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A Aquisição das Virtudes Pela Luta Interior

I) NÃO CONFORMISMO

No inverno de 2010, ouvi pela primeira vez, numa animada tertúlia em São Paulo, cantada a plenos pulmões por um grupo de rapazes, com violões e flauta transversal, fazendo contra-ponto 2 a 2, a música “Bola de Meia, Bola de Gude”, de Milton Nascimento e Fernando Brant. Copio a letra, se acaso alguém não a conhece, pois servirá de pauta para a reflexão que gostaria de fazer sobre não conformismo e melhora:

“Há um menino, há um moleque

morando sempre no meu coração.

Toda vez que o adulto balança

Ele vem pra me dar a mão.

Há um passado no meu presente

um sol bem quente lá no meu quintal.

Toda vez que a bruxa me assombra

o menino me dá a mão.

E me fala de coisas bonitas que eu

acredito que não deixarão de existir.

Amizade, palavra, respeito, caráter,

bondade, alegria e amor.

Pois não posso, não devo, não quero

Viver como toda essa gente insiste em viver.

Não posso aceitar sossegado qualquer

sacanagem ser coisa normal.

Bola de meia, bola de gude, o

solidário não quer solidão.

Toda vez que a tristeza me alcança

o menino me dá a mão”.

A  música fala de valores recebidos na infância e prezados na juventude, que podem ser atropelados na maturidade, quando se ingressa na vida profissional, pela disputa, deslealdade, preconceito, sedução, inveja, bajulação e assédio, circunstâncias que caracterizam um ambiente adverso aos valores morais decantados por Milton Nascimento, que são a amizade, palavra, respeito, caráter, bondade, alegria e amor.

Diante do dilema entre aquilo que podem nos dizerDeixe de ser idealista! Caia na real! Mas em que mundo você vive? – e o que a consciência nos aponta como “la cosa justa da fare” (estrofe de música da Laura Pausini), a pressão social pode fazer com que se abdiquem dos ideais e valores que nos formaram, se esses valores não estavam arraigados e não estão sendo constantemente vivenciados.

Milton Nascimento nos fala de não conformismo, de “não aceitar sossegado que qualquer sacanagem seja coisa normal”, que um mundo de violência, exploração, rasteiras, corrupção, pornografia e mentiras seja o habitat natural do ser humano, com o qual ele deva se adaptar e amoldar.

Mas que se pode fazer, se a correnteza é forte e nos leva de roldão? O conhecido ditado – uma andorinha não faz verão – é sempre lembrado nessas horas para justificar a rendição pessoal diante de situações em que viver os valores morais supõe heroísmo e fortaleza. O “politicamente correto” passa a ser a cartilha seguida por quem deseja subir a qualquer preço, triunfar e ter sucesso na vida, satisfazer todas as suas ambições de prazer e de poder, ou simplesmente não ter dores de cabeça… A desculpa para negócios menos honestos ou compromissos escusos é sempre: Afinal, todo mundo age assim? Certo ou errada, a prática está generalizada…

Encantei-me com o comentário que um ex-colega de Tribunal, o Min. José Luciano de Castilho Pereira, conhecido pela sua retidão moral e competência profissional, fez, quando falávamos de alguns casos tristes que tivemos de julgar no Conselho Nacional de Justiça, envolvendo a conduta imoral de magistrados (felizmente poucos): Aquilo que não puder contar para Angela, não posso fazer! (Angela é sua mulher).

Pensando em seu comentário, podemos vislumbrar os três caminhos que se abrem diante de um ambiente adverso:

a) Depor as armas e conformar-se ao ambiente (caminho fácil);

b) Tornar-se amargo, reclamão e vingativo, partindo para uma luta contra as estruturas sociais, o que não deixa de ser um modo de agir “com as armas dos inimigo” (caminho acre);

c) Resistir de forma otimista, pela aquisição e exercício das virtudes em qualquer condição de temperatura e pressão, mudando paulatinamente o ambiente ao nosso redor (caminho eficaz);

Trataremos aqui apenas dos dois últimos caminhos, pois estas linhas se escrevem para não conformistas.

II) O CAMINHO ACRE: O ÓDIO E A VINGANÇA

Quando sofremos uma derrota em que a sensação de injustiça é grande, porque os meios usados pelo adversário não foram honestos, pode bater a tentação de pagar na mesma moeda, concluindo que, se todo mundo joga sujo, quem não adotar as mesmas armas estará naturalmente fadado ao fracasso. Agir assim é deixar-se arrastar pelos instintos e pelos sentimentos baixos de vingança ou de justiça vetero-testamentária do olho por olho e dente por dente. Reagir ao ambiente pela via da luta exterior não parece ser o melhor caminho a seguir.

No livro “Star Trek e a Filosofia” organizado por Jason Eberl e Kevin Decker (Madras – 2010 – São Paulo), em que os autores aproveitam os episódios da famosa série de TV do gênero ficção científica para trazer à prática grandes questões filosóficas, o tema da vingança é bem desenvolvido no capítulo “A Ira de Nietzsche”, no qual o pano de fundo e o filme “Jornada nas Estrelas II: A Ira de Khan”, onde o personagem principal é representado pelo renomado ator Ricardo Montalbán.

A descrição e a motivação que os autores do artigo (Shai Biderman e William Devlin) apresentam dos dois personagens principais, que se enfrentam no filme é muito sugestiva:

James Tiberius Kirk – É um “peixe fora d’água, pois sua missão de cinco anos havia acabado e a vida dele havia se tornado menos significativa, apesar de suas realizações e de suas honras. Uma vez tendo sido o mais jovem capitão na história da Frota Estelar, Kirk agora reflete sobre o significado e sobre o propósito de sua própria vida a partir da perspectiva da meia-idade. Ele foi promovido a almirante, mas sua promoção não o faz se sentir mais realizado”. Está desmotivado (pg. 68).

Khan Noonien Singh – É “um produto da engenharia genética do final do século XX…Depois de sua tentativa de assassinar Kirk e comandar a Enterprise, Khan e seus seguidores são sentenciados a uma vida inteira de exílio em Ceti Alfa V. Tendo sido uma vez um ambiente habitável, o planeta torna-se um punhado de terra improdutiva depois que o planeta irmão explode, e Khan perde muitos de seu povo nos anos que se seguem, incluindo sua amada esposa, a ex-tripulante da Enterprise, Maria McGivers”. As duas metas de sua vida, quando consegue escapar do cativeiro, são: roubar o projeto Genesis, “experimento científico que cria vida da ausência de vida”, e, mais importante subjetivamente, vingar-se do almirante Kirk (pg. 70).

Perguntam-se os filósofos autores do artigo, refletindo sobre a motivação existencial do Khan: “A vingança ajuda a criar uma vida significativa, que valha a pena ser vivida, ou a vingança obstrui a busca de um indivíduo por uma vida significativa, uma obstrução que pode até mesmo, por fim, levar à destruição da vida em si?” (pg. 68). E, afinal, pensando no Almirante Kirk, o que tornaria uma vida significativa?

Diferenciam os autores a santa ira, desejo reto de restabelecimento da justiça, da vingança selvagem, que visa ao sofrimento de outrem. A primeira é fruto da caridade que se entristece com a falta alheia e deseja a correção do infrator, porque o estima. A segunda é fruto do ressentimento e torna a pessoa que se deixa dominar por ela escrava do sentimento de vingança.

Khan é, mais uma vez, vencido por Kirk, e morre externando todo o seu ódio: “Do coração do inferno, eu o apunhalo. Pelo meu ódio, cuspo em você em meu último suspiro!” (pg. 76).

Um vida centrada em si mesmo e depois focada na vingança, frustra, mesmo se a vingança for bem sucedida, como é o caso do “Conde de Monte Cristo” (1844) de Alexandre Dumas (1802-1870). Edmond Dantés ao conseguir arruinar principalmente Fernand Mondego, que o havia denunciado falsamente para casar-se com sua noiva Mercedes e fora causa de seus muitos anos na prisão, sente um gosto amargo de vida desperdiçada em ódio, quando sabe do suicídio de Fernand.

O caminho da justiça vindicativa não tem se mostrado eficaz na transformação para melhor da sociedade. Punir por punir, num regime de medo da pena, não atinge o âmago do problema, que é a formação da pessoa nos valores morais mais elevados, os quais, uma vez assumidos como próprios, passam a ser efetivamente vivenciados, como se procura fazer na justiça restaurativa.

III) A LUTA EXTERIOR: MUDAR POR FORA

Já o caminho da luta exterior para a transformação das estruturas sociais segue o mesmo destino acre e pouco eficaz e duradouro do amargor individual diante das injustiças sociais que se vem. Exemplo paradigmático é o das revoluções socializantes.

É interessante notar que toda a ideologia marxista, que alimenta essas revoluções, é genuinamente não conformista. É célebre o grito de Karl Marx: “Até hoje os filósofos limitaram-se a interpretar o mundo; trata-se agora de transformá-lo”. É também célebre a expressão jocosa – e também conformista – que se utiliza para debochar dos que acreditam nessa ideologia: Quem nunca foi marxista até os 40 anos é que não tem coração; quem continua a sê-lo depois dos 40 é que não tem cabeça.

Com efeito, o marxismo não é conformista. Deseja transformar o mundo, vendo a exploração de uns homens por outros. No entanto, escolheu o caminho equivocado, da luta exterior, da práxis revolucionária, uma vez que concebe a luta de classes como o motor da História. Daí que acredite que mudando as estruturas sociais mudará o mundo.

É admirável a figura de Antonio Gramsci (1891-1937), fundador do Partido Comunista Italiano, pelo seu genuíno, despojado e autêntico idealismo, muito diferente daqueles que abraçam ideologias socializantes e vivem como bons burgueses. Preso e condenado pelos fascistas italianos em 1926, ficou até quase a morte na prisão, onde escreveu seus “Cadernos do Cárcere”, nos quais traça perfeitamente a estratégia da “Esquerda” de conquista do poder:

a) na luta de classes, a classe proletária que busca a hegemonia na sociedade deve difundir, através de intelectuais engajados, sua cultura própria na sociedade civil (sindicatos, universidades, igrejas, imprensa, etc), até alcançar um consenso que lhe permita conquistar o poder político (Estado);

b) essa classe deve se organizar-se em partido, que seja o depositário da doutrina, ao qual todos se subordinem;

c) a revolução não se fará mais pelas armas ou pelo confronto direto, mas pela guerra de posições a serem gradualmente conquistadas: revolução no âmbito da cultura, exercendo verdadeiro patrulhamento ideológico em relação ao que não esteja de acordo com a ideologia socialista.

Não fora o desrespeito à liberdade – valor fundamental em qualquer Estado genuinamente democrático –, a difusão de idéias e valores pelos mais diversos ambientes sociais que propõe é salutar. O que falta é saber conviver com o pluralismo. Para isso é necessária uma mudança de mentalidade: a solidariedade é um valor que não se impõe; deve vir de dentro, de uma pessoa que, prezando e vivendo os valores morais, preocupa-se sinceramente com os outros e tem por ideal servir e não servir-se dos demais.

70 anos de marxismo no que então se denominava 2º Mundo (União Soviética e seus satélites) foram mais do que suficientes para demonstrar – naturalmente para quem quiser ver, pensando em que “o pior cego é aquele que não quer ver” – que a mudança das estruturas sociais não faz o paraíso na terra, porque o homem continua o mesmo. Deve-se trabalhar mais profundamente, transformando o próprio homem por dentro.

IV) LUTA INTERIOR: RACIONALIDADE VERUS SENTIMENTALISMO

Se o melhor caminho para afrontar um ambiente hostil aos valores morais não é o da luta exterior para transformar a sociedade – uma espécie de guerra inicial imoral, para depois voltar à moral (os fins justificam os meios, diria Maquiavel), como empreender o caminho da luta interior contra si mesmo, contra esses dragões interiores (lembrando o filme de Joffé “There Be Dragoons”), que estão soltos e, começando por fazer mal a nós mesmos, espalham seu fogo abrasador e destrutivo por toda a sociedade?

Lembrando o comentário evangélico, quantos não repetem, depois de suas quedas e negociatas, procurando justificá-las: A carne é fraca…

Afinal, como conter as paixões e os sentimentos? No fundo, a corrupção exterior é fruto do domínio das paixões sobre a razão. Haverá um modo da cabeça prevalecer sobre o coração? A razão sobre o instinto?

Aristóteles elencava as paixões em duplas, procurando mostrar que, consideradas em si mesmas, não seriam nem boas nem más: amor e ódio, alegria e tristeza, medo e audácia, esperança e desespero, desejo e ira.

No artigo “Humanos sorriem com tão pouca provocação”, da já mencionada coletânea sobre “Star Trek e a Filosofia”, seu autor, Harald Thorsrud, explora o tema do conflito interior entre racionalidade e sentimentalismo, utilizando-se de dois personagens da referida série televisiva: O Sr. Spock (Série Original) e o humanóide Data (Nova Geração). O primeiro, filho de mãe humana e pai vulcano, luta interiormente por controlar suas emoções, privilegiando a pura lógica vulcana no agir. O outro, verdadeiro robô programado logicamente, tem “inveja” dos humanos, ao perceber que o sentimento desempenha um papel importante na vida, algo que lhe falta.

Com efeito, controlar os sentimentos é uma tarefa desafiadora: Como raciocinar quando se está tremendamente apaixonado por alguém? Como perdoar do fundo do coração quando assoma uma ira raiando o ódio por alguém que nos atraiçoou ou nos passou uma rasteira profissional? Como controlar o medo diante de situações apavorantes pelo desconhecido ou por superar as nossas forças? Como não se deixar abater pelo desespero ao constatar diuturnamente nossas fraquezas?

Numa visão antropológica aristotélica, a alma humana é composta de inteligência, vontade e sentimentos. Cabe à inteligência, vendo racionalmente a realidade, mostrar à vontade os objetos adequados à pessoa, de modo a que impere sobre os sentimentos, aproveitando-os como força propulsora e não pedra de tropeço.

No entanto, essa equação não é fácil de fechar. Sem o exercício da vontade na prática das virtudes (vistas como boas pela inteligência), quem acaba mandando no homem são os sentimentos. Há, portanto, uma natureza ideal do homem, pautada pela razão, e uma natureza corrompida pela desordem das paixões. Cabe à vontade canalizar para o bem todos os sentimentos (inclusive os aparentemente maus, como o ódio ou a ira), gerando no homem uma segunda natureza, aquela construída sobre as virtudes.

V) A AQUISIÇÃO DAS VIRTUDES

E como se adquirem as virtudes? Mais do que isso: o que são, afinal essas virtudes?

Aristóteles definia as virtudes como hábitos bons que adquirimos através da repetição de atos bons. A coragem se adquire vencendo uma vez e outra o medo diante das dificuldades, até ser natural enfrentarmos qualquer adversidade, sem ficarmos paralisados diante dos obstáculos. O mesmo acontece com a paciência, que faz não reclamar diante das chatices do próximo ou das situações incômodas que se prolongam no tempo, uma vez que se acostumou o espírito com esse tipo de perspectiva.

A luta pelas virtudes não é um combate estóico, de alguém que consegue dominar-se à base de se desumanizar. Mais uma vez o exemplo do “Star Trek”, comparando o humano e o vulcano. Numa situação de extremo perigo, o Sr. Spock é o único que consegue controlar-se e se lançar imediatamente, arriscando a própria vida, para salvar a frota estelar de uma catástrofe. No entanto, sua frieza e destemor são contestados pelo Dr. McCoy:

“Você sabe por que não tem medo de morrer, Spock? Você tem mais medo de viver. A cada dia que você fica vivo, poderia escorregar e permitir que sua metade humana viesse à tona furtivamente. É isso, não é? Insegurança. Por quê? Você não saberia o que fazer com um sentimento caloroso, genuíno, decente” (“Star Trek e a Filosofia”, op. cit., pg. 58).

A análise da “coragem” de Spock feita por McCoy é de um realismo e profundidade impressionantes: retrata uma das posturas extremas do relacionamento do homem com o mundo. Com efeito, duas correntes filosóficas gregas apontaram para dois caminhos distintos para o comportamento do homem em relação aos bens e às pessoas: o estoicismo (Zenão, 333-262 a.C.) e o epicurismo (Epicuro, 341-270 a.C.).

O ponto nodal da discórdia entre as duas Escolas Gregas Clássicas – a Kepos (“Jardim”) e a Stoa (“Pórtico”) – é o papel que o prazer e as paixões desempenham na vida humana. Enquanto os epicuristas exaltam a busca do prazer como a razão de viver, já os estóicos sustentam que a felicidade se obteria com a impassibilidade: não sofrer com as dores, nem buscar os prazeres. Modernamente, essas Escolas Gregas encontraram eco em duas correntes filosóficas: o utilitarismo de Jeremy Bentham (1748-1832), voltado “ao máximo prazer do maior número” e o idealismo de Emanuel Kant (1724-1804), focado no “cumprimento do dever pelo dever”.

O epicurismo utilitarista rebaixa o homem a uma condição animalesca, de busca desenfreada do prazer a todo custo, com avidez que embrutece o homem. Já o estoicismo idealista desumaniza e distorce o próprio ideal de aperfeiçoamento virtuoso, colocando-o acima e fora da condição humana.

Nesse, como em outros pontos, a postura aristotélica centrada no equilíbrio do “in medio virtus” aponta para a correta visão do papel que o prazer deve desempenhar em nossa vida e do que significa adquirir, viver e praticar as virtudes.

O prazer é o meio natural que estimula o cumprimento dos instintos vitais no animal e no homem. O prazer do comer e do beber garante a auto-conservação; o prazer sexual garante a conservação da espécie. O problema está na inversão de valores e funções: busca-se o prazer e se evitam os fins, até que estes aparecem como absolutamente secundários e a avidez do prazer leva ao sacrifício de pessoas e valores para a satisfação própria contínua e em doses cada vez maiores.

Encontrar o ponto de equilíbrio na busca do prazer é um dos segredos da felicidade humana: perceber a relação entre fins e meios, prazeres e seus instintos existenciais, moderação e verdadeira satisfação.

Daí a necessidade da luta interior, do império da razão sobre os instintos, com o uso da inteligência e da vontade para manter os sentimentos em seu devido lugar, como motor e não como entrave ao aperfeiçoamento pessoal.

VI) A LUTA INTERIOR CONTRA OS DEFEITOS

Lembrando a mitologia grega, especificamente a estória do semi-deus Aquiles, cujo único ponto vulnerável era seu calcanhar, pelo qual será ferido e encontrará a morte no final da Guerra de Tróia, podemos dizer que cada um de nós tem o seu “Calcanhar de Aquiles”, o seu defeito dominante, que se destaca sobre os demais, por ser a nossa principal fonte de quedas e dificuldades na vida.

Através da observação sobre si mesmo e sobre os demais, não é difícil se chegar a resumir em 3 grandes defeitos a variada gama de misérias humanas: o orgulho (aqui abrangendo a auto-suficiência e a vaidade), a sensualidade (incluindo a busca desenfreada do prazer em todas as suas modalidades) e a preguiça (ligada ao comodismo paralisante da realização de qualquer projeto maior na vida).

A vaidade e o orgulho são a principal fonte de desentendimento entre os homens, uma vez que faz desprezar as realizações alheias e querer sempre fazer prevalecer a própria opinião e aparecer a própria imagem. A sensualidade, no campo do sexo, tem como frutos amargos a vulgarização da mulher, a animalização do homem e a supressão da vida nascente, e, no campo gastronômico, todas as doenças decorrentes da obesidade, sempre por destempero na busca do prazer sensível. E o comodismo é a chave para fazer da vida uma “paixão inútil”, na expressão antológica do existencialista francês.

Como derrotar esses inimigos da autêntica auto-realização?

Em primeiro lugar, como em qualquer tática militar, detectando a presença do inimigo. O fator surpresa e a camuflagem que escondem a presença do inimigo são seus principais trunfos. Os nossos são a sinceridade conosco mesmo para reconhecer que somos vaidosos, sensuais e preguiçosos, numa medida ou noutra. Basta nos fazermos as seguintes perguntas e as respondermos com sinceridade para detectarmos as raízes do mal e sua virulência em nossa vida:

a) Falamos muito de nós mesmos e temos dificuldade de nos interessarmos pelas coisas dos outros?

b) Estamos tão preocupados com a imagem que os outros tem de nós, com o medo de errar, que ficamos paralisados no agir e no falar, especialmente em público?

c) Mesmo sabendo que vamos engordar ou que a gastrite vai piorar, atacamos com avidez aqueles pratos ou bebidas de que mais gostamos, sem pensar nas conseqüências (que acabam vindo “on line”)?

d) Deixamos passar o tempo na frente da TV, sem conseguir tomar a decisão de ir estudar ou concluir a tarefa que está gritando pelo nosso trabalho?

e) Não conseguimos nos controlar quando ficamos a sós no namoro, sem pensar nas conseqüências psicológicas e materiais de nossas ações?

Em segundo lugar, estar decididos a mudar. Temos medo de mudar?

Quando era pequeno e comecei a andar a cavalo, na Fazenda de meus pais em Avaré, ao mudar do passo ao trote, o incômodo do balanço era tão grande que tive medo do galope, pensando que daí nem conseguiria ficar no cavalo. Só depois da primeira galopada é que percebi que o chacoalhar contínuo na sela diminuía com a natural cadência espaçada do galope.

Ora, há pessoas que ficam, na vida, num eterno trote, imaginando dificuldades tremendas se forem mais ousadas ou generosas no campo das virtudes, achando que não conseguirão viver habitualmente a coragem nas dificuldades, a honestidade nos negócios, a fidelidade matrimonial ou a paciência e o perdão nas relações profissionais ou familiares.

Outros, há, que tem vergonha de mudar, como se sua personalidade estivesse definida desde a mais tenra idade e fosse um demérito reconhecer um defeito e passar a agir de forma diversa. Na verdade, deveríamos receber como um elogio o comentário de algum familiar, colega ou amigo que nos encontrasse depois de muitos anos sem nos ver, dizendo: Como você mudou? (obviamente, se foi para melhor…).

Mais perigoso é o medo de mudar por receio de ficar mal diante do ambiente. Esse é o conformista de que falávamos no começo. Se é isso o que nos impede de mudar, é preciso atacar mais fundo o inimigo, que é o mundanismo, sabendo dar “os nomes aos bois” a não inventar nomes ao que não tem. Em vez do “assumir as próprias fraquezas” como algo natural e invencível, aceitá-las como ponto de partida do esforço de mudança e melhora.

Finalmente, reconhecidos os defeitos, detectados os principais e perdido o medo de mudar, vem aí a luta por mudar, vencendo os defeitos pela aquisição das virtudes opostas:

a) Orgulho e vaidade – humildade;

b) Avareza – generosidade e desprendimento;

c) Luxúria – castidade;

d) Gula – temperança e sobriedade;

e) Preguiça – laboriosidade;

f) Ira – mansidão;

g) Inveja – magnanimidade.

Podemos dizer que o paradigma da luta interior está na luta por viver as virtudes da fortaleza e da temperança: saber enfrentar os sacrifícios necessários e fugir dos prazeres desordenados.

Como se vence a gula? Dizendo não ao que ultrapassa a necessidade no comer. Uma vez e outra, sabendo parar um pouco antes de estarmos plenamente satisfeitos, pois, organicamente, o sinal de satisfação chega ao cérebro um pouco depois da ingestão suficiente de alimentos.

O problema é que queremos permanecer esbeltos sem controlar o garfo! Muitos sonham com o dia em que, através de experimentos genéticos, poder-se-á chegar ao controle de todas as características físicas da pessoa, de tal modo que se chegará ao homem e mulher perfeitos. Mas do que adianta uma aparência simpaticíssima e um temperamento insuportável? A virtude vem de dentro, não de fora. Vem da alma, não do corpo.

Na Copa do Mundo de Futebol de 2010, realizada na África do Sul, ficou conhecida uma nova bola, com características de maior dificuldade de controle: a jabulani, fabricada especialmente pela Adidas. Num paralelismo muito apropriado, houve quem comparasse a barriga do obeso a uma jabulani, alertando a magros e menos magros: Cuidado com a jabulânia! Ou seja, sem luta diária pelo controle do garfo em cada refeição, não há como controlar o crescimento da jabulânia… (nome bem sonoro para a curvatura mais ou menos acentuada da barriga).

Mas se a analogia é esportiva, também leva em conta que não se mantém a forma esbelta sem exercícios físicos. A palavra grega askesis (ascética) significa esforço e exercício, aplicando-se tanto ao corpo quanto à alma, no ideal greco-romano da “mens sana in corpore sano”.

Nesse sentido, o princípio do esforço físico para manter a forma, com sacrifícios e lutas para superar obstáculos e tentações, é o mesmo que se aplica para a aquisição das virtudes morais. Sem esforço não há virtude: para chegar a ser natural o agir moral, tornando-se hábito adquirido, deve haver um inicial esforço para a aquisição dessa boa disposição.

Portanto, em relação à temperança, a receita é a mesma da forma física: constância no controle do garfo e perseverança nas atividades físicas, que combatem o sedentarismo e o comodismo, através de caminhadas, prática de esportes ou academia.

E como se vence a ira? Mordendo a língua e contando até 10 antes de responder, esperando que a racionalidade se imponha antes de falar, pois as feridas abertas por uma palavra ferina demoram a cicatrizar – quando cicatrizam. É preferível falar só quando se deixou esfriar a cabeça, para se dizer apenas o que seja necessário para restabelecer a justiça e esclarecer os fatos.

E a preguiça? Como se combate? Começando habitualmente, um dia e outro, a trabalhar nas tarefas que menos gostamos; permanecendo na mesma tarefa até concluí-la (ou a parte que havíamos fixado para esse dia); levantando-nos imediatamente da cama quando toca o despertador, sem ficar num diálogo interminável com o travesseiro; deixando de navegar a esmo na internet, vendo – sem perceber – as horas passar.

E a luxúria? Bem, podemos lembrar (e “escarmentar em cabeça alheia”) o caso do adultério do Rei Davi, narrado no capítulo 11 do II Livro de Samuel: contemplando Betsabá se banhando no rio, permaneceu em sua “morosa delectatio”, até que o desejo de tê-la para si levou-o a mandar chamá-la ao palácio, dormir com ela e ordenar a morte do marido, colocando-o na frente mais dura de combate. Ao adultério somou um homicídio. Tudo começou com o olhar solto, contemplando o que não lhe convinha. Daí o conselho: Os olhos! Por eles entram na alma muitas iniquidades. – Quantas experiências como a de Davi!… – Se guardardes a vista, tereis assegurado a guarda do vosso coração” (S. Josemaria Escrivá, “Caminho” – 1999 – São Paulo, 9ª edição, ponto 183).

E a vaidade? Em primeiro lugar, reconhecendo que somos mesmo vaidosos e orgulhosos. Uma boa pauta para percepção do defeito em nós é a que S. Josemaria Escrivá nos apresenta no ponto 263 de “Sulco” (Quadrante – 2005 – São Paulo), com muito realismo:

“Deixa-me que te recorde, entre os outros, alguns sinais evidentes de falta de humildade:

- pensar que o que fazes ou dizes está mais bem feito ou dito do que aquilo que os outros fazem ou dizem;

- querer levar sempre a tua avante;

- discutir sem razão ou – quando a tens – insistir com teimosia e de maus modos;

- dar o teu parecer sem que te peçam, ou sem que a caridade o exija;

- desprezar o ponto de vista dos outros;

- não encarar todos os teus dons e qualidades como emprestados;

- não reconhecer que és indigno de qualquer honra e estima, que não mereces sequer a terra que pisas e as coisas que possuís;

- citar-te a ti mesmo como exemplo nas conversas;

- falar mal de ti mesmo, para que façam bom juízo de ti ou te contradigam;

- desculpar-te quando te repreendem;

- ocultar ao Diretor algumas faltas humilhantes para que não perca o conceito que faz de ti;

- doer-te de que outros sejam mais estimados do que tu;

- negar-te a desempenhar ofícios inferiores;

- procurar ou desejar singularizar-te;

- insinuar na conversa palavras de louvor próprio ou que dêem a entender a tua honradez, o teu engenho ou habilidade, o teu prestígio profissional…;

- envergonhar-te por careceres de certos bens…”

Depois de reconhecer os próprios defeitos e limitações, o caminho para vencer a vaidade e o orgulho é justamente valorizar os demais, como bem o fez o Ministro Lima Teixeira, nesta simpática poesia dedicada a seus colegas (in Revista do Tribunal Superior do Trabalho, Ano de 1975, LTr – 1976 – São Paulo, p. 104):

“TST GRANDIOSO

Não sei se diga, que é certo

Ou que certo é o argumento:

Pois quanto mais longe, ou de perto,

Não encontro fundamento.

Somos vários magistrados,

E da maior projeção;

Há os que são mais versados

Outros com mais perfeição.

Há os que são tratadistas,

De cátedra transcendental:

E há os que são estilistas

De visão fenomenal!

Há os que são realistas

Dos aspectos cruciais:

Há os que são analistas

dos fenômenos sociais!

Que Tribunal fabuloso!

Tantos são os seus valores…

Parece até assombroso

Conjunção de tais pendores”.

É natural vibrarmos com as instituições às quais pertencemos – uma espécie de orgulho coletivo e desculpável –, pois esse entusiasmo profissional é um bom motor para servirmos melhor à instituição e aos que dela dependem, valorizando o trabalho de todos e de cada um de seus membros.

Enfim, para cada uma das virtudes, o meio de adquiri-la está numa luta interior para vencer, em cada momento, a tendência instintiva ao egoísmo, ao comodismo e à sensualidade. E uma luta esportiva, que sabe não desistir diante das quedas, das derrotas e dos fracassos. Com fair-play, recomeça o combate para, mudando a si mesmo para melhor, possa simultaneamente ir transformando o ambiente.

VII) CONFORMAR O PRÓPRIO AMBIENTE

No fundo, duas são as posturas que podemos ter diante do ambiente cultural, profissional e moral no qual vivemos, trabalhamos e nos divertimos: conformar-nos a ele ou conformá-lo. Deixar-nos arrastar por aquilo que todo mundo diz ou faz – o politicamente correto – ou enfrentar, como o salmão enfrenta a correnteza, os clichês e modismos, para agir como nossa consciência nos diz que devemos agir.

Exemplo paradigmático de não conformismo diante de um ambiente adverso, em que todos se conformam à ideologia dominante ou a aceitam passivamente, é o da jovem alemã Sophie Scholl (09/05/1921-22/02/1943), universitária que, com alguns colegas, tentou mostrar ao mundo que não era aceitável o atropelamento à liberdade e dignidade humana que o regime nazista vinha impondo à Alemanha, e foram pegos divulgando um manifesto na Universidade de Munique. Sua vida é muito bem retratada no livro “Sophie Scholl – The real story of the woman who defied Hitler” (Frank McDonough, The History Press – 2010 – Gloucestershire).

Na versão cinematográfica – “Sophie Scholl – Uma Mulher contra Hitler” (2005), o interrogatório final (a 18/02/1943) a que é submetida, antes de sua condenação e execução, mostra bem o perfil ético, a coragem e as convicções dessa jovem (as falas de Sophie estarão em itálico):

Robert Mohr (Agente da Gestapo): - Café?

Sophie: - Por que quer nos punir?

- Porque é lei e sem lei não há ordem.

- A lei a que se refere protegia a liberdade de expressão antes do Nazismo subir ao poder, em 1933.Quem opina hoje é preso ou condenado a morte. Isso é ordem?

- Só podemos confiar na lei, não importa quem a tenha escrito.

- E na sua consciência?

- Bobagem. Aqui está a lei e aqui está o povo. Como criminalista, devo descobrir se ambos coincidem e se não coincidem encontrar a maçã podre.

- As leis mudam, a consciência não.

- E se todos decidissem o que é certo ou errado individualmente? O que restaria se criminosos derrubassem o Fuhrer? Caos criminal…

- Sem Hitler e seu partido haveria lei e ordem para todo o mundo. Todos estariam livres de atos arbitrários, não só os capachos.

- Como se atreve a fazer comentários aviltantes.

- Aviltante é nos chamar criminosos por causa de alguns panfletos. Só tentamos convencer as pessoas com palavras.

- Você e seu grupo abusaram de seus privilégios. Estudam em tempo de guerra com nosso dinheiro. Eu era alfaiate no tempo da democracia. Sabe o que me tornou um policial? A ocupação francesa, não a democracia alemã. Sem o movimento seria um policial do interior. Aquele repulsivo tratado de Versalhes… Inflação, desemprego, pobreza. Hitler acabou com tudo isso.

- E levou o país para uma guerra sangrenta onde todos morrem em vão.

- Uma luta heróica. Você recebe os mesmos cupons que as pessoas que combatem. Você está em melhor posição que pessoas como eu. Você não precisa fazer isto. Como ousa elevar a voz? O Fuhrer e o povo protegem você.

- Aqui, no palácio Wilttelsbach? Prendendo minha família?

- Estamos libertando a Europa da plutocracia e do bolchevismo. Lutamos pela Alemanha livre. Nunca seremos ocupados.

- Até a guerra acabar e as tropas estrangeiras invadirem e o mundo apontar para nós com o dedo por tolerar Hitler.

- O que dirá quando a vitória final for nossa? Quando a liberdade e a prosperidade florescerem? Que essa era a sua visão quando se afiliou à BDM?

- Na Alemanha todos deixaram de acreditar em Hitler.

- E se eu estiver certo? Você é protestante?

- Sim.

- A Igreja também exige devoção, mesmo se tiver dúvidas?

- As pessoas vão à igreja voluntariamente. Hitler e o nazismo não oferecem outra opção.

- Porque se arrisca tanto por falsos ideais?

- Porque tenho consciência.

- Você é tão dotada… Porque não pensa como nós. Liberdade, honra, prosperidade. Um governo responsável. Esta é a nossa convicção.

- Não abriu os olhos com o terrível banho de sangue conduzido pelo nazismo em nome da liberdade e da honra? A Alemanha cairá em desgraça se a juventude não derrubar Hitler e construir uma nova Europa intelectual.

- A nova Europa só poderá ser nacional socialista.

- E se o Fuhrer for louco? Por exemplo, o ódio racial. Tivemos um professor judeu em Ulm. Ele ficou diante de uma tropa das SS e todos cuspiram no seu rosto. Naquela noite desapareceu. Como muitos em Munique. Supostamente foram trabalhar na Europa Oriental.

- Acredita nisso. Bobagem. Judeus são imigrantes.

- Soldados vindos do Leste falam de campos de extermínio. Hitler quer exterminar todos os judeus europeus. Ele pregava essa loucura há 20 anos. Como pode acreditar que os judeus são diferentes de nós?

- Essa gente trouxe infortúnio. Você está confusa, não tem ideia. Teve educação errada. Eu a teria educado diferente.

- Tem ideia do meu choque quando descobri que os nazistas eliminavam crianças deficientes mentais? Amigos de minha mãe nos contaram isso. Caminhões vinham recolher as crianças no hospital. As outras crianças perguntavam para onde estavam indo. “Para o céu”, diziam as enfermeiras. E as crianças subiam no caminhão cantando. Acha que não fui bem educada porque sinto pena delas?

- Eram vida inúteis. Foi treinada para ser enfermeira. Viu pessoas mentalmente doentes.

- Sim, por isso eu sei. Ninguém escapa do julgamento divino. Ninguém sabe o que passa na mente de um deficiente mental. Quanta sabedoria pode vir do sofrimento. Toda vida é preciosa.

- Deve entender que nasceu uma nova era. O que diz não tem nada a ver com a realidade.

- É claro que tem. Com decência, moral e Deus.

- Deus? Deus não existe. Não é verdade que confiou no seu irmão, que acha certo o que ele fez? Que você participou disso. Não devemos por isso no relatório.

- Não, porque é errado.

- Tenho um filho um ano mais novo do que você. Ele já teve ideias malucas. Hoje está na frente oriental porque sabe que tem um dever a cumprir.

- Acredita na vitória final?

- Se tivesse considerado tudo não teria se envolvido nisto. Sua vida está em jogo. A título de protocolo pergunto a você: Após nossas conversas considera que as ações com seu irmão podem ser vistas como um crime contra a sociedade e, em particular, contra as tropas em combate e que devem ser severamente condenadas?

- Não, do meu ponto de vista.

- Admitindo o seu erro não estaria traindo seu irmão.

- Mas trairia o meu ideal. Eu faria tudo de novo. Você está errado, não eu. Ainda acredito que agi no melhor interesse meu povo. Não me arrependo. Aceitarei as consequências.

Impressiona a coragem da jovem estudante diante do investigador da Gestapo. Temas como a liberdade de consciência e o direito à vida, diante de um regime totalitário e promotor da eugenia, são colocados em pauta nesse diálogo, que pode ser um retrato de tantas discussões em rodas de colegas sobre questões da atualidade como as leis do aborto, da homofobia ou da eutanásia, que se procuram impor à sociedade.

O grupo de resistência sem violência de Sophie Scholl, chamado “Rosa Branca”, do qual participava também seu irmão (executado com ela), poderia parecer uma “gota no oceano”, mas representou muito: o próprio Robert Mohr, como diria posteriormente, ficou muito impressionado com a firmeza de convicções da jovem, sua força argumentativa e exemplo de fortaleza diante da perspectiva do sofrimento e da morte. Sua vida e palavras, ainda que no pequeno ambiente de seus colegas da Universidade de Munique, dos agentes que a prenderam e interrogaram, e da Corte Popular que a julgou, condenou e executou no mesmo dia (!!!), impactaram em todos, com maior ou menor profundidade, conforme a abertura maior ou menor à força dos argumentos e da razão.

No final do filme se conta que cópias do manifesto que Sophie e seu irmão haviam distribuído na Universidade de Munique foram repassadas para a Escandinávia e, dali para a Inglaterra, onde os Aliados imprimiram milhões de cópias do “Manifesto dos Estudantes de Munique” e despejaram de avião sobre as cidades alemãs.

Esse exemplo de coerência entre convicções e vida, capaz de transformar o meio em que vivemos, não é e nem será nunca isolado. O potencial de “sinergia” que pode gerar alguém que, não concordando com a pressão social rumo ao hedonismo moral, fisiologismo político e egocentrismo cultural, tenha a coragem de dizer que não segue essa cartilha, faz com que muitos repensem seus valores.

No fundo, cada um de nós poderia escrever, mas num sentido diametralmente oposto à cartilha de Hitler, o seu “Mein Kampf” (Minha Luta), contando suas lutas interiores para vencer seus defeitos e enfrentar um ambiente hostil aos ideais de virtude e valores morais, sonhando com um mundo mais saudável, solidário e justo. Na prática, aqueles que não renunciam a esses ideais e vão transformando suas existências num serviço generoso ao próximo estão escrevendo esse livro com suas vidas.

Em suma, com a virtude da coragem e com a virtude da temperança estaremos em condições de arrostar o ambiente adverso à moral e ao direito, seguindo a canção de Milton Nascimento, sendo, pelo exemplo de conduta reta e honesta, esperança e alento para aqueles que também não se sentem bem num ambiente corrompido e corruptor e desejam uma mudança de ares.

Mundos Subterrâneos na Literatura Fantástica

A Literatura é um produto cultural nascido do gênero milenar que chamamos Mitos. As narrativas míticas, ligadas às crenças de cada povo e às suas maneiras de ver o mundo, trazem relatos estruturados em torno de arquétipos – modelos ideais que existem desde sempre e permanecem no inconsciente humano. Os mitos foram criados por autores anônimos e serviram a vários propósitos. Sua forma – a narrativa oral – e seu conteúdo – histórias de deuses e heróis, tentando explicar as forças da Natureza e a ação do homem sobre ela – geraram, através dos séculos, inúmeros sucedâneos, como a Literatura sacra, a Profana, a Poesia, o Drama… Conforme o tempo passava, as histórias religiosas foram perdendo seu valor sagrado, porém seus elementos e motivos permaneceram em contos populares, ajudando a estruturar as diversas tradições dos diversos povos. Vêm daí as histórias folclóricas, como os contos de fadas que, assim como a mitologia, tornar-se-iam matéria-prima para a Literatura Fantástica, gênero amplo que inclui a Literatura de Fantasia, a Gótica ou de Horror e até a Ficção Científica, sem esquecermos sua influência na Literatura Infantil e Juvenil.

Em toda essa ficção – oral, escrita ou representada – existe uma estrutura comum sobre a qual é tecida a efabulação. Tal estrutura muito frequentemente pertence àquela que foi chamada a Jornada do Herói.

O herói é o protagonista da história, que, do começo ao fim da obra, percorre certa trajetória que implica em aprendizado, crescimento, amadurecimento. (Na verdade, se analisarmos o grande fascínio que os jogos eletrônicos – pinballs, videogames, jogos de computadores, simuladores etc. – exercem sobre crianças e jovens, veremos que, além de serem Role Playing Games simplificados, eles trabalham os elementos essenciais da ficção, suprindo uma lacuna que a falta do hábito da leitura causou em várias gerações. Através dos jogos eletrônicos o jogador vivencia uma trajetória de personagem, passando por provas e ameaças até obter sucesso numa missão. E o jovem neles encontra ressonância para a necessidade de ficção que lhe alimentará o imaginário).

A psicologia Junguiana nos diz que os personagens das histórias costumam pertencer aos arquétipos que citamos, tornando-se modelos, matrizes de comportamento. E encontrar funções arquetípicas nas histórias que ouvimos ou lemos teria, segundo os psicólogos, ação terapêutica, ajudando-nos a compreender nosso próprio psiquismo num nível inconsciente.

Voltando aos mitos, os mais antigos são geralmente os Mitos Cosmogônicos: histórias que narram a criação do universo de acordo com cada religião ou crença. Há também os Mitos de Criação, que contam como surgiram todas as coisas que existem sobre a Terra. Os Mitos Etiológicos explicam a razão de tudo: como cada ser se tornou o que é hoje. E nos Mitos Heróicos, figuras de heróis – e mesmo antepassados do povo gerador da narrativa em questão – passam por aventuras difíceis: devem salvar princesas, enfrentar monstros terríveis ou inimigos poderosos, punir tiranos, fundar cidades, ensinar segredos e técnicas ao povo de sua terra. Algumas civilizações possuem Mitos Escatológicos, que contam o que acontecerá no fim do mundo, quando sua civilização (ou o mundo, ou o universo) declinar e morrer.

Muitos desses mitos, sem deixar de serem cosmogônicos, etiológicos ou heróicos, pertencem também à variante chamada Mitos de Descida. Aqui temos heróis que descem aos mundos inferiores, tradicionalmente considerados terras onde vivem as almas dos mortos.

Ora, como expressão de tradições sagradas, os mitos estão associados a uma ação religiosa (considerando a palavra religião oriunda do latim religare): o ato de contá-los, vivenciá-los, tem o condão de religar, reconectar o homem com o sagrado. Essa “religação” e os poderes que ela confere aparecem nas narrativas sobre êxtases religiosos – que vão desde o transe da Pítia nos templos de Apolo, absorvendo a fumaça de ervas sagradas, passando pelo êxtase dos santos medievais que recebem a Graça após práticas ascéticas, até fiéis que tomam o Santo Daime ou monges que ingressam no Nirvana através da meditação. Também eles estão descendo a um mundo subterrâneo, deixando a superfície da mente para penetrar em suas profundezas – o inconsciente, ou talvez um estágio diferente de existência.

Seja qual for a origem do mito de descida, ele está inserido na experiência da busca do sagrado ou na iniciação aos mistérios, que é obtida pelo indivíduo após a passagem por uma série de provas. Essa pode também ser uma interpretação do chamado monomito, na qual aparece claramente a estrutura da Jornada do Herói. O personagem:

  1. deixa uma situação estável;
  2. enfrenta um conflito;
  3. é conduzido a várias etapas onde é provado, testado (sendo algumas das provas enfrentar suas próprias fraquezas, e em especial o medo da morte – pelo confronto, às vezes literal, com a morte em si). Essas provas supõem a passagem da escuridão, do perigo e do caos para a luz, a ordem, o cosmos;
  4. o herói vence o conflito, as provas, os monstros (ou não);
  5. retorna ao mundo que deixou e ensina o que aprendeu.

Essa trajetória pode ser ainda uma metáfora para todas as dificuldades pelas quais passa cada pessoa ao longo de sua existência, até conseguir um despertar espiritual – e, assim, atingir um novo modo de vida a que os autores esotéricos chamam de “homem novo”.

A descida, então, é uma das etapas atravessadas por heróis e heroínas de milhares de contos, novelas e romances da literatura de todas as partes do mundo. Temos na mitologia vários exemplos. A história da Suméria sobre a Descida de Innana ao Aralu; o herói Polinésio Hutu, jovem maori que desce às terras subterrâneas em busca da alma da princesa Pare; os vários mitos gregos incluem a descida ao Hades. Orfeu vai aos domínios do deus da morte e atravessa o rio Aqueronte em busca da sombra de sua amada Eurídice. Psychê efetua a descida à terra dos mortos forçada pela deusa Afrodite, para obter de Perséfone, numa caixinha, um pouco de sua beleza. E Héracles o faz no seu décimo trabalho, obrigado pelo rei Euristeu a ir capturar o cão-guarda dos infernos, Cérbero, o que ele só pode fazer após se submeter aos Mistérios de Elêusis – e obter a purificação necessária para ir às profundezas e pedir permissão de Hades em pessoa, para capturar o monstro.

Eis o resumo da história de Hutu, vinda da mitologia do povo Maori da Polinésia.

A MORADA DOS MORTOS

Hutu era um rapaz hábil no manejo do dardo. Um dia, lançou seu dardo na aldeia e ele parou diante da casa de uma jovem nobre chamada Pare. A moça se interessou por ele e abriu sua porta, convidando-o a entrar. Mas Hutu, orgulhoso, recusou-se e foi embora. Humilhada, Pare mandou que os criados arrumassem a casa e saíssem; então, chorou muito e, quando não tinha mais lágrimas, enforcou-se. Morreu, e sua alma seguiu para as Moradas dos Mortos.

O povo local começou a murmurar contra Hutu, culpando-o pela morte da princesa. Ele teve remorsos e decidiu ir até as terras em que viviam os mortos para buscar a alma de Pare. Aprendeu as palavras rituais dos sacerdotes e pôs-se a caminho. Na estrada, encontrou Hine-Nui-Te-Po, a Grande Senhora da Noite, e perguntou-lhe como chegar ao Mundo Subterrâneo. Mal humorada, ela indicou uma trilha, mas ele percebeu que aquele era o caminho dos cães para o outro mundo. Hutu voltou e fez uma oferenda para obter da deusa o caminho certo, o dos Homens: daria a ela sua clava, feita de uma pedra rara. Hine-Nui-Te-Po gostou do presente e ensinou a Hutu o caminho verdadeiro do Mundo Subterrâneo; explicou que ele deveria ter cuidado com o vento que sopraria no buraco pelo qual deveria descer, e que não poderia comer nada naquele mundo, se não quisesse ficar preso para sempre.

Deu a ele, para alimentar-se enquanto lá estivesse, raízes de samambaia cozidas.

Hutu partiu pelo caminho ensinado pela Grande Senhora da Noite e encontrou o buraco que levava ao Mundo Subterrâneo. Desceu, tomando cuidado com os ventos, e ao ver-se lá embaixo começou a procurar pela alma de Pare. Os outros mortos disseram que ela estava lá, mas não conseguiam encontrá-la porque Pare ainda estava envergonhada pelo que acontecera, e escondera-se. O rapaz tentou atraí-la para fora da aldeia, e desafiou os guerreiros mortos para uma competição. Eles aceitaram, e fizeram concursos de arremesso de bola e dardo, que atraíram muita gente. Mas a jovem não apareceu.

Hutu criou um novo desafio: amarrou uma corda a uma árvore e, com ajuda dos mortos, vergou-a até a copa chegar ao chão. Subiu na copa com um rapaz em seus ombros e mandou que soltassem a corda. Hutu e o rapaz foram arremessados a grande distância; todos aplaudiram muito. A algazarra atraiu Pare para fora de seu esconderijo. Ela também quis participar da competição; Hutu subiu à copa da árvore, pedindo-lhe que subisse em seus ombros. Quando a corda foi solta, Hutu e Pare foram arremessados a tal distância que a corda se enroscou nas raízes próximas ao buraco para o mundo lá em cima. Levando-a nos ombros, ele subiu pela corda. De volta ao Mundo da Luz, uniu sua alma com seu corpo e ela reviveu.

Tal processo arquetípico de ida ao mundo dos mortos corresponde à chamada morte iniciática: o herói, como os iniciados nos mistérios antigos, deve morrer para a vida profana, com o objetivo de renascer para uma realidade sagrada. A origem dessa jornada está em ritos ancestrais que abordam o mistério eterno da regeneração espiritual; evoluiu de povos tribais para sociedades secretas que existem até hoje, indo da cultura totêmica à cultura histórica.

Os ritos de iniciação, assim como sua contrapartida escrita, os mitos, mantiveram o caráter de provas sucessivas: reclusão, provas, torturas, morte simbólica e a volta à superfície, ou seja, a ressurreição, o renascimento.

Há muitos, muitos outros mitos nesse ciclo. Temos ainda as versões em que o herói é engolido por um monstro, como Jonas no ventre da baleia, o que também configura uma descida aos reinos da morte. Reencontramos esse motivo quando os personagens são devorados e ressurgem, ou quando devem deixar suas terras para ir a reinos mágicos e perigosos, onde podem morrer – às vezes literalmente – antes de voltar à vida.

Um dos mitos citados acima e que melhor exploram a viagem da alma é a história de Eros e Psiquê, pertencente à mitologia grega – não por acaso, Eros significa “amor”, e Psiquê significa “alma”…

O AMOR E A ALMA

Houve um rei que teve três filhas. A mais nova, Psiquê, era tão bela que sua beleza rivalizava com a da deusa Afrodite, e o povo a reverenciava. A deusa irou-se, pois iam cada vez menos pessoas a seus templos prestar-lhe sacrifícios. Como ousavam comparar sua beleza à de uma mortal? Decidiu castigar a moça e pediu que seu filho Eros a fizesse apaixonar-se pelo monstro mais horrendo da terra. O filho de Afrodite era um belo jovem. Com suas setas alvejava homens e mulheres, instilando-lhes o sentimento do amor. Concordou em ajudar a mãe a se vingar daquela que a ofendera; mas não pôde. Uma versão da história diz que, ao ver a beleza de Psiquê, Eros se apaixonou; outra diz que ele se feriu com uma de suas setas.

O pai de Psiquê decidiu perguntar ao oráculo de Apolo, deus da Profecia, com quem Psiquê deveria casar-se, pois, apesar de reverenciada, ela vivia solitária. A resposta do deus foi uma sentença de morte: Psiquê estava destinada a ser a esposa de um monstro. Deveria vestir uma mortalha e ser levada à mais alta rocha no topo de um monte. De lá o monstro a levaria. O rei, a rainha e as irmãs choraram pelo destino da jovem. Mas Psiquê seguiu resignada junto a um cortejo fúnebre para o monte. E lá, sozinha, aguardou a morte.

Porém Zefiro, o deus-vento, a arrebatou e levou até uma floresta junto a um palácio. Entrando, a moça encontrou riquezas que jamais imaginara; vozes misteriosas explicaram que tudo aquilo lhe pertencia. Ela se banhou, vestiu-se e tomou as refeições ali servidas. À noite, no quarto, aproximou-se um homem a quem ela não podia ver na escuridão: era seu marido. Ele passou a dormir com ela todas as noites, e ia embora antes de a manhã nascer. Disse-lhe que correria perigo se deixasse o palácio, e que deveria prometer amá-lo sem jamais ver seu rosto. Psiquê prometeu, pois amava o esposo e sentia-se perfeitamente feliz.

Porém seus pais a julgavam morta e suas irmãs iam ao pé do monte para chorar por ela. A princípio, Psiquê não se preocupou com a família. Mas quis evitar o desespero das irmãs. Suplicou ao esposo que a deixasse vê-las, e ele permitiu; quando elas vieram à montanha, Zéfiro as trouxe à sua presença; ela revelou que estava viva e as levou ao palácio.

As irmãs, com inveja, envenenaram sua felicidade. O marido invisível devia ser um monstro; que motivo teria para proibir a esposa de vê-lo? Aconselharam-na a esperar que ele dormisse e fosse espioná-lo com uma lamparina. Se realmente fosse um monstro, deveria ser morto. Psichê resolveu tirar a dúvida. À noite, pegou uma faca e acendeu uma lamparina.

Mas, ao iluminar o esposo adormecido, não encontrou um monstro, e sim o deus do amor! Seu esposo era Eros. Acidentalmente, Psiquê deixou pingar gotas de óleo da lamparina no ombro dele. Eros acordou com a dor da queimadura e a repreendeu por quebrar a promessa. Não poderiam mais ficar juntos… E partiu, para curar a ferida junto aos deuses.

Psiquê se desesperou. Saiu pelo mundo em busca do esposo, sem saber como ser perdoada. Pediu a ajuda de Deméter e Hera, mas elas não quiseram desagradar Afrodite. Depois de muito vagar, Psiquê decidiu enfrentar a deusa de uma vez e foi ao seu templo. Afrodite a recebeu com ódio e disse que Eros estava ainda ferido pela queimadura; entregou Psiquê a suas servas, a Mágoa e a Tristeza, para ser açoitada. Depois, propôs-lhe tarefas impossíveis: separar um monte de grãos misturados, tosquiar um bando de carneiros selvagens, recolher água na fonte de um alto penhasco guardado por dragões.

Por fim, ordenou-lhe que descesse ao Hades para buscar uma caixa contendo um pouco da beleza da Senhora do Hades, Perséfone. Para cumprir essas tarefas, Psiquê teve a ajuda dos seres da natureza. Ficou, porém, presa no mundo subterrâneo, pois sua curiosidade a levou a abrir a caixinha de Perséfone. Mas Eros se recuperou do ferimento e foi buscá-la no Hades. Mandou-a prostrar-se diante de Afrodite e dar conta da última tarefa; enquanto isso pediu a ajuda de Zeus, o maior dos deuses. Este decidiu que Psiquê e Eros deveriam unir-se. Deu à moça uma bebida que a tornou imortal, e o casal foi recompensado com a união eterna.

Dos mitos e do folclore, o motivo da descida aos mundos subterrâneos chegou à literatura.  No século XIX, o escritor Júlio Verne produziu o maior clássico que lida com essa descida, embora ela seja literal, não simbólica: Viagem ao Centro da Terra.

O francês Jules Verne (1828-1905) tornou-se um precursor da ficção científica ao escrever novelas sobre relatos de viagens, abordando Geografia, História, Astronomia, Biologia, Geologia e outras ciências. Embora não lide exatamente com o fantástico, ele abriu precedentes para os autores do gênero, pois em seu século o desabrochar da ciência tocava as fronteiras do inimaginável. A Viagem ao Centro da Terra foi publicada em 1864, dois anos após o lançamento de Cinco semanas em Balão, sua primeira novela do subgênero que hoje chamamos Ficção Especulativa, e até sua morte produziu ainda mais 63 livros.

Temos aqui uma história que utiliza a Jornada do Herói: os personagens, o Professor Otto Lidenbrock, seu sobrinho Axel Lidenbrock e o guia Hans Bjelke penetram uma cratera e seguem as pistas deixadas pelo pesquisador Arne Saknussemm, que teria descoberto o caminho para o centro da terra. Passam por muitas dificuldades e encontram um mundo misterioso e insuspeito no fundo da terra…

Encontramos também uma novela precursora das aventuras de RPG – um grupo, embora reduzido, embarca numa demanda e enfrenta desafios e provas, cada personagem utilizando seus atributos para assegurar a sobrevivência do grupo.

Verne trouxe para a Literatura a estrutura dos Mitos de Descida e influenciou muitos autores que, depois dele, escreveram aventuras sobre viagens, não apenas para as profundezas, mas para o espaço ou para regiões misteriosas do planeta.

E até hoje, na Literatura, heróis e heroínas enfrentam esse desafio. Descem ao local que mais temem, aos infernos ou às profundezas (literais ou metafóricas) em busca de conhecimento, amor, tesouros, libertação de seus povos e, às vezes, do encontro consigo mesmos. Nessa demanda, Frodo penetra as terras infernais de Mordor; Sparrowhawk, o Gavião, desce às escuras tumbas de Atuan; Nihal, a meio-elfa da Terra do Vento, entra no sombrio Castelo em que reina o Tirano, destruidor de seu povo; Shadow deixa-se sacrificar na árvore de Wotan e experimenta o gosto da morte; Roland percorre as terras devastadas de MidWorld e abre portas para universos paralelos em busca da Torre Negra…

E nós, leitores, vamos junto com eles. Deixamos que os heróis nos descerrem as portas de tantos mundos terríveis e nos mostrem, com seus sofrimentos e suas provas, como podemos sobreviver e voltar para contar aos outros o que existe lá no fundo…

Leituras sugeridas:

Um Mago de Terramar e As Tumbas de Atuan, Ursula K. LeGuin. São Paulo: Brasiliense.

O Senhor dos Anéis, John R. R. Tolkien. São Paulo: Martins Fontes.

Deuses Americanos, Neil Gaiman. São Paulo: Conrad.

A Torre Negra (7 volumes), Stephen King. Rio de Janeiro: Objetiva

Crônicas do Mundo Emerso (3 volumes), Licia Troisi. Rio de Janeiro: Rocco

Seres Fantásticos na Literatura – Dragões

“Há muito tempo, desde o começo da humanidade, o dragão,

com seu corpo de serpente e seus poderes mágicos, esteve presente entre nós,

sugerindo-nos que existe um ser imortal presente no interior de todas as coisas.”

Francis Huxley[1]

O Dragão é provavelmente a criatura fantástica mais conhecida e discutida do mundo. Existe em todas as tradições, sob uma forma ou outra. É ligado aos quatro elementos, ou seja, também é um ser elemental – segundo a teoria filosófica pré-socrática de que o mundo seria composto por quatro elementos básicos: ar, água, terra e fogo. Dizia o filósofo Empédocles (século IV a.C) que essas quatro raízes compunham tudo o que existe, sendo animadas por duas forças contrárias, que foram chamadas de “amor” e “ódio”: ou seja, a força de atração e a força de repulsão. Muitos seres fantásticos da mitologia e da literatura têm essa ligação com algum dos quatro elementos. No caso do Dragão, ele seria um ser do fogo e/ou da água, e seu caráter se altera dependendo da mitologia em questão.

A palavra vem do grego drákon e também do latim draco. Parece derivar do verbo grego derkomai, “ver”; ou deskesthai, “lançar olhares”. Estaria, então, associado à idéia de ver, olhar e, portanto, conhecer. Não é de se admirar, então, que as lendas digam que é perigoso olhar nos olhos de um dragão.

“Muitas tradições falam de um abismo cheio de água revolvida por um espírito ardente

que pode ver graças à sua própria luz. Assim, como nos contam os Upanishads hindus,

o espírito olha faminto ao seu redor; esta ação é que dá ao dragão o seu nome (…)”. [2]

A palavra para designá-los em algumas línguas (Drache, Drake) também designa as serpentes. Outra palavra antiga para dragão é Verme, que vem de Worm ou Wyrm.

O dragão mais antigo das histórias pode ser Tiamat, uma divindade babilônica que personificava o Caos: o universo antes de ser organizado. Diz o Enuma Elish, Mito de Criação Babilônico, que Tiamat era a água salgada, em oposição a Apsu, a água doce. Da mistura de suas águas surgiu o universo, e deu-se à luz os primeiros deuses. Mais tarde os deuses mataram Apsu; Tiamat, com personalidade feminina, voltou-se contra eles e começou a gerar monstros, inclusive os primeiros dragões. Ela seria morta pelo deus-herói Marduk, e de seu corpo ele teria criado o céu, a terra, os astros, os rios, os seres vivos.

Para os chineses, eles são criaturas benignas e de vários tipos: o Dragão Divino, o Dragão Terrestre, o Subterrâneo. Dragões seriam antepassados dos imperadores da China; o primeiro governante a assumir a forma dracônica foi o lendário Fu Hsi. Ainda segundo tradições chinesas, existiam quatro Dragões da Água que governavam os quatro oceanos do mundo: Ao Kuang, Ao Jun, Ao Shun e Ao Chi. Todos eram servos do Imperador de Jade e moravam no fundo das águas.

Vem também da China a crença de que eles teriam atributos de nove “animais”: chifres de cervo, cabeça de camelo, olhos de demônio, pescoço de serpente, barriga de molusco, escamas de peixe, garras de águia, pés de tigre e orelhas de boi.

Seria, então, o dragão um animal que viveu em eras passadas, como os antigos sáurios? Ou será que, quando os antigos encontravam enormes ossadas fósseis, julgavam que aqueles eram ossos de animais desconhecidos, fantásticos? Talvez venham daí as primeiras histórias sobre dragões na cultura humana…

“Os chineses dizem que o fogo do dragão e o fogo humano são coisas opostas. Se o fogo do dragão entrar em contato com algo úmido, lança chamas; e se entrar em contato com a água, incendeia-se.

Se alguém se enfrenta a ele com fogo, conseguirá fazê-lo parar de arder e as chamas se extinguirão.

Isso, por sua vez, pode ser comparado com a correspondência alquímica do dragão com a Matéria Prima e com a regra segundo a qual, para limpar uma substância, não se deve usar água, mas fogo. [3]

Por muito tempo acreditou-se que as salamandras seriam pequenos dragões. Há referências a elas em bestiários medievais e em obras de não-ficção. O próprio Santo Agostinho as cita como animais que vivem no fogo, querendo provar que os corpos humanos poderiam viver no fogo do inferno sem ser consumidos!

E tanto Aristóteles quanto Leonardo da Vinci atestaram a existência real desses animais como capazes de viver nas chamas. Marco Polo diz ter visto em suas viagens tecidos de pele de salamandra, que não queimavam no fogo – embora, na verdade, desconfie-se que esses tecidos eram feitos de amianto.

Como vimos, além do fogo, os dragões são associados fortemente ao elemento água. Ou estão nas nuvens, e são senhores da chuva, ou nos mares e rios; para os chineses, a chuva fina é celestial, mas a tempestade violenta é a “chuva do dragão”… E encontramos em variados folclores a ideia de que, se uma mulher banhar-se em rio ou mar, pode engravidar pela ação de um ser mítico: cobra grande, boto, serpente, sempre uma criatura com características dracônicas. Isso liga os dragões aos m’bois, as cobras gigantes do folclore brasileiro. O m’boi é o arquétipo do dragão na América Latina.

Se no Oriente os dragões estão ligados à chuva, sua capacidade de exalar ou projetar fogo aparece mais nas lendas do Ocidente. Longe da tradição que os considera como benignos ou neutros, em histórias ocidentais ele simboliza forças demoníacas. É esse o sentido da história de São Jorge: o Cruzado (que é o Cristianismo) mata o dragão (vence o demônio) e converte o mundo. Faz sentido um ser infernal ter domínio do elemento fogo, e eis aí porque as pessoas acreditaram em tais criaturas com hálito ardente.

Há na verdade duas histórias de São Jorge. Uma, que pertence à história cristã, conta sobre um cavaleiro da Capadócia que lutou nas Cruzadas. Outra conta sobre um cavaleiro que salvou uma princesa de ser devorada por um dragão. As duas convergiram em uma só, que aparece em variadas versões.

Jorge foi um mártir cristão nascido na Capadócia, na Ásia Menor. Consta que foi morto na Palestina no ano 303, conforme inscrições encontradas numa igreja da Síria e atestadas por um Cânon do Papa Gelasius I, de 494.

Diz uma lenda que em certa cidade pagã da Líbia um dragão aterrorizava o povo, que tentava aplacá-lo com ofertas de ovelhas e de seres humanos em sacrifício. Quando, escolhida por sorteio, a próxima vítima devia ser a filha do rei, o povo a levou até o monstro para ser morta. Nesse momento, um cavaleiro que voltava das Cruzadas chegou lá, matou o dragão, libertou a princesa e todos os habitantes locais se converteram ao Cristianismo como agradecimento ao herói. [4]

Outra versão da história diz que a cidade era Silene, também na Líbia, e que o dragão se abrigava num pântano. Todas as moças já haviam sido sacrificadas a ele: a última viva era a filha do rei. Jorge, o cavaleiro, chegou ao pântano e libertou a princesa. Ela, então, tomou seu cinto e prendeu o dragão pelo pescoço com ele, conduzindo-o para a cidade; lá, em vista de todos, Jorge o matou. Mas não quis aceitar a mão da moça em casamento, mantendo sua castidade de missionário cristão. [5]

Embora São Jorge hoje não seja mais um santo “oficial”, em 1222 o Concílio de Oxford instituiu a Festa de São Jorge no dia 23 de abril, e no século XIV ele se tornou o Santo Padroeiro da Inglaterra. Não é de se admirar, já que o herói mítico mais popular do Reino Unido, Arthur, é um Pendragon, e sua linhagem ostentava o dragão como símbolo. A própria bandeira do País de Gales mostra um dragão vermelho sobre um campo verde e branco. Podemos supor que o branco simboliza o mundo espiritual e o verde o mundo terreno; o dragão colocado sobre ambos demonstra seu domínio sobre céu e terra, espírito e matéria.

A mitologia grega também está repleta de dragões. Um dragão atacou os homens de Cadmo, que buscava sua irmã Europa, raptada por Zeus; o herói o matou e a deusa Atena sugeriu que ele semeasse os dentes do bicho. Dos dentes brotaram da terra guerreiros armados que lutaram até destruir-se; os que sobraram fundar com Cadmo a cidade de Tebas. Heróis como Héracles também enfrentaram dragões; um dos mais famosos foi Ládon, que guardava os pomos de ouro do jardim das Hespérides, filhas de Atlas.

Já na mitologia Nórdica temos Fafner, do Anel dos Nibelungos, o gigante e inimigo dos deuses que, transformado em dragão, dormia sobre o Ouro do Reno. E na mitologia Anglo-Saxã encontramos Grendel, o dragão que atacou a Dinamarca e que seria morto por Beowulf. Em tais relatos, de inspiração europeia, é comum haver uma ligação entre os dragões e tesouros preciosos. Um autor especulou que ouro e pedras preciosas seriam matérias desejáveis aos dragões, pois o ouro, metal incorruptível, formaria um leito não-corrosivo para o verme – algumas histórias falam em dragões que soltam ácido – e as gemas, quase  indestrutíveis, protegeriam seu ventre das armas humanas como uma couraça preciosa. [6]

Na ficção, cada autor utiliza os dragões da forma que deseja. Em ficção científica os mais famosos talvez sejam os Dragões de Pern, descritos pela autora Anne McCaffrey. Na fantasia, temos os dragões descritos por J. R. R. Tolkien, como Glaurung, criado por Morgoth para atacar elfos e humanos. E muitos outros, como os que habitam o mundo de Harry Potter; esses estão divididos em espécies oriundas de vários pontos do mundo. São descritos com características biológicas detalhadas; e sim, cospem fogo.

Nas “Crônicas de Spiderwick”, o personagem Arthur Spiderwick diz que eles pertencem à família Draconidae, em duas espécies: o Wyrm, terrestre (Draco antiquissimus) e o Wyvern, alado (Draco Alatus).

Na Trilogia da Herança, de Christopher Paolini, os dragões estão quase extintos e são ligados a seus cavaleiros desde antes do nascimento – o que os aproxima dos dragões de Pern, que saem do ovo para pessoas específicas, ficando ligados a elas por toda a vida. O mesmo ocorre com dragões nas histórias de Téméraire, da autora americana Naomi Novik. Nessa história alternativa das guerras napoleônicas, os humanos treinam dragões para a guerra numa força aérea, e também existe a ligação profunda, desde que o dragão sai do ovo, entre ele e seu cavaleiro, ou melhor, dragaleiro, já que dragões não são cavalos.

Não é difícil concluir que, muito mais que o unicórnio, a fênix ou os centauros, o dragão é o ser fantástico mais presente em mitos, lendas e ficção. O fascínio que sua figura exerce sobre nós é extraordinário. Do ponto de vista simbólico, podemos até dizer que o dragão representa nosso próprio fogo interior, que algumas tradições esotéricas chamam de Kundalini, o fogo serpentino que se acredita ser a fonte da criatividade e da sexualidade no ser humano.

Não existem limites para a aparição dos dragões na literatura. Animais ou seres racionais superiores, senhores da chuva ou lançadores de fogo, suas histórias ainda vão nos encantar por muitos séculos.

“Aqui é o lugar onde os dragões foram parar. Eles repousam… nem mortos, nem adormecidos.

Nem à espera, porque esperar implica ter alguma expectativa.

É possível que a palavra seja… entorpecidos.

E, embora o espaço que ocupem não seja como o espaço normal,

ainda assim estão amontoados e apertados uns contra os outros.

Não há um centímetro cúbico que não contenha uma pata, garra, escama ou a ponta de uma cauda. O efeito disso é comparável àqueles desenhos de ilusão de ótica,

e nossos olhos acabam percebendo que o espaço entre cada dragão é, na verdade, outro dragão.

É possível imaginar uma lata de sardinhas,

isso se você achar que as sardinhas são enormes, cheias de escamas, orgulhosas e arrogantes.

E que, supostamente, em algum lugar, há um dispositivo de abertura.”

Terry Pratchett[7]

Leituras sugeridas:

O Silmarillion – J. R. R. Tolkien – Ed. Martins Fontes

Crônicas do Mundo Emerso (3 volumes) – Licia Troisi – Ed. Rocco

His Majesty’s Dragon – Naomi Novik – Ballantine Books

The Fire Within – Chris d’Lacey – Scholastic Books

Crônicas de Dragonlance (3 volumes) – Margareth Weis e Tracy Hickman – Ed. Devir

Como criar e cuidar de um dragão – John Topsell – Ed. Marco Zero

Dragonflight – Anne McCaffrey – Ballantine Books


[1] Huxley, Francis. Mitos, Deuses, Mistérios: o Dragão. Espanha: Ed. Del Prado, 1997. Pp. 05-07.

[2] Idem.

[3] Huxley, Francis, op. Cit., p. 9.

[4] Fonte: Microsoft Encarta Enciclopédia, 2000.

[5] Fonte: Francis Huxley, op. Cit., p. 15.

[6] Dickinson, Peter. Flight of Dragons, The. 1979.

[7] Pratchett, Terry. Guardas! Guardas! São Paulo: Conrad do Brasil, 2005. P. 11.

O Juízo da História

1) Introdução

Quando ingressei no Tribunal Superior do Trabalho na qualidade de Ministro, nos idos de 1999, já tendo lá servido como funcionário e procurador desde 1983, tive a ventura de ver presente em minha posse não apenas meus pais, mas principalmente meu avô português, que, aos 101 anos, era só orgulho e felicidade. Na ocasião, lembrando as raízes lusitanas, recebi de presente de uma amiga de minha mãe, a Sarita, um belíssimo livro, ricamente encadernado, tendo por título “História de Portugal”, de João Ameal (Livraria Tavares Martins – 1958 – Porto, 4ª edição), verdadeira relíquia de família.

O acervo de processos recebido e o desejo de enfrentá-lo com todas as energias do corpo e da alma fez-me depositar o livro na estante de casa e lá deixá-lo, engalanando a sala de estar com o visual de sua grossa lombada, onde permaneceu por 10 anos, até despertar-me sinceramente o interesse e a curiosidade, sem uma razão determinada. Ou melhor, tendo lido “São Tomás de Aquino” do mesmo autor, e o prefácio que escreveu para a edição portuguesa do “Ortodoxia” de Chesterton, tais circunstâncias já me haviam feito namorar essa volumosa obra, que anunciava narrar a história portuguesa, dos seus primórdios até ao ano de 1940, em que publicada sua 1ª edição.

Apanhando recentemente o livro e decidido a lê-lo, chocaram-me as primeiras linhas da introdução, onde o autor se perguntava: “Que é a História? Uma ciência? Uma arte? Uma ética?” (p. VII). Francamente (pensei), como podia o ilustre acadêmico português confundir História com Ética, o ser com o dever ser? Quase abandonei, de chofre, a leitura, decepcionado. No entanto, as linhas e páginas que se seguiram foram para mim uma descoberta e um alento.

Respondia o autor à última de suas perguntas iniciais dizendo: “Para outros, consiste em apresentar uma galeria de modelos na qual se possa distinguir o bem do mal, o exemplo a seguir e o erro a evitar e portanto donde resulte uma série de normas úteis à orientação dos contemporâneos: é a História-Ética (p. VII, grifos nossos). Confesso que nunca me havia ocorrido tal concepção da narrativa histórica. No entanto, a idéia do aproveitamento da experiência histórica para bem agir já me vinha de certo modo incutida tanto pela leitura da “Evolução da Cidade de Deus” de Etienne Gilson (Herder – 1965 – São Paulo), quanto das aulas do mestrado na UnB com o Ministro Moreira Alves e de seu livro “Direito Romano” (Forense – 1990 – Rio).

Mas o encanto com a História de Portugal de João Ameal não parou por aí. As idéias que se seguiram foram ainda mais impactantes, quando escrevia: A História é vida – tal o axioma inicial a propor. E não apenas vida dos outros – de outros tempos, de outros seres – mas a nossa vida, antes de nós (…) Se nos pedissem que arriscássemos uma definição, sugeriríamos: a História constitui, para o verdadeiro historiador, um exame de consciência(p. VIII, grifos nossos).

Eis aí descrito, da forma mais apropriada que já vi, o juízo da História: seremos julgados pelos nossos atos e decisões, nas suas conseqüências e motivações, não apenas por Deus (que é o que mais importa), mas também pelas gerações que nos sucederão, que, com a perspectiva do tempo, poderão aquilatar melhor nossos acertos e erros, grandezas e misérias, heroísmos e vilanias, pois terão a objetividade que nos falta para julgar das próprias ações.

Mas podemos já deflagrar esse exame de consciência pessoal, como o fazia João Ameal ao reconhecer a insuficiência do resultado de seu trabalho em ordem à grandeza do objeto estudado: “Salve-nos ainda o desassombro e a boa fé com que nos sujeitamos à triste e honrosa lei da condição humana: o hábito incurável que todos temos de lançar ombros a tarefas maiores do que nós…(p. XV, grifos nossos).

2) As causas e motivações dos fatos históricos

Max Weber (1864-1920), ilustre sociólogo alemão, que reconhecia, na esteira de Aristóteles, que a ciência é o conhecimento pelas causas, perquiria sobre as causas dos fenômenos sociais, resumindo-as em sua obra “Economia e Sociedade” (1922) numa tipologia ideal, assim expressa:

  • comportamento racional em relação a um fim – objetivo claramente fixado pelo agente, planejado e perseguido, como  o engenheiro que constrói uma casa, tendo em vista um projeto prévio;
  • ação racional em relação a um valor – motivação transcendente ao sujeito, como o marido que afasta a tentação de adultério por fidelidade à esposa;
  • ação afetiva – ditada pela paixão ou estado de espírito do momento;
  • ação tradicional – ditada pelos hábitos e costumes adquiridos.

No caso da história, dizia Weber que o pesquisador pode, para explicar os fatos históricos, buscar na sociologia (ocupada com as regularidades do comportamento humano) as possíveis causas do agir concreto dos protagonistas do fato, devendo determinar o peso que cada causa isoladamente teve no acontecimento: constroem possibilidades do que teria ocorrido sem determinada causa. Se for verossímil que o acontecimento não teria ocorrido sem ela, trata-se de causa principal, senão pode ser causa secundária ou nem ser causa.

Weber, nessa linha, rejeitava o determinismo marxista de reduzir as causas históricas ao fator econômico (ainda que seja fator relevante), chegando a aplicar a sua teoria a um caso concreto de causalidade religiosa sobre fenômeno econômico em “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo” (1905). Em sua visão, o capitalismo, que conjugaria a vontade do lucro com a disciplina racional do trabalho (e não por conquista ou aventura), teria tido sua força propulsora na ética calvinista:

  • crença na predestinação universal para céu ou inferno;
  • o sucesso nos negócios seria o sinal da predestinação para o céu;
  • empenho no trabalho, para superar a angústia sobre a salvação;
  • desapego do mundo, que leva a não consumir, mas reinvestir o lucro.

Posteriormente, as 3 Escolas Vienenses de Psicoterapia ofereceram, sucessivamente, diferentes explicações sobre a motivação do agir humano:

a) Sigmund Freud (1856-1939) – Considerava o instinto sexual (a libido) o principal fator motivador do comportamento humano (“O Ego e o Id”);

b) Alfred Adler (1870-1937) – Discípulo de Freud, rompeu com o mestre e rejeitou a psicanálise, sustentando que não seria o “princípio do prazer” que explicaria o comportamento humano, mas a “vontade de poder”, ou seja, o desejo de se sobrepor aos outros e de que reconheçam sua superioridade. A competição com os outros geraria o “complexo de inferioridade”, cuja superação se daria através do mecanismo da “compensação”, de buscar atividades diferentes nas quais possa se sobressair (“Compreendendo a Natureza Humana”).

c) Viktor Frankl (1905-1997) – Fundador da Logoterapia, que esteve preso num campo de concentração nazista por ser judeu, opôs-se às explicações de Freud e Adler, sustentando que o comportamento humano tem por motor a “sede de sentido”, isto é, a necessidade de encontrar utilidade e sentido para a própria existência (“Psicoterapia e Sentido da Vida”).

Em que pese a teoria de Frankl ser mais abrangente das motivações do agir humano e menos reducionista, poderíamos estabelecer relação entre as teorias psicológicas e a teoria sociológica de Weber, quanto às motivações ou causas dos fenômenos sociais, compactando-as em 3 espécies:

a) motivação racional – por fins (como o poder) ou valores (como ser útil);

b) motivação passional – pelo amor (libido) ou pelo ódio (inveja, vingança);

c) motivação habitual – por tradição (assumida) ou comodismo (simples inércia).

Ora, ao se tentar compreender os fatos sociais do presente e do passado, a causalidade assim dissecada apresenta-se em 2 planos básicos:

a) plano retórico ostensivo – do discurso que busca justificar racionalmente a ação e que, na maioria dos casos, esconde as reais intenções ou motivações do agente;

b) plano real subjacente – do verdadeiro motivo que ensejou a ação, de caráter mais passional que racional e, justamente por isso, inconfessável, sendo, muitas vezes, sequer admitido pelo agente.

Cabe, pois, ao historiador e aos que analisam, para tentar compreender, os acontecimentos do presente e do passado, perquirir sobre quais as verdadeiras causas do sucesso ou insucesso de determinadas políticas, projetos e ações. O juízo da história, que já começa no presente – ainda que sem a perspectiva do tempo, essencial para se aquilatar a verdadeira dimensão das escolhas e opções feitas – e se consuma no futuro, leva em conta, desse modo, as ações e suas causas: não apenas o que aconteceu, mas também, como dizia Sir Hugh Trevor-Roper (n. 1914-2003), catedrático de História da Universidade de Oxford, a visão das possibilidades perdidas, do que poderia ter acontecido e não aconteceu e por quê (“History and Imagination” – 1980).

Ora, Carl Schmitt (1888-1985), filósofo político alemão, era contundente ao afirmar que, da mesma forma que a Ética dividia os homens em bons e maus e a Estética em belos e feios, a Política os dividia em amigos e inimigos, sendo pura retórica os programas ideológicos ou humanitários dos partidos políticos, já que seu objetivo era simplesmente a conquista do poder, não para servir a sociedade, mas para servir-se dela (cfr. “O Conceito do Político”, Vozes – 1992 – Petrópolis, tradução de Álvaro Valls). Ives Gandra Martins (pai), em sua “Uma Breve Teoria do Poder” (RT – 2009 – São Paulo), apresenta essa mesma visão pessimista do homem no Poder, analisando historicamente regimes e governos e mostrando como é generalizada a tendência dos detentores do poder, de se servirem da sociedade e não de estarem a serviço desta.

Traçada a moldura causal para enquadrar e julgar os fatos sociais sob a perspectiva histórica, cabe indagar se o modelo corresponde à realidade, ou seja, as políticas públicas, os empreendimentos sociais, as grandes realizações econômicas, culturais e artísticas têm como motor a razão ou a paixão?

Estou cada vez mais convencido, pelo estudo da História e pela vivência concreta no setor público – Judiciário, Executivo e Legislativo –, que os modelos sociológicos traçados por Weber e Schmitt não se distanciam da realidade. Os grandes estadistas, os verdadeiros homens públicos, os empresários com sensibilidade social, os sindicalistas com capacidade de harmonização, os artistas com consciência e responsabilidade por seu papel de ícones comportamentais, não são a regra, porque a “ação racional em relação a valores” também não o é. Para isso seria necessário, como o fez João Ameal, um exame de consciência, sincero e diário sobre as próprias ações, não visando ao lucro, à vantagem pessoal, ao modo de subir, vencer, dominar ou prevalecer, mas ao juízo de Deus e dos homens sobre o que engrandece e enobrece o homem e o que o avilta e corrompe.

A História recorda sem número de exemplos emblemáticos de causas passionais explicativas dos eventos históricos, mais ou menos revestidas com a retórica de uma motivação racional, podendo-se referir, entre tantos, a paixão de Marco Aurélio (83-30 a.C.) por Cleópatra, levando à guerra civil contra Otávio Augusto; a inveja de Herodes (73-4 a.C.) em relação a Cristo, mandando matar as crianças de Belém; a depravação de Nero (37-68), desencadeando a primeira grande perseguição e martírio dos cristãos; a avareza de Felipe IV, o Belo (1268-1314), da França, perseguindo e destruindo a Ordem dos Templários, com base nas mais infames acusações falsas, para se apoderar de seus bens; a luxúria de Henrique VIII (1491-1547), que provocou o cisma da Igreja Anglicana; o caso de D. Pedro I (1798-1834) com a Marquesa de Santos, que o fez maltratar a Imperatriz D. Leopoldina, perdendo o apoio popular e tendo que renunciar ao trono; o ódio de Adolf Hitler (1889-1945) aos judeus, causa de seu extermínio em massa; a vaidade dos Generais George S. Patton (1885-1945) e Bernard L. Montgomery (1887-1976), sacrificando muitos soldados na disputa para ver quem chegaria primeiro a Berlim na 2ª Guerra Mundial, vindo a perder para os russos; a prepotência do General Leopoldo Galtieri (1926-2003), que levou a Argentina à fracassada Guerra das Malvinas contra os ingleses em 1982, custando tantas vidas a dois países cristãos…

Na literatura de ficção, o exemplo paradigmático do agir passional, pautado pela inveja, é o de Morgoth e Sauron, sempre empenhados em destruir tudo o que de bom faz Eru e os Vala, tal como contado nos livros “O Silmarillion” e “O Senhor dos Anéis”, de J.R.R. Tolkien. Impressiona pensar que, para alguns seres, o sentido da existência possa ser o de destruir o que outros constroem, apenas por ódio, inveja, ciúme ou desejo de vingança. O clássico de Alexandre Dumas, “O Conde de Monte Cristo” é outro exemplo emblemático de como o desejo de vingança que pauta a vida de muitas pessoas não realiza nem satisfaz ninguém, trazendo apenas mais tristeza e desconsolo, para si e para os outros.

3) Progresso, Estagnação, Decadência e Retrocesso

No fundo, o comportamento passional, justamente pela sua irracionalidade, não contribui diretamente para o progresso civilizatório da Humanidade. Pode, ocasionalmente, atendê-lo, de forma oblíqua e inesperada. No geral, conduz ao retrocesso e à decadência das civilizações, tal como ensinava Arnold Toynbee (1889-1975), catedrático de História da Universidade de Oxford, em seu “Um Estudo da História” (Martins Fontes – 1980 – São Paulo), no qual desenvolve sua concepção da gênese, desenvolvimento e declínio das civilizações, ligada às respostas criativas aos desafios que o meio, quer ambiental, quer humano, apresenta ao homem de cada época ou lugar.

Pelo mecanismo da mimese, os líderes (minoria criativa) atrairiam a massa social para sua imitação, sendo seguidos mecanicamente pela grande maioria não criativa. Nesse sentido, enquanto houver respostas criativas por parte da minoria dominante, que engendram novos desafios e novas respostas bem sucedidas, haverá desenvolvimento da civilização. A decadência das civilizações teria por sintoma básico o cisma social entre a minoria dominante, antes criativa, mas que agora tenta manter a liderança já não pelo prestígio e serviço, mas pela força, pois que preocupada apenas com a satisfação de seus vícios (decadência moral), e o proletariado interno, constituído pela massa social que antes seguia por mimese os líderes criativos e agora, despida de seus direitos básicos, incuba seus próprios líderes.

O comportamento meramente habitual, da maioria amorfa e mimética, que se deixa conduzir, sem refletir, por modismos e padrões estabelecidos pelos mass media, aferrada às rotinas e tradições, temerosa das mudanças e inovações que não sejam aplaudidas pelos meios de comunicação social, só conduz à estagnação da sociedade e das civilizações. Sobre ele nos fala, ainda que indiretamente, mas com expressões impactantes, Gaston Bachelard (1884-1962), catedrático de Filosofia da Ciência na Sorbone, em seu “A Formação do Espírito Científico” (1938):  “O espírito nunca é jovem quando se apresenta à cultura científica. Pelo contrário, é muito velho, porque tem a idade dos seus preconceitos”. Por isso completava, ironicamente: “Os grandes homens são úteis para a ciência na primeira metade de sua vida e nocivos na segunda metade”. E por quê? Porque se deixam levar por seus preconceitos e outras paixões menos nobres, como a inveja e a vaidade, para não admitirem soluções melhores do que as suas.

Apenas o comportamento racional, especialmente se ligado a valores, tem o condão de promover o progresso da sociedade e da civilização, uma vez que, para a razão, o que importa é a solução do problema, independentemente de quem a tenha proposto ou engendrado.

Dizia um amigo – e o repito amiúde – que os grandes problemas profissionais não são problemas técnicos, mas de relacionamento. Os problemas técnicos se estudam e se resolvem, com engenho e arte. O que atrapalha são as vaidades, suscetibilidades, invejas, ciúmes e outros defeitos que fazem com que as melhores soluções sejam, muitas vezes, preteridas, já que combatidas por aqueles que não as engendraram, e pelo simples fato de que a idéia não é própria, mas alheia.

A descontinuidade no campo das obras públicas, em regimes democráticos de alternância no poder, é sinal claro de que a motivação é passional e não racional, pois o bem não é bem em si mas quando feito pelo seu partido e o mal não é mal em si, mas quando praticado pelo adversário. Quantos não tem que dizer, ao assumirem cargos públicos eletivos: “Esqueçam o que eu disse, fiz ou escrevi…”. Sinal de incongruência entre discurso e vida.

Já nos regimes despóticos, a luta pelo formação de grupos ou partidos hegemônicos, não afeitos ao diálogo e ao pluralismo de idéias, as obras e realizações acabam sendo efêmeras, fadadas ao insucesso e à revisão, uma vez que a violência, física ou psicológica, não é apta nem a vencer, nem a convencer.

Se a História, como dizia Sir Hugh Trevor-Roper, é também o que não aconteceu, poderemos julgar muitos pelo que deixaram de fazer ou impediram que outros fizessem, escravos que foram de seus preconceitos, dos quais não conseguiram se libertar.

4) Conclusão

Heraldo das glórias de Portugal, Camões escrevia logo no início dos “Lusíadas”:

“E aqueles que por obras valorosas

se vão da lei da morte libertando,

cantando espalharei por toda parte,

se a tanto me ajudar engenho e arte”.

Não é demais pensar que obras valorosas só se realizam por um agir racional fundado em valores. Esse é o ideal a ser buscado e vivenciado.

Assim, voltando à concepção da História-Ética de João Ameal, concluímos que o juízo que se fará dos nossos atos, omissões e realizações, não deixará de levar em conta as motivações, nobres ou vis, altruístas ou egoístas, magnânimas ou mesquinhas, agregadoras ou partidaristas, bem como os resultados, positivos ou negativos, duradouros ou efêmeras, reais ou aparentes, de nosso decidir e agir.

Se conseguirmos realizar diariamente o exame de consciência que nos propõe, será possível reconhecer as motivações menos nobres e retificar o rumo de nossos projetos e planos, de modo a que possamos ser eficazes em nosso agir, em prol da sociedade em que vivemos, e não meramente usufrutuários do patrimônio cultural e econômico por outros edificado. Tudo dependerá da sinceridade do exame e da coragem na retificação. Nesse caso, o juízo da história será benévolo e justo para conosco, pois a dureza ficou por nossa conta ao nos julgarmos a nós mesmos.

Ives Gandra da Silva Martins Filho
Ministro do Tribunal Superior do Trabalho
Membro do Conselho Nacional de Justiça

Limitações e Defeitos: O Que Aceitar e o Que mudar

1) Introdução

Em geral, as pessoas tem uma visão equivocada do que sejam limitações e defeitos e também se portam de modo equivocado ao tratar com eles. Assim, de um lado, tentam superar suas limitações, querendo ser e chegar onde não tem condições de viver. Exemplos típicos são os daquele que aspira a um cargo além da sua envergadura (não tem perfil para aquilo, desconhece a matéria e nem terá tempo para estudar e especializar-se nela), daquele que gasta mais do que tem (sem aceitar a limitação dos seus haveres presentes ou de sua capacidade de gerar renda futura tão elevada) ou daquele que não aceita sua constituição física (e vive se quebrando, por praticar esportes radicais para seu biótipo ou faixa etária… o bendito futebol de final de semana).

Outro dia, quando me pediram, num hotel, o número do cartão de crédito, disse que não tinha. Só de débito. E comentei jocosamente, a latere com o colega que me acompanhava: “Isso é que é pobreza!”. Ele, no entanto, rapidamente retrucou: “Isso é que é riqueza! Você gasta o que tem. Eu, com meu cartão de crédito, gasto o que não tenho…”. Realmente, essa tem sido uma marca iniludível da sociedade moderna, que conduziu à crise financeira de setembro de 2008: crédito fácil no mercado, sem a verificação sobre se as pessoas tem condições de pagar os bens de consumo adquiridos, muitas vezes compulsivamente. O importante é produzir e consumir. O velho adágio cartesiano “je pense, donc je suis” foi substituído pelo moderno “I shop, therefore I am”.

Se é difícil aceitar as limitações, mais ainda é mudar os defeitos. Daí que, as pessoas tendam a aceitar seus defeitos com naturalidade, tirando-lhes importância, como se estivessem irremediavelmente incrustados em sua natureza. É o alcoólatra que diz só beber socialmente; é o mulherengo que repete constantemente a frase da Escritura – “é… a carne é fraca…” –; é o atrasado contumaz, sempre com sua desculpa pela importância do que estava fazendo antes ou sobre a conspiração cósmica contra sua pontualidade; é o eterno desordenado, que perde as coisas e esquece os compromissos, por não acreditar na eficácia da agenda e de seguir o conselho daquela professora de Francês: “Une place pour chaque chose; chaque chose a sa place…”.

Assim, Aceitam-se os defeitos e se rebelam contra as limitações, quando, conhecida a diferença entre limitações e defeitos, deveriam combater estes e aceitar aqueles. Onde está, pois, a diferença? São sinônimos ou tem sentidos distintos e equívocos esses dois termos?

2) As Limitações

As limitações dizem respeito à nossa constituição física e anímica: alto ou baixo, gordo ou magro, mais ou menos inteligente, temperamentalmente mais expansivo ou mais retraído, etc.

Costumam os moralistas distinguir entre temperamento e caráter. Enquanto o primeiro é o dado fático bruto, ou o constitutivo anímico de nosso ser, o segundo é o elemento construído, através da prática das virtudes.

Assim, há traços temperamentais que podemos trabalhar e ter sobre eles um certo domínio, enquanto outros estão tão arraigados que sempre os teremos como característica de nosso modo de ser.

Na série de romances de Patrick O’Brian sobre O Mestre dos Mares, os dois personagens principais, apesar de ingleses, ou seja, muito comedidos, contidos e discretos, têm temperamentos bem diferentes, que se complementam, gerando uma amizade íntima e forte.

Jack Aubrey, o comandante da Fragata Surprise, é todo exuberância, primarismo em seus sentimentos, fortes e extravasados nas ordens que dá e nos combates que trava. Já Stephen Maturin é o cirurgião do navio, filósofo e cientista, que mantém seu diário anotando suas mais profundas especulações sobre a condição humana.

No livro A Fragata Surprise (Record – 2007 – Rio de Janeiro), que é o terceiro da série, há uma passagem que mostra a diferença entre o estado bruto do temperamento e o caráter trabalhado, quando aquele aflora em momentos de maior tensão. Maturin é ferido num duelo e, após a operação em que é retirada a bala que se alojou abaixo de seu coração, entra em estado febril e delirante, destrancando sua mente mais secreta, o que faz Aubrey permanecer em seu leito de doente, pois não desejava que mais ninguém lhe ouvisse as confissões:

“Afora segredos oficiais, havia coisa que Jack não desejava que nenhum outro homem escutasse. Sentia vergonha de ouvi-las; para um homem orgulhoso como Stephen (e nesse sentido Lúcifer não chegaria aos pés dele) seria a morte saber que mesmo o amigo mais íntimo ouvira suas nuas afirmações de desejo e todas as suas fraquezas desnudas como no Dia do Juízo (…) Ele havia considerado Stephen o próprio filósofo, forte, praticamente intocado pelos sentimentos comuns, seguro de si e com toda a razão; não tinha maior respeito por nenhum homem da terra. Este Stephen, tão passional, tão totalmente subjugado por Diana e tão cheio de todo tipo de dúvidas o deixava pasmo; não estaria mais perdido se encontrasse a Surprise privada de suas âncoras, do lastro e da agulha magnética” (pgs. 382-383).

Uma das limitações que temos é, justamente, a constituição física, da qual um dos componentes é a idade: a cada fase da vida temos condições de fazer umas coisas e não de outras. A melhor descrição que conheço desse tipo de limitação etária é a que Marguerite Yourcenar (1903-1987) faz no primeiro capítulo de suas ”Memórias de Adriano” (Editora Nova Fronteira – 1980 – Rio de Janeiro, tradução de Martha Calderaro; publicação original de 1951), quando o velho Imperador Romano olha para trás, para o passado, pensando no que era capaz e fez ao longo da vida. Aos 10 anos, amante das corridas (“correr, mesmo no mais curto percurso, ser-me-ia hoje tão impossível quanto para a pesada estátua de um César”), aos 20 da caça; aos 30 da equitação (“A renúncia à equitação é sacrifício mais penoso ainda; uma fera não era senão um adversário; o cavalo era um amigo”); aos 40 da natação (“De cada arte praticada, retiro hoje um conhecimento que me compensa em parte dos prazeres perdidos”); aos 50 dos banquetes (“comer em excesso é hábito romano; eu, porém, fui sóbrio por volúpia”); mas aos 60 anos, pensando também nos amores de sua vida, olhava para traz, vendo a que estava limitado com sua idade e doença…“Confesso que a razão permanece confusa em presença do prodígio do amor, da estranha obsessão que faz com que essa mesma carne, que tão pouco nos preocupa quando compõe nosso corpo, limitando-nos somente a lavá-la, nutri-la e, se possível, impedi-la de sofrer, possa inspirar-nos uma tal paixão de carícias simplesmente porque é animada por uma personalidade diferente da nossa e porque representa certos traços de beleza sobre os quais, aliás, os melhores juízes não estariam de acordo” (…) “Tais conceitos sobre o amor poderiam conduzir-me a uma carreira de sedutor. Se não a empreendi foi, sem dúvida, por ter feito coisa melhor” (…). E termina por reclamar da insônia que o acossa: “De todas as venturas que lentamente me abandonam, o sono é uma das mais preciosas, embora seja das mais comuns também. Um homem que dorme pouco e mal, apoiado sobre dezenas de almofadas, medita com vagar sobre essa volúpia diferente”.

Na História Universal, um dos maiores exemplos de não aceitação das próprias limitações, levando-se toda uma nação à completa exaustão e destruição, foi a continuidade da 2ª Guerra Mundial pelos alemães, não obstante já estivesse perdida desde o desembarque na Normandia. A obstinação germânica, impulsionada pelo fanatismo de seu Führer, é bem descrita na obra-prima de estudo histórico do período “Ascensão e Queda do III Reich”, de William Shirer (Editora Civilização Brasileira S/A – 1962 – Rio de Janeiro, 2ª Edição, Tradução de Pedro Pomar, 4 Volumes) e fez com que a agonia alemã e dos povos submetidos ao seu jugo, além da perda de vidas de aliados e das potências do Eixo, se estendesse ainda por mais um ano.

Saber se dá para começar um projeto e quando está na hora de parar não é pouca ciência.

3) Os Defeitos

Os defeitos são ausência de virtudes que poderíamos e deveríamos ter. Os 7 pecados capitais elencam as raízes de nossos principais defeitos: soberba, luxúria, preguiça, ira, inveja, gula e avareza. São qualidades nocivas ao nosso comportamento, que nos envilecem e corrompem.

Logo no primeiro capítulo do livro “Caminho”, de S. Josemaría Escrivá, dedicado ao tema do “Caráter”, um dos primeiros pontos de meditação é bem incisivo e cai como luva para nossa reflexão sobre as limitações e os defeitos, o temperamento e o caráter:

“Não digas: “Eu sou assim…. são coisas do meu caráter”. São coisas da tua falta de caráter. Sê homem – “esto vir” (ponto 4).

Os defeitos ou vícios são hábitos maus adquiridos e que, uma vez arraigados, são mais difíceis de se tirar, mas não tarefa impossível. Três coisas são essenciais para se vencer um defeito e perder um vício:

a) reconhecer que se tem o defeito – acabar com os eufemismos ou com a visão benevolente que temos de nós mesmos (dar nome aos bois);

b) lutar contra o defeito – praticar as ações da virtude contrária ao vício (moderação no comer, para o guloso; generosidade para o avarento; contar até dez para o irado…);

c) não desistir diante das derrotas – sabendo seguir o conselho da música – “levanta, sacode a poeira e dá volta por cima” – ou o lema daquele general –“de derrota em derrota, até a vitória final!”.

Temos uma dificuldade enorme de reconhecer nossos defeitos: supervalorizamos nossas qualidades e depreciamos nossos defeitos. Luiz Marins, em sua obra de administração de pessoal (divertidamente ilustrada pelo Negreiros) chamada “Só Não Erra Quem Não Faz” (Landscape – 2008 – São Paulo), vai elencando em cada capítulo os vícios que desenvolvemos em nosso trabalho, que devemos combater e que podemos pendurar nos 7 vícios capitais:

a) inveja – hábito de reclamar de tudo e de todos; só falar mal dos outros; sempre com dó de si mesmo (vitimismo); criador de caso, que tudo contesta e com todos encrenca; volúvel que não dá segurança a ninguém;

b) ira – viver dando broncas e gritando com as pessoas; sempre mau-humorado, de cara fechada e de mal com o mundo;

c) orgulho – arrogância de se achar melhor do que os demais; não ouvir ou prestar atenção aos outros; não precisar de ajuda; tornar-se inacessível e indisponível, o que leva ao isolamento e ao fracasso; viver dando desculpas, por não reconhecer que também é falível; intolerância para com erros que todos podem cometer e que são a marca de quem está produzindo; falar muito e de forma empolada, complicada e sem objetividade; suscetibilidade enfermiça que se ofende por tudo e por nada;

d) preguiça – cansaço crônico para tudo o que não seja desfrutar da vida; o fulano que se fossilizou, ancorado no passado (só olha pelo retrovisor e bate no carro da frente) e não sabendo conviver com as inovações e com ter de aprender coisas novas (vive se economizando); pensar antes de falar; medo de se “sujar” e colocar a mão na “m”. o fulano que vive adiando os compromissos, não cumpre os prazos e horários, não decide nunca e está sempre atrasado;

e) avareza - desprezo pelos detalhes e pelas pessoas, esquecendo de dar retorno, de agradecer e de reconhecer os méritos alheios (não sabe elogiar); ativismo que estressa e que faz perder o sentido do descanso e da contemplação (não se tem tempo para os outros, só para a própria carreira e profissão, numa ambição doentia);

i) gula – desconta na comida as insatisfações em outros campos, virando uma bola;

j) luxúria – assédio sexual, do que não vê nas colegas e subordinadas pessoas mas apenas possíveis objetos de prazer (cantadas veladas ou explícitas); viciado em baixaria na internet…

O campo de luta é vastíssimo, se buscamos o aperfeiçoamento profissional e pessoal. Mas, para começar, seguir o conselho antigo de Sócrates: ”Conhece-te a mesmo”. E uma boa maneira, é, para quem está casado, perguntar ao outro cônjuge: ”Quais são os meus modos de ser que te chateiam?”. Saberão descrever os nossos defeitos melhor do que ninguém. É fácil ver os defeitos dos outros, porque não estamos imersos nele, mas com os nossos temos muita benevolência.

Até hoje não encontrei, nos clássicos da Literatura Universal, melhores exemplos descritivos dos recantos sombrios da alma humana, de suas motivações e fraquezas, do que dois grandes escritores russos: Fiódor Dostoiévski (1821-1881) e Leon Tolstoi (1828-1910).

Do primeiro, os romances que mais me atraíram, desde a juventude, foram “Os Irmãos Karamázovi” (Ediouro – 1981 – Rio de Janeiro, tradução de Natália Nunes e Oscar Mendes) e “O Idiota”. A diferença de temperamento dos 3 irmãos Karamázovi – Dimítri, o idealista violento e desregrado; Ivan, o intelectual ensimesmado e frio; e Aliócha, o religioso singelo e confiante (sem falar no filho ilegítimo Smierdiákov, corrompido parricida) – representando as três facetas que resumem a alma russa – a passional, a racional e a mística –, fazem com que, ao longo da estória, nos vamos identificando com um ou com outro, reconhecendo nos diálogos e reflexões dos personagens, nossas próprias angústias, dilemas e esperanças, verificando como umas podem ser superados e outras sublimadas bastando que se reconheça as fraquezas e se as queira vencer. Olhando de fora, parece tão fácil…

Em “O Idiota” (Editora 34 – 2002 – São Paulo, tradução de Paulo Bezerra), o que mais me impressionou foi o contraste entre a aceitação das próprias limitações por parte do personagem que dá nome ao livro, o Príncipe Liev Nikoláievitch Míchkin, com a epilepsia que o constrangia, e o orgulho profundo de Aglaia Ivánovna, que perde o seu amor, por não querer manifestá-lo primeiro. A densidade e complexidade das personalidades prende e extasia o leitor, identificando seus próprios modos de agir, pensar e sentir. Poderia ser diferente o desenlace do drama?

Drama não menos polarizante é o “Ana Karênina” de Tolstoi (Abril Cultural – 1971 – São Paulo, tradução de João Gaspar Simões), cuja primeira frase parece ser um resumo conpacto de todo o livro: “Todas as famílias felizes se parecem entre si; as infelizes são infelizes cada uma à sua maneira”. Haveria, então, um modo único de ser feliz, e muitos caminhos para a infelicidade?

Na concepção aristotélica de Eudaemonia (felicidade), ela estaria na excelência moral, que supõe a conjugação das quatro virtudes cardeais (prudência, justiça, fortaleza e temperança, com todas as demais que a elas se ligam). Assim, pela unidade da ordem moral, não é possível alcançar a excelência e a perfeição se se claudica numa delas. Assim, a felicidade supõe não abdicar da luta em nenhuma das frentes, enquanto a infelicidade varia segundo o front no qual se entregou os pontos. No caso de Ana Karênina, foi entregar-se à paixão extra-conjugal pelo Príncipe Vronski, não obstante a bela família que tinha, com filho e marido exemplares. O drama interior de uma alma dividida é bem retratado no livro.

Mas a obra-prima de Tolstoi é, indubitavelmente, “Guerra e Paz” (Editora Itatiaia – 1983 – Belo Horizonte, 2 volumes, Tradução de Oscar Mendes). Nele, o período napoleônico, sob o prisma da Rússia, é tão bem retratado, numa trama que envolve tantos ambientes e famílias inteiras de personagens principais (a edição inglesa da Britannica Great Books – 1952 – London, que elege este como principal livro de Tolstoi, traz logo no início um elenco das principais famílias e seus membros, para facilitar a vida do leitor), que, na época em que o li pela primeira vez, quando não passava dos 14 anos, tendo todos os atrativos de uma Fazenda em Avaré para aproveitar as férias escolares – cavalos, açude, futebol, campos e bosques, gado e plantação de café, animais domésticos e pomares –, lembro-me de passar horas a fio na rede da varanda, lendo as aventuras e desventuras do Conde Pedro Bezukhov e da jovem e inocente Condessa Natásha Rostóva, do valente Príncipe André Bolkonski e de sua adorável esposa Lisa Bolkonskaya, do inescrupuloso Príncipe Anatole Kurágin e de sua sensual irmã Helena Kurágina, imaginando em quadros as passagens de festas e batalhas, com conquistas e derrotas, tanto no campo bélico, quanto no afetivo, a ponto de pensar que a realidade estava ali, no livro, e não na natureza que tinha a meu dispor.

Pois bem, a lição que se tira desse romance histórico é a de que a vida é feita de muitas pequenas derrotas e vitórias, e que, se não se abandona a luta contra os próprios defeitos e se percebe a necessidade da mudança, o resultado final pode ser altamente positivo, de uma forma muito diferente do que imaginávamos no início. Assim, também a felicidade tem vias distintas, concretizando-se de modos nem planejados, nem sonhados.

4) O que mudar e o que aceitar

Dizem que as expectativas no casamento são diametralmente opostas entre marido e mulher, e as frustrações decorrem da ausência de realismo nesse campo. Enquanto o homem espera que a mulher não mude na sua formosura, a mulher espera que o marido mude nos seus defeitos.

Esse é um bom exemplo da diferença entre limitações e defeitos sob o prisma da mudança: não dá para esperar que a beleza física permaneça indefinidamente (trata-se de uma limitação e contingência da natureza e do tempo), como também não dá para esperar que os defeitos arraigados se superem da noite para o dia (mas, havendo disposição, se consegue mudar).

Há uma frase lapidar no filme “Melhor é Impossível” (1997), com Jack Nicholson e Helen Hunt, que dá a pista do mecanismo capaz de provocar uma mudança no modo de ser, de modo a se vencer os defeitos temperamentais. É a que o escritor maníaco diz para a garçonete com a qual começa uma verdadeira amizade: “Você é uma pessoa que faz a gente querer ser melhor!”.

Ou seja, o amor é capaz de promover a mudança, por apresentar um motivo forte para ser diferente, de modo a agradar a quem se ama. Por outro lado, o amor faz aceitar as limitações de quem se ama, pois se ama do modo que é.

Chesterton fala-nos do paradoxo desse aceitar e querer mudar:

“Ninguém duvida que o homem comum consiga harmonizar-se com este mundo, no entanto, não basta que tenhamos força suficiente para nos harmonizarmos com ele: é preciso que tenhamos força bastante para fazê-lo progredir. Poderá o homem odiá-lo o bastante para mudá-lo e, ainda assim, amá-lo o suficiente para julgá-lo merecedor de mudança?” (“Ortodoxia”, LTr – 2001 – São Paulo, pg. 99).

Trata-se, portanto, de amar tanto, que se quer o que é defeituoso por si mesmo, mas se quer também que seja melhor.

Por um lado, quanto às limitações, são um dado da natureza que devemos aceitar e começar a trabalhar a partir dele. Assim, se temos pouca cabeça, teremos que compensar com mais estudo o que outros alcançam com a simples assistência às aulas. Se tempos a tendência fisiológica a engordar, podemos fazer regimes, mas sempre sujeitos a mais baixos que altos no controle do peso. Se a pessoa nasceu com algum defeito físico, não dá para desconversar e tentar viver se enganando ou complexado porque se é limitado de cabeça, careca, feio, baixinho, gordo, diabético, hipertenso, etc.

Mas os defeitos, estes sim, podemos e devemos combater. Não adiante querer mudar o mundo, com tantos projetos de reforma social, se não se está disposto a mudar o próprio interior. Os grandes problemas sociais não são problemas de estruturas, mas de abandono da luta interior por ser melhores. Em vez da revolução exterior, promover em primeiro lugar uma revolução interior que nos faça melhores homens e cidadãos.

Um dos romances mais pessimistas que já li foi ”Os Buddenbrook – Decadência duma Família” (Círculo do Livro – 1975 – São Paulo), de Thomas Mann (1875-1955). Retrata 50 anos da História da Alemanha, a partir de 1835, sob a ótica das vicissitudes de uma família da burguesia germânica. O que impressiona é ver os defeitos de criança dos personagens sendo carregados e agravados pela vida afora. Tony (Antoniette) Buddenbrook mantém seu temperamento difícil de conviver até o final do livro, acabando com seu casamento, justamente porque nunca houve preocupação por mudar e melhorar.

É possível mudar! Mais: o temperamento é apenas o ponto de partida. Explorar seus aspectos positivos (interatividade, afabilidade) e combater seus aspectos negativos (passividade, irascibilidade) é a nossa tarefa na vida.

No mundo empresarial de uma economia globalizada e de extrema competitividade , o segredo do sucesso e a da sobrevivência está na capacidade de mudar e com rapidez: reconhecer os erros, ver as escleroses e perceber o que há de novo exigindo respostas criativas para os desafios do meio (cfr. Arnold Toynbee, Um Estudo da História, Ed. UnB-Martins Fontes – 1987 – Brasília).

Há um autor que aprecio especialmente por seus romances históricos. Trata-se de Louis De Wohl, anglo-germânico, a quem o Papa Pio XII, conhecendo seu gênio literário, propôs escrever biografias de santos, mostrando a vida heróica de homens e mulheres empenhados em viver o ideal cristão nas mais distintas condições e épocas.

Louis De Wohl seguiu o conselho e, graças a ele, temos uma coleção fantástica de biografias romanceadas de grandes santos, onde, a par dos personagens históricos e os dados verídicos, há os personagens de ficção, cuja trama prende do começo ao fim. Cada época é bem retratada é se fixam os acontecimentos que nela se deram. As lutas dos personagens para mudar e vencer seus defeitos fica bem retratada, em derrotas e vitórias, como se pode ver em (a edição brasileira é das Paulinas, mas se encontra esgotada, a inglesa é da J.B. Lippincott Company):

a) “La Lanza – Historia del Centurión Longinos” (Palabra – 1995 – Madrid; original “The Spear”);

b) “El Mensajero del Rey – Novela sobre San Pablo y su Tiempo” (Palabra – 1991 – Madrid; original “The Glorious Folly”);

c) “El Arbol Viviente – Historia de la Emperatriz Santa Elena” (Palabra – 1986 – Madrid; original “The Living Wood”);

d) “Venciste, Galileo! – Historia del Emperador Juliano el Apóstata” (Palabra – 1997 – Madrid; original: “Imperial Renegade”);

e) “Atila – El Azote de Dios” (Palabra – 1997 – Madrid; original: “Attila The Hun”);

f) “Corazón Inquieto – La Vida de San Agustín” (Palabra – 1998 – Madrid; original: “The Restless Flame”);

g) “Ciudadelas de Dios – Novela sobre San Benito de Nursia y su Tiempo” (Palabra – 1997 – Madrid; original: “Citadel of God”);

h) “El Mendigo Alegre – Historia de San Francisco de Asis” (Palabra – 1997 – Madrid, original: “The Joyful Beggar”);

i) “La Luz Apacible – Novela sobre Santo Tomás de Aquino y su Tiempo” (Palabra – 1996 – Madrid; original: “The Quiet Light”);

j) “As Asalto del Cielo – Historia de Santa Catalina de Siena” (Palabra – 1988 – Madrid; original: “Lay Siege to Heaven”);

k) “Juana de Arco – La Chica Soldado” (Palabra – 2005 – Madrid; original – The Girl Soldier”);

l) “El Hilo de Oro – Vida y Epoca de San Ignacio de Loyola” (Palabra – 1989 – Madrid; original: “The Golden Thread”);

m) “El Último Cruzado – La Vida de Don Juan de Austria” (Palabra – 1997 – Madrid; original: “The Last Crusader”).

Alessandro Manzoni (1785-1873), outro mestre da Literatura Universal, tem no romance “Os Noivos” (Abril Cultural – 1971 – São Paulo, Tradução de Marina Guaspari, publicado originalmente  em 1824) uma das melhores descrições da mudança de um personagem que o escritor, jocosamente, designa como O Inominado, para preservar sua imagem, já que, sendo o Senhor Todo-Poderoso da Região de Milão, espezinhando e oprimindo ricos e pobres, passa por um processo de conversão que o faz sair de seu orgulho, procurar o Cardeal, S. Carlos Borromeu (1538-1584), e tentar reparar por sua vida pregressa, especialmente as perfídias que cometera com os noivos Renzo e Lúcia…

Exemplo marcante, no entanto, e mais realista, é o retratado no clássico de Henry Morton Robinson (1898-1961), “O Cardeal” (Editora Mérito S/A – 1964 – São Paulo, 7ª edição, tradução de José Geraldo Vieira), que conta a vida de Stephen Fermoyle, sacerdote norte-americano recém ordenado em Roma, e todos os dramas interiores de quem quer ser fiel à sua vocação, não obstante as tentações que sofre em todos os campos das fraquezas humanas, desde o atrativo feminino, à discussão do aborto em família, às perseguições da Ku-Kux-Klan, à agruras de um pároco de cidade pequena, às batalhas no campo das idéias para defender, já como bispo, a fé e a moral num mundo em transição.

5) Conclusão

A sociedade só melhorará se cada um de seus membros, em vez de reclamar das estruturas sociais, estiver decidido a mudar interiormente. Os defeitos dos outros e das estruturas sociais estão patentes para nós. Podemos apontá-los e descrevê-los com pormenores e abundância de exemplos. O que não vemos ou não queremos mudar e nosso modo chato, arrogante, mexeriqueiro, sensual, desordenado, intemperante e acomodado de ser.

Se a mudança não é consciente, são os fatores externos que prevalecerão e mudarão para pior nosso ambiente e condições de vida. Eric Durschmied titulou de modo interessante o livro em que narra as grandes batalhas da humanidade: “Fora de Controle – Como o Acaso e a Estupidez Mudaram a História do Mundo” (Ediouro – 2003 – Rio de Janeiro, tradução de Lólio Lourenço de Oliveira).

Nesse livro, ao explicar as causas da derrota francesa na Batalha de Azincourt (25/10/1415), na qual brilhou a coragem e humildade de Henrique V, atribuía-a principalmente à prepotência francesa, não sabendo controlar nem a cabeça, nem o coração. Assim se pode resumir a situação e o desenrolar dos acontecimentos, que fizeram a França perder também a 2ª fase da Guerra dos 100 Anos:

a) exército inglês comandado pelo rei Henrique V (28 anos) contava com apenas 5.000 homens (1.000 cavaleiros e 4.000 arqueiros), famintos e fatigados da batalha de Harfleur e da marcha, tendo pela frente a fina nata da cavalaria pesada francesa (10.000 cavaleiros e 15.000 infantes), comandados pelo Condestável da França Charles D’Albret (Conde de Dreux).

b) Vendo a desproporcional  inferioridade inglesa, os nobres franceses decidem atacar, sem levar em conta que o terreno fora recém arrado e chovera a noite inteira.

c) Os arqueiros ingleses provocaram suficientemente os franceses, que estes desencadearam a carga de cavalaria no meio da lama, inviabilizando o impacto.

d) Os arqueiros ingleses, mirando nas cavalgaduras, derrubaram os cavaleiros franceses, que ficaram totalmente vulneráveis com suas pesadas armaduras (massacre da nobreza francesa).

e) Fluellen de Gales, a mando de Henrique, mata todos os prisioneiros franceses (após saber do ataque francês à retaguarda inglesa, matando os pagens e carregadores, infringindo as leis de guerra da época), para poder enfrentar a infantaria que vinha.

Antes de ler o livro de Eric Durschmied, nunca entendera como os ingleses puderam superar uma desvantagem de 5 para 1. Mas Shakespeare retrata bem o espírito inglês na batalha, um tanto épico, mas suficientemente esclarecedor da vantagem de valorizar os subordinados, descendo do pedestal do orgulho. São estimulantes as palavras que Shakespeare coloca na boca do Rei, no discurso que precede o combate (“King Henry V”, Britannica Great Books – 1952 – London, Act 4 – Scene 3 – English Camp, before the battle of Agincourt):

Westmoreland

O that we now had here
But one ten thousand of those men in England
That do no work to-day!

King Henry

What’s he that wishes so?
My cousin Westmoreland? No, my fair cousin:
If we are mark’d to die, we are enow
To do our country loss; and if to live,
The fewer men, the greater share of honour.
God’s will! I pray thee, wish not one man more.
By Jove, I am not covetous for gold,
Nor care I who doth feed upon my cost;
It yearns me not if men my garments wear;
Such outward things dwell not in my desires:
But if it be a sin to covet honour,
I am the most offending soul alive.
No, faith, my coz, wish not a man from England:
God’s peace! I would not lose so great an honour
As one man more, methinks, would share from me
For the best hope I have. O, do not wish one more!
Rather proclaim it, Westmoreland, through my host,
That he which hath no stomach this fight,
Let him depart; his passport shall be made
And crowns for convoy put into his purse:
We would not die in that man’s company
That fears his fellowship to die with us.
This day is called the feast of Crispian:
He that outlives this day, and comes safe home,
Will stand a tip-toe when the day is named,
And rouse him at the name of Crispian.
He that shall live this day, and see old age,
Will yearly on the vigil feast his neighbours,
And say ‘To-morrow is Saint Crispian:’
Then will he strip his sleeve and show his scars.
And say ‘These wounds I had on Crispin’s day.’
Old men forget: yet all shall be forgot,
But he’ll remember with advantages
What feats he did that day: then shall our names.

Familiar in his mouth as household words
Harry the king, Bedford and Exeter,
Warwick and Talbot, Salisbury and Gloucester,
Be in their flowing cups freshly remember’d.
This story shall the good man teach his son;
And Crispin Crispian shall ne’er go by,
From this day to the ending of the world,
But we in it shall be remember’d;
We few, we happy few, we band of brothers;
For he to-day that sheds his blood with me
Shall be my brother; be he ne’er so vile,
This day shall gentle his condition:
And gentlemen in England now a-bed
Shall think themselves accursed they were not here,
And hold their manhoods cheap whiles any speaks
That fought with us upon Saint Crispin’s day”
(grifos nossos).

Quando o heraldo francês aparece no campo inglês para propor a rendição e um resgate pelo Rei, este responde apenas: “Outro resgate, meu gentil arauto, não heis de obter além destes meus membros, que, se ficarem como tenho idéia de deixá-los, bem pouco hão de valer”. Ou seja, o desprendimento de Henrique em relação ao seu destino, desde que lutasse com denodo, foi um dos segredos da vitória. Repetindo Luiz Marins, não podemos nos economizar: para mudar o mundo para melhor, temos que começar a árdua tarefa de mudar-nos a nós mesmos, que assim, pelo exemplo e pela palavra poderemos contagiar muitos com nossos ideais, sonhos e esperanças. Assim, após a batalha da nossa vida, poderá ser dito para cada um de nós o que o heraldo francês disse ao Rei Henrique: “The day is yours” (linguagem da época que apontava para quem havia ganhado a batalha). E poderemos cantar, como Henrique V fez com seus soldados, após tão memorável vitória: “Non nobis, Domine, non nobis, sed nomine tuo da gloriam!”.

Seres Fantásticos na Literatura: Os Elementais

Se a literatura de fantasia é herdeira direta das mitologias e dos contos folclóricos, não é de se estranhar que ela seja o hábitat natural de centenas de criaturas com que a imaginação humana povoou os mundos ficcionais e até o nosso.

Fadas, gnomos, sereias e outros tantos seres são comuns nas sagas fantásticas e percorreram um longo caminho desde as narrativas ancestrais até o surgimento dos adesivos que, no final do século XX, muita gente usou em seus carros (traziam os dizeres “Eu acredito em duendes”. Havia também os adesivos que diziam “Eu atropelo duendes”, mas isso não interessa a este artigo…).

O que desejamos é verificar a origem e a trajetória de alguns desses personagens míticos, pois mesmo que o interesse das pessoas pelos chamados seres elementais seja efêmero – uma moda que vem e vai – eles permanecem firmes e fortes na literatura.

O termo elemental vem, é claro, da palavra elemento – e da teoria da filosofia pré-socrática de que o mundo seria composto por quatro elementos básicos: ar, água, terra e fogo. O filósofo Empédocles, que viveu em meados do século IV antes de Cristo, pregou que esses quatro elementos ou raízes compunham todas as coisas, e eram animados por duas forças contrárias, o amor e o ódio (poderíamos chamá-las de força de atração e força de repulsão).

É provável que tenha sido devido a essa teoria, aceita por séculos, que surgiram nas histórias humanas os seres ligados às forças elementais. Muitos pesquisadores do passado encontravam narrativas supostamente verídicas sobre eles e às vezes provas físicas de sua existência – mas passamos a observar a sistematização dos quatro tipos dessas criaturas apenas em tempos mais modernos. Pensadores ligados às doutrinas de Paracelso, no Renascimento, e da Teosofia e Antroposofia, dos séculos XIX e XX, afirmaram a realidade da sua existência e os estudaram mais a fundo. Segundo suas crenças, que têm muito de poéticas, mas contam com testemunhos de pessoas que juram terem tido contato com tais espíritos da natureza, eles estariam divididos em:

Elementais da Terra – Os gnomos, que viveriam entre as rochas do subsolo. Podemos classificar também entre esses elementais os trolls, que se seriam feitos da matéria da terra.

Elementais do Fogo – as salamandras; a tradição diz que elas viveriam nas chamas. Talvez possamos incluir nesta categoria os dragões, que em algumas mitologias cospem fogo.

Elementais da água – seres que habitariam os rios e mares: ondinas, náiades, sereias, tritões e vários outros.

Elementais do ar – silfos e sílfides. Os gênios, elfos e fadas também podem pertencer a este elemento, pelo fato de serem alados ou terem poderes sobre o elemento aéreo.

São inúmeros os contos maravilhosos e mitos “estrelando” criaturas elementais: fadas, devas, djins, silfos, sátiros, faunos, elfos, leprechauns, anões, trolls, kobolds, brownies, nixies, pixies, gobelins, povo do musgo, gnomos, selkies, ondinas e tantos outros. A maioria deles aparece pela primeira vez em contos dos Celtas.  Na Mitologia Grega são descritas as ninfas dos rios e das fontes, além dos seres aquáticos que formavam o cortejo de Poseidon e de sua esposa Anfitrite. Vêm da Hélade também as narrativas sobre espíritos das montanhas ou das matas, as dríades e hamadríades e outros seres que interagiam com deuses e mortais. Em mitos Nórdicos e Germânicos os elfos, anões e seres encantados são constantes. E em histórias populares da época medieval vamos encontrar esses mesmos seres, às vezes com outros nomes, sendo alguns deles já demonizados – pois, após o advento do Cristianismo, a maioria dos seres mágicos em quem o povo acreditava foram chamados demônios e diabretes, ligados às forças infernais, com o objetivo claro de afastar as pessoas das tradições pagãs e assim obter mais fiéis – e, por consequência, mais poder.

Autores como William Shakespeare utilizaram a riqueza das tradições Celtas em suas peças, e, no Romantismo, corrente sob cuja influência deu-se o nascimento da novela gótica, temos sempre referências não apenas aos seres mitológicos, mas ainda a criaturas assustadoras e fantasmagóricas. Já na Literatura de Fantasia e Infantil/Juvenil moderna, mais desapegada da necessidade de ater-se apenas à realidade, os elementais voltaram a mover-se com liberdade. Nas prateleiras das livrarias, hoje em dia, encontraremos de tudo: desde os Nibelungos que forjavam metais em cavernas até nobres Elfos de inspiração Tolkieniana e, para nossa alegria, Sacis, Curupiras, Igpupiaras, M’bois e outros habitantes fantásticos das terras brasileiras, sem nos esquecermos dos devas de origem africana, conhecidos como Orixás, igualmente ligados às quatro forças naturais.

Veremos, então, que – como acontece com inúmeros elementos literários – os personagens encantados e encantadores oriundos desses reinos da Natureza podem variar na forma, porém habitam obras vindas de todos os cantos do planeta, sem preconceitos.

É interessante verificar em quantas culturas os elementais da terra são considerados trabalhadores dos metais e das gemas, ligados à ideia de riquezas vindas do solo. São seres telúricos, encarnam as forças da terra. O nome gnomo vem do grego gnosis, conhecimento, talvez pela suposição de que eles saberiam segredos sobre a localização de metais preciosos nas profundezas em que vivem. Foram descritos de muitas maneiras, sendo a descrição mais comum a européia: homenzinhos barbudos e rudes. Como os anões de Tolkien, os Nibelungos eram artífices de metais e preferiam habitar subterrâneos. Assim também são os anões de sagas como Eragon, mas bem mais espertos que os gnomos estúpidos e que vivem discutindo nas histórias de Artemis Fowl (veja abaixo, em Leituras sugeridas). Nos livros de Eoin Colfer, há distinção entre gnomos e anões; estes são descritos como seres da terra, que possuem o maxilar desencaixável para mastigar terra e pedras, capazes de metabolizar esse material ao abrir túneis, expelindo-o, após ser processado, pelas vias naturais… Já nas histórias de Harry Potter os gnomos têm caráter de praga doméstica nos jardins dos bruxos ingleses! Aí, são meros animais que empesteiam jardins. E, na tradição africana, consta que os Orixás relacionados ao elemento terra seriam Oxalá e Xangô.

A relação dos humanos com os elementais da água é bem curiosa. Já citamos os espíritos dos rios e fontes gregos, bem como os tritões que acompanhavam o cortejo de Poseidon. Também da água vêm monstros, demônios e as sereias encantadoras, cujo canto atraía os marinheiros, fazendo-os naufragar, presentes em narrativas antiqüíssimas como a Odisseia de Homero, e descritas de formas diversas, tendo corpos de pássaro ou de peixe. Note-se que na língua inglesa se distingue as sirens (sirenas ou sereias) das mermaids (donzelas do mar). Andersen povoa seu conto “A Pequena Sereia” com todo um povo que habitaria o fundo do mar. Nas “Crônicas de Spiderwick” (veja também em Leituras sugeridas) é dito que elas são seres perigosos pertencentes à família Sirenidae, muito ameaçados pela poluição dos mares. O autor ficcional os descreve em várias espécies, de acordo com o mar que habitam. Já para J. K. Rowling, o povo das águas se chama Merpeople, os Sereianos. Viveriam em todo o planeta, preferindo ser contados entre os animais do que entre os humanóides. Com eles foram assimilados os selkies da Escócia (às vezes chamados homens-foca) e os merrows da Irlanda. Por mais imaginárias que soem suas histórias, contudo, existem até narrativas reais de sereias que teriam vivido entre os humanos! E nas histórias africanas, os Orixás da água seriam Iemanjá (mar), Oxum (rios e cachoeiras) e Nanã (chuva).

Também a respeito dos mais conhecidos elementais do fogo, as salamandras, há referências em bestiários medievais e em obras de não-ficção. Alguns dizem que elas são pequenos dragões; Santo Agostinho cita animais que vivem no fogo, querendo provar que os corpos humanos poderiam viver no fogo do inferno sem serem consumidos… E tanto Aristóteles quanto Leonardo da Vinci atestam a existência real desses animais. Marco Polo até cita ter visto em suas viagens tecidos de pele de salamandra, que não se queimavam no fogo – embora, na verdade, desconfia-se que esses tecidos eram feitos de amianto.

Voltando à ficção, para os bruxos ingleses da saga de Harry Potter as salamandras são lagartos que moram no fogo e se alimentam de chamas, mas fora deles só sobrevivem se comerem pimenta. Considera-se que seu sangue tem propriedades curativas. Sua família, segundo Spiderwick, é a Flammieuntidae, e sua espécie é classificada como Salamander flammulaticus. Quanto aos Orixás, os que se ligam ao fogo são Ogun e Xangô.

Aos elementais do ar, porém, é mais difícil atribuir uma vida “real”. Silfos e elfos fariam parte desse reino, e habitariam montanhas, ventos ou nuvens. Naturalmente, essa classificação está mais ligada às tradições esotéricas e teosóficas do que à mitologia, que via os elfos como meros duendes, mais próprios ao elemento terra. A própria palavra “elfo” vem da mitologia germânica, que acreditava serem eles pequenos, sinistros e misteriosos, dados a pregar peças nos humanos (Sacis?… Embora o cachimbo desses seres sugira sua ligação com o elemento fogo…). Os elfos se misturaram às tradições Celtas provavelmente via cultura Saxã, mesclando-se às narrativas destes sobre povos feéricos. Consta que seu nome vem da palavra alemã alp, pesadelo; na Idade Média acreditava-se que os pesadelos eram culpa de elfos oprimindo o peito de quem dormia para causar-lhes sonhos maus – o equivalente europeu do Jurupari ou da Pisadeira, do folclore brasileiro.

Quando J.R.R.Tolkien, porém, fez uso de tal nome, os elfos se tornaram uma raça anterior à humana; mais nobre e ligada aos destinos da Terra. Eles teriam surgido por criação de Eru Ilúvatar, sendo seus Primogênitos; acordaram sob as estrelas de Elbereth antes de existir o Sol ou a Lua. Criaram a escrita, as artes e todas as coisas belas que antecederam as realizações humanas.

Na série Artemis Fowl, baseada em cultura irlandesa, mas com um toque de tecnologia, os elfos voltaram a ser pequenos e mágicos – muito sarcásticos… enquanto que, para Arthur Spiderwick, personagem das Crônicas, eles seriam pertencentes à família dos Circulifestidae, chamados Wood Elves (Elfos das Florestas), e classificados como Dryas nemorivagans, parentes das Dríades e Hamadríades da mitologia grega. Na mitologia africana, temos Iansã como o Orixá que rege os ventos e os ares.

Autores atuais como Neil Gaiman e Terry Pratchett utilizam esse universo feérico em suas obras. Mas se Pratchett tem uma abordagem satírica, transferindo para o Mundo do Disco tradições de nosso mundo, Gaiman nos presenteia com histórias em que elementais e fadas estão entre nós, em sua forma céltica, poética e às vezes tenebrosa. Bons exemplos são a história em quadrinhos “Sonho de uma noite de verão”, revisitando o clássico de Shakespeare, ou o livro “Stardust”, em que os Thorn atravessam o Muro que separa a cidade de Wall da terra em que Faerie acontece.

Quanto aos dragões… bem, esses seres maravilhosos merecem um artigo só para eles.

Nossa conclusão, após esta pequena viagem pelo mundo dos elementais, é que a contínua popularidade da literatura que os inclui é sinal de que esses seres continuarão por muito tempo a povoar – se não o nosso mundo – as nossas histórias e, consequentemente, os nossos sonhos!

Leituras sugeridas:

Animais Fantásticos e onde habitam – Newt Scamander (J.K. Rowling). SP: Rocco, 2001

As Crônicas de Spiderwick – Tony DiTerlizzi e Holly Black. Rio de Janeiro: Rocco (5 volumes, com títulos e datas de publicação variadas).

O Conto de Fadas – Nelly Novaes Coelho. São Paulo: DCL, 2003.

O Encontro com os Elementais – Cristina Magalhães. Rio de Janeiro: Ed. Objetiva, 1992.

O Livro dos seres imaginários – Jorge Luís Borges. SP: Companhia das Letras, 2008.

Artemis Fowl, o menino prodígio do crime – Eoin Colfer. Rio de Janeiro: Record, 2001.

E mais: Obras variadas de J. R. R. Tolkien, J.K. Rowling e Neil Gaiman

As Grandes Amizades

I) INTRODUÇÃO

Este é o título do mais conhecido livro escrito por Raïssa Maritain (1883-1960), esposa do notável filósofo francês Jacques Maritain (1882-1973), falando da intelectualidade católica francesa do começo do século XX e da estreita amizade que existia entre seus integrantes (cfr. “As Grandes Amizades” , Agir – 1947 – Rio de Janeiro, tradução de Josélia Marques de Oliveira, publicado originalmente em 1941). Obra que tanto influenciou a minha juventude e a do Ministro Antonio José de Barros Levenhagen, com quem ingressei no Tribunal Superior do Trabalho em 1999, iniciando fraterna amizade.

O que unia tão intensamente aqueles homens e mulheres de que Raïssa Maritain nos conta a história não era apenas compartilhar os mesmos gostos e preferências. Isso explica as amizades. O que faz nascer as Grandes Amizades é a comunhão dos mesmos valores intelectuais e morais e o desejo de difundir a fé que se possui.

É o que explica as grandes amizades decantadas na literatura, entre John Ronald Reuel Tolkien (1892-1973) e Clive Staples Lewis (1898-1963), entre Gilbert Keith Chesterton (1874-1936), Hilaire Belloc (1870-1953) e George Bernard Shaw (1856-1950), entre Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944), Henri Guillaumet (1902-1940) e Jean Mermoz (1901-1936)… entre o elfo Legolas e o anão Gimli: algo inimaginável (dentro da lógica do mundo fantástico da Terra Média concebido por Tolkien), ao ponto daquele conseguir introduzir este na Terra Abençoada de Aman, em face da profunda amizade que se estabeleceu entre ambos (cfr. J.R.R. Tolkien, O Senhor dos Anéis, Volume Único, Martins Fontes – 2001 – São Paulo, pg. 1145).

II) A AMIZADE NA VISÃO INTUITIVA DE SAINT-EXUPÉRY

O nascer de uma amizade é bem descrito e radiografado por Antoine de Saint-Exupéry, no estilo platônico dos diálogos, em sua pequena grande obra “O Pequeno Príncipe” (Gallimard – 1946 – Paris; Agir – 1979 – Rio de Janeiro), especialmente no Capítulo XXI, em que se desenvolve o diálogo entre o Pequeno Príncipe e a Raposa (aqui transcrito em seus melhores momentos):

“E foi então que apareceu a raposa:

– Bom dia, disse a raposa.

– Bom dia, respondeu polidamente o principezinho (…) Quem és tu? (…)

– Sou uma raposa, disse a raposa.

– Vem brincar comigo, propôs o principezinho. Estou tão triste…

– Eu não posso brincar contigo, disse a raposa. Não me cativaram ainda (…)

– Que quer dizer cativar? (…)

– Tu não és daqui, disse a raposa. Que procuras? (…)

– (…) Eu procuro amigos. Que quer dizer cativar?

– É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa criar laços.

– Criar laços?

– Exatamente, disse a raposa. Tu não és ainda para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo…

– Começo a compreender, disse o principezinho. Existe uma flor… eu creio que ela me cativou…

– Vês, lá longe os campos de trigo? (…) O trigo é para mim inútil (…) Mas tu tens cabelos cor de ouro. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará lembrar-me de ti (…) Por favor… cativa-me!

– Bem quisera, disse o principezinho, mas eu não tenho muito tempo. Tenho amigos a descobrir e muitas coisas a conhecer.

– A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. Os homens não têm mais tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não tem mais amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me!

– Que é preciso fazer?, perguntou o principezinho.

– É preciso ser paciente, respondeu a raposa. Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. Eu te olharei com o canto do olho e tu não me dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia, te sentarás mais perto… (…) Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três começarei a ser feliz. (…) Descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração… É preciso ritos.

– Que é um rito? Perguntou o principezinho.

– É uma coisa muito esquecida também, disse a raposa. É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias; uma hora, das outras horas.

(…) Assim, o principezinho cativou a raposa. Mas, quando chegou a hora da partida, a raposa disse:

- Ah, eu vou chorar (…) Adeus, disse a raposa. Eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos. (…) Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.

O principezinho, como se vê, procura amigos porque está triste. A amizade é, em primeiro lugar, fonte de alegria e de consolo. É com os amigos que nos podemos abrir e desafogar, encontrando quem nos quer bem e compreende. Temos necessidade deles. Vae solis, diziam os romanos: ai dos sós!

Mas para isso é preciso cativar (apprivoiser) os amigos, ganhar as pessoas, transformá-las de conhecidas em amigas. Senão, não é possível essa abertura, confiança e procura mútua. Para isso, a raposa ensina o caminho: é preciso ter paciência e investir tempo. Sem doação de nós mesmos aos outros, não é possível fazer amigos. Doação desinteressada, que só quer o bem do outro. E, como dizia S. João da Cruz, onde não há amor, se coloca amor e se tira amor.

O diálogo no original é atrativo e vale a pena frisar suas frases antológicas:

– Je ne puis pas jouer avec toi, dit le renard. Je ne suis pas apprivoisé (…).

- Qu’est-ce que signifie apprivoiser?

– C’est une chose trop oubliée, dit le renard. Ça signifie créer des liens (…) Si tu m’apprivoises, nous aurons besoin l’un de l’autre. Tu seras pour moi unique au monde. Je serai pour toi unique au monde…

A necessidade mútua estabelece a procura do amigo nos momentos de alegria e de tristeza, porque a alegria compartilhada aumenta e a tristeza dividida diminui.

Os amigos são únicos: os grandes amigos se contam nos dedos das mãos, e é capaz de sobrar dedos. Como o bom vinho, quanto mais antiga, mais saborosa é a amizade, e mais fraterna.

Correndo o risco de pecar por omissão (como sempre ocorre nas nominata de sessões de posse e cerimônias solenes, e por isso já pedindo veniam et poenitentiam), posso referir as amizades de há 25 anos como as de Paulo, Gilmar, Guilherme… Há as de há 15 anos como as de Gáudio, Leo, Michelle… Há os amigos de infância (meio esquecidos, pela distância): Robson e Fernandinho. Há os novos amigos daqui, como Renato, Luiz, Fran & Saul, Mari, Pedro, Marcelo, Lídia & Gabriel, José Antônio… Há os novos amigos de alhures como Roberto, Vinícius, Mônica

Todos, no dizer de Nelson Rodrigues, são velhos amigos, pois a amizade não se mede só pelo tempo, mas pela intensidade e profundidade. Buscamos sempre novos amigos, não só se os antigos não correspondem ou se distanciam (o que ocorre não poucas vezes e determina o coeficiente de reposição…), mas pela tendência humana natural a des amis a découvrir et beaucoup de choses a connaître, como dizia o Petit Prince. O ideal seria fazer de cada colega um amigo, de verdade, querido, compreendido. Isso depende, no entanto, da correspondência do outro e do tempo de que dispomos para o convívio mais próximo.

Em nossa Corte, o TST, criou-se o costume de almoçarmos juntos durante a semana. Compartilhar as refeições é das coisas que mais unem os homens. Não é por menos que, apesar de alguns debates mais acalorados que possam surgir durante os julgamentos, o reencontro na hora do pranzo recompõe os valores e se percebe que o principal é o convívio fraterno entre todos nós. Como dizia Nelson Rodrigues, o amigo é o acontecimento, o resto é paisagem… (e vejam que a do restaurante dos ministros do TST é belíssima, com a vista do lago Paranoá…).

A expectativa do encontro com cada amigo do peito é sempre excitante e já enche o coração de alegria:

- Si tu viens, par exemple, à quatre heures de l’après-midi, dès trois heures je commencerai d’être heureux.

A separação e a distância é causa de dor, mas a certeza de que se tem um ponto de referência, um exemplo e um porto seguro ao qual retornar em momentos de tormenta, é um dos ingredientes mais aprazíveis e fortalecedores da amizade (sem esquecer que, nos dias de hoje, o correio eletrônico encurta as distâncias e aproxima as pessoas). Isso fica mais do que assentado na antológica conclusão do citado capítulo do Petit Prince:

– Tu deviens responsable pour toujours de ce que tu as apprivoisé.

Somos eternamente responsáveis pelos nossos amigos. Nesta vida e pensando na outra. Se, na perspectiva cristã, a amizade é o âmbito próprio do apostolado, ou seja, de fazer dos nossos amigos amigos de Deus, então todo encontro é apostólico: nossa presença e conversa pode afastar ou aproximar de Deus.

Até fofocar pode ter seu estilo apostólico, quando se sabe que ninguém é melhor do que ninguém, que todos temos defeitos… Só a Bailarina, do Chico Buarque, é que não tem…

Para Saint-Exupéry, seus colegas aviadores Guillaumet e Mermoz eram os amigos, os pontos de referência e de convergência, os exemplos de pessoa humana. Todos os três morrerão em missões de combate, ainda jovens, na 2a. Guerra Mundial. Uma amizade curta, profunda e eterna, lembrada nos difíceis tempos em que prosperou, no Terra dos Homens (Nova Fronteira – 2006 – São Paulo).

III) A AMIZADE NA VISÃO ANALÍTICA DE ARISTÓTELES

Enquanto Platão filosofava através de seus diálogos (ao estilo do que vimos no Pequeno Príncipe), levando o ouvinte ou leitor a inferir das situações concretas as normas e condutas mais desejáveis, Aristóteles desenvolvia, em seus escritos, uma análise pormenorizada das questões que se propunha a estudar, dissecando conceitualmente os fenômenos, de modo a tornar mais compreensível a realidade. É o caso da análise que faz da amizade, tratada especialmente nos Livros VIII e IX do “Ética a Nicômaco” .

Para servir de norte às considerações que faremos neste artigo, apresentamos o seguinte resumo tópico dos referidos livros, que mostra bem o valor que os antigos davam à amizade e como Aristóteles faz derivar essa virtude daquela relativa à justiça (o que aparecer em itálico no resumo é transcrição literal ou termo grego):

Livro VIII

1) A amizade (filia) é uma virtude e constitui uma das exigências mais imprescindíveis da vida: ninguém optaria por viver sem amigos, mesmo que possuísse todos os outros bens. E com amigos, conseguimos todos os outros bens. A amizade seria o vínculo que une o Estado.

2) O que desperta a amizade e o amor é a bondade, utilidade ou o prazer que o outro pode proporcionar. A afeição, quando é recíproca, se torna amizade, desde que haja mútuo conhecimento dessa benevolência recíproca.

3) As amizades fundadas na utilidade e no prazer não são verdadeiras e duradouras amizades, uma vez que cada um só busca o proveito próprio (os jovens o prazer e os velhos as vantagens). A forma perfeita de amizade é aquela entre indivíduos bons e mutuamente semelhantes em matéria de virtude, uma vez que amam o amigo por si mesmo e desejam o seu bem.

4) A amizade fundada no prazer e, entre homem e mulher, no amor sexual, tende a diminuir quando se envelhece e murcha a beleza do ser amado. E a fundada na vantagem quando não se extrai mais nada do chamado amigo. Esse tipo de amizade pode existir entre homens maus e entre homens bons com maus, mas não impera entre os bons, que fundam a amizade em mais sólido apoio. Os homens bons são amigos absolutamente, porque querem uns aos outros pelo que são. Os homens maus ou que buscam apenas prazer ou vantagem em relação aos outros são amigos acidentalmente. Daí se percebe como a palavra amigo pode ser empregada em sentidos diversos e para situações diferentes, que não caracterizam perfeitamente a amizade.

5) A amizade corresponde tanto à disposição virtuosa (ser amigo) quanto à prática virtuosa (conviver com o amigo). A falta de convivência pode levar à diminuição da amizade: muitos encontram o fim da amizade por falta de conversação com o amigo. A mútua aceitação, quando não se busca a mútua companhia, representa mais o bom relacionamento do que a amizade. As pessoas velhas e rabugentas não se prestam às amizades, pela dificuldade que os demais têm de conviver com elas. Enquanto o afeto é uma emoção, que se pode sentir até por uma coisa, a amizade é uma disposição estabelecida, que só se pode ter com pessoas, pela reciprocidade da afeição.

6) Não é possível ter muitos amigos no sentido estrito da palavra, como também não é possível estar apaixonado por mais de uma mulher, pois a amizade supõe convivência mais estreita e maior afinidade de interesses. Pessoas detentoras de poder tem mais bajuladores que amigos, que lhes dão prazer ou vantagem, mas não verdadeira amizade.

7) Há um tipo de amizade que implica superioridade de uma parte sobre outra, como é aquela entre pais e filhos, velhos e jovens, marido e mulher, mandante e mandado. Nelas o afeto será proporcional à condição de cada parte, mas não segundo a justiça. Daí que, quando a distância é muito grande, torna-se mais difícil a amizade.

8) A maioria dos homens está mais preocupada em receber do que conceder afeto. Por isso lhes agradam os bajuladores, que, por sua vez, esperam receber vantagens futuras dos poderosos. No entanto, na sua essência a amizade parece consistir mais em dar do que em receber afeto, como se vê com as mães em relação aos filhos, que gozam só de ver os filhos prosperando, independentemente da correspondência. Assim, o que distingue um bom amigo é o afeto que nos tem. Isso é o que torna duradoura uma amizade. Amigos verdadeiros não se conferem préstimos que sejam moralmente degradantes. Já os homens maus não conseguem permanecer leais nem a si mesmos, quanto mais aos outros.

9) A amizade está ligada à virtude da justiça, pois supõe a reciprocidade no afeto. Daí que o cometimento da falta se torna crescentemente mais grave proporcionalmente ao grau de intimidade da amizade. Em toda parceria encontramos direitos mútuos e algum sentimento de amizade: os militares e os membros de uma associação chamam uns aos outros de “meu amigo”. Desde as associações menores, como a família e as agremiações profissionais, até o Estado, as relações entre os homens deve ser de amizade, o que deve ser fomentado pelo legislador.

10) Os Estados podem ser constituídos em monarquias (governo de um só), aristocracias (governo dos melhores) e timocracia (governo dos que tem renda), onde, se os governantes estão bem atendidos em suas necessidades, estarão voltados à busca do bem comum. A degeneração dessas formas de governo gerará a tirania (governo de um só), oligarquia (governo de uns poucos) e democracia (governo de todos), nas quais os governantes tem como preocupação a satisfação de seus próprios interesses. Na própria sociedade familiar se poderão verificar essas formas de governo: monarquia no governo do pai sobre os filhos, aristocracia na divisão de tarefas entre marido e mulher, timocracia no escalonamento de autoridade entre os irmãos conforme a idade, tirania na centralização de poderes nas mãos do marido e democracia quando ninguém manda na casa e todos fazem o que querem.

11) Em cada forma de governo há um grau de amizade e justiça entre quem governa e quem é governado, sendo Deus, a pátria e os pais maximamente merecedores de afeto, pelo débito maior que se tem com eles. Nas formas corrompidas de governo, torna-se quase inexistente a amizade entre governantes e governados, pois aqueles usam estes como instrumentos, sem se preocupar com o seu bem. Não existe amizade entre senhor e escravo, enquanto escravo (por ser objeto), mas pode haver enquanto ser humano (por ser pessoa).

12) Os pais amam os filhos como partes de si mesmos, ao passo que os filhos amam seus pais como a fonte de sua existência. Os irmãos se amam por pertencerem à mesma fonte, uma vez que sua identidade com ela os torna idênticos entre si. A amizade entre irmãos é também grandemente estimulada por sua educação comum e idade semelhante. A amizade conjugal parece existir por força do instinto, uma vez que o ser humano é, por natureza, um animal que acasala, ainda mais do que um animal político, na medida em que a família é uma instituição mais antiga e mais fundamental do que o Estado. No animal, a união dos sexos é apenas para a procriação; no homem também para a mútua ajuda. Os filhos ajudam a cimentar essa união.

13) Na amizade fundada na utilidade surgem queixas de que não se recebe tanto quanto se dá. Nesse tipo de amizade, não há doações, mas favores, que se espera ver retribuídos e na mesma moeda. Já na amizade fundada no prazer, se faltar este, simplesmente cessa a amizade. Só na amizade fundada no bem do outro não há queixas ou rupturas.

14) Na amizade entre rico e pobre, ao primeiro se tributa honra e ao segundo se dá vantagem pecuniária. Num Estado, quem não colabora com o bem público, não pode esperar vantagem pessoal. Nas relações entre superiores e inferiores e entre pais e filhos, a retribuição dos segundos será de acordo com sua possibilidade e não segundo o merecimento dos primeiros.

Livro IX

1) As amizades baseadas em qualidades particulares dos amigos são efêmeras, ao passo que as fundadas no caráter (ethon) tendem a ser duradouras. A quem cabe fixar o que é devido a cada um? Ao credor ou ao devedor? Como quem interesse é que sabe o quanto está disposto a pagar, o valor dos bens deve ser fixado pelo devedor, segundo a lei da oferta e da procura.

2) A nenhuma pessoa cabe deferência ilimitada. Regra geral, deve-se antes saldar as dívidas do que prestar favor aos amigos, se não for possível fazer ambas as coisas. Devemos dar a cada um o que lhe cabe, diferenciando segundo o grau de proximidade e de mérito.

3) Uma amizade pode ser rompida quando os amigos mudam seu modo de ser, se era fundada na utilidade ou no prazer, mas seria crime gravíssimo se se desse a entender que era fundada no bem-querer da pessoa e depois se rompe. Se a mudança é de caráter, não se deve abandonar a amizade, mas ajudar o amigo a se recuperar. Apenas se a corrupção do amigo é irrecuperável é que se justificará o rompimento da amizade. Já no caso da diferença ser de formação entre amigos de infância, a distância intelectual ou moral pode dificultar grandemente a continuidade da amizade.

4) Um amigo é definido como alguém que deseja e promove através da ação o bem real ou aparente de um outro indivíduo  (…)  alguém que faz companhia ao outro, e alguém que deseja as mesmas coisas que ele deseja, ou alguém que compartilha as alegrias e tristezas do outro (…)  O amigo é como um outro eu (….) a amizade de grande intensidade assemelha-se à auto-estima (…)pois o homem bom deseja sua própria companhia, pois frui estar sozinho visto que dispõe de memórias agradáveis do pretérito e boas esperanças para o futuro. Já o homem mau vive dilacerado entre a virtude que admira e o vício no qual está atolado, perdendo a auto-estima e buscando a companhia dos outros para esquecer de suas angústias.

5) A boa vontade parece ser o início da amizade, tal como o prazer do olhar é o começo do amor. Ninguém se apaixona antes de se sentir atraído pela beleza, mas é possível deleitar-se com a beleza alheia sem necessariamente estar apaixonado; alguém está apaixonado somente se experimentar saudade da pessoa amada. A amizade surge com o afeto, que nasce da benevolência em relação a quem se percebe seu valor e virtude. No caso do prazer e utilidade, não há benevolência, mas apenas concupiscência.

6) A concórdia entre as pessoas é outro elemento da amizade. Não significa consenso de opinião, mas capacidade prática de chegar a um acordo, por terem o interesse no bem comum.

7) Tem maior amor pelo amigo o benfeitor do que o beneficiado, quer humanamente, por poder esperar retribuição futura, enquanto o favorecido tem memória curta, quer por ser mais trabalhoso, e portanto mais meritório, dar que receber.

8) Em princípio, o homem não deve amar nenhum ser humano mais do que a si mesmo, mas o parâmetro máximo da amizade é amar tanto quanto a si mesmo. O amante de si mesmo no sentido pejorativo é aquele que busca primeiro para si os prazeres, dinheiro e honras. Mas o homem virtuoso é aquele capaz de dar a vida pelos amigos, porque toma a porção maior de nobreza moral para si mesmo.

9) Perguntando-nos sobre se os amigos são necessários para a felicidade, conclui-se que, da mesma forma que as virtudes são o maior bem interno que podemos adquirir, os amigos são o maior bem externo que se pode ter. Daí se conclui que o homem feliz necessita de amigos, até para manifestar sua benevolência. Como a felicidade não é só um estado, mas atividade, as ações boas do amigo causam alegria a si mesmo, pois a atividade e alegria do homem bom ficam potenciadas pelas ações dos amigos, com os quais convive e compartilha o diálogo e a comunicação de seus pensamentos numa vida prazerosa, fundada na virtude.

10) Não é possível ter um número muito grande de amigos, pois será difícil conviver mais íntima e diuturnamente, e a amizade exige essa convivência mais estreita. Pessoas de muitos amigos não são reais amigos de ninguém. Uma amizade intensa só é possível com poucas pessoas.

11) Precisamos dos amigos tanto na adversidade quanto na prosperidade. Na tristeza, para ter consolo; na alegria, para compartilhá-la. E a maior felicidade da pessoa é a companhia dos amigos, com os quais realiza muitas de suas atividades: beber e fazer esporte, estudar e filosofar.

Resumindo o próprio resumo, poderíamos dizer que, para Aristóteles, as notas distintivas da verdadeira amizade seriam:

a) a admiração pela excelência alheia (especialmente moral), que atrai e faz desejar a amizade;

b) o mútuo afeto, com cada um dos amigos querendo fundamentalmente o bem do outro;

c) a afinidade de gostos, valores e ideais, que aproximam, identificam e tornam amigas as pessoas, despertando o bem-querer recíproco;

d) a convivência habitual, de modo a que os laços de afeição não se vão tornando tênues;

e) a troca de atenções e afeição, nas múltiplas manifestações de amor, cortesia, deferência e ajuda que se notam entre os amigos;

f) o compartilhamento de alegrias e tristezas, que consola e anima, fortalece e faz a vida mais feliz.

Como se verifica a teoria na prática?  Pinçamos, por gosto pessoal, dois grupos de amigos franceses (os de Saint-Exupéry e de Raïssa Maritain) e dois de amigos ingleses (os de Chesterton e de Tolkien). E elegemos um da ficção, que tanto nos tem atraido ultimamente, servindo de paradigma até para o trabalho no Gabinete, paralelo à labuta num navio de combate, onde a união de todos é o segredo da vitória e da sobrevivência.

IV) AS GRANDES AMIZADES DE RAÏSSA MARITAIN

O elemento de aglutinação das grandes amizades decantadas por Raïssa Maritain foi Léon Bloy (1846-1917), com quem ela e seu noivo Jacques Maritain travaram contato durante o processo interior da conversão dos dois. Esse processo, terrível na sua coerência, mas fantástico na sua conclusão, começou pela decepção de ambos com o racionalismo reinante na Sorbone no começo do século XX, que apresentava aos jovens universitários franceses uma visão de mundo puramente mecanicista e materialista e, portanto, carente de um sentido mais elevado e profundo.

Assim começa Raïssa o capítulo III, em que fala de seu ingresso na Sorbone:

Dezessete anos! Apenas dezessete anos, e as mais profundas exigências do espírito e da alma já se fazem ouvir. Toda uma vida já foi vivida: a da infância, a da confiança ilimitada. Agora, eis a adolescência, com o seu cunho próprio: uma exigência total. A adolescência enfrenta, realmente, o universo, intima-o a comparecer, a prestar contas, a se explicar e a se justificar, pois já acusa a vida. Enfrenta os seus mestres, com um olhar límpido, um espírito ardente, as mãos bem abertas, vazias ainda de qualquer fruto de ciência ou de sabedoria, mas puras como o seu olhar (pg. 37).

Sentindo, pois, no coração uma sede de infinito e de perenidade, mas vendo a ausência de sentido para o mundo que lhes era apresentado nas aulas, decidem os dois jovens namorados, numa coerência extrema e terrível, que, se ao final de mais um ano de estudos, não encontrassem respostas cabais para suas dúvidas existenciais, iriam se suicidar, pois não valeria a pena viver.

Foi com esse espírito e decisão que se inscreveram nas aulas do Prof. Henri Bergson (1859-1941), que ensinava no Collège de France, ao lado da Sorbone, animados por um de seus primeiros amigos daqueles tempos: Charles Péguy (1873-1914). O vitalismo do professor, oposto ao racionalismo vigente, foi um sopro de ar puro na atmosfera intelectual rarefeita na qual estudavam.

Renascendo para a vida, travam contato, através de uma resenha de jornal, com o escritor Léon Bloy, que será, a partir de então, o centro aglutinador de um seleto grupo de amigos e escritores. A resenha é do livro La Femme Pauvre, em que Léon Bloy deixa frases antológicas, que retratam bem a sua vida:

Não se entra no Paraíso nem amanhã, nem daqui há dez anos, entra-se hoje, quando se é pobre e crucificado (escrevia falando da alegria que encontrara na vida de escritor, cheia de necessidades econômicas e embates ideológicos em defesa da fé num mundo racionalista).

Só há uma tristeza, é de não sermos santos (pensava em que não se dá para transformar e revolucionar o mundo se não se está disposto a mudar a si mesmo).

Raïssa e Jacques, impressionados com o romance, escrevem a Léon Bloy e enviam-lhe uma quantia de francos de ajuda financeira. Recebem carta datada de junho de 1905, com a qual começa uma grande e frutuosa amizade, na qual Léon Bloy termina:

Dentro de um mês terei 59 anos e ainda luto pelo meu pão, é verdade; mas mesmo assim socorri e consolei muitas almas e isso é para o meu coração um paraíso.

Quanta sabedoria nesse parágrafo, quando pensamos que uma vida sacrificada gera muitos frutos de felicidade para si e para outros, pois não se fecha no egoísmo de se pensar apenas na própria excelência e bem-estar.

Bloy dedicará a Raïssa, a sua judiazinha querida, seu livro La Salut par Les Juifs, fazendo-o com as seguintes palavras, que tocam no fundo a alma de Raquel (que esse é o significado do nome russo Raïssa), levando-a, no futuro, ao batismo:

A

Raïssa Maritain

Dedico estas páginas

Escritas para a glória católica

ao Deus

de Abrão

de Isaac

e de Jacó.

As novas amizades vão se somando: Ernest Psichari (1883-1914), Pierre e Christine Van Der Meer e vários outros que seriam os intelectuais que revitalizariam o pensamento francês, europeu e mundial no século XX.

Os valores cristãos, que passam a ser o cimento da amizade entre esses jovens franceses, discípulos de Léon Bloy, são descobertos por Ernest Psichari em sua dimensão conformadora da própria civilização ocidental numa experiência singular. Desenganado em seu amor não correspondido pela irmã de Jacques, e desesperado pelas experiências amargas que tem a seguir, chega a tentar o suicídio. Acaba decidindo buscar na disciplina militar o meio de colocar ordem em sua vida, como escreverá no L’Appel des Armes: Somos dos que têm sede de se submeter para se tornarem livres.

Pois bem: será na Legião Estrangeira, nos desertos africanos, que se reencontrará consigo mesmo e se encontrará com Deus. E tudo começando pela amizade com Mohammed Fadel, um jovem mouro que o acompanhará numa longa missão pelo deserto e que impressionava Psichari pela sua fé e coerência de vida. Um dia perguntou-me com verdadeira ansiedade se os franceses acreditavam num só Deus ou em três, conta Ernest em seu Les Voix qui crient dans le Désert. Nesse momento se dá conta de que a civilização ocidental e o cristianismo estão umbilicalmente ligados e passa a falar ao amigo como quem vive aquilo que ainda não entende nem acredita. E lá, na solidão das areias infindáveis, tem tempo de sobra para meditar na vida e em seu sentido mais profundo. Convertido, paradoxalmente, por um muçulmano, à fé de seus pais, voltará para a França e acabará tombando nos campos de batalha da 1ª Guerra Mundial junto com Charles Péguy.

Nesses pouquíssimos exemplos tirados das memórias de Raïssa, cuja leitura se recomenda vivamente, se percebe como as inquietações espirituais são um terreno propício para se lançar raízes de grandes amizades, que crescem como árvores frondosas pela comunhão de valores espirituais e dão flores e frutos de crescimento como pessoas e de serviço real aos demais.

V) A LONGA E CONTURBADA AMIZADE ENTRE J.R.R.TOLKIEN E C.S.LEWIS

Amizade semelhante, cimentada não só pelos gostos literários comuns, mas pelos valores cristãos compartilhados e defendidos, é aquela que será vivenciada, com momentos de maior proximidade ou afastamento, durante 40 anos, por J.R.R. Tolkien e C.S.Lewis, tão bem retratada no livro de Colin Duriez O Dom da Amizade (Editora Nova Fronteira – 2006 – Rio de Janeiro, tradução de Ronald Kyrmse), como também na biografia do escritor sul-africano escrita por Paulino Arguijo (Tolkien, Ediciones Palabra – 1992 – Madrid).

Não é por menos que a obra prima de Tolkien O Senhor dos Anéis (publicada atualmente pela Martins Fontes em suas várias edições) só tenha sido concluída graças ao alento de Lewis, para quem Tolkien passava os originais, esperando suas críticas e opinião. Já Lewis se inspirou no mundo fantástico da Terra Média para criar as suas Crônicas de Nárnia (publicadas no Brasil pela Martins Fontes em 1997), com um mundo não menos fantástico, tendo ambas as obras sido recentemente levadas às telas do cinema, com milhões de espectadores se deliciando com as aventuras vividas nessas sagas, restauradoras de grandes ideais na alma de todos.

Cada um acabou figurando na obra do outro plasmado num personagem, que sintetiza bem o modo de ser do amigo: o jeito de ser, falar e pensar de Lewis está representado no Barbárvore da saga dos anéis. E Tolkien é, nitidamente, o Dr. Elwin Ramson das obras de ficção científica escritas por Lewis.

É interessante notar, na relação Tolkien-Lewis, a preocupação do primeiro na conversão do segundo de seu ateísmo. Tolkien havia recebido a fé católica de sua mãe Mabel, valorizando-a como seu maior tesouro, pois viu como custou para sua mãe vivê-la, em face das incompreensões e discriminações que sofreu, percebendo o valor que ela dava à sua fé.

A de Tolkien segue na linha direta da tradição da mais expoente figura do catolicismo inglês, que foi o Cardeal John Henry Newman (uma ótima biografia do Cardeal é Newman: 1801-1890, escrita por José Morales Marin, Rialp – 1990 – Madri). Como Tolkien, Newman foi professor em Oxford e, como fellow da Universidade, liderou o que ficou conhecido como o Movimento de Oxford, que pretendia encontrar no anglicanismo a via média entre o catolicismo, que consideravam inflexível e esclerosado, e o protestantismo, que lhes parecia flexível demais com doutrinas e ritos. A tarefa que Newman se propôs era a de demonstrar que o cristianismo original dos primeiros tempos da Igreja só havia sido preservado na Igreja Anglicana. Após 5 anos de estudos meticulosos dos primeiros escritores eclesiásticos – os denominados Padres da Igreja – chegava, no entanto e humildemente, à conclusão de que, não obstante falhas pessoais de clérigos e leigos que se pudessem encontrar na Igreja Católica, inclusive de papas, era ela que havia preservado de forma miraculosa a doutrina original de Cristo em seu Credo.

Newman pediu, então,  com toda simplicidade, para ser admitido na Igreja Católica (o que ocorreu em 9 de outubro de 1845) e veio a fundar o Oratório de S. Felipe Néri em Birmingham (em 2 de fevereiro de 1849), no qual Mabel e sua irmã May serão recebidas, tendo o Pe. Francis Xavier Morgan, pároco do Oratório, não só ajudado a família Tolkien, mas educado John Ronald e Hilary Arthur, desenvolvendo neles as convicções morais e religiosas que viverão e defenderão até o final de suas vidas.

Tolkien conseguirá, através de sua amizade literária, trazer Lewis para a fé cristã, ainda que, apesar do esforço, não tenha conseguido fazer que passasse da Igreja da Inglaterra para a Igreja Católica. É certo que, no final da vida de ambos, haverá um esfriamento dessa amizade, motivado possivelmente por uma decepção de Tolkien com o amigo, achando que teria emulado seu mundo imaginário, sem reconhecimento referencial e com distorção conceptiva. Seria justo o aborrecimento de Tolkien?

De qualquer modo, Lewis, uma vez convertido, escreverá alguns livros de fantástica sabedoria, tais como Mero Cristianismo, O Grande Abismo, O Sentido do Sofrimento e, que nos interessa mais por agora, Os Quatro Amores (Martins Fontes – 2005 – São Paulo), no qual fala da amizade.

Os quatro amores, numa escala crescente de importância e densidade, seriam:

a) amor de complacência (ou afeição), quando alguma coisa ou pessoa nos agrada;

b) amor de concupiscência (ou eros), quando alguma coisa ou pessoa nos atrai e a queremos para nós;

c) amor de benevolência (ou caridade), unicamente pessoal, quando queremos não a pessoa para nós, mas o bem e felicidade do outro;

d) amor de amizade, que é a mútua benevolência ou bem-querer correspondido.

Ora, como já víamos acima, só há verdadeira amizade onde há doação. Daí que Lewis fizesse uma segunda distinção no campo do amor:

a) amor-necessidade, que todos temos, de sermos queridos e compreendidos;

b) amor-doação, que é a essência do amor, pela entrega sacrificada à pessoa amada, pois, do contrário, o que há é egoísmo e não amor.

Escreve Lewis que, na relação do homem com Deus, o amor do homem é amor-necessidade e o de Deus amor-doação. No entanto, como o binômio necessidade-doação é conformativo de todo amor humano, a correspondência do homem ao amor de Deus se plasma na doação ao próximo por amor a Deus.

Também lembra o insigne professor de Oxford que a amizade surge quando duas pessoas se admiram e descobrem que têm uma visão das coisas que, em parte, é comum somente a elas. E se essa amizade é verdadeira, o fato de encontrarem um amigo comum, com essa mesma visão, não faz enfraquecer a amizade entre ambos, mas ainda a reforça, pois a amizade não é possessiva, mas tende a estender-se a outros, sempre que possível.

Muito do que Lewis escreveu sobre o amor e o sofrimento nas verdadeiras amizades fica excepcionalmente retratado no filme Terra das Sombras (Shadowlands – 1993), em que o escritor inglês é representado pelo ator Anthony Hopkins e a escritora americana com quem desenvolve uma grande amizade – Joy Greesham – pela atriz Debra Winger.

VI) A SINGULAR AMIZADE ENTRE G.K. CHESTERTON E BERNARD SHAW

Ao pensar na singular amizade que se desenvolveu entre Gilbert Keith Chesterton e George Bernard Shaw, lembrei-me dos 2 anos em que trabalhei na assessoria jurídica do Presidente Fernando Henrique Cardoso, no Palácio do Planalto (1997-1999), passando por não menos singular experiência.

Ao ter de debater com senadores e deputados no Congresso os projetos de lei enviados pelo governo, ao me apresentar, ouvia amiúde o seguinte comentário: “Você é filho do Ives? Gosto muito de seu pai; sou amigo dele!”. O comentário, com essas ou semelhantes expressões, era feito por parlamentares dos mais diferentes partidos e linhas ideológicas, do governo e da oposição, o que me fez buscar uma explicação para o fenômeno, já que meu pai, em seus artigos, palestras e conferências, sempre foi contundente ao defender seus pontos de vista.

E encontrei a resposta na forma como sempre se relacionou com as pessoas: atacava as idéias que entendia equivocadas, mas prestigiava as pessoas que as defendiam, no que tinham de nobre e idealista. A atenção que tinha com todos, especialmente os mais simples, a quem chamava de “professor fulano… professora fulana” (quando perguntavam o porquê do título, recebiam como resposta que sempre aprendia alguma coisa com eles), talvez dê uma pista para compreender esse amplo bem-querer.

Divirto-me ainda ao ver minha mãe, quando meu pai chama pessoas que ela nem conhece, de grande amigo, revidar: Ives, grandes amigos temos poucos na vida! Ao que meu pai contesta que no seu caso é diferente. Chego à conclusão de que tem dilatado o coração (sempre cheio de detalhes para com todos, sem esquecer do que lhe dizem ou pedem, o que sempre me admirou).

Essas reminiscências, como dizia, vêm-me à cabeça ao pensar na amizade que se estabeleceu entre Bernard Shaw, renomado escritor inglês, e aquele que seria seu eterno algoz intelectual, G.K. Chesterton, notável jornalista e polemista, com amplo círculo de amizades, bem descritas por Luis Ignácio Seco (Chesterton – Un Escritor para todos los tiempos, Ediciones Palabra – 1997 – Madrid).

O bem-querer entre Chesterton e Shaw, pelas afinidades intelectuais, não necessariamente ideológicas que tinham, era de tal ordem que, nos debates públicos que travavam em programa de rádio na BBC de Londres, assistido ao vivo nos próprios estúdios por pequenas multidões de fãs, as ridicularizações das incoerências racionalistas de Shaw feitas por Chesterton arrancavam estrondosas gargalhadas do público, sem que, pelo carinho de amigo com que eram feitas, desgostassem efetivamente Shaw, remarcado pessimista.

Shaw definia Chesterton como um querubim gigantesco: um menino disfarçado de adulto, com sua cara gorda e redonda e sua expressão infantil, compensada por uma enorme capacidade de trabalho e uma inteligência privilegiada, em permanente ebulição.

Para se ter uma idéia da transparência de Chesterton e de como sabia criticar idéias sem ferir as pessoas que as defendiam, publica em 1905 um livro que cairá como uma bomba nos meios intelectuais ingleses: Heretics, obra em que ataca, com fino humor e numa lógica desconcertante, todos os ídolos literários da época, por considerar que, através deles, estaria se dando o envenenamento intelectual de toda uma geração. Assim, condena como hereges a George Moore (1873-1958), pelo seu subjetivismo ético, a Bernard Shaw, por seu socialismo desumanizador, a Rudyard Kipling (1865-1936), por seu imperialismo discriminatório, a H. G. Wells (1866-1946), por seu historicismo naturalista, e a Oscar Wilde (1854-1900), por seu esteticismo aético. Os amigos não escapam de sua pena, que esgrime com elegância e sem ira.

Hereges termina por consagrá-lo e granjear-lhe novos e importantes amigos, provenientes de distintos círculos literários: Joseph Conrad (1857-1924), Henry James (1843-1916), Baden Powell (1857-1941), Winston Churchill (1874-1965) e Thomas Hardy (1840-1928), entre os mais destacados. O segredo de sua popularidade é a força da sua autenticidade, que defende aquilo em que realmente acredita e não por mera retórica ou interesse pessoal.

O ano de 1908 vê publicadas duas obras-primas de Chesterton: The Man Who Was Thursday e Orthodoxy. O primeiro, que recebe o cognome de A Nigthmare (Um Pesadelo), é um romance alegórico em que Chesterton, de forma divertida, mas profunda, expõe, através dos personagens da novela, suas próprias crises espirituais dos anos de juventude. Em O Homem que foi Quinta-feira, a mensagem básica (entre as muitas que se podem tirar) é a de que tanto o bem quanto o mal provêm da mesma origem: não há, no universo, um princípio do bem e outro do mal. O mal é apenas a ausência do bem devido (permitido, em face da liberdade humana). A luta entre a anarquia e a ordem, que permeia todo o livro, em cujo desenrolar os anarquistas (que recebem os nomes dos dias da semana) vão descobrindo que são todos policiais infiltrados na organização anarquista comandada pelo “Domingo”, o enigmático personagem central do livro, é o pano de fundo para a exposição de suas teses. O livro recebeu, de pronto, as críticas positivas de C. S. Lewis e de Ronald Knox (1888-1957), que encorpam o nutrido clã de seus amigos.

Ortodoxia será a resposta a um desafio. Um tal G. S. Street publica, nesse ano, o livro G.K. Chesterton – Estudo Crítico, reconhecendo o talento de Chesterton, mas criticando acerbamente suas obras, ao fundamento de que destruir e atacar todo mundo é fácil, como o fez em Hereges; difícil mesmo é construir uma visão sólida e coerente do mundo. Conclui o estudo dizendo: Começarei a preocupar-me de definir minha própria filosofia quando Chesterton nos tenha mostrado a sua. Chesterton não se faz de rogado: vai para casa preparar a resposta, sempre disposto a escrever um livro à menor provocação.

Trata-se, efetivamente, de uma de suas obras-primas. Nela traça os parâmetros de suas mais arraigadas crenças e dá testemunho de seu próprio processo interior de conversão. Brotam, assim, algumas de suas idéias-chave: 1) o racionalismo exacerbado, separado do senso comum, conduz ao suicídio do pensamento; 2) o reconhecimento do caráter democrático da tradição (dar o direito de voto aos nossos antepassados); 3) a teoria da felicidade condicional (moral do país das fadas, onde tudo é permitido, em troca de uma pequena coisa que é negada); 4) o acerto paradoxal da doutrina cristã (o ponto de equilíbrio entre virtudes contrárias); 5) o otimismo e a alegria como o segredo que o próprio Deus escondia em sua passagem pela terra, dificilmente compreendidos em toda a sua dimensão pelo homem.

Em 1909 escreve um ensaio sobre seu amigo e principal rival de debates “George Bernard Shaw”, no qual discute mais as idéias do vegetariano socialista ateu irlandês do que os fatos de sua vida, dizendo, numa expressão que retrata o que é uma amizade verdadeira: sou o único que o entende e não estou de acordo com ele”. Ou seja, gosto tanto de meu amigo que, se puder, quero melhorá-lo no que vejo que não anda bem.

Há uma foto curiosíssima dessa época, em que aparecerem Chesterton e Shaw vestidos de cowboys, quando aceitaram participar de um filme de Western dirigido pelo célebre autor de Peter Pan, James Barrie (1860-1937). O filme, que começou a ser rodado em 1914 e não foi para frente, proporcionou momentos divertidos para os dois amigos, prelúdio de “O Gordo e o Magro”:

Chesterton: - Bernard, quem o vir pensará que estamos passando fome na Inglaterra.

Shaw: - Gilbert, quem o vir pensará que és a causa dessa fome.

Outro amigo de Chesterton se tornará personagem de seus romances policiais. Trata-se do sacerdote católico irlandês, Pe. John O’Connor, que o admira e lhe agradece por suas obras, e que se transformará no Pe. Brown, um clérigo baixinho, de rosto afável e expressão de duende, como o definirá Chesterton, inspirado na figura do Pe. O’Connor. Assim, sairão publicados A Inocência do Padre Brown (1911), A Sabedoria do Padre Brown (1914), A Incredulidade do Padre Brown (1926), O Segredo do Padre Brown (1927) e O Escândalo do Padre Brown (1935).

Uma decisão, que vinha amadurecendo ao longo de 10 anos, é finalmente concretizada por Chesterton: sua conversão ao catolicismo. Já a havia anunciado ao Pe. O’Connor em 1912, mas não chegava a ultimá-la. Seus amigos Maurice Baring (convertido em 1909) e o Pe. Ronald Knox serão os que mais o ajudarão a dar esse passo, superando os preconceitos tipicamente britânicos em relação à Igreja de Roma (Baring, além disso, pedirá a muita gente que reze pela conversão de Chesterton). Finalmente, em 1922, Chesterton pede ao Pe. O’Connor que venha a Top Meadow para conversar com Frances. Esta, apesar de não ver com clareza a sua própria mudança do anglicanismo, diz que ficará aliviada ao ver o marido seguindo o caminho que vê, com evidência, ser o seu. Chesterton então se prepara para o grande passo de sua vida: estuda, como uma criança, o pequeno catecismo que o Pe. O’Connor lhe dá, faz sua confissão com esse sacerdote, a profissão de fé católica, e recebe o batismo sub conditione no domingo, 30 de julho de 1922.

Chesterton dará a notícia de sua conversão ao amigo Belloc numa carta em que dirá: A Igreja Católica é o lar natural do espírito humano. A estranha perspectiva da vida, que ao princípio parece um quebra-cabeça sem sentido, tomada sob esse ponto de vista, adquire ordem e sentido. Quando se sabe da novidade pela imprensa, chegam-lhe cartas de felicitações de todo o mundo, que não compreendia porque havia tardado tanto. Tratou-se, no entanto, de um processo lento e profundo, ao estilo de Chesterton, que só se decidiu definitivamente ao perceber, participando de uma conferência sobre controle da natalidade, em que os anglicanos sustentavam a necessidade de adaptar a moral aos novos tempos, que aquela já não era a sua Igreja: os tempos é que deveriam abrir-se à moral cristã.

Já não tendo o peso de um jornal para dirigir, Chesterton dedica os anos de 1923 e 1924 a preparar, com pausa e tranqüilidade, aquela que será, para alguns, a sua melhor obra: The Everlasting Man, publicada em 1925. O Homem Eterno segue na esteira de Ortodoxia (sendo-lhe uma continuação), no qual Chesterton expõe sua filosofia da História: uma verdadeira novela da Humanidade, em que fala do homem, desde suas origens, e do Homem que fez o Mundo, Jesus Cristo. Mais uma vez, dirige a obra especialmente aos seus amigos, especialmente os que ainda são céticos: H. G. Wells e Bernard Shaw (a obra é verdadeiro contraponto à História Universal de Wells, opondo à visão cética, naturalista e evolucionista deste, um panorama do homem mais realista e condizente com o que conhecemos pelos vestígios históricos).

Em 1925 Chesterton começa a publicar no GK’s Weekly os capítulos de A Volta de Dom Quixote, uma novela semanal em defesa da Idade Média. O capítulo inaugural já atrai o público e elucida o título: vai ser representada uma peça teatral num colégio e os alunos não encontram quem possa representar o rei; propondo ao bibliotecário da escola que o faça, ele se desculpa, por ser entendido apenas em civilizações antigas; convencido pelos alunos, passa a estudar o período histórico e seu personagem; a peça é um sucesso, especialmente pela representação perfeita do rei; mas qual não é a surpresa geral ao verem, à tarde, passeando pela escola, o bibliotecário, ainda com as vestes “reais”, falando como se ainda estivesse na Idade Média. Os demais capítulos vão se seguindo, com as mais divertidas situações do bibliotecário, encarando todos os problemas modernos à luz do pensamento medieval, que os resolveria melhor.

Este último livro pode ser o resumo da quixotesca vida de alguém que, levado pela amizade, faz-se tudo para todos, para salvar a todos (I Cor 9, 22), na conhecida expressão de São Paulo.

VII) AS GRANDES AMIZADES NA LITERATURA DE FICÇÃO: O MESTRE DOS MARES

As amizades entre pessoas tão diferentes, mostrando também o caráter complementar de temperamentos que faz nascer a amizade, é bem retratada na literatura, como são exemplos, para não nos estendermos demais, a série de 20 livros de Patrick O’Brien (1914-2000), protagonizados pelo Capitão da Marinha Inglesa Jack Aubrey e o Médico Irlandês-Catalão Stephen Maturin, levados ao cinema no filme O Mestre dos Mares, estrelado por Russel Crowe.

O primarismo impulsivo combinado com um moralismo vitoriano de Jack contrastando com o sentimentalismo racionalista de Stephen, que tudo esquadrinha e tenta mensurar e explicar,  fazem uma combinação que arranca boas gargalhadas do leitor, obviamente no bom estilo do humor inglês, sutil e velado, nunca grosseiro.

Alguns comentários de Maturin, descrevendo o amigo capitão, mostram bem o senso comum de comandante de Jack, que sabe compreender seus subordinados e os querer de verdade. Sobre a inspeção que fazia ao navio: viu o que deveria ser visto e ficou cego para o que não deveria ser visto. Sabe passar por cima os defeitos, enquanto não os puder superar.

Jack sentia, no navio, mais do que nunca a necessidade de um amigo, pois se sabia isolado no comando. Para a tripulação, o capitão era um deles, ou seja, dos distantes homens do poder, enquanto os membros da tripulação eram dos nossos. A saída do capitão do navio era comentada como Jeová já não está entre nós, tal a distância criada na Marinha (o comandante não podia ser popular). Como combinar autoridade e amizade? Em Stephen, Jack tinha o amigo ideal, pois não sendo marinheiro, não sentia aquela distância, e sendo o único nessas condições no navio, era seu desaguadouro.

O amável trato mútuo era bem inglês (seguem algumas expressões tiradas dos vários livros O Mestre dos Mares, O Capitão, A Fragata Surprise, O Lado mais Distante do Mundo, editados no Brasil Pela Record):

- Stephen, poderia dar-nos o benefício das suas luzes? (…)

- Jack, dou pouca importância aos almirantes na escala dos seres inteligentes (…)

– Stephen, vamos nos atrasar se você não desfraldar um pouco mais de pano! (…)

- Jack, a vantagem de não se saber nadar é não alongar a agonia de um naufrágio (…)

– Stephen, notei que o seu coração estava abandonando o posto (…)

– Jack, a amizade dá o direito, mais do que o dever, de dizer as verdades (…)

– Stephen, não se necessita de recompensa pela virtude, pois a virtude é a própria recompensa (…)

– Jack, a insistência na justificativa é a prova da mentira (…)

- Stephen, na guerra, ter um navio é tão importante para um marinheiro como ter um esposa (…).

- Jack, Butler teve ontem sua primeira experiência na angústia do comando

As observações mútuas mostram diferentes pontos de vista e a liberdade de expressão de cada um para com o outro, divertidas na sua forma, suficientes para bons entendedores e amigos de longa data.

Por outro lado, pensando no navio que irá comandar por muitos anos, o HMS Suprise, Jack fala a Stephen sobre o sentido do coleguismo, tendendo para a amizade, que deve haver em qualquer equipe de trabalho:

Sem haver um bom entendimento entre os oficiais, um navio não consegue ser feliz: e um navio feliz é o seu bom navio de combate.

Patrick O’Brien, no livro A Fragata Surprise, tem um trecho que coincide admiravelmente com a visão de Saint-Exupéry sobre os ritos e as rotinas como dando um encanto às relações humanas e às amizades, por mais que o dia-a-dia possa parecer monótono:

Era a palavra verdadeira: assim que a “Surprise” tinha virado para o sul, passando pelo Ceilão e indo para o mar de Java, a rotina tomou conta de todos. O raspar das pedras no convés, o som dos clambazes e da água nos conveses às primeiras luzes; macas entrincheiradas, o desjejum e seus cheiros agradáveis; a sucessão invariável dos quartos de serviço; passagem meridiana e a altura do sol, jantar, grogue; Rosbife da Velha Inglaterra ao soar do tambor, para os oficiais; festa moderada; paradas, o toque de recolher, o troar vespertino dos canhões, velas de gávea rizadas, o estabelecimento da tabela de serviço; e depois as noites longas, quentes, iluminadas pelas estrelas, frequentemente passadas no tombadilho, com Jack guiando seus dois aspirantes inteligentes através das intricadas delícias da navegação astronômica. Essa vida, com seu padrão rígido pontuado pelo som agudo e imperativo dos toques de sinos, parecia assumir algo da natureza da eternidade enquanto eles se desviavam em direção ao equador, atravessando-o a noventa e um graus de longitude a leste de Greenwich. As paradas das divisões, da formatura para verificação da presença, igreja, os Artigos de Guerra, marcavam a devida ordem do tempo, mais do que sua passagem; e antes que fossem repetidas duas vezes a maior parte do pessoal da fragata sentia o passado e o futuro se turvar, diminuindo quase até a insignificância. Uma impressão ainda mais forte porque a “Surprise” estava de novo num mar solitário, duas mil milhas de água azul-escura sem jamais uma ilha para romper sua curvatura perfeita e nem o mais leve cheiro de terra até mesmo na brisa mais forte – o navio era um mundo contido em si mesmo, nadando entre dois horizontes perpetuamente renovados. Mais forte ainda porque nessas águas não havia uma impaciência ansiosa para ver além do horizonte a leste: eles navegavam sem qualquer relação com um inimigo, nem com qualquer presa de guerra potencial. Os holandeses estavam entocados; os franceses tinham desaparecido; os portugueses eram amigos (pg. 277).

Nessa viagem singular, levando o representante da Coroa Inglesa para estabelecer relações diplomáticas com a Indonésia, que adoece gravemente, Stephen reflete sobre sua missão de médico:

Este era um caso em que a atenção hipocrática deveria tomar o lugar dos medicamentos; o paciente estava fraco demais, a doença era muito pouco entendida, para qualquer medida radical; e ele ficava sentado à beira da cama do Sr. Stanhope um quarto depois do outro enquanto o navio se deslocava em silêncio pelo mar fosforescente. Essa, refletiu, era sua verdadeira ocupação; isto, e não a perseguição autodestrutiva de uma mulher que estava muito fora do seu alcance.

É que, no período em que viveram na Inglaterra, Jack e Stephen haviam sido amantes da mesma mulher, Diana Villiers, ao que Jack, percebendo a influência que a beldade ainda tinha sobre o amigo, tenta livrá-lo dela. As aventuras pelas quais cada um deles passa para ajudar o outro nas várias situações do período das Guerras Napoleônicas é a melhor descrição dos sacrifícios que toda a amizade supõe, feitos com gosto, quando é para o amigo.

VIII) O GRANDE AMIGO

Pensando em todas as qualidades elencadas por Aristóteles e outros autores que tratam do tema da amizade, quem não sonha em ter o amigo ideal? Milton Nascimento já decantava esse amigo nas conhecidas estrofes: Amigo é coisa pra se guardar debaixo de 7 chaves… do lado esquerdo do peito… dentro do coração… Roberto Carlos fez o mesmo ao cantar o Amigo, reconhecendo que é quem me diz as verdades com frases abertas, amigo você é o mais certo das horas incertas. Ou seja, não é o adulador, mas o apoio que leva para cima, precisamente nos momentos em que estamos no caminho errado.

Tolkien, falando da morte de sua mãe, faz uma revelação pouco comum para o recato e discrição de um inglês:

Testemunhei, compreendendo pela metade, os sofrimentos heróicos e a morte prematura de minha mãe, que me conduziu à Igreja; e recebi a espantosa caridade de Francis Morgan. Mas apaixonei-me pelo Santíssimo Sacramento desde o começo (cfr. Duriez, op. cit., pg. 25) (grifos nossos).

É notável a confissão de Tolkien de seu amor precoce à Eucaristia. Teria ele descoberto, desde cedo, que o Grande Amigo estava escondido no Sacrário?

Quando a cidade do Rio de Janeiro foi eleita para sediar a Olimpíada de 2016, o jornal Correio Braziliense publicou na capa uma foto do Cristo Redentor do Corcovado, de página inteira, com a manchete sui generis, mas que dizia muito: Nosso Senhor dos Anéis (referência óbvia aos Anéis Olímpicos, de uma parte, e ao livro, levado ao cinema, de Tolkien, de outra). Mas penso que diz um pouco mais, servindo de reflexão sobre o papel de Cristo em nossas vidas.

S. Josemaría Escrivá, em seu clássico Caminho, tem 3 pontos que apontam para essa mesma descoberta da maior das amizades que podemos ter na vida:

422. Jesus é teu amigo. – O Amigo. – Com coração de carne como o teu. – Com olhos de olhar amabilíssimo, que choraram por Lázaro… – E, tanto como Lázaro, te ama a ti.

426. Em Cristo temos todos os ideais: porque é Rei, é Amor, é Deus.

537. Quando te aproximares do Sacrário, pensa que Ele!… faz vinte séculos que te espera.

Quem ainda não fez a experiência de, num dia de extremo desânimo e abatimento, passar por uma igreja, entrar e ficar sentado num banco, olhando para o Sacrário, e descobrir que lá está Alguém que prometeu “vinde a mim todos os que estais fatigados e sobrecarregados e eu os aliviarei; tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim que sou manso e humilde de coração e encontrareis repouso para as vossas almas; pois o meu jugo é suave e a minha carga leve” (Mt 11, 28-30), e que consegue, efetivamente, aliviar o coração, num diálogo inefável, porque é O Amigo, não sabe o que está perdendo… e ainda não entendeu nada do que é a verdadeira amizade!

IX) CONCLUSÃO

Ao concluir estas singelas reflexões sobre a amizade e suas características, vem-me à cabeça a despedida recente do Ministro José Simpliciano Fernandes, do Tribunal Superior do Trabalho. Despedida sentida, diante de sua precoce jubilação. Despedida doída, pela amizade que criou com todos os colegas, decantada na última sessão de que participou na Corte, pelo seu trato amável sem ser bajulador, brincalhão sem ser vulgar, espiritualizado sem ser piegas, firme sem ser opressivo, conversador sem deixar de ouvir, dado sem esperar retorno.

Falou-se repetidas vezes nessa ocasião sobre santidade. Penso que santos só os temos nos Céus. Na Terra somos todos pecadores, ainda que possamos sinceramente buscar a santidade. E ser boa praça não é sinônimo de ser santo. Até porque o santo é, não raramente, sinal de contradição no ambiente em que vive, lembrando com a vida algumas obrigações que preferiríamos esquecer.

Penso, de qualquer forma, que o Feliciano, pois é assim que o chamo, por seu perene bom humor (a mim me chama carinhosamente de Ivezinho), soube cultivar as amizades e ser um grande amigo. Oxalá o convívio com ele durante tantos anos me ajude a ser melhor amigo de meus colegas (de todos), compreendendo-os e querendo-os, aprendendo deles e respeitando-os como são, na esperança, no entanto, de que possam sempre ser melhores, com a graça de Deus.