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A "Comunhão dos Santos" na obra de J. R. R. Tolkien

Há uma verdade da fé católica que permeia toda a obra de J.R.R. Tolkien, talvez não percebida claramente pelos seus leitores cristãos, que é a “Comunhão dos Santos”.

Colin Duriez, em seu “J.R.R. Tolkien Handbook”, lembra:          “Tolkien is particularly concerned with time, and Christian apocalyptic. That is, his theme is to reveal the essencial meaning behind human history. Pre-eminently like the biblical Book of Revelation, he is concerned to bring hope and consolation in dark and difficult days” (Baker Books – 1992 – Michigan, pg. 59).

Com efeito, a realidade da “Comunhão dos Santos” é uma das verdades mais consoladoras da fé cristã: a realidade de que não estamos sós.

Impressiona verificar, especialmente nas obras “O Senhor dos Anéis” e “O Silmarillion”, como as vitórias e derrotas pessoais de muitos personagens são sentidas, à distância, pelos demais protagonistas das sagas, que se fortalecem ou se entristecem, sem motivo aparente, mas concomitantemente. Nota-se uma “comunicação invisível” ou “comunhão mística” entre os protagonistas da Guerra dos Anéis.

Essa ligação inexplicável que se capta entre as pessoas é reconhecida no “Credo”, que os católicos recitam todos os domingos na Missa, plasmada na expressão “Comunhão dos Santos”, como uma das verdades reveladas por Cristo e verbalizada por S. Paulo nos seguintes termos, ao falar do “Corpo Místico de Cristo”, ou seja, da união invisível e, por isso, misteriosa, que existe entre Cristo e todos os cristãos:

“Como o corpo é um todo tendo muitos membros, e todos os membros do corpo, embora muitos, formam um só corpo, assim também é Cristo. Em um só Espírito fomos batizados todos nós, para formar um só corpo, judeus ou gregos, escravos ou livres; e todos fomos impregnados do mesmo Espírito. Assim o corpo não consiste em um só membro, mas em muitos. (…) Se um membro sofre, todos os membros padecem com ele; e se um membro é tratado com carinho, todos os outros se congratulam por ele. Ora, vós sois o corpo de Cristo e cada um, de sua parte, é um dos seus membros. (I Cor 12, 12-27) (grifos nossos).

S. Tomás de Aquino fala de forma concisa dessa realidade sobrenatural: “Uma vez que todos os crentes formam um só corpo, o bem de uns é comunicado aos outros” (“Expositio in Symbolum Apostolicum”, 10). Não é uma realidade meramente natural, uma vez que o fundamento está na união espiritual de todos os cristãos-membros com Cristo-Cabeça, por Quem nos vêm todas as graças, ou seja, as ajudas espirituais que iluminam a inteligência e movem a vontade para a prática do bem.

O Catecismo da Igreja Católica resume essa verdade da fé nos seguintes termos:

“Cremos na comunhão de todos os fiéis de Cristo, dos que são peregrinos na terra, dos defuntos que estão terminando a sua purificação, dos bem-aventurados do céu, formando todos juntos uma só Igreja, e cremos que nesta comunhão o amor misericordioso de Deus e dos seus santos está à escuta das nossas orações” (n. 962).

Portanto, a realidade da “Comunhão dos Santos” é mais ampla do que se possa imaginar: abarca a Igreja Militante (os que ainda peregrinam pela Terra em busca de sua salvação), a Igreja Padecente (das almas que se encontram purificando no Purgatório) e a Igreja Triunfante (dos santos que já se encontram gozando da visão de Deus no Paraíso).

“La visión de Dios hará que el hombre se conozca mejor a sí mismo no sólo en su dimensión individual y particular, sino en cuanto unión con los demás a través de la comunión” (Blanca Castilla y Cortázar, “Comunión de Personas y Dualidad Varón-Mujer”, in “Estudios sobre el Catecismo de la Iglesia Católica”, Unión Editorial – 1996 – Madrid, pg. 191). Ou seja, a relação de cada um com a cabeça – Deus Pai Criador –, de verdadeira filiação, estabelece um laço de fraternidade não meramente retórica, mas palpavelmente sentida.

Ora, essa comunhão significa, fundamentalmente, um laço espiritual entre todos os cristãos em particular e entre todos os homens em geral, pela qual as orações e sacrifícios de uns lucram misteriosamente para todos aqueles para quem eles são dirigidos. Ou seja, mesmo isolado, o cristão sabe que conta com o apoio, as orações e os sacrifícios de todos os seus irmãos na fé, que lhe aumenta a graça santificante e o fortalece na refrega.

A idéia central da “Comunhão dos Santos”, que se percebe também na saga tolkiana, é a de que, na luta cósmica entre o Bem e o Mal, que se plasma na luta interior que cada um trava consigo mesmo para viver de acordo com a dignidade humana, nunca estamos sozinhos, mesmo que, fisicamente, possamos estar isolados.

Há uma relação misteriosa entre todos os seres, pela qual a vitória de um no caminho do Bem é um pouquinho a vitória de todos e a derrota de um é um pouquinho a derrota de todos.

Fazendo o paralelismo da “Comunhão dos Santos” com o “Senhor dos Anéis”, o diálogo entre Pippin e Beregond, enquanto visitam as muralhas de Gondor, ainda que longo, dá-nos uma primeira pista de que não se está sozinho na grande batalha da vida e que se sente a alegria ou tristeza no coração com a presença do Bem ou do Mal:

- Mas, se quer saber qual, na minha opinião, seria o motivo de os faróis se acenderem, foi a noticia que chegou ontem á noite de Lebennin. Há uma grande esquadra se aproximando da foz do Anduin, liderada pelos corsários de Umbar no sul. Já faz tempo que deixaram de temer o poder de Gondor, e se aliaram ao Inimigo, e agora desferem um pesado golpe a favor dele. Pois esse ataque retirará grande parte da ajuda que procurávamos conseguir de Lebennin e Belfalas, onde o povo é valente e numeroso. Mais que nunca voltamos nossos pensamentos para o norte e para Rohan, e estamos muito alegres por essa noticia de vitória que vocês trazem agora.

- E mesmo assim – ele parou e se levantou, olhando em volta, para o norte, o leste e o sul – os acontecimentos em Isengard devem nos advertir de que estamos presos numa grande rede e estratégia. Não é mais uma contenda nos vaus, atacando por Ithilien e por Anórien, com emboscadas e pilhagens. Esta é uma grande guerra planejada há muito tempo, e nela somos apenas uma peça, não importa o que o orgulho possa dizer. As coisas estão se movendo no extremo leste, além do Mar Interno, sabemos pelos relatos; e também no norte, na Floresta das Trevas e mais além; e ao sul em Harad. E agora todos os reinos deverão ser submetidos à prova, para resistir ou cair sob a Sombra.

- Apesar disso, Mestre Peregrin, temos esta honra: sempre fomos o alvo do maior ódio do Senhor do Escuro, pois esse ódio vem das profundezas do tempo, por sobre as profundidades do Mar. Aqui o golpe do martelo será mais forte. E por esse motivo Mithrandir veio até aqui com tanta pressa. Pois, se cairmos, quem resistirá? E, Mestre Peregrin, você tem alguma esperança de que possamos resistir?

Pippin não respondeu. Olhou as grandes muralhas, e as torres e as altivas bandeiras, e o sol no céu alto, e depois para a escuridão que se adensava no leste; pensou nos longos dedos daquela Sombra: os orcs das florestas e montanhas, a traição de Isengard, os pássaros de olhos malévolos, e os Cavaleiros Negros até mesmo nas alamedas do Condado – e pensou também no terror alado, os nazgúl. Estremeceu, e teve a impressão de que a esperança definhava. E naquele exato momento o sol, por um instante, vacilou e foi obscurecido, como se uma asa negra tivesse passado por ele. Quase inaudível ele teve a impressão de captar, alto e muito acima nos céus, um grito: fraco, mas de estremecer o coração, cruel e frio. Ficou branco e encolheu-se contra a muralha.

- Que foi isso? – perguntou Beregond. – Você também sentiu alguma coisa?

- Senti – murmurou Pippín. – É o sinal de nossa queda, e a sombra da destruição, um Cavaleiro Cruel dos ares.

- Sim, a sombra da destruição – disse Beregond. – Receio que Minas Tírith deva cair. A noite se aproxima. O próprio calor de meu sangue parece que me foi roubado. Por um tempo ficaram sentados juntos, cabisbaixos e calados. Então, de repente, Pippin ergueu os olhos e viu que o sol ainda estava brilhando e as bandeiras continuavam tremulando ao vento. Sacudiu o corpo.

- Passou – disse ele. – Não, meu coração ainda não vai se desesperar. Gandalf pereceu, retornou e está conosco. Podemos resistir, nem que seja numa só perna, ou até mesmo de joelhos.

- Muito bem dito! – exclamou Beregond, levantando-se e andando de um lado para o outro em largas passadas.

- Não, embora todas as coisas irremediavelmente devam chegar a um fim em determinada hora, Gondor ainda não perecerá. Nem mesmo se as muralhas forem tomadas por um inimigo impiedoso que construa uma parede de cadáveres diante delas. Ainda há outras fortalezas, e caminhos secretos de fuga para dentro das montanhas. A esperança e a memória ainda viverão em algum vale oculto, onde a relva é verde” (J.R.R. Tolkien, “O Senhor dos Anéis”, Martins Fontes – 2001 – São Paulo, pgs. ) (grifos nossos).

No caso das forças do Mal, a relação de dependência fica ainda mais patente na passagem em que Sauron descobre, no último momento, a estratégia de seus inimigos:

“(…) De repente o Senhor do Escuro percebeu a presença do hobbit, e seu Olho, penetrando todas as sombras, atravessou a planície na direção da porta que ele fizera; e a magnitude de sua própria loucura revelou-se a ele num clarão cegante, e todas as estratégias de seus inimigos foram finalmente desnudadas diante de seus olhos. Então sua ira incandesceu-se numa chama devoradora, mas seu medo ergueu-se como uma vasta fumaça para sufocá-lo. Pois ele sabia do perigo mortal que estava correndo, e percebia o fio pelo qual estava agora pendurado seu destino.

De todas as suas estratégias e teias de medo e traição, de todos os seus estrategemas e suas guerras sua mente se libertou, e todo o seu reino foi atravessado por um temor, seus escravos vacilaram, seus exércitos pararam e seus capitães, subitamente sem liderança, desprovidos de vontade, hesitaram e se desesperaram. Pois foram esquecidos. Toda a mente e o propósito do Poder que os controlava concentravam-se agora com uma força arrasadora na Montanha. A um chamado seu, rodopiando com um grito lancinante, numa última corrida desesperada voaram, mais rápidos que os ventos, os nazgûl, os Espectros do Anel, e com uma tempestade de asas arremessaram-se em direção ao sul para a Montanha da Perdição” (J.R.R. Tolkien, “O Senhor dos Anéis”, op. cit., pg. 1002) (grifos nossos).

Além da idéia da “comunhão invisível” que existia entre Sauron e seus comandados, essa passagem traz à reflexão (e que poderia ser objeto de um estudo exclusivo sobre ela) a necessidade de concentração no que é o principal. Quantas vezes gastamos nosso tempo e mente no supérfluo e esquecemos do necessário, do essencial para nossa vida (mas esta reflexão fica para um próximo artigo).

Como não lembrar, também, que a morte de Boromir é pressentida ao longe por seu pai Dénethor e seu irmão Faramir, conforme o relato que segue (com a devida vênia pela longa transcrição):

“Apesar disso, sentia em seu coração que Faramir, embora fosse muito semelhante ao irmão na aparência, era um homem menos arrogante, ao mesmo tempo mais austero e mais sábio.

— Recordo-me de que Boromir levava uma corneta — disse Frodo finalmente.

— Recorda-se bem, e como uma pessoa que esteve realmente com ele — disse Faramir. — Então talvez consiga ver com os olhos de sua mente: uma grande corneta, feita do chifre do boi selvagem do leste, adornada de prata, e com inscrições em caracteres antigos. Essa corneta os primogênitos de nossa casa carregaram por várias gerações; e afirma-se que se ela fosse tocada num momento de necessidade em qualquer lugar dentro das fronteiras de Gondor, como era o reinado antigamente, sua voz não passaria despercebida.

— Cinco dias antes de minha partida nesta jornada, há onze dias, por volta desta hora, ouvi o soar daquela corneta: parecia vir do norte, mas chegava fraco, como se fosse um eco na mente. Achamos que era um mau presságio, meu pai e eu, pois não tivéramos notícias de Boromir desde sua partida, e nenhuma sentinela em nossas fronteiras o tinha visto passar. E três noites depois uma outra coisa, ainda mais estranha, me aconteceu.

— Estava sentado á noite à beira do Anduin, na escuridão cinzenta sob uma pálida lua nova, observando a correnteza sempre em movimento, e ouvindo o farfalhar dos juncos tristonhos. Temos sempre o costume de vigiar as margens perto de Osgiliath, que nossos inimigos agora em parte detém, e através das quais enviam expedições para saquear nossas terras. Mas naquele dia o mundo todo adormeceu à meia-noite. Então eu vi, ou tive a impressão de ter visto, um barco flutuando na água, emitindo um vago brilho cinzento, um pequeno barco de formato esquisito com uma proa alta, e não havia ninguém para remar ou conduzi-lo.

— Fui tomado de espanto, pois uma luz pálida o envolvia. Mas levantei-me e me dirigi à margem, e comecei a caminhar para dentro da correnteza, pois me sentia atraído por ele. Então o barco se virou na minha direção, diminuindo de velocidade e flutuando lentamente até chegar ao alcance de minha mão, mas eu não ousei tocá-lo. Calava fundo, como se carregasse um grande peso, e conforme passou sob meu olhar tive a impressão de que estava quase totalmente repleto de água limpa, da qual emanava a luz; no seio da água, um guerreiro jazia dormindo.

— Havia uma espada quebrada sobre seu joelho. Vi muitos ferimentos em seu corpo. Era Boromir, meu irmão, morto. Reconheci seus indumentos, sua espada, seu amado rosto. De uma coisa apenas senti falta: a corneta. Uma coisa apenas não reconheci: um belo cinto, que parecia ser feito de folhas de ouro, cingindo-lhe a cintura. Boromir!, gritei eu. Onde está tua corneta? Aonde vais tu, ó Boromir? Mas ele se fora, O barco voltou a acompanhar a correnteza e desapareceu tremeluzindo noite adentro. Foi como um sonho, mas não foi um sonho, pois não houve despertar. E não tenho dúvidas de que ele está morto e passou descendo o Rio em direção ao Mar” (J. R. R. Tolkien, “O Senhor dos Anéis”, op. cit., pgs. 700-701).

A realidade da “Comunhão dos Santos” tem também como derivativo a conclusão de que, pelo fato de ninguém estar nos vendo, não deixamos de estar obrigados a nos comportar bem, ou que o ato heróico que devamos praticar não mereça ser feito. Sam fala a respeito disso com Frodo, quando estão prestes a entrar no Reino de Mordor (mais uma vez, pedimos desculpas pela extensão da transcrição, mas que vale a pena relembrar):

-É, é isso mesmo – disse Sam. – E de modo algum estaríamos aqui se estivéssemos mais bem informados antes de partir. Mas suponho que seja sempre assim. Os feitos corajosos das velhas canções e histórias, Sr. Frodo: aventuras, como eu as costumava chamar. Costumava pensar que eram coisas à procura das quais as pessoas maravilhosas das histórias saiam, porque as queriam, porque eram excitantes e a vida era um pouco enfadonha, um tipo de esporte, como se poderia dizer. Mas não foi assim com as histórias que realmente importaram, ou aquelas que ficam na memória. As pessoas parecem ter sido simplesmente embarcadas nelas, geralmente – seus caminhos apontavam naquela direção, como se diz. Mas acho que eles tiveram um monte de oportunidades, como nós, de dar as costas, apenas não o fizeram. E, se tivessem feito, não saberíamos, porque eles seriam esquecidos. Ouvimos sobre aqueles que simplesmente continuaram – nem todos para chegar a um final feliz, veja bem; pelo menos não para chegar àquilo que as pessoas dentro de uma história, e não fora dela, chamam de final feliz. O senhor sabe, voltar para casa, descobrir que as coisas estão muito bem, embora não sejam exatamente iguais ao que eram – como aconteceu com o velho Sr. Bilbo. Mas essas não são sempre as melhores histórias de se escutar, embora possam ser as melhores histórias para se embarcar nelas! Em que tipo de história teremos caído?

-Também fico pensando – disse Frodo. – Mas não sei. E é assim que acontece com uma história de verdade. Pegue qualquer uma de que você goste. Você pode saber, ou supor, que tipo de história é, com final triste ou final feliz, mas as pessoas que fazem parte dela não sabem. E você não quer que elas saibam.

-Não, senhor, claro que não. Veja o caso de Beren: ele nunca pensou que ia pegar aquela Silmaril da Coroa de Ferro em Thangorodrim. E apesar disso ele conseguiu, e aquele lugar era pior e o perigo era mais negro que o nosso. Mas é uma longa história, é claro, e passa da alegria para a tristeza e além dela – e a Silmaril foi adiante e chegou a Eãrendil. E veja, senhor, eu nunca tinha pensado nisso antes! Nós temos – o senhor tem um pouco da luz dele naquela estrela de cristal que a Senhora lhe deu! Veja só, pensando assim, estamos ainda na mesma história! Ela está continuando. Será que as grandes histórias nunca terminam?

-Não, nunca terminam como histórias – disse Frodo. – Mas as pessoas nelas vêm e vão quando seu papel termina. Nosso papel vai terminar mais tarde – ou mais cedo.

-E então poderemos descansar e dormir um pouco – disse Sam. Sorriu de um modo sombrio. – E quero dizer exatamente isso, Sr. Frodo. Quero dizer um simples descanso comum, e sono, e acordar para uma manhã de trabalho no jardim. Receio que isso seja tudo que estou esperando todo o tempo. Todos os grandes planos importantes não são para pessoas como eu. Mesmo assim, fico imaginando se seremos colocados em canções e histórias. Estamos numa, é claro; mas quero dizer: transformados em palavras, o senhor sabe, contadas perto da lareira, ou lidas de grandes livros com letras pretas e vermelhas, anos e anos depois. E as pessoas vão dizer: “Vamos escutar sobre Frodo e o Anel!” E eles vão dizer: “Sim, essa é uma de minhas histórias favoritas. Frodo foi muito corajoso, nao foi, papai?” Sim, meu filho, o mais famoso dos hobbits, e isso significa muito.”

-Significa muito demais – disse Frodo e riu, um riso longo e claro, que vinha do fundo de seu coração. Um som assim não se ouvia naquelas partes desde que Sauron chegara à Terra-média. Sam de repente teve a impressão de que todas as pedras estavam escutando e todas as rochas se debruçavam sobre eles. Mas Frodo não deu atenção a elas e riu de novo.

– Olhe, Sam, ouvir você me faz rir como se a história já estivesse escrita. Mas você deixou de fora um dos principais personagens Samwíse, o bravo. “Quero ouvir mais sobre Sam, papai. Por que ele não falou mais coisas, papai? É disso que eu gosto. Acho engraçado. E Frodo não teria ido muito longe sem Sam, teria, papai?”

-Ora, Sr. Frodo – disse Sam -:” o senhor não devia caçoar. Eu estava falando sério.

-Eu também estava – disse Frodo. – Eu também estou. Estamos indo meio rápido demais. Você e eu, Sam, ainda estamos enfiados nos piores lugares da história, e é bem provável que alguns digam neste ponto: “Feche o livro, papai, não queremos ler mais nada.”

-Pode ser – disse Sam -:” mas eu não diria isso. Coisas feitas e terminadas, que já fazem parte das grandes histórias, são diferentes. Veja bem, até Gollum poderia ser bom numa história, melhor do que tê-lo ao seu lado, de qualquer forma. E houve um tempo em que ele mesmo gostava de histórias, por conta própria. Será que ele se considera o herói ou o vilão?

-Gollum! – chamou ele – Você gostaria de ser o herói ora, onde ele se meteu de novo?” (J. R. R. Tolkien, “O Senhor dos Anéis”, op. cit., pgs. 750-7521).

Essa espécie de ligação mística entre todos os homens, pela qual uns influenciam a vida de outros, não só pelo exemplo, mas pelas próprias ações boas ou más, fazendo crescer ou diminuir o Bem no mundo, é lembrada em outra conhecida saga do século XX: “Guerra nas Estrelas”.

A percepção que Luke Skywalker, Darth Vader, Obi-Wan-Kenobi, Yoda e a Princesa Leia Organa, para citar apenas os principais personagens, têm do que está acontecendo com os demais, é atribuída à Força que os sustem, como o Deus que se confunde com a Natureza e a Energia do Universo, típica da visão panteísta spinoziana, assumida por Einstein.

Assim fala dela Stephen J. Sansweet: “The Force – both a natural and mystical presence, it is an energy field that suffuses and bindes the entire galaxy. The Force is generated by all living things, surrounding and penetrating them with its essence. Like most forms of energy, the Force can be manipulated, and it is knowledge and predisposition to do so that empowers the Jedi Knights, and the dark siders and Sith” ( “The Complet Star Wars Encyclopedia”, Ballantine Books – 2008 – New York).

Chame-se “Comunhão dos Santos”, “Força”, “Sexto Sentido”, o fato é que a comunicação de bens espirituais se mostra uma realidade percebida e decantada não apenas pela Fé Cristã, mas também por outras tradições. O importante é descobrir que, em nossas batalhas cotidianas em busca da construção de um mundo melhor, mais digno e solidário, não estamos sós, por mais que isso possa parecer. Nosso esforço, ainda que pareça inútil e estéril, tem uma importância capital, pelo suporte que dá, imperceptível talvez para nós, mas real, aos demais.

Esta perspectiva cristã da obra de Tolkien e que tanto me chamou a atenção ao ler seus livros não a encontrei na excelente obra “A Hidden Presence: The Catholic Imagination of J.R.R. Tolkien”, organizada por Ian Boyd e Stratford Caldecott (The Chesterton Press – 2003 – South Orange). Talvez não passe de uma intuição pessoal, mas não consigo deixar de pensar nela ao ler a Saga dos Anéis do Poder.

Para concluir, vêm bem a calhar alguns pontos do livro “Caminho” (Quadrante – São Paulo – 1999, 9ª edição) de São Josemaria Escrivá, que tratam dessa relação misteriosa entre todos os cristãos e que podem nos servir de estímulo e ânimo na luta cotidiana no cumprimento de nossos deveres profissionais, familiares e sociais, e de nossa missão na vida. Citemos apenas quatro:

544 Comunhão dos Santos. – Como dizer-te? – Sabes o que são as transfusões de sangue para o corpo? Pois assim vem a ser a Comunhão dos Santos para a alma.

A imagem é paradigmática. E mais. Usava S. Josemaria a figura dos “vasos comunicantes” da Física para explicar o fenômeno místico. O aumento de graça em um dos vasos, se fosse líquido, faria aumentar um pouco a graça em todos os demais, e vice-versa quanto à diminuição.

545 Vivei uma particular Comunhão dos Santos. E cada um sentirá, à hora da luta interior, e à hora do trabalho profissional, a alegria e a força de não estar só.

546 Filho: que bem viveste a Comunhão dos Santos quando me escrevias: “Ontem senti que o senhor pedia por mim”!

549 Terás mais facilidade em cumprir o teu dever, se pensares na ajuda que te prestam os teus irmãos e na que deixas de prestar-lhes se não és fiel.

Na verdade, essa perspectiva da inter-relação entre todos nós só se compreende melhor tendo em vista a existência de um “Plano Superior” que dirige os acontecimentos para um Fim, plano esse a que os cristãos chamamos “Providência”. Mas esse tema, ligado à Sinfonia Criadora proposta por Illúvatar no início do Mundo (cfr. J.R.R. Tolkien, “O Silmarillion”, Martins Fontes – 2001 – São Paulo, pgs. 4-7), será tema de nossa próxima reflexão nesta coluna.

O Heroí­smo do Cotidiano

De todas as sagas que engalanam a Literatura Universal, cujo argumento central seja a luta cósmica entre o Bem e o Mal, nenhuma delas parece colocar tão de relevo que o segredo da vitória esteja na humildade quanto “O Senhor dos Anéis” de J. R. R. Tolkien. Entre todos aqueles personagens que se envolvem na Guerra dos Anéis, dois grandes heróis se destacam notoriamente: Frodo-dos-Nove-Dedos e seu fiel companheiro, Sam Gamgee, dois simples hobbits do Condado, as criaturas racionais mais pequenas e indefesas da epopéia tolkiana.

Quem poderia esperar, ao ler a obra-prima de Tolkien, que, para enfrentar os perigos mais terríveis e apavorantes na árdua missão de salvar a Terra Média do domínio do Senhor das Trevas, o grande estrategista da Guerra dos Anéis, Gandalf, confiaria a esses dois pacatos hobbits, o papel mais destacado e fundamental? Que qualidades o Mago Cinzento teria visto nesse povo miúdo, que passava praticamente despercebido entre os povos e reinos da Terra Média, capaz de nele depositar a última esperança de vitória sobre as forças poderosas e pavorosas vindas de Mordor?

Ao descrever, no primeiro capítulo de “O Senhor dos Anéis”, os hobbits, Tolkien esclarecia, na sua fantasia, sobre as virtudes desse povo discreto:

“Em grande parte, este livro trata de hobbits, e através de suas páginas o leitor pode descobrir muito da personalidade deles e um pouco de sua história. Os hobbits são um povo discreto mas muito antigo, mais numeroso outrora do que é hoje em dia. Amam a paz e a tranqüilidade e uma boa terra lavrada (…).

Mesmo nos tempos antigos, eles geralmente se sentiam intimidados pelas “Pessoas Grandes”, que é como nos chamam, e atualmente nos evitam com pavor e estão se tornando difíceis de encontrar. Têm ouvidos agudos e olhos perspicazes, e, embora tenham tendência a acumular gordura na barriga e a não se apressar desnecessariamente, são ligeiros e ágeis em seus movimentos. Possuem, desde o início, a arte de desaparecer rápida e silenciosamente (…).

São um povo pequeno, menores que os anões: menos robustos e troncudos, quer dizer, mesmo que na realidade não sejam muito mais altos, a sua altura é variável, indo de 60 centímetros a 1 metro e 20 centímetros em nossa medida (…).

Quanto aos hobbits do Condado, enfocados nesses contos, nos tempos de paz e prosperidade eram um povo alegre. (…) Em geral seus rostos eram mais simpáticos que bonitos; largos, com olhos brilhantes, bochechas vermelhas e bocas prontas para rir e para comer e beber. Assim eles riam, comiam e bebiam, freqüentemente e com entusiasmo, gostando de brincadeiras a qualquer hora, e também de cinco refeições por dia (quando podiam tê-las). Eram hospitaleiros e adoravam festas e presentes que ofereciam sem reservas e aceitavam com gosto (…).

A origem dos hobbits se situa nos Dias Antigos, agora perdidos e esquecidos. Os hobbits, de fato, viveram sossegadamente na Terra-média por muitos anos antes que qualquer outro povo tomasse conhecimento deles. E estando o mundo afinal de contas cheio de inumeráveis criaturas estranhas, esse pequeno povo parecia ter muito pouca importância. Mas na época de Bilbo e de Frodo, seu herdeiro, eles repentinamente se tornaram, sem que o desejassem, tanto importantes quanto renomados, e atrapalharam as deliberações dos Sábios e dos Grandes” (grifos nossos).

Esse descrição dos hobbits (pedindo-se desculpas pela longa transcrição) não é a de pessoas normais, que se encontram ao nosso lado e que somos nós mesmos? Com uma gordurinha a mais, com uns centímetros a menos, amantes da boa comida e bebida, brincalhões, “mais simpáticos que bonitos”? E, no entanto, com mais fraquezas que virtudes, em cada um de nós late no coração um desejo de grandes feitos, de grandes ideais, de heroísmo em suma. Penso que o próprio Tolkien, ao descrever os hobbits, fazia uma descrição de sua própria condição. Eram o povo de “seu” mundo com o qual mais se identificava. Em Bilbo escrevendo o “Livro Vermelho da Marca Ocidental” em Rivendell vejo o retrato do próprio Tolkien escrevendo “O Senhor dos Anéis”.

Mas como um povo tão pacato e “normal”, tão simples e desprovido de ambições poderia gerar “heróis” e influir tão decisivamente na transformação do mundo de seu tempo? Como nós próprios podemos, no lugar e condições em que nos encontramos, não obstante misérias e limitações, ter semelhante influxo benéfico, a ponto de conseguir mudar para melhor a sociedade em que vivemos, tão violenta e materialista, tão pouco solidária?

Impressiona a Gandalf a resistência que Bilbo teve aos efeitos deletérios do Um Anel, que tornava invisível a pessoa que o usava, mas que a corrompia paulatinamente, pelo domínio polarizador que exercia sobre a pessoa. Talvez o que explique essa força de vontade do velho hobbit, único a se desfazer espontaneamente do Um Anel (lembre-se que tanto Sauron quanto Isildur, Gollum e Frodo perderam o Um Anel contra sua vontade), fosse o fato de ser alguém simples, pacífico, leal, despojado, alegre, cordato, discreto, tranqüilo e humilde, virtudes essas que não o faziam ambicionar o poder, nem mesmo riquezas (pois sabe repartir aquelas que recebeu por ocasião da vitória na Montanha Solitária), mas fundamentalmente alegrar seu sobrinho e as pessoas da sua vila. Não seriam essas virtudes aquelas capazes de forjar no indivíduo uma fibra moral sólida?

Ser leal, por exemplo, supõe não mudar de lado ou de amigos, conforme o interesse pessoal ou as vantagens que se oferecem, firme nas convicções e fiel aos compromissos assumidos, o que não é nada fácil em determinados momentos e ambientes. Em contraste, a deslealdade parece ser a tônica, pó exemplo, da política, com o fisiologismo próprio daqueles que hoje militam num partido, amanhã em outro, de princípios diametralmente opostos ao anterior, mas com melhores possibilidades de êxito na conquista do Poder num dado momento histórico.

A humildade, como moderação do amor-próprio, é o sal que dá sabor às  relações interpessoais, enquanto a soberba, que faz se achar melhor do que os outros, pode ser comparada à pimenta, que indispõe a muitos. Quando Frodo oferece o Um Anel a Galadriel, que o recusa, vencendo a tentação do Poder, percebe aquilo no que a dama élfica se tornaria, se sucumbisse à tentação da soberba: “Em pé diante de Frodo, ela parecia incomensuravelmente alta e insuportavelmente bela, ao mesmo tempo terrível e digna de adoração”.

Como a beleza pode ser insuportável? Sendo um dos transcendentais do ser (junto com a verdade e o bem), deveria causar admiração e atrair. Para Josef Pieper (1904-1997), o belo (junto com a filosofia, a religião, o amor e a morte) teria o condão de provocar um abalo no sujeito que o contempla, capaz de fazer transcender o mundo do trabalho: é a natural admiração pela proporção das formas, pela perfeição do ser, que faz desligar das atividades do dia a dia, para se embevecer com a beleza. No entanto, o desejo de posse da coisa ou pessoa bela, vivenciado cada vez com maior profundidade e intensidade, se não puder ser saciado, torna insuportável a captação do belo, corrompendo em vez de sanar o mundo (já que, como Dostoievsky dizia, “A beleza salvará o mundo”, especialmente a beleza moral). E a pessoa bela pode, intencionalmente, com seus atavios, agravar o abalo do sujeito que a contempla, passando de atraente a provocante.

Talvez uma explicação que não esteja longe das causas reais da violência contra a mulher, a vulgarização do sexo e a transformação da mulher em mero objeto de prazer no mundo moderno esteja, usando a analogia da Galadriel insuportavelmente bela, no fato da mulher estar “sucumbindo à tentação do anel”, ou seja, do brilho efêmero da vaidade corporal: será que um “decote provocante”, em que se vê “até a alma” da mulher (tanto no sentido conotativo quanto denotativo da palavra “alma”), aparentemente inofensivo, não teria o potencial de provocar, mesmo não intencionalmente, incontrolados desejos de satisfação instintiva nos homens que contemplam tal exposição corporal, incompatíveis com a racionalidade e uma visão personalista da mulher, “coisificada” por si própria?

Podemos imaginar que fim teria Galadriel se tivesse cedido à tentação de trocar sua dignidade élfica pela vaidade anular. Não seria diferente, com o passar do tempo, da triste e repulsiva figura de Gollum, de corpo murcho e alma corrompida.

Poder-se-ia dizer que de tão pouco – um decote ousado – não se pode extrair conseqüências tão catastróficas para a mulher. O mesmo se poderia pensar de qual o problema de não se levantar imediatamente quando toca o despertador. Mas é justamente a idéia de que o grande é feito de muitos pequenos que plasma o que chamamos do “heroísmo do cotidiano”: vencer no pequeno é o segredo de se poder vencer no grande. Nesse luta no pequeno é que forja a vontade forte, que resiste, depois, nos grandes embates e persevera na busca do bem árduo, pois tudo o que vale custa (um vestibular, um concurso, um doutorado, etc).

O segredo do heroísmo e da vitória está no pequeno, cuidado com esmero no dia a dia. Na História se tem visto que o descuido dos detalhes pode marcar a diferença entre o sucesso e o fracasso, entre a vitória e a derrota, entre a vida e a morte. Em seu livro “O Minuto Decisivo de Waterloo” (Livraria Civilização Editora – 1937 – Porto), Stefan Zweig traz alguns relatos históricos sobre momentos decisivos nos quais um pequeno descuido foi o responsável por um desastre:

a) Na batalha de Waterloo, em 18 de julho de 1815, quando o General Grouchy, que perseguia os prussianos, ouviu os canhões troarem em outra direção, não fez caso do conselho de seus subordinados, no sentido de que o combate deveria estar sendo travado em outras plagas, e continuou seguindo a sua trajetória, que o conduziu para longe do local da refrega, fazendo com que Napoleão não pudesse contar com os reforços que esperava… um pequeno engano, que custou a coroa do Imperador!

b) Na luta pela conquista do Pólo Sul, em janeiro de 1912, o capitão inglês Robert Scott, apesar de haver previsto tudo meticulosamente, deixou-se seduzir por seus companheiros que queriam também chegar à meta com ele e, quando tudo estava preparado para que a etapa final fosse percorrida por apenas 4 homens, o comandante permitiu que um quinto fosse também… Resultado: na volta faltaram suprimentos e o grupo acabou morrendo antes de conseguir chegar ao acampamento, que estava a poucas centenas de metros de sua posição… Um pequeno detalhe, que lhes custou a vida! (Cfr. também Apsley Cherry-Garrard, “A Pior Viagem do Mundo” (Companhia das Letras – 1999 – São Paulo).

c) Para a conquista de Constantinopla pelos turcos, em 1453, conta-se que colaborou, ainda que involuntariamente, o guarda que esqueceu aberta a porta de uma muralha lateral, pela qual penetraram os invasores, depois de um longo cerco àquela que parecia uma fortaleza inexpugnável… Foi um pequeno deslize, mas que custou a queda do Império Romano do Oriente!

Outro exemplo paradigmático do efeito catastrófico de ceder no pequeno encontramos no clássico do cinema “Julgamento de Nuremberg” (fime de 1961, premiado com 2 Oscars e contando com elenco de 1ª grandeza: Spencer Tracy, Burt Lancaster, Richard Widmark, Marlene Dietrich, Judy Garland, Maximilian Schell e Montgomery Clift). No diálogo final entre o juiz alemão Janning condenado e o juiz americano Haywood que o condenou, aquele diz a este: “Saiba que tens o respeito de um dos condenados” (por não ter cedido às pressões políticas para absolvê-los, já que a atmosfera da Guerra Fria fazia com que não fosse politicamente correto tocar na ferida da Alemanha, quando talvez os americanos precisassem dos alemães para fazer frente aos russos; e isso contrastava com a fraqueza dos condenados, que cederam às pressões do Estado nazista para condenarem os dissidentes do regime). E a seguir Janning completa, preocupado com a imagem que Haywood pudesse formar dele: “Aqueles milhares de pessoas… Não podia imaginar que chegaria àquilo (sobre os filmes de campos de concentração mostrados durante o julgamento). A resposta de Haywood nos serve de reflexão: “Quando você condenou o primeiro inocente, começou a trilhar o caminho que levaria àquilo”.

S. Josemaria Escrivá, o santo do cotidiano, em sua homilia “A grandeza da Vida Corrente” (pronunciada em 11/03/1960), acorda-nos do sonho idealista para o realismo do que pode efetivamente ser o “heroísmo do cotidiano”:

“Pensando naqueles que, com o passar dos anos, ainda andam sonhando – com sonhos vãos e pueris, como Tartarin de Tarascon – em caçar leões pelos corredores da casa, onde porventura não há senão ratos e pouco mais; pensando neles, insisto, recordo-vos a grandeza do caminhar à maneira divina no cumprimento fiel das obrigações habituais da jornada, com essas lutas que cumulam de alegria o Senhor e que só Ele e cada um de nós conhecemos. Convencei-vos de que, geralmente, não encontrareis espaço para façanhas deslumbrantes porque, entre outras razões, não costumam apresentar-se. Em contrapartida, não vos faltam ocasiões de demonstrar através do que é pequeno, do que é normal, o amor que tendes por Jesus Cristo. Também nas coisas diminutas se mostra a grandeza da alma, comenta São Jerônimo. Não admiramos o Criador só no céu e na terra, no sol e no oceano, nos elefantes, camelos, bois, cavalos, leopardos, ursos e leões; mas também nos animais minúsculos, como a formiga, os mosquitos, as moscas, os vermes e outros animais deste jaez, que distinguimos melhor pelos seus corpos do que pelos seus nomes; tanto nos grandes como nos pequenos admiramos a mesma maestria. De igual modo, a alma que se dá a Deus põe nas coisas menores o mesmo fervor que nas maiores” (in “Amigos de Deus”, Quadrante, n. 8).

Ou seja, o verdadeiro heroísmo a nós acessível é o das cosias pequenas do dia a dia, de falar a verdade quando esta nos pode ser desfavorável, de honrar os compromissos assumidos, de trabalhar ou estudar quando a tentação é de ir ver televisão ou “flautear”. No fundo, o verdadeiro heroísmo está em cumprir a própria missão no mundo, grande ou aparentemente pequena que seja. Há duas mentalidades pelas quais podemos encarar o mundo:

a) parque de diversões – como se entrássemos na existência com a perspectiva de nos divertirmos nos vários brinquedos que o parque oferece – hobbies, trabalho encarado como pedestal para aparecer e triunfar, família composta por bibelôs que nos satisfazem – até que termine o tempo que poderíamos desfrutar das diversões que oferecia;

b) missão – estamos no mundo para alguma coisa além da pura satisfação dos instintos: realizar-se através do serviço aos demais, de descobrir a felicidade de fazer felizes os que estão ao nosso redor – familiares, amigos, colegas, vizinhos.

Nesse diapasão, não se pode pensar que as tarefas duras são para os outros e que nós estamos apenas para desfrutar da vida e que os outros nos sirvam. Stephen Ambrose, em seu livro Band of Brothers, retratando uma Companhia da 101ª Divisão de Paraquedistas do Exército Amaericano na 2ª Guerra Mundial, fala que a união que construíram fazia com que distinguissem um do outro na penumbra, pelo seu modo de mover-se e postar-se, e que a disposição de dar a vida na guerra não era pela pátria ou pela família, mas pelo colega do lado, que, se não fosse cumprida a tarefa de cada um, estaria correndo o risco de morrer.

A certa altura do livro, transcreve trechos de cartas que o soldado Webster escrevia para sua mãe, mostrando a necessidade do desprendimento pessoal para se chegar a realizar os grandes ideais do homem e da humanidade. Dizia o paraquedista, falando da sua possível morte em combate (peço perdão pela transcrição em inglês):

“I am living on borrowed time. I do not think  I shall live through the next jump. If  I don’t come back, try not to take it too hard. I wish I could persuade you to regard death as casually as we do over here. In the heat of battle you expect casualties, you expect somebody to be killed and you are not surprised when a friend is machine-gunned in the face. You have to keep going. It’s not like civilian life, where sudden death is so unexpected”.

When his mother wrote to express her considerable alarm at this attitude (and her worries about his younger brother, who had just joined the paratroopers),  Webster was blunt in his reply: “Would you prefer for somebody else’s son to die in the mud? You want us to win the war, but you apparently don’t want to have your sons involved in the actual bloodshed. That’s a strangely contradictory attitude.

“Somebody has to get in and kill the enemy. Somebody has to be in the infantry and the paratroops. If the country all had your attitude, nobody would fight, everybody would be in the Quartermaster. And what kind of a country would that be?” (Stephen Ambrose, “Band of Brothers”, Pocket Books – 2001 – London, pgs. 110-111).

O soldado Webster captou bem um princípio básico do heroísmo do cidadão comum: se todos pudessem tirar o corpo fora nas situações difíceis ou deixar para outros aquilo que deve ser feito para o bem da sociedade, nunca haveria progresso, vitória ou avanço.

Esse desprendimento próprio e espírito de sacrifício, que tem como exemplo emblemático o do próprio Cristo morrendo na Cruz, para a redenção de toda a Humanidade (a ser revivido de alguma forma por cada cristão, como “alter Christus”), é bem estampado no diálogo final entre os dois hobbits protagonistas da grande aventura que salvou a Terra Média do domínio das forças das Trevas, Sam e Frodo: “Mas – disse Sam, com lágrimas brotando nos olhos – achei que o senhor também fosse aproveitar a vida no Condado, por muitos e muitos anos, depois de tudo o que fez”. E Frodo responde “– Foi o que também pensei, antes. Mas meu ferimento é profundo demais, Sam. Tentei salvar o Condado, e ele está salvo, mas não para mim. Muitas vezes é preciso que seja assim, Sam, quando alguma coisa está em perigo: alguém precisa desistir dela, perdê-la, para que outros possam tê-la”.

Em suma, a idéia do “heroísmo do cotidiano” tem uma dupla vertente:

a) que podemos viver o heroísmo diário de vencer as pequenas batalhas que se nos apresentam – levantar da cama quando o despertador toca; chegar pontualmente às aulas, trabalho ou compromissos sociais; tratar com paciência os maçantes e inoportunos; controlar-se na comida e na bebida para não engordar ou embriagar-se;

b) só tendo a vontade fortalecida nessa luta diária pela aquisição das virtudes é que teremos condições de vencer nas grandes batalhas que eventualmente possam aparecer, a par de, com o nosso exemplo no meio em que vivemos, podemos estar influindo positivamente no nosso ambiente e mais além…. mas este aspecto será objeto de nosso próximo artigo!

O Princí­pio da Felicidade Condicional

Este artigo se justifica como uma homenagem a Gilbert Keith Chesterton (1874-1936) no centenário da publicação de seu livro Ortodoxia (1908). Nele, dedica o exímio e sempre bem-humorado polemista um capítulo à “Ética da Terra dos Elfos”, no qual descreve aquilo que chamou de princípio da felicidade condicional, no qual sempre acreditou, tanto antes, como depois, de sua conversão ao catolicismo. Cotejar esse princípio com a ética clássica (de inspiração aristotélica) e com a ética moderna (de inspiração kantiana) será o objeto deste despretensioso artigo.

Uma das características mais marcantes de Chesterton é o seu gosto pelo paradoxo: fazer afirmações aparentemente contraditórias e disparatadas, mas que, na verdade, correspondem à realidade. As imagens que propõe para explicar suas teorias, além de sumamente poéticas, são tremendamente impactantes, por contrastarem com a opinião reinante em seu meio. É o caso preciso da sua exposição, nesse capítulo III do livro “Ortodoxia” sobre Ética, ao adjetivá-la como de “Ética da Terra dos Elfos” (tradução brasileira, de Cláudia Albuquerque Tavares, com apresentação, notas e anexo de Ives Gandra Martins Filho, LTr – 2001 – São Paulo) ou “Moral do País das Fadas” (tradução portuguesa, do inglês “The Elfland Ethics”). Que estranho paralelismo irá traçar entre a Ética Natural, a Ética Cristã e isso a que denominou de Ética Élfica? No que a imagem paradoxal e poética poderá contribuir para compreender a essência do comportamento ético e do dever moral?

Para compreendermos essa relação, nada melhor do que deixar o próprio Chesterton falar, pois lê-lo é uma atividade que instiga a mente (pela sua lógica insofismável) e alegra o coração (pela beleza poética da forma). Assim, para cotejar o pensamento chestertoniano com o de Aristóteles (384-322 a.C.) e Kant (1724-1804), selecionamos algumas passagens mais expressivas do capítulo III do “Ortodoxia”, que constituem a espinha dorsal da sua explicação da “Lei da Felicidade Condicional”.

Os passos do raciocínio que segue para demonstrar sua teoria são basicamente os seguintes (com a transcrição de passagens mais significativas que o endossem):

a) a democracia, sistema político tão caro à modernidade, não se opõe à tradição, uma vez que a tradição seria a “democracia dos mortos”, dando-se voz e voto aos nossos antepassados:

“Nunca pude entender onde os homens foram buscar a idéia de que a democracia se opõe, de certo modo, à tradição. É evidente que a tradição é somente a democracia projetada através dos tempos. É acreditar no consenso de vozes humanas, em vez de acreditar em qualquer documento arbitrário ou isolado. O homem que cita um historiador alemão em oposição à tradição da Igreja Católica, por exemplo, está apelando implicitamente para a aristocracia, pois apela para a superioridade de um perito contra a extraordinária autoridade de uma multidão. É perfeitamente compreensível o motivo pelo qual uma lenda é tratada com mais respeito – e assim deve ser – do que um livro de história. A lenda é, geralmente, criada pela maioria das pessoas sãs da cidade, ao passo que o livro é, geralmente, escrito pelo único homem louco dessa mesma cidade”.

“A tradição pode ser definida como uma extensão do direito de voto, pois significa, apenas, que concedemos o voto às mais obscuras de todas as classes, ou seja, a dos nossos antepassados. É a democracia dos mortos. A tradição se recusa a submeter-se à pequena e arrogante oligarquia daqueles que parecem estar por aí meramente de passagem. Todos os democratas protestam contra o fato de o nascimento estabelecer diferenças entre os homens, a tradição opõe-se a que tais diferenças sejam estabelecidas por razão de sua morte. A democracia nos diz que não devemos desprezar a opinião de um cavalheiro, mesmo que ele seja o nosso cavalariço; a tradição nos pede que não desprezemos a opinião de um cavalheiro, mesmo que ele seja o nosso pai. Não posso, de forma alguma, separar essas duas idéias de democracia e tradição, pois me parece evidente que ambas representam a mesma idéia. Os mortos têm de estar presentes nos nossos conselhos. Os antigos gregos votavam por meio de pedras; os mortos devem votar por meio de pedras tumulares. É tudo muito regular e oficial, pois a maioria das sepulturas, como a maioria das listas de votação, são marcadas com uma cruz (pgs. 69-70) (grifos nossos).

b) a tradição popular tem muito a nos ensinar, através das lendas, mitos e contos de fadas, no campo da ética e moral, apontando para exemplos e condutas que seriam, pela experiência de séculos e de multidões, as melhores para tornar feliz o homem:

“A minha primeira e última filosofia, aquela na qual acredito com uma certeza inquebrantável, foi a que aprendi na escola maternal. A babá, essa grave sacerdotisa da democracia e, ao mesmo tempo, da tradição, foi quem, de maneira geral, ensinou-a a mim. As coisas nas quais mais acreditava, na época, e as coisas nas quais mais acredito agora são os chamados contos de fadas. Tais contos são, a meu ver, absolutamente racionais. Não são fantasias: as outras coisas é que, comparadas a eles, parecem-me fantásticas. Comparados a eles, a religião e o racionalismo são coisas anormais, embora a religião seja uma coisa anormalmente certa e o racionalismo uma coisa anormalmente errada. O País das Fadas não é outra coisa senão o ensolarado país do bom senso. Não é a Terra que julga o Céu, mas sim o Céu que julga a Terra; por isso, pelo menos para mim, não era a Terra que criticava a Terra dos Elfos, mas sim este que criticava a Terra. Conheci o pé de feijão mágico antes mesmo de ter experimentado feijão; tive a certeza do homem da lua, antes mesmo de estar certo da lua. E isto fundava-se na tradição popular”.

“O que me interessa agora é aquela ética e filosofia que nasceu dos velhos contos de fadas. Se me propusesse a descrevê-la, pormenorizadamente, poderia apontar os muitos e nobres princípios contidos em tais contos. Temos a lição de cavalheirismo que nos é dada por Jack, o Matador de Gigantes: os gigantes devem ser mortos porque são gigantescos. É uma revolta humana contra o orgulho considerado como tal. (…) Temos a lição da Cinderela, que é a mesma do Magnificat: ‘exaltavit humiles’. Há a grande lição contida em A Bela e a Fera: uma coisa deve ser amada antes que seja digna de amor. Há a terrível alegoria de A Bela Adormecida, que nos mostra como uma criatura foi presenteada  com todas as dádivas ao nascer, apesar de amaldiçoada com a morte, e como a morte também pode, talvez, ser suavizada pelo sono. Não me interessa, porém, nenhum dos estatutos da Terra dos Elfos isoladamente; interessa-me, apenas, o espírito da totalidade da sua lei, o qual aprendi antes mesmo de saber falar e que ainda hei de conservar quando não puder mais escrever. Interessa-me determinada maneira de encarar a vida, maneira essa que aprendi nos contos de fadas e que, desde então, foi, serenamente, corroborada pelos fatos mais simples” (pgs. 71-72) (grifos nossos).

c) os contos de fadas nos ensinam, fundamentalmente, que há leis necessárias (físicas e matemáticas, do ser) e leis condicionais (morais e éticas, do dever ser), com seus âmbitos e propriedades específicas e inconfundíveis:

“Esse modo de ver a vida podia ser resumido da seguinte forma: Há certas seqüências ou evoluções (casos de uma coisa que se segue a outra) que são, na verdadeira acepção da palavra, razoáveis. São, ainda no verdadeiro sentido da palavra, necessárias. Incluem-se neste caso as seqüências matemáticas e puramente lógicas. Nós, no País das Fadas (que são as mais razoáveis de todas as criaturas), admitimos essa razão e essa necessidade. Assim, por exemplo, se as Irmãs Feias são mais velhas do que Cinderela, é necessário (no mais férreo e irrefutável sentido) que  Cinderela seja mais nova do que elas. Não se pode fugir a isso. (…) A fria razão assim o decreta do alto do seu trono, e nós, no País das Fadas, submetemo-nos a tal decreto”.

“Quem se dispuser a ler os Contos de Fadas de Grimm, ou as belas coleções de Andrew Lang, poderá conhecer esse princípio que eu, por pedantismo, chamarei de Doutrina da Alegria Condicional. Touchstone falava da grande virtude que existe num ‘se’ e, de acordo com a moral dos elfos, toda a virtude está num ‘se’. A principal característica do discurso das fadas é sempre esta: ‘Tu poderás viver num palácio de ouro e de safiras, se não pronunciares a palavra vaca’. Ou: ‘Poderás viver feliz com a filha do rei, se não lhe mostrares uma cebola’. A dádiva apóia-se sempre num veto. Todas as estonteantes e colossais coisas que são concedidas dependem de uma pequena coisa que é negada. As mais extravagantes e desvairadas coisas são postas, livremente, à nossa disposição, mediante uma pequena coisa que nos é proibida” (pgs. 72 e 78) (grifos nossos).

d) o Princípio da Felicidade Condicional, que caracteriza a Moral do País das Fadas (e toda Ética) estriba-se na idéia de que a felicidade depende da aceitação das limitações que nos são impostas pela Natureza, ainda que não compreendamos bem nem a Natureza, nem suas limitações (a plenitude é sempre finita, não dando para se ter tudo):

“Em um conto de fadas, uma incompreensível felicidade se apóia sobre uma incompreensível condição. Abre-se uma caixa, e os demônios voam todos para fora. Esquece-se uma palavra, e as cidades desaparecem. Acende-se uma lâmpada, e o amor voa para longe. Arranca-se uma flor, e as vidas humanas perecem. Come-se uma maçã, e a esperança em Deus se esvai”.

“Cinderela recebeu uma carruagem vinda do País das Maravilhas e um cocheiro vindo não se sabe de onde, mas recebeu, também, uma ordem: devia estar de volta à meia-noite. Ela também tinha um sapatinho de cristal, e não pode ser simples coincidência o fato de o cristal ser um elemento tão comum no folclore. Certa princesa vive  em um palácio de vidro, outra vive em uma colina também de vidro e há ainda outra que tudo vê num espelho. Todas elas podem viver em casas de vidro, desde que não atirem pedras. Ora, este reluzir de vidro por toda a parte nada mais é do que a expressão do fato de que a felicidade é radiante, mas frágil, como o material que pode ser facilmente quebrado por  uma criada ou por um gato. Este sentimento, que caracteriza os contos de fadas, gravou-se em mim e passou a representar a minha própria maneira de sentir perante o mundo inteiro. Sentia, e sinto, que a própria vida é brilhante como o diamante e frágil como a vidraça (pgs. 79-80) (grifos nossos).

e) A aceitação da condição (o que nos é negado) é o segredo da felicidade (o que nos é dado), e a incompreensão da razão da condição só faz ressaltar a imensidade dos dons recebidos (a vida, com todas as suas maravilhas):

“Lembremo-nos, porém, de que ser quebrável não é o mesmo que ser perecível. Dê uma pancada forte em um vidro e ele não durará um instante; não lhe toque e ele durará mil anos. Tal era, segundo me parecia, a alegria humana, quer no País das Fadas, quer na própria Terra. A felicidade só dependia de não fazer alguma coisa que em qualquer momento poderia ser feita e, muitas vezes, sem que fosse óbvia a razão pela qual não se devia fazê-la. Ora, o ponto aonde quero chegar é que, quanto a mim, nada disso me parecia injusto. (…) Se Cinderela diz: ‘Por que eu tenho de sair do baile à meia-noite?’, a madrinha poderia retrucar: ‘Por que podes ficar lá até a meia-noite?’ Se eu deixo para um homem, no meu testamento, dez elefantes falantes e cem cavalos alados, tal homem não se poderá queixar, se as condições forem tão excêntricas como a dádiva. A um cavalo alado não se olham os dentes. E parecia-me que a própria existência era um legado excêntrico demais para que eu me queixasse de não compreender os limites da dádiva, quando, afinal, não compreendia a dádiva que eles limitavam. A moldura não era mais estranha do que a pintura. O veto podia ser tão extravagante como a dádiva, tão estonteante como o Sol, tão ilusório como as águas e tão fantástico e terrível como as árvores altaneiras” (pg. 80) (grifos nossos).

Quantas vezes, no relacionamento com os demais (que é a essência da Ética – o relacionamento ordenado com os outros), ao dizer ou fazer alguma coisa, sem pensarmos, acabamos agredindo ou entristecendo aquele a quem queríamos bem e nos perguntamos: O que fui fazer? Essa era a única palavra ou ação que não poderia ter dito ou feito e que fiz e disse, entornando o caldo e quebrando algo de muito precioso! Assim, percebemos que existem ações adequadas e inadequadas no relacionamento com os outros.

Para se entender o discurso chestertoniano da felicidade condicional, é preciso ter em conta a concepção clássica da Ética, que se baseia na distinção entre “bem” no sentido metafísico e “bem” no sentido ético.

O bem metafísico é tudo aquilo que nos atrai (qui omnes apetunt). É um dos transcendentais do ser, isto é, uma das características que todos os seres têm em comum, que são: a verdade (capacidade de ser conhecido por uma inteligência); a beleza (capacidade de ser admirado pela inteligência e vontade) e o bem (capacidade de ser querido por uma vontade). Assim, tudo que existe, pelo simples fato de existir, pode nos apetecer e atrair.

No entanto, nem tudo o que nos atrai, nos convém. Esse é o sentido do bem ético, que diz respeito ao bem adequado (armóton) à natureza. A tradição clássica – de Sócrates, Platão e Aristóteles – aponta como bem adequado à natureza humana a virtude, ou seja, a perfeição das potências da alma (cfr. Werner Jaeger, “Paidéia”, Martins Fontes – 2003 – São Paulo).

Assim, para Sócrates a missão suprema do homem seria o cuidado da alma (“psyche terapéia”), superando a hierarquia báquica dos bens (saúde, beleza, fortuna e amigos), que coloca em perigo a alma: “Enquanto viver, não deixarei jamais de filosofar, de vos exortar a vós e de instruir quem quer que eu encontre (…) pois ficai sabendo que Deus assim mo ordenou, e julgo que até agora não houve na nossa cidade nenhum bem maior para vós do que este serviço que eu presto a Deus. É que todos os meus passos se reduzem a andar por aí, persuadindo novos e velhos a não se preocuparem nem tanto nem em primeiro lugar com o seu corpo e com a sua fortuna, mas antes com a perfeição da sua alma” (Platão, “Apologia de Sócrates”, 29 D e seg.).

Para Sócrates, as virtudes (aretai) seriam tanto da alma (conhecimento para o intelecto especulativo e prudência, justiça, fortaleza e temperança para o intelecto prático) como do corpo (saúde, força e beleza). Entendia a virtude como um saber (phronesis): o conhecimento do bem, que levava a não sucumbir ao prazer (hedonis).  As virtudes tinham por fim (telos) e meta (skopos) a harmonia com o universo e a felicidade humana (eudemonia), pelo auto-domínio (a alma sobre o corpo): Sócrates despreza os prazeres da vida quando toma o cálice de cicuta para respeitar as leis da cidade. Concebia as virtudes como uma unidade: não seria possível ser valente, sem ser justo, moderado e prudente (seria uma valentia apenas exterior, sem o domínio interior; Sócrates podia dizer isso, porque fora herói das guerras gregas, não fugindo da luta, mas vendo que a luta interior era mais dura). Pregava o ideal da “mens sana in corpore sano”.

No ideal formativo (paidéia) socrática, o homem virtuoso deveria se dedicar não só aos estudos, mas aos exercícios (askesis: treinar para adquirir o bom condicionamento físico e moral). A amizade (philia) era para Sócrates um dos bens e valores mais elevados: dizia que não tinha discípulos, mas amigos (na sua sábia humildade, não se considerava mestre, razão pela qual  não compreendia a acusação de corruptor da juventude). A amizade, como sentimento de benevolência pelo outro, deveria superar as rivalidades pelas honras e riquezas.

Platão, como discípulo de Sócrates (e quem recolheu por escrito os ensinamentos do mestre), na “República”, definira a virtude (areté) como a arte de ‘saber escolher’ os bens convenientes (agatón) e recusar os inconvenientes (o mal). E Aristóteles, na “Ética a Nicômaco”, coloca a felicidade (eudemonia) como o ”prêmio da virtude”’ (Livro I). Com Platão (”As Leis” e ”A República”) e Aristóteles (”Ética a Nicômaco”), a justiça (‘dikaiosyne’) passa a principal e resumo das virtudes: cumprimento de todos os deveres (prudência, justiça, fortaleza e temperança como as  fundamentais, lembrando o heroísmo dos tempos primitivos).

Portanto, na ética clássica, a felicidade é a meta do agir virtuoso, como uma escolha do bem adequado ao homem. Nesse sentido, é uma ética condicional: “Se quiseres ser feliz, deves agir deste e não daquele modo”. Ademais, à felicidade só se chega pela virtude, pois como dizia Félix Bovet (1824-1903): “Os prazeres são para os sentidos, as alegrias para o coração, mas a felicidade é só para a consciência” (apud Georges Chevrot, “Sermão da Montanha”, Quadrante – 1988 – São Paulo, pg. 134). Assim, apenas a justiça, pela consciência do dever cumprido, é capaz de trazer a felicidade. O resto são alegrias e prazeres passageiros e fugazes.

O problema da ética moderna se coloca quando Emanuel Kant opera, no final do século XVIII, sua revolução copernicana na Metafísica, sustentando que não conhecemos as coisas como são, mas apenas suas aparências, ou seja, as impressões que nos deixam. Não conheceríamos as coisas em si (o noúmeno), mas apenas aquilo que nos aparece (o fenômeno). Assim, a realidade objetiva não seria alcançável pela mente humana, pois a essência das coisas não poderia ser captada pelos sentidos. Todo conhecimento seria sempre algo de subjetivo (os transcendentais seriam categorias a priori da mente humana, ligadas ao tempo e espaço, que enquadrariam todas as sensações recebidas). Assim, Kant irá promover a “Crítica da Razão Pura” (1781), estabelecendo as condições subjetivas do conhecimento, fazendo com que todo o conhecimento seja gerado pelo sujeito cognoscente e não como adequação ao objeto conhecido, tal qual sustentado por Aristóteles: “Até agora se admitia que todo o nosso conhecimento se devia regular pelos objetos (…) Não seríamos mais afortunados nos problemas de metafísica formulando a hipótese de que os objetos devem se regular pelo nosso conhecimento?”

Essa postura gnoseológica subjetivista desembocou numa ética relativista desenvolvida na sua “Crítica da Razão Prática” (1788), segundo a qual não é possível estabelecer normas morais objetivas com conteúdo concreto, mas apenas um princípio geral que denomina de “imperativo categórico”, expresso da seguinte forma: “Age de modo que a máxima de tua vontade possa valer sempre, ao mesmo tempo, como princípio de legislação universal” (cada um estabeleceria seu sistema moral pessoal, achando ser o ideal, confrontando naturalmente com o dos demais).

Ora, o próprio Kant distinguia duas espécies de imperativos:

a) imperativo hipotético – que é condicional (se queremos um determinado fim, então devemos agir da maneira que torne possível conseguí-lo).

b) imperativo categórico – que seria baseado na autoridade (devemos agir de uma determinada maneira porque alguém mandou, no caso, a lei divina ou a lei humana).

A concepção kantiana, a par de deixar a Ética sem fundamento sólido, torna-a, sob o prisma psicológico, profundamente antipática. O frio legalismo germânico conduz à revolta contra limitações que nos parecem arbitrárias.

Já a concepção clássica, reverenciada por Chesterton, coloca a ênfase no que seria uma “liberdade de qualidade”: por ser livre, posso escolher o que quiser dentre os bens que se me oferecem; mas “se não for bobo”, saberei escolher o melhor, o que efetivamente me aperfeiçoa, aceitando como naturais as limitações, justamente porque, não podendo ter simultaneamente tudo, sei prescindir do que impede a posse e usufruto do melhor.

Em suma, a mensagem chestertoniana, que é a mesma da tradição clássica e cristã, é a de que, para ser feliz é necessário aceitar que temos limitações (de natureza e de compromissos, já que a liberdade, ao assumir compromissos, fica a eles ligada) e não ultrapassar as fronteiras que guarnecem a nossa vida.

A vertente kantiana da ética do país das fadas estaria no respeito à autoridade daquele que impõe as normas, quando o sentido último destas não é captado. Se não percebemos que a proibição a determinada conduta diz respeito ao fato de que essa conduta não nos trará a felicidade, ainda que aparente e imediatamente possa parecer o contrário, então é preferível confiar na autoridade do autor da norma (ou seja, “autoridade” vem justamente de ser “autor”), mormente se esta é de Direito Natural, pois o Autor da Natureza é o próprio Deus, que dispõe, através de seus mandamentos o modo mais fácil e rápido do homem chegar à felicidade.

No último capítulo do “Ortodoxia” (capítulo VIII – A Autoridade e o Aventureiro), Chesterton retoma a idéia da felicidade condicional com a imagem das muralhas éticas do cristianismo, que garantem a alegria de viver:

“O Cristianismo foi a única barreira que  resguardou o prazer do paganismo. Imaginemos um grupo de crianças brincando descuidadamente sobre o gramado macio e plano de uma ilha situada bem acima do nível do mar. Enquanto havia uma parede em volta do íngreme rochedo, elas puderam entregar-se aos jogos mais frenéticos e fizeram daquele lugar a mais barulhenta das creches. Mas as paredes foram derrubadas, deixando a descoberto o perigo do precipício. As crianças não despencaram precipício abaixo, mas, quando os seus amigos voltaram, encontraram-nas paralisadas de terror no centro da ilha. E já não se ouviam as suas canções” (pg. 187) (grifos nossos).

Para cantar de alegria uma vida que “é bonita, é bonita e é bonita” (Gonzaguinha), é preciso saber respeitar as condições mínimas que ela nos impõe, para não estragar os dons preciosos que nos são ofertados em troca. O lema da antiga UDN (partido político brasileiro dos anos que precederam o Regime Militar de 1964-1985) pode servir de complemento ao princípio da felicidade condicional: “O preço da liberdade é a eterna vigilância”. A felicidade depende da vigilância sobre aquilo que pode levar à sua perda. Podemos viver felizes indefinidamente, desde que resistamos a ter mais do que nos cabe, a desempenhar um papel que não nos compete, e a desprezar as condições ideais em que nos encontramos se não temos a sandice de jogar tudo pela janela ao querer o que pensamos que nos falta, mas que, na realidade, nem falta, nem completa, porque desvia do equilíbrio e harmonia ideais para nós. Trata-se de vencer a curiosidade e não abrir a caixa de Pandora, desatando paixões e forças capazes de destruir tudo o que havíamos construído.

Cristianismo no Mundo do Senhor dos Anéis

O primeiro artigo do colunista Valinor Ives Gandra da Silva Martins Filho, Ministro do Tribunal Superior do Trabalho  e autor do livro “O Mundo do Senhor dos Anéis” foi baseado em roteiro de Palestra proferida na XVIII Semana de Filosofia e Teologia – “Filosofia, Cultura e Fé”, realizada no Centro Cultural Cândido Mendes, no Rio de Janeiro (Brasil) em 5 de outubro de 2007 e publicado na Communio (edição de set-dez/2007), a revista de teologia fundada pelo Cardeal Ratzinger hoje Papa Bento XVI, sobre a perspectiva cristã na obra de Tolkien.

CRISTIANISMO NO MUNDO DO SENHOR DOS ANÉIS
A Perspectiva Cristã na Obra de J. R. R. Tolkien

I) Introdução – Paradoxos

Quando um cristão entra em contato com as obras de J. R. R. Tolkien, principalmente após ser transposta para as telas do cinema a saga dos “Anéis do Poder”, a pergunta que vem naturalmente à mente é: Como uma obra povoada de elfos, anões, hobbits, orcs e outros seres fantásticos pode ter um fundo cristão e trazer lições no campo ético?

Precisamente em ambientes cristãos, um certo preconceito se levanta em relação ao “Senhor dos Anéis”, vendo nele apenas mais um livro de fantasia e, diante do alerta para o fato de que o autor era católico convicto, vertendo no livro seus princípios morais, outra pergunta surge: Não há o perigo de que as pessoas que leiam uma obra de caráter tão fantástico, principalmente jovens, fiquem no episódico das estórias e personagens, sem captar a essência de valores humanos e cristãos subjacente à obra?

Convidado que fui a participar de um “Café Literário”, na última “Feira do Livro” realizada em Brasília, para debater com outro especialista sobre a obra de Tolkien, fiquei realmente impressionado ao ver como o colega de mesa sustentava uma visão exclusivamente esotérica do “Senhor dos Anéis”, de cunho maniqueísta. Percebi como o perigo é real, mas não tão alarmante a ponto de desaconselhar a recomendação da trilogia tolkiana como literatura sadia e edificante para nossa juventude. Pelo contrário, essas são exceções isoladas que confirmam a regra.

Na realidade, a esperança que nutro, com a popularização da saga tolkiana, propiciada pelos filmes de Peter Jackson, é que aqueles que tenham assistido aos filmes tenham despertado o interesse pelos livros e descubram a beleza literária e moral da obra de Tolkien. Os filmes dão uma visão muito parcial de “O Senhor dos Anéis”. Sendo impossível reproduzir nas telas a integralidade de uma obra literária, mormente no caso da complexa e extensa saga dos anéis do Poder, o roteiro do filme, como é natural, fez-se com a compactação de passagens e a supressão de personagens (principalmente o poético e enigmático Tom Bombadil), que acabaram por imprimir a todo o filme uma feição de suspense e tensão que não retratam perfeitamente o ritmo alternado de aventura épica e de poesia bucólica, característico da obra de Tolkien, que os misturou em justas proporções. No entanto, até para o mais exigente leitor, o filme surpreendeu por conseguir plasmar visualmente o que a imaginação já figurava na mente com a leitura da obra. São, pois, um instrumento contributivo para imortalizar a obra de J. R. R. Tolkien.

II) Quem foi J. R. R. Tolkien?

Para compreender a obra, é essencial conhecer seu autor. Pois bem, no caso de John Ronald Reuel Tolkien, os dois traços característicos de sua personalidade são: a) o profissional – era um filólogo, professor e estudioso de línguas na Universidade de Oxford; b) o espiritual – foi um católico de fé profunda e vivenciada.

O gosto de Tolkien pela filologia (especialmente pela origem das palavras) e interesse pelas línguas antigas desembocaram na criação de novas línguas, atividade que constituía seu passatempo (daí surgem o quenya e o sindarin, inspirados respectivamente no finlandês e no galês, a par da influência do islandês, gaélico e anglo-saxão para o que seria a língua dos elfos, de seus contos).

Para Tolkien, as “histórias” que inventou foram feitas para proporcionar um mundo às línguas que criara. Dizia que primeiro pensava num nome e depois vinha a “história”. Daí que tenha, após a difusão de seus livros em outros idiomas, desenvolvido um guia dos nomes para auxiliar os tradutores (quando se fizeram as primeiras traduções para o sueco e holandês). Quando lhe perguntaram certa vez sobre o que era “O Senhor dos Anéis”, respondeu simplesmente: um ensaio de estética lingüística.

Em 1917, em convalescença da febre das trincheiras que adquiriu durante a Grande Guerra, começaria a escrever o que seria mais tarde “O Silmarillion”: sua grande obra mitológica. O ideal que havia concebido era o de criar uma mitologia inglesa, ao estilo da mitologia nórdica, que fosse pautada por valores morais, uma vez que a mitologia grega e romana colocava os deuses como personagens imorais, com ações pérfidas ao lado de grandes feitos. Assim, a criação de seu mundo mitológico, aproveitando as matrizes históricas inglesas, será um amálgama da mitologia nórdica com os valores cristãos, concebendo os “deuses antigos” como anjos, bons ou maus, conforme sua conduta, criados todos por um Deus único, origem de todo o Universo.

A fé católica, Tolkien a recebeu de sua mãe Mabel, que, após a morte do marido, havia se convertido ao catolicismo. A conversão representou para ela e seus filhos o corte da ajuda econômica que recebia de seus parentes, protestantes que receberam muito mal o passo dado. Porém Mabel enfrentou com fortaleza tanto o ostracismo familiar quanto as dificuldades econômicas que sua conversão provocaram, deixando um sólido exemplo para os filhos. Em seu leito de morte, quando Tolkien tinha apenas 12 anos, confiou seus filhos ao Pe. Francis Xavier Morgan, pároco de S. Dunstan, que passou a ser o tutor de Ronald.

No pensionato em que passou a viver, Tolkien conheceu outra pensionista órfã, Edith Bratt, com quem fará amizade e por quem se apaixonará (era 3 anos mais velha que ele). Como o namoro começou a comprometer seus estudos e a preparação dos exames para ingresso em Oxford, o Pe. Morgan proibiu Tolkien de ver ou escrever a Edith até atingir a maioridade (havia trasladado a garota para outra cidade). Tolkien, com seu espírito romântico, não se esquece dela durante os 3 anos de separação. Assim, à meia-noite do dia em que completaria os 21 anos, escreve uma carta a Edith para reatar os laços rompidos (1913). Ao receber a resposta, fica sabendo que ela, ao não ter notícias dele por 3 anos, pensou que a tivesse esquecido e, desse modo, já estava comprometida com outro. Tolkien toma o primeiro trem para encontrá-la e, depois de conversarem, ela decide romper com o outro rapaz e reatar com Ronald (esse amor de Tolkien por sua futura esposa ficará plasmado na legendária “Balada de Beren e Lúthien”, que integrará seu livro “O Silmarillion”, tendo os nomes dos dois personagens sido insculpidos nos túmulos do casal, como seus cognomes).

No Exeter College da Universidade de Oxford descuida, durante os primeiros anos do curso, da prática religiosa, retomando-a com novo fervor quando reencontra Edith e esta se faz católica (1914). O amor dos dois frutificará em 4 filhos, dos quais um será sacerdote. As tertúlias familiares, onde Tolkien contava suas estórias para os filhos, arraigará nestes a mesma fé herdada da avó. E os valores cristãos serão a fonte oculta, inspiradora dos ideais da saga tolkiana.

III) Traços Cristãos na Obra de Tolkien

Nas três principais obras de Tolkien – “O Silmarillion”, “O Hobbit” e “O Senhor dos Anéis” – a cosmovisão cristã, ainda que velada, pode ser percebida quer de forma difusa em toda a saga, quer de forma pontual em muitas passagens, com o que podemos traçar muitos paralelismos entre o Cristianismo e o Mundo do Senhor dos Anéis:

1) Perspectiva Creacionista

O mundo é fruto do ato criador de um Deus Único (“Eru”, que significa “O Único” ou “Ilúvatar”, que significa “Pai de Todos”), contrapondo-se ao politeísmo das mitologias antigas. Assim, àquilo que os antigos tinham por deuses (Zeus e os demais deuses gregos, Júpiter e demais deuses romanos, Odin e o restante dos deuses nórdicos), Tolkien dá a natureza de anjos (os “Valar” e os “Maiar”), ou seja, seres puramente espirituais, que também seriam criaturas (existindo uma hierarquia de espécies dentro dessa mesma natureza: “Sauron” é uma “Maia” que servirá a “Morgoth”, que é um “Vala”).

Fala-se de uma queda de algumas dessas “criaturas angélicas”, quando todas foram submetidas a uma “prova”, concebida alegoricamente por Tolkien como a composição de uma sinfonia em conjunto a partir de um tema dado por “Eru”, em que cada um dos “Valar” se conhecia na medida em que compunha a sua música, sendo que um deles, “Melkor” ou “Morgoth” (imagem do demônio ou “Lúcifer”), inchado de orgulho pelo próprio esplendor, decide criar os seus próprios temas e dá o tom dissonante na sinfonia, fazendo com que muitos dos “Vala” acabem se desviando do tema originalmente proposto.

2) Perspectiva Ética

A luta do bem e do mal que pontua “O Senhor dos Anéis” e as obras que a precedem no tempo “estórico” não tem contornos maniqueístas, mas, pelo contrário tem um fundo ético nitidamente cristão. Há apenas um princípio do bem: o Ser por excelência, o Deus do Bem. O mal moral é fruto da liberdade: desde os seres inteligentes criados mais perfeitos (os “Vala”), até os humildes (os “hobbits”), o perfil moral é traçado pelas opções pessoais pelo bem ou pelo mal. Assim, um sábio como Saruman, o Branco, pela sua ganância, acaba se tornando, como ele mesmo diria, “Saruman, o das muitas cores”, pérfido e odioso, solitário e vingativo.

Nesse sentido, a perspectiva ética se mostra no ressaltar as grandezas e misérias da alma, conforme as virtudes e os vícios dos personagens, bem contrastados, mas em que ninguém está a salvo de se corromper, como também ninguém está irremediavelmente perdido.

Assim, a inveja é o motor maior de “Morgoth”, que só deseja destruir o que de bom realizam os demais “Valar” e criaturas de “Eru”, para construir o seu próprio mundo de dominação. O orgulho e a soberba dessa criatura “angélica” originalmente mais poderosa, acaba sendo vencido pela humildade das menores criaturas desse mundo imaginário (os “hobbits”), cuja vida simples e marcada pela firmeza de caráter, será o elemento explicativo da vitória do Bem contra o Mal na “Guerra do Anel”.

Emociona ver Frodo (o “hobbit” encarregado de destruir o anel do Poder), ao pensar na dureza da missão que lhe havia sido confiada, quando sozinho com Sam tem de enfrentar a última etapa, concluir que “tinha de fazer o que tinha de ser feito, e que, se Faramir, Aragorn, Elrond, Galadriel, Gandalf ou nenhuma outra pessoa jamais ficassem sabendo de seu feito, isso não teria importância”. É o cumprimento do dever não para ser visto ou reconhecido pelos outros, mas por sentido de missão da vida).

A avareza é a marca característica da posse do “Anel do Poder”, que  dá poderes extraordinários ao que o utiliza, mas vai corrompendo interiormente aquele que o possui, até torná-lo escravo seu, como ocorreu com “Gollum”, que é o retrato da destruição física e psicológica que o apegamento aos bens materiais acarreta a qualquer criatura. Essa corrupção só se vence com a virtude do desprendimento, como ocorre com “Bilbo”, “Frodo” e “Sam”, que são os hobbits” que portaram temporariamente o “Um Anel” e que venceram a tentação de serem seus donos definitivos.

A misericórdia e o perdão, não obstante tudo que se possa ter sofrido de mal, se vê também estampado nas palavras de Frodo, impedindo que Sam mate Saruman decaído (e impenitente, sem estar curado interiormente do seu mal): “Não, Sam! Não o mate, nem mesmo agora. Pois ele não me feriu. E, seja como for, não quero que seja abatido nesse ânimo maligno. Um dia ele foi grande, de uma nobre estirpe, contra a qual não deveríamos ousar levantar nossas mãos. Entrou em decadência, e sua cura está fora de nosso alcance, mas eu ainda o pouparia, na esperança de que algum dia ela a encontre”.

Essa perspectiva ética chega até o ideal de perfeição no trabalho, estampado na explicação que os elfos dão para a beleza das vestimentas que confeccionavam: “Colocamos em tudo o que fazemos o pensamento de tudo o que amamos”. É pura teologia do trabalho, tão bem desenvolvida por S. Josemaria Escrivá, que falava na santificação do trabalho através da busca da perfeição em tudo o que se faz, como decorrência de se trabalhar na presença de Deus, ou seja, de ter no pensamento o amor a Deus e o serviço aos outros que se presta com todo trabalho.

3) Símbolos Cristãos Velados

Permeia toda a obra de Tolkien uma relação invisível entre as ações nobres ou vis praticadas pelos personagens, que tornam o mundo, como um todo, melhor ou pior, conforme a atitude interior dos personagens (as vitórias ou derrotas das várias forças na “Guerra do Anel” é “sentida” interiormente pelos protagonistas das várias ações em campos distintos), o que recorda, de longe, a doutrina da Comunhão dos Santos.

A invocação, pelos “hobbits”, do nome de uma Valië (“Elbereth Gilthoniel”, Senhora das Estrelas), faz tremer as forças do Mal e constitui elemento de sustentáculo para a missão que têm, como Nossa Senhora, pelo papel singular que desempenhou na “História da Salvação” é proteção constante na vida dos cristãos. No momento em que Frodo se encontra diante das portas de Mordor e sente, ao ver sair o “Senhor dos Espectros”, a tentação forte de usar o Anel (com o que seria descoberto), vence-a ao tocar no “Frasco de Galadriel”, o que lembraria o escapulário do Carmo, que muitos cristãos trazem no peito, por devoção a Nossa Senhora, que os ajuda a superar as tentações.

O alimento dado pelos elfos aos membros da Sociedade do Anel, para poderem enfrentar a dura missão que teriam pela frente, o “lembas” ou pão do caminho, pode ser visto, pelos efeitos benéficos que tinha, desproporcionais para um simples alimento, incutindo um vigor novo aos “hobbits”, restaurando substancialmente as forças e dando ânimo para a caminhada, como uma imagem, ainda que pálida, da Eucaristia (Corpo de Cristo em forma de pão), chamada nos cânticos litúrgicos cristãos de “panis angelurum, cibus viatorum” (pão dos anjos e alimento dos caminhantes), a qual, ao propiciar a comunhão com Cristo, restaura as forças da alma.

O Salão do Fogo, em Rivendell, onde Frodo encontra Bilbo meditando e compondo seus versos, é também uma imagem dos oratórios ou capelas cristãs. Gandalf ao mostrar-lhe o local, diz: “Este é o Salão do Fogo. Aqui poderá escutar muitas canções e histórias. Mas, a não ser nos dias importantes, o salão fica vazio e quieto, e aqui vêm as pessoas que desejam ter paz e refletir. O fogo fica sempre aceso, durante o ano”. A lareira sempre acesa lembra o sacrário. Os dias importantes seriam os domingos e festas, com o culto cristão relembrando as histórias do Antigo e Novo Testamento e cantando louvores ao Criador. Durante o resto do tempo, um local de oração e meditação.

Um último paralelismo, que é o do sacrifício redentor, como o de Cristo na Cruz, para a salvação dos homens (a ser revivido de alguma forma por cada cristão, como “alter christus”), é bem estampado no diálogo final entre Sam e Frodo: “Mas – disse Sam, com lágrimas brotando nos olhos – achei que o senhor também fosse aproveitar a vida no Condado, por muitos e muitos anos, depois de tudo o que fez”. E Frodo responde “– Foi o que também pensei, antes. Mas meu ferimento é profundo demais, Sam. Tentei salvar o Condado, e ele está salvo, mas não para mim. Muitas vezes é preciso que seja assim, Sam, quando alguma coisa está em perigo: alguém precisa desistir dela, perdê-la, para que outros possam tê-la”.

Esses são apenas alguns pontos de semelhança entre a saga tolkiana e a “História da Salvação”, não se podendo, no entanto, procurar um paralelismo mais abrangente, quando não foi o objetivo de Tolkien assumir todas as premissas fáticas do cristianismo, sob pena de estar fazendo teologia ao invés de uma despretenciosa obra literária. Mas não se pode deixar de perceber que justamente por ter assumido esses valores básicos, intrínsecos ao Cristianismo, é que chegou a produzir uma obra de valor perene e de atrativo universal.

IV) Conclusão – A Saúde Espiritual dos Contos de Fadas

Podem parecer paralelismos um pouco forçados os que traçamos entre a mitologia tolkiana e o universo cristão, no intento de salvar o valor ético e humanístico da obra de Tolkien como contributo para se forjar uma cultura cristã. A pergunta que se poderia fazer, nesse sentido, seria, pois: afinal de contas, o que a literatura fantástica, em suma, os contos de fadas, podem trazer como elemento de formação humana e cristã?

Em 1939, Tolkien publicou um ensaio intitulado “On Fairy Stories”, expondo as 3 funções que, a seu ver, os contos de fadas desempenhavam na vida humana:
a) terapia de restauração para alma em relação à atividade produtiva e laborativa absorvente;

b)
sã evasão dos problemas angustiantes do dia-a-dia, encontrando um mundo de sonhos que engloba as mais elevadas aspirações humanas; e

c)
consolo da alegria, que não se confunde com um gozo meramente evasivo da realidade, mas que constitui um eco da vida real (satisfação dos desejos humanos primordiais, de sabedoria, amor e beleza, como também de comunicação com todos os seres viventes).

O ensaio, como também o substrato de princípios e ideais que embasam toda a obra de ficção de Tolkien, consona perfeitamente com o capítulo “A Ética da Terra dos Elfos”, do livro “Ortodoxia”, de G. K. Chesterton, que mostra como os contos de fadas retratam, na sua lógica interna, um dos traços básicos do Cristianismo: o princípio da felicidade condicionada, ou seja, de que toda a alegria humana está condicionada à observância de umas regras morais mínimas, que, desprezadas, acabam por quebrar o encanto e a harmonia da vida.

Chesterton traça o paralelismo entre o pecado original (tudo é permitido ao homem no paraíso, à exceção do fruto da árvore da ciência do bem e do mal) e as condições colocadas às fabulosas façanhas dos personagens de contos de fadas (Gata Borralheira que deve voltar do baile à meia-noite; Bela Adormecida que não pode se  ferir numa roca; etc). Toda a disputa pelos “Silmarils” e pelos “Anéis do Poder”, que constitui o cerne da saga tolkiana, é o retrato da não aceitação, pela criatura, dos limites impostos pelo Criador, provocando a sua ruína (vide, por exemplo, a rebelia de Morgoth contra Illuvatar; a dos numenorianos contra a proibição de navegar para o Ocidente; etc), mas com a subseqüente vitória da humildade sobre o orgulho, com o restabelecimento da harmonia quebrada (Elendil escapando do naufrágio da ilha de Númenor; Frodo e Sam salvando o mundo civilizado, com o cumprimento da missão de destruir o Um Anel).

O sentido do dever nos personagens tolkianos e o respeito a um Código de Ética que não é estabelecido pelos personagens, mas lhes vem imposto pela sua própria natureza de seres criados,  é uma constante em todos os seus contos e livros, explicando, em muito, o caráter atrativo das lutas e dramas de todas as suas estórias.

A própria explicação do fato dos homens estarem sujeitos à morte (enquanto isso não acontece naturalmente aos elfos) não pode ser outra que a do pecado original. Diz a Escritura que “Javé Deus tomou o homem e o colocou no jardim de Éden, para que o cultivasse e guardasse. E Javé Deus ordenou ao homem: Poderás comer de todas as árvores do jardim, mas não comerás da árvore da ciência do bem e do mal, porque no dia em que dela comeres, com certeza morrerás” (Gen 2, 15-17).

A descrição bíblica da queda original mostra nossos primeiros pais sendo tentados pela serpente (materialização do Maligno) e sucumbindo à insinuação de se tornarem como deuses, com a conseqüente expulsão do paraíso e promessa de um Redentor (cfr. Gen. 3, 1-19).

S. Agostinho, em sua “A Cidade de Deus”, que pode ser considerada a primeira obra de Filosofia da História, fala de duas histórias paralelas se desenvolvendo: uma visível (a construção da “Cidade Terrena”), com a sucessão dos impérios e do progresso tecnológico, e outra invisível (a construção da “Cidade Celeste”), com a santificação das almas, pedras vivas que comporiam, com o tempo, o “Reino dos Céus”.

A importância e o papel das pessoas no desenvolvimento da história humana somente poderia ser aquilatado no final dos tempos, sendo que aqueles que aparentemente não fizeram nada de relevante podem ter sido os mais importantes (como, na saga do Anel, os hobbits). Ademais, S. Agostinho coloca Jesus Cristo no centro da história: Deus que assume a natureza humana “na plenitude dos tempos”, para redimir a humanidade do pecado, através de sua Paixão. Os anos e os séculos são contados antes e depois de Cristo.

Casando a cronologia tolkieniana com o calendário moderno, poderíamos ter a Era dos Homens se impondo a partir da 4a Era da Terra Média (quando os elfos se retiram para a Terra Abençoada de Aman), sendo que, para a sua redenção, Deus (Eru ou Ilúvatar de Tolkien) se faz homem, para libertá-los da morte.

Concluindo: podemos dizer que talvez Tolkien não quisesse deixar tão explícita sua inspiração cristã em suas obras para evitar que o preconceito anti-cristão impedisse a captação de valores morais que são intrínsecos à própria natureza humana. E esses valores humanos e cristãos poderiam muito bem ser veiculados através do mais tradicional meio, que são os contos de fadas, estórias que, com o passar dos séculos, somente vão enriquecendo o patrimônio cultural da Humanidade, apontando-lhe o norte para a saúde espiritual, pela poesia com que transmitem esses valores. E dessa sadia evasão precisamos um pouco todos nós, para recuperar as forças e os ideais no mundo do trabalho.

Do Rio para Brasília, 5-6 de outubro de 2007