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The Complete Guide to Middle-earth, de Robert Foster

Pra começar o primeiro parágrafo já chutando o pau da barraca, estourando a boca do balão e utilizando quais expressões de certa forma antiquadas, se fosse para ter apenas um livro de apoio à obra de Tolkien, eu teria seríssimos problemas em optar entre o "Letters by J.R.R. Tolkien" e o "The Complete Guide to Middle-earth" com a Biografia de Tolkien feita pelo Carpenter correndo logo atrás, em um honroso terceiro lugar. Mas eu acho que acabaria escolhendo o "Complete Guide", mesmo com sua capa "triste" de doer .
 
 
O "The Complete Guide to Middle-earth" (de agora em diante apenas Complete Guide, neste texto) de Robert Foster é uma daquelas preciosidades feitas com amor. Ele é uma pequena enciclopédia sobre O Hobbit, O Senhor dos Anéis e O Silmarillion, na forma de dicionário de verbetes. As entradas são claras e informativas (mesmo!) e não umas meras duas ou três linhas que estão ali apenas por estar. Peguemos um verbete aleatório aqui, deixe-me ver… "Hithlum" ele descreve não apenas o que é esse treco aí mas qual o significado da palavras (se ela se encontra em alguma língua élfica), onde ficava, qual a história do mesmo e ainda dá variantes do nome em algumas outras línguas (se disponível) como o Quenya e Sindarin e, como se não bastasse, referências de onde tal palavra aparece nos livros[1].

Robert Foster conseguiu fazer um livro absurdamente informativo e completo, um alívio para aqueles fãs que não conseguem memorizar direito nem o sobrenome do Frodo, como eu. O livrinho é conhecido por sua capa bastante tosca , apesar de ser uma ilustração dos Irmãos Hildebrandt, possivelmente é uma das piores representações da Comitiva do Anel, com suas roupas "fashion", um Gimli que parece um alemão ruivo e um Aragorn com cara de mosqueteiro francês a ainda por cima com a mão na cintura. Mas esqueça a capa, que o conteúdo vale por si.

Grandes chatos como o Michael Martinez, que apesar de tudo conhece muito, mas muito mesmo a obra de Tolkien, e o Maior Chato de Todos, Christopher Tolkien se renderam a esta pequena preciosidade. Chega a ser surreal ver Martinez, conhecido por ser um crítico costumaz e muito ácido, além de ser um dos maiores puristas que eu já li, elogiando o livro como o melhor acompanhante para as obras. Nem falo nada de Christopher Tolkien, afinal, ele ter dado uma opinião positiva sobre qualquer coisa que não foi o pai dele quem escreveu é muito estranho[2].

O livro contempla praticamente de tudo, desde letras do alfabeto tengwar a hobbits tão obscuros que você acha que ele os inventou, passando por pessoas, locais e coisas. Nada escapou. Nada dos três livros, é claro e por isso que ele tem um valor limitado para o estudioso da obra de Tolkien (vá lá, se é que existe – e se existe, deveria existir? – tal coisa ), pois se quiser encontrar rapidamente uma referência a algo do Contos Inacabados ou da série HoME, não vai estar ali. Mas também tenho sérias dúvidas se o material do Contos e dos HoME poderiam ser postos na forma de um dicionário de maneira proveitosa, sem perder conexão com as diversas inconsistências dos mesmos.

O "Complete Guide" ainda termina com uma pequena série de Apêndices tão ou mais úteis que os verbetes. No primeiro deles temos uma cronologia da Primeira Era, no segundo (e melhor!) temos árvores genealógicas das Três Casas dos Edain, dos Reis de Númenor desde Elros, de TODOS os Reis de Arnor, Arthedain e Gondor desde Elendil até Aragorn (!!!), dos Meio-Elfos, da Casa de Húrin e por último dos Rohirrim, de Frumgar a Elfwine. Impressionante! O terceiro e menos útil (para nós, brasileiros) trata da conversão de páginas entre edições da obra de Tolkien das editoras Ballantine e Houghton Mifflin.

Esta é uma daquelas preciosidades que nos fazem pensar que a linha de tradução do material tolkieniano no Brasil é meio estranha, deslocada. A biografia feita por Humphrey Carpenter foi traduzida, mas está esgotada e sem planos de reedição (um absurdo!) enquanto que livros como Roverandom (já lançado) e Farmer Giles of Ham (um dos próximos lançamentos) foram/estão sendo traduzidos. Claro, todas as obras são importantes e válidas e devemos levantar as mãos ao céu por algumas terem sido traduzidas para o português, mas traduzir Roverandom, um livro divertido mas menor, e não ter uma reedição da biografia é algo lamentável. Uma grata excessão é o Atlas (vide a Análise anterior).

Para aqueles que não têm problemas com o inglês e com nomes dos personagens em inglês, o que é o pior complicômetro para nós brasileiros – alguém saberia dizer sem pensar quem é Butterbur[3] – o livro é essencial e uma compra muito satisfatória. A minha edição é uma em papel jornal, de bolso, muito prática e fácil de carregar e manusear.

O livrinho pode ser encontrado na Livraria Cultura (oras, oras, pelo visto minha edição está esgotada e tem uma nova, não pocket, com uma capa mais decente! :) ), na FNAC (embora certamente o preço de R$ 9,20 não possa estar correto). No Submarino ele consta como "Não Disponível".

[1] Hithlum é uma região de Beleriand, onde Fingolfin se fixou durante o Exílio, e também a Casa de Hador. Após a Nirnaeth Arnoediad ela foi devastada e completamente dominada por Morgoth.

[2] sinto-me a forçado a colocar esta notinha de rodapé para avisar que sou um enorme fã de ambos, Martinez e C. Tolkien, com profunda sinceridade. Mas eles de fato são conhecidos por serem pessoas bastante duras com relação às obras de Tolkien, ou melhor, às obras sobre as obras de Tolkien, por isso a forte dose de ironia no parágrafo. Que Ilúvatar os tenha em bom lugar!

[3] O Conselho Branco tem (ou tinha) um projeto muito legal que era uma tabela comparativa de nomes de personagens, locais e coisas em diversas línguas, como inglês, espanhol e português. Vale a pena entrar em contato com o pessoal e perguntar como anda o projeto.