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A Aquisição das Virtudes Pela Luta Interior

I) NÃO CONFORMISMO

No inverno de 2010, ouvi pela primeira vez, numa animada tertúlia em São Paulo, cantada a plenos pulmões por um grupo de rapazes, com violões e flauta transversal, fazendo contra-ponto 2 a 2, a música “Bola de Meia, Bola de Gude”, de Milton Nascimento e Fernando Brant. Copio a letra, se acaso alguém não a conhece, pois servirá de pauta para a reflexão que gostaria de fazer sobre não conformismo e melhora:

“Há um menino, há um moleque

morando sempre no meu coração.

Toda vez que o adulto balança

Ele vem pra me dar a mão.

Há um passado no meu presente

um sol bem quente lá no meu quintal.

Toda vez que a bruxa me assombra

o menino me dá a mão.

E me fala de coisas bonitas que eu

acredito que não deixarão de existir.

Amizade, palavra, respeito, caráter,

bondade, alegria e amor.

Pois não posso, não devo, não quero

Viver como toda essa gente insiste em viver.

Não posso aceitar sossegado qualquer

sacanagem ser coisa normal.

Bola de meia, bola de gude, o

solidário não quer solidão.

Toda vez que a tristeza me alcança

o menino me dá a mão”.

A  música fala de valores recebidos na infância e prezados na juventude, que podem ser atropelados na maturidade, quando se ingressa na vida profissional, pela disputa, deslealdade, preconceito, sedução, inveja, bajulação e assédio, circunstâncias que caracterizam um ambiente adverso aos valores morais decantados por Milton Nascimento, que são a amizade, palavra, respeito, caráter, bondade, alegria e amor.

Diante do dilema entre aquilo que podem nos dizerDeixe de ser idealista! Caia na real! Mas em que mundo você vive? – e o que a consciência nos aponta como “la cosa justa da fare” (estrofe de música da Laura Pausini), a pressão social pode fazer com que se abdiquem dos ideais e valores que nos formaram, se esses valores não estavam arraigados e não estão sendo constantemente vivenciados.

Milton Nascimento nos fala de não conformismo, de “não aceitar sossegado que qualquer sacanagem seja coisa normal”, que um mundo de violência, exploração, rasteiras, corrupção, pornografia e mentiras seja o habitat natural do ser humano, com o qual ele deva se adaptar e amoldar.

Mas que se pode fazer, se a correnteza é forte e nos leva de roldão? O conhecido ditado – uma andorinha não faz verão – é sempre lembrado nessas horas para justificar a rendição pessoal diante de situações em que viver os valores morais supõe heroísmo e fortaleza. O “politicamente correto” passa a ser a cartilha seguida por quem deseja subir a qualquer preço, triunfar e ter sucesso na vida, satisfazer todas as suas ambições de prazer e de poder, ou simplesmente não ter dores de cabeça… A desculpa para negócios menos honestos ou compromissos escusos é sempre: Afinal, todo mundo age assim? Certo ou errada, a prática está generalizada…

Encantei-me com o comentário que um ex-colega de Tribunal, o Min. José Luciano de Castilho Pereira, conhecido pela sua retidão moral e competência profissional, fez, quando falávamos de alguns casos tristes que tivemos de julgar no Conselho Nacional de Justiça, envolvendo a conduta imoral de magistrados (felizmente poucos): Aquilo que não puder contar para Angela, não posso fazer! (Angela é sua mulher).

Pensando em seu comentário, podemos vislumbrar os três caminhos que se abrem diante de um ambiente adverso:

a) Depor as armas e conformar-se ao ambiente (caminho fácil);

b) Tornar-se amargo, reclamão e vingativo, partindo para uma luta contra as estruturas sociais, o que não deixa de ser um modo de agir “com as armas dos inimigo” (caminho acre);

c) Resistir de forma otimista, pela aquisição e exercício das virtudes em qualquer condição de temperatura e pressão, mudando paulatinamente o ambiente ao nosso redor (caminho eficaz);

Trataremos aqui apenas dos dois últimos caminhos, pois estas linhas se escrevem para não conformistas.

II) O CAMINHO ACRE: O ÓDIO E A VINGANÇA

Quando sofremos uma derrota em que a sensação de injustiça é grande, porque os meios usados pelo adversário não foram honestos, pode bater a tentação de pagar na mesma moeda, concluindo que, se todo mundo joga sujo, quem não adotar as mesmas armas estará naturalmente fadado ao fracasso. Agir assim é deixar-se arrastar pelos instintos e pelos sentimentos baixos de vingança ou de justiça vetero-testamentária do olho por olho e dente por dente. Reagir ao ambiente pela via da luta exterior não parece ser o melhor caminho a seguir.

No livro “Star Trek e a Filosofia” organizado por Jason Eberl e Kevin Decker (Madras – 2010 – São Paulo), em que os autores aproveitam os episódios da famosa série de TV do gênero ficção científica para trazer à prática grandes questões filosóficas, o tema da vingança é bem desenvolvido no capítulo “A Ira de Nietzsche”, no qual o pano de fundo e o filme “Jornada nas Estrelas II: A Ira de Khan”, onde o personagem principal é representado pelo renomado ator Ricardo Montalbán.

A descrição e a motivação que os autores do artigo (Shai Biderman e William Devlin) apresentam dos dois personagens principais, que se enfrentam no filme é muito sugestiva:

James Tiberius Kirk – É um “peixe fora d’água, pois sua missão de cinco anos havia acabado e a vida dele havia se tornado menos significativa, apesar de suas realizações e de suas honras. Uma vez tendo sido o mais jovem capitão na história da Frota Estelar, Kirk agora reflete sobre o significado e sobre o propósito de sua própria vida a partir da perspectiva da meia-idade. Ele foi promovido a almirante, mas sua promoção não o faz se sentir mais realizado”. Está desmotivado (pg. 68).

Khan Noonien Singh – É “um produto da engenharia genética do final do século XX…Depois de sua tentativa de assassinar Kirk e comandar a Enterprise, Khan e seus seguidores são sentenciados a uma vida inteira de exílio em Ceti Alfa V. Tendo sido uma vez um ambiente habitável, o planeta torna-se um punhado de terra improdutiva depois que o planeta irmão explode, e Khan perde muitos de seu povo nos anos que se seguem, incluindo sua amada esposa, a ex-tripulante da Enterprise, Maria McGivers”. As duas metas de sua vida, quando consegue escapar do cativeiro, são: roubar o projeto Genesis, “experimento científico que cria vida da ausência de vida”, e, mais importante subjetivamente, vingar-se do almirante Kirk (pg. 70).

Perguntam-se os filósofos autores do artigo, refletindo sobre a motivação existencial do Khan: “A vingança ajuda a criar uma vida significativa, que valha a pena ser vivida, ou a vingança obstrui a busca de um indivíduo por uma vida significativa, uma obstrução que pode até mesmo, por fim, levar à destruição da vida em si?” (pg. 68). E, afinal, pensando no Almirante Kirk, o que tornaria uma vida significativa?

Diferenciam os autores a santa ira, desejo reto de restabelecimento da justiça, da vingança selvagem, que visa ao sofrimento de outrem. A primeira é fruto da caridade que se entristece com a falta alheia e deseja a correção do infrator, porque o estima. A segunda é fruto do ressentimento e torna a pessoa que se deixa dominar por ela escrava do sentimento de vingança.

Khan é, mais uma vez, vencido por Kirk, e morre externando todo o seu ódio: “Do coração do inferno, eu o apunhalo. Pelo meu ódio, cuspo em você em meu último suspiro!” (pg. 76).

Um vida centrada em si mesmo e depois focada na vingança, frustra, mesmo se a vingança for bem sucedida, como é o caso do “Conde de Monte Cristo” (1844) de Alexandre Dumas (1802-1870). Edmond Dantés ao conseguir arruinar principalmente Fernand Mondego, que o havia denunciado falsamente para casar-se com sua noiva Mercedes e fora causa de seus muitos anos na prisão, sente um gosto amargo de vida desperdiçada em ódio, quando sabe do suicídio de Fernand.

O caminho da justiça vindicativa não tem se mostrado eficaz na transformação para melhor da sociedade. Punir por punir, num regime de medo da pena, não atinge o âmago do problema, que é a formação da pessoa nos valores morais mais elevados, os quais, uma vez assumidos como próprios, passam a ser efetivamente vivenciados, como se procura fazer na justiça restaurativa.

III) A LUTA EXTERIOR: MUDAR POR FORA

Já o caminho da luta exterior para a transformação das estruturas sociais segue o mesmo destino acre e pouco eficaz e duradouro do amargor individual diante das injustiças sociais que se vem. Exemplo paradigmático é o das revoluções socializantes.

É interessante notar que toda a ideologia marxista, que alimenta essas revoluções, é genuinamente não conformista. É célebre o grito de Karl Marx: “Até hoje os filósofos limitaram-se a interpretar o mundo; trata-se agora de transformá-lo”. É também célebre a expressão jocosa – e também conformista – que se utiliza para debochar dos que acreditam nessa ideologia: Quem nunca foi marxista até os 40 anos é que não tem coração; quem continua a sê-lo depois dos 40 é que não tem cabeça.

Com efeito, o marxismo não é conformista. Deseja transformar o mundo, vendo a exploração de uns homens por outros. No entanto, escolheu o caminho equivocado, da luta exterior, da práxis revolucionária, uma vez que concebe a luta de classes como o motor da História. Daí que acredite que mudando as estruturas sociais mudará o mundo.

É admirável a figura de Antonio Gramsci (1891-1937), fundador do Partido Comunista Italiano, pelo seu genuíno, despojado e autêntico idealismo, muito diferente daqueles que abraçam ideologias socializantes e vivem como bons burgueses. Preso e condenado pelos fascistas italianos em 1926, ficou até quase a morte na prisão, onde escreveu seus “Cadernos do Cárcere”, nos quais traça perfeitamente a estratégia da “Esquerda” de conquista do poder:

a) na luta de classes, a classe proletária que busca a hegemonia na sociedade deve difundir, através de intelectuais engajados, sua cultura própria na sociedade civil (sindicatos, universidades, igrejas, imprensa, etc), até alcançar um consenso que lhe permita conquistar o poder político (Estado);

b) essa classe deve se organizar-se em partido, que seja o depositário da doutrina, ao qual todos se subordinem;

c) a revolução não se fará mais pelas armas ou pelo confronto direto, mas pela guerra de posições a serem gradualmente conquistadas: revolução no âmbito da cultura, exercendo verdadeiro patrulhamento ideológico em relação ao que não esteja de acordo com a ideologia socialista.

Não fora o desrespeito à liberdade – valor fundamental em qualquer Estado genuinamente democrático –, a difusão de idéias e valores pelos mais diversos ambientes sociais que propõe é salutar. O que falta é saber conviver com o pluralismo. Para isso é necessária uma mudança de mentalidade: a solidariedade é um valor que não se impõe; deve vir de dentro, de uma pessoa que, prezando e vivendo os valores morais, preocupa-se sinceramente com os outros e tem por ideal servir e não servir-se dos demais.

70 anos de marxismo no que então se denominava 2º Mundo (União Soviética e seus satélites) foram mais do que suficientes para demonstrar – naturalmente para quem quiser ver, pensando em que “o pior cego é aquele que não quer ver” – que a mudança das estruturas sociais não faz o paraíso na terra, porque o homem continua o mesmo. Deve-se trabalhar mais profundamente, transformando o próprio homem por dentro.

IV) LUTA INTERIOR: RACIONALIDADE VERUS SENTIMENTALISMO

Se o melhor caminho para afrontar um ambiente hostil aos valores morais não é o da luta exterior para transformar a sociedade – uma espécie de guerra inicial imoral, para depois voltar à moral (os fins justificam os meios, diria Maquiavel), como empreender o caminho da luta interior contra si mesmo, contra esses dragões interiores (lembrando o filme de Joffé “There Be Dragoons”), que estão soltos e, começando por fazer mal a nós mesmos, espalham seu fogo abrasador e destrutivo por toda a sociedade?

Lembrando o comentário evangélico, quantos não repetem, depois de suas quedas e negociatas, procurando justificá-las: A carne é fraca…

Afinal, como conter as paixões e os sentimentos? No fundo, a corrupção exterior é fruto do domínio das paixões sobre a razão. Haverá um modo da cabeça prevalecer sobre o coração? A razão sobre o instinto?

Aristóteles elencava as paixões em duplas, procurando mostrar que, consideradas em si mesmas, não seriam nem boas nem más: amor e ódio, alegria e tristeza, medo e audácia, esperança e desespero, desejo e ira.

No artigo “Humanos sorriem com tão pouca provocação”, da já mencionada coletânea sobre “Star Trek e a Filosofia”, seu autor, Harald Thorsrud, explora o tema do conflito interior entre racionalidade e sentimentalismo, utilizando-se de dois personagens da referida série televisiva: O Sr. Spock (Série Original) e o humanóide Data (Nova Geração). O primeiro, filho de mãe humana e pai vulcano, luta interiormente por controlar suas emoções, privilegiando a pura lógica vulcana no agir. O outro, verdadeiro robô programado logicamente, tem “inveja” dos humanos, ao perceber que o sentimento desempenha um papel importante na vida, algo que lhe falta.

Com efeito, controlar os sentimentos é uma tarefa desafiadora: Como raciocinar quando se está tremendamente apaixonado por alguém? Como perdoar do fundo do coração quando assoma uma ira raiando o ódio por alguém que nos atraiçoou ou nos passou uma rasteira profissional? Como controlar o medo diante de situações apavorantes pelo desconhecido ou por superar as nossas forças? Como não se deixar abater pelo desespero ao constatar diuturnamente nossas fraquezas?

Numa visão antropológica aristotélica, a alma humana é composta de inteligência, vontade e sentimentos. Cabe à inteligência, vendo racionalmente a realidade, mostrar à vontade os objetos adequados à pessoa, de modo a que impere sobre os sentimentos, aproveitando-os como força propulsora e não pedra de tropeço.

No entanto, essa equação não é fácil de fechar. Sem o exercício da vontade na prática das virtudes (vistas como boas pela inteligência), quem acaba mandando no homem são os sentimentos. Há, portanto, uma natureza ideal do homem, pautada pela razão, e uma natureza corrompida pela desordem das paixões. Cabe à vontade canalizar para o bem todos os sentimentos (inclusive os aparentemente maus, como o ódio ou a ira), gerando no homem uma segunda natureza, aquela construída sobre as virtudes.

V) A AQUISIÇÃO DAS VIRTUDES

E como se adquirem as virtudes? Mais do que isso: o que são, afinal essas virtudes?

Aristóteles definia as virtudes como hábitos bons que adquirimos através da repetição de atos bons. A coragem se adquire vencendo uma vez e outra o medo diante das dificuldades, até ser natural enfrentarmos qualquer adversidade, sem ficarmos paralisados diante dos obstáculos. O mesmo acontece com a paciência, que faz não reclamar diante das chatices do próximo ou das situações incômodas que se prolongam no tempo, uma vez que se acostumou o espírito com esse tipo de perspectiva.

A luta pelas virtudes não é um combate estóico, de alguém que consegue dominar-se à base de se desumanizar. Mais uma vez o exemplo do “Star Trek”, comparando o humano e o vulcano. Numa situação de extremo perigo, o Sr. Spock é o único que consegue controlar-se e se lançar imediatamente, arriscando a própria vida, para salvar a frota estelar de uma catástrofe. No entanto, sua frieza e destemor são contestados pelo Dr. McCoy:

“Você sabe por que não tem medo de morrer, Spock? Você tem mais medo de viver. A cada dia que você fica vivo, poderia escorregar e permitir que sua metade humana viesse à tona furtivamente. É isso, não é? Insegurança. Por quê? Você não saberia o que fazer com um sentimento caloroso, genuíno, decente” (“Star Trek e a Filosofia”, op. cit., pg. 58).

A análise da “coragem” de Spock feita por McCoy é de um realismo e profundidade impressionantes: retrata uma das posturas extremas do relacionamento do homem com o mundo. Com efeito, duas correntes filosóficas gregas apontaram para dois caminhos distintos para o comportamento do homem em relação aos bens e às pessoas: o estoicismo (Zenão, 333-262 a.C.) e o epicurismo (Epicuro, 341-270 a.C.).

O ponto nodal da discórdia entre as duas Escolas Gregas Clássicas – a Kepos (“Jardim”) e a Stoa (“Pórtico”) – é o papel que o prazer e as paixões desempenham na vida humana. Enquanto os epicuristas exaltam a busca do prazer como a razão de viver, já os estóicos sustentam que a felicidade se obteria com a impassibilidade: não sofrer com as dores, nem buscar os prazeres. Modernamente, essas Escolas Gregas encontraram eco em duas correntes filosóficas: o utilitarismo de Jeremy Bentham (1748-1832), voltado “ao máximo prazer do maior número” e o idealismo de Emanuel Kant (1724-1804), focado no “cumprimento do dever pelo dever”.

O epicurismo utilitarista rebaixa o homem a uma condição animalesca, de busca desenfreada do prazer a todo custo, com avidez que embrutece o homem. Já o estoicismo idealista desumaniza e distorce o próprio ideal de aperfeiçoamento virtuoso, colocando-o acima e fora da condição humana.

Nesse, como em outros pontos, a postura aristotélica centrada no equilíbrio do “in medio virtus” aponta para a correta visão do papel que o prazer deve desempenhar em nossa vida e do que significa adquirir, viver e praticar as virtudes.

O prazer é o meio natural que estimula o cumprimento dos instintos vitais no animal e no homem. O prazer do comer e do beber garante a auto-conservação; o prazer sexual garante a conservação da espécie. O problema está na inversão de valores e funções: busca-se o prazer e se evitam os fins, até que estes aparecem como absolutamente secundários e a avidez do prazer leva ao sacrifício de pessoas e valores para a satisfação própria contínua e em doses cada vez maiores.

Encontrar o ponto de equilíbrio na busca do prazer é um dos segredos da felicidade humana: perceber a relação entre fins e meios, prazeres e seus instintos existenciais, moderação e verdadeira satisfação.

Daí a necessidade da luta interior, do império da razão sobre os instintos, com o uso da inteligência e da vontade para manter os sentimentos em seu devido lugar, como motor e não como entrave ao aperfeiçoamento pessoal.

VI) A LUTA INTERIOR CONTRA OS DEFEITOS

Lembrando a mitologia grega, especificamente a estória do semi-deus Aquiles, cujo único ponto vulnerável era seu calcanhar, pelo qual será ferido e encontrará a morte no final da Guerra de Tróia, podemos dizer que cada um de nós tem o seu “Calcanhar de Aquiles”, o seu defeito dominante, que se destaca sobre os demais, por ser a nossa principal fonte de quedas e dificuldades na vida.

Através da observação sobre si mesmo e sobre os demais, não é difícil se chegar a resumir em 3 grandes defeitos a variada gama de misérias humanas: o orgulho (aqui abrangendo a auto-suficiência e a vaidade), a sensualidade (incluindo a busca desenfreada do prazer em todas as suas modalidades) e a preguiça (ligada ao comodismo paralisante da realização de qualquer projeto maior na vida).

A vaidade e o orgulho são a principal fonte de desentendimento entre os homens, uma vez que faz desprezar as realizações alheias e querer sempre fazer prevalecer a própria opinião e aparecer a própria imagem. A sensualidade, no campo do sexo, tem como frutos amargos a vulgarização da mulher, a animalização do homem e a supressão da vida nascente, e, no campo gastronômico, todas as doenças decorrentes da obesidade, sempre por destempero na busca do prazer sensível. E o comodismo é a chave para fazer da vida uma “paixão inútil”, na expressão antológica do existencialista francês.

Como derrotar esses inimigos da autêntica auto-realização?

Em primeiro lugar, como em qualquer tática militar, detectando a presença do inimigo. O fator surpresa e a camuflagem que escondem a presença do inimigo são seus principais trunfos. Os nossos são a sinceridade conosco mesmo para reconhecer que somos vaidosos, sensuais e preguiçosos, numa medida ou noutra. Basta nos fazermos as seguintes perguntas e as respondermos com sinceridade para detectarmos as raízes do mal e sua virulência em nossa vida:

a) Falamos muito de nós mesmos e temos dificuldade de nos interessarmos pelas coisas dos outros?

b) Estamos tão preocupados com a imagem que os outros tem de nós, com o medo de errar, que ficamos paralisados no agir e no falar, especialmente em público?

c) Mesmo sabendo que vamos engordar ou que a gastrite vai piorar, atacamos com avidez aqueles pratos ou bebidas de que mais gostamos, sem pensar nas conseqüências (que acabam vindo “on line”)?

d) Deixamos passar o tempo na frente da TV, sem conseguir tomar a decisão de ir estudar ou concluir a tarefa que está gritando pelo nosso trabalho?

e) Não conseguimos nos controlar quando ficamos a sós no namoro, sem pensar nas conseqüências psicológicas e materiais de nossas ações?

Em segundo lugar, estar decididos a mudar. Temos medo de mudar?

Quando era pequeno e comecei a andar a cavalo, na Fazenda de meus pais em Avaré, ao mudar do passo ao trote, o incômodo do balanço era tão grande que tive medo do galope, pensando que daí nem conseguiria ficar no cavalo. Só depois da primeira galopada é que percebi que o chacoalhar contínuo na sela diminuía com a natural cadência espaçada do galope.

Ora, há pessoas que ficam, na vida, num eterno trote, imaginando dificuldades tremendas se forem mais ousadas ou generosas no campo das virtudes, achando que não conseguirão viver habitualmente a coragem nas dificuldades, a honestidade nos negócios, a fidelidade matrimonial ou a paciência e o perdão nas relações profissionais ou familiares.

Outros, há, que tem vergonha de mudar, como se sua personalidade estivesse definida desde a mais tenra idade e fosse um demérito reconhecer um defeito e passar a agir de forma diversa. Na verdade, deveríamos receber como um elogio o comentário de algum familiar, colega ou amigo que nos encontrasse depois de muitos anos sem nos ver, dizendo: Como você mudou? (obviamente, se foi para melhor…).

Mais perigoso é o medo de mudar por receio de ficar mal diante do ambiente. Esse é o conformista de que falávamos no começo. Se é isso o que nos impede de mudar, é preciso atacar mais fundo o inimigo, que é o mundanismo, sabendo dar “os nomes aos bois” a não inventar nomes ao que não tem. Em vez do “assumir as próprias fraquezas” como algo natural e invencível, aceitá-las como ponto de partida do esforço de mudança e melhora.

Finalmente, reconhecidos os defeitos, detectados os principais e perdido o medo de mudar, vem aí a luta por mudar, vencendo os defeitos pela aquisição das virtudes opostas:

a) Orgulho e vaidade – humildade;

b) Avareza – generosidade e desprendimento;

c) Luxúria – castidade;

d) Gula – temperança e sobriedade;

e) Preguiça – laboriosidade;

f) Ira – mansidão;

g) Inveja – magnanimidade.

Podemos dizer que o paradigma da luta interior está na luta por viver as virtudes da fortaleza e da temperança: saber enfrentar os sacrifícios necessários e fugir dos prazeres desordenados.

Como se vence a gula? Dizendo não ao que ultrapassa a necessidade no comer. Uma vez e outra, sabendo parar um pouco antes de estarmos plenamente satisfeitos, pois, organicamente, o sinal de satisfação chega ao cérebro um pouco depois da ingestão suficiente de alimentos.

O problema é que queremos permanecer esbeltos sem controlar o garfo! Muitos sonham com o dia em que, através de experimentos genéticos, poder-se-á chegar ao controle de todas as características físicas da pessoa, de tal modo que se chegará ao homem e mulher perfeitos. Mas do que adianta uma aparência simpaticíssima e um temperamento insuportável? A virtude vem de dentro, não de fora. Vem da alma, não do corpo.

Na Copa do Mundo de Futebol de 2010, realizada na África do Sul, ficou conhecida uma nova bola, com características de maior dificuldade de controle: a jabulani, fabricada especialmente pela Adidas. Num paralelismo muito apropriado, houve quem comparasse a barriga do obeso a uma jabulani, alertando a magros e menos magros: Cuidado com a jabulânia! Ou seja, sem luta diária pelo controle do garfo em cada refeição, não há como controlar o crescimento da jabulânia… (nome bem sonoro para a curvatura mais ou menos acentuada da barriga).

Mas se a analogia é esportiva, também leva em conta que não se mantém a forma esbelta sem exercícios físicos. A palavra grega askesis (ascética) significa esforço e exercício, aplicando-se tanto ao corpo quanto à alma, no ideal greco-romano da “mens sana in corpore sano”.

Nesse sentido, o princípio do esforço físico para manter a forma, com sacrifícios e lutas para superar obstáculos e tentações, é o mesmo que se aplica para a aquisição das virtudes morais. Sem esforço não há virtude: para chegar a ser natural o agir moral, tornando-se hábito adquirido, deve haver um inicial esforço para a aquisição dessa boa disposição.

Portanto, em relação à temperança, a receita é a mesma da forma física: constância no controle do garfo e perseverança nas atividades físicas, que combatem o sedentarismo e o comodismo, através de caminhadas, prática de esportes ou academia.

E como se vence a ira? Mordendo a língua e contando até 10 antes de responder, esperando que a racionalidade se imponha antes de falar, pois as feridas abertas por uma palavra ferina demoram a cicatrizar – quando cicatrizam. É preferível falar só quando se deixou esfriar a cabeça, para se dizer apenas o que seja necessário para restabelecer a justiça e esclarecer os fatos.

E a preguiça? Como se combate? Começando habitualmente, um dia e outro, a trabalhar nas tarefas que menos gostamos; permanecendo na mesma tarefa até concluí-la (ou a parte que havíamos fixado para esse dia); levantando-nos imediatamente da cama quando toca o despertador, sem ficar num diálogo interminável com o travesseiro; deixando de navegar a esmo na internet, vendo – sem perceber – as horas passar.

E a luxúria? Bem, podemos lembrar (e “escarmentar em cabeça alheia”) o caso do adultério do Rei Davi, narrado no capítulo 11 do II Livro de Samuel: contemplando Betsabá se banhando no rio, permaneceu em sua “morosa delectatio”, até que o desejo de tê-la para si levou-o a mandar chamá-la ao palácio, dormir com ela e ordenar a morte do marido, colocando-o na frente mais dura de combate. Ao adultério somou um homicídio. Tudo começou com o olhar solto, contemplando o que não lhe convinha. Daí o conselho: Os olhos! Por eles entram na alma muitas iniquidades. – Quantas experiências como a de Davi!… – Se guardardes a vista, tereis assegurado a guarda do vosso coração” (S. Josemaria Escrivá, “Caminho” – 1999 – São Paulo, 9ª edição, ponto 183).

E a vaidade? Em primeiro lugar, reconhecendo que somos mesmo vaidosos e orgulhosos. Uma boa pauta para percepção do defeito em nós é a que S. Josemaria Escrivá nos apresenta no ponto 263 de “Sulco” (Quadrante – 2005 – São Paulo), com muito realismo:

“Deixa-me que te recorde, entre os outros, alguns sinais evidentes de falta de humildade:

- pensar que o que fazes ou dizes está mais bem feito ou dito do que aquilo que os outros fazem ou dizem;

- querer levar sempre a tua avante;

- discutir sem razão ou – quando a tens – insistir com teimosia e de maus modos;

- dar o teu parecer sem que te peçam, ou sem que a caridade o exija;

- desprezar o ponto de vista dos outros;

- não encarar todos os teus dons e qualidades como emprestados;

- não reconhecer que és indigno de qualquer honra e estima, que não mereces sequer a terra que pisas e as coisas que possuís;

- citar-te a ti mesmo como exemplo nas conversas;

- falar mal de ti mesmo, para que façam bom juízo de ti ou te contradigam;

- desculpar-te quando te repreendem;

- ocultar ao Diretor algumas faltas humilhantes para que não perca o conceito que faz de ti;

- doer-te de que outros sejam mais estimados do que tu;

- negar-te a desempenhar ofícios inferiores;

- procurar ou desejar singularizar-te;

- insinuar na conversa palavras de louvor próprio ou que dêem a entender a tua honradez, o teu engenho ou habilidade, o teu prestígio profissional…;

- envergonhar-te por careceres de certos bens…”

Depois de reconhecer os próprios defeitos e limitações, o caminho para vencer a vaidade e o orgulho é justamente valorizar os demais, como bem o fez o Ministro Lima Teixeira, nesta simpática poesia dedicada a seus colegas (in Revista do Tribunal Superior do Trabalho, Ano de 1975, LTr – 1976 – São Paulo, p. 104):

“TST GRANDIOSO

Não sei se diga, que é certo

Ou que certo é o argumento:

Pois quanto mais longe, ou de perto,

Não encontro fundamento.

Somos vários magistrados,

E da maior projeção;

Há os que são mais versados

Outros com mais perfeição.

Há os que são tratadistas,

De cátedra transcendental:

E há os que são estilistas

De visão fenomenal!

Há os que são realistas

Dos aspectos cruciais:

Há os que são analistas

dos fenômenos sociais!

Que Tribunal fabuloso!

Tantos são os seus valores…

Parece até assombroso

Conjunção de tais pendores”.

É natural vibrarmos com as instituições às quais pertencemos – uma espécie de orgulho coletivo e desculpável –, pois esse entusiasmo profissional é um bom motor para servirmos melhor à instituição e aos que dela dependem, valorizando o trabalho de todos e de cada um de seus membros.

Enfim, para cada uma das virtudes, o meio de adquiri-la está numa luta interior para vencer, em cada momento, a tendência instintiva ao egoísmo, ao comodismo e à sensualidade. E uma luta esportiva, que sabe não desistir diante das quedas, das derrotas e dos fracassos. Com fair-play, recomeça o combate para, mudando a si mesmo para melhor, possa simultaneamente ir transformando o ambiente.

VII) CONFORMAR O PRÓPRIO AMBIENTE

No fundo, duas são as posturas que podemos ter diante do ambiente cultural, profissional e moral no qual vivemos, trabalhamos e nos divertimos: conformar-nos a ele ou conformá-lo. Deixar-nos arrastar por aquilo que todo mundo diz ou faz – o politicamente correto – ou enfrentar, como o salmão enfrenta a correnteza, os clichês e modismos, para agir como nossa consciência nos diz que devemos agir.

Exemplo paradigmático de não conformismo diante de um ambiente adverso, em que todos se conformam à ideologia dominante ou a aceitam passivamente, é o da jovem alemã Sophie Scholl (09/05/1921-22/02/1943), universitária que, com alguns colegas, tentou mostrar ao mundo que não era aceitável o atropelamento à liberdade e dignidade humana que o regime nazista vinha impondo à Alemanha, e foram pegos divulgando um manifesto na Universidade de Munique. Sua vida é muito bem retratada no livro “Sophie Scholl – The real story of the woman who defied Hitler” (Frank McDonough, The History Press – 2010 – Gloucestershire).

Na versão cinematográfica – “Sophie Scholl – Uma Mulher contra Hitler” (2005), o interrogatório final (a 18/02/1943) a que é submetida, antes de sua condenação e execução, mostra bem o perfil ético, a coragem e as convicções dessa jovem (as falas de Sophie estarão em itálico):

Robert Mohr (Agente da Gestapo): - Café?

Sophie: - Por que quer nos punir?

- Porque é lei e sem lei não há ordem.

- A lei a que se refere protegia a liberdade de expressão antes do Nazismo subir ao poder, em 1933.Quem opina hoje é preso ou condenado a morte. Isso é ordem?

- Só podemos confiar na lei, não importa quem a tenha escrito.

- E na sua consciência?

- Bobagem. Aqui está a lei e aqui está o povo. Como criminalista, devo descobrir se ambos coincidem e se não coincidem encontrar a maçã podre.

- As leis mudam, a consciência não.

- E se todos decidissem o que é certo ou errado individualmente? O que restaria se criminosos derrubassem o Fuhrer? Caos criminal…

- Sem Hitler e seu partido haveria lei e ordem para todo o mundo. Todos estariam livres de atos arbitrários, não só os capachos.

- Como se atreve a fazer comentários aviltantes.

- Aviltante é nos chamar criminosos por causa de alguns panfletos. Só tentamos convencer as pessoas com palavras.

- Você e seu grupo abusaram de seus privilégios. Estudam em tempo de guerra com nosso dinheiro. Eu era alfaiate no tempo da democracia. Sabe o que me tornou um policial? A ocupação francesa, não a democracia alemã. Sem o movimento seria um policial do interior. Aquele repulsivo tratado de Versalhes… Inflação, desemprego, pobreza. Hitler acabou com tudo isso.

- E levou o país para uma guerra sangrenta onde todos morrem em vão.

- Uma luta heróica. Você recebe os mesmos cupons que as pessoas que combatem. Você está em melhor posição que pessoas como eu. Você não precisa fazer isto. Como ousa elevar a voz? O Fuhrer e o povo protegem você.

- Aqui, no palácio Wilttelsbach? Prendendo minha família?

- Estamos libertando a Europa da plutocracia e do bolchevismo. Lutamos pela Alemanha livre. Nunca seremos ocupados.

- Até a guerra acabar e as tropas estrangeiras invadirem e o mundo apontar para nós com o dedo por tolerar Hitler.

- O que dirá quando a vitória final for nossa? Quando a liberdade e a prosperidade florescerem? Que essa era a sua visão quando se afiliou à BDM?

- Na Alemanha todos deixaram de acreditar em Hitler.

- E se eu estiver certo? Você é protestante?

- Sim.

- A Igreja também exige devoção, mesmo se tiver dúvidas?

- As pessoas vão à igreja voluntariamente. Hitler e o nazismo não oferecem outra opção.

- Porque se arrisca tanto por falsos ideais?

- Porque tenho consciência.

- Você é tão dotada… Porque não pensa como nós. Liberdade, honra, prosperidade. Um governo responsável. Esta é a nossa convicção.

- Não abriu os olhos com o terrível banho de sangue conduzido pelo nazismo em nome da liberdade e da honra? A Alemanha cairá em desgraça se a juventude não derrubar Hitler e construir uma nova Europa intelectual.

- A nova Europa só poderá ser nacional socialista.

- E se o Fuhrer for louco? Por exemplo, o ódio racial. Tivemos um professor judeu em Ulm. Ele ficou diante de uma tropa das SS e todos cuspiram no seu rosto. Naquela noite desapareceu. Como muitos em Munique. Supostamente foram trabalhar na Europa Oriental.

- Acredita nisso. Bobagem. Judeus são imigrantes.

- Soldados vindos do Leste falam de campos de extermínio. Hitler quer exterminar todos os judeus europeus. Ele pregava essa loucura há 20 anos. Como pode acreditar que os judeus são diferentes de nós?

- Essa gente trouxe infortúnio. Você está confusa, não tem ideia. Teve educação errada. Eu a teria educado diferente.

- Tem ideia do meu choque quando descobri que os nazistas eliminavam crianças deficientes mentais? Amigos de minha mãe nos contaram isso. Caminhões vinham recolher as crianças no hospital. As outras crianças perguntavam para onde estavam indo. “Para o céu”, diziam as enfermeiras. E as crianças subiam no caminhão cantando. Acha que não fui bem educada porque sinto pena delas?

- Eram vida inúteis. Foi treinada para ser enfermeira. Viu pessoas mentalmente doentes.

- Sim, por isso eu sei. Ninguém escapa do julgamento divino. Ninguém sabe o que passa na mente de um deficiente mental. Quanta sabedoria pode vir do sofrimento. Toda vida é preciosa.

- Deve entender que nasceu uma nova era. O que diz não tem nada a ver com a realidade.

- É claro que tem. Com decência, moral e Deus.

- Deus? Deus não existe. Não é verdade que confiou no seu irmão, que acha certo o que ele fez? Que você participou disso. Não devemos por isso no relatório.

- Não, porque é errado.

- Tenho um filho um ano mais novo do que você. Ele já teve ideias malucas. Hoje está na frente oriental porque sabe que tem um dever a cumprir.

- Acredita na vitória final?

- Se tivesse considerado tudo não teria se envolvido nisto. Sua vida está em jogo. A título de protocolo pergunto a você: Após nossas conversas considera que as ações com seu irmão podem ser vistas como um crime contra a sociedade e, em particular, contra as tropas em combate e que devem ser severamente condenadas?

- Não, do meu ponto de vista.

- Admitindo o seu erro não estaria traindo seu irmão.

- Mas trairia o meu ideal. Eu faria tudo de novo. Você está errado, não eu. Ainda acredito que agi no melhor interesse meu povo. Não me arrependo. Aceitarei as consequências.

Impressiona a coragem da jovem estudante diante do investigador da Gestapo. Temas como a liberdade de consciência e o direito à vida, diante de um regime totalitário e promotor da eugenia, são colocados em pauta nesse diálogo, que pode ser um retrato de tantas discussões em rodas de colegas sobre questões da atualidade como as leis do aborto, da homofobia ou da eutanásia, que se procuram impor à sociedade.

O grupo de resistência sem violência de Sophie Scholl, chamado “Rosa Branca”, do qual participava também seu irmão (executado com ela), poderia parecer uma “gota no oceano”, mas representou muito: o próprio Robert Mohr, como diria posteriormente, ficou muito impressionado com a firmeza de convicções da jovem, sua força argumentativa e exemplo de fortaleza diante da perspectiva do sofrimento e da morte. Sua vida e palavras, ainda que no pequeno ambiente de seus colegas da Universidade de Munique, dos agentes que a prenderam e interrogaram, e da Corte Popular que a julgou, condenou e executou no mesmo dia (!!!), impactaram em todos, com maior ou menor profundidade, conforme a abertura maior ou menor à força dos argumentos e da razão.

No final do filme se conta que cópias do manifesto que Sophie e seu irmão haviam distribuído na Universidade de Munique foram repassadas para a Escandinávia e, dali para a Inglaterra, onde os Aliados imprimiram milhões de cópias do “Manifesto dos Estudantes de Munique” e despejaram de avião sobre as cidades alemãs.

Esse exemplo de coerência entre convicções e vida, capaz de transformar o meio em que vivemos, não é e nem será nunca isolado. O potencial de “sinergia” que pode gerar alguém que, não concordando com a pressão social rumo ao hedonismo moral, fisiologismo político e egocentrismo cultural, tenha a coragem de dizer que não segue essa cartilha, faz com que muitos repensem seus valores.

No fundo, cada um de nós poderia escrever, mas num sentido diametralmente oposto à cartilha de Hitler, o seu “Mein Kampf” (Minha Luta), contando suas lutas interiores para vencer seus defeitos e enfrentar um ambiente hostil aos ideais de virtude e valores morais, sonhando com um mundo mais saudável, solidário e justo. Na prática, aqueles que não renunciam a esses ideais e vão transformando suas existências num serviço generoso ao próximo estão escrevendo esse livro com suas vidas.

Em suma, com a virtude da coragem e com a virtude da temperança estaremos em condições de arrostar o ambiente adverso à moral e ao direito, seguindo a canção de Milton Nascimento, sendo, pelo exemplo de conduta reta e honesta, esperança e alento para aqueles que também não se sentem bem num ambiente corrompido e corruptor e desejam uma mudança de ares.

O Fantástico Realismo de Chesterton

1) Introdução

Falar de realismo chestertoniano é falar de realismo aristotélico ou mesmo falar de realismo sem qualquer adjetivação. É puro realismo, em oposição ao idealismo moderno de Descartes, Kant, Hegel, Husserl e todos aqueles para quem o que existe é o mundo mental, ao qual a realidade está submetida.

Adjetivá-lo de fantástico (qualidade que meu pai atribui a tudo o que o alegra e impressiona) se deve ao fato de que, valorizando o mundo da imaginação e da fantasia, tem os pés mais fincados na terra do que aqueles que, desprezando o fantástico e o “admirável Mundo Velho”, vivem realmente no mundo da lua, das suas cogitações e ambições, colocando no próprio umbigo o centro do mundo e a contagem do tempo.

Fez-me rir (e retrata bem o quão arraigada se encontra no homem a tendência ao egocentrismo) a expressão daquele personagem do romance de Patrick O’Brian (1914-2000) “A Fragata Surprise” (Record – 2007 – Rio), um rapazinho indiano de uns 15 anos, guia do Dr. Stephen Maturin, médico do navio, que, perguntado pelo naturalista sobre quão antiga era uma determinada estátua de Bombaim, respondeu com toda a simplicidade: “Tem uma idade imemorial, pois está aí desde antes de eu nascer…”. Expressão que lembra muito a de um conhecido político brasileiro, monotonamente repetida ao falar de suas realizações: “Nunca antes na história deste país…”.

O realismo chestertoniano está primorosamente retratado no livro “Chesterton e o Universo” (Editora UnB – 2008 – Brasília), de Scott Randal Paine (tradução de Lenise Garcia Corrêa Barbosa), em que o autor apresenta a cosmovisão desse gigante na defesa do senso comum que foi Gilbert Keith Chesterton (1874-1936).

Paine, para mostrar a importância do realismo, percorre, no capítulo II (“A Grande Recusa da Filosofia Moderna”), o itinerário que o idealismo seguiu, a partir de Descartes, para chegar a negar as evidências da realidade extra-mental e tentar construir a realidade a partir do sujeito pensante:

a) Descartes (1596-1650): “O Universo Duvidado”;

b) Kant (1724-1804): “O Universo Postulado”;

c) Husserl (1859-1938): “O Universo entre Parênteses”.

2) A Trilha do Idealismo avesso à Realidade

Negar a realidade? É possível que a filosofia moderna tenha chegado a isso? Se Aristóteles (384-322 a.C.) já havia mostrado como se dá o processo de abstração das idéias, a partir da captação sensorial da realidade, como foi possível negar a evidência do mundo que se apresenta diante de nós? Algo impensável, se apresentado assim, com essa simplicidade. Mas é isso que vemos na filosofia moderna cartesiana, em que tudo deve ser matematizado, explicado e compreendido a partir do auto-conhecimento do sujeito pensante!

Essa desconstrução da realidade começa, efetivamente, com Descartes e sua dúvida metódica. Enquanto para Aristóteles e os filósofos gregos o início da filosofia era a admiração (o “mirandum”), ou seja, o impacto diante da beleza e riqueza da Natureza, que faz com que nos perguntemos sobre sua essência e significado, já Descartes, querendo ter uma certeza maior do que já temos, passou a ver na dúvida o início de toda filosofia, ou seja, não acreditar nos sentidos, que poderiam nos enganar, para confiar inteiramente apenas na sua própria reflexão, de modo a ter idéias claras e distintas, chegando finalmente ao seu conhecido postulado inicial de toda a filosofia moderna: “Penso, logo existo”.

Essa estapafúrdia crise existencial induzida é bem descrita pelo próprio Descartes em seu “Discurso do Método”:

Considerarei não a Deus, que é muito bondoso e a suprema fonte da verdade, mas a um certo espírito do mal, não menos talentoso e enganoso do que poderoso, que tem aplicado todos os seus esforços para iludir-me. Considerarei que o céu, o ar, a terra, as cores, as formas e os sons, e todas as outras coisas objetivas que vemos, não passam de ilusões e sonhos que ele usou para enganar minha credulidade. Considerarei a mim mesmo como não tendo mãos, olhos, carne, sangue, nem qualquer sentido, mas acreditando falsamente que possuo todas essas coisas. Permaneceria decididamente vinculado a essa hipótese e, se não conseguir alcançar o conhecimento de qualquer verdade por meio desse método, de qualquer forma estará em minhas mãos suspender meu julgamento” (pg. 8).

Descartes começa por duvidar de que esteja acordado; Kant vai mais além e afirma que vivia no sonho dogmático do qual o acordou Hume (1711-1776), começando por negar a cognoscibilidade do mundo extra-mental, ao afirmar que apenas as suas aparências poderiam ser captadas por nós. Daí que caberia à mente humana dar o conteúdo a essas aparências, através das categorias de tempo e espaço. Paradoxalmente, Kant chama à sua “Crítica da Razão Pura” (1781) de Filosofia Transcendental: “Chamo transcendental todo conhecimento que em geral se ocupe, não dos objetos, mas da maneira que temos de conhecê-los, tanto quanto possível “a priori”.

Como se pode conhecer algo “a priori”? Só mesmo invertendo a equação do conhecimento e admitindo, como o faz Kant na sua “Crítica”, que são os objetos que se devem regular pelo nosso conhecimento e não a nossa cabeça pela realidade extra-mental. Assim, sim, conheceríamos em nós as coisas e não a partir do mundo lá fora…

3) Do Subjetivismo Gnoseológico ao Subjetivismo Ético

Do subjetivismo gnoseológico (de “gnose”, conhecimento), bem retratado na repetida expressão “ninguém é dono da verdade”, ao subjetivismo ético, também representado por outra conhecida frase “o que é errado para você não é errado para mim”, é apenas um passo: se não existe um mundo real extra-mental e objetivo a ser conhecido, sendo o processo de conhecimento um exercício de humildade, ou seja, de adequação e submissão de nossa cabeça a essa realidade, então também não existirá um bem objetivo e adequado à natureza humana, a ser buscado pelo homem como aquele que o poderá aperfeiçoar e realizar. Daí tanta frustração e infelicidade, também no meio da abundância.

Paradigmática, nesse sentido, foi a resposta de Frank Sinatra (1915-1998), no começo dos anos 80, a um jornalista que lhe surpreendeu com a seguinte pergunta (lembrando um amigo meu ponte-pretano, que a todos filosoficamente coloca essa questão existencial): “Frank, você é feliz?”. “The Voice”, como ficou conhecido o fantástico cantor, o qual teve na vida tudo o que desejou – mulheres, poder, fama, dinheiro, capacidade de influência, amigos reais ou bajuladores, satisfazendo inclusive as mínimas vontades, como quando comprou o time de beisebol para o qual torcia, para fazer a escalação que queria… –, respondeu simplesmente: “Não… mas a felicidade não existe”.

O que diria Chesterton a tão inveterado pessimista? Responderia naturalmente com todo o otimismo de seu fantástico realismo: não são as grandes emoções, a posse de incomensuráveis riquezas, o domínio despótico sobre a vontade própria e alheia que fazem a pessoa feliz e bem postada neste mundo – “bem resolvida”, como diria uma pessoa que comigo trabalha –, mas a valorização do comum e do pequeno. O maravilhar-se de ter duas pernas e dois braços e uma cabeça acima do tronco, em proporções que variam nas mais singulares formas de beleza e diferenciação, como mostra da riqueza exuberante da Criação.

4) A Realidade e a Fantasia

Numa passagem antológica de seu “Ortodoxia” (LTr – 2001 – São Paulo, tradução de Cláudia Albuquerque Tavares e apresentação, notas e anexos nossos), Chesterton fala do realismo da criança, já não alcançável pela maioria dos adultos (que bom seria não perder nunca essa capacidade de se maravilhar com o mundo, como o faz a criança):

“Da mesma forma como todos apreciamos as histórias de amor, devido ao instinto sexual,  também gostamos das histórias de terror, porque nos despertam o velho instinto da surpresa. Isso pode ser provado pelo fato de que, quando somos ainda criancinhas, não precisamos de contos de fadas: precisamos, apenas, de contos. A simples vida já é suficientemente interessante. Uma criança de sete anos ficará impressionada se lhe disserem que o pequeno Tomás abriu uma porta e viu um dragão: mas uma criança de três anos já ficará impressionada se lhe disserem apenas que o pequeno Tomás abriu uma porta. Os jovens gostam de contos românticos, mas as crianças gostam de contos realistas – exatamente porque os acham românticos. Na verdade, uma criancinha é quase a única pessoa, segundo a minha maneira de pensar, que poderá ouvir um moderno romance realista sem achá-lo enfadonho. Isso prova que os contos de fadas são, ainda, os únicos que fazem despertar em nós o sentimento quase inato de interesse e admiração” (pg. 76).

Quando Chesterton fala das histórias de terror que despertam o instinto de surpresa no homem, não deixa, em seu realismo, de reconhecer que o mundo real é mais terrificante do que qualquer história de horror. Li, recentemente, o livro “Sobrevivi para Contar” (Fontanar – 2008 – São Paulo) de Immaculée Ilibagiza (n. 1970), sobrevivente do genocídio dos tustsis pelos hutus em Ruanda, ocorrido no ano de 1994. Durante 3 meses, ela ficou escondida com outras 7 mulheres num banheiro de 1×1,5m2, enquanto perto de um milhão de tutsis eram mortos pelo simples fato de serem tutsis (o filme “Hotel Ruanda” retrata bem o ocorrido). Durante 3 meses, o país parou, os serviços públicos cessaram, para que a população hutu, a mando do governo, liquidasse com todas as “baratas” tutsis. Homens, mulheres e crianças eram trucidados sem piedade.

Mas o fantástico da história foi a capacidade de perdão de Ilibagiza para com aqueles que mataram toda a sua família! O perdão não era apenas a condição de se reconstruir o país: era condição para se voltar a ter paz interior, sob pena de se ficar eternamente com o corrosivo sentimento de ódio e desejo de vingança.

Paine, em seu livro, explora bem essa vertente do realismo chestertoniano, ao comentar o capítulo sobre “A Ética na Terra das fadas” (pgs. 126-152). Enquanto Lewis Carroll (1832-1898), em seu “Alice no País das Maravilhas” (Jorge Zahar Editor – 2002 – Rio, Tradução de Maria Luiza Borges), apresenta uma rota de fuga do mundo real, do qual podemos estar cansados quer por sua monotonia, quer pelo estresse que nos causa, Chesterton procura mostrar em seus livros que o mundo fantástico é aquele em que vivemos. Ao invés de entrar na toca do coelho para ter grandes emoções e surpresas, basta sair dela para ver no ordinário e corrente pessoas e acontecimentos fantásticos.

Há um paralelismo muito grande entre os Contos de Fadas: na maioria deles existem mundos paralelos – o real e o imaginário – que se ligam, mas cada um com sua realidade e lógica própria. Não é o caso da magnífica obra de J. R. R. Tolkien (1892-1973) “O Senhor dos Anéis” (Martins Fontes – 2002 – São Paulo), toda ela um mundo fantástico, que começa com os elfos e termina com a história humana.

Mas em obras como “Alice no País das Maravilhas” de Lewis Carroll, “As Crônicas de Nárnia” (Martins Fontes – 2009 – São Paulo) de C. S. Lewis (1898-1963), “A História Sem Fim” (Martins Fontes – 2009 – São Paulo) de Michael Ende (1929-1995), ou “Harry Potter” (Rocco – 1997 a 2007 – São Paulo) de J. K. Rowling (n. 1965), há esses mundos paralelos, o nosso e o da fantasia.

Em Nárnia se ingressa pelos anéis mágicos ou pelo guarda-roupa; no País das Maravilhas pela toca do coelho; em Fantasia por um livro; e no mundo dos bruxos pelos portais especiais. Ou seja, a imaginação humana não é tão imaginativa assim e a realidade ainda sobrepuja a ficção.

A própria poesia da criação desses mundos fantásticos segue cheia de paralelismo: tanto a “Terra Média” construída por Tolkien quanto “Nárnia” idealizada por Lewis têm início a partir da música: o “canto dos Ainur” e o “canto de Ashlam” materializam o espaço e o tempo, fazendo do mundo e da história uma grande sinfonia, com suas luzes e sombras, rompantes e sussurros, como é a vida comum.

5) A Literatura e Realidade

A rigor, toda a literatura, quer seja de ficção ou não, não deixa de ser uma fuga do mundo real do leitor, para entrar no mundo da experiência alheia. Tive essa sensação recentemente, por ocasião do nascimento de minha sobrinha Daniela, com Síndrome de Down. Recebi de uma colega o livro “O Filho Eterno”, de Cristóvão Tezza (Record – 2008 – Rio) e, ao começar a lê-lo, cheguei à conclusão de que a experiência pessoal é sempre única. Como a do personagem central de “A morte de Ivan Ilitich”, de Leon Tolstoi, que sempre acreditara no silogismo “Todo homem é mortal; Sócrates é homem; logo, Sócrates é moratl”, mas que acaba dizendo que aquilo estava bem para Sócrates, não para ele, ao descobrir que tinha seus dias contados.

Aprendemos da experiência alheia, pois os problemas humanos são semelhantes, mas as reações são muitas vezes distintas. À surpresa inicial com as características especiais de minha sobrinha seguiu-se a reação sobrenatural de ver nessa criaturinha tão frágil, carente de carinho e verdadeira usina potencial de amor e afeto, justamente pelas características especiais de seu gênero, a mão de Deus, a pedir uma doação maior de cada um que com ela conviver, elevando o nível geral de virtude de pais, irmãos, avós, tios, primos e amigos. Como disse em seguida meu pai: “Fantástico!”. Um verdadeiro Conto de Fadas, só que com a beleza e a dramaticidade de ser real!

Ao receber a segunda foto da Daniela, com seu sorriso angelical, não pude deixar de pensar que será como uma fada madrinha para toda a família. Aliás, a personagem emblemática dos Contos de Fadas, e que lhes dá o nome, é justamente a Fada Madrinha. Vivendo neste nosso mundo atribulado e cheio de compromissos, quantas abnegadas fadas madrinha não encontramos ao nosso lado, que tornam o peso do dia e do calor menos intenso e a vida mais leve e aprazível. Penso agora em minha mãe, irmãs, sobrinhas e secretárias, com tantos detalhes de atenção e carinho, que me parecem de outro mundo: algo fantástico.

6) De Deus e do Mundo

Paine, em seu livro, fala da estreita relação que existe entre a poesia, a filosofia e a oração, como etapas de nosso contato com o Universo. Primeiro cantamos a beleza da natureza e da vida, com uma sincera admiração; depois começamos a perscrutar os seus mistérios tentando desvendá-los, nem que seja minimamente; finalmente, ao descobrir a existência de um Ser Pessoal por trás de tudo, caímos de joelhos em agradecimento e louvor:

“A poesia começa com prazer e termina em admiração, mas a filosofia começa com a admiração e termina em estupefação. (…) Se filosofarmos longamente, e bem, poderemos um dia deixar de lado nossos livros e construir uma igreja” (pgs. 199-200).

O problema que Chesterton encontra na “Postura da Mente Ocidental” a partir de Descartes e Kant é o de querer desvendar absolutamente todos os mistérios do Universo e querer ordená-los segundo a própria mente, partindo de premissas falsas, quais sejam, as de que a evidência do mundo deve ser submetida a demonstração pelo intelecto, e de que, lembrando Hegel (1770-1831), “o real é racional e o racional é real” (“Fenomenologia do Espírito” – 1807).

Ora, o que pensamos não existe necessariamente na realidade e nem tudo o que existe é compreensível pela mente humana. Assim, a atitude diante da realidade deve ser a da humilde submissão do intelecto, que reconhece seus limites e canta admirado o que pode ver e apreciar. No 1º capítulo de “Ortodoxia” (“Os Maníacos”), Chesterton oferece uma imagem perfeita do realismo poético frente ao idealismo lógico:

“O poeta procura apenas a exaltação e a expansão, isto é, procura um mundo no qual ele possa se expandir. O poeta pretende apenas meter a cabeça no Céu, enquanto que o lógico se esforça por meter o Céu na cabeça. E é a cabeça que acaba por estourar”.

7) Conclusão

Admirar e amar este mundo tal como ele é, mais fantástico do que qualquer imaginação humana poderia engendrar, constitui o segredo da felicidade, que nos leva, como a Chesterton, a militar num otimismo existencial que em tudo vê a Mão do Criador, sempre esperando uma resposta. Daí que, voltando à minha admirável sobrinha Daniela, se possa ver nela não tanto a Síndrome de Down, mas, como me dizia outra colega de trabalho, a Síndrome de Deus.

Que o fantástico livro de Scott Paine sirva, mais do que a obra de Hume para Kant, como despertador do sonho idealista e egocêntrico que possamos ter, para o impacto da realidade do Universo em que vivemos, maravilhosamente cantada por Chesterton em suas obras, que faz respeitar suas leis e admirar suas excentricidades, tornando a vida diária uma aventura mais emocionante do que qualquer romance.

Quando estou desanimado diante de panoramas menos alentadores no trabalho ou na vida social, basta ler um pouco de Chesterton para que volte a brilhar em meu horizonte o sol do otimismo e da alegria contagiante. Um otimismo que explode em sincera gargalhada, pela contundência paradoxal e irônica com que o notável jornalista inglês consegue mostrar o papel minúsculo dos escravos da vaidade e a grandeza dos que sabem rir de si mesmos e ver a imensidão do Universo e a beleza interior dos que nos cercam, que nos superam e fazem sentir-nos tão a gosto neste mundo real e fantástico, cercado por nossos admiráveis familiares, amigos e colegas.

O Juízo da História

1) Introdução

Quando ingressei no Tribunal Superior do Trabalho na qualidade de Ministro, nos idos de 1999, já tendo lá servido como funcionário e procurador desde 1983, tive a ventura de ver presente em minha posse não apenas meus pais, mas principalmente meu avô português, que, aos 101 anos, era só orgulho e felicidade. Na ocasião, lembrando as raízes lusitanas, recebi de presente de uma amiga de minha mãe, a Sarita, um belíssimo livro, ricamente encadernado, tendo por título “História de Portugal”, de João Ameal (Livraria Tavares Martins – 1958 – Porto, 4ª edição), verdadeira relíquia de família.

O acervo de processos recebido e o desejo de enfrentá-lo com todas as energias do corpo e da alma fez-me depositar o livro na estante de casa e lá deixá-lo, engalanando a sala de estar com o visual de sua grossa lombada, onde permaneceu por 10 anos, até despertar-me sinceramente o interesse e a curiosidade, sem uma razão determinada. Ou melhor, tendo lido “São Tomás de Aquino” do mesmo autor, e o prefácio que escreveu para a edição portuguesa do “Ortodoxia” de Chesterton, tais circunstâncias já me haviam feito namorar essa volumosa obra, que anunciava narrar a história portuguesa, dos seus primórdios até ao ano de 1940, em que publicada sua 1ª edição.

Apanhando recentemente o livro e decidido a lê-lo, chocaram-me as primeiras linhas da introdução, onde o autor se perguntava: “Que é a História? Uma ciência? Uma arte? Uma ética?” (p. VII). Francamente (pensei), como podia o ilustre acadêmico português confundir História com Ética, o ser com o dever ser? Quase abandonei, de chofre, a leitura, decepcionado. No entanto, as linhas e páginas que se seguiram foram para mim uma descoberta e um alento.

Respondia o autor à última de suas perguntas iniciais dizendo: “Para outros, consiste em apresentar uma galeria de modelos na qual se possa distinguir o bem do mal, o exemplo a seguir e o erro a evitar e portanto donde resulte uma série de normas úteis à orientação dos contemporâneos: é a História-Ética (p. VII, grifos nossos). Confesso que nunca me havia ocorrido tal concepção da narrativa histórica. No entanto, a idéia do aproveitamento da experiência histórica para bem agir já me vinha de certo modo incutida tanto pela leitura da “Evolução da Cidade de Deus” de Etienne Gilson (Herder – 1965 – São Paulo), quanto das aulas do mestrado na UnB com o Ministro Moreira Alves e de seu livro “Direito Romano” (Forense – 1990 – Rio).

Mas o encanto com a História de Portugal de João Ameal não parou por aí. As idéias que se seguiram foram ainda mais impactantes, quando escrevia: A História é vida – tal o axioma inicial a propor. E não apenas vida dos outros – de outros tempos, de outros seres – mas a nossa vida, antes de nós (…) Se nos pedissem que arriscássemos uma definição, sugeriríamos: a História constitui, para o verdadeiro historiador, um exame de consciência(p. VIII, grifos nossos).

Eis aí descrito, da forma mais apropriada que já vi, o juízo da História: seremos julgados pelos nossos atos e decisões, nas suas conseqüências e motivações, não apenas por Deus (que é o que mais importa), mas também pelas gerações que nos sucederão, que, com a perspectiva do tempo, poderão aquilatar melhor nossos acertos e erros, grandezas e misérias, heroísmos e vilanias, pois terão a objetividade que nos falta para julgar das próprias ações.

Mas podemos já deflagrar esse exame de consciência pessoal, como o fazia João Ameal ao reconhecer a insuficiência do resultado de seu trabalho em ordem à grandeza do objeto estudado: “Salve-nos ainda o desassombro e a boa fé com que nos sujeitamos à triste e honrosa lei da condição humana: o hábito incurável que todos temos de lançar ombros a tarefas maiores do que nós…(p. XV, grifos nossos).

2) As causas e motivações dos fatos históricos

Max Weber (1864-1920), ilustre sociólogo alemão, que reconhecia, na esteira de Aristóteles, que a ciência é o conhecimento pelas causas, perquiria sobre as causas dos fenômenos sociais, resumindo-as em sua obra “Economia e Sociedade” (1922) numa tipologia ideal, assim expressa:

  • comportamento racional em relação a um fim – objetivo claramente fixado pelo agente, planejado e perseguido, como  o engenheiro que constrói uma casa, tendo em vista um projeto prévio;
  • ação racional em relação a um valor – motivação transcendente ao sujeito, como o marido que afasta a tentação de adultério por fidelidade à esposa;
  • ação afetiva – ditada pela paixão ou estado de espírito do momento;
  • ação tradicional – ditada pelos hábitos e costumes adquiridos.

No caso da história, dizia Weber que o pesquisador pode, para explicar os fatos históricos, buscar na sociologia (ocupada com as regularidades do comportamento humano) as possíveis causas do agir concreto dos protagonistas do fato, devendo determinar o peso que cada causa isoladamente teve no acontecimento: constroem possibilidades do que teria ocorrido sem determinada causa. Se for verossímil que o acontecimento não teria ocorrido sem ela, trata-se de causa principal, senão pode ser causa secundária ou nem ser causa.

Weber, nessa linha, rejeitava o determinismo marxista de reduzir as causas históricas ao fator econômico (ainda que seja fator relevante), chegando a aplicar a sua teoria a um caso concreto de causalidade religiosa sobre fenômeno econômico em “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo” (1905). Em sua visão, o capitalismo, que conjugaria a vontade do lucro com a disciplina racional do trabalho (e não por conquista ou aventura), teria tido sua força propulsora na ética calvinista:

  • crença na predestinação universal para céu ou inferno;
  • o sucesso nos negócios seria o sinal da predestinação para o céu;
  • empenho no trabalho, para superar a angústia sobre a salvação;
  • desapego do mundo, que leva a não consumir, mas reinvestir o lucro.

Posteriormente, as 3 Escolas Vienenses de Psicoterapia ofereceram, sucessivamente, diferentes explicações sobre a motivação do agir humano:

a) Sigmund Freud (1856-1939) – Considerava o instinto sexual (a libido) o principal fator motivador do comportamento humano (“O Ego e o Id”);

b) Alfred Adler (1870-1937) – Discípulo de Freud, rompeu com o mestre e rejeitou a psicanálise, sustentando que não seria o “princípio do prazer” que explicaria o comportamento humano, mas a “vontade de poder”, ou seja, o desejo de se sobrepor aos outros e de que reconheçam sua superioridade. A competição com os outros geraria o “complexo de inferioridade”, cuja superação se daria através do mecanismo da “compensação”, de buscar atividades diferentes nas quais possa se sobressair (“Compreendendo a Natureza Humana”).

c) Viktor Frankl (1905-1997) – Fundador da Logoterapia, que esteve preso num campo de concentração nazista por ser judeu, opôs-se às explicações de Freud e Adler, sustentando que o comportamento humano tem por motor a “sede de sentido”, isto é, a necessidade de encontrar utilidade e sentido para a própria existência (“Psicoterapia e Sentido da Vida”).

Em que pese a teoria de Frankl ser mais abrangente das motivações do agir humano e menos reducionista, poderíamos estabelecer relação entre as teorias psicológicas e a teoria sociológica de Weber, quanto às motivações ou causas dos fenômenos sociais, compactando-as em 3 espécies:

a) motivação racional – por fins (como o poder) ou valores (como ser útil);

b) motivação passional – pelo amor (libido) ou pelo ódio (inveja, vingança);

c) motivação habitual – por tradição (assumida) ou comodismo (simples inércia).

Ora, ao se tentar compreender os fatos sociais do presente e do passado, a causalidade assim dissecada apresenta-se em 2 planos básicos:

a) plano retórico ostensivo – do discurso que busca justificar racionalmente a ação e que, na maioria dos casos, esconde as reais intenções ou motivações do agente;

b) plano real subjacente – do verdadeiro motivo que ensejou a ação, de caráter mais passional que racional e, justamente por isso, inconfessável, sendo, muitas vezes, sequer admitido pelo agente.

Cabe, pois, ao historiador e aos que analisam, para tentar compreender, os acontecimentos do presente e do passado, perquirir sobre quais as verdadeiras causas do sucesso ou insucesso de determinadas políticas, projetos e ações. O juízo da história, que já começa no presente – ainda que sem a perspectiva do tempo, essencial para se aquilatar a verdadeira dimensão das escolhas e opções feitas – e se consuma no futuro, leva em conta, desse modo, as ações e suas causas: não apenas o que aconteceu, mas também, como dizia Sir Hugh Trevor-Roper (n. 1914-2003), catedrático de História da Universidade de Oxford, a visão das possibilidades perdidas, do que poderia ter acontecido e não aconteceu e por quê (“History and Imagination” – 1980).

Ora, Carl Schmitt (1888-1985), filósofo político alemão, era contundente ao afirmar que, da mesma forma que a Ética dividia os homens em bons e maus e a Estética em belos e feios, a Política os dividia em amigos e inimigos, sendo pura retórica os programas ideológicos ou humanitários dos partidos políticos, já que seu objetivo era simplesmente a conquista do poder, não para servir a sociedade, mas para servir-se dela (cfr. “O Conceito do Político”, Vozes – 1992 – Petrópolis, tradução de Álvaro Valls). Ives Gandra Martins (pai), em sua “Uma Breve Teoria do Poder” (RT – 2009 – São Paulo), apresenta essa mesma visão pessimista do homem no Poder, analisando historicamente regimes e governos e mostrando como é generalizada a tendência dos detentores do poder, de se servirem da sociedade e não de estarem a serviço desta.

Traçada a moldura causal para enquadrar e julgar os fatos sociais sob a perspectiva histórica, cabe indagar se o modelo corresponde à realidade, ou seja, as políticas públicas, os empreendimentos sociais, as grandes realizações econômicas, culturais e artísticas têm como motor a razão ou a paixão?

Estou cada vez mais convencido, pelo estudo da História e pela vivência concreta no setor público – Judiciário, Executivo e Legislativo –, que os modelos sociológicos traçados por Weber e Schmitt não se distanciam da realidade. Os grandes estadistas, os verdadeiros homens públicos, os empresários com sensibilidade social, os sindicalistas com capacidade de harmonização, os artistas com consciência e responsabilidade por seu papel de ícones comportamentais, não são a regra, porque a “ação racional em relação a valores” também não o é. Para isso seria necessário, como o fez João Ameal, um exame de consciência, sincero e diário sobre as próprias ações, não visando ao lucro, à vantagem pessoal, ao modo de subir, vencer, dominar ou prevalecer, mas ao juízo de Deus e dos homens sobre o que engrandece e enobrece o homem e o que o avilta e corrompe.

A História recorda sem número de exemplos emblemáticos de causas passionais explicativas dos eventos históricos, mais ou menos revestidas com a retórica de uma motivação racional, podendo-se referir, entre tantos, a paixão de Marco Aurélio (83-30 a.C.) por Cleópatra, levando à guerra civil contra Otávio Augusto; a inveja de Herodes (73-4 a.C.) em relação a Cristo, mandando matar as crianças de Belém; a depravação de Nero (37-68), desencadeando a primeira grande perseguição e martírio dos cristãos; a avareza de Felipe IV, o Belo (1268-1314), da França, perseguindo e destruindo a Ordem dos Templários, com base nas mais infames acusações falsas, para se apoderar de seus bens; a luxúria de Henrique VIII (1491-1547), que provocou o cisma da Igreja Anglicana; o caso de D. Pedro I (1798-1834) com a Marquesa de Santos, que o fez maltratar a Imperatriz D. Leopoldina, perdendo o apoio popular e tendo que renunciar ao trono; o ódio de Adolf Hitler (1889-1945) aos judeus, causa de seu extermínio em massa; a vaidade dos Generais George S. Patton (1885-1945) e Bernard L. Montgomery (1887-1976), sacrificando muitos soldados na disputa para ver quem chegaria primeiro a Berlim na 2ª Guerra Mundial, vindo a perder para os russos; a prepotência do General Leopoldo Galtieri (1926-2003), que levou a Argentina à fracassada Guerra das Malvinas contra os ingleses em 1982, custando tantas vidas a dois países cristãos…

Na literatura de ficção, o exemplo paradigmático do agir passional, pautado pela inveja, é o de Morgoth e Sauron, sempre empenhados em destruir tudo o que de bom faz Eru e os Vala, tal como contado nos livros “O Silmarillion” e “O Senhor dos Anéis”, de J.R.R. Tolkien. Impressiona pensar que, para alguns seres, o sentido da existência possa ser o de destruir o que outros constroem, apenas por ódio, inveja, ciúme ou desejo de vingança. O clássico de Alexandre Dumas, “O Conde de Monte Cristo” é outro exemplo emblemático de como o desejo de vingança que pauta a vida de muitas pessoas não realiza nem satisfaz ninguém, trazendo apenas mais tristeza e desconsolo, para si e para os outros.

3) Progresso, Estagnação, Decadência e Retrocesso

No fundo, o comportamento passional, justamente pela sua irracionalidade, não contribui diretamente para o progresso civilizatório da Humanidade. Pode, ocasionalmente, atendê-lo, de forma oblíqua e inesperada. No geral, conduz ao retrocesso e à decadência das civilizações, tal como ensinava Arnold Toynbee (1889-1975), catedrático de História da Universidade de Oxford, em seu “Um Estudo da História” (Martins Fontes – 1980 – São Paulo), no qual desenvolve sua concepção da gênese, desenvolvimento e declínio das civilizações, ligada às respostas criativas aos desafios que o meio, quer ambiental, quer humano, apresenta ao homem de cada época ou lugar.

Pelo mecanismo da mimese, os líderes (minoria criativa) atrairiam a massa social para sua imitação, sendo seguidos mecanicamente pela grande maioria não criativa. Nesse sentido, enquanto houver respostas criativas por parte da minoria dominante, que engendram novos desafios e novas respostas bem sucedidas, haverá desenvolvimento da civilização. A decadência das civilizações teria por sintoma básico o cisma social entre a minoria dominante, antes criativa, mas que agora tenta manter a liderança já não pelo prestígio e serviço, mas pela força, pois que preocupada apenas com a satisfação de seus vícios (decadência moral), e o proletariado interno, constituído pela massa social que antes seguia por mimese os líderes criativos e agora, despida de seus direitos básicos, incuba seus próprios líderes.

O comportamento meramente habitual, da maioria amorfa e mimética, que se deixa conduzir, sem refletir, por modismos e padrões estabelecidos pelos mass media, aferrada às rotinas e tradições, temerosa das mudanças e inovações que não sejam aplaudidas pelos meios de comunicação social, só conduz à estagnação da sociedade e das civilizações. Sobre ele nos fala, ainda que indiretamente, mas com expressões impactantes, Gaston Bachelard (1884-1962), catedrático de Filosofia da Ciência na Sorbone, em seu “A Formação do Espírito Científico” (1938):  “O espírito nunca é jovem quando se apresenta à cultura científica. Pelo contrário, é muito velho, porque tem a idade dos seus preconceitos”. Por isso completava, ironicamente: “Os grandes homens são úteis para a ciência na primeira metade de sua vida e nocivos na segunda metade”. E por quê? Porque se deixam levar por seus preconceitos e outras paixões menos nobres, como a inveja e a vaidade, para não admitirem soluções melhores do que as suas.

Apenas o comportamento racional, especialmente se ligado a valores, tem o condão de promover o progresso da sociedade e da civilização, uma vez que, para a razão, o que importa é a solução do problema, independentemente de quem a tenha proposto ou engendrado.

Dizia um amigo – e o repito amiúde – que os grandes problemas profissionais não são problemas técnicos, mas de relacionamento. Os problemas técnicos se estudam e se resolvem, com engenho e arte. O que atrapalha são as vaidades, suscetibilidades, invejas, ciúmes e outros defeitos que fazem com que as melhores soluções sejam, muitas vezes, preteridas, já que combatidas por aqueles que não as engendraram, e pelo simples fato de que a idéia não é própria, mas alheia.

A descontinuidade no campo das obras públicas, em regimes democráticos de alternância no poder, é sinal claro de que a motivação é passional e não racional, pois o bem não é bem em si mas quando feito pelo seu partido e o mal não é mal em si, mas quando praticado pelo adversário. Quantos não tem que dizer, ao assumirem cargos públicos eletivos: “Esqueçam o que eu disse, fiz ou escrevi…”. Sinal de incongruência entre discurso e vida.

Já nos regimes despóticos, a luta pelo formação de grupos ou partidos hegemônicos, não afeitos ao diálogo e ao pluralismo de idéias, as obras e realizações acabam sendo efêmeras, fadadas ao insucesso e à revisão, uma vez que a violência, física ou psicológica, não é apta nem a vencer, nem a convencer.

Se a História, como dizia Sir Hugh Trevor-Roper, é também o que não aconteceu, poderemos julgar muitos pelo que deixaram de fazer ou impediram que outros fizessem, escravos que foram de seus preconceitos, dos quais não conseguiram se libertar.

4) Conclusão

Heraldo das glórias de Portugal, Camões escrevia logo no início dos “Lusíadas”:

“E aqueles que por obras valorosas

se vão da lei da morte libertando,

cantando espalharei por toda parte,

se a tanto me ajudar engenho e arte”.

Não é demais pensar que obras valorosas só se realizam por um agir racional fundado em valores. Esse é o ideal a ser buscado e vivenciado.

Assim, voltando à concepção da História-Ética de João Ameal, concluímos que o juízo que se fará dos nossos atos, omissões e realizações, não deixará de levar em conta as motivações, nobres ou vis, altruístas ou egoístas, magnânimas ou mesquinhas, agregadoras ou partidaristas, bem como os resultados, positivos ou negativos, duradouros ou efêmeras, reais ou aparentes, de nosso decidir e agir.

Se conseguirmos realizar diariamente o exame de consciência que nos propõe, será possível reconhecer as motivações menos nobres e retificar o rumo de nossos projetos e planos, de modo a que possamos ser eficazes em nosso agir, em prol da sociedade em que vivemos, e não meramente usufrutuários do patrimônio cultural e econômico por outros edificado. Tudo dependerá da sinceridade do exame e da coragem na retificação. Nesse caso, o juízo da história será benévolo e justo para conosco, pois a dureza ficou por nossa conta ao nos julgarmos a nós mesmos.

Ives Gandra da Silva Martins Filho
Ministro do Tribunal Superior do Trabalho
Membro do Conselho Nacional de Justiça

Cristianismo no Mundo do Senhor dos Anéis

O primeiro artigo do colunista Valinor Ives Gandra da Silva Martins Filho, Ministro do Tribunal Superior do Trabalho  e autor do livro “O Mundo do Senhor dos Anéis” foi baseado em roteiro de Palestra proferida na XVIII Semana de Filosofia e Teologia – “Filosofia, Cultura e Fé”, realizada no Centro Cultural Cândido Mendes, no Rio de Janeiro (Brasil) em 5 de outubro de 2007 e publicado na Communio (edição de set-dez/2007), a revista de teologia fundada pelo Cardeal Ratzinger hoje Papa Bento XVI, sobre a perspectiva cristã na obra de Tolkien.

CRISTIANISMO NO MUNDO DO SENHOR DOS ANÉIS
A Perspectiva Cristã na Obra de J. R. R. Tolkien

I) Introdução – Paradoxos

Quando um cristão entra em contato com as obras de J. R. R. Tolkien, principalmente após ser transposta para as telas do cinema a saga dos “Anéis do Poder”, a pergunta que vem naturalmente à mente é: Como uma obra povoada de elfos, anões, hobbits, orcs e outros seres fantásticos pode ter um fundo cristão e trazer lições no campo ético?

Precisamente em ambientes cristãos, um certo preconceito se levanta em relação ao “Senhor dos Anéis”, vendo nele apenas mais um livro de fantasia e, diante do alerta para o fato de que o autor era católico convicto, vertendo no livro seus princípios morais, outra pergunta surge: Não há o perigo de que as pessoas que leiam uma obra de caráter tão fantástico, principalmente jovens, fiquem no episódico das estórias e personagens, sem captar a essência de valores humanos e cristãos subjacente à obra?

Convidado que fui a participar de um “Café Literário”, na última “Feira do Livro” realizada em Brasília, para debater com outro especialista sobre a obra de Tolkien, fiquei realmente impressionado ao ver como o colega de mesa sustentava uma visão exclusivamente esotérica do “Senhor dos Anéis”, de cunho maniqueísta. Percebi como o perigo é real, mas não tão alarmante a ponto de desaconselhar a recomendação da trilogia tolkiana como literatura sadia e edificante para nossa juventude. Pelo contrário, essas são exceções isoladas que confirmam a regra.

Na realidade, a esperança que nutro, com a popularização da saga tolkiana, propiciada pelos filmes de Peter Jackson, é que aqueles que tenham assistido aos filmes tenham despertado o interesse pelos livros e descubram a beleza literária e moral da obra de Tolkien. Os filmes dão uma visão muito parcial de “O Senhor dos Anéis”. Sendo impossível reproduzir nas telas a integralidade de uma obra literária, mormente no caso da complexa e extensa saga dos anéis do Poder, o roteiro do filme, como é natural, fez-se com a compactação de passagens e a supressão de personagens (principalmente o poético e enigmático Tom Bombadil), que acabaram por imprimir a todo o filme uma feição de suspense e tensão que não retratam perfeitamente o ritmo alternado de aventura épica e de poesia bucólica, característico da obra de Tolkien, que os misturou em justas proporções. No entanto, até para o mais exigente leitor, o filme surpreendeu por conseguir plasmar visualmente o que a imaginação já figurava na mente com a leitura da obra. São, pois, um instrumento contributivo para imortalizar a obra de J. R. R. Tolkien.

II) Quem foi J. R. R. Tolkien?

Para compreender a obra, é essencial conhecer seu autor. Pois bem, no caso de John Ronald Reuel Tolkien, os dois traços característicos de sua personalidade são: a) o profissional – era um filólogo, professor e estudioso de línguas na Universidade de Oxford; b) o espiritual – foi um católico de fé profunda e vivenciada.

O gosto de Tolkien pela filologia (especialmente pela origem das palavras) e interesse pelas línguas antigas desembocaram na criação de novas línguas, atividade que constituía seu passatempo (daí surgem o quenya e o sindarin, inspirados respectivamente no finlandês e no galês, a par da influência do islandês, gaélico e anglo-saxão para o que seria a língua dos elfos, de seus contos).

Para Tolkien, as “histórias” que inventou foram feitas para proporcionar um mundo às línguas que criara. Dizia que primeiro pensava num nome e depois vinha a “história”. Daí que tenha, após a difusão de seus livros em outros idiomas, desenvolvido um guia dos nomes para auxiliar os tradutores (quando se fizeram as primeiras traduções para o sueco e holandês). Quando lhe perguntaram certa vez sobre o que era “O Senhor dos Anéis”, respondeu simplesmente: um ensaio de estética lingüística.

Em 1917, em convalescença da febre das trincheiras que adquiriu durante a Grande Guerra, começaria a escrever o que seria mais tarde “O Silmarillion”: sua grande obra mitológica. O ideal que havia concebido era o de criar uma mitologia inglesa, ao estilo da mitologia nórdica, que fosse pautada por valores morais, uma vez que a mitologia grega e romana colocava os deuses como personagens imorais, com ações pérfidas ao lado de grandes feitos. Assim, a criação de seu mundo mitológico, aproveitando as matrizes históricas inglesas, será um amálgama da mitologia nórdica com os valores cristãos, concebendo os “deuses antigos” como anjos, bons ou maus, conforme sua conduta, criados todos por um Deus único, origem de todo o Universo.

A fé católica, Tolkien a recebeu de sua mãe Mabel, que, após a morte do marido, havia se convertido ao catolicismo. A conversão representou para ela e seus filhos o corte da ajuda econômica que recebia de seus parentes, protestantes que receberam muito mal o passo dado. Porém Mabel enfrentou com fortaleza tanto o ostracismo familiar quanto as dificuldades econômicas que sua conversão provocaram, deixando um sólido exemplo para os filhos. Em seu leito de morte, quando Tolkien tinha apenas 12 anos, confiou seus filhos ao Pe. Francis Xavier Morgan, pároco de S. Dunstan, que passou a ser o tutor de Ronald.

No pensionato em que passou a viver, Tolkien conheceu outra pensionista órfã, Edith Bratt, com quem fará amizade e por quem se apaixonará (era 3 anos mais velha que ele). Como o namoro começou a comprometer seus estudos e a preparação dos exames para ingresso em Oxford, o Pe. Morgan proibiu Tolkien de ver ou escrever a Edith até atingir a maioridade (havia trasladado a garota para outra cidade). Tolkien, com seu espírito romântico, não se esquece dela durante os 3 anos de separação. Assim, à meia-noite do dia em que completaria os 21 anos, escreve uma carta a Edith para reatar os laços rompidos (1913). Ao receber a resposta, fica sabendo que ela, ao não ter notícias dele por 3 anos, pensou que a tivesse esquecido e, desse modo, já estava comprometida com outro. Tolkien toma o primeiro trem para encontrá-la e, depois de conversarem, ela decide romper com o outro rapaz e reatar com Ronald (esse amor de Tolkien por sua futura esposa ficará plasmado na legendária “Balada de Beren e Lúthien”, que integrará seu livro “O Silmarillion”, tendo os nomes dos dois personagens sido insculpidos nos túmulos do casal, como seus cognomes).

No Exeter College da Universidade de Oxford descuida, durante os primeiros anos do curso, da prática religiosa, retomando-a com novo fervor quando reencontra Edith e esta se faz católica (1914). O amor dos dois frutificará em 4 filhos, dos quais um será sacerdote. As tertúlias familiares, onde Tolkien contava suas estórias para os filhos, arraigará nestes a mesma fé herdada da avó. E os valores cristãos serão a fonte oculta, inspiradora dos ideais da saga tolkiana.

III) Traços Cristãos na Obra de Tolkien

Nas três principais obras de Tolkien – “O Silmarillion”, “O Hobbit” e “O Senhor dos Anéis” – a cosmovisão cristã, ainda que velada, pode ser percebida quer de forma difusa em toda a saga, quer de forma pontual em muitas passagens, com o que podemos traçar muitos paralelismos entre o Cristianismo e o Mundo do Senhor dos Anéis:

1) Perspectiva Creacionista

O mundo é fruto do ato criador de um Deus Único (“Eru”, que significa “O Único” ou “Ilúvatar”, que significa “Pai de Todos”), contrapondo-se ao politeísmo das mitologias antigas. Assim, àquilo que os antigos tinham por deuses (Zeus e os demais deuses gregos, Júpiter e demais deuses romanos, Odin e o restante dos deuses nórdicos), Tolkien dá a natureza de anjos (os “Valar” e os “Maiar”), ou seja, seres puramente espirituais, que também seriam criaturas (existindo uma hierarquia de espécies dentro dessa mesma natureza: “Sauron” é uma “Maia” que servirá a “Morgoth”, que é um “Vala”).

Fala-se de uma queda de algumas dessas “criaturas angélicas”, quando todas foram submetidas a uma “prova”, concebida alegoricamente por Tolkien como a composição de uma sinfonia em conjunto a partir de um tema dado por “Eru”, em que cada um dos “Valar” se conhecia na medida em que compunha a sua música, sendo que um deles, “Melkor” ou “Morgoth” (imagem do demônio ou “Lúcifer”), inchado de orgulho pelo próprio esplendor, decide criar os seus próprios temas e dá o tom dissonante na sinfonia, fazendo com que muitos dos “Vala” acabem se desviando do tema originalmente proposto.

2) Perspectiva Ética

A luta do bem e do mal que pontua “O Senhor dos Anéis” e as obras que a precedem no tempo “estórico” não tem contornos maniqueístas, mas, pelo contrário tem um fundo ético nitidamente cristão. Há apenas um princípio do bem: o Ser por excelência, o Deus do Bem. O mal moral é fruto da liberdade: desde os seres inteligentes criados mais perfeitos (os “Vala”), até os humildes (os “hobbits”), o perfil moral é traçado pelas opções pessoais pelo bem ou pelo mal. Assim, um sábio como Saruman, o Branco, pela sua ganância, acaba se tornando, como ele mesmo diria, “Saruman, o das muitas cores”, pérfido e odioso, solitário e vingativo.

Nesse sentido, a perspectiva ética se mostra no ressaltar as grandezas e misérias da alma, conforme as virtudes e os vícios dos personagens, bem contrastados, mas em que ninguém está a salvo de se corromper, como também ninguém está irremediavelmente perdido.

Assim, a inveja é o motor maior de “Morgoth”, que só deseja destruir o que de bom realizam os demais “Valar” e criaturas de “Eru”, para construir o seu próprio mundo de dominação. O orgulho e a soberba dessa criatura “angélica” originalmente mais poderosa, acaba sendo vencido pela humildade das menores criaturas desse mundo imaginário (os “hobbits”), cuja vida simples e marcada pela firmeza de caráter, será o elemento explicativo da vitória do Bem contra o Mal na “Guerra do Anel”.

Emociona ver Frodo (o “hobbit” encarregado de destruir o anel do Poder), ao pensar na dureza da missão que lhe havia sido confiada, quando sozinho com Sam tem de enfrentar a última etapa, concluir que “tinha de fazer o que tinha de ser feito, e que, se Faramir, Aragorn, Elrond, Galadriel, Gandalf ou nenhuma outra pessoa jamais ficassem sabendo de seu feito, isso não teria importância”. É o cumprimento do dever não para ser visto ou reconhecido pelos outros, mas por sentido de missão da vida).

A avareza é a marca característica da posse do “Anel do Poder”, que  dá poderes extraordinários ao que o utiliza, mas vai corrompendo interiormente aquele que o possui, até torná-lo escravo seu, como ocorreu com “Gollum”, que é o retrato da destruição física e psicológica que o apegamento aos bens materiais acarreta a qualquer criatura. Essa corrupção só se vence com a virtude do desprendimento, como ocorre com “Bilbo”, “Frodo” e “Sam”, que são os hobbits” que portaram temporariamente o “Um Anel” e que venceram a tentação de serem seus donos definitivos.

A misericórdia e o perdão, não obstante tudo que se possa ter sofrido de mal, se vê também estampado nas palavras de Frodo, impedindo que Sam mate Saruman decaído (e impenitente, sem estar curado interiormente do seu mal): “Não, Sam! Não o mate, nem mesmo agora. Pois ele não me feriu. E, seja como for, não quero que seja abatido nesse ânimo maligno. Um dia ele foi grande, de uma nobre estirpe, contra a qual não deveríamos ousar levantar nossas mãos. Entrou em decadência, e sua cura está fora de nosso alcance, mas eu ainda o pouparia, na esperança de que algum dia ela a encontre”.

Essa perspectiva ética chega até o ideal de perfeição no trabalho, estampado na explicação que os elfos dão para a beleza das vestimentas que confeccionavam: “Colocamos em tudo o que fazemos o pensamento de tudo o que amamos”. É pura teologia do trabalho, tão bem desenvolvida por S. Josemaria Escrivá, que falava na santificação do trabalho através da busca da perfeição em tudo o que se faz, como decorrência de se trabalhar na presença de Deus, ou seja, de ter no pensamento o amor a Deus e o serviço aos outros que se presta com todo trabalho.

3) Símbolos Cristãos Velados

Permeia toda a obra de Tolkien uma relação invisível entre as ações nobres ou vis praticadas pelos personagens, que tornam o mundo, como um todo, melhor ou pior, conforme a atitude interior dos personagens (as vitórias ou derrotas das várias forças na “Guerra do Anel” é “sentida” interiormente pelos protagonistas das várias ações em campos distintos), o que recorda, de longe, a doutrina da Comunhão dos Santos.

A invocação, pelos “hobbits”, do nome de uma Valië (“Elbereth Gilthoniel”, Senhora das Estrelas), faz tremer as forças do Mal e constitui elemento de sustentáculo para a missão que têm, como Nossa Senhora, pelo papel singular que desempenhou na “História da Salvação” é proteção constante na vida dos cristãos. No momento em que Frodo se encontra diante das portas de Mordor e sente, ao ver sair o “Senhor dos Espectros”, a tentação forte de usar o Anel (com o que seria descoberto), vence-a ao tocar no “Frasco de Galadriel”, o que lembraria o escapulário do Carmo, que muitos cristãos trazem no peito, por devoção a Nossa Senhora, que os ajuda a superar as tentações.

O alimento dado pelos elfos aos membros da Sociedade do Anel, para poderem enfrentar a dura missão que teriam pela frente, o “lembas” ou pão do caminho, pode ser visto, pelos efeitos benéficos que tinha, desproporcionais para um simples alimento, incutindo um vigor novo aos “hobbits”, restaurando substancialmente as forças e dando ânimo para a caminhada, como uma imagem, ainda que pálida, da Eucaristia (Corpo de Cristo em forma de pão), chamada nos cânticos litúrgicos cristãos de “panis angelurum, cibus viatorum” (pão dos anjos e alimento dos caminhantes), a qual, ao propiciar a comunhão com Cristo, restaura as forças da alma.

O Salão do Fogo, em Rivendell, onde Frodo encontra Bilbo meditando e compondo seus versos, é também uma imagem dos oratórios ou capelas cristãs. Gandalf ao mostrar-lhe o local, diz: “Este é o Salão do Fogo. Aqui poderá escutar muitas canções e histórias. Mas, a não ser nos dias importantes, o salão fica vazio e quieto, e aqui vêm as pessoas que desejam ter paz e refletir. O fogo fica sempre aceso, durante o ano”. A lareira sempre acesa lembra o sacrário. Os dias importantes seriam os domingos e festas, com o culto cristão relembrando as histórias do Antigo e Novo Testamento e cantando louvores ao Criador. Durante o resto do tempo, um local de oração e meditação.

Um último paralelismo, que é o do sacrifício redentor, como o de Cristo na Cruz, para a salvação dos homens (a ser revivido de alguma forma por cada cristão, como “alter christus”), é bem estampado no diálogo final entre Sam e Frodo: “Mas – disse Sam, com lágrimas brotando nos olhos – achei que o senhor também fosse aproveitar a vida no Condado, por muitos e muitos anos, depois de tudo o que fez”. E Frodo responde “– Foi o que também pensei, antes. Mas meu ferimento é profundo demais, Sam. Tentei salvar o Condado, e ele está salvo, mas não para mim. Muitas vezes é preciso que seja assim, Sam, quando alguma coisa está em perigo: alguém precisa desistir dela, perdê-la, para que outros possam tê-la”.

Esses são apenas alguns pontos de semelhança entre a saga tolkiana e a “História da Salvação”, não se podendo, no entanto, procurar um paralelismo mais abrangente, quando não foi o objetivo de Tolkien assumir todas as premissas fáticas do cristianismo, sob pena de estar fazendo teologia ao invés de uma despretenciosa obra literária. Mas não se pode deixar de perceber que justamente por ter assumido esses valores básicos, intrínsecos ao Cristianismo, é que chegou a produzir uma obra de valor perene e de atrativo universal.

IV) Conclusão – A Saúde Espiritual dos Contos de Fadas

Podem parecer paralelismos um pouco forçados os que traçamos entre a mitologia tolkiana e o universo cristão, no intento de salvar o valor ético e humanístico da obra de Tolkien como contributo para se forjar uma cultura cristã. A pergunta que se poderia fazer, nesse sentido, seria, pois: afinal de contas, o que a literatura fantástica, em suma, os contos de fadas, podem trazer como elemento de formação humana e cristã?

Em 1939, Tolkien publicou um ensaio intitulado “On Fairy Stories”, expondo as 3 funções que, a seu ver, os contos de fadas desempenhavam na vida humana:
a) terapia de restauração para alma em relação à atividade produtiva e laborativa absorvente;

b)
sã evasão dos problemas angustiantes do dia-a-dia, encontrando um mundo de sonhos que engloba as mais elevadas aspirações humanas; e

c)
consolo da alegria, que não se confunde com um gozo meramente evasivo da realidade, mas que constitui um eco da vida real (satisfação dos desejos humanos primordiais, de sabedoria, amor e beleza, como também de comunicação com todos os seres viventes).

O ensaio, como também o substrato de princípios e ideais que embasam toda a obra de ficção de Tolkien, consona perfeitamente com o capítulo “A Ética da Terra dos Elfos”, do livro “Ortodoxia”, de G. K. Chesterton, que mostra como os contos de fadas retratam, na sua lógica interna, um dos traços básicos do Cristianismo: o princípio da felicidade condicionada, ou seja, de que toda a alegria humana está condicionada à observância de umas regras morais mínimas, que, desprezadas, acabam por quebrar o encanto e a harmonia da vida.

Chesterton traça o paralelismo entre o pecado original (tudo é permitido ao homem no paraíso, à exceção do fruto da árvore da ciência do bem e do mal) e as condições colocadas às fabulosas façanhas dos personagens de contos de fadas (Gata Borralheira que deve voltar do baile à meia-noite; Bela Adormecida que não pode se  ferir numa roca; etc). Toda a disputa pelos “Silmarils” e pelos “Anéis do Poder”, que constitui o cerne da saga tolkiana, é o retrato da não aceitação, pela criatura, dos limites impostos pelo Criador, provocando a sua ruína (vide, por exemplo, a rebelia de Morgoth contra Illuvatar; a dos numenorianos contra a proibição de navegar para o Ocidente; etc), mas com a subseqüente vitória da humildade sobre o orgulho, com o restabelecimento da harmonia quebrada (Elendil escapando do naufrágio da ilha de Númenor; Frodo e Sam salvando o mundo civilizado, com o cumprimento da missão de destruir o Um Anel).

O sentido do dever nos personagens tolkianos e o respeito a um Código de Ética que não é estabelecido pelos personagens, mas lhes vem imposto pela sua própria natureza de seres criados,  é uma constante em todos os seus contos e livros, explicando, em muito, o caráter atrativo das lutas e dramas de todas as suas estórias.

A própria explicação do fato dos homens estarem sujeitos à morte (enquanto isso não acontece naturalmente aos elfos) não pode ser outra que a do pecado original. Diz a Escritura que “Javé Deus tomou o homem e o colocou no jardim de Éden, para que o cultivasse e guardasse. E Javé Deus ordenou ao homem: Poderás comer de todas as árvores do jardim, mas não comerás da árvore da ciência do bem e do mal, porque no dia em que dela comeres, com certeza morrerás” (Gen 2, 15-17).

A descrição bíblica da queda original mostra nossos primeiros pais sendo tentados pela serpente (materialização do Maligno) e sucumbindo à insinuação de se tornarem como deuses, com a conseqüente expulsão do paraíso e promessa de um Redentor (cfr. Gen. 3, 1-19).

S. Agostinho, em sua “A Cidade de Deus”, que pode ser considerada a primeira obra de Filosofia da História, fala de duas histórias paralelas se desenvolvendo: uma visível (a construção da “Cidade Terrena”), com a sucessão dos impérios e do progresso tecnológico, e outra invisível (a construção da “Cidade Celeste”), com a santificação das almas, pedras vivas que comporiam, com o tempo, o “Reino dos Céus”.

A importância e o papel das pessoas no desenvolvimento da história humana somente poderia ser aquilatado no final dos tempos, sendo que aqueles que aparentemente não fizeram nada de relevante podem ter sido os mais importantes (como, na saga do Anel, os hobbits). Ademais, S. Agostinho coloca Jesus Cristo no centro da história: Deus que assume a natureza humana “na plenitude dos tempos”, para redimir a humanidade do pecado, através de sua Paixão. Os anos e os séculos são contados antes e depois de Cristo.

Casando a cronologia tolkieniana com o calendário moderno, poderíamos ter a Era dos Homens se impondo a partir da 4a Era da Terra Média (quando os elfos se retiram para a Terra Abençoada de Aman), sendo que, para a sua redenção, Deus (Eru ou Ilúvatar de Tolkien) se faz homem, para libertá-los da morte.

Concluindo: podemos dizer que talvez Tolkien não quisesse deixar tão explícita sua inspiração cristã em suas obras para evitar que o preconceito anti-cristão impedisse a captação de valores morais que são intrínsecos à própria natureza humana. E esses valores humanos e cristãos poderiam muito bem ser veiculados através do mais tradicional meio, que são os contos de fadas, estórias que, com o passar dos séculos, somente vão enriquecendo o patrimônio cultural da Humanidade, apontando-lhe o norte para a saúde espiritual, pela poesia com que transmitem esses valores. E dessa sadia evasão precisamos um pouco todos nós, para recuperar as forças e os ideais no mundo do trabalho.

Do Rio para Brasília, 5-6 de outubro de 2007