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Recriando a Terra Média no Brasil

Estudando um pouco de cinema aprendi que um bom filme por mais barato que seja começa com um roteiro bem estruturado. Mas como fazê-lo? Realmente não é uma tarefa simples, pois é no roteiro que está a essência de um filme, seu cerne. Existe um tipo de formatação específica bem como uma necessidade de amarrar os núcleos da trama de forma que funcione na tela. Acho que foi na criação do roteiro do Hobbit que eu passei a admirar mais e mais os roteiristas de “O Senhor dos Anéis”. Adaptar um livro não é fácil. Sabe aquela parte do livro que a gente lê, relê e se empolga pensando como seria maravilhoso ver aquilo no cinema?

Mas muitas vezes isso não funciona. O livro e, sobretudo a narrativa que criamos do livro em nossas mentes, nosso filme próprio, interno, tem um tempo diferente do cinema. Ao ler, estamos sendo ativos no processo de criação e de fato tudo que adicionamos nesta nossa visão tem muito a ver com o que somos, vivenciamos e acreditamos. Nosso roteiro básico é o livro, mas nossa adaptação para que aquilo nos satisfaça minimamente é mais rica do que qualquer filme que já existiu. O que obviamente não impede que às vezes vejamos um filme baseado em uma obra ficcional que nos surpreenda. Acontece, pois o trabalho do roteirista é pensar justamente como transformar aquele livro querido e aquelas partes que todo mundo ama, de formas variadas, em algo único que capte a essência do livro e possa tentar agradar os fãs e os não-fãs tanto em estética quanto em conteúdo. É uma tarefa árdua e a responsabilidade é enorme.

E como fazer isso com o Hobbit? Digamos que aquele primeiro roteiro que criei, o tal roteiro megalomaníaco que eu sempre cito, tinha erros gravíssimos. Parecia mais uma peça teatral longa e chata pois eu simplesmente tinha pena de cortar as partes para que funcionassem no vídeo. Pode parecer meio bobo mas vai tentar cortar um filho querido ao meio pra você ver. É aterrador, frustrante e muitas vezes desejei ser russo pra poder fazer filmes de ultra longa duração como aqueles filmes antigos de 7, 8 horas. Mas acho que só eu assistiria.

Enfim, com dor no coração cortei o roteiro pela metade retirando aquelas cenas “lindas mas desnecessárias” que todos amamos nos livros. Depois resolvi procurar uma formatação apropriada para aquele monte de falas em inglês, adicionei a descrição de cada cena e foi quando me bateu uma angústia. Onde eu iria filmar tudo aquilo, e como?

A primeira questão eu resolvi de forma mais simples de início e fui apurando a idéia com o tempo. Como sabemos, moramos em um país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza. Sim, é verdade mas sabemos que não é apenas isso. Embora seja essa a visão que prevaleça sobre nós no exterior sobretudo pelo cinema nacional que produz e exporta filmes que quase sempre remetem ao sertão nordestino, ao Rio de Janeiro ou ao processo de favelização das grandes metrópoles. E neste momento eu tive um “insight” daqueles que só acontecem no ônibus voltando do trabalho ou da escola, um sentimento poderoso que acabei tomando por missão: mudar esse padrão e tentar fazer algo completamente diferente. Afinal, se um pequeno hobbit do Condado conseguiu destruir o Um Anel e o Senhor do Escuro, porque um brasileiro da periferia do mundo não conseguiria filmar uma obra de Tolkien em seu país e mandá-lo para o Peter Jackson? Isso ninguém esperaria. Nós que somos fãs da trilogia, dos livros e dos filmes, sabemos que às vezes é justamente o que se pensou até agora impossível, o mais arriscado, o caminho que ninguém mais trilhou por não acreditar, é justamente o que dá certo. Resolvi arriscar, apostar tudo e empolgado comecei a procurar as locações.

Viajei bastante, procurei em sites até perceber que o Condado sempre esteve perto de mim, na zona rural do Vale do Paraíba. O aspecto rural e o relevo de mares de morros fazem com que o lugar seja digno da trilogia do Peter Jackson.

Para a Floresta das trevas escolhi o Bosque da Física na USP em São Paulo. Um lugar tranqüilo e com muitas, mas muitas aranhas reais. E das grandes. Sempre pensei na Floresta das Trevas como um lugar sombrio, mas mais parecido com uma floresta tropical do que com qualquer outro tipo de floresta. Pelos insetos, pelas aranhas, pelo calor. A mata é muito fechada, tão fechada que de dia parece noite e de noite não se enxerga um palmo na frente do nariz. Então resolvi aproveitar um cenário bem brasileiro, adicionar algumas teias de aranha, um filtro escuro e pronto teríamos nossa Floresta das trevas.

Erebor por outro lado precisava ser um local desolado, sem muito verde com mais pedras de preferência pontiagudas pois essa característica era essencial na minha visão da Desolação do Dragão que cerca a Montanha. Mas onde achar uma montanha dessa proporção em terras brasileiras? Foi quando me lembrei de Itatiaia, sobretudo o Pico das Agulhas Negras que com alguns efeitos acabou se transformando no cenário ideal. Um filtro amarelo quase alaranjado e bem pesado seria usado nestas cenas para demonstrar o cansaço, a fadiga e que aquele não era um lugar comum, era uma terra devastada, triste. Por sorte, ou por azar, o Parque das Agulhas Negras havia passado por um incêndio há algum tempo e a mata não havia se recuperado. O que foi perfeito para a Desolação do Dragão. Para o restante do filme resolvi filmar em brotas e em Campos do Jordão.

Fiz uma lista de possíveis atores, projetei o figurino, deixei meu cabelo crescer até ficar de um tamanho hobbitesco, sempre me baseando mais nos filmes e temperando alguma coisa própria de como eu enxergava o livro. Comecei a trabalhar como professor e a separar grande parte do meu salário para comprar tecidos. Foram inúmeras visitas a 25 de março, a costureiras diferentes até que tudo estivesse nos conformes. E nas madrugadas lá estava eu numa sala de computadores da USP mexendo e remexendo no roteiro.

Mas eu só estava me esquecendo de uma coisa. E a câmera? Eu não tinha nem uma câmera fotográfica pra fazer vídeos de baixa qualidade. Um amigo meu, aquele que me levou pra ver o primeiro filme e me ajudou no começo, cujo apelido pra nós é “Batata” me emprestou uma câmera de 3.1 megapixels que era o top de linha da época. Eu me decepcionei muito com o resultado. Tanto trabalho, tanta dedicação pra nada.

Foi quando eu percebi pela primeira vez que talvez os sonhos realmente cheguem ao fim. Que um hobbit só consegue destruir um Mal Supremo em livros e filmes. Que provavelmente o Peter Jackson iria rir do meu vídeo amador e descartá-lo de vez. Eu havia perdido todas as esperanças, empacotei as roupas, voltei para o mundo real e a rotina me consumiu. Eu havia desistido.

CONTINUA (mais uma vez)…

Numa toca no chão, vivia um hobbit

Numa toca no chão, vivia um hobbit.

E ele saiu dela, foi atrás de seus sonhos e nunca mais conseguiu voltar a ser o que era…

Não consigo imaginar melhor começo para uma coluna que tem por objetivo descrever essa aventura à qual me dediquei durante os últimos cinco anos. Tentar filmar um dos livros mais queridos dos fãs de Tolkien, “O Hobbit”, e tentar fazer disso um bom trabalho, que fosse pelo menos digno de ser enviado a uma pessoa muito especial do outro lado do mundo: Peter Jackson. Isso mesmo, o visionário diretor neozelandês, antigo rei dos filmes de horror tipo B, com produções de um humor ácido e peculiar, em quem ninguém acreditava antes de seu mega sucesso milionário com a adaptação das obras de Tolkien. Talvez esteja aí, minha maior inspiração para este pequeno filme que produzi. Maior inspiração que essa pra mim é impossível, mas não foi a única. Como em toda boa história a ser contada, creio que temos de avaliar como a idéia surgiu e quais os motivos que fizeram essa idéia, maluca para muitos, se desenvolver e ganhar corpo.

Digamos que até janeiro de 2002 eu era um adolescente comum. Um pouco nerd, é verdade, mas ainda assim comum. Tinha na época 15 anos de idade, e estava passando por uma crise emocional tipicamente adolescente pois eu havia sido rejeitado pela milionésima vez e dessa vez eu havia decidido colocar um fim nisso. Não mais me apaixonar, me fechar de vez em todos os sentidos e pensar em mim, nos meus estudos. Meio egoísta né? Bom, é nesse contexto de desilusão que “O Senhor dos Anéis” apareceu em minha vida. Um amigo meu me convidou para ir ao cinema pois sabia que eu não estava muito bem e disse algo sobre um filme “muito louco” que envolvia “duendes, elfos, magos” e “um anel do mal”. Como eu queria que o mundo explodisse, quase não fui. O cinema ficava muito longe, na cidade vizinha de Taubaté, uma vez que Caçapava, minha cidade, não tinha mais nenhuma sala de exibição. Fui a muito contragosto, e até hoje fico pensando como seria minha vida se aquele dia eu tivesse recusado o convite.

Ainda me lembro da sensação de ver aquele filme pela primeira vez, ali, tão diferente da descrição do meu amigo e tão envolvente para alguém que tinha deixado de ter esperanças na vida. Finalmente algo empolgante havia acontecido, era como se eu tivesse descoberto um universo novo, único, mágico. Faltando 14 minutos para o final do filme, eu estava ansioso para ver o desfecho, encontrar o tal do Sauron que morava em Mordor, mas ao invés disso tive que lidar com um “CONTINUA”. E isso não me deixou revoltado, pelo contrário, me deixou sedento e perplexo.

O Guilherme melancólico que entrou no cinema aquela tarde, não foi o mesmo Guilherme que saiu três horas depois. Algo havia se interiorizado, uma nova brasa havia sido acesa. O que era aquela música? E aquelas narrações iniciais? Imediatamente após o filme, meu amigo foi comprar o livro, era lindo, mas eu não podia comprá-lo, pois minhas finanças nunca foram muito grandes. Afinal 75 reais era uma fortuna para um garoto de 15 anos.

No ônibus de volta para a casa, o assunto era um só. O tal filme. Fui dormir feliz, aliviado aquela noite. E prometi que iria rever o filme até entender o que me fascinava tanto nele. Até hoje não entendo muito bem. Eu não tomava mais lanche. O dinheiro do lanche era todo revertido para mais sessões de cinema. Ao todo foram 18 sessões do primeiro filme, contabilizando por cima um total de 54 horas no cinema só em 2002.

A partir de então podemos dizer que eu realmente fui atrás de informações mais concretas, achei a Valinor e desde então tenho comprado e lido a maioria das publicações de Tolkien, meu autor favorito. Mas até então eu era um fã, um grande fã. Nada mais. Fazia algumas maluquices como raspar meu cabelo com maquina zero, pintar meu corpo com tinta acrílica cinza e vir para São Paulo vestido de Gollum/ troll para a avant-premiere de “As Duas Torres” numa promoção que eu havia ganhado na Valinor. Foi neste momento que descobri que eu não era o único envolvido, que havia mais gente como eu. Eu não era um E.T. solitário neste universo. Era assim que me sentia com meus familiares e amigos. Meus amigos até viam e curtiam os filmes. Mas não eram como eu. Eu vivenciava aquilo. Eu tirava ensinamentos preciosos. Meus familiares sempre odiaram os filmes. Quando saíram as duas fitas do primeiro filme, eu aluguei desesperadamente e queria que todos vissem, mas eles odiaram. Não chegaram a uma hora de filme. Simplesmente disseram que eu era um retardado por gostar tanto daquilo. Eu passava horas na casa do meu amigo, aquele que comprou o livro e me levou ao cinema, pois ele havia comprado o DVD e aquilo pra mim era inédito, pois eu nunca havia tido contato com um DVD antes. Não sabia como um player funcionava e achei fantástico, era o meu melhor programa de sábado à tarde. Mas meu amigo começou a ficar saturado com a história e acabou me dando o livro de presente. Acho que foi o melhor presente que ganhei até hoje. Pois ele foi a chave de um novo caminho.

Mas como surgiu realmente a idéia de fazer um curta-metragem do Hobbit?
Um dia eu estava assistindo os extras da Sociedade na casa do meu amigo, e vimos que O Peter Jackson procurava um ator para o papel do Frodo e estava desesperado. E que um dia recebeu uma fita do Elijah Wood com uma cena que ele havia gravado numa montanha perto de Hollywood. Uma espécie de fita-teste. O próprio Elijah em entrevistas havia dito que tinha sido algo muito simples e que ele pediu pro Peter não mostrar isso a ninguém, depois do sucesso dos filmes.

Não que eu um dia quisesse me comparar ao Elijah, mas na época eu pensei: “Se ele pode, por que não eu?” E foi quando me veio a idéia de fazer uma fita para mandar pro Peter, pra fazer parte disso tudo, pra tentar conseguir algo, nem que seja conhecê-lo. Algo feito para ele apenas e pra mais ninguém. Mas gravar o que? Como? Com quem?

Meu inglês não era bom, meus colegas caçoavam de mim, eu era pouco popular na escola com poucos amigos, minha família não era rica e nunca me apoiou plenamente nisso, eu não sabia atuar, nunca havia operado uma câmera, muito menos editado uma fita.

Resolvi alguns problemas primeiro, que eu considerava mais urgentes. Entrei no teatro e comecei a fazer inglês com uma tia minha que morou na Inglaterra por anos. Me dediquei muito, estudei muito, e prometi que iria perseguir meu sonho de conhecer o Peter Jackson e ser parte de um de seus filmes, fazendo o que fosse preciso. Na época, um amigo havia me presenteado com uma réplica do Um Anel que vinha de brinde, eu arrumei um cordão e coloquei no pescoço imediatamente. E ali ele ficou, e era ele meu amuleto quando eu perdia as esperanças em algo.

Conversei com alguns amigos que toparam me ajudar mas nunca realmente se empolgaram com a idéia. E nisso se passou um ano, eu lendo, pensando, estudando. Até que um dia eu percebi que o passo mais óbvio dos estúdios após o último filme seria começar “O Hobbit” uma vez que o “Silmarillion” ou qualquer outro livro seria extremamente difícil e sem a continuidade esperada. Assim, no final de 2002, peguei uma versão online do livro na internet e comecei a ler em inglês. Foi o primeiro esboço de roteiro da minha vida. E tenho guardado até hoje, porque era muito ruim, muito ingênuo e megalomaníaco. Mas foi o começo de tudo, foi uma época da minha vida que eu sabia que aquilo era possível, que eu tinha as maiores esperanças do mundo e que triunfar era apenas uma questão de tempo. Confeccionei as primeiras roupas dos anões de papel crepom, os cintos de papel laminado prata e dourado, as barbas de linha de tricô, e a capa do Bilbo e dos anões de TNT. Iria filmar com a câmera de um amigo, uma VHS de forma linear, e gravar a trilha sonora na hora com um discman e caixinhas de computador. Nem preciso dizer como ficou. Vergonha, Decepção. Eu ainda não estava pronto e isso era visível. Então reformulei meus planos e resolvi fazer da forma certa. Peguei o caminho mais longo e não o atalho. Minha estratégia era clara, sair do meu Condado, ir para a cidade grande para fazer Faculdade de História, estudar mais profundamente Tolkien, me profissionalizar como ator numa escola de renome, estudar cinema, participar de filmes para ganhar experiência e chegar até o Peter sem passar vergonha. Eu estava disposto. Mas será que isso tudo era o suficiente?

CONTINUA (Pra não perder o costume…)