas formavam sua
própria nação, eles batalhavam para reter sua identidade inglesa. Por
décadas as famílias ricas mandavam seus filhos para estudarem em
universidades inglesas. Eles esperavam a última moda sair da Inglaterra
e da França. O novo EUA, como o novo Gondor, teve que começar sua nova
sociedade quase do nada.


A América do
Norte foi abençoada com uma leva de jovens filhos e filhas que, saindo
das altas classes mercantis inglesas, trouxeram um riquezas,
conhecimento e determinação para estabelecer suas famílias no Novo
Mundo, nas colônias. Eles construíram uma fundação educacional,
literária e industrial onde a cultura norte-americana foi aparecendo
geração após geração (influenciada por imigrantes de todo o mundo).


No começo, Arnor e Gondor foram cortados de Númenor, assim como a
Inglaterra cortou os EUA. Elendil e seu povo tiveram que construir sua
civilização com menos recursos que os EUA possuíam. Os nove barcos dos
Fiéis que sobreviveram à Queda de Númenor devem ter provido para as
regiões fronteiras de Arnor e Gondor com uma pequena mas
auto-sustentável classe intelectual. O "Rios e Vales" diz que os
intelectuais – pessoas estudadas que entendiam Quenya e Sindarin –
vieram por último. É então razoável dizer que a chegada de Elendil na
Terra-Média inferiu uma revolução cultural que mudou para sempre o mapa
socio-tecnológico do mundo do Norte.


O
significado da chegada tardia da classe intelectual não pode ser
enfatizada. Tudo pode ter mudado. Onde previamente os homens das
fronteiras sobreviviam parcamente, possivelmente juntando-se com os
clãs nativos de Gwathuirim e outros povos que habitavam o Ered Nimrais,
Elendil e seus filhos trouxeram um grupo militar de puristas
numenoreanos para as praias e decidiu reconstruir Númenor à sua imagem.
O "Rios e Vales" diz que eles retiveram algumas das tradições botânicas
numenoreanas (por falta de uma frase melhor).


Discutindo o significado de Arnach e Lossarnach, Tolkien decidiu que
loss- referia-se às flores das árvores frutíferas da região, plantadas
nos pomares pelos numenoreanos. Esses pomares ofereciam frutas frescas
para Minas Tirith mesmo durante a Guerra do Anel. Eram importantes para
Gondor como as oliveiras para os gregos. As flores de Lossarnach eram
tão variadas e belas que o povo de Minas Tirith/Anor faziam "expedições rumo a Lossarnach para ver as flores e árvores…"


Ioreth, a idosa senhora que trabalha nas Casas de Cura de Minas Tirith,
falou de vaguear pelas matas com suas irmãs, e ela mencionouas rosas de
Imloth Melui, que ela apreciava quando jovem. Ela era versada em velhas
rimas e conhecia os nomes comuns das plantas (pelo menos, do athelas,
que ela reconheceu como folha-do-rei). Algo da tradição fronteiriça
sobreviveu à influência civilizante do grupo de Elendil, ou a
civilização foi perdendo-se pelos anos nos altos e baixos da
civilização gondoriana.


O People of
Middle-Earth indica que Isildur e Anarion fundaram as cidades de Minas
Anor, Minas Ithil e Osgiliath. De fato, Osgliath foi a primeira cidade
que eles construíram. Eles devem ter juntado o maior número possível de
pessoas locais que encontraram e tentaram explicar-lhes como se
constrói uma cidade. Cada passageiro nos 9 barcos deveria valer seu
peso em mithril, pois seu conhecimento em como Númenor funcionava era
insuperável. Os numenoreanos nativos deveriam ser para seus primos da
Terra-Média como Noldor recém-chegados de Aman se hospedando em meio
aos Nandor.


Acerca dos povos da
Terra-Média, o "Rios e Vales" também contém uma passagem – cancelada
por Tolkien – que discute a prática de construir templos, que os
numenoreanos não seguiam por ser contra a doutrina de Sauron. Nas
Sendas dos Mortos há um templo ancião, que o malfadado Baldor tentou
invadir. Ele foi atacado por trás (provavelmente por Gwathuirim que
reverenciavam a área), seguindo-o até as Sendas dos Mortos. Leitores
tolkienianos resolveram assumir como certo a morte inexplicada de
Baldor causada pelos Mortos, mas este aparentemente não é o caso.


Este ensaios proporcionam novos vislumbres da visão de Tolkien sobre a
Terra-média. Mas também criam novas perguntas tanto quanto se esforçam
para responder questões antigas. Uma porta foi aberta mas nós não
podemos fazer mais nada além de espiar no canto, pois os tesouros que
permanecem daquela porta antes proibida são inimigináveis. Nós nunca
iremos, claro, tomá-los corretamente, pois o próprio Tolkien nunca o
teve completamente. Mas com cada revelação nós chegamos um passo mais
perto de ver o panorama se seu coração. As legiões paradas nas colinas
e os clâs movendo-se silenciosamente pelas florestas, as garotas rindo
nas campinas, os fazendeiros com seus pomares – mesmo os velhos
marinheiros consertando seuas redes e relembrando como foram para o mar
pela primeira vez – tudo se combina para nos mostrar um mundo repleto
de maravilhas e prazeres da juventude do homem.


[Tradução de Aarakocra]