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Sorteio Valinor: As Cartas de J. R. R. Tolkien

As Cartas de J. R. R. Tolkien
A Valinor e a Editora Arte & Letra estão sorteando um presentão de final de semana para você, fã de Tolkien e visitante da Valinor: um exemplar do livro As Cartas de J. R. R. Tolkien.

 

 

Para concorrer é a  coisa mais simples do mundo. Basta ir ao endereço http://www.valinor.com.br/sorteios/cartas , preencher seus dados e torcer para que no dia 6 de janeiro de 2008 você seja o sortudo ganhador.

Para quem não conhece, As Cartas de J. R. R. Tolkien
é um dos livros
mais importantes para todo fã de Tolkien que se preze e que queira entender um pouco mais sobre este
mundo maravilhoso criado por este grande autor. O livro foi lançado no Brasil pela Editora Arte & Letra com
tradução de Gabriel O. Brum (da Equipe Valinor e responsável pela
Ardalambion e
Meu Nome Élfico).
Leia mais sobre As Cartas de J. R. R. Tolkien na Valinor

FAQ de As Cartas de J.R.R. Tolkien

As Cartas de J.R.R. Tolkien, da editora Arte & Letra
Este documento é uma compilação de FAQ (do inglês Frequently Asked
Questions ou, em português, Questões Freqüentemente Perguntadas), ou
questões que podem ser perguntados, sobre as obras de J.R.R. Tolkien,
todas respondidas (ou pelo menos citadas) pelo próprio Tolkien em suas
próprias palavras como publicado no As Cartas de J.R.R. Tolkien de
Humphrey Carpenter. Não há respostas aqui – apenas o número das cartas que respondem
a questão
. Se você já é familiar com o livro, então pode querer pular
os próximos parágrafos e seguir ás questões. Se você ainda não leu ou
não comprou este livro, então continue lendo.

 

 

Durante a composição e processo de publicação de seus trabalhos literários, J.R.R. Tolkien continuamente se correspondeu com amigos, familiares, colegas e seus editores, e por anos após a publicação de O Senhor dos Anéis, também com seus leitores. De fato, muitas de suas cartas são respostas diretas (tanto quanto Tolkien conseguia ser direto) a questões sobre as quais as pessoas escreviam a ele. Suas cartas contêm muito pano de fundo e material explanatório que nunca foi publicado, e também uma grande quantidade de explicações sobre sua intenção ou propósito. Ele freqüentemente escrevia bastante para clarear os mal-entendidos de seus leitores. Em alguns casos, contudo, Tolkien não dá uma resposta clara, isso se dá alguma resposta, à questão (por exemplo, "Quem é Tom Bombadil?" ou "O que aconteceu às Entesposas?"), embora ele fale sobre esses assuntos em suas cartas, portanto nos deixando-nos pelo menos com a palavra final sobre o assunto diretamente do autor.

Enquanto há bastante informação sobre O Senhor dos Anéis infelizmente há preciosamente pouco sobre O Hobbit e O Silmarillion. O trecho a seguir é uma pequena citação da Introdução das Cartas de J.R.R. Tolkien:


"Entre 1918 e 1937 poucas cartas sobreviveram, e das que foram preservadas (infelizmente) nenhuma fala sobre o trabalho de Tolkien nO Silmarillion e nO Hobbit, os quais ele estava escrevendo àquele tempo. Mas de 1937 em diante há uma série ininterrupta de cartas até o fim de sua vida, relatando, freqüentemente em grande detalhe, sobre a escrita de O Senhor dos Anéis e o trabalho tardio nO Silmarillion e com freqüência incluem longas discussões sobre o significado de seus escritos"

Uma nota especial sobre a carta #131 (escrita em 1951): Quando Allen & Unwin não quis publicar O Silmarillion junto com O Senhor dos Anéis, Tolkien teve esperanças de que Milton Waldman da Collins pudesse publicar ambos os livros. Tolkien escreveu uma carta bastante extensa a Waldman demonstrando como O Senhor dos Anéis e O Silmarillion eram interdependentes e indivisíveis. A carta original tem 10.000 palavras e embora ligeiramente editada no livro, ela se prolonga por 18 páginas e meia. Esta carta deve ser leitura obrigatória para todo fã sério de Tolkien, que tenha dúvidas sobre seu legendarium. De fato, uma parte desta carta foi incluída como prefácio à segunda edição de O Silmarillion e desde então As Cartas de J.R.R. Tolkien foram lançadas no Brasil pela Arte & Letra com tradução de Gabriel O. Brum (da Equipe Valinor), tornando-a acessível ao leitor brasileiro.

As Cartas de J.R.R. Tolkien, em inglês
Deve-se estar ciente de que existem outras fontes autoritativas para informações sobre os mesmos assuntos listados aqui (por exemplo a Biografia autorizada, de Humphrey Carpenter, ou a série The History of Middle Earth, de Christopher Tolkien, apenas para citar alguns), e que estas outras fontes  e as cartas de Tolkien nem sempre concordam. Também é importante levar em consideração a data de qualquer carta sendo consultado e seu lugar no tempo com relação à publicação de seus livros ou de qualquer outros materiais de referência que reflitam as visões de Tolkien. Este FAQ tem duas funções: primariamente como uma referência – um tipo de índice, e secundariamente como um FAQ no sentido mais tradicional da palavra.

Se agora ou após ler este FAQ você desejar obter As Cartas de J.R.R. Tolkien, você pode fazê-lo imediatamente clicando no links no rodapé deste artigo. E agora, às questões:


Categorias:
I.    Publicando os Livros
II.    O Hobbit
III.    As Origens dO Senhor dos Anéis
IV.    O Senhor dos Anéis – Os Livros e os Títulos
V.    SdA – Elementos da História
VI.    SdA – Os Anéis
VII.    SdA – Sauron/O Um Anel
VIII.    SdA – Significados
IX.    O Silmarillion
X.    O Legendarium
XI.    A Mitologia
XII.    Povos/Raças da Terra-média
XIII.    Criaturas da Terra-média
XIV.    Cultura/Sociedade
XV.    Idiomas
XVI.    Nomenclaturas
XVII.    Opiniões de Tolkien
XVIII.    Miscelânea

I.    Publicando os Livros
a.    Quando Tolkien enviou uma cópia datilografada de O Hobbit para Allen&Unwin? #9
b.    Quais eras com comentários na jacket-flap de O Hobbit?   #15
c.    Como Tolkien reagiu aos comentários do leitor de Allen & Unwin sobre O Silmarillion e "Beren & Lúthien" #19, #294
d.    Quais foram os esforços iniciais de Tolkien para conseguir publicar O Senhor dos Anéis e O Silmarillion? #123, #124, #125, #126, #131
e.    Por que Collins não publicou SdA e/ou O Silmarillion? #133
f.    Quais são alguns dos detalhes da publicação de SdA #135, #137, #145, #146
g.    Como Tolkien lidava com a tradução de seus trabalhos? #188, #190, #204, #217, #228, #229, #239, #352
h.    O que Tolkien pensava da arte de capa da primeira edição dO Hobbit pela Ballantine?    #276
i.    Em anos mais tardios, quão esperançoso Tolkien estava em ver O Silmarillion publicado?    #322, #335, #353
j.    Como foram as vendas de O Hobbit e SdA durante a vida de Tolkien?   #340


II.    O Hobbit
a.    Qual é a tradução das runas na DUST JACKET de O Hobbit?    #12
b.    Quais imagens foram incluídas nas primeiras edições de O Hobbit?     #15
c.    Quais são as circunstâncias da segunda edição de O Hobbit?    #128, #129
d.    Tolkien se arrependeu de ter escrito O Hobbit "para crianças"?      #165, #215, #234
e.    A "batalha de trovões" nO Hobbit foi inspirado por um evento real?    #232, #306


III.    As Origens dO Senhor dos Anéis
a.    Qual foi a primeira reposta de Tolkien à idéia de "mais sobre hobbits"?    #17
b.    Tom Bombadil já foi considerado como herói de uma possível "nova história"?    #19
c.    Quando Tolkien mencionou pela primeira vez o primeiro capítulo de uma "nova história"?    #20
d.    Quando Tolkien mencionou pela primeira vez o  título da continuação dO Hobbit?    #335
e.    As Guerras Mundiais tiveram alguma influência em SdA? #226


IV.    O Senhor dos Anéis – Os Livros e os Títulos
a.    Como Tolkien se sentiu dividindo SdA em 3 volumes?    #136, #139
b.    O Senhor dos Anéis é uma trilogia? #149, #165, #252
c.    Qual era o preço original de venda do SdA? #135, #136
d.    Como se chegou ao título dos volumes?  #136, #136 (nota #1), #139, #140, #143
e.    Há títulos para os "livros" individuais (de 1 a 6)?    #136, #136 (nota #1), #139, #140, #143
f.    Quais torres são as mencionadas no título de As Duas Torres?   #140 (incl. nota 1),  #143


V.    SdA – Elementos da História
a.    Quem foi o verdadeiro herói do SdA?   #131 (p. 160-161)
b.    Qual foi o papel de Gandalf na história do SdA? #156
c.    Gandalf tinha conhecimento prévio do que iria acontecer?    #156, #200
d.    Como Gandalf retornou da morte?   #156, #181
e.    Qual é a razão para a "falha moral" de Frodo no clímax da história?    #181, #191, #192, #246
f.    Alguns dos personagens em SdA foram politicamente motivados?    #183
g.    Por que as Águias não auxiliaram os personagens mais freqüentemente?    #210
h.    Como Éowyn trocou o amor por Aragorn por Faramir tão rapidamente?    #244
i.    Éowyn "optou" por Faramir por não poder ter Aragorn?    #244
j.    Como Arwen conseguiu que Frodo viajasse para o Oeste?  #246
k.    Quão claramente Frodo compreendia o que aconteceu na Montanha da perdição e o que aconteceu consigo mesmo?    #246
l.    Por que alguns leitores gostam e outros desgostam de Sam? #246
m.    O quanto o entendimento das coisas (ou a falta dele) por Sam afetou os eventos da história?    #246
n.    O que poderia ter acontecido se Gollum tivesse obtido a posse do Anel um pouco antes?    #246
o.    O que poderia ter acontecido se Frodo tivesse reclamado a posse do Anel (sem ter sido atacado por Gollum)?    #246
p.    Scadufax foi para o Oeste com Gandalf?    #268
 

VI.    SdA – Os Anéis
a.    Os anéis Élficos conferiam invisibilidade a seus utilizadores? #131 (p. 152)
b.    Que características os Anéis de Poder tinham? #131 (p. 152)
c.    Por que os Elfos quiseram fazer os Três Anéis? #181
d.    Onde estavam os Nove Anéis no final da Terceira Era? #246


VII.    SdA – Sauron/O Um Anel
a.    Sauron é o "Necromante" de O  Hobbit? #131, #157-158
b.    Qual foi o efeito de não ter o Um Anel, em Sauron?    #131
c.    O que aconteceria a Sauron se alguém encontrasse e possuísse o Um Anel?    #131
d.    O que aconteceria a Sauron quando o Um Anel fosse destruído? #131, #200
e.    Quais são os efeitos da destruição do Um nos outros anéis?    #144
f.    Qual é a natureza do mal de Sauron (isto é, sua "queda")?  #183
g.    O que aconteceu com Sauron cada vez que seu corpo era destruído?  #200
h.    Como Sauron pode ser derrotado por Ar-Pharazôn quando Sauron tinha o Um Anel?    #211
i.    Como Sauron foi capaz de levar consigo o Um Anel após seu corpo ser destruído na queda de Númenor?    #211
j.    Como Sauron poderia reclamar o Anel de Frodo ou Gollum?  #246
k.    O Anel daria ao possuidor algum poder sobre os Espectros do Anel?    #246
l.    O que aconteceria em um confronto direto entre Sauron e um portador do anel?    #246
m.    Qual era a forma física de Sauron à época do SdA?   #246
n.    Como Gandalf teria agido se tivesse tomado posse do anel e se tornado Senhor do Anel?    #246


VIII.    SdA – Significados
a.    O Senhor dos Anéis é uma alegoria?  #34, #109, #131 (p. 144, 145), #144, #186, #203
b.    Há alguma mensagem nO Senhor dos Anéis? #208


IX.    Silmarillion
a.    Qual o significado da história de "Beren & Lúthien"?    #131 (p. 149)
 

X.    O Legendarium

a.    O que Tolkien disse sobre inconsistências e erros na mitologia/história?    #117
b.    Como SdA é "amarrado" aO Silmarillion? #124, #131 (incl. comentários), #144 (par. 4), #191
c.    Tolkien tinha um nome geral ou título para todo o legendarium?    #125, #227
d.    Por que não há mais histórias da Segunda Era? #131 (p. 150-151)
e.    Por que Tolkien abandonou "A Nova Sombra" (a continuação em potencial do SdA)?    #256
f.    Como o mapa da Terra-média corresponde ao mapa do mundo real?    #294
 

XI.    A Mitologia
a.    Qual é a natureza da magia na mitologia de Tolkien? #131, #155
b.    Se o mal não pode criar, por que Barbárvore fala que Sauron fez trolls e orcs?    #153
c.    Eram os Valar deuses?    #154, #286
d.    Qual é a relação (ou diferença entre) a criação de Elfos e Homens?    #181
e.    Qual era a natureza de Sauron e dos outros Maiar? #200
f.    Quem é maior e mais poderoso, Manwë ou Melkor? #211
g.    Em qual "Era" nós estamos agora (isto é, durante a vida de Tolkien)? #211 (nota de rodapé)
h.    O que acontecia aos Elfos quando morriam em batalha? #245
 

XII.    Povos/Raças da Terra-média
a.    Raça/racismo é um elemento nas obras de Tolkien?   #29, #30
b.    Há alguma outra descrição física dos hobbits? #27
c.    Qual é a natureza dos hobbits?    #131 (segunda nota de rodapé)
d.    Os magos de Tolkien são mais como feiticeiros ou anjos? #131 (1st footnote on p. 159), #156
e.    Quem é mais velho, Tom Bombadil ou os Ents?    #131
f.    Quem ou o que é Tom Bombadil?    #144, #153
g.    O que era Beorn?    #144
h.    Beorn ainda existia durante o SdA?   #144
i.    Qual é a natureza dos Elfos e sua imortalidade?  #153
j.    Todos os elfos eram bons e iluminados?    #154
k.    Gollum era maligno?    #181
l.    A noção de uma raça inteira ser má e sem possibilidade de redenção (Orcs) é herética?    #269
 

XIII.    Criaturas da Terra-média
a.    Deveria haver um dragão em SdA? #35
b.    O que aconteceu aos dragões?    #144
c.    Deveria haver um gigante em SdA? #35
d.    Orcs e goblins são a mesma coisa?   #131 (segunda nota de rodapé), #144
e.    Qual é a origem dos Orcs?    #144, #153
f.    Como os Orcs se pareciam?    #210 (comentário #19)
g.    O que eram os Wargs?    #297
h.    O que eram os Balrogs?    #144
i.    Qual é a origem dos Ents?    #247
j.    O que aconteceu às Entesposas?    #144, 338
k.    Laracna estava sob o comando de Sauron?    #144
l.    As montarias aladas dos Nazgûl eram pterodátilos?  #211
 

XIV.    Cultura/Sociedade

a.    Por que não há religião em SdA?  #142, #153 (rodapé), #156, #165, #211
b.    Como era a cultura dos Numenoreanos de Gondor?  #211
c.    Como era a coroa de Gondor?  #211 (ilustração)
d.    Como era a cultura de Gondor na Terceira Era? #131, #154
e.    Como era a cultura de Rohan?    #211
f.    O que era o costume hobbit de dar presentes?  #214
g.    Se os Hobbits davam presentes em seus aniversários, porque o povo de Sméagol parecia receber presentes em seus aniversários?    #214
h.    Quais eram as estruturas e costumes das famílias, casas e herdeiros hobbits?    #214
 

XV.    Idiomas
a.    Como o idioma se relacionava com as histórias de Tolkien? #131, #144, #205, #294, #297
b.    Por que Sam diz "O Elbereth Gilthoniel" ao invés de "A Elbereth Gilthoniel" em "As Escolhas do Mestre Samwise"?  #211
c.    Tolkien planejava produzir uma gramática e um vocabulário de Quenya e Sindarin? #313
d.    Tolkien criou números para acompanhar as letras Feanoreanas?  #344
e.    Por que os Homens tendiam a usar Quenya para nomes enquanto os Elfos tendiam para o uso do Sindarin? #347 (resposta 3)
 

XVI.    Nomenclaturas
a.    Qual é a origem do nome "Smaug"?  #25
b.    Como Tolkien se sentia com pessoas usando nomes de seus livros para nomear outras coisas?    #258, #342, #345
c.    Como Tolkien fez algumas de suas palavras e nomes?    #297, #324
d.    Qual foi a resposta/reação de Tolkien à idéia da inclusão da palavra "hobbit" no Dicionário Oxford?    #316
 

XVII.    Opiniões de Tolkien
a.    Tolkien gostava da arte de Pauline Baynes?  #120, #231, #233, #235, #260
b.    Como Tolkien se sentia com relação ao uso de sotaques nas atuações de SdA?    #193
c.    Quais foram os comentários de Tolkien sobre as performances dramáticas de SdA?    #194, #198, #201, #207, #210
d.    O que Tolkien achava da Sociedade Tolkien Americana? #276
e.    O que Tolkien achava das "fanfics", continuações de suas obras feitas por fãs?    #292
f.    Quais eram alguns dos trechos favoritos de Tolkien em SdA? #294
 

XVIII.    Miscelânea
a.    Como Tolkien pronunciava seu nome?   #347 (P.S.)
b.    Qual é a origem dos Inklings?   #298
c.    As obras de Tolkien são escritas para crianças?  #215, #234
d.    O que há de único no poema Errantry? #133
e.    Existe um verdadeiro Sam Gamgi?    #184
f.    Tolkien gostava de dar entrevistas?   #293, #294

 

Mais Informações:

As Cartas de J.R.R. Tolkien na Valinor

As Cartas de J.R.R. Tolkien na Arte & Letra

Editora Arte & Letra 

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Uma Carta de Tolkien

Tolkien escreve a Elsie Honeybourne à mão em uma carta datada de 21 de dezembro de 1967, papel de 5,25 x 7 polegadas (13,3 x 17,8 cm – pouco mais que a página de um livro de bolso), cujo mais interessante não é o teor da mesma mas sim as imagens, permitindo visualizar com exatidão a letra e o estilo de Tolkien. Esta carta não se encontro no livro As Cartas de J.R.R. Tolkien (afinal, tem pouco ou nenhum interesse no geral da obra).
Abaixo segue a carta no original em inglês, completa, para facilitar o acompanhamento pela imagem da mesma, já que a letra de Tolkien não é tão legível assim:1967-december_21-honeybourne.jpg“Thank you so much for writing such kind and appreciative letters, brevity is not necessarily a virtue. I am interested in what you say of your name. I think it still probable that your father’s name nonetheless comes from near Evesham. It must be derived from a place-name; and though -Bourne (stream) is widespread in England, and occurs in Kentish names, Honeybourne is found only in Cow H. and Church H. near Evesham. There was a considerable movement and interchange between Kent and Worcestershire, largely because of the industries of fruit-growing. I shall certainly put Honeybourne on the Shire Map as soon as an opportunity of revision (much needed) occurs. I was deeply interested in your choice of passages, and quite agree about Pippin’s ride. An easing of tension was needed at the end of the ‘Book’ (but of course provided instinctively and not by planning). To ride with Gandalf must have been like being borne by a Guardian Angel, with stern gentleness a most comforting combination to children (as we all are).

I am sending you a copy of my recently published story. Not addressed to children (reached by age). An old man’s tale, mainly concerned with ‘retirement’ and bereavement.”

Em português temos:

“Muito obrigado por escrever tais cartas gentis e apreciativas, brevidade não é necessariamente uma virtude. Eu estou interessado no que você diz sobre seu nome. Eu acredito ainda ser provável que o nome de seu pai tenha vindo de perto de Evesham. Ele deve ser derivado de um nome de lugar; e embora -Bourne (córrego) seja espalhado pela Inglaterra, e ocorra em nomes de Kent, Honeybourne é encontrado apenas em Cow H. e Church H. perto de Evesham. Ocorreram movimentos e trocas consideráveis entre Kent e Worcestershire, principalmente devido às indústrias de cultivo de frutas.

Com certeza eu colocarei Honeybourne no Mapa do Condado tão logo uma oportunidade de revisão (muito necessitada) apareça.

1967-december_21-honeybourne_2.jpgEu fiquei profundamente interessado em suaescolha de trechos, e concordo sobre a cavalgada de Pippin. Um relaxamento de tensão era necessário ao final do ‘Livro’ (mas, claro, feita instintivamente e não planejada). Cavalgar com Gandalf deve ter sido como ser carregado por um Anjo da Guarda, com austera gentileza uma combinação das mais confortantes para crianças (como todos somos).

Estou enviando uma cópia de minha história recentemente publicada. Não direcionada a crianças (em idade). Um conto de um velho, principalmente relacionado com ‘aposentadoria’ e a tristeza da perda.”

Na carta Tolkien se refere à sua história “Smith of Wooton Major”, publicada pela primeira vez na revista Redbook em 23 de novembro de 1967. Tolkien também acrescenta uma breve nota a lápis no topo da primeira página com relação a seu atraso em ler a correspondência. Podemos ver aqui as maiores características pessoais de Tolkien, explorando idiomas e encontrando raízes para palavras e nomes. Línguas eram sua fonte de inspiração e aqui pela segunda vez ele diz que poderia adicionar Honeybource (algo como “riacho de mel”) ao mapa dO Hobbit.

thumb_cartas_tolkien1.jpg

Carta #183

Um comentário, aparentemente escrito para a própria satisfação de Tolkien e não enviado ou mostrado à qualquer outro, sobre “Ao término da Saga, Vitória”, uma crítica literária de O Retorno do Rei feita por W. H. Auden no Book Review do New York Times, em 22 de Janeiro de 1956. O texto dado aqui é uma reedição em alguma data mais tarde da versão anterior, agora perdida, que foi provavelmente escrito em 1956. Na resenha, Auden escreveu: “A vida, como eu a experimento em minha própria pessoa, é principalmente uma sucessão contínua de escolhas entre alternativas. Para objetivar esta experiência, a imagem natural é aquela de uma jornada com um propósito, atacada por riscos e obstáculos perigosos. Mas quando eu observo a humanidade, tal imagem parece falsa. Por exemplo, eu posso ver que só os ricos e aqueles de férias podem fazer jornadas; a maioria dos homens, a maior parte do tempo, tem que trabalhar em um lugar. Eu não posso observá-los fazendo escolhas, só as ações a que eles se submetem e, se eu conheço bem alguém, eu normalmente posso predizer como ele agirá em uma determinada situação. Se, então, eu tentar descrever o que vejo como se fosse uma câmera fotográfica impessoal, produziria, não uma Saga, mas um documento “naturalista”. Ambos extremos, é claro, falsificam a vida. Existem Sagas medievais que justificam a crítica feita por Erich Auerbach no seu livro Mimesis: “O mundo de experiências heróicas é um mundo de aventura. As façanhas [dos heróis] são feitos realizados ao acaso que não se ajustam politicamente em qualquer padrão proposital” … Sr.Tolkien foi mais bem sucedido que qualquer escritor anterior neste gênero usando as propriedades tradicionais da Saga.”

Caro Auden,

Estou muito grato por esta resenha. Muito encorajadora, tendo vindo de um homem que é ao mesmo tempo um poeta e um crítico de distinção. Não ainda (eu penso) alguém que tenha muita prática em narrar contos. Em todo caso estou um pouco surpreso por esta, pois apesar de seu elogio, me parece mais o modo de falar de um crítico em lugar de um autor. Não é, pelo que sinto, o jeito certo de considerar tanto Sagas em geral quanto a minha história em particular. Acredito que seja justamente porque não tentei, e nunca pensei em tentar “objetivar” minha experiência pessoal de vida, que o relato da Saga do Anel tivesse tido êxito em dar prazer a Auden (e a outros). Provavelmente também é a razão, em muitos casos, por não ter agradado alguns leitores e críticos. A história não é sobre JRRT absolutamente, e não é em nenhum ponto uma tentativa para alegorizar sua experiência de vida – por aquela é que o objetivo da sua experiência subjetiva em um conto deve significar, se qualquer coisa.

Eu sou historicamente preocupado. A Terra-média (Middle earth) não é um mundo imaginário. O nome é a forma moderna (surgida no século XIII e ainda em uso) de midden-erd > middel-erd, um nome antigo para oikoumene-, a residência dos Homens, objetivamente o mundo real, em uso especificamente oposto a mundos imaginários (como o Reino das Fadas) ou mundos não vistos (como Céu ou Inferno). O teatro de meu conto é esta terra, na qual nós vivemos agora, mas o período histórico é imaginário. Os elementos essenciais daquela residência estão todos lá (no caso para os habitantes do Noroeste da Europa), então naturalmente parece familiar, mesmo que um pouco glorificado pelo encanto da distância no tempo.

Homens realmente partem, e tem na história partido em jornadas e sagas, sem qualquer intenção de representar alegorias da vida. Não é verdade dizer que no passado ou no presente “só os ricos ou aqueles de férias podem fazer jornadas”. A maioria dos homens faz algumas jornadas. Quer sejam longas ou pequenas, com uma missão ou simplesmente para ir “lá e de volta outra vez”, não é a importância principal. Como tentei expressar na Canção de Caminhar de Bilbo, até mesmo um passeio ao entardecer pode ter efeitos importantes. Quando Sam não tinha ido mais além do que a Ponta do Bosque ele já tinha tido um “esclarecimento”.

Pois se há qualquer coisa em uma jornada de qualquer duração, para mim é isso: uma libertação do estado vegetativo de sofredor passivo e impotente, um exercício, ainda que pequeno de vontade, e mobilidade – e de curiosidade, sem a qual uma mente racional torna-se embrutecida. (Embora é claro que tudo isso seja uma reflexão tardia, e perca o ponto principal. Para um contador de histórias uma jornada é um artifício maravilhoso. Esta fornece uma linha forte na qual uma infinidade de coisas que ele tem em mente possa ser amarrada para fazer uma coisa nova, variada, imprevisível, e ainda coerente. Minha razão principal para usar esta forma foi simplesmente técnica).

Em todo caso não vejo os meus membros da raça humana que eu tenha observado do modo como foram descritos. Sou velho o bastante agora para ter observado alguns deles o suficiente para ter uma noção do que, eu suponho, Auden chamaria o seu caráter básico ou inato, enquanto notando mudanças (freqüentemente consideráveis) no seu modo de comportamento. Não sinto que uma jornada no espaço seja uma comparação útil para entender estes processos. Penso que a comparação com uma semente é mais esclarecedora: uma semente com sua vitalidade e hereditariedade inatas, sua capacidade para crescer e se desenvolver. Uma grande parte das “mudanças” em um homem é sem dúvida o desdobramento dos padrões escondidos na semente; embora estes naturalmente sejam modificados pela situação (geográfica ou climática) na qual esta é lançada, e que possam ser prejudicados por acidentes terrestres. Mas esta comparação omite inevitavelmente um ponto importante. Um homem não é apenas uma semente se desenvolvendo em um padrão definido, bem ou mal de acordo com sua situação ou seus defeitos como um exemplo de sua espécie; um homem é tanto uma semente como de certa forma também um jardineiro, para bem ou mal. Sou impressionado pelo grau no qual o desenvolvimento do “caráter” pode ser um produto de intenção consciente, a vontade para modificar tendências inatas em direções desejadas; em alguns casos a mudança pode ser grande e permanente. Conheci um ou dois homens e mulheres que poderiam ser descritos como “autoformados” neste respeito, com pelo menos tanta verdade parcial quanto “autoformados” possa ser aplicado àqueles cuja abundância ou posição possam ser ditas por terem sido alcançadas, em grande parte, pela sua própria vontade e esforços com pouca ou nenhuma ajuda de riqueza herdada ou posição social.

Em todo caso, descubro a maioria das pessoas imprevisíveis em qualquer situação específica ou emergência. Talvez porque eu não seja um bom juiz de caráter. Mas até mesmo Auden só diz que pode normalmente predizer como eles agirão; e pela inserção de “normalmente”, um elemento de incompatibilidade é admitido que, por menor que seja, está prejudicando seu ponto de vista.

Algumas pessoas são, ou parecem ser, mais previsíveis que outras. Mas isso é devido mais à sua sorte do que pela sua natureza (como indivíduos). As pessoas previsíveis residem em circunstâncias relativamente fixas, e é difícil pegá-las e observá-las em situações que são (para elas) estranhas. Essa é outra boa razão para enviar “hobbits” – uma visão de pessoas simples e previsíveis em circunstâncias simples e há muito estabelecidas – em uma jornada para longe do lar em terras estranhas e perigosas. Especialmente se eles são providos com algum motivo forte para resistência e adaptação. Embora sem qualquer motivo forte as pessoas realmente mudam (ou ainda, revelam o oculto) em jornadas: isso é um fato de observação usual sem qualquer necessidade de explicação simbólica. Em uma jornada de duração suficiente para fornecer o desfavorável em qualquer grau de desconforto para temer a mudança em companheiros bem conhecidos na “vida normal” (e em si mesmo) é freqüentemente notável.

Não gosto do uso da “política” em tal contexto; me parece falso. Parece-me claro que o dever de Frodo era “humano”, e não político. Ele naturalmente pensou primeiro no Condado, uma vez que suas raízes estavam lá, mas a saga teve como seu objeto não a preservação desta ou daquela política, como a meio república meio aristocracia do Condado, mas a liberação de uma tirania má de todos os “humanos”¹ – incluindo aqueles, como os “orientais” e os Haradrim, que ainda eram os servos da tirania.

Denethor estava corrompido pela mera política: conseqüentemente ocorreu seu fracasso e sua desconfiança de Faramir. Ela tinha se tornado para ele um motivo principal para preservar o governo de Gondor, como era, contra um outro potentado, que tinha se tornado mais forte e seria temido e oposto por essa razão mais propriamente do que pelo novo governo ser desumano e mau. Denethor menosprezava homens inferiores, pode-se estar seguro de que ele não distinguia entre orcs e aliados de Mordor. Se tivesse sobrevivido como vencedor, até mesmo sem uso do Anel, teria dado longos passos para se tornar um tirano, e as condições e tratos que outorgaria com os povos iludidos do leste e do sul teriam sido cruéis e vingativas. Ele tinha se tornado um líder “político”: sic. Gondor contra o resto.

Mas essa não era a política ou o dever estabelecido pelo Conselho de Elrond. Só depois de ouvir o debate e perceber a natureza da demanda é que Frodo realmente aceita o fardo da sua missão. De fato, os Elfos destruíram sua própria política em perseguição de um dever “humano”. Isto não aconteceu somente como um dano desastroso da Guerra; era sabido por eles ser um resultado inevitável da vitória, que poderia ser de nenhuma maneira vantajosa para os Elfos. Não pode ser dito que Elrond tem um dever ou um propósito político.

O uso da “política” por Auerbach pode à primeira vista parecer mais justificado; mas não é, eu penso, realmente inadmissível – nem mesmo se nós reconhecemos o enfado para qual a mera condição “errante” foi reduzida como a leitura de passatempo de uma classe principalmente interessada por feitos de armas e amor². A respeito do quão divertidas para nós (ou para mim) são histórias sobre cricket, ou contos sobre a viagem de um time, para aqueles que (como eu) acham cricket (como este agora é) um enfado ridículo. Mas os feitos de armas em um (diga-se) Romance Arturiano, ou romances presos àquele grande centro de imaginação, não precisam se “ajustar em um padrão politicamente deliberado”³. Assim era nas tradições Arturianas primitivas. Ou pelo menos esta linha de primitiva porém poderosa imaginação era um elemento importante nelas, como também em Beowulf. Auerbach deveria aprovar Beowulf, pois nele um autor tentou ajustar uma ação errante em um campo político complexo: as tradições inglesas das relações internacionais da Dinamarca, Gotland, e Suécia em dias antigos. Mas essa não é a força da história, antes a sua fraqueza. Os objetivos pessoais de Beowulf na sua jornada para a Dinamarca são precisamente aqueles de um herói posterior: o seu próprio renome, e acima disso a glória do seu senhor e rei; mas todo o tempo nós vislumbramos algo mais profundo. Grendel é um inimigo que atacou o centro do reino, e trouxe para dentro do corredor real a escuridão exterior, de forma que só na luz do dia o rei pode se sentar no trono. Isto é algo bastante diferente e mais horrível que uma invasão “política” de iguais – homens de um outro reino semelhante, tal como o posterior ataque de Ingeld à Heorot.

A subversão de Grendel faz um bom conto-maravilhoso, porque ele é muito forte e perigoso para qualquer homem comum derrotar, mas é uma vitória na qual todos os homens podem se regozijar porque ele era um monstro, hostil a todos os homens e para todo o companheirismo e alegria humana. Comparado a ele até mesmo os há muito politicamente hostis Dinamarqueses e Geatish eram Amigos, do mesmo lado. É a monstruosidade e a qualidade de conto de fadas de Grendel que realmente faz o conto importante, sobrevivendo ainda quando a política enfraquece e a cura das relações entre Dinamarqueses e Geatish em um “entendimento cordial” entre duas casas governantes um assunto secundário da história obscura. Naquele mundo político Grendel parece tolo, embora ele certamente não seja tolo, porém ingênua pode ser a imaginação do poeta e a descrição dele.

Claro que na “vida real” as causas não estão claras – se somente porque os humanos tiranos raramente são totalmente corrompidos em puras manifestações de intenção má. Até onde possa julgar, alguns parecem ter sido assim corrompidos, mas até mesmo eles devem reger assuntos apenas em parte regularmente corruptos, enquanto muitos ainda necessitam ter bons motivos, reais ou fingidos, apresentados a eles. Como nós vemos hoje. Ainda há casos claros: por exemplo, atos de agressão cruel transparente nos quais, portanto o certo está desde o princípio completamente em um lado, qualquer que seja o mal que o sofrimento ressentido do mal possa gerar eventualmente em membros do lado certo.

Também existem conflitos sobre idéias ou outras coisas importantes. Em tais casos sou mais impressionado pela extrema importância de estar do lado certo, do que estou transtornado pela revelação da selva de motivos confusos, propósitos particulares, e ações individuais (nobres ou vis) no qual o certo e o errado em conflitos humanos reais são normalmente envolvidos. Se o conflito realmente é sobre coisas propriamente chamadas de certa e errada, ou boa e má, então a retidão ou bondade de um lado não é demonstrada ou estabelecida pelas reivindicações de qualquer lado; deve depender de valores e convicções superiores e independentes do conflito particular. Um juiz deve apontar o certo e errado de acordo com princípios que ele considera válidos em todos os casos. Sendo assim, o direito permanecerá uma possessão inalienável do lado certo e justificará sua causa inteiramente. (Falo de causas, não de indivíduos. Claro que para um juiz cujas idéias morais têm uma base religiosa ou filosófica, ou realmente para qualquer um não obscurecido por fanatismo partidário, a retidão da causa não justificará as ações de seus defensores, como indivíduos que são moralmente maus. Mas embora a “propaganda” possa aproveitar casos como esses como provas de que sua causa não era de fato certa, isso não é válido. Os agressores são eles mesmos os primeiros a se culparem pelas más ações que procedem da sua violação original da justiça e das paixões que a sua própria maldade deve naturalmente (pelos seus padrões) ter sido esperada que despertasse. Eles não têm nenhum direito para exigir de qualquer modo que as suas vítimas quando atacadas não devam exigir olho por olho ou dente por dente).

Semelhantemente, ações boas por aqueles no lado errado não justificarão a sua causa. Pode haver ações no lado errado de coragem heróica, ou algumas de um nível moral mais alto: ações de clemência e paciência. Um juiz pode lhes outorgar honra e pode se alegrar por ver como alguns homens podem se elevar acima do ódio e da raiva de um conflito; até mesmo enquanto ele pode lamentar as ações más do lado certo e pode ficar preocupado por ver quanto o ódio uma vez provocado pode os arrastar para baixo. Mas isto não alterará o seu julgamento com relação a qual lado estava no direito, nem a sua designação da culpa primária para todo o mal que seguiu ao outro lado.

Em minha história não lido com Mal Absoluto. Não acho que exista tal coisa, uma vez que isso é insignificante. Não acho que de qualquer modo qualquer “ser racional” seja completamente mau. Satanás caiu. Em meu mito Morgoth caiu antes da Criação do mundo físico. Em minha história Sauron representa o mais próximo de uma vontade completamente má como é possível. Ele tinha percorrido o caminho de todos os tiranos: começando bem, pelo menos no nível que enquanto desejando ordenar todas as coisas de acordo com a sua própria sabedoria ele ainda no princípio considerou o bem-estar (econômico) de outros habitantes da Terra. Mas ele foi mais adiante que os tiranos humanos em orgulho e avidez pela dominação, sendo em origem um espírito imortal (angélico)4. Em O Senhor dos Anéis o conflito não é basicamente sobre “liberdade”, embora esta esteja naturalmente envolvida. É sobre Deus, e Seu exclusivo direito à honra divina. Os Eldar e os Númenorianos acreditaram no Único, o verdadeiro Deus, e consideravam a adoração de qualquer outra pessoa uma abominação. Sauron desejou ser um Deus-Rei, e foi considerado como tal por seus servos5; se ele tivesse sido vitorioso ele teria exigido honra divina de todas as criaturas racionais e poder temporal absoluto sobre o mundo inteiro. Então até mesmo se em desespero “O Oeste” tivesse criado ou contratado hordas de orcs e tivesse cruelmente saqueado as terras de outros Homens enquanto aliados de Sauron, ou somente para lhes impedir de ajudá-lo, a Causa deles teria permanecido irrevogavelmente certa. Como faz a Causa daqueles que se opõem agora ao Deus-Estado e Marechal Isto ou Aquilo como seu Alto Sacerdote, até mesmo se for verdade (como infelizmente é) que muitas das ações deles estejam erradas, até mesmo se fosse verdade (como não é) que os habitantes do “Oeste”, com exceção de uma minoria de chefes ricos, vivem em medo e esqualidez, enquanto os adoradores do Deus-Estado vivem em paz e abundância e em estima mútua e confiança.

Então sinto que a inquietação-esfraquecimento em resenhas e correspondência sobre elas, assim como se minhas “pessoas boas” eram amáveis e misericordiosas e davam abrigo (de fato elas assim o são), ou não, realmente não vem ao caso. Alguns críticos parecem determinados em me representar como um adolescente simplório, inspirado pelo, digamos, espírito de luta e justiça, e intencionalmente distorcem o que é dito em meu conto. Eu não tenho aquele espírito, e ele não aparece na história. Só a figura de Denethor é suficiente para prová-lo; mas eu não fiz nenhuma das pessoas do lado “certo”, Hobbits, Rohirrim, Homens de Valle ou de Gondor, nada melhor do que os homens tem sido ou são, ou possam ser. O meu não é um “mundo imaginário”, mas um momento histórico imaginário na “Terra-média” – que é nossa morada.

Notas do Autor

1. humanos: estes (estando em uma história de fadas) incluem-se é claro Elfos, e certamente todas as “criaturas falantes”.

2. Principalmente interessada: isto é como temas de “literatura” como uma diversão. Na verdade a maior parte deles era principalmente interessada na aquisição de terra e o uso de alianças por casamento em alcançar seus objetivos.

3. Nada a não ser “política” é estreitada (ou estendida) tanto que estamos considerando imaginativamente apenas um centro ou fortaleza de ordem e benevolência cercada por inimigos: florestas desabitadas e montanhas, homens bárbaros e hostis, feras selvagens e monstros, e o Desconhecido. A defesa do reino pode então na verdade se tornar simbólica da situação humana.

4. Da mesma espécie que Gandalf e Saruman, mas de uma ordem muito mais alta.

5. Por uma tripla traição: 1. Por causa de sua admiração pela Força ele se tornou um seguidor de Morgoth e caiu com ele dentro dos abismos do mal, se tornando seu principal agente na Terra-média 2. Quando Morgoth foi derrotado pelos Valar finalmente ele abandonou sua aliança; mas por causa de medo apenas, ele não apresentou-se aos Valar ou implorou por perdão, e permaneceu na Terra-média 3. Quando ele descobriu quão grandemente seu conhecimento era admirado por todas as outras criaturas racionais e quão fácil seria influenciá-las seu orgulho tornou-se ilimitado. No fim da Segunda Era ele assumiu a posição de representante de Morgoth. No fim da Terceira Era (embora na verdade muito mais fraco que antes) ele proclamou ser Morgoth retornado.

Carta #210

Em 1957 Tolkien recebeu a visita de três empresários americanos, que demonstraram interesse em produzir uma possível versão em desenho animado de O Senhor dos Anéis. Entregaram-lhe um roteiro preliminar, onde Tolkien descobriu que não respeitava-se o livro, havendo diversas barbaridades. A carta contém a análise minuciosa de Tolkien quanto ao “tratamento” dado ao Senhor dos Anéis no roteiro.

para Forrest J. Ackerman [Não datada; junho de 1958]

Caro Sr. Forrest,

Terminei finalmente meu comentário sobre o roteiro. Sua duração e detalhe vão, eu espero, dar evidência da minha preocupação sobre o assunto. Ao menos algumas coisas que eu disse ou sugeri possam ser aceitáveis, até mesmo úteis, ou pelo menos interessantes. O comentário vai acompanhando página à página, de acordo com a cópia do trabalho do Sr. Zimmerman que foi deixada comigo e a qual devolvo agora. Espero sinceramente que alguém se dê ao trabalho de lê-lo.

Se Z e/ou os outros assim o fizerem, talvez fiquem irritados ou aborrecidos pelo tom de muitas de minhas críticas. Nesse caso, lamento muito (embora isso não me surpreenda). Mas eu lhes pediria que fizessem um esforço de imaginação suficiente para entender a irritação (e ocasionalmente o ressentimento) de um autor que descobre, no progresso desse processo, que seu trabalho foi tratado em geral com aparente falta de cuidado, em partes negligenciado, e sem sinais evidentes de qualquer consideração sobre o que ele trata ….

As regras da narrativa em qualquer meio não podem ser completamente diferentes; e o fracasso de filmes medíocres está justamente no freqüente exagero, e na inclusão de assunto não autorizado devido a não perceberem onde a essência original reside.

Zimmerman incluiu um “castelo de fadas” e muitas “guias, para não mencionar encantamentos, luzes azuis, e um pouco de magia desnecessária (como o corpo flutuante de Faramir). Ele cortou as partes da história da qual seu tom característico e peculiar depende principalmente, mostrando uma preferência por lutas; e ele não fez nenhuma tentativa séria para representar o coração do conto adequadamente: a jornada dos Portadores do Anel. O último e o mais importante aspecto disto foi, e esta não é uma palavra forte demais, simplesmente assassinado.

[Seguem alguns extratos do longo comentário de Tolkien sobre o roteiro]

Z é usado como uma abreviação para a sinopse em si quanto para Zimmerman, o escritor dela. Referências à esta estão por página (e linha, onde requeridas); referências quanto a história original estão por página da edição unificada.

2. Por que a exibição de fogos de artifício deveria incluir bandeiras e hobbits? Eles não estão no livro. “Bandeiras” do que? Eu prefiro a minha própria escolha de fogos de artifício.

Gandalf, por favor, não deveria “resmungar”. Embora ele possa parecer irritável às vezes, tem um senso de humor e adota uma atitude um tanto de tio para com os hobbits, é uma pessoa de alta e nobre autoridade, e grande dignidade. A descrição na pág. 235¹ nunca deveria ser esquecida.

4. Aqui nós encontramos a primeira intrusão das “guias. Acho que elas são o maior erro de Z, e sem autorização.

As “guias são um “mecanismo” perigoso. Eu as usei esporadicamente, e esse é o limite absoluto da sua credibilidade ou utilidade. O pouso de uma Grande “guia das Montanhas Sombrias no Condado é absurdo; isso também torna a posterior captura de Gandalf por Saruman inacreditável, e prejudica o relato de sua fuga. (uma das falhas principais de Z é a sua tendência a antecipar cenas ou artifícios usados posteriormente, tornando o conto tolo). Radagast não é um nome de “guia, mas o nome de um mago; vários nomes de águias são fornecidos no livro. Estes pontos são importantes para mim.

Aqui eu posso dizer que eu não vejo porque o esquema-de-tempo deveria ser deliberadamente encurtado. Já está bastante compactado no original, a ação principal acontece entre 22 de Setembro e 25 de março do ano seguinte. As muitas impossibilidades e os absurdos que a pressa adicional produz poderiam, eu suponho, não serem observados por um espectador não crítico; mas não vejo por que eles deveriam ser introduzidos desnecessariamente. O tempo deve ser naturalmente deixado mais vago em um filme do que em um livro; mas não posso ver por que relatos de tempo definidos, contrários ao livro e a probabilidade, deveriam ser feitos…

As Estações são cuidadosamente respeitadas no original. Elas são pictóricas, e deveriam ser, e facilmente poderiam ser, feitas como meio principal pelo qual os artistas indicam a passagem do tempo. A ação principal começa no outono e passa pelo inverno para uma primavera brilhante: isto é básico para o sentido e tom do conto. A contração de tempo e espaço em Z destrói isso. Seus arranjos, por exemplo, nos poriam em uma nevasca enquanto ainda era verão. O Senhor dos Anéis pode ser uma “história-de-fadas”, mas acontece no hemisfério Norte desta terra: milhas são milhas, dias são dias, e clima é clima.

Contração deste tipo não é a mesma coisa que a necessária redução ou seleção das cenas e eventos que devam ser representados visualmente.

7. O primeiro parágrafo deturpa Tom Bombadil. Ele não é o dono das florestas; ele nunca pensaria em fazer tal reivindicação.

“Velho malandro!” Este é um bom exemplo da tendência geral que eu encontrei em Z para reduzir e diminuir o tom para transformá-lo em um conto de fadas mais infantil. A expressão não corresponde ao tom da longa conversa posterior de Bombadil; e embora esta esteja cortada, não há nenhuma necessidade que suas indicações sejam desconsideradas.

Eu sinto muito, mas penso que a maneira da introdução de Fruta D’Ouro é tola e do mesmo nível que velho “patife”. Também não está baseado no meu conto. Não estamos na “terra-das-fadas”, mas em terras ribeirinhas reais no outono. Fruta D’Ouro representa as mudanças sazonais reais em tais terras. Pessoalmente eu acho que teria sido muito melhor ela ter desaparecido do que fazer uma aparição sem sentido.

8. Linha 24: o proprietário não pede para Frodo se “registrar”!² Por que deveria? Não há nenhuma polícia e nenhum governo. (nem o faço numerar seus quartos). Se detalhes são adicionados a um quadro já abarrotado, eles deveriam pelo menos se ajustar ao mundo descrito.

9. Deixar a hospedaria à noite e fugir na escuridão é uma solução impossível pelas dificuldades apresentadas aqui (que eu posso ver). É a última coisa que Aragorn teria feito. Está baseada em uma concepção completamente errada dos Cavaleiros Negros, a qual eu imploro para que Z reconsidere. O perigo deles é quase completamente atribuído ao medo incontrolável que inspiram (como fantasmas). Eles não têm nenhum grande poder físico contra os corajosos; mas o que eles têm, e o medo que eles inspiram, é aumentado consideravelmente na escuridão. O Rei-Bruxo, o líder, é o mais poderoso que os outros de todas as maneiras; mas ele não deve contudo ser elevado ao nível do RdR. Lá, posto no comando por Sauron, para ele é dada uma força demoníaca adicional. Mas até mesmo na Batalha dos Campos do Pelennor, a escuridão tinha só enfraquecido. Veja pág. 114³.

10. Valfenda não era “uma floresta cintilante”. Esta é uma antecipação infeliz de Lórien (a qual não se assemelha à esta de maneira nenhuma). Não pode ser vista do Topo do Vento: estava a 200 milhas de distância e escondida em um desfiladeiro. Não posso ver nenhuma vantagem pictórica ou de criação da história em encolher a geografia desnecessariamente.

Passolargo não “Saca uma espada” no livro. Naturalmente não: a sua espada estava quebrada. (Sua luz élfica é outra falsa antecipação da Anduril reforjada. A antecipação é uma das falhas principais de Z). Por que então deveria fazê-lo aqui, em um duelo que não foi travado explicitamente com armas?

11. Aragorn não “cantou a canção de Gil-galad”. Naturalmente: era bastante inapropriada, uma vez que contava a derrota do Rei-Élfico pelo Inimigo. Os Cavaleiros Negros não gritam, mas mantêm um silêncio mais aterrador. Aragorn não empalidece. Os cavaleiros se arrastam lentamente a pé na escuridão, e não “correm”. Não há luta. Sam não “crava a sua lâmina na coxa do Espectro do Anel”, nem seu golpe salva a vida de Frodo. (Se assim fosse, o resultado teria sido exatamente igual ao da pág. 891-894: o Espectro teria caído e a espada teria sido destruída.

Porque meu relato foi completamente reescrito aqui, com desconsideração para com o resto do conto? Posso ver que há certas dificuldades em representar uma cena escura; mas elas não são insuperáveis. Uma cena sombria iluminada por uma pequena fogueira, com os Espectros lentamente se aproximando como sombras mais escuras – até o momento que Frodo coloca o Anel, e o Rei se aproxima revelando-se – pareceria para mim muito mais impressionante do que mais uma cena de gritos e de golpes um tanto quanto sem sentido.

Gastei algum tempo nesta passagem, como um exemplo do que descubro muito freqüentemente me dar “prazer ou satisfação”: alteração deliberada da história, de fato e significado, sem qualquer objetivo prático ou artístico (que eu possa ver); e do efeito insípido que a assimilação de um incidente a outro deve ter.

15. O tempo é novamente encurtado e acelerado, com o efeito de reduzir a importância da Saga. Gandalf não diz que eles partirão assim que estejam prontos! Dois meses decorrem. Não há nenhuma necessidade de dizer qualquer coisa com um sentido de tempo. O lapso de tempo deveria ser indicado, por nada mais além da mudança para inverno na paisagem e árvores. No final da página, as “guias são introduzidas novamente. Sinto que isto é uma adulteração completamente inaceitável do conto. “Nove Caminhantes” e eles vão imediatamente por ar! A intrusão leva a nada mais além da incredibilidade, e o esgotamento do artifício das “guias quando finalmente elas são realmente necessárias. Está bem dentro dos poderes dos filmes sugerir, de forma relativamente breve, uma jornada longa e árdua, em segredo, a pé, com as três montanhas ominosas ficando mais próximas.

Z não parece muito interessado por estações ou paisagens, embora do que vi eu devesse dizer que na representação destas as principais virtude e atração do filme são plausíveis de serem encontradas. Mas Z acha que teria melhorado o efeito de um filme como, digamos, a subida do Everest pela introdução de helicópteros para levar os alpinistas metade do caminho acima (a despeito da probabilidade)? Seria muito melhor cortar a Tempestade de Neve e os Lobos do que fazer uma farsa da árdua jornada.

19. Por que Z põe bicos e penas nos Orcs!? (Orcs não são uma forma de Ave). Os Orcs definitivamente são descritos como sendo corrupções da forma “humana” vista em Elfos e Homens. Eles são (ou eram) gordos e baixos, largos, de narizes achatados, de pele amarelada, com bocas largas e olhos oblíquos: de fato versões degradadas e repulsivas dos (para os europeus) menos adoráveis tipos Mongóis.

20. O Balrog nunca fala ou faz nenhum som vocal. Acima de tudo ele não ri ou zomba. Z pode pensar que sabe mais sobre os Balrogs do que eu, mas não pode esperar que eu concorde com ele.

21. “Uma visão esplêndida. É a casa de Galadriel… uma Rainha Élfica” (ela não o é de fato) “Delicadas espirais e minúsculos minaretes de cor Élfica são habilmente tecidos em um castelo lindamente projetado.” Eu considero esta descrição deplorável por si mesma, e em partes impertinentes. Z poderia demonstrar um pouco de respeito pelo meu texto, pelo menos em descrições que são obviamente centrais ao tom geral e estilo do livro! Não aceitarei em circunstância nenhuma este tratamento de Lórien, até mesmo se Z prefere pessoalmente “minúsculas” fadas e as bugigangas de contos de fadas modernos convencionais.

O desaparecimento da tentação de Galadriel é significante. Praticamente tudo que tem significado moral desapareceu da sinopse.

22. Lembas, o “pão de viagem”, é chamado de um “concentrado alimentar”. Como tenho demonstrado, eu repugno fortemente qualquer desvio do meu conto para o estilo e característica de “contes des fees” ou histórias de fadas francesas. Eu repugno igualmente qualquer desvio para “cientificação”, da qual esta expressão é um exemplo. Ambos os modos são estranhos a minha história.

Nós não estamos explorando a Lua ou qualquer outra região mais improvável. Nenhuma análise em qualquer laboratório descobriria propriedades químicas do lembas que tornasse este superior a outros bolos de trigo.

Só comento a expressão aqui como uma indicação de atitude. Não é sem dúvida casual; e nada desse tipo ou estilo será (espero) inserido no diálogo verdadeiro.

No livro lembas tem duas funções. É um “mecanismo” ou artifício para tornar críveis as longas marchas com pouca provisão, em um mundo no qual como eu disse “milhas são milhas”. Mas isso é relativamente sem importância. Também tem um significado muito maior, do qual alguém poderia chamar com hesitação de um tipo “religioso”. Isto se torna aparente mais tarde, especialmente no capítulo “A Montanha da Perdição” (pág. 9915 e subseqüentemente). Não consigo achar que Z tenha feito qualquer uso particular de lembas até mesmo como um artifício; e toda a parte da “Montanha da Perdição” desapareceu na confusão distorcida que Z fez do fim. Até onde posso ver, o uso do “lembas” bem que poderia desaparecer completamente.

Espero sinceramente que na designação das falas reais para os personagens elas sejam representadas como as apresentei: em estilo e sentimento. Eu deveria me ressentir da perversão dos personagens (e realmente me ressinto disto, até onde aparece neste esboço) até mesmo mais do que o estrago do enredo e da paisagem.

Partes II & III. Tenho gasto muito espaço em criticar até mesmo detalhes na Parte I. Foi mais fácil, porque a Parte I em geral respeita a linha de narrativa no livro e retém algo da sua coerência original. A Seqüência II exemplifica todas as falhas da Seqüência I; mas é ainda mais insatisfatória, e mais ainda a Parte III, em aspectos mais sérios. Quase parece que Z, tendo gasto muito tempo e trabalho na Parte I, agora se encontrou com falta não apenas de espaço mas de paciência para lidar com os dois volumes mais difíceis nos quais a ação fica mais rápida e complicada. Em todo caso escolheu tratá-los de modo que produz uma confusão que leva afinal quase a um delírio…

A narrativa agora se divide em dois ramos essenciais: 1. Ação Principal, os Portadores do Anel. 2. Ação Auxiliar, o resto da Companhia conduzindo a “questão heróica”. É essencial que estes dois ramos sejam tratados em uma seqüência coerente. Ambos para torná-los inteligíveis como uma história, e porque eles são totalmente diferentes em tom e paisagem. Misturá-los destrói inteiramente estas coisas.

31.Lamento profundamente a manipulação do capítulo “Barbárvore”, quer tenha sido necessária ou não. Já suspeitava que Z não estivesse interessado em árvores: infelizmente, já que a história é tão amplamente relacionada a elas. Mas certamente o que temos aqui é em todo caso um vislumbre um tanto quanto ininteligível? O que são Ents?

31 a 32. Passamos agora para uma habitação de Homens em uma “era heróica”. Z parece não apreciá-la. Espero que os artistas sim. Mas ele e eles realmente só têm que seguir o que é dito, e não alterá-lo para se adequar-se às suas fantasias (fora de propósito).

Em tal tempo “câmaras” privativas não existiam. Théoden provavelmente não tinha nenhuma, a menos que ele tivesse um “quarto privativo” de dormir em um pequena “dependência” separada. Ele recebia convidados ou emissários, sentado no tablado do seu salão real. Isto está bem claro no livro; e a cena deveria ser muito mais efetiva para ilustrar.

31 a 32. Por que Théoden e Gandalf não vão para a abertura diante das portas, como eu contei? Embora eu tenha enriquecido um pouco a cultura dos “heróicos” Rohirrim, esta não levou à janelas de vidro que poderiam ser abertas!!! Poderíamos estar em um hotel. (As “janelas do leste” do salão, pág. 535 e 5386, eram brechas sob o beiral, sem vidro.)

Mesmo se o rei de tal povo tivesse um “quarto privativo”, não poderia se tornar “uma colméia de atividade intensa”!!! A movimentação acontece do lado de fora e na cidade. O que é demonstrável disto deveria acontecer no pavimento aberto diante das grandes portas.

33. Receio que não descobri o vislumbre da “defesa do Forte da Trombeta” – este seria um título melhor, uma vez que O Abismo de Helm, o desfiladeiro por trás dele, não é mostrado – completamente satisfatório. Iria, acredito, ser uma cena bastante sem sentido em um filme, colocada neste modo. De fato eu mesmo estaria inclinado a cortar esta cena fora, se não pudesse ser feita de uma maneira mais coerente e numa parte mais significante da história. Se ambos, os Ents e o Forte da Trombeta, não puderem ser tratados com a duração suficiente para fazer sentido, então um deveria sair. Deveria ser o Forte da Trombeta, que não é essencial para a história principal; e haveria a vantagem adicional de que vamos ter uma grande batalha (da qual muito deveria ser feito tanto quanto possível), pois batalhas tendem a ser muito semelhantes: a grande ganharia por não ter nenhuma do mesmo porte.

34. Por que razão no mundo Z diria que os hobbits “estavam mastigando ridiculamente grandes sanduíches”? Ridículo realmente. Eu não vejo como poderia se esperar que qualquer autor ficasse “contente” com tais alterações tolas. Um hobbit estava dormindo, o outro fumando. A escadaria em espiral “tecida” ao redor da Torre (Orthanc) vem da imaginação de Z não do meu conto. Eu prefiro o último. A torre tinha 500 pés de altura. Havia uma trajetória de 27 degraus conduzindo à grande porta; sobre a qual estava uma janela e uma sacada.

Z está completamente obcecado pelas palavras hipnose e hipnótico. Nem hipnose genuína, nem variantes de ficção científica, ocorrem em meu conto. A voz de Saruman não era hipnótica, mas persuasiva. Aqueles que escutavam-no não corriam o perigo de cair em um transe, mas de concordar com seus argumentos, enquanto completamente despertos. Sempre era possível para alguém resistir, por livre e espontânea vontade e razão, tanto sua voz enquanto falando quanto suas impressões posteriores. Saruman corrompia os poderes da razão.

Z cortou o fim do livro, inclusive a morte exata de Saruman. Nesse caso não consigo ver nenhuma boa razão para fazê-lo morrer. Saruman nunca teria cometido suicídio: agarrar-se a vida e a suas migalhas mais básicas é o jeito do tipo de pessoa que ele tinha se tornado. Se Z quer Saruman meticuloso (eu não posso ver por que, onde tantas linhas são deixadas soltas) Gandalf diria algo neste sentido: enquanto Saruman desmorona sob a excomunhão: “Já que você não virá e nos ajudará, aqui em Orthanc você ficará até que apodreça, Saruman. Deixo os Ents tomando conta disto!”

Parte III… é totalmente inaceitável para mim, como um todo e em detalhes. Se esta destina-se como se nota ser apenas uma porção de algo como a extensão pictórica de I e II, então seu desenvolvimento deve ser em relação ao livro, e suas graves alterações com relação àquele devem ser corrigidas. Se esta destina-se a representar somente um tipo de final mais curto, então tudo o que eu posso dizer é que: O Senhor dos Anéis não pode ser deturpado desta forma.

Citações

1. “Gandalf era mais baixo que os outros dois, mas seus longos cabelos brancos, a vasta barba prateada, e os ombros largos conferiam-lhe a aparência de algum rei sábio de antigas lendas. Em seu rosto envelhecido, adornado por grossas sobrancelhas brancas, os olhos escuros pareciam ser feitos de carvão, prontos a se acender a qualquer momento. “

2. ex. na pousada de Bri.

3. “ a escuridão estava quebrando muito cedo, antes da data que o Mestre dele tinha fixado isto.”

4. A morte do Senhor do Nazgûl por Éowyn.

5. “ o lembas tinham uma virtude sem a qual os dois teriam há muito tempo se deitado à espera da morte… … Alimentava a disposição, e dava força para resistir, e para dominar os tendões e os membros, uma capacidade que ia além da medida dos mortais.”

6. “Mas em alguns pontos a luz do sol caía em raios bruxuleantes das janelas orientais, altas sob os profundos beirais” “ A luz do sol se apagou nas janelas do leste; todo o salão ficou de repente escuro como a noite.”

Carta #163

[Auden, que tinha revisado A Sociedade do Anel no New York Times Book
Review and Encounter, havia recebido provas do terceiro volume, O
Retorno do Rei. Ele escreveu a Tolkien em Abril de 1955 para fazer várias perguntas relativas ao livro. A resposta de Tolkien não foi preservada (pois Auden normalmente jogava fora suas cartas depois de lê-las). Auden escreveu novamente em 3 de junho para dizer que tinham lhe requisitado que falasse sobre O Senhor dos Anéis no BBC Third Programme em outubro. Ele perguntou a Tolkien se havia pontos que gostaria de ouvir abordados na radiodifusão, e se ele forneceria alguns "toques humanos" na forma de informação a respeito de como o livro veio a ser escrito. A resposta de Tolkien sobreviveu nessa ocasião porque, e sempre que ele subseqüentemente escreveu a Auden, ele manteve uma cópia carbonada da qual este texto foi retirado.]

7 de junho de 1955

Caro Auden,

Fiquei muito contente por ter notícias suas, e feliz em perceber que você não ficou entediado. Mas temo que você esteja diante de uma carta bastante longa novamente; mas você pode fazer o quiser com esta. Em todo o caso estou datilografando-a, para que possa ser lida rapidamente. Realmente não penso que eu seja uma pessoa espantosamente importante, escrevi a Trilogia¹ como uma satisfação pessoal, conduzido a ela pela escassez de literatura do gênero que gostaria de ler (a que havia estava, com freqüência, pesadamente adulterada). Um grande trabalho; e como o autor do Ancrene Wisse diz ao término de seu livro: “eu preferiria, Deus é minha testemunha, ir a pé até Roma do que começar o trabalho novamente!”. Mas ao contrário dele eu não teria dito: “leia um pouco deste livro diariamente em seu tempo livre; espero que, se você o ler freqüentemente, ele se torne uma experiência muito proveitosa; caso contrário terei despendido minhas longas horas muito mal.” Eu não estava pensando muito no proveito ou no prazer dos outros; embora ninguém realmente possa escrever ou fazer qualquer coisa de forma completamente isolada.

Entretanto, quando a BBC emprega alguém tão importante como você para falar publicamente sobre a Trilogia, não sem referência ao autor, o mais modesto (ou de qualquer modo reservado) dos homens, cujo instinto é ocultar tal autoconhecimento que ele tenha e tais apreciações da vida como ele a entende, sob o manto mítico e lendário, não posso evitar de pensar a respeito disso em termos pessoais – e achar isto interessante, e difícil, também, para expressar de maneira ao mesmo tempo breve e precisa.

O Senhor dos Anéis, como uma história, foi terminada há tanto tempo atrás que agora•posso ter uma visão amplamente impessoal desta, e encontro “interpretações” bastante divertidas; até mesmo aquelas que eu mesmo poderia fazer, que são principalmente post scriptum: Tive muito pouca intenção particular, consciente, ou intelectual em mente em qualquer ponto(a). Exceto por algumas revisões deliberadamente menosprezadas – tais como aquelas do Vol. II no New Statesman,³ nos quais você e eu fomos ambos açoitados com termos tais como “adolescente” e “infantil” – que leitores apreciativos ficaram de fora do trabalho ou visto assim pareceu bastante justo, mesmo que eu não concorde com isto. Sempre excluindo, naturalmente, quaisquer “interpretações” no modo de simples alegoria: quer dizer, o particular e tópico. Em um sentido mais amplo eu suponho que seja impossível escrever qualquer “história” que não seja alegórica na proporção em que esta ganha vida; uma vez que cada um de nós é uma alegoria, personificada em um conto particular e vestida com os trajes do tempo e lugar, verdade universal e vida perpétua.

De qualquer maneira a maioria das pessoas que desfrutaram O Senhor dos Anéis foram afetadas por ele principalmente como uma história excitante; e é assim que foi escrito. Embora a pessoa não escape, naturalmente, da fatídica pergunta “do que trata o livro?”. Isso seria como responder uma questão estética falando de um ponto de vista técnico. Eu suponho que se alguém faz uma boa escolha do que é boa narrativa (ou bom teatro) em um determinado momento será constatado ser o caso em que o evento descrito será o mais significante.

Voltando ao tema, se eu puder, os “toques humanos” e o assunto de quando comecei a compor a Trilogia. Isso é muito semelhante a se perguntar ao Homem quando a linguagem começou. Era uma inevitável, entretanto condicionável, evolução do dom atribuído. Sempre esteve comigo: a sensibilidade para padrão lingüístico que me afeta emocionalmente assim como a cor ou a música; e o amor apaixonado pelas coisas que florescem; e a resposta profunda para lendas (na falta de uma palavra melhor) que possuem o que eu chamaria o temperamento e o clima do Norte-ocidental.

Em todo caso, se você quer escrever um conto deste tipo, você deve consultar suas raízes, e um homem do Norte ocidental do Velho Mundo fixará o seu coração e a ação do seu conto em um mundo imaginário daquela atmosfera e daquela situação: com a Navegação Sem Destino dos seus antepassados inumeráveis para o Oeste, e as terras infinitas (das quais os inimigos vêm em sua maioria) para o Leste. Embora, além disso, seu coração possa se lembrar, até mesmo se ele tiver rompido com toda a tradição oral, dos rumores ao longo de todas as regiões costeiras dos Homens Mar Afora.

Eu digo isto a respeito do “coração”, porque eu tenho o que alguns poderiam chamar de um complexo de Atlântida. Possivelmente herdado, embora meus pais tenham morrido muito jovens para saber tais coisas sobre eles, e jovens demais para transferir tais coisas através de palavras. Herdado de mim (suponho) por somente um de meus filhos4, embora eu não soubesse isso do meu filho até recentemente, e ele não soubesse isto de mim. Quero dizer o terrível sonho reincidente (começando com a memória) da Grande Onda, elevando-se, e surgindo inevitavelmente por sobre as árvores e campos verdes. (eu transmiti esta idéia a Faramir). Não acho que tenha tido novamente esse sonho desde que eu escrevi a “Queda de Númenor” como a última das lendas da Segunda Era. Eu sou um homem das Terras do Meio Oeste por natureza (e levado ao Inglês Antigo das terras do meio Oeste como uma língua conhecida assim que eu fixei os meus olhos nesta), mas talvez um fato de minha história pessoal possa explicar em parte por que a “atmosfera do Norte-ocidental” me atrai ao mesmo tempo como um lar e como algo descoberto. Eu nasci em Bloemfontein, e assim essas impressões profundamente implantadas, recordações subjacentes que ainda estão retratadamente disponíveis para inspeção, da primeira infância são para mim aquelas de um país quente e ressecado. Minha primeira memória de Natal é de sol ardente, cortinas estampadas e um eucalipto inclinado.

Receio que esta carta esteja se tornando terrivelmente enfadonha e ficando muito longa, de qualquer modo mais longa do que “esta pessoa desprezível por trás de você” mereça. Mas é difícil parar uma vez despertado tal assunto absorvente por si mesmo. Quanto à condição: Eu estou principalmente consciente da condição lingüística. Eu fui para a Escola King Edward”s e gastei a maior parte de meu tempo aprendendo Latim e Grego; mas eu também aprendi Inglês. Não Literatura Inglesa! Exceto Shakespeare (com o qual antipatizei cordialmente), os contatos principais com poesia eram quando alguém era motivado a fazer um ensaio e traduzir este para Latim. Não era de todo um modo ruim de introdução, apenas um pouco casual. Quero dizer algo da língua Inglesa e sua história. Aprendi Inglês Anglo-saxão na escola (e também gótico, mas isso foi, entretanto um acidente bastante desconexo com o currículo embora decisivo – não só descobri nisto filologia histórica moderna, que me atraiu ao lado histórico e científico, mas pela primeira vez o estudo de um idioma pelo mero amor: quero dizer, apenas pelo prazer estético repentino derivado de um idioma por si só, não somente livre de ser útil, mas livre até mesmo de ser o “veículo de uma literatura”).

Há duas dificuldades, ou três. Uma fascinação que nomes galêses tiveram para mim, até mesmo se apenas vistos em caminhões de carvão, da infância é outra; embora as pessoas só me dessem livros que eram incompreensíveis a uma criança quando eu pedia por informação. Eu não aprendi Galês até que fosse um estudante universitário, e encontrei nisto uma satisfação lingüístico-estética permanente. Espanhol era outra: meu tutor era meio espanhol, e no início da minha adolescência costumava pegar os livros dele escondido e tentava aprender Espanhol: o único idioma Romântico que me dá o prazer particular do qual eu estou falando – não é totalmente igual à mera percepção de beleza: eu sinto a beleza de falar Italiano ou no que diz respeito à questão de Inglês Moderno (que está muito distante do meu gosto pessoal): está mais como o apetite por uma comida necessária. Mais importante, talvez, depois do Gótico foi a descoberta na biblioteca da Faculdade Exeter, quando eu devia estar lendo para Honour Mods, de uma Gramática Finlandesa. Era como descobrir uma adega repleta de garrafas de um vinho surpreendente de um tipo e sabor nunca provados antes. Embriagou-me completamente; e eu desisti da tentativa de inventar um idioma Germânico “desconhecido” e o meu “próprio idioma” – ou série de idiomas inventados – se tornou seriamente inclinados ao Finlandês em padrão fonético e estrutural.

Isso é claro há muito tempo passado. O gosto lingüístico muda como tudo o mais, com o passar do tempo; ou oscila entre pólos. O Latim e o Céltico britânico têm isso agora, com o belamente coordenado e moldado (se simplesmente moldado) idioma Anglo-Saxão próximo de um lado e se afastam inteiramente do Velho Escandinavo com o vizinho porém desconhecido Finlandês. Romano-Britânico não poderia-se dizer? Com uma forte, mas mais recente infusão da Escandinávia e do Báltico. Bem, eu me arrisco a dizer que tais gostos lingüísticos, com a devida compensação para o revestimento acadêmico, são tão bons ou melhores do que um teste de ascendência como grupos sanguíneos.

Tudo isso só como cenário para as histórias, embora idiomas e nomes sejam para mim indissolúveis das histórias. Eles são e foram por assim dizer uma tentativa de fornecer um cenário ou um mundo nos quais minhas expressões de gosto lingüístico poderiam ter uma função. As histórias chegaram comparativamente mais tarde.

Minha primeira tentativa em escrever uma história foi quando tinha aproximadamente sete anos. Era sobre um dragão. Não me lembro de nada a respeito exceto por um fato filológico. Minha mãe não disse nada sobre o dragão, mas observou que não se poderia dizer “um dragão verde grande”, mas teria que dizer “um grande dragão verde”. Eu imaginei o por quê, e ainda o faço. O fato pelo qual eu me lembro disto é possivelmente significante, já que não tentei escrever uma história novamente por muitos anos, e isso estava ligado ao estudo de linguagem.

Mencionei o Finlandês, porque esse conduz a história. Eu fui atraído imensamente por algo na atmosfera do Kalevala, até mesmo na tradução pobre de Kirby. Eu nunca aprendi Finlandês bem o bastante para fazer mais do que trabalhar um pouco em cima do original, como um colegial com Ovid; sendo tocado por seus efeitos principalmente em “minha linguagem”. Mas o começo do legendário, no qual gira o panorama da Trilogia (a conclusão), era uma tentativa para reorganizar algo do Kalevala, especialmente o conto de Kullervo o infeliz, em minha própria forma. Isso começou, como eu digo, no período de Honour Mods; quase desastrosamente como eu cheguei muito próximo de ter minha exibição tirada de mim se não sendo forçada para baixo. Digo 1912 a 1913. Como a coisa continuou eu na verdade escrevi em verso. Embora a primeira história real deste mundo imaginário quase totalmente formado como este aparece agora fosse escrita em prosa durante uma licença por razão de doença ao término de 1916: A Queda de Gondolin, que eu tive a audácia de ler para o Clube de Composição Da Faculdade Exeter em 1918.5 Escrevi muito mais em hospitais antes do fim da Primeira Guerra Mundial.

Continuei após retornar; mas quando tentei conseguir publicar algo desse material não obtive êxito. O Hobbit estava originalmente bastante desconexo, embora inevitavelmente tenha sido esboçado no circuito da maior construção; e na ocasião modificado. O Hobbit foi na verdade considerado infelizmente, até onde estava consciente, como uma “história para crianças”, e como eu não tinha compreensão então, e meus filhos não eram adultos o bastante para me corrigir, ele tem algo das tolices captadas impensadamente do tipo de materiais dos quais tinha me servido. Me arrependo profundamente delas. Como também as crianças inteligentes.

Tudo que me lembro sobre o começo de O Hobbit é de estar sentado corrigindo exames de Certificados Escolares no cansaço interminável daquela tarefa anual forçada sobre pobres acadêmicos com crianças. Em uma folha em branco rabisquei: “Numa toca no chão vivia um hobbit”. Não sabia e não sei porque. Eu não fiz nada a respeito, durante muito tempo, e por alguns anos não fui mais além do que a produção do Mapa de Thror. Mas isso se tornou O Hobbit no início dos anos 30, e de fato foi publicado não por causa do entusiasmo dos meus próprios filhos (embora tenham gostado bastante dele(b) ), mas porque emprestei este a então Reverenda Madre de Cherwell Edge quando ela teve gripe, e ele foi visto por um antigo aluno que trabalhava na ocasião no escritório de Allen e Unwin. Este foi, eu acredito, aprovado por Rayner Unwin.

Uma vez que O Hobbit foi um sucesso, uma seqüência foi requisitada; e as antigas Lendas Élficas foram recusadas. O leitor de um editor disse que elas estavam cheias demais do tipo de beleza Céltica que enlouquecia os Anglo-Saxões em uma grande dose. Muito provavelmente bastante correto. De qualquer maneira eu mesmo vi o valor dos Hobbits, pondo terra debaixo dos pés do “romance”, e fornecendo assuntos para “enobrecimento” e heróis mais louváveis do que os profissionais: nolo heroizari é naturalmente um começo tão bom para um herói, quanto nolo episcopari é para um bispo. Não que eu seja um “democrata” em quaisquer de seus usos correntes; a não ser que, suponho, para falar em termos literários, que nós somos todos iguais perante o Grande Autor, qui deposuit potentes de sede et exaltavit humiles.6

Entretanto, não estava preparado para escrever uma “seqüência”, no sentido de outra história para crianças. Eu tinha estado pensando a respeito de Contos de Fadas e a sua relação com as crianças – alguns dos resultados expus em uma conferência em St. Andrews de fato ampliada e publicada em um Ensaio (entre aqueles listados no O.U.P. como Ensaios Apresentadas a Charles Williams e agora em sua maioria vergonhosamente liberados para impressão). Como tinha expressado a visão que a conexão na mente moderna entre crianças e “contos de fadas” é falsa e acidental, e estraga as histórias por elas mesmas e para as crianças, quis experimentar e escrever uma história que não fosse dirigida às crianças de maneira nenhuma (como tal); eu também queria um quadro maior.

Muito trabalho foi naturalmente envolvido, uma vez que eu tinha que fazer uma ligação com O Hobbit; mas ainda mais com a mitologia como circunstância. Além disso a Trilogia teve que ser re-escrita. O Senhor dos Anéis é apenas a parte final de um trabalho quase duas vezes mais longo7 no qual eu trabalhei entre 1936 e 1953. (Eu quis publicar tudo em ordem cronológica, mas isso provou ser impossível.) E eu tive que cuidar dos idiomas! Se tivesse considerado meu próprio prazer mais que os estômagos de uma possível platéia, teria havido uma grande porção a mais de Élfico no livro. Mas até mesmo nos trechos que são necessários, se fosse para eles terem um significado, duas fonologias organizadas e gramáticas e um número grande de palavras.

Teria sido uma tarefa grande sem qualquer outra coisa; mas eu fui um administrador e professor moderadamente consciencioso, e eu mudei de disciplinas em 1945 (descartando todas as minhas antigas conferências). E é claro que durante a Guerra não havia freqüentemente nenhum tempo para qualquer coisa racional. Eu parei por um período ao término do Livro Três. O Livro Quatro foi escrito como um romance em série e enviado para o meu filho servindo na África em 1944.

Os dois últimos livros foram escritos entre 1944 e 48. Isso naturalmente não significa que a idéia principal da história era um produto da guerra. Essa ocorreu na ocasião em que foi escrito um dos primeiros capítulos que ainda sobrevivem (Livro I, 2). É realmente determinado, e presente em origem, desde o princípio, embora eu não tivesse nenhuma noção consciente do que o Necromante representava (exceto o mal sempre-reincidente) em O Hobbit, nem da sua conexão com o Anel. Mas se você quisesse continuar a partir do fim de O Hobbit eu acho que o anel seria sua escolha inevitável como o elo. Se então você quisesse um conto grande, o Anel adquiriria uma letra maiúscula; e o Senhor do Escuro apareceria imediatamente. Como o fez, sem ser convidado, no coração de Bolsão assim que eu chegasse àquele ponto. Assim o essencial da Demanda começou naquele momento. Mas encontrei muitas coisas no caminho que me surpreenderam. Tom Bombadil eu já conhecia; mas eu nunca tinha estado em Bri. Passolargo sentado no canto na pousada foi um choque, e eu não tinha nenhuma idéia de quem ele era mais do que Frodo. As Minas de Moria tinham sido um mero nome; e o de Lothlórien nenhuma palavra tinha alcançado meus ouvidos mortais até que eu chegasse lá. Mais adiante sabia que existiam os Cavaleiros nos confins de um antigo Reino de Homens, mas a Floresta de Fangorn foi uma aventura imprevista. Nunca tinha ouvido falar da Casa de Eorl nem dos Regentes de Gondor. Mais inquietante de tudo, Saruman nunca tinha sido revelado a mim, e eu fiquei tão perplexo quanto Frodo pela ausência de Gandalf no dia 22 de setembro. Eu não sabia nada sobre os Palantíri, entretanto no momento em que a pedra de Orthanc foi lançada da janela, eu a reconheci, e soube o significado da “rima da tradição” que tinha estado corrente em minha mente: sete estrelas e sete pedras e uma árvore branca. Estas rimas e nomes aparecerão; mas elas nem sempre se explicam. Eu ainda tenho que descobrir qualquer coisa sobre os gatos da Rainha Berúthiel.8 Mas eu sabia mais ou menos tudo a respeito de Gollum e seu papel, e Sam, e sabia que o caminho era guardado por uma Aranha. E se isso tem qualquer coisa haver com o fato de eu ter sido picado por uma tarântula quando era uma criança pequena,9 as pessoas são bem-vindas à idéia (supondo o improvável, que qualquer um esteja interessado). Só posso dizer que não me lembro de nada disso, não saberia se não tivessem me contado; e não repugno aranhas pavorosamente e não tenho nenhum desejo de matá-las. Normalmente até resgato aquelas que encontro na banheira!

Bem agora eu estou realmente me tornando um falador. Espero que você não fique terrivelmente entediado. E também espero vê-lo novamente qualquer dia. Nesse caso podemos falar talvez sobre você e seu trabalho e não sobre o meu. De qualquer modo o seu interesse no meu trabalho é um encorajamento considerável. Com os melhores votos.

Sinceramente, J. R. R. Tolkien

Observações do Autor

(a) Tome os Ents como exemplo. Eu não os inventei conscientemente de maneira nenhuma. O capítulo chamado “Barbárvore”, da primeira menção de Barbárvore, foi escrito mais ou menos como está, com um efeito em mim mesmo (exceto pelo esforço) quase como se lendo o trabalho de outro. E eu gosto de Ents agora porque eles parecem não ter qualquer coisa a ver comigo. Me arrisco a dizer que algo estava acontecendo no “inconsciente” durante algum tempo, e isso responde por meu sentimento no decorrer, especialmente quando salientado, que não estava inventando, mas informando (imperfeitamente) e tive que esperar em certas ocasiões até que “o que realmente acontecesse” se realizasse. Mas olhando para trás analiticamente eu deveria dizer que Ents são compostos de filologia, literatura, e vida. Eles devem o seu nome ao eald enta geweorc² do Anglo-Saxão. Seu panorama na história é devido, eu acho, a minha amarga decepção e desgosto dos tempos de escola com o uso ordinário feito em Shakespeare da vinda da “Grande floresta de Birnam até a alta colina de Dansinane”. Desejei inventar uma composição na qual as árvores poderiam realmente marchar para a guerra. E nisto restou apenas uma mera parte da experiência, a diferença da atitude do “macho” e “fêmea” para coisas selvagens, a diferença entre amor não possessivo e jardinagem.

(b) Nem um pouco melhor acho que A Maravilhosa Terra dos Snergs, Wyke-Smith, Ernest Benn 1927. Vendo a data, eu deveria dizer que este foi provavelmente um livro que serviu como uma fonte inconsciente! para os Hobbits, não de qualquer outra coisa.

Notas 1. 2. Auden usou o termo “trilogia” em sua carta; o porquê da antipatia de Tolkien pelo termo aplicado a´O Senhor dos Anéis pode ser visto nas cartas 149 e 165.

3. Do poema Anglo-saxão “The Wanderer” (O Errante): “eald enta geweorc idlu stodon”, “as velhas criações dos gigantes [i.e. edifícios antigos, erguidos por uma raça antiga] estavam abandonadas” . 4. O revisor, Maurice Richardson, escreveu: ” É tudo que posso fazer para me conter em gritar…. – Adultos de todas as idades! Uni-vos contra o infantilistinvasão “….. Sr. Auden sempre foi cativado pelo mundo pubescente da saga e pela escola. Há passagens em The Orators (Os Oradores) que não são partes diferentes da essência hobbit de Tolkien. ” (18 de dezembro de 1954.) 5. Michael, o segundo filho de Tolkien.

6. “A Queda de Gondolin” foi lida de fato no Exeter College Essay Club não em 1918 mas em 1920, como está registrado no livro de ata do clube: “… na quarta-feira 10 de março às 20:15h…. o presidente passou aos assuntos públicos, e chamou o Sr. J. R. R. Tolkien para ler A Queda de Gondolin “. Como uma descoberta de um panorama mitológico novo, o conto do Sr. Tolkien estava iluminando-o excessivamente e marcou-o como um forte seguidor da tradição, de fato um tratamento na maneira de tais típicos românticos como William Morris, George Macdonald, de la Motte Fouqué etc….. A batalha das forças opostas do bem e do mal como representada pelos Gongothlim [sic, Gondothlim, o nome para o povo de Gondolin na "Queda de Gondolin" original] e os seguidores de Melco [sic, Melko, um nome anterior para Melkor] era muito graficamente e incrivelmente contado. ” Entre aqueles no encontro estavam Nevill Coghill e Hugo Dyson. 7. Latim, “aquele que derrubou o poderoso de seu trono e exaltou a humildade”; do Magnificat. 8. Um declaração potencialmente enganosa. Enquanto estava escrevendo O Senhor dos Anéis, Tolkien trabalhava revisando e reescrevendo uma grande parte de O Silmarillion. Por outro lado. O Silmarillion já existia antes de 1936, e não pode ser considerado como tendo originado entre aquele ano e 1953. 9. “É mais provável ele encontrar o caminho de casa numa noite cega do que os gatos da Rainha Berúthiel.” (Aragorn sobre Gandalf em O Senhor dos Anéis, Livro II, Capítulo 4.) Veja Contos Inacabados págs. 512 e 513. 10. Um episódio da infância de Tolkien em Bloemfontein; registrado em sua biografia oficial.

Carta #246

[Rascunho de uma carta enviada à Sra. Eileen Elgar em setembro de 1963, onde a leitora comenta sobre o fracasso de Frodo em se render ao Anel nas Fendas da Perdição.]

Muitos poucos (de fato até onde vejo pelas cartas que chegam só você e um outro) observaram ou comentaram sobre o “fracasso” de Frodo. É um ponto muito importante.

Do ponto de vista do contador de histórias os eventos na Montanha da Perdição procedem simplesmente da lógica do conto até aquele tempo. Eles não foram trabalhados deliberadamente para que não fossem previstos até que eles acontecessem.(a) Mas, primordialmente, ficou finalmente bem claro que Frodo depois de tudo o que tinha acontecido seria incapaz de destruir o Anel voluntariamente. Refletindo sobre a solução depois que fosse alcançada (como um mero evento) e sinto que é central à toda “teoria” de verdadeira nobreza e heroísmo que é apresentada.

Frodo realmente “falhou” como um herói, como concebido por mentes simples: ele não suportou até o fim; ele cedeu, rendeu-se. Não digo “mentes simples” com desprezo: elas freqüentemente vêem com clareza a verdade simples e o ideal absoluto para os quais os esforços devem ser dirigidos, até mesmo se for inacessível. Porém, sua fraqueza é duplicada. Elas não percebem a complexidade de qualquer determinada situação no Tempo, na qual um ideal absoluto é enredado. Elas tendem a esquecer daquele estranho elemento no Mundo que chamamos Piedade ou Clemência, que também são exigências absolutas no juízo moral (uma vez que está presente na natureza Divina). Em seu exercício mais alto pertence a Deus. Para juízes finitos de conhecimento imperfeito ele pode levar ao uso de duas medidas diferentes de “moralidade”. Para nós mesmos temos que apresentar o ideal absoluto sem compromisso, porque não sabemos nossos próprios limites de força natural (+virtude), e se não almejarmos o mais alto certamente não atingiremos o máximo que poderíamos alcançar. Para outros, no caso de sabermos o bastante para fazer um julgamento, temos que aplicar uma balança moderada por “piedade”: quer dizer, já que nós podemos com boa fé fazer isto sem o preconceito inevitável em julgamentos de nós mesmos, temos que calcular os limites da força alheia e temos que pesar isto contra a força de circunstâncias particulares.(b)

Eu não penso que o de Frodo foi um fracasso moral. Na última hora a pressão do Anel alcançou seu máximo – impossível, eu deveria ter dito, para qualquer um resistir, especialmente depois de tão longa possessão, meses de crescente tormento, e já faminto e exausto. Frodo tinha feito o que ele pôde e se esgotou completamente (como um instrumento da Providência) e tinha criado uma situação na qual o objetivo de sua missão poderia ser alcançado. Sua humildade (com a qual ele começou) e seus sofrimentos foram recompensados justamente pelo honra mais alta; e o seu exercício de paciência e piedade para com Gollum ganhou sua Misericórdia: seu fracasso foi reparado.

Somos criaturas finitas com limitações absolutas sobre os poderes de nossa estrutura alma-corpo tanto em ação quanto resistência. O fracasso moral só pode ser afirmado, eu acho, quando o esforço de um homem ou resistência não chegam perto de seus limites, e a culpa diminui quando esse limite mais perto se aproxima.(c)

Todavia, penso que pode ser observado em história e experiência que alguns indivíduos parecem ser colocados em posições de “sacrifício”: situações ou tarefas que para a perfeição solução requerem poderes além de seus limites extremos, até mesmo além de todos os possíveis limites para uma criatura encarnada em um mundo físico – no qual um corpo possa ser destruído, ou tão mutilado a ponto de afetar a mente e determinação. O julgamento sobre qualquer caso como este deveria depender então dos motivos e da disposição com os quais ele começou, e deveria pesar suas ações contra a possibilidade máxima de seus poderes, por toda a jornada até aquilo que colocasse em prova o seu limite.

Frodo empreendeu sua missão por amor – para salvar o mundo ele sabia que custaria seu próprio sacrifício, se ele pudesse; e também em completa humildade, reconhecendo que era completamente inadequado à tarefa. Seu compromisso real era só fazer o que pudesse, tentar achar um caminho, e ir tão longe na jornada quanto sua força da mente e do corpo permitissem. Ele o fez. Eu mesmo não vejo que a ruína de sua mente e vontade sob pressão demoníaca depois do tormento fosse mais um fracasso moral que a ruína de seu corpo teria sido – digamos, sendo estrangulado por Gollum, ou esmagado por uma pedra caída.

Este parece ter sido o julgamento de Gandalf e Aragorn, e de todos que conheceram a história completa de sua jornada. Certamente nada foi ocultado por Frodo! Mas o que o próprio Frodo pensou sobre os eventos é decididamente outra questão.

Ele parece a princípio não ter tido nenhum senso de culpa (pág. 1003-1004)¹; sua sanidade e paz foram restauradas. Entretanto ele pensou que tinha dado sua vida em sacrifício: ele esperava morrer muito em breve. Mas isso não aconteceu, e pôde-se observar a inquietação crescendo nele. Arwen foi a primeira a observar os sinais, e deu sua jóia para confortá-lo, e pensou em um modo de curá-lo.(d) Lentamente ele enfraquece “fora de cena”, dizendo e fazendo cada vez menos. Acho que está claro para a reflexão de um leitor atento que quando os tempos escuros o atingiam e ele estava consciente de ter sido “ferido por faca, ferrão e dente, sem falar no fardo que carreguei por tanto tempo” (pág. 1048) não era só recordações do pesadelo de horrores passados que o afligiram, mas também remorso ilógico: ele viu a si mesmo e tudo aquilo que fez como um fracasso desanimador. “Entretanto eu posso voltar ao Condado, ele não parecerá o mesmo, porque eu não serei o mesmo.” Isso foi de fato uma tentação vinda do Escuro, uma última centelha de orgulho: desejar ter retornado como um “herói”, não contente em ser um mero instrumento do bem. E estava mesclada à outra tentação, mais negra e ainda (de certo modo) mais merecida, porém que pode ser explicada, ele não tinha de fato jogado fora o Anel por um ato voluntário: ele foi tentado a lamentar sua destruição, e ainda desejá-la. “Foi-se para sempre, e agora tudo está escuro e vazio”, ele disse quando despertou do mal em 1420.

“É lamentável, mas há certos ferimentos que não podem ser totalmente curados”, disse Gandalf (pág. 1048) – não na Terra-média. Frodo foi enviado ou permitido seguir para o Mar para curar-se – se isso pudesse ser feito, antes que morresse. Ele finalmente “partiu”: nenhum mortal pôde, ou pode, agüentar para sempre na terra, ou em seu Tempo. Assim ele foi tanto para um purgatório e para uma recompensa, por algum tempo: um período de reflexão e paz e ganho de uma compreensão mais verdadeira de sua posição em pequenez e em grandeza, desfrutando ainda o seu Tempo entre as belezas naturais da “Arda Imaculada”, a Terra não violada pelo mal.

Bilbo também foi. Sem dúvida como uma conclusão do plano arquitetado pelo próprio Gandalf. Gandalf tinha um afeto muito grande por Bilbo, desde a infância do hobbit. Sua companhia era realmente necessária para o bem de Frodo – é difícil de imaginar um hobbit, até mesmo um que tivesse passado pelas experiências de Frodo, ficar realmente contente em um paraíso terrestre sem um companheiro da sua própria raça, e Bilbo era a pessoa que Frodo mais amava. (pág.1032 linhas 11 a 20 e pág. 1043 linhas 15-16)². Mas ele também precisou e mereceu o favor por sua própria situação. Ele ainda possuía a marca do Anel que precisava ser finalmente apagada: um rastro de orgulho e possessão pessoal. Claro que ele estava velho e com a mente confusa, mas ainda foi uma revelação da “marca” negra quando ele disse em Valfenda (pág. 1046) “o que aconteceu com meu anel, Frodo, que você levou embora?”; e quando lembraram-lhe do que tinha acontecido, sua resposta imediata foi: “Que pena! Gostaria de vê-lo mais uma vez”. Como por recompensa por sua parte, é difícil crer que a vida dele estaria completa sem uma experiência “puramente Élfica”, e a oportunidade de ouvir as lendas e histórias por completo dos fragmentos daquelas que tinham encantado-no tanto.

É óbvio que o plano tinha de fato sido concebido e combinado (por Arwen, Gandalf e outros) antes de Arwen ter falado. Mas Frodo não levou isto imediatamente em consideração; as implicações seriam entendidas lentamente sob reflexão. Tal jornada não pareceria à princípio algo necessariamente a ser cogitado, até mesmo como algo a ser aguardado – como não marcado e adiável. Seu real desejo era natural de hobbits (e de humanos) só “ser ele mesmo novamente e voltar à velha vida familiar que tinha sido interrompida”. Já na jornada de volta de Valfenda viu de repente que não era possível para ele. Conseqüentemente seu desabafo “Quando poderei descansar?” Ele sabia a resposta, e Gandalf não respondeu. Como Bilbo, é provável que Frodo não entendesse a princípio o que Arwen quis dizer por “pois não deverá mais fazer qualquer viagem longa, exceto uma”. De qualquer modo ele não associou isto com seu próprio problema. Quando Arwen falou (na TE 3019) ele ainda era jovem, não tinha ainda 51, e Bilbo era 78 anos mais velho. Mas em Valfenda ele veio a entender as coisas mais claramente. As conversas que ele teve lá não são informadas, mas o suficiente é revelado na despedida de Elrond pág. 1047.³ Do primeiro ataque (5 de outubro de 3019) Frodo deve ter pensado sobre “navegar”, embora ainda resistisse a uma decisão final – ir com Bilbo, ou não ir. Não havia dúvida que depois da sua grave enfermidade em março de 3020 sua decisão foi tomada.

Sam é amável e cômico. A alguns leitores ele irrita e até enfurece. Eu posso entender bem isto. Todos os hobbits às vezes me afetam da mesma maneira, entretanto continuo muito afeiçoado a eles. Mas Sam pode ser muito “irritante”. Ele é um hobbit mais representativo que qualquer outro dos muitos que vemos; e ele tem um ingrediente mais forte daquela espécie que por conseguinte até mesmo alguns hobbits às vezes achavam duro de agüentar: uma trivialidade – da qual não quero dizer um mero “plebeísmo” – uma miopia mental da qual se orgulham, uma presunção (em graus variados) e absoluta certeza, e uma prontidão para medir e resumir todas as coisas através de uma experiência limitada, em grande parte baseada na tradicional “sabedoria” proverbial. Nós só encontramos hobbits excepcionais em círculos restritos – aqueles que tiveram uma graça ou dádiva: uma visão de beleza, e uma reverência para coisas mais nobres que eles, em guerra com seu próprio contentamento. Imagine Sam sem a educação dada por Bilbo e sua fascinação por coisas Élficas! Não é difícil. A família Villa e o Feitor, quando os “Viajantes” retornam já é um vislumbre suficiente.

Sam era convencido, e no fundo um pouco orgulhoso; mas seu orgulho tinha sido transformado por sua devoção à Frodo. Ele não pensou em si mesmo como heróico ou até mesmo bravo, ou de qualquer forma admirável – exceto em seu serviço e lealdade ao mestre. Isso teve um ingrediente (provavelmente inevitável) de orgulho e possessão: é difícil de excluí-lo da devoção daqueles que executam tal serviço. Em todo caso lhe impediu de entender completamente o mestre que ele amou, e de seguí-lo em seu aprendizado gradual para a nobreza do serviço ao próximo e da percepção do bem corrompido ao mau. Ele obviamente não entendeu completamente os motivos de Frodo ou a angústia dele no incidente do Lago Proibido. Se ele tivesse entendido melhor o que estava acontecendo entre Frodo e Gollum, as coisas poderiam ter tomado um rumo diferente no fim. Talvez para mim o momento mais trágico no Conto está na pág. 753 em diante quando Sam não nota a mudança completa no tom e aspecto de Gollum. “Nada, nada” – disse Gollum baixinho – “Mestre bonzinho!”. Seu arrependimento é destruído e toda a piedade de Frodo é (de certo modo) perdida. O toca de Laracna tornou-se inevitável.

Isto é devido claro a “lógica da história”. Sam quase não poderia ter agido diferentemente. (Ele afinal atingiu o ponto de piedade(pág. 1000)4 mas tarde demais para o bem de Gollum.) Se ele tivesse, o que poderia ter acontecido então? O curso da entrada em Mordor e a luta para alcançar a Montanha da Perdição teriam sido diferentes, bem como o fim. O interesse teria passado para Gollum, eu penso, e a batalha que teria ocorrido seria entre seu arrependimento e novo amor de um lado e o Anel do outro. Embora o amor estivesse se fortalecendo diariamente ele não poderia ter se livrado do domínio do Anel. Acho que de algum modo estranho e lastimável Gollum teria tentado (não talvez com intuito consciente) satisfazer ambos. Certamente em algum ponto não distante do fim ele teria roubado o Anel ou tomado-o a força (como ele faz no Conto real). Mas com a “posse” satisfeita, acho que ele então teria se sacrificado para o bem de Frodo e se lançado voluntariamente no abismo de fogo.

Acho que um efeito de sua parcial regeneração por amor teria sido uma visão esclarecedora quando ele reivindicou o Anel. Ele teria percebido o mal de Sauron, e de repente percebeu que ele não poderia usar o Anel e não tinha a força ou poder para mantê-lo a despeito de Sauron: o único modo para mantê-lo e ferir Sauron era destruí-lo e a si próprio juntos – e num instante ele pode ter visto que este também seria o maior serviço à Frodo. Frodo de fato no conto leva o Anel e o reclama, e certamente ele também teria tido uma visão – mas a ele não foi dado tempo: ele foi atacado imediatamente por Gollum. Quando Sauron foi alertado da posse do Anel sua única esperança estava em seu poder: que o reclamante estaria impossibilitado de desistir dele até que Sauron tivesse tempo para cuidar dele. Então provavelmente Frodo também iria, se não fosse atacado, ter tomado a mesma decisão: lançar-se com o Anel no abismo. Se não, é claro, ele teria falhado completamente. É um problema interessante: como Sauron teria agido ou como o reclamante teria resistido. Sauron enviou os Espectros do Anel imediatamente. Eles naturalmente foram completamente instruídos, e de nenhuma maneira iludiam-se sobre a real soberania do Anel. O portador não seria invisível para eles, mas o contrário; e o mais vulnerável às suas armas. Mas a situação era agora diferente daquela no Topo do Vento, onde Frodo somente agiu por medo e só desejou usar (em vão) o poder secundário do Anel de conferir invisibilidade. Ele tinha crescido desde então. Eles ficariam imunes ao seu poder se ele o reivindicasse como um instrumento de comando e dominação?

Não completamente. Não acho que eles pudessem tê-lo atacado com violência, nem imobilizá-lo ou levá-lo cativo; eles teriam obedecido ou fingido obedecer a qualquer mínimo comando dele que não interferisse em sua missão – eram dominados por Sauron, que ainda através de seus nove anéis (os quais ele mantinha) tinha controle total sobre suas vontades. Aquela missão era remover Frodo das Fendas. Uma vez que ele tivesse perdido o poder ou a oportunidade para destruir o Anel, não haveria dúvida sobre o fim – salvo com ajuda externa, a qual era difícil e até remotamente possível.

Frodo tinha se tornado uma pessoa notável, mas de um tipo especial: em amplificação espiritual em lugar de em aumento de poder físico ou mental; sua vontade era muito mais forte do que tinha sido, mas isso fora por tamanho exercício em resistir ao uso do Anel e com o objetivo de destruí-lo. Ele precisou de tempo, muito tempo, antes que ele pudesse controlar o Anel ou (que em tal um caso é o mesmo) antes que pudesse ser controlado por ele; antes que sua vontade e altivez pudesse crescer de tal modo que pudesse dominar outras vontades hostis maiores. Mesmo assim por muito tempo seus atos e comandos ainda teriam que parecer “bons” para ele, ser em benefício de outros ao invés dele mesmo.

A situação entre Frodo com o Anel e os Oito poderia ser comparada a de um bravo homenzinho armado com uma arma devastadora, enfrentado por oito guerreiros selvagens de grande força e agilidade armados com lâminas envenenadas. O ponto fraco do homem era que ele não sabia usar sua arma ainda; e ele foi através de temperamento e treino oposto a violência. A fraqueza deles era que a arma do homem era uma coisa que os enchia de medo como um objeto de terror em seu culto religioso, pelo qual eles tinham sido condicionados a tratar aquele que a controlasse com servilidade. Acho que eles teriam mostrado “servilidade”. Eles teriam saudado Frodo como “Mestre”. Com palavras amigáveis eles teriam induzido-o a deixar o Sammath Naur – por exemplo “para ver seu novo reino, e observar ao longe com sua nova visão os domínios do poder que ele tem que reivindicar agora e voltá-lo aos seus próprios propósitos”. Uma vez fora da câmara enquanto ele estava contemplando, alguns deles teriam destruído a entrada. Frodo provavelmente também já teria sido enredado em grandes planos de reforma de poder – mas muito maior e abrangente que a visão que tentou Sam (pág. 953)5 – para dar atenção a isso. Mas se ele ainda preservasse um pouco de sanidade e em parte compreendido o significado disto, então ele se recusaria a ir naquele momento com eles para Barad-dûr, eles simplesmente teriam esperado. Até que o próprio Sauron viesse. Em todo caso uma confrontação de Frodo e Sauron teria acontecido logo, se o Anel estivesse intato. Seu resultado era inevitável. Frodo teria sido totalmente subjulgado: transformado em poeira, ou preservado em tormento como um escravo. Sauron não teria temido o Anel! Era seu e estava sob sua vontade. Até mesmo de longe ele tinha poder sobre ele, para fazê-lo trabalhar em seu benefício. Em sua presença ninguém mas muito poucos de igual poder teriam esperança de tomá-lo. Dos “mortais” ninguém, nem mesmo Aragorn. Na competição com o Palantír Aragorn era o dono legítimo. Também a competição aconteceu a uma distância, e em um conto que permite a encarnação de grandes espíritos em uma forma física e destrutível o poder deles deve ser muito maior quando realmente presentes fisicamente. Sauron deveria ser resistente como muito terrível. A forma que ele assumiu era de um homem maior que a estatura humana, mas não gigantesco. Na sua encarnação anterior ele pôde ocultar o poder dele (como Gandalf fez) e poderia aparecer como uma figura dominante de grande força física e de conduta e aparência supremamente reais.

Dos outros poderia-se esperar que só Gandalf fosse capaz de enfrentá-lo – sendo emissário dos Poderes e uma criatura da mesma ordem, um espírito imortal que tem uma forma física visível. No “Espelho de Galadriel”, 1381, parece que Galadriel pensava-se capaz de controlar o Anel e suplantar o Senhor do Escuro. Se fosse, então também eram os outros guardiães dos Três, especialmente Elrond. Mas esta é outra questão. Era parte do artifício essencial do Anel encher as mentes com imaginações de poder supremo. Mas este o Grande tinha considerado bem e tinha rejeitado, como é visto nas palavras de Elrond ao Conselho. A rejeição de Galadriel da tentação foi fundada em pensamento e resolução prévios. Em todo caso Elrond ou Galadriel teriam procedido na política agora adotada por Sauron: eles teriam construído um império com grandes e absolutamente servis generais e exércitos e máquinas de guerra, até que eles pudessem desafiar Sauron e destruí-lo à força. Confrontação com Sauron sozinho, sem ajuda, cara a cara não era considerada. Pode-se imaginar a cena em que Gandalf, digamos, fosse colocado em tal posição. Seria um equilíbrio delicado. Em um lado a verdadeira submissão do Anel à Sauron; no outro força superior porque Sauron não estava de fato de posse, e talvez também porque ele estivesse mais fraco pela longa corrupção e despêndio de vontade dominando inferiores. Se Gandalf fosse o vencedor, o resultado teria sido para Sauron igual à destruição do Anel; este teria sido destruído para ele, levado para sempre dele. Mas o Anel e todos seus trabalhos teriam resistido. Este teria sido o mestre no final.

Gandalf como o Senhor do Anel teria sido muito pior que Sauron. Ele teria permanecido “correto”, mas correto em seu ponto de vista. Ele teria continuado a governar e ordenar coisas para o “bem”, e o benefício de seus assuntos de acordo com sua sabedoria (que era e teria permanecido grande).

[O rascunho termina aqui. Na margem Tolkien escreveu: “Assim enquanto Sauron multiplicava [palavra ilegível] mal, ele deixou o “bem” claramente distinguível dele. Gandalf teria feito o bem detestável e teria parecido com o mau.”]

Notas do Autor:

(a) De fato, como os eventos nas Fendas da Perdição seriam obviamente vitais ao Conto, fiz vários esboços ou versões de teste em várias fases na narrativa – mas nenhum deles foi usado, e nenhum deles se assemelhou muito ao que é informado de fato na história terminada.

(b) Nós freqüentemente vemos estas duas medidas usadas pelos santos em auto-julgamentos quando passando por grandes sofrimentos ou tentações, e de outros em iguais situações.

(c) Não leva-se em conta aqui a “graça” ou o aumento de nossos poderes como instrumentos da Providência. À Frodo foi dada “graça”: primeiro em responder o chamado (ao término do Conselho) depois de longa resistência à uma total rendição; e depois em sua resistência à tentação do Anel (nas vezes em que reivindicá-lo e assim revelá-lo teriam sido fatais), e no aumento de sua resistência ao medo e sofrimento. Mas graça não é infinita, e para a maior parte parece que a economia Divina limitou ao que seja suficiente para a realização da tarefa designada para um instrumento em um padrão de circunstâncias e outros instrumentos.

(d) Não é explícito como ela poderia organizar isto. Ela não poderia, é claro, só transferir sua passagem do navio! Para qualquer um que não fosse da raça Élfica era proibido “navegar para o Oeste”, e qualquer exceção exigia “autorização”, e ela não estava em comunicação direta com os Valar, especialmente não desde sua escolha em tornar-se “mortal”. O que quer-se dizer é que foi Arwen que primeiro pensou em enviar Frodo para o Oeste, e fez um apelo em favor dele à Gandalf (diretamente ou através de Galadriel, ou ambos), e usou a renúncia de seu próprio direito de ir par o Oeste como um argumento. Sua renúncia e sofrimento foram relacionados e enredados às de Frodo: ambos eram partes de um plano para a regeneração do estado dos Homens. Sua súplica pôde ser então especialmente efetiva, e seu plano tem uma certa eqüidade de troca. Nenhuma dúvida que era Gandalf a autoridade que aceitou seu argumento. Os Apêndices mostram claramente que ele era um emissário dos Valar, e virtualmente seu plenipotenciário em executar o plano contra Sauron. Ele também estava em acordo especial com Círdan o Armador, que tinha cedido seu anel à ele e logo colocado-se sob o comando de Gandalf. Uma vez que o próprio Gandalf foi no Navio ele mesmo diria que não havia problema no embarcar ou no desembarque.

Citações:

1.“E ali estava Frodo, pálido e exausto, e apesar disso era Frodo novamente; agora em seus olhos só havia paz; nem luta de vontade, nem loucura, nem qualquer temor…“Pois a Demanda está terminada, e com sucesso, e tudo está acabado.”[disse Frodo]“.

2. Parágrafos 3 e 4 da primeira página do capítulo “Muitas Despedidas” (RdR. capítulo VI); e esta passagem: “Mas não podemos ir mais rápido, se queremos ver Bilbo. Vou primeiro a Valfenda, aconteça o que acontecer..”

3. A benção de Elrond para Frodo no final do RdR capítulo VI.

4. “Sua mente fervia com o ódio….. Seria justo matar essa criatura traiçoeira, assassina,…. Mas no fundo de seu coração havia algo que o impedia: ele não podia atacar aquela coisa caída na poeira, abandonada, arruinada, absolutamente desgraçada.”

5. “Fantasias loucas despertavam em sua mente; e ele via Samwise, o Forte, Herói do seu Tempo, caminhando a passos largos com uma espada flamejante através da terra escurecida, e exércitos se arrebanhando a um chamado seu, no momento em que marchava para derrotar Barad-dûr. “