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O Rei dos Mortos e Os Mortos

Rei dos MortosFantasmas de Homens que assombraram a Senda dos Mortos. O Rei dos Mortos e seus seguidores já foram Homens vivos. Eles moraram nas Montanhas Brancas e eram conhecidos como os Homens das Montanhas. Eles eram próximos dos Homens da Terra Parda.

Os Homens das Montanhas adoravam Sauron, mas depois que o reino de Gondor foi fundado, em 3320 da Segunda Era, o Rei das Montanhas jurou fidelidade a Isildur. Na Pedra de Erech, o Rei prometeu que iria liderar seus homens nas batalhas contra as forças de Sauron.

Mas quando eles foram convocados durante a Guerra da Última Aliança, o Rei e seus Homens quebraram o juramento e se recusaram a lutar contra seu antigo senhor. Isildur disse ao Rei das Montanhas que ele seria o último rei e ele amaldiçoou os Perjuros, dizendo que jamais descansariam até que o juramento fosse cumprido.

O Rei e seus Homens se esconderam nas Montanhas Brancas. Com o tempo eles morreram, mas seus espíritos continuaram a assombrar as montanhas e o Rei das Montanhas se tornou conhecido com o Rei dos Mortos. Os Mortos habitaram na passagem sob as montanhas conhecidas como o Caminho dos Mortos.

Em 8 de março de 3019, Aragorn e a Companhia Cinzenta entraram na Sendas dos Mortos. Aragorn convocou os Mortos para seguí-lo até a Pedra de Erech e assim fizeram. Na escuridão na Pedra de Erech, os Mortos perguntaram para Aragorn porque ele tinha vindo e ele respondeu:

Para cumprir nosso juramento e ter paz. (RdR, p.50)

Aragorn então revelou-se o herdeiro de Isildur e chamou os Mortos para combater as forças de Sauron.

Os Mortos seguiram Aragorn até o porto de Pelargir sobre o Anduin, uma jornada de aproximadamente 280 milhas. Lá eles encontraram a frota de Corsários de Umbar que eram alidados de Sauron. Ao comando de Aragorn, os Mortos embarcaram nos navios e os Corsários fugiram com medo da presença deles. Aragorn usou a frota para ir como auxílio em Minas Tirith durante a Batalha dos Campos de Pelennor.

Após a frota ser capturada, os Mortos foram até Aragorn e ele declarou que o juramento fora cumprido e que poderiam finalmente descansar.

Nota sobre o filme:
Na versão cinematográfica de O Senhor dos Anéis, os Mortos seguem Aragorn em todo caminho para Minas Tirith e luta na Batalha dos Campos de Pelennor.

Nomes e Etimologia:
O Rei dos Mortos foi originalmente chamado de Rei das Montanhas e seus seguidores eram os Homens das Montanhas. Eles ficaram conhecidos como os Perjuros porque se recusaram a lutar contra Sauron, como haviam prometido. Eles também eram chamados de Homens Mortos da Terra Parda porque a estrada para a Senda dos Mortos era em Terra Parda. Também conhecidos como os Mortos, ou Mortos Inquetos, o Exército Cinzento, o Exército da Sombra e os Homens da Sombra.

Fontes:

  • O Senhor dos Anéis, O Retorno do Rei, página 50

Peregrin Tûk, um estudo de caracteres

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Amy Spivey, estudante da Bradley University publicou um belo artigo sobre Peregrin Tûk, o nosso querido Pippin. Em seu trabalho a autora discorre sobre o aprendizado a partir do erros e sobre crescimento pessoal, dos quais o pequeno (mas não tão pequeno assim) Tûk é um belíssimo exemplo. Apresento a vocês o texto de Amy (quase) em sua íntegra com alguns poucos pitacos e algumas supressões aqui e ali.

Mas atenção, se você ainda não leu O Senhor dos Anéis, não te recomendo a leitura deste artigo, é repleto de spoilers! Mas se você é um dos felizardos que já leu esta belíssima obra, boa leitura!

Durante a escolha da comitiva que iria acompanhar Frodo em sua missão para destruir o Um, Elrond se mostra contrário à participação dos hobbits, principalmente de Pippin, porque ele era o mais jovem e poderia não compreender o que a tarefa implicava realmente.
Em desafio, Pippin responde: “Então, Mestre Elrond, você terá que prender-me em uma prisão ou enviar-me para casa amarrado dentro de um saco… pois do contrário irei seguir a Comitiva (Fellowship of the Ring, p. 310).
Uma ousada e provavelmente declaração insensata a se fazer, mas Peregrin Tûk foi determinado à ajudar Frodo até o fim. Sua jornada transformou-o de um hobbit imprudente a um cavaleiro de Gondor homenageado, fazendo dele um personagem essencial na missão de destruição do Anel.
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Pippin, um primo distante e amigo íntimo de Frodo, cresceu ouvindo os contos das aventuras de Bilbo fora do Condado. Quando Frodo decidiu deixar Bolsão, juntamente com Sam e Merry, decidiram acompanhá-lo mesmo contra a sua vontade (pelo menos inicialmente).
Pippin nos dá sua primeira mostra de imprudência em Bri, quando começou a contar à multidão presente no Pônei Saltitante sobre a festa de aniversário de Bilbo, e por pouco não discorre sobre o desaparecimento de Bilbo fazendo menção ao anel. Frodo o interrompe e tenta distrair os presentes com uma canção e dança, mas acidentalmente colocou o Anel , desaparecendo. O que acabou por não contribuir para melhorar a situação. Quando os Cavaleiros atacam a pousada, os hobbits permanecem a salvo. Deixam Bri no dia seguinte e Pippin suporta a jornada “selvagem” com Passolargo até chegarem em Valfenda.
Embora Elrond fosse contrário a ida de Pippin, quando chegou o momento da comitiva partir, ele estava entre os integrantes. Contudo, ele pode até ter se sentido corajoso em um primeiro momento, mas foi um dos primeiros a se cansar da viagem.
Após o fracasso da tentativa de travessia através do Caradhras, a Comitiva toma o caminho para Moria, não sem antes ser atacada por um bando de wargs. O que faz Pippin duvidar: “Eu desejava ter ouvido o conselho de Elrond. …Eu não sou bom afinal. Não existe o suficiente da raça de Bandobras, o Urratouro em mim: estas criaturas congelam o meu sangue. Não me
lembro de ter me sentido tão miserável antes (Fellowship of the Ring, p. 334).
E em sua consternação, não para de fazer insensatas questões, uma vez que tinham chegado aos portões de Moria, onde Gandalf explica que os portões não podem ser empurrados para dentro do exterior.
O que você vai fazer então? Perguntou Pippin, ao que Gandalf respondeu. “Bata com a sua cabeça na porta, Peregrin Tûk, mas se isso não a estilhaçá-las, pelo menos terei um pouco de paz de suas tolas perguntas, vou procurar pelas palavras de abertura” (Fellowship of The Ring, p. 343). No entanto, mais do que palavras imprudentes, Pippin iria ficar em apuros uma vez dentro das minas.

Curioso era Pippin, mas isso não era desculpa para alguns de seus atos insensatos. Ao parar para descansar em uma sala em Moria, Pippin sente-se atraído por um antigo buraco no meio da sala. “Movido por um súbito impulso, ele pega uma pedra solta e deixa-a cair” (Fellowship of the Ring, p. 351).

Isto enraivece Gandalf, mais do que qualquer questão poderia. “Seu Tûk Tolo! …Esta é uma viagem séria, não um piquenique de hobbits. Atire-se da próxima vez, e então não vai mais atrapalhar. Agora, fique quieto!” (Fellowship of the Ring, p. 352).
Como punição Pippin fez a primeira ronda nessa noite, mas Gandalf sentiu pena dele e o liberou. Ele dormiu, mas não aprendeu totalmente sua lição.

Por um tempo a presença de Pippin cai para segundo plano, até que a Comitiva chega a Amon Hen, onde Pippin e Merry são capturados pelos Orcs e Boromir perde sua vida na tentativa de defendê-los. Em, “As Duas Torres”, a narração é dada a partir do ponto de vista de Pippin pela primeira vez.

Quando ele recupera sua memória, lamenta novamente sobre a viagem. “Ele se sentia frio e doente. ‘Eu gostaria que Gandalf nunca tivesse persuadido Elrond a deixar-nos vir’, pensou. ‘O quão bom eu era? Apenas um incômodo: um passageiro, uma peça de bagagem…espero que Passolargo ou alguém venha nos salvar’ (Two Towers, p. 42).

Mas, Pippin começa a utilizar o seu juízo, e corta as cordas que amarravam suas mãos quando os orcs estão desatentos. Ele também, subitamente decide retirar o broche élfico de seu manto e o deixa cair, para o caso de Aragorn tentar encontrá-los. Mas, logo depois põe em dúvida suas próprias ações. “…Não sei porque fiz isso. Se os outros escaparam, provavelmente terão ido com Frodo” (Two Towers, p. 48).

Apesar de sua dúvida, Pippin começa a demonstrar o seu valor quando os Rohirrim atacam os orcs e Grishnákh, um orc de Mordor, tem a oportunidade de pegar os hobbits. Pippin percebendo que o orc sabia sobre o Anel, finge que ele e Merry poderiam ajudá-lo a fim de bolar um plano para poder escapar. O orc os leva para longe da batalha, mas é morto por um cavaleiro do Rohan. Pippin então acaba de livra-se das cordas e liberta Merry. Em seguida, os hobbits adentram a Floresta de Fangorn.

Os dois hobbits conhecem então Barbárvore e lhe contam suas aventuras, chamando a atenção do ent com a menção dos orcs de Isengard. Barbárvore torna-se então determinado a parar Saruman
(não sem antes um longo Entebate!)

Pippin e Merry estão ansiosos para ajudar, e Pippin diz, “Gostaria de ver o Mão Branca derrubado. Gostaria de estar lá, mesmo que eu não pudesse ser de alguma utilidade: Eu nunca deverei esquecer dos Uglúk e da travessia de Rohan” (Two Towers, p. 77). Curiosamente, Pippin reitera mais uma vez que ele “poderia não ser de muita utilidade”, mas, está, contudo, disposto a ir à guerra com os Ents, depois de ter sofrido o tormento dos orcs.

(…)

Embora a batalha com os Ents tenha sido o maior evento da viagem de Pippin até agora, as ações de Gríma Língua de Cobra foram determinantes para seu destino na última fase da guerra. Durante o confronto com Saruman, Pippin pegou o Palantír que Gríma havia jogado da torre. No que prontamente Gandalf tomou-lhe a pedra, não sem antes perceber o olhar saudoso do hobbit para ela.
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(…)
Pippin enamorado pela pedra, a pega de Gandalf enquanto este dormia e a leva para perto de sua cama para olhar.

(…)

“Então, com um grito estrangulado ele caiu para trás…” (Two Towers, p. 218).

Gandalf corre em Socorro do hobbit e lhe pergunta sobre tudo o que o pequeno falou com Sauron. Embora, Pippin não tenha conseguido evitar revelar muito a Sauron, Gandalf acredita que de certa forma o acontecimento constitui uma vantagem, pois Sauron agora direciona seus “olhos” para o Oeste deixando o Leste menos vigiado. Gandalf então determina o retorno da companhia à Edoras ao passo que ele e Pippin se encaminham para Gondor.

Nessas ações rápidas e inesperadas, um evento significativo pode ser ignorado: a separação de Merry e Pippin. Desde a primeira parte da viagem a partir do Condado, eles estiveram juntos, mas agora, eles serão separados. Pippin está muito preocupado, ouvindo Gandalf explicar a história das Palantíri, para perceber que ainda se passará um longo tempo até que ele possa ver Merry novamente – se possível isso for.

Ao chegar em Minas Tirith, Gandalf leva Pippin até Denethor, o Regente de Gondor, que quer ouvir mais sobre a morte de seu filho Boromir. Denethor suspeita do hobbit, imaginando como ele pode ter escapado e seu filho não.
Pippin reage oferecendo servidão à Denethor, como reparo pela morte de Boromir. O hobbit torna-se então um Guarda da Cidadela.
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(…)

Pippin começa uma amizade com Beregond, o responsável por lhe ensinar as senhas que ele precisaria para o serviço, mas também quem lhe ensinou sobre Gondor e seu povo. Ele também ganha a amizade de Bergil, filho de Beregond, que lhe mostra a cidade, e juntos eles vêem a chegada da ajuda para os exércitos de Gondor, incluindo Imrahil, o Príncipe de Dol Amroth.

Pippin finalmente encontra-se com Gandalf novamente naquela noite em seus alojamentos, mas com poucas boas notícias, porque A Escuridão tinha começado. Pela manhã, Pippin sentiu-se desmotivado novamente, perguntando à Gandalf porque ele está ali. “Você sabe muito bem…para mantê-lo fora de perigo; e se não gosta de estar aqui, você pode se lembrar que você trouxe isso sobre si mesmo” (The Return of the King, p. 72).

(…)

Pippin foi essencial para o coração da batalha contra Sauron, e quando o Nazgûl foi atraído para próximo, perseguindo Faramir, Pippin tremeu de terror. Certamente, Elrond tinha razão quando disse que Pippin não fazia idéia do que lhe esperava à frente. Mas, com a ajuda de Gandalf, Faramir chega a Minas Tirith e revela seu encontro com Frodo e Sam, deixando Gandalf saber do seu caminho escolhido e Pippin que esperança eles têm.

Os piores dias vieram após Faramir ser trazido gravemente ferido da batalha nos Campos de Pelennor. Quando Minas Tirith começou a queimar, Denethor liberou Pippin de seus serviços, dando-lhe permissão para seguir no que ele considerava a insensatez de Gandalf. Mas Pippin tornou-se valoroso e não vai desistir ainda.

“Vou aproveitar sua licença, senhor…porque eu quero ver Gandalf, muito mesmo. Mas ele não é bobo; e não vou pensar em morrer até que ele se desespere. Mas da minha palavra e de seu serviço não quero ser liberado enquanto você viver. E se vierem finalmente para a Cidadela, espero estar aqui e ficar ao seu lado e talvez ganhar as armas que você tem de me dar”. (The Return of the King, p. 95).

No entanto, vendo que Denethor tinha a idéia fixa de queimar a si mesmo e a Faramir (que apesar de gravemente ferido ainda estava vivo), Pippin imediatamente vai em busca de Gandalf, na esperança de salvar Faramir da loucura de seu pai. Ele encontrou Beregond e lhe disse para fazer o que ele podia, apesar das ordens para não deixar o seu posto, por qualquer motivo.
Quando Pippin encontra Gandalf, o mago está prestes a ir à batalha, mas Pippin implora por sua ajuda. “Denethor foi para os Túmulos…e ele tomou Faramir, e ele diz que estamos todos a arder e ele não vai esperar, e eles estão a fazer uma pira e queimá-lo, e Faramir também…Eu disse a Beregond, mas eu temo que ele não se atreva a deixar o seu posto…Você pode salvar Faramir? (The Return of the King, p. 126).

Pippin sabia que o tempo era curto e que Gandalf era o único que poderia ajudar. Embora terrificado pelo que Denethor tinhas se tornado, Pippin também sabia que Faramir tinha que ser salvo.

Quando finalmente a batalha dos Campos de Pelennor foi encerrada, Pippin e Merry reuniram-se novamente junto aos portões de Minas Tirith, mas Merry fora ferido por uma punhalada pelo Rei-Bruxo. Pippin tenta levá-lo através da cidade, mas Merry está fraco, e Pippin teme pela vida dele.

“É tu que vai me enterrar? disse Merry. “Não, na verdade” disse Pippin, tentando soar alegre, embora seu coração apertado estivesse com medo e pena. “Não, vamos para as Casas de Cura” (The Return of the King, p. 136).

Pippin diz a Bergil para enviar mensagem para os curandeiros. Gandalf chega, e gentilmente carrega Merry. Para todas as dúvidas de Pippin de ter vindo junto com a Comitiva, Gandalf reconhece a honra recebida pelos hobbits. “…porque se Elrond não tivesse se rendido a mim…muito mais severos os males do presente dia, teriam sido”. (The Return of the King, p. 137).

Embora Gondor tivesse sido salva, por aquele momento, a viagem mais perigosa que Pippin já enfrentou tem início, a batalha do Portão Negro, dando a Frodo uma oportunidade para cumprir sua tarefa. Quando a Boca de Sauron traz notícias aparentemente devastadoras, Pippin perde toda sua esperança. Mas ele tem coragem, e de pé ao lado de Beregond, aguarda o ataque.

Ele puxou sua espada e olhou para ela, e as formas entrelaçadas em ouro e vermelho; bem como os harmoniosos caracteres reluzentes de Númenor, como fogo sobre a lâmina. “Isso foi feito para horas como essas”, pensou. “Se eu pudesse apenas golpear algum mensageiro com ela, então eu terei chegado ao mesmo nível que o velho Merry. Então, eu irei decepar algumas destas bestas antes do final. (The Return of the King, p. 176).

E assim ele faz. Como um grande troll vem após Beregond para matá-lo, Pippin o golpeia, mas é esmagado quando o monstro cai sobre ele. Sabendo que esse é o fim, ele sente as trevas à levá-lo até que ele pensou ouvir um grito: “As Águias estão vindo! As Águias estão vindo!” Por um momento Pippin pensou que flutuava. ‘Bilbo’! ele disse, ‘Mas não! Que entrou em seu conto, no passado distante. Este é o meu conto, e é encerrado agora. Adeus! “E seu pensamento fugiu e seus olhos não viram mais nada”. (The Return of the King, p. 177).

Felizmente para Pippin, Gimli estava no lugar certo na hora certa, e encontrou-o antes que ele tivesse ido. Com a derrota de Sauron e o Anel destruído, chegou finalmente o tempo da Comitiva reunir-se novamente.
Sam, após vê-los pela primeira vez, se espanta, e Pippin articula o seu orgulho. “…vamos começar dizendo [nossas histórias]logo que o banquete tiver terminado… Nós somos cavaleiros… como eu espero que você observe” (The Return of the King, p. 251). Quando Sam observa que vai levar semanas para eles contarem todas as histórias, Pippin também demonstra, que apesar de todas as dificuldades que ele suportou, ele ainda tem senso de humor. “Semanas, verdade… e, em seguida, Frodo terá de ser trancado em uma torre em Minas Tirith e escrever tudo. Caso contrário ele irá esquecer metade de tudo, e o pobre velho Bilbo ficará terrivelmente decepcionado” (The Return of the King, p. 251).

Assim, eles ficaram em Gondor por algum tempo, mas em breve, mesmo a alegre reunião deve terminar e os membros da Comitiva se separar. Após fazer a travessia de volta pela Terra Média, os hobbits chegam ao Condado, só para descobrir que os rufiões o tinham invadido.

Quando os quatro hobbits encontram um grupo próximo ao Dragão Verde, Frodo chama a ira de um, que começa a provocá-lo. Pippin parte na defesa de Frodo, e pela primeira vez, tem a oportunidade de chamar alguém de tolo. “Eu sou um mensageiro do Rei. …Você está falando com o amigo do Rei, e um dos mais renomados em todas as terras do oeste. Você é um rufião e um tolo. Fique de joelhos no meio da estrada e peça perdão, ou irei jogar sobre ti as desgraças dos trolls” (The Return of the King, p. 309).

Os quatro hobbits concebem um plano para libertar o Condado, Pippin cavalga até Tuquerburgo para reunir os Tûks para a insurreição. Usando as táticas que eles aprenderam em batalhas, Pippin e Merry ganharam os títulos de Capitães e lutaram e venceram a batalha de Beirágua em 1419, e com sucesso libertaram o Condado.

Quando Frodo decide deixar a Terra Média alguns anos mais tarde, Pippin, embora profundamente triste, compreende o porquê. “’Você tentou nos enganar uma vez antes e falhou, Frodo’, [Pippin] disse. ‘Desta vez você quase conseguiu, mas falhou novamente. Não foi Sam, porém, que deu-te este tempo, mas o próprio Gandalf” (The Return of the King, p. 399).

Ele chorou quando Frodo partiu, mas sua história ainda não havia acabado. Como os Apêndices nos mostraram, Pippin casou-se com Diamantina de Frincha Longa e teve um filho, Faramir, e tornou-se Thain do Condado.

Aragorn, agora Rei Elessar, também fez dele um Conselheiro do Reino do Norte. Após longos anos, Pippin e Merry deixaram o Condado; passaram os ofícios para os seus filhos; e viajaram para Edoras e Gondor, onde vieram a morrer. Eles foram levados para descansar em Rath Dínen com honra, e quando o Rei Elessar morreu, ele foi colocado ao lado deles.

A maturidade de Pippin cresceu significativamente, desde aquele primeiro encontro com os Cavaleiros Negros até a última batalha do Condado. Ele iniciou a viagem como um ignóbil jovem hobbit, mas no fim ele tornou-se um cavaleiro de Gondor, uma alta honra e cresceu aos olhos do Rei.

Ele aprende a partir de suas tolices, e por vezes perigosos, erros, ganhando uma grande dose de respeito ao longo do caminho. As realizações de Pippin são notáveis, e sendo parte da Comitiva abriu seus olhos para o mundo fora de seu lar. Mas talvez, sua mais significativa realização foi ter-se tornado um grande líder entre os hobbits – entre seus parentes, sua família.
O artigo de Spivey pode ser lido na íntegra no site da Tolkien-Online.com.
Fontes:
J.R.R. Tolkien. The Lord of the Rings, The Fellowship of the Ring.
J.R.R. Tolkien. The Lord of the Rings, The Two Towers.
J.R.R. Tolkien. The Lord of the Rings, The Return of the King.

O Condado, a Terra-Média e o Mar: A nostalgia de Tolkien.

Diego Klautau, Mestre em Ciências da Religião – PUC/SP, trata neste artigo a presença de uma crítica à modernidade em O Senhor dos Anéis. A partir das idéias de Agostinho, Tolkien cria um mundo que é percebido tanto em sua ordem de desenvolvimento natural quanto na regulação de virtudes nas relações entre o seres racionais como um mundo criado por Deus, e com valores claros transmitidos por gerações, revelados através da tradição por esse mesmo Deus. Esse conjunto de virtudes, concepção do homem, e seres racionais, da natureza e das esferas políticas e institucionais é baseado na filosofia de Agostinho. Porém, ao escrever O Senhor dos Anéis em um contexto de século XX, entre as duas grandes guerras e todo desenvolvimento histórico que percebia, devidamente inserido em seu tempo, Tolkien formula uma crítica a esse momento histórico.

O artigo na íntegra de Klautau:

http://74.125.47.132/search?q=cache:jnHvaNnveUYJ:www.abhr.org.br/wp-content/uploads/2008/12/klatau-diego.pdf+texto+sobre+Tolkien&cd=36&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br

Fonte: Diego Klautau – PUC/SP.

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O Senhor dos Anéis, é um hino à Graça com referência contí­nua à Sagrada Escritura

” O Senhor dos Anéis» é fundamentalmente uma obra religiosa e católica escreve Tolkienna Carta de 2 de Dezembro de 1953 ao Padre Robert Murray: notícia nada surpreendente se for considerada a vida do seu autor, plasmada por uma profunda fé herdada da sua mãe, convertida da religião protestante da sua família de origem — o pai, educado numa escola metodista — ao catolicismo, escolha que pagou com em vida, sendo repudiada e abandonada à miséria com o desprezo dos seus familiares. ”

Esta é a justa lente com a qual observar e compreender toda a obra de Tolkien. Os textos de Paolo Gulisano, de Andrea Monda e Saverio Simonelli sobre Tolkien, demonstram que a obra completa de Tolkien e não só «O Senhor dos Anéis», é um hino à Graça com referência contínua à Sagrada Escritura.

Tolkien Nos textos de Tolkien do princípio ao fim surge como pensamento fundamental o sentido da vida e da escritura: o famoso conceito de subcriação, que vê o homem chamado por Deus na obra da formação da realidade, evidentemente com distinções: o subcriado do homem é o mundo dos mitos, dos acontecimentos que remetem para a mensagem completa.

Se Deus, «escrevendo» a Bíblia deu vida àqueles acontecimentos que são narrados — a Palavra fez-se carne! — o homem só pode «criar» mundos que permanecem prisioneiros da estrutura. Este é, segundo o nosso autor, o contributo que o homem pode oferecer a Deus na obra da criação. Há quem compare Tolkien a Manzoni (Monda e Simonelli) mas quem o sinta mais próximo de Dante: pois ambos, tiveram intenção de conferir o sentido anagógico ao seu trabalho: não símbolo, mas verdadeira experiência que remete para outro significado os acontecimentos. Não uma criação que remete para o outro, assim como o faz a Divina Comédia na intenção de Dante.

Olhando para a obra cinematográfica, se ao lado da trilogia podemos ver a presença dos dois últimos versos do Pai Nosso, o centro de toda a história pode ser expresso citando a conclusão da liturgia da palavra da Missa em honra de Sta. Inês — 21 de Janeiro — que recita: «Ó Deus omnipotente e eterno que escolhes as criaturas mais fracas para confundir o poder do mundo.» Nesta frase está condensada a mensagem de Tolkien: a confiança ilimitada no Deus católico e no seu projecto sobre a história, a exaltação dos humildes, a loucura que, como exclama Gandalf durante o conselho de Elrond, será o manto (a capa) aos olhos dos inimigos que assim confunde o poder do mundo. Palavras similares àquelas contidas no Magnificat : «exaltou a humildade da sua serva — derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes.»

Humildes e frágeis: esta parece ser a fundamental e decisiva diferença entre o valioso universo Tolkiano e o divertido, mas também superficial mundo do Harry Potter, onde os bons são esplendidamente bons e os maus perversamente maus, divisão maniqueia. Na obra de Tolkien todos, como Gollum, podem ser resgatados e onde todos, como Frodo, como Aragon, como Gandalf, são constantemente tentados e não são capazes de ultrapassar necessariamente a tentação. Só os orcs, imitação do homem, criados da lama, e os emissários de Sauron são apresentados como impermeáveis à salvação: como os demónios e Satanás, segundo o que nos diz o Catecismo da Igreja católica.

Todo o «Senhor dos Anéis» é atravessado do sentido da fragilidade humana que só em Deus encontra cumprimento e apoio. Com efeito, como fez já notar Emília Lodizioni no primeiro e imprescindível «convite à leitura de Tolkien», o traço saliente deste romance, como de todos os que escreveu Tolkien, é a renúncia. A vitória sobre o mal só é possível renunciando, com liberdade, a qualquer coisa de querido. Se é bem notório que é a própria renúncia ao anel que permitirá salvar a Terra Média, são muitos outros os exemplos desta renúncia no texto, que se inicia com a renúncia de Bilbo ao seu precioso tesouro que Gandalf confiará a Frodo. O próprio Frodo renuncia à vida tranquila para assumir o encargo de conduzir ao término uma missão destinada aos heróis «institucionais» Aragon e Gandalf. Gandalf primeiro e Galadriel depois renunciam a possuir o anel que é oferecido a Frodo, superando a prova — e Tolkien utiliza em entrelinhas quase esse vocábulo — como Cristo no deserto afasta o demónio que lhe oferece a posse de todos os reinos da terra. Mas há outros argumentos que encontram a sua raiz na Escritura e na fé católica.

«Tudo concorre para o bem daqueles que amam a Deus» (Rm.8,25). Assim, de facto acontece no livro. Situações que parecem trágicas, extremamente negativas, demonstram-se no entanto preciosas para produzir o bem: se Gandalf o grisalho não «morresse» em Moria, não podia renascer como Gandalf o branco (e aqui recorda a palavra de Jesus: — Se o grão de trigo não morre — Jo.12,24). Sem o ataque de loucura que atinge Boromir e o leva a arrebatar o anel a Frodo e sem o assalto dos orcs o anel não chegaria a Est. Se Pepino e Merry não fossem raptados pelos orcs não chegariam à floresta de Fangar, se Gollum não tivesse fugido dos elfos e não tivesse traído os hobits o anel não teria sido deitado na fornalha ardente.

A figura do verdadeiro protagonista Frodo é traçada sob a figura do Santo, como Abraão a ponto de deixar tudo, a casa, a riqueza, a posição, para ir para a desolação; Moisés, o profeta que se sente inadequado para a missão confiada, e o próprio Jesus, do qual condivide a profunda e forte humildade e vontade de levar ao termo a missão confiada a custo com a própria vida. Como escreve Bertoni, na sua tese de doutoramento apresentada na Universidade de Bologna em 1995: «Frodo respondeu a uma chamada; se bem que quisesse evitá-la e não soubesse nada, de facto, de armas e de guerras». E uma vez chamado não volta mais atrás. Moria, que atravessa o primeiro livro, é o nome do monte sobre o qual Abraão é chamado a sacrificar Isaac (Gen.22,1). Mória é na realidade o lugar sobre o qual é constituída, séculos depois a cidadede Ieru-Salem, cujo rei ao tempo do patriarca é o famoso Melquisedec, rei de Salém. Uma das referências de Moria é o Calvário, onde um outro sacrifício será oferecido: o de Nosso Senhor Jesus Cristo. É em Mória que Gandalf morrre para depois ressurgir: um acaso? Penso que não. Uma indicação muito marcada que remete para o verdadeiro sentido do sacrifício.

Também a comunhão dos santos está presente no livro: é a piedade que Bilbo mostra sobre Gollum, não obstante todo o percurso do mal, inspira-lhe compaixão que permite que a missão seja cumprida. O esforço que as personagens fazem na sua batalha com as forças de Sauron sustêm Frodo, ajudando-o a levar o peso do anel que aumenta conforme se aproxima do Monte Fato. A mensagem de que o mal corrompe com a sua convivência está presente: o anel que representa o pecado, corrói todos os que têm contacto, não só Gollum, que o possui há muito, ficando uma imagem do que era, mas o próprio Bilbo e Frodo são alvo dos ataques e sobrevivem só em função de um esforço da livre vontade. Frodo não chega a perder a razão, também a capacidade de entender, e querer, no momento em que se encontra a poder deitar na voragem do Monte Fato o anel.

O anel encerra as três concupiscências que fala S. Paulo: dos olhos, da carne e soberba de vida. Nota-se em particular na vivência de Boromir o seu desejo mórbido de apoderar-se do anel, o que o leva a agredir Frodo pronunciando palavras que podem ser remetidas às três concupiscências referidas. O olhar capaz de desvelar os pensamentos do coração, que Galadiel, a mulher de Lothorien apresenta, faz pensar na imagem que Nosso Senhor e remete ao olhar de Jesus como Palavra que penetra o mais fundo e íntimo do nosso ser (Heb.4,12). A parábola dos talentos ressoa neste esplêndido diálogo entre Frodo e Gandalf: «Desejei tanto que tudo isto não acontecesse nos meus dias», exclamou Frodo. «Também eu» anuiu Gandalf, «como todos os que vivem estes acontecimentos. Mas não nos cabe a nós escolher. Tudo o que podemos decidir é como dispor do tempo que nos é dado.»

O importante é fazer bom uso do tempo, que foge das mãos e que, para quem tem critério cristão, vale mais que ouro, porque representa uma antecipação da glória que Deus nos concederá. A Graça está presente em cada página do romance e revela-se no momento decisivo: ninguém pode arrogar-se no mérito de ter salvo a Terra Média, pois todos ofereceram o seu contributo, todos os protagonistas da obra levam os seus pães e os seus peixes, mas nenhum deles pode multiplicá-los. É a Graça que se serve do hobits e dos homens, como dos elfos e restantes, que se alimenta da piedade de Bilbo e da misericórdia de Frodo, do heroísmo de Sam e da valentia de Aragon, a jogar a última carta.

Tradução do italiano por Pe. Marco Luís.

Fonte: Documentos de Hora da Esperança

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Cinco Razões Para Sermos Gratos a Tolkien Segundo China Miéville

china-mieville.jpgO autor China Miéville, um dos maiores nomes das nova geração de autores de fantasia, publicou no dia 15 de junho em seu blog um artigo falando sobre a obra tolkieniana. Conhecido por não ter “papas na língua” ao criticar a obra de Tolkien, Miéville desta vez nos apresenta uma lista de razões pelas quais devemos ser extremamente gratos à Tolkien. Não sem antes comentar, que em sua essência nem todas as críticas ao trabalho do professor são sem fundamento. Na verdade, segundo ele, existem argumentos perfeitamente razoáveis sobre o impacto, a natureza, a escala e o sucesso do trabalho do Tolkien. Argumentos esses não somente sobre o que é lamentável em Tolkien, mas, também sobre o que é indispensável. Mas vamos deixar de lero-lero e conhecer as razões que temos, segundo Miéville, para sermos gratos a Tolkien.

A primeira razão está no fato de Tolkien esmerar-se em delinear e glorificar em sua obra a Magia Nórdica, para Miéville este era o brado que faltava para aqueles que sempre lamentaram a hegemonia dos clássicos classicistas e a falta de calor nos mitos gregos e romanos.

A Tragédia quem diria, é a segunda razão. Para Miéville ao contrário do que muitos possam achar a história tolkieniana é trágica. No final, nem todas as lágrimas nos olhos dos personagens e dos leitores são expressões de felicidade. Se por um lado, os bons ganharam, por outro a “vergonha” que a época representa contribui para diminuir a Glória. Vendo por este prisma, é impossível negar isso. Se a união de personagens tão diversas por uma causa maior demonstra a grandeza da obra, o fato dessa união ser necessária é só um fato a mais para comprovar que a decadência da Terra Média caminhava a passos largos, e sim isso é trágico!

“O episódio do Expurgo do Condado conclui bem, naturalmente, na medida em que ocorre, mas em relação à sua própria insignificância é apenas aquilo que foi, é brilhantemente insatisfatório, anunciando uma era de paródias de epopéias degradadas, onde não são apenas os elfos que vão: você não pode sequer mais obter um bom Senhor do Escuro. Qualquer que seja a visão que temos como a unidade por trás da visão trágica de Tolkien e, no entanto, dizem respeito à sua política e estética, a tragédia da desordem cotidiana da Terra Média, confere uma poderosa melancolia lamentavelmente ausente em muito do que seguiu. Isso merece ser celebrado e cultivado.” 

(…)

 “Podem falar o que quiser de Tolkien, mas o fato é que ele criou bons monstros. Shelob, Smaug, o Balrog… Com seus espantosos nomes e a descrição vivaz de suas malevolências. Ninguém mais pode descrever sobre aranhas gigantes a não ser através de Shelob, todos os dragões são agora auxiliares. E assim por diante.” 

A terceira razão está justamente aí, mas mais precisamente no Monstro na Água: o fato de Tolkien utilizar a técnica de esconder mais do que revelar é o que garante o diferencial aqui. Sabemos muito pouco sobre a criatura de muitos braços que habita o lago em Moria. E isto é o que a torna sobrenatural e fantástica, a incerteza que paira sobre a criatura só a torna mais forte e mítica.

A quarta razão remete a Alegoria. E talvez agora, os fãs mais afoitos devem estar pensando que este cara é doido afinal Tolkien sempre falou que sua obra não era alegórica e sim que possuía uma aplicabilidade variada ao pensamento e à experiência do leitor. É, é justamente por aí que Miéville passeia. Segundo ele, a obra de Tolkien é rica em metáforas. E aqui cabe explicar justamente a diferença entre alegoria e metáfora: a última é fecunda, polissêmica, geradora de significados, mas evasiva de estabilidade; a alegoria é fecunda e interessante em grande parte, até que falha. Ao negar a alegoria, Tolkien recusa a noção de que uma obra de literatura é de certa forma redutora, principalmente, exclusivamente, ou mesmo “sobre” qualquer outra coisa, de forma restritiva e precisa.

“O problema não é o fato de que a alegoria exagere inutilmente sobre o ‘significado’ de uma história ‘pura’, mas sim o fato de que ela a reduz criminalmente.
Se Tolkien iria seguir todo o caminho com este argumento não é o ponto aqui: a questão é que o seu “desagrado cordial” é absolutamente fundamental para o projeto de criação de uma ficção fantástica viva e irredutível em si, tornando a ficção digna deste nome.”

A última razão, mas não menos importante é a Subcriação:
E na falta de palavras que melhor pudessem explicar o que o termo significa, recorro às palavras de Tolkien sobre o assunto.

 “(…)A filologia foi destronada do lugar elevado que ocupava neste tribunal de inquérito. A opinião de Max Müller, a visão da mitologia como “doença da linguagem”, pode ser abandonada sem remorso. A mitologia não é nenhuma doença, porém pode adoecer, como todas as coisas humanas. Da mesma forma alguém poderia dizer que o pensamento é uma doença da mente. Estaria mais próximo da verdade dizer que as línguas, em especial as européias modernas, são uma doença da mitologia. Mas ainda assim a Linguagem não pode ser descartada. A mente encarnada, a língua e o conto são contemporâneos em nosso mundo. A mente humana, dotada dos poderes de generalização e abstração, não vê apenas grama verde, discriminando-a de outras coisas (e contemplando-a como bela), mas vê que ela é verde além de ser grama. Mas quão poderosa, quão estimulante para a própria faculdade que a produziu, foi a invenção do adjetivo: nenhum feitiço ou mágica do Belo Reino é mais potente. E isso não é de surpreender: tais encantamentos de fato podem ser vistos apenas como uma outra visão dos adjetivos, uma parte do discurso numa gramática mítica. A mente que imaginou leve, pesado, cinzento, amarelo, imóvel, veloz também concebeu a magia que tornaria as coisas pesadas leves e capazes de voar, transformaria o chumbo cinzento em ouro amarelo e a rocha imóvel em água veloz. Se era capaz de fazer uma coisa, podia fazer a outra, e inevitavelmente fez ambas. Quando podemos abstrair o verde da grama, o azul do céu e o vermelho do sangue, já temos o poder de um encantador em um determinado plano, e o desejo de manejar esse poder no mundo externo vem a nossa mente. Isso não significa que usaremos bem esse poder em qualquer plano. Podemos pôr um verde mortal no rosto de um homem e produzir horror, podemos fazer reluzir a rara e terrível lua azul, ou podemos fazer com que os bosques irrompam em folhas de prata e os carneiros tenham pelagem de ouro, e pôr o fogo quente no ventre do réptil frio. Mas numa “fantasia”, tal como a chamamos, surge uma nova forma: o Belo Reino vem à tona, o Homem se torna subcriador.
Assim, um poder essencial do Belo Reino é o de tornar as visões da “fantasia” imediatamente efetivas através da vontade. Nem todas são belas, nem mesmo salutares, certamente não as fantasias do Homem decaído. E ele maculou os elfos que têm esse poder (em verdade ou fábula) com sua própria mácula. Este aspecto da “mitologia” – a subcriação, não a representação ou interpretação simbólica das belezas e dos terrores do mundo – é muito pouco considerado, em minha opinião. (…)”

J. R. R. Tolkien
Sobre Histórias de Fadas, pp. 28-29.

Que a Terra Média não foi o primeiro mundo a ser inventado é sabido. Mas a forma como esse mundo é encarado e gerido é o que representa a revolução. Anteriormente, era consenso que o mundo mágico tinha papel secundário para o enredo. Tolkien foi o arauto do que se mostrou uma inversão extraordinária: o mundo vem primeiro, e só então as histórias ocorrem, dentro dele. Quer se comemore ou lamente este fato, esta forma de abordagem literária é incrivelmente poderosa.

Miéville finaliza o seu artigo da seguinte forma:

“Nunca faltam elogios à Tolkien, mas isso não é razão para não repetir aqueles mais merecidos, ou, mais ainda, de salientar a razões negligenciadas por justificados e fervorosos elogios.”

Talvez Miéville ainda não tenha se dado conta, mas parece-me que ele também já está sendo “fisgado” pela obra do professor. E ter um autor reconhecido elogiando a obra tolkieniana não pelos aspectos aos quais estamos mais acostumados e sim por outros menos alardeados é sem dúvida nenhuma muito representativo.

Algumas informações sobre o autor:
China Miéville é inglês, escritor de ficção fantástica e membro do Partido Socialista Operário. É autor dos romances Rei Rato, Perdido Street Station, The Scar e Iron Council. Pertence a um grupo de escritores por vezes chamado de Weird Fiction (“Ficção Estranha”), os quais conscientemente tentam manter-se longe das fantasias do gênero Tolkien.

Vocês podem ler o artigo de China Miéville na íntegra em seu blog Omnivoracious

Fontes:
Tolkien Library
J.R.R. Tolkien. Sobre Histórias de Fadas. pp. 28-29.

Obras de Tolkien vira tema de estudo em psicanálise.

Este trabalho se originou da clínica com sujeitos adolescentes e de suas elaborações durante o processo de análise e da leitura da obra de J.R.R Tolkien "O Senhor dos Anéis". Não é pretensão interpretar ou fazer uma análise desse livro ou do seu filme, mas pontuar as identificações dos adolescentes com as situações vividas pelos atores, articular a ficção de Tolkien com a adolescência e demonstrar como a escuta do psicanalista pode propiciar ao sujeito a capacidade de criar nesse período "em que impera a masturbação e a morgação".

 

  A clínica da vintolescência1, 2

Gladston dos Santos Silva – Grupo de Estudos Psicanalíticos – Grep

RESUMO

Articula a ficção de Tolkien em "O Senhor dos Anéis" com a adolescência e reflete como o psicanalista pode causar o sujeito, estimulando a capacidade de criação nesse momento "em que impera a masturbação e a morgação".

Palavras-chave: Sexualidade infantil, Adolescência, Falo, Pulsão repetição, Gozo, Inconsciente, Clínica psicanalítica.

ABSTRACT

This text presents an articulation between the book The Lord of the Rings, written by Tolkien, and the adolescence. Likewise, it is discussed how a psychoanalyst may cause the subject, stimulating his or her capacity of creation in a period that masturbation and "morgação" make a kingdom.

Keywords: Infantile sexuality, Adolescence, Phallus, Instinct, Repetition, Enjoyment, Unconscious, Psychoanalytic practice.

Este trabalho se originou da clínica com sujeitos adolescentes e de suas elaborações durante o processo de análise e da leitura da obra de J.R.R Tolkien "O Senhor dos Anéis".  Não é pretensão interpretar ou fazer uma análise desse livro ou do seu filme, mas pontuar as identificações dos adolescentes com as situações vividas pelos atores, articular a ficção de Tolkien com a adolescência e demonstrar como a escuta do psicanalista pode propiciar ao sujeito a capacidade de criar nesse período "em que impera a masturbação e a morgação"3.

Nesta articulação privilegiaremos a noção de falo, conceito central na teoria psicanalítica.

Com a estréia do filme em Belo Horizonte, iniciou-se na fala dos adolescentes comentários sobre "a sociedade dos anéis, a expedição de Bilbo e o encontro do ‘Um anel’, as dificuldades e aventuras vividas por Frodo em sua viagem com o ‘Um anel’, as mulheres maravilhosas, e os seus encontros com os homens. As identificações com o mago Gandalf, com o Elfos Légolas e até mesmo com o repugnante Gollum".

" O Senhor dos Anéis" é uma obra de ficção de John Ronald Reuel Tolkien. É alternadamente cômica, singela, épica, monstruosa e diabólica. A narrativa desenvolve-se em meio a inúmeras mudanças de cenário e de personagens num mundo imaginário absolutamente convincente em seus detalhes.

  Tolkien criou uma nova mitologia, um mundo inventado que demonstra possuir um poder de atração atemporal. Tanto o filme quanto a adolescência retratam uma travessia, na qual os aventureiros se confrontam com perigos de todas as ordens. No filme são os Trolls, Orcs, Elfos, Dragões, etc. Na adolescência são as mudanças fisiológicas produzidas na puberdade. O corpo em transformação prepara-se para exercer a função de reprodução, o encontro com o outro sexo, o novo posicionamento no mundo onde os adolescentes devem desligar-se dos modelos identificatórios da infância, assumir o seu desejo, por sua própria conta e risco e, marcar sua entrada no mundo adulto. Em nossa cultura essa passagem é um verdadeiro enigma.

Segundo Freud, o sofrimento humano acontece no corpo, no mundo externo e nas relações com os outros. Na adolescência, esse sofrimento ocorre intensamente, já que acomete as três esferas simultaneamente. Tanto o filme quanto a adolescência são reedições do passado. Para melhor compreensão do filme "O Senhor dos Anéis" é necessário ler "O Hobbit", livro precursor da tríade. Ele retrata a saída de Bilbo (tio de Frodo) do conforto do Condado, chegando até a montanha solitária em busca do tesouro perdido, passando por momentos de grande perigo. Bilbo encontra "Um anel" que, ao ser colocado no dedo, o deixa invisível. O filme começa com Frodo recebendo das mãos do tio esse anel, que lhe dá o poder de tornar-se invisível, o que o retira do campo de visão do outro fazendo o adolescente acreditar que tem o falo.

Em 1905, nos "Três Ensaios", Freud elabora a sexualidade infantil abrindo um amplo leque que decide o futuro de toda sexualidade humana. "Portanto, o que se dá na adolescência em parte já vem pré-formado nas etapas anteriores, ou seja, na infância, na latência e na puberdade"4. Nessa situação de conflito, nada melhor do que lançar mão de um objeto que torne o sujeito pleno, completo, perfeito e total. A noção de falo aparece tardiamente em Freud, no texto "A Organização Genital Infantil" (1923), na qual a "característica principal dessa organização genital infantil é sua diferença da organização genital do adulto. Ela consiste no fato de, para ambos os sexos, entrar em consideração apenas um &oac
ute;rgão genital, ou seja, o masculino. O que está presente, portanto, não é uma primazia dos órgãos genitais, mas uma primazia do falo"
5.Foi com Lacan, em "A significação do Falo",(1958), que a noção dele adquire um status central na teoria psicanalítica: "O falo é um significante, um significante cuja função, na economia intrasubjetiva da análise, levanta, quem sabe, o véu daquela que ele mantinha envolta em mistérios. Pois ele é o significante destinado a designar, em seu conjunto, os efeitos de significado, na medida em que o significante os condiciona por sua presença de significante"6.

Em 1972-1973 no Seminário Mais, Ainda, Lacan elabora o conceito falo em duas vertentes: função fálica e gozo fálico. Segundo ele a primeira, é a que inaugura a falta. Para a criança, ter o amor e a atenção da mãe é muito "precioso". Ela descobre que não é tudo para a mãe, que não pode completá-la, e que sua mãe deseja algo além dela. O falo aponta sempre para esse lugar vazio. Ela, portanto, é o significante da falta, é aquilo que vetoriza o desejo da mãe e da criança, que regula o ser ou não ser, o ter ou não ter. O gozo fálico é aquilo que sai do corpo e vai pela via do significante, delimitando o prazer do homem e marcando o desencontro entre os sexos.

Percebemos, portanto, que o conceito de falo implica um critério de valor. O sujeito dá um valor fálico a determinados objetos.  Hugo Bleichmar, em Introdução ao Estudos das Perversões, cita uma metáfora, tomada de Lacan, para ilustrar a relação de poder entre as pessoas: é a brincadeira de passar o anel. "O valor que toma uma das pessoas no jogo depende do lugar onde o anelzinho esteja escondido. Este é o que determina que pessoa adquire um valor especial. As pessoas em si, pelo que são, não se diferenciam umas das outras em relação ao jogo. Só pelo fato de que cai em poder de uma delas, o anelzinho adquire um status particular"7.Tanto no filme quanto na adolescência os personagens lutam para defender o anel. "O um anel – para a todos dominar"

8. Anel como representante do falo. Em sua última jornada, Frodo chega na montanha da perdição. Reivindica o anel para si e o coloca no dedo. Gollum rouba-lhe o anel: "precioso, precioso, precioso! gritava Gollum. Meu precioso! O meu precioso! E assim, no momento em que erguia os olhos para se regozijar com sua presa, deu um passo grande demais, tropeçou, vacilou por um momento na beirada, e então com um grito agudo caiu. Das profundezas chegou seu último gemido, precioso, e então ele se foi"9."Bem, este é o fim, (…). E ali estava Frodo, pálido e exausto, e apesar disso era Frodo novamente; agora em seus olhos só havia paz; nem luta de vontade, nem loucura, nem qualquer temor. Seu fardo fora levado"10.

Na adolescência o sujeito oscila entre Ser ou não Ser e Ter ou não Ter o falo. Ser o filhinho da mamãe, ter um futuro promissor, uma profissão, se dar bem na vida ou só ter tamanho.

" Ora minha mãe me trata como criança, ora como adulto. Não sou criança nem adulto. Acho que não sou nada" (Relato de um adolescente). Essa oscilação própria do sujeito adolescente o deixa confuso na elaboração de seu desejo.

Ao analista cabe manejar a transferência, causando a continuidade do discurso, propiciando ao sujeito suportar melhor suas frustrações, diminuir suas identificações, tornando o objeto menos enganador.

Em análise percebem que não têm o anel, nem o cajado poderoso de Gandalf. Não são bonitos como Legolas nem horríveis como Gollum, são sujeitos de desejo, portanto, seres de falta.

O filme acaba, a adolescência fica na lembrança, como uma jornada repleta de fantasmas e monstros, e o sujeito percebe que "mancar não é pecado".

Bibliografia

BLEICHMAR, Hugo. Introdução ao estudo das perversões: a teoria do Édipo em Freud e Lacan. Trad. Emilia de Oliveira Diehl. Porto Alegre: Artes Médicas, 1984.

FINK, Bruce. O sujeito lacaniano. Entre a linguagem e o gozo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

FREUD, Sigmund. Os três ensaios sobre a teoria da sexualidade. ESB, v.XII. Rio de Janeiro: Imago,1990.

FREUD, Sigmund. A organização genital infantil: uma interpolação da teoria da sexualidade. ESB, v.XIX. Rio de Janeiro: Imago,1990.

LACAN, Jacques. Lacan. A significação do falo. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. 937 p.

LACAN, Jacques. O seminário, livro 20: mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985. 201p.

NASIO, Juan-David. Cinco lições sobre a teoria de Jacques Lacan. Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1993.

NASIO, Juan-David. Lições sobre os 7 conceitos cruciais da psicanálise. Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988.

TOLKIEN, J.R.R. O senhor dos anéis. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

TOLKIEN, J.R.R. O Hobbit. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

SILVA, Gladston dos Santos. O que fica no ficar do Adolescente. Vorstellung, ano 3, n. 3, maio 1999/2000. Publ. do Grupo de Estudos Psicanalíticos – Grep.

1 Vintolescência foi o termo usado por Tolkien, autor de "O Senhor dos Anéis", para nomear "os anos irres
ponsáveis entre a infância e a maioridade".

2 O ensaio que originou este trabalho foi apresentado na jornada do GREP em out. 2002.
3 Termo usado por um adolescente para expressar o "ficar à toa, o não fazer nada, a inutilidade".
4 SILVA, Gladston dos Santos. O que fica no ficar do Adolescente. Rev. Vorstellung, ano 3, n. 3, maio 1999/2000. p. 55. Publ. do Grupo de Estudos Psicanalíticos – Grep.
5 FREUD, Sigmund. A organização genital infantil: uma interpolação na teoria da sexualidade. ESB. V XIX, 1990, p.180.
6 LACAN, Jacques. A significação do falo. In: Escritos, 1998, p. 697.
7 BLEICHMAR, Hugo. Introdução ao estudo das perversões: a teoria do Édipo em Freud e Lacan, 1984, P. 19.
8 Filme O Senhor dos Anéis – A sociedade do Anel. Baseado no livro de J.R.R Tolkien, dirigido por Peter Jackson, 2002.
9 TOLKEEN, J.R.R. O Senhor dos Anéis, 2002, p.1003.
10 Idem.

Fonte: Círculo Psicanalítico de Minas Gerais – www.pepsic.bvs-psi.org.br

 " Só Tolkien explica."

Os Senhores da Tradução!

A partir do estudo de versões do livro O senhor dos anéis em língua portuguesa, dissertação mostra como os tradutores também imprimem sua personalidade no texto que produzem. Analisar os numerosos fatores envolvidos na tradução de uma obra literária, levando em conta a perspectiva de uma consagrada tradutora, é o objetivo da dissertação de mestrado de Patrícia Mara da Silva. A pesquisa, intitulada O senhor dos anéis – a tradutora na obra traduzida, foi apresentada ao Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas da UNESP, campus de São José do Rio Preto.

 

  O estudo foi orientado pela docente Cristina Carneiro Rodrigues e focaliza a tradução feita do inglês para o português por Lenita Maria Rímoli Esteves do livro The lord of the rings (O senhor dos anéis), do escritor John Ronald Reuel Tolkien. Para Patrícia, o tradutor está inevitavelmente presente no texto que produz. "Meu trabalho, ao identificar como isso ocorre, promove uma aproximação entre a reflexão teórica sobre a tradução e a prática efetiva dos tradutores", diz.

Para isso, partiu de entrevistas fornecidas por Lenita à imprensa e trabalhos teóricos da tradutora, entre eles sua dissertação de mestrado, intitulada As bruxas de Macbeth no ‘original’ e em quatro traduções brasileiras: a inquisição das diferenças (1992) e a tese de doutorado A (im)possível tradução de Finnegans Wake: uma investigação psicanalítica (1999), ambas concluídas na Unicamp. Patrícia comparou, ainda, a tradução de Lenita de O senhor dos anéis e as realizadas por Antônio Ferreira da Rocha (livros 1 e 2) e Luiz Alberto Monjardim (livros 3 a 6), para a primeira publicação brasileira da obra, lançada entre 1974 e 1979.

O desafio dos nomes

Lenita traduziu o texto em prosa de O senhor dos anéis (os versos foram traduzidos por Almiro Pisetta) com a revisão técnica de Ronald Kyrmse, especialista nos escritos de J. R. R. Tolkien. Quando questionada a respeito de problemas e/ou desafios que a linguagem do autor lhe oferecia, ela mencionou principalmente os nomes de personagens e lugares. Nesse aspecto, a tradutora deixa claro que seguiu as "diretrizes sugeridas" por Tolkien em Guide to the names in ‘The Lord of the Rings’ (Guia de nomes em ‘O Senhor dos Anéis’), em que o escritor explica a origem desses nomes e sugere como eles devem ser traduzidos. "Pude então constatar que foi desenvolvido ali um trabalho de invenção filológica bastante acurado", conta Lenita.

Tolkien enfatiza que os significados que ele atribui aos nomes em seu livro podem e devem ser preservados pelos tradutores. "Lenita disse que pôde evitar e corrigir, graças ao livro, muitas associações que poderiam ser equivocadas", informa a pesquisadora do Ibilce. É o caso da tradução de gladden fields. A expressão não se relaciona com o termo glad ("alegre"), como se poderia pensar. Tolkien explica que glad ou gladden se origina de glaedene, do inglês arcaico, e corresponde à flor-de-lis, comum nos escudos e insígnias medievais. "Portanto, traduzir gladden fields por ‘campos alegres’, como fez a tradução portuguesa, cria uma inconsistência para a história, já que tais campos foram alvo de uma das mais sangrentas batalhas de toda a narrativa", analisa a pesquisadora do Ibilce. "Lenita optou por ‘Campos de Lis’."

Tolkien, portanto, apresenta vários nomes e suas respectivas etimologias, remetendo à língua inglesa, a outras línguas germânicas e a línguas criadas por ele mesmo, como o quenya e o sindarin. Também fornece indicações de como esses nomes devem ser traduzidos.

Resíduos da tradução

Na maioria dos casos, Lenita seguiu as instruções de Tolkien. É o caso de Magote, hobbit que vivia na região do Pântano, cujo nome no texto original é Maggot, palavra que, em inglês, pode significar larva de mosca ou inseto. Em seu guia, entretanto, o escritor explica que esse nome não era para ter sentido algum a não ser soar como um nome de hobbit. Por acidente, maggot é uma palavra de língua inglesa. Sendo assim, não deve, para o autor, ser traduzido. Sem as instruções de Tolkien, a tradutora poderia ter passado o nome do fazendeiro por "Larva" ou qualquer outra coisa do tipo. No entanto, seguindo o guia, Lenita traduziu o nome por "Magote". "Apenas o adaptou à língua portuguesa por meio da omissão de uma letra ‘g’ e do acréscimo de uma letra ‘e’ no fim do nome", explica Patrícia.

Em outros casos, a tradutora seguiu a sua própria interpretação. É o caso de "Buckland", lugar onde moram os hobbits da família Brandebuques. Tolkien declara que esse nome deve conter a palavra buck (animal) ou o inglês arcaico bucc ("veado macho") ou bucca ("bode"), embora Buckland, um nome de lugar em inglês, seja derivado de "bookland", terra originalmente mantida graças a um documento oficial. Nesse caso, Lenita traduz Buckland por "Terra dos Buques". Segundo Patrícia, essa opção buscou preservar o som de buck e a idéia de land ("terra"). "O nome Terra dos Buques, no entanto, possibilita a leitura de que esse era um lugar em que moravam os Buques, o que não procede, já que os habitantes do lugar eram os Brandebuques", comenta.

A autora da dissertação aponta também os "resíduos singulares" do processo de tradução. "São ocorrências que mostram a presença do tradutor na tradução. Percebe-se a sua existência quando se faz o cotejo do original com a tradução ou quando se tem acesso a uma outra tradução do mesmo original", afirma. Como exemplo, Patrícia cita um trecho do prólogo do livro. Os hobbits são descritos como inclined to be fat. Na tradução de Antônio Ferreira da Rocha, aparecem como tendo "certa propensão à obesidade" e, na tradução de Lenita, surgem com "tendência a acumular gordura na barriga". "Essa pequena diferença – a localização da gordura – não constitui um erro, mas acrescenta ao original uma informação que não pode ser a ele atribuída", diz a autora do mestrado.

A pesquisa apresentada no Ibilce, em síntese, concebe a tradução como produção de conhecimento, não como uma forma mecânica de transporte neutro de significados de uma língua para outra. "O tradutor inevitavelmente interfere no jogo de tradução de um texto de uma língua para outra", conclui Patrícia.

Fonte: UNESP – Oscar D’Ambrosio