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Beowulf: os monstros e as idéias de jerico

Depois de assistir “A Lenda de Beowulf” com o devido olhar tolkieniano, acho que é relativamente seguro dizer que o filme baseado no poema anglo-saxão não é nem de longe tão ruim quanto as pessoas andaram dizendo – mas poderia ter sido infinitamente melhor, e até virado um clássico, se tivessem dado mais atenção a Tolkien ao fazê-lo.

 

 

beowulf_salon_3.jpgNão é segredo para ninguém que o poema original, conhecido simplesmente como “Beowulf”, foi uma das paixões literárias mais duradouras do velho Professor. Aliás, há muitos pesquisadores sérios, como o britânico Tom Shippey, que vêem fortes paralelos estruturais entre “Beowulf” e “O Senhor dos Anéis” – as duas obras são, entre outras semelhanças, magistrais no uso de alusões a um passado distante, alusões que ajudam a criar uma aparência de realidade histórica profunda e cheia de significado.

De quebra, em seu magistral ensaio “Beowulf: the Monsters and the Critics” (ainda inédito em português), produzido nos anos 1930, J.R.R. Tolkien provavelmente foi responsável pela maior mudança de foco já ocorrida nos estudos sobre o poema. Até essa época, os estudiosos da literatura medieval inglesa achavam que “Beowulf” era uma obra totalmente incongruente: embora seu autor tivesse grande sensibilidade poética e grande nobreza de estilo, estaria “estranhamente” preocupado com coisas “infantis”, como monstros e dragões.

Bem, o Professor virou essa afirmação de ponta-cabeça. Em seu ensaio, Tolkien defende que os monstros, como o ogro Grendel e sua mãe e o dragão que Beowulf enfrenta no fim de sua vida, são justamente a chave da visão poética da obra. Os monstros representariam um embate mais do que humano, ou que representa a humanidade como um todo: a luta dos seres humanos contra um Universo hostil numa época em que o paganismo dominava, e portanto não trazia a esperança cristã de uma salvação futura.

Síndrome de Sandman?
Há momentos em “A Lenda de Beowulf” que até dão a impressão de que a visão tolkieniana, afinal de contas, vai ser seguida. Muita gente andou dizendo que o roteirista Neil Gaiman, badaladíssimo criador da série “Sandman” e de outros clássicos dos quadrinhos, deveria estar arrancando os cabelos por aceitar participar do filme, mas o fato é que a história que ele escreveu parece justamente refletir sua visão sobre Tolkien. Em algumas entrevistas e textos, Gaiman já disse duas coisas: 1)ele adora Tolkien; 2)ele acha que é preciso se libertar um pouco da influência pesadíssima que o Professor tem sobre a fantasia moderna.

No fundo, acho que isso explica muita coisa. Por um lado, o filme mostra grande fidelidade a alguns aspectos da visão filológica e mitológica de Tolkien sobre o passado anglo-saxão e germânico. Lembremos que o autor achava possível reconstruir, em grande parte, o antigo mundo germânico usando como base palavras, poemas e canções que chegaram até nós em forma fragmentada. Com a ajuda da filologia, ou seja, da ciência que estuda a evolução dos idiomas, o sentido original daquele mundo pode ser recuperado.

É o caso do próprio nome do personagem-título. Quando Beowulf desce até a caverna onde vive a mãe de Grendel (Angelina Jolie, gostosa até em CGI – vejam só, até rimou!), a criatura diz: “Are you the one they call Beowulf? The bee-wulf? The bear?” (em português “Você é aquele que chamam de Beowulf? O lobo das abelhas? O urso?”).

Ora, essa é justamente uma das descobertas trazidas pela filologia: a maioria dos estudiosos acredita que o nome do herói quer dizer “lobo-das-abelhas”, uma comparação abreviada conhecida como kenning, muito comum na poesia anglo-saxã. O significado é “o animal que é para as abelhas o que o lobo é para o homem”, ou seja, o urso, que tem grande apetite por um melzinho. Há quem diga que esse aspecto de Beowulf inspirou o personagem Beorn, de “O Hobbit”. E repare que o brasão de Beowulf no filme é um lobo. Como diria Michael Drout, estudioso do anglo-saxão e da obra de Tolkien, “Angelina Jolie está praticando filologia! Angelina Jolie está praticando filologia pelada!”.

Existem outros ecos legais do antigo mundo germânico no atual filme. Não dá para não lembrar de “O Hobbit” quando o rei Hrothgar diz a Beowulf que os dragões possuem um “ponto fraco” na parte ventral do corpo, coisa que o arqueiro Bard explorou muito bem, como sabemos. Outro toque interessante é a aparição de Finn da Frísia, um invasor do reino de Beowulf que é outro personagem muito importante das antigas sagas anglo-saxãs, tendo combatido Hengest, o líder da invasão da Bretanha que criou o povo inglês moderno.

No entanto, talvez os toques mais sutis e interessantes tenham vindo da caracterização do monstro Grendel. Não é preciso quebrar muito a cabeça para perceber que a criatura se enfurece com os sons de música e alegria que vêm do salão do hidromel do rei Hrothgar. Essa característica aparece no poema e é citada por Tolkien como parte do papel de Grendel como inimigo da civilização e da humanidade. Mas é claro que, no texto original, ela faz bem mais sentido, porque lá Grendel é classificado explicitamente como um descendente de Caim, o vilão bíblico. Assim, ele representaria o lado negro da humanidade, adversário de tudo o que é bom e civilizado. “Grendel fica enlouquecido pelo som das harpas”, escreve Tolkien.

Outro toque interessante de Gaiman que pouca gente, ou talvez ninguém, comentou é o uso do próprio idioma anglo-saxão, ou inglês antigo. Tá certo que a distorção na voz do bicho não ajuda muito, mas dá para perceber que Grendel usa essa língua, e não inglês moderno. O mesmo ocorre quando um menestrel canta os feitos de Beowulf quando ele já está velho. A sonoridade certamente seria apreciada por Tolkien.

Ladeira abaixo
beowulf_salon_2.jpgOK, se existem tantos acertos assim, porque o filme não merece um Oscar? Duas palavras: faltou seriedade. Até os críticos antigos, que não tinham percebido o valor dos monstros na narrativa, viam “Beowulf” como uma obra de grande peso e dignidade. Apesar de algumas gracinhas, a sensação que a Trilogia do Anel de Peter Jackson também é essa.

Já em “A Lenda de Beowulf”, vemos um Hrothgar embriagado e quase nu que não consegue controlar a própria mulher, guerreiros cantando músicas sobre as donzelas que levaram para a cama em toda a Escandinávia e por aí vai. A obsessão com temas de natureza sexual – o verdadeiro erro de Beowulf nessa versão, aliás, é a luxúria, e não o orgulho desmesurado, como no poema – também é típica de Gaiman e do cinema moderno. Mas o fato é que ela acaba soando “errada”, deslocada, dentro do contexto mítico do personagem, assim como a visão cínica de que as lendas são construídas em benefício daqueles que detêm o poder. E é claro que o lado religioso do poema também está todo bagunçado – o autor de “Beowulf” via a chegada do cristianismo como um evento altamente positivo, sendo ele próprio cristão, e até onde sabemos a fé em Cristo NÃO tinha chegado à Dinamarca por volta do ano 500.

Em suma, trata-se de um filme que poderia ter sido muito melhor do que é. Mas vários de seus aspectos podem servir como introdução interessante ao mundo heróico germânico. 

Sete Dias de Teste do Lord of the Rings Online

Eu joguei "Lord of the Rings Online" desde as fases iniciais até o final do beta  e eu definitivamente não fiquei empolgado. Li o livro várias vezes e vi os filmes mais vezes do que posso lembrar. Eu estava esperando ansiosamente por este jogo – eu desejava um grande jogo que trouxesse aquele mundo à vida! O que eu vi no beta não foi nada além de completo desapontamento. Sim, eu vi alguns sinais promissores, de forma que eu fiz o que muitos jogadores fizeram – prometi dar uma olhada novamente quando começasse um teste gratuito.
 
 
Um Personagem Anão, no LOTROPara começar, o teste gratuito foi muito simples de instalar. É mais fácil do que a maioria dos jogos de hoje, de forma que é um grande bônus, a meu ver. Levei cerca de uma hora para fazer a instalação completa em um computador antigo. Os requisitos de hardware jo jogo eram bem ridículos durante o beta. Eles afirmavam uma coisa mas a realidade era bem diferente. Eu não parava de sofrer com lag e travadas! Agora, o jogo está muito mais fluido, tem alguns bons gráficos e não tem lag nenhum. Isto é parcialmente devido aalgumas configurações que foram adicionadas (como a habilidade de diminuir a qualidade de renderização do personagem em uma área muito lotada) e também tendodois clientes separados: um de alta e outro de baixa resolução.

A criação de personagem não está muito diferente. As únicas escolhas de classes são guardião (guardian), champion (campeão), burglar (ladino), hunter (caçador), lore-mestre (sábio) e minstrel (menestrel ou bardo). As opções de raça são homem, elfo, anão e hobbit. Como a exceção do anão, todas as raças podem ser femininas ou masculinas. Com anão não interessa se você é do sexo feminino ou masculino, você continuará a parecer um anão! Como Aragorn diz em "As Duas Torres", "É a barba!". Embora existam poucas escolhas na criação do personagem, as classes são bem boladas e desenvolvidas, bem balanceadas e os gráficos parecem bons mesmo na menor configuração do cliente de baixa resolução, o que é algo importante pra mim.

A primeira parte do jogo é um tutorial que começa com uma situação ruim e pretende ensinar as partes mais básicas de qualquer jogo online. O combate é fluido em sua maior parte com muito poucos travadas ou interrupções nos movimentos. os controles são colocados em locais decentes no teclado e as Quests parecem ter sido bem pensadas.

Após o uttorial o jogador é levado ao seu local de início. Ao menos parece que o tutorial acabou. Mas não. De fato, o tutorial está apenas começando. O jogador irão aprender mais não apenas sobre quests, sociedades, treinamentos, características (N.T. optei por traduzir Traits como "Características". Para saber mais veja este link) e mais. Características não tinham muito uso no beta – eles eram uma grande idéia mas mal implementados. Agora as Características são uma extensão da história e têm um belo efeito quando obtidas. E mais, é necessário visitar um bardo para anunciar que você obteve aquela Característica. Pode-se imaginar um bardo escrevendo uma canção sobre "Zerass o Valente" ou "Berr-Foot o Honesto e Virtuoso"!

Com relação à mecânica de jogo, as classes são bem balanceados. O capitão tem uma série de de habilidades de liderança que podemm ser utilizadas em momentos variados e afetam várias coisas diferentes no jogo, desde regeneração de moral à cura de companheiros ou buffs em mebros do grupo quando eles matam um inimigo. O campeão é repleto de maneiras de derrotar o oponente e deixá-los saber que o campeão esteve lá! Eles usam formas de ataque como "Barreira de Lâminas" que atacam quaisquer oponentes em seu arco frontal. Eles têm diversos ataques diretos também mas o que os diferencia é o uso de uma forma berserk chamada "Fervor". Estas habilidades permitem ao campeão atingir uma situação de berserk e continuar com ainda mais poder e ataques mais devastadores.

Uma cena de combate no LOTROCom relação à magia, não há realmente uma forma verdadeira de magia. Existe música para os menestréis, e magia limitada na forma de invocação de animais e um pouco de cura aqui e ali. Mas ao contrário da maioria dos jogos, não há paradas de tempo, bolas de fogo e nada de poderosos raios de enrgia diretamente das estrelas utilizados para atacar os inimigos. Magia é bem limitada neste jogo, como deveria ser. Eu aplaudo a Turbine por seus esforços em se manter verdadeira ao espírito de "O Senhor dos Anéis" neste sentido.

Uma parte  que eu não tive a chance de jogar antes e que parece bastante interessante é o "Monster Play". "Moster Play" permite o jogador criar e jogar como um monstro nível cinqüenta. Os monstros jogáveis são um guerreiro goblin, um arqueiro orc, um líder Uruk-hai, um worg ou uma aranha. Aparentemente há várias quests que podem ser completadas sem interação Jogador a Jogador ("Player versus Player", PvP), mas a maioria parecem ser batalhas PvP. Ao completar mais e mais tarefas no "Monster Play" ele recebe pontos de destino que permitem ao jogador melhorar seu personagem atual ou comprar ajustes especiais no Moster Play. Alguns deses ajustes incluem comprar uma nova raça para jogar (como um Troll das Cavernas), novas habilidades para treinar seu monstro ou um novo visual para seu monstro.

"Lord of the Rings Online" parece ter feito melhorias gigantescas com relação ao que eu vi no beta. Fico satisfeito em ter dado sete dias para provar a si mesmo. Vi que Turbine permaneceu verdadeira à Visão Tolkieniana da Terra-média. Os gráficos foram configurados de forma a atingir uma grande audiência e a imersão fez eu me sentir no meiuo do mundo que eu cresci lendo sobre. Muito bom Turbin, parabéns por fazer um bom jogo!

Gráficos: 8
Som: 8
História: 9
Comunidade: 8
Mecânica: 8
Tilt: 9
Geral: 8.3

 
Fonte: http://www.mpogd.com 

Beowulf vs O Senhor dos Anéis

beowulf_salon_1.jpgO novo filme de Robert Zemeckis "Beowulf" dá um sentido inteiramente novo à frase "o sublime e o ridículo". Zemeckis pegou o mais antigo e mais importante texto da língua inglesa e o tornou em uma viagem 3-D à Disneylândia tão pipoca que poderia ser chamada de "Anglo-Saxões do Caribe". Claro, não há nada novo ou surpreendente sobre isso. Hollywood tem profanado a história e a literatura desde muito antes de Cecil D. DeMille ter colocado Charlton Heston como Moisés. Se a Bíblia não é sagrada, porque o mais antigo poema da ancestral língua inglesa seria?

 
Mas a vestimenta de "Beowulf" é especialmente brilhante, devido ao óbvio contraste com outro trabalho que minou no mesmo campo antigo: "O Senhor dos Anéis" de J.R.R. Tolkien. "Beowulf" não é apenas um filme ruim, embora visualmente espetacular, é também uma enorme oportunidade perdida. Com suficiente ousadia imaginativa, Zemeckis poderia ter criado um universo mítico, um que encontra as linhas misteriosas que conectam o passado distante ao nosso tempo. Ao invés disso, ele tornou nossa herança cultural em um desenho animado. (Isto não feriu “Beowulf” na renda de cinema: foi o filme que mais vendeu ingressos nos EUA após sua primeira semana).

Comparar “Beowulf” à obra-prima de Tolkien é colocar os parâmetros muito altos, mas a escolha de Zemeckis por “Beowulf” a tornou inevitável. Não há nenhuma razão para embarcar em “Beowulf” a menos que você queira ir até o fim. Isto é verdade não apenas porque é um texto canônico, mas porque não há uma maneira de fazer um filme dele. Quando encarando o impossível, é melhor você trazer alguma magia ao empreendimento. Você precisa mais do que efeitos especiais 3-D – você precisa de uma imaginação 3-D.

"Beowulf" é a peça mais antiga da literatura Européia vernicular, e permanece talvez como a mais profunda, uma visita sobrenatural a um canto escuro perdido de nossa história, uma era presa entre paganismo e Cristandade. A inescrutabilidade de "Beowulf" o tornou campo de disputa para estudiosos por mais de um século. Uma vez que mesmo os especialistas não conseguem concordar sobre o que ele significa, como um artista moderno poderia abordá-lo?

Claro que não há resposta correta ou errada a esta pergunta. Zemeckis tinha o direito de escolher qualquer material fonte que desejasse, e fazer o que quisesse com ele. E talvez sua extravagância high-tech desperte interesse não apenas no antigo poema, mas mesmo na herança germânica esquecida dos americanos e ingleses – talvez na própria história. Mas se o fizer, não será por causa de sua visão artística.

Para aqueles leitores que fizeram como diz Woody Allen em “Annie Hall” e tiraram uma soneca em todas as aulas que incluíam “Beowulf”, aqui vai um resumo. “Beowulf” é um poema de 3.183 linhas, escrito por um poeta desconhecido em Inglês Arcaico (também conhecido como Anglo-Saxão, a língua germânica falada na Inglaterra antes da Conquista Normanda), provavelmente no século 8, mas possivelmente alguns séculos depois. O poema existe em um único manuscrito, uma cópia feita por volta do ano 1.000 e que está no Museu Britânico. Os eventos que ele relata se passam no que agora é a Dinamarca por volta do ano 500, de forma que o autor já está olhando para um passado distante. Crucialmente, ele é um Cristão, que tem uma relação altamente ambígua com o herói pagão que celebra. Estudiosos continuam a debater a sua exata natureza, a de seu poema e a de sua audiência Cristã e atitude com relação ao paganismo – bem como praticamente tudo mais sobre o poema.

A história é austera e estranha. Um monstro chamado Grendel, um descendente do bíblico Cain, tem aterrorizado o reino da Dinamarca por 12 anos. Um grande guerreiro chamado Beowulf jura matar Grendel. Ele e 14 homens navegam de seus lares em Geatland (sul da Suécia) para a Dinamarca, onde Beowulf mata o monstro e então a horrível mãe do monstro. Ele recebe presentes e honrarias do idoso rei Dinamarquês e volta para casa, onde reina por 50 anos. Quando um dragão assola seu reino, Beowulf procura o monstro e o mata, mas ele também é mortalmente ferido. Após sua morte ele é lembrado por seu povo como o mais gentil dos reis e o mais ávido pela fama.

Sejam quais forem suas virtudes históricas e literárias, não é sua história que vai colocá-lo no cinema local. Qualquer adaptação fiel de “Beowulf” quase certamente seria um fracasso comercial, devido à essência mítica do poema. Seus personagens são unidimensionais e só há uma linha de roteiro: o herói envelhece e morre. Sua grandeza está em sua linguagem, não sua história. “Beowulf” é um poema difícil e assombrado, que evoca o que o “Cambridge History of English Literature” chama de “desconhecido vago e palpável”. Inglês Arcaico é uma língua estranha, mas se você conhecer inglês e ler uma edição bilíngüe, como a bela tradução de Seamus Heaney, de quando em quando encontrará uma palavra familiar, como uma pequena pedra atirada em um mar turbulento. Para Tolkien, um filólogo que desde criança era naturalmente sensitivo ao som da língua como o jovem Mozart era para música, o próprio som do Inglês Arcaico é revelatório. Como professor de Anglo-Saxão em Oxford, Tolkien empolgava suas turmas com sua recitação dramática do início de “Beowulf”. (Em uma carta a Tolkiem, W.H. Auden escreve reverentemente, “Sua voz era a voz de Gandalf”.)

Existe uma versão cinematográfica de “Beowulf” que é literalmente verdadeira á original: o ator Benjamin Bagby recita o poema inteiro no original em Inglês Arcaico, tocando harpa Anglo-Saxônica. É uma atuação memorável, mas é improvável que o filme seja mostrado em locais que cobram entrada.

Visando uma audiência mais ampla, o filme de Zemeckis e as três versões anteriores de “Beowulf” alteraram radicalmente a história. Dois dos filmes mais antigos tomam uma abordagem não-mitológica tentando imaginar que eventos reais deram origem ao conto sobrenatural. “Beowulf e Grendel”, feito em 2005 e filmado na Islândia, faz de Grendel um simpático Pé-Grande, um ser solitário e vagamente Neanderthal que está se vingando dos Dinamarqueses após estes terem matado seu pai. “O Décimo-terceiro Guerreiro” (1999), baseado em um romance de Michael Chichton, também elimina o sobrenatural: os monstros são humanos vestidos em peles de urso. Em um toque divertido, ele é contado da perspectiva de um diplomata Árabe que inadvertidamente se encontra no bando de Beowulf. Ambos são esforços válidos e o excêntrico “Beowulf e Grendel” algumas vezes se eleva a uma intensidade hipnótica, embora seja dolorosamente irregular. O “Beowulf” de 1999, estrelado por Christopher Lambert, é comicamente terrível, um candidato perfeito para um episódio do “Mystery Science Theater”. Ele é ambientado em um futuro pós-apocalíptico, com Beowulf sendo um herói taciturno e obcecado. A grande inovação é a mãe de Grandel, que se tornou uma monstra horrível/gostosa, encenada por uma modelo loira da Playboy vestindo uma rede, que previamente seduzira o velho rei (de cuja união profana Grendel surgiu) e tenta usar seus poderes malignos em Beowulf acariciando sua espada. Quando isto falha, ela se torna em uma harpia meio-pterodáctila, cheia de asas.

O “Beowulf” de Zemeckis usa a mesma narrativa, embora não tão comicamente. Mais uma vez a mãe de Grendel é uma gostosa demoníaca (elevada de uma mera Coelhinha para Angelina Jolie) que também dorme com o velho rei. O roteirista Roger Avary e o estimável Neil Gaiman (que deve estar lamentando o dia em que aceitou participar deste projeto) “avançam” esta narrativa também fazendo Beowulf sucumbir aos charmes malignos dela. A corrupção de Beowulf volta para caçá-lo 50 anos depois, quando ele se redime de seus pecados lutando contra o dragão maligno em uma batalha climática que resulta em sua morte.

beowulf_salon_2.jpgO problema com o “Beowulf” de Zemeckis não é que ele se distancia da história original, ou que seu roteiro é inerentemente intrabalhável. Para gerar qualquer tipo de tensão narrativa, Beowulf tem que mudar, ser algo mais além de um heróis virtuoso e bravo. A solução do filme, embora muito óbvia e de alguma forma anacrônica (a figura da bruxa corruptora e sexualmente poderosa é mais associada com a baixa Idade Média, em um personagem como Morgana le Fay, do que com a literatura Anglo-Saxã), teoricamente poderia ter funcionado. Mais ainda, ele poderia ser justificado nos termos de certas leituras críticas do poema: de acordo com uma forte interpretação Cristã, a morte de Beowulf é sua redenção pelo pecado do orgulho, no qual ele sucumbiu enquanto rei. Por exemplo, em seu livro de 1989 “The Condemnation of Heroism in the Tragedy of Beowulf” Fidel Fajardo-Acosta argumenta que a “batalha com a mãe de Grendel representa a iniciação de Beowulf em sociedade de gigantes Caínicos, e ao estado de ser demoníaco”.

“Beowulf’ não falha por ter alterado a história: falha porque está tão ocupado embelezando a história que não cria um universo mítico. Não tem visão transfigurante. Baseia-se em um conto antigo, cujas raízes invisíveis são profundas em nossas psiques, e o utiliza para construir um entretenimento brilhante e de plástico. Toma um conto selvagem e o transforma em uma besta domada. Mas “Beowulf” é o tipo de história que não tem sentido a menos que seja parte de uma cosmologia. Ele é, resumidamente, um mito.

J.R.R. Tolkien, o autor que criou o universo mítico mais poderoso de nosso tempo, também era um renomado estudioso de “Beowulf”. “O Senhor dos Anéis” foi profundamente influenciado por este poema e Tolkien escreveu aquele que continua sendo um dos textos seminais sobre o mesmo. A análise Tolkieniana de “Beowulf”, e mais genericamente da fantasia e mito, esclarecem porque ele foi capaz de criar uma obra-prima mitopoética moderna e porque “Beowulf” falha.

“Beowulf: The Monsters and the Critics”, publicado em 1936, marca um ponto de virada nos estudos críticos do poema. Antes do ensaio de Tolkien, a maioria dos estudiosos se referia ao uso, pelo poeta desconhecido, de elementos sobrenaturais – o monstro Grendel, sua igualmente monstruosa mãe e o dragão – como primitivo ou infantil. Argumentando que estes temas “triviais” falhavam em fazer justiça à bela linguagem do poema, eles viam “Beowulf” como sendo de interesse primariamente histórico, não artístico. Como o estudioso W.P. Ker escreveu em 1904, “A coisa em si é de pouco valor; a moral e o espírito dela só podem encontrar iguais entre os mais nobres autores”. Tolkien mudou estas concepções. Ele argumentou que o poema deveria ser lido como um poema e reconhecido como um grande poema. Os elementos fantásticos em “Beowulf”, longe de serem embaraçosos, são inseparáveis de sua majestade artística.

Em uma famosa alegoria, Tolkien compara o autor de “Beowulf” com um homem que, herdando um campo cheio de pedras antigas, as usa para construir uma torre. Seus amigos, reconhecendo que as pedras pertenceram a uma construção mais antiga, destruíram a torre “para olhar as gravações escondidas e inscrições”. O que ele não perceberam, termina Tolkien, era que “do topo daquela torre o homem foi capaz de olhar o mar”.

O ponto de Tolkien é que os elementos fantásticos em “Beowulf” são arquétipos antigos que têm raízes profundas nas crenças, medos e desejos humanos – mitos, em outras palavras. E em “Beowulf”, ele argumenta, estes mitos são partes essenciais do conto trágico cujo tema é “homem em guerra contra um mundo hostil, e sua inevitável derrocada no Tempo”. A grandeza de Beowulf deriva do fato de que é um poema criado em “um momento carregado de equilíbrio”: é balanceado entre uma visão de mundo Cristã, na qual morte e derrota são ambas derrotadas definitivamente por Cristo, e uma Germânica, pagã, na qual o destino governa tudo e apenas a coragem de um homem confere nobreza. Ele é, Tolkien escreve, não um poema primitivo, mas um tardio. O mundo pagão já é passado, mas o poeta continua a celebrar ser poder já inexistente. O fato do um poema escrito há mais de mil anos atrás estar ele próprio olhando para trás, para um mundo perdido, dá ao poema uma ressonância sobrenatural duplicada ao leitor moderno: “se o funeral de Beowulf era como um eco de um antigo hino funerário, distante e sem esperança, é pra nós uma memória trazida por sobre as colinas, um eco de um eco”.

O brilhante artigo de Tolkien pode ser visto como uma sonora defesa não apenas de “Beowulf”, mas do trabalho que ele estava prestes a empreender, outra grande torre composta de pedras antigas. E os temas de tardiedade, de perda heróica, sendo pegos entre uma era e outra (seu mundo não é chamado de “Terra-média” à toa), são as partes mais profundas e sublimes de seu épico: eles são a atmosfera metafísica assombrada através da qual seus personagens – homens, elfos e hobbits – devem cruzar. O desaparecimento dos elfos, o duro amanhecer da idade dos homens, representam um desencantamento do mundo idêntico ao desencantamento que Tolkien achou insuportavelmente comovente em “Beowulf”. Introduzindo este tema soturno, Tolkien deu expressão artística às dúvidas que ele próprio pode ter sentido sobre o mito que criara – e assim os transcendeu.

beowulf_salon_3.jpg Tolkien foi capaz de utilizar as pedras antigas de “Beowulf” para construir uma obra-prima moderna porque ele reconheceu que o poder duradouro dos mitos deriva de suas verdades profundas. Isto não significa que ele acreditava que orcs e goblins e elfos realmente existiram; isto deriva de sua crença de que o mundo era encantado, iluminado por uma luz sagrada e que as sub-criações humanas que chamamos mitos – “formas vivas que se movem de mente para mente”, como as chamou em um poema que escreveu para C.S. Lewis – são faíscas daquela luz primordial. Para Tolkien, a origem última de encantamento era o Deus Cristão, mas não é necessário compartilhar esta fé para sentir o poder de sua criação.

Os criadores do filme “Beowulf”, contudo, falharam em reconhecer até mesmo que o épico é composto de pedras antigas ou que aquelas pedras poderiam ter algo a nos dizer hoje em dia. Eles gastaram milhões de dólares replicando o visual do passado, mas eles esqueceram de algo que nenhuma tecnologia de captura de movimentos é capaz de capturar: poesia. A essência de “Beowulf”, ou qualquer poema, não pode ser invocada apenas por imagens. Ela deve ser imaginada. E a tradução daquela visão em imagens cinematográficas é uma forma de arte: não pode ser feita por computador.

Neste sentido, a magnífica versão cinematográfica de “O Senhor dos Anéis” feita por Peter Jackson pode levar os diretores a pensar que tudo que devem fazer para contar um conto mitológico é filmar as ações e deixar que o poder do filme preencha as lacunas poéticas. Mas não é assim tão fácil. O filme de Jackson tem sucesso não porque captura o visual do mundo de Tolkien, mas porque ele captura seu coração.

É injusto e pode parecer até mesmo cômico, discriminar um entretenimento trivial como “Beowulf” por falhar em ter a profundidade de uma obra-prima antiga. Há muitas mansões no mundo da arte, e há uma sala para os óculos 3-D e batalhas digitalizadas, bem como para Mahler e Edith Wharton. Mas nós temos muitos contos de fada ruins e coisas high-tech de mau gosto e poucos “Beowulf”. Pelo menos podemos pedir àqueles que se aventuram naqueles reinos distantes e obscuros que não vistam roupas de palhaço. Eles estragam nossa visão do mar.

 
Fonte: Salon 

Uma Viagem Encantadoramente Imaginativa

tolkien-archives.gifDiretamente do Túnel do Tempo, a Valinor disponibiliza mais um artigo de época para você (os primeiros artigos foram “O Herói é um Hobbit ” e “O Mundo Sombrio de Homens e Hobbits“). Dessa vez, uma resenha do livro “O Hobbit“, escrita por Anne T. Eaton e publicada no jornal The New York Times em 13 de Março de 1938! Uma ótima oportunidade para conhecer as primeiras impressões que o trabalho de Tolkien obteve naquele tempo. Confira então “Uma Viagem Encantadoramente Imaginativa“, raridade traduzida para nós por Thais “Luz do Entardecer”.
Uma Viagem Encantadoramente ImaginativaPor Anne T. Eaton

Este é um dos livros mais estimulantemente originais e encantadoramente imaginativos para crianças a aparecer em muitos anos. Como “Alice no País das Maravilhas”, vem da Universidade de Oxford, onde o autor é professor de Anglo-Saxão e, como a história de Lewis Carroll, foi escrito por crianças que o autor conhecia (nesse caso, seus quatro filhos) e, por isso, inevitavelmente encontrou um grande público.

O período da história é entre a era do Reino Encantado e o domínio dos homens. Para um adulto que lê sobre Smaug, o Dragão, e seu tesouro, conquistado pelos anões, mas também reivindicado pelos Homens do Lago e pelo Rei Élfico, é capaz de surgir a idéia de como lenda, tradição e o começo da história se encontram e se misturam, mas para o leitor de 8 a 12 anos, “O Hobbit” é um relato glorioso de uma aventura magnífica, cheio de suspense e temperado com um humor discreto que é irresistível.

Hobbits são (ou eram) um povo pequeno, menores que anões – e eles não têm barbas – mas bem maiores que os liliputianos. Há pouca ou nenhuma magia neles, exceto do tipo comum que os ajuda a desaparecer discreta e rapidamente quando gente grande e estúpida como você e eu se aproxima de modo desajeitado, fazendo barulho como elefantes que eles podem ouvir a uma milha de distância. Eles tendem a ser gordos na barriga; vestem cores claras, principalmente verde e amarelo; não usam sapatos porque em seus pés crescem solas naturais como couro e pêlos espessos e castanhos; têm dedos morenos, longos e habilidosos, rostos amigáveis e dão gargalhadas profundas e deliciosas (especialmente depois do jantar, que eles têm duas vezes por dia, quando podem).

Bilbo Bolseiro era um hobbit que encontramos morando em sua confortável, para não dizer luxuosa, toca hobbit, pois não era uma toca suja e úmida, tampouco vazia e arenosa, mas dentro de sua porta redonda e verde, como uma escotilha, havia quartos, banheiros, adegas, despensas, cozinhas e salas de jantar, tudo ao melhor gosto hobbit. Tudo que Bilbo pedia era para ser deixado em paz em sua residência, conhecida como “Bolsão”, pois hobbits são naturalmente um povo caseiro e Bilbo não tinha anseio algum por aventuras. Quer dizer, seu lado Bolseiro não tinha, mas a mãe de Bilbo havia sido uma Tûk, e no passado os Tûks haviam se unido por casamento a uma família de fadas. Foi a porção Tûk que fez o pequeno hobbit, quase contra sua vontade, responder ao chamado de Gandalf, o Mago, para juntar-se aos anões para recuperar o tesouro deles que Smaug, o dragão, havia roubado de seus antepassados. Bilbo possui uma simpática personalidade, assim como totalmente convincente; francamente desdenhador do heróico (exceto em seus momentos mais Tûk), ele, contudo, desempenha o seu papel em emergências com uma coragem tenaz e habilidade que o faz no fim o real líder da expedição.

Depois dos anões e Bilbo terem passado pela “A Última Casa Amiga”, seu caminho os conduziu pelas Terras Ermas, sobre as Montanhas Nevoentas e por florestas que sugerem aquelas dos romances em prosa de William Morris. Como as terras de Morris, as Terras Ermas são o Reino Encantado, mas ainda assim possuem uma qualidade terrena, o aroma das árvores encharcadas pelas chuvas e o cheiro de fogueiras.

A história é repleta de dicas valiosas para o aventureiro e matador de dragões no Reino Encantado. Muitos monstros escamosos foram mortos em lendas e contos populares, mas jamais foi fornecido para leitores modernos um guia tão completo a respeito de dragões. Aqui, também, estão expostas claramente as características distintivas de anões, goblins, trolls e elfos. O relato da jornada é tão explícito que nós podemos facilmente acompanhar o progresso da expedição. Nessa tarefa somos auxiliados pelos admiráveis mapas fornecidos pelo autor que, em seus detalhes e consistência imaginativa, sugerem o “Mappe of Fairyland” de Bernard Sleigh.

As canções dos anões e elfos são poesia verdadeira, e visto que o autor é afortunado o bastante por ser capaz de fazer seus próprios desenhos, as ilustrações são um perfeito acompanhamento para o resto. Garotos e garotas de 8 anos já têm dado ao “O Hobbit” uma entusiasmada recepção, mas esse é um livro sem limite de idade. Todos aqueles, jovens ou velhos, que amam uma excelente história de aventuras, contada de forma admirável, levarão “O Hobbit” em seus corações.

O Mundo Sombrio de Homens e Hobbits

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Artigo publicado originalmente no jornal The New York Times em 1º de maio de 1955, "O Mundo Sombrio de Homens e Hobbits" é uma resenha feita por Donald Barr de As Duas Torres, na época de seu lançamento e, portanto, sob a ótica daqueles tempos. Confiram então essa preciosa matéria, traduzida para nós pela colega Thais "Luz do Entardecer". 

 

O Mundo Sombrio de Homens e Hobbits

 
Em 1937, J. R. R. Tolkien escreveu “O Hobbit”, planejado como um livro infantil, mas com toques aqui e ali de terrores que possuíam os envolvimentos mais sombrios do mito e às vezes até mesmo daquele “clangor e gemido de grande ferro” que Chesterton ouvia nas canções de gesta medievais.
 
Agora, em uma trilogia chamada “O Senhor dos Anéis”, o Sr. Tolkien continua de um modo um pouco diferente sua história da terceira era da Terra Média, um mundo habitado por magos, homens, hobbits (pequenos excêntricos corteses, como chefes de família ingleses de três pés de altura com grandes pés peludos), elfos e anões e pelos vorazes orcs e Cavaleiros Negros cegos e seu senhor. É um mundo de um amanhecer mirrado e um mundo de um pesadelo retumbante. Parece, como qualquer era muito distante, ser especialmente ensolarado e ser ameaçado por perigos muito fundamentais, de uma escuridão peculiarmente imaterial.

“As Duas Torres” é a segunda parte. O Senhor do Escuro de Mordor começou seu ataque sobre a sanidade e a graça do mundo. A Sociedade do Anel, o diminuto grupo sobre o qual reside toda a esperança de resistência, é dispersada; o hobbit Frodo parte em direção das fronteiras da própria Mordor, levando o Anel fatal que deve ser destruído nos fogos do domínio do Inimigo. Isso, não importando o que o sumário possa fazer parecer, não é para crianças; nem o é para os amantes de excentricidades e citadores de Alice. Tampouco é o aparato de uma moral morta enfeitada de poesia, como “The Faerie Queen”. É uma obra extraordinária: pura excitação, narrativa fluente, calor moral, regozijo descarado com a beleza, mas principalmente excitação; ainda assim uma ficção séria e escrupulosa, nada confortável, sem pequenas visitas à infância.

Essa obra trabalho é muito admirada por certos críticos que sempre praticaram um intelectualismo altamente consciente e orgulhoso. A fantasia do Sr. Tolkien não é metafísica como a de E. R. Eddison, nem teológica como a de George MacDonald; seu apelo para os intelectuais é, portanto, interessante. Depois da primeira Guerra Mundial, a ficção séria tendeu ao platonismo ou berkeleyimo literário. Com uma espécie de tédio brilhante (chamado “sensibilidade”), romances se refinaram no tocante a estados mentais. Os autores compreendiam que o pensamento era o ato real, do qual a ação era apenas uma cópia duvidosa. Tramas deram caminho a insights. As divergências de grandes retóricas multifacetadas, que fizeram Dickens e Scott, foram substituídas pela voz interna, muito pequena, mas constante. Nunca a distância entre o apetite popular e arte séria havia sido tão grande como então se tornou, inevitavelmente. Muitas pessoas, do que poderíamos chamar de gosto mediano, voltaram-se para contos policiais, os quais pelo menos possuíam tramas; recentemente elas têm lido ficção científica, que possui uma ação forte. O fato de que “O Senhor dos Anéis” deve agradar leitores dos mais simples gostos sugere que eles agora também anseiam pelo tipo antigo, direto e viril de narrativa.

O Sr. Tolkien é um distinto filólogo inglês, e a linguagem de suas narrativas nos lembra que um filólogo é um homem que ama a linguagem. Seus nomes são brilhantemente apropriados; as línguas que inventou para os elfos e orcs expressam perfeitamente, apenas por seus sistemas de ritmo e fonética, a natureza dessas raças; seu estilo é cheio de alegria, a alegria que segue a produção de um gesto perfeito. Mas mais que isso, o autor teve um profundo acesso a uma tradição épica que remete cada vez mais ao passado e desaparece nas brumas de histórias germânicas, de modo que sua história possui um tipo de profundidade ecoando ao fundo, onde ouvimos Snorri Sturluson e Beowulf, as sagas e a Canção dos Nibelungos, mas civilizados pelo gênio suave da Inglaterra moderna.

O Sr. Barr leciona Inglês na Universidade da Columbia.

 
 

Filhos de Húrin, ou Tolkien: Os Estudiosos e os Crí­ticos

Em Babel-17, de Samuel R. Delany, há uma descrição de uma arma que
pode se parecer como uma pedra ou um pedaço pequeno de metal. Ela é basicamente
não é detectável, mas se você introduzi-la sorrateiramente em uma espaçonave e
colocá-la perto de qualquer tipo de "sistema de estase-inércia", a
nave irá se desintegrar assim que você tentar viajar pelo espaço.

 

Acho que O Senhor dos Anéis possui o mesmo tipo de efeito nas teorias
de boa literatura. Pegue a teoria de algum crítico a respeito do que é
"boa literatura", coloque Tolkien nela e observe o edifício inteiro
desmoronar sobre as suas próprias contradições.

Por exemplo, como Tom Shippey mostra de maneira tão bela,
Philip Toynbee diz que "O Bom Escritor" pode escrever sobre qualquer
coisa, até mesmo "duques incestuosos na Terra do Fogo", e cabe ao
público se ajustar à obra e não desconsiderá-la como estranha ou diferente
demais. Aparentemente o Sr. Toynbee deixou de mencionar a cláusula adicional de
sua teoria de que "duques incestuosos não tem problema, mas Elfos não são
permitidos", pois Tolkien encaixa-se perfeitamente na descrição de Toynbee
(e de muitos outros) de "O Bom Escritor", e ainda assim Toynbee, e
"Bunny" Wilson, Salman Rushdie e, mais recentemente, Bryan
Appleyard
, claramente sequer colocariam Tolkien próximo do panteão deles
dos "Bons Escritores".

E mesmo assim ele se encaixa tão bem nos critérios:
Lutar com a recalcitrância da língua inglesa? Confere (exceto que Tolkien sabia
mais sobre a estrutura e complexidade do inglês, sua história e seu
desenvolvimento do que Pound, Eliot ou Joyce – embora Joyce provavelmente
tivesse um sentido fono-estético internalizado tão profundo quando o de
Tolkien, ainda que não tão teorizado explicitamente). Seguir sua imaginação
onde quer que ela vá? Confere. Recusar-se a aceitar os pressupostos de
ideologias contemporâneas? Confere. Escrever para si próprio e não se preocupar
com as opiniões ou com críticos ou com editores ou mesmo com a posteridade?
Confere.

Logo, o que isso mostra? É tentador tentar devolver as palavras dos críticos
hostis a eles em um tipo de judô intelectual, mostrando que Tolkien tem
o seu lugar entre os outros grandes escritores, adequando-se precisamente nas
categorias de Bunny Wilson e outros. Tom Shippey (que é uma pessoa muito mais
gentil e mais razoável do que eu) faz isso muito bem. Ele parece querer dizer a
esses críticos: "Abram os olhos. Usem suas próprias teorias. Isto é o que
vocês disseram que era boa literatura. Tolkien se encaixa em todos os seus
critérios".

Eu, por outro lado, (que não sou nem tão instruído nem tão legal quanto
Shippey) acredito que Tolkien mostra que a maioria das teorias estéticas modernistas
– pelo menos o tipo que foi internalizado pelos críticos que publicam no Times
e em outros meios da elite – são uma bosta. Desculpe, isso não foi educado e
poderia ser melhor reformulado: as teorias estéticas de pessoas como Bunny
Wilson, Toynbee, Judith Shulevitz, Bryan Appleyard, Michiko Kakutani (quando se
dão ao trabalho de articular todas elas) são compostas igualmente de evasivas e
suposições profundamente enraizadas que, assim que são questionadas, não podem
ser sustentadas.

Deixe-me ver a primeira
resenha de Os Filhos de Húrin de J. R. R. Tolkien, feita por Bryan
Appleyard
. É tentador (ah, tão tentador) "esmiuçar" a resenha,
dividindo-a em parágrafos e mostrando o que há de errado com cada um, mas
deixarei isso para outros. Em vez disso, quero chamar a atenção para algumas
suposições muito importantes e não-questionadas as quais acredito que deveriam
ser questionadas.

Appleyard começa citando A. N. Wilson no argumento de que Tolkien "não era
realmente um escritor" mas sim um criador de mundos. Esse é um insight
muito útil das idéias de Wilson e Appleyard. Um "escritor", sob esse
aspecto, não é alguém que publica livros ou mesmo escreve privadamente. Um
escritor é algo mais, um membro de algum subgrupo de pessoas que publicam
livros. Um "escritor" (ao contrário de um escritor) pertence a um
grupo específico.

Como é esse grupo? De acordo com o parágrafo seguinte, ficamos sabendo que
escritores devem ser aquele subgrupo de pessoas que escrevem e que estão
preocupadas com o estilo. Esse é um começo promissor; eu mesmo acredito que a
maior lacuna entre Tolkien e os seus críticos é que as metodologias críticas
contemporâneas não são muito aplicáveis ao estilo de Tolkien, de modo que talvez
estejamos chegando a algum lugar.

Mas então ficamos sabendo que Tolkien preocupava-se com o estilo, só
que, aparentemente, da maneira errada. Ele estava interessando no estilo de Beowulf,
de Sir Gawain e o Cavaleiro Verde, das sagas nórdicas "e,
especialmente no caso deste último livro… de Wagner"
(ênfase
chocada minha): "A abordagem óbvia para um autor contemporâneo que queira
recuperar tais formas é atualizar o estilo delas e, talvez, colocá-las em um
contexto contemporâneo".

Ficamos sabendo agora de coisas ainda mais importantes: para ser um escritor, é
preciso "atualizar" o próprio estilo. Essa é a abordagem
"óbvia". Então, se seguirmos essa linha de raciocínio, embora possa
haver coisas boas e importantes em textos antigos, se alguém vivo agora quiser
escrever sobre essas coisas boas, deverá "atualizar-se" ao estilo ou
mesmo ao contexto contemporâneo. A suposição não-dita porém dominante deve ser
a de que o estilo contemporâneo é melhor do que estilos mais antigos
(do contrário, para que "atualizá-lo" – atualizar implica
melhoramento).

Vemos aqui então que Appleyard (e suponho que Wilson e muitos outros) vem
aceitando inconscientemente uma ideologia estética progressista
enunciada abertamente pela última vez por escritores do final da era vitoriana,
mas que obviamente ainda exerce uma influência muito forte. Se você seguir essa
linha de raciocínio, parece que a arte da escrita está sendo continuamente
aprimorada, de modo que o que é mais recente é melhor (embora a distribuição
desigual de talento no decorrer das eras signifique que alguns grandes
escritores antigos ainda valem a pena ser lidos mesmo que não tenham sido
"atualizados").

Ou há a possibilidade de que possuímos uma variedade de progressivismo estético
na qual não é preciso afirmar que, digamos, Hemingway é esteticamente superior
a Shakespeare, mas que cada um é mais "adaptado" à sua época e,
assim, se Shakespeare escrevesse exatamente as suas palavras em 1941, a obra de
Hemingway seria superior. Creio que provavelmente é onde a maioria dos críticos
literários jornalísticos (como Appleyard, Shulevitz, Kakutani) acabaria: não em
um progressivismo estético absoluto, mas em um relativo: há um estilo
que é apropriado para um determinado período de tempo, e desviar demais desse
estilo constitui uma má literatura.

Mas eis aqui uma rápida experiência de opinião: digamos que alguém descubra, em
algum arquivo empoeirado, um soneto shakespeareano ou uma obra chauceriana
genuína (por exemplo, o perdido Livro do Leão) ou outro poema escrito
pelo poeta do Beowulf. Poderia essa ser uma grande obra de literatura?
Não creio que alguém iria argumentar que não poderia (isso dependeria, é claro,
da qualidade do texto). Agora, imaginemos que, após 100 anos, inúmeros artigos
acadêmicos, etc., descobríssemos que o texto encontrado fosse na verdade uma
criação do século XX. Aquelas mesmas palavras passariam de boa literatura para
má literatura? E se fosse descoberto que uma obra canônica fosse uma invenção
posterior? Se Beowulf tivesse sido escrito no período Tudor ele agora
seria um poema ruim?

De acordo com as suposições que Appleyard parece estar seguindo, me parece que
o autor e o período são o que valem, não as palavras específicas no papel.
Contudo, não estou ciente de qualquer argumento lógico para tal ponto
de vista. Joyce ou Eliot serem melhores estilistas da prosa que Tolkien –
"(artistas muito superiores)", diz Appleyard, sem explicar por que –
pressupõe algum modo de julgar o estilo da prosa. Mas quando tentamos
compreender o que o autor da resenha quer dizer com um melhor estilo de prosa,
nos deparamos com evasivas: "profundidade" (indefinida) ou
"tendências mais profundas" (indefinidas).

Appleyard continua (a respeito de Os Filhos de Húrin): "O
pensamento moderno está claramente sendo arrastado pelo pescoço para longe de
sua zona de conforto literário". Essa é uma passagem muito boa, e bem
provável que seja verdadeira, mas ele a diz como se fosse uma coisa ruim.
Parece-me que a maior parte do que ouvi sobre o poder e a importância da arte e
da literatura modernistas e pós-modernistas diz respeito a tirar as pessoas de
suas zonas de conforto: não é essa a mensagem básica de cada uma das Bienais
Whitney desde, digamos, a década de 80? Mas quando Tolkien faz isso é ruim. É
por que há Elfos? (Alguém esqueceu de mencionar novamente a cláusula adicional
"sem Elfos"?)

Appleyard menciona que ele "desistiu" de O Senhor dos Anéis
porque a prosa de Tolkien é "completamente superficial, sem nenhuma das
tendências mais profundas que constituem uma boa ou excelente obra". Aqui
fiquei realmente confuso. Se há algo que o estudo das obras de Tolkien mostrou
é que há uma "profundidade" imensa por trás das escolhas de
palavras e imagens de Tolkien: quando Tolkien usa "eyot" [arc.
"ilhota"] ou "laving" ["lavando"] ou "louver"
["gelosia"] ou "ninnyhammer" [coloq. "idiota
cabeça-dura"] ou "dwimmerlaik" [ing. médio "criatura
espectral"], ele está usando termos técnicos precisos e fazendo a ligação,
através de referências literárias, com obras de literatura mais antigas (assim
como Eliot faz em "A Terra Desolada", que Appleyard menciona). Quando
Tolkien usa construções sintáticas tais como "Come not between the Nazgul
and his prey" ["Não te intrometas entre o Nazgul e sua presa"]
ou "That was a grim meeting" ["Aquele foi um encontro
sinistro"], ele faz uso de referencialidade tradicional para invocar
contextos literários maiores. Quando conta a história de Túrin dormindo por fim
com sua irmã e cometendo suicídio quando descobre, ele está fazendo referências
ao Kalevala finlandês e pegando um tipo de motivo do folclore e
transformando-o em uma história com personagens mais complexos e ironias mais
específicas ("atualizando", se preferir). Infelizmente, se você for
um crítico literário mas não um estudioso, se você for um jornalista que cita Beowulf
ou Sir Gawain e o Cavaleiro Verde mas não os leu com atenção (ou, em um
dos exemplos acima, Rei Lear), você não entenderá o recado.

Logo, não é que a prosa de Tolken careça de profundidade, mas sim que as
profundidades às quais ela faz referência não são as profundidades que o
crítico conhece. Mas por que Tolkien é o culpado aqui? O grande escritor,
segundo Toynbee, não tem que se adiantar e o crítico se esforçar para
acompanhar? Quem determinou que o conjunto de referências e textos deve ser
aquele com o qual o crítico sente-se confortável? Eliot parecia estar zombando
da falta de erudição de muitos críticos quando publicou suas próprias notas de
rodapé para "A Terra Desolada", e os críticos que não compreendem as
referências de Tolkien também carecem de erudição (de um tipo diferente,
"setentrional" em vez de clássica, por exemplo), mas em vez de se
esforçarem para adquiri-la, eles supõem que as referências são obscuras,
"provincianas", "dônicas", "pouco sólidas".

A comparação de Appleyard com o Único e Eterno Rei de T. H. White é reveladora. A obra de White é repleta
de ironia, aquele condimento multiuso dos escritores modernistas,
críticos e jornalistas. Tolkien tem realmente muito pouco interesse nesse tipo
de ironia (que com freqüência é, na minha opinião, superficial, embora não no
caso de White). A ironia, porém, é fácil para o crítico e lhe permite manter
uma pose de superioridade, que é essencial se você vai dizer às pessoas do que
elas devem ou não gostar (em vez, digamos, explicar como um artefato estético
produz seus efeitos em diferentes leitores). É uma camada adicional de ironia:
não apenas o leitor sabe de coisas que o personagem não sabe, como se supõe
que o crítico sabe de coisas, coisas importantes, que o autor não sabe
.

É irônico, portanto, que Os Filhos de Húrin seja conduzido
por uma série de ironias dramáticas, e talvez por isso Appleyard pareça
basicamente gostar do livro, apesar do uso de "provincianas",
"pouco sólidas" e a menção de que Dungeons and Dragons "dominava
quartos fétidos de universitários" em 1974 (fale pelo seu próprio quarto,
meu chapa) –, tudo com a intenção de mostrar que Appleyard é realmente um dos
meninos legais, com um gosto discriminante.

Há também muita "profundidade" em Os Filhos de Húrin, mas a
profundidade, como Gergely Nagy mostrou no melhor artigo escrito sobre Tolkien
na década passada, está relacionada com o próprio conjunto de textos de
Tolkien. Ao contrário de outras fantasias imitativas, a obra de Tolkien produz
a "sensação" de se estar lendo um mito. Suas camadas de poemas,
histórias, anedotas, anais e rascunhos funcionam para produzir o tipo de
textualidade possuída, por outro lado, apenas por obras que foram tratadas por
muitos escritores e leitores no decorrer de muitos séculos. Nenhuma outra
pessoa conseguiu esse feito, antes ou desde então: não Joyce, Pound, Eliot,
Morrison, Rushdie ou mesmo Eco (Borges talvez chegue perto).

Ora, esse não é o único critério para a excelência estética, mas ao menos
possui a vantagem de ser explícito: O Senhor dos Anéis, e agora Os
Filhos de Húrin
, dispõe-se a algo que era impossível anteriormente:
escrever uma história nova que dê ao leitor a impressão de estar lendo uma
história muitíssimo antiga. Não tenho muito tempo para a discussão inacreditavelmente
tediosa "Tolkien criou uma nova mitologia?" (minha resposta: não no
início, mas talvez ela esteja se tornando uma), mas creio que está claro que
ele conseguiu fazer com que a sua obra parecesse ser mitológica em vez de
inventada. Esse efeito estético não fazia parte do projeto modernista (e é
possível que seja bem contrário a ele), mas ele, no entanto, é um efeito que
muitos leitores sentem intensamente. Um bom crítico deveria tentar explicar os
efeitos do livro sendo criticado.

Meus alunos se divertem com a metodologia crítico-literária (muito) antiquada
de comparar cada obra de literatura com Homero e Virgílio (60% tão bom quanto
Homero e 75% tão bom quanto Virgílio, simplificando). Mas a crítica
jornalística em voga parece estar fazendo exatamente isso, sem o benefício de
nomear os modelos ou de reconhecer a metodologia.

Porém, talvez pudéssemos resolver muitos problemas tornando oficial uma nova
máxima. Chame-a de lei de Dyson: É impossível que a boa literatura inclua um
Elfo.

Não acredito que tal regra tenha sido provada alguma vez, mas a impressão que
fica é a de que muitos críticos a aceitaram como absoluta. Eu adoraria ver as
linhas gerais do argumento.

— 

Michael D. C. Drout é Professor de Inglês na Wheaton
College, em Norton, Massachussets, E.U.A, onde leciona Inglês Antigo (Anglo-Saxão),
Inglês Médio, literatura medieval, fantasia, ficção científica e produção
textual. É autor de Beowulf
and the Critics
, J. R. R. Tolkien Encyclopedia e editor do jornal
literário Tolkien Studies.

(Fonte: Wormtalk and Slugspeak)

 

"Por que demoraram tanto?", uma resenha de Os Filhos de Húrin

Trinta anos depois de sua morte, Tolkien
produziu um novo romance – com uma pequena ajuda de seu filho. Poderia esse
grande mito levar os leitores de volta à Terra-média?
 

Esta
é, como colocou o neto de Tolkien, Adam, a "versão do diretor" de Os
Filhos de Húrin – embora eu não tenha certeza se o diretor em questão é o
pai ou o filho.

Porém,
o próprio fato de ser esse o modo pelo qual o livro surgiu aponta para uma das
mais reveladoras estranhezas da obra de Tolkien. Ele não era, primeiramente, um
romancista e, como sugeriu A. N. Wilson, não era realmente um escritor. A
tarefa a qual ele se propôs foi a de criar o mundo, a Terra-média, que veio
antes do nosso. Ele assim o fez através de mapas, etimologias, raças inventadas
– principalmente elfos e orcs – e vastas e indecifráveis genealogias complexas.
Os livros surgiram dessa montanha de invenções curiosas. Contudo, eles sempre
foram fragmentos do todo. Ao ler Tolkien, a pessoa fica constantemente ciente
da vasta história de fundo que provavelmente jamais completamente conhecida
pois, como um todo, ela encontrava-se apenas na cabeça de Tolkien. Os romances,
em outras palavras, foram produtos derivados de um projeto muito maior.

A
acusação de Wilson de que Tolkien não era realmente um romancista deixará
milhões horrorizados, mas ele tinha razão. O estilo de Tolkien – de fato, sua
abordagem inteira – era derivado de poemas narrativos ingleses tais como Beowulf
e Gawain e o Cavaleiro Verde, das sagas nórdicas e, especialmente no
caso deste último livro, de Wagner. Essas eram histórias de heroísmo e magia,
de valores absolutos, das últimas coisas. A abordagem óbvia para um autor
contemporâneo que queira recuperar tais formas é atualizar o estilo delas e,
talvez, colocá-las em um contexto contemporâneo. Isso enfaticamente não é o que
Tolkien se propôs a fazer. Ele queria recriar o mundo e os idiomas daquelas
histórias, ajustadas apenas marginalmente aos ouvidos modernos. Uma frase do
primeiro parágrafo de Os Filhos de Húrin confirma isso: "Sua filha
Gloredhel casou com Haldir, filho de Halmir, senhor dos homens de Brethil; e,
na mesma festividade, seu filho Galdor, o alto, desposou Hareth, a filha de
Halmir."

Essa
é uma escrita demasiadamente "retrô".

O
pensamento moderno está claramente sendo arrastado pelo pescoço para longe de
sua zona de conforto literário. O argumento de Wilson foi o de que, tendo feito
esse gesto, o interesse de Tolkien no estilo terminara. Ele o compara a Iris
Murdoch: "Na verdade, Murdoch e Tolkien tinham isso em comum, embora
dificilmente pudessem ser mais diferentes em outros aspectos: como Murdoch,
Tolkien não se preocupava com o 'estilo', simplesmente fazendo uso, onde O
Senhor dos Anéis estava em questão, de sua prosa sub-William Morris".

Isso
está exatamente correto. Anos atrás, desisti de O Senhor dos Anéis e O
Hobbit precisamente porque a prosa parecia ser completamente superficial,
sem nenhuma das tendências mais profundas que constituem uma boa ou excelente
obra. Minha fome infantil por fantasia foi saciada pela inteligência, elegância
e poder da série de romances de T. H. White O Único e Eterno Rei. Depois
disso, Tolkien pareceu raso e freqüentemente puritano, de uma maneira
provinciana e "dônica" [N.T.: "dônica" = relativa aos dons
de Oxford, como Tolkien]. Concordei inteiramente a afirmação de um certo Hugo
Dyson, ao ouvir Tolkien ler uma parte de O Senhor dos Anéis: "Não
outra mer** de elfo".

Dito
isso, Os Filhos de Húrin é um tipo diferente de maçada. Não desisti de
lê-lo, principalmente porque um estilo intenso e muito adulto o salva das
falhas de suas outras obras. A prosa ainda é mais gestos do que profundidade,
mas há um sentimento real de grande seriedade. Não é uma história para crianças
como O Hobbit e é muito mais sombrio do que O Senhor dos Anéis. É
Tolkien no modo wagneriano. De fato, pode ser possível dizer que é o echt
Tolkien [N.T.: echt = "genuíno", em alemão]. A popularidade de
suas outras obras pode bem tê-lo desviado da seriedade e intensidade da sua
visão da Terra-média. Ele era um católico devoto, e embora o cristianismo não
esteja explicitamente presente, há um desenrolar dramático de história e
salvação no decorrer da obra. Esse era um homem que realmente queria dizer
aquilo com o que dizia. Mas por quê? O que tudo isso queria dizer? A primeira e
mais óbvia afirmação a se fazer é sobre o contexto. A Terra-média nasceu nos
dias sombrios da primeira guerra mundial e O Senhor dos Anéis foi
escrito durante e logo após a segunda. Seria absurdo ver os senhores do mal
Morgoth e Sauron como o Kaiser e Hitler; Tolkien de fato sempre negou qualquer
intenção alegórica. Entretanto, seus sonhos de lutas antigas e épicas entre o
bem e o mal parecem um modo de dar sentido à matança sem sentido e globalizada
do século XX.


mais uma peculiaridade nisso. Tolkien é visto convencionalmente como uma figura
antimodernista. Ele tinha aversão à tecnologia, e sua busca pelo antigo parece
ecoar aquelas dos Pré-Rafaelitas e do fantasista gótico Augustus Pugin,
projetista do Palácio de Westminster.

Isso
pode ser visto como escapismo, uma rejeição do engajamento modernista com o
presente e o futuro, mas não tenho certeza se isso é realmente justo. Compare,
por exemplo, o projeto de Tolkien com duas das maiores obras da literatura
modernista. Ulisses de James Joyce conta a história da vida comum de um
dia de Dublin como uma recapitulação da lenda do herói errante grego. A
Terra Desolada de T. S. Eliot é um panorama mitológico, baseando-se nas
histórias do passado para lançar uma luz devastadora sobre a condição do
presente, a coisa toda assombrada pelo espectro do colapso mental.

Em
outras palavras, embora completamente diferentes (e artistas muito superiores),
esses escritores estavam fazendo algo similar a Tolkien: tentando lançar uma luz
sobre o presente ao adaptar as histórias e mitologias do passado. O projeto de
Tolkien, na verdade, era mais como simples escapismo – seu passado, afinal de
contas, era inteiramente invenção sua – mas isso não diminui a importância
desse projeto como um sintoma fundamental da condição moderna.

De
fato, em virtude das vendas e do impacto cultural global das histórias da
Terra-média de Tolkien, seria insano tentar diminuir a importância de seu
projeto. Esses livros claramente se fizeram sentir na atualidade. Há uma
demanda, não exatamente por fantasia – tanto Christopher e como Lee concordam
que não querem que Tolkien seja confinado confortavelmente ao gênero da
fantasia –, mas por histórias que pareçam melhores, mais grandiosas, maiores e
mais estranhas do que as narrativas monótonas do mero presente. Enquanto O
Senhor dos Anéis encontrava-se no meio de sua ascensão nas listas de livros
mais vendidos ao redor do mundo, o jogo de tabuleiro Dungeons & Dragons,
vendido pela primeira vez em 1974, dominava quartos fétidos de universitários.
Hoje, seriam jogos de computador igualmente fantásticos, como World of
Warcraft. A magia, em uma era de descrença, persiste em curiosos intervalos do
contemporâneo.

Além
disso, tanto os filmes de Star Wars como os livros de Harry Potter confirmam o
anseio contemporâneo pela narrativa grandiosa e mágica. Glaurung, o dragão,
parece-se muito com Jabba o Hutt, e a espada falante de Turin poderia pertencer
a Harry. Parece haver uma necessidade, em todas as culturas modernas, pela
história que transcenda tempo e espaço, que, ao escapar dos pormenores e
compromissos do presente, trate diretamente das questões fundamentais da vida.
Se o Tolkien provinciano eleva nossa vista acima do mundano com sua prosa
precipitada e gestual e suas mitologias extravagantes, então quem sou eu para
reclamar? De qualquer forma, como um livro, não apenas como um fragmento de um
projeto, Os Filhos de Húrin, de seu próprio modo pouco sólido, porém
também digno de admiração, funciona.

Seis
mil anos antes de Bilbo Bolseiro encontrar o anel de Sauron, nasceram Turin e
Nienor, filhos de Hurin, chamado de O Inabalável, senhor de Dor-lomin, esposo
de Morwen. Turin guerreou com Morgoth e matou Glaurung, o primeiro dos dragões
de Morgoth. Mas…

Não,
é melhor eu não continuar. O enredo de Os Filhos de Húrin de J. R. R.
Tolkien está prestes a emocionar e intrigar milhões. O livro possui uma tiragem
inicial de 500.000 exemplares ao redor do mundo, mas isso será apenas o começo.
O Senhor dos Anéis de Tolkien vendeu 150 milhões de exemplares –  50 milhões desses desde que os filmes de
Peter Jackson foram lançados. Outros 50 milhões de exemplares de outros
Tolkiens, principalmente O Hobbit, também foram vendidos. É seguro dizer
que o "grande conto" de Turin está prestes a se tornar um mito
global.

O
livro foi restaurado pelo filho de Tolkien, Christopher, a partir dos escritos
reunidos de seu pai. A história foi iniciada em 1918, mas nunca foi formalmente
organizada em um romance. Christopher agora realizou isso, usando, diz-se,
apenas as palavras de seu pai, com poucas mudanças gramaticais. Em teoria, isso
levanta possibilidade de restauração de outros grandes contos deste período – A
Queda de Gondolin, Beren e Luthien foram sugeridos, e A Balada de Leithian – mas,
na prática, nenhum desses parece estar no estado completo, porém disperso, de Os
Filhos de Húrin. Esse provavelmente será o último conto completo de
Tolkien.

O
momento é significativo. Os filmes mudaram fundamentalmente o status dos
livros. Como me conta Alan Lee, o ilustrador de Os Filhos de Húrin e
vencedor do Oscar pela direção de arte dos três filmes, há algo literal sobre o
filme. Ao desenhar para Jackson, ele se viu tendo que detalhar cada nuance.
Enquanto Tolkien podia rabiscar em uma página de prosa, a audiência do cinema
moderno quer a coisa toda na tela. Além do mais, foi criada uma geração de fãs
de o Senhor dos Anéis – mas não necessariamente de leitores de Tolkien. A
ênfase deixou de estar nos livros.

Isso
parece explicar, pelo menos em parte, pontualidade de Os Filhos de Húrin.
Christopher falou pela primeira vez com David Brawn, diretor de publicações da
HarperCollins, sobre o livro há dois anos, quando o rebuliço dos filmes estava
pronto para diminuir. Brawn acredita que foi uma clara tentativa de trazer a
obra de seu pai de volta às páginas impressas. E de fato, para Lee, foi uma oportunidade de escapar do
literalismo dos filmes e voltar para o seu estilo assombroso, sugestivo e muito
inglês de contos de fadas.

Contudo,
um novo Tolkien póstumo é um risco. Em 1977, a publicação de O Silmarillion
foi criticada porque o livro incluía interpolações de Christopher. A acusação
era de que o espólio estava explorando o legado. O livro foi chamado em
zombaria de "The Sell-a-Million" [N.T.: trocadilho com o nome
"Silmarillion"; literalmente "O Vende-um-Milhão"]. A
implicação era a de que Tolkien estava se tornando uma marca em vez de um
autor, um processo certamente acelerado pelos filmes. Por outro lado, é
trabalho dos executores literários encontrar bons materiais não-publicados. Se
Christopher não fez mais do que amarrar uma história coerente a partir da prosa
de seu pai, não vejo muito problema. Ele apenas fez o que seu pai pretendia.

(Fonte: Times
Online
)