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Os Anais de Aman – Quinta Seção

A Valinor tem a honra de publicar a quinta parte de um total de seis que compõem os Anais de Aman, um longo registro dos acontecimentos desde a criação de Arda até a Criação do Sol e da Lua escrito  pelo próprio J. R. R. Tolkien e publicado no The History of Middle-earth 10. Esta quinta parte (leia também a primeira, a segunda, a terceira e a quarta) engloba a morte de Finwë, o roubo das Silmarils, o Juramento de Fëanor e a Fuga dos Noldor..

Quinta Seção dos Anais de Aman

§117      Então veio a acontecer que após algum tempo uma grande aglomeração de pessoas seu juntou ao redor do Círculo do Destino; e os deuses sentaram nas sombras, pois era noite. Mas noite como apenas pode ser em algumas terras do mundo quando as estrelas brilham fracas e intermitentemente através de fendas em grandes nuvens, e nevoeiros frios chegam de um escuro litoral do mar. Então Yavanna pôs de pé no Monte Verdejante, e este agora estava vazio e enegrecido, e ela olhou para as Árvores e estavam ambas mortas e negras. Então muitas vozes se levantaram em lamentação, pois pareceu àqueles que lamentavam que eles haviam sorvido até o fim a taça de sofrimento que Melkor havia enchido para eles. Mas não era verdade.

§118      Pois Yavanna falou perante os Valar, dizendo: “A Luz das Árvores se foi daqui, e vive agora apenas nas jóias de Fëanor. Previdente ele foi. Percebam! pois mesmo para os mais poderosos existem alguns feitos que eles  podem realizar uma vez, e apenas uma. A Luz das Árvores eu trouxe à existência e não posso fazê-lo novamente dentro de Ëa. Mas se eu tivesse um pouco daquela Luz, eu poderia trazer de volta a vida às Árvores, antes de suas raízes morrerem; e então nossa ferida seria curada, e a malícia de Melkor seria desfeita”.

§119      E Manwë falou, e disse, Ouviste, Fëanor, as palavras de Yavanna? Darás o que ela pedirá? E então houve um grande silêncio, e Fëanor não disse uma palavra. Então Tulkas pediu: Fala, Oh Noldo, sim ou não! Mas quem poderia recusar a Yavanna? E a luz das Silmarils não veio do trabalho dela, inicialmente? Mas Aule o Criador (1) disse, “Não seja tão apressado! Nós pedimos uma coisa maior do que sabes. Deixe-o ter paz por algum tempo”.

§120      Mas então Fëanor falou, e anunciou amargamente: “Verdadeiramente para o menor tanto quanto para o maior existem alguns feitos que ele pode realizar apenas uma vez. E naquele feito seu coração deverá repousar. Talvez eu possa destrancar minhas jóias, mas nunca novamente eu poderei fazer semelhantes; e se forem quebradas, então quebrado será meu coração. e eu morrerei: o primeiro de todos os Filhos de Eru”.

§121      “Não o primeiro”, falou Mandos, mas eles não compreenderam suas palavras, e de novo  houve silêncio, enquanto Fëanor meditava no escuro. E pareceu a ele que estava cercado por um círculo de inimigos, e as palavras de Melkor retornaram a ele, dizendo que as Silmarils não estavam a salvo,  se os Valar pudessem possuí-las. “E não é ele Vala como eles são”, pensou ele, “e compreende seus corações? Sim, um ladrão revelará ladrões”. Então ele anunciou alto: “Não, isto eu não farei de livre vontade. Mas se os Valar me obrigarem, então eu verdadeiramente saberei que Melkor é de sua raça”.

§122      “Assim falastes”, disse Mandos; Então todos sentaram em silêncio, enquanto Niënna chorava sobre Korlairë e lamentava pela amargura do mundo. E enquanto ela lamentava chegaram mensageiros de Formenos, e eles eram Noldor, e traziam novas notícias do mal. Pois eles contaram como uma Escuridão cegante chegou ao norte, e no meio dela andava algum poder para o qual não havia nome, e a Escuridão partia dele. E Melkor também estava lá, e foi à casa de Fëanor, e lá matou Finwë, rei dos Noldor, antes as portas, e derramou o primeiro sangue dos Filhos de Ilúvatar. Pois apenas Finwë não havia fugido do horror do Escuro. E o forte de Formenos Melkor quebrou, e o destruiu completamente, e toda a riqueza em gemas foi levada; e as Silmarils se foram.

§123      Então Fëanor se levantou e amaldiçoou Melkor, nomeando-o Morgoth (2); e ela amaldiçoou também os chamados de Manwë, e a hora na qual ele foi a Taniquetil, pensando em sua tolice que se estivesse em Formenos, sua força teria permitido mais do que apenas ser morto também, como Melkor desejava (3). E então Fëanor correu da aglomeração e fugiu pela noite, louco tanto de fúria quanto de pesar: pois seu pai era mais querido para ele do que a Luz de Valinor ou os incomparáveis trabalhos de suas mãos; e quem dentro dos filhos, Elfos ou Homens, teve pai de maior valor?

§124      E aqueles que testemunharam a partida de Fëanor lamentaram grandemente por ele; e Yavanna estava desencorajada, temendo agora que a Grande Escuridão pudesse engolir os últimos raios da Luz para sempre. Pois embora os Valar ainda não compreendessem inteiramente o que se sucedeu, eles perceberam que Melkor chamara alguma ajuda que veio de Fora. As Silmarils se foram, e apesar da pouca importância que parecia então, se Fëanor tivesse dito (4) sim ou não afinal; mas se tivesse dito sim de início e assim limpado seu coração antes das terríveis notícias terem chegado, seus feitos posteriores poderiam ter sido diferentes dos que foram. Mas agora o funesto destino dos Noldor se aproximava.

§125      Enquanto isso, é dito, Morgoth fugindo da perseguição dos Valar chegou à terra erma de Araman, que ao norte, como Arvalin ao sul, fica entre as muralhas das Montanhas e o Grande Mar. Então ele foi para Helkaraxë onde o Estreito entre Araman e a Terra-média é cheio de gelo atritante, e ele cruzou e retornou ao Norte do mundo. Então tão logo eles colocaram os pés lá e escaparam da terra dos Valar, Ungoliantë convocou Morgoth a entregar a ela sua recompensa. Metade de seu pagamento era a seiva das Árvores; a outra metade seriam todas as jóias que pudesse conseguir. Morgoth entregou estas relutantemente, uma por uma, até que ela tivesse devorado todas e suas belezas removidas da terra, e então maior e mais escura cresceu Ungoliante e ainda sim desejava mais.

§126      Mas Morgoth não daria a ela nenhuma parte das Silmarils: estas ela tomou para sim eternamente. Por isso ali aconteceu a primeira disputa entre ladrões, e o medo de Yavanna não veio a se concretizar: que a Escuridão pudesse engolir os últimos raios da Luz. Mas Ungoliantë ficou irada, e tão grande ela se tornou que Morgoth não podia controlá-la; e ela envolveu-o em suas teias sufocantes, e seu terrível grito ecoou através do mundo. Então vieram em seu auxílio os Balrogs, que ainda permaneciam em locais profundos do Norte onde os Valar não os descobriram. Com seus chicotes de chamas eles romperam suas teias e expulsaram Ungoliantë, e ela desceu para Beleriand e habitou por algum tempo abaixo de Ered Orgoroth no vale que mais tarde foi chamado Nan Dungorthin, devido ao medo e horror que ela gerou lá. E quando ela se curou de seus ferimentos e gerou lá uma terrível descendência ela deixou as Terras do Norte, e retornou ao Sul do mundo, onde ele ainda reside, de acordo com tudo que os Eldar ouviram.

§127      Então Morgoth, estando livre, reuniu novamente seus servidores que pode encontrar, e escavou novamente seus vastos salões subterrâneos e suas masmorras naquele local que os Noldor mais tarde chamaram Angband, e acima deles ele elevou as fumegantes torres de Thangorodrim. Lá incontáveis se tornaram as hordas de suas bestas e seus demônios, e de lá agora saíam em hordas além da conta a sinistra raça dos Orkor, que cresceu e se multiplicou no interior da terra como uma praga. Estas criaturas Morgoth gerou por inveja e escárnio aos Eldar. Em forma (5) eles eram como os Filhos de Ilúvatar, embora terrível de se observar, pois eles foram gerados (6) em ódio, e de ódio estavam cheios; e ele repugnava as coisas que ele fizera, e com repugnação elas o serviam. Suas vozes eram como o bater de rochas, e eles não riam a não ser em tormento ou feitos cruéis. Os Glamhoth, horda de tumulto, os Noldor os chamaram. (Orcs podemos nomeá-los, pois nos dias antigos eles eram fortes e sinistros como demônios. Mas não eram da raça dos demônios, mas filhos (7) da terra corrompidos por Morgoth, e eles podiam ser mortos ou destruídos pelo bravo com armas de guerra. [Mas de fato uma lenda mais negra alguns ainda contam em Eressëa, dizendo que os Orcs eram verdadeiramente em sua origem parte dos Quendi, um grupo dos Avari insatisfeitos a quem Morgoth enganara, e os fizera cativos, e então os escravizara, e então os conduzira à total ruína*. Pois, disse Pengoloð, Melkor não mais poderia de forma alguma fazer algo que tivesse vida ou semelhança de vida desde o Ainulindalë, e poderia menos ainda após sua traição em Valinor e a completude de sua própria corrupção (8)] Falou Ælfwine.)

(* [nota de rodapé ao texto] Nos Anais de Beleriand é dito que isto ele fizera na Escuridão antes mesmo dos Quendi terem sido encontrados por Oromë)

§128      Então escura caiu a sombra sobre Beleriand, como em outro lugar é contado; e em Angband Morgoth forjou para si mesmo uma grande coroa de ferro; e nomeou-se Rei do Mundo (9). Como uma comprovação disso ele fixou as Silmarils em sua coroa. Suas mãos malignas foram queimadas negras pelo toque daqueles jóias abençoadas, e negras elas foram para sempre deste então; e ele nunca mais esteve livre da dor da queimadura. A coroa ele nunca retirava de sua cabeça, embora seu peso tenha tornado fatiga em tormento, e nunca mais com exceção de uma vez, enquanto seu reino durou, ele saiu por algum tempo secretamente de seu domínio no Norte (10). E apenas uma vez também ele empunhou uma arma, até a Última Batalha. Pois agora, mais do que nos dias de Utumno seu orgulho fora humilhado, seu ódio o devorava, e na dominação de seus servos e na inspiração deles com o desejo do mal, ele gastava seu espírito. Contudo sua majestade como um dos Valar durou por longo tempo, mudada para terror, e ante sua face todos, exceto os mais poderosos, afundavam em um poço escuro de medo.

Do Discurso de Fëanor em Túna

§129      Quando foi conhecido que Morgoth escapara de Valinor e a perseguição fora infrutífera, os Valar permaneceram por longo tempo sendo na escuridão no Círculo do Destino, e os Maiar e Vanyar ficaram com eles e lamentaram; mas os Noldor  em sua maior parte retornaram tristemente a Túna. Escura agora estava sua bela cidade de Tirion, e névoas vinham dos Mares Sombrios, e ocultavam suas torres. A lâmpada de Mindon queimava pálida na escuridão.

§130      Então repentinamente Fëanor apareceu na cidade e chamou a todos para a alta Corte do Rei sobre o topo de Túna. A sentença de banimento que havia sido posta sobre ele ainda não havia sido retirada, e ele se rebelou contra os Valar. Uma grande multidão se reuniu rapidamente, portanto, para ouvir o que ele iria dizer, e a colina e todas as ruas, e as escadas que subiam para a Corte foram atulhadas com as muitas tochas que todos levavam à mão.

§131      Fëanor era um mestre das palavras, e sua língua tinha grande poder sobre os corações quando ele a usava. E agora ele estava em fogo, e naquela noite ele fez um discurso ante os Noldor que para sempre eles lembraram. Terríveis e sinistras foram suas palavras, e cheias de ira e orgulho, e elas levaram o povo à loucura como os vapores de vinho quente. Sua fúria e seu ódio eram em maior parte dirigidos a Morgoth, embora quase tudo que ele disse tenha vindo das próprias mentiras de Morgoth. Ele reclamava agora o reinado de todos os Noldor, uma vez que Finwë estava morto, e ele desdenhava os decretos dos Valar.

§132      ‘Por que, Oh meu povo’, ele falou, ‘por que devemos continuar servindo a estes deuses ciumentos, que não podem nos manter, nem seu próprio reino, seguros de seu Inimigo? E embora ele seja agora seu rival, não são eles todos de uma única raça? Por isso a vingança me chama, mas mesmo se fosse de outro modo, eu não residiria mais na mesma terra com a raça do assassino de meu pai e o ladrão de meu tesouro. E eu não sou o único corajoso deste povo. E todos vós não perdestes vosso rei? E o que mais não perdestes, enclausurados aqui em uma terra estreita entre as montanhas ciumentas e o Mar estéril? Aqui uma vez houvera luz, que os Valar recusaram à Terra-média, mas agora a escuridão iguala tudo. Devemos lamentar aqui, sem novos feitos, para sempre, um povo-sombra, caçando na neblina, derramando lágrimas vãs no ingrato Mar salgado? Ou devemos ir para casa? Em Kuiviénen doce correm as águas sob estrelas sem nuvens, e existem terras amplas onde um povo livro pode andar. Lá eles ainda continuam e nos esperam, nós que em nossa tolice os abandonamos. Partamos! Deixe que os covardes tenham esta cidade. Mas, pelo sangue de Finwë! A menos que eu fique senil, se apenas os covardes ficarem, então a grama irá crescer nas ruas.  Não, podridão, mofo e fungos.”

§133      Longamente ele falou, e sempre incentivando os Noldor a segui-lo e por suas próprias grandes habilidades ganhar a liberdade e grandes reinos nas terras do Leste antes que fosse tarde demais, pois ele ecoava as mentiras de Melkor de que os Valar os enganara e os manteria cativos de forma que os Homens pudessem reinar na Terra-média; e muitos dos Eldar ouviram então pela primeira vez dos Posteriores. “Belo o fim será”, ele disse, “mas longa e dura será a estrada! Digam adeus à escravidão! Mas digam adeus também à calmaria! Digam adeus aos fracos! Digam adeus também a seus tesouros – mais ainda faremos! Viajem leves. Mas tragam consigo suas espadas! Pois iremos mais longe do que Tauros, resistiremos mais do que Tulkas: nunca desistiremos de nossa perseguição. Atrás de Morgoth até os confins da Terra! Guerra teremos e ódio sem fim. Mas quando tivermos conquistado e recuperado as Silmarils que ele roubou, então contemplem! Nós, apenas nós, seremos os senhores da Luz imaculada, e mestres da felicidade e da beleza de Arda! Nenhuma outra raça nos suplantará!” (11)

§134      Então Fëanor fez um terrível juramento. Imediatamente seus sete filhos saltaram para seu lado e cada um fez o mesmo juramento, e vermelhas como sangue brilharam suas espadas desembainhadas à luz das tochas.

Amigo ou imigo, com mácula ou limpo,

cria de Morgoth ou claro Vala,

Elda ou Maia ou a Outra Raça,

Mortal que há de vir na Terra-média,

nem lei, nem amor, nem liga de espadas,

medo ou muro, nem mesmo o Destino

será defesa contra Fëanor, e os filhos de Fëanor,

para o que nas mãos tomar, ou em seu meio ocultar,

consigo guardar ou lançar longe

uma Silmaril. Assim dizemos nós:

Morte lhe traremos quando termine o Dia,

mal até o fim do mundo! O juramento ouvi,

Eru Pai-de-Todos! À treva eternal

condenai a nós se não o cumprirmos.

No sacro monte sede testemunhas

e a promessa lembrai, Manwë e Varda!  (11 A)

Assim falaram Maidros e Maglor, e Celegorn, Curufin e Cranthir, Damrod e Díriel, príncipes dos Noldor. Mas por aquele nome ninguém deveria fazer um juramento, bom ou mal, e nem em fúria chamar por tais testemunhas, e muitos recuaram com medo ao ouvir as palavras sinistras. Pois uma vez feito, bom ou mal, um juramento não pode ser quebrado, e perseguirá aquele que o mantiver ou quebra até o fim do mundo.

§135      Fingolfin e seu filho Turgon então falaram contra Fëanor, e palavras agressivas surgiram, e mais uma vez a fúria chegou próxima ao fio das espadas. Mas Finrod, que também era habilidoso com as palavras, falou suavemente, como era de seu costume, e procurou acalmar os Noldor, persuadindo-os a parar e ponderar antes que os feitos não pudessem ser desfeitos. Mas de seus filhos apenas Orodreth falou também desta maneira, pois Inglor estava com Turgon seu amigo (12), enquanto que Galadriel, a única mulher dos Noldor a permanecer altiva e valente naquele dia entre os príncipes revoltados, estava ávida por partir. Ela não fez nenhum juramento, mas as palavras de Fëanor relativas à Terra-média tinham acendido seu coração, e ela desejava ver as amplas terras não-trilhadas e governar lá um reino talvez à sua própria vontade. Pois a mais jovem da Casa de Finwë ela veio ao mundo a oeste do Mar, e nada sabia das terras desprotegidas. De igual pensamento era Fingon filho de Fingolfin, também tendo sido tocado pelas palavras de Fëanor, embora ele o amasse pouco (13); e com Fingon como sempre ficaram Angrod e Egnor, filhos de Finrod.  Mas estes mantiveram a calma e não falaram contra seus pais.

§136      Ao final depois de longo debate Fëanor prevaleceu, e a maior parte dos Noldor ali reunida ele acendeu com o desejo de novas coisas e estranhas regiões. Por isso quando Finrod falou novamente a favor de considerar melhor e aguardar, um grande grito se levantou: “Não, deixe-nos partir! deixe-nos partir”. E imediatamente Fëanor e seus filhos começaram a se preparar para a marcha adiante.

§137      Pouca prudência poderia existir para aqueles que ousaram tomar tal caminho tão escuro. E tudo foi feito com máxima rapidez; pois Fëanor os incentivava, apressando-os por medo de que em seus corações esfriando suas palavras poderiam esvaecer e outros conselhos ainda prevalecerem. Pois apesar de todas as suas palavras orgulhosas ele não esqueceu o poder dos Valar. Mas de Valmar não vinha nenhuma mensagem, e Manwë estava em silêncio. Ele não iria proibir ou obstruir o propósito de Fëanor; pois os Valar estavam ofendidos por terem sido acusados de terem intenções malignas para os Eldar, ou que qualquer um fosse mantido cativo por eles contra sua vontade. Agora eles observavam e aguardavam, pois eles ainda não acreditavam que Fëanor pudesse atar a hoste dos Noldor à sua vontade.

§138      E de fato quando Fëanor começou a organização dos Noldor para sua partida, então imediatamente a dissensão surgiu. Pois embora ele tenha tornada a aglomeração disposta a partir, de forma alguma todos estavam dispostos a aceitar Fëanor como rei. Maior amor era dado a Fingolfin e seus filhos, e sua casa e a maior parte dos moradores de Tirion se recusaram a renunciar a ele, se ele fosse com eles. Então finalmente os Noldor partiram divididos em dois grupos. Fëanor e seus seguidores estavam na vanguarda; mas o maior grupo vinha atrás sob Fingolfin. E ele marchava contra sua sabedoria, porque Fingon seu filho assim o encorajou, e porque ele não seria separado de seu povo que estava ávido por partir, nem deixá-los aos imprudentes conselhos de Fëanor. Com Fingolfin partiu também Finrod, e por igual razão; mas ele estava mais relutante em partir.

§139      Está registrado que de todos os Noldor em Valinor, que agora cresceram em número e formavam um grande povo, apenas um décimo recusou a partir: alguns pelo amor que tinham aos Valar (e não menos a Aulë), alguns por amor a Tirion e às muitas coisas que eles fizeram; nenhum pode medo do perigo, diga-se. Pois eles eram de fato um povo corajoso.

§140 Mas tão logo ressoaram as trombetas e Fëanor atravessou os portões de Tirion um mensageiro de Manwë finalmente veio, dizendo “Contra a tolice de Fëanor se colocará colocado apenas meu conselho. Não sigais adiante! Pois a hora é má, e a estrada leva a pesares que ainda não percebestes. Nenhuma ajuda vos darão os Valar nesta empreitada; mas vedes! eles não vos impedirão; pois isto deveis saber: assim como viestes para cá livremente, livremente devereis partir. Mas tu Fëanor filho de Finwë por teu juramento estás exilado. As mentiras de Melkor deverás desaprender com amargura. Vala ele é, disseste. Então jurastes em vão, pois nenhum dos Valar podes suplantar agora ou nunca dentro dos salões de Eä (14), nem se Eru a quem nomeaste tivesse te feito três vezes maior do que és”. (15)

§141      Mas Fëanor riu, e não falou ao enviado e sim aos Noldor, dizendo: “Então! Este povo valoroso enviará o herdeiro de seu Rei sozinho em banimento, apenas com seus filhos, e retornará a sua escravidão? Mas se alguém vier comigo, a eles então eu digo: ‘Pesar foi profetizado para você’. Verdadeiramente em Aman nós o vimos. Em Aman através da felicidade à tristeza. A outra forma tentaremos agora: através do pesar encontrar felicidade. Ou pelo menos: liberdade!”

§142      Então, se dirigindo ao enviado ele bradou: “Diga isto a Manwë Sulimo, Alto-rei de Arda: Se Fëanor não pode suplantar Morgoth, pelo menos ele não se demora em atacá-lo, e não se senta imóvel em lamentação. E Eru, talvez, tenha me posto um fogo maior do que vós conhecestes. Tais ferimentos, ao menos, eu causarei ao Inimigo dos Valar que mesmo os poderosos no Círculo do Destino se espantarão em ouvir. Sim, no final eles me seguirão. Adeus!”

§143      Naquela hora a voz de Fëanor ficou tão alta e tão potente que mesmo o enviado dos Valar se curvou perante ele como alguém com uma resposta completa, e partiu; e os Noldor foram rechaçados. Portanto eles continuaram sua marcha; e a Casa de Fëanor si adiantou a eles ao longo do litoral de Elendë: e nenhuma vez eles voltaram os olhos para Tirion sobre Túna. Após eles, mais lentamente e com menos vontade, vinha a hoste de Fingolfin. Destes Fingon era o mais adiantado; e na retaguarda iam Finrod e Inglor, e muitos dos mais belos e mais sábios dos Noldor; e frequentemente olhavam para trás para ver sua bela cidade, até que a lâmpada de Mindon Eldaliéva se perdeu na noite. Mais do que quaisquer outros exilados eles carregaram dali lembranças da felicidade que haviam desprezado, e alguns até mesmo as belas coisas que haviam feito carregaram consigo: um conforto e um peso na estrada.

Sobre o Primeiro Fratricídio e o Destino dos Noldor

§144      Então Noldor os conduziu para o norte, porque seu primeiro propósito era seguir Morgoth. Além disso, Túna abaixo de Taniquetil estava situada no equador de Arda, e lá o Grande Mar era imensuravelmente largo, enquanto que para o norte os mares que separavam ficam mais estreitos e os ermos de Araman e o litoral da Terra-média  se aproximavam. Mas as hostes não foram longe, quando veio à mente de Fëanor, tarde demais, que todas estas grandes companhias, tanto de adultos e aptos à guerra e muitos outros, e a grande quantidade de mantimentos com eles, nunca superariam as longas distâncias para o Norte, nem cruzariam os mares finalmente, exceto com o auxílio de navios.

§145      Portanto Fëanor decidiu persuadir os Teleri, sempre amigos dos Noldor, a se juntarem a eles; pois dessa forma ele esperava diminuir a riqueza de Valinor ainda mais e aumentar seu próprio poder de guerra. E também ele iria obter navios rapidamente. Pois seria preciso um grande tempo e exaustivos trabalhos para construir uma grande esquadra, mesmo se os Noldor tivessem habilidades e madeiras suficientes para tal construção, como de fato não tinham. Então ele se apressou para Alqualondë, e falou aos Teleri como havia falado em Tirion.

§146      Mas os Teleri não foram afetados por nada que ele lhes dissesse. Eles estavam de fato entristecidos pela partida de seus parentes e amigos de longa data, mas preferiam dissuadi-los a ajudá-los; e nenhum navio eles cederiam, nem auxílio na construção, contra a vontade dos Valar. Para si mesmos eles não desejavam outro lar que não as praias de Eldamar, e nenhum outro senhor que não Olwë, príncipe de Alqualondë. E ele nunca dera ouvido a Morgoth, nem o recebeu em sua terra e ele ainda acreditava que Ulmo e os outros grandes entre os Valar iriam desfazer as feridas de Morgoth, e que aquela noite passaria, em um novo amanhecer.

§147      Então Fëanor ficou irado, pois ele ainda temia os atrasos; e falou de maneira irritada a Olwë. “Renunciastes vossa amizade, mesmo na hora de nossa necessidade”, disse ele. “Mas ávidos por nossa ajuda estivestes quando chegastes finalmente a estes litorais, procrastinadores inseguros, e quase de mãos vazias. Em cabanas nas praias ainda moraríeis se os Noldor não tivessem esculpido seu porto e erguido seus muros”.

§148      Mas Olwë respondeu: “Não, não renunciamos à nossa amizade. Mas pode ser a difícil tarefa de um amigo refutar a tolice de outro. E quando seu povo nos saldou e nos ajudou, diferentemente então falastes: na terra de Aman iremos residir para sempre, como irmãos cujas casas ficam lado a lado. E sobre nossos navios brancos: esses não nos destes. Sua construção não aprendemos dos Noldor, mas dos Senhores do Mar; e a madeira branca nós moldamos com nossas próprias mãos e as velas brancas foram tecidas por nossas belas esposas e damas. Portanto nós nem os daremos nem os venderemos por nenhum acordou ou amizade. Pois eu te digo, Fëanor, estes são para nós como as gemas dos Noldor: o trabalho de nossos corações, iguais aos quais nunca mais poderemos fazer”.

§149 Após isso Fëanor o deixou, e sentou-se além dos muros meditando sombriamente, até sua hoste estar reunida. Quando ele considerou que sua força era suficiente ele foi ao Porto dos Cisnes e começou a invadir os navios que estavam ancorados lá e a tomá-los à força. Mas os Teleri resistiram e ele de forma determinada, e atiraram muitos dos Noldor ao mar. Então espadas foram desembainhadas e uma batalha amarga foi lutada nos navios, e ao redor das docas e píeres do Porto, e mesmo sobre o grande arco de seu portão. Três vezes o povo de Fëanor foi escorraçado, e muitos foram mortos de ambos os lados; mas a vanguarda dos Noldor foi socorrida por Fingon com os mais avançados do povo de Fingolfin. Estes chegando, encontraram a batalha e seu próprio povo sendo derrotado, e se apressaram antes de saberem devidamente a razão da disputa: alguns acharam de fato que os Teleri procuraram emboscar a marcha dos Noldor, sob as ordens dos Valar.

§150      Então finalmente os Teleri foram sobrepujados, e uma grande parte de seus marinheiros que residiam em Alqualondë foram cruelmente mortos. Pois os Noldor se tornaram selvagens e desesperados, e os Teleri tinham menos força, e estavam em sua maioria armados apenas com arcos leves. Então os Noldor levaram seus navios brancos, e manejaram seus remos o melhor que puderam, e em fila rumaram para o norte ao longo da costa. E Olwë chamou por Ossë, mas ele não veio; pois ele havia sido convocado a Valmar para a vigília e o conselho dos deuses; e não fora permitido pelos Valar que a Fuga dos Noldor fosse obstruída por força, Mas Uinen chorou pelos marinheiros dos Teleri; e o mar se levantou em fúria contra os assassinos, de forma que muitos dos navios naufragaram e os que estavam neles se afogaram. Do Fratricídio de Alqualondë mais é dito no lamento nomeado Noldolantë (16), A Queda dos Noldor, que Maglor fez compôs antes de desaparecer.

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§151      Apesar de tudo a maior parte dos Noldor escaparam, e quando a tempestade terminou eles continuaram em seu trajeto, alguns nos navios, alguns por terra; mas o caminho era longo e ainda mais maligno quanto mais seguiam em frente.  Após terem marchado por um grande tempo na  noite imensurável eles chegaram finalmente ao norte do Reino Vigiado, no limite da vastidão vazia de Araman, que era montanhosa e fria. Lá eles perceberam repentinamente uma figura escura parada sobre um rochedo alto que se estendia sobre o mar. Alguns dizem que era o próprio Mandos e não um enviado menor de Manwë. E eles ouviram uma voz alta, solene e terrível, que os convocou a parar e ouvir (17).

§152      Todos pararam e ficaram imóveis, e de começo a fim das hostes dos Noldor a voz foi ouvida falando a Profecia do Norte e o Destino dos Noldor. “Retornais! Retornais! Buscais o perdão dos Valar antes que a maldição deles recaia sobre vós!”. Assim a voz começou, e muitas calamidades ela previu com palavras sombrias, os quais os Noldor não compreenderam até que as calamidades tivessem de fato caído sobre eles. “Lágrimas incontáveis vertereis; mas se fordes adiante, tenhais certeza de que os Valar irão isolar Valinor de vocês, e trancar-vos-á para fora, de forma que nem mesmo o eco de vossas lamentações deverão passar por sobre as montanhas”.

§153      “Vedes! Sobre a Casa de Fëanor recai a ira dos deus, desde o Oeste até o extremo Leste, e sobre todos que o seguir também recairá. Vosso Juramento conduzir-vos-á, e vos trairá, e afastar-vos-á dos próprios tesouros que prometestes perseguir. Um fim maligno terão todas as coisas que vós começardes bem; e pela traição de raça por raça, e o medo da traição, isto virá a acontecer. Os Despossuídos eles deverão ser para sempre”.

§154      “Observem! Derramastes o sangue de vossa raça injustamente e manchardes a terra de Aman. Pois sangue gerará sangue, e além de Aman habitareis à sombra da Morte. Pois saibais que apesar de Eru ter designado que não morrêsseis em Eä e que nenhuma doença vos acometais, morto podereis ser: por arma e por tormento e por pesar; e então vosso espírito desabrigado virá a Mandos. Lá por longo tempo devereis habitar e ansiar por vossos corpos e encontrar pouca piedade dedica a vós por aqueles que tiverdes matado. E todos aqueles que permanecerem na Terra-média e não forem a Mandos, cansarão do mundo como de um grande fardo, e esvaecerão, e se tornarão como sombras de arrependimento ante a raça mais jovem que virá depois. Os Valar falaram.”

§155      Então muitos recuaram amedrontados. Mas Fëanor endureceu seu coração e disse: “Nós juramos, e não foi levianamente. Este Juramento iremos manter. E veja! fomos ameaçados com muitos males, traição não o menor deles; mas uma coisa não foi dita: que sofreremos de acanhamento; de covardia ou do medo da covardia entre nós. Por isso eu digo que continuaremos, e a este destino acrescento: os feitos que realizaremos serão assunto de canções até os últimos dias de Arda”. E a previsão de Fëanor também se mostrou verdadeira.

§156      Mas naquela hora Finrod abandonou a marcha, e retornou, estando cheio de pesar, e amargo com relação à casa de F6eanor, por seu parentesco com Olwë de Alqualondë; e muitos de seu povo partiram com ele, refazendo seus passos em tristeza, até que contemplaram novamente os raios distantes de Mindon sobre Túna ainda brilhando na noite, e entraram finalmente em Valinor. Lá receberam o perdão dos Valar, e Finrod foi posto como regente o restante dos Noldor do Reino Abençoado. Mas seus filhos não estavam com ele, pois não deixariam os filhos de Fingolfin; e todo o povo de Fingolfin continuou em frente, sentindo a coerção de seu parentesco e a vontade de Fëanor, e temendo enfrentar o julgamento dos deuses, uma vez que nem todos eles foram inocentes no fratricídio de Alqualondë. Além disso Fingon e Turgon eram corajosos e com corações em fogo e relutante em abandonar qualquer tarefa na qual haviam colocado as mãos até o amargo fim, se amargo deva ser. Assim a hoste principal continuou, e rapidamente o mal que fora previsto começou seu trabalho.

1497

§157      Os Noldor chegaram bem longe no Norte de Arda, e viram os primeiros dentes do gelo que flutuava no mar, e souberam que estavam se aproximando de Helkaraxë. Pois entre a Terra Ocidental de Aman que no norte de curvava para leste e os litorais leste de Endar (que é a Terra-média) que avançava para o oeste havia um estreito, através do qual as águas frias do Mar Circundante e as ondas do Grande Mar fluíam juntas, e lá existiam vastos nevoeiros e névoas de frio mortal, e as correntes marinhas estavam cheias de colinas de gelo que se chocavam e o ranger do gelo no fundo do mar. Assim era Helkaraxë, e lá nenhum ainda se atrevera a atravessar exceto apenas os Valar e Ungoliantë.

§158      Então Fëanor parou e os Noldor debateram qual curso deveriam seguir agora. E logo os Noldor começaram a sofrer com os tormentos do frio, e da espessas neblinas através as quais o brilho de nenhuma estrela podia atravessar; e muitos deles se arrependeram da jornada e começaram a murmurar, especialmente aqueles que seguiram Fingolfin, amaldiçoando Fëanor, e o nomeando causa de todos os males dos Eldar. Mas Fëanor, sabendo de tudo que era dito, entrou em conselho com seus filhos. Duas formas apenas eles viram para escapar de Araman e chegar a Endar: pelo estreito ou por navio. Mas Helkaraxë eles julgaram intransponível, enquanto que os navios eram muito poucos. Muitos haviam sido perdidos durante sua longa jornada e não restaram suficientes para atravessar toda a grande hoste junta; e nenhum desejava permanecer na costa oeste enquanto os outros eram transportados antes: pois o medo da traição já acordara entre os Noldor.

§159      Em conseqüência disso surgiu no coração de Fëanor e seus filhos a idéia de pegar todos os navios e partir repentinamente; pois eles haviam mantido o comando da frota desde a batalha do porto; e eram operados apenas por aqueles que lá lutaram e estavam ligados a Fëanor. E veja! Como se tivesse vindo a seu chamado um vento surgiu de repente de noroeste, e Fëanor saiu secretamente (18) com todos aqueles que ele julgava leais a ele, e embarcou e se pôs ao mar, e deixou Fingolfin em Araman. E uma vez que o mar era estreito ali, manejando para leste e um pouco para sul ele atravessou sem perdas, o primeiro de todos os Noldor a colocar novamente os pés no litoral da Terra-média. E o aportar de Fëanor foi na entrada do braço de mar que era chamado Drengist, e que adentrava Dor-lómin (19).

§160      Mas quando aportaram, Maidros o mais velho de seus filhos (e uma vez amigo de Fingon antes das mentiras de Morgoth terem ficado entre eles) falou a Fëanor: “Agora quais navios e homens irás separar para o retorno, e quem eles trarão até aqui primeiro? Fingon o valente?

§161      Então Fëanor como alguém insano, e sua fúria foi liberada: “Nenhum e ninguém!” ele falou. “O que eu deixei para trás eu não considero perda: provou-se bagagem desnecessária na estrada. Deixe aqueles que amaldiçoaram meu nome, que continuem amaldiçoando! Que voltem choramingando para as celas dos Valar, se não podem encontrar outras! Que os navios queimem!

§162      Então apenas Maidros ficou de lado, mas Fëanor e seus filhos colocaram fogo nos navios brancos dos Teleri. Assim naquele lugar que foi chamado Losgar na desembocadura do Estuário de Drengist (20) terminaram em um grande incêndio luminoso e terrível os mais belos navios que já cortaram o mar (21), E Fingolfin e seu povo viram a luz ao longe, vermelha abaixo das nuvens. Este foi o primeiro fruto do Fratricídio e do Destino dos Noldor.

§163      Então Fingolfin soube que for a traído, e deixado para morrer miseravelmente ou retornar em vergonha. E seu coração ficou amargo, mas desejou como nunca antes chegar de alguma forma até a Terra-média e reencontrar Fëanor. E ele e sua hoste vagaram longa e miseravelmente; mas seu valor e resistência cresceram com a dificuldade; pois eles ainda eram um povo poderoso, os imortais filhos mais velhos de Eru Ilúvatar, recém saídos do Reino Abençoado e ainda não cansados com o cansaço da Terra; e o fogo de seus corações era jovem. Portanto, liderados por Fingolfin e seus filhos, e por Inglor e Galadriel a valente e bela, eles ousaram atravessar o inacessível Norte, e não encontrando outro caminho eles enfrentaram afinal o terror de Helkaraxë e as cruéis colinas de gelo. Poucos dos feitos dos Noldor posteriores ultrapassaram a travessia desesperada em coragem ou em desgraças. Muitos lá pereceram, e foi com uma hoste reduzida que Fingolfin chegou finalmente às terras do Norte de Endar. Pouco amor por Fëanor e seus filhos tinham aqueles que marcharam atrás dele, e sopraram suas trombetas na Terra-média ao primeiro nascer da Lua.

Aqui os Noldor saem de Aman e

os Anais de Aman não falam mais deles.

NOTAS

1.‘Aulë o Criador’ substituiu ‘Ulmo’.

2. Riscado daqui, provavelmente de imediato: ‘(o Inimigo Escuro)’.

3. Riscado daqui (mais tarde): ‘o Inimigo Negro de Arda não seria dispensado uma segunda vez com palavras orgulhos de escárnio’.

4. Este trecho é uma substituição do texto original:

mas Yavanna ficou desalentada, pois agora a Luz das Árvores havia passado completamente para uma grande Escuridão, a qual os Valar ainda não haviam compreendido que deveria ter vindo de algum auxílio que Morgoth chamara de Fora, e eles temerem que estivesse perdido até o Fim. Therefore all was one, whether Fëanor said…

5. Este trecho foi editado no texto original, que era:

Lá incontáveis se tornaram as hostes de suas bestas e seus demônios e ele trouxe à existência então a raça caída dos Orkor, e eles cresceram e se multiplicaram no interior da terra como uma praga. Estas criaturas Morgoth fez em inveja e escárnio aos Eldar. Portanto em forma…

6. ‘gerados’ é uma correção para ‘feitos’.

7. ‘filhos’ é uma correção para ‘uma cria’

8. Este trecho, começando em ‘Mas de fato uma lenda mais negra…’ e incluindo a nota de rodapé, foi riscado em um momento posterior ao das alterações dadas nas notas 5-7 e talvez na revisão do texto antes da criação da versão datilografada, na qual não aparece. Toda a adição de Ælfwine está entre colchetes na versão como originalmente escrita.

9. O texto original era ‘Aran Endór, Rei da Terra-média’. Aran Endór então foi corrigido para Tarumbar; finalmente a leitura ‘Rei do Mundo’ foi inserida.

10. O texto originalmente escrito tinha aqui: ‘e nunca mais exceto com exceção de uma vez ele saiu das profundezas que escavara, enquanto seu reino durou’. Quando meu pai alterou este para o texto impresso ele acrescentou o que se segue até o final do parágrafo.

11. Neste parágrafo o trecho desde ‘antes que fosse tarde demais’ até ‘muitos dos Eldar ouviram então pela primeira vez dos Posteriores’ e a sentença final ‘Nenhuma outra raça nos suplantará’, são adições posteriores.

11 A. A tradução do Juramento de Fëanor em verso aliterativo é da autoria de Ronaldo José Lopes. O mesmo autor criou uma tradução literal do poema, a qual pode ser encontrada no artigo.  Conheça o texto completo do Juramento de Fëanor

12. As associações dos príncipes Noldorin eram diferenças neste trecho quando escrito pela primeira vez: ‘Fingolfin e seus filhos Fingon e Turgon então falaram contra Fëanor’, e ‘mas de seus [de Finrod] filhos apenas Inglor falou também desta maneira, pois Angrod e Egnor estavam com Fingon, e Orodreth ficou de lado; enquanto que Galadriel… ’. Mas as alterações que aparecem no texto impresso parecem ter sido feitas imediatamente uma vez que o trecho no fim do parágrafo pertence ao texto como originalmente escrito.

13. Riscado daqui: ‘e seus filhos menos’ (compare com o trecho em §160 onde se refere à amizade entre Fingon e Maidros).

14. é escrito desta forma aqui e novamente em §154, mas nas duas últimas ocorrências do texto está escrito Ëa.

15. Riscado daqui: ‘e Melkor menos ainda, que é o mais poderoso de todos exceto um’.

16.  O nome Noldolantë foi acrescentado à margem. Ele não aparece no texto datilografado.

17. A página começando aqui e contendo os §§152-4 é escrita muito mais irregularmente que o resto do manuscrito, e meu pai a riscou completamente e a substituiu. Pode ser pensado à primeira vista que este era o único local onde o primeiro rascunho do AAm sobrevive, mas não é o caso. A irregular página de ‘rascunho’ foi escrita no reverso daquela contendo §§149-51, e está na mesma caligrafia clara dos outros lugares (com algum número de mudanças feitas no ato da composição).  Fica claro então que a página rejeitada não começou como um ‘rascunho irregular’ (e a caligrafia elimina esta possibilidade), mas se degenerou nisto; e esta instância é, se algo, mais uma evidência contra a idéia de um primeiro rascunho perdido dos Anais de Aman.

O primeiro texto originalmente começava, seguindo QS §71, ‘Uma vez mais ele alertou os Noldor a retornarem e buscarem perdão, ou no final eles retornariam finalmente apenas após amarga tristeza e desgraças inenarráveis’. O Destino dos Noldor na forma final foi alterado do rascunho apenas no rearranjo de suas partes e em muitos detalhes de fraseamento. Dois pontos podem ser notados. Depois de ‘…sobre as montanhas’ no final de §152 havia ‘Sereis livres deles e eles de vós’; e a sentença em §154 começando com ‘Lá por longo tempo devereis habitar…’ lia-se ‘Lá por longo tempo devereis habitar e não serão libertos até que aqueles que matastes os perdoastes’

18. Esta sentença substitui a que se segue: ‘Aguardando então um pouco por um vento norte que trouxe uma névoa profunda sobre a hoste ele partiu… ‘

19. A última sentença de §159 foi uma adição posterior.

20. O trecho ‘naquele lugar o Estuário de Drengist’ foi uma adição posterior.

21. Alterado de ‘os mais belos navios dos Dias Antigos’.

Comentários sobre a quinta seção

dos Anais de Aman

Esta seção dos Anais corresponde em conteúdo ao Capítulo 5 do QS Da Fuga dos Noldor (HoME V) e aos registros 2990 –2994 do AV 2 (HoME V). Após os parágrafos iniciais a narrativa dos Anais é novamente assemelhada em estrutura ao capítulo no QS, e do §125 em diante muitas frases são mantidas a partir dele (mais, de fato, do parece a partir do texto publicado, uma vez que em alguns casos meu pai adotou frases do QS sem mudanças e então as alterou). Por outro lado, a narrativa é grandemente ampliada em escopo.

§§117-24              Inicia-se agora uma nova e sutil articulação na história, com a afirmação de Yavanna de que com a luz sagrada reobtida das Silmarils ela poderia reavivar as Árvores antes de suas raízes morrerem, a demanda feita a Fëanor, e sua recusa – antes das notícias chegarem de Formenos.

§121      Mandos disse ‘Não o primeiro’ porque ele sabia que Finwë havia sido assassinado. Veja também § 120.

§122      Korlairë: a primeira ocorrência deste nome (vide §122) – um novo elemento na narrativa é que ‘Pois apenas Finwë não havia fugido do horror do Escuro’. No QS (§60) e AV 2 Morgoth mata também muitos outros. Onde os filhos de Fëanor estavam, ou para onde eles foram (pois Fëanor foi ao festival sozinho, §112), não é dito.

§123      É agora dito pela primeira vez que foi Fëanor quem nomeou Melkor Morgoth (‘o Inimigo Escuro’, ver Nota 2 acima). Em AAm (ao contrário do QS) Melkor é sempre assim nomeado até este ponto, mas depois isto quase invariavelmente Morgoth.

§125      Araman: QS Eruman. A mudança apareceu anteriormente no mapa V do Ambarkanta (HoME IV), onde fora colocado muitos anos após a confecção do mapa.

§126      No QS (§62) nada mais sobre o destino de Ungoliantë é dito além de que os Balrogs a expulsaram ‘para o extremo Sul, onde por muito tempo ela permaneceu’, agora surge a história de que ele morou primeiro em Nan Dungorthin, e apenas mais tarde, após ter deixado uma descendência lá, ela recuou para o Sul do mundo. Mas as aranhas de Nan Dungorthin ‘da raça caída de Ungoliantë’ são citadas mais tarde  em QS, na história da fuga de Beren de Dorthonion (ver HoME V e o Silmarillion publicado).

§127      A origem dos Orcs. No QS (§62) a idéia já havia surgido de que os Orcs se originaram em escárnio aos Elfos, mas ainda não surgira idéia de que os Orcs eram de qualquer forma associados a eles: eles eram uma ‘criação’ própria de Morgoth, ‘feitos de pedra’, e foram trazidos à existência quando ele retornou à Terra-média. Quando AAm foi escrito pela primeira vez (ver Notas 5 – 7 acima) esta visão ainda se mantinha; a palavra ‘feitos’ ainda foi usada – embora não as palavras ‘feitos de pedra’. Mas na nota de Ælfwine que se segue (e que foi escrita continuadamente com o que a precede) eles são chamados ‘crias da terra corrompidas por Morgoth’, e o ‘mais negra lenda’ contada em Eressëa – que os Orcs eram inicialmente Elfos escravizados e corrompidos (Avari) – certamente é a primeira aparição desta idéia, contradizendo o que a precede, ou talvez a este ponto apresentando uma teoria alternativa. É atribuída a Pengoloð; e Pengoloð argumento com Ælfwine que Melkor não poderia fazer algo que tivesse vida, mas apenas corromper o que já estava vivo. A implicação desta segunda teoria seria de que provavelmente, embora não necessariamente, os Orcs teriam surgido muito mais cedo, antes do Aprisionamento de Melkor; e que está implicação está presente é sugerido pela nota de rodapé referenciando os Anais de Beleriand – significando a última versão destes Anais, os Anais Cinzentos, companheiro dos Anais de Aman: ‘é dito que isto ele fez na Escuridão antes mesmo dos Quendi terem sido encontrados por Oromë’.

A este ponto meu pai retorna a uma parte anterior do AAm (§42) e interpola o trecho ‘Ainda assim por conhecimento posterior …’ onde a idéia da captura de Quendi vagantes em seus dias iniciais é completada, embora permaneça apenas uma suposição dos ‘mestres do conhecimento’. Talvez ao mesmo tempo erro corrigiu o presente trecho, alterando ‘trouxe à existência’ para ‘e de lá agora saíam em hordas além da conta’, ‘fez’ para ‘gerou’, e ‘crias da terra’ para ‘filhos da terra’. Ele então (eu conjecturo) desenvolveu a interpolação no ponto inicial de forma muito mais completa (§§43  – 5), onde a idéia se torna menos uma suposição e mais uma certeza da história: a incapacidade de Melkor de fazer coisas vivas é um fato conhecido (‘assim dizem os sábios’). Finalmente, em um momento posterior (veja a Nota 8), ele elimina todo o trecho no final do §127 começando com  ‘Mas de fato uma lenda mais negra alguns ainda contam em Eressëa …’ seja por ele só então ter percebido que o trecho fora suplantado pelos §§43  –  5 e não era, de toda forma, o local apropriado, ou porque ele rejeitou esta teoria da origem dos orcs. Veja mais além, §127.

O termo pois eles em ‘Orcs podemos nomeá-los, pois nos dias antigos eles eram fortes e sinistros como demônios’ (uma observação de  Ælfwine) sugere que Orcs é Inglês Arcaico (vide orc-nēas em Beowulf linha 112), convenientemente similar à palavra Élfica. Isto poderia explicar porque AElfwine disse, de fato, ‘Orcs podemos nomeá-los, pois nos dias antigos eles eram fortes e sinistros como demônios. Mas não eram de fato  demônios’. Em uma carta que meu pai escreveu em 25 de abril de 1954 (Cartas $144) ele disse que a palavra Orc ‘é, tanto quanto sei, derivada do Inglês Arcaico orc “demônio”, mas apenas porque é foneticamente apropriado’ (e também: Orcs… não são em lugar algum claramente definidos como sendo de uma origem em particular. Mas uma vez que são servos do Poder Negro, e mais tarde de Sauron, nenhum dos quais poderia, ou iria, produzir coisas vivas, eles devem ser “corrupções”’).

§128      A versão final aqui ‘Rei do Mundo’ (ver nota 9) remonta àquela do QS (§63), o qual remonta ao Q (HoME IV). – Sobre o assunto da partida de Morgoth de Angband QS tem: ‘nunca foi seu hábito deixar os locais profundos de sua fortaleza’, e lá não há menção de sua ausência.

§§132-3                O relato do discurso de Fëanor é grandemente ampliado daquele em QS (§§66 – 7).

§133      Tauros: Oromë;  vide  QS  §8: ‘Ele é um caçadior, e ele ama todas as árvores; por essa razão ele é chamado Aldaron, e pelos Gnomos Tauros, o senhor das florestas’; e também o Etimologias, raiz TÁWAR (HoME V): ‘N[oldorin] Tauros “Terror-Floresta”, usual N apelido de Oromë (N Araw)’. É notável que Fëanor use este nome (§8). Na versão datilografada, sem uma razão clara, o datilógrafo deixou um espaço em branco aqui, no qual mais tarde meu pai escreveu a lápis Oromë’

§135      Quanto AAm foi inicialmente escrito (ver Nota 12 acima) os alinhamentos dos príncipes Noldorin já haviam mudado do registro em QS  (§68),  uma vez que Angrod e Egnor eram agora opositores a Fëanor – e Galadriel agora tem parte no assunto, sendo ansiosa por deixar Aman. Quando reescrito um alinhamento mais sutil é desenhado: pois Fingon agora independentemente demanda a partida, e Angrod e Egnor partem com ele. Dos filhos de Fingolfin apenas Turgon apóia o pai, mas Inglor fica com ele; e Orodreth se move para a posição de Inglor como o único de seus filhos a apoiar Finrod.

A amizade próxima de Turgon com Felagund (Inglor) já havia aparecido na versão mais antiga dos Anais de Beleriand (HoME IV); em uma adição tardia ao texto datilografado de AAm (§85) eles nascem no mesmo Ano das Árvores.

A citação de que Galadriel, ‘a mais jovem da Casa de Finwë’, ‘ veio ao mundo a oeste do Mar, e nada sabia das terras desprotegidas ‘,  é estranha, porque toda a progênie de Finwë nasceu em Aman (AAm §§78, 81 – 2).

§136      O Noldor foram afetados pelo ‘desejo de novas coisas e estranhas regiões’; no QS eles estavam ‘cheio de desejo pelas Silmarils’.

§137      A marcha a partir de Tirion foi empreendida com pouca preparação e muita pressa; vide AV 2 (anal 2992): ‘A grande marcha dos Gnomos teve longa preparação’.

§139      Apenas um décimo dos Noldor permaneceram em Tirion.

§§140-2                As palavras do mensageiro de Manwë são citadas, e o episódio é muito ampliado. O arauto não diz, como no QS (§68),  que os Valar proibiam a marcha, mas sim que Fëanor exilara a si mesmo por seu próprio juramento; e Fëanor em sua resposta acusa os Valar de se sentarem impávidos e não fazerem nada contra Morgoth.

§143      Elendë (Casadelfo, Terra dos Elfos): ver §67.

§§145-8                O próprio Fëanor (e não mensageiros como em QS §70) foi a Olwë em Alqualondë, e suas palavras são completamente fornecidas. Em §147 Fëanor fala da construção do Porto pelos Noldor, o que é mencionado anteriormente em (§76).

§§149-50              O registro no AAm da batalha de Alqualondë e suas consequências segue QS §70 de maneira bem próxima e mantém muitas de suas frases; mas em §149 é agora dito que aqueles da segunda hoste que se uniram à batalha se equivocaram quanto à sua causa.

§150      Sobre as armas dos Teleri vide §97. – A canção da Fuga dos Gnomos (QS §70) é agora chamada Noldolantë, a Queda dos Noldor, ‘que Maglor fez compôs antes de desaparecer’.

§§152-4                A Profecia do Norte, agora chamada ‘a Profecia do Norte e o Destino dos Noldor’, é significativamente ampliada: pelo aviso de que os Noldor que morrerem dali em diante permanecerão longamente em Mandos ‘ansiando por seus corpos’, e aqueles que permanecerem na Terra-média se tornarão cansados do mundo e esvaecerão. Nisto o AAm se parece com o AV 2 (anal 2993, HoME V; quase o mesmo em AV 1, HoME IV):

Uma porção de mortalidade visitará os Noldor, e eles poderão ser mortos com armas, e com tormentos, e pela tristeza, e no distante fim eles desaparecerão gradualmente da Terra-média e esvaecerão ante a raça mais jovem.

Eu discuti estas passagens no HoME IV.

§156      Assim como no AV (ambos os textos), muito do povo de Finrod retornaram com ele a Valinor; no QS (§72) apenas ‘uns pouco de sua casa’ voltaram. Um novo elemento no motivo de retorno de Finrod é seu parentesco com Olwë de Alqualonde, pois sua esposa era Earwen filha de Olwë.

§157      Endar ‘Terra-média’.  A forma Endon foi usada anteriormente no AAm como ‘o ponto central’ da Terra-média (§38), onde foi alterado na versão datilografada para Endor. Estas formas Endon e Endor apareceram no Ambarkanta e mapas (§38). Em O Senhor dos Anéis Quenya Endórë, Sindarin Ennor, significam não o ponto central mas a própria Terra-média, e em uma carta de 1967 (Carta #297) meu pai se referiu a Q. Endor,  S. Ennor = Terra-média, com a etimologia en(ed) ‘terra’ e (n)dor ‘terra (massa de)’; vide também Aran Endór ‘Rei da Terra-média’, nota 9 acima. Mas no presente trecho a forma Endar é perfeitamente clara, e também em §§158, 163. O datilógrafo, contudo, em cada caso, por alguma razão, datilografou Endor e meu pai não o alterou. Por outro lado, no título da próxima seção em AAm o datilógrafo colocou Endar como no manuscrito, e novamente meu pai deixou-o ficar. No Simarillion publicado eu pus, hesitantemente, a forma Endor.

Esta passagem referente ao Helkaraxë deriva não do QS mas do AV 2 (anal 2994, quase o mesmo que em AV 1), e é bastante notável que permaneça completamente congruente com a cosmografia do Ambarkanta (ver HoME IV).

§159      A história de que Angrod e Egnor foram à Terra-média nos navios dos Fëanorianos é agora abandonada, com a perda da história de que eram amigos próximos dos filhos de Fëanor, e especialmente de Celegorn e Curufin (QS §§42, 72-3).

§160-2   Maidros não tomou parte no incêndio dos barcos, e se lembra de Fingon, seu antigo amigo. O motivo de Fëanor neste ato é suficientemente explicado nos textos mais antigos, mas no AAm o orgulho insano e a fúria que o dominam são muito mais fortemente expressos; ele era de fato ‘feérico’.

§162      A adição (nota 20 acima) do nome Losgar ao local do incêndio dos navios é derivado de sua única ocorrência em textos mais antigos, no início dos Anais de Beleriand tardio (AB2, HoME V e comentários).

§163      Sobre a diferença entre a sentença final daquela em QS (‘e chegaram a Beleriand ao nascer do sol’) ver HoME 5, comentário do §73.

Entre as notas e correções escritas por meu pai na cópia datilografada desta seção do AAm, das quais nem todas precisam ser registradas, há várias indicando ampliações da narrativa.

§120      ‘Eu morrerei’ > ‘Eu serei morto’; ‘primeiro de todos os Filhos de Eru’ sublinhado; e uma nota na margem ao lado das palavras ‘Não o primeiro’ (ao começo do §121): ‘X Isto não mais é válido nem mesmo para os Eldar de Valinor. Finwë o pai de Fëanor foi o primeiro a ser morto dentre os Alto-Elfos, Míriel mãe de Fëanor a primeira a morrer’.

Deve ser lembrado que quando AAm foi escrito a história de Míriel ainda não havia sido criada; as entradas que citam que Míriel ‘adormeceu e passou a Mandos’ e que Finwë mais tarde casou-se com Indis (notas 1 e 4) foram adições tardias (encontradas na cópia datilografada).

§122      O datilógrafo deixou um espaço em branco para Korlairë, o qual meu pai preencheu com a forma Korolairë. Mais tarde ele sublinhou isto a lápis e escreveu Ezellohar sobre isto (§113).

§126      Ered Orgotoh > Ered Gorgorath; Nan Dungorthin > Nan Dungortheb. Ver HoME V.

§127      Ao lado do início deste parágrafo meu pai escreveu: ‘A construção desta fortaleza como uma proteção contra uma invasão do Oeste viria mais tarde”. Ver §12.

Na cópia datilografada a passagem relativa aos Orcs segue como no texto impresso a partir do manuscrito até ‘eles podem ser mortos ou destruídos pelos valentes com armas de guerra’; o restante do parágrafo foi riscado no manuscrito (nota 8), exceto pelas palavras ‘Quoth Ælfwine’  no final (as quais o datilógrafo não percebeu e omitiu, terminando o parágrafo em ‘armas de guerra’ sem fechar os parênteses). Ao lado da primeira parte do trecho meu pai escreveu um X na cópia datilografada e uma breve e ilegível instrução da qual a primeira palavra pode ter sido ‘cortar’, com uma referência à passagem no cabeçalho em §45. Não está claro o que precisamente deveria ser cortado (se eu li a palavra corretamente), mas vendo que ele anotou na cópia manuscrita ao lado da passagem anterior (§43) ‘Alterar isto. Orcs não são Élficos’, parece provável que a mesma objeção se aplicava aqui. Ele consertou o erro do datilógrafo em omitir as palavras ‘Quoth Ælfwine’ eliminando as palavras ‘(Orcs podemos nomeá-los, pois’, de forma que o texto se torna ‘Os Glamhoth, horda de tumulto, os Noldor os chamaram. Nos dias antigos eles eram fortes e sinistros como demônios …’ Possivelmente isto foi feito sem concultar o manuscrito.

§132      Em ‘no ingrato Mar salgado’ a palavra sal foi riscada.

§134      Uma nota marginal ao lado dos nomes dos Filhos de Fëanor: ‘X Nomes serão revisados’. No texto Cranthir > Caranthir, Damrod e Díriel foram riscados (mas sem outro nome a substituí-los) e o n de Celegorn foi sublinhado.

§135      Nota marginal ao lado do início deste parágrafo: ‘Nomes e relacionamentos agora alterados’. No texto Finrod > Finarphin (e subsequentemente) e Inglor > Finrod (e subsequentemente); ta,bém Orodreth sublinhado e marcado com um X.

§137      Ao lado da sentença ‘Ele [Manwë] não iria proibir ou obstruir o propósito de Fëanor’ há uma nota marginal: ‘Manwë e os Valar não podiam – ou seja, não era permitido interferir com os Noldor exceto por conselhos – não por força’.

§149      Uma nota marginal ao lado do trecho descrevendo o envolvimento da Segunda hoste na batalha: ‘Finrod e Galadriel (cujo marido era dos Teleri) lutaram contra Fëanor em defesa de Alqualondë’. Sobre isto veja a nota bastante tardia (1973) do meu pai referente à conduta de Galadriel no tempo da rebelião do Noldor em Contos Inacabados: ‘Durante a revolta de Fëanor que se seguiu ao Escurecer de Valinor Galadriel não tomou parte: de fato ela e Celeborn lutaram heroicamente em defesa de Alqualondë contra o ataque dos Noldor…’

§162      ‘Fëanor e seus filho colocaram fogo em’ alterado para ‘Fëanor fez com que fogo fosse posto em’. Uma nota marginal no final do parágrafo diz: ‘Tragédia da queima de um dos filhos [adicionado: 2 filhos mais jovens] de Fëanor, que retornara para dormir em seu barco’. Outra nota no mesmo lugar diz: ‘Os filhos mais jovens de Fëanor eram gêmeos’; a isto se segue uma palavra entre parênteses que foi riscada, provavelmente ‘(improvável)’. É dito no QS (§41) que Damrod e Diriel eram ‘irmãos gêmeos iguais em temperamento e aparência’.

§163      Nota marginal ao lado de ‘Muitos lá pereceram’ (isto é, ao cruzar o Helkaraxë): ‘A esposa de Turgon foi perdida e ele tinha então apenas uma filha e nenhum outro herdeiro. Turgon quase perdeu a si mesmo em tentativas de resgatar sua esposa – e ele tinha menos amor pelos Filhos de Fëanor do que qualquer outro’.

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Os Anais de Aman – Quarta Seção

The History of Middle-earth X - Morgoth's RingA Valinor tem a honra de publicar a quarta parte de um total de seis que compõem os Anais de Aman,
um longo registro dos acontecimentos desde a criação de Arda até a Criação do Sol e da Lua escrito  pelo próprio J. R. R. Tolkien e publicado no The History of Middle-earth 10. Esta quarta parte (leia também a primeira, a segunda e a terceira) engloba o período desde a Libertação de Melkor até a Destruição das Árvores.
Quarta Seção dos Anais de Aman
[Esta seção dos Anais possui uma grande quantidade de mudanças feitas durante a escrita, e também várias alterações e adições - algumas substanciais - que certamente parecem pertencer basicamente à mesma época. Estas foram incorporadas ao texto fornecido aqui, com detalhes das alterações mais importantes registrados nas notas que se seguem. Algumas poucas adições curtas que são decididamente posteriores estão colocadas nas notas.]

1179

§78 Fëanor, filho mais velho de Finwë, nasceu em Tirion sobre Túna. Sua mãe foi Byrde Míriel (1).


§79 Então os Noldor (2) passaram a apreciar todos os conhecimentos e todos os trabalhos práticos e Aulë e seu povo vinham com freqüência entre eles. Mas tal era a habilidade que Ilúvatar dera a eles que, em muitos aspectos, especialmente naqueles que demandavam destreza e grande qualidade no trabalho manual, eles logo ultrapassaram seus professores. É dito que a este tempo os construtores da Casa de Finwë, escavando as montanhas em busca de pedras para suas construções (pois eles apreciavam a construção de altas torres), descobriram pela primeira vez as gemas da terra, nas quais a Terra de Aman eram, de fato, incrivelmente ricas. E seus artífices desenvolveram ferramentas para cortar e modelar as gemas, as esculpiram em muitas formas de radiante beleza e não as guardavam em tesouros mas as davam livremente para todos que as desejassem, e toda Valinor foi enriquecida por seus trabalhos (3).

§80 Neste ano Rúmil, o mais renomado dos mestres do conhecimento da fala, criou pela primeira vez letras e começou a registrar em escrita os idiomas dos Eldar e suas canções e sabedoria (4).


1190

§81 Neste ano nasceu Fingolfin filho de Finwë, que mais tarde foi Rei dos Exilados.


1230

§82 Finrod filho de Finwë nasceu.


1250

§83 A este tempo começou a se desenvolver a habilidade de Fëanor filho de Finwë, que era dentre todos os Noldor o maior criador e artífice. E ele pensou e desenvolveu novas letras, melhorando os sistemas de Rúmil, e estas letras os Eldar têm usado desde aquele dia. Isto foi senão o início dos trabalhos de Fëanor. Ele amava grandemente as gemas, e ele começou a estudar como, pela habilidade de sua mão e mente, ele poderia fazer outras maiores e mais brilhantes do que aquelas escondidas na terra (5).

§84 [A este tempo também, é dito entre os Sindar, os Naugrim (6) a quem também chamamos os Nornwaith (os Anões) vieram por sobre as montanhas para Beleriand e foram conhecidos pelos Elfos. E os Anões eram grandes ferreiros e construtores, sendo, de fato (assim se acredita) trazidos à existência por Aulë; mas antigamente pouco beleza havia em suas obras. Portanto cada povo teve grande benefício no outro, embora sua amizade sempre tenha sido fria. Mas àquele tempo não havia desavenças entre eles e o Rei Thingol deu-lhes as boas-vindas, e os Barbalongas de Belegost ajudaram-no na escavação e construção dos grandes salões de Menegroth, onde ele passou a morar com Melian, sua Rainha. Assim disse Pengolod] (6)

1280

§85 Neste ano Finrod filho de Finwë casou-se com Ëarwen filha do Rei Olwë de Alqualondë, e houve uma grande desta na terra dos Teleri. Portanto os filhos de Finrod, Inglor e Galadriel, eram parentes do Rei Thingol Capacinzenta em Beleriand.

1350

§86 [A este tempo, parte dos Elfos perdidos do povo de Dân após longas andanças chegaram a Beleriand a partir do Sul.  Seu líder era Denethor filho de Dâ, e ele os conduziu a Ossiriand onde sete rios corriam das Montanhas de Lindon. Estes são os Elfos Verdes. Eles tinham a amizade de Thingol. Quoth Pengolod.](8)

1400

§87 Veio a acontecer que Melkor residiu sozinho sob Mandos forçadamente pelas três eras definidas pelos Valar, e veio ante seu conclave ser julgado. E Melkor implorou por perdão aos pés de Manwë, humilhou-se, jurou seguir suas regras e a ajudar os Valar de todas as formas que pudesse pelo bem de Arda e o benefício dos Valar e dos Eldar, se a ele fosse concedida liberdade e um lugar como o último dentre todos os povos de Valinor.

§88 E Niënna auxiliou no seu pedido (devido ao seu parentesco) e Manwë o concedeu, pois sendo livre de todo o mal ele não viu as profundezas do coração de Melkor, e acreditou em seus juramentos. Porém Mandos ficou em silêncio e o coração de Ulmo ficou em dúvida.

1410

§89 Então Melkor residiu sob vigilância por algum tempo em uma casa humilde em Valmar, e não tinha permissão de andar sozinho livremente. Mas, uma vez que àquele tempo todas as suas palavras e trabalhos eram belos e ele se tornara em todas as formas e aparências como os Valar seus irmãos, Manwë deu a ele liberdade dentro de Valinor. Mas a alegria de Tulkas ficava enevoada sempre que ele via Melkor passar, e as unhas de seus dedos marcavam a palma de suas mãos, devido aos esfoço que fazia para se conter.

§90 E realmente Melkor fora falso e traiu a clemência de Manwë, e usou sua liberdade para espalhar amplamente mentiras e envenenar a paz de Valinor. Então uma sombra caiu sobre a Terra Abençoada e seu Meio Dia dourado passou; mas ainda levaria tempo para que as mentiras de Melkor frutificassem, e os Valar continuaram vivendo em felicidade.

§91 Em seu coração Melkor odiava mais os Eldar, tanto por sua beleza e alegria e porque neles ele via a razão do destaque dos Valar e sua própria queda e humilhação. Portanto mais do que tudo ele fingia amor por eles, procurava suas amizades, e oferecia a eles o serviço de seu conhecimento e trabalho em qualquer grande feito que eles fizessem. E muitos dos Noldor, devido ao seu desejo por todo conhecimento, lhes deram ouvidos e se deliciaram com seus ensinamentos. Mas os Vanyar não se envolveram com ele.

1449

§92 Neste Ano Fëanor começou aquele trabalho que é renomado acima de todos os trabalhos da Eldalië; pois seu coração concebeu as Silmarils, e ele fez muitos estudos e muitos ensaios antes que sua fabricação pudesse começar. E embora Malkor tenha dito mais tarde que Fëanor teve sua instrução naquele trabalho, ele mentiu em seu desejo e sua inveja; pois Fëanor foi conduzido apenas pelo fogo de seu próprio coração, e era ávido e orgulhoso, trabalhando sempre rapidamente e sozinho, não pedindo ajuda e não buscando conselho.

1450



As Silmarilli de Fëanor são feitas

§93 Neste ano as Silmarils ficam completamente prontas, a maravilha de Arda. Como três grandes jóias elas eram em forma. Mas não até o Fim, quando Fëanor deverá retornar, ele que pereceu quando o Sol era jovem e senta-se agora nos Salões da Espera e não virá mais entre sua raça, não antes do Sol passar e a Lua cair, será conhecida a substância com a qual foram feitas. Como o cristal dp diamante ela se parecia mas era mais forte que o adamante, de forma que nenhuma violência dentro dos muros deste mundo pode marcá-la ou quebrá-la. Aquele cristal era para as Silmarils como é o corpo para os Filhos de Ilúvatar: a casa de seu fogo interior, que está dentro dela e também em todas as partes dela, e sua vida. E o fogo interno das Silmarills Fëanor fez com a Luz misturada das Árvores de Valinor que ainda vive nelas, embora as Árvores há muito tenham secado e não brilhem mais. Portanto mesmo na mais completa escuridão as Silmarils brilham por sua própria luz como as estrelas de Varda, e mais, como são de fato coisas vivas, elas se deliciam na luz, a recebem e a dão de volta em tons ainda mais belos que antes.

§94 E todo o povo de Valinor ficou impressionado com o trabalho manual de Fëanor, e ficaram maravilhados e deliciados, e Varda abençoou as Silmarils, de forma que dali em diante nenhum mortal nem coisa maligna ou suja poderia tocá-las, ou seriam marcados e queimados com intolerável dor. E Melkor desejou as Silmarils e a simples memória de sua luz era como um fogo queimando em seu coração.


1450 – 1490

§95 Devido a isso, embora continuasse a dissimular seus propósitos com grande sutileza, Melkor procurava agora ainda mais ansiosamente como poderia destruir Fëanor e encerrar a amizade de Valar e Eldar. Longamente esteve ele trabalhando, e lento e infrutífero era seu esforço inicialmente. Mas aquele que semeia mentiras no final não deixará de ter uma colheita, e de fato logo ele pode descansar do esforço, enquanto outros colhiam e semeavam em seu lugar. Mesmo Melkor encontrou alguns ouvidos que o ouviriam, e algumas línguas que aumentariam o que ouviram. Pois as mentiras de Melkor criavam raízes pela verdade que havia nelas.

§96 Então aconteceu que surgiram murmúrios em Eldamar de que os Valar haviam trazido os Eldar a Valinor por inveja de suas belezas e habilidades, e temendo que eles pudessem crescer fortes demais para serem governados nas terras livres do Leste. E então Melkor predisse a chegada dos Homens, dos quais os Valar ainda não haviam falado aos Elfos, e novamente foi murmurado que os deuses tinham a intenção de reservar os reinos da Terra-média para a raça mais jovem e mais fraca, os quais eles poderiam dominar mais facilmente, destituindo os Elfos da herança de Ilúvatar.

§97 Então finalmente os príncipes dos Noldor começaram a murmurar contra os Valar, e muitos ficaram cheios de orgulho, esquecendo tudo que os Valar os havia ensinado e dado. E naquele tempo (tendo criado ira e orgulho) Melkor falou aos Eldar sobre armas, que antes eles não tinham possuído ou conhecido; pois os arsenais dos Valar foram fechados após o acorrentamento de Melkor. Mas agora os Noldor começaram a fundição de espadas e machados e lanças; e escudos eles fizeram contendo os símbolos de muitas casas e grupos que competiam uns contra os outros.

§98 Um grande ferreiro era Fëanor naqueles dias, e um príncipe orgulhoso e dominante, vigilante de tudo que ele tinha; e Melkor o vigiava. Pois ainda desejava as Silmarils; mas agora raramente Fëanor as trazia à luz, e as mantinha trancadas na escuridão do tesouro de Túna; e ele começou a limitar a visão delas a todos exceto a seu senhor e seus sete filhos. Por isso Melkor lançou novas mentiras de que Fingolfin estava planejando suplantar Fëanor e seu pai aos olhos dos Valar, e conseguiria, pois os Valar estavam aborrecidos pelo fato das Silmarills não terem sido deixadas a seus cuidados. Por essas mentiras disputas surgiram entre os orgulhosos filhos de Finwë e Melkor estava satisfeito; pois tudo ia conforme seu planejamento. E repentinamente os Valar ficaram cientes que a paz de Valinor fora quebrada e as espadas desembainhadas em Eldamar.

1490

§99 Então os Deuses se enfureceram, e eles chamaram Fëanor perante eles. E eles expuseram todas as mentiras de Melkor; mas por ter sido Fëanor o primeiro a quebrar a paz e ameaar violência em Aman ele foi, pelo julgamento deles, banido por vinte (10) anos de Tirion. E ele partiu  e residiu ao norte de Valinor perto dos salões de Mandos, e construiu um novo tesouro e forte em Formenos, e grande riqueza em jóias ele colocou no tesouro, e as Silmarils foram trancadas em uma sala de ferro. E para este lugar veio Finwë, pelo amor que dedicava a Fëanor, e Fingolfin governou os Noldor de Túna. Desta forma as mentiras de Melkor foram aparentemente feitas verdade, e o amargor que ele criou permaneceu por muito tempo entre os filhos de Fingolfin e Fëanor.

§100 Diretamente do Círculo do Destino Tulkas foi rapidamente colocar as mãos em Melkor, mas Melkor sabendo que seus esquemas foram revelados (11) ocultou-se, e uma nuvem estava ao redor dele, e pareceu ao povo de Valinor que a luz das Árvores tornou-se mais fraca do que costumava ser, e as sombras eram mais negras e longas.

1492

§101 E é dito que Melkor não foi visto novamente por algum tempo; mas repentinamente ele apareceu ante as portas da casa de Finwë e Fëanor em Formenos e buscou falar com eles. E disse a eles: Contemplem a verdade de tudo que eu falei, e como você está, de fato, banido injustamente. E não pense que as Silmarils estejam seguram em qualquer tesouro dentro do reino dos deuses. E se o coração de Fëanor ainda é livre e corajoso como suas palavras o foram em Túna, então eu irei ajudá-lo e levá-lo para longe desta terra estreita. Pois não sou eu um Vala tal como eles? Sim, e mais do que eles, e sempre fui um amigo dos Noldor, o mais habilidoso e valoroso de todos os povos de Arda.

§102 Então o amargor aumentou no coração de Fëanor e se encheu com medo pelas Silmarils, e naquele estado de espírito permaneceu. Mas as palavras de Melkor tocaram fundo demais, e despertaram um fogo mais terrível do que ele pretendia; e Fëanor olhou para ele com olhos brilhantes, e veja! viu através da aparência de Melkor e vislumbrou as secritudes de sua mente, percebendo ali o desejo pelas Silmarils. Então o ódio suplantou todo o medo e ele amaldiçoou Melkor e ordenou sua partida. ‘Partais de meu portão, andarilho (12), corvo da prisão de Mandos’, disse ele, e fechou as portas de sua casa no rosto do mais poderoso de todos os habitantes de Ëa.

§103 E àquele tempo, estando ele próprio em perigo, Melkor partiu, consumido pela raiva, e vingança amarga ele planejou por sua humilhação. E Finwë se encheu com grande medo e rapidamente enviou mensageiros a Manwë em Valmar.

§104 Então Oromë e Tulkas partiram em perseguição a Melkor, mas antes que tivessem cavalgado longe mensageiros chegaram de Eldamar, relatando que Melkor fugira através do Kalakiryan (13), passando pela colina de Túna em fúria, como uma nuvem de tempestade. Com a fuga de Melkor a sombra foi retirada de Valinor e por algum tempo toda a terra foi bela novamente. Mas os deuses procuraram em vão por sinais de seu inimigo, e dúvida desceu sobre seus corações sobre qual seria o novo mal que ele poderia tentar.

§105 É dito que Melkor chegou à região escura de Arvalin. Aquela terra estreita ficava ao sul da Baía de Eldamar, mas a leste das montanhas das Pelóri, e seu longo e melancólico litoral se estendia até o Sul do mundo, sem luz e inexplorado. Ali, entre os lisos muros das montanhas e o Mar frio e escuro, as sombras eram as mais profundas do mundo. E ali secretamente Ungoliantë fizera sua morada. De onde viera nenhum dos Eldar sabe, mas talvez ela tenha vindo para o Sul das escuridões de Ëa, no tempo em que Melkor destruiu as luzes de Illuin e Ormal, e devido às suas moradas no Norte a atenção dos Valar foi voltada principalmente para lá e o Sul ter ficado por muito tempo esquecido. Dali ela ela rastejava lentamente em direção ao reino de luz dos Valar. Pois ela ansiava pela luz e a odiava. Em uma fenda profunda das montanhas ela residia, e tomou forma como se fosse uma aranha monstruosa, sugando toda a luz que podia encontrar ou que passava por sobre os muros de Valinor, e a lançava de volta na forma de teias negras de opressiva escuridão, até que nenhuma luz pudesse mais chegar à sua morada e ela estivesse faminta.

§106 Pode muito bem ser que Melkor, se nenhum outro, soubesse dela, sua existência e sua morada, e que ela fosse no início um daqueles que ele corrompeu a seu serviço. E chegando finalmente a Arvalin, procurou por ela e exigiu ajuda em sua vingança. Mas ela estava relutante em enfrentar os perigos de Valinor e a grande fúria  dos deuses, e não partiria de seu esconderijo antes de Melkor ter jurado dar a ela uma recompensa que curaria a persistente dor de sua fome e raiva.

1495

§107 E finalmente tendo organizado bem seus planos Melkor e Ungoliantë partiram. Uma grande escuridão que Ungoliantë tecera estava ao redor deles, e cordas negras ela também lançara e fixara entre as rochas e depois de longo esforço, de teia a teia, ela escalou finalmente até o pico de Hyarantar, que é o mais alto pináculo das montanhas ao sul de Taniquetil. Lá, de fato (exceto por aquela torre de vigia do Sul), as Pelóri era menos imponentes e menor era a vigilância dos Valar, pois eles tinha sempre estado em guarda principalmente contra o Norte.

§108 Então Ungoliantë teceu uma escada de cordas e a lançou para baixo, Melkor a escalou e então chegou àquele local elevado, de onde podia observar o Reino Vigiado abaixo. E abaixo ficavam as verdejantes florestas selvagens de Oromë, e longe no oeste os brilhantes campos e pastos de Yavanna, de um dourado pálido abaixo dos altas plantações de grãos dos deuses. E Melkor olhou para o norte, e viu ao longe a planície radiante, os domos prateados de Valmar reluzindo na junção das luzes de Telperion e Laurelin. Então Melkor gargalhou alto e desceu rapidamente ao longo da encosta oeste; Ungoliantë estava a seu lado e sua escuridão os cobria.

§109 Ora, era um tempo de festival, como Melkor bem sabia. Pois, embora todas as marés e estações estivessem sob a vontade dos Valar e não existisse em Valinor inverno de morte, os deuses residiam então no reino de Arda que não era mais do que um pequeno reino nos salões de Ëa, cuja vida é Tempo, que flui sempre desde a primeira nota ao último acorde de Eru. E era então o prazer dos Valar (como dito no Ainulindalë) vestirem-se nas formas dos Filhos de Ilúvatar, e comiam e eles bebiam e colhiam os frutos de Yavanna, e retiravam força da Terra a qual sob Eru eles fizeram.

§110 Portanto Yavanna fixou tempos para o florescer e a maturação de todas as coisas que crescem: crescimento, florescimento e tempo da semente. E de cada primeiro colher de frutos Manwë fazia um clímax de exaltação a Eru, e todo o povo de Valinor externava sua felicidade em música e canção. E tal era esta hora; e Manwë, esperando de que fato a sombra de Melkor tivesse sido removida da terra, e temendo nada pior do que, talvez, uma nova guerra com Utumno e uma nova vitória para encerrar tudo, decretou que esta comemoração deveria ser mais gloriosa do que qualquer outra feita desde a chegada dos Eldar. Ele também desejou curar o mal que surgiu entre os Noldor, e todos eles foram chamados, por isso, para ir até ele e compartilhar com os Maiar em seus salões sobre o Taniquetil e lá deixar de lado todos os pesares que permaneciam entre seus príncipes e esquecer de uma vez por todas as mentiras de seu Inimigo.

§111 Lá foram os Vanyar, e lá foram os Noldor, e os Maiar estavam reunidos, e os Valar estavam adornados em sua beleza e majestade, e cantaram ante Manwë em seus altos salões, ou se divertiram sobre as encostas gramadas a oeste do Taniquetil , em direção às Árvores. Naquele dia as ruas de Valmar estavam vazias e as escadas de Túna silenciosas, apenas os Teleri além das montanhas continuavam cantando no litoral do Mar, pois eles se importavam pouco com estações ou tempos, e não pensavam nas preocupações dos Regentes de Arda ou na sombra que caíra sobre Valinor, pois ela não os tocara, ainda.

§112 Apenas uma coisa maculou os desígnios de Manwë. Fëanor de fato veio, pois apenas a ele Manwë comandou que viesse; mas Finwë não veio nem nenhum outro dos Noldor de Formenos. Pois disse Finwë, ‘Enquanto o banimento permanecer sobre Fëanor meu filho, que ele não possa ir a Túna, eu me mantenho afastado da coroa, e não encontrarei meu povo, nem aqueles que governam em meu lugar’. E Fëanor não foi em vestimentas de festival, e não usava nenhum ornamento, nem prata nem ouro nem nenhuma gema; e vetou a visão das Silmarils aos Eldar e Valar, e as deixou trancadas nas escuridão de sua sala de ferro. Contudo, ele encontrou Fingolfin ante o trono de Manwë e se reconciliou em palavras, e Fingolfin colocou um fim ao desembainhar da espada.

§113 É dito que enquanto Fëanor e Fingolfin estavam perante Manwë, ocorreu a União das Luzes e ambas as Árvores estavam brilhando e a silenciosa cidade de Valmar foi preenchida com radiância como de prata e ouro, e naquela hora Melkor e Ungoliantë vieram à planície e pararam à frente do Monte Verdejante. Então Melkor veio e com sua lança negra feriu cada Árvore até seu centro, um pouco acima das raízes, e suas seivas escorreram, como se fosse seu sangue, e se esparramaram sobre o chão. E Ungoliantë a sugou, e indo então de Árvore a Árvore ela colocou seus lábios imundos em suas feridas, até que estivessem exauridas; e o veneno que existia nela passou para seus corpos e as murchou; e elas morreram. E Ungoliantë continuava sedenta, e foi aos Vasos de Varda e tomou deles até secarem; e Ungoliantë expelia vapores negros enquanto bebia, e cresceu para uma forma tão vasta e horrível que mesmo Melkor ficou aterrorizado.

§114 Então a Escuridão caiu sobre Valinor. De todos os feitos daquele dia muito é dito no Aldudénië (o Lamento pelas Árvores) que Elemírë dos Vanyar compôs e é conhecido de todos os Eldar. Mas nenhuma canção ou conto poderia conter todo o pesar e terror que então caiu. A Luz falhou, e isto era já era calamidade suficiente, mas a Escuridão que se seguiu era mais do que a perda de luz. Naquela hora foi criada a Escuridão que parecia não ausência mas uma coisa com existência própria: pois era de fato feita por malícia a partir da Luz, e tinha o poder de atingir os olhos, adentrar coração e mente, e estrangular a própria vontade.

§115 Varda olhou para baixo da Montanha Sagrada e contemplou a Sombra subindo em repentinas torres de escuridão; Valmar foi encoberta em um profundo mar de noite. Logo Taniquetil ficou sozinho, como uma última ilha de luz em um mundo que afundara. Toda música cessou. Houve silêncio em Valinor e nenhum som podia ser ouvido, exceto apenas aquele de longe que vinha com o vento através da fenda nas montanhas, o lamento dos Teleri como o grito frio das gaivotas. Pois ventou gelado do Leste naquela hora, e as vastas sombras do Mar se voltaram contra os muros do litoral.

§116 E Manwë de seu alto trono olhou, e apenas seus olhos atravessavam a escuridão, e viu ao longe como uma Escuridão além do escuro se movia para o norte pela terra, e ele soube que Melkor estava lá. Então a perseguição começou, e terra tremeu sob os cavalos da hoste de Oromë, e o fogo que saiu dos cascos de Nahar foi a primeira luz que retornou a Valinor. Mas tão logo quanto chegavam à Nuvem de Ungoliantë os cavaleiros dos Valar eram cegados e desencorajados, e se separaram e não sabiam mais para onde ir; e o som da Valaróma hesitou e falhou.  E Tulkas era como um homem pego em uma teia negra na noite, e ele ficou impotente e golpeava o ar em vão. E quando a Escuridão passou, era tarde demais: Melkor tinha ido para onde queria, e sua vingança estava totalmente realizada.


NOTAS


1.
Este registro é uma substituição antiga, o registro original, referente ao casamento de Finrod e Ëarwen filha de Olwë, reaparece em forma bastante no manuscrito como originalmente escrito sob o ano de 1280. Mais tarde, com caneta esferográfica, meu pai alterou a data deste registro para 1169 e adicionou novos registros para 1170, ‘Míriel adormeceu e passou para Mandar’, e 1172 ‘Julgamento de Manwë com relação aos casamentos dos Eldar’. Sobre estes assuntos ver nota 4 abaixo. os novos registros aparecem na versão datilografada original.


2.
O nome Noldor é aqui escrito com um til, Noldor (representando a nasal posterior, o ng de king, ver HoME IV). Esta se tornou a forma normal em todos os escritos tardios de meu pai, embora frequentemente omitido de maneira casual (nenhum de seus datilógrafos possuía este sinal); ele não é representado na escrita do nome Noldor neste livro.


3.
A parte final deste trecho, referente às gemas, é em grande parte uma adição. Como inicialmente escrito, tudo que foi dito sobre o assunto era:

É dito que a por volta desta época os artífices da Casa de Finwë (de quem Fëanor seu filho mais velho era o mais habilidoso) primeiramente divisaram gemas, e toda Valinor foi enriquecida por seus trabalhos.

Ver nota 5.


4.
Um novo registro foi adicionado aqui ao mesmo tempo daqueles dados na nota 1: ‘1185 Finwë se casa com Indis dos Vanyar’.


5.
Esta sentença (‘Ele amava grandemente as gemas…’) é uma adição acompanhando a mudança e expansão citadas na nota 3.


6.
Naugrim foi escrito a lápis sobre o original Nauglath (o qual, contudo, não foi riscado), e a palavra ‘também’ (em ‘a quem também chamamos’) adicionada ao mesmo tempo.


7.
Esta interpolação feita em Beleriand por Pengolod, entre colchetes no original, foi uma adição ao manuscrito; confira nota 8. Ao lado dela meu pai mais tarde escreveu a lápis: ‘Transferir para os A[nais] de B[eleriand]‘.


8.
Esta interpolação de Pengolod, entre colchetes, foi uma adição ao manuscrito; e como aquela citada na nota 7 foi marcada mais tarde para ser transferida para os Anais de Beleriand. O nome do líder dos Nandor foi inicialmente escrito Enadar, alterado imediatamente para Denethor (o nome em AV2, QS e o Lhammas).

Mas tarde meu pai adicionou aqui a lápis um novo registro, para 1362: ‘Aqui nasceu Isfin filha de Fingolfin, a Dama Branca dos Noldor’ (ver nota 9).

9. Uma adição rápida a tinta, subsequentemente riscada, dá um registro para 1469: ‘Aqui nasceu a primeira filha de Fingolfin, a Dama Branca dos Noldor’ (ver nota 8). Não é dito em outro lugar que Fingolfin tinha outra filha além de Isfin.


10.
O manuscrito tem ‘três’ o ‘ten’ > ‘vinte’ (Anos dos Valar).


11.
Do inglês bewrayed: ‘revelado’, ‘traído’.


12.
Do inglês gangrel (‘vagabundo’) substituindo beggarman (‘pedinte’, ‘mendigo’).


13.
Meu pai inicialmente escreveu Kalakilya, a forma antiga, mas alterou-a imediatamente para Kalakirya; -n foi adicionado mais tarde (ver §67).


Comentários sobre a quarta seção dos


Anais de Aman
Esta seção dos Anais corresponde em conteúdo ao Capítulo 4 de QS ‘Das Silmarils e o Escurecimento de Valinor‘ (HoME V), e a AV 2 registros 2500 até o começo de 2990 (HoME V). O registro em AAm não tem comparação com o rápido AV 2, e representa um impulso totalmente diferente; de fato, nesta seção nós vemos a forma de registros desaparecendo enquanto narrativas completas surgem. Com frequentemente no caso dos trabalhos de meu pai, a história toma conta e se amplia seja quais forem as restrições de forma que ele optou. A nova narrativa tem o dobro do tamanho daquela em QS, à qual é relacionada em estrutura. Em expressão é quase inteiramente nova, mas mesmo assim uma comparação entre eles mostrará que AAm tende antes a uma maior definição da narrativa do que a mudanças significativas na estrutura ou novas adições notáveis – embora ambas estejam presentes. Os comentários a seguir de forma alguma têm a intenção de serem uma análise de todas as diferenças de ênfase, sugestão e detalhe entre AAm e QS.


§
78 Cedo no AAm, sob o ano 1115, aparecem inserções rejeitadas (ver a Terceira Seção dos Anais de Aman, notas 3 e 5) nas quais estão registradas o nascimento de Fëanor por Indis esposa de Finwë na Terra-média durante a Grande Jornada, e a subseqüente morte dela numa queda nas Montanhas Nebulosas. Escritas com caneta esferográfica estas inserções parecem ser relativamente tardias; aqui, por outro lado, no que parece ser uma adição antiga (escrita cuidadosamente com tinta, veja nota 1 acima), Fëanor nasceu em Tirion, e sua mãe foi Morial, chamada Byrde Míriel (do Inglês antigo byrde ‘bordadeira’). Em adições tardias (notas 1 e 4 acima) é registrado que em 1170 Míriel ‘adormeceu’ e passou para Mandos e em 1185 Finwë casou-se com Indis dos Vanyar.

§79 Em um ponto do começo de QS (§40) é dito que os Noldor ‘desenvolveram a criação de gemas'; similarmente em AV 2 (HoME V) eles ‘inventaram gemas’ e novamente em Ainulindalë B (HoME V). Esta idéia é encontrada em todos os textos antigos, retrocedendo até o elaborado registro no antigo conto de ‘A Chegada dos Elfos‘ (ver HoME I). No período posterior ela sobreviveu na versão final D do Ainulindalë (§35), e continua presente inicialmente em AAm (ver nota 3 acima). A reescrita deste trecho rejeita a idéia de ‘invenção': as gemas dos Noldor foram minadas em Aman.


§80 A associação dos Noldor com escrita alfabética retorage até os Contos Perdidos, onde esta arte é associada principalmente a Aulë (HoME I); ‘naqueles dias Aulë auxiliado pelos Gnomos desenvolveu alfabetos e escritas’ (HoME I). No Ainulindalë B (HoME V) os Noldor ‘acrescentaram muito aos ensinamentos [de Aulë] e tinham grande prazer em idiomas e alfabetos’, e isto sobreviveu em versões posteriores. Agora Rúmil e (em §83) Fëanor surgem como os grandes inventores. Confira O Senhor dos Anéis, Apêndice E (II):

Os Tengwar… foram desenvolvidos pelos Noldor, a família dos Eldar mais habilodosa em tais assuntos, muito antes de seu exílio. As letras Eldarin mais antigas, os Tengwar de Rúmil, não foram usadas na Terra-média. As letras posteriores, os Tengwar de Fëanor, foram amplamente uma invenção nova, embora devesse algo às letras de Rúmil.

Se Rúmil foi o autor dos Anais de Aman, como é dito no preâmbulo, ele está aqui se descrevendo com as palavras ‘mais renomado dos mestres de conhecimento de idiomas’.


§82 Finrod: nome inicial de Finarfin (Finarphin).


§84 A forma Nauglath (ver nota 6) é, curiosamente, uma reversão ao nome original em Gnômico para os Anões no Contos Perdidos (ver HoME I), embora Naugrim ocorra como uma forma original em QS em um ponto posterior na narrativa (§122). [A entrada Naugrim foi inadvertidamente excluída do índice para o HoME V. As referências são 273, 277, 405.] – Sobre o nome Sindar veja §74.

Sobre referências antigas aos Anões em Beleriand veja IV.336; como eu comentei lá, a afirmação na segunda versão do primeiro Anais de Beleriand (HoME IV) de que os Anões tinham ‘de antigamente’ uma estrada para Beleriand é o primeiro sinal da idéia posterior de que os Anões tinham estado ativos em Beleriand muito antes do Retorno dos Noldor. Mas o presente trecho é a primeira referência aos Anões ajudando Thingol na escavação e contrução de Menegroth. – A lenda da criação dos Anões por Aulë é citada nos textos do período inicial: AB 2 (HoME V), o Lhammas (HoME V e comentários) e QS (§123 e comentários).


§85 Aqui aparece o importante desenvolvimento de acordo com o qual os príncipes da Terceira Casa dos Noldor se tornaram próximos a Thingol de Doriath (Elwe Singollo, irmão de Olwë de Alqualondë, §58); e Galadriel é introduzida dO Senhor dos Anéis. Confira Apêndice F (I, Dos Elfos): ‘A dama Galadriel da casa real de Finrod, pai de Felagund, Senhor de Nargothrond’ (uma afirmação que foi alterada na Segunda Edição de O Senhor dos Anéis, quando Finrod se tornou Finarphin e Inglor se tornou Finrod (Felagund)).

§86 Em AV 2 (HoME V, também em uma interpolação de Pengolod) e em QS (§115) os Elfos sob Denethor não chegaram a Beleriand ‘a partir do Sul’, mas por sobre as Montanhas Azuis; o significado aqui provavelmente é que eles cruzaram as montanhas em uma região ao sul de Ossiriand. Não haviam sete rios correndo das montanhas, mas seis: o sétimo rio de Ossiriand era o grande rio Gelion, para o qual os seis fluíam.


§88 devido ao seu parentesco: em AAm §3 (assim como em AV 2 e em QS §9) Niënna era ‘irmã de Manwë e Melkor’. Em AAm* ela é dita ser apenas irmã de Manwë.

§92 Em AV 2 duas eras se passaram (A.V. 2500 – 2700) entre a criação das Silmarils e a libertação de Melkor; da maneira similar em QS (§§46-7). Em AAm a relação dos dois é invertida, com a libertação de Melkor colocada no Ano das Árvores 1400 e o término das Silmarils em 1450.

§93 Com o que é dito aqui sobre o destino de Fëanor confira QS §88: ‘tão cheio de fogo era seu espírito que seu corpo se transformou em cinzas assim que seu espírito partiu; e nunca mais apareceu sobre a terra nem deixou o reino de Mandos’.

§87 Sobre a ignorância dos Elfos com relação a armas ver §97.

§98 Nenhuma menção é feita em QS (§52) das dissensões chegando a ponto de desembainhar espadas. Em AAm §112 ‘Fingolfin colocou um fim ao desembainhar da espada’, e na margem do texto datilografado a este ponto meu pai escreveu ‘se refere a que?’. Uma expansão posterior do capítulo no QS, próxima em tempo à escrita de AAm, conta que Fëanor ameaçou Fingolfin com a espada desembainhada (§52); e em vista de §112 parece provável que isto tenha sido inadvertidamente omitido aqui.


§99 O termo do banimento de Fëanor (ver nota 10 acima) não é citado em textos mais antigos. O nome formenos agora aparece, em uma adição ao texto.


§102 o mais poderoso de todos os habitantes de Ëa: ver §2.


§105 O tempo da chegada de Ungoliantë a Arda é colocado (como uma suspeita) junto com a entrada de Melkor e sua hoste antes da derrubada das Lâmpadas (ver §19). Compare ‘talvez ela tenha vindo para o Sul das escuridões de Ëa’ com QS §55: ‘da Escuridão Exterior, talvez, aquela que se estende além das Muralhas do Mundo’.


§106 Embora novamente colocada como uma suspeira, a origem de Ungoliantë é agora encontrada em sua antiga corrupção por Melkor, e é sugerido que ele foi para Arvalin com o próximo definido de encontrá-la.

§107 A alta montanha na cadeia sul das Pelóri agora recebe um nome, Hyarantar (mais tarde substituído por Hyarmentir).

§109 No Contos Perdidos a razão do grande festival era a comemoração da chegada dos Eldar a Valinor (HoME I), mas em textos posteriores sua razão não é especificada. Agora um novo e notável registro é dado, com uma referência à passagem no Ainulindalë (§25) onde as formas visíveis assumidas pelos Valar em Arda são descritas; e aqui a idéia destas ‘formas’ é ampliada (como parece) ao ponto onde os grandes espíritos podem comer, e beber, e ‘retirar força da Terra’. Completamente nova também nesta passagem é o elelemtno do propósito de Manwë em obter concórdia entre os Noldor.

§112 Em QS (§60) Fëanor estava presente ao festival na Taniquetil; agora entra a história de que ele foi sozinho de Formenos, sendo comandado a fazê-lo por Mnwe, em vestimentas sóbrias, que Finwë se recusou a ir enquanto seu Filho vivesse em banimento, e que Fëanor se reconciliou ‘em palavras’ com Fingolfin perante o trono de Manwë. A este ponto, é claro, Fëanor e Fingolfin ainda eram irmãos (e não meio-irmãos).

§114 Não há sinal do texto Aldudénië entre os papéis de meu pai. Compare a passagem relativa à Escuridão que veio com a extinção da Luz das Árvores com o Ainulindalë §19: ‘e pareceu [aos Ainur] que naquele momento eles perceberam uma nova coisa, Escuridão, a qual eles não conheciam antes, exceto em pensamento’.

§116 Sobre o chifre Valaróma de Oromë ver Ainulindalë D, §34.


*

Há um grande número de notas e alterações feitas no texto datilografado, algumas acrescentadas pelo datilógrafo sob a instrução de meu pai; mas apenas algumas poucas precisam ser registradas.


§78 Os dois novos registros dados na nota 1 acima, e aquele na nota 4, aparecem no texto datilografado original.

§81 Após a entrada para 1190 uma nova entrada foi acrescentada para o ano 1200: ‘Luthien nasce’ (com uma interrogação).

§84 Um espaço em branco é deixado no texto datilografado onde o manuscrito tem Naugrim escrito sobre Nauglath, possivelmente porque o datilógrafo não sabia qual forma colocar (ver nota 6). O espaço em branco não foi preenchido, mas o nome Nornwaith que se segue foi riscado.

§85 Após o registro para 1280 as seguintes entradas Beleriândricas foram colocadas:

1300    Daeron, mestre do conhecimento de Thingol, desenvolve as Runas
Turgon, filho de Fingolfin, e Inglor, filho de Finrod, nascem.

1320    Os Orcs aparecem pela primeira vez em Beleriand

§86 Após o registro para 1350 duas entradas foram adicionadas:

1362    Galadriel, filha de Finrod, nasce em Eldamar Isfin, Dama Branca dos Noldor, nasce em Tirion

A segunda destas aparece como uma adição a lápis ao manuscrito (nota 8).

§97 Ao lado das palavras ‘Melkor falou aos Eldar sobre armas, que antes eles não tinham possuído ou conhecido’ meu pai escreveu no texto datilografado: ‘Não! Eles devem ter possuído armas na Grande Jornada’. Compare com a passagem em QS sobre este assunto (nota de rodapé para o §49): ‘Os Elfos antes haviam possuído apenas armas de caça, lanças e arcos e flechas’.

§99 A duração do banimento de Fëanor foi alterado mais uma vez (ver nota 10), de ‘vinte’ para ‘doze’.

§113 Após ‘o Monte Verdejante’ foi adicionado: ‘de Ezellohar’. Este nome foi acrescentado em ocorrências anteriores: §25. ‘Os Vasos de Varda’ se tornaram ‘Os Poços de Varda'; ver §28.

§114 O datilógrafo leu incorretamente Elemírë, e meu pai corrigiu o erro para a forma Elemmírë.

Eu não sei qual intenção está por trás da introdução dos registros Beleriândricos dados sob §§81,85 acima.

Os Anais de Aman – Terceira Seção

The History of Middle-earth X - Morgoth's Ring
A Valinor tem a honra de prosseguir com a publicação da tradução dos Anais de Aman,
um longo registro dos acontecimentos desde a criação de Arda até a
Criação do Sol e da Lua escrito  pelo próprio J. R. R. Tolkien e publicado no The History of Middle-earth 10. O texto está dividido em seis partes,
publicadas quinzenalmente na Valinor (a primeira se encontra aqui e a segunda aqui). Esta terceria parte engloba o período desde o Acorrentamento de Melkor até a partida do último Vanyar de Tirion.
 
 

Terceira Seção dos Anais de Aman


1100

 
O Acorrentamento de Melkor


$51    Então os Valar retornaram à Terra de Aman, e Melkor foi levado cativo, com pés e mãos amarrados e olhos vendados; e foi levado ao Círculo do Destino. Lá se atirou sobre o próprio rosto aos pés de Manwë,  pediu perdão e liberdade, relembrando seu parentesco com Manwë. Mas seu pedido foi negado, e é dito que naquela hora os Valar teriam de bom grado o condenado à morte. Mas morte ninguém poderia impor a qualquer um da raça dos Valar, nem ninguém podia, à exceção de Eru, removê-los de Eä, o Mundo que é, eles desejando ou não. Portanto Manwë colocou Melkor na prisão, e ele foi encerrado na fortaleza de Mandos, de onde ninguém pode escapar.

$52    E os Valar condenaram Melkor a permanecer lá por três eras de Valinor, quando então deveria retornar e ser julgado por seus pares, e pedir novamente perdão. E isto foi feito, e a paz retornou ao reino de Arda; e este foi o Meio Dia do Reino Abençoado. Mas muitas coisas malignas que haviam fugido da ira dos Senhores do Oeste ainda vagavam pela Terra-média, ou estavam escondidas nas profundezas da terra. Pois os porões de Utumno eram muitos e dissimuladamente ocultos, e nem todos foram descobertos pelos Valar.

1101

$53    Então os Valar sentaram-se novamente em Conselho e debateram o que deveriam fazer para o conforto e condução dos Filhos de Ilúvatar. E finalmente, devido ao grande amor que os Valar tinham pelos Quendi, enviaram chamados a eles, requisitando que se mudassem e morassem em felicidade em Aman e na Luz das Árvores. E Oromë levou a mensagem dos Valar a Kuiviénen.


1102

$54    Os Quendi ficaram consternados com os chamados dos Valar, e não estavam dispostos a partir da Terra-média. Portanto Oromë foi enviado de novo a eles, e escolheu dentre eles embaixadores que deveriam ir a Valinor e falar por seu povo. Mas apenas três dos líderes dos Quendi estavam dispostos a se aventurar na jornada: Ingwë, Finwë e Elwë, que mais tarde se tornaram reis.


$55
    Os três senhores Élficos foram levados, portanto, a Valmar, e lá falaram com Manwë e os Valar; e ficaram maravilhados, e a beleza e o esplendor da terra de Valinor sobrepujou seus medos, e eles desejaram a Luz das Árvores.


1104

$56    E após terem residido em Valinor por algum tempo Oromë os levou de volta a Kuiviénen, e eles falaram a seus povos e os aconselharam a acatar os chamados dos Valar e mudar para o Oeste.

1105

$57    Então ocorreu a primeira divisão do povo Élfico. Pois o povo de Ingwë e a maior parte dos povos de Finwë e Olwë foram convencidos pelas palavras de seus senhores e estavam dispostos a partir e seguir Oromë. Estes ficaram conhecidos para sempre como os Eldar, o nome que Oromë deu na própria língua deles. Mas os povos de Morwë e Nurwë não estavam dispostos a partir e recusaram os chamados, preferindo a luz das estrelas e os amplos espaços da Terra aos rumores sobre as Árvores. Estes eram os que residiam mais longe das águas de Kuiviénen, vagando pelas colinas, e não haviam visto Oromë em sua primeira vinda e dos Valar eles não sabiam mais do que formas e rumores de fúria e poder enquanto marchavam para a guerra. E possivelmente as mentiras de Melkor sobre Oromë e Nahar (que acima foram relembradas) ainda vivessem entre eles, de forma que eles o temiam como a um demônio que os devoraria (1). Estes são os Avari, os Relutantes, e eles foram separados àquele tempo dos Eldar,  e não mais se encontraram até muitas eras terem passado.


$58
    Os Eldar então se prepararam para sua Grande Marcha, e partiram em três grupos. Primeiro vieram os Vanyar, os mais ávidos pela estrada, o povo de Ingwë. A seguir vieram os Noldor, um grupo maior (embora alguns tenha ficado para trás), o povo de Finwë. Por último vieram os Teleri, e eles eram os menos dispostos. Mesmo assim o grupo deles que começou a Marcha era o maior de todos, e por isso tinham dois senhores: Elwë Singollo e Olwë, seu irmão. E quando tudo foi preparado Oromë cavalgou Nahar à frente deles, branco sob a luz das estrelas. E eles começaram sua longa jornada e passaram pelo Mar de Helkar onde eles viraram um pouco a oeste (2). E é dito que adiante deles ainda havia grandes nuvens negras no Norte, sobre as ruínas da guerra, e as estrelas naquela região estavam ocultas. Então não poucos ficaram com medo e se arrependeram e voltaram e estão esquecidos.

1115

$59    Longa e lenta foi a Marcha dos Eldar para o Oeste, pois as léguas da Terra-média eram incalculáveis,  cansativas e sem caminhos. E os Eldar não desejavam se apressar, pois estavam maravilhados com tudo que viam, e em muitas terras e rios eles de bom grado residiriam; e embora todos ainda estivessem dispostos a vagar, não poucos mais temiam o fim de sua jornada do que a desejavam. Portanto, sempre que Oromë partia, como às vezes ele fazia, tendo outros assuntos a atender, eles paravam e não avançavam mais até que ele retornasse a guiá-los.


$60
    E veio a acontecer que após dez Anos viajando desta forma (que é o mesmo que dizer cerca de cem anos na nossa maneira atual de contar o tempo) os Eldar atravessaram uma floresta e chegaram a um grande rio, maior e mais largo do que todos que já haviam visto. Além dele havia montanhas cujos picos pontiagudos pareciam perfurar o reino das estrelas (3).

$61    Este rio, é dito, era o mesmo rio que mais tarde foi chamado de Anduin o Grande, e foi sempre a fronteira das Terras Ocidentais da Terra-média. E as montanhas eram as Hithaeglir, as Torres de Névoa sobre os limites de Eriador; mas eram mais altas e mais terríveis naqueles dias, pois foram elevadas por Melkor para obstruir as cavalgadas de Oromë (4). Então os Teleri residiram por um longo tempo na margem leste do Rio e desejaram permanecer lá, mas os Vanyar e Noldor atravessaram o Rio com a ajuda de Oromë, e ele os conduziu aos paços das montanhas (5). Mas quando Oromë partiu à frente os Teleri olharam as alturas enevoadas e tiveram medo.


$62
    Então se rebelou um no grupo de Olwë, que sempre foi o mais atrasado na marcha, e seu nome era Nano (ou Dan na língua de seu próprio povo). E ele abandonou a marcha para o oeste, e, conduzindo um povo numeroso, foram para o sul acompanhando o rio e saíram do conhecimento dos Eldar até que muitos anos se passaram. Estes eram os Nandor.


1125

$63    E quando mais dez anos de passaram, os Vanyar e Noldor ultrapassaram finalmente as montanhas que ficavam entre Eriador e a terra mais ocidental da Terra-média, que mais tarde os Elfos chamaram de Beleriand. As companhias mais avançadas passaram sobre o Vale do Sirion e chegaram ao litoral do Grande Mar. Então um grande medo se abateu sobre eles, e muitos se arrependeram amargamente de sua jornada e recuaram para as florestas de Beleriand. E Oromë retornou a Valinor para buscar o conselho de Manwë.


1128

$64    Então o grupo dos Teleri chegou finalmente a Beleriand e residiu na região mais a leste além do Rio Gelion. Eles chegaram a contra-gosto, sendo incentivados por Elwë seu rei; pois ele estava ávido para retornar a Valinor e para a luz que ele vislumbrou (embora seu destino o proibisse); e ele desejou não ser separado dos Noldor, pois tinha grande amizade com Finwë seu senhor.

1130

$65    Há este tempo Elwë se embrenhou nas florestas de Beleriand e se perdeu, e seu povo o procurou longamente em vão. Pois enquanto viajava para casa de um encontro com Finwë, ele passou pelas bordas de Nan Elmoth. Lá ouviu os rouxinóis cantando e foi enfeitiçado, pois eram os pássaros de Melian a Maia, que veio dos jardins de Lórien no Reino Abençoado. E Elwë seguiu os pássaros para dentro de Nan Elmoth, e lá viu Melian parada em uma clareira aberta sob o céu, e uma névoa iluminada pelas estrelas estava ao redor dela. Assim começou o amor de Elwë Capacinzenta e Melian a bela; e ele tomou sua mão e é dito que assim eles permaneceram enquanto as estrelas mediram a passagem de muitos Anos, e as árvores de Nan Elmoth cresceram altas e escuras ao redor deles.


1132

$66    Então Ulmo, pelo conselho dos Valar, veio ao litoral da Terra-média e falou com os Eldar; e devido às suas palavras e à música que fez para eles com suas conchas, seu medo do Mar se transformou em desejo. Então Ulmo e seus servos pegaram uma ilha que por muito permanecera solitária no meio do Mar desde os tumultos com a queda de Illuin, e a moveram, e a trouxeram para a baía cinzenta de Balar, como se fosse um poderoso navio. E os Vanyar e os Noldor embarcaram na ilha, Eressëa, que foi levada sobre o Mar e chegou finalmente à terra de Aman (6). Mas os Teleri permaneceram na Terra-média; pois muitos moravam em Beleriand Leste e não ouviram os chamados de Ulmo até ser tarde demais; e muitos ainda procuravam por Elwë Singollo, seu rei, e não partiriam sem ele. Mas quando os Teleri souberam que Ingwë e Finwë e seus povos haviam partido, eles correram para o litoral e lá residiram desejando estar com seus amigos que partiram. E tomaram Olwë, irmão de Elwë, como seu rei. E Ossë e Uinen foram a eles e fizeram amizade e os ensinaram tudo sobre conhecimento e música do mar. Por isso os Teleri, que desde o início amavam a água e eram os mais belos cantores do povo Élfico, ficaram enamorados dos mares e suas canções eram repletas do som das ondas no litoral.

1133

$67    Neste Ano os Vanyar e os Noldor chegaram a Aman, e a passagem de Kalakiryan (7) foi feita nas Pelóri; e os Elfos tomaram posse de Eldamar, e começaram a construção na colina verdejante de Tuna com vista ao Mar. E sobre Tuna eles levantaram os muros brancos da Cidade Vigilante, Tirion a Sagrada.


1140

$68    Neste ano Tirion estava completamente construída e a Torre de Ingwë foi feita, Mindon Eldaliéva, e sua lâmpada prateada acesa. Mas Ingwë e muitos dos Vanyar ansiavam pela Luz das Árvores, e ele e muitos de sua casa partiram para Valinor, e moraram para sempre com o povo de Manwë. E embora outros dos Vanyar ainda morassem em Tirion por amizade aos Noldor a separação destes grupos e de sua língua começara; pois de tempos em tempos ainda mais dos Vanyar partiam.

1142

$69    Neste ano Yavanna deu aos Noldor a Árvore Branca, Galathilion, imagem da Árvore Telperion, que foi plantada abaixo da Mindon e cresceu e floresceu.

1149

$70    Neste ano Ulmo ouviu aos pedidos de Finwë e voltou à Terra-média para trazer Elwë e seu povo para Aman, se quisessem ir. E a maioria deles de fato agora queria; mas Ossë se entristeceu. Pois seu cuidado era para com os mares da Terra-média e o litoral das Terras de Fora, e ele ia raramente a Aman, a não ser se chamado a conselho; e ele estava descontente que as belas vozes dos Teleri não seriam mais ouvidas na Terra-média. Alguns ele convenceu a ficar, e estes foram os Eldar que por muito habitaram as costas de Beleriand, os primeiros marinheiros sobre a terra e os primeiros construtores de navios. Seus portos eram em Brithombar e Eglarest. Cirdan o Armador era seu senhor.

1150


$71
    Os parentes e amigos de Elwë também não estavam dispostos a partir; mas Olwë estava e finalmente Ulmo tomou a todos que embarcaram em Eressëa e os levou por sobre as profundezas do Mar. E os amigos de Elwë foram deixados para trás e por isso se nomearam, em sua própria língua, os Eglath, o Povo Esquecido. E eles ainda procuravam por Elwë, tristemente. Mas não era seu destino jamais retornar a ver a Luz das Árvores, embora ele desejasse isso grandemente. Mas a Luz de Aman estava na face de Melian a bela, e naquela luz ele estava satisfeito.

1151

$72    Então Ossë seguiu os Teleri e quando eles chegaram à Baía de Eldamar ele os chamou, e eles reconheceram sua voz, e imploraram a Ulmo para interromper sua viagem. E Ulmo permitiu, e a seu comando Ossë fixou a ilha e a enraizou nas fundações do Mar; e lá os Teleri residiriam como quiseram sob a luz das estrelas do céu e ainda assim à vista de Aman e do litoral imortal; e eles podiam ver ao longe a Luz das Árvores ao passar através do Kalakiryan, marcando as ondas escuras com prata e ouro.
                                                                    
$73    Ulmo atendeu o pedido com presteza, pois compreendia o coração dos Teleri, e no conselho dos Valar principalmente ele havia falado contra os chamados, considerando que seria melhor para os Quendi permanecerem na Terra-média. E os Valar ficaram pouco contentes ao saber o que ele havia feito; e Finwë lamentou que os Teleri não viessem e ainda mais quando soube que Elwë fora esquecido, e soube que não o veria novamente, a não ser nos salões de Mandos.


1152

       
$74    A este tempo Elwë Singollo, como é dito, acordou de seu transe, e residiu com Melian nas florestas de Beleriand. E ele era um grande senhor e nobre, o maior em estatura dentre todos os Filhos de Ilúvatar,  como um senhor dos Maiar; e um grande destino estava reservado a ele. Pois ele se tornou um rei renomado, e seu povo era formado por todos os Eldar de Beleriand; eles foram chamados de Sindar, os Elfos Cinzentos, os Elfos do Crepúsculo, e Rei Capacinzenta ele era, Elu Thingol na língua dos Sindar. E Melian era sua Rainha, mais sábia do que qualquer filho da Terra-média; e do amor de Thingol e Melian veio ao mundo o mais belo de todos os Filhos de Ilúvatar que jamais haveria de existir.
                                                            

1161

$75    Veio a acontecer que após os Teleri terem morado na Ilha Solitária por uma centena de anos segundo as nossas contagens seus corações mudaram, e eles foram movidos em direção à Luz que fluía de Aman. Então Ossë (8) ensinou a eles a arte da construção de navios, e quando seus navios estavam prontos ele trouxe, como um presente de despedida, muitos cisnes de asas fortes. E os cisnes puxaram os navios brancos dos Teleri por sobre o mar sem vento. Então finalmente e por último chegaram a Aman e ao litoral de Eldamar, e lá os Noldor os recepcionaram com alegria.

1162

$76    Neste ano Olwë senhor dos Teleri, com a ajuda de Finwë e dos Noldor, começou a construção de Alqualondë, o Porto dos Cisnes, no litoral de Eldamar, a norte do Kalakiryan.


1165

$77    Neste ano o último dos Vanyar partiu de Tirion, e os Noldor residiriam lá sozinhos, e suas conversas e amizade a partir de então foi com os Teleri.

 

NOTAS

1. Esta sentença é uma interpolação no manuscrito, e é uma reescrita de uma interpolação anterior:

    E este, talvez, foi também um dos primeiros resultados das mentiras de Melkor para enganar os Quendi, pois apesar de sua permanência temporária entre eles muitos ainda o temiam e a Nahar sua montaria.

A versão datilografada tem a forma dada no texto.

2. Esta é uma modificação de ‘foram a norte até Helkar ser ultrapassado e depois noroeste’, o texto datilografado tem a sentença modificada.

3. Meu pai acrescentou rapidamente aqui, usando uma caneta esferográfica e portanto aparentemente muito mais tarde (ver p. 102, $78):

    Aqui residiram por um ano, e aqui Indis esposa de Finwë deu a ele um filho, o mais velho de todos da segunda geração dos Eldar. Ele foi inicialmente chamado Minyon Primeiro-nascido, mas depois Curufinwë ou Fëanor.

    Isto foi riscado, talvez tão logo quanto escrito, ver nota 5.

4. ‘e elas foram elevadas por Melkor para obstruir as cavalgadas de Oromë’ é uma adição a lápis que aparece como texto normal na versão datilografado.

5. Adicionado aqui ao texto ao mesmo tempo e da mesma forma que o trecho dado na nota 3 (e riscado ao mesmo tempo em que este):

Aqui Indis esposa de Finwë foi perdida, e caiu de uma grande altura. Seu corpo foi encontrado em uma ravida profunda e lá enterrado. E quando Finwë não queria mais seguir, e desejou permanecer lá, Oromë falou com ele do destino dos Quendi e de como eles poderiam retornar, se desejassem, após um certo tempo.  Pois seus espíritos não morrem e não deixam Arda, e por ordem de Eru um local de residência foi feito para ele em Aman. Então Finwë ficou ávido por seguir adiante.

6. Após isto existe no manuscrito: ‘e Ingwë e sua casa foram a Valinor, e moraram para sempre com o povo de Manwë’. Isto foi riscado e não aparece na versão datilografada, mas reaparece no registro para 1140.

7. Kalakiryan é uma correção a lápis para Kalakirya, e para ocorrências subseqüentes (mas bem ao final dos Anais, p. 133, $180, Kalakiryan é a forma usada no manuscrito).

8. Ulmo no manuscrito como escrito inicialmente, alterado logo para Ossë.


Comentários sobre a terceira seção dos


Anais de Aman

Esta seção de AAm corresponde ao Capítulo 3 do QS Da Chegada dos Elfos (incluindo 3(b) De Thingol e 3(c) De Kôr e Alqualondë) de $22 a $39 e elementos de $$43-5, e até AV 2, Anos dos Valar 1980 – 2111. Estes textos são encontrados em V.213 ff., 112 – 13.

Uma comparação apressada mostra que uma ocorreu uma ampliação extensão geral e em certos detalhes; e apesar de um desenvolvimento concorrente ter ocorrido também na tradição ‘Silmarillion’ (com o qual AAm não tem poucas frases em comum), AAm é uma narrativa bastante distinta, com um grande número de características ausentes em outras tradições e algumas divergências. Aqui, como antes, eu cito os desenvolvimentos mais importantes no AAm com relação às narrativas pré-Senhor dos Anéis; e em muitos casos eu me limito a uma simples referência aos novos elementos que entraram nas lendas, ficando implícito em tais casos que o assunto em questão é completamente novo.

$51    Melkor implorou por perdão no Círculo do Destino, os Valar desejaram condená-lo à morte, mas ninguém pode matar qualquer um da raça dos Valar, nem removê-los de Ea, a não ser Eru.


$52
    Melkor foi condenado por Mandos a três eras (trezentos Anos dos Valar), em AV 2 e em QS ($47) ele foi condenado a sete eras.


$54
    Elwë, o terceiro dos ‘embaixadores’, é agora o próprio Thingol, enquanto que no QS ele era o irmão de Thingol, ver V.217 $ 23, e confira AV 2 (V.112): ‘Thingol, irmão de Elwë, senhor dos Teleri’. O irmão de Elwë-Thingol agora se torna Olwë ($58).


$57
    Apenas ‘a maior parte’ dos povos de Finwë e Olwë desejavam partir. Os Avari eram o povo de Morwë e Nurwë (e presumivelmente aqueles dos outros povos que não partiriam); e uma explicação é dada para sua não partida: eles residiam mais longe de Kuiviénen e não viram Oromë em sua primeira vinda.

$58    O Primeiro Grupo agora recebe o nome Vanyar, e não Lindar com antes (confira p. 34, $36). O Terceiro Grupo, os Teleri, tinham dois senhores, os irmãos Elwë e Olwë, e Elwë é agora chamado Singollo (‘Capacinzenta’, $65, em QS Sindo ‘o Cinzento’, $30). – A rota tomada pelos Eldar na Grande Marcha é descrita (e concorda bastante bem com o caminho mostrado no mapa do Ambarkanta, IV.249). Muitos desistiram com medo das grandes nuvens que ainda permaneciam no Norte.

$59    A lentidão da jornada é descrita: o maravilhamento dos Elfos, a relutância de muitos em completar a jornada, as longas paradas. A jornada tomou vinte Anos dos Valar; em AV 1 ele demora dez (IV.272), e aparentemente o mesmo em AV 2.


$$60-1
    Nomes importantes entram a partir de O Senhor dos Anéis: Anduin, Eriador, Hithaeglir (‘as Torres de Névoa’); a floresta a leste do rio não é nomeada, mas é claro que é a Floresta das Trevas. A origem das Hithaeglir é contada: elas foram elevadas por Melkor para obstruir as cavalgadas de Oromë.  Eu observei (IV. 256-7) em conexão com o mapa do Ambarkanta que não há sinal ali das Montanhas Nebulosas ou do Anduin (que apareceu inicialmente, assim como a Floresta das Trevas, em O  Hobbit, onde o rio é chamado de Grande Rio das Terras Ermas).

    Os Teleri permaneceram na margem leste do Anduin enquanto os Vanyar e os Noldor cruzaram o rio e subiram às passagens das Montanhas Nebulosas.


$63
    É a este ponto da Grande Marcha que os Nandor se separaram, e vão ao sul acompanhando o Anduin; eles eram dos Teleri (do grupo de Olwë), e o nome de seu líder era Nano, ou Dân na fala de seu próprio povo. Em QS ($28) e AV 2 este povo era dos Noldor, e em QS eles eram chamados Danas em sua própria língua, devido ao seu primeiro líder, Dân, similarmente ao Lhammas (V. 175-6). O nome Nandor não aparecer nestes textos, mas veja o Etimologias, raízes DAN e NDAN (V.353, 375), e também V.188.


$63
    O medo do Mar entre os Vanyar e Noldor fez muitos fugirem do litoral para as florestas de Beleriand, e Oromë retornou a Valinor em busca do conselho de Manwë.


$64
    Os Teleri relutantemente chegaram a Beleriand, incentivados por Elwë, e residiram inicialmente no leste, além do Rio Gelion. Elwë tinha grande amizade para com Finwë.


$65
    Elwë estava viajando de volta para casa de um encontro com Finwë quando entrou em Nan Elmoth. Este nome surge inicialmente na re-escrita pós-Senhor dos Anéis da Balada de Leithian (III.346 – 7, 349). Em QS ($32) não é dito onde o encontro de Thingol e Melian ocorreu, em AV 2 ‘Melian o encantou nas florestas de Belerian’. O transe no qual Elwë caiu durou muitos Anos dos Valar (registros 1130, 1152:  o que é mais do que dois séculos medidos pelo Sol).


$66
    Ulmo fez música para os Elfos e tornou seu medo do Mar em desejo. Os Teleri chegaram ao litoral do Mar quando ouviram que os Vanyar e Noldor partiram, e tomaram Olwë como seu rei.


$67
    O nome Kalakilya ‘Fenda de Luz’ é encontrado em QS e no Lhammas; confira Quenya kilya ‘fenda, passo entre colinas, ravina’, no Etimologias, raiz KIL (V.365). A forma no AAm, Kalakiryan, alterado rapidamente para Kalakirya (ver nota 7 acima).

    ‘Os Elfos tomaram posse de Eldamar, e começaram a construção na colina verdejante de Tuna'; confira também $$75-6 ‘o litoral, a costa, de Eldamar’. Isto contradiz a nota de rodapé em QS $39 (nunca alterada subseqüentemente, p. 176), onde Eldamar é um nome da cidade Élfica em si e Eldanor ou Elende a região onde os Elfos residiam (anteriormente, no mapa do Ambarkanta (IV.249), Casadelfos era nomeada Eldaros). O uso aqui (encontrado também na Balada de Leithian reescrita) é de fato uma reversão para o mais antigo significado de Eldamar; ver 1.251.

    A cidade é agora Tirion sobre Tuna, não Tuna sobre Kor, ver QS $39 e comentários, e também 1.258 (Kortirion). Mas meu pai continuou a usar Tuna também como o nome da cidade: por exemplo p. 97, $101, onde Melkor fala das palavras de Feanor ‘em Tuna’. Tirion é chamada aqui Tirion a Sagrada, assim no na canção de Bilbo em Valfenda. (VII.93, 98, 101).

$68    A Torre de Ingwë (Ingwemindon no QS) é agora Mindon Eldaliéva. No AAm Ingwë e ‘muitos de sua casa’ se mudaram de Tirion apenas sete Anos dos Valar depois da chegada dos Vanyar e Noldor a Aman, e no ano do término de Tirion e do acender da lâmpada de Ingwë; e a partida dos demais Vanyar é representado como um longo movimento durante 25 Anos dos Valar (ver $77). No QS ($45) uma impressão diferente é dada, pois é dito que ‘com o passar das eras os Lindar começaram a amar a terra dos Deuses e a luz plena das Árvores, e eles esqueceram a cidade de Tuna’.


$69
    Em QS ($16) Galathilion é o nome Gnômico de Silpion (Telperion), e não há menção de uma ‘imagem’ da Árvore Mais Velha sendo dada por Yavanna aos Noldor de Tirion (ver IX.58).

$70    O retorno de Ulmo ao litoral da Terra-média foi devido aos pedidos de Finwë. A afirmação de que Ossë ‘ia raramente a Aman, a não ser se chamado a conselho’ reflete a preservação no AAm (p. 48, $1) de sua antiga posição como um dos Valar. O meridional Porto de Falar agora reverte para a forma Eglarest, que precedeu o Eglarost de QS e AV 2. Círdan o Armador, senhor dos Portos, aparece do Senhor dos Anéis.


$71
    Embora não seja dito no QS que quaisquer outros dos Teleri, além dos Elfos de Falas, permaneceram na Terra-média quando Ulmo retornou, mas apenas aqueles do povo de Thingol ‘que procuravam por ele em vão’ ($32), é dito no Lhammas $6 (V.174) que Thingol era ‘rei em Beleriand dos muitos Teleri que … permaneceram em Falasse, e de outros que não partiram porque se demoraram procurando por Thingol nas florestas’. Em AAm ‘os parentes e amigos de Elwë também não desejavam partir’, e foram deixados para trás, e chamaram a si mesmo de Eglath, o Povo Esquecido.


$$72-3
    Ulmo concedeu rapidamente o pedido dos Teleri, pois ele tinha se oposto ao chamado dos Quendi a Valinor, e Ossë enraizou Tol Eressea no fundo do mar ao comando de Ulmo; mas os Valar não ficaram satisfeitos, e Finwë se entristeceu (principalmente pelo conhecimento de que Elwë Singollo seu amigo não estava em Tol Eressea). A forma final da lenda está agora, portanto, presente: ver QS $37 e comentários.

$74    O povo de Thingol eram ‘todos os Eldar de Belerind’, e eles foram chamados os Sindar, os Elfos Cinzentos. Esta é a primeira vez que encontramos o nome nos textos (como aqui apresentado); ele não ocorre em O Senhor dos Anéis exceto nos Apêndices. O nome Sindarin de Elwë Singollo é Elu Thingol (ver II.50).

$75    Os Teleri residiram por 100 anos do Sol em Tol Eressea, em QS ($43) e em AV 2 eles residiram lá por 100 Anos dos Valar (ver p. 183, $43).

    Foi Ossë, e não Ulmo como em QS, que ensinou ao Teleri a arte da construção de navios, mas quando o texto foi escrito (nota 8 acima) foi Ulmo quem o fez, e também foi Ulmo quem lhes deu os cisnes (Ossë no QS).

$76    Os Teleri tiveram a ajuda de Finwë e dos Noldor na construção de Alqualondë.

Os dois trechos relativos a Indis esposa de Finwë, escritos com rapidez nos $$60 e 61 (notas 3 e 5 acima) e depois riscados, são notáveis como os primeiros indícios do que teria se tornado um desenvolvimento posterior  importante da lenda Valinoriana, embora as histórias contadas aqui não mantenham relação com a narrativa posterior. Estas breves idéias rascunhadas, podem ter apenas passado, rejeitadas tão logo escritas, mas eles mostram a preocupação de meu pai com relação a Fëanor, sentindo que a grandeza de seus poderes e sua natureza formidável estavam relacionadas a uma origem singular – ele era o primogênito dos Eldar: isto quer dizer, ele não ‘acordou’ em Kuiviénen, mas teve um pai e uma mãe e nasceu na Terra-média. A idéia de que Finwë ficou desconsolado também surge; e esta é a primeira aparição do nome Curufinwë, para Fëanor.

*

Finalmente eu registro umas poucas notas tardias de um ou outro dos textos datilografados (cópia principal e cópia em carbono) dos Anais de Aman:

$65    ‘as árvores de Nan Elmoth’ > ‘as jovens árvores de Nan Elmoth’


$66
    Ao lado da palavra conchas está flauta de conchas em forma de chifre, com uma interrogação


$70
    Na primeira sentença meu pai escreveu ‘Necessita revisão'; mas eu não sei em que aspecto ele pretendia fazê-lo. Em ‘chamado a conselho’ ele escreveu um X e ‘ele [Ossë] não era um Vala, mas um líder dos Maiar, servo de Ulmo’. Ele fora removido dos Valar por uma correção no texto datilografado em $1 (p. 69).

Os Anais de Aman – Segunda Seção

The History of Middle-earth XA Valinor tem a honra de prosseguir com a publicação da tradução dos Anais de Aman, um longo registro dos acontecimentos desde a criação de Arda até a Criação do Sol e da Lua. O texto está dividido em seis partes, publicadas quinzenalmente na Valinor (a primeira se encontra aqui) e esta segunda parte engloba o período dos Anos das Árvores até o Acorrentamento de Melkor.
 
 
 
Aqui começa um novo Registro sob a Luz das Árvores
1*

$30    Por mil anos das Árvores os Valar residiram em felicidade em Valinor além das Montanhas de Aman, e toda a Terra-média estava em um crepúsculo sob as estrelas. Para lá raramente os Valar iam, exceto apenas Yavanna e Oromë, e Yavanna freqüentemente lá andava, nas sombras, lamentando porque todo o crescimento e expectativas da Primeira de Arda foram interrompidos. E ela adormeceu muitas coisas belas que surgiram durante a Primavera, tanto árvore e erva e besta e pássaro, de forma que não envelheceriam mais e aguardariam por um tempo de acordar que ainda estava por vir. Mas Melkor residia em Utumno, e não dormia, mas observava e trabalhava; e as coisas malignas que ele pervertera andavam livremente, e as escuras e dormentes florestas eram assombradas por monstros e formas aterradoras. E em Utumno ele moldou a raça de demônios que os Elfos nomeariam Balrogs. Mas estes ainda não saíam dos portões de Utumno, devido à vigilância de Oromë.

$31    Oromë amava profundamente todas as obras de Yavanna, e ele estava sempre pronto para seu chamado. E por esta razão, e porque ele de vez em quando desejava cavalgar em florestas maiores e mais extensas do que as de Valinor, ele também ia com freqüência para a Terra-média, e lá partia em caçadas sob as estrelas. Então seu cavalo branco, Nahar, brilhava como prata nas sombras; e a terra adormecida tremida sob as batidas de seus cascos dourados. E Oromë soprava seu poderoso chifre, ao som do qual as montanhas tremiam, e as coisas malignas fugiam; e Melkor se acuava em Utumno e não ousava sair. Pois é dito que ao mesmo tempo que sua malícia e a força de seu ódio aumentavam, seu coração diminuía; e com todo seu conhecimento e seu poder e seus muitos servos ele se tornou covarde, dando combate apenas àqueles de pouca força, atormentando os fracos e deixando sempre que seus escravos e criaturas fizessem seu trabalho maligno. Mesmo assim seu domínio espalhou-se para o sul sobre a Terra-média, pois após Oromë passar os servos de Melkor se reuniam novamente; e a Terra estava cheia de sombras e mentiras.

(* A lápis abaixo de "1" está "AA" (Anos das Árvores) e também "AV 3501" (Ano dos Valar). – As datas "AA" foram freqüentemente alteradas no manuscrito, e em alguns lugares é bastante difícil interpretar as mudanças; eu forneço apenas as formas finais.)

1000

$32    Veio a acontecer que os Valar realizaram um conselho, pois ficaram preocupados com as informações que Yavanna e Oromë trouxeram das Terras de Fora. E Yavanna falou ante os Valar, e predisse que a chegada dos Filhos de Ilúvatar estava se aproximando, embora a exata hora e local de suas chegadas fossem conhecidas apenas do próprio Ilúvatar. E Yavanna pediu a Manwë para fornecer luz à Terra-média, para parar os males de Melkor e confortar os Filhos; e Oromë e Tulkas falaram da mesma forma, estando ávidos por guerra com Utumno.

$33    Mas Mandos falou e disse que embora a Chegada estivesse preparada ela ainda não aconteceria por muitos Anos; e os Filhos Mais Velhos deveriam vir na escuridão e olhar primeiro para as Estrelas. Por assim fora ordenado.

$34    Então Varda se retirou do conselho, e das alturas de Taniquetil olhou para longe, e contemplou a escuridão da Terra sob as estrelas inumeráveis, fracas e distantes. Então ela começou um grande trabalho, o maior de todos os trabalhos dos Valar desde sua vinda a Arda.

1000 – 1050

$35    Então Varda pegou a luz que saía de Telperion e estava armazenada em Valinor e fez estrelas novas e mais brilhantes. E muitas das estrelas antigas ela reuniu e colocou como sinais nos céus de Arda. O maior destes era Menelmakar, o Guerreiro do Céu. Este, é dito, era um sinal de Túrin Turambar, que deveria vir ao mundo, e uma previsão da Última Batalha que deverá ocorrer ao fim dos Dias.

1050

$36    Por último Varda fez o sinal de estrelas brilhantes que é chamado de Valakirka, a Foice dos Deuses, e este ela colocou próximo ao Norte como uma ameaça a Utumno e um sinal do destino de Melkor.

$37    Naquela hora, é dito, os Quendi, os Filhos Mais Velhos de Ilúvatar, despertaram: a estes os Homens chamaram de Elfos, e muitos outros nomes. Nas Águas do Despertar, Kuiviénen, ele se levantaram do sono de Ilúvatar e seus olhos viram antes de qualquer outra coisa as estrelas do céu. Devido a isso eles sempre amaram a luz das estrelas, e reverenciaram Varda Elentárië acima de todos os Valar.

$38    Nas mudanças do mundo as formas das terras e dos mares foram quebradas e refeitas; rios não mantiveram seus cursos, nem montanhas permaneceram imóveis; e para Kuiviénen não há retorno. Mas é dito entre os Quendi que ele fica distante na Terra-média, a leste de Endon (que é o ponto central) e ao norte; e era uma baía no Mar Interno de Helkar. E que esse mar ficava onde antes ficavam as raízes da montanha de Illuin antes de Melkor derrubá-la. Muitas águas corriam ali a partir das alturas do Leste, e o primeiro som que foi ouvido pelos Elfos foi o som da água correndo, e o som da água batendo na rocha.

$39    Por longo tempo os Quendi residiram em seu primeiro lar à água sob as estrelas e andavam pela Terra maravilhados; e eles começaram a criar uma língua e dar nomes a todas as coisas que percebiam. E nomearam a si mesmos os Quendi, significando aqueles que falam com vozes; pois ainda não tinham encontrado outros seres vivos que falassem ou cantassem.

$40    A este tempo também, é dito, Melian, a mais bela dos Maiar, desejando olhar as estrelas, subiu ao Taniquetil; e repentinamente ela desejou ver a Terra-média, e deixou Valinor e caminhou ao crepúsculo.

1085

$41    E quando os Elfos já habitavam o mundo por trinta e cinco Anos dos Valar (que é como trezentos e trinta e cinco de nossos anos) aconteceu que por acaso chance que Oromë cavalgou até Endon em sua caçada, e virou para o norte no litoral de Helkar e passou sob as sombras das Orokarni, as Montanhas do Leste. E repentinamente Nahar soltou um grande relincho e estancou. E Oromë se surpreendeu e permaneceu em silêncio, e pareceu a ele que na quietude da terra sob as estrelas ele ouvia ao longe o som de muitas vozes cantando.

$42    Então foi quando os Valar finalmente encontraram, como se fosse por acaso, aqueles a quem por tanto tempo esperavam. E quando Oromë olhou para eles se maravilhou, como se eles fossem coisas imprevistas ou inimaginadas; e ele amou os Quendi, e os nomeou Eldar, o povo das estrelas.

A página do manuscrito original foi interpolada neste ponto, um trecho sendo escrito na margem, como segue:

Mas por conhecimento posterior os mestres de conhecimento dizem que infelizmente Orome não foi, possivelmente, o primeiro dos Grandes a encontrar os Elfos, pois Melkor estava vigiando, e seus espiões eram muitos. E acredita-se que se escondendo furtivamente nas próximidades seus servos desviaram alguns dos Quendi que se aventuraram mais longe, e os levaram como cativos para Utumno, e lá os escravizaram. Destes escravos é dito terem vindo os Orkor que se tornaram os principais inimigos dos Eldar. E as mentiras de Melkor rapidamente estavam espalhadas, de forma que sussurros eram ouvidos entre os Quendi, alertando-os que se algum de sua raça sumisse nas sombras e não fosse mais visto, deveriam tomar cuidado com um cavaleiro sinistro em um grande cavalo, pois era este que os capturava para devorá-los. Foi por esta razão que, com a aproximação de Oromë, muitos dos Quendi fugiram e se esconderam.

O texto original então continua, com uma nova data 1086, "Rapidamente Oromë cavalgou de volta a Valinor e levou as novidades aos Valar" (ver $46 abaixo). Mas o trecho passagem interpolada citado acima foi subseqüentemente substituído em uma nova página pela seguinte passagem longa e importante $$43-5 (encontrada no texto datilografado original):

$43    Contudo muitos dos Quendi ficaram aterrorizados à sua chegada. Isto foi feito por Melkor. Pois por conhecimento posterior os mestres de conhecimento dizem que Melkor, sempre vigilante, soube do acordar dos Quendi primeiro, e enviou sombras e espíritos malignos para vigiá-los e emboscá-los. Então veio a acontecer, alguns anos antes da chegada de Oromë, que se qualquer um dos Elfos vagasse mais longe, sozinho ou em grupo pequeno, freqüentemente sumiam e nunca retornavam; e os Quendi diziam que o Caçador os pegara, e ficavam com medo. Contudo, nas mais antigas canções de nosso povo, das quais alguns ecos ainda são lembrados no Oeste, nós ouvimos das formas de sombra que andavam nas colinas de Kuiviénen, ou que passavam repentinamente em frente às estrelas; e do Cavaleiro negro em seu cavalo selvagem que perseguia aqueles que vagavam para capturá-los e devorá-los. Pois Melkor odiava e temia grandemente as cavalgadas de Oromë, e certamente ou enviava seus servos negros como cavaleiros, ou espalhava rumores mentirosos, com o propósito de que os Quendi deveriam evitar Oromë, se porventura se encontrassem.

$44    Por isso aconteceu que, quando Nahar relinchou e Oromë de fato veio entre eles, alguns dos Quendi se esconderam, e alguns fugiram e se perderam. Mas aqueles que tiveram a coragem de permanecer perceberam rapidamente que o Grande Cavaleiro era nobre e belo e não uma sombra da Escuridão; pois a Luz de Aman estava em sua face, e todos os mais nobres dos Quendi foram atraídos em sua direção.

$45    E daqueles dignos de piedade que foram capturados por Melkor pouco é sabido com certeza. Pois quem dentre os vivos desceu às profundezas de Utumno ou explorou a escuridão dos pensamentos de Melkor? Mesmo assim isto é tido como verdade pelos sábios de Eressëa: que todos aqueles dos Quendi que acabaram nas mãos de Melkor, antes de Utumno ser quebrada, foram lá postos na prisão e por artes lentas de crueldade e maldade foram corrompidos e escravizados. Desta forma Melkor gerou a terrível raça dos Orkor em inveja e paródia aos Eldar, de quem se tornaram após isto os mais amargos inimigos. Pois os Orkor tinham vida e se multiplicavam à maneira dos Filhos de Ilúvatar; e nada do que tem vida por si mesmo, nem a aparência de vida, Melkor jamais poderia criar, desde sua rebelião no Ainulindalë antes do Começo: assim dizem os sábios. E profundamente em seus corações escuros os Orkor detestavam o Mestre a quem serviam por medo, criador apenas de suas misérias. Isto, talvez, seja o ato mais vil de Melkor e o mais odioso a Eru.

1086

$46    Oromë permaneceu por algum tempo entre os Quendi, e então rapidamente cavalgou de volta a Valinor e levou as novidades aos Valar. E ele falou das sombras que perturbavam Kuiviénen. Então os Valar sentaram em conselho e debateram longamente o que seria o melhor a fazer para proteger os Quendi; mas Oromë retornou imediatamente à Terra-média e residiu com os Elfos.

1090

$47    Manwë sentou-se por longo tempo em Taniquetil, pensando, e finalmente resolveu declarar guerra a Melkor, ainda que Arda recebesse ainda mais danos naquela batalha. Pela primeira vez, portanto, os Valar atacaram Melkor e não ele aos Valar, e partiram para a guerra em todo seu poder, e eles o derrotaram completamente. Isto eles fizeram em prol dos Elfos, e Melkor bem o sabia, e não esqueceu.

1090 – 2

$48    Melkor confrontou o ataque dos Valar no Noroeste da Terra-média, e toda aquela região foi muito destruída. E a primeira vitória das hostes do Oeste foi rápida e fácil, e os servos de Melkor fugiram deles para Utumno. Então os Valar marcharam sobre a Terra-média e montaram uma guarda sobre Kuiviénen; por isso os Quendi não souberam nada a Grande Guerra dos Deuses, exceto que a Terra mexia e gemia abaixo deles, e as águas foram movidas; e no Norte ocorriam luzes como poderosos fogos. Mas após dois anos os Valar passaram ao norte distante e começaram o longo cerco a Utumno.

1092 – 1100

$49    Aquele cerco foi longo e terrível, e muitas batalhas foram travadas ante seus portões das quais nada são conhecidas aos Quendi, além de rumores. A Terra-média foi dolorosamente sacudida àquele tempo, e o Grande Mar que a separava de Aman aumentou e se aprofundou. E as terras no Norte distante foram todas desoladas naqueles dias, e assim permaneceram para sempre; pois lá Utumno fora escavada de maneira excepcionalmente profunda, e seus poços e cavernas alcançavam longe abaixo da terra, e estavam cheios de fogos e grandes hordas dos servos de Melkor.

1099

$50    E finalmente os portões de Utumno foram quebrados e seus salões postos a céu aberto, e Melkor se refugiou no poço mais profundo. Então, vendo que tudo estava perdido (àquele tempo), ele enviou repentinamente uma horda de Balrogs, os últimos remanescentes de seus servos, e eles atacaram o estandarte de Manwe como se fossem uma onda de chamas. Mas eles foram dispersos no vento de sua fúria e mortos pelo raio de sua espada; e Melkor finalmente ficou sozinho. Então, uma vez que ele era apenas um contra muitos, Tulkas adiantou-se como campeão dos Valar e lutou com ele e jogou-o de rosto no chão e o atou com a corrente Angainor. Assim terminou a primeira guerra do Oeste no Norte.


 
Comentários sobre a segunda seção dos
Anais de Aman

(Não há notas textuais nesta seção do texto). No trecho dado acima os Anais de Aman correspondem ao início do Capítulo 3 Da Chegada dos Elfos nas outras tradições do "Silmarillion" (QS $$18-21, HoME V). Contemporânea (mais ou menos) à escrita dos Anais de Aman foi a grande revisão do Quenta Silmarillion, mas aqui a comparação deve obviamente ser restrita ao texto pré-Senhor dos Anéis, junto com AV2, registros A.V. 1000- 1990 (HoME V).
 

$30
    No AAm é recontada o colocar, por Yavanna, de um sono sobre as coisas vivas que haviam acordado na Primavera de Arda, do qual não há sinal em QS (ou em reescritas posteriores).

A criação dos Balrogs é então mencionada; e enquanto em AAm ($17) o registro das "hordas" de Melkor, espíritos "dos vazios de Ëa" e "amigos secretos e espiões entre os Maiar" e mais completo do que nas outras tradições em qualquer estágio, os Balrogs ainda continuam firmemente citados como sendo demônios de sua própria criação, e mais, tendo sido feitos em Utumno àquele tempo. Sobre a concepção dos Balrogs em AAm veja além nos $$42-5, 50 neste comentário e especialmente $30.


$31
    Que o cavalo de Oromë era branco e ferrado com ouro é dito em QS ($24) e Q ($2), mas esta é a primeira aparição do nome do Cavalo, Nahar. Oromë é aqui representado como uma presença guardiã na Terra-média, em tal extensão que os Balrogs não foram liberados de Utumno devido a ele ($30); confira com AV2 (HoME V) "Morgoth se recolhia ante seu chifre".


$$34-6
    Sobre a criação das estrelas veja $24. Aqui se encontra a afirmação digna de nota de que Menelmakar (Orion) era "um sinal de Túrin Turambar, que deveria vir ao mundo, e uma previsão da Última Batalha que deverá ocorrer ao fim dos Dias". Isto é uma referência à Segunda Profecia de Mandos (no Quenta, HoME IV):


Então deverá ser travada a última batalha sobre os campos de Valinor. Naquele dia Tulkas lutará com Melkor, e à sua direita estará Fionwë e à sua esquerda estará Túrin Turambar, filho de Húrin, Conquistador do Destino; e será a espada negra de Túrin que trará a Melkor sua morte e fim definitivo; e então os filhos de Húrin e todos os homens estarão vingados.

 
O nome em Quenya Menelmacar é mencionado no Apêndice E (I) dO Senhor dos Anéis; nA Sociedade do Anel aparece a forma Sindarin: "o Guerreiro do Céu, Menelvagor, com seu cinto brilhante".


$37
    Que os Elfos acordaram ao primeiro brilhar da Foice dos Valar é dito em AV2 (HoME V); "ao surgirem as primeiras estrelas", QS $20.


$38
    A referência ao local de Kuiviénen é interessante. Sobre isso nada mais é dito na outra tradição além de que ficava "no Leste da Terra-média" (QS $20, preservado nos textos posteriores). No AAm Kuiviénen fica a Nordeste de Endon, o ponto central. Na lista de nomes acompanhando o Ambarkanta (HoME IV) aparece "ambar-endya ou Terra Média da qual Endor é o ponto central", e Endor está escrito sobre o centro da terra do meio nos diagramas do Ambarkanta (HoME IV) – no mapa (HoME IV) é marcado como um ponto: "Endor meio da Terra", e aqui é corrigido para Endon, a forma na presente passagem do AAm, embora mais tarde tenha voltado novamente para Endor (e da mesma forma na versão datilografada de AAm meu pai corrigiu Endon para Endor e em $41). Ver HoME IV.

No AAm Kuiviénen era "uma baía no Mar Interno de Helkar"; em QS ele é "o lago iluminado por estrelas" (e também no Q), o que é mantido nos textos posteriores. No mapa do Ambarkanta ele é mostrado no Nordeste de Endor (Endon), e está marcado no lado mais a leste do Mar de Helkar; no texto ele está "ao lado das águas de Helkar" (HoME IV). Não está claro se estas várias afirmações mostram uma mesma concepção. Aqui no AAm há a primeira referência ao Mar de Helkar (formado após a queda da Lâmpada do norte) desde o Ambarkanta - em cujo texto a própria Lâmpada é chamada Helkar; ver HoME IV.


$39
    Compare com QS $20: "Por algum tempo [Oromë] residiu entre eles, e ensinou-lhes o idioma dos Deuses, a partir do qual mais tarde fizeram a bela fala Élfica" e o Lhammas (HoME V): "dele [Oromë] aprenderam segundo sua capacidade a fala dos Valar, e todas as línguas que derivaram daí podem ser chamadas Oromianas ou Quendianas". E agora é dito no AAm que os Quendi desenvolveram sua própria linguagem, e que eles deram nomes "a todas as coisas que percebiam", antes mesmo de Oromë chegar até eles (que foi 335 Anos do Sol depois de seu despertar). Confira o Conto de Gilfanon no Livro dos Contos Perdidos (HoME I): "Os Eldar ou Quendi receberam o dom da fala diretamente de Ilúvatar".


$40
    Este parágrafo foi interpolado no manuscrito; ele aparece na versão datilografada original. A datação da partida de Melian a este tempo deriva dos Anais de Valinor (HoME IV, HoME V); no QS ($31) é dito que ela "freqüentemente partia de Valinor em longas jornadas nas Terras Daqui". O significado das palavras do AAm, de que Melian, "desejando olhar as estrelas, subiu ao Taniquetil", presumivelmente é de que ela subiu na encosta leste do Taniquetil, de onde a luz das Árvores ficava oculta.


$41
    Conforme comentado em HoME IV, a afirmação de que Oromë "virou para o norte no litoral de Helkar e passou sob as sombras das Orokarni, as Montanhas do Leste" concorda perfeitamente com o mapa do Ambarkanta (IV.249; no mapa as Orokarni são chamadas Montanhas Vermelhas).

"Ele ouvia ao longe o som de muitas vozes cantando": compare com QS $20: "E Oromë chegou junto a eles… enquanto eles permaneciam ainda silenciosos sob o lago iluminado pelas estrelas, Kuiviénen". Veja $39 acima.


$42
    QS ($20) tem aqui a extraordinária afirmação de que "Oromë ao olhar para os Elfos se encheu de amor e maravilhamento; pois a chegada deles não estava na Música dos Ainur, e estava escondida no pensamento secreto de Ilúvatar"; veja minha discussão sobre este trecho, HoME V.

Sobre a história do significado do nome Eldar veja as referências a isto dadas sob a entrada Eldar no Índice do HoME V


$42-5
    A origem dos Orcs. A primeira aparição da idéia de que suas origens estavam conectadas com os Elfos é no QS $18, e mais tarde em QS ($62) é dito que quando Morgoth retornou à Terra-média após a destruição das Árvores

 
ele trouxe à existência a raça dos Orcs, e eles cresceram e se multiplicaram nas entranhas da terra. Estes Orcs Morgoth fez por inveja e para desdenhar os Elfos, e eles eram feitos de pedra e seus corações de ódio.

(Sobre as visões mutáveis de meu pai com relação ao tempo da origem dos Orcs na cronologia dos Dias Antigos veja HoME IV, HoME V). Na interpolação do manuscrito AAm e na sua subseqüente reescrita e ampliação que aparece, junto com a história do Cavaleiro que os rumores afirmavam carregar os Quendi caso eles se perdessem, a teoria de que Melkor gerou os Orcs (aqui chamados Orkor) "em inveja e paródia aos Eldar" a partir dos Quendi escravizados no leste da Terra-média antes mesmo de Oromë chegar entre eles. É explícito ($45) que Melkor não poderia fazer nada que tivesse vida própria desde sua rebelião; mas isto está em aguda contradição com $30, onde é dito que "Utumno ele moldou a raça de demônios que os Elfos nomeariam Balrogs". Não acredito que a interpolação na qual a primeira destas afirmações aparece foi feita depois de um longo intervalo: as visões de meu pai sobre o assunto parecem ter mudado rapidamente, e um registro diferente da origem dos Balrogs é encontrado no logo abandonado texto datilografado que eu chamei AAM* (ver $30). A retenção da afirmação em $30, apesar de sua contradição com aquela em $45, foi devida sem dúvida a um erro não intencional, e ambas aparecem no texto datilografado principal de AAm – veja mais sobre a questão da origem dos Orcs em $127 e no Mitos Transformados.


$47
    As palavras "Pela primeira vez, portanto, os Valar atacaram Melkor e não ele aos Valar" mostra que a história do Ainulindalë de que os Valar teriam ido contra ele a partir de Valinor após a queda das Lâmpadas foi abandonada ($22)


$49
    Sobre as mudanças na Terra ao tempo da Grande Guerra dos Deuses como descritas no Ambarkanta ver HoME IV. Enquanto os dois textos não são necessariamente contraditórios, é curioso que deva ser dito no AAm que a este tempo "o Grande Mar que a separava [Terra-média] de Aman aumentou e se aprofundou" pois no Ambarkanta (HoME IV e ver também o mapa) a largura muito maior do Mar Ocidental do que o do Oriental veio a acontecer à época da fundação de Valinor:

    Para suas proteções adicionais os Valar lançou a Terra-média do centro para o leste, de forma que ficou desequilibrada, e o grande mar do Oeste é bastante largo no meio, o mais largo de todas as águas da Terra. A forma da Terra no Leste era muito parecida com a do Oeste, exceto pelo estreitamento do Mar Oriental, e o deslocamento da terra para aquele lado.


$50
    É notável que os Balrogs continuassem a este tempo, quando O Senhor dos Anéis já fora completado, a ser concebidos como tendo existido em números muito grandes (Melkor enviou repentinamente "uma horda de Balrogs"); ver $50


*

O texto datilografado (AAm*) que meu pai começou mas logo abandonou continua um pouco além do ponto atingido na primeira seção. Diferenças significativas do AAm são as que se seguem:


$30
    … Mas Melkor residia em Utumno, e não dormia, mas observava e trabalhava; e quaisquer bem que Yavanna trabalhar nas terras ele desfazia se pudesse, e as coisas malignas que ele pervertera andavam livremente, e as escuras e dormentes florestas eram assombradas por monstros e formas aterradoras. E em Utumno ele multiplicou a raça de espíritos malignos que o seguiram, os Úmaiar, de quem o chefe eram aqueles demônios a quem os Elfos mais tarde nomearam os Balrogath. Mas estes ainda não saíram dos portões de Utumno, devido ao seu medo de Oromë.

A parte final deste trecho é de muito interesse pois mostra um destacado desenvolvimento da idéia de que Melkor "fez" os Balrogs a este tempo. Eles agora se tornaram "espíritos malignos (Úmaiar) que o seguiram" – mas ele podia "multiplicá-los". O termo Úmaiar, não visto antes, está para Maiar assim como Úvanimor para Vanimor (ver HoME IV, nota de rodapé).


$31
    … e lá partia em caçadas sob as estrelas. Ele tinha grande amor por cavalos e cães de caça, mas todas as bestas estavam em seu pensamento, e ele caçava apenas os monstros e criaturas caídas de Melkor. Se ele os visualizava de longe ou seus grandes cães de caça os farejavam, então seu cavalo branco, Nahar, brilhava como prata enquanto corria através das sombras, e a terra dormente tremia com as batidas de seus cascos dourados. E ao mort Oromë iria soprar seu grande chifre, até as montanhas tremerem…
mort: o toque soprado na morte da caça

… e deixando que seus escravos fizessem seu trabalho maligno. [seus escravos e criaturas, AAm]


$32
    Veio a acontecer que que Manwë convocou os Valar para um conselho, pois eles ficaram preocupados com as informações que Yavanna e Oromë trouxeram das Terras de Fora, dizendo que se Melkor fosse deixado continuar a trabalhar sua vontade sem ser molestado, toda a Terra-média cairia em ruína irrecuperavelmente; e Manwë sabia que a chegada dos Filhos de Ilúvatar estava se aproximando, embora a exata hora e local de suas chegadas fosse conhecidas apenas do próprio Ilúvatar. E Manwë falou disso aos Valar; e Yavanna que a ele que desse luz à Terra-média, para parar os males de Melkor e dar conforto aos Filhos; e

Aqui o texto datilografado de AAm* acaba, ao pé de uma página. Uma vez mais, o que começou como uma cópia estava mudando com ordenada velocidade em uma nova versão. Mas não vejo razão para pensar que qualquer trecho extra jamais tenha existido.


*

Restam ser consideradas umas poucas alterações tardias rabiscadas e notas feitas em uma ou outra cópia da versão datilografada do texto todo.


$$38, 41
        Endon > Endor (ver $38).


$42
    ‘e os nomeou Eldar, o povo das estrelas’ > ‘e os nomeou o povo das estrelas’. Na margemn meu pai escreveu (isto é, com referência ao texto original): ‘mas ele não podia – [?como isso] era Quenya tardio’.


$43
    Ao lado do meio deste parágrafo há uma nota na margem: ‘Alterar isso. Orcs não são Élficos’. Ver pp. 408 e seguintes.


$50
    ‘uma horda de Balrogs, os últimos remanescentes de seus servos’ > ‘uma horda de Balrogs, os últimos de seus servos que permaneceram fiéis a ele’. Na margem meu pai escreveu: ‘Não se deve supor que mais do que digamos 3 ou no máximo 7 jamais existiram’. Ver $50.

Os Anais de Aman – Primeira Seção

The History of Middle Earth X - Morgoth's RingOs Anais de Aman são uma cronologia detalhada desde a criação do mundo até o final da Primeira Era, incluindo uma explicação sobre a maneira  de contar Anos dos Valar. Foi publicado no The History of Middle Earth X – Morgoth’s Ring e consiste de seis seções – das quais esta é a primeira – cada uma comentada extensivamente por Christopher Tolkien, das quais aqui publicamos a primeira.
Notas de Tradução: Os tempos verbais e a pontuação foram mantidos no original, o que pode causar alguma estranheza, principalmente quando o uso deles, por Tolkien, não é consistente. E, infelizmente, para este texto ser traduzido fora do contexto geral do livro tivemos que retirar/substituir as citações às páginas dos livros, mas mantivemos referências genéricas aos parágrafos e livros. A perda de entendimento é mínima dentro de um texto que já é complexo por si mesmo, principalmente com relação às Notas de Christopher Tolkien.

 

Os Anais de Aman


A segunda versão (anterior aO Senhor dos Anéis) dos Anais de Valinor (AV2) foi publicada no The History of Middle Earth V (HoME V). Lá mencionei que a primeira parte de AV2 fora – anos depois – coberta de correções e de novos trechos e que este novo trabalho era o rascunho inicial dos Anais de Aman. Neste caso eu não perderei tempo com o rascunho original, exceto por alguns pontos levantados pelo mesmo, comentados nas notas. Ele não se estende muito – nem tão longe quanto o surgimento das Duas Árvores, e até onde vai é extremamente parecido com os Anais de Aman; mas meu pai evidentemente decidiu rapidamente embarcar em um texto novo completamente diferente.

Sobre os Anais de Aman, ao qual eu me referirei pelo resto deste texto pela abreviatura ‘AAm’, existe um manuscrito bom e claro, com uma boa quantidade de correções em diferentes ‘camadas’. Adições pertencendo ao tempo da composição, ou logo depois, foram cuidadosamente feitas; e o manuscrito dá a impressão de ser uma ‘cópia boa’, um segundo texto. Mas enquanto passagens do rascunho podem ter sido perdidas, eu duvido muito que um ‘primeiro texto’ completo dos Anais existiu (ver nota 17). O trabalho certamente pertence ao grande desenvolvimento e recontagem dos Assuntos dos Dias Antigos que meu pai realizou quando O Senhor dos Anéis foi concluído, e ele permanece em correlação próxima às revisões daquele tempo dos trechos correspondentes do Quenta Silmarillion (HoME V, referido a partir de agora como QS), o texto que fora abandonado em 1937. De forma igualmente clara ele segue o último texto do Ainulindalë (D).

Existe uma versão datilografada por um amanuense de AAm contendo algumas correções e notas tardias, junto com uma cópia em carbono contendo muito poucas, mas diferentes, correções; sou inclinado a datar este texto de 1958, embora a evidência disto é mais um assunto de inferência e sugestão. Existe também um interessante e divergente texto datilografado da parte mais antiga do trabalho, feita por meu pai.

Eu forneço o texto completo da narrativa dos Anais, incorporando as correções feitas a ele; quando leituras anteriores às correções são de interesse eu as listo nas notas. Eu numero os parágrafos para subseqüente referência, e sendo o texto longo eu por conveniência o dividi em seis seções. As seções são seguidas por notas textuais numeradas (exceto no caso da seção 2) e em seguida por um comentário referenciando os números de parágrafo.

As datas dos Anos das Árvores nos anais foram alteradas com freqüência – em alguns casos há tantas quanto seis substituições – e eu dou apenas a forma final. Uma vez que o contínuo alterar de datas não parece estar em nenhum caso associado com mudanças na narrativa, e uma vez que a articulação final das datas parece ter sido obtida após a conclusão do manuscrito, acredito ser suficiente apontar que meu pai inicialmente permitiu um número de anos maior entre o surgimento das Árvores e sua destruição. Assim inicialmente as Silmarils foram obtidas por Fëanor no Ano das Árvores 1600 (mais tarde 1450), e Tulkas foi enviado para capturar Melkor em 1700 (mais tarde 1490) – embora outras datas tenham sido propostas e rejeitadas como estas. A partir deste ponto a datação revisada (1490 – 1500) é a única, mas aqui também as datas foram muito alteradas em detalhes, e o resultado final não é perfeitamente claro em todos os pontos.

Primeira Seção dos Anais de Aman

A primeira página do AAm existe em duas formas, ambos bons manuscritos, idênticos em tudo exceto no título e no breve preâmbulo.

O primeiro tem o título Os Anais de Valinor, e começa assim: ‘Aqui começam os Anais de Valinor, e falam da chegada dos Valar a Arda’; além do título foi acrescentado: ‘Estes foram escritos por Quennar i Onótimo que aprendeu muito, e emprestou muito, de Rúmil; e foram ampliados por Pengoloð’. Esta última frase foi riscada, e o título e preâmbulo corrigidos para a forma que têm na segunda cópia, como dada abaixo, com Valinor > Aman e a adição das palavras ‘que Rúmil escreveu (fez)’. Eu imagino que meu pai recopiou esta página porque desejava que ela parecesse bem e a rabiscou com estas mudanças. O título Anais de Aman surge neste ponto, portanto, e muito possivelmente o significado final do nome Aman também: ele ocorre uma vez em Ainulindalë D, mas como uma adição ao texto.

OS ANAIS DE AMAN

Aqui começam os Anais de Aman, que Rúmil fez, e fala da chegada dos Valar a Arda:

$1 No Início Eru Ilúvatar criou Ëa, o Mundo que é (1), e os Valar entraram nele, e eles são os Poderes de Ëa. Estes são os nove líderes dos Valar que residiram em Arda: Manwë, Ulmo, Aulë, Oromë, Tulkas, Ossë, Mandos, Lorien (2) e Melkor.

$2 Destes Manwë e Melkor eram os mais poderosos e eram irmãos. Manwë é o senhor dos Valar, e sagrado; mas Melkor se voltou para o desejo de poder e para o orgulho, e tornou-se mal e violento, e seu nome é amaldiçoado, e não é pronunciado; ele é chamado Morgoth. Oromë e Tulkas eram os mais jovens no pensamento de Eru ao divisar o Mundo, e Tulkas veio rapidamente ao reino de Arda. As rainhas dos Valar são sete: Varda, Yavanna, Niënna, Vairë, Vana, Nessa e Uinen. Não menores em poder e majestade são do que os líderes e sempre se sentam nos conselhos dos Valar.

$3 Varda era a esposa de Manwë desde o início, mas Aulë desposou Yavanna, irmã de Varda, em Ëa (3). Vana a bela, irmã mais nova de Varda, é a mulher de Oromë; e Nessa, a irmã de Oromë, é a mulher de Tulkas; e Uinen, senhora dos mares, é mulher de Ossë. Vairë a tecelã mora com Mandos. Nenhuma esposa possui Ulmo, nem Melkor. Nenhum senhor possui Niënna a cheia de pesar, rainha da sombra, irmã de Manwë e Melkor. A mulher de Lorien é Estë a pálida, mas ela não vai aos conselhos dos Valar e não é registrada entre os regentes de Arda, mas é a senhora dos Maiar.

$4 Com estes grandes poderes vieram muitos outros espíritos de mesmo tipo mas menos poder e autoridade; estes são os Maiar, os Belos (4), o povo dos Valar. E entre eles são contados os Valarindi, os descendentes dos Valar, seus filhos nascidos em Arda, mas ainda assim da raça dos Ainur que existia antes do Mundo; eles são muitos e belos.

Neste ponto meu pai escreveu: Isto é retirado do trabalho de Quennar Onótimo. Estas palavras se referem não ao que precede mais à passagem que se segue, chamada Do Início do Tempo e seu Registro (embora no preâmbulo – riscado – da primeira página rejeitada de AAm Quennar i Onótimo é dito ter sido o autor de todos os Anais).

A seção inteira sob o assunto do Registro do Tempo foi mais tarde anotada com lápis: ‘Transferir para o Conto dos Anos’. O Conto dos Anos, uma lista cronológica do mesmo tipo daquela no Apêndice B de O Senhor dos Anéis, existe em diferentes formas, associadas com os Anais mais antigos e mais tardios; a forma mais tardia, associada de perto com AAm e seu acompanhante os Anais Cinzentos (Anais de Beleriand), é talvez o mais complexo e difícil de todos os textos que meu pai deixou. Isto não precisa nos preocupar aqui; mas associados a ele estão dois belos manuscritos (um deles, o mais tardio dos dois, dentre os mais belos que ele fez: veja o frontispício) dando de forma quase idêntica o mesmo texto de Do Início do Tempo e seu Registro como encontrado aqui no AAm, mas o colocando como o início de O Conto dos Anos e o prelúdio à lista cronológica de eventos. Estes dois manuscritos são, claramente, mais tardios que o texto em AAm, e alguns pontos nos quais diferem são dados nas notas. AAm continua:

Isto é retirado do trabalho de Quennar Onótimo (5).

Do Início do Tempo e seu Registro

$5 O tempo começou de fato com o começo de Ëa, e naquele começo os Valar vieram ao Mundo. Mas a medida que os Valar fizeram das eras de seus trabalhos não é conhecida de nenhum dos Filhos de Ilúvatar, até o primeiro florescer de Telperion em Valinor. Depois disso os Valar contaram o tempo pelas eras de Valinor, onde cada era continha cem dos Anos dos Valar; e cada ano desses era mais longo do que nove anos sob o Sol (6).

$6 Agora medido pelo florescer das Árvores havia doze horas em cada Dia dos Valar, e mil desses dias dos Valar formavam um ano em seu reino. Supõe-se pelos Mestres de Conhecimento que os Valar fizeram desta forma as horas das Árvores de tal forma que cem de tais anos assim medidos seriam a duração de uma era dos Valar (7) (assim como tais eras eram nos dias de seus trabalhos antes da fundação de Valinor) (8).  De qualquer forma isto não é sabido com certeza.

$7 Mas para os Anos das Árvores e aqueles que vieram depois (9), um de tal Ano era mais longo do que nove dos anos como são agora. Pois existiam em cada Ano doze mil horas. E as horas das Árvores eram cada uma sete vezes mais longa do que uma hora  em pleno dia na Terra-média, de nascer a nascer do sol, quando a luz e a escuridão são igualmente divididas (10). Portanto cada Dia dos Valar durava quatro e oitenta de nossas horas, e cada Ano quatro e oitenta mil: o que é tanto quanto três mil e quinhentos dos nossos dias, e é pouco mais do que nove e meio de nossos anos (nove e meio e oito centésimos e ainda mais um pouco) (11).

$8 É registrado pelos Mestres do Conhecimento que isto não é exatamente como os Valar criaram no fazer e ordenar (12) da Lua e do Sol. Pois era a intenção deles que dez anos do Sol, não mais nem menos, tivesse a mesma duração que um Ano das Árvores tivera; e era de seu primeiro intento que cada ano do Sol contivesse setecentas vezes a luz do sol e a luz da lua, e cada uma dessas vezes deveria conter doze horas, cada uma durando um sétimo de uma hora das Árvores. Por esse registro cada ano do Sol conteria trezentos e cinqüenta dias plenos de luz dividida entre luz da lua e luz do sol, o que são oito mil e quatrocentas horas, sendo iguais a mil e duzentas horas das Árvores ou um décimo de um Ano dos Valar. Mas a Lua e o Sol se provaram mais indisciplinados e lentos em sua passagem do que os Valar pretendiam, como dito a seguir (13), e um ano do Sol e um pouco maior do que era um décimo de um Ano em Dias das Árvores.

$9 O ano do Sol mais curto foi assim feito (14) por causa da maior velocidade de todo o crescimento, e da mesma forma de toda mudança e esvaecer, que os Valar sabiam que viria a acontecer após a morte das Árvores. E após aquele mal ter acontecido os Valar registraram o tempo em Arda pelos anos do Sol, e ainda o fazem, mesmo após a Mudança do Mundo e o ocultar de Aman; mas dez anos do Sol eles contam agora como um ano (15), e mil como um século. Isto é retirado do Yénonótië de Quennar: quoth Pengoloð (16).

$10 É registrado pelos mestres de conhecimento que os Valar vieram para o reino de Arda, que é a Terra, cinco mil Anos dos Valar antes do primeiro nascer da Lua, o que é tanto quanto dizer quarenta e sete mil e novecentos e um de nossos anos. Destes, três mil e quinhentos (ou trinta e três mil, cento e trinta em nosso registro) se passaram antes que a primeira medida de tempo conhecida pelos Eldar se iniciasse com o florescer das Árvores. Aqueles foram os Dias antes dos dias. Depois disso mil e quatrocentos e noventa e cinco Anos dos Valar (ou catorze mil e trezentos e vinte e dois de nossos anos) se seguiram durante os quais a Luz das Árvores brilhou em Valinor. Estes foram os Dias de Felicidade. Naqueles dias, no Ano mil e cinqüenta dos Valar, os Elfos acordaram em Kuiviénen e a Primeira Era dos Filhos de Ilúvatar começou (17).

1 O Primeiro Ano dos Valar em Arda

$11 Após eras de trabalho nos grandes salões de Ëa além do conhecimento ou registro os Valar desceram à Arda no começo de sua existência, e começaram lá seus trabalhos pré-divididos dando forma a suas terras e águas, das fundações às mais altas torres do Ar.

$12 Mas seus trabalhos foram frustrados e afastados de seus objetivos, pois Melkor reivindicou o domínio de Arda, e reivindicou o reinado e ficou em discórdia com Manwë. E Melkor provocou grande ruína com fogo e frio mortal e desfigurou tudo que os outros Valar fizeram.

1500

$13 Aconteceu que, ouvindo de longe sobre a guerra em Arda, Tulkas o Forte partiu de distantes regiões de Ëa para o auxílio de Manwë. Então Arda foi preenchida com o som de sua risada, mas ele voltou uma face de fúria a Melkor; e Melkor fugiu ante sua ira e sua felicidade, e abandonou Arda, e existiu uma longa paz.

$14 Então os Valar começaram seus trabalhos novamente; e quando as terras e águas estavam ordenadas os Valar tiveram necessidade de luz, para que as sementes imaginadas por Yavanna pudessem crescer e ter vida. Então Aulë fez duas grandes lâmpadas, como se fossem de prata e ouro mas translúcidas, e Varda preencheu-as com fogo sagrado, para dar luz à Terra. Illuin e Ormal foram chamadas. 1900 E foram colocadas sobre pilares poderosos como montanhas no meio de Arda, ao
norte e ao sul.

$15 Então os Valar continuaram seus trabalhos até todo o reino de Arda estar ordenado e preparado, e aconteceu um grande crescimento de árvores e ervas, e bestas e pássaros vieram e residiram nas planícies e nas águas, e as montanhas eram verdes e belas de se olhar. E os Valar fizeram sua morada sobre uma ilha verdejante no meio de um lago; e aquele lago estava entre Illuin e Ormal bem no centro de Arda; e lá ficava a Ilha de Almaren, e por causa da mistura das luzes, todas as coisas eram mais ricas em crescimento e mais belas em cor. Mas os Valar raramente se reuniam lá, pois sempre viajavam por Arda, cada um em seus afazeres.

$16 E veio a acontecer que finalmente os Valar ficaram satisfeitos, e desejaram descansar um pouco do trabalho e observar o crescimento e desenvolvimento das coisas que tinham imaginado e começado. Então Manwë ordenou uma grande festa e convocou todos os Valar e rainhas dos Valar para Almaren, junto com seus povos. E eles vieram a seu comando; mas Aulë, é dito, e Tulkas estavam cansados; pois o ofício de Aulë e a força de Tulkas estiveram a serviço de todos sem cessar nos dias de seus trabalhos.

$17 Melkor sabia de tudo que fora feito; pois mesmo então ele tinha amigos secretos e espiões entre os Maiar que ele convertera à sua causa, e dentre estes o principal, como mais tarde ficou conhecido, era Sauron, um grande artífice da casa de Aulë. E distante em lugares escuros Melkor estava cheio de ódio, invejoso do trabalho de seus pares, os quais ele desejava tornar sujeitos a si mesmo. Então ele reuniu para si espíritos dos vazios de Ëa que ele pervertera a seu serviço e considerou-se forte. E vendo novamente seu tempo ele se aproximou de Arda e olhou sobre ela, e a beleza da Terra e sua Primavera o encheu ainda com mais ódio.

3400

$18 Então os Valar reunidos em Almaren festejaram e ficaram felizes, não temendo nenhum mal, e devido à luz de Illuin eles não perceberam a sombra no Norte que fora lançada de longe por Melkor; pois ele se tornara escuro como a Noite do Vazio (18). E é cantado que na festa da Primavera de Arda Tulkas desposou Nessa a irmã de Oromë, e Vana cobriu-a de flores e ela dançou perante os Valar sobre a grama verde de Almaren.

$19 Então Tulkas dormiu, estando cansado e satisfeito, e Melkor considerou que sua hora havia chegado. Então ele atravessou as Muralhas da Noite (19) com sua horda, e chegou à Terra-média no Norte; e os Valar não estavam cientes dele.

$20 Melkor começou a escavação e construção de uma vasta fortaleza profundamente sob a Terra, embaixo de montanhas escuras onde a luz de Illuin era fraca (20). Este forte ele chamou Utumno. E embora os Valar não soubessem de nada disso ainda, mesmo assim o mal de Melkor e a destruição causada por seu ódio se espalharam, e a Primavera de Arda foi desfigurada, e as coisas vivas se tornaram doentias e apodrecidas ou foram corrompidas em formas monstruosas.

3450

$21 Então os Valar souberam que de fato Melkor estava agindo novamente, e procuraram por seu esconderijo. Mas Melkor, confiando na força de Utumno e no poder de seus servos, veio repentinamente à guerra, e desferiu o primeiro golpe, antes dos Valar estarem preparados. E ele atacou as luzes de Illuin e Ormal e destruiu seus pilares, e quebrou suas lâmpadas. Então na queda dos poderosos pilares as terras se partiram e os mares se elevaram em tumulto; e quando as lâmpadas se derramaram chamas destruidoras se espalharam sobre a Terra. E a forma de Arda e a simetria de suas águas e terras foi desfigurada àquele tempo, de tal forma que depois os planos iniciais dos Valar nunca foram recuperados.

$22 Na confusão e escuridão Melkor escapou, embora o medo tenha caído sobre ele; pois acima do rugir dos mares ele ouviu a voz de Manwë como um poderoso vento, e a terra tremeu sob os pés de Tulkas. Mas ele chegou a Utumno antes que Tulkas pudesse alcançá-lo, pois a maior parte da força deles foi necessária para refrear os tumultos da  Terra, e para salvar da ruína tudo de seus trabalhos que pudesse ser salvo; e depois disso temeram remexer a Terra novamente, até que soubessem onde os Filhos de Ilúvatar estariam morando, que ainda viriam em um tempo que era escondido dos Valar.

$23 Assim terminou a Primavera de Arda. E a morada dos Valar sobre Almaren foi totalmente destruída, e os deuses não tinha residência na face da terra. Então eles partiram da Terra-média e foram para a Terra de Aman, que era a terra mais ocidental dentre todas, nas bordas do mundo; pois seu litoral oeste olhava sobre o Mar de Fora que englobava o reino de Arda, e além estavam as Muralhas da Noite (21). Mas no litoral leste de Aman ficava o ponto extremo do Grande Mar do Oeste; e uma vez que Melkor retornara a Terra-média, e eles ainda não podiam suplantá-lo, os Valar fortificaram sua moradia, e sobre o litoral do Mar eles elevaram as Pelóri, as Montanhas de Aman, as mais altas sobre a terra. E acima de todas as montanhas da Pelóri estava o pico que foi chamado Taniquetil, sobre cujo topo Manwë colocou seu trono. E atrás das muralhas das Pelóri os Valar estabeleceram suas mansões e seus domínios na região que é chamada Valinor. Lá, no Reino Vigiado eles reuniram grande quantidade de luz e todas as coisas mais belas que salvaram da ruína; e muitas outras ainda mais belas eles fizeram novamente, e Valinor se tornou ainda mais bela do que a Terra-média na Primavera de Arda; e era abençoada e sagrada, pois os deuses moravam ali e lá nada esvaecia ou murchava, nem havia qualquer mancha sobre flores ou folhas naquela terra, nem nenhum corrupção ou doença em nada que vivia; pois mesmo as rochas e águas eram abençoadas.

$24 Então os Valar e todo o seu povo estavam cheios de felicidade novamente e por muito ficaram satisfeitos e raramente passavam sobre as montanhas para as Terras de Fora; e a Terra-média ficou num crepúsculo sob as estrelas que Varda fizera nas eras esquecidas de seus trabalhos em Ëa.

3500

$25 E veio a acontecer que, depois que Valinor estava totalmente terminada e as mansões dos Valar estavam estabelecidas e seus jardins e florestas arrumados, os Valar construíram sua cidade no meio da planície além das Pelóri. A cidade eles chamaram de Valmar a Abençoada. E à frente de seu portal ocidental havia um monte verdejante, que estava vazio a não ser por uma cobertura de grama imutável.

$26 Então Yavanna e Niënna foram ao Grande Monte; e Yavanna o abençoou, e sentou-se por muito tempo na grama verde e cantou uma canção de grande poder, na qual estava contido todo seu pensamento sobre as coisas que cresciam na terra. Mas Niënna pensava em silêncio, e molhava o solo com lágrimas. Então todos os Valar se reuniram para ouvir a canção de Yavanna; e a colina estava no centro do Círculo do Destino ante os portões de Valmar, e os Valar sentaram-se ao redor dele em silêncio sobre seus tronos do conselho, com seus povos a seus pés. E enquanto os deuses observavam, veja! Sobre o monte surgiram dois brotos verdejantes, e eles cresceram e se tornaram belos e altos, e eles vieram a florescer.

$27 Assim nasceram no mundo as Duas Árvores de Valinor, de todas as coisas que crescem as mais belas e renomadas, cujo destino está entrelaçado com o destino de Arda. A mais velha das árvores foi nomeada Telperion, e suas flores eram de um branco brilhante, e um orvalho de luz prateada caía delas. Laurelin a Árvore mais jovem foi chamada; suas folhas verdes tinham uma borda dourada, e suas flores eram como agrupamentos de chamas amarelas, e uma chuva de ouro gotejava delas no chão. Destas Árvores vinha uma grande luz, e toda Valinor foi preenchida com ela. Então a felicidade dos Valar aumentou; pois a luz das Árvores era sagrada e de grande poder, tanto que, se alguma coisa era boa ou adorável ou de valor, naquela luz sua adorabilidade e seu valor eram plenamente revelados; e tudo que andava naquela luz estava contente em seu coração.

$28 E a luz que saía das Árvores permanecia por muito tempo, fosse levada pelos ares ou escorrendo na terra para seu enriquecimento. Então de sua abundância Varda costumava coletar uma grande quantidade, e ficava guardada em grandes vasos próximos ao Monte Verde. De lá os Maiar a retiravam e a levavam aos estuários e aos campos, mesmo aqueles distantes de Valmar, de forma que todas as regiões de Valinor se desenvolveram e cresceram ainda mais belas.

$29 Desta maneira começaram os Dias de Felicidade de Valinor, e começou também a contagem do Tempo. Pois as Árvores se desenvolviam até o florescimento e luz totais, e diminuíam novamente, incessantemente, sem mudança de velocidade ou completude. Telperion foi a primeira a florescer, e um pouco antes dela parar de brilhar Laurelin começou a desabrochar; e quando Laurelin diminuiu Telperion acordou  novamente. A partir daí os Valar tomaram o tempo do florescimento, primeiro de Telperion e depois de Laurelin, para ser para eles um Dia em Valinor; e o tempo em que cada Árvore estava florescendo sozinha eles dividiram em cinco horas, cada uma delas igual ao tempo do esvaecer de suas luzes, duas vezes em cada Dia. Existiam, portanto, doze de tais horas em cada Dia dos Valar; e mil desses Dias foram considerados um Ano, quando então as Árvores cresceriam um novo galho e suas estaturas aumentariam.

A seção inicial dos Anais de Aman termina aqui; é seguida por um título Aqui começa o novo Registro sob a Luz das Árvores com datas começando em A.A.1, o Primeiro Ano das Árvores.

NOTAS

1. A definição de Ëa como ‘o Mundo que É’ é encontrada também no surgimento do nome em uma adição ao texto do Ainulindalë D, $20. Eu a dou na forma que está nos textos, Ea, Ëa, .

2. A forma original do nome era Lórien, mas foi alterado para Lŏrien no manuscrito QS.

3. AV2 tem aqui ‘Yavanna, a quem Aulë desposou depois no mundo, em Valinor’; na versão reescrita do manuscrito AV2 que leva diretamente a AAm isto se tornou ‘Yavanna, a quem Aulë desposou em Arda’, onde AAm tem ‘em Ëa’.

4. AV2 tem aqui ‘estes são os Vanimor, os Belos’, alterado na versão posterior (ver nota 3) para ‘estes são os Mairi…’ e então para ‘estes são os Maiar…’. Este é o local onde a palavra Maiar surgiu pela primeira vez.

5. No mais antigo (e único) dos dois manuscritos do início de O Conto dos Anos o título Do Início dos Tempos e seu Registro foi subseqüentemente ampliado pela adição de Do trabalho de Quennar Onótimo; ver nota 6.

6. Quando esta sentença foi escrita pela primeira vez no rascunho do início de AAm (a versão reescrita de AV2) ela dizia: ‘e cada ano desses era tão longo quanto dez anos do Sol como são hoje’; isto é meu, pai ainda mantinha a antiga e muito mais simples contagem indo de AV2 a AV 1. Isto foi alterado no rascunho para ‘e cada ano desses era mais longo do que nove anos sob o Sol como são hoje’. Na versão mais antiga do Conto dos Anos as palavras ‘como são hoje’ foram escritas a lápis após ‘nove anos sob o Sol’, enquanto na segunda se lê ‘do que nove anos sob o Sol’.

A segunda versão do Conto dos Anos, a qual não se refere a Quennar Onótimo no título de Do Início dos Tempos e seu Registro (nota 5), tem aqui ‘Assim falou Quennar Onótimo sobre este assunto’. O que se segue deste ponto em diante em todos os três textos é um texto nitidamente menor, tanto que a referência a Quennar parece mais apropriada aqui.

7. A versão mais tardia (e única) do Conto dos Anos tem ‘um quinto de uma era dos Valar’ ao invés de ‘uma era dos Valar’.

8. A versão mais antiga do Conto dos Anos acrescenta aqui: ‘e cada era dos Valar é uma parte exata (quão grande ou pequena apenas eles sabem) de toda a história de Ëa. Mas estas coisas não são conhecidas com certeza mesmo para os Eldar’; a versão posterior começa a passagem da mesma forma, mas termina: ‘… de toda a história de Ëa de seu início ao Fim que deve ser. Mas estas coisas não são conhecidas com certeza mesmo para [os] Vanyar’.

9. O Conto dos Anos tem aqui: ‘Mas para os Anos das Árvores em comparação com aqueles que vieram depois’, que torna o sentido claro.

10. Na versão mais antiga do Conto dos Anos ‘do nascer do sol ao pôr do sol’ é alterado a lápis para ‘de pôr a pôr do sol’, e a seguinte frase ‘em tais momentos em que luz e escuridão são igualmente divididas’ foi colocado entre colchetes. A segunda versão tem uma leitura diferente: ‘de pôr a pôr do sol nos Litorais do Grande Mar’.

11. Nas versões do Conto dos Anos as palavras ‘(nove e meio e oito centésimos e mais um pouco) são omitidas.

12. Nas versões do Conto dos Anos as palavras ‘e ordenar’ são omitidas.

13. No lugar de ‘como dito a seguir’ (que se refere a relato do Sol e da Lua, mais tarde no AAm) as versões do Conto dos Anos têm ‘como é contado em outro lugar’.

14. No lugar de ‘foi assim feito’ as versões do Conto dos Anos têm ‘foi definido assim pelos Valar’.

15. ‘como um ano’ torna-se nas versões do Conto dos Anos ‘como um ano para si mesmos’.

16. As versões do Conto dos Anos têm aqui ‘Assim falou o Yénonótië de Quennar’. Para Yénonótië confira Yénië Valinóren ‘Anais de Valinor’ nas páginas-título de QS (HoME V), e o nome próprio nome Onótimo; ver as Etimologias, raízes NOT ‘contar’, YEN ‘ano’ (HoME V).

17. O parágrafo $10 tem a seguinte forma no rascunho do início de AAm:

É registrado pelos Mestres de Conhecimento que os Valar vieram para o Reino de Arda, que é a Terra, cinco mil e quarenta anos de nosso tempo antes do primeiro nascer da Lua. E destes, trinta mil se passaram antes que a medida de tempo se iniciasse com o florescer das Árvores. Aqueles foram os Dias antes dos dias. E quinze mil anos se seguiram durante os quais a Luz das Árvores ainda vivia e cerca de seiscentos mais do Novo Sol e Lua após o assassinato das Árvores. E estes foram chamados os Dias Antigos, e seu fim encerrou a Primeira Era do Tempo, e Melkor foi jogado para for do mundo.

Então em AV 1 e AV2 o registro era, portanto (A.V. = Ano(s) dos Valar, A.S. = Ano(s) do Sol):

A.V. 1000 = A.S. 10000 Primeiro florescer das Árvores

A.V. 3000 = A.S. 20000 Surgimento da Lua a primeira revisão dá A.S. 30000 Primeiro florescer das Árvores

Este registro então é substituído de novo:

A.V. 3500 = A.S. 33530 Primeiro florescer das Árvores

A.V. 5300 = A.S. 50775 Surgimento da Lua

Estes números mostrar uma proporção de 1 A.V. = 9,58 A.S. (veja os comentários $5-10). Este último registro foi a forma escrita inicialmente no AAm, a qual então foi modificada muitas vezes até chegar ao texto impresso aqui.

18. O texto era escrito como ‘escuro como a noite que existia antes de Ëa’, alterado mais tarde para ‘escuro como a Noite do Vazio’.

19. O texto como inicialmente escrito tem ‘além dos limites de Ëa’; isto mais tarde foi alterado para ‘pelas Muralhas da Noite além dos limites de Arda’, e então ‘além dos limites de Arda’ foi riscado.

20. O texto como inicialmente escrito tem ‘longe da luz de Illuin’.

21. O texto como escrito tem ‘a qual é a mais ocidental de todas as terras’ e ‘olha sobre o Mar de Fora que englobava o reino de Arda’; as mudanças para o tempo passado talvez foram feitas no tempo da escrita, uma vez que a próxima frase, ‘além estavam das Muralhas da Noite’, tinha o tempo passado como original. Por outro lado as seguintes sentenças têm o tempo presente (‘Mas no litoral leste de Aman está o ponto extremo do Grande Mar do Oeste’), onde está permaneceu.

Comentários sobre a primeira
seção dos

Anais de Aman

$$1-3 Sobre a ocorrência no nome Eru ver Ainulindalë (NT: ainda não traduzido pela Valinor). O relato das inter-relações entre os Valar e as rainhas dos Valar permanece bem próximo daquele em AV2 (HoME V), e mantém frases antigas (como ‘Manwë e Melkor eram os mais poderosos e eram irmãos’) datando da época dos Anais originais (HoME IV). Existem, contudo, alguns desenvolvimentos nesta seção inicial. Sobre a frase em $2, ‘Oromë e Tulkas eram os mais jovens no pensamento de Eru ao divisar o Mundo’, ver HoME V. Tulkas ter vindo a Arda por último deriva do Ainulindalë reescrito ($31).

Não é mais dito, como era no AV2, que Oromë era o filho de Yavanna. Por outro lado, é agora dito, assim como no Quenta (Q) e QS, que Vana era a irmã de Yavanna (e Varda), coisa que não era dita no AV2. Estas diferenças estão, talvez, conectadas; pois se ambos os relatos são combinados a esposa de Oromë é a irmã de sua mãe. Mas podemos apenas estar tendo uma visão muito convencional das relações divinas.

As citações de que Estë ‘não vai aos conselhos dos Valar e não é registrada entre os regentes de Arda’ e de que ela é a líder dos Maiar (ver nota 4 acima), são completamente novas.

$4 O trecho sobre os ‘espíritos menores’ não mostra desenvolvimento significativo daquele em AV2 (HoME V) exceto pela substituição de Vanimor por Maiar (traduzido ‘os Belos’, assim como Vanimor o fora); os Valarindi, Filhos dos Valar, ‘nascidos em Arda’ serem relacionados entre os Maiar, permanece. Sobre a história anterior destes conceitos ver HoME V.

$5 Telperion apareceu pela primeira vez em QS $16 (HoME V), mas não como o nome principal da Árvore Mais Velha, que permaneceu Silpion. Telperion, utilizado em O Senhor dos Anéis, agora se torna o principal.

$$5-10 O relato do Registro do Tempo à primeira vista parece confuso, mas pode ser
clarificado.

(i)
De acordo com o registro pela Árvores

12 horas (uma florada completa de ambas as Árvores) = 1 dia

1.000 dias (12.000 horas) = 1 ano

100 anos = 1 era dos Valar (como os Valar contagem as eras antes das Árvores, de acordo com uma suposição dos Mestres de Conhecimento dos Elfos; ver notas 7 e 8 do texto)

(ii)
Relação do registro pelas Árvores com o registro pelo Sol

1 hora das Árvores = 7 horas de nosso tempo

1 dia das Árvores = (7 x 12) 84 horas de nosso tempo

1 ano das Árvores = (7 x 12.000) 84.000 horas de nosso tempo

Existem (365,25 x 24) 8.766 horas em um Ano do Sol, portanto: 1 ano das Árvores = (84.000 / 8.766) 9,582 Anos do Sol *

(* confira o texto ($7): ‘nove e meio e oito centésimos e ainda mais um pouco’.)

(iii)
Intenção original dos Valar para o novo registro pelo Sol e Lua

12 horas de luz da luz + 12 horas de luz do sol = 24 horas = 1 dia completo

700 vezes de luz do sol e luz da lua = 350 dias completos = 1 Ano do Sol 1 hora = 1/7 de 1 hora das Árvores. Portanto: 1 Ano do Sol teria (24 x 350) 8.400 horas = (8.400 / 7) 1.200 horas das Árvores = 1/10 de um Ano dos Valar (ver (i) acima); portanto 1 Ano dos Valar seria = 10 Anos do Sol

O assunto pode ser mais concisamente expressado:

1 anos das Árvores = (7 x 1200) 84.000 horas de nosso tempo

84.000 – (350 x 24) 8.400 = 10

mas

84.000 – (365,25 x 24) 8.766 = 9,582

(iv)
As datas do primeiro florescer das Árvores e o primeiro nascer da Lua
($10)

As Árvores floriram inicialmente após 3.500 Anos dos Valar terem se passado, o que é dito ser igual a 33.530 Anos do Sol (isto pressupõe uma equivalência de 9,58; 9,582 daria 33.537). A Lua surgiu inicialmente após 5.000 Anos dos Valar terem se passado, o que é dito ser igual a 47.901 Anos do Sol; se a equivalência é 9,582 o número de Anos do Sol deveria ser 47.910, se fOssë 9,58 o número deveria ser 47.900). As Árvores brilharam por 1.495 Anos dos Valar. que é dito serem iguais a 13.222 Anos do Sol (o que pressupõe uma equivalência de quase exatamente 9,58)

$$11-29 A grande expansão da narrativa pré-Senhor dos Anéis (QS, AV2) é em parte derivada do mais recente Ainulindalë (que o AAm seguiu a última versão, D, daquele trabalho é demonstrado por vários detalhes, como por exemplos os nomes Ëa, Illuin e Ormal, o primeiro deles entrando em D por adição posterior, e aqueles das Lâmpadas substituindo Forontë e Hyarantë por correção). Mas existe muito que é completamente novo: que Manwë realizou uma grande festa na Ilha de Almaren, onde Tulkas desposou Nessa; que Sauron era ‘um grande artífice da casa de Aulë’; que os Valar foram incapazes de se sobrepor a Melkor àquele tempo porque precisaram conter as agitações da Terra e preservar o que pudesse do que tinham realizado; e outras características mencionadas abaixo. – A questão cosmológica é discutida ao final deste comentário.

$15 A afirmação de que sob a luz das Lâmpadas ‘aconteceu um grande crescimento de árvores e ervas, e bestas e pássaros vieram’ (confira também $18, onde Vana vestiu Nessa de flores na festa de Almaren) pertence ao Ainulindalë ($31): ‘flores de muitas cores, e árvores cujas flores eram como neve sobre as montanhas… bestes e pássaros vieram’ – onde, contudo, o texto foi corrigido (‘E ainda nenhuma flor havia florescido nem pássaro cantado’). Ver nota 17 e $31.

$20 Uma diferença estrutural entre AAm e o Ainulindalë é que neste último Melkor não começou a escavação de Utumno até a derrubada das lâmpadas e sua escapada dos Valar ($32) – uma história que volta à épocas dos textos do antigo ‘Rascunho da  Mitologia’. Em AAm, por outro lado, Melkor construiu Utumno, ou pelo menos estava bastante avançado no trabalho, antes dos Valar ficarem cientes dele, e foi de Utumno que o apodrecimento e a corrupção se originaram; os Valar então perceberam sua presença em Arda e ‘procuraram por seu esconderijo’, e foi isso (como parece) que levou à súbita emergência de Melkor em guerra aberta e à derrubada das Lâmpadas.

$22 O ataque a Melkor pelos Valar saindo de Valinor, descrito no Ainulindalë ($32), não é mencionado em AAm, que diz apenas que eles ‘ainda não podiam suplantá-lo’, tomando as palavras de QS $12 (HoME V). Que a idéia fora abandonada pode ser vista subseqüentemente, $47.

$23 Que toda vida em Aman estava livre de qualquer esvaecer ou murchar, e livre de corrupção ou doença, não haviam sido dito em textos anteriores.

$24 Mesmo que nos textos de 1930 a antiga idéia dos Contos Perdidos de que as estrelas foram criadas em dois atos separados (HoME I) tenha sido abandonada, ela agora reaparece: Varda fizera as estrelas ‘nas eras esquecidas de seus trabalhos em Ëa’, e mais tarde em AAm ($35) é dito que ‘ela fez estrelas novas e mais brilhantes’ antes do acordar dos Elfos. Presumivelmente isto deve ser associado com a concepção do tardio Ainulindalë ($$14,28) do estabelecimento de Arda ‘em meio a inumeráveis estrelas’.

$$25-6 Que as Árvores cresceram em um monte verdejante no Círculo do Destino é um novo detalhe, embora a implicação de QS $14 (HoME V) é de que as Árvores estavam no Círculo. O Círculo e o Monte aqui são ditos estar ante o portão ocidental de Valmar; nos Contos Perdidos as Árvores estão ao norte da cidade, e estavam algumas ‘léguas separadas’ uma da outra (HoME I).

$28 Este relato de que a luz que gotejava das Árvores sendo recolhida por Maiar dos poços de Arda para ‘aguar’ todas as terras de Valinor tem sua origem na antiga idéia de que as Árvores ‘devem ser aguadas com luz para brotar e viver’ (HoME I).

$29 Ao final deste parágrafo há um novo detalhe digno de nota, que após mil dias as
Árvores cresceriam um novo galho; e que devido a isso o Ano dos Valar foi constituído dessa forma. Parece – e é dito aqui expressamente – que o dia dos Valar tinha doze horas porque o período de luz misturada era exatamente cinco vezes menor que o período de total florescer tanto de Telperion quanto Laurelin; se tivesse sido três vezes menor o dia teria tido oito horas, e assim por diante. O dia dos Valar era, portanto, da natureza das Árvores. Agora aprendemos que o Ano dos Valar de 1.000 dias também era devida à natureza das Árvores, uma vez que após aquele tempo as Árvores cresceriam um novo galho.

Não há a sugestão aqui de que o cálculo que cem anos das árvores constituíam um Ano dos Valar (o que nos vai de retorno ao mais antigo dos Anais, HoME IV) era relacionado com a estrutura interna das Árvores; mas é dito na seção Do Início do Tempo e seu Registro ($6) que os Mestres de Conhecimento supunham que ‘os Valar fizeram desta forma as horas das Árvores de tal forma que cem de tais anos assim medidos seriam a duração de uma era dos Valar (assim como tais eras eram nos dias de seus trabalhos antes da fundação de Valinor)’ – isto é, antes das Árvores. Uma vez que as duas passagens são separadas por apenas algumas páginas no mesmo manuscrito a presume-se que não sejam contraditórias; e tomadas em conjunto o sentido pode apenas ser que os períodos das Árvores, que eram de suas natureza, de qualquer forma eram relacionados a um modo de medida de tempo de antes das Árvores surgirem. Isto por sua vez parece exigir que os Valar sabiam, ou haviam ‘visto’, mesmo antes de Yavanna e Niënna irem ao Monte Verdejante, a natureza periódica da luz das Árvores.

O problema cosmológico é aqui acrescido de novas evidências. Os trechos relevantes nesta primeira seção do AAm são estes:

$1 Ëa é ‘o Mundo que é’; os Valar são ‘os Poderes de Ëa’.

$11 Após eras de trabalho ‘nos grandes salões de Ëa os Valar desceram à Arda no começo de sua existência’.

$13 Tulkas veio a Arda ‘de distantes regiões de Ëa’.

$17 Melkor reuniu espíritos ‘dos vazios de Ëa’; e ele ‘ele se aproximou de Arda e olhou sobre ela’.

$18 Os Valar não perceberam a sombra escura ‘lançada de longe por Melkor’.

$19 Melkor ‘atravessou os limites de Ëa’ > ‘atravessou as Muralhas da Noite nos limites de Arda’ > ‘atravessou as Muralhas da Noite’ (nota 19).

$23 O Mar de Fora ‘que englobava o reino de Arda, e além estavam as Muralhas da
Noite’.

As Muralhas da Noite não haviam sido nomeadas em nenhum outro lugar: mas é difícil de visualizar, especialmente à vista da sentença citada em $23, como elas não poderiam ser igualadas com as Muralhas do Mundo. Eu disse (página 29) que a partida de Melkor de Arda no Ainulindalë – a nova história que surgiu após O Senhor dos Anéis – levanta a questão da passagem das Muralhas do Mundo e da forma que aquele conceito tomou. A idéia de tal passagem de fato surgiu, e ainda de forma mais intrigante, no período anterior, ao final de Q, onde é dito que alguns acreditam que Melko de vez em quando retorna ao mundo, e que ele ‘rasteja de volta escalando as Muralhas’ (HoME IV). O trecho em AAm $19 (como corrigido) é inequívoco: Melkor passou sobre as Muralhas da Noite. Nós retornamos à mais antiga imaginação das Muralhas: confira meu comentário em 1.227, ‘a implicação parece clara de que as Muralhas eram originalmente concebidas como os muros de cidades terrestres, ou jardins – muros com um topo: uma “cerca em forma de anel”’. Então, podemos supor, Melkor podia ‘olhar para baixo para Arda’ ($17); então sua vasta sombra poderia ser lançada mesmo antes que ele atravessasse as Muralhas ($18); e
portanto Tulkas ($13) e os espíritos convocados por Melkor ($19) puderam entrar a ‘região cercada’ (como Arda é definida, página 7).

Mas a frase ‘ele atravessou as Muralhas da Noite’ foi uma correção do que meu pai escreveu inicialmente: ‘ele atravessou os limites de Ëa’. Isto pode significar outra coisa além de que ao entrar em Arda Melkor deixa Ëa? Nesta conexão pode-se retornar aos dois diagramas Ambarkanta de ‘Ilu’ (HoME IV), sobre os quais muito mais tarde (talvez a este tempo) meu pai fez correções a lápis ao Ilurambar ‘as Muralhas do Mundo’, alterando-a para Ëarambar (‘as Muralhas de Ëa’). (Claro, se as Muralhas não são mais concebidas como uma concha esférica – de onde veio a expressão ‘tomaram a forma de globo em meio ao Vazio’ como usada nas versões mais antigas do Ainulindalë – mas como uma fortificação ultrapassável, o Ëarambar não pode ser tomado na mesma concepção que o Ilurambar, mas apenas como um novo nome para as Muralhas, agora diferentemente concebidas; e a substituição do novo nome em antigos diagramas é, portanto, àquele ponto, enganosa). Da mesma forma é difícil perceber o que Ëarambar poderia significar que não ‘as Muralhas que isolavam para fora as vastidões escuras dos “vazios de Ëa” ‘ (uma expressão utilizada em $17), em contraste a Ilurambar ‘as Muralhas que cercavam Ilu’.

A dificuldade com isso, claro, é que Ëa em outro lugar está definido como ‘Universo daquilo que É’ (página 7), ‘Criação do Universo’ (página 39) e Ëa portanto necessariamente inclui Arda; de qualquer forma é abundantemente claro em todos os textos do período tardio que Arda está em Ëa. Mas também, em todo caso, Arda pode ser dita como separada de Ëa quando Ëa é dita ser “Espaço”.

Dentre todas as ambigüidades (mais especificamente, no uso da palavra ‘Mundo’), a evidência parece ser que nestes textos a imagem de mundo do Ambarkanta sobreviveu ao menos na concepção do Mar de Fora e se estendendo às Muralhas do Mundo, agora chamadas Muralhas da Noite – embora as Muralhas tenham sido concebidas de forma diferente (ver também $168). Agora na revisão de ‘O Silmarillion’ feita em 1951 a frase em QS $12 (HoME V) ‘as Muralhas do Mundo isolavam para fora o Vazio e a Escuridão Mais Antiga’ – uma frase em perfeita concordância, claro, com o Ambarkanta – foi mantida. Esta é uma dificuldade central com relação ao Ainulindalë, onde é feito tão claro quanto se poderia desejar que Ëa veio a existir no Vazio, tomou forma de globo em meio ao Vazio ($$11, 20); como então as Muralhas de Arda ‘isolavam para fora o Vazio e a Escuridão Mais Antiga’?

Uma possível explicação, de certa forma, pode ser deduzida em certas palavras citadas acima, do AAm $17: Melkor reuniu espíritos dos vazios de Ëa. Pode ser que, embora AAm não esteja muito tempo distante da última versão (D) do Ainulindalë, a concepção de meu pai de fato agora não está totalmente de acordo com o que ele escreveu lá; que (como sugeri, página 39) ele estava pensando em Arda como tendo sido ‘colocada dentro de uma vastidão indefinida na qual toda a ‘Criação’ está compreendida’, ao invés de uma Ëa limitada posta ela mesmo ‘em meio ao Vazio’. Então, além das Muralhas da Noite, os limites de Arda, pressionaram ‘os vazios de Ëa’. Mas esta sugestão, claro, não elimina todos os problemas, ambigüidades e contradições aparentes na cosmologia do período tardio, as quais foram discutidas anteriormente.

«

Eu mencionei que existe um texto datilografado da parte mais antiga do AAm que é bastante distinto da cópia datilografada pelo amanuense de todo o trabalho. Eu não estava ciente de sua existência quando o texto de O Silmarillion foi preparado para publicação. Ele foi tomado diretamente de e baseado de perto no manuscrito AAm, e foi com certeza feito por meu pai, que inseriu mudanças do manuscrito à medida que datilografava. Na realidade ele possui uma grande quantidade de tais mudanças, a maioria pequena ou muito pequena, mas também algumas alterações e adições importantes; e ele não inclui a seção Do Início do Tempo e seu Registro. Nenhuma dessas mudanças aparecem nas correções feitas na cópia datilografada pelo amanuense ou sua cópia em carbono, exceto a remoção da seção sobre o Registro do Tempo.

Eu irei me referir a este texto como ‘AAm*’. Aparentemente não há maneiras de determinar com certeza quando ele foi feito, e posso apenas registrar minha intuição de que ele é do mesmo período do manuscrito AAm e não de algum tempo posterior. De qualquer forma meu pai logo o abandonou. Pode ser que o colocando de lado meu pai o tenha esquecido ou o perdido; e quando surgiu a oportunidade de ter o trabalho datilografado por um secretário que era um datilógrafo treinado (como parece ser o caso) ele simplesmente entregou o manuscrito AAm como ele era (incluindo portanto a seção sobre o Registro do Tempo, embora AAm* o tenha cortado).

Eu forneço agora as mudanças dignas de nota no AAm* (que se estende um pouco além do ponto alcançado nesta primeira seção).

O preâmbulo

Aqui começam os ‘Anais de Aman’. Rúmil os fez nos Dias Antigos e eles foram mantidos na memória pelos Exilados. Aquelas partes que aprendemos e lembramos foram, portanto, escritas em Númenor antes que a Sombra caísse sobre ela.

Isto é especialmente interessante uma vez que mostra um modo de transmissão diferente da tradição ‘Pengoloð – Ælfwine': os Anais foram concebidos como um trabalho escrito feito em Númenor, derivando dos ‘Exilados’, os Noldor na Terra-média, que o derivaram do trabalho de Rúmil. A idéia de que Númenor foi um elemento essencial na transmissão das lendas dos Dias Antigos irá reaparecer.

$1 No lugar de ‘líderes dos Valar’ AAm* tem ‘senhores dos Valar’, também subseqüentemente. Lorien foi alterado a lápis no texto datilografado para Lorion (mas não na passagem citada em $3, abaixo).

$2 Em AAm a antiga frase ’Manwë e Melkor eram os mais poderosos e eram irmãos’ foi preservada, mas AAm* tem no lugar:

Melkor e Manwë eram irmão no pensamento de Eru, e os mais antigos de sua raça, e seus poderes era iguais e maiores do que os de todos os outros que residiam em Arda. Manwë é Rei dos Valar…

É dito no tardio Ainulindalë ($$5,9) que Melkor era o mais poderoso dos Ainur, e isto, de fato, vai ao texto B do Ainulindalë, anterior ao Senhor dos Anéis (ver HoME V nota 4 para as diferentes afirmações feitas sobre o assunto). Mais tarde em AAm ($102) Fëanor ‘fecha as portas de sua casa na cara do mais poderoso de todos os moradores em Ëa’.

Este texto tem ‘Oromë e Tulkas eram os mais jovens no pensamento de Eru’ onde AAm tem ‘mais novos’

$3 Existe uma estranha mistura de presente e passado nesta passagem: há ‘Vana a bela é a mulher de Oromë’, ‘Vairë a tecelã mora com Mandos’ mas ‘Nenhuma esposa possuía Ulmo, nem Melkor’, ‘Nenhum senhor possuía Niënna’, ‘A mulher de Lorien era Estë a pálida’.

Agora não é dito que Vana (marcada Vana na primeira ocorrência mas não
subseqüentemente) era a irmã de Yavanna.

Como datilografada, a passagem começando com ‘Nenhum senhor possuía Niënna’ (escrita assim, não Niënna, em todas as ocorrências em AAm*) segue assim:

Nenhum senhor possuía Niënna, rainha da Sombra, irmã de Manwë. A mulher de Tulkas era Nessa a Jovem; e a mulher de Lorien era Estë a Pálida. Este não se sentavam nos conselhos dos Valar mas eram os maiores dentre os Maiar.

No AAm é dito apenas sobre Estë que ‘ela não vai aos conselhos dos Valar’, e seu nome não aparece na lista das rainhas dos Valar: ela é ‘a líder dos Maiar’. No texto atual, mesmo com a exclusão também de Nessa dos conselhos, e a afirmação de que ela e Estë ‘são as maiores dentre os Maiar’, seu nome continua figurando na lista das rainhas. Emendas contemporâneas ao texto datilografado produziram esta mudança notável:

Nenhum senhor possuía Niënna, irmã de Manwë; nem Nessa a Dama Eterna. A mulher de Tulkas era Lëa a Jovem; a mulher de Lorien era Estë a Pálida…

O texto então continua como antes, então as duas que não se sentam nos conselhos dos Valar e são ‘as maiores dentre os Maiar’ tornam-se Lëa e Estë. Não há vestígios deste desenvolvimento em qualquer outro texto, mas Lëa aparece de novo em AAm* no texto datilografado (ver $18 abaixo).

$4 Este parágrafo foi substancialmente ampliado:

Com estes grandes poderes vieram muitos outros espíritos do mesmo tipo, nascidos no pensamento de Eru antes da criação de Ëa, mas tendo menos poder e autoridade. Este são os Maiar, o povo dos Valar; eles são belos, mas seu número não é conhecido e poucos têm nomes entre os Elfos ou Homens.

Há também aqueles a quem chamamos Valarindi, que são ps Filhos dos Valar, nascidos de seu amor depois de suas entradas em Ëa. Eles são os filhos mais velhos do Mundo; e embora seu existir comece dentro de Ëa, mesmo assim são da raça dos Ainur, que eram antes do mundo, e eles têm poder e nível abaixo apenas dos Valar.

$12 No fim deste parágrafo AAm* acrescenta: ‘E passaram muitos anos dos Valar em conflito’.

$14 A data A.V. 1900 da criação das Lâmpadas é omitida em AAm*.

$15 AAm* mantém as palavras de AAm, ‘e aconteceu um grande crescimento de árvores e ervas, e bestas e pássaros vieram…’ Veja o comentário sobre este trecho: a referência à aparição dos pássaros e flores a este tempo foi removida do Ainulindalë D pelo que parece ter sido uma mudança bem antiga no texto, e nisto está a sugestão de que as duas versões do início dos Anais de Aman pertencem mais ou menos à mesma época.

$17 Este parágrafo sofreu várias alterações:

Melkor sabia de tudo que fora feito pois mesmo então ele tinha amigos secretos entre os Maiar, que ele convertera à sua causa, seja no primeiro cantar do Ainulindalë ou mais tarde em Ëa. Destes o principal, como mais tarde ficou conhecido, era Sauron, um grande artífice da casa de Aulë. E distante em lugares escuros, para onde ele havia recuado, Melkor estava cheio de um novo ódio, invejoso do trabalho de seus pares, os quais ele desejava tornar sujeitos a si mesmo. Então ele reuniu para si espíritos dos vazios de Ëa que o serviam, até que ele considerou que era forte; e vendo novamente seu tempo ele se aproximou de Arda e olhou sobre ela, e a beleza da Terra e sua Primavera o deixou maravilhado, mas por não ser dele, resolveu destruí-la.

$ 18 Aqui Lëa a Jovem, mulher de Tulkas, aparece novamente, no texto datilografado e não por emenda (ver em $3 acima), chamada agora Lëa-vinya (‘Lëa a Jovem’):

É dito que naquela festa da Primavera de Arda Tulkas desposou Lëa-vinya, a mais bela das damas de Yavanna, e Vana cobriu-a com as flores que floresceram primeiro; e ela dançou perante os Valar…

Sobre a referência às primeiras flores ver $15 acima.

$19 AAm* tem ‘as Muralhas de Noite’ ao invés de ‘as Muralhas da Noite’, e de novo em $23.

$20 Melkor começou a escavação e construção de uma vasta fortaleza profundamente sob a Terra, [riscado: abaixo das raízes da] longe da luz de Illuin; e ele criou grandes montanhas sobre seus salões. Aquele forte foi mais tarde chamado Utumno o Esconderijo profundo; e por um longo tempo os Valar não souberam de nada disso…

No AAm Utumno foi escavado ‘embaixo de montanhas escuras’; o novo texto, no qual Melkor cria montanha acima dele (como as Thangorodrim acima de Angband), surgiu no momento da datilografia.

$21 Onde AAm tem ‘E ele atacou as luzes de Illuin e Ormal’ AAm* tem:

E ele veio do Norte como uma tempestade escura, e ele atacou as luzes de Illuin e
Ormal.

$22 A conclusão deste parágrafo em AAm, ‘que ainda viriam em um tempo que era
escondido dos Valar’, é omitida no AAm*.

$23 A palavra ‘deuses’ foi removida em AAm* de ambas as ocorrências: no início do
parágrafo ‘os deuses não tinha residência na face da terra’ tornou-se ‘eles não
tinham’, e perto do final ‘pois os deuses moravam ali’ tornou-se ‘pois os
Servos de Ilúvatar moravam ali’.

A Terra de Aman estava ‘nas bordas do mundo antigo’ (isto é, o mundo antes do Cataclismo); ‘nas bordas do mundo’ em AAm. A passagem a respeito de Taniquetil
foi alterada para :

E acima de todas as montanhas das Pelóri estava o pico que foi chamado Taniquetil Oiolossë, o brilhando pico de Sempibranco, sobre cujo topo Manwë colocou seu trono, ante as portas dos salões do domo de Arda.

$25 Em AAm é dito que ‘os Valar construíram sua cidade’; AAm* trás: …no meio da
planície a oeste das Pelóri Aulë e seu povo construíram para eles uma bela cidade. Aquela cidade eles nomearam Valimar a Abençoada.

Isto é uma reaparição dos Contos Perdidos; confira HoME I: ‘Agora eu recontei o estilo das moradias de todos os grandes Deuses as quais Aulë seu artífice criou em Valinor’. – Esta é a primeira ocorrência da forma Valimar (e novamente em $$26,28 deste texto).

$26 Após as palavras ‘Mas Niënna pensava em silêncio, e molhava o solo com lágrimas’ há uma nota de rodapé na nova versão:

Pois é dito que mesmo na Música Niënna atuou pouco, mas prestou muita atenção a tudo que ouviu. Portanto ela é rica em memória, de grande visão, percebendo como os temas deveriam se desenrolar no Conto de Arda. Mas ela tinha pouca alegria, e todo seu amor era mesclado com piedade, lamentando pelos danos ao mundo e pelas coisas que falharam em atingir a completude. Tão grande era sua comiseração, é dito, que ela não pode suportar até o final da Música. Por isso ela não tem a esperança de Manwë. Ele tem maior visão; mas Piedade é o coração de Niënna.

Sobre esta passagem ver nota 2. A afirmação aqui de que Niënna ‘não pode suportar até o final da Música’ é bastante dramática; mas não é dito no que a esperança de Manwë se baseia. Pode ser relevante relembrar a nota de rodapé de Pengoloð ao Ainulindalë D, $19:

E alguns disseram que a Visão cessou antes da completude do Domínio dos Homens e o esvaecer dos Primogênitos; por isso, embora a Música esteja acabada, os Valar não viram com a visão as Eras Tardias ou o final do Mundo.

$28 Por ‘guardada em grandes vasos’ AAm* tem ‘guardada em poços profundos’.

*

Restam a ser consideradas as poucas emendas feitas nesta seção inicial ao texto de AAm datilografado pelo amanuense, e aquelas (quase completamente diferentes) feitas à cópia em carbono. Estas mudanças são apressadas, e casuais, em nenhum sentido uma revisão real do trabalho. Eras foram feitas em algum momento posterior que eu sou incapaz de definir; mas elas tiveram o efeito de trazer o início de AAm em acordo com a forma mais tardia da outra tradição, procedente do capítulo 1 de QS ‘Dos Valar’ e em última análise refletindo no trabalho curto e independente Valaquenta.

No topo da cópia do texto datilografado não apenas a seção sobre o Registro do Tempo foi mas também o comprimido relato dos Valar no início: uma nota na página de rosto do texto informa que os Anais devem começar no Primeiro Ano dos Valar em Arda ($11). Mas mudanças a lápis foram feitas a $$1-4 antes disso:

$1 ‘nove líderes’ > ‘sete líderes’; Ossë e Melkor foram riscados da lista. Sobre a remoção de Ossë ver $70.

$2 A palavra ‘também’ adicionada a ‘As rainhas dos Valar também eram sete’; Estë
adicionada e Uinen removida, de forma que a lista se torna ‘Varda, Yavanna, Niënna, Estë, Vairë, Vana e Nessa’.

$3 ‘Varda era a esposa de Manwë desde o início’ > ‘Varda era a esposa de Manwë desde o início de Arda’

‘e Uinen, senhora dos mares, é esposa de Ossë’ foi riscado (simplesmente uma
conseqüência de Ossë não ser mais listado entre os ‘líderes’).

‘irmã de Manwë e Melkor’ (sobre Niënna) foi riscado.

‘mas ela não vai aos conselhos dos Valar e não é registrada entre os regentes de Arda, mas é a senhora dos Maiar’ (sobre Estë) foi riscado (uma conseqüência de agora Estë ser incluída entre as ‘rainhas’).

$4 Está riscado de ‘E entre eles são contados os Valarindi…’ até o fim do parágrafo (ver abaixo).

$28 ‘grandes vasos’ > ‘poços brilhantes’ (compare com a mudança feita em AAm*).

Mudanças bastante diferentes foram feitas na cópia em carbono nesta seção sobre os Valar. Em $3 ‘a mulher de Oromë’ e ‘mulher de Tulkas’ foram alteradas para a esposa de Oromë e esposa de Tulkas. ‘Nenhum senhor possui Niënna’ foi alterado para ‘Nenhum companheiro tinha Niënna’; e na margem ao lado destas mudanças meu pai escreveu:

Note que ‘esposa’ significa apenas uma ‘associação’. Os Valar não tinham corpos, mas podiam assumir formas. Após a chegada dos Eldar ele mais freqüentemente usavam formas ‘humanas’, embora mais altas (não gigantes) e mais magnificentes.

Ao mesmo tempo a passagem referente aos Valarindi, os Filhos dos Valar, ao final de $34, foi riscada (assim como no texto principal), uma vez que esta nota é a afirmação mais definitiva de que quaisquer concepções desta forma estavam fora de cogitação.

Algumas poucas outras escritas a lápis foram feitas em pontos subseqüentes da cópia em carbono:

$20 Ao lado de Utumno está escrito a lápis: ‘UtupnÅ­ √TUI? ocultar, esconder’; com isto confira AAm* $20: ‘aquele forte foi mais tarde chamado Utumno o Esconderijo profundo’, e veja as Etimologias (HoME V), raiz TUB, onde a forma original do nome é dada como *Utubnu.

$23 Onde a palavras ‘deuses’ foi substituída por ‘os Servos de Ilúvatar’ em AAm* meu pai corrigiu a cópia em carbono do texto datilografado para ‘os Imortais’. Na ocorrência de ‘deuses’ no início do parágrafo ele fez a mesma mudança (para ‘eles’) que em AAm*.

$25 Após ‘um monte verdejante’ foi adicionado Ezellohar; e em $26 Ezellohar substitui ‘aquele Monte Verdejante’.