A melhor resenha de "Os Filhos de Húrin" Imprimir E-mail
por Reinaldo Jose Lopes   
21 de maio de 2007

Continuamos trazendo a você, nobre leitor da Valinor, o melhor publicado por enquanto sobre "Os Filhos de Húrin", o novo livro de J.R.R. Tolkien editado por seu filho Christopher. Confira abaixo uma das melhores resenhas publicadas por enquanto na imprensa internacional, feita pela revista eletrônica Salon.com. E aguarde a nossa resenha exclusiva em breve!

Senhor das ruínas

Christopher, filho de J.R.R. Tolkien, passou mais de 30 anos montando fragmentos que seu pai deixou para trás. Agora, os leitores podem descobrir o que aconteceu 6.000 anos antes de Bilbo Bolseiro encontrar o Um Anel.

por Andrew o'Hehir

Depois de alguns capítulos da narrativa de "The Children of Húrin", o livro mais ou menos novo mais ou menos escrito por J.R.R. Tolkien, um carpinteiro aleijado chamado Sador contempla seu trabalho abandonado com emoções misturadas. Sador é um servo fiel de Húrin, senhor da Casa de Hador na terra de Dor-lómin, e estava esculpindo uma grande cadeira para seu mestre. Mas, meses antes, Húrin cavalgou para uma batalha que terminou em derrota terrível. Ele não retornou, e suas terras foram conquistadas e pilhadas por forasteiros. Assim, Sador deixou de trabalhar na cadeira, e ela "foi enfiada num canto, incompleta".

Enquanto tenta decidir se deve desmontar a cadeira e usá-la como lenha no inverno, Sador conversa com Túrin, o filho pequeno de Húrin que logo será mandado para o exílio e tornar-se-á o herói andante e amaldiçoado dessa história sombria, sangrenta e apaixonante. "Perdi meu tempo", diz Sador sobre sua longa labuta, "embora as horas parecessem agradáveis. Mas todas as coisas desse tipo são de vida curta; e a alegria da criação é seu único fim, imagino."

É impossível não ouvir John Ronald Reuel Tolkien repreendendo ou consolando a si mesmo com essas palavras. Ao morrer, em 1973, Tolkien deixou para trás as ruínas impublicáveis de um imenso conjunto de literatura lendária, englobando uma história imaginária inteira do mundo, da criação até épocas quase modernas. Os grandes episódios heróicos dessa história - os elementos que ele considerava os mais importantes - foram escritos apenas de forma sumária ou em fragmentos, apesar de numerosas tentativas de transformá-los em prosa narrativa ou poesia épica. Ele teve um sucesso acadêmico significativo como lingüista e filólogo em Oxford, mas a maior parte de sua carreira literária foi gasta desperdiçando energia em projetos que Tolkien nunca completava. Ele era atormentado por bloqueios criativos, humores sombrios e numerosas mudanças de rumo. Enfiou muitas cadeiras incompletas num canto.

Tolkien ainda poderia ser recordado dessa maneira por algum grupelho minúsculo de admiradores, se não fosse pela única parte de sua história - na mente dele algo relativamente sem importância, tirado dos estágios posteriores de seu "legendarium", mas que tinha um foco unicamente íntimo e pessoal - que ele transformou numa narrativa de larga escala. Tolkien tinha 62 anos quando publicou o primeiro volume de "O Senhor dos Anéis", sua obra-prima de fantasia responsável por definir esse gênero, e mais de 70 quando a popularidade explosiva do livro o tornou rico e famoso. Não há como negar que a história do hobbit Frodo e de seu pequeno grupo de companheiros, que encaram uma perigosa jornada com o Um Anel de Sauron, o Senhor do Escuro, está entre os livros mais queridos já publicados. Inevitavelmente, para a maioria de seus leitores o enorme conjunto de tradições por trás do livro não passa de um pano de fundo curioso, cheio de genealogias incompreensíveis, línguas inventadas e nomes impronunciáveis.

Contudo, como bem sabe o universo de fãs viciados de Tolkien - um universo que nem é tão pequeno, aliás - o autor tinha imaginado e examinado cada detalhe de sua criação, de forma tão detalhada quanto havia feito Ilúvatar, o equivalente de Javé que criou a Terra e deu vida a Elfos e Homens. (A linguagem de Tolkien, assim como sua visão de mundo, nunca é neutra em termos de gênero.) Nenhum autor de fantasia ou de qualquer outro gênero jamais construiu um mundo com tanta densidade histórica e lingüística; chega a parecer que esse imenso trabalho de arquiteto exauriu Tolkien e, com exceção da narrativa de "O Senhor dos Anéis", não lhe tenha sobrado energia para contar suas histórias.

Por mais de 30 anos, Christopher Tolkien, que trabalha como testamenteiro literário de seu pai, tem revelado fragmentos e pedaços do baú tolkieniano, quase como um ferreiro anão tentando reforjar uma grande espada élfica a partir de agulhas e lascas espalhadas. Embora "O Silmarillion" tenha sido um best-seller quando foi publicado em 1977, por exemplo, só os fãs mais durões de Tolkien atravessaram seus sumários secos e empolados de grandes feitos do passado distante. O próprio Christopher Tolkien escreveu, com seu circunlóquio característico, que "o estilo e forma de compêndio ou epítome de 'O Silmarillion', com sua sugestão de eras de poesia e 'tradição' por trás deles, evoca fortemente um senso de 'histórias não-contadas', mesmo quando elas são contadas. A 'distância' nunca se perde. Não há urgência narrativa, a pressão e o medo do evento imediato e desconhecido. Não vemos as Silmarils do mesmo jeito que vemos o Anel."

Christopher Tolkien tem hoje 81 anos, a mesma idade que o pai dele quando morreu, e pode-se imaginar que "The Children of Húrin" é sua última e melhor tentativa de contar uma das grandes "histórias não-contadas" de Tolkien em algo próximo a uma forma completa. Ele trabalhou de forma contínua e árdua para reunir pedaços de manuscritos que aparentemente recuam até 1918, quando Tolkien concebeu originalmente a história, e que continuam quase até o fim da vida dele. A história de Húrin de Dor-lómin, de seu filho Túrin e da luta fadada ao fracasso dos dois contra Morgoth (o "Grande Inimigo" de Elfos e Homens, senhor e mestre de Sauron) foi contada duas vezes antes, primeiro em "O Silmarillion" e novamente no volume "Contos Inacabados" (1980), editado por Christopher. Ela emerge aqui pela primeira vez como um relato de aventura, com toda a sua urgência narrativa, medo do desconhecido e personagens reconhecivelmente humanos.

"The Children of Húrin" vai empolgar alguns leitores e deixar outros desanimados, mas vai surpreender quase todo mundo. Se você está procurando a acessibilidade, o lado lírico e acima de tudo o otimismo de "O Senhor dos Anéis", bom, é melhor ir lê-lo de novo. Não há hobbits nem Tom Bombadil, nada de estalagens aconchegantes na beira da estrada e muito pouca alegria à beira do fogo de qualquer tipo. Esta é uma história cujo herói é culpado de traição e assassinato múltiplo, uma história de estupro e pilhagem e incesto e ganância e gloriosas batalhas que nunca deveriam ter sido travadas.

Se "O Senhor dos Anéis" é uma história na qual o bem vence o mal, esta aqui caminha inexoravelmente para o outro lado. Embora os leitores casuais de "O Senhor dos Anéis" possam se assustar, "The Children of Húrin" não exige nerdice nível Silmarillion. Qualquer fã médio de Tolkien com apetite pelos cantos mais escuros e estranhos de seu reino vai se deixar prender rapidamente pela saga sangrenta de Húrin, que desafia o temido Morgoth e é torturado sem piedade, e Túrin, o guerreiro lendário cujos grandes feitos arrastam tudo e todos que ele ama para o desastre completo. Ou, pelo menos, vai se deixar prender se conseguir atravessar as primeiras páginas.

Inicialmente, "The Children of Húrin" tem aquele estilo empolado de Tolkien em seus momentos mais emperrados. Esta é a terceira sentença do capítulo 1: "Sua filha Glóredhel desposou Haldir, filho de Halmir, senhor dos homens de Brethil; e na mesma festa seu filho Galdor, o Alto desposou Hareth, a filha de Halmir". (Aliás, nenhuma das pessoas nessa sentença aparece de novo.) Eu ainda precisei consultar os mapas, índices e apêndices completos e muito úteis de Christopher Tolkien de vez em quando para recordar a nomenclatura geográfica e genealógica - e voltei a "O Silmarillion" algumas vezes para entender o contexto histórico - mas me incomodei cada vez menos com isso conforme as horas passavam e a luta terrível de Túrin contra o mal interno e externo ficava cada vez mais horrenda.

As aventuras de Túrin se passam na "Primeira Era" da Terra-média de Tolkien, uns 6.000 anos antes de Bilbo Bolseiro achar o Um Anel, de forma que, fora algumas referências a Sauron, o lugar-tenente de Morgoth, quase não há intersecção entre essa história e "O Senhor dos Anéis". (Eu disse quase; preste atenção!) Túrin nasce num mundo em guerra, onde a antiga aliança de Elfos e Homens está perdendo terreno gradualmente numa longa luta com Morgoth, o qual lançou de sua fortaleza em Angband o equivalente do mundo antigo das armas de destruição em massa.

Ele conjurou ou criou ou perverteu uma raça de demônios letais chamados Balrogs (um dos quais aparece em "A Sociedade do Anel") e revelou um grande dragão chamado Glaurung, cujas armas incluem tanto o fogo quanto o diálogo sarcástico. (Ele é provavelmente o pai ou o avô de Smaug, que Bilbo encontra em "O Hobbit".) Logo depois que as forças de Húrin e os outros grandes exércitos de Elfos e Homens são estraçalhadas por Morgoth na Nirnaeth Arnoediad ("a Batalha das Lágrimas Incontáveis"), o mundo ocidental é engolfado pelo caos. (Ainda estamos muito no começo do livro, e eu não citei nenhum grande spoiler.

Mas saia agora se não quiser mais detalhes da trama.) Uns poucos reinos élficos ocultos continuam protegidos, incluindo a fortaleza de Nargothrond, a cidade secreta de Gondolin e a floresta de Doriath - uma espécie de precursora de Lothlórien em "O Senhor dos Anéis" -, mas os reinos dos Homens são tomados pelas forças de Morgoth. Mandado para longe de sua mãe e de sua irmã ainda não-nascida quando garoto, Túrin se torna o filho adotivo de Thingol, o rei élfico de Doriath, e torna-se um guerreiro feroz quando adulto.

Mas elfos imortais e homens mortais não se misturam com facilidade, e nem Thingol sabe que Morgoth, que está mantendo aprisionado o desafiador Húrin, colocou a família inteira do herói sob uma maldição horrenda. Morgoth, aliás, não é só aquele típico demônio de romance de fantasia - na origem, ele era o maior dos Ainur, os espíritos divinos que cantaram com Ilúvatar e criaram o mundo. "A sombra do meu propósito jaz sobre Arda [a Terra]", diz Morgoth, "e tudo o que está nela se inclina lenta e certamente à minha vontade."

Ao contrário de Sauron em "O Senhor dos Anéis", o Morgoth de "The Children of Húrin" aparece como um ser físico malévolo mas sofisticado, tal como os deuses da mitologia grega e nórdica aparecem para os seres humanos. De fato, toda essa história apresenta uma visão sombria e visceral da vida, muito mais próxima do fatalismo dos antigos mitos europeus do que do bom-senso rural e inglês dos hobbits, que funciona como base moral de "O Senhor dos Anéis".

Parte disso vem do fato de que "The Children of Húrin" é principalmente uma história sobre seres humanos, sempre as figuras moralmente mais ambíguas do universo de Tolkien. Embora seja claramente o herói da história e um grande guerreiro de sua época, Túrin não pode ser descrito adequadamente como bom ou mal. Como Édipo ou Siegfried ou o herói do épico finlandês "Kalevala" (um dos modelos de Tolkien), ele é definido pela nuvem escura do destino que jaz sobre ele. É amaldiçoado por um poder grande demais para ser derrotado ou eludido, mas seu próprio temperamento só torna as coisas piores, como uma mosca que se sacode numa teia de aranha.

Ele é arrogante, cabeça-dura, de temperamento explosivo e inclinado à violência, e os que o amam e se tornam seus amigos são sugados por seu vórtex sombrio. Túrin torna-se um famoso amigo-dos-elfos e matador dos Orcs de Morgoth; no fim do livro, realiza um ato de heroísmo lendário, o tipo de coisa sobre a qual as pessoas ainda estavam cantando baladas na época de Frodo. Mas, ao longo do caminho, ele também se torna um fora-da-lei que tolera banditismo e brutalidade entre seus homens, um conselheiro prestigioso cujas palavras só levam à perdição, um homem que mata um de seus melhores amigos e depois rouba o amor de seu outro amigo. (É claro que ela acaba se revelando exatamente a mulher errada para ele, responsável por selar seu destino.) Não fica muito claro se Morgoth realmente precisa amaldiçoar esse sujeito; ele faz um serviço muito bom ao amaldiçoar a si mesmo a cada passo.

Terminei "The Children of Húrin" com um apreço renovado pelo fato de que a narrativa de Tolkien é muito mais ambígua em tom do que normalmente se nota. Como já se disse várias vezes, ele era um católico devoto que tentou, com sucesso imperfeito, harmonizar a violenta cosmologia pagã por trás de seu universo imaginativo com a crença numa salvação cristã. A salvação parece muito distante em "The Children of Húrin". O que fica em primeiro plano é aquela sensação tolkieniana persistente de que o bem e o mal estão travando uma luta maniqueísta não-resolvida com fronteiras amorfas, e que o mundo é um lugar de tristeza e perda, cujos habitantes humanos freqüentemente são os agentes de sua própria destruição.


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