Uma festa muito esperada como você nunca viu

Quando se sentou para escrever o primeiro capítulo de sua “nova
história sobre hobbits”, insistentemente pedida por seu editor Stanley
Unwin e pelos fãs de O Hobbit, Tolkien provavelmente não imaginava as
proporções épicas que o livro iria tomar. E tanto é assim que a
primeira versão do capítulo “Uma festa muito esperada” difere
radicalmente da que conhecemos, apesar de algumas frases terem sido
mantidas.
 
 
 
Para começar, a festa de Bilbo comemora seu
septuagésimo aniversário – e não o “onzentésimo”. Ao invés de ser
famoso em todo o Condado por sua viagem, sua riqueza e suas
excentricidades, Bilbo tem uma reputação apenas mediana. Mas o mais
surpreendente é o que acontece no momento do “desaparecimento”. Bilbo
diz que está indo embora porque vai se casar, e enquanto seus parentes
estão atônitos ele calmamente coloca o Anel e some, sem as explosões de
Gandalf. Depois da cena, Tolkien explica aos leitores que na verdade
nosso hobbit tinha ficado sem dinheiro nenhum, e ia em busca de mais
ouro, além de ter voltado a sonhar com aventuras como antigamente. Ele
falara em casar graças a um costume hobbit, no qual o noivo e a noiva
“fugiam” juntos e desapareciam por uns tempos. Assim, pensou Bilbo,
ninguém ia ficar procurando por ele por um bom tempo.

Claro que Tolkien nunca conseguiu completar essa primeira versão, mas a
idéia era que o casamento de Bilbo iria introduzir seu filho, Bingo, o
verdadeiro herói da história, e que depois iria se transformar em
Frodo. Bizarro…

Terá sido a Guerra do Anel uma luta por liberdade religiosa?

À primeira vista os motivos para a Guerra do Anel e para a resistência
dos Povos Livres ao Senhor do Escuro parecem bem claros: o desejo de
preservar a liberdade política e a integridade física da tirania e
violência do Senhor do Escuro. Contudo, Tolkien aponta como causa
principal da resistência algo muito pouco evidente: a luta por
liberdade religiosa.
 
 
 

Num comentário escrito pelo
Professor sobre uma resenha de O Retorno do Rei de 1956, ele explica da
seguinte forma a causa do conflito na narrativa: “Em O Senhor dos
Anéis, o conflito não é basicamente sobre a ‘liberdade’, embora isso
esteja naturalmente envolvido. É sobre Deus, e seu direito exclusivo à
honra divina. Os Eldar e os numenoreanos acreditavam no Único, o
Verdadeiro Deus, e consideravam a adoração de qualquer outra pessoa uma
abominação. Sauron desejava ser um Deus-Rei, e era considerado assim
por seus servos; se tivesse sido vitorioso, ele exigiria honra divina
de todas as criaturas racionais e poder temporal absoluto sobre o mundo
todo”.

Por incrível que pareça, sob esse
ponto de vista a Guerra do Anel toma os contornos de uma verdadeira
guerra santa, e a luta contra Sauron se transforma numa rebeldia contra
a pior das escravid̵es Рa espiritual.

Gondor e seus egí­pcios

Os paralelos entre os povos e culturas do universo
tolkieniano e os do “mundo real” são sempre um dos temas preferidos dos
fãs do Professor. E é muito legal conhecer as idéias do próprio Tolkien
sobre esse assunto quando ele comenta, numa carta de 1958 à fã Rhona
Beare, sobre as semelhanças entre os homens de Gondor e alguns povos
antigos:

 

 

“Os numenoreanos de Gondor”, diz o Professor, “eram
altivos, peculiares e arcaicos, e são melhor representados em termos
(digamos) egípcios. Eles se pareciam com “egípcios” em muitas coisas -
o amor pelo gigantesco e pelo massivo, e a capacidade para construí-lo.
E também em seu grande interesse por ancestralidade e túmulos. (Mas
não, é claro, em teologia, a respeito da qual eles eram hebraicos, ou
ainda mais puritanos). Imagino que a coroa de Gondor, o reino do Sul,
era muito alta, como a do Egito, com asas colocadas não exatamente
juntas mas com um certo ângulo”
. Seguindo esse comentário, Tolkien
desenhou na carta uma coroa praticamente idêntica às usadas pelos
antigos faraós, com as afamadas asas de pássaros marinhos nas laterais.

 

Pois
bem, o Egito e Israel são influências, como já vimos. Em outras cartas,
Tolkien amplia esse leque incluindo o Império Bizantino e o Sacro
Império Romano: “O progresso da história [em O Senhor dos Anéis]
termina com algo que se parece muito com o reestabelecimento de um
Sacro Império Romano com sua sede em Roma”.

Descubra os Sete Nomes de Gondolin!

As breves menções em O Silmarillion que atribuem a
Gondolin o título de “Cidade dos Sete Nomes” costumam deixar os
leitores curiosos a respeito das denominações da cidade de Turgon. O
único lugar em que esses nomes são citados é a narrativa “A Queda de
Gondolin”, publicada em The Book of Lost Tales II. Vale a pena conferir
o trecho:

 

 
“Então disse Tuor: ‘Quais são esses nomes?’. E o líder da Guarda
respondeu: ‘É dito e é cantado: Gondobar sou chamada e Gondothlimbar,
Cidade de Pedra e Cidade dos que Habitam na Pedra; Gondolin, a Pedra da
Canção, e Gwarestrin sou nomeada, a Torre de Guarda, Gar Thurion ou o
Lugar Secreto, pois estou oculta dos olhos de Melko; mas aqueles que me
amam mais grandemente chamam-me Loth, pois como uma flor eu sou, e
mesmo Lothengriol, a flor que desabrocha na planície’”.

É preciso ter em mente, porém, que esses nomes foram criados por
Tolkien em torno de 1915-16, o que faz com que eles não sejam
compatíveis com o sindarin “maduro”. Mesmo assim, eles ajudam a ter uma
idéia do papel fundamental que Gondolin desempenhou desde sempre na
imaginação tolkieniana.

Haleth, O Caçador???

A evolução dos textos que compõem O Silmarillion nunca deixa de
surpreender o leitor. Mas uma das transformações mais surpreendentes e
radicais na estrutura histórica da Primeira Era com certeza é a sofrida
por Haleth, a indomável líder dos Haladin de Brethil. O fato é que, até
a época em que O Senhor dos Anéis foi publicado, Haleth era um homem.
 
 
 
A primeira aparição de Haleth nos textos
tolkienianos data do começo dos anos 30, no Quenta Noldorinwa ou
“História dos Noldor”. A princípio, Tolkien concebera a chegada dos
Edain a Beleriand como liderada por dois personagens principais: Bëor,
o Velho, e Hador, o Cabeça-dourada. Um dos filhos de Hador seria
Haleth, o caçador. Posteriormente, porém, Tolkien decidiu separar
Haleth da Casa de Hador, e criar a Terceira Casa dos Edain, os homens
da floresta de Brethil. Como é possível perceber também, o intervalo de
tempo entre a chegada dos Edain e o fim da Primeira Era era bem menor;
assim, apenas duas gerações separavam Bëor de Beren, o mesmo
acontecendo com Hador, que nas genealogias posteriores tornar-se-ia
membro da QUARTA geração dos Edain em Beleriand.

Pelo menos até 1951 (quando O Senhor dos Anéis já estava concluído)
Tolkien ainda concebia Haleth como homem, como se pode perceber lendo
“Os Anais Cinzentos”, um dos textos-base do Silmarillion publicado por
Christopher Tolkien. Provavelmente foi só em 1958, quando Tolkien
revisou o “Quenta Silmarillion” e escreveu o capítulo “Da Vinda dos
Homens para o Oeste”, que a história de Haleth como a valente filha de
Haldad e única governante feminina da Primeira Era finalmente se
estabeleceu.

Quantos anos durou a Guerra da Ira?

Tolkien escreveu pouquíssimo material a respeito
do fim da Primeira Era depois que O Senhor dos Anéis foi concluído e
publicado. Praticamente os únicos dados que temos a respeito da Guerra
da Ira, a grande batalha na qual os Dias Antigos terminaram, está no
Conto dos Anos da Primeira Era, publicado no livro The War of the
Jewels.
 
 
 
Como em quase todos os
manuscritos de Tolkien, a quantidade de mudança e correção no Conto dos
Anos foi imensa. Porém, de acordo com Christopher Tolkien, a decisão
final de seu pai sobre a data do início da Guerra da Ira foi 545 da
Primeira Era. Mais surpreendente, porém, é o fato de que a data de
TÉRMINO da guerra é o ano 587. Ou seja: uma longa guerra de quarenta e
dois anos foi necessária para que Morgoth pudesse ser derrotado. E olha
que o texto do capítulo “Da Viagem de Eärendil e da Guerra da Ira”
parece dar a impressão de que houve apenas uma grande batalha…

Outro fato interessante: o Contos
dos Anos também indica o líder do exército dos Vanyar na Guerra, que
teria sido Ingwiel, filho do Rei Supremo Ingwë.

A última aventura de Húrin Thalion

A história de Húrin, Senhor de Dor-lómin e maior dos guerreiros mortais
na Primeira Era, sempre teve uma importância central para a mitologia
tolkieniana. Não é por acaso que grande parte de O Silmarillion relata
as desventuras de Húrin, sua esposa Morwen e seus filhos Túrin e
Nienor. Em The War of the Jewels, décimo-primeiro livro da série The
History of Middle-earth, Christopher Tolkien revela aos leitores o
texto “The Wanderings of Húrin” (As Andanças de Húrin), no qual uma
aventura até então não relatada desse grande herói vem à tona.
 
 
 
O texto conta que Húrin, assim como seu filho
Túrin, reúne à sua volta um grupo desesperado de proscritos depois de
ser libertado de Angband. Ele tenta achar a entrada para Gondolin, sem
sucesso, e depois parte para Brethil, onde encontra Morwen, sua esposa,
à beira da morte. Quando esta morre, Húrin passa a acreditar que o povo
de Brethil havia se recusado a auxiliá-la, e deseja vingança.

Contudo, enquanto descansava, Húrin é surpreendido pela guarda de
Brethil. Os soldados o tratam com desprezo, e desejam mantê-lo, mas ele
é salvo pelo capitão deles, Manthor, um membro da Casa de Haleth.
Contudo, o atual governante de Brethil, Hardang, crê que Húrin foi
enviado por Morgoth para destruir Brethil, e manda encarcerá-lo até que
aguardasse julgamento. Manthor, revoltado com isso, procura auxiliar
Húrin durante o julgamento.

Mas o resultado acaba sendo catastrófico: acusando os Haladin de
negarem abrigo a Morwen, Húrin acaba fazendo com que exploda uma guerra
civil em Brethil, na qual tanto Hardang quanto Manthor acabam mortos.
Impassível, Húrin parte da floresta em busca dos seus companheiros
proscritos, carregando consigo o peso da maldição de Morgoth.

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