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J.R.R. Tolkien nas verdadeiras Montanhas Nevoentas

J-R-R-Tolkien-1Muitas vezes a experiência pessoal de um autor o influencia no momento de criar seus mundos e personagens, mas quanto da experiência pessoal de J. R. R. Tolkien há em seus escritos? Nem sempre é fácil dizer e, ao tentar, corre-se o risco de fazer afirmações levianas demais. Porém, quando o próprio autor nos dá as pistas, a história é outra.

Quem já leu a biografia de Tolkien, seja a escrita por Humphrey Carpenter ou a de Michael White, ou já leu As Cartas de J.R.R. Tolkien, deve conhecer um episódio importante em sua vida: a viagem que fez à Suíça durante sua juventude.

Território ocupado por parte significativa dos Alpes, uma das cadeias de montanhas mais famosas do mundo, a Suíça foi o destino que um grupo de amigos ingleses, liderados pela família Brookes-Smith, escolheu para passar alguns dias entre os meses de julho e agosto de 1911. Entre eles, o jovem John Ronald Reuel Tolkien.

Assim como Bilbo Bolseiro foi marcado pela experiência de atravessar pela primeira vez as Montanhas Nevoentas (também conhecidas como Montanhas Sombrias por leitores do Brasil, numa tradução de Misty Mountains contestada por muitos), também Tolkien o foi, ao visitar pela primeira vez, aos 19 anos, as neves eternas das alterosas e impressionantes montanhas dos Alpes e caminhar por suas passagens estreitas e perigosas. A experiência o influenciaria ao escrever partes de O Hobbit e O Senhor dos Anéis.

Num artigo publicado recentemente pelo fan site The One Ring, em que seu autor relata a vivência de visitar os lugares por onde Tolkien passou na Suíça, foi revelada uma fotografia em que aparecem quinze pessoas posando para a câmera.

Tolkien 1911-Suíça

Foto rara e que se encontra no livro Tolkien’s Gedling: The Birth of a Legend, de Andrew H. Morton e John Hayes, e que originalmente vem de um livro de memórias de Colin Brookes-Smith, ela mostra Tolkien e seus quatorze companheiros durante a aventura nos Alpes suíços.

Da direita para a esquerda: Doris Brookes-Smith, Tony Robson, Colin Brookes-Smith, Phyllis Brookes-Smith, Reverendo C. Hunt, um amigo não identificado de J.R.R. Tolkien, Jane Neave (tia de Tolkien), Hilary Tolkien (irmão mais novo de Tolkien, de camisa branca), uma mulher não identificada, o próprio Tolkien (com um lenço ou cachecol branco ao pescoço), Jeanne Swalen (babá suíça), Muriel Hunt, Dorothy Le Couteur (uma inspetora de escola), Helen Preston (uma amiga de Jane Neave), e o guia suíço.

 Um grupo de quinze pessoas! O mesmo número de integrantes do grupo de Thorin Escudo de Carvalho, que no livro O Hobbit organiza uma demanda de 13 anões, um hobbit e um mago para recuperar o reino (e o tesouro) de seus ancestrais que foi tomado pelo Dragão Smaug. Ao ler Tolkien relatando sua experiência nos Alpes, o leitor imediatamente reconhece as passagens em que Bilbo, Gandalf e os Anões se aventuram pelas Montanhas Nevoentas:

[Foi] “… (com um grupo misto de cerca do mesmo tamanho da companhia em O Hobbit) que viajei a pé com uma mochila pesada por boa parte da Suíça e por sobre muitas passagens elevadas. Foi ao nos aproximarmos da Aletsch que fomos quase destruídos por grandes pedras desprendidas ao sol que rolaram uma encosta nevada abaixo. Uma rocha enorme de fato passou entre mim e o próximo na frente. Isso e a ‘batalha dos trovões’ – uma noite ruim em que nos perdemos e dormimos em um estábulo – aparecem e O Hobbit”. – As Cartas de J.R.R. Tolkien, p.294.

Quando o filho de Tolkien, Michael, visitou a Suíça, o autor escreveu-lhe uma carta, datada de 1967, felicitando-o e novamente reconhecendo sua aventura nos Alpes como influência marcante em seus textos.  Segue o relato com mais detalhes:

“Estou …. muito feliz por você ter conhecido a Suíça e a própria parte que antigamente eu melhor conhecia e que teve o efeito mais profundo sobre mim. A viagem do hobbit (de Bilbo) de Valfenda ao outro lado das Montanhas Nevoentas, incluindo a descida pela encosta nevada e de pedras escorregadias até o bosque de pinheiros, é baseada em minhas aventuras de 1911 […]. Nossas andanças, principalmente a pé, em um grupo de 12 [nota: há uma pequena contradição aqui quanto ao número de membros do grupo em relação à fotografia acima] agora não estão claras em seqüência, mas deixam muitas imagens vívidas tão claras como se tivessem ocorrido ontem (isto é, tão claras quanto se tornam as lembranças remotas de um velho). Fomos a pé carregando grandes mochilas praticamente todo o caminho de Interlaken, principalmente por caminhos montanhosos, até Lauterbrunnen e assim até Mürren e, por fim, até a ponta do Lauterbrunnenthal […]. Dormíamos de maneira rústica – os homens –  , frequentemente em celeiros de feno ou estábulos evitando estradas e jamais fazendo reservas em hotéis e, após um magro café da manhã, alimentávamos-nos ao ar livre […]. Deixei a vista de Jungfrau com profundo pesar: neve eterna, entalhada, ao que parecia, em uma luz do sol eterna, e o Silberhorn pontiagudo contra o azul escuro: o Pico de Prata (Celebdil) de meus sonhos”.  – As Cartas de J.R.R. Tolkien, p. 370-371

Ao ver imagens de Lauterbrunnen, localidade citada acima por Tolkien, nota-se outra referência de sua viagem à Suíça em seus escritos: o vale de Valfenda, A Última Casa Amiga a Leste do Mar, refúgio da tradição e sabedoria na Terra-média, e onde se encontra parte do povo élfico e Elrond Meio-Elfo. Lugar importante nas sagas de Bilbo e Frodo Bolseiro.

O vale de Valfenda, por Tolkien, e o vale de Lauterbrunnen
O vale de Valfenda, por Tolkien, e o vale de Lauterbrunnen

Tolkien também cita o Silberhorn, a influência para Celebdil, o pico das escadas infinitas que ligam os salões mais profundos de Kazad-dûm ao topo da Torre de Durin, em que Gandalf persegue o Balrog de Moria até sua extremidade superior, e lá ambos encontram seu fim, mas onde Gandalf é mandado de volta, mais poderoso e como O Branco.

Silberhorn-Celebdil

 A viagem de Tolkien à Suíça em 1911 foi tão marcante em sua vida, a ponto de identificá-la em passagens de seus livros e paisagens da Terra-média, que o autor sentia uma profunda saudade e vontade de revisitá-la.  Em outra carta, datada de 1947, Tolkien a finaliza desejando boa viagem à Suíça a seu editor, Sir Stanley Unwin.

“Desejo ao senhor e a Rayner [o filho de Stanley Unwin] uma boa viagem, negócios bem-sucedidos e depois ótimos dias entre as Montanhas. Como desejo ver as neves e as grandes alturas novamente!” – As Cartas de J.R.R. Tolkien, p. 121

Se o leitor ainda não conhecia esta passagem das Cartas, mas lhe parece já ter lido algo assim antes, você não está enganado. A citação acima é muito parecida com o que Bilbo Bolseiro diz a Gandalf no capítulo “Uma Festa Muito Esperada”, em O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel. “Quero ver montanhas de novo, Gandalf – montanhas […].”

Parece que não só as aventuras do jovem J. R. R. Tolkien tornaram-se as aventuras de Bilbo Bolseiro, como também alguns de seus anseios e desejos mais íntimos foram colocados como parte importante da personalidade e destino do hobbit, já que, de volta a Valfenda, em O Senhor dos Anéis, e ao contrário de Tolkien, Bilbo teve a chance de novamente contemplar as Montanhas pela última vez, antes de sua última viagem rumo às Terras Imortais.

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Dica: Para aqueles que desejam percorrer os caminhos que Tolkien fez pela Suíça, a partir de outubro deste ano uma empresa passou a oferecer esse serviço. Consulte: A Middle Earth tour at the source—The Swiss Alps.

Referências:

Tolkien, John Ronald Reuel, As Cartas de J.R.R. Tolkien – organização de Humphrey Carpenter, com assistência de Christopher Tolkien; tradução de Gabriel Oliva Brum. – Curitiba: Arte e Letra Editora, 2006, pp. 121, 294, 370-371.

Tolkien, J. R. R. O Senhor dos Anéis: primeira parte: a sociedade do anel. Tradução de Lenita Rímoli Esteves, Almiro Pisetta; revisão técnica e consultoria Ronald Eduard Kyrmse: coordenação Luís Carlos Borges. – 2ª Ed. – São Paulo: Martins Fontes, 2000, p. 33.

TheOneRing.net:  In Tokien’s Real Misty Mountains

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Leia também: As Cartas de J. R. R. Tolkien

hobbits-drinking1

Brinde de aniversário de Tolkien 2011

Neste dia 3 de janeiro, data de aniversário de Tolkien, a Tolkien Society promove novamente o Brinde de Aniversário de Tolkien. O convite do site é para que às 21h do dia 3 de janeiro de 2011 todos nós, fãs de Tolkien, leventemos nossas taças e brindemos dizendo juntos “The Professor“.

O evento é registrado na Tolkien Society desde 2002, através de uma lista na qual os fãs podem dizer onde e com o que brindarão o professor. Se você deseja participar, basta colocar os dados neste formulário .

Para aqueles não familizaridos com as cerimônias britânicas de brinde: para realizar o Brinde Britânico você fica em pé, ergue seu copo com a bebida de sua escolha (não necessariamente alcoólica) e diz as palavras “O Professor” (ou “The Professor”) antes de tomar um gole. Sente-se e aproveite o restante de sua bebida.

Então não esqueçam: dia 3 de janeiro às 21h, vamos celebrar o aniversário de Tolkien através de um brinde. Tim-tim!

Brinde de Aniversário de Tolkien 2010

Para aqueles não familizaridos com as cerimônias britânicas de brinde:
para realizar o Brinde Britânico você fica em pé, ergue seu copo com a
bebida de sua escolha (não necessariamente alcoólica) e diz as palavras
"O Professor" (ou "The Professor") antes de tomar um gole. Sente-se e
aproveite o restante de sua bebida.
 
Então não esqueçam: dia 3 de janeiro às 21h, vamos celebrar o aniversário de Tolkien através de um brinde. Tim-tim!

A Serviço da Rainha

tolkien.jpg

Quase todo o fandom sabe que Tolkien lutou na Primeira Guerra Mundial, que ele escreveu grande parte de sua obra em versos de formulários da época e que a discussão sobre se a Guerra marcou ou não suas obras.

 

Mas são poucos os que sabem que essa não foi a única guerra que contou com a participação do Professor.

 

É isso mesmo, senhoras e senhores. Este que vos escreve não está variando: Tolkien, um dos mais respeitados linguistas de sua época, foi recrutado, junto com um destacamento de intelectuais da época (como, por exemplo, Alan Turing) para trabalhar no Bletchley Park, o quartel general da inteligência britânica em Buckinghamshire.

A equipe de Tolkien foi responsável por uma das maiores conquistas britânicas na Segunda Guerra: a quebra do Enigma, o código secreto nazista que era, até então, indecifrável. Esse feito possibilitou à Inglaterra impedir que a ilha fosse tomada por nazistas.

De acordo com gravações do GCCS (Government Code and Cypher School, Escola Governamental de Códigos e Criptogramas, em inglês) recém-reveladas por ocasião das comemorações pelo fim da Segunda Guerra, Tolkien passou três dias do mês de março de 1939 em treinamento no quartel general do órgão de inteligência mas depois, apesar de se mostrar "muito interessado" pelo projeto, Tolkien abandonou o órgão e a gratificação de £500 por ano, por razões ainda desconhecidas.

De acordo com um historiador do GCHQ (Government Communications Headquarters, Quartel General Governamental de Comunicacções, em inglês), "JRR Tolkien é conhecido por todo o mundo devido a seus romances, mas seu envolvimento com a guerra deve pegar muitas pessoas de surpresa.

Embora ele não tenha se registrado, como provavelmente planejava, ele participou do treinamento de três dias e estava ‘muito interessado’ por mais.

Por que ele não se juntou aos outros ainda é um mistério: Não há nenhum registro oficial sugerindo o motivo, então podemos apenas supor que ele queira se concentrar em seus escritos". O Hobbit foi lançado apenas um ano e meio depois da experiência secreta de Tolkien.

O CGCS começou a se preparar para uma possível Segunda Guerra Mundial no fim da década de 30, quando seu diretor, conhecido apenas como "Alastair G Denniston", fez uma lista de 50 nomes de possíveis candidatos para o serviço secreto. Essa lista foi elaborada com a colaboração de professores que já h aviam trabalhado para a Inglaterra na Primeira Guerra das duas maiores universidades britânicas: Cambridge e Oxford, onde Tolkien lecionou de 1925 a 1959.

Em uma carta, datada de 25/11/1939, ao Foreign Office (o Ministério de Relações Exteriores inglês), Denniston disse: "Eu estive em contato com as duas universidades através de professores que trabalharam conosco durante a guerra, de forma que agora temos uma lista de 50 homens designados para o serviço caso aconteça a guerra.

Segue anexa uma cópia da listapara que vocês saibam que tipo de  homem pretendemos convocar."

Tolkien, juntamente com outros 12 homens, concordou em passar um dia no QG do GCCS em Londres como experiência. Lá, ele foi treinado em línguas escandinavas e espanhol. Por três dias, entre 27 e 29 de março, Tolkien visitou a casa quando ela ainda ficava em Londres (a mudança para Bletchley Park ocorreu em agosto daquele ano, por medo de bombardeios na capital) e a ficha com seu nome traz a inscrição "muito interessado".

O historiador do GCHQ explica: "A guerra estava chegando e o Governo sabia da complexidade da criptografia eletrônica, por isso esteve convidando pessoas de várias universidades para fazerem cursos de forma que, quando eles fossem convocados, teríamos um agrupamento de pessoas treinadas.

Alan Turing […] fez três cursos apenas sobre o Enigma em janeiro de 1939, então eles sabiam que tipo de habilidades eram necessárias."

Os aprovados no curso receberiam por ano o equivalente a £50000 em valores atuais, mas Tolkien, que foi aprovado com louvor, rejeitou a oferta.

"Simplesmente não sabemos por que ele não se juntou aos outros. Talvez foi porque declaramos guerra à Alemanha, e não a Mordor", brinca o  historiador.

Todas essas informações, além de documentos da Primeira Guerra Mundial, várias maquinas Enigma capturadas, entre outros espólios de guerra, encontram-se em exposição no museu do GCHQ, mas é restrita ao pessoal que trabalha lá.

"O museu é importante para dar às pessoas uma noção do passado e de onde nós viemos. É sobre nosso passado, mas sobre para onde iremos no futuro", diz Chris Marshall, porta voz do GCHQ.

Fonte: The Telegraph  

Qual é a pronúncia correta do sobrenome do professor?

last_tolkien_photograph.jpgVocê já teve esta dúvida? Ou nunca passastes pela tua cabeça como é que se pronuncia ‘Tolkien’ e você simplesmente fala o que ‘der na telha’? Queira você acredite ou não, a dúvida sobre como é a pronúncia correta do sobrenome do professor gera disputas e discussões acirradas pela internet.
 

Faça o teste, digite “pronounce Tolkien” ou “pronunciation of the name Tolkien” no Google e verás. 

Existem duas posições principais. Uma insiste em “Tol-kenn”, que é a pronúncia americana mais comum. A outra argumenta que Tolkien é um nome alemão e, portanto, deve ser pronunciado “Tolk-een”. Esta última parece ser a pronúncia mais comum na Grã-Bretanha.

Se você já está treinando alguma das pronúncias apresentadas acima, pare agora, pois, segundo Erik Even, o autor da notícia a partir da qual esta foi feita, ambas estão erradas.

Segundo o autor, basta não ignorarmos a família de Tolkien assim como a New Line Pictures. “Confira as entrevistas com os descendentes de Tolkien e ouça como eles pronunciam o nome da família: ‘Toll-kee-en’”.

“Trata-se de três sílabas, mas as duas últimas são pronunciadas como uma só. Parecido com o que uma pessoa japonesa diria: ‘kyen’ – ‘Tol-kyen’”.

Neste site, vocês podem ouvir a pronúncia correta.

No vídeo abaixo, vocês podem ouvir Adam, neto de Tolkien, pronunciar o sobrenome (em 00:01:50). Soa muito parecido com “Tol-keen”, mas a terceira sílaba existe. Note que o apresentador no início diz “Tol-kenn’, mas depois diz a pronúncia correta (em 00:04:37). A narradora diz “Tol-keen”.

 

 


Infelizmente, como nem tudo são flores, neste vídeo (o qual discute sobre o lançamento do livro Children of Húrin) a pronúncia de Húrin é feita de maneira errônea.

 

Fonte:

Examiner  

 

 

Os Humanistas Cristãos

christian_history.jpgUsando como fonte bibliográfica o livro "J.R.R. Tolkien – The Man Behind The Myth" da Coleção Christian History & Bibiography Store, Joseph Pearce escreve sobre a união do escritor Tolkien a outros escritores cristãos, para combater o que ele denomina de "decadência de um século negro".

 

Nenhum autour caminha sozinho, mesmo o autor que criou um novo mundo com sua própria imaginação. Nascido em 1892, J. R. R. Tolkien cresceu em época secular e um escura. Ele se relacionou em termos comuns a um grupo de escritores cristãos ingleses – em sua maioria católicos e Anglo-católicos –  que defendiam antigos e verdadeiros valores contra as tendências desumanizadoras da ciência racionalista e filosofia secular.

 
G. K. Chesterton, T. S. Eliot, Evelyn Waugh, entre outros, acenderam poderosas chamas contra a escuridão do século. A chama de Tolkien se uniu às deles, desde quando se voltou para a motlogia clássica e Nórdica e aos ensinamentos da Igreja, para forjarem um novo “mito cristão”.

Cada um desses “humanistas cristãos”, inclusive Tolkien, lutou contra o legado de dois homens: Friedrich Nietzsche and Oscar Wilde.

Friedrich Nietzsche morreu, após doze anos de insanidade, nos primeiros meses do novo século. Ele era inimigo o mais declarado da cristandade no final do século XIX, e suas ideias floresceram no século seguinte. Convencido de que a cristandade estava falida, ele proclamou a “vontade para o poder” de Schopenhauer e enfatizou que apenas o mais forte vai sobreviver.

Ele sustentou a ideia de que a caridade cristã servia apenas para perpetuar a sobrevivência do fraco e contrapôs a ideia do “super homem” (o Übermensch) que superaria a fraqueza humana e erradicaria os submissos. No mundo mítico de Tolkien, a sombra de Nietzsche emerge na “vontade para o poder” do Inimigo, mais especificamente nos desígnion de Sauron e Saruman, mas também na ambição de Boromir e Gollum.

Oscar Wilde morreu em 30 de novembro de 1900.  O herdeiro do decadente romancismo de Byron e Boudelaire, ele desdenhou a tradicional moral e foi sentenciado a dois anos de prisão como resultado de seu escandaloso envolvimento homossexual com o Lord Alfred Douglas.

O orgulho de Nietzsche encontrou um “amadurecimento” mortal nos campos de concentração nazistas e no surgimento das clínicas de aborto e a indecência de Wilde floresceu na “liberação” sexual da década de 60 e posteriores. Nietzsche morreu impenitente e insano e Wilde foi recebido na Igreja Católica em seu leito de morte.

Foi contra a influência de pensadores como esses, que os humanistas cristãos reagiram.

G. K. Chesterton, o mais importante literário cristão nos primeiros anos do século XX, caiu sob o encanto de Wilde e dos Decadentes ainda em sua juventude na London’s Slade School of Art, durante a primeira metade da década de 1890, porém rapidamente se recuperou e ao ponderar as implicações morais daquele tipo de comportamento. Muito de seus primeiros trabalhos, em especial o romance “The Man Who Was Thursday”, foi uma tentativa fundamentada na fé de limpar a mácula Wildeana daquela mesma década. Chesterton também cruzou espadas com o fantasma de Nietzsche, recusando as ideias neo-Nitzscheanas de George Bernard Shaw e H. G. Wells.

“O super homem de Nietzsche é frio e sem amigos” escreveu Chesterton em seu livro, “Heretics”. “E quando Nietzsche diz: ‘Um Novo mandamento eu lhe dou, seja duro’, ele realmente está dizendo ‘Um novo mandamento lhe dou, morra’. Sensibilidade é a definição da vida”. As palavras de Chesterton, escritas mais de dez anos antes da Revolução Bolshevique e quase trinta anos antes da ascenção de Hitler ao poder, ressoa como autêntica profecia.

Aquelas figuras literárias que expressaram um específico e profundo debito para com Chesterton como uma influência em suas conversões inlcuem C. S. Lewis, Ronald Know, Dorothy L. Sayers e Alfred Noyes. Dessa forma, sem Chesterton, o mundo talvez nunca tivesse visto a poesia cristã de Noyes, a sátira sutil de Knox, a magnifica tradução e comentários sobre Dante Alighieri de Sayers e o desabrochar dos muitos talentos de Lewis.

Se Chesterton, junto com seu amigo Hilaire Belloc, foram as grandes figuras do renascimento literário cristão durante os primeiros vinte anos do século XX, o catalisador literário cristão nos próximos vinte anos foi, indiscutivelmente, T. S. Eliot.

O livro de Eliot, “The Waste Land”, publicado em 1922, é provavelmente o poema mais importante do século. Embora incompreendido e mal interpretado pelos críticos modernistas e pós-modernistas, “Teh Waste Land” é cristão em sua mais profunda camada de existência. A reação de Eliot à Decadência está enraizada no mesmo sentido de repulsa que o de Chesterton, porém, enquanto Chesterton fez menção ao “diabolismo” dos Decadentes, Eliot o retratou com todos os seus detalhes.

O próximo grande poema de Eliot, “The Hollow Men”, de 1925, reitera a descrição de “The Waste Land” da modernidade como estéril. Logo após sua aberta declaração de cristão em 1928, os poemas de Eliot se tornaram mais religiosos, didáticos e, talvez, menos encarados como poesia.

Eliot influenciou fortemente os escritoires de sua geração, incluindo a jovem romancista Evelyn Waugh, que se tornou famosa após a publicação, em 1928, de seu primeiro romance, “Decline and Fall”. Dois anos depois, Waugh se batizou  na Igreja Católica, e a partir de então, seus romances passaram a ser descritos como retrabalhos em prosa das iamgens fragmentadas de “The Waste Land”. Até mesmo o romance de Waugh, “A Handful of Dust”, teve o seu título retirado de uma passagem de “The Waste Land” e seu enredo pode ser visto como um comentário tangencial do repúdio à Decacência que Eliot havia expressadp em seu grande poema.

A obra-prima de Waugh, “Brideshead Revisited”, publicada em 1945, é talvez, ao lado e O Senhor dos Anéis, o melhor romance do século. Embora ainda presa ao tema de Eliot em “waste land”, sua principal fonte de inspiração foi uma passagem de uma das estórias de “Father Brown”, de Chesterton, em que se conta como a graça de Deus recupera pecadores. Em seu maravilhoso romance, Waugh, passeia entre o mundo debochado de Wilde, retrata sua futilidade com a precisão de Eliot e finalmente emerge para a conversão alegre caridade e claridade Chestertoneana. Esse mesmo livro também encorpora toda a gama de influências, negativas e positivas, que animou os autores cristão britânicos durante os anos 40.

Se Chesterton e Belloc dominaram os primeiros vinte anos do século XX, e Eliot e Waugh fizeram o mesmo nos próximos vinte anos, os meados do século pertencem a C. S. Lewis e  J. R. R. Tolkien.

Os vários talentos de Lewis reluz emu ma variedade de escritos, desde “Pligrim’s Regress” e “The Great Divorce” até viagens espaciais e estórias infantis. Tolkien, na maioria das vezes, canalizou seus próprios dons em apenas uma direção. Sua “subcriação”, “Terra-média”, foi o trabalho de uma vida, com Tolkien esculpindo a narrativa de  O Senhor dos Anéis a partir do rico substrato de O Silmarillion. Em seu épico mítico vemos a “vontade para o poder” de Sauron contraposta pela humildade dos Hobbits e vemos também o veneno da decadência do Senhor do Escuro curada pela pureza dos relacionamentos (por exemplo: Aragorn e Arwen) nos quais eros é contido pela caridade da castidade.

A obra-prima de Tolkien permanece como um pináculo da conquista na gama dos escritos dos humanistas cristãos. Pode ser justamente posto no mesmo nível, ao lado do mais importante poema, “The Waste Land”, e do melhor romance, “Brideshead Revisited”, do século XX. Todos os três são respostas fiéis e profundas à uma era escura da humanidade.

 
 
 
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:
Pearce, Joseph. "The Christian humanists: Tolkien joined these authors in countering the decadence of a dark century.(J.R.R. Tolkien)." Christian History. 2003.
(Retrieved August 04, 2009 from accessmylibrary: http://www.accessmylibrary.com/coms2/summary_0286-3475923_ITM)
Artigo retirado e traduzido do site Tolkienpedia.

Joseph é escritor em residência na Faculdade Ave Maria in Ypsilanti, Michigan e editor da revista cultural Cristã, “The Saint Austin Review”, (www.saintaustinreview.com).

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Agradecimentos: ALF