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Os Humanistas Cristãos

christian_history.jpgUsando como fonte bibliográfica o livro "J.R.R. Tolkien – The Man Behind The Myth" da Coleção Christian History & Bibiography Store, Joseph Pearce escreve sobre a união do escritor Tolkien a outros escritores cristãos, para combater o que ele denomina de "decadência de um século negro".

 

Nenhum autour caminha sozinho, mesmo o autor que criou um novo mundo com sua própria imaginação. Nascido em 1892, J. R. R. Tolkien cresceu em época secular e um escura. Ele se relacionou em termos comuns a um grupo de escritores cristãos ingleses – em sua maioria católicos e Anglo-católicos –  que defendiam antigos e verdadeiros valores contra as tendências desumanizadoras da ciência racionalista e filosofia secular.

 
G. K. Chesterton, T. S. Eliot, Evelyn Waugh, entre outros, acenderam poderosas chamas contra a escuridão do século. A chama de Tolkien se uniu às deles, desde quando se voltou para a motlogia clássica e Nórdica e aos ensinamentos da Igreja, para forjarem um novo “mito cristão”.

Cada um desses “humanistas cristãos”, inclusive Tolkien, lutou contra o legado de dois homens: Friedrich Nietzsche and Oscar Wilde.

Friedrich Nietzsche morreu, após doze anos de insanidade, nos primeiros meses do novo século. Ele era inimigo o mais declarado da cristandade no final do século XIX, e suas ideias floresceram no século seguinte. Convencido de que a cristandade estava falida, ele proclamou a “vontade para o poder” de Schopenhauer e enfatizou que apenas o mais forte vai sobreviver.

Ele sustentou a ideia de que a caridade cristã servia apenas para perpetuar a sobrevivência do fraco e contrapôs a ideia do “super homem” (o Übermensch) que superaria a fraqueza humana e erradicaria os submissos. No mundo mítico de Tolkien, a sombra de Nietzsche emerge na “vontade para o poder” do Inimigo, mais especificamente nos desígnion de Sauron e Saruman, mas também na ambição de Boromir e Gollum.

Oscar Wilde morreu em 30 de novembro de 1900.  O herdeiro do decadente romancismo de Byron e Boudelaire, ele desdenhou a tradicional moral e foi sentenciado a dois anos de prisão como resultado de seu escandaloso envolvimento homossexual com o Lord Alfred Douglas.

O orgulho de Nietzsche encontrou um “amadurecimento” mortal nos campos de concentração nazistas e no surgimento das clínicas de aborto e a indecência de Wilde floresceu na “liberação” sexual da década de 60 e posteriores. Nietzsche morreu impenitente e insano e Wilde foi recebido na Igreja Católica em seu leito de morte.

Foi contra a influência de pensadores como esses, que os humanistas cristãos reagiram.

G. K. Chesterton, o mais importante literário cristão nos primeiros anos do século XX, caiu sob o encanto de Wilde e dos Decadentes ainda em sua juventude na London’s Slade School of Art, durante a primeira metade da década de 1890, porém rapidamente se recuperou e ao ponderar as implicações morais daquele tipo de comportamento. Muito de seus primeiros trabalhos, em especial o romance “The Man Who Was Thursday”, foi uma tentativa fundamentada na fé de limpar a mácula Wildeana daquela mesma década. Chesterton também cruzou espadas com o fantasma de Nietzsche, recusando as ideias neo-Nitzscheanas de George Bernard Shaw e H. G. Wells.

“O super homem de Nietzsche é frio e sem amigos” escreveu Chesterton em seu livro, “Heretics”. “E quando Nietzsche diz: ‘Um Novo mandamento eu lhe dou, seja duro’, ele realmente está dizendo ‘Um novo mandamento lhe dou, morra’. Sensibilidade é a definição da vida”. As palavras de Chesterton, escritas mais de dez anos antes da Revolução Bolshevique e quase trinta anos antes da ascenção de Hitler ao poder, ressoa como autêntica profecia.

Aquelas figuras literárias que expressaram um específico e profundo debito para com Chesterton como uma influência em suas conversões inlcuem C. S. Lewis, Ronald Know, Dorothy L. Sayers e Alfred Noyes. Dessa forma, sem Chesterton, o mundo talvez nunca tivesse visto a poesia cristã de Noyes, a sátira sutil de Knox, a magnifica tradução e comentários sobre Dante Alighieri de Sayers e o desabrochar dos muitos talentos de Lewis.

Se Chesterton, junto com seu amigo Hilaire Belloc, foram as grandes figuras do renascimento literário cristão durante os primeiros vinte anos do século XX, o catalisador literário cristão nos próximos vinte anos foi, indiscutivelmente, T. S. Eliot.

O livro de Eliot, “The Waste Land”, publicado em 1922, é provavelmente o poema mais importante do século. Embora incompreendido e mal interpretado pelos críticos modernistas e pós-modernistas, “Teh Waste Land” é cristão em sua mais profunda camada de existência. A reação de Eliot à Decadência está enraizada no mesmo sentido de repulsa que o de Chesterton, porém, enquanto Chesterton fez menção ao “diabolismo” dos Decadentes, Eliot o retratou com todos os seus detalhes.

O próximo grande poema de Eliot, “The Hollow Men”, de 1925, reitera a descrição de “The Waste Land” da modernidade como estéril. Logo após sua aberta declaração de cristão em 1928, os poemas de Eliot se tornaram mais religiosos, didáticos e, talvez, menos encarados como poesia.

Eliot influenciou fortemente os escritoires de sua geração, incluindo a jovem romancista Evelyn Waugh, que se tornou famosa após a publicação, em 1928, de seu primeiro romance, “Decline and Fall”. Dois anos depois, Waugh se batizou  na Igreja Católica, e a partir de então, seus romances passaram a ser descritos como retrabalhos em prosa das iamgens fragmentadas de “The Waste Land”. Até mesmo o romance de Waugh, “A Handful of Dust”, teve o seu título retirado de uma passagem de “The Waste Land” e seu enredo pode ser visto como um comentário tangencial do repúdio à Decacência que Eliot havia expressadp em seu grande poema.

A obra-prima de Waugh, “Brideshead Revisited”, publicada em 1945, é talvez, ao lado e O Senhor dos Anéis, o melhor romance do século. Embora ainda presa ao tema de Eliot em “waste land”, sua principal fonte de inspiração foi uma passagem de uma das estórias de “Father Brown”, de Chesterton, em que se conta como a graça de Deus recupera pecadores. Em seu maravilhoso romance, Waugh, passeia entre o mundo debochado de Wilde, retrata sua futilidade com a precisão de Eliot e finalmente emerge para a conversão alegre caridade e claridade Chestertoneana. Esse mesmo livro também encorpora toda a gama de influências, negativas e positivas, que animou os autores cristão britânicos durante os anos 40.

Se Chesterton e Belloc dominaram os primeiros vinte anos do século XX, e Eliot e Waugh fizeram o mesmo nos próximos vinte anos, os meados do século pertencem a C. S. Lewis e  J. R. R. Tolkien.

Os vários talentos de Lewis reluz emu ma variedade de escritos, desde “Pligrim’s Regress” e “The Great Divorce” até viagens espaciais e estórias infantis. Tolkien, na maioria das vezes, canalizou seus próprios dons em apenas uma direção. Sua “subcriação”, “Terra-média”, foi o trabalho de uma vida, com Tolkien esculpindo a narrativa de  O Senhor dos Anéis a partir do rico substrato de O Silmarillion. Em seu épico mítico vemos a “vontade para o poder” de Sauron contraposta pela humildade dos Hobbits e vemos também o veneno da decadência do Senhor do Escuro curada pela pureza dos relacionamentos (por exemplo: Aragorn e Arwen) nos quais eros é contido pela caridade da castidade.

A obra-prima de Tolkien permanece como um pináculo da conquista na gama dos escritos dos humanistas cristãos. Pode ser justamente posto no mesmo nível, ao lado do mais importante poema, “The Waste Land”, e do melhor romance, “Brideshead Revisited”, do século XX. Todos os três são respostas fiéis e profundas à uma era escura da humanidade.

 
 
 
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:
Pearce, Joseph. "The Christian humanists: Tolkien joined these authors in countering the decadence of a dark century.(J.R.R. Tolkien)." Christian History. 2003.
(Retrieved August 04, 2009 from accessmylibrary: http://www.accessmylibrary.com/coms2/summary_0286-3475923_ITM)
Artigo retirado e traduzido do site Tolkienpedia.

Joseph é escritor em residência na Faculdade Ave Maria in Ypsilanti, Michigan e editor da revista cultural Cristã, “The Saint Austin Review”, (www.saintaustinreview.com).

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Agradecimentos: ALF

Além do Amanhecer

Além do AmanhecerAlém do Amanhecer”(“Beyond the dawn”, também pode ser traduzido como “Do outro lado do
Amanhecer
”) é uma dilogia de Olga Chigirinskaya, publica sob o
pseudônimo de Beren Belgarion. É composta por dois livros: “Sombras do
Crepúsculo
” e “Guerreiro da Esperança”.

 
Tolkien conta a Balada de Leithian de forma bastante concisa, e narra somente os momentos mais importantes. Chigirinskaya amplia os limites de uma das histórias mais bonitas e românticas da Terra Média, adicionando alguns eventos e histórias paralelas, descrição dos sentimentos dos personagens, das paisagens, arquitetura dos elfos.

“Além do Amanhecer” conta a história de Beren e Lúthien no estilo bastante realista. E isso é certo, sob um ponto de vista. Afinal, Beren devia estar fraco, sujo e fedido ao chegar em Doriath. E se Lúthien toma a fortaleza de Sauron, ela o faz com o auxílio de um bom exército – caso contrário, uma flecha pode ter bem mais poder do que todos os feitiços dela. Se é necessário reunir um exército, o número de cavalos disponíveis, impostos, comida, roupas de inverno não são menos importantes do que os ideais.

Mostra-se um pedacinho das Guerras de Beleriand tais como elas poderiam ter sido. Pode-se compraram a Balada de Leithian com o canto de um elfo-menestrel, enquanto “Além do Amanhecer” lembra mais o relato de um velho homem, veterano da guerra.

O livro também mantém um diálogo com o Livro Negro de Arda, com uma imagem própria dos “Escuros” e das ideologias deles.

Por outro lado, Balada de Leithian é uma lenda, uma saga. E o tratamento dispensado à Balada deveria ser o mesmo que à história dos Nibelungos ou a Saga de Sigurd. Nem todos conseguem imaginar o Beren falando algo, digamos, assim: “Você se caga uma vez, e vão chamar de cagão pro resto da vida”. Na vida real, Siegfried/Sigurd falaria coisas piores, mas…

Entre os pontos positivos do livro, não posso deixar de enumerar… Aprofundamento da psicologia e filosofia dos quendi. As diferenças psicológicas entre os mortais e os imortais. Osanwë. Os versos usados no livro. Ilustrações maravilhosas de Tuulink.

The Black Book of Arda

The Black Book of Arda Conhecido em inglês como The Black Book of Arda, The Black Silmarillion ou Chronicles of Defeated (O Livro Negro de Arda, O Silmarillion Negro ou Crônicas dos Derrotados, em português) é um romance publicado na Rússia por N. Vassilyeva e N. Nekrasova por volta de 1992, baseado em O Silmarillion de J. R. R. Tolkien.
 
 
De acordo com o livro de Vassilyeva e Nekrasova, o Vala Melkor não era
originalmente o Grande Inimigo da Terra-média, mas sim um sábio
Professor e um mártir, enquanto que o Criador Eru Ilúvatar e os Valar
são representados como tiranos sem remorso. Melkor tentou atuar em Arda
de acordo com seu próprio pensamento, mas isto era contra a vontade do
Criador. O conflito entre Ilúvatar e Melkor causou a expulsão de
Melkor causou a expulsão de Melkor e a batalha deste contra Eru e os
Valar.
 
O fã identificado como photoneye descreve o livro desta forma: "Ele fala dos motivos das ações de Melkor (Morgoth Bauglir) bem como das ações de seus aliados e servos. Resumidamente, se você deseja saber sobre a vida dentro de Angband, este livro é para você. Se você quer saber mais sobre Balrogs, orcs e mesmo as pessoas que eram soldados do Inimigo Escuro, este livro é para você. E se você deseja saber porque Gorthaur deixou o Vala Aule e passou para o lado de Melkor, você deveria ler O Silmarillion Negro".
 
Como foi publicado sem a permissão do Tolkien Estate, ele viola a lei
de direitos autorais e não está disponível fora da Rússia. A
representação dos motivos e ações do personagens são freqüentemente ao
contrário dos textos do próprio Tolkien. O livro pode ser considerado
um ficção de fã, ou fanfic. As poucas pessoas que afirmaram ter lido o
livro o descrevem como interessante e bem escrito, mas totalmente
distorcido e com uma moral bastante duvidosa. Não há quaisquer versões
traduzidas do livro – o que talvez não seja algo de todo ruim.
 
Na mesma vertente do "o mal na verdade é o bem" mas menos
conhecidos e comentados são o Ring of Darkness e The Morlindalë, que
brevemente serão resenhados aqui na Valinor.
 

The Atlas of Middle-earth, Uma Análise Crí­tica

Existem três grupos distintos de livros sobre a obra de J.R.R. Tolkien: as biografias, os guias de estudo da obra e as análises da obra. Em geral para os fãs os mais interessantes são os da categoria do meio, os guias de estudo. Biografias são interessantes, mas quem leu uma já leu quase tudo, encontrando apenas detalhes diferentes ou um pensamento colocado de forma diferenciada ou com outro enfoque. Análises da obra são quase sempre obras acadêmicas e áridas, que apenas os "hard fans" podem apreciar.
 
 
Agora os guias de estudo são úteis para todos. Afinal de contas, quem é que guarda todos aqueles nomes, descrições, distências, informações de relevo na cabeça? No começo é até possível, mas depois que você começa a entrar no âmbito Silmarillion da obra não tem mais jeito. Um guia torna-se quase indispensável e dentre eles um dos mais populares é o "The Atlas of Middle-earth" de Karen Wynn Fonstad, que estará sendo lançado no Brasil, traduzido, em breve. Como o breve da Martins Fontes tem uma conotação absurdamente variável, farei uma análise da obra americana e quando chegar a versão nacional, uma segunda análise enfocando detalhes da mesma.

A autora, Karen W. Fonstad é uma cartógrafa aficcionada por obras de fantasia. Além do TAMe (vamos usar assim, pra não ter que escrever a cada vez "The Atlas of Midle-earth"?) ela tem algumas outras obras sobre fantasia, como atlas de Dragonlance e Forgotten Realms. No TAMe ela se propõe a destrinchar completamente a geografia de Arda, desde sua criação até chegar às Eras do Sol e à Guerra do Anel.

O livro se divide em set partes: Primeira Era (mas que contém mapas de antes da Primeira Era), Segunda Era, Terceira Era, Mapas Regionais (como Condado, Eriador, Mordor), O Hobbit, O Senhor dos Anéis e Mapas Temáticos (clima, vegetação, demografias). Para os mais "leigos" as seções 5 e 6 (Hobbit e SdA) são as mais interessantes, pois contém tudo que você precisaria saber, desde distâncias "exatas" até dias gastos nas mesmas até um esquemático da Torre Branca de Minas Tirith. É impressionante.

Acompanhando as dezenas de mapas, gráficos, esquemáticos, representações de batalhas temos vários comentários da autora e citações dos livros ajudando a posicionar o leitor no tempo e espaço da obra, sem que o mapa fique completamente "jogado". Alguns mapas são de excepcional utilidade, como o do Abismo de Helm e algumas análises são bem interessantes, como a dos números da Batalha dos Campos de Pelennor mas no geral o livro é todo bastante útil como referência e localização. Todos os mapas são muito bem desenhados e utilizam apenas duas cores (na realidade não precisa mais, pode-se ver alguns exemplos na Valinor, como os Campos de Pelennor e as Montanhas Nebulosas ) e exigem algum conhecimento básico de geografia para saber lê-los corretamente. Portanto se você fugiu da escola ou dormiu nas aulas de geografia, pode ter algumas dificuldades, principalmente nas escalas.

Os livros de apoio à obra de Tolkien costumam ser divididos em confiáveis, não-confiáveis e meio-termo ou nebulosos. O TAMe cai no terceiro enquadramento, explico porque. Ele possui muitas informações completamente verossímeis e válidas, mas também trabalha com o duvidoso, pois para englobar tão largo espectro temporal ela utiliza todas as fontes disponíveis, inclusive o Contos Inacabados e os HoME. Logicamente que nos mapas mais duvidosos ela deixa explícito isso e os desenha intencionalmente sem tantos detalhes, mas mesmo assim é necessário cautela. Existem alguns erros, os quais não têm sido corrigidos nas reedições do livro, como erros na escala de Eriador que se espalham em outras medidas. E (pelo menos na minha edição, embora pelo que tenha lido não mudou na nova) ela só utilizou como fonte até o HoME 8, deixando de fora muita informação pertinente sobre as Primeiras Eras, tornando os mapas pouco confiáveis.

É um livro que eu considero indispensável, mas exige ressalvas e criticismo. Não se pode simplesmente aceitar tudo nele como verdade pois além da "verdade" ser discutível principalmente nos livros editados por Christopher Tolkien ela comete seus próprios equívocos e incorreções. Se você o encontrar em inglês ou em português quando for lançado, pode comprar sem medo, como guia visual é insuperável, e vai continuar sendo por muito tempo. Mas como tudo na vida, não pode ser aceito sem uma visão crítica.

Aguardo ansiosamente a versão traduzida pelo Kyrmse, o que sempre se traduz em qualidade na tradução de nomes e locais e estou tremendamente curioso para saber como os mapas estão visualmente traduzidos e como as referências a livros em inglês serão dadas. O livro pode ser comprado por qualquer livraria virtual na Internet e nas grande livrarias "reais" em geral, como Livraria Cultura e FNAC .

The Complete Guide to Middle-earth, de Robert Foster

Pra começar o primeiro parágrafo já chutando o pau da barraca, estourando a boca do balão e utilizando quais expressões de certa forma antiquadas, se fosse para ter apenas um livro de apoio à obra de Tolkien, eu teria seríssimos problemas em optar entre o "Letters by J.R.R. Tolkien" e o "The Complete Guide to Middle-earth" com a Biografia de Tolkien feita pelo Carpenter correndo logo atrás, em um honroso terceiro lugar. Mas eu acho que acabaria escolhendo o "Complete Guide", mesmo com sua capa "triste" de doer .
 
 
O "The Complete Guide to Middle-earth" (de agora em diante apenas Complete Guide, neste texto) de Robert Foster é uma daquelas preciosidades feitas com amor. Ele é uma pequena enciclopédia sobre O Hobbit, O Senhor dos Anéis e O Silmarillion, na forma de dicionário de verbetes. As entradas são claras e informativas (mesmo!) e não umas meras duas ou três linhas que estão ali apenas por estar. Peguemos um verbete aleatório aqui, deixe-me ver… "Hithlum" ele descreve não apenas o que é esse treco aí mas qual o significado da palavras (se ela se encontra em alguma língua élfica), onde ficava, qual a história do mesmo e ainda dá variantes do nome em algumas outras línguas (se disponível) como o Quenya e Sindarin e, como se não bastasse, referências de onde tal palavra aparece nos livros[1].

Robert Foster conseguiu fazer um livro absurdamente informativo e completo, um alívio para aqueles fãs que não conseguem memorizar direito nem o sobrenome do Frodo, como eu. O livrinho é conhecido por sua capa bastante tosca , apesar de ser uma ilustração dos Irmãos Hildebrandt, possivelmente é uma das piores representações da Comitiva do Anel, com suas roupas "fashion", um Gimli que parece um alemão ruivo e um Aragorn com cara de mosqueteiro francês a ainda por cima com a mão na cintura. Mas esqueça a capa, que o conteúdo vale por si.

Grandes chatos como o Michael Martinez, que apesar de tudo conhece muito, mas muito mesmo a obra de Tolkien, e o Maior Chato de Todos, Christopher Tolkien se renderam a esta pequena preciosidade. Chega a ser surreal ver Martinez, conhecido por ser um crítico costumaz e muito ácido, além de ser um dos maiores puristas que eu já li, elogiando o livro como o melhor acompanhante para as obras. Nem falo nada de Christopher Tolkien, afinal, ele ter dado uma opinião positiva sobre qualquer coisa que não foi o pai dele quem escreveu é muito estranho[2].

O livro contempla praticamente de tudo, desde letras do alfabeto tengwar a hobbits tão obscuros que você acha que ele os inventou, passando por pessoas, locais e coisas. Nada escapou. Nada dos três livros, é claro e por isso que ele tem um valor limitado para o estudioso da obra de Tolkien (vá lá, se é que existe – e se existe, deveria existir? – tal coisa ), pois se quiser encontrar rapidamente uma referência a algo do Contos Inacabados ou da série HoME, não vai estar ali. Mas também tenho sérias dúvidas se o material do Contos e dos HoME poderiam ser postos na forma de um dicionário de maneira proveitosa, sem perder conexão com as diversas inconsistências dos mesmos.

O "Complete Guide" ainda termina com uma pequena série de Apêndices tão ou mais úteis que os verbetes. No primeiro deles temos uma cronologia da Primeira Era, no segundo (e melhor!) temos árvores genealógicas das Três Casas dos Edain, dos Reis de Númenor desde Elros, de TODOS os Reis de Arnor, Arthedain e Gondor desde Elendil até Aragorn (!!!), dos Meio-Elfos, da Casa de Húrin e por último dos Rohirrim, de Frumgar a Elfwine. Impressionante! O terceiro e menos útil (para nós, brasileiros) trata da conversão de páginas entre edições da obra de Tolkien das editoras Ballantine e Houghton Mifflin.

Esta é uma daquelas preciosidades que nos fazem pensar que a linha de tradução do material tolkieniano no Brasil é meio estranha, deslocada. A biografia feita por Humphrey Carpenter foi traduzida, mas está esgotada e sem planos de reedição (um absurdo!) enquanto que livros como Roverandom (já lançado) e Farmer Giles of Ham (um dos próximos lançamentos) foram/estão sendo traduzidos. Claro, todas as obras são importantes e válidas e devemos levantar as mãos ao céu por algumas terem sido traduzidas para o português, mas traduzir Roverandom, um livro divertido mas menor, e não ter uma reedição da biografia é algo lamentável. Uma grata excessão é o Atlas (vide a Análise anterior).

Para aqueles que não têm problemas com o inglês e com nomes dos personagens em inglês, o que é o pior complicômetro para nós brasileiros – alguém saberia dizer sem pensar quem é Butterbur[3] – o livro é essencial e uma compra muito satisfatória. A minha edição é uma em papel jornal, de bolso, muito prática e fácil de carregar e manusear.

O livrinho pode ser encontrado na Livraria Cultura (oras, oras, pelo visto minha edição está esgotada e tem uma nova, não pocket, com uma capa mais decente! :) ), na FNAC (embora certamente o preço de R$ 9,20 não possa estar correto). No Submarino ele consta como "Não Disponível".

[1] Hithlum é uma região de Beleriand, onde Fingolfin se fixou durante o Exílio, e também a Casa de Hador. Após a Nirnaeth Arnoediad ela foi devastada e completamente dominada por Morgoth.

[2] sinto-me a forçado a colocar esta notinha de rodapé para avisar que sou um enorme fã de ambos, Martinez e C. Tolkien, com profunda sinceridade. Mas eles de fato são conhecidos por serem pessoas bastante duras com relação às obras de Tolkien, ou melhor, às obras sobre as obras de Tolkien, por isso a forte dose de ironia no parágrafo. Que Ilúvatar os tenha em bom lugar!

[3] O Conselho Branco tem (ou tinha) um projeto muito legal que era uma tabela comparativa de nomes de personagens, locais e coisas em diversas línguas, como inglês, espanhol e português. Vale a pena entrar em contato com o pessoal e perguntar como anda o projeto.