25 Hobbits

Vocês devem ter reparado que na página inicial da Valinor existe um banner pro 25 Hobbits. Pois bem, peço a todos que votem, podem
 

Vocês devem ter reparado que na página inicial da Valinor existe um banner pro 25 Hobbits. Pois bem, peço a todos que votem, podem votar bastante mesmo. Vamos mostrar que os brasileiros existem e são muito ativos do mundo de Tolkien. Vamos colocar a Valinor no TOP 10 do 25 Hobbits!

VALINOR – O pq de não termos Downloads (ainda)

Saudações,

Vocês devem ter reparado que a Valinor não tem downloads. Pois bem, acho que é justo explicar o pq di

 

Saudações,

Vocês devem ter reparado que a Valinor não tem downloads. Pois bem, acho que é justo explicar o pq disso.

Quando formamos a Valinor, tivemos uma escolha complicada a ser feita [deixa eu explicar o que é limitação de transferência: o servidor da Valinor possui um limite de 2 GB de transferência por mês, ou seja, 2GB de coisas podem sair do servidor da Valinor. Se você baixa um vídeo de 10 MB, esse valor soma-se ao total transferido da Valinor. Se 200 pessoas baixarem esse video, já estoura o limite de 2 GB]:
1. Provedor rápido, mas com menor limite de transferência
2. Provedor lento, mas sem limitação de tranferencia

Pois bem, optamos pela primeira opção. Uma página num provedor mais rápido.

Eu tenho muita coisa de download pra colocar, masestou restrito por causa disso… devo ter uns 2 GB ou coisa assim, mas não posso colocar por causa do limite de transferência. Acima desse valor, pagamos uma taxa de R$ 0,15 por MB transferido, o que causaria um grande aumento dos gastos. Como a Valinor não tem receita e é mantida de forma idealista por meia dúzia de abnegados, fica dificil colocar ainda mais dinheiro na mesma.

Portanto, se alguém quiser patrocinar a melhor e maior página de Tolkien no Brasil (ou ouber de algum provedor que queira), com mais de 25 mil usuários únicos por mês e público cativo, é só entrar em contato comigo.

Manter uma página séria é complicado, galera, em termos de grana…

:)

O que aconteceria se Frodo mantivesse o Um Anel?

Por incrível que pareça, Tolkien manteve uma correspondência bastante
ativa com os fãs depois do lançamento de O Senhor dos Anéis,
esclarecendo os temas e personagens de seu universo ficcional. E sem
dúvida um dos exemplos mais fascinantes disso é uma longa carta escrita
em 1963 para Eileen Elgar, na qual Tolkien fala sobre o possível
“fracasso” de Frodo em resistir ao Anel e, além disso, tenta imaginar o
que aconteceria se o hobbit realmente tivesse vencido Gollum e tentado
manter o Anel para si.
 
 
 
“É um problema interessante: como Sauron teria agido ou Frodo teria resistido”, diz Tolkien. “Sauron
imediatamente enviou os Espectros do Anel. Eles estavam, naturalmente,
perfeitamente instruídos, e não se deixavam enganar quanto ao real
senhor do Anel. [...] Mas a situação agora era diferente da que
ocorrera no Topo dos Ventos. Frodo havia crescido desde então. Será que
os Espectros estariam imunes ao poder do Anel se Frodo o reivindicasse
como instrumento de comando e dominação?

Não totalmente. Não acho que eles poderiam tê-lo atacado com
violência [...]; teriam obedecido ou fingido obedecer a quaisquer
comandos menores dele que ṇo interferissem com sua misṣo Рimposta a
eles por Sauron, que através dos Anéis [que ele tinha consigo] exercia
o controle primário de suas vontades. [...] Frodo havia se tornado uma
pessoa considerável, mas de um tipo especial: em crescimento espiritual
ao invés de em aumento de força física ou mental; sua vontade era muito
maior do que fôra, mas até aquele momento havia sido exercida para
resistir ao uso do Anel [...]. Ele precisava de tempo, muito tempo,
antes que pudesse controlar o Anel [...].


A situação de Frodo em relação aos Oito [nota de rodapé: O Rei Bruxo
havia sido reduzido à impotência] era semelhante à de um homem pequeno
e corajoso equipado com uma arma devastadora, enfrentado por oito
guerreiros selvagens de grande força e agilidade, armados com lâminas
envenenadas. A fraqueza do homem é que ele ainda não sabia como usar
sua arma, e era por temperamento e treinamento avesso à violência; a
fraqueza dos guerreiros era que essa arma era algo que os enchia de
medo por ser um objeto de terror em seu culto religioso, e que fazia
com que eles tratassem quem o usasse com servilismo. Acho que eles
teriam mostrado “servilismo”. Teriam saudado Frodo como “Senhor”. Com
belas palavras o teriam induzido a deixar as Sammath Naur – por
exemplo, “para ver seu novo reino e contemplar de longe com sua nova
visão a morada de poder que ele agora deveria reivindicar e adequar a
seus próprios propósitos”
.

Assim que ele saísse, um deles provavelmente destruiria a câmara,
mas Frodo já estaria imerso demais em grandes planos de domínio
reformado para dar atenção a isso. Mas se ele ainda conservasse alguma
sanidade e entendesse parcialmente o significado daquilo, de maneira
que se recussasse a ir com eles até Barad-dûr, eles simplesmente
esperariam. Até que Sauron em pessoa viesse. Em qualquer caso, um
confronto entre Frodo e Sauron logo teria lugar se o Anel ainda
estivesse intacto. O resultado seria inevitável. Frodo seria
completamente derrotado; desfeito em poeira, ou preservado em tormento
como um escravo gaguejante. Sauron não teria temido o Anel! Era dele, e
sujeito à sua vontade”
.

Tolkien prossegue, considerando as possibilidades de vitória se outros
personagens confrontassem pessoalmente Sauron com seu próprio Anel. “Dos “mortais”, nenhum – nem mesmo Aragorn”. Entre os elfos, nem mesmo Elrond e Galadriel seriam capazes de tal feito, pelo menos não num confronto direto: “Eles
teriam construído um império com generais poderosos e completamente
subservientes e exércitos e máquinas de guerra, até que pudessem
desafiar Sauron e destruí-lo pela força”
.

Entre todas essas possibilidades, quem poderia então tentar realmente
enfrentar Sauron cara a cara? Acertou quem apostou em Gandalf. “Apenas
Gandalf poderia dominá-lo – sendo um emissário dos Poderes e uma
criatura da mesma ordem, um espírito imortal tomando forma visível.
[...] Seria um equilíbrio delicado. De um lado, Sauron e a verdadeira
fidelidade do Anel a ele; do outro força superior, porque Sauron não
estava realmente em posse [do Anel], e talvez também porque ele estava
enfraquecido por longa corrupção e gasto de sua força para dominar
inferiores. Se Gandalf provasse ser o vencedor, o resultado seria para
Sauron idêntico à da destruição do Anel. [...] Mas o Anel e todas as
suas obras durariam. Seria ele o mestre no fim”
.

Tolkien conclui afirmando que nem Mithrandir [como o próprio mago bem sabia] ficaria imune à corrupção do Um Anel. “Gandalf
como Senhor do Anel seria muito pior que Sauron. Ele continuaria
“justo”, mas levando em conta apenas suas próprias idéias. Ele
continuaria a governar e ordenar as coisas para o “bem”, e o benefício
de seus próprios súditos de acordo com sua sabedoria”
.

Númenor, Elendil e viagens no tempo – parte II

O abandono da narrativa de The Lost Road marcou uma virada importante
na obra tolkieniana. Com efeito, em fins de 1937, Tolkien abandonou
pela primeira vez a grande mitologia dos Dias Antigos que vinha
desenvolvendo há mais de 20 anos, e se voltou para a “seqüência de O
Hobbit”, um pedido insistente dos fãs de Bilbo e do editor de Tolkien,
Stanley Unwin. Essa decisão surgiu principalmente da avaliação que os
manuscritos de O Silmarillion receberam da editora de Stanley, a Allen
& Unwin. Embora reconhecessem o interesse e a qualidade de algumas
passagens [na verdade, apenas trechos da história de Beren e Lúthien
chegaram a ser lidos pelos avaliadores da editora], a opinião dos
editores era de que o livro não alcançaria um público grande o
suficiente para compensar seu lançamento comercial.
 
 
 
Tolkien parece não ter se abatido; nesse momento,
considerava sua mitologia um assunto praticamente privado, e não
acreditava que ela chegasse a ser efetivamente publicada. Voltou-se
então com afinco à criação da “seqüência de O Hobbit”. O resultado,
porém, foi que o novo livro tomou um rumo completamente inesperado. Em
vez de simplesmente continuar a história de O Hobbit, a “seqüência” se
transformou na continuação e conclusão das lendas heróicas de O
Silmarillion. É claro que estamos falando de O Senhor dos Anéis.

A história de Númenor e de sua queda, bem como a dos reinos
numenoreanos na Terra-média, começou a ser esboçada em 1937, mas só
alcançou desenvolvimento verdadeiro durante a elaboração de O Senhor
dos Anéis. Como sabemos, o livro foi sendo escrito em meio a muitas
hesitações e interrupções. Uma das maiores talvez tenha acontecido em
fins de 1944, quando quase todo O Retorno do Rei ainda não havia sido
escrito. Durante mais de um ano e meio Tolkien não conseguiu progredir,
ao mesmo tempo em que uma nova narrativa tomava forma. A única
referência do próprio Tolkien a esse texto está numa carta a Stanley
Unwin, de julho de 1946:

“Em uma quinzena de comparativa folga, por volta do Natal passado,
escrevi três partes de um outro livro, utilizando num escopo e
ambientação completamente diferentes aquilo que possuía algum valor em
The Lost Road” [Letters of J.R.R. Tolkien, 105].

Esse “outro livro”, que viria a se chamar The Notion Club Papers [As
palestras do clube Notion], foi publicado no nono livro da série The
History of Middle-earth, chamado Sauron Defeated. The Notion Club
Papers foi talvez a mais ambiciosa tentativa de Tolkien de entrelaçar
sua mitologia com o mundo moderno através de uma “viagem no tempo”, não
física, mas onírica e até “mediúnica” [se é que se pode usar um termo
espírita, um tanto estranho à mentalidade do católico Tolkien].

O cenário da história não podia ser mais familiar para quem conhece a
biografia do Professor: um grupo de acadêmicos de Oxford, que se
reuniam regularmente para discutir literatura e ler suas obras em
desenvolvimento uns para os outros. O fato curioso, porém, é que
Tolkien coloca esse círculo [muito similar aos Inklings, que o próprio
autor freqüentava junto com C.S. Lewis] no futuro. Isso mesmo: a
história se passa em algumas reuniões do clube Notion em 1987, das
quais as misteriosas atas teriam sido descobertas num saco de lixo em
Oxford no ano de 2012.

As discussões do clube Notion são quase sempre a respeito de
“literatura imaginativa”: viagens no tempo e no espaço, mundos
imaginários, a possibilidade do homem chegar a outros planetas. A
maioria dos membros parece concordar [num ponto de vista tipicamente
tolkieniano] que o tempo e o espaço [ao menos o espaço interestelar]
dificilmente serão vencidos por máquinas. A discussão está nesse ponto
quando Michael Ramer, um dos membros do clube e professor de línguas
fino-úgricas [o grupo lingüístico do finlandês] vem como uma sugestão
desconcertante: e se for possível observar outros tempos, e outros
lugares, nos sonhos?

Ramer expõe um “método” que teria desenvolvido para esse fim, e os
membros do clube sentem-se tocados [embora um tanto incrédulos] por
essa estranha possibilidade. As conversas do grupo começam, então, a se
concentrar nas relações entre os sonhos, o “inconsciente” humano e os
mitos e lendas. Ramer tenta demonstrar a força que mitos e sonhos,
especialmente os coletivos, podem ter sobre o mundo real:

“- Não acho que vocês se dêem conta, não acho que nenhum de nós se
dê conta da força, da força demiúrgica que os grandes mitos e lendas
têm. Da profundidade das emoções e percepções que os geraram, e da
multiplica̤̣o delas em muitas mentes Рe cada mente, vejam bem, um
mecanismo de obscuras mas imensuráveis energias. Eles são como um
explosivo: podem gerar lentamente um calor constante para mentes vivas,
mas se detonados de repente, poderiam explodir num estrondo; sim,
poderiam produzir um distúrbio no mundo primário real. [...]

Pensem na força emocional gerada por toda a borda ocidental da Europa
pelos homens que finalmente chegaram ao fim do continente, e olharam
para o Mar Sem-litoral, não-cultivado, não-atravessado, inconquistado!
E, contra esse pano de fundo, que estatura prodigiosa outros eventos
adquiririam! Digamos, a vinda, aparentemente daquele Mar, cavalgando
uma tempestade, de homens estranhos com conhecimento superior,
navegando barcos até então não imaginados. E se eles trouxessem
histórias de uma catástrofe distante: batalhas, cidades incendiadas, ou
da destrui̤̣o de regi̵es em algum tumulto da Terra Рfico pasmo ao
pensar em tais coisas nesses termos, mesmo agora”.

Quando a discussão está mais animada do que nunca, Arundel Lowdham, um
professor de anglo-saxão e islandês [isso lembra alguém pra vocês?] faz
finalmente o mundo antigo irromper entre o clube Notion:

“De repente Lowdham falou numa voz mudada, clara e terrível, palavras
numa língua desconhecida; e então, virando-se furiosamente na nossa
direção, ele gritou: ” Eis as águias dos Senhores do Oeste! Elas estão
vindo sobre Númenor!”

Ficamos todos assustados. Vários de nós foram até a janela e ficaram em
pé atrás de Lowdham, olhando para fora. Uma grande nuvem, vindo devagar
do Oeste, estava devorando as estrelas. Conforme se aproximava ela
abria duas vastas asas negras, espalhando-se para o norte e para o sul”.

A partir daí, os eventos se sucedem de maneira vertiginosa na
narrativa. Lowdham revela que, em sonhos [assim como o personagem
Alboin Errol de The Lost Road] ele ouvia estranhos fragmentos de duas
línguas desconhecidas: o avalloniano [quenya] e o adûnaico – isso
mesmo, o idioma dos homens de Ponente! Mais que isso: Lowdham revela
dois textos, um em avalloniano e outro em adûnaico, que relatam a queda
de Númenor [Anadûnê em adûnaico], graças à influência malévola de Zigûr
[Sauron].

Durante um dos encontros do clube, enquanto uma terrível tempestade
vinda do Atlântico se abate sobre a Inglaterra, Lowdham e Jeremy, outro
membro do grupo, têm uma experiência quase mediúnica: os dois falam
entre si como Nimruzîr [Elendil] e Abrazan [Voronwë], e como que
vivenciam mais uma vez a destruição de Númenor. Diante de seus atônitos
colegas, os dois saem no meio da tempestade – a mais devastadora já
registrada na Gṛ-Bretanha Рe partem em busca de respostas sobre
Númenor.

A narrativa foi abandonada no momento em que Lowdham e Jeremy voltam de
suas buscas e começam a relatar ao clube Notion o que descobriram.
Christopher Tolkien, na análise que faz do livro, acredita que a
concepção dele se tornara complicada demais para ser completada. Um
último fato dos mais interessantes: Christopher diz que seu pai errou
na previsão da Grande Tempestade por apenas quatro meses. No livro, ela
acontece em 12 de junho de 1987; de acordo com Christopher, a maior
tempestade já registrada na Inglaterra caiu sobre o país em 16 de
outubro do mesmo ano. Nem os Senhores do Oeste seriam capazes de
explicar essa…

Um vislumbre de Arda Curada

Creio que uma pergunta que sempre passa pela cabeça de todos os fãs de
Tolkien é como a sua profunda fé cristã [evidenciada incontáveis vezes
em suas cartas e em sua biografia] se relacionava com o universo
ficcional por ele criado. Uma das mais belas amostras dessa conexão
entre fé e obra literária pode ser encontrada no Athrabeth Finrod ah
Andreth [O Debate de Finrod e Andreth], texto publicado no décimo livro
da série The History of Middle-earth, Morgoth"s Ring.
 
 
 
O Athrabeth, estruturado de forma muito semelhante
[inclusive na temática] aos diálogos platônicos, é o registro de uma
conversa entre o rei de Nargothrond, Finrod Felagund, e Andreth, uma
mulher sábia da casa de Bëor, pouco antes do fim do Cerco de Angband. O
mais sábio dos Noldor exilados e a filósofa humana procuram entender os
destinos de Elfos e Homens em Arda, e principalmente os motivos da
mortalidade humana, e as razões para a existência do Mal.

A discussão travada entre os dois, na qual as feridas geradas pelas
diferenças entre Homens e Elfos surgem com amargura, é complexa demais
para ser tratada de uma só vez. Mas Finrod, depois de ouvir Andreth
dizer que os Sábios entre os Homens acreditavam que estes não eram
mortais por natureza, mas graças à sombra de Morgoth, descobre também a
existência entre os Edain da "Antiga Esperança": a de que Eru iria em
pessoa curar os males de Arda.

"Os da Antiga Esperança dizem que o próprio Único entrará em Arda e irá
curar os Homens e toda a Desfiguração, desde o princípio até o Fim. E
isso eles também dizem, ou fingem acreditar, que é um rumor vindo até
nós de anos incontáveis, até mesmo da época em que fomos feridos".

Mas a própria Andreth parece não acreditar na Velha Esperança, pois crê
que seria impossível que Eru, o Idealizador de Arda, entrasse em sua
Obra e não a destruísse com seu poder. Finrod, contudo, afirma que nada
seria impossível para o Único, e se sente tomado de alegria pela
esperança que as palavras de Andreth lhe haviam dado. A resposta de
Finrod merece ser reproduzida na íntegra:

"Para falar com humildade, Andreth, não consigo imaginar de que
outra maneira tal cura poderia ser realizada, já que certamente Eru não
permitiria que Melkor dirigisse o mundo para sua própria vontade e
triunfasse no fim. Contudo, não há poder concebivelmente maior que
Melkor, salvo apenas Eru. Portanto Eru, se não desejar abandonar sua
obra para Melkor, que do contrário a dominaria, deve entrar nela para
derrotá-lo".

Mais do que isso: Finrod crê que é através dos Homens, e por eles, para
livrá-los da Sombra de Melkor, que Eru entraria em sua obra. E, dessa
forma, ele viria também encarnado em forma humana, como Tolkien explica
no comentário que faz ao Athrabeth. No coração de Tolkien, a esperança
de uma Arda Curada é a mesma que ele tinha, como cristão, na encarnação
de Deus em Jesus.

Númenor, Elendil e viagens no tempo – parte I

Observar a evolução da lenda de Númenor nos escritos
de Tolkien pode revelar muitas coisas interessantes e insuspeitas. E,
principalmente, faz o leitor lamentar o fato de que o velho Professor
deixou incompletas duas obras fantásticas, intimamente relacionadas,
que tratam do reino dos Dúnedain: The Lost Road [A Estrada Perdida], de
1937, e The Notion Club Papers [As palestras do Clube Notion], datado
provavelmente de 1946 ou 1947. Além de terem em comum a temática
numenoreana, esses dois livros inacabados trazem à baila, de forma
bastante incomum, o batidíssimo motivo da Viagem no Tempo, típico da
ficção científica, mas retrabalhado à instigante maneira tolkieniana.

 

 

 
The Lost Road foi publicado no quinto livro da
série The History of Middle-earth, que leva seu nome. Aparentemente, a
idéia para escrever o livro partiu de uma série de conversas entre
Tolkien e seu grande amigo de Oxford, C.S. Lewis. Eles decidiram que
C.S. Lewis iria tentar escrever uma história de viagem espacial – que
se transformou no livro Out of the Silent Planet – enquanto Tolkien
iria se concentrar em viagem no tempo: o nunca completado The Lost Road.

A narrativa, que chegou a ter quatro capítulos escritos antes de ser
enviada à editora Allen & Unwin [e rejeitada para publicação], está
lotada de elementos autobiográficos. O personagem central, Alboin
Errol, filho do professor Oswin Errol, é um adolescente apaixonado por
arqueologia, mitologia e pelas línguas antigas do norte da Europa. Seu
nome é o mesmo de um lendário príncipe dos lombardos, e significa
“amigo-dos-elfos”. Alboin tem um hobby um tanto estranho: a criação de
línguas. Eu disse criação? Não exatamente: em seus sonhos, Alboin
escuta estranhos fragmentos de línguas desconhecidas, que ele tenta
“registrar” quando acorda. Duas línguas, em especial, dominam as noites
do garoto: o eressëano e o beleriândico. Adivinhou? Isso mesmo: o
quenya e o sindarin. E, junto com esses sonhos lingüísticos, ele é
perseguido por um nome – Númenor – e uma imagem ameaçadora: terríveis
nuvens em forma de aves avan̤ando do Oceano, amea̤ando a terra Рas
“Ã?guias dos Senhores do Oeste”.

Ao mesmo tempo, Alboin começa a “ouvir” fragmentos de poemas e canções
em seus sonhos, alguns em línguas “reais” como o anglo-saxão, com um
tema recorrente, resumido na frase: “uma estrada reta havia para o
Oeste, e agora ela está curvada”, e estranhas alusões à Ilha Solitária
dos Elfos e à Terra dos Deuses. Alboin cresce, forma-se em história em
Oxford e perde o pai; logo depois, casa-se, tem um filho chamado Audoin
e fica viúvo. O desenvolvimento do eressëano e do beleriândico não
pára, mas mesmo assim uma inquietação persegue Alboin; um desejo que
ele identifica com um incontrolável anseio por voltar no tempo:

“Considerando os últimos trinta anos, ele sentia que [...] seu
estado de espírito mais permanente, embora muitas vezes encoberto ou
suprimido, tinha sido desde a infância o desejo de voltar. De caminhar
no Tempo, talvez, como os homens caminham em estradas compridas; ou de
observá-lo, como os homens podem ver o mundo do alto de uma montanha.
[...] Mas, de qualquer maneira, desejava ver com seus olhos e escutar
com seus ouvidos: ver o aspecto de terras antigas ou mesmo esquecidas,
contemplar homens antigos caminhando, e ouvir suas línguas da maneira
que eles as falavam, nos dias antes dos dias, quando línguas de
linhagem esquecida eram ouvidas em reinos há muito desaparecidos nas
costas do Atlântico”.

Audoin, que recebera esse nome em homenagem ao pai do príncipe lombardo
Alboin, revela ter interesses muito semelhantes aos de seu pai, mas com
a diferença importante de pensar mais por imagens, ao invés de
elementos lingüísticos como Alboin. Este pensa em revelar ao filho as
línguas que estava criando ou “descobrindo”, quando tem um sonho
especialmente perturbador. Nele, um fragmento de eressëano parece
descrever uma terrível catástrofe: os numenoreanos teriam caído sob uma
sombra malévola, feito guerra aos Poderes e Númenor, como conseqüência,
teria submergido no Oceano.

Enquanto tenta decifrar o verdadeiro sentido do fragmento eressëano, o
desejo por voltar no tempo toma cada vez mais conta de Alboin. Ele
deseja uma máquina do tempo, mas tem certeza de que “o tempo não pode
ser conquistado por máquinas”. Ele sente mais uma vez a ameaça das
�guias dos Senhores do Oeste sobre Númenor, e adormece. E, no sonho,
vem a resposta. Uma figura alta e sombria, que recordava a Alboin seu
pai, surge e lhe fala:

“Estou com você. Eu era de Númenor, o pai de muitos pais antes de
você. Sou Elendil, que em eressëano é “amigo-dos-elfos”, e muitos foram
chamados assim desde então. Você pode ter seu desejo”.

Elendil oferece a Alboin a possibilidade de voltar no tempo, e
contemplar aquilo que ele mais desejava e mais temia, com a condição de
que ele levasse Audoin consigo. Mas adverte-o de que, uma vez no
passado, os dois estarão no mesmo estado de suas vidas presentes, e
sujeitos ao perigo e à morte. Alboin passa por um terrível momento de
indecisão, mas decide aceitar a viagem. E pai e filho se vêem em
Númenor, na pele de Elendil e seu filho Herendil [os dois nomes são
traduções de Alboin e Audoin, respectivamente], tendo que enfrentar a
Sombra de Sauron sobre Ponente.

A narrativa de The Lost Road pára exatamente no momento em que Elendil
explica a seu filho a verdadeira natureza e intenções de Sauron, e os
dois decidem lutar contra o servo de Morgoth. Mas, ao que parece,
Tolkien pretendia que a estrutura do livro fosse mais complexa:
voltando progressivamente no tempo, pai e filho iriam se identificar
com Aelfwine e Eadwine na Inglaterra saxã do século IX; com os
lombardos Alboin e Audoin na Itália do século VI; e assim
sucessivamente, passando por camadas cada vez mais profundas das lendas
e mitos do noroeste da Europa, até chegarem a Númenor. Em cada
episódio, um deles deveria pronunciar as terríveis palavras: “Eis as
Ã?guias dos Senhores do Oeste vindo sobre Númenor!”. Infelizmente [ou
felizmente, considerando que todo o desenvolvimento da lenda de Númenor
teria tomado outro rumo], Tolkien jamais passou dos rascunhos para a
conclusão da história.

Parte II – Veja como as idéias presentes em The Lost Road evoluíram de
forma surpreendente e geraram The Notion Club Papers, outra intrigante
obra inacaba de Tolkien!

A Música das Esferas – Estudo sobre o Ainulindalí«

Tentar trazer à tona todas as influências que contribuíram para criar o
Ainulindalë é, pela complexidade e beleza sutil desse mito, uma tarefa
fadada ao fracasso desde o começo. O que procurarei fazer aqui é
abordar alguns dos temas e arquétipos míticos que ajudam a tornar essa
narrativa tão fascinante, em especial os relacionados à influência que,
na minha opinião, é a primordial: o mito da Criação judaico-cristã.
 
 
 
De cara, quase abruptamente, somos confrontados
com Eru, o primeiro dos Seres e o senhor da Existência. O significado
da palavra “Eru” em quenya esclarece muito da natureza desse ser: ele é
“o Único”, “Aquele que está Só”. Essa última expressão se aproxima
incrivelmente da profissão de fé judaica: “Ouve, ó Israel, o Senhor é
nosso Deus, o Senhor é o Único”. Tal fórmula consagrada, usada para
exprimir a transcendência de Deus, tem um significado duplo: o Senhor é
o único Deus de Israel, e é também o único de seu gênero; nenhum outro
ser dentro da Existência compartilha da sua natureza, e portanto ele
está realmente só em majestade, é o Único por excelência. Outro
argumento que reforça essa visão é a natureza do verbo “to be” na
língua inglesa, com seu duplo significado de “ser” e “estar”; assim,
“He that is Alone” pode querer dizer também “Aquele que é, que existe
por si Só”, por ser a fonte primordial de tudo o que existe.

Isso fica ainda mais claro quando pensamos no epíteto “Ilúvatar”: “O
Pai de Todos”. Eru é, portanto, Pai por excelência de toda a Criação.
Sem ele nada pode existir: “Nenhum tema pode ser tocado que não tenha a
sua fonte última em mim”.

Do pensamento de Ilúvatar, dos múltiplos aspectos da sua mente
criadora, é que nascem os Ainur, os Sagrados, que surgem “antes que
tudo o mais fosse feito”. Como Eru, os Ainur são puro espírito, e a
associação com os anjos da mitologia judaico-cristã, mais uma vez, é
inevitável. A palavra “anjo” [do grego "ânguelos", enviado] é usada, no
Novo Testamento, para traduzir um termo hebraico que, originalmente,
significava “manifestação”, “aspecto”. Os anjos são, dessa forma, os
aspectos do Divino que lidam ativamente com a Criação, protegendo-a e
guiando-a. Como emanações da mente de Eru, mas dotados de liberdade e
vontade próprias, os Ainur se aproximam bastante dessa visão. Muitos
dos Ainur acabam descendo a Eä e se tornando os Valar – os Poderes do
Mundo, que em muitos ensaios Tolkien chamava explicitamente de “os
Poderes Angélicos”. O próprio termo “Poder” é outro sinal da analogia
com os anjos judaico-crisṭos Рentre as muitas hierarquias ang̩licas
cunhadas pelos primeiros teólogos cristãos, existe a das Podestades –
do latim podestas, que significa exatamente “poder”. As Podestades são,
assim, as inteligências angélicas que auxiliam Deus no governo do mundo
material – assim como os nossos Valar.

Chega o momento em que Ilúvatar decide declarar seu grande tema aos
Ainur, e tem início a grande Canção, da qual todo o Universo surgirá. É
importante notar que não se trata de uma simples música, mas
principalmente de uma canção – “como incontáveis corais cantando com
palavras”, sublinha Tolkien. Em todas as mitologias, a palavra – em
especial a “palavra de poder”, pronunciada nos primórdios do Tempo ou
pelas divindades – é capaz de trazer à Existência aquilo que ela
nomeia; os verdadeiros nomes das coisas, quando pronunciados, equivalem
à própria coisa, ativam os poderes inerentes a ela. Além disso, porém,
a palavra cantada tem ainda outro poder: por se tratar da mescla entre
palavra, ritmo e melodia, o canto privilegia não o sentido racional dos
versos, mas o som, a evocação, o feitiço criado por eles. A palavra se
torna encantamento, magia Рe o seu poder criador se multiplica at̩ o
infinito. Por isso, em muitas culturas, o bardo ou menestrel era
considerado capaz de, cantando, trazer as cenas de seu canto diante dos
olhos do observador – como acontece com os bardos celtas ou com os
poetas gregos que, como Homero, eram inspirados pelas Musas.

É interessante notar que os Ainur, longe de serem executores passivos
de uma partitura previamente estabelecida, são co-criadores da grande
Canção, adicionando sua imaginação e pensamento ao tema de Ilúvatar.
Tal concepção talvez possa ser explicada pela própria visão que Tolkien
tinha do ato criador: para ele, as criaturas são capazes de se tornar
“sub-criadoras”, companheiras do Criador no desenvolvimento e
manutenção do Universo. Entretanto, e isso é bastante claro na
narrativa, as criaturas não podem jamais perder de vista o propósito e
desígnio profundo do Criador em tudo o que fazem, sob pena de incorrer
na perversão malévola desses desígnios.

Todo esse raciocínio nos conduz inevitavelmente ao antagonista desse
grande drama: Melkor, o mais poderoso dos Ainur e o que mais dons
recebeu da generosa mente de Eru ao ser criado. “Aquele que se levanta
em Poder” é o significado de seu nome, e mais uma vez não se pode
deixar de pensar na analogia com o mais poderoso dos anjos, Lúcifer –
em latim “o portador da luz”. O pecado de Melkor, como o de Lúcifer, é
o da auto-suficiência e do orgulho. Melkor passa a achar que o tema de
Ilúvatar pode ser ignorado e suplantado, procura “afogar o tema de
Ilúvatar pela violência de sua voz” – sem perceber que sua própria
existência, todas as suas dádivas de poder e conhecimento, provinham do
próprio Eru.

Ao contrário do que acontece com Lúcifer, porém, Melkor não cai no
momento em que se inicia sua rebelião. Sua transformação em Morgoth, “o
Inimigo Sinistro” [outro eco do hebraico Satanás, "o Adversário"], só
se dá quando ele desce a Eä com os demais Valar e procura submeter a
Criação à sua vontade. Como Lúcifer, Melkor atrai também para si muitos
de seus semelhantes, graças à sedução do poder. Mas, como o mais
poderoso dos anjos, Melkor enfrenta a oposição dos Valar que permanecem
fiéis à vontade e ao desígnio do Criador, e destes o principal é Manwë,
o Ainu do ar e da região celeste. Mais um paralelo surge: Manwë
desempenha um papel muito semelhante ao de Miguel, o segundo em poder
dos anjos e o líder da resistência angélica em favor de Deus, que logra
expulsar Satanás do Paraíso e derrotá-lo.

Outro conceito importantíssimo no Ainulindalë é o da Chama Imperecível,
a força com a qual Ilúvatar inflamou os Ainur e que, no momento da
Criação, foi enviada para o coração do Mundo. O fogo desempenha um
papel mítico bastante claro em quase todas as culturas. Ele pode ser
símbolo do entendimento do mundo e da razão iluminadora, como o fogo
dado pelo titã Prometeu aos homens; em todas as casas dos antigos
gregos, um lugar era reservado à lareira de Héstia, a personificação do
fogo sagrado que ilumina e aquece, lembrando a presença perpétua dos
deuses. Na antiga Pérsia, o deus do Bem Ahura Mazda era também
simbolizado por uma Chama sempre acesa. No Novo Testamento, o fogo é
sinal do Espírito Santo, a presença iluminadora do Divino nos seres
humanos: “Haverá de vir outro mais poderoso que eu, que vos batizará
com o Espírito Santo e com o fogo”, diz João Batista sobre o Messias
[Lc 3, 17]. Da mesma forma, antes de começar sua missão evangelizadora,
os apóstolos recebem o Espírito Santo em forma de línguas de fogo que
descem do céu.

Assim, a Chama Imperecível simboliza a inesgotável capacidade criadora
de Eru, e a capacidade que todas as criaturas recebem dele de também
participarem dessa criação. Enviada por Ilúvatar para dar vida ao
mundo, a Chama é a fonte da qual todos extraem a Existência. E é por
isso que Melkor é incapaz de encontrá-la: não estando mais em harmonia
com a vontade de Eru, ele perde a capacidade de ser efetivamente um ser
criador – o que se refletirá, no decorrer do mito, na esterilidade de
Melkor, que se torna incapaz de criar qualquer coisa que tenha vida.

Como se pode ver, é a palavra de Eru – “Portanto eu digo Eä! Que estas
coisas Sejam!” – que dá existência ao Mundo. Embora os Valar tenham
contribuído para a concepção do Universo, só Ilúvatar possui a “palavra
de poder” capaz de efetivamente trazer aquilo à Existência. E é quando
os Valar adentram Eä que percebemos a função destes no plano da Criação
– a de organizadores e mantenedores dos desígnios de Ilúvatar. O mundo
que os Valar contemplam pela primeira vez é ainda o Caos primordial:
informe, escuro, apenas um potencial adormecido. É uma visão que se
aproxima bastante do Caos grego – que não corresponde, ao contrário do
que se imagina, à confusão, mas sim à indefinição, à potencialidade.
Noções semelhantes do mundo em seus começos podem ser encontradas em
outras culturas do Oriente Próximo, como a egípcia – em que o Caos
primordial é visto como uma ilhota de argila emergindo das águas do
Oceano primitivo – e também na narrativa bíblica: “A terra estava
informe e vazia; as trevas cobriam o abismo e o Espírito de Deus
pairava sobre as águas” [Gn 1, 2]. Os Valar enfrentam, em seu trabalho
de organização do Mundo, a oposição constante de Melkor, mas apesar
dela, conseguem levar a bom termo sua missão e Arda, o Reino, é
estabelecido “nas Profundezas do Tempo e em meio às inumeráveis
estrelas”.

Tudo sobre J. R. R. Tolkien, o Senhor dos Anéis e O Hobbit