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Os Balrogs nunca tiveram asas!!!

Um dos temas mais debatidos sobre a obra de Tolkien é a questão das asas de Balrog. Enquanto uns afirmam que os Balrogs tinham asas, outros dizem que tais bestas não eram aladas. O seguinte texto, publicado originalmente no site Elfenomeno, bota mais lenha na fogueira. Boa leitura.
 
 

10 de janeiro de 2006, às 23:01 – Paola Castagno e Jésus Pedrazo

A multidão de Orcs se abriu como se eles mesmos estivessem com medo. Uma figura avançou para a fissura, não maior do que um homem, mas assim o terror parecia precedê-la. Eles podiam ver o fogo intenso de seus olhos amarelos de longe; tinha uma (?língua) vermelha.
 
Pelo ar saltou sobre a fissura flamenjante. As chamas subiram para saudá-lo e se retorceram a seu redor. Seu cabelo esvoaçante parecia pegar fogo, e a espada que empunhava transformou-se em chamas. Em sua outra mão, segurava um chicote de muitas correias.

– Ai, ai – lamentou Legolas – [Os Balrogs] Um Balrog chegou.

– Um Balrog – disse Gandalf – Que má sorte… e meu poder está quase esgotado.

A figura flamejante atravessou correndo o chão. Os Orcs gritaram e atiraram muitas flechas.

–    Pela Ponte – gritou Gandalf – Fujam! Fujam!

–    Este é um inimigo além de qualquer um de vocês. Eu defenderei a Ponte. Vão!

Quando alcançaram a porta se viraram, a despeito de sua ordem.

As figuras de Trolls atravessaram o fogo carregando Orcs. O Balrog correu em direção à Ponte. Legolas (?ergueu) seu arco, e (uma) flecha perfurou seu ombro. O arco caiu inútil. Gandalf permaneceu no meio da ponte. Em sua mão, Glamdring brilhava. E em sua mão esquerda, ele segurava seu cajado. O Balrog avançou e ficou olhando.

Subitamente, com um jorro de chamas, saltou na ponte, mas Gandalf permaneceu firme. ‘Você não pode passar’ ele disse. – Volte (riscado, provavelmente tão logo foi escrito: para as profundezas flamenjantes. É proibido para qualquer Balrog aparecer sob o céu desde que Fionwë, filho de Manwë destruiu Thangorodrim). Eu sou o mestre do Fogo Branco. A chama vermelha não pode passar por aqui.

A criatura não respondeu, mas endireitou-se até alcançar uma grande altura, e curvando-se sobre o mago, avançou e o golpeou. Uma cortina de chama branca brotou diante dele (?como um escudo) e o Balrog caiu para trás, sua espada em pedaços derretidos que voaram, mas o cajado de Gandalf quebrou-se e caiu de sua mão. Com um chiado arfante, o Balrog se aprumou de um salto; parecia [?meio cego], mas continuou e alcançou o mago. Glamdring lhe decepou a mão direita vazia, mas nesse instante, quando [? dava o golpe], o Balrog [? atacou com] seu chicote. As cordas o açoitaram e se enroscaram em torno dos joelhos do mago, que cambaleou.

Este é um dos primeiros rascunhos do capítulo “A Ponte de Khazad-Dûm” de ‘O Senhor dos Anéis’ e que podemos encontrar em ‘The Treason of Isengard’. Nos quatro livros que compõem a História de ‘O Senhor dos Anéis’ (O Retorno da Sombra, A Traição de Isengard, A Guerra do Anel e o Fim da Terceira Era) podemos encontrar os textos de J. R. R. Tolkien em diferentes períodos da evolução de ‘O Senhor dos Anéis’, compilados e editados por seu filho Christopher Tolkien. A respeito do tema que agora nos concerne, são vários os lugares onde se descreve com mais ou menos clareza a forma física do Balrog de Moria, como por exemplo, os fragmentos a seguir detalham:

O rascunho original do capítulo acaba aqui e não reconta a chegada da Companhia ao Vale do Riacho Escuro. Há uma nota a lápis escrita no manuscrito ao lado da descrição do Balrog: ‘Alterar a descrição do Balrog. Parecia ter a forma de um homem, mas sua forma não podia ser claramente discernida. Dava a impressão de ser maior do que parecia.’ Depois as palavras ‘Pelo ar saltou por sobre a fenda flamenjante’ meu pai adicionou ‘e uma grande sombra parecia escurecer a luz.’

Aqui Gandalf descreve o Balrog, seu fogo extinto, desta maneira: ‘ele era uma coisa de lama, forte como uma serpente estranguladora, lisa como gelo, flexível como uma correia, inquebrável como aço.’

Mas claro, muitos dirão que estes não são mais do que trechos descartados pelo autor, e embora não devamos esquecer que a partir deles compôs a versão final, não temos mais nada a fazer a não ser recorrer ao cânone, à obra finalmente publicada, na qual, como sabemos, se diz o seguinte:

A multidão de orcs se abriu, e se amontoou do lado, como se eles próprios estivessem com medo. Alguma coisa vinha atrás. Não se podia ver o que fosse: era como uma grande sombra, no meio da qual havia uma forma escura, talvez humanóide, mas maior; poder e terror pareciam estar nela e ao seu redor.
   
A figura veio para a extremidade do fogo e a luz se apagou, como se uma nuvem tivesse coberto tudo. Então, com um movimento rápido, pulou por sobre a fissura. As chamas bramiram para saudá-la, e se ergueram à sua volta; uma nuvem negra rodopiou subindo no ar. A cabeleira esvoaçante se incendiou, fulgurando. Na mão direita carregava uma espada como uma língua de fogo cortante; na mão esquerda trazia um chicote de muitas correias.

– Ai! ai! – gemeu Legolas. – Um balrog! Um balrog vem vindo!

Gimli  olhou com os olhos esbugalhados. – A Ruína de Durin – gritou ele, deixando cair o machado e cobrindo o rosto.

– Um balrog! – murmurou Gandalf. – Agora eu entendo. – Perdeu o equilíbrio e se apoiou no cajado. – Que má sorte! E eu já estou exausto!

A figura escura, envolvida em fogo, corria em direção a eles. Os orcs gritavam e avançavam para a passarela de pedra. Então Boromir levantou sua corneta e a tocou. Forte o desafio soou e retumbou, como o grito de muitas gargantas sob o teto cavernoso. Por um momento os orcs estremeceram e a figura de fogo parou. Então os ecos se extinguiram de repente como uma chama apagada por um vendaval, e o inimigo avançou outra vez.

– Para a ponte! – gritou Gandalf, recobrando as forças. – Fujam! Este é um inimigo além das forças de qualquer um de vocês. Preciso proteger o caminho estreito. Fujam! – Aragom e Boromir não obedeceram ao comando, e ainda ficaram onde estavam, lado a lado, atrás de Gandalf na extremidade oposta da ponte. Os outros pararam bem na passagem na ponta do salão e se viraram, incapazes de deixar seu líder sozinho, enfrentando o inimigo.

O balrog alcançou a ponte. Gandalf parou no meio do arco, apoiando-se no cajado com a mão esquerda, mas na outra mão brilhava Glamdring, fria e branca. O inimigo parou outra vez, enfrentando-o, e a sombra à sua volta se espalhou como duas grandes asas. Levantou o chicote, e as correias zuniram e estalaram. Saía fogo de suas narinas. Mas Gandalf ficou firme.

– Você não pode passar – disse ele. Os orcs estavam quietos, e fez-se um silêncio mortal. – Sou um servidor do Fogo Secreto, que controla a chama de Anor. Você não pode passar. O fogo negro não vai lhe ajudar em nada, chama de Udún. Volte para a Sombra! Não pode passar.

O balrog não fez sinal de resposta. O fogo nele pareceu se extinguir, mas a escuridão aumentou. Avançou devagar para a ponte, e de repente saltou a uma enorme altura, e suas asas se abriram de parede a parede, mas ainda se podia ver Gandalf, brilhando na escuridão; parecia pequeno, e totalmente sozinho: uma figura cinzenta e curvada, como uma árvore encolhida perante o início de uma tempestade.

Saindo da sombra, uma espada vermelha surgiu, em chamas.

Glamdring emanou um brilho branco em resposta.

Houve um estrondo e um golpe de fogo branco. O balrog caiu para trás e sua espada voou, partindo-se em muitos pedaços que se derreteram. O mago se desequilibrou na ponte, deu um passo para trás e mais uma vez ficou parado.

– Você não pode passar! – disse ele.

Num salto, o balrog avançou para cima da ponte. O chicote zunia e chiava.

– Ele não pode ficar sozinho! – gritou Aragorn de repente, correndo de volta ao longo da ponte. – Elendil! – gritou ele. – Estou com você, Gandalf!.

– Gondor! – gritou Boromir, correndo atrás dele.

Nesse momento, Gandalf levantou o cajado e, gritando bem alto, golpeou a ponte. O cajado se partiu e caiu de sua mão. Um lençol de chamas brancas se ergueu. A ponte estalou. Bem aos pés do balrog se quebrou, e a pedra sobre a qual estava caiu dentro do abismo, enquanto o restante permaneceu, oscilando, como uma língua de pedra estendida no vazio.

Com um grito horrendo, o balrog caiu para frente, e sua sombra mergulhou na escuridão, desaparecendo. Mas no momento em que caía, brandiu o chicote e as correias bateram e se enrolaram em volta dos joelhos do mago, arrastando-o para a borda. Ele perdeu o equilíbrio e caiu, agarrando-se em vão à pedra, e escorregou para dentro do abismo.

No básico, é evidente que a história se manteve, mas como sabemos todos nós, os amantes da obra, é neste parágrafo, neste capítulo, onde se encontram as duas ‘célebres’ frases que originaram a perpétua e (não resolvida) discussão sobre se o Balrog tinha ou não asas.

Em B é dito somente que o Balrog ‘deteve-se encarando-o’: em C ‘o Balrog deteve-se encarando-o e a sombra que o envolvia se abria dos lados como duas grandes asas”. Imediatamente depois, onde em CA o Balrog “se ergueu para uma grande altura, e suas asas se estenderam de parede a parede”, nem B nem C tem as palavras ‘para uma grande altura’ nem fala de ‘asas’.

Portanto, foi no chamado ‘manuscrito C’ que J.R.R.Tolkien insere a primeira citação, a que usamos como argumento de que o Balrog não tinha asas. Mas quando e por que aparece a segunda frase? Como o próprio Christopher Tolkien disse, nos manuscritos de que dispõe, não se fala de asas. O balrog é descrito como rodeado de escuridão, que em um dado momento, toma a forma de asas.  Certamente, é ao menos estranho que nosso querido professor, sendo tão detalhista como era e tão primoroso no uso da linguagem não deixe claro se um ser pertencente à sua criação mitológica, e que, portanto, nos era desconhecido, já que acabamos de ler sobre ele pela primeira vez em sua obra, tinha ou não asas, elemento definidor e fundamental na descrição do inimigo de Gandalf.

Bem, pois na recente publicação de The Lord of the Rings: A Reader´s Companion, de Wayne G. Hammond e Christina Scull, publicado no Reino Unido no último mês de novembro de 2005, e tal como anunciamos nas notícias deste página, se destaca neste aspecto:

330 (I:344). E a sombra que o envolvia se abriu dos lados como duas grandes asas –  esta é a frase que aparece dois parágrafos abaixo, ‘prontamente se ergueu até alcançar uma grande altura, estendendo as asas de parede a parede’, tenham levado a muitas discussões entre os leitores em relação a se os Balrogs tinham asas. Como duas grandes asas a princípio descreve a sombra que rodeia o Balrog, e a segunda parece seguir aplicando-se a sombra: à medida que o Balorg aumenta sua altura, assim sua sombra se estende ao comprido. Outra evidência citada para as asas, quando se diz que os Balrogs ‘passaram com uma velocidade alada por Hithlum” (El Anillo de Morgoth, P. 340), pode ser interpretada geralmente como figurada. (The Lord of the Rings: A reader´s companion, "The bridge of Khazad-dûm", p.296)

 [Na versão original em inglês se diz "and they passed with winged speed over Hithlum"]

As pessoas que defendem o Balrog com asas argumentam, também, que o importante não é o detalhe da velocidade alada, mas o final desta frase: “chegaram a Lammoth como uma tempestade de fogo”, argumentando que uma tempestade vem do céu, pelo qual os Balrogs deviam chegar voando. Não obstante, nos encontramos diante de algo que é, novamente, completamente circunstancial e que, da mesma forma, pode interpretar-se de forma figurada.

Além do mais, isto traz uma nova incógnita ao debate: os Balrogs podiam voar?

Mas além disso, conforme pudemos ler em um recente ensaio de Michael Martinez publicado no MERP, quando se perguntou por escrito a Christopher Tolkien sobre as asas, respondeu o seguinte:

Pela regra geral, não me era enviado o material tardio de Markette (sic) – os textos datilografados por meu pai – e em muitos casos nem sequer os vi… Assim, nunca li o texto datilografado final (o seguinte à cópia limpa do manuscrito C (La Traición de Isengard, páginas 203-33) da Ponte de Khazad-dum (Markette n.º 3/3/25). Presumo que foi aí onde entrou a menção das asas do Balrog que se estendiam de parede a parede. Poderia pedir a Chuck Elston, o muito solícito arquivista de Markette, que procure o 3/3/25. Mas então provavelmente não lhe seria muito útil, sem nenhum conhecimento preciso de quando o datilografou meu pai: mas em uma carta de 28 de fevereiro de 1949, ele escreveu: “Estou achando enorme o trabalho de datilografar uma boa cópia de ‘O Senhor dos Anéis’”. Eu, pessoalmente, nunca achei que a segunda menção das asas do Balorg tenha nenhum significado diferente da primeira.

Bem, e o que concluímos com este novo texto? No momento, duas coisas:

– Por um lado, nos confirma o momento no qual foi introduzida a segunda citação das asas. Em todo caso, a inclusão desta frase é posterior à da semelhante “como duas grandes asas”.

– E, por outro lado, está claro que para Christopher Tolkien os Balrogs não tinham asas, nem as tiveram desde um primeiro momento, porque a julgar por suas palavras, seu pensamento se encaminha claramente ao anteriormente citado, que a metáfora “estendendo as asas de parede a parede” não é mais do que uma ênfase do símile “como duas grandes asas”. E dentro do mundo de J.R.R. Tolkien, está acima de qualquer dúvida que a pessoa com mais autoridade no tema é seu filho, Christopher. Além do mais, não podemos deixar de pensar que se alguém teve oportunidade de perguntar ao próprio J.R.R. Tolkien e de saber como eram os Balrogs e se tinham ou não asas, este é Christopher Tolkien.

Para os que escreveram estas linhas com todos estes fundamentos, está mais do que claro que temos um novo enigma solucionado em nossa amada Terra-Média. Agora somente nos resta esperar que logo apareça algum texto que nos esclareça de uma vez quem ou o que é Tom Bombadil.

 

* Nota: a carta a que aqui se refere C. Tolkien é a que aparece em “As Cartas de J.R.R. Tolkien”, numerada com o n.º 119, e dirigida a Allen & Unwin em 28 de fevereiro de 1949.

Não tenho tempo para voltar a datilografar (Farmer Giles), e não creio que seja realmente necessário. Estou achando enorme o trabalho de datilografar uma boa cópia de ‘O Senhor dos Anéis’, e a alternativa de obtê-la datilografada por um profissional tem um custo proibitivo.
(J.R.R. Tolkien: Cartas, carta nº 119)

Balrogs Têm Asas? Balrogs Voam?

Nenhuma questão parece incitar maior medo nos fã-clubes on-line de Tolkien do que estas duas, porque o debate sobre as Grandes Asas de Balrog começou inocentemente no final de 1997 e tem se enfurecido desde então, cada vez que alguém descobre um novo grupo de discussões, ou emociona-se, toma coragem e faz a pergunta de novo e de novo. Porque tão grande medo? Porque algumas pessoas sempre cedem e mudam de idéia. E estes que mudam de idéia o fazem mais de uma vez. O debate sobre Asas de Balrogs têm levado a uma grande quantidade de xingamentos e difamações. Tudo isso torna-se muito infantil rapidamente.

 

 

E, desafortunadamente, esforços recentes de colocar o debate de uma forma "justa" e não-crítica têm tido falhas espetaculares porque as partes não apresentam todos os fatos. É difícil condensar uma discussão que ruge por duas ou três semanas antes de morrer em um sumário conciso. É difícil estar certo de quais pontos estão corretos e quais estão descartados. O debate da Grande Metáfora e Similaridades surgiu do debate das Grandes Asas de Balrog, e se nada providenciar mais evidência as pessoas não poderão concordar em nada. Muitos dos que permanecem firmemente juntos no assunto das asas caem em disputa sobre o que constitui metáfora e similaridade, e como são normalmente utilizadas, e como poderiam ser utilizadas, e como J.R.R. Tolkien as utilizou.

Esta página é relacionada apenas com as questões originais. Balrogs têm asas? balrogs voam? E as respostas são…

Sim, Balrogs têm asas… de cerca de 1940 em diante.

Sim, Barlog voam… pelo menos desde 1940 em diante, talvez 1948 em diante, ou possivelmente de 1952 ou perto disso em diante.

As Origens dos Balrogs

Tolkien usou a palavra "Balrog" para descrever um terrível tipo de guerreiro que ele inventou para o THE BOOK OF LOST TALES, a primeira história que ele inventou, em 1916/1917. Esta era a "The Fall of Gondolin". Ali existem centanas ou mesmo milahres deles. Em algumas descrições de batalhas Tolkien descreve cerca de 1.000 balrogs cavalgando através do campo [eles eram uma força de cavalaria].

THE BOOK OF LOST TALES foi uma tentativa de Tolkien de criar uma mitologia para a Inglaterra, e ele abandonou o projeto em 1925, que foi aproximadamente a data em que ele decidiu criar uma mitologia completamente nova que reusava temas e muitos personagens de THE BOOK OF LOST TALES. Então esta mitologia, que ele chamou de "Silmarillion", era uma versão bastante primitiva da coleção de textos que Christopher publicou como O SILMARILLION em 1977, mas não era diretamente relacionada.

A nova mitologia "Silmarillion" manteve os Balrogs, e nos anos de 1930 Tolkien a reescreveu, produzindo a única versão completa do "Quenta Silmarillion" que ele escreveu. Christopher realmente utilizou algumas porções deste texto para o livro, e isto, desafortunadamente, contribuiu para a confusão que muitos sentem sobre os Balrogs.

Um Novo Balrog Surge

Quando Tolkien começou a trabalhar em O SENHOR DOS ANÉIS, ele realmente desejava seu "Silmarillion" publicado [agora concebido como O SILMARILLION, mas permanece conceitualmente muito pouco com o livro final]. Ele não possuía uma inclinação real para escrever nenhum outro livro sobre hobbits, mas como ele estava trabalhando em uma nova história de hobbits a idéia de casar o mundo dos hobbits com o mundo do "Silmarillion" o atraiu, ele acreditava que isso eventualmente o ajudaria a publicar O SILMARILLION.

Então Tolkien começou a criar o que nós hoje conhecemos como Terra-média [que não existia antes disso, e Tolkien apenas raramente usara o nome "Terra-média" nos anos de 1930, e ele não aparece em nenhum texto publicado de antes de 1930]. Como parte daquele mundo ele precisava de uma série de pergidos que Frodo e seus companheiros poderiam encontrar, e um desses foi colocado nas antigas minas de Moria, que O HOBBIT estabeleceu como abandonada e em posse dos Orcs.

O perigo em Moria começou como alguma outra coisa e não um Balrog [Tolkien a principio não estava certo do que o perigo seria], e quando ele decidiu que DEVERIA ser um Balrog ele tornou-se insatisfeito com a forma que ele retartou Balrogs no passado. Tolkien já avia começado o processo de transformar os balrogs em Maiar corrompidos mas esta decisão não foi posta em forma escrita até 1948. Apesar de tudo, ele mudou a descrição física do Balrog de Moria e alterou suas habilidades substancialmente daquelas determinadas para os Balrogs nas histórias antigas [e abandonadas].

Este Balrog tinha asas, e era capaz de exercer grande poder, e era quase invencível. O Balrog detectou a magia de Gandalf quando ele tentou bloquear a saída da Câmara de Mazarbul, e o próprio Balrog começou um contra-feitiço, de acordo com Gandalf. Então o mago usou uma Palavra de Comando para quebrar o teto, e o resultado foi um desmoronamento parcial que soterrou a Câmara de Mazarbul e aparentemenre o Balrog nela.

O Balrog sobreviveu ao soterramento e reuniu seu exército, que encontrou a Sociedade do Anel no Segundo Salão de Khazad-dum por uma rota alternativa. Ali o Balrog se revelou completamente, e a escuridão com que disfarçava a si mesmo se expandiu. As asas eram ou protegidas pela escuridão ou formadas pelo Balrog imediatamente ou também a escuridão [ou parte da escuridão] era transformada pelo Balrog para tomar a forma de asas [e portanto TORNAVA-SE asas].

Objeções às Asas de Balrog

Aqui é onde muitas pessoas cometem seu primeiro engano. Argumentam que uma vez que Tolkien introduz as asas com um similaridas, dizendo, "a sombra ao seu redor estendeu-se COMO duas grandes asas" ["the shadow around it reached out LIKE two vast wings"], as asas não poderiam ser reais. Mas o argumento é falho, porque Tolkien sempre introduz a escuridão [a "sombra"] com uma similaridade também: "o que era não podia ser visto: era COMO uma grande sombra, no meio da qual uma forma escura, humanóide talvez ainda maior". Se o uso de Tolkien da palavra "como" aqui significa que não existiam asas, segue-se que não existia sombra, e se não existia sombra então não seria possível que ela tenha se "estendido como duas grandes asas".

Então, para existir uma sombra devem existir asas, porque mais tarde Tolkien escreveu "adiantou-se lentamente na ponte, e repentinamente levantou-se a grande altura, e suas asas se estenderam de parede a parede". A Sociedade do Anel claramente viu as asas neste ponto, e o que Tolkien estava fazendo com as duas similaridades [e outras partes da passagem] era providenciar uma transição da imprecisão para a claridade. Nada mais.

Objeções aos Balrogs Voadores

As pessoas então perguntam "Porque o Balrog não voou sobre Gandalf se ele podia voar?"

A resposta é que o autor nunca deu indicação de que o Balrog desejava fazer nada mais do que atacar Gandalf. Ele nunca sequer tentou ir atrás de Frodo e do Anel. Muitas pessoas assumem que ele queria o Anel, mas não existe base para fazer tal suposição. A indicação mais próxima que nós temos de que outra coisa qualquer além de Sauron e Saruman estarem ativamente perseguindo o Anel é quando ser na Água, ante a porta de Moria, pega Frodo. Mas não existe uma conexão óbvia entre o ser e o Balrog.

E se o Balrog PUDESSE ter voado com aquelas grandes asas, como ele o faria dentro do Segundo Salão de Khazad-dum, de qualquer forma? Existiam duas colunas de GRANDES pilares esculpidos, indo do teto ao chão, circundando o centro do salão. O Balrog não poder ter voado em direção à Sociedade do Anel com as asas plenamente extendidas.

Então as pessoas perguntam "Bem, porque ele não tentou se salvar quando caiu no abismo?"

A resposta começa aqui com outra questão: "Porque devemos assumir que ele desejaria salvar a si mesmo?" O Balrog acabara de sair debaixo de toneladas de pedra, que poderiam ter matado Gandalf, Aragorn, Boromir e todo o resto da Sociedade. O que, exatamente, ele deveria temer? Porque ele deveria tentar "salvar" a si mesmo quando o autor tinha acabado de mostrar que os Balrogs não morrem tão facilmente?

Além disso, a primeira coisa que o Balrog faz e atacar Gandalf e puxá-lo pra baixo. Claramente o principal pensamento era continua a atacar Gandalf. Mesmo que existisse espaço no abismo para o Balrog voar para fora, porque ele deveria puxar Gandalf para baixo com ele se tinha a intenção de sair do abismo, de qualquer forma? Porque não apenas "salvar" a si mesmo e deixá-lo cair com a ponte? Porqie Tolkien não escreveu desta forma. Obviamente ele anteviu o Balrog como uma criatura ativa e não reativa.

A descrição de Gandalf da batalha com o Balrog deixa claro que eles lutaram durante a queda, e que eles caíram por um longo tempo. Então o balrogs estava, em última instância, enganjado com Gandalf e mais provavelmente ativamente tentando queimá-lo até a morte [Gandalf diz que ele foi queimado].

E então temos de nos virar para a questão de porque tomou tanto tempo para alcançarem a água. Algumas pessoas argumentaram que era uma LONGO caminho até embaixo. Talvez, mas se Tolkien conhecia qualquer coisas sobre a velocidade de corpos caindo [e ele provavelmente conhecia], então ele entenderia que as palavras de Gandalf não fariam sentido se o mago e o Balrog realmente caíssem à velocidade normal.

Então parece aparente que a taxa de queda foi diminuída, provavelmente pelo Balrog, mas claramente estes dois eram seres de grande poder que, se desejassem, poderiam se movem através do universo à vontade. Suas existência e habilidades de afetar o universo não dependiam de seus corpos físicos [embora deva ser notado que mais tarde Tolkien decidiu que muitos dos Maiar corrompidos tornaram-se presos a seus corpos devido à atuação em atividades biológicas].

Portanto, existe pouca razão em perguntar porque o balrog não voou para fora do abismo. Ele obviamente tinha outras coisas em mente, e a batalha que Gandalf descreve não é o tipo de batalha que qualquer criatura de carne e sangue pudesse esperar sobreviver [e ele pessoalmente não era uma criatura normal de carne e sangue]. A batalha durou 11 dias, e culminou com o chouqe de poderes no cume da montanha.

Um Balrog Voador Poderia Salvar a Si Mesmo?

Então mais uma objeção é levantada: "porque o Balrog não se salvou quando caiu da montanha?" A resposta é que Balrogs mortos ou morrendo, assim como dragões mortos ou morrendo, não voam. Quando Earendil lançou Ancalagon do céu o dragão já estava acabado e destruiu as Thangorodrim em sua ruína assim como o Balrog de Moria destruiu o lado da montanha em sua ruína. E quando a flecha de Bard atingiu o peito de Smaug, o grande dragão caiu dos céus e atingiu as ruína da Cidade do Lago.

Gandalf atirou para baixo seu inimigo. Esta expressão é um dos pseudo-arcaísmos de Tolkien, e claramente se refere à vitória de Gandalf sobre o Balrog. Ele estava tão fisicamente exausto após ter sido atingido com uma espada Élfica e Relâmpagos por 11 dias ou estava morto ou em morrendo quando ele caiu da montanha. Se o balrog poudesse ter agido de forma a salvar-se de alguma forma, ele poderia no mínimo ter levado Gandalf consigo, se não até mesmo ter virado a mesa. Quantas vezes durante os 11 dias juntos tanto Gandalf quanto o Balrog QUASE mataram seus oponentes? Tolkien não diz. E;e deixa para o leitor imaginar quão terrível a batalha deve ter sido. Mas ele deixa claro que Gandalf venceu porque o Balrog não podia mais atacá-lo.

Mas os Balrogs Podiam Realmente Voar?

Então nos voltamos para a questão de se os balrogs podiam REALMENTE voar. A resposta curta para tal seria de que eles eram Maiar e os Maiar poderiam fazer o que quisessem. A resposta mais longa é que Tolkien PROPORCIONOU um exemplo de Balrogs voadores, e foi quando eles voaram sobre Hithlum para resgatar Morgoth de Ungoliant.

Aqui muitas pessoas levantam objeções dissecando uma única sentença e tomando frases específicas fora do contexto. "velocidade alada" ["winged speed"], eles dizem, pode ser utilizada como uma metáfora. Sim, pode, mas não existe indicação no texto de que Tolkien a tenha usado assim. "Levantou" ["Arose"], eles dizem, pode se referir ao ato de voar para o céu ou simplesmente ao de escalar de uma moradia subterrânea, e os Balrogs estavam de fato no subterrâneo quando ouviram o grito de Morgoth. Sim, assim é. Mas não existe indicação no texto de que era isso que Tolkien queria dizer sem também implicar que os Balrogs voassem.

"Passar sobre" ["Passed over"] não significa necessariamente voar, também, eles dizem. O cavalo de Fingolfin passou sobre ["passed over"] a planície de Aufauglith após a Dagor Bragollach, e o cavalo obviamente não estava voando. Verdade, mas "passar sobre" deve ser dado em um contexto para ter significado.

O que J.R.R. Tolkien realmente escreveu foi "rapidamente eles se levantaram, e passaram com velocidade alada sobre Hithlum, e chegaram a Lammoth como uma tempestade de fogo" ["swiftly they arose, and they passed with winged speed over Hithlum, they came to Lammoth as a tempest of fire."]. Desafortunadamente, apenas parte deste texto foi usado por Christopher Tolkien em O SILMARILLION. O que ele escreveu foi "e então rapidamente el
es se levantaram, e passaram sobre Hithlum chegaram a Lammoth como uma tempestade de fogo.
" ["and now swiftly they arose, and passing over Hithlum they came to Lammoth as a tempest of fire."]

Porque Christopher mudou o texto? Ele não fala. Pode ter sido apenas um erro de omissão. Mas não é simplesmente uma omissão, ele mudou a frase verbal completamente de "eles passaram com velocidade alada sobre Hithlum" para "passaram sobre Hithlum".

A frase chave em ambas as versões da sentença, contudo, é a metáfora "tormenta de fogo". Uma tormenta é uma tempestade. Algumas pessoas argumentaram que uma tempestade pode simplesmente se referir a um distúrbio, mas Tolkien não usa a palavra "tormenta" ["tempest"] dessa forma. Ele a usa para se referir de coisas vindas do céu. Quando Morgoth libera os dragões alados no Exército dos Valar ao final da Guerra da Fúria, eles irrompem como uma "tormenta de fogo". Claramente os dragões alados estavam voando e expelindo chamas.

A "tormenta de fogo" de Tolkien em Lammoth data dos anos 1950, APÓS Tolkien ter chegado à conclusão de que Balrogs eram Maiar caídos alados. Além disso, funciona com "rapidamente eles se levantaram, e passaram com velocidade alada sobre Hithlum" para denotar uma passagem através do céu. Existiam Elfos em Hithlum a este tempo [Sindar] que perceberam esta passagem [essa é a forma como Tolkien justificava suas histórias – ou alguém as testemunhou ou deduziu]. Hithlum não foi queimada, nem sofreu qualquer tipo de dano pela chama ou fumaça. Tolkien não diz que os Balrogs flamejantes correram através de Hithlum, e eles em seu estado de fogo não poderiam cavalgar através dele como nas antigas histórias.

Algumas pessoas apesar de tudo argumentam que são apenas palavras, e pode-se mostrar que significam outra coisa além de voar. Contudo, quando eu pedi a pessoas em muitos fóruns para tentarem, nenhuma teve sucesso. Você deve usar todas as quatro partes da sentença. Você não pode deixar de lado nenhuma parte. Simplesmente não é possível reescrever a sentença de forma a mostrar outra coisa que não seja um vôo. Então, não existe ambiguidade na passagem relacionada ao modo de viajar dos Balrogs.

A Caravana de Balrogs de Glaurung

Uma última objeção é levantada, e situa-se na descrição da Dagor Bragollach, O SILMARILLION diz "à frente do fogo vinha Glaurung o dourado, pai dos dragões, em seu poder pleno; e atrás dele estavam os Balrogs, e atrás deles vinham os exércitos negros de Orcs em multidão como os Noldor nunca haviam visto antes ou imaginado."

Pode-se perguntar de onde essa sentença veio, e a resposta pode surpreender muitos. Ela não veio de J.R.R. Tolkien. O que JRRT realmente escreveu, no último "Quenta Silmarillion" completo da década de 1930, foi "à frente daquele fogo vinha Glaurung o dourado, pai dos dragões, e atrás dele estavam Balrogs, e atrás deles vinham os exércitos negros de Orcs em multidão como os Gnomos nunca haviam visto ou imaginado."

Estes Balrogs não eram os Balrogs flamejantes, envoltos em sombra, alados e voadores dos anos de 1940 e 1950. No mesmo texto, quando Tolkien descreveu a luta entre Morgoth e Ungoliant, tudo que ele escreveu foi "tão grande Ungoliant tornara-se que ela capturou Morgoth em suas teias sufocantes, e seu terrível grito escoou através do mundo que estremeceu. Em sua ajuda vieram os Balrogs que viviam nos mais profundos lugares de sua antiga fortaleza, Utumno no Norte. Com seus chicotes de fogo os Balrogs golperaram as teias separadamente…"

Nenhuma menção de passagem sobre Hithlum, levantar-se rapidamente, ou chegando como uma tempestade de fogo. Estes não eram Balrogs de fogo e voadores. Eles continuavam sendo os Balrogs montados de algum tempo atrás. No mesmo texto do "Quenta Silmarillion", ao descrever a Nirnaeth, Tolkien escreveu "mas enquanto a vanguarda de Maedhros vinha sobre os Orcs, Morgoth soltou suas últimas forças, e o inferno foi esvaziado. Vieram lobos e serpentes, e vieram mil Balrogs, e veio Glomund o Pai dos Dragões." O Número de 1000 Balrogs sobreviveu até os anos de 1950, mas Tolkien sem demora fez um nota para si mesmo nos "Annals of Aman" qie não deveriam existir mais de 7 ao todo.

Ao descrever os resultados da Guerra da Ira neste "Quenta Silmarillion", Tolkien escreveu "os Balrogs foram destruídos, exceto alguns poucos que fugiram e se esconderam em cavernas inacessíveis nas raízes da terra." Esta foi a linguagem que Chistopher incorporou no SILMARILLION publicado, porque seu pai nunca terminou de reescrever o "Quenta Silmarillion". Chistopher adotou tanto material quando pode do "Annals of Aman" e "Grey Annals", mas o material mais tardio cobrindo a história dos Eldar na Terra-média após o retornos dos Noldor e este era inadequado para uso nos textos publicados.

A entrada no "Grey Annals" que descreve a Dagor Bragollach é radicalmente diferente da descrição de 1930 que Chistopher utilizou, dizendo, em parte, "rios de fogo corriam das Thangorodrim, e Glaurung, Pai dos Dragões, veio em sua força plena. As planícies verdes de Adrgalen foram queimadas e se tornaram um deserto sombrio sem nenhuma coisa que cresce; e a partir desse momento foi chamada ANFAUGLITH, a Poeira Arfante."

E lá se foram todas as menções de Balrogs atrás de dragões.

A Palavra Final Sobre Balrogs

Tolkien nunca escreveu uma história sobre Balrogs novamente. O que nós encontramos em O SILMARILLION, então, é virtualmente informação inútil, amalgamadas de fontes antigas, pré-Senhor dos Anéis [e portanto incompatíveis]. E os fãs de Tolkien frequentemente esquecem a admoestação de Chistopher no prefácio de O SILMARILLION: "Uma consistência completa [seja dentro do compasso do próprio O SILMARILLION ou entre O SILMARILLION e outros escritos publicados de meu pai] não deve ser procurada, e poderia ser apenas obetida, se puder, a um alto e inútil custo."

Portanto, para aprender sobre a natureza e habilidades de Balrog de Moria deve-se dissecar os vários textos dos THE HISTORY OF MIDDLE-EARTH, e as histórias de THE BOOK OF LOST TALES e outros materiais pré-Senhor dos Anéis não podem ser utilizados para o Balrogs de Moria. Muitas pessoas tentaram fazê-lo, mas devido a Tolkien ter substancialmente mudado os Balrogs enquanto escrevia o "Ainulindale" e O SENHOR DOS ANÉIS, os Balrogs do THE BOOK OF LOST TALES e o "Quenta Silmarillion" inicial são criaturas completamente diferentes.

Em última análise, deve-se aceitar que o Balrog de Moria têm asas porque J.R.R.
Tolkien disse que eles tinham asas, e que os Balrogs voaram para Lammoth porque a sentença não pode significar nenhuma outra coisa. Se alguém escolhe não aceitar estes fatos, está em desacordo com J.R.R. Tolkien, e não existe nada que possa ser dito ou feito para contrapor um argumento que recusa a aceitar fatos simples e planos.

Tradução de Fábio Bettega

A Questão das Asas de Balrogs, sob o Ponto de Vista da Obra Literária do Autor

A discussão sobre terem ou não asas os Balrogs de Tokien se estende há vários anos, com os mais diversos argumentos pró e contra aqueles apêndices nos nefastos demônios corrompidos por Morgoth. Em vários sítios da Internet tais argumentos são apresentados, uma versão em português bastante completa e elucidadora encontra-se nas páginas Valinor (http://www.valinor.com.br) .
Entretanto, a análise efetuada quase sempre se prende a discussões de cunho secundário, que são mais baseadas na interpretação do texto, segundo a visão de cada um. Um exemplo claro desse fato é a argumentação sobre a dimensão das asas face aos vãos de Moria. Uma lacuna importante na discussão é a falta da abordagem original sobre o tema, ou seja, qual a opinião do autor do texto (SdA)[/B] sobre a existência ou não daquelas asas. Existem alguns pontos importantes que não são normalmente listados e que sugerem (fortemente, na minha opinião) de que Tolkien jamais cogitou dar apêndices de vôos aos Balrogs, mas apenas procurava realçar sua obra em termos da qualidade literária da linguagem empregada.

Nas obras de Tolkien encontramos os seguintes argumentos (que classifico de “fracos”?) sobre a questão dos Balrogs terem ou não asas:

1. Na versão do Silmarillion publicada (chamo a atenção para o fato de que a edição e revisão final não foram efetuadas por Tolkien mas sim por seu filho) quando Morgoth é ameaçado por Ungoliant seu grito desperta os Balrogs que correm em seu socorro:

“… and passing over Hithlum they came to Lammoth as a tempest of fire…”?


O uso do “passing over”? não caracteriza diretamente o vôo com asas, mas é uma maneira de indicar a travessia. Da mesma forma, o capítulo é denominado “The Fligth of the Noldor”? que é apenas uma alusão a sua viagem (fuga) de Valinor, sem a mínima conotação com o fato dos elfos voarem ou não. Na versão do Silmarillion revisada por Tolkien e enviada aos seus editores no final dos anos 30 aquela expressão é usada como


“to his aid there came the Balrogs that lived yet in the deepest places …”? (em seu socorro vieram os Balrogs que viviam anda nos mais profundos lugares)


isto é, sem nenhuma menção sequer a voar sobre Hithlum.

O uso daquela expressão é apenas figura de linguagem, da mesma forma que um autor pode se referir aos olhos da heroína como “brilhando como estrelas”? ou “lábios doces como mel”?. Assim não pode ser levada muito a sério… Até mesmo em português temos o hábito de dizer “vá e volte voando”? !

2. As descrições de lutas com Balrogs, como em “The Fall of Gondolin”?, embora sugiram que eles não possuiam asas não são também conclusivas.

3. Outro argumento é o uso frequente, nos textos de Tolkien, do adjetivo “winged”? para descrever os seres estranhos voadores. Isso ocorre no Silmarillion (Ancalagon) e no Senhor dos Anés (as montarias dos Nazgul). Entretanto em nenhum dos textos por ele escritos para as histórias da primeira ou terceira era, mesmo considerando as múltiplas versões encontradas nos volumes da “History of Middle Earth”?, os Balrogs recebem aquele adjetivo.

Por outro lado, existem dois argumentos que podem ser classificados (na minha opinião) como “fortes”? na discussão:

1. A descrição da luta de Gandalf com o Balrog de Moria na ponte de Khazad-Dum

Aqui se baseiam, de modo consistente, as afirmações de que o Balrog tenha asas, embora por alguma estranha razão não as utilize em seu favor durante a luta ou na queda da ponte. Esses argumentos estão exaustivamente analisados naquela referência já mencionada de modo que a discussão a seguir centra-se no aspecto literário da obra.

Em primeiro lugar, o texto publicado por Tolkien não se refere explicitamente a asas. Ao longo da descrição sobre a luta sobre a ponte de Khazad-Dum surgem as expressões :

(a) “…, and the shadows about it reached out like two vast wings”?


(b) “It stepped forward slowly on to the bridge, and suddenly it
drew itself up to a great height, and its wings were spread from wall to wall; …”?


Um pouco antes, quando é descrito o surgimento do Balrog, já Tolkien usava um indicativo de que o terror oriundo da besta se propagava ao seu redor:

(c) “… It was like a great shadow, in the middle of which was a dark form, of man-shape maybe, yet greater; and a power and  terror seemed to be in it and to go before it.”?


A expressão (a) não implica na existência das asas, apenas que as sombras (decorrentes dos poderes do Balrog) se estendiam como se fossem duas grandes asas. O verbo “to reach”? pode significar o desdobrar, estender de poderes (mentais). Por outro lado, no inglês se usa a mesma palavra (reach) como substantivo para indicar a envergadura de um movimento (com as mãos, por exemplo) ou o alcance no qual se podem usar poderes mentais. Assim, além de várias outras explicações já publicadas, a frase de Tolkien pode simplesmente estar se referindo à envergadura dos poderes do Balrog. O fato de estar sendo usada aquela palavra na forma verbal pode simplesmente ser uma maneira mais elegante de escrever.

A expressão (b), que justamente é onde se centram os argumentos a favor das asas nos Balrogs, por outro lado tem em inglês o sentido de “desenvolver poderes ao máximo”? ( spread one’s wings = develop one’s full power). Então aquela frase poderia ser traduzida (ou entendida, no caso dos leitores nativos em inglês e suficientemente versados em expressões idiomáticas) por “… subitamente ele se ergueu a sua grande altura e estimulou seus poderes ao máximo, por toda a extensão do salão”?. Essa interpretação é coerente com a visão que Tolkien já havia dado sobre o Balrog, traduzida na expressão (c) “… era como uma grande sombra, no meio da qual existia um ser escuro, de forma humana talvez, embora maior; e um poder e terror pareciam estar nele e ir na sua frente.”? Ou seja, o poder do Balrog permeava de seu corpo e assim, quando estimulado ao máximo (para combater Gandalf) conseguia preencher todo o ambiente existente.

Embora alguns argumentem que o uso do “from wall to wall”? se refira à dimensão de um objeto físico, novamente esse é um argumento fraco. Tem tanta força quanto o “brilho de estrelas”? para os olhos de uma pessoa ou “doces como mel”? para os lábios de Iracema. Trata-se apenas de uma metáfora, figura muito usada por autores. Tolkien preocupava-se com a “veracidade”? de sua obra para que ela fosse crível para os leitores, mas também era um escritor detalhista que revisava e re-escrevia inúmeras vezes um trecho de suas obras até que ficasse satisfeito. Muitas dessas versões diferiam apenas pelo uso de uma palavra ou expressão. Sendo ainda um profundo conhecedor do inglês (foi editor do Oxford English Dictionary) é razoável supor que procurou expressões que traduzissem o espírito daquele poder emanado pelo Balrog em uma forma literária mais alta.

Outros argumentos que evidenciam essa opinião sobre o uso literário do inglês para descrever na verdade os poderes do Balrog são dados nos volumes do “History of Middle Earth”?, no qual várias versões dos textos de Tolkien são apresentadas, com as sucessivas revisões, marcas e anotações do autor. Versões anteriores do capítulo “The Bridge of Khazad-Dum”? são encontradas no vol. VII, “The Treason of Isengard”?.

Observa-se ali (p. 197) que uma das primeiras versões é detalhista quanto à aparência do Balrog, embora não mencione nenhum apêndice voador:

“A figure strode to the fissure, no more than man-high yet terror seemed to go before it. They could see the furnace-fire of its yellow eyes from afar; its arms were very long; it had a red tongue… Its streaming hair seemed to catch fire.”? (Uma figura avançou para a fenda, não mais alta que um homem porém o terror aparentava vir na sua frente. Eles puderam ver o fogo intenso de seus olhos amarelos de longe, seus braços eram muito longos, ele tinha uma língua vermelha … Seus cabelos ondulados pareciam ser de fogo.”?


Mais adiante, na hora do combate, ele diz

“The creature made no reply, but standing up tall so that it loomed above the wizard …”? (A criatura não respondeu, mas ficou ereta aparentando ameaçar o mago).


Nessa versão, há uma nota a lápis nas margens indicando “alterar a descrição do Balrog, Ele parece ser de forma humana, mas sua aparência não é claramente discernível. Ele aparenta maior do que parece”?, logo após  Tolkien ainda adiciona “e uma grande sombra parece bloquear a luz”?.  Há um grifo original no “aparenta”? (felt) usado para indicar a sensação da forma.

Duas outras versões ainda existem da escrita desse capítulo, denominadas por B e C pelo filho de Tolkien. Nelas não há menção das palavras “to a great heigth”? ou “wings”? quando o Balrog enfrenta Gandalf na ponte.

Do conjunto desses textos percebe-se que em nenhum momento Tolkien pretendeu que o Balrog tivesse asas reais, ou que pudesse voar com elas. As indicações apontam mais para a forma (indefinida) da besta e do poder que dela permeava. Também não parece ser muito aceitável que Tolkien tivesse escrito sobre Balrogs alados sem ter feito alguma anotação nas margens para consolidar essa referência com suas outras obras (ligadas ao Silmarillion).

Um comentário final é de que a história da queda de Gandalf nas Minas de Moria estava prevista há bem mais tempo (era necessário retirar Galdalf da trama para que Frodo e Sam pudessem separar-se do resto da companhia), embora o seu adversário não estivesse definido. As primeiras versões do rascunho da história (HoME VI, p.462) trazem versões em que um dos Cavaleiros Negros seria tal oponente na ponte de Khazad-Dum e, como tal, a história foi originalmente concebida sem qualquer menção a asas.

2. A descrição da aparição de Ancalagon na Batalha da Ira

Outro argumento forte contra as asas dos Balrogs pode sem encontrado nos escritos do próprio Tolkien, quando ele finalizou sua versão do que hoje é o Silmarillion, enviando-o para apreciação de seus editores (Allen & Unwin). Essa versão descreve assim o aparecimento de Ancalagon durante a Guerra da Ira, ao final da primeira era (HoME V, p. 363):

“But he (Morgoth) loosed upon his foes the last desperate assault that he had prepared, and out of the pits of Angband there issued the winged dragons, that had not before been seen; for until that day no creatures of his cruel thought had yet assailed the air. … for the coming of the dragons was like a great roar of thunder, and a tempest of fire, and their wings were of steel.”? (Mas ele lançou sobre seus adversários o último e desesperado assalto que havia preparado, e das profundezas de Angband surgiram os dragões alados, que não haviam  ainda sido vistos, pois até aquele dia nenhuma criatura de seu cruel desígnio tinha ainda ameaçado os ares… pois a chegada dos dragões foi como o rugir do trovão, e uma tempestade de fogo, e suas asas eram de aço.”?


Claramente o próprio autor diz que nenhuma criatura de Morgoth tinha alçado aos ares antes do surgimento dos dragões alados, nos estertores do poder de Morgoth. Mais ainda, percebe-se uma preocupação em caracterizar as asas desses dragões não como apêndices normais (evolutivos) mas sim como uma “ferramenta de guerra”? neles “inserida”? (sabe-se lá por quais poderes). Isso está aparente na última sentença, onde as asas são ditas serem de aço. Esse subterfúgio de indicar criações de Morgoth como “maquinaria”? já havia aparecido no “The Fall of Gondolin”? onde dragões de aço (e outras máquinas bélicas assemelhadas) foram usados para assaltar a cidade (A versão desse texto é anterior à digressão de Tolkien sobre Morgoth não poder criar, apenas corromper.)

Ora, os Balrogs já tinham aparecido no início da era e tiveram papel importante em algumas batalhas dessa mesma era. Assim, se nenhuma criatura tinha ainda assaltado os ares, fica evidente que os Balrogs não possuiam apêndices voadores, na opinião de Tolkien (e não na interpretação de outros).

Conclusão:

Deve ainda ser fortemente considerada a qualidade do inglês usado por Tolkien. Provavelmente nenhum outro escritor inglês no século XX usou tão explicitamente o inglês em suas estruturas mais arcaicas ou antigas (nos primeiros volumes do HoME, Christopher Tolkien anexa um dicionário de termos e expressões antigas para auxiliar a compreensão). Exemplos claros dessas estruturas estão na Profecia de Mandos (Silmarillion) e nas histórias de Beren e Lúthien, Idril e Tuor. É assim muito mais lógico adotarmos uma linha de pensamento baseada simplesmente nos aspectos literários de suas obras. Sem necessidade de exaustivas explicações sobre o tamanho dos Balrogs, ou de suas asas, sem necessidade de criarmos hipóteses mirabolantes sobre tais bestas, sobre sua evolução ou “modus vivendis”?, mas apenas apreciando a criação literária, podemos ficar plenamente convencidos de que Balrogs não possuem asas!

…E Será Que Balrogs Possuem Asas?

Balrogs possuem asas? Pode parecer uma questão simples, mas [como
freqüentemente acontece nos trabalhos de Tolkien] quanto mais a
examinamos, mais parece difícil de responder. É uma questão, também,
que divide os fãs de Tolkien em dois campos distintos – aqueles que
creditam em Balrogs com asas e aqueles que negam sua existência.

 

 

 
Este artigo tenta ao máximo ter um ponto de vista
objetivo, mas atinge uma conclusão suficientemente definida [quer
dizer, tão definida quanto as evidências permitem]. Se você é um
daqueles com pontos de vista muito rígidos existe uma boa chance de que
este artigo vá desagradá-lo. Mas até isto está bem, pois o objetivo
deste artigo não é "converter" ninguém, mas lanças alguma luz sobre o
assunto.


Uma Rápida Digressão: O que é uma "Sombra"?

ntes
de iniciar, será útil esclarecermos uma concepção errada. Neste debate,
um grande número de referências à "sombra" aparecerão, e uma porção de
pessoas toma este termo em sua concepção moderna – ou seja, uma região
de escuridão causada pela luz sendo bloqueada. Este não é o sentido
desejado por Tolkien.

Quando
relacionadas aos Balrogs, suas "sombras" não são apenas falta de luz,
mas uma região de escuridão que eles carregam ao redor de si. Quais
seriam exatamente suas qualidades é um ponto debatível, mas certamente
ela poderia se moldar em diferentes formas. Estas "formas de sombra",
de fato, formam o início do debate como um todo.

A Natureza do Argumento

O
âmago do debate reside na Sociedade do Anel Cap. 5, A Ponte de
Khazad-dûm. Este capítulo é construído ao redor do desastrado encontro
da Sociedade com um Balrog conhecido apenas como a Perdição de Dúrin, a
mesma criatura que expulsou os Anões de sua antiga casa séculos atrás.
Em particular, duas referências levantam a discussão. A primeira
descrever o balrog do ponto de vista de Gandalf:

 

[1] "Seu inimigo parou novamente, encarando-o, e a sombra ao redor dele estendeu-se como duas grandes asas." Sociedade do Anel Cap. 5, A Ponte de Khazad-dûm

 

 

Por
si mesmo, este trecho não é particularmente controverso. A "sombra"
escura do balrog assumiu uma forma que parecia de certa modo com algum
tipo de asas. O fato é que "como asas" explicitamente não pode
literalmente descrever asas reais.. O problema se inicia, contudo, com
outra referência que aparece dois parágrafos depois:


[2]
"…repentinamente ele adiantou-se em grande altura, e suas asas
estenderam-se de parede a parede…" Sociedade do Anel Cap. 5, A Ponte
de Khazad-dûm

Estas
provavelmente são as mais debatidas palavras que Tolkien jamais
escreveu. Parece estranho a princípio, porque de fato a maioria da
pessoas concordam que o significado não é particularmente ambíguo, e
seria bastante óbvio o que o trecho significa. A disputa começa,
contudo, com um fato curioso: com uma ilusão óptica, este trecho tem
duas interpretações óbvias. Seja o que for que você imagine ele
significar, e quão certo você esteja, sempre existe uma porção de
pessoas que o enxergam de forma diferente.

Para
um grupo de leitores. "suas asas estenderam-se de parede a parede" [2]
relaciona-se imediatamente com o anterior "a sombra ao redor dele
estendeu-se como duas grandes asas" [1]. Para eles o trecho apenas
reforça seu enunciado precedente, e não diz nada sobre nenhum outro
tipo de asas. No lado oposto do debate, "suas asas estenderam-se" [2]
não é relacionado ao enunciado precedente de nenhuma fora. Ao
contrário, é uma refer6encia definitiva às asas reais, físicas do
Balrog.

O
debate normalmente enfoca-se em argumentos sobre quais destas duas
interpretações óbvias seria a correta. É possível, contudo, que nenhuma
dela seja explicitamente correta: como você lê a passagem depende de
como você já presume que o Balrog se pareça. Não estamos tentando
porvar nada a este ponto, apenas mostrando a estrutura da sentença que
sustenta ambas as interpretações. Uma forma de fazer isto é substituir
as disputadas "asas" com outros termos de status mais exatos.

Vamos
começar com "braços". Não existe nenhuma dúvida de que Balrogs tenham
braços – é tão óbvio que pareceria estranho ter que mencioná-los.
Agora, imagine que Tolkien tenha escrito "a sombra ao redor dele estendeu-se como dois grandes braços". isto continua obviamente semelhante, como o texto original [1]. Se ele seguisse logo após "seus braços se estenderam",
pareceria natural ler a segunda referência como se referindo aos seus
braços reais, não seus braços de sombra, mesmo imaginando que nos foi
dito que ele teria "braços" de sombra. Assim é como a facção pró-asas
vê o texto, porque eles assumem que os Balrogs têm asas, assim como
inquestionavelmente possuem braços reais.

Nós
podemos simular uma visão alternativa com "tentáculos". Não existem
absolutamente nenhuma evidência sobre tentáculos de Balrogs, e é seguro
presumir que eles não faziam parte de nenhuma parte da anatomia dos
Balrogs. Novamente, "a sombra ao redor dele estendeu-se como dois
vastos tentáculso", a interpretação natural é levemente diferente. Nós
sabemos com certeza que não existem tentáculos "reais" nos Balrogs,
então a leitura do trecho é muito mais fácil como se referindo ao
similar anterior: deve significar "tentáculos de sombra". Esta é a
posição anti-asas: porque eles assumem que os Balrogs não possuem asas
reais, eles naturalmente vêem "suas asas" como uma extensão da passagem
anterior.

Uma
vez que não vemos nada decisivo na estrutura da sentença, segue-se que
os argumentos baseados nesta passagem apenas acabam sendo circulares.
De um lado: "Assumindo que Balrogs tenham asas reais, a passagem deve
ser lida literalmente, uma vez que balrogs têm asas reais". De outro
lado: "Assumindo que Balrogs não têm asas, então a passagem deve ser
lida figurativamente, uma vez que Balrogs não têm asas reais".

Isto não ajuda muito, mas afortunadamente "suas asas estenderam-se de parede a parede"[2] não é a única evidência a considerar. Vamos observar os demais casos a favor, e contra, asas reais de Balrogs.


O Caso A Favor das Asas dos Balrogs

Tendo estabelicido que "suas asas estenderam-se de parede a parede" [2]
não pode ser realisticamente usado como um argumento contra [ou a
favor] de asas reais, nós podemos proceder para ver onde mais
evidências podem ser produzidas.

Argumento Um: Suas Asas de Estenderam-se de Parede a Parede

É uma característica do debate que está passagem flexível reapareça
muito regularmente nos argumentos pro-asas, seja quais forem os
contra-argumentos que sejam colocadas contra ela. Aqueles que a propoem
como prova a consideram literalmente e não-ambígua, e que não pode ser
interpretada de outro modo.

Esta posição não consegue permanecer de pé ante uma análise detalhada.
Não é claro, por exemplo, como uma pasagem que tem sido sujeita a anos
de debate pode ser não-ambígua. Muito mais interessante, contudo, é a
afirmação de que ela deva ser entendida literalmente. Isto
presumivelmente significa que Tolkien escreveria "suas asas de sombra
estenderam-se…"
, ou algo do tipo, se fosse isso que ele queria dizer.
Considere o seguinte, contudo:

[3] "Gandalf veio voando escada abaixo e caiu no chão no meio da Companhia" Sociedade do Anel Cap. 5, A Ponte de Khazad-dûm

Isto ocorre apenas algumas páginas antes do encontro de Gandalf com o
Balrog, e de fato seu significado é óbvio: Gandalf foi jogado escada
abaixo pela força acima. Esta é uma metáfora: ninguém vai afirmar que
Gandalf literalmente "voou". O texto, contudo, não diz "Gandalf deu a
impressão de vir voando"
, ele diz inequivocamente que "ele veio
voando". Aqueles que insistem em uma leitura literal da passagem [1]
logicamente devem insitir em uma leitura literal desta passagem também.
A única conclusão consistente é que, se "suas asas estenderam-se de
parede a parede"
[2] prova que os Balrogs têm asas, então "Gandalf veio
voando escada abaixo"
[3] prova que Gandalf não apenas podia voar, mas
escolheu aquele momento para mostrar seu talento.

Argumento Dois: "Com Velocidade Alada [with winged speed]"

Dada a profundidade do debate deste assunto, pode ser surpreendente que
"suas asas estenderam-se… [2] seja a única evidência canônica
definida sobre asas de Balrogs. Existe, contudo, uma passagem no The
History of Middle-earth que geralmente é citada como suporte a esta
evidência. Aqui está ela:

[4] "Rapidamente eles se levantaram, e passaram com velocidade alada
[winged speed] sobre Hithlum, e chegaram a Lammoth como uma tempestade
de fogo." The History of Middle-earth Volume X [Morgoth"s Ring], The
Later Quenta Silmarillion: Of the Rape of the Silmarils

"Eles" são os Balrogs que apressaram-se para salvar Melkor de Ungoliant
imediatamente após seu retorno para a Terra-média. Este texto não
aparece no Silmarillion publicado: pertence a uma variante
não-publicada, frequentemente dita ter prioridade canônica sobre a
edição publicada. Para escapar a intermináveis debates sobre
canonicidade e prioridade, assumiremos que ele tem prioridade para os
propósitos deste argumento.

Sem levar em consideração seu status canônico, é incerto como ele
representaria "prova"de algum tipo: "com velocidade alada [with winged
speed]" é indubitavelmente uma metáfora para "muito rapidamente" [e
isto fica ainda mais claro na tradução para o português]. Parece
existir alguma dúvida sobre isto – aqui está o que o dicionário tem a
nos dizer:

[5] "metáfora s. aplicação de um substantivo ou termo descritivo ou
frase a um objeto ou ação ao qual ele é imaginativamente mas não
literalmente aplicável" The Concise Oxford Dictionary of Current
English

Em outras palavras, a não ser que "velocidade" possa literalmente ter
asas [o que claramente nõa é o caso], "com velocidade alada" é uma
metáfora.

Como antes, podemos esclarecer a estrutura da sentença extraindo os
balrogs [cuja natureza está em questão], e substituindo por termos mais
definidos. Primeiro, imagine que o parágrafo seja sobre Águias [que nós
sabemos ter asas e podem voar], ao invés de Balrogs: não existe dúvida
que "[as Águias] passaram com velocidade alada sobre Hithlum" tem um
sentido perfeito. Para tentar o argumento oposto, substituiremos as Águias com alguma coisa que definitivamente não possui asas e não pode
voar: cavaleiros, digamos. O resultado é "[os cavaleiros passaram com
velocidade alada sobre Hithlum"
. Pode ser um pouco mais poético, mas
claramente não é sem sentido.

Este é outro caso onde o argumento apenas serve para destacar as
presunções de seu leitor. Se você já acredita em asas de Balrogs, então
"com velocidade alada" poderia muito bem se referir a elas, mas de fato
não existe que assim o exija.


Conclusão

O argumento a favor de asas reais nos balrogs pelo menos tem o merito
da brevidade. Essencialmente, é que "suas asas estenderam-se de parede
a parede"
[2] e "com velocidade alada" [4] devem ser interpretadas com
referências literais a asas de verdade. A interpretação pró-asas
funciona se, e apenas se, voc6e já acredita que Balrogs tenham asas.


O Caso Contra as Asas dos Balrogs

Se não existe nenhum caso inegável a favor das asas dos Balrogs, é
importante perceber que também não existe nenhuma evidência inegável
contra elas. Em vez disso os argumentos contrários são baseados numa
gama de objeções: referências que aparentemente contradizem a idéia de
asas de Balrogs. Destes, existem dois exemplos particularmente fortes.

 

Objeção Um: Balrogs Não Voam

Não existe um local sequer das obras de Tolkien onde ele descreve um
Balrog voando. Mesmo em situações onde eles teriam uma vantagem enorme
se estivessem no ar, os balrogs permanecem presos à terra. Para
ilustrar, considere o encontro de Gandalf com a Ruína de Durin. Este
Balrog enfrenta dois obstáculo, uma fissura com chamas e também um
abismo cruzado por uma ponte estreita. Estes não deveriam representar
um problema para uma criatura alada, mas sua reação é instrutiva.

[6] "Então com rapidez saltou sobre a fissura." Sociedade do Anel Cap. 5, A Ponte de Khazad-dûm

… e então…

"Ele caminhou lentamente na ponte…" Sociedade do Anel Cap. 5, A Ponte de Khazad-dûm

Mais tarde, o mesmo Balrog encontrou-se no topo de uma montanha,
lutando por sua vida. De acordo com o relato de Gandalf sobre o
incidente:


[7] "Eu joguei abaixo meu inimigo, e ele caiu do local alto, e quebrou
o lado da montanha onde ele bateu em sua ruína." As Duas Torres Cap 5 O
Cavaleiro Branco

Se ele pudesse voar, o Balrog facilmente teria salvo a si mesmo. Ao
contrário, ele desabou pelo ar para seu destino. A Ruína de Durin não é
o único Balrog a não voar, contudo:

[8] "Muitas são as canções que cantam o duelo de Glorfindel com o
Balrog em um pináculo de rocha naquele local alto; e ambos caíram para
a ruína no abismo." Quenta Silmarillion Cap 23, Sobre Tuor e a Queda de
Gondolin

A questão óbvia é: se Balrogs têm asas reais, porque eles não as usam?

 
Aqui existem dois contra-argumentos. Primeiro, é frequentemente
sugerido que "com velocidade alada" [4] é o único caso onde os Balrogs
são descritos como voando. Nós já consideramos este ponto – não é
necessário nos determos nele aqui.

O mais comum contraargumento é quem, em cada caso, os Balrogs foram de
alguma forma impedidos de usar suas asas. De acordo com sua posição, a
Ruína de Durin pulou a fissura e andou sobre a ponte não pode não tinha
asas, mas porque suas asas eram tão vastas que estavam limitadas e
inutilizáveis. Contra os dois casos de Balrogs caindo de montanhas, é
sugerido que eles estavam exaustos da luta, ou suas asas estavam de
alguma forma feridas ou inutilizáveis. ë também dito algumas vezes que
os Balrogs tinham asas reais ms não podiam usá-las, ou podiam apenas
planar por curtas distâncias e não voar realmente. Este contraargumento
toma muitas formas, mas todos têm uma característica em comum – mais
uma vez, ele presume que as asas devem existir.

Existe, claro, uma explicação muito mais simples para a aparente
incapacidade dos Balrogs em voar. Se nós tomarmos a posição de que eles
simplesmente não possuem asas, o problema como um todo desaparece.

Objeção Dois: A Questão de Escala

Quão grande é um Balrog? Se nós seguirmos o lado pró-asas do debate, e
assumirmos que ele possui asas reais, é possível termos pelo menos uma
vaga imagem. Isto devido ao clássico "suas asas estenderam-se de parede
a parede"
[2], o que significa que sua extensão de asas deve ser pelo
menos a mesma da largura da sala na qual estava. O que nós sabemos
sobre a sala?

[9] "À frente deles estava outro salão cavernoso. Era mais alto e muito mais comprido do que aquele em que dormiram."

[10] "Ele virou à esquerda e apressou-se através do liso piso da sala. A distância era maior do que parecia."

[11] "…uma delgada ponte de pedra, sem borda ou corrimão, que
transpunha o abismo com uma curvatura de cinquenta pés. " [cinquenta
pés = 15 metros] Todos da Sociedade do Anel Cap. 5, A Ponte de
Khazad-dûm

A sala era gigantesca. Se o abismo tinha cinquenta pés [11], então a
sala inteira deve ter várias centenas de pés de comprimento. Um
"abismo" é por definição mas comprido do que largo, e o tamanho do
abismo define a largura da sala. Então, nós podemos presumir com
bastante confiança uma largura como sendo algo entre setenta e cinco a
cem pés [22,50 a 30 metros]. Isto é apoiado pelo texto, que nos diz que
a sala era tão ampla que necessitava de pilares ao centro para suportar
o teto:

[12] "ao centro existia uma linha dupla de pilares elevados. Eles eram
esculpidos como raízes de poderosas árvores cujos galhos suportavam o
teto…" Sociedade do Anel Cap. 5, A Ponte de Khazad-dûm

Se as asas de Balrogs forem reais, e literalmente se estendiam "de
parede a parede"
[2], sua extensão mínima de asas é algo em torno de
cem pés [30 metros]. Isto nos dá o tamanho do Balrog como sendo o
tamanho de uma casa, e lembremos que estes são os valores mínimos –
pode ter sido bem maior. Muito aceitarão isto sem problemas – a idéia
de um Balrog gigantesco é bastante comum, e é frequentemente pintado
como tendo 30 pés [9 metros] de altura ou mais, o que seria consistente
com estas estimativas.

Este é um ponto importante, então vamos enfatizá-lo. Se os Balrogs
tivessem asas reais, seguir-se-ia necessariamente que ele seria uma
criatura monstruosa com extensão de asas de um pequeno avião de
passageiros. A objeção que isto levanta é bastante significativa: é
bastante difícil de explicar como este ser mosntruoso viveu por mais de
mil anos em uma cidade subterrânea construída para Anões. Como um
exemplo específico, considere a Câmara de Mazarbul, que aparece logo
antes do encontro da Sociedade com o Balrog. Existem várias evidências
textuais sobre a entrada desta sala. por exemplo:

[13] "…orcs um após o outro saltaram na câmara." Sociedade do Anel Cap. 5, A Ponte de Khazad-dûm

…e, um momento depois, eles…

[14] "…aglomeraram-se na entrada." Sociedade do Anel Cap. 5, A Ponte de Khazad-dûm

Obviamente era uma abertura bastante estreita. De alguma forma,
contudo, o Balrog conseguiu seguir os orcs na Câmara através desta
entrada. Se um Balrog tivesse um grande tamanho como já discutimos, não
seria possível para ele utilizar esta entrada estreita.

A lógica disto parece inecapável: temos que diminuir o tamanho do
Balrog para que ele possa passar atarvés da porta. Ele pode continuar
tendo "uma grande altura" [2] – digamos dez pés [3 metros] de altura ou
algo assim- mas ele realisticamente não poderia ser muito maior que
isto. Esta idéia é apoiada por esta descrição retirada do The History
of Middle-earth:

[15] "[o Balrog] caminhou para a fissura, não maior do que o tamanho de
um homem mas o terror parecia acompanhar sua presença." The History of
Middle-earth Volume VII [The Treason of Isengard], X The Mines of Moria
II: The Bridge

Este é um rascunho rejeitado, logo não pode ser posto como nenhum tipo
de prova. Ele nos dá, contudo, alguma idéia do tipo de escala que
Tolkien tinha em emnte para um Balrog. Ele também sustenta o fato de
que ele teve que "pular" [6] a fissura, e que ele caminhou na ponte [7]
tão estreita que os Anões tinham que atravessá-la em fila única. Estas
são ações de uma criatura mais ou menos do tamanho de um homem, não um
gigante.

A questão de escala é uma séria objeção às asas dos Balrogs. Se "suas
asas entenderam-se de parede a parede"
[2] literalmente se refere a
asas reais, então os Balrogs devem ser gigantescos. Se o Balrog não é
gigantesco, então "suas asas entenderam-se de parede a parede" [2] não
pode se referir a asas reais.

Para a facção anti-asas, esta objeção é provavelmente o mais próximo possível de uma "prova".


Conclusão

Estão não são de forma alguma as únicas objeções contra asas de Balrog,
mas elas são provavelmente as mais fortes. A maioria das outras são
circunstanciais em natureza e de fatonão avançam a discussão [por
exemplo, "imagine uma criatura com imensas asas, estendidas, tomando
cuidado com o rodopiante chicote de fogo, para que não atingisse suas
asas"].

As duas maiores objeções, contudo, são bastante significativas. Porque
os Balrogs não usam suas asas, se as possuem? Como um Balrog do tamnho
de uma casa passou por uma porta do tamanho de um Orc? Estas
complicadas questões apenas surgem de os balrogs tiverem asas reais –
se assumirmos que não tem, é fácil escapar destas inconsistências.

É provavelmente justo afirmar que não existe evidência incontrovertível
pelas asas reais, e existem pelo menos duas fortes objeções à sua
existência. Dado o corrente estado do argumento, então, o peso da
evidência parece pender fortemente para o lado do "sem asas" do debate.
"Peso da evidência", contudo, não é uma prova: sempre existe espaço
para pesquisa e reinterpretação.

Seja onde for que a evidência conduza, o fato é que ninguém sabe ao
certo a resposta. Apenas Tolkien poderia nos dizerm e ele nunca fez uma
afirmação definitiva sobre este tópico. Parece apropriado, então,
encerrar com a mas definida descrição do balrog que ele nos deu:


[16] "O que era não podia ser visto: era como uma grande sombra, no
meio da qual estava uma forma escura, de formato humano, talvez, embora
maior; e um poder e terror pareciam estar nela e ao seu redor."
Sociedade do Anel Cap. 5, A Ponte de Khazad-dûm


[tradução de Fábio ‘Deriel’ Bettega]