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A Aquisição das Virtudes Pela Luta Interior

I) NÃO CONFORMISMO

No inverno de 2010, ouvi pela primeira vez, numa animada tertúlia em São Paulo, cantada a plenos pulmões por um grupo de rapazes, com violões e flauta transversal, fazendo contra-ponto 2 a 2, a música “Bola de Meia, Bola de Gude”, de Milton Nascimento e Fernando Brant. Copio a letra, se acaso alguém não a conhece, pois servirá de pauta para a reflexão que gostaria de fazer sobre não conformismo e melhora:

“Há um menino, há um moleque

morando sempre no meu coração.

Toda vez que o adulto balança

Ele vem pra me dar a mão.

Há um passado no meu presente

um sol bem quente lá no meu quintal.

Toda vez que a bruxa me assombra

o menino me dá a mão.

E me fala de coisas bonitas que eu

acredito que não deixarão de existir.

Amizade, palavra, respeito, caráter,

bondade, alegria e amor.

Pois não posso, não devo, não quero

Viver como toda essa gente insiste em viver.

Não posso aceitar sossegado qualquer

sacanagem ser coisa normal.

Bola de meia, bola de gude, o

solidário não quer solidão.

Toda vez que a tristeza me alcança

o menino me dá a mão”.

A  música fala de valores recebidos na infância e prezados na juventude, que podem ser atropelados na maturidade, quando se ingressa na vida profissional, pela disputa, deslealdade, preconceito, sedução, inveja, bajulação e assédio, circunstâncias que caracterizam um ambiente adverso aos valores morais decantados por Milton Nascimento, que são a amizade, palavra, respeito, caráter, bondade, alegria e amor.

Diante do dilema entre aquilo que podem nos dizerDeixe de ser idealista! Caia na real! Mas em que mundo você vive? – e o que a consciência nos aponta como “la cosa justa da fare” (estrofe de música da Laura Pausini), a pressão social pode fazer com que se abdiquem dos ideais e valores que nos formaram, se esses valores não estavam arraigados e não estão sendo constantemente vivenciados.

Milton Nascimento nos fala de não conformismo, de “não aceitar sossegado que qualquer sacanagem seja coisa normal”, que um mundo de violência, exploração, rasteiras, corrupção, pornografia e mentiras seja o habitat natural do ser humano, com o qual ele deva se adaptar e amoldar.

Mas que se pode fazer, se a correnteza é forte e nos leva de roldão? O conhecido ditado – uma andorinha não faz verão – é sempre lembrado nessas horas para justificar a rendição pessoal diante de situações em que viver os valores morais supõe heroísmo e fortaleza. O “politicamente correto” passa a ser a cartilha seguida por quem deseja subir a qualquer preço, triunfar e ter sucesso na vida, satisfazer todas as suas ambições de prazer e de poder, ou simplesmente não ter dores de cabeça… A desculpa para negócios menos honestos ou compromissos escusos é sempre: Afinal, todo mundo age assim? Certo ou errada, a prática está generalizada…

Encantei-me com o comentário que um ex-colega de Tribunal, o Min. José Luciano de Castilho Pereira, conhecido pela sua retidão moral e competência profissional, fez, quando falávamos de alguns casos tristes que tivemos de julgar no Conselho Nacional de Justiça, envolvendo a conduta imoral de magistrados (felizmente poucos): Aquilo que não puder contar para Angela, não posso fazer! (Angela é sua mulher).

Pensando em seu comentário, podemos vislumbrar os três caminhos que se abrem diante de um ambiente adverso:

a) Depor as armas e conformar-se ao ambiente (caminho fácil);

b) Tornar-se amargo, reclamão e vingativo, partindo para uma luta contra as estruturas sociais, o que não deixa de ser um modo de agir “com as armas dos inimigo” (caminho acre);

c) Resistir de forma otimista, pela aquisição e exercício das virtudes em qualquer condição de temperatura e pressão, mudando paulatinamente o ambiente ao nosso redor (caminho eficaz);

Trataremos aqui apenas dos dois últimos caminhos, pois estas linhas se escrevem para não conformistas.

II) O CAMINHO ACRE: O ÓDIO E A VINGANÇA

Quando sofremos uma derrota em que a sensação de injustiça é grande, porque os meios usados pelo adversário não foram honestos, pode bater a tentação de pagar na mesma moeda, concluindo que, se todo mundo joga sujo, quem não adotar as mesmas armas estará naturalmente fadado ao fracasso. Agir assim é deixar-se arrastar pelos instintos e pelos sentimentos baixos de vingança ou de justiça vetero-testamentária do olho por olho e dente por dente. Reagir ao ambiente pela via da luta exterior não parece ser o melhor caminho a seguir.

No livro “Star Trek e a Filosofia” organizado por Jason Eberl e Kevin Decker (Madras – 2010 – São Paulo), em que os autores aproveitam os episódios da famosa série de TV do gênero ficção científica para trazer à prática grandes questões filosóficas, o tema da vingança é bem desenvolvido no capítulo “A Ira de Nietzsche”, no qual o pano de fundo e o filme “Jornada nas Estrelas II: A Ira de Khan”, onde o personagem principal é representado pelo renomado ator Ricardo Montalbán.

A descrição e a motivação que os autores do artigo (Shai Biderman e William Devlin) apresentam dos dois personagens principais, que se enfrentam no filme é muito sugestiva:

James Tiberius Kirk – É um “peixe fora d’água, pois sua missão de cinco anos havia acabado e a vida dele havia se tornado menos significativa, apesar de suas realizações e de suas honras. Uma vez tendo sido o mais jovem capitão na história da Frota Estelar, Kirk agora reflete sobre o significado e sobre o propósito de sua própria vida a partir da perspectiva da meia-idade. Ele foi promovido a almirante, mas sua promoção não o faz se sentir mais realizado”. Está desmotivado (pg. 68).

Khan Noonien Singh – É “um produto da engenharia genética do final do século XX…Depois de sua tentativa de assassinar Kirk e comandar a Enterprise, Khan e seus seguidores são sentenciados a uma vida inteira de exílio em Ceti Alfa V. Tendo sido uma vez um ambiente habitável, o planeta torna-se um punhado de terra improdutiva depois que o planeta irmão explode, e Khan perde muitos de seu povo nos anos que se seguem, incluindo sua amada esposa, a ex-tripulante da Enterprise, Maria McGivers”. As duas metas de sua vida, quando consegue escapar do cativeiro, são: roubar o projeto Genesis, “experimento científico que cria vida da ausência de vida”, e, mais importante subjetivamente, vingar-se do almirante Kirk (pg. 70).

Perguntam-se os filósofos autores do artigo, refletindo sobre a motivação existencial do Khan: “A vingança ajuda a criar uma vida significativa, que valha a pena ser vivida, ou a vingança obstrui a busca de um indivíduo por uma vida significativa, uma obstrução que pode até mesmo, por fim, levar à destruição da vida em si?” (pg. 68). E, afinal, pensando no Almirante Kirk, o que tornaria uma vida significativa?

Diferenciam os autores a santa ira, desejo reto de restabelecimento da justiça, da vingança selvagem, que visa ao sofrimento de outrem. A primeira é fruto da caridade que se entristece com a falta alheia e deseja a correção do infrator, porque o estima. A segunda é fruto do ressentimento e torna a pessoa que se deixa dominar por ela escrava do sentimento de vingança.

Khan é, mais uma vez, vencido por Kirk, e morre externando todo o seu ódio: “Do coração do inferno, eu o apunhalo. Pelo meu ódio, cuspo em você em meu último suspiro!” (pg. 76).

Um vida centrada em si mesmo e depois focada na vingança, frustra, mesmo se a vingança for bem sucedida, como é o caso do “Conde de Monte Cristo” (1844) de Alexandre Dumas (1802-1870). Edmond Dantés ao conseguir arruinar principalmente Fernand Mondego, que o havia denunciado falsamente para casar-se com sua noiva Mercedes e fora causa de seus muitos anos na prisão, sente um gosto amargo de vida desperdiçada em ódio, quando sabe do suicídio de Fernand.

O caminho da justiça vindicativa não tem se mostrado eficaz na transformação para melhor da sociedade. Punir por punir, num regime de medo da pena, não atinge o âmago do problema, que é a formação da pessoa nos valores morais mais elevados, os quais, uma vez assumidos como próprios, passam a ser efetivamente vivenciados, como se procura fazer na justiça restaurativa.

III) A LUTA EXTERIOR: MUDAR POR FORA

Já o caminho da luta exterior para a transformação das estruturas sociais segue o mesmo destino acre e pouco eficaz e duradouro do amargor individual diante das injustiças sociais que se vem. Exemplo paradigmático é o das revoluções socializantes.

É interessante notar que toda a ideologia marxista, que alimenta essas revoluções, é genuinamente não conformista. É célebre o grito de Karl Marx: “Até hoje os filósofos limitaram-se a interpretar o mundo; trata-se agora de transformá-lo”. É também célebre a expressão jocosa – e também conformista – que se utiliza para debochar dos que acreditam nessa ideologia: Quem nunca foi marxista até os 40 anos é que não tem coração; quem continua a sê-lo depois dos 40 é que não tem cabeça.

Com efeito, o marxismo não é conformista. Deseja transformar o mundo, vendo a exploração de uns homens por outros. No entanto, escolheu o caminho equivocado, da luta exterior, da práxis revolucionária, uma vez que concebe a luta de classes como o motor da História. Daí que acredite que mudando as estruturas sociais mudará o mundo.

É admirável a figura de Antonio Gramsci (1891-1937), fundador do Partido Comunista Italiano, pelo seu genuíno, despojado e autêntico idealismo, muito diferente daqueles que abraçam ideologias socializantes e vivem como bons burgueses. Preso e condenado pelos fascistas italianos em 1926, ficou até quase a morte na prisão, onde escreveu seus “Cadernos do Cárcere”, nos quais traça perfeitamente a estratégia da “Esquerda” de conquista do poder:

a) na luta de classes, a classe proletária que busca a hegemonia na sociedade deve difundir, através de intelectuais engajados, sua cultura própria na sociedade civil (sindicatos, universidades, igrejas, imprensa, etc), até alcançar um consenso que lhe permita conquistar o poder político (Estado);

b) essa classe deve se organizar-se em partido, que seja o depositário da doutrina, ao qual todos se subordinem;

c) a revolução não se fará mais pelas armas ou pelo confronto direto, mas pela guerra de posições a serem gradualmente conquistadas: revolução no âmbito da cultura, exercendo verdadeiro patrulhamento ideológico em relação ao que não esteja de acordo com a ideologia socialista.

Não fora o desrespeito à liberdade – valor fundamental em qualquer Estado genuinamente democrático –, a difusão de idéias e valores pelos mais diversos ambientes sociais que propõe é salutar. O que falta é saber conviver com o pluralismo. Para isso é necessária uma mudança de mentalidade: a solidariedade é um valor que não se impõe; deve vir de dentro, de uma pessoa que, prezando e vivendo os valores morais, preocupa-se sinceramente com os outros e tem por ideal servir e não servir-se dos demais.

70 anos de marxismo no que então se denominava 2º Mundo (União Soviética e seus satélites) foram mais do que suficientes para demonstrar – naturalmente para quem quiser ver, pensando em que “o pior cego é aquele que não quer ver” – que a mudança das estruturas sociais não faz o paraíso na terra, porque o homem continua o mesmo. Deve-se trabalhar mais profundamente, transformando o próprio homem por dentro.

IV) LUTA INTERIOR: RACIONALIDADE VERUS SENTIMENTALISMO

Se o melhor caminho para afrontar um ambiente hostil aos valores morais não é o da luta exterior para transformar a sociedade – uma espécie de guerra inicial imoral, para depois voltar à moral (os fins justificam os meios, diria Maquiavel), como empreender o caminho da luta interior contra si mesmo, contra esses dragões interiores (lembrando o filme de Joffé “There Be Dragoons”), que estão soltos e, começando por fazer mal a nós mesmos, espalham seu fogo abrasador e destrutivo por toda a sociedade?

Lembrando o comentário evangélico, quantos não repetem, depois de suas quedas e negociatas, procurando justificá-las: A carne é fraca…

Afinal, como conter as paixões e os sentimentos? No fundo, a corrupção exterior é fruto do domínio das paixões sobre a razão. Haverá um modo da cabeça prevalecer sobre o coração? A razão sobre o instinto?

Aristóteles elencava as paixões em duplas, procurando mostrar que, consideradas em si mesmas, não seriam nem boas nem más: amor e ódio, alegria e tristeza, medo e audácia, esperança e desespero, desejo e ira.

No artigo “Humanos sorriem com tão pouca provocação”, da já mencionada coletânea sobre “Star Trek e a Filosofia”, seu autor, Harald Thorsrud, explora o tema do conflito interior entre racionalidade e sentimentalismo, utilizando-se de dois personagens da referida série televisiva: O Sr. Spock (Série Original) e o humanóide Data (Nova Geração). O primeiro, filho de mãe humana e pai vulcano, luta interiormente por controlar suas emoções, privilegiando a pura lógica vulcana no agir. O outro, verdadeiro robô programado logicamente, tem “inveja” dos humanos, ao perceber que o sentimento desempenha um papel importante na vida, algo que lhe falta.

Com efeito, controlar os sentimentos é uma tarefa desafiadora: Como raciocinar quando se está tremendamente apaixonado por alguém? Como perdoar do fundo do coração quando assoma uma ira raiando o ódio por alguém que nos atraiçoou ou nos passou uma rasteira profissional? Como controlar o medo diante de situações apavorantes pelo desconhecido ou por superar as nossas forças? Como não se deixar abater pelo desespero ao constatar diuturnamente nossas fraquezas?

Numa visão antropológica aristotélica, a alma humana é composta de inteligência, vontade e sentimentos. Cabe à inteligência, vendo racionalmente a realidade, mostrar à vontade os objetos adequados à pessoa, de modo a que impere sobre os sentimentos, aproveitando-os como força propulsora e não pedra de tropeço.

No entanto, essa equação não é fácil de fechar. Sem o exercício da vontade na prática das virtudes (vistas como boas pela inteligência), quem acaba mandando no homem são os sentimentos. Há, portanto, uma natureza ideal do homem, pautada pela razão, e uma natureza corrompida pela desordem das paixões. Cabe à vontade canalizar para o bem todos os sentimentos (inclusive os aparentemente maus, como o ódio ou a ira), gerando no homem uma segunda natureza, aquela construída sobre as virtudes.

V) A AQUISIÇÃO DAS VIRTUDES

E como se adquirem as virtudes? Mais do que isso: o que são, afinal essas virtudes?

Aristóteles definia as virtudes como hábitos bons que adquirimos através da repetição de atos bons. A coragem se adquire vencendo uma vez e outra o medo diante das dificuldades, até ser natural enfrentarmos qualquer adversidade, sem ficarmos paralisados diante dos obstáculos. O mesmo acontece com a paciência, que faz não reclamar diante das chatices do próximo ou das situações incômodas que se prolongam no tempo, uma vez que se acostumou o espírito com esse tipo de perspectiva.

A luta pelas virtudes não é um combate estóico, de alguém que consegue dominar-se à base de se desumanizar. Mais uma vez o exemplo do “Star Trek”, comparando o humano e o vulcano. Numa situação de extremo perigo, o Sr. Spock é o único que consegue controlar-se e se lançar imediatamente, arriscando a própria vida, para salvar a frota estelar de uma catástrofe. No entanto, sua frieza e destemor são contestados pelo Dr. McCoy:

“Você sabe por que não tem medo de morrer, Spock? Você tem mais medo de viver. A cada dia que você fica vivo, poderia escorregar e permitir que sua metade humana viesse à tona furtivamente. É isso, não é? Insegurança. Por quê? Você não saberia o que fazer com um sentimento caloroso, genuíno, decente” (“Star Trek e a Filosofia”, op. cit., pg. 58).

A análise da “coragem” de Spock feita por McCoy é de um realismo e profundidade impressionantes: retrata uma das posturas extremas do relacionamento do homem com o mundo. Com efeito, duas correntes filosóficas gregas apontaram para dois caminhos distintos para o comportamento do homem em relação aos bens e às pessoas: o estoicismo (Zenão, 333-262 a.C.) e o epicurismo (Epicuro, 341-270 a.C.).

O ponto nodal da discórdia entre as duas Escolas Gregas Clássicas – a Kepos (“Jardim”) e a Stoa (“Pórtico”) – é o papel que o prazer e as paixões desempenham na vida humana. Enquanto os epicuristas exaltam a busca do prazer como a razão de viver, já os estóicos sustentam que a felicidade se obteria com a impassibilidade: não sofrer com as dores, nem buscar os prazeres. Modernamente, essas Escolas Gregas encontraram eco em duas correntes filosóficas: o utilitarismo de Jeremy Bentham (1748-1832), voltado “ao máximo prazer do maior número” e o idealismo de Emanuel Kant (1724-1804), focado no “cumprimento do dever pelo dever”.

O epicurismo utilitarista rebaixa o homem a uma condição animalesca, de busca desenfreada do prazer a todo custo, com avidez que embrutece o homem. Já o estoicismo idealista desumaniza e distorce o próprio ideal de aperfeiçoamento virtuoso, colocando-o acima e fora da condição humana.

Nesse, como em outros pontos, a postura aristotélica centrada no equilíbrio do “in medio virtus” aponta para a correta visão do papel que o prazer deve desempenhar em nossa vida e do que significa adquirir, viver e praticar as virtudes.

O prazer é o meio natural que estimula o cumprimento dos instintos vitais no animal e no homem. O prazer do comer e do beber garante a auto-conservação; o prazer sexual garante a conservação da espécie. O problema está na inversão de valores e funções: busca-se o prazer e se evitam os fins, até que estes aparecem como absolutamente secundários e a avidez do prazer leva ao sacrifício de pessoas e valores para a satisfação própria contínua e em doses cada vez maiores.

Encontrar o ponto de equilíbrio na busca do prazer é um dos segredos da felicidade humana: perceber a relação entre fins e meios, prazeres e seus instintos existenciais, moderação e verdadeira satisfação.

Daí a necessidade da luta interior, do império da razão sobre os instintos, com o uso da inteligência e da vontade para manter os sentimentos em seu devido lugar, como motor e não como entrave ao aperfeiçoamento pessoal.

VI) A LUTA INTERIOR CONTRA OS DEFEITOS

Lembrando a mitologia grega, especificamente a estória do semi-deus Aquiles, cujo único ponto vulnerável era seu calcanhar, pelo qual será ferido e encontrará a morte no final da Guerra de Tróia, podemos dizer que cada um de nós tem o seu “Calcanhar de Aquiles”, o seu defeito dominante, que se destaca sobre os demais, por ser a nossa principal fonte de quedas e dificuldades na vida.

Através da observação sobre si mesmo e sobre os demais, não é difícil se chegar a resumir em 3 grandes defeitos a variada gama de misérias humanas: o orgulho (aqui abrangendo a auto-suficiência e a vaidade), a sensualidade (incluindo a busca desenfreada do prazer em todas as suas modalidades) e a preguiça (ligada ao comodismo paralisante da realização de qualquer projeto maior na vida).

A vaidade e o orgulho são a principal fonte de desentendimento entre os homens, uma vez que faz desprezar as realizações alheias e querer sempre fazer prevalecer a própria opinião e aparecer a própria imagem. A sensualidade, no campo do sexo, tem como frutos amargos a vulgarização da mulher, a animalização do homem e a supressão da vida nascente, e, no campo gastronômico, todas as doenças decorrentes da obesidade, sempre por destempero na busca do prazer sensível. E o comodismo é a chave para fazer da vida uma “paixão inútil”, na expressão antológica do existencialista francês.

Como derrotar esses inimigos da autêntica auto-realização?

Em primeiro lugar, como em qualquer tática militar, detectando a presença do inimigo. O fator surpresa e a camuflagem que escondem a presença do inimigo são seus principais trunfos. Os nossos são a sinceridade conosco mesmo para reconhecer que somos vaidosos, sensuais e preguiçosos, numa medida ou noutra. Basta nos fazermos as seguintes perguntas e as respondermos com sinceridade para detectarmos as raízes do mal e sua virulência em nossa vida:

a) Falamos muito de nós mesmos e temos dificuldade de nos interessarmos pelas coisas dos outros?

b) Estamos tão preocupados com a imagem que os outros tem de nós, com o medo de errar, que ficamos paralisados no agir e no falar, especialmente em público?

c) Mesmo sabendo que vamos engordar ou que a gastrite vai piorar, atacamos com avidez aqueles pratos ou bebidas de que mais gostamos, sem pensar nas conseqüências (que acabam vindo “on line”)?

d) Deixamos passar o tempo na frente da TV, sem conseguir tomar a decisão de ir estudar ou concluir a tarefa que está gritando pelo nosso trabalho?

e) Não conseguimos nos controlar quando ficamos a sós no namoro, sem pensar nas conseqüências psicológicas e materiais de nossas ações?

Em segundo lugar, estar decididos a mudar. Temos medo de mudar?

Quando era pequeno e comecei a andar a cavalo, na Fazenda de meus pais em Avaré, ao mudar do passo ao trote, o incômodo do balanço era tão grande que tive medo do galope, pensando que daí nem conseguiria ficar no cavalo. Só depois da primeira galopada é que percebi que o chacoalhar contínuo na sela diminuía com a natural cadência espaçada do galope.

Ora, há pessoas que ficam, na vida, num eterno trote, imaginando dificuldades tremendas se forem mais ousadas ou generosas no campo das virtudes, achando que não conseguirão viver habitualmente a coragem nas dificuldades, a honestidade nos negócios, a fidelidade matrimonial ou a paciência e o perdão nas relações profissionais ou familiares.

Outros, há, que tem vergonha de mudar, como se sua personalidade estivesse definida desde a mais tenra idade e fosse um demérito reconhecer um defeito e passar a agir de forma diversa. Na verdade, deveríamos receber como um elogio o comentário de algum familiar, colega ou amigo que nos encontrasse depois de muitos anos sem nos ver, dizendo: Como você mudou? (obviamente, se foi para melhor…).

Mais perigoso é o medo de mudar por receio de ficar mal diante do ambiente. Esse é o conformista de que falávamos no começo. Se é isso o que nos impede de mudar, é preciso atacar mais fundo o inimigo, que é o mundanismo, sabendo dar “os nomes aos bois” a não inventar nomes ao que não tem. Em vez do “assumir as próprias fraquezas” como algo natural e invencível, aceitá-las como ponto de partida do esforço de mudança e melhora.

Finalmente, reconhecidos os defeitos, detectados os principais e perdido o medo de mudar, vem aí a luta por mudar, vencendo os defeitos pela aquisição das virtudes opostas:

a) Orgulho e vaidade – humildade;

b) Avareza – generosidade e desprendimento;

c) Luxúria – castidade;

d) Gula – temperança e sobriedade;

e) Preguiça – laboriosidade;

f) Ira – mansidão;

g) Inveja – magnanimidade.

Podemos dizer que o paradigma da luta interior está na luta por viver as virtudes da fortaleza e da temperança: saber enfrentar os sacrifícios necessários e fugir dos prazeres desordenados.

Como se vence a gula? Dizendo não ao que ultrapassa a necessidade no comer. Uma vez e outra, sabendo parar um pouco antes de estarmos plenamente satisfeitos, pois, organicamente, o sinal de satisfação chega ao cérebro um pouco depois da ingestão suficiente de alimentos.

O problema é que queremos permanecer esbeltos sem controlar o garfo! Muitos sonham com o dia em que, através de experimentos genéticos, poder-se-á chegar ao controle de todas as características físicas da pessoa, de tal modo que se chegará ao homem e mulher perfeitos. Mas do que adianta uma aparência simpaticíssima e um temperamento insuportável? A virtude vem de dentro, não de fora. Vem da alma, não do corpo.

Na Copa do Mundo de Futebol de 2010, realizada na África do Sul, ficou conhecida uma nova bola, com características de maior dificuldade de controle: a jabulani, fabricada especialmente pela Adidas. Num paralelismo muito apropriado, houve quem comparasse a barriga do obeso a uma jabulani, alertando a magros e menos magros: Cuidado com a jabulânia! Ou seja, sem luta diária pelo controle do garfo em cada refeição, não há como controlar o crescimento da jabulânia… (nome bem sonoro para a curvatura mais ou menos acentuada da barriga).

Mas se a analogia é esportiva, também leva em conta que não se mantém a forma esbelta sem exercícios físicos. A palavra grega askesis (ascética) significa esforço e exercício, aplicando-se tanto ao corpo quanto à alma, no ideal greco-romano da “mens sana in corpore sano”.

Nesse sentido, o princípio do esforço físico para manter a forma, com sacrifícios e lutas para superar obstáculos e tentações, é o mesmo que se aplica para a aquisição das virtudes morais. Sem esforço não há virtude: para chegar a ser natural o agir moral, tornando-se hábito adquirido, deve haver um inicial esforço para a aquisição dessa boa disposição.

Portanto, em relação à temperança, a receita é a mesma da forma física: constância no controle do garfo e perseverança nas atividades físicas, que combatem o sedentarismo e o comodismo, através de caminhadas, prática de esportes ou academia.

E como se vence a ira? Mordendo a língua e contando até 10 antes de responder, esperando que a racionalidade se imponha antes de falar, pois as feridas abertas por uma palavra ferina demoram a cicatrizar – quando cicatrizam. É preferível falar só quando se deixou esfriar a cabeça, para se dizer apenas o que seja necessário para restabelecer a justiça e esclarecer os fatos.

E a preguiça? Como se combate? Começando habitualmente, um dia e outro, a trabalhar nas tarefas que menos gostamos; permanecendo na mesma tarefa até concluí-la (ou a parte que havíamos fixado para esse dia); levantando-nos imediatamente da cama quando toca o despertador, sem ficar num diálogo interminável com o travesseiro; deixando de navegar a esmo na internet, vendo – sem perceber – as horas passar.

E a luxúria? Bem, podemos lembrar (e “escarmentar em cabeça alheia”) o caso do adultério do Rei Davi, narrado no capítulo 11 do II Livro de Samuel: contemplando Betsabá se banhando no rio, permaneceu em sua “morosa delectatio”, até que o desejo de tê-la para si levou-o a mandar chamá-la ao palácio, dormir com ela e ordenar a morte do marido, colocando-o na frente mais dura de combate. Ao adultério somou um homicídio. Tudo começou com o olhar solto, contemplando o que não lhe convinha. Daí o conselho: Os olhos! Por eles entram na alma muitas iniquidades. – Quantas experiências como a de Davi!… – Se guardardes a vista, tereis assegurado a guarda do vosso coração” (S. Josemaria Escrivá, “Caminho” – 1999 – São Paulo, 9ª edição, ponto 183).

E a vaidade? Em primeiro lugar, reconhecendo que somos mesmo vaidosos e orgulhosos. Uma boa pauta para percepção do defeito em nós é a que S. Josemaria Escrivá nos apresenta no ponto 263 de “Sulco” (Quadrante – 2005 – São Paulo), com muito realismo:

“Deixa-me que te recorde, entre os outros, alguns sinais evidentes de falta de humildade:

- pensar que o que fazes ou dizes está mais bem feito ou dito do que aquilo que os outros fazem ou dizem;

- querer levar sempre a tua avante;

- discutir sem razão ou – quando a tens – insistir com teimosia e de maus modos;

- dar o teu parecer sem que te peçam, ou sem que a caridade o exija;

- desprezar o ponto de vista dos outros;

- não encarar todos os teus dons e qualidades como emprestados;

- não reconhecer que és indigno de qualquer honra e estima, que não mereces sequer a terra que pisas e as coisas que possuís;

- citar-te a ti mesmo como exemplo nas conversas;

- falar mal de ti mesmo, para que façam bom juízo de ti ou te contradigam;

- desculpar-te quando te repreendem;

- ocultar ao Diretor algumas faltas humilhantes para que não perca o conceito que faz de ti;

- doer-te de que outros sejam mais estimados do que tu;

- negar-te a desempenhar ofícios inferiores;

- procurar ou desejar singularizar-te;

- insinuar na conversa palavras de louvor próprio ou que dêem a entender a tua honradez, o teu engenho ou habilidade, o teu prestígio profissional…;

- envergonhar-te por careceres de certos bens…”

Depois de reconhecer os próprios defeitos e limitações, o caminho para vencer a vaidade e o orgulho é justamente valorizar os demais, como bem o fez o Ministro Lima Teixeira, nesta simpática poesia dedicada a seus colegas (in Revista do Tribunal Superior do Trabalho, Ano de 1975, LTr – 1976 – São Paulo, p. 104):

“TST GRANDIOSO

Não sei se diga, que é certo

Ou que certo é o argumento:

Pois quanto mais longe, ou de perto,

Não encontro fundamento.

Somos vários magistrados,

E da maior projeção;

Há os que são mais versados

Outros com mais perfeição.

Há os que são tratadistas,

De cátedra transcendental:

E há os que são estilistas

De visão fenomenal!

Há os que são realistas

Dos aspectos cruciais:

Há os que são analistas

dos fenômenos sociais!

Que Tribunal fabuloso!

Tantos são os seus valores…

Parece até assombroso

Conjunção de tais pendores”.

É natural vibrarmos com as instituições às quais pertencemos – uma espécie de orgulho coletivo e desculpável –, pois esse entusiasmo profissional é um bom motor para servirmos melhor à instituição e aos que dela dependem, valorizando o trabalho de todos e de cada um de seus membros.

Enfim, para cada uma das virtudes, o meio de adquiri-la está numa luta interior para vencer, em cada momento, a tendência instintiva ao egoísmo, ao comodismo e à sensualidade. E uma luta esportiva, que sabe não desistir diante das quedas, das derrotas e dos fracassos. Com fair-play, recomeça o combate para, mudando a si mesmo para melhor, possa simultaneamente ir transformando o ambiente.

VII) CONFORMAR O PRÓPRIO AMBIENTE

No fundo, duas são as posturas que podemos ter diante do ambiente cultural, profissional e moral no qual vivemos, trabalhamos e nos divertimos: conformar-nos a ele ou conformá-lo. Deixar-nos arrastar por aquilo que todo mundo diz ou faz – o politicamente correto – ou enfrentar, como o salmão enfrenta a correnteza, os clichês e modismos, para agir como nossa consciência nos diz que devemos agir.

Exemplo paradigmático de não conformismo diante de um ambiente adverso, em que todos se conformam à ideologia dominante ou a aceitam passivamente, é o da jovem alemã Sophie Scholl (09/05/1921-22/02/1943), universitária que, com alguns colegas, tentou mostrar ao mundo que não era aceitável o atropelamento à liberdade e dignidade humana que o regime nazista vinha impondo à Alemanha, e foram pegos divulgando um manifesto na Universidade de Munique. Sua vida é muito bem retratada no livro “Sophie Scholl – The real story of the woman who defied Hitler” (Frank McDonough, The History Press – 2010 – Gloucestershire).

Na versão cinematográfica – “Sophie Scholl – Uma Mulher contra Hitler” (2005), o interrogatório final (a 18/02/1943) a que é submetida, antes de sua condenação e execução, mostra bem o perfil ético, a coragem e as convicções dessa jovem (as falas de Sophie estarão em itálico):

Robert Mohr (Agente da Gestapo): - Café?

Sophie: - Por que quer nos punir?

- Porque é lei e sem lei não há ordem.

- A lei a que se refere protegia a liberdade de expressão antes do Nazismo subir ao poder, em 1933.Quem opina hoje é preso ou condenado a morte. Isso é ordem?

- Só podemos confiar na lei, não importa quem a tenha escrito.

- E na sua consciência?

- Bobagem. Aqui está a lei e aqui está o povo. Como criminalista, devo descobrir se ambos coincidem e se não coincidem encontrar a maçã podre.

- As leis mudam, a consciência não.

- E se todos decidissem o que é certo ou errado individualmente? O que restaria se criminosos derrubassem o Fuhrer? Caos criminal…

- Sem Hitler e seu partido haveria lei e ordem para todo o mundo. Todos estariam livres de atos arbitrários, não só os capachos.

- Como se atreve a fazer comentários aviltantes.

- Aviltante é nos chamar criminosos por causa de alguns panfletos. Só tentamos convencer as pessoas com palavras.

- Você e seu grupo abusaram de seus privilégios. Estudam em tempo de guerra com nosso dinheiro. Eu era alfaiate no tempo da democracia. Sabe o que me tornou um policial? A ocupação francesa, não a democracia alemã. Sem o movimento seria um policial do interior. Aquele repulsivo tratado de Versalhes… Inflação, desemprego, pobreza. Hitler acabou com tudo isso.

- E levou o país para uma guerra sangrenta onde todos morrem em vão.

- Uma luta heróica. Você recebe os mesmos cupons que as pessoas que combatem. Você está em melhor posição que pessoas como eu. Você não precisa fazer isto. Como ousa elevar a voz? O Fuhrer e o povo protegem você.

- Aqui, no palácio Wilttelsbach? Prendendo minha família?

- Estamos libertando a Europa da plutocracia e do bolchevismo. Lutamos pela Alemanha livre. Nunca seremos ocupados.

- Até a guerra acabar e as tropas estrangeiras invadirem e o mundo apontar para nós com o dedo por tolerar Hitler.

- O que dirá quando a vitória final for nossa? Quando a liberdade e a prosperidade florescerem? Que essa era a sua visão quando se afiliou à BDM?

- Na Alemanha todos deixaram de acreditar em Hitler.

- E se eu estiver certo? Você é protestante?

- Sim.

- A Igreja também exige devoção, mesmo se tiver dúvidas?

- As pessoas vão à igreja voluntariamente. Hitler e o nazismo não oferecem outra opção.

- Porque se arrisca tanto por falsos ideais?

- Porque tenho consciência.

- Você é tão dotada… Porque não pensa como nós. Liberdade, honra, prosperidade. Um governo responsável. Esta é a nossa convicção.

- Não abriu os olhos com o terrível banho de sangue conduzido pelo nazismo em nome da liberdade e da honra? A Alemanha cairá em desgraça se a juventude não derrubar Hitler e construir uma nova Europa intelectual.

- A nova Europa só poderá ser nacional socialista.

- E se o Fuhrer for louco? Por exemplo, o ódio racial. Tivemos um professor judeu em Ulm. Ele ficou diante de uma tropa das SS e todos cuspiram no seu rosto. Naquela noite desapareceu. Como muitos em Munique. Supostamente foram trabalhar na Europa Oriental.

- Acredita nisso. Bobagem. Judeus são imigrantes.

- Soldados vindos do Leste falam de campos de extermínio. Hitler quer exterminar todos os judeus europeus. Ele pregava essa loucura há 20 anos. Como pode acreditar que os judeus são diferentes de nós?

- Essa gente trouxe infortúnio. Você está confusa, não tem ideia. Teve educação errada. Eu a teria educado diferente.

- Tem ideia do meu choque quando descobri que os nazistas eliminavam crianças deficientes mentais? Amigos de minha mãe nos contaram isso. Caminhões vinham recolher as crianças no hospital. As outras crianças perguntavam para onde estavam indo. “Para o céu”, diziam as enfermeiras. E as crianças subiam no caminhão cantando. Acha que não fui bem educada porque sinto pena delas?

- Eram vida inúteis. Foi treinada para ser enfermeira. Viu pessoas mentalmente doentes.

- Sim, por isso eu sei. Ninguém escapa do julgamento divino. Ninguém sabe o que passa na mente de um deficiente mental. Quanta sabedoria pode vir do sofrimento. Toda vida é preciosa.

- Deve entender que nasceu uma nova era. O que diz não tem nada a ver com a realidade.

- É claro que tem. Com decência, moral e Deus.

- Deus? Deus não existe. Não é verdade que confiou no seu irmão, que acha certo o que ele fez? Que você participou disso. Não devemos por isso no relatório.

- Não, porque é errado.

- Tenho um filho um ano mais novo do que você. Ele já teve ideias malucas. Hoje está na frente oriental porque sabe que tem um dever a cumprir.

- Acredita na vitória final?

- Se tivesse considerado tudo não teria se envolvido nisto. Sua vida está em jogo. A título de protocolo pergunto a você: Após nossas conversas considera que as ações com seu irmão podem ser vistas como um crime contra a sociedade e, em particular, contra as tropas em combate e que devem ser severamente condenadas?

- Não, do meu ponto de vista.

- Admitindo o seu erro não estaria traindo seu irmão.

- Mas trairia o meu ideal. Eu faria tudo de novo. Você está errado, não eu. Ainda acredito que agi no melhor interesse meu povo. Não me arrependo. Aceitarei as consequências.

Impressiona a coragem da jovem estudante diante do investigador da Gestapo. Temas como a liberdade de consciência e o direito à vida, diante de um regime totalitário e promotor da eugenia, são colocados em pauta nesse diálogo, que pode ser um retrato de tantas discussões em rodas de colegas sobre questões da atualidade como as leis do aborto, da homofobia ou da eutanásia, que se procuram impor à sociedade.

O grupo de resistência sem violência de Sophie Scholl, chamado “Rosa Branca”, do qual participava também seu irmão (executado com ela), poderia parecer uma “gota no oceano”, mas representou muito: o próprio Robert Mohr, como diria posteriormente, ficou muito impressionado com a firmeza de convicções da jovem, sua força argumentativa e exemplo de fortaleza diante da perspectiva do sofrimento e da morte. Sua vida e palavras, ainda que no pequeno ambiente de seus colegas da Universidade de Munique, dos agentes que a prenderam e interrogaram, e da Corte Popular que a julgou, condenou e executou no mesmo dia (!!!), impactaram em todos, com maior ou menor profundidade, conforme a abertura maior ou menor à força dos argumentos e da razão.

No final do filme se conta que cópias do manifesto que Sophie e seu irmão haviam distribuído na Universidade de Munique foram repassadas para a Escandinávia e, dali para a Inglaterra, onde os Aliados imprimiram milhões de cópias do “Manifesto dos Estudantes de Munique” e despejaram de avião sobre as cidades alemãs.

Esse exemplo de coerência entre convicções e vida, capaz de transformar o meio em que vivemos, não é e nem será nunca isolado. O potencial de “sinergia” que pode gerar alguém que, não concordando com a pressão social rumo ao hedonismo moral, fisiologismo político e egocentrismo cultural, tenha a coragem de dizer que não segue essa cartilha, faz com que muitos repensem seus valores.

No fundo, cada um de nós poderia escrever, mas num sentido diametralmente oposto à cartilha de Hitler, o seu “Mein Kampf” (Minha Luta), contando suas lutas interiores para vencer seus defeitos e enfrentar um ambiente hostil aos ideais de virtude e valores morais, sonhando com um mundo mais saudável, solidário e justo. Na prática, aqueles que não renunciam a esses ideais e vão transformando suas existências num serviço generoso ao próximo estão escrevendo esse livro com suas vidas.

Em suma, com a virtude da coragem e com a virtude da temperança estaremos em condições de arrostar o ambiente adverso à moral e ao direito, seguindo a canção de Milton Nascimento, sendo, pelo exemplo de conduta reta e honesta, esperança e alento para aqueles que também não se sentem bem num ambiente corrompido e corruptor e desejam uma mudança de ares.

Seres Fantásticos na Literatura – Lobisomens

De onde vêm as narrativas sobre Lobisomens? E a sua ligação com a Lua e a Prata? Haverá comprovação científica para as histórias de homens transformados em lobos?

Os inúmeros livros e filmes que apresentam os lobisomens como personagens refletem a universalidade desse ser fantástico, pois no folclore mundial são incontáveis as narrativas sobre o assunto. Busquei alguns subsídios para entender essa criatura na obra do maior especialista brasileiro em folclore: Luís da Câmara Cascudo. Segundo Cascudo, o lobisomem é um motivo mítico universal. Foi citado por Plínio o Antigo, Heródoto, Pompônio Mela, Plauto, Varrão, Santo Agostinho, Isócrates, Ovídio, Petrônio e vários outros escritores.

Note-se que tais autores não encaravam o lobisomem como um personagem literário, mas como uma realidade – um ser fantástico, porém real. Na Grécia chamavam-no licantropo; em Roma, versiopélio; para os eslavos, volkdlack; para os saxões, werwolf ou werewolf; para os germanos, wahwolf; para os nórdicos, hamramr; em russo obototen; em francês, loup-garou; em espanhol, lubizon ou lobinsón. Consta que existem ainda versões na China e no Japão, e que “na África existe a tradição sagrada das transformações animais, homens-lobos, homens-tigres, homens-hienas etc.[1]

Até existe, na realidade, uma doença chamada Hipertricose Lanuginosa Congênita, conhecida como a Síndrome do Lobisomem. As pessoas que sofrem dessa doença acabam cobertas por pelos, com exceção das palmas das mãos e dos pés. Há uma lanugem que aparece nos recém nascidos e deveria desaparecer normalmente pouco antes do nascimento. Mas algumas pessoas não a perdem, e são então diagnosticadas com hipertricose, tornando-se parecidas aos lobisomens da ficção: um pelo fino e felpudo cresce sobre quase todo seu corpo.

Consta que foram registrados apenas 50 casos, no mundo, de hipertricose congênita. Existe ainda a Hipertricose Adquirida, quando o crescimento de pêlos se dá após o nascimento. Para tal condição os pesquisadores ainda não encontraram cura, apenas desenvolveram tratamentos com técnicas de depilação que utilizam laser e eletrólise.

Como virar Lobisomem

Mas esse tipo de doença não tem nada a ver com os contos populares, nos quais o lobisomem é descrito como um metamorfo ou transmorfo: um ser humano que se transforma em animal. A autora britânica J. K. Rowling o chamaria de uma variação do Animago… embora na série Harry Potter criaturas como o lobisomem Remus Lupin sejam mais temidas que admiradas. E nessa série de livros parece que a transformação pode atacar tanto homens como mulheres, enquanto nas histórias do povo quase sempre o licantropo pertence ao sexo masculino.

Voltando ao folclore, explica-se que a transformação ocorre por estar o homem sujeito a um fado, uma maldição, um castigo. Há inúmeras explicações para seu surgimento. Ele pode ser filho de uma união incestuosa (pai e filha, mãe e filho, irmão e irmã, ou filho de compadre com comadre, de padrinho com afilhada). Pode ser o primeiro filho homem após uma série de sete filhas. Em certas regiões da Rússia, dizia-se que quem nascesse no dia 24 de dezembro tornar-se-ia lobisomem; na França e na Alemanha havia a tradição de que, se alguém dormisse ao relento numa noite de Lua Cheia, sofreria a transformação. E há, é claro, a ideia da passagem do fado pela contaminação do sangue: o homem mordido por lobisomem também se torna um, e se alguém se sujar com seu sangue pode ser contaminado.

Em algumas narrativas oriundas do interior do Brasil, ainda segundo Cascudo, a metamorfose ocorreria às sextas-feiras, da meianoite às duas horas. Outras histórias dizem que, se quisesse virar um bicho sanguinário, a pessoa precisaria, na noite de quinta para sexta-feira, procurar uma encruzilhada onde os animais tivessem o costume de espojar-se; em seguida, tirar as roupas e esfregar-se no chão de terra como as bestas. E a transformação se faria…

Acreditava-se, na Idade Média, que as pessoas acusadas de ser lobisomens poderiam ser desmascaradas cortando-se sua pele, pois o pelo do lobo apareceria sob a ferida. Há narrativas de lobisomens que devoravam corpos recém-enterrados, e daqueles que, nas noites de Lua Cheia, caçavam as crianças que encontrassem para se alimentar. Outras dão conta de que a metamorfose era obra de feiticeiros malignos em rituais demoníacos. Havia até quem jurasse que pessoas excomungadas pela Igreja Católica se transformariam em lobisomens.

O Ciclo do Noivo Animal

Podemos traçar o caminho que tais narrativas fizeram, vindas dos mitos, até chegar ao folclore e, dele, à literatura. Na mitologia de várias regiões há histórias antiquíssimas que falam de homens ou mulheres transformados em animais. E, em muitas delas, a magia que causou a transformação e a prisão na animalidade é desfeita apenas quando o personagem principal encontra um parceiro do sexo oposto.

Essas histórias foram agrupadas num corpo de estudos que se convencionou chamar de Ciclo do noivo animal. Sua versão mais ancestral parece ser o mito grego Eros e Psichê, conhecido através de um texto de Apuleius, filósofo e escritor nascido no século II em uma colônia romana na Numídia (hoje Algéria). Nessa história temos vários dos motivos que depois aparecerão em contos de fadas: a união de um homem (ou mulher) transformado ou disfarçado de animal com uma jovem (ou rapaz); várias provas pelas quais ele, ela, ou ambos devem passar; e a redenção de um deles ou de ambos, através da coragem e do amor do parceiro(a).

Algumas histórias populares pertencentes a esse ciclo são bastante conhecidas. Temos, dos Irmãos Grimm, Rosa Branca e Rosa Vermelha, na qual um urso pede abrigo durante o inverno severo na casa da floresta em que moram duas irmãs e sua mãe. Depois de várias peripécias com um anão maligno, o urso se transforma em um belo príncipe e se casa com uma das irmãs. Também recontada por Grimm, O Rei sapo traz um sapo nojento a quem a Princesa deve convidar para comer em sua mesa e dormir em sua cama, em agradecimento por ele ter recuperado sua bola de ouro caída em um poço. Naturalmente, o sapo se desencanta pela ação da princesa, revelando-se humano, e um Rei.

Na história francesa A Bela e a Fera, a jovem Bela é obrigada a ir morar num castelo habitado por uma fera repugnante e ameaçadora; a princípio ela o detesta, mas aos poucos vai aprendendo a amá-lo e, quando Fera está prestes a morrer, Bela o salva demonstrando seu amor. Ele então se desencanta e retoma a forma humana

Um conto romeno chamado O Porco encantado tem como protagonista a filha mais nova de um rei, destinada a se casar com um porco. Destino tão ingrato é amenizado pelo fato de que, à noite, o porco se transforma em homem. Porém, ao tentar desfazer a transformação com a ajuda de uma feiticeira, a moça só consegue perdê-lo. E terá de passar por inúmeras provas, sendo a última terrível, para reencontrá-lo e tê-lo como marido na forma humana.

No conto norueguês A Leste do Sol e Oeste da Lua, encontramos os mesmos elementos, embora o marido a quem a protagonista é prometida seja um urso branco; e sua transformação em homem é complicada, pois ele cai sob o poder de um grupo de trolls e só depois de muito sacrifício, e da ajuda dos quatro Ventos, a moça o encontra e casa-se com ele.

Dizem os estudiosos que, na verdade, todas essas histórias falam sobre a jornada do ser em busca de sua humanidade, da necessidade que toda pessoa tem de alcançar a maturidade. Apenas quando o homem e a mulher se desligam do mundo infantil e lutam por seu crescimento como pessoas, é que poderão ser felizes, completos – a completude simbolizada pelo encontro com o parceiro ideal. Mas recuperar a humanidade, quando se está preso na animalidade, não é fácil. Os heróis das histórias, sejam homens ou mulheres, devem passar por muitos sacrifícios e provar sua maturidade através do sofrimento, para obter a transformação. [2]

Mitologia Lupina

Na cultura Greco-Romana houve mitos e rituais envolvendo homens-lobo, como a história de Licaon, da qual encontramos uma versão nas Metamorfoses de Ovídio. [3]

Licaon (Grécia)

Zeus, o senhor do Olimpo, às vezes descia do monte em que viviam os deuses e percorria a terra disfarçado de mortal. Numa dessas viagens, horrorizado ao ver como o mal se disseminava entre os homens, ele parou na região da Arcádia. Anoitecia, e o mais poderoso dos deuses pediu abrigo no palácio do governante: Licaon, que era tido como um tirano infame. O povo da Arcádia sabia que um deus estava entre eles, pois Zeus não ocultou sua natureza divina. Porém Licaon, o rei, duvidou e zombou das reverências e preces que seu povo fazia ao visitante. Rindo, declarou:

– Descobrirei se este é mesmo um deus ou um mero mortal!

O rei planejou naquela noite matar seu hóspede, quando ele adormecesse. Mas antes preparou-lhe um jantar macabro: tomou um prisioneiro, cortou sua garganta, retalhou sua carne ainda quente e mandou que seus pedaços fossem cozidos e assados.

Ao ver a carne humana servida diante dele como uma iguaria, Zeus se enfureceu. Com um golpe na mesa do jantar, atraiu um raio que trouxe a maldição ao rei tirano e a todos os seus descendentes!

Licaon tentou falar, mas não conseguiu. Tentou fugir da ira de Zeus e disparou a correr, deixando o palácio e ganhando os campos. Conforme corria, sua boca espumava, seus braços se tornaram pernas, suas mãos viraram patas. Ele chegou ao local em que pastava um rebanho de ovelhas e caiu sobre elas com uma fúria bestial; só pensava em matar e destroçar.

Era ainda o mesmo Licaon, mas não era mais um homem.

Transformara-se em lobo.

Outra história interessante, e que teria dado origem a rituais que hoje nos parecem estranhos, é a que veio da lenda sobre a fundação de Roma.

Luperci Sodalis – os Amigos do Lobo (Roma)

Conta-se que a cidade de Roma nasceu da disputa entre dois irmãos. O trono de Alba-a-Grande, capital das terras italianas ocupadas pela linhagem de Enéias, de Tróia, era disputado pelos descendentes de seu duodécimo rei: Amúlio e Numitor. Amúlio se apoderou do reino assegurando que o irmão não tivesse descendentes: matou o filho dele e obrigou Réia Sílvia, a filha de Numitor, a se tornar uma Vestal. Como sacerdotisa de Vesta, ela seria obrigada a permanecer virgem e não deixaria herdeiros ao trono.

O deus Marte, porém, engravidou Réia Sílvia, que deu à luz dois meninos. O rei Amúlio, descobrindo, mandou prender a mãe e jogar as crianças no rio Tibre. Aconteceu, contudo, que as águas do rio transbordaram e certas partes do leito secaram, deixando os bebês num terreno seco e cercado pela mata selvagem. Ora, uma loba que passava ouviu o choro de ambos. Diz a tradição que ela dera à luz mas perdera os filhotes; carregou os gêmeos para uma caverna próxima e amamentou-os.

Fáustolo, um pastor da região, seguiu a loba e encontrou os bebês. Então levou os gêmeos para sua esposa, que os criou. Receberam os nomes de Rômulo e Remo. Quando adultos, descobriram de quem descendiam, libertaram sua mãe e restituíram o trono de seu avô, Numitor. Na região em que foram encontrados pela Loba, fundaram uma cidade que receberia o nome derivado de um deles: Roma.

Um mito romano dizia que a Loba fora na verdade o deus Pã transformado em animal; e julgava-se que certa gruta, nas colinas que cercavam Roma, teria sido o local em que Rômulo e Remo foram amamentados. Sacerdotes romanos passaram a realizar rituais nessa gruta e em suas cercanias. Eles se autodenominavam luperci sodalis, os amigos do lobo, e ali realizavam cerimônias de purificação. Em certa época do ano, sacrificavam lobos ou cães, vestiam a pele ainda sangrenta dos animais e entravam em transe. Segundo a tradição, tornavam-se lobos, ou homens-lobos.

O povo acorria aos rituais, chamados Lupercalia ou Lupercais; eram festas em honra ao deus Pã. Os sacerdotes, sob as peles de lobos e ungidos com sangue, uivavam. Munidos de chicotes, com eles fustigavam os fiéis, que através do açoite se sentiam purificados. Essas práticas duraram séculos, e considera-se que as Lupercais foram uma das origens do Carnaval. Só deixaram de ser realizadas no ano 494, quando um Papa as proibiu por serem ritos pagãos. Mas elas espalharam a crença de que era possível homens se transformarem em lobos.

A Lua cheia e a Prata

Já as referências à ocorrência da transformação com a chegada da Lua Cheia vêm de textos medievais, como os do cronista católico inglês do século XIII, Gervase de Tilbury, que escreveu um Descriptio totius orbis, espécie de miscelânea contendo narrativas diversas que na época eram consideradas “científicas”, e somente mais tarde seriam vistas como folclóricas. Desde que as histórias de Tilbury se tornaram populares no século XIII, então, a maioria das narrativas associa o lobisomem à Lua. Mas por que associá-lo à prata?

Algumas tradições dizem que as balas de prata são a única coisa que pode matar um lobisomem. A primeira referência a esse método parece ter vindo das histórias, aparentemente reais, das Bestas de Gévaudan, na França do século XVIII. Consta que eram lobisomens que teriam matado dezenas de pessoas. O escritor Chevalley, ao contar sobre Jean Chastel, um dos matadores de tais bestas, declarou ter fabricado balas de prata com as quais conseguiu matar uma delas. Parece ser a primeira referência a esse metal como letal para os metamorfos.

Porém as tradições sobre a prata sugerem que não é o mero contato com ela que é nocivo ao lobisomem, e sim o poder simbólico do metal, associado tradicionalmente à Lua. Objetos de prata eram oferecidos à deusa grega Ártemis, mais tarde chamada pelos romanos Diana, senhora da Lua. E assim como o poder da prata estaria na Lua, que comanda a transformação dos lobisomens, o poder das velas de cera estaria na consagração que elas teriam sofrido em um templo religioso.

Isso, sim, o elemento sagrado, é que seria capaz de afetar uma maldição tão profunda quanto a que infecta os homens-lobo. Talvez seja por isso que, nas tradições da Península Ibérica, que trouxeram os mitos do licantropo ao Brasil, existe uma forte conexão com o Cristianismo. É dito que, para fazer efeito contra esses seres, uma arma de fogo deveria ter suas balas untadas com cera. Porém não pode ser cera comum, e sim a cera de uma vela benta. Tais velas podem ter sido consagradas de várias formas: ter recebido a bênção de um sacerdote, terem sido acesas dentro de um templo, ou ter ardido durante a missa. Cascudo nos fala da necessidade de a vela estar presente durante três missas ou um rito especial, como a Missa do Galo, na noite de Natal.

Seja qual for a origem da cera, as narrativas indicam que, assim como no caso da prata, sua força não está na vela e sim na ligação com o ritual sagrado.

Entre os autores modernos, há visões diferentes. Em The Graveyard book, de Neil Gaiman, por exemplo, encontramos a afirmação de que os lobisomens são benignos. Chamados os Cães de caça de Deus, eles seriam seres guardiães do Bem e perseguidores dos que praticam o Mal. [4] Na obra da polêmica Stephanie Meyer, em Lua Nova o jovem Jacob se transforma em lobo pois a capacidade de metamorfose faz parte de sua herança indígena, não tem nada a ver com um fado ou castigo. E, para quem quer ficção fantástica genuinamente brasileira, podemos indicar nosso próprio Sangue de Lobo, que tem como protagonista um licantropo em busca de cura para a maldição da Lua Cheia…[5]

A Reversão da maldição, ou: é possível desencantar um lobisomem?

Se, na série Harry Potter a maldição que persegue Remus Lupin só termina com sua morte,[6] as narrativas do folclore brasileiro propõem que a maldição dos homens transformados em lobo não é irreversível, pode ser desfeita. Mais uma vez citando Câmara Cascudo, descobrimos que para dar fim à sina dos lobisomens, é preciso feri-los, fazer seu sangue correr. Note-se que Cascudo fala em sangramento, não em lobicídio – não se cogita matar o lobisomem, pois imagina-se que a morte do lobo seria também a morte do homem.

Além da exigência de “correr sangue”, existem ainda as sugestões de que faz parte da sina do licantropo a corrida, a peregrinação. A maldição lançada (seja pelo destino, pelo demônio ou por seus próprios pecados) traria consigo a obrigação de o homem-lobo sair do lugar em da transfiguração e percorrer sete locais, voltando ao começo da corrida para readquirir a forma humana.

Algumas fontes dizem que a corrida aos sete lugares deve começar numa sexta-feira à meia noite e terminar às duas horas da manhã. Outras dizem que na verdade são sete vezes sete locais: sete cemitérios, sete igrejas, sete vilas acasteladas, sete partidas do mundo, sete outeiros, sete encruzilhadas, sete espojadouros.

O “7” como número mágico ou sagrado é comum em muitas culturas. A razão de o lobisomem ter de peregrinar por sete locais é, contudo, inexplicável. Talvez faça isso para fugir dos cachorros que, dizem as histórias, o perseguem. Talvez a corrida diminua a força da Lua Cheia sobre o homem condenado a ser lobo, ou talvez a peregrinação por locais sagrados (igrejas, cemitérios) seja importante para a quebra do encantamento. Uma coisa é evidente: o local original da transformação em lobo deve ser o ponto de partida do peregrino.

O que concluímos? Que o fascínio dos leitores pelas histórias de maldições, transformações, vampiros, lobisomens e outros seres fantásticos é muito antiga. Sua razão pode estar na busca das pessoas pelo encontro com o parceiro ideal, como ocorre no ciclo do Noivo Animal. Ou no fascínio pelo nosso próprio sangue, líquido misterioso que é o fluido da vida e que causa um misto de repulsa e atração… Seja como for, as histórias de lobisomens estão aí, perpetuando-se, emocionando e encantando – no bom sentido! – leitores e ouvintes.

*


Luís da Câmara Cascudo. Dicionário do Folclore Brasileiro. Ed. …

[2] Veja-se a esse respeito A Psicanálise dos Contos de Fadas, de Bruno Bettelheim. Ed. Paz e Terra.

[3] Ovídio. Metamorfoses. Ed. Madras.

[4] Neil Gaiman. O Livro do Cemitério. Ed. Rocco.

[5] Helena Gomes e Rosana Rios. Sangue de Lobo. Ed. DCL / Farol Literário.  Veja também p Blog do livro: http://sangue-de-lobo.blogspot.com/

[6] J. K. Rowling. Harry Potter e as Relíquias da Morte. Ed. Rocco.

Mundos Subterrâneos na Literatura Fantástica

A Literatura é um produto cultural nascido do gênero milenar que chamamos Mitos. As narrativas míticas, ligadas às crenças de cada povo e às suas maneiras de ver o mundo, trazem relatos estruturados em torno de arquétipos – modelos ideais que existem desde sempre e permanecem no inconsciente humano. Os mitos foram criados por autores anônimos e serviram a vários propósitos. Sua forma – a narrativa oral – e seu conteúdo – histórias de deuses e heróis, tentando explicar as forças da Natureza e a ação do homem sobre ela – geraram, através dos séculos, inúmeros sucedâneos, como a Literatura sacra, a Profana, a Poesia, o Drama… Conforme o tempo passava, as histórias religiosas foram perdendo seu valor sagrado, porém seus elementos e motivos permaneceram em contos populares, ajudando a estruturar as diversas tradições dos diversos povos. Vêm daí as histórias folclóricas, como os contos de fadas que, assim como a mitologia, tornar-se-iam matéria-prima para a Literatura Fantástica, gênero amplo que inclui a Literatura de Fantasia, a Gótica ou de Horror e até a Ficção Científica, sem esquecermos sua influência na Literatura Infantil e Juvenil.

Em toda essa ficção – oral, escrita ou representada – existe uma estrutura comum sobre a qual é tecida a efabulação. Tal estrutura muito frequentemente pertence àquela que foi chamada a Jornada do Herói.

O herói é o protagonista da história, que, do começo ao fim da obra, percorre certa trajetória que implica em aprendizado, crescimento, amadurecimento. (Na verdade, se analisarmos o grande fascínio que os jogos eletrônicos – pinballs, videogames, jogos de computadores, simuladores etc. – exercem sobre crianças e jovens, veremos que, além de serem Role Playing Games simplificados, eles trabalham os elementos essenciais da ficção, suprindo uma lacuna que a falta do hábito da leitura causou em várias gerações. Através dos jogos eletrônicos o jogador vivencia uma trajetória de personagem, passando por provas e ameaças até obter sucesso numa missão. E o jovem neles encontra ressonância para a necessidade de ficção que lhe alimentará o imaginário).

A psicologia Junguiana nos diz que os personagens das histórias costumam pertencer aos arquétipos que citamos, tornando-se modelos, matrizes de comportamento. E encontrar funções arquetípicas nas histórias que ouvimos ou lemos teria, segundo os psicólogos, ação terapêutica, ajudando-nos a compreender nosso próprio psiquismo num nível inconsciente.

Voltando aos mitos, os mais antigos são geralmente os Mitos Cosmogônicos: histórias que narram a criação do universo de acordo com cada religião ou crença. Há também os Mitos de Criação, que contam como surgiram todas as coisas que existem sobre a Terra. Os Mitos Etiológicos explicam a razão de tudo: como cada ser se tornou o que é hoje. E nos Mitos Heróicos, figuras de heróis – e mesmo antepassados do povo gerador da narrativa em questão – passam por aventuras difíceis: devem salvar princesas, enfrentar monstros terríveis ou inimigos poderosos, punir tiranos, fundar cidades, ensinar segredos e técnicas ao povo de sua terra. Algumas civilizações possuem Mitos Escatológicos, que contam o que acontecerá no fim do mundo, quando sua civilização (ou o mundo, ou o universo) declinar e morrer.

Muitos desses mitos, sem deixar de serem cosmogônicos, etiológicos ou heróicos, pertencem também à variante chamada Mitos de Descida. Aqui temos heróis que descem aos mundos inferiores, tradicionalmente considerados terras onde vivem as almas dos mortos.

Ora, como expressão de tradições sagradas, os mitos estão associados a uma ação religiosa (considerando a palavra religião oriunda do latim religare): o ato de contá-los, vivenciá-los, tem o condão de religar, reconectar o homem com o sagrado. Essa “religação” e os poderes que ela confere aparecem nas narrativas sobre êxtases religiosos – que vão desde o transe da Pítia nos templos de Apolo, absorvendo a fumaça de ervas sagradas, passando pelo êxtase dos santos medievais que recebem a Graça após práticas ascéticas, até fiéis que tomam o Santo Daime ou monges que ingressam no Nirvana através da meditação. Também eles estão descendo a um mundo subterrâneo, deixando a superfície da mente para penetrar em suas profundezas – o inconsciente, ou talvez um estágio diferente de existência.

Seja qual for a origem do mito de descida, ele está inserido na experiência da busca do sagrado ou na iniciação aos mistérios, que é obtida pelo indivíduo após a passagem por uma série de provas. Essa pode também ser uma interpretação do chamado monomito, na qual aparece claramente a estrutura da Jornada do Herói. O personagem:

  1. deixa uma situação estável;
  2. enfrenta um conflito;
  3. é conduzido a várias etapas onde é provado, testado (sendo algumas das provas enfrentar suas próprias fraquezas, e em especial o medo da morte – pelo confronto, às vezes literal, com a morte em si). Essas provas supõem a passagem da escuridão, do perigo e do caos para a luz, a ordem, o cosmos;
  4. o herói vence o conflito, as provas, os monstros (ou não);
  5. retorna ao mundo que deixou e ensina o que aprendeu.

Essa trajetória pode ser ainda uma metáfora para todas as dificuldades pelas quais passa cada pessoa ao longo de sua existência, até conseguir um despertar espiritual – e, assim, atingir um novo modo de vida a que os autores esotéricos chamam de “homem novo”.

A descida, então, é uma das etapas atravessadas por heróis e heroínas de milhares de contos, novelas e romances da literatura de todas as partes do mundo. Temos na mitologia vários exemplos. A história da Suméria sobre a Descida de Innana ao Aralu; o herói Polinésio Hutu, jovem maori que desce às terras subterrâneas em busca da alma da princesa Pare; os vários mitos gregos incluem a descida ao Hades. Orfeu vai aos domínios do deus da morte e atravessa o rio Aqueronte em busca da sombra de sua amada Eurídice. Psychê efetua a descida à terra dos mortos forçada pela deusa Afrodite, para obter de Perséfone, numa caixinha, um pouco de sua beleza. E Héracles o faz no seu décimo trabalho, obrigado pelo rei Euristeu a ir capturar o cão-guarda dos infernos, Cérbero, o que ele só pode fazer após se submeter aos Mistérios de Elêusis – e obter a purificação necessária para ir às profundezas e pedir permissão de Hades em pessoa, para capturar o monstro.

Eis o resumo da história de Hutu, vinda da mitologia do povo Maori da Polinésia.

A MORADA DOS MORTOS

Hutu era um rapaz hábil no manejo do dardo. Um dia, lançou seu dardo na aldeia e ele parou diante da casa de uma jovem nobre chamada Pare. A moça se interessou por ele e abriu sua porta, convidando-o a entrar. Mas Hutu, orgulhoso, recusou-se e foi embora. Humilhada, Pare mandou que os criados arrumassem a casa e saíssem; então, chorou muito e, quando não tinha mais lágrimas, enforcou-se. Morreu, e sua alma seguiu para as Moradas dos Mortos.

O povo local começou a murmurar contra Hutu, culpando-o pela morte da princesa. Ele teve remorsos e decidiu ir até as terras em que viviam os mortos para buscar a alma de Pare. Aprendeu as palavras rituais dos sacerdotes e pôs-se a caminho. Na estrada, encontrou Hine-Nui-Te-Po, a Grande Senhora da Noite, e perguntou-lhe como chegar ao Mundo Subterrâneo. Mal humorada, ela indicou uma trilha, mas ele percebeu que aquele era o caminho dos cães para o outro mundo. Hutu voltou e fez uma oferenda para obter da deusa o caminho certo, o dos Homens: daria a ela sua clava, feita de uma pedra rara. Hine-Nui-Te-Po gostou do presente e ensinou a Hutu o caminho verdadeiro do Mundo Subterrâneo; explicou que ele deveria ter cuidado com o vento que sopraria no buraco pelo qual deveria descer, e que não poderia comer nada naquele mundo, se não quisesse ficar preso para sempre.

Deu a ele, para alimentar-se enquanto lá estivesse, raízes de samambaia cozidas.

Hutu partiu pelo caminho ensinado pela Grande Senhora da Noite e encontrou o buraco que levava ao Mundo Subterrâneo. Desceu, tomando cuidado com os ventos, e ao ver-se lá embaixo começou a procurar pela alma de Pare. Os outros mortos disseram que ela estava lá, mas não conseguiam encontrá-la porque Pare ainda estava envergonhada pelo que acontecera, e escondera-se. O rapaz tentou atraí-la para fora da aldeia, e desafiou os guerreiros mortos para uma competição. Eles aceitaram, e fizeram concursos de arremesso de bola e dardo, que atraíram muita gente. Mas a jovem não apareceu.

Hutu criou um novo desafio: amarrou uma corda a uma árvore e, com ajuda dos mortos, vergou-a até a copa chegar ao chão. Subiu na copa com um rapaz em seus ombros e mandou que soltassem a corda. Hutu e o rapaz foram arremessados a grande distância; todos aplaudiram muito. A algazarra atraiu Pare para fora de seu esconderijo. Ela também quis participar da competição; Hutu subiu à copa da árvore, pedindo-lhe que subisse em seus ombros. Quando a corda foi solta, Hutu e Pare foram arremessados a tal distância que a corda se enroscou nas raízes próximas ao buraco para o mundo lá em cima. Levando-a nos ombros, ele subiu pela corda. De volta ao Mundo da Luz, uniu sua alma com seu corpo e ela reviveu.

Tal processo arquetípico de ida ao mundo dos mortos corresponde à chamada morte iniciática: o herói, como os iniciados nos mistérios antigos, deve morrer para a vida profana, com o objetivo de renascer para uma realidade sagrada. A origem dessa jornada está em ritos ancestrais que abordam o mistério eterno da regeneração espiritual; evoluiu de povos tribais para sociedades secretas que existem até hoje, indo da cultura totêmica à cultura histórica.

Os ritos de iniciação, assim como sua contrapartida escrita, os mitos, mantiveram o caráter de provas sucessivas: reclusão, provas, torturas, morte simbólica e a volta à superfície, ou seja, a ressurreição, o renascimento.

Há muitos, muitos outros mitos nesse ciclo. Temos ainda as versões em que o herói é engolido por um monstro, como Jonas no ventre da baleia, o que também configura uma descida aos reinos da morte. Reencontramos esse motivo quando os personagens são devorados e ressurgem, ou quando devem deixar suas terras para ir a reinos mágicos e perigosos, onde podem morrer – às vezes literalmente – antes de voltar à vida.

Um dos mitos citados acima e que melhor exploram a viagem da alma é a história de Eros e Psiquê, pertencente à mitologia grega – não por acaso, Eros significa “amor”, e Psiquê significa “alma”…

O AMOR E A ALMA

Houve um rei que teve três filhas. A mais nova, Psiquê, era tão bela que sua beleza rivalizava com a da deusa Afrodite, e o povo a reverenciava. A deusa irou-se, pois iam cada vez menos pessoas a seus templos prestar-lhe sacrifícios. Como ousavam comparar sua beleza à de uma mortal? Decidiu castigar a moça e pediu que seu filho Eros a fizesse apaixonar-se pelo monstro mais horrendo da terra. O filho de Afrodite era um belo jovem. Com suas setas alvejava homens e mulheres, instilando-lhes o sentimento do amor. Concordou em ajudar a mãe a se vingar daquela que a ofendera; mas não pôde. Uma versão da história diz que, ao ver a beleza de Psiquê, Eros se apaixonou; outra diz que ele se feriu com uma de suas setas.

O pai de Psiquê decidiu perguntar ao oráculo de Apolo, deus da Profecia, com quem Psiquê deveria casar-se, pois, apesar de reverenciada, ela vivia solitária. A resposta do deus foi uma sentença de morte: Psiquê estava destinada a ser a esposa de um monstro. Deveria vestir uma mortalha e ser levada à mais alta rocha no topo de um monte. De lá o monstro a levaria. O rei, a rainha e as irmãs choraram pelo destino da jovem. Mas Psiquê seguiu resignada junto a um cortejo fúnebre para o monte. E lá, sozinha, aguardou a morte.

Porém Zefiro, o deus-vento, a arrebatou e levou até uma floresta junto a um palácio. Entrando, a moça encontrou riquezas que jamais imaginara; vozes misteriosas explicaram que tudo aquilo lhe pertencia. Ela se banhou, vestiu-se e tomou as refeições ali servidas. À noite, no quarto, aproximou-se um homem a quem ela não podia ver na escuridão: era seu marido. Ele passou a dormir com ela todas as noites, e ia embora antes de a manhã nascer. Disse-lhe que correria perigo se deixasse o palácio, e que deveria prometer amá-lo sem jamais ver seu rosto. Psiquê prometeu, pois amava o esposo e sentia-se perfeitamente feliz.

Porém seus pais a julgavam morta e suas irmãs iam ao pé do monte para chorar por ela. A princípio, Psiquê não se preocupou com a família. Mas quis evitar o desespero das irmãs. Suplicou ao esposo que a deixasse vê-las, e ele permitiu; quando elas vieram à montanha, Zéfiro as trouxe à sua presença; ela revelou que estava viva e as levou ao palácio.

As irmãs, com inveja, envenenaram sua felicidade. O marido invisível devia ser um monstro; que motivo teria para proibir a esposa de vê-lo? Aconselharam-na a esperar que ele dormisse e fosse espioná-lo com uma lamparina. Se realmente fosse um monstro, deveria ser morto. Psichê resolveu tirar a dúvida. À noite, pegou uma faca e acendeu uma lamparina.

Mas, ao iluminar o esposo adormecido, não encontrou um monstro, e sim o deus do amor! Seu esposo era Eros. Acidentalmente, Psiquê deixou pingar gotas de óleo da lamparina no ombro dele. Eros acordou com a dor da queimadura e a repreendeu por quebrar a promessa. Não poderiam mais ficar juntos… E partiu, para curar a ferida junto aos deuses.

Psiquê se desesperou. Saiu pelo mundo em busca do esposo, sem saber como ser perdoada. Pediu a ajuda de Deméter e Hera, mas elas não quiseram desagradar Afrodite. Depois de muito vagar, Psiquê decidiu enfrentar a deusa de uma vez e foi ao seu templo. Afrodite a recebeu com ódio e disse que Eros estava ainda ferido pela queimadura; entregou Psiquê a suas servas, a Mágoa e a Tristeza, para ser açoitada. Depois, propôs-lhe tarefas impossíveis: separar um monte de grãos misturados, tosquiar um bando de carneiros selvagens, recolher água na fonte de um alto penhasco guardado por dragões.

Por fim, ordenou-lhe que descesse ao Hades para buscar uma caixa contendo um pouco da beleza da Senhora do Hades, Perséfone. Para cumprir essas tarefas, Psiquê teve a ajuda dos seres da natureza. Ficou, porém, presa no mundo subterrâneo, pois sua curiosidade a levou a abrir a caixinha de Perséfone. Mas Eros se recuperou do ferimento e foi buscá-la no Hades. Mandou-a prostrar-se diante de Afrodite e dar conta da última tarefa; enquanto isso pediu a ajuda de Zeus, o maior dos deuses. Este decidiu que Psiquê e Eros deveriam unir-se. Deu à moça uma bebida que a tornou imortal, e o casal foi recompensado com a união eterna.

Dos mitos e do folclore, o motivo da descida aos mundos subterrâneos chegou à literatura.  No século XIX, o escritor Júlio Verne produziu o maior clássico que lida com essa descida, embora ela seja literal, não simbólica: Viagem ao Centro da Terra.

O francês Jules Verne (1828-1905) tornou-se um precursor da ficção científica ao escrever novelas sobre relatos de viagens, abordando Geografia, História, Astronomia, Biologia, Geologia e outras ciências. Embora não lide exatamente com o fantástico, ele abriu precedentes para os autores do gênero, pois em seu século o desabrochar da ciência tocava as fronteiras do inimaginável. A Viagem ao Centro da Terra foi publicada em 1864, dois anos após o lançamento de Cinco semanas em Balão, sua primeira novela do subgênero que hoje chamamos Ficção Especulativa, e até sua morte produziu ainda mais 63 livros.

Temos aqui uma história que utiliza a Jornada do Herói: os personagens, o Professor Otto Lidenbrock, seu sobrinho Axel Lidenbrock e o guia Hans Bjelke penetram uma cratera e seguem as pistas deixadas pelo pesquisador Arne Saknussemm, que teria descoberto o caminho para o centro da terra. Passam por muitas dificuldades e encontram um mundo misterioso e insuspeito no fundo da terra…

Encontramos também uma novela precursora das aventuras de RPG – um grupo, embora reduzido, embarca numa demanda e enfrenta desafios e provas, cada personagem utilizando seus atributos para assegurar a sobrevivência do grupo.

Verne trouxe para a Literatura a estrutura dos Mitos de Descida e influenciou muitos autores que, depois dele, escreveram aventuras sobre viagens, não apenas para as profundezas, mas para o espaço ou para regiões misteriosas do planeta.

E até hoje, na Literatura, heróis e heroínas enfrentam esse desafio. Descem ao local que mais temem, aos infernos ou às profundezas (literais ou metafóricas) em busca de conhecimento, amor, tesouros, libertação de seus povos e, às vezes, do encontro consigo mesmos. Nessa demanda, Frodo penetra as terras infernais de Mordor; Sparrowhawk, o Gavião, desce às escuras tumbas de Atuan; Nihal, a meio-elfa da Terra do Vento, entra no sombrio Castelo em que reina o Tirano, destruidor de seu povo; Shadow deixa-se sacrificar na árvore de Wotan e experimenta o gosto da morte; Roland percorre as terras devastadas de MidWorld e abre portas para universos paralelos em busca da Torre Negra…

E nós, leitores, vamos junto com eles. Deixamos que os heróis nos descerrem as portas de tantos mundos terríveis e nos mostrem, com seus sofrimentos e suas provas, como podemos sobreviver e voltar para contar aos outros o que existe lá no fundo…

Leituras sugeridas:

Um Mago de Terramar e As Tumbas de Atuan, Ursula K. LeGuin. São Paulo: Brasiliense.

O Senhor dos Anéis, John R. R. Tolkien. São Paulo: Martins Fontes.

Deuses Americanos, Neil Gaiman. São Paulo: Conrad.

A Torre Negra (7 volumes), Stephen King. Rio de Janeiro: Objetiva

Crônicas do Mundo Emerso (3 volumes), Licia Troisi. Rio de Janeiro: Rocco

Vale 200 – O Senhor dos Anéis em Bluray no Brasil

Esta semana estão lançando o Blu-ray do Senhor dos Anéis aqui no Brasil. O preço é R$200,00, ou melhor R$199,90, para a Trilogia e R$79,90 para Sociedade e Duas Torres e R$69,90 para o Retorno do Rei (por que será que ficou mais barato?). Confesso que morro de curiosidade para ver o filme em alta definição, mas mais uma vez a Warner poderia caprichar mais.

O filme vem numa capinha vagabunda, a mesma arte dos DVD’s, e sem nenhum extra. A coisa vem limpinha, só o filme e olhe lá. Claro que é a versão do cinema, esperar pela Estendida seria loucura!

Quem quiser conferir pode ver aqui.

Por enquanto vou esperar, quem sabe aparece uma versão melhor, uma caixa mais bacana ou a insanidade de lançarem a Estendida.

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Novo livro de Tolkien no Brasil – A Lenda de Sigurd e Gudrún

Não sei se já foi anunciado aqui na Valinor, mas não custa falar de novo. Deu no site da editora Martins Fontes que entre os próximos lançamentos está A lenda de Sigurd e Gudrún. Uma boa notícia para nós leitores brasilieros. O texto do site é o seguinte:

“Muitos anos atrás, J.R.R. Tolkien compôs sua própria versão, agora publicada pela primeira vez, da grande lenda da antiguidade setentrional, em dois poemas estreitamente relacionados, aos quais deu os títulos de A Nova Balada dos Völsungs e A Nova Balada de Gudrún.

Na Balada dos Völsungs é contada a linhagem do grande herói Sigurd, matador de Fáfnir, o mais celebrado dos dragões, cujo tesouro ele tomou para si; de como despertou a valquíria Brynhild, que dormia cercada por uma parede de fogo, e de como foram prometidos um para o outro; e de sua chegada à corte dos grandes príncipes chamados Niflungs (ou nibelungos), com quem contraiu fraternidade de sangue. Nessa corte nasceu grande amor, mas também grande ódio, provocado pelo poder da feiticeira, mãe dos Niflungs, habilidosa nas artes da magia, da mudança de forma e das poções de esquecimento.

Em cenas de dramática intensidade, de identidades confundidas, paixão frustrada, ciúme e amarga contenda, a tragédia de Sigurd e Brynhild, do Niflung Gunnar e de sua irmã Gudrún, escala até o desfecho com o assassinato de Sigurd pelas mãos de seus irmãos de sangue, o suicídio de Brynhild e o desespero de Gudrún. Na Balada de Gudrún, contam-se seu destino após a morte de Sigurd, seu casamento a contragosto com o poderoso Atli, soberano dos hunos (o Átila histórico), como este assassinou seus irmãos, senhores dos Niflungs, e como ela se vingou de modo horrendo.

Numa versão derivada primariamente dos detalhados estudos da antiga poesia norueguesa e islandesa conhecida por Edda Poética (e, nos casos onde não existe poesia antiga, da obra posterior em prosa, a Völsunga Saga), J.R.R. Tolkien empregou uma forma poética de estrofes curtas cujos versos corporificam em inglês os exigentes ritmos aliterantes e a energia concentrada dos poemas da Edda.”

O site não informa data de lançamento ou qualquer informação sobre a publicação, mas está listada nos próximos lançamentos.  Agora é esperar.

O livro já foi comentado em dois momentos aqui na Valinor:

O Fantástico Realismo de Chesterton

1) Introdução

Falar de realismo chestertoniano é falar de realismo aristotélico ou mesmo falar de realismo sem qualquer adjetivação. É puro realismo, em oposição ao idealismo moderno de Descartes, Kant, Hegel, Husserl e todos aqueles para quem o que existe é o mundo mental, ao qual a realidade está submetida.

Adjetivá-lo de fantástico (qualidade que meu pai atribui a tudo o que o alegra e impressiona) se deve ao fato de que, valorizando o mundo da imaginação e da fantasia, tem os pés mais fincados na terra do que aqueles que, desprezando o fantástico e o “admirável Mundo Velho”, vivem realmente no mundo da lua, das suas cogitações e ambições, colocando no próprio umbigo o centro do mundo e a contagem do tempo.

Fez-me rir (e retrata bem o quão arraigada se encontra no homem a tendência ao egocentrismo) a expressão daquele personagem do romance de Patrick O’Brian (1914-2000) “A Fragata Surprise” (Record – 2007 – Rio), um rapazinho indiano de uns 15 anos, guia do Dr. Stephen Maturin, médico do navio, que, perguntado pelo naturalista sobre quão antiga era uma determinada estátua de Bombaim, respondeu com toda a simplicidade: “Tem uma idade imemorial, pois está aí desde antes de eu nascer…”. Expressão que lembra muito a de um conhecido político brasileiro, monotonamente repetida ao falar de suas realizações: “Nunca antes na história deste país…”.

O realismo chestertoniano está primorosamente retratado no livro “Chesterton e o Universo” (Editora UnB – 2008 – Brasília), de Scott Randal Paine (tradução de Lenise Garcia Corrêa Barbosa), em que o autor apresenta a cosmovisão desse gigante na defesa do senso comum que foi Gilbert Keith Chesterton (1874-1936).

Paine, para mostrar a importância do realismo, percorre, no capítulo II (“A Grande Recusa da Filosofia Moderna”), o itinerário que o idealismo seguiu, a partir de Descartes, para chegar a negar as evidências da realidade extra-mental e tentar construir a realidade a partir do sujeito pensante:

a) Descartes (1596-1650): “O Universo Duvidado”;

b) Kant (1724-1804): “O Universo Postulado”;

c) Husserl (1859-1938): “O Universo entre Parênteses”.

2) A Trilha do Idealismo avesso à Realidade

Negar a realidade? É possível que a filosofia moderna tenha chegado a isso? Se Aristóteles (384-322 a.C.) já havia mostrado como se dá o processo de abstração das idéias, a partir da captação sensorial da realidade, como foi possível negar a evidência do mundo que se apresenta diante de nós? Algo impensável, se apresentado assim, com essa simplicidade. Mas é isso que vemos na filosofia moderna cartesiana, em que tudo deve ser matematizado, explicado e compreendido a partir do auto-conhecimento do sujeito pensante!

Essa desconstrução da realidade começa, efetivamente, com Descartes e sua dúvida metódica. Enquanto para Aristóteles e os filósofos gregos o início da filosofia era a admiração (o “mirandum”), ou seja, o impacto diante da beleza e riqueza da Natureza, que faz com que nos perguntemos sobre sua essência e significado, já Descartes, querendo ter uma certeza maior do que já temos, passou a ver na dúvida o início de toda filosofia, ou seja, não acreditar nos sentidos, que poderiam nos enganar, para confiar inteiramente apenas na sua própria reflexão, de modo a ter idéias claras e distintas, chegando finalmente ao seu conhecido postulado inicial de toda a filosofia moderna: “Penso, logo existo”.

Essa estapafúrdia crise existencial induzida é bem descrita pelo próprio Descartes em seu “Discurso do Método”:

Considerarei não a Deus, que é muito bondoso e a suprema fonte da verdade, mas a um certo espírito do mal, não menos talentoso e enganoso do que poderoso, que tem aplicado todos os seus esforços para iludir-me. Considerarei que o céu, o ar, a terra, as cores, as formas e os sons, e todas as outras coisas objetivas que vemos, não passam de ilusões e sonhos que ele usou para enganar minha credulidade. Considerarei a mim mesmo como não tendo mãos, olhos, carne, sangue, nem qualquer sentido, mas acreditando falsamente que possuo todas essas coisas. Permaneceria decididamente vinculado a essa hipótese e, se não conseguir alcançar o conhecimento de qualquer verdade por meio desse método, de qualquer forma estará em minhas mãos suspender meu julgamento” (pg. 8).

Descartes começa por duvidar de que esteja acordado; Kant vai mais além e afirma que vivia no sonho dogmático do qual o acordou Hume (1711-1776), começando por negar a cognoscibilidade do mundo extra-mental, ao afirmar que apenas as suas aparências poderiam ser captadas por nós. Daí que caberia à mente humana dar o conteúdo a essas aparências, através das categorias de tempo e espaço. Paradoxalmente, Kant chama à sua “Crítica da Razão Pura” (1781) de Filosofia Transcendental: “Chamo transcendental todo conhecimento que em geral se ocupe, não dos objetos, mas da maneira que temos de conhecê-los, tanto quanto possível “a priori”.

Como se pode conhecer algo “a priori”? Só mesmo invertendo a equação do conhecimento e admitindo, como o faz Kant na sua “Crítica”, que são os objetos que se devem regular pelo nosso conhecimento e não a nossa cabeça pela realidade extra-mental. Assim, sim, conheceríamos em nós as coisas e não a partir do mundo lá fora…

3) Do Subjetivismo Gnoseológico ao Subjetivismo Ético

Do subjetivismo gnoseológico (de “gnose”, conhecimento), bem retratado na repetida expressão “ninguém é dono da verdade”, ao subjetivismo ético, também representado por outra conhecida frase “o que é errado para você não é errado para mim”, é apenas um passo: se não existe um mundo real extra-mental e objetivo a ser conhecido, sendo o processo de conhecimento um exercício de humildade, ou seja, de adequação e submissão de nossa cabeça a essa realidade, então também não existirá um bem objetivo e adequado à natureza humana, a ser buscado pelo homem como aquele que o poderá aperfeiçoar e realizar. Daí tanta frustração e infelicidade, também no meio da abundância.

Paradigmática, nesse sentido, foi a resposta de Frank Sinatra (1915-1998), no começo dos anos 80, a um jornalista que lhe surpreendeu com a seguinte pergunta (lembrando um amigo meu ponte-pretano, que a todos filosoficamente coloca essa questão existencial): “Frank, você é feliz?”. “The Voice”, como ficou conhecido o fantástico cantor, o qual teve na vida tudo o que desejou – mulheres, poder, fama, dinheiro, capacidade de influência, amigos reais ou bajuladores, satisfazendo inclusive as mínimas vontades, como quando comprou o time de beisebol para o qual torcia, para fazer a escalação que queria… –, respondeu simplesmente: “Não… mas a felicidade não existe”.

O que diria Chesterton a tão inveterado pessimista? Responderia naturalmente com todo o otimismo de seu fantástico realismo: não são as grandes emoções, a posse de incomensuráveis riquezas, o domínio despótico sobre a vontade própria e alheia que fazem a pessoa feliz e bem postada neste mundo – “bem resolvida”, como diria uma pessoa que comigo trabalha –, mas a valorização do comum e do pequeno. O maravilhar-se de ter duas pernas e dois braços e uma cabeça acima do tronco, em proporções que variam nas mais singulares formas de beleza e diferenciação, como mostra da riqueza exuberante da Criação.

4) A Realidade e a Fantasia

Numa passagem antológica de seu “Ortodoxia” (LTr – 2001 – São Paulo, tradução de Cláudia Albuquerque Tavares e apresentação, notas e anexos nossos), Chesterton fala do realismo da criança, já não alcançável pela maioria dos adultos (que bom seria não perder nunca essa capacidade de se maravilhar com o mundo, como o faz a criança):

“Da mesma forma como todos apreciamos as histórias de amor, devido ao instinto sexual,  também gostamos das histórias de terror, porque nos despertam o velho instinto da surpresa. Isso pode ser provado pelo fato de que, quando somos ainda criancinhas, não precisamos de contos de fadas: precisamos, apenas, de contos. A simples vida já é suficientemente interessante. Uma criança de sete anos ficará impressionada se lhe disserem que o pequeno Tomás abriu uma porta e viu um dragão: mas uma criança de três anos já ficará impressionada se lhe disserem apenas que o pequeno Tomás abriu uma porta. Os jovens gostam de contos românticos, mas as crianças gostam de contos realistas – exatamente porque os acham românticos. Na verdade, uma criancinha é quase a única pessoa, segundo a minha maneira de pensar, que poderá ouvir um moderno romance realista sem achá-lo enfadonho. Isso prova que os contos de fadas são, ainda, os únicos que fazem despertar em nós o sentimento quase inato de interesse e admiração” (pg. 76).

Quando Chesterton fala das histórias de terror que despertam o instinto de surpresa no homem, não deixa, em seu realismo, de reconhecer que o mundo real é mais terrificante do que qualquer história de horror. Li, recentemente, o livro “Sobrevivi para Contar” (Fontanar – 2008 – São Paulo) de Immaculée Ilibagiza (n. 1970), sobrevivente do genocídio dos tustsis pelos hutus em Ruanda, ocorrido no ano de 1994. Durante 3 meses, ela ficou escondida com outras 7 mulheres num banheiro de 1×1,5m2, enquanto perto de um milhão de tutsis eram mortos pelo simples fato de serem tutsis (o filme “Hotel Ruanda” retrata bem o ocorrido). Durante 3 meses, o país parou, os serviços públicos cessaram, para que a população hutu, a mando do governo, liquidasse com todas as “baratas” tutsis. Homens, mulheres e crianças eram trucidados sem piedade.

Mas o fantástico da história foi a capacidade de perdão de Ilibagiza para com aqueles que mataram toda a sua família! O perdão não era apenas a condição de se reconstruir o país: era condição para se voltar a ter paz interior, sob pena de se ficar eternamente com o corrosivo sentimento de ódio e desejo de vingança.

Paine, em seu livro, explora bem essa vertente do realismo chestertoniano, ao comentar o capítulo sobre “A Ética na Terra das fadas” (pgs. 126-152). Enquanto Lewis Carroll (1832-1898), em seu “Alice no País das Maravilhas” (Jorge Zahar Editor – 2002 – Rio, Tradução de Maria Luiza Borges), apresenta uma rota de fuga do mundo real, do qual podemos estar cansados quer por sua monotonia, quer pelo estresse que nos causa, Chesterton procura mostrar em seus livros que o mundo fantástico é aquele em que vivemos. Ao invés de entrar na toca do coelho para ter grandes emoções e surpresas, basta sair dela para ver no ordinário e corrente pessoas e acontecimentos fantásticos.

Há um paralelismo muito grande entre os Contos de Fadas: na maioria deles existem mundos paralelos – o real e o imaginário – que se ligam, mas cada um com sua realidade e lógica própria. Não é o caso da magnífica obra de J. R. R. Tolkien (1892-1973) “O Senhor dos Anéis” (Martins Fontes – 2002 – São Paulo), toda ela um mundo fantástico, que começa com os elfos e termina com a história humana.

Mas em obras como “Alice no País das Maravilhas” de Lewis Carroll, “As Crônicas de Nárnia” (Martins Fontes – 2009 – São Paulo) de C. S. Lewis (1898-1963), “A História Sem Fim” (Martins Fontes – 2009 – São Paulo) de Michael Ende (1929-1995), ou “Harry Potter” (Rocco – 1997 a 2007 – São Paulo) de J. K. Rowling (n. 1965), há esses mundos paralelos, o nosso e o da fantasia.

Em Nárnia se ingressa pelos anéis mágicos ou pelo guarda-roupa; no País das Maravilhas pela toca do coelho; em Fantasia por um livro; e no mundo dos bruxos pelos portais especiais. Ou seja, a imaginação humana não é tão imaginativa assim e a realidade ainda sobrepuja a ficção.

A própria poesia da criação desses mundos fantásticos segue cheia de paralelismo: tanto a “Terra Média” construída por Tolkien quanto “Nárnia” idealizada por Lewis têm início a partir da música: o “canto dos Ainur” e o “canto de Ashlam” materializam o espaço e o tempo, fazendo do mundo e da história uma grande sinfonia, com suas luzes e sombras, rompantes e sussurros, como é a vida comum.

5) A Literatura e Realidade

A rigor, toda a literatura, quer seja de ficção ou não, não deixa de ser uma fuga do mundo real do leitor, para entrar no mundo da experiência alheia. Tive essa sensação recentemente, por ocasião do nascimento de minha sobrinha Daniela, com Síndrome de Down. Recebi de uma colega o livro “O Filho Eterno”, de Cristóvão Tezza (Record – 2008 – Rio) e, ao começar a lê-lo, cheguei à conclusão de que a experiência pessoal é sempre única. Como a do personagem central de “A morte de Ivan Ilitich”, de Leon Tolstoi, que sempre acreditara no silogismo “Todo homem é mortal; Sócrates é homem; logo, Sócrates é moratl”, mas que acaba dizendo que aquilo estava bem para Sócrates, não para ele, ao descobrir que tinha seus dias contados.

Aprendemos da experiência alheia, pois os problemas humanos são semelhantes, mas as reações são muitas vezes distintas. À surpresa inicial com as características especiais de minha sobrinha seguiu-se a reação sobrenatural de ver nessa criaturinha tão frágil, carente de carinho e verdadeira usina potencial de amor e afeto, justamente pelas características especiais de seu gênero, a mão de Deus, a pedir uma doação maior de cada um que com ela conviver, elevando o nível geral de virtude de pais, irmãos, avós, tios, primos e amigos. Como disse em seguida meu pai: “Fantástico!”. Um verdadeiro Conto de Fadas, só que com a beleza e a dramaticidade de ser real!

Ao receber a segunda foto da Daniela, com seu sorriso angelical, não pude deixar de pensar que será como uma fada madrinha para toda a família. Aliás, a personagem emblemática dos Contos de Fadas, e que lhes dá o nome, é justamente a Fada Madrinha. Vivendo neste nosso mundo atribulado e cheio de compromissos, quantas abnegadas fadas madrinha não encontramos ao nosso lado, que tornam o peso do dia e do calor menos intenso e a vida mais leve e aprazível. Penso agora em minha mãe, irmãs, sobrinhas e secretárias, com tantos detalhes de atenção e carinho, que me parecem de outro mundo: algo fantástico.

6) De Deus e do Mundo

Paine, em seu livro, fala da estreita relação que existe entre a poesia, a filosofia e a oração, como etapas de nosso contato com o Universo. Primeiro cantamos a beleza da natureza e da vida, com uma sincera admiração; depois começamos a perscrutar os seus mistérios tentando desvendá-los, nem que seja minimamente; finalmente, ao descobrir a existência de um Ser Pessoal por trás de tudo, caímos de joelhos em agradecimento e louvor:

“A poesia começa com prazer e termina em admiração, mas a filosofia começa com a admiração e termina em estupefação. (…) Se filosofarmos longamente, e bem, poderemos um dia deixar de lado nossos livros e construir uma igreja” (pgs. 199-200).

O problema que Chesterton encontra na “Postura da Mente Ocidental” a partir de Descartes e Kant é o de querer desvendar absolutamente todos os mistérios do Universo e querer ordená-los segundo a própria mente, partindo de premissas falsas, quais sejam, as de que a evidência do mundo deve ser submetida a demonstração pelo intelecto, e de que, lembrando Hegel (1770-1831), “o real é racional e o racional é real” (“Fenomenologia do Espírito” – 1807).

Ora, o que pensamos não existe necessariamente na realidade e nem tudo o que existe é compreensível pela mente humana. Assim, a atitude diante da realidade deve ser a da humilde submissão do intelecto, que reconhece seus limites e canta admirado o que pode ver e apreciar. No 1º capítulo de “Ortodoxia” (“Os Maníacos”), Chesterton oferece uma imagem perfeita do realismo poético frente ao idealismo lógico:

“O poeta procura apenas a exaltação e a expansão, isto é, procura um mundo no qual ele possa se expandir. O poeta pretende apenas meter a cabeça no Céu, enquanto que o lógico se esforça por meter o Céu na cabeça. E é a cabeça que acaba por estourar”.

7) Conclusão

Admirar e amar este mundo tal como ele é, mais fantástico do que qualquer imaginação humana poderia engendrar, constitui o segredo da felicidade, que nos leva, como a Chesterton, a militar num otimismo existencial que em tudo vê a Mão do Criador, sempre esperando uma resposta. Daí que, voltando à minha admirável sobrinha Daniela, se possa ver nela não tanto a Síndrome de Down, mas, como me dizia outra colega de trabalho, a Síndrome de Deus.

Que o fantástico livro de Scott Paine sirva, mais do que a obra de Hume para Kant, como despertador do sonho idealista e egocêntrico que possamos ter, para o impacto da realidade do Universo em que vivemos, maravilhosamente cantada por Chesterton em suas obras, que faz respeitar suas leis e admirar suas excentricidades, tornando a vida diária uma aventura mais emocionante do que qualquer romance.

Quando estou desanimado diante de panoramas menos alentadores no trabalho ou na vida social, basta ler um pouco de Chesterton para que volte a brilhar em meu horizonte o sol do otimismo e da alegria contagiante. Um otimismo que explode em sincera gargalhada, pela contundência paradoxal e irônica com que o notável jornalista inglês consegue mostrar o papel minúsculo dos escravos da vaidade e a grandeza dos que sabem rir de si mesmos e ver a imensidão do Universo e a beleza interior dos que nos cercam, que nos superam e fazem sentir-nos tão a gosto neste mundo real e fantástico, cercado por nossos admiráveis familiares, amigos e colegas.