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Ambarkanta

Ambarkanta

Ao redor de todo o Mundo estão as Ilurambar [1], ou as Muralhas do Mundo. Elas são como gelo, vidro e aço, estando acima de toda a imaginação dos Filhos da Terra, frias, transparentes e duras. Elas não podem ser vistas, nem podem ser transpostas, exceto pela Porta da Noite.

Dentro destas muralhas a Terra está situada: acima, abaixo e em todos os lados está Vaiya, o Oceano Envolvente. Mas ele é mais como o mar abaixo da Terra e mais como o ar acima dela. Em Vaiya abaixo da Terra mora Ulmo. Acima da Terra situa-se o Ar, que é chamado Vista, e sustenta pássaros e nuvens. Por esse motivo ele é chamado acima Fanyamar, ou Casa de Nuvens; e abaixo Aiwenórë ou Terra dos Pássaros. Mas este ar situa-se apenas sobre a Terra-média e os Mares Interiores, e seus limites são as Montanhas de Valinor no Oeste e as Muralhas do Sol no Leste. Por este motivo as nuvens raramente chegam a Valinor, e os pássaros mortais não passam para além dos picos de suas montanhas. Mas no Sul, onde há principalmente frio e escuridão, e a Terra-média extende-se próxima às Muralhas do Mundo, Vaiya, Vista e Ilmen sopram juntos e confundem-se mutuamente.

Ilmen é aquele ar que, sendo límpido e puro, é impregnado de luz, embora não a emane. Ilmen fica acima de Vista, e não é grande em profundidade, porém é mais profundo no Oeste e no Leste, e menor no Norte e no Sul. Em Valinor o ar é Ilmen, mas Vista sopra ocasionalmente, especialmente em Casadelfos, parte da qual está na base oriental das Montanhas; e se Valinor é obscurecida e seu ar não é purificado pela luz do Reino Abençoado, ele toma a forma de sombras e névoas cinzentas. Mas Ilmen e Vista misturar-se-ão como sendo um só, porém Ilmen é respirado pelos Deuses, e purificado pela passagem astros; pois em Ilmen Varda decretou o curso das estrelas, e mais tarde do Sol e da Lua.

De Vista não há como sair nem como fugir, exceto para os servos de Manwë, ou para aqueles aos quais ele concede poderes como os de seu povo, que podem sustentar-se em Ilmen ou mesmo em Vaiya superior, que é muito tênue e frio. De Vista pode-se descer para a Terra-média. De Ilmen, pode-se descer para Valinor. Ora, a terra de Valinor estende-se quase até Vaiya, que é mais estreito no Oeste e Leste do Mundo, mas mais profundo no Norte e no Sul. As costas ocidentais de Valinor não estão, portanto, muito longe das Muralhas do Mundo. Contudo, há um abismo que separa Valinor de Vaiya, e ele é preenchido por Ilmen, e por este caminho pode-se descer de Ilmen acima da terra para as regiões inferiores, às raizes da Terra, e para as cavernas e grutas que estão nas fundações das terras e mares. Lá é o lugar de permanência de Ulmo. De lá originam-se as águas da Terra-média. Pois estas águas são compostas por Ilmen, Vaiya e Ambar [que significa Terra], uma vez que Ulmo funde Ilmen e Vaiya e envia-os através dos veios do Mundo para purificar e renovar os mares e rios, os lagos e as fontes da Terra-média. E as águas correntes possuem assim a memória das profundezas e das alturas, e guardam um pouco da sabedoria e música de Ulmo, e da luz dos astros do céu.

Nas regiões de Ulmo as estrelas algumas vezes estão escondidas, e lá a Lua frequentemente vaga e não é vista da Terra-média. Mas o Sol não se demora lá. Ela [2] passa sob a terra às pressas, a fim de que a noite não se prolongue e o mal se fortaleça; ela é puxada através do Vaiya inferior pelos servos de Ulmo, sendo aquecida e preenchida com vida. Assim os dias são medidos pelas rotas do Sol, que navega de Leste a Oeste através do Ilmen inferior, ocultando as estrelas; ela passa sobre o centro da Terra-média sem se deter, e muda seu curso em direção ao norte ou para o sul, não caprichosamente, mas devido à rota e à estação. E quando ela ergue-se acima das Muralhas do Sol é a Aurora, e quando mergulha atrás das Montanhas de Valinor, é o Anoitecer.

Mas os dias em Valinor são diferentes dos da Terra-média. Pois lá a hora de maior luz é o Anoitecer. Então o Sol desce e repousa por algum tempo na Terra Abençoada, deitando-se no seio de Vaiya. E quando ela penetra em Vaiya, o mesmo torna-se ardente e fulgura com um fogo róseo, e por um longo tempo ilumina aquela terra. Mas a medida em que ela passa em direção ao Leste o fulgor desvanece, e Valinor é privada de luz, e é iluminada apenas pelas estrelas; e então os Deuses muito se lamentam pela morte de Laurelin. Ao amanhecer, a escuridão é profunda em Valinor, e as sombras de suas montanhas estendem-se pesadamente sobre as mansões dos Deuses. Mas a Lua não se demora em Valinor, e passa rapidamente sobre ela para mergulhar no abismo de Ilmen, pois ele sempre persegue o Sol, e raramente a alcança, quando então é consumido e obscurecido em sua chama. Mas às vezes acontece de ele chegar sobre Valinor antes de o Sol ter partido, e então desce e encontra sua amada, e Valinor é preenchida com uma luz mesclada tal qual prata e ouro; e os Deuses sorriem lembrando-se da fusão da Laurelin e Silpion há muito tempo atrás.

A Terra de Valinor inclina-se para baixo a partir do sopé das Montanhas, e sua costa ocidental está no nível do fundo dos mares interiores. E não longe dali, como foi dito, estão as Muralhas do Mundo; e no sentido oposto à costa mais ocidental no centro de Valinor está Ando Lómen, a Porta da Noite Eterna que penetra as Muralhas e abre-se para o Vazio. Pois o Mundo encontra-se em meio a Kúma, o Vazio, a Noite sem forma ou tempo. Mas ninguém pode ultrapassar o abismo e a região de Vaiya e chegar àquela Porta, exceto unicamente os grandes Valar. E eles fizeram aquela porta quando Melko foi sobrepujado e colocado na Escuridão Exterior; e ela é guardada por Eärendel [3].

A Terra-média situa-se no meio do Mundo, e é composta de terra e água; sua superfície é o centro do mundo, das fronteiras do Vaiya superior aos confins do inferior. Antigamente assim era a sua forma. Era mais elevada no centro, decaindo de cada lado em vastos vales, mas ergue-se novamente no Leste e Oeste, mais uma vez decaindo para o abismo em suas bordas. Os dois vales eram preenchidos com a água primordial, e as costas destes antigos mares eram no Oeste as regiões montanhosas mais ocidentais e a borda da grande terra, e no Leste as regiões montanhosas e a borda da grande terra sobre o outro lado. Mas ao Norte e ao Sul ela não decaía, e podia-se ir por terra do extremo Sul do abismo de Ilmen ao extremo Norte do mesmo. Os mares antigos, portanto, situam-se em canais, e suas águas não vertiam para o Leste ou Oeste; mas eles não possuíam costas tanto ao Norte como ao Sul, vertiam para o abismo, e suas cachoeiras tornavam-se gelo e pontes de gelo por causa do frio; de forma que o abismo de Ilmen era aqui fechado e pontificado, e o gelo estendia-se ao Vaiya, e até as Muralhas do Mundo.

Ora, é dito que os Valar, entrando no Mundo, desceram primeiro sobre a Terra-média no seu centro, exceto Melko, que desceu no Norte distante. Mas os Valar pegaram uma porção de terra e criaram uma ilha, consagrando-a, e a colocaram no Mar Ocidental e permaneceram nela, enquanto estavam ocupados na exploração e na primeira disposição do Mundo. Como é contado, eles desejaram criar lamparinas, e Melko ofereceu-se para desenvolver uma nova substância de grande força e beleza para seus pilares. Ele levantou estes grandes pilares ao norte e ao sul do centro da Terra, mesmo assim mais perto dele do que o abismo; os Deuses colocaram lamparinas sobre eles, e a Terra teve luz durante algum tempo.

Mas os pilares foram criados com falsidade, sendo talhados em gelo; eles derreteram e as lamparinas caíram em ruína, e sua luz foi derramada. Mas o derretimento do gelo criou dois pequenos mares interiores, ao norte e sul do centro da Terra, e havia uma terra setentrional, uma terra central e uma terra meridional. Então os Valar retiraram-se para o Oeste e abandonaram a ilha; sobre a região montanhosa na margem ocidental do Mar do Oeste, eles elevaram grandes montanhas, e atrás delas criaram a terra de Valinor. Mas as montanhas de Valinor curvam-se para trás, e Valinor é mais ampla no centro da Terra, onde as montanhas andam ao lado do mar; e ao norte e ao sul, as montanhas nivelam-se em direção ao abismo. Há duas regiões da Terra Ocidental que não pertencem à Terra-média e, apesar disso, são exteriores às montanhas: elas são sombrias e vazias. A situada ao Norte é Eruman, e aquela ao Sul é Arvalin [4]; há apenas um desfiladeiro estreito entre elas e as extremidades da Terra-média, mas este desfiladeiro é preenchido com gelo.

Para sua proteção posterior, os Valar empurraram a Terra-média no seu centro e comprimiram-na em direção ao leste, de forma que ela foi encurvada, e o grande mar do Oeste é muito amplo no centro, a mais vasta de todas as águas da Terra. A forma da Terra no Leste era muito semelhante àquela no Oeste, exceto pelo estreitamento do Mar Oriental, e o deslocamento da terra naquela direção. E além do Mar Oriental situa-se a Terra Oriental, da qual pouco sabemos, e é chamada a Terra do Sol; ela possui
montanhas, menores do que as de Valinor, mas ainda assim muito grandes, que são as Muralhas do Sol. Em razão da queda da terra, estas montanhas não podem ser vistas, exceto pelos pássaros que voam às maiores altitudes, através dos mares que as divide das costas da Terra-média.

E o afastamento da terra também ocasionou o aparecimento de montanhas em quatro direções, duas na Terra do Norte e duas na Terra do Sul; aquelas no Norte eram as Montanhas Azuis no lado ocidental, e as Montanhas Vermelhas no lado oriental; e no Sul eram as Montanhas Cinzentas e as Amarelas. Porém Melko fortificou o Norte e lá ergueu as Torres Setentrionais, que também são chamadas de Montanhas de Ferro, e elas voltavam-se para o sul. E na terra central havia as Montanhas de Vento, pois lá um vento fortemente soprava vindo do Leste antes do Sol; e Hildórien, a terra onde os Homens primeiro despertaram, situa-se entre estas montanhas e o Mar Oriental. Mas Kuiviénen [5], onde Oromë encontrou os Elfos, está ao Norte junto às águas de Helkar.

Mas a simetria da antiga Terra foi mudada e partida na primeira Batalha dos Deuses, quando Valinor marchou contra Utumno, que era a fortaleza de Melko, e Melko foi acorrentado. Então o mar de Helkar [que era a lâmpada setentrional] tornou-se um mar interior ou grande lago, mas o mar de Ringil [6] [que era a lâmpada meridional] tornou-se um grande mar fluindo de norte a leste e unindo por canais tanto o Mar Ocidental como o Oriental.

E a Terra foi novamente partida na segunda batalha, quando Melko foi mais uma vez deposto, e ela modificou-se ainda mais pela a deterioração e o passar de muitas eras. Mas a maior mudança ocorreu quando a Forma Primordial foi destruída, e a Terra foi arredondada e separada de Valinor. Isto aconteceu nos dias do ataque dos Númenoreanos sobre a terra dos Deuses, como é contado nas Histórias. E desde aquele tempo o mundo tem esquecido as coisas que haviam anteriormente, e os nomes e as lembranças das terras e águas de antigamente pereceram.

Notas:

[1] O presente texto pertence aos primórdios da mitologia tolkieniana, sendo escrito por volta de 1930. Muito foi modificado pelo próprio Tolkien [alguns pontos mais de uma vez] antes da publicação do Silmarillion, em 1977, editado por seu filho Christopher. Muitos nomes foram deixados de lado, outros sofreram alterações, como é o caso de Ilurambar, forma primitiva de Eärambar. [N. do T.]

[2] No decorrer do texto, Tolkien refere-se ocasionalmente ao sol como “ela” e à lua como “ele”, por ambos serem conduzidos por seus respectivos maiar: Arien [a maia do sol], e Tilion [o maia da lua]. [N. do T.]

[3] Formas primitivas de Melkor e Eärendil respectivamente. [N. do T.]

[4] Formas primitivas de Araman e Avathar respectivamente. [N. do T.]

[5] Forma primitiva de Cuiviénen. [N. do T.]

[6] Formas primitivas de Illuin e Ormal respectivamente. [N. do T.]

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Athrabeth Finrod ah Andreth

O famoso Diálogo de Finrod e Andreth, através do qual muito se sabe do relacionamento entre os Filhos de Eru, seus passados e futuros.

Da Morte e dos Filhos de Eru, e da Desfiguração dos Homens – O Diálogo [1] de Finrod e Andreth

Ora, os Eldar descobriram que, de acordo com a tradição dos Edain, os Homens acreditavam que seus hröar não eram por natureza justa de vida curta, mas haviam se tornado assim pela malícia de Melkor. Não estava claro para os Eldar o que os Homens queriam dizer: se pela desfiguração em geral de Arda [a qual eles próprios sustentavam ser a causa do desvanecimento de seus próprios hröar]; ou por alguma malícia especial contra os Homens enquanto Homens que havia sido perpetrada nas eras escuras antes que os Edain e os Eldar se encontrassem em Beleriand; ou por ambos. Mas aos Eldar parecia que, se a mortalidade dos Homens viera por malícia especial, a natureza dos Homens havia sido tristemente modificada em relação ao desígnio primeiro de Eru; e isto era matéria de assombro e terror para eles pois, se assim de fato era, então o poder de Melkor devia ser [ou deveria ter sido no princípio] muito maior do que até mesmo os Eldar haviam compreendido; enquanto a natureza original dos Homens devia ter sido de fato estranha, e diferente da de qualquer um dos outros habitantes de Arda.

A respeito dessas coisas está registrado na antiga tradição dos Eldar que certa vez Finrod Felagund e Andreth, a mulher-sábia, debateram em Beleriand há muito tempo. Essa história, que os Eldar chamam de Athrabeth Finrod ah Andreth, é aqui dada numa das formas em que foi preservada.

Finrod [filho de Finarfin, filho de Finwë] era o mais sábio dos Noldor exilados, estando mais preocupado que todos os outros com assuntos do pensamento [ao invés de com a criação ou a habilidade das mãos]; e ele era ávido, além disso, por descobrir tudo o que pudesse a respeito da raça humana. Foi ele o primeiro a encontrar os Homens em Beleriand e travar amizade com eles; e por essa razão era muitas vezes chamado pelos Eldar Edennil, “o Amigo dos Homens”. Seu maior amor era dado ao povo de Bëor, o Velho, pois foram estes os que ele primeiro encontrou nos bosques de Beleriand Oriental.

Andreth era uma mulher da Casa de Bëor, a irmã de Bregor, pai de Barahir [cujo filho foi Beren Uma-mão, o renomado]. Ela era sábia em pensamento, e versada nas tradições dos Homens e em suas histórias; razão pela qual os Eldar a chamavam Saelind, “Coração-sábio”.

Entre os Sábios alguns eram mulheres, e elas eram grandemente estimadas entre os Homens, especialmente por seu conhecimento das lendas dos dias antigos. Outra mulher-sábia era Adanel, irmã de Hador Lórindol, em certa época Senhor do Povo de Marach, cujos conhecimentos e tradições, e também cuja língua, eram diferentes dos do Povo de Bëor. Mas Adanel era casada com um parente de Andreth, Belemir da Casa de Bëor: ele era avô de Emeldir, mãe de Beren. Em sua juventude Andreth habitara por longo tempo na casa de Belemir, e assim aprendera de Adanel muito da tradição do Povo de Marach, além da tradição de seu próprio povo.

Nos anos de paz antes que Melkor quebrasse o Cerco de Angband, Finrod visitava freqüentemente Andreth, a quem amava em grande amizade, pois ele a achava mais pronta a compartilhar seu conhecimento com ele do que a maioria dos Sábios entre os Homens. Uma sombra parecia jazer sobre eles, e havia uma escuridão atrás deles, sobre a qual eram avessos a falar mesmo entre eles próprios. E eles se intimidavam com a majestade dos Eldar, e não revelariam facilmente a estes seu pensamento ou suas lendas. De fato, os Sábios entre os Homens [que eram poucos] em sua maioria mantinham sua sabedoria secreta, e a revelavam apenas àqueles a quem escolhiam.

Ora, aconteceu que num tempo de primavera [2] Finrod era hóspede na casa de Belemir; e ele passou a conversar com Andreth, a mulher-sábia, sobre os Homens e seus destinos. Pois naquele tempo Boron, Senhor do Povo de Bëor, tinha acabado de morrer logo depois de Yule, e Finrod estava entristecido.

“Triste para mim, Andreth”, ele disse, “é a passagem rápida de vosso povo. Pois agora Boron, pai de vosso pai [3], partiu; e embora ele fosse velho, como dizeis, conforme são as idades entre os Homens [4], eu o conheci, contudo, brevemente demais. De fato, me parece ter sido há pouco tempo que vi [5] Bëor no leste desta terra, e contudo agora ele se foi, e seus filhos, e também o filho de seu filho.”

“Agora já faz mais de cem anos”, disse Andreth, “desde que viemos do outro lado das Montanhas; e Bëor e Baran e Boron viveram cada um além de seu nonagésimo ano. Nossa passagem era mais rápida antes que encontrássemos esta terra.”

“Então estais contentes aqui?”, disse Finrod.

“Contentes?”, disse Andreth. “Nenhum coração dos Homens está contente. Toda passagem e morte é uma dor para ele; mas, se o murchar não acontece tão cedo, então isso é alguma melhora, uma pequena suspensão da Sombra”.

“O que quereis dizer com isso?”, disse Finrod.

“Certamente o sabeis bem!”, disse Andreth. “A Escuridão que está agora confinada no Norte, mas que uma vez”; e aqui ela parou e seus olhos se escureceram, como se sua mente tivesse voltado para anos negros que estariam melhor esquecidos. “Mas que uma vez jazeu sobre toda a Terra-média, enquanto vivíeis em vosso contentamento”.

“Não foi acerca da Sombra que perguntei”, disse Finrod. “O que quereis dizer, eu pergunto, com a suspensão dela? Ou como o destino rápido dos Homens está ligado a ela? Vós também, sustentamos [sendo instruídos pelos Grandes que sabem], sois Filhos de Eru, e vosso destino e natureza vêm Dele”.

“Vejo”, disse Andreth, “que nisto vós dos Altos-elfos não sois diferentes de vossos parentes inferiores que encontramos no mundo, embora eles não tenham vivido na Luz. Todos vós, os Elfos, acreditais que morremos rapidamente por nossa verdadeira natureza. Que somos frágeis e breves, e vós sois fortes e duradouros. Podemos ser “Filhos de Eru”, como dizeis em vossa tradição; mas somos filhos e crianças também para vós: para ser amados um pouco, talvez, e contudo criaturas de menor valor, para as quais podeis olhar do alto do vosso poder e do vosso conhecimento, com um sorriso, ou com pena, ou com um sacudir de cabeças”.

“Ah, o que dizeis está perto da verdade”, disse Finrod. “Pelo menos para muitos de meu povo; mas não para todos, e certamente não para mim. Mas considerai bem isto, Andreth: quando vos chamamos “Filhos de Eru” não falamos levianamente; pois tal nome nós jamais pronunciamos por troça ou sem plena intenção. Quando assim falamos, falamos por conhecimento, e não por mera tradição élfica; e proclamamos que sois nossos parentes, num parentesco muito mais próximo [tanto de hröa como de fëa] do que o que une todas as outras criaturas de Arda, e nós a elas.

Outras criaturas na Terra-média nós também amamos em sua medida e espécie: os animais e pássaros que são nossos amigos, as árvores, e mesmo as belas flores que passam mais rapidamente que os Homens. A passagem delas nós lamentamos; mas acreditamos que ela seja uma parte de sua natureza, tanto quanto são suas formas e cores.

Mas por vós, que sois nossos parentes mais próximos, nosso lamento é muito maior. Porém, se considerarmos a brevidade da vida em toda a Terra-média, não devemos acreditar que vossa brevidade é também parte de vossa natureza? Vosso próprio povo não acredita nisso também? E contudo, de vossas palavras e da amargura nelas depreendo que achais que erramos”.

“Acho que errais, e todos os que assim pensam”, disse Andreth; “e que esse mesmo erro vem da Sombra. Mas para falar dos Homens. Alguns dirão isto e outros aquilo; mas a maioria, pouco pensando, irá sempre sustentar que seu breve tempo no mundo sempre foi assim, e assim sempre há de permanecer, gostem ou não. Mas há alguns que pensam de outra forma; os Homens chamam a esses de “Sábios”, mas pouco lhes dão ouvidos. Pois eles não falam com certeza ou em uma voz, não tendo conhecimento certo como o de que vos vangloriais, mas por força dependendo de “tradição”, na qual a verdade [se puder ser encontrada] deve ser vislumbrada. E em cada vislumbre há joio com o trigo que é escolhido, e sem dúvida também trigo com o joio que é rejeitado.

Contudo, entre meu povo, de Sábio para Sábio desde a escuridão, vem a voz dizendo que os Homens não são agora como eram, nem como era sua verdadeira natureza no princípio. E mais claramente ainda isso é dito pelos Sábios do Povo de Marach, que preservaram na memória um nome para Ele que vós chamais Eru, embora no meu povo ele tenha sido quase esquecido. Assim eu aprendi com Adanel. Eles dizem claramente que os Homens não são por natureza de vida curta, mas assim se tornaram pela malícia do Senhor da Escuridão que eles não nomeiam”.

“Nisso eu bem posso acreditar”, disse Finrod: “que vossos corpos sofrem em alguma medida a malícia de Melkor. Pois viveis em Arda Desfigurada, como nós vivemos, e toda a matéria de Arda foi maculada por ele, antes que vós ou nós viéssemos e retirássemos nossos hröar e nosso sustento dela; toda Arda salvo, talvez, apenas Aman antes que ele fosse para lá. Pois sabei que não é de outra forma com os próprios Quendi: a saúde e a estatura deles está diminuída. Já aqueles de nós que habitam a Terra-média, e mesmo nós que retornamos a ela, descobrem que a mudança de seus corpos é mais rápida do que no início. E isso, julgo eu, deve pressagiar que eles provar-se-ão ser menos fortes para durar do que foram designados a ser, embora isto possa não ser revelado claramente por muitos e longos anos.

E da mesma maneira com os hröar dos Homens, eles são mais fracos do que deveriam ser. Assim vem a acontecer que aqui no Oeste, para onde o poder dele antigamente pouco se estendia, eles têm mais saúde, como dizeis”.

“Não, não!” disse Andreth. “Não compreendeis minhas palavras. Pois sois sempre de uma só opinião, meu senhor: os Elfos são os Elfos, e os Homens são Homens, e embora tenham um Inimigo comum, por quem ambos são feridos, ainda assim o intervalo ordenado permanece entre os senhores e os humildes, os primogênitos nobres e duradouros, e os seguidores simples e de breve serviço.

Essa não é a voz que os Sábios escutam desde a escuridão e de além dela. Não, senhor, os Sábios entre os Homens dizem: “Não fomos feitos para a morte, nem sempre nascidos para morrer. A morte foi imposta sobre nós”. E eis que o medo dela está conosco sempre, e fugimos dela para sempre como o cervo do caçador. Mas, quanto a mim, creio que não podemos escapar dela dentro deste mundo, não, nem se pudéssemos chegar à Luz além do Mar, ou àquela Aman da qual falais. Nessa esperança nós partimos, e viajamos durante muitas vidas de Homens; mas a esperança era vã. Assim dizem os Sábios, mas isso não parou a marcha pois, como eu disse, eles são pouco ouvidos. E eis que fugimos da Sombra até as últimas costas da Terra-média, para descobrir apenas que ela está aqui diante de nós!”

Então Finrod ficou em silêncio; mas depois de algum tempo ele disse: “Essas palavras são estranhas e terríveis. E vós falais com a amargura de alguém cujo orgulho foi humilhado, e procura então ferir aqueles com quem fala. Se todos os Sábios entre os Homens falam assim, então bem posso acreditar que sofrestes alguma grande ferida. Mas não pelas mãos de meu povo, Andreth, nem por nenhum dos Quendi. Se nós somos como somos, e vós sois como vos encontramos, isso não é por nenhuma ação nossa, nem por nosso desejo; e vossa tristeza não nos regozija nem alimenta nosso orgulho. Só um diria o contrário: aquele Inimigo que vós não nomeais.

Cuidado com o joio entre vosso trigo, Andreth! Pois pode ser mortal: mentiras do Inimigo que da inveja irão gerar ódio. Nem todas as vozes que vêm da escuridão dizem a verdade para aquelas mentes que escutam estranhas novas.

Mas quem vos fez essa ferida? Quem impôs a morte sobre vós? Melkor, parece claro que diríeis, ou qualquer que seja o nome que tendes para ele em segredo. Pois falais da morte e da sombra dele, como se fossem a mesma e uma só coisa; e como se escapar da Sombra fosse também escapar da Morte.

Mas essas duas coisas não são a mesma, Andreth. Assim julgo, ou a morte não seria encontrada em absoluto neste mundo que ele não concebeu, mas Outro. Não, morte é apenas o nome que damos a algo que ele maculou, e portanto nos parece mau; mas imaculado o seu nome seria bom”.

“O que sabeis da morte? Não a temeis porque não a conheceis”, disse Andreth.

“Nós a vimos, e a tememos”, respondeu Finrod. “Também nós podemos morrer, Andreth; e temos morrido. O pai de meu pai foi cruelmente assassinado, e muitos o seguiram, exilados na noite, no gelo cruel, no mar insaciável. E na Terra-média temos morrido, por fogo e por fumaça, por veneno e pelas cruéis lâminas da batalha. Fëanor está morto, e Fingolfin foi pisoteado [6] sob os pés do Morgoth [7].

Para que fim? Para derrotar a Sombra ou, se isso não puder ser, para impedi-la de espalhar-se uma vez mais por toda a Terra-média – para defender os Filhos de Eru, Andreth, todos os Filhos, e não apenas os orgulhosos Eldar!”

“Eu tinha ouvido”, disse Andreth, “que era para recuperar vosso tesouro, que vosso Inimigo roubara; mas talvez a Casa de Finarfin não pense como os Filhos de Fëanor. Mesmo assim, apesar de todo o vosso valor, digo outra vez: “O que sabeis da morte?”. Para vós ela pode ser em dores, pode ser amarga e uma perda – mas apenas por algum tempo, um pequeno revés na abundância, a menos que me tenham dito uma inverdade. Pois sabeis que, morrendo, não deixais o mundo, e que podeis retornar à vida.

De outra forma é conosco: morrendo nós morremos, e partimos para não voltar. A morte é um fim último, uma perda irremediável. E é abominável; pois também é uma injustiça que é feita contra nós”.

“Tal diferença eu percebo”, disse Finrod. “Diríeis que há duas mortes: uma que é uma ferida e uma perda mas não um fim, e outra que é um fim sem retorno; e os Quendi sofrem apenas a primeira?”

“Sim, mas há outra diferença também “, disse Andreth. “Uma é apenas um ferimento nos acasos do mundo, que os bravos, os fortes ou os afortunados podem esperar evitar. A outra é morte inelutável; e a morte o caçador que no fim não pode ser eludido. Seja um homem forte, ou rápido, ou ousado; seja sábio ou um tolo; seja ele mau, ou seja em todos os atos de sua vida justo e misericordioso, ame ele o mundo ou o abomine, deve morrer e deixá-lo – e se tornar carniça, que os Homens com prazer queimam ou escondem”.

“E, sendo assim perseguidos, os Homens não têm nenhuma esperança?”, disse Finrod.

“Eles não têm nenhuma certeza e nenhum conhecimento, apenas medos, ou sonhos no escuro”, respondeu Andreth. “Mas esperança? Esperança, isso é outro assunto, do qual mesmo os Sábios raramente falam”. A voz dela então se tornou mais suave. “Entretanto, Senhor Finrod da Casa de Finarfin, dos nobres e altivos Elfos, talvez possamos falar dela neste momento, vós e eu”.

“Podemos”, disse Finrod, “mas por enquanto caminhamos nas sombras do medo. Até agora, então, percebo que a grande diferença entre Elfos e Homens está na velocidade do fim. Nisso apenas. Pois se julgais que para os Quendi não há morte inelutável, errais.

Ora, nenhum de nós sabe, embora os Valar possam saber, o futuro de Arda, ou quanto tempo ela foi prescrita para durar. Mas não durará para sempre. Foi feita por Eru, mas Ele não está nela. Apenas o Único não tem limites. Arda, e mesmo Eä, devem portanto ser limitadas. Vós nos vedes, aos Quendi, ainda nas primeiras eras de nosso ser, e o fim está distante. Como talvez entre vós a morte possa parecer a um jovem em seu vigor; salvo que nós temos já longas eras de vida e pensamento atrás de nós. Mas o fim virá. Isso nós todos sabemos. E então deveremos morrer; deveremos perecer completamente, parece, pois pertencemos a Arda [em hröa e em fëa]. E para além disso o quê? “A partida para não retornar”, como dizeis, “o fim último, a perda irremediável”?

Nosso caçador é de pés lentos, mas nunca perde a trilha. Além do dia em que ele soprar sua trombeta, não temos nenhuma certeza, nenhum conhecimento. E ninguém nos fala de esperança.”

“Eu não sabia disso”, disse Andreth, “e contudo…”

“E contudo ao menos o nosso caçador é de pés lentos, diríeis?”, disse Finrod. “É verdade. Mas não está claro que um fado pressagiado e por muito tempo adiado seja de todas as maneiras um peso mais leve do que um que vem logo. Mas se entendi vossas palavras até aqui, não acreditais que essa diferença foi assim concebida no início. Não éreis no princípio condenados à morte rápida.

Muito poderia ser dito acerca dessa crença [seja ela uma suposição verdadeira ou não]. Mas primeiro eu desejaria perguntar: como dizeis que isso veio a acontecer? Pela malícia de Melkor, eu supus, e vós não o negastes. Mas vejo agora que não falais da diminuição que todos em Arda Desfigurada sofrem; mas de algum golpe especial de inimizade contra vosso povo, contra os Homens enquanto Homens. É assim?”

“De fato é”, respondeu Andreth.

“Então isso é matéria de horror”, disse Finrod. “Conhecemos Melkor, o Morgoth, e o sabemos ser poderoso. Sim, eu o vi, e ouvi sua voz; e estive cego na noite que está no coração de sua sombra, da qual vós, Andreth, nada sabeis salvo por ouvir dizer e pela memória de vosso povo. Mas nunca, mesmo na noite, acreditamos que ele pudesse prevalecer contra os Filhos de Eru. Este ele poderia iludir, ou aquele ele poderia corromper; mas mudar o destino de todo um povo dos Filhos, roubá-los de sua herança: se ele pudesse fazer tal coisa à revelia de Eru, então de longe maior e mais terrível é ele do que imaginávamos; então todo o valor dos Noldor é apenas presunção e insensatez – não, Valinor e as montanhas dos Pelóri estão construídas sobre a areia”.

“Vede!”, disse Andreth. “Eu não disse que não conheceis a morte? Eis que quando sois forçados a encará-la em pensamento apenas, como a conhecemos em ato e em pensamento todas as nossas vidas, logo caís em desespero. Nós sabemos, se vós não o sabeis, que o Inominável é o Senhor deste Mundo, e que o vosso valor, e também o nosso, é insensatez; ou pelo menos é infrutífero”.

“Cuidado!”, disse Finrod. “Cuidado para que não digais o impronunciável, conscientemente ou em ignorância, confundindo Eru com o Inimigo, que comprazer-se-ia em ver-vos fazer isso. O Senhor deste Mundo não é ele, mas o Único que o fez, e seu Vice-regente é Manwë, o Rei Mais Velho de Arda que é abençoado.

Não, Andreth, a mente obscurecida e em confusão; curvar-se e contudo abominar; fugir e contudo não rejeitar; amar o corpo e contudo desprezá-lo, o asco do carniceiro: tais coisas podem vir do Morgoth, de fato. Mas condenar os imortais à morte, de pai para filho, e ainda deixar-lhes a memória de uma herança roubada, e o desejo pelo que foi perdido: poderia o Morgoth fazer isso? Não, eu digo. E por essa razão eu disse que, se vossa história é verdadeira, então tudo em Arda é vão, do pináculo de Oiolossë até o mais recôndito abismo. Pois não acredito em vossa história. Ninguém poderia ter feito isso além do Único.

Portanto eu vos digo, Andreth, o que fizestes, vós, os Homens, há muito tempo atrás na escuridão? Como enraivecestes Eru? Pois do contrário todas as vossas histórias são apenas sonhos escuros numa Mente Escura. Direis o que sabeis ou escutastes?”

“Não o farei”, disse Andreth. “Não falamos disso para aqueles de outra raça. Mas na verdade os Sábios são incertos e falam com vozes contrárias; pois o que quer que tenha acontecido há muito tempo, nós fugimos; temos tentado esquecer, e tão longamente tentamos que agora não conseguimos recordar nenhum tempo em que não fôssemos como agora somos – exceto apenas lendas de dias em que a morte vinha menos rapidamente e nosso tempo era muito maior, mas já havia morte”.

“Não conseguis recordar?”, disse Finrod. “Não há histórias de vossos dias antes da morte, ainda que não as desejeis contar a estranhos?”

“Talvez”, disse Andreth. “Se não entre meu povo, então quiçá entre o povo de Adanel”. Ela ficou em silêncio, e fitou o fogo.

“Achais que ninguém sabe exceto vós próprios?”, disse Finrod enfim. “Os Valar não sabem?”

Andreth olhou para cima e seus olhos escureceram. “Os Valar?”, ela disse. “Como deveria eu saber, ou qualquer homem? Vossos Valar não nos importunam com cuidado ou com instrução. Não mandaram nenhuma convocação para nós”.

“O que sabeis deles?”, disse Finrod. “Eu os vi, e habitei no meio deles, e na presença de Manwë e Varda estive na Luz. Não faleis deles assim, nem de nada que está muito acima de vós. Tais palavras vieram primeiro da Boca Mentirosa.

Nunca entrou em vosso pensamento, Andreth, que lá fora em eras há muito passadas podeis ter colocado a vós próprios fora do cuidado dos Valar, e além do alcance de sua ajuda? Ou mesmo que vós, os Filhos dos Homens, não eram um assunto que eles pudessem governar? Pois éreis grandes demais. Sim, é isso que quero dizer, e não apenas lisonjeio vosso orgulho: grandes demais. Os únicos mestres de vós próprios dentro de Arda, sob a mão do Único. Cuidado então com a maneira como falais! Se não desejais falar com outros de vosso ferimento ou de como o sofrestes, prestai atenção antes que [como médicos inábeis] julgueis erradamente a ferida, ou em orgulho coloqueis a culpa em lugar errado.

Mas voltemo-nos agora para outros assuntos, já que não desejais falar mais disso. Gostaria de considerar vosso primeiro estado antes do ferimento. Pois o que dizeis disso é também para mim um assombro, e difícil de entender. Dizeis: “não fomos feitos para a morte, nem sempre nascidos para morrer”. O que quereis dizer: que éreis como nós somos, ou de outra maneira?”

“Esta tradição não vos leva em conta”, disse Andreth, “pois nada sabíamos dos Eldar. Considerávamos apenas morrer e não morrer. De vida tão longa quanto a do mundo, mas não mais longa, não tínhamos ouvido; de fato, até agora tal coisa não havia entrado em minha mente”.

“Para falar com franqueza”, disse Finrod, “eu havia pensado que essa vossa crença de que vós também não fostes feitos para a morte era apenas um sonho de vosso orgulho, gerado em inveja dos Quendi, para igualá-los ou superá-los. Não é assim, dizeis. Contudo, muito antes de chegardes a esta terra, encontrastes outros povos dos Quendi, e recebestes a amizade de alguns. Já não éreis então mortais? E nunca falastes com eles acerca da vida e da morte? Embora sem quaisquer palavras eles logo descobririam vossa mortalidade, e antes de muito tempo perceberíeis que eles não morriam”.

“Não é assim, digo em verdade”, respondeu Andreth. “Podemos ter sido mortais quando encontramos os Elfos pela primeira vez longe daqui, ou talvez não o fôssemos; nossa tradição não o diz, ao menos a tradição que aprendi. Mas já tínhamos nossa tradição, e não precisávamos de nenhuma vinda dos Elfos: sabíamos que em nosso princípio havíamos nascido para nunca morrer. E com isso, meu senhor, queríamos dizer: nascidos para a vida eterna, sem qualquer sombra de qualquer fim”.

“Então os Sábios entre vós já consideraram como é estranha a natureza que eles atribuem aos Atani?”, disse Finrod.

“É assim tão estranho?”, perguntou Andreth. “Muitos dos Sábios sustentam que em sua verdadeira natureza nenhuma das coisas vivas morreria”.

“Nisso os Eldar diriam que eles erram”, disse Finrod. “Para nós vossa afirmação sobre os Homens é estranha, e de fato difícil de aceitar, por duas razões. Afirmais, se entendeis completamente vossas próprias palavras, que tivestes corpos imperecíveis, não restringidos pelos limites de Arda, e mesmo assim derivados de sua matéria e sustentados por ela. E afirmais também [embora isto possais não ter percebido] que tivestes hröar e fëar que estavam desde o princípio em desarmonia. Contudo, a harmonia de hröa e fëa é, acreditamos, essencial para a natureza verdadeira e incorrupta de todos os Encarnados: os Mirröanwi, como chamamos os Filhos de Eru”.

“A primeira dificuldade eu percebo”, disse Andreth, “e para ela nossos Sábios têm sua própria resposta. A segunda, como adivinhastes, eu não percebo”.

“Não?”, disse Finrod. “Então não vedes a vós próprios claramente. Mas pode acontecer com freqüência que amigos e parentes vejam com clareza algumas coisas que estão ocultas de seu próprio amigo.

Ora, os Eldar somos vossos parentes, e vossos amigos também [se puderdes crê-lo], e já vos observamos por três vidas de Homens com amor e preocupação, e muito pensamento. Disto então estamos certos sem debate, ou do contrário toda a nossa sabedoria é vã: os fëar dos Homens, embora de fato estreitamente aparentados aos fëar dos Quendi, não são contudo iguais. Pois, embora o consideremos estranho, vemos claramente que os fëar dos Homens não estão, como os nossos, confinados em Arda, nem Arda é seu lar.

Podeis negar isso? Nós, os Eldar, não negamos que amais Arda e tudo que está nela [na medida em que estejais livres da Sombra] talvez tão grandemente quanto nós. Mas de outra maneira. Cada uma de nossas famílias percebe Arda diferentemente, e se regozija em suas belezas em modo e grau diversos. Como dizê-lo? Para mim a diferença é como a que existe entre aquele que visita um país estranho, e lá habita por algum tempo [mas não precisa fazê-lo], e aquele que sempre viveu nessa terra e precisa viver ali]. Para o primeiro todas as coisas que vê são novas e estranhas, e nesse grau adoráveis. Para o outro todas as coisas lhe são familiares, as únicas coisas que existem, suas, e nesse grau preciosas”.

“Se quereis dizer que os Homens são os Estrangeiros”, disse Andreth.

“Dissestes a palavra”, disse Finrod, “esse nome o demos a vós”.

“Altivamente, como sempre”, disse Andreth. “Mas se somos apenas estrangeiros numa terra em que tudo é vosso, meus senhores, como afirmais, dizei-me: que outra terra ou coisas conhecemos?”

“Não, dizei-me!”, disse Finrod. “Pois se não o sabeis, como podemos sabê-lo? Mas sabeis que os Eldar dizem dos Homens que estes não olham para coisa alguma pelo que ela é; que se eles a estudam, é para descobrir algo mais; que se eles a amam, é somente [assim parece] por que ela lhes lembra de outra coisa mais cara? Mas com o que fazem tal comparação? Onde estão essas outras coisas?

Todos, Elfos e Homens, estamos em Arda e dela somos; e qualquer conhecimento que os Homens possuam é derivado de Arda [ou assim pareceria]. De onde então vem essa memória que tendes convosco, mesmo antes que comeceis a aprender?

Não vem de outras regiões em Arda das quais viestes. Nós também viemos de longe. Mas se vós e eu fôssemos até vossos antigos lares no leste, eu reconheceria as coisas lá como parte de meu lar, mas veria em vossos olhos a mesma admiração e comparação que vejo nos olhos dos Homens em Beleriand, que nasceram aqui”.

“Falais palavras estranhas, Finrod”, disse Andreth, “que eu não ouvi antes. Contudo, meu coração se comove como se por alguma verdade que ele reconhece, mesmo que não a entenda. Mas passageira é essa memória, e parte antes que possa ser agarrada; e então nos tornamos cegos. E aqueles dentre nós que conheceram os Eldar, e talvez os tenham amado, dizem por nossa vez: “Não há cansaço nos olhos dos Elfos”. E descobrimos que eles não compreendem o ditado que existe entre os Homens: o que é visto demais não é mais visto. E eles se admiram muito de que nas línguas dos Homens a mesma palavra possa significar tanto “velho conhecido” quanto “apodrecido”.

Pensamos que era assim apenas porque os Elfos têm vida duradoura e vigor inquebrantável. “Crianças crescidas” nós, os estrangeiros, às vezes vos chamamos, meu senhor. E contudo – e contudo, se para nós nada em Arda mantém seu sabor por muito tempo, e todas as coisas belas se tornam remotas, o que isso significa? Isso não vem da Sombra sobre nossos corações? Ou dizeis que não é assim, mas que essa era nossa verdadeira natureza, mesmo antes do ferimento?”

“Digo que é assim, de fato”, respondeu Finrod. “A Sombra pode ter escurecido vossa inquietação, trazendo cansaço mais célere e logo o transformando em desdém, mas a inquietação sempre esteve lá, creio. E se isso é assim, não podeis agora perceber a desarmonia de que falei? Se de fato vossa Sabedoria tivesse uma tradição como a nossa, ensinando que os Mirröanwi são feitos de uma união de corpo e mente, de hröa e fëa, ou como dizemos em imagem a Casa e o Habitante.

Pois o que é a “morte” que lamentais se não a separação desses dois? E o que é a “imortalidade” que perdestes se não o fato de que os dois deveriam permanecer unidos para sempre?

Mas o que então deveríamos pensar da união no Homem: de um Habitante, que é apenas um estrangeiro aqui em Arda e não está em seu lar aqui, com uma Casa que é feita da matéria de Arda e deve portanto [suporíamos] aqui permanecer?

Ao menos não esperar-se-ia para essa Casa uma vida maior que a de Arda, da qual ela é parte. Contudo, afirmais que a Casa também era imortal, não? Eu preferiria acreditar que tal fëa, por sua própria natureza, iria em algum momento de livre vontade abandonar a casa de sua habitação aqui, ainda que a habitação pudesse ter sido mais longa do que é agora permitido. Então a “morte” [como eu disse] soaria de maneira diversa para vós: como uma libertação, ou um retorno – não, como ir para casa! Mas nisso não acreditais, parece?”

“Não, não acredito nisso”, disse Andreth. “Pois isso seria desprezo pelo corpo, e é um pensamento da Escuridão não-natural em qualquer dos Encarnados, cuja vida incorrupta é uma união de amor mútuo. Mas o corpo não é uma estalagem que mantém um viajante aquecido por uma noite, antes que ele siga seu caminho, e depois recebe outro. É uma casa feita para um habitante apenas, e de fato não apenas casa mas também vestimenta; e não está claro para mim se deveríamos neste caso dizer que a vestimenta é adequada ao usuário e não que o usuário é adequado à vestimenta.

Sustento então que não se deve pensar que a separação destes dois poderia ser de acordo com a verdadeira natureza dos Homens. Pois se fosse “natural” para o corpo ser abandonado e morrer, mas “natural” para o fëa continuar a viver, então de fato haveria uma desarmonia no Homem, e suas partes não estariam unidas por amor. Seu corpo seria na melhor das hipóteses um impedimento, ou uma cadeia. De fato uma imposição, e não uma dádiva. Mas há alguém que impõe, e que concebe cadeias, e se tal fosse a nossa natureza no princípio, então deveríamos derivá-la dele – mas isto, dizeis, não se deve ser falado.

Ai de nós! Lá fora na escuridão os homens o dizem mesmo assim, mas não os Atani como os conheceis, não agora. Sustento que nisto somos como vós sois, verdadeiramente Encarnados, e que não vivemos em nosso ser correto e em sua plenitude salvo numa união de amor e paz entre a Casa e o Habitante. De onde a morte, que os divide, é um desastre para ambos”.

“Cada vez mais assombrais meu pensamento, Andreth”, disse Finrod. “Pois se vossa afirmação é verdadeira, então eis que um fëa que aqui é apenas um viajante está casado indissoluvelmente com um hröa de Arda; dividi-los é um ferimento doloroso, e contudo cada um precisa cumprir sua justa natureza sem tirania do outro. Então a conseqüência deve ser certamente esta: o fëa, quando parte, deve levar consigo o hröa. E o que pode isso significar a não ser que o fëa deverá ter o poder de reerguer o hröa, como seu eterno esposo e companheiro, numa existência [8] eterna além de Eä, e além do Tempo? Assim Arda, ou parte dela, seria curada não apenas da mácula de Melkor, mas libertada até dos limites impostos a ela na “Visão de Eru” da qual os Valar falam.

Portanto eu digo que se é possível crer nisso, então realmente poderosos sob Eru foram os Homens criados em seu princípio; e terrível além de todas as calamidades foi a mudança em seu estado.

É então com uma visão daquilo que fora designado a existir quando Arda estivesse completa – das coisas vivas e mesmo das próprias terras e mares de Arda feitos eternos e indestrutíveis, para sempre belos e novos – que os fëar dos Homens comparam o que vêem aqui? Ou existe em algum outro lugar um mundo do qual todas as coisas que vemos, todas as coisas que tanto Elfos quanto Homens conhecem, são apenas sinais ou lembranças?”

“Se existe, isso reside na mente de Eru, julgo eu”, disse Andreth. “Para tais perguntas como podemos achar as respostas, aqui nas névoas de Arda Desfigurada? De outra forma poderia ter sido, se não tivéssemos sido mudados; mas sendo como somos, mesmo os Sábios entre nós dedicaram pouco pensamento à própria Arda, ou a outras coisas que aqui habitam. Temos pensado principalmente sobre nós mesmos: sobre como nossos hröar e fëar deveriam ter habitado juntos para sempre em júbilo, e sobre a escuridão impenetrável que agora nos espera”.

“Então não apenas os nobres Eldar se esquecem de seus parentes!”, disse Finrod. “Mas isso é estranho para mim, e mesmo como vosso coração o fez quando falei de vossa inquietação, assim agora o meu salta como ao ouvir de boas novas.

Esta então, proponho, era a missão dos Homens, não os seguidores, mas os herdeiros e completadores de tudo: curar a Desfiguração de Arda, já pressagiada antes da concepção deles; e fazer mais, como agentes da magnificência de Eru: alargar a Música e ultrapassar a Visão do Mundo!

Pois essa Arda Curada não será Arda Não-desfigurada, mas uma terceira e maior coisa, e contudo a mesma. Eu conversei com os Valar que estavam presentes no criar da Música antes que o ser do mundo começasse. E agora me pergunto: eles ouviram o fim da Música? Não havia algo dentro dos acordes finais de Eru ou além deles que, estando arrebatados pela Música, eles não perceberam?

Ou novamente, uma vez que Eru é livre para sempre, talvez ele não tenha feito nenhuma Música nem mostrado nenhuma visão além de um certo ponto. Além desse ponto não podemos ver ou saber, até que por nossas próprias estradas cheguemos até lá, Valar ou Eldar ou Homens.

Como um mestre no contar de histórias pode manter oculto o mais grandioso momento até que ele venha no tempo devido. Tal momento pode ser de fato imaginado, em alguma medida, por aqueles que ouviram com coração e mente plenos; mas assim o contador o desejaria. De forma alguma a surpresa e o assombro de sua arte são assim diminuídos, pois dessa maneira nós como que partilhamos de sua autoria. Mas não seria assim, se tudo nos fosse contado num prefácio antes que entrássemos!”

“Qual então diríeis que é o momento supremo que Eru reservou?”, perguntou  Andreth.

“Ah, dama sábia!”, disse Finrod. “Sou um Elda, e novamente estava pensando em meu próprio povo. Mas não, em todos os Filhos de Eru. Eu estava pensando que através dos Sucessores nós poderíamos ter sido libertados da morte. Pois durante todo o tempo em que faláveis da morte como sendo uma divisão dos que estão unidos, pensei em meu coração numa morte que não é assim, mas o fim de ambos juntos. Pois é isso que jaz diante de nós, até onde nossa razão pode ver: o completar de Arda e seu fim, e portanto também o fim de nós, filhos de Arda; o fim quando todas as longas vidas dos Elfos estarão totalmente no passado.

E de repente contemplei como numa visão Arda Refeita; e lá os Eldar completos mas não terminados poderiam habitar no presente para sempre, e lá caminhar, talvez, com os Filhos dos Homens, seus libertadores, e cantar para eles canções tais que, mesmo na Alegria além da alegria, fariam os vales verdes ressoarem e os topos eternos das montanhas reverberarem como harpas”.

Andreth então olhou para Finrod por baixo de suas sobrancelhas: “E o que, quando não estivésseis cantando, diríeis a nós?”, perguntou.

Finrod riu. “Só posso tentar adivinhar”, disse. “Ora, dama sábia, acho que vos contaríamos histórias do Passado e da Arda que fora antes, dos perigos e grandes feitos e da criação das Silmarils! Nós éramos os altivos então! Mas vós, vós estaríeis então em casa, olhando para todas as coisas atentamente, como vossas próprias. Vós seríeis os altivos. “Os olhos dos Elfos estão sempre pensando em alguma outra coisa”, diríeis. Mas vós então saberíeis do que éramos lembrados: dos dias em que primeiro nos encontramos, e nossas mãos se tocaram no escuro. Além do Fim do Mundo nós não mudaremos; pois na memória está o nosso maior talento, como será visto cada vez mais claramente conforme as eras desta Arda passarem: um fardo pesado a ser, temo eu; mas nos Dias dos quais ora falamos uma grande riqueza”. E então ele parou, pois viu que Andreth estava chorando baixinho.

“Ai de nós, senhor!”, disse Andreth. “O que então se pode fazer agora? Pois falamos como se essas coisas o fossem, ou como se certamente fossem ser. Mas os Homens foram diminuídos e seu poder retirado. Não esperamos por nenhuma Arda Refeita: a escuridão jaz diante de nós, e dentro dela fitamos em vão. Se por nossa ajuda vossas mansões eternas devem ser preparadas, elas não serão construídas agora”.

“Não tendes então esperança alguma?”, disse Finrod.

“O que é esperança?”, ela disse. “Uma expectativa do bem, que embora incerta tem algum fundamento no que é conhecido? Então não temos nenhuma”.

“Essa é a coisa que os Homens chamam de “esperança””, disse Finrod. “Amdir nós a chamamos, “olhar para o alto”. Mas existe outra, que é fundada mais solidamente. Estel nós a chamamos, que é “confiança”. Ela não é derrotada pelos caminhos do mundo, pois não vem da experiência, mas de nossa natureza e primeiro ser. Se somos de fato os Eruhin, os Filhos do Único, então Ele não permitir-Se-á ser privado do que é Seu, nem por Inimigo algum, nem mesmo por nós próprios. Este é o último fundamento de Estel, que mantemos mesmo quando contemplamos o Fim: de todos os Seus desígnios o objetivo deve ser para a alegria de Seus Filhos. Amdir não tendes, dizeis. Será que Estel não sobrevive enfim?”

“Talvez”, ela disse. “Mas não! Não percebeis que é parte de nosso ferimento que Estel falhe e suas fundações sejam sacudidas? Somos os Filhos do Único? Não estamos finalmente derrotados? Ou o fomos alguma vez? Não é o Inominável o Senhor do Mundo?”

“Não o digais mesmo em pergunta!”, disse Finrod.

“Isso não pode ser desdito”, disse Andreth, “se desejais entender o desespero no qual caminhamos. Ou no qual a maioria dos Homens caminha. Entre os Atani, como nos chamais, ou os Viajantes [9], como dizemos – os que deixaram as terras do desespero e dos Homens da escuridão e rumaram para o oeste em esperança vã – acredita-se que a cura ainda possa ser encontrada, ou que haja algum caminho de fuga. Mas será isso de fato Estel? Não será, ao contrário, Amdir, mas sem razão; mera fuga num sonho daquilo que despertos eles sabem: que não há escapatória da escuridão e da morte?”

“Mera fuga num sonho, dizeis”, respondeu Finrod. “Nos sonhos muitos desejos são revelados; e o desejo pode ser o último bruxulear de Estel. Mas não quereis dizer sonho, Andreth. Confundis sonho e despertar com esperança e crença, de maneira a fazer um mais duvidoso e o outro mais certo. Será que estão adormecidos os que falam de fuga e cura?”

“Adormecidos ou despertos, eles nada falam claramente”, respondeu Andreth. “Como ou quando a cura virá? Em que forma de ser serão refeitos os que virem esse tempo? E quanto a nós, que antes disso partiremos para a escuridão sem ser curados? Para tais questões apenas os da “Antiga Esperança” [como eles chamam a si próprios] têm alguma idéia de resposta”.

“Os da Antiga Esperança?”, disse Finrod. “Quem são eles?”

“Uns poucos”, disse ela, “mas seu número tem crescido desde que viemos para esta terra, e eles vêem que o Inominável pode [como pensam] ser desafiado. Contudo, essa não é uma boa razão. Desafiá-lo não desfaz sua obra de outrora. E se o valor dos Eldar falhar aqui, então o desespero deles será mais profundo. Pois não era no poder dos Homens, nem no de nenhum dos povos de Arda, que a antiga esperança estava fundada”.

“O que então era essa esperança, se o sabeis?”, Finrod perguntou.

“Eles dizem”, respondeu Andreth, “eles dizem que o próprio Único entrará em Arda, e curará os Homens e toda a Desfiguração do princípio até o fim. Isso, eles dizem também, ou fingem, é um rumor que veio através de anos incontáveis, mesmo dos dias de nosso ferimento”.

“Dizem, fingem?”, disse Finrod. “Não sois então um deles?”

“Como posso sê-lo, senhor? Toda sabedoria está contra eles. Quem é o Único, a quem chamais Eru? Se colocarmos de lado os Homens que servem o Inominável, como muitos o fazem na Terra-média, ainda assim muitos Homens percebem o mundo apenas como uma guerra entre a Luz e a Escuridão equipotentes. Mas direis: não, isso é Melkor e Manwë; Eru está acima deles. É então Eru somente o maior dos Valar, um grande deus entre deuses, como a maioria dos Homens dirá, mesmo entre os Atani: um rei que vive longe de seu reino e deixa que príncipes menores façam lá o que lhes aprouver? Novamente dizeis: não, Eru é Único, sozinho e sem-par, e ele fez Eä, e está além dela; e os Valar são maiores que nós, e contudo não mais próximos de Sua majestade. Não é assim?”

“Sim”, disse Finrod, “dizemos isso, e os Valar nós conhecemos, e eles dizem o mesmo, todos exceto um. Mas qual destes, pensais, é mais passível de mentir: aqueles que se humilham, ou aquele que se exalta?”

“Não tenho dúvidas”, disse Andreth. “E por essa razão o dizer da Esperança ultrapassa meu entendimento. Como Eru poderia entrar na coisa que Ele fez, e da qual Ele é imesuravelmente maior? O cantor é capaz de entrar em sua história ou o desenhista em sua figura?”

“Ele já está dentro dela, assim como está fora”, disse Finrod. “Mas em verdade o “habitar-dentro” e o “viver-fora” não estão no mesmo modo”.

“Realmente”, disse Andreth. “Assim Eru pode, nesse modo, estar presente em Eä, que procedeu dele. Mas eles falam do próprio Eru entrando em Arda, e essa é uma coisa completamente diferente. Como Ele, o maior, poderia fazê-lo? Isso não estraçalharia Arda, ou de fato toda Eä?”

“Não me pergunteis”, disse Finrod. “Essas coisas estão além do alcance da sabedoria dos Eldar, ou talvez da dos Valar. Mas desconfio que nossas palavras podem nos confundir, e que quando dizeis “maior” pensais nas dimensões de Arda, na qual o recipiente maior não pode ser contido no menor.

Mas tais palavras não podem ser usadas a respeito do Imensurável. Se Eru desejasse fazer isso, não duvido que Ele encontraria uma maneira, embora eu não possa prevê-la. Pois, como me parece, ainda que Ele próprio tenha que entrar, Ele deve também permanecer como é: o Autor fora. E contudo, Andreth, para falar com humildade, não consigo conceber de que outra maneira essa cura pudesse ser realizada. Uma vez que Eru certamente não permitirá que Melkor dirija o mundo para sua própria vontade e triunfe no fim. Contudo, não há poder algum concebivelmente maior que Melkor, salvo apenas Eru. Portanto Eru, se não desejar entregar sua obra a Melkor, que do contrário chegaria à vitória, deve entrar para derrotá-lo.

E mais: mesmo se Melkor [ou o Morgoth no qual se tornou] pudesse de alguma forma ser sobrepujado ou lançado fora de Arda, sua Sombra ainda permaneceria, e o mal que ele perpetrou e plantou como uma semente cresceria e multiplicar-se-ia. E se algum remédio para isso deve ser encontrado, antes que tudo esteja terminado, alguma luz nova para se opor à sombra, ou algum lenitivo para os ferimentos, então ele deve, julgo eu, vir de fora”.

“Então, senhor”, disse Andreth, e ela ergueu seu olhar em assombro, “credes  nessa Esperança?”

“Não me pergunteis ainda”, ele respondeu. “Pois ela ainda é para mim como uma estranha nova que vem de longe. Nenhuma esperança como essa foi jamais dita aos Quendi. Para vós apenas ela foi mandada. E contudo através de vós nos podemos ouvi-la e levantar nossos corações”. Ele parou por um momento e então, olhando gravemente para Andreth, disse: “Sim, mulher-sábia, talvez tenha sido ordenado que nós, os Quendi, e vós, os Atani, antes que o mundo envelheça, nós encontrássemos e trouxéssemos novas uns para os outros, e assim soubéssemos da Esperança através de vós: ordenado, de fato, que tu [10] e eu, Andreth, sentássemos aqui e conversássemos, através do golfo que divide nossas gentes, para que enquanto a Sombra ainda paira no Norte nós não estivéssemos de todo amedrontados”.

“Através do golfo que divide nossas gentes!”, disse Andreth. “Não há ponte alguma além de palavras?”. E então ela chorou outra vez.

“Talvez haja. Para alguns. Eu não sei”, ele disse. “O golfo, talvez, está mais entre nossos destinos, pois de resto somos parentes próximos, mais próximos do que quaisquer outras criaturas no mundo. Contudo, perigoso é cruzar um golfo imposto pelo destino; e os que se arriscassem a fazê-lo não encontrariam alegria do outro lado, mas a tristeza para ambos. Assim julgo eu.

Mas por que dizes “meras palavras”? Palavras não ultrapassam o golfo entre uma vida e outra? Entre ti e mim certamente passou mais do que som vazio? Não nos aproximamos de forma alguma? Mas isso é, creio, pouco conforto para ti”.

“Não pedi conforto”, disse Andreth. “Por que preciso dele?”

“Pelo destino dos Homens que te tocou como mulher”, disse Finrod. “Pensas que não sei? Não é ele meu irmão muito amado? Aegnor: Aikanár, a Chama Afiada, célere e sôfrego. E não faz muitos anos desde que vos encontrastes pela primeira vez, e vossas mãos se tocaram neste escuro. Contudo, eras então apenas uma donzela, valente e sôfrega, na manhã sobre os altos montes de Dorthonion”.

“Continuai!”, disse Andreth. “Continuai: e és agora apenas uma mulher-sábia, sozinha, e a idade que não o tocará já pôs o cinza do inverno em teu cabelo! Mas não digais tu para mim, pois assim ele uma vez o fez!”

“Ai de nós!”, disse Finrod. “É esta a amargura, amada adaneth, mulher dos Homens, não é? que perpassou todas as tuas palavras. Se eu tentasse dar-te algum conforto, julgá-lo-ias arrogante vindo de alguém do meu lado do destino que nos separa. Mas o que posso dizer, salvo lembrar-te da Esperança que tu mesma revelaste?”

“Eu não disse que alguma vez ela fora a minha esperança”, respondeu Andreth. “E mesmo que assim fosse, ainda assim eu gritaria: por que esse ferimento deveria vir aqui e agora? Por que deveríamos amar-vos, e por que vós deveríeis amar-nos [se é que nos amais] e ainda assim colocar o golfo entre nós?”

“Porque assim fomos feitos, parentes próximos”, disse Finrod.
“Mas não fizemos a nós mesmos, Andreth, e portanto nós, os Eldar, não colocamos esse golfo. Não, adaneth, não somos altivos nisto, mas cheios de compaixão. Tal palavra pode desagradar-te. Contudo, a compaixão é de dois tipos: uma vem do parentesco reconhecido, e é próxima do amor; a outra vem da diferença de sorte percebida, e é próxima do orgulho. Falo da primeira”.

“Não faleis de nenhuma para mim!”, disse Andreth. “Não desejo nenhuma. Eu era jovem e olhei para a chama dele, e agora estou velha e perdida. Ele era jovem, e sua chama saltou na minha direção, mas ele se afastou, e é jovem ainda. Velas se compadecem de mariposas?”

“Ou mariposas de velas, quando o vento as apaga?”, disse Finrod. “Adaneth, eu te digo, Aikanár, a Chama Afiada, te amava. Por tua causa ele jamais tomará a mão de qualquer noiva de sua própria gente, mas viverá sozinho até o fim, lembrando-se da manhã nos montes de Dorthonion. Mas cedo demais no Vento Norte a chama dele apagar-se-á! Previsão é dada aos Eldar em muitas coisas que não estão distantes, embora raramente de alegria, e digo a ti que viverás muito na medida de tua gente, e ele sairá diante de ti e não desejará retornar”.

Então Andreth se levantou e esticou suas mãos na direção do fogo. “Por que então ele se afastou? Por que deixar-me se eu ainda tinha alguns bons anos para gastar?”

“Ai de nós!”, disse Finrod. “Temo que a verdade não te irá satisfazer. Os Eldar são de uma maneira, e vós de outra; e cada um julga os outros por si mesmo – até que aprenda, o que poucos fazem. Este é um tempo de guerra, Andreth, e em tais dias os Elfos não se casam nem concebem criança, mas preparam-se para a morte – ou para a fuga. Aegnor não tem confiança alguma [nem eu tenho] que este cerco de Angband dure muito; e então o que será desta terra? Se seu coração o governasse, ele teria desejado tomar-te consigo e fugir para longe, para o leste ou o sul, abandonando sua gente, e a tua. Amor e lealdade o prendem à gente dele. E quanto a ti à tua? Tu mesma disseste que não há escapatória por fuga dentro dos limites do mundo”.

“Por um ano, um dia da chama, eu teria dado tudo: parentesco, juventude e a própria esperança; adaneth eu sou”, disse Andreth.

“Isso ele sabia”, disse Finrod; “e ele se retirou e não tomou aquilo que estava diante de sua mão: elda ele é. Pois tais barganhas são pagas em angústia que não pode ser imaginada até que venha, e em ignorância, e não em coragem, os Elfos crêem que elas são feitas”.

Não, adaneth, se algum casamento pode acontecer entre nossa gente e a tua, então será por algum alto propósito do Destino. Breve será e duro no fim. Sim, o fado menos cruel que poderia suceder-lhe seria que a morte logo o encerrasse”.

“Mas o fim é sempre cruel – para os Homens”, disse Andreth. “Eu não o teria importunado, quando minha curta juventude estivesse esgotada. Eu não teria me arrastado como um fardo atrás de seus pés brilhantes, quando eu não mais pudesse correr ao lado dele!”

“Talvez não”, disse Finrod. “Assim o sentes agora. Mas pensas nele? Ele não teria corrido diante de ti. Ele teria ficado a teu lado para te levantar. Então compaixão terias a toda hora, compaixão inescapável. Ele não consentiria em ver-te humilhada.

Andreth adaneth, a vida e o amor dos Eldar repousa muito na memória; e nós [se não vós] preferimos antes ter uma memória que é bela mas inacabada do que uma que continua até um fim triste. Agora ele sempre lembrar-se-á de ti no sol da manhã, e daquela última noite perto da água do Aeluin, na qual ele viu teu rosto espelhado com uma estrela presa entre teus cabelos – sempre, até que o Vento Norte traga a noite de sua chama. Sim, e depois disso, sentar-se na Casa de Mandos nos Salões da Espera até o fim de Arda”.

“E do que me lembrarei?”, disse ela. “E quando eu partir, para que salões irei? Para uma escuridão na qual mesmo a memória da chama afiada será apagada? Mesmo a memória da rejeição. Pelo menos essa”.

Finrod suspirou e se levantou. “Os Eldar não têm palavras de cura para tais pensamentos, adaneth”, disse. “Mas desejarias que Elfos e Homens jamais tivessem se encontrado? A luz da chama, que de outra forma nunca terias visto, não tem valor mesmo agora? Tu te acreditas desprezada? Afasta de ti ao menos esse pensamento, que vem da Escuridão, e então nossa conversa juntos não terá sido totalmente em vão. Adeus!”

A escuridão caiu sobre o aposento. Ele tomou a mão dela na luz do fogo. “Para onde ides?”, ela disse.

“Para o Norte”, ele disse: “para as espadas, e o cerco, e os muros de defesa – para que por ainda algum tempo em Beleriand os rios possam correr limpos, as folhas possam brotar e os pássaros possam construir seus ninhos, antes que a Noite venha.

“Ele estará lá, brilhante e alto, e o vento em seu cabelo? Dizei-lhe. Dizei-lhe para não ser descuidado. Para não buscar o perigo sem necessidade!”

“Direi isso a ele”, disse Finrod. “Mas poderia também dizer-te para não chorar. Ele é um guerreiro, Andreth, e um espírito de ira. Em cada golpe que dá ele vê o Inimigo que há muito te fez este ferimento.

Mas vós não sois de Arda. Para onde fordes, que possais encontrar luz. Espera por nós lá, a meu irmão – e a mim”.

Notas

[1] O sindarin athrabeth [athra = através, peth = palavra] corresponde exatamente ao grego diálogos; por isso optei pelo título “O Diálogo de Finrod e Andreth”. [N. do T.]

[2] Isto seria por volta do ano 409 da Longa Paz [260-455]. Nesse época Belemir e Adanel eram idosos na medida dos Homens, tendo cerca de 70 anos de idade; mas Andreth estava na plenitude do vigor, ainda não tendo 50 [48]. Ela era solteira, como não era incomum entre as sábias humanas. [N. do A.]

[3] No texto do Athrabeth, Tolkien faz a distinção [arcaica no inglês] entre o pronome de tratamento formal singular you e o pronome de tratamento familiar singular thou. Como essa distinção é relevante para o texto, optei por reproduzi-la utilizando respectivamente vós e tu em português, ainda que a princípio isso possa causar certa confusão com o pronome inglês ye [vós, plural]. [N. do T.]

[4] Ele tinha 93 anos. [N. do A.]

[5] No ano 310, cerca de 90 anos antes destes fatos. [N. do A.]

[6] Erro de cronologia. Fingolfin só viria a morrer durante a Dagor Bragollach, quase cinqüenta anos depois desta conversa. [N. do T.]

[7] É interessante o uso que Finrod faz do termo “o Morgoth”, colocando o artigo definido. Aparentemente isso é feito para salientar que Morgoth, “Inimigo Escuro”, é só o epíteto de Melkor, e não seu nome verdadeiro. [N. do T.]

[8] O texto original tem endurance, “resistência”. Não me foi possível encontrar uma solução satisfatória que mantivesse o equivalente do original. [N. do T.]

[9] Seekers, no original. Mais uma vez a tradução literal não funcionaria. [N. do T.]

[10] Aqui Finrod muda para o pronome familiar ou afetivo tu [no original, thou]. O uso do tu e vós no texto em inglês é um tanto inconsistente, mas decidi mantê-lo até o final da narrativa. [N. do T.]

vinyar tengwar

Ósanwë-kenta

Investigação acerca da Comunicação de Pensamento
(resumo da discussão de Pengolodh)
No final do Lammas, Pengolodh discute brevemente a transmissão direta de pensamento (sanwë-latya “abertura de pensamento”), fazendo várias afirmações sobre a mesma, que evidentemente são baseadas nas teorias e observações dos Eldar, tratadas em sua plenitude pelos mestres de tradição élficos. Elas estão relacionadas primeiramente com os Eldar e os Valar (incluindo os Maiar menores da mesma ordem). Os Homens não estão especialmente relacionados, exceto até aonde eles estão inclusos em declarações gerais sobre os Encarnados (Mirröanwi). Sobre eles, Pengolodh diz somente: “Os Homens têm a mesma aptidão dos Quendi, mas ela em si é mais fraca, e é mais fraca em ação devido à força do hröa, sobre o qual a maioria dos homens tem pouco controle pela vontade”.Pengolodh inclui essa questão primeiramente devido à sua conexão com a tengwesta (“linguagem”). Mas ele também está preocupado como um historiador em examinar as relações de Melkor e seus agentes com os Valar e os Eruhíni, apesar disso também ter uma conexão com a “linguagem”, uma vez que, como ele aponta, esse, o maior dos talentos dos Mirröanwi, foi tomado por Melkor para sua própria grande vantagem.

Pengolodh diz que todas as mentes (sáma, pl. sámar) são iguais em status, apesar delas se diferenciarem em capacidade e força. Uma mente, por sua natureza, percebe outra mente diretamente. Mas ela não pode perceber mais do que a existência de outra mente (como algo diferente de si própria, embora da mesma ordem) exceto pela vontade de ambas as partes (Nota 1). O grau de vontade, entretanto, não necessita ser o mesmo em ambas as partes. Se chamarmos uma mente de C (para “convidada” ou doadora) e a outra A (para “anfitriã” ou receptora), então C deverá ter completa intenção de inspecionar A ou de informá-la. Mas o conhecimento pode ser ganho ou transmitido por C, mesmo quando A não estiver procurando ou pretendendo transmitir ou aprender: o ato de C será efetivo, se A estiver simplesmente “aberta” (láta; látie “abertura”). Essa distinção, ele diz, é de suma importância.

A “Abertura” é o estado simples ou natural (indo) de uma mente que não está de outra forma ocupada (Nota 2). Na “Arda Não-Desfigurada” (isto é, em condições ideais livres do mal) a abertura seria o estado natural. No entanto, qualquer mente pode ser fechada (pahta). Isso requer um ato de vontade consciente: a Negação (avanir). Ela pode ser feita contra C, contra C e alguns outros, ou ser um isolamento total voltado para a “privacidade” (aquapahtie).

Embora em “Arda Não-Desfigurada” a abertura seja o estado natural, cada mente possui, desde sua primeira percepção como um indivíduo, o direito de fechar-se; e ela possui poder absoluto para tornar isso eficaz pela vontade. Nada pode penetrar a barreira da Negação (Nota 3).

Todas essas questões, diz Pengolodh, são verdadeiras a todas as mentes, dos Ainur na presença de Eru, ou os grandes Valar, tais como Manwë e Melkor, aos Maiar em Eä, e até aos menores dos Mirröanwi. Mas diferentes estados trazem limitações, que não são totalmente controladas pela vontade.

Os Valar entraram em Eä e no Tempo de livre vontade, e eles agora estão no Tempo, enquanto este durar. Eles não podem perceber nada fora do Tempo, salvo pela memória de sua existência antes dele começar: eles podem recordar a Canção e a Visão. Eles estão, certamente, abertos a Eru, mas eles não podem, de sua própria vontade, “ver” qualquer parte de Sua mente. Eles podem se abrir a Eru em súplica, e Ele pode então revelar Seu pensamento a eles (Nota 4).

Os Encarnados possuem pela natureza da sáma as mesmas aptidões; mas a sua percepção é obscurecida pelo hröa, pois seu fëa é ligado ao seu hröa, e seu procedimento normal é através do hröa, que é em si parte de Eä, sem pensamento. O obscurecimento é de fato duplo; pois o pensamento tem que passar do manto de um hröa e penetrar em outro. Por essa razão, nos Encarnados, a transmissão de pensamento requer fortalecimento para ser efetiva. O Fortalecimento pode ser por afinidade, por urgência, ou por autoridade.

A Afinidade pode ser devido ao parentesco; pois isso pode aumentar a semelhança de hröa para hröa, e também dos interesses e modos de pensamento dos fëar residentes; o parentesco também é normalmente acompanhado por amor e simpatia. A Afinidade pode vir simplesmente do amor e amizade, que é a semelhança ou afinidade de fëa para fëa.

A Urgência é transmitida por grande necessidade do “remetente” (como em contentamento, pesar ou medo); e se essas questões forem comuns em qualquer grau ao “receptor”, o pensamento é o mais claro recebido. A Autoridade também pode conceder força ao pensamento de alguém que possui uma responsabilidade quanto a outro, ou de qualquer governante que tenha um direito a emitir comandos ou a buscar a verdade para o bem de outros.

Essas causas podem fortalecer o pensamento para passar os véus e alcançar uma mente receptora. Mas essa mente deve permanecer aberta, e ao menos passiva. Se, estando ciente que ele é endereçado, ela então se fecha, e nenhuma urgência ou afinidade permitirá o pensamento do remetente entrar.

Por fim, a tengwesta também se torna um impedimento. Ela é nos Encarnados mais clara e mais precisa do que sua recepção direta de pensamento. Por ela eles também podem se comunicar facilmente com outros, quando nenhuma força é adicionada ao seu pensamento: como, por exemplo, quando estranhos encontram-se pela primeira vez. E, como vimos, o uso da “linguagem” logo se torna habitual, de modo que a prática do ósanwë (intercâmbio de pensamento) é negligenciada e torna-se mais difícil. Assim, vemos que os Encarnados tendem mais e mais a usar ou empenhar-se a usar o ósanwë somente em grande necessidade ou urgência, e especialmente quando a lambe é inútil. Como quando a voz não pode ser ouvida, o que acontece principalmente por causa da distância. Pois a distância em si não oferece qualquer impedimento ao ósanwë. Mas aqueles que por afinidade bem podem usar o ósanwë, usarão a lambe quando em proximidade, por hábito ou preferência. Nós também ainda podemos notar como os “afinados” podem compreender mais rapidamente a lambe que usam entre si e, realmente, tudo o que diriam não seria posto em palavras. Com menos palavras, eles chegam mais rápido a um melhor entendimento. Não pode haver dúvida que aqui o ósanwë também acontece freqüentemente; pois a vontade de conversar em lambe é uma vontade de comunicar o pensamento, e ela abre as mentes. Pode ser, certamente, que ambos que conversem já saibam parte do assunto e do pensamento do outro quanto a ele, de forma que apenas alusões ao estranho necessitam ser feitas; mas isso não é sempre assim. Os afinados alcançarão um entendimento mais rapidamente do que estranhos sobre assuntos que nenhum dos dois tenha discutido antes, e perceberão mais rapidamente a importância de palavras que, embora numerosas, bem escolhidas e precisas, permanecem inadequadas.

O hröa e a tengwesta têm um efeito inevitavelmente semelhante sobre os Valar, se esses assumem vestes corpóreas. O hröa turvará em certo grau o envio do pensamento em força e precisão, e a recepção dele, se o outro também for encarnado. Se eles tiverem adquirido o hábito da tengwesta, assim como alguns podem ter adquirido o costume de serem ordenados, então isso reduzirá a prática do ósanwë. Mas esses efeitos são em grande parte menos sentidos no caso dos Encarnados.

Pois o hröa de um Vala, mesmo tendo se tornado costumeiro, está muito mais sob o controle da vontade. O pensamento dos Valar é muito mais poderoso e penetrante. E, até onde diz respeito aos seus relacionamentos uns com os outros, a afinidade entre os Valar é maior do que a afinidade entre quaisquer outros seres; de forma que o uso da tengwesta ou da lambe nunca se fez necessário, e apenas com alguns isso se tornou um costume e uma preferência. E quanto aos seus relacionamentos com todas as outras mentes em Eä, seu pensamento freqüentemente possuía a mais alta autoridade, e a maior urgência. (Nota 5)

Pengolodh então prossegue para os abusos do sanwë. “Pois” ele diz, “aqueles que leram até aqui, podem já ter questionado meu conhecimento, dizendo: Isso não parece de acordo com as histórias. Se a sáma era inviolável pela força, como poderia Melkor ter iludido e escravizado tantas mentes? Ou não é totalmente verdadeiro que a sáma pode ser protegida por uma força maior mas também capturada por uma força superior? Razão pela qual Melkor, o maior, e possuidor da mais dura, determinada e cruel vontade, poderia penetrar as mentes dos Valar, mas se continha em relação a eles, de forma que mesmo Manwë ao lidar com ele pode nos parecer às vezes débil, descuidado e ludibriado. Não é dessa forma?”

“Digo que isso não se dá desse modo. Tais coisas podem parecer-se, mas se em gênero elas são totalmente diferentes, elas devem ser distintas. A previdência, que é a previsão, e o prognóstico, que é a opinião tomada pelo raciocínio sobre a presente evidência, podem ser idênticos em sua predição, mas são completamente diferentes em modo, e deveriam ser distinguidos por mestres de tradição, mesmo se a língua habitual, tanto de Elfos como de Homens, lhes der o mesmo nome como áreas da sabedoria”. (Nota 6)

Desse modo, a extorsão dos segredos de uma mente parece vir da leitura da mesma pela força, a despeito de sua negação, pois o conhecimento ganho (à força) pode, às vezes, mostrar-se tão completo como qualquer um que pudesse ser obtido (de livre vontade). Entretanto, ele não vem da penetração da barreira da negação.

Não há, de fato, nenhuma axan para que a barreira não devesse ser forçada, pois isso é únat, uma coisa impossível de ser ou de ser feita, e quanto maior a força exercida, maior a resistência da negação. Mas é uma axan universal que ninguém tomará de outro diretamente pela força ou indiretamente por embuste o que ele tem direito a possuir e guardar a si próprio.

Melkor repudiava todas as axani. Ele também aboliria (por si próprio) todas as únati se pudesse. Realmente, no seu princípio e nos dias de seu grande poder, as mais devastadoras de suas violências vinham então de seu esforço em ordenar Eä para que não houvesse limites ou obstáculos para sua vontade. Mas isso ele não pôde fazer. As únati permaneceram, uma lembrança perpétua da existência de Eru e Sua invencibilidade, uma lembrança também da coexistência de si mesmo com outros seres (iguais na origem, senão em poder) inexpugnável à força. Disso se origina sua incessante fúria implacável.

Ele percebeu que a aproximação aberta de uma sáma de grande poder e força de vontade era sentida por uma sáma inferior como uma imensa pressão, acompanhada por medo. Dominar por influência de poder e medo era seu deleite; mas nesse caso os considerava inúteis: o medo fechava a porta mais rapidamente. Por esse motivo ele tentou o engano e a furtividade.

Aqui ele foi auxiliado pela simplicidade daqueles inconscientes do mal, ou ainda não acostumados a se acautelarem com relação a ele. E por essa razão, foi dito acima que a distinção de franqueza e vontade ativa para entreter era de grande importância. Pois ele chegava furtivamente a uma mente aberta e incauta, esperando estudar parte de seu pensamento antes que este se fechasse, e ainda mais, implantar nele seu próprio pensamento, para enganá-lo e convencê-lo de sua amizade. Seu pensamento era sempre o mesmo, embora variasse para se adaptar a cada caso (até onde o compreendia): ele estava acima de todos benevolentes; ele era rico e poderia dar qualquer presente que desejassem a seus amigos; ele tinha uma afeição especial com aquele ao qual ele se dirigia; mas nele deviam confiar.

Deste modo ele obteve a entrada a muitas mentes, removendo sua negação, e abria a porta com a única chave, embora sua chave fosse falsificada. Mas isso não era o que ele mais desejava, a conquista dos relutantes, a escravização de seus inimigos. Aqueles que o escutavam e não fechavam a porta freqüentemente já eram inclinados à sua amizade; alguns (de acordo com seus limites) já haviam ingressado em caminhos semelhantes ao seu próprio, e lhe davam ouvidos porque esperavam aprender e receber dele ensinamentos que serviriam aos seus próprios propósitos. (Assim ocorreu com aqueles dos Maiar que primeiro e mais precocemente caíram sob sua dominação. Eles já eram rebeldes, mas desprovidos do poder de Melkor e de sua cruel vontade, admiravam-no, e viram em sua liderança a esperança de uma rebelião efetiva.) Porém, aqueles que ainda eram inocentes e não corrompidos no “coração” (Nota 7) ficaram imediatamente cientes de sua entrada, e se davam atenção ao aviso de seus corações, cessavam de escutá-lo, expulsavam-no, e fechavam a porta. Eram estes que Melkor mais desejava subjugar: seus inimigos, pois para ele todos eram inimigos que lhe resistiam à mais ínfima idéia ou reinvidicavam o que quer que fosse como pertencente a si próprios, e não a ele.

Portanto ele procurou meios de vencer a únat e a negação. E essa arma ele encontrou na “linguagem”. Pois agora falamos dos Encarnados, os Eruhíni que ele mais desejava subjugar a despeito de Eru. Seus corpos, sendo de Eä, estão sujeitos à força; e seus espíritos, sendo ligados a seus corpos em amor e solicitude, estão sujeitos ao medo em seu benefício. E sua linguagem, embora venha do espírito ou da mente, atua através e com o corpo: ela não é a sáma nem seu sanwë, mas pode expressar o sanwë ao seu modo e de acordo com sua capacidade. Sobre o corpo e sobre o espírito, portanto, tal pressão e medo podem ser exercidos para que a pessoa encarnada seja forçada a falar.

Assim Melkor ponderou em sua previdência por muito tempo antes que acordássemos. Pois nos dias antigos, quando os Valar instruíram os Eldar recém chegados à Aman a respeito do princípio das coisas e da inimizade de Melkor, o próprio Manwë disse àqueles que escutassem: “Dos Filhos de Eru, Melkor sabia menos do que seus iguais, prestando menos atenção ao que ele poderia ter aprendido, como nós fizemos, na Visão de sua Chegada. Todavia, como agora tememos, uma vez que conhecemos vocês em seu verdadeiro ser, quanto a tudo que possa auxiliar em seus propósitos, sua mente ansiava em alcançar a maestria, e seu propósito saltou adiante mais rapidamente do que o nosso, não estando ligado à nenhuma axan. Desde o princípio ele estava muito interessado na linguagem, aquele talento que os Eruhíni têm por natureza; mas nós não percebemos de imediato a malícia nesse interesse, pois muitos de nós o compartilhavam, e sobretudo Aulë. Mas descobrimos a tempo que ele criara uma linguagem para aqueles que o serviam; e ele aprendeu nossa língua com facilidade. Ele possui uma grande habilidade nessa matéria. Sem dúvida ele dominará todas as línguas, mesmo a bela fala dos Eldar. Portanto, se alguma vez falarem com ele, acautelem-se!”

“Ai de mim!”, diz Pengolodh, “Em Valinor Melkor usava o Quenya com tal maestria que todos os Eldar ficavam impressionados, pois seu uso não podia ser melhorado, raramente sequer igualado, pelos poetas e pelos mestres de tradição”.

Desse modo, por fraude, por mentiras, pelo tormento do corpo e do espírito, pela ameaça de sofrimento a outros bem amados, ou pelo terror absoluto de sua presença, Melkor sempre procurou forçar o Encarnado que caía nas mãos do seu poder, ou chegava ao seu alcance, a falar e lhe contar tudo o que soubesse. Mas sua própria Mentira gerou uma prole interminável de mentiras.

Por essses meios ele destruiu muitos, causou enormes traições, e ganhou conhecimento de segredos para sua grande vantagem e para a ruína de seus inimigos. Mas isso não era feito pela penetração da mente, ou pela leitura dela como ela é, em seu menosprezo. Não, pois embora grande o conhecimento que ele ganhara, por trás das palavras (mesmo daquelas em medo e tormento) sempre estava a sáma inviolável: as palavras não estão nela, embora possam proceder dela (como gritos por trás de uma porta trancada); elas devem ser julgadas e avaliadas pela verdade que possa nelas existir. Por esse motivo, o Mentiroso diz que todas as palavras são mentiras: todas as coisas que ele escuta são passadas adiante com fraude, evasões, significados ocultos e ódio. Nessa vasta malha ele mesmo enredou lutas e fúrias, consumido pela suspeita, incerteza e medo. Não teria sido dessa forma, se ele pudesse ter quebrado a barreira, e visto o coração como ele é em sua verdade revelada.

Se falarmos por último da “tolice” de Manwë e da fraqueza e imprudência dos Valar, tomemos cuidado ao julgar. Nas histórias, realmente, podemos nos impressionar e sofrer ao ler como (aparentemente) Melkor enganou e seduziu outros, e como mesmo Manwë mostra-se, de vez em quando, quase um ingênuo se comparado a ele: como se um pai afável, porém ignorante, estivesse tratando uma criança impertinente que seguramente perceberia na hora apropriada o erro de seus modos. Enquanto que nós, observando e sabendo a conseqüência, vemos agora que Melkor conhecia bem o erro de seus métodos, mas estava fixado neles pelo ódio e orgulho, além de qualquer retorno. Ele poderia ler a mente de Manwë, pois a porta estava aberta; mas sua própria mente era falsa e, mesmo que a porta parecesse aberta, havia portas de ferro no interior, fechadas para sempre.

Como, de outra forma, você a teria? Deveria Manwë e os Valar enfrentar segredos com subterfúgios, traição com falsidade, mentiras com mais mentiras? Se Melkor usurpasse os direitos deles, deveriam eles negar o dele? Pode ódio sobrepujar ódio? Não, Manwë era mais sábio; ou, estando sempre aberto a Eru, feito sua vontade, a qual é mais do que sabedoria. Ele estava sempre aberto porque não possuía nada a esconder, nenhum pensamento que fosse prejudicial para qualquer um ter conhecimento, se pudessem compreendê-lo. De fato Melkor conhecia sua vontade, indubitavelmente; e ele sabia que Manwë era limitado pelos comandos e injunções de Eru, e faria isso ou abster-se-ia em concordância a eles, sempre, mesmo sabendo que Melkor as quebraria (as barreiras) conforme servisse ao seu propósito. Dessa forma, o impiedoso sempre contará com a piedade, e os mentirosos fazem uso da verdade; pois se a piedade e a verdade são mantidas pelo cruel e pelo mentiroso, elas deixaram de ser respeitadas.

Manwë não poderia tentar por pressão forçar Melkor a revelar seus pensamentos e propósitos, ou (se ele usasse palavras) falar a verdade. Se ele falasse e dissesse: isto é verdade, deveriam nele acreditar até que fosse provado falso; se ele dissesse: isto eu farei, como vocês desejam, deveriam lhe permitir a oportunidade para cumprir sua promessa. (Nota 8)

A força e a restrição que foram usadas em Melkor, pelo poder reunido de todos os Valar, não foram usadas para extorquir uma confissão (que era desnecessária); nem para compeli-lo a revelar seu pensamento (o que era ilegal, mesmo que não fosse em vão). Ele foi feito prisioneiro como uma punição pelos seus atos malignos, sujeito à autoridade do Rei. Assim podemos dizer; mas seria melhor dizer que ele foi destituído por um período, estabelecido pela promessa, de seu poder para agir, de forma que ele pudesse repensar e considerar a si mesmo, e ter assim a única oportunidade para que através da piedade pudesse alcançar o arrependimento e a correção. Para a cura de Arda, de fato, mas também para sua própria cura. Melkor tinha o direito à existência, e o direito de agir e usar seus poderes. Manwë possuía a autoridade para governar e ordenar o mundo, tanto quanto pudesse, para o bem-estar dos Eruhíni; mas se Melkor se arrependesse e retornasse à sua lealdade a Eru, deveria lhe ser dada sua liberdade novamente. Ele não pode ser escravizado, nem pode ser negada sua posição. A função do Rei Mais Velho era manter todos seus assuntos em fidelidade a Eru, e nessa fidelidade mantê-los livres.

Portanto, não até o final, e não até pela ordem expressa de Eru e pelo Seu poder, fora Melkor deposto e privado para sempre de todo poder para fazer ou desfazer.

Quem entre os Eldar sustenta que o cativeiro de Melkor em Mandos (que foi alcançado pela força) fora insensato ou ilegal? Mesmo a resolução de atacar Melkor, não meramente para opor-se a ele, para reunir violência com ira para o risco de Arda, foi tomada por Manwë apenas com relutância. E considere: que bem, nesse caso, mesmo o uso ilegal da força conseguiu? Isso o removeu por um tempo e aliviou a Terra-média da pressão de sua malícia, mas isso não erradicou seu mal, pois isso não podia ser feito. A menos que, talvez, Melkor de fato tivesse se arrependido. (Nota 9) Mas ele assim não o fez, e na humilhação ele tornou-se mais obstinado: mais sutil em seu engodos, mais perspicaz em suas mentiras, mais cruel e vil em sua vingança. A mais fraca e mais imprudente de todas as ações de Manwë, como parece a muitos, foi a libertação de Melkor do cativeiro. Disso veio a maior perda e o maior dano: a morte das �?rvores, e o exílio e angústia dos Noldor. Ainda assim, através desse sofrimento também se atingiu, como talvez não pudesse se atingir de outro modo, a vitória dos Dias Antigos: a queda de Angband e a última deposição de Melkor.

Quem pode então dizer com certeza que se Melkor tivesse sido mantido aprisionado, menos mal teria se seguido? Mesmo em sua redução, o poder de Melkor está além da nossa compreensão. Ainda assim, algumas explosões devastadoras de seu desespero não são o pior que podia ter se sucedido. A libertação foi de acordo com a promessa de Manwë. Se Manwë tivesse quebrado essa promessa para seus próprios propósitos, ainda que “bons”, ele teria dado um passo em direção aos caminhos de Melkor. Esse é um passo perigoso. Naquela hora e ato, ele poderia ter deixado de ser o vice-regente do Uno, tornando-se somente um rei que toma vantagem sobre um rival que ele conquistou pela força. Teríamos então os sofrimentos que se sucedessem; ou veríamos o Rei Mais Velho perder sua honra, e então passar, talvez, para um mundo despedaçado entre dois orgulhosos governantes aspirando o trono? Disto podemos estar certos, nós, crianças de força pequena: qualquer um dos Valar poderia ter tomado os caminhos de Melkor e tornado-se como ele: mas um era suficiente.

Notas do Autor para o Ósanwë-kenta

Nota 1 – Aqui níra (“vontade”, como um potencial ou faculdade), uma vez que o requerimento mínimo é que essa faculdade não seja exercida em negação; a ação ou um ato de vontade é nirme; assim como sanwë “pensamento” ou “um pensamento” é a ação ou um ato da sáma.

Nota 2 – Ela pode ser ocupada com o pensamento e ficar desatenta a outras coisas; ela pode ser “voltada em direção a Eru”; ela pode entrar em “conversação de pensamento” com uma terceira. Pengolodh diz: “Apenas grandes mentes podem conversar com mais do que uma outra ao mesmo tempo; várias podem conferenciar, mas então, de uma vez, apenas uma transmite, enquanto as outras recebem”.

Nota 3 – “Mente alguma pode, de qualquer modo, ser fechada contra Eru, tampouco contra Sua inspeção ou contra Sua mensagem. Pode-se não estar atento a esta última, mas não se pode dizer que não a tenham recebido”.

Nota 4 – Pengolodh acrescenta: “Alguns dizem que Manwë, por uma graça especial ao Rei, podia ainda em certa medida perceber Eru; outros dizem que, mais provavelmente, ele permaneceu perto de Eru, e Eru estava na maioria das vezes pronto para ouvi-lo e responder-lhe”.

Nota 5 – Aqui Pengolodh acrescenta uma longa nota sobre o uso dos hröar pelos Valar. Em resumo, ele diz que, embora seja em origem um “auto vestir-se”, ele pode tender a se aproximar do estado de “encarnação”, especialmente com os membros inferiores daquela ordem (os Maiar). “É dito que, quanto mais tempo o mesmo hröa é usado, maior é a ligação ao hábito, e menos deseja o auto vestir-se abandoná-lo. Como vestimenta, pode logo deixar de ser um adorno, e se tornar (como é dito nas línguas tanto de Elfos como de Homens) um hábito, uma roupa costumeira. Ou se entre Elfos e Homens ela seja usada para mitigar o calor e o frio, ela logo torna o corpo vestido menos capaz de suportar tais coisas quando despido”. Pengolodh também cita a opinião de que se um “espírito” (isto é, um daqueles não encarnados pela criação) usa um hröa em auxílio a seus propósitos pessoais, ou (ainda mais) para o deleite de faculdades corpóreas, ele sente a dificuldade aumentar para operar sem o hröa. As coisas que são mais obrigatórias são aquelas que no Encarnado têm a ver com a vida do próprio hröa, seu sustento e propagação. Dessa forma, comer e beber são obrigatórios, mas não o prazer na beleza do som ou forma. A maioria das obrigações é criada ou compreendida.

“Não sabemos as axani (leis, regras, como primeiramente originadas de Eru) que foram estabelecidas sobre os Valar com referência em particular ao seu estado, mas parece claro que não havia uma axan contra tais coisas. No entanto, parece existir uma axan, ou talvez consequência necessária que, se eles estão decididos, o espírito deve então habitar o corpo que é usado, e ficar sob as mesmas necessidades do Encarnado. O único caso que é conhecido nas histórias dos Eldar é o de Melian, que se tornou esposa do Rei Elu Thingol. Isso com certeza não foi feito com maldade ou contra a vontade de Eru, e embora tenha levado ao sofrimento, tanto Elfos como Homens foram enriquecidos”.

“Os grandes Valar não realizam tais coisas: eles não geram, nem comem ou bebem, exceto nos altos asari (festivais), como prova de sua autoridade e habitação de Arda, e para a benção do sustento dos Filhos. Apenas Melkor dentre os Grandes tornou-se por fim limitado a uma forma corpórea; mas assim o era por causa do uso que ele fez disso, no seu intento de se tornar Senhor dos Encarnados, e por causa das grandes perversidades que cometera quando em corpo visível. Ele também dissipou seus poderes nativos para o controle de seus agentes e servos, de forma que ele se tornou no final, em si mesmo e sem o apoio deles, algo enfraquecido, consumido pelo ódio e incapaz de restaurar a si próprio do estado ao qual havia caído. Mesmo a sua forma visível ele não mais podia dominar, de modo que seu horror não podia mais ser mascarado, e isso revelou a maldade de sua mente. Assim também foi com alguns de seus maiores servos, como vemos nestes dias atuais: eles se tornaram unidos às formas de seus atos malignos, e se estes corpos eram tomados deles ou destruídos, eles eram anulados, até que tivessem reconstruído uma imagem de suas habitações anteriores, com a qual eles podiam continuar os cursos malignos nos quais eles haviam se fixado”. (Pengolodh aqui se refere evidentemente a Sauron, em particular, com cuja elevação partiu, por fim, da Terra-média. Mas a primeira destruição da forma corpórea de Sauron foi registrada nas histórias dos Dias Antigos, na Balada de Leithian.)

Nota 6 – Pengolodh aqui elabora (embora não seja necessário ao seu argumento) essa questão de “previsão”. Nenhuma mente, ele afirma, conhece o que nela não está. Tudo o que fora experimentado está nela, apesar de que no caso dos Encarnados, dependendo dos instrumentos do hröa, algumas coisas podem ser “esquecidas”, não estando imediatamente disponíveis para recordação. Mas nenhuma parte do “futuro” lá está, pois a mente não pode vê-lo nem tê-lo visto: isto é, uma mente situada no tempo. Tal mente pode aprender sobre o futuro apenas a partir de outra mente que o tenha visto. Mas isso significa apenas diretamente de Eru, ou por intermédio de alguma mente que tenha visto em Eru alguma parte de Seu propósito (assim como os Ainur, que agora são os Valar em Eä). Só assim um Encarnado pode conhecer algo do futuro: por instrução derivada dos Valar, ou por uma revelação vinda diretamente de Eru. Mas qualquer mente, seja dos Valar ou dos Encarnados, pode deduzir pela razão o que pode ou irá ocorrer. Isso não é previsão, mesmo que possa parecer claro em termos e, de fato, mesmo mais preciso do que vislumbres de previsão. Nem mesmo se isso for formado por visões vistas em sonho, um meio segundo o qual a “previsão” é freqüentemente revelada à mente.

Mentes que possuem grande conhecimento do passado, do presente, e da natureza de Eä, podem predizer com grande precisão, e quanto mais próximo o futuro, mais claro ele se apresenta (exceto, sempre, pela liberdade de Eru). Portanto, muito do que é chamado “previsão”, em palavras desatentas, é apenas a dedução do sábio; e se isso for recebido, como advertência ou instrução, dos Valar, pode ser somente a dedução do mais sábio; embora isso possa às vezes, por outro lado, ser “previsão”.

Nota 7enda. Essa palavra nós traduzimos como “coração”, embora não tenha nenhuma referência física a qualquer órgão do hröa. Ela significa “centro”, e refere-se (embora pela inevitável alegoria física) ao fëa ou a própria sáma, distinto da periferia (aparentemente) de seus contatos com o hröa; autociente; favorecido com a sabedoria primordial de sua estrutura que o faz sensível a qualquer coisa hostil mesmo em seu menor grau.

Nota 8 – Razão pela qual Melkor freqüentemente falava a verdade, e de fato ele raramente mentia sem que houvesse qualquer mescla de verdade. A não ser em suas mentiras contra Eru; e foi talvez por expressar essas mentiras que lhe foi negado qualquer retorno.

Nota 9 – Alguns sustentam que, embora o mal possa então ter sido mitigado, ele não pode ter sido desfeito mesmo pelo arrependimento de Melkor; pois o poder partiu dele e não estava mais sob o controle da sua vontade. Arda foi desfigurada na sua própria existência. As sementes que a mão espalha crescerão e se multiplicarão mesmo que a mão seja removida.

Tradução de Gabriel Oliva Brum

Glorfindel

Glorfindel

No verão de 1938, quando meu pai estava refletindo sobre O Conselho de Elrond no O Senhor dos Anéis, ele escreveu: ‘Glorfindel fala de sua origem em Gondolin’ [VI.214]. Mais de trinta anos depois ele levantou a questão se Glorfindel de Gondolin e Glorfindel de Valfenda eram realmente um e o mesmo, e esta foi discutida em duas discussões, junto com outros escritos breves ou fragmentários associados com eles. Eu irei me referir a estes como ‘Glorfindel I’ e ‘Glorfindel II’. A primeira página de Glorfindel I está faltando, e a segunda página começa com as palavras ‘como guardas ou assistentes’. Então se segue:
Um Elfo que conhecesse a Terra-média e tivesse lutado nas longas guerras contra Melkor seria uma companhia realmente adequada para Gandalf. Nós podemos então razoavelmente supor que Glorfindel [possivelmente como um de um pequeno grupo, mais provavelmente como uma companhia única] desembarcou com Gandalf-Olórin por volta de 1000 da Terceira Era. Esta suposição pode realmente explicar o ar de poder especial e santidade que cercava Glorfindel – percebava como o Rei-Bruxo fugiu dele, enquanto todos os outros [como o Rei Eárnur] embora corajosos não conseguiam fazer seus cavalos encará-lo [Apêndice A [I, iv]]. De acordo com os registros [completamente independente deste caso] sobre a natureza Élfica dados em outro local, e suas relações com os Valar, quando Glorfindel foi morto seu espírito foi para Mandos e foi julgado, e então permaneceu nos Salões de Espera até que Manwë lhe concedesse liberdade. Os Elfos eram por natureza destinados a serem ‘imortais’, até os limites desconhecidos da vida na Terra como um mundo habitável, e seus desligamentos corporais eram mortificantes. Era o dever dos Vala, então, restaurá-los, se eles fossem mortos, para a vida encarnada, se eles assim o desejassem – a não ser por alguma razão grave [e rara]: como os feitos de grande mal, ou quaisquer feitos de malícia dos quais permanecessem obstinadamente sem arrependimento. Quando eles eram re-incorporados eles podiam permaneceer em Valinor ou retornar para a Terra-média se seu lar tivesse sido lá. Nós podemos então razoavelmente supor que Glorfindel, após a purificação ou perdão de sua parte na rebelião dos Noldor, foi liberto de Mandos e tornou-se ele mesmo novamente, mas permaneceu no Reino Abençoado – pois Gondolin foi destruída e todos ou a maioria de seus parentes tinham perecido. Nós podemos dessa forma compreender porqeu ele parecia uma figura tão poderosa e quase ‘angelical’. Pois ele tinha retornado à primitiva inocência dos Primogênitos, e tinha então vivido entre aqueles Elfos que nunca se rebelaram, e em companhia dos maiar por eras: desde os últimos anos da Primeira Era, através da Segunda Era até o final do primeiro milênio da Terceira Era: antes dele retornar à Terra-média. É também bastante provável que ele já em Valinor tenha se tornado um amigo e um seguidor de Olórin. Mesmo nos breves vislumbres dados sobre ele em O Senhor dos Anéis ele aparece como especialmente preocupado com Gandalf, e foi um [o mais poderoso, ao que parece] daqueles mandados de Valfenda quando as preocupantes notícias de que Gandalf não reaparecera para guiar ou proteger o Portador do Anel chegaram a Elrond.O segundo ensaio, Glorfindel II, é um texto de cinco páginas manuscritas que sem dúvida segui-se ao primeiro depois de um curto intervalo; mas um pedaço de papel no qual meu pai apressadamente colocou alguns pensamentos sobre a matéria presumivelmente veio entre eles, visto que ele disse ali que enquanto gandalf poderia ter vindo com Gandalf, ‘parece bem mais verossímel que ele tenha sido mandado na crise da Segunda Era, quando Sauron invadiu Eriador, para auxiliar Elrond, e embora não [ainda] mencionado nos anais relatando a derrota de Sauron ele representou um notável e heróico papel na guerra.’ Ao final desta nota ele escreveu as palavras ‘navio Numenoriano’, presumivelmente indicando como Glorfindel poderia ter cruzado o Grande Mar.Seu nome é de fato derivado do mais antigo trabalho na mitologia: A Queda de Gondolin, escrito em 1916-1917, no qual a linguagem Élfica que no final das contas tornou-se aquela do tipo conhecido como Sindarin estava em uma forma primitiva e desorganizada, e sua relação com o tipo chamado Alto Élfico [por si mesmo bastante primitivo] ainda era aleátorio. A intenção era que significasse ‘Tranças Douradas’, e foi o nome dado ao ‘Gnomo’ [Noldo] heróico, um líder de Gondolin, que na passagem de Cristhorn [‘abismo das �?guias’] lutou com um Balrog [>Demônio], a quem ele matou ao custo de sua própria vida.Seu uso em O Senhor dos Anéis é um dos casos do uso de alguma forma aleatório dos nomes encontrados nas antigas lendas, agora conhecidas como sendo O Silmarillion, e que escapou à reconsideração na versão final publicada de O Senhor dos Anéis. Isto é desafortunado, uma vez que agora o nome é difícil de encaixar no Sindarin, e possivelmente não pode ser Quenyarin. Também na agora organizada mitologia, dificuldades estão presentes nas coisas anotadas sobre Glorfindel em O Senhor dos Anéis, se Glorfindel de Gondolin é supostamente a mesma pessoa que Glorfindel de Valfenda.

Como mencionado anteriormente: ele foi morto na Queda de Gondlin ao final da Primeira Era, e se um líder daquela cidade deveria ser um Noldo, um dos Senhores Élficos na tropa do Rei Turukáno [Turgon]; de qualquer maneira quando A Queda de Gondolin foi escrito ele certamente foi pensado como um. Mas os Noldor em Beleriand eram exilados de Valinor, tendo se rebelado contra a autoridade de Manwë, supremo líder dos Valar, e Turgon fora um dos apoiadores mais determinados e sem arrependimento da rebelião de Fëanor. Não há’como escapar disso. Gondolin no O Silmarillion é dita ter sido construída e ocupada por um povo de origem quase inteiramente Noldorin. Poderia ser possível, embora inconsistente, supor que um príncipe de origem Sindarin uniu-se à tropa de Turgon, mas isto iria contradizer inteiramente o que é dito de Glorfindel em Valfenda em O Senhor dos Anéis, onde é dito ele ser um dos ‘senhores dos Eldar de além do mais distantes mares… que havia morado no Reino Abençoado.’ Os Sindar nunca haviam deixado a Terra-média.

Esta dificuldade, muito mais séria que a linguística, deve ser considerada primeiro. De qualquer modo a solução mais simples à primeira vista deve ser abandonada: aquela na qual temos uma mera duplicação de nome, e que Glorfindel de Gondolin e Glorfindel de Valfenda são pessoas diferentes. Esta repetição de um nome tão impressionante, embora possível, não é crível. Nenhum outro personagem de destaque nas lendas Élficas como relatadas em O Silmarillion e O Senhor dos Anéis tem um nome usado por outra personalidade Élfica de importância. Também pode ser percebido que a aceitação de Glorfindel de antigamente e da Terceira Era realmente explica o que é dito dele e aprimora a história.

Quando Glorfindel de Gondolin foi morto seu espírito deveria, de acordo com as leis estabelecidas pelo Um, ser obrigado a retornar imediatamente para a terra dos Valar. Lá então ele deveria ser julgado, e permaneceria nos ‘Salões de Espera’ até que Manwë lhe concedesse perdão. Elfos foram destinados a serem ‘imortais, isto é não morrer dentro dos limites desconhecidos estabelecidos pelo Um, que no máximo seria até o fim da vida da Terra como um mundo habitável. Suas mortes – por qualquer ferimento a seus corpos que fosse tão severo que não pudesse ser curado – e o desligamento corporal de seus espíritos era um assunto ‘não-natural’ e doloroso. Era então dever dos Valar, por comando do Um, restaurá-los à vida encarnada, se assim o desejassem. Mas esta ‘restauração’ poderia ser adiada por Manwë, se o fëa enquanto vivo tivesse cometido atos malignos e recusado a se arrepender deles, ou ainda mantinha qualquer malícia contra qualquer outra pessoa entre os vivos.

Agora Glorfindel de Gondolin era um dos Noldor exilados, rebeldes contra a autoridade de Manwë, e eles estavam todos sob a proibição imposta por ele: eles não poderiam retornar em forma corpórea ao Reino Abençoado. Manwë, contudo, não estava preso à suas próprias regrasm e sendo o governante supremo do Reino de Arda poderia colocá-las de lado, quando desejasse. Pelo que é dito em O Silmarillion e O Senhor dos Anéis é evidente que ele era um Elda de espírito nobre e elevado e pode-se assumir que, embora tenha deixado valinor na tropa de Turgon, então incorrendo na proibição, ele o fez relutantemente devido ao parentesco e lealdade para com Turgon , e não teve parte no fratricídio de Alqualondë.

Mais importante: Glorfindel sacrificou sua vida na defesa dos fugitivos das ruínas de Gondolin contra um Demônio saído de Thangorodrim, e assim permitindo Tuor e Idril filha de Turgon e seus filho Eärendil escapar, e buscar refúgio nas Bocas do Sirion. Apesar dele não ter sabido a importância disto [e teria defendido-os mesmo eles sendo fugitivos de qualquer nível], este feito foi de vital importância para os desígnios dos Valar. É então inteiramente para manter o propósito geral de O Silmarillion a descrição da história subsequente de Glorfindel. Após a purificação de qualquer culpa que ele tivesse assumido na rebelião, ele foi liberto de Mandos, e Manwë o restaurou. Ele tornou-se então novamente uma pessoa vivente encarnada, e foi-lhe permitido morar no Reino Abençoado; pois ele tinha recuperado a graça e inocência primordial dos Eldar. Por longos anos ele permaneceu em valinor, em reunião com os Eldar que não se rebelaram, e em companhia dos Maiar. Para estes ele tinha se tornado quase um igual, pois embora ele fosse um encarnado [para quem uma forma corporal não feita ou escolhida por si mesmo é necessária] seu poder espiritual foi grandemente aumentado pelo seu auto-sacrifício. Em algum momento, provavelmente no início de sua residência provisória em Valinor, ele tornou-se um seguido, e um amigo, de Olórin [Gandalf], que como é dito em O Silmarillion tinha um amor e preocupação especiais pelos Filhos de Ilúvatar. Aquele Olórin, como era possível a um dos Maiar, já tinha visitado a Terra-média e tinha conhecido não apenas os Elfos Sindarin e outros no âmago da Terra-média, mas também com os Homens, mas nada é [>ainda foi] dito sobre isto.

Glorfindel permaneceu no Reino Abençoado, sem dúvida a princípio por sua própria escolha: Gondolin fora destruída, e todos os seus parentes tinham perecido, e estavam nos Salões de Espera inacessíveis pelos vivos. Mas sua longa residência temporária durante os últimos anos da Primeira Era, e pelo menos vários anos na Segunda Era, sem dúvida estavam de acordo com os desejos e desígnios de Manwë.

Quanto então Glorfindel retornou para a Terra-média? Isto deve provavelmente ter ocorrido antes do final da Segunda Era, e a ‘Mudança do Mundo’ e o Afundamento de Númenor, após o que nenhuma criatura viva corpórea, ‘humana’ ou de tipos inferiores poderia retornar dos Reinos Abençoados que haviam sido ‘removidas dos Círculos do Mundo’. Isto de acordo com uma regra geral procedente de Eru; e de qualquer forma, até o final da Terceira Era, quando Eru decretou que o Domínio dos Homens deveria começar, Manwë poderia ter recebido a permissão de Eru para fazer uma exceção em seu caso, e para ter planejado alguns modos de transporte para Glorfindel até a Terra-média, isto é improvável e faria de Glorfindel ter poder e importâncias maiores do que parecia ajustar-se a ele.

Nós então podemos melhor supor que Glorfindel retornou durante a Segunda Era, antes que a ‘sombra’ se estendesse em Númenor, e enquanto os Numenorianos ainda eram saudados pelos Eldar como poderosos aliados. Seu retorno deve ter sido para o propósito de fortalecer Gil-galad e Elrond, quando crescente mal das intenções de Sauron foi finalmente percebido por eles. Poderia, então, ter sido tão cedo quanto 1200 da Segunda Era, quando Sauron veio em pessoa para Lindon e tentou ludibriar Gil-galad, mas foi rejeitado e mandado embora. Mas poderia ter sido, talvez mais provavelmente, tão tarde quanto 1600, o Ano do Terror, quando Barad-dûr foi completada e o Um Anel forjado, e Celebrimbor finalmente tomou consci6encia da armadilha em que caíra. Pois em 1200, embora cheio de ansiedade, Gil-galad sentia-se forte e capaz de lidar com Sauron com descaso. E também a este tempo seus aliados Numenorianos tinham começado a fazer portos permanentes para seus grandes navios, e também muitos deles tinham começado a morar lá definitivamente. Em 1600 tornou-se claro a todos os líderes dos Elfos e Homens [e Anões] que a guerra contra Sauron era inevitável, agora desmascarado como um novo Senhor Escuro. Eles então começaram a se preparam para seu ataque; e sem dúvida mensagens e pedidos urgente por ajuda foram recebidos em Númenor [e em Valinor].

O texto acaba aqui, sem indicação de que está incompleto, embora a ‘dificuldade linguística’ a que ele se refere não foi levantada.

Escrito ao mesmo tempo que os textos ‘Glorfindel’ existe uma discussão da reincarnação Élfica. Ele tem duas versões, uma um rascunho bastante bruto [parcialmente escritos de fato no manuscrito de Glorfindel I] em relação ao outro. Este texto não está incluído aqui, exceto sua parte conclusória, que se refere à crença dos Anões no renascimento ou reaparição de seus pais, mais notavelmente Durin. Eu entrego esta passagem na forma em que está no rascunho original. Ela foi escrita rapidamente [com pontuação omitida, e formas variantes ou frases atropelando0se umas às outras] que na versão impressa que se segue não foi de modo algum transportada; mas são anotados pensamentos emergentes de uma matéria relativa à qual muito pouco é encontrada nos escritos de meu pai.

Esta falsa noção está conectada com várias idéias estranhas que tanto Elfos quanto Homens tinham em relação aos Anões, as quais eram de fato grandemente derivadas dos próprios Anões. Pois os Anões afirmavam que os espíritos dos Sete Pais de suas raças de tempos em tempos renasciam entre seus clãs. Isto é notável principalmente no caso da raça dos barbalongas cujo antepassado primeiro era chamado Durin, um nome tomados de tempo sme tempos por um de seus descendentes, mas não por outros exceto aquels em linha direta de descendência de Durin I. Durin I, o mais antigo dos pais, ‘acordou’ a muito tempo atrás na Primeira Era [suipostamente logo após o despertar dos Homens], mas na Segunda Era vários outros Durin apareceram como reis dos barbalongas [Anfagrim]. Na Terceira Era Durin VI foi morto por um Balrog em 1980. Foi profetizado [pelos Anões], quando Daín Pé-de-Ferro assumiu a realeza em 2941 da Terceira Era [após a Batalha dos Cinco Exércitos], que na sua linha direta apareceria um dia um Durin VII – mas ele seria o último. Sobre estes Durin os Anões reportaram que eles retinham na memória suas vidas anteriores como Reis, como se fosse real, e natualmente incompleta, como se eles tivessem vivido anos consecutivos como uma única pessoa.

Como isto poderia ter chegado ao Elfos não é conhecido; nem os Anões falam muito mais sobre o assunto. Mas os Elfos de Valinor conhecem um estranho conto sobre a origem dos Anões, o qual os Noldro trouxeram para a Terra-média, e declaram que o aprenderem do próprio Aulë. Este poderá sem encontrado entre vários assuntos menores encluídos em notas dou apêndices de O Silmarillion, e não é relatado completamente aqui. Para o presente propósito é suficiente recordar que o criador direto da raça dos Anões foi o Vala Aulë.

Aqui está uma breve versão da lenda da Criação dos Anões, a qual eu omiti; meu pai escreveu no texto: ‘Não é o lugar para contar a história de Aulë e os Anões.’ A conclusão então se segue:

Os Anões acrescenta que àquele tempo Aulë conquistou para eles este privilégio que os distinguia dos Elfos e dos Homens: que os espíritos de cada um dos Pais [como Durin] poderiam, ao final da longa duração da vida destinada aos Anões, adormeceriam, e então descansariam em um túmulo de seus próprios corpos, em descanso, e ali seus cansaços e ferimento que sofreram seriam curados. Então após longos anos eles deveriam acordar e tomar sua realeza novamente.

A segunda versão é bem mais breve, e sobre a questão do ‘renascimento’ dos pais diz apenas: ‘… a reaparição, a longos intervalos, da pessoa de um dos Pais dos Anões, nas linhas de seus reis – especialmente Durin – não é, quando examinada, provavelmente um caso de renascimento, mas da preservação do corpo de um prévio Rei Durin [é dito] para o qual a certos intervalos seu espírito retorna. Mas as relações dos Anões com os valar e especialmente com o Vala Aulë são [ao que parece] bastante diferentes daquelas de Elfos e Homens.’

[Tradução de Fábio Bettega]

Luthiens_Lament_Before_Mandos

A Segunda Profecia de Mandos

Luthiens_Lament_Before_MandosExiste uma referência no Contos Inacabados, na seção Os Istari, que diz o seguinte: “Manwë não descerá da Montanha até a Dagor Dagorath, e a Chegada do Fim, quando Melkor retornará“. Christopher Tolkien fez um comentário no pé da página, ao leitor: “Esta é uma referência à Segunda Profecia de Mandos, que não aparece no Silmarillion; sua elucidação não pode ser tentada aqui, uma vez que necessita de algum explicação da história da mitologia em relação à versão publicada”.

Unfinished Tales foi publicado em 1980, e, afortunadamente, com a publicação, em 1986 do quarto volume da The History of Middle-earth, entitulado The Shaping of Middle-earth, pode-se ententer mais sobre a Segunda  Profecia de Mandos. Elas aparecem neste volume de duas formas, no primeiro Silmarillion, o Sketch of the Mythology como escrito para o primeiro professor de Tolkien, R. W. Reynolds por volta de 1926, e também no Quenta Silmarillion propriamente escrito por volta de 1930. Para a versão do primeiro Silmarillion, veja section 19, pp. 40-1 de The Shaping of Middle-earth. A segunda versão, da qual alguns trechos abaixo foram retirados, encontra-se em section 19 , pp. 163-5 do mesmo volume:”Após o triunfo dos Deuses, Earendel continuou a navegar nos mares do céu, mas o Sol o queimava e a Lua o caçava no céu… Então os Valar desceram de seu navio branco, Wingelot, para a terra de Valinor, e o enxeram com brilho e o consagraram, e o lançaram através da Porta da Noite. E por muito tempo Earendel navegou na vastidão sem estrelas, Elwing a seu lado, a Silmaril à sua fronte, navegando o Escuro atrás do mundo, uma brilhante e fugitiva estrela. E algumas vezes ele retornava e brilhava atrás dos cursos do Sol e da Lua sob a proteção dos Deuses, mais brilhante que todas as outras estrelas, o marinheiro do céu, mantendo guarda a Morgoth até os confins do mundo. Dessa forma deverá navegar até que veja a Última Batalha sendo lutada nas planícies de Valinor.

Dessa forma falou a profecia de Mandos, que ele declarou em Valmar durante o julgamento dos Deuses, e rumores dele são sussurrados por todos os Elfos do Oeste: quando o mundo estiver velho e os Poderes cansarem-se, então Morgoth deverá retornar através da Porta para fora da Noite Eterna; e ele deverá destruir o Sol e a Lua, mas Earendel virá até ele como uma chama branca e o derrubará dos ares. Então deverá ser travada a última batalha sobre os campos de Valinor. Naquele dia Tulkas lutará com Melkor, e à sua direita estará Fionwe e à sua esquerda estará Turin Turambar, filho de Hurin, Conquistador do Destino; e será a espada negra de Turin que trará a Melkor sua morte e fim definitivo; e então as Crianças de Hurin e todos os homens estarão vingados.

 

Então as Silmarilli serão recuperadas do mar, da terra e do céu; pois Eärendil descerá e dará aquela chama a qual mantinha posse. Então Feanor utilizará as Três e com seu fogo reacenderá as Duas Árvores, e uma grande luz surgirá; a as Montanhas de Valinor serão rebaixadas, para que a luz possa atingir todo o mundo. Naquela luz os Deuses novamente sentir-se jovens, e os Elfos despertão e todos os mortos levantarão, e o propósito de Ilúvatar estará completo em relação a eles. Mas dos Homens naquele dia a profecia não fala, com excessão de  Turin apenas, e a ele o nomeia entre os Deuses.

Vinyar_Tengwar

Os Rios e Faróis das Colinas de Gondor

Rios e Fárois de Gondor, com comentários sobre os Numerais Eldarin, de um ensaio não publicado no HoME 12 por falta de espaço

Editado por Carl F. Hostetter
Com comentário e materiais adicionais
fornecidos por Christopher Tolkien
Textos de J.R.R. e Christopher Tolkien ©2001 The Tolkien Trust

Introdução
Este ensaio histórico e etimológico intitulado apenas “Nomenclatura”
por seu autor, pertencente entre outros trabalhos semelhantes que
Christopher Tolkien datou de c. 1967-69 (XII.293-94), incluindo Of
Dwarves and Men, The Shibboleth of Feanor, e The History of Galadriel
and Celeborn, e que foram publicados, por completo ou em parte, em
Contos Inacabados e The Peoples of Middle-earth. De fato, Christopher
Tolkien mostrou numerosos trechos desta composição em Contos
Inacabados. Ele preparou uma apresentação mais completa do texto para
The Peoples of Middle-earth, mas foi omitido daquele volume devido ao
tamanho.

Christopher Tolkien forneceu-me amavelmente tanto o
texto completo da composição quanto sua própria versão editada e
planejada para The Peoples of Middle-earth. Esta edição, sendo
destinada ao público em geral e feita com restrição de espaço,
naturalmente omite um número maior de passagens técnicas e/ou
filológicas discursivas e notas. Editando o texto para o público mais
especializado de Vinyar Tengwar, claro que restabeleci tal assunto
filológico todo. Eu também retive, com seu cortês consentimento, tanto
o próprio comentário de Christopher Tolkien na composição como
praticável (claramente identificado como tal ao longo dela), como provi
algum comentário adicional e notas próprios, principalmente em assuntos
lingüísticos. Além de Christopher Tolkien, eu gostaria de estender
minha gratidão a John Garth, Christopher Gilson, Wayne Hammond,
Christina Scull, Arden Smith, e Patrick Wynne, todos quem leram este
trabalho em rascunho e me apoiaram com muitos comentários úteis e
correções.

O ensaio consiste em treze páginas
datilografadas, numeradas de 1 à 13 por Tolkien. Uma rasgada pela
metade e sem número que continha uma nota manuscrita entitulada
“Complicado demais” (contendo e referindo-se a um longo, discursivo
debate do sistema numérico Eldarin, em particular a explicação do
número 5) foi colocada entre as páginas 8 e 9. Outra folha sem número
segue a última página, contendo uma nota manuscrita no nome Belfalas
(que é parafraseada em CI:281). Todas essas folhas são vários
formulários de escritório da George Allen & Unwin, com os escritos
de Tolkien limitados aos lados em branco, exceto no caso da última
folha. Aqui, o lado impresso foi usado para o rascunho manuscrito do
Juramento de Cirion em Quenya (já muito perto da versão publicada; cf.
CI:340) que foi continuado no topo (relativo à impressão) do lado em
branco. A nota em Belfalas é escrita com a folha de ponta a cabeça (do
rascunho em relação ao impresso).

Sobre a origem e data
deste ensaio, escreve Christopher Tolkien: “Em 30 de junho de 1969 meu
pai escreveu uma carta ao Sr. Paul Bibire, que havia escrito a ele uma
semana antes contando-lhe que tinha passado no exame para Bacharel de
Filosofia em Inglês Antigo em Oxford; ele demonstrava um certo
desapontamento com seu sucesso, alcançado apesar da negligência de
certas partes do curso que ele achou menos atraente, e particularmente
os trabalhos do antigo poeta inglês Cynewulf (ver Sauron Defeated, pág.
285 nota 36). Ao término de sua carta Sr. Bibire disse:
´Conseqüentemente, há algo sobre o que eu tenho desejado saber desde
que eu vi a adição relativa à segunda edição [de O Senhor dos Anéis]:
se o Rio Glanduin é o mesmo que ‘Cisnefrota’ (para a referência ver
Sauron Defeated, pág. 70 e nota 15)”. Christopher Tolkien proveu as
porções referentes a resposta de seu pai (que não foi incluída na
coleção de cartas editadas com Humphrey Carpenter):¹

Foi
amável da sua parte escrever para mim novamente. Eu estava muito
interessado em notícias suas, e muito solidário. Eu achei e acho o caro
Cynewulf um caso lamentável, porque é digno de lágrimas que um homem
(ou homens) com talento em tramar as palavras, o qual deve ter ouvido
(ou lido) tanto agora perdido, tenha gasto seu tempo compondo coisas
tão sem inspiração.² Também em mais de uma vez em minha vida eu
arrisquei minhas perspectivas por negligenciar coisas que não achei
divertidas naquela oportunidade!…

Eu sou agradecido a você
por mostrar o uso de Glanduin no Apêndice A, SdA III, pág. 319.³ Eu não
tenho nenhum índice dos Apêndices e tenho que fazê-lo. O Glanduin é o
mesmo rio que o Cisnefrota, mas os nomes não estão relacionados. Eu
noto no mapa com correções que estão para ser feitas na edição nova a
aparecer ao término deste ano que este rio está marcado por mim como
Glanduin e várias combinações com alph ´Cisne´.4 O nome Glanduin
significa ´rio da fronteira´, um nome dado desde a Segunda Era quando
ele era a fronteira meridional do Eregion, além do qual estavam os
povos hostis de Dunland. Nos primeiros séculos dos Dois Reinos,
Enedwaith (Povo do Meio) era uma região entre o reino de Gondor e o
reino de Arnor, em vagaroso estado de desaparecimento (incluiu
Minhiriath originalmente (Mesopotamia)). Ambos os reinos compartilhavam
um interesse na região, mas estavam principalmente preocupados com a
manutenção da grande estrada que era o meio principal de comunicação
com exceção do mar, e a ponte a Tharbad. O povo de origem Númenoriana
não viveu lá, exceto em Tharbad, onde uma guarnição grande de soldados
e guardiões de rio foram mantidas uma vez. Naqueles dias haviam
trabalhos de drenagem, e foram fortalecidos os bancos do Hoarwell e
Greyflood. Mas nos dias de O Senhor dos Anéis a região tinha a muito
ficado em ruínas e retornado a seu estado primitivo: um rio largo lento
correndo através uma cadeia de pântanos e charcos: o abrigo de hóspedes
como cisnes e outros pássaros aquáticos.

Se o nome Glanduin
ainda fosse lembrado ele só se aplicaria ao curso superior onde o rio
corria rapidamente para baixo, tão logo se perdesse nas planícies e
desaparecesse nos pântanos. Eu acho que eu posso manter Glanduin no
mapa para a parte superior, e marcar a parte mais baixa como os
pântanos com o nome Nîn-em-Eilph (terras aquáticas dos Cisnes) que
explicará o rio Cisnefrota adequadamente SdA III.263.5
Alph
´Cisne´ ocorre até onde eu me lembro só no SdA III, pág. 392.6 Não
poderia ser Quenya, já que ph não é usado em minha transcrição de
Quenya, e Quenya não tolera consoantes finais diferentes das dentais,
t, n, l, r depois de uma vogal.7 Quenya para ´Cisne´ era alqua (alkw�?).
O ramo “Céltico” do Eldarin (Telerin e Sindarin) mudou kw > p, mas
não, como Céltico, alterou p original.8 O tão alterado Sindarin da
Terra-Média mudou as consoantes paradas para fricativas depois de l, r,
como fez o Galês: assim *alkw�? > alpa (Telerin) > S. alf (grafado
alph em minha transcrição).

Ao término da carta Tolkien adicionou um pós-escrito:

Eu me recuperei muito – embora já tenha passado um ano que me
acidentei.9 Agora eu posso caminhar quase que normalmente, até duas
milhas ou mais (ocasionalmente), e ter um pouco de energia. Mas não
bastante para enfrentar um composição contínua e o interminável
“aprimoramento” de meu trabalho.

No cabeçalho do presente
ensaio, Tolkien escreveu “Nomenclatura”, seguido por: “Rio Cisnefrota
(SdA edição rev., III 263) e Glanduin, III Apên. A. 319 “; e então por:
“Examinado por P. Bibire (carta 23 de junho de 1969; resp. 30 de
junho). Como mais brevemente declarado em minha resposta: Glanduin quer
dizer ´rio da fronteira´”. O ensaio é deste modo visto como uma
expansão e elaboração das observações em sua resposta.

Os nomes dos Rios

O ensaio começa com o longo excerto e nota do autor dados em CI:298-99
(e assim não reproduzido aqui). Umas poucas variações entre o texto
publicado e o datilografado são dignos de nota: onde o texto publicado
tem Enedwaith, o datilografado lê Enedhwaith (esta era uma mudança
editorial feita em todos os excerto deste ensaio que contém o nome em
Contos Inacabados; cf. XII:328-29 n. 66); e onde o texto publicado tem
Ethraid Engrin, o datilografado tem Ethraid Engren (mas note (Ered)
Engrin, V.348 s.v. ANGÄ€-, V.379 s.v. ÓROT-, e muitos outros lugares).
Além disso, uma oração que se refere ao porto antigo chamada Lond Daer
Enedh foi omitida antes da última oração da nota do autor em CI:298;
lê-se: “Era a entrada principal para os Númenorianos na Guerra contra
Sauron (Segunda Era 1693-1701)” (cf. SdA:1147; e CI:268, 295-99).
Também, de encontro a discussão da aproximação para Tharbad que fecha o
primeiro parágrafo em CI:298, Tolkien forneceu a referência cruzada em
“SdA I 287,390 “.10Seguindo a passagem que termina no
início de CI:298, o ensaio continua com esta discussão etimológica, com
referência ao nome Glanduin:

glan: base (G)LAN, ´beira,
ponta, borda, fronteira, limite´. Isto é visto em Q. verbo lanya
´limitar, cercar, separar de, marcar o limite de; lanwa ´ dentro dos
limites, limitado, finito, (bem-)definido´; landa ´uma fronteira´; lane
(lani-) ´margem´; lantalka ´ posto ou marco de fronteira´; cf. também
lanka ´beirada acentuada, final súbito´, como por exemplo uma
extremidade de precipício, ou a extremidade polida de coisas feitas ou
montadas à mão, também usada em sentidos figurados, como em
kuivie-lankasse, literalmente ´na beira da vida´, de uma situação
perigosa na qual é provável resultar em morte.

É debatido se
gl- era um grupo inicial em Eldarin Comum ou era uma inovação de
Telerin-Sindarin (muito estendido em Sindarin). Neste caso, de qualquer
maneira, o gl- inicial é compartilhado por Telerin e Sindarin e é
encontrado em todos os derivado nesses idiomas (exceto em T. lanca, S.
lane, os equivalentes de Q. lanka): T. glana ´extremidade, borda´; 11
glania – ´confinar, limitar´; glanna ´limitado, confinado´; glanda ´uma
fronteira´: S. glân, ´bainha, borda´ (de tecidos e outras coisas feitas
à mão), gland > glann ´fronteira´; glandagol ‘marco de fronteira’;
12 gleina- ´fronteira, cerca, limite´. 13

Tolkien então
comenta: “Os nomes dos Rios dão algum trabalho; eles foram feitos às
pressas sem exame suficiente”, antes de embarcar sobre uma consideração
para cada nome por vez. Partes significantes desta seção do ensaio
foram fornecidas em Contos Inacabados. Não são repetidas as passagens
longas aqui, mas seus lugares estão indicados no ensaio.

Adorn

Este não está no mapa, mas é dado como o nome do rio pequeno que flui
no Isen vindo do oeste de Ered Nimrais no Apên. A, SdA III 346.14 Ele
é, como seria esperado em qualquer nome na região de origem
não-Rohanense, de uma forma adequado ao Sindarin; mas não é
interpretável em Sindarin. Deve-se supor que seja de origem
pré-Númenoriana adaptado ao Sindarin.15

Deste apontamento,
Christopher Tolkien nota: “Na ausência do nome no mapa – referindo é
claro ao meu mapa original de O Senhor dos Anéis, o qual foi
substituído muito tempo depois pelo redesenhado, feito para acompanhar
Contos Inacabados – ver CI:295, nota de rodapé “.

Gwathló

Do próximo apontamento, entitulado “Gwathlo (-ló)�?, Christopher Tolkien
escreve: “A longa discussão que surge sobre este nome é encontrada em
CI:294-95, com a passagem relativa a mudança dos homens Púkel e citada
na seção no Drúedain, CI.423-424. Na passagem posterior a oração
‘Talvez até mesmo nos dias da Guerra do Anel alguns do povo de Drú
permaneceram nas montanhas de Andrast, além da parte ocidental das
Montanhas Brancas’ contém uma mudança editorial: o texto original tem
´as montanhas de Angast (Cabo Longo)´, 16 e a forma Angast acontece
novamente mais de uma vez no ensaio. Esta mudança foi baseada na forma
Andrast comunicada por meu pai à Pauline Baynes para inclusão, com
outros novos nomes, em seu mapa ilustrado da Terra-Média; ver CI:294,
nota de rodapé”. Uma mudança editorial adicional pode ser notada: onde
o texto publicado tem Lefnui (CI:296, repetidos na nota extraída sobre
os homens Púkel, CI.423) o datilografado lê Levnui; cf. o apontamento
para Levnui está adiante.
Uma nova nota sobre “o grande
promontório… que formou o braço norte da Baía de Belfalas” lê:
“Depois ainda chamado Drúwaith (Iaur) ´(Velha) terra Pukel´, e seus
bosques escuros eram pouco visitados, nem considerado como parte do
reino de Gondor” Também, uma oração cancelada por Tolkien segue
“árvores enormes… sob as quais os barcos dos aventureiros rastejavam
silenciosamente para a terra desconhecida�?, lê: “É dito que até alguns
nesta primeira expedição vieram tão longe quanto os grandes pântanos
antes que eles retornassem, temendo ficar desnorteados em seus
labirintos.�?
A discussão continuou originalmente com a nota etimológica seguinte, cancelada ao mesmo tempo que a oração apagada:

Então era aquele o rio chamado em Sindarin Gwathlo (em Adunaico
Agathurush) ´rio da sombra´. Gwath era uma palavra Sindarin de uma base
do Eldarin Comum Wath ou Wathar estendido. Era muito usado; embora o
referente em Quenya waþar , mais tarde vasar, não estava em uso
diário.17 O elemento -lo também era de origem Eldarin Comum, derivado
de uma base (s)log: em Eldarim Comum sloga tinha sido uma palavra usada
para rios de tipos variáveis e sujeitos a alagarem seus bancos nas
estações e causarem inundações quando cheios por chuvas ou derretimento
de neve; principalmente como o Glanduin (descrito acima) que tinha sua
origem nas montanhas e desaguava à princípio rapidamente, mas era
contido nas terras mais baixas e planas, *sloga se tornou em Sindarin
lhô; mas não era em tempos mais recentes usado exceto em rios ou nomes
de pântanos. A forma Quenya teria sido hloä.

Esta passagem
contém uma nota, também cancelada, no nome Ringló, ocorrendo depois de
“Sindarin lhô” e citada na discussão daquele apontamento adiante.

A passagem apagada foi substituída por aquela dada em CI:296 começando
em “Então o primeiro nome que eles deram a ele foi ´Rio da Sombra´,
Gwath-hîr, Gwathir “. Pode ser notado que o palavra lo nesta passagem
foi corrigida no texto datilografado por lhô. Uma nota no nome Ringló,
omitida da passagem em Contos Inacabados, acontece depois das palavras
“Gwathlo, o rio sombrio dos pântanos”. Para esta nota, e seu
desenvolvimento, veja o apontamento para Ringló adiante. Depois desta
nota, uma declaração etimológica intervém antes do último parágrafo do
excerto publicado em Contos Inacabados:

Gwath era uma
palavra em Sindarin Comum para ´sombra´ ou meia-luz – não para as
sombras de objetos reais ou pessoas causadas por sol ou lua ou outras
luzes: estas eram chamadas morchaint ´formas-escuras´.18 Eram derivadas
de uma base Eldarin Comum WATH, e também aparecia em S. gwathra-
´obscureça, escureça, oculte, obscure´; gwathren (pl. gwethrin)
´sombrio, turvo´. Também relacionado era auth ‘uma forma escura,
aparição espectral ou vaga’, de *aw´tha. Esta também era encontrada no
Quenya auþa, ausa de sentido semelhante,; mas por outro lado a raiz só
era representada em Quenya pela extensão waþar, vasar ´ um véu´,
vasarya – ´velar´.

Lô foi derivado da base Eldarin Comum LOG
´molhado (e mole), ensopado, pantanoso, etc.´ A forma *loga produziu S.
lô e T. loga; e também, de *logna, S. loen, T. logna ´encharcando de
água, alagado´. Mas a raiz em Quenya, que devido a mudanças sonoras
causaram seus derivados a não combinar com outras palavras, era pouco
representada exceto na forma intensiva oloiya – ‘inundar, alagar’;
oloire uma grande enchente´.

Sobre as palavras “que devido a
mudanças sonoras causaram seus derivado a não combinar com outras
palavras” Tolkien adicionou esta nota:

Assim a forma Quenya
do S. lô teria sido *loa, idêntica a Q. loa <*lawa ´ano´; a forma de
S. loen, T. logna teria sido *lóna idêntico a lóna ´charco, lagoa´ (da
base LON também vista em londe ‘porto’, S. land, lonn).

Erui

Embora este fosse o primeiro dos Rios de Gondor, o nome não quer dizer
‘primeiro’. Em Eldarin er não era usado para contagem em série:
significava ‘um, único, sozinho’. Erui não é Sindarin habitual para
‘único, só’: que era ereb (

Sobre as palavras “o fim adjetival muito comum -ui de Sindarin” Tolkien adicionou esta nota:

Este era usado como um fim adjetival geral sem significado específico
(como por exemplo em lithui ‘de cinza’, ou ‘pálido, cor de cinza,
cinzento, empoeirado’). É de origem incerta, mas provavelmente foi
derivado do adjetival Eldarin Comum -ya que quando adicionado a
substantivos-raízes que terminam em E.C. -o, -u produziria em Sindarin
-ui. Este sendo mais distinto foi transferido então para outras raízes
gramaticais. Os produtos de �?ya > oe, e de ăya, ĕya, ĭya > ei;
�?ya, Å­ya > æ, e, não foram preservados em Sindarin.19 Mas -i que
poderia vir de Ä“ya e de Ä«ya, também permaneceu em uso(mais limitado);
cf. Semi adiante. A transferência é exemplificada nos ordinais que em
Sindarin foram formados com -ui de ‘quarto’ em diante, entretanto -ui
só estava historicamente correto em othui ‘sétimo’ e tolhui ‘oitavo’.
‘Primeiro’ era em Sindarin mais antigo e mais literário mein (Q.
minya); mais tarde minui foi substituído [cancelado: no idioma
coloquial; tadeg ‘segundo’; neleg ‘terceiro’]; então cantui (canhui)
‘quarto’, encui, enchui20 ‘sexto’, nerthui ‘nono’ [cancelado: caenui21
‘décimo’], etc. ‘Quinto’ ver adiante no nome Lefnui.

Serni

Christopher Tolkien escreve: “A declaração sobre este nome é dada no
�?ndice de Contos Inacabados, mas com uma errata que nunca foi
corrigida: a palavra Sindarin para ‘seixo’ é sarn, não sern “. Na
oração de abertura lê-se: “Uma formação adjetival do S. sarn ‘pedra
pequena, seixo (como descrito acima), ou um coletivo, o equivalente em
Q. sarnie (sarniye) ‘telha, seixo de rio”. Em uma nova oração, vinda
antes de “Sua foz era bloqueada com seixos” lê-se: “Foi o único dos
cinco a entrar no delta do Anduin “.

Sirith

Isto simplesmente significa ‘um rio’: cf. tirith ‘vigiando, guardando’ da raiz tir- ‘vigiar’.

Celos

Christopher Tolkien escreve: “A declaração sobre este nome é dada no
�?ndice de Contos Inacabados. No marcação errônea de Celos em meu mapa
redesenhado de O Senhor dos Anéis, ver VII:322 n. 9 “.

Gilrain

Uma
porção significante de observações neste nome de rio foi dada em
CI:274-75; mas a discussão começa com uma passagem omitida de Contos
Inacabados:

Este se assemelha ao nome da mãe de Aragorn.
Gilraen; mas a menos que haja erro na grafia, deve ter tido um
significado diferente. (Originalmente a diferença entre o Sindarin
correto ae e ai era ignorada, ai mais comum em inglês sendo usado para
ambos na narrativa geral. Assim Dairon, agora corrigido, para Daeron um
derivado do S. daer ‘amplo, grande’: E.C. *daira < P>

Sobre esta última oração Tolkien proveu uma nota etimológica:

Base
E.C. RAY ‘rede, trama, urdidura ou entrelace’; também [cancelado:
‘prender’] ‘envolver em uma rede, entrelaçar´. Cf. Q. raima ‘uma rede’;
24 rea e raita 1) ‘fazer rede ou entrelaçar´; raita 2) prender em uma
rede’; 25 [cancelado: também raiwe ´trama´;] carrea (

Desta
nota Christopher Tolkien escreve: “Compare O Senhor dos Anéis, Apêndice
E (i), pág. 393. 29 – Tressure(rede), uma rede para conter o cabelo, é
uma palavra do inglês medieval que meu pai tinha usado na tradução dele
de Sir Gawain and the Green Knight (estrofe 69): ‘as jóias claras / que
estavam entrelaçadas em sua rede(tressure) em grupos de vinte’ onde o
original tem a forma tressour.”
A anotação então conclui:

Em
Gilrain o elemento -rain embora semelhante era distinto em origem.
Provavelmente foi derivado da base RAN “vagar, errar, tomar curso
incerto�?, o equivalente do Q. ranya. Isto não pareceria adequado a
nenhum dos rios de Gondor…

A porção dada em Contos
Inacabados começa aqui (pág. 274). A oração final do primeiro extrato
da discussão de Gilrain em CI:275 omite o final; na oração inteira
lê-se: “Esta lenda [de Nimrodel] era bem conhecida em Dor-en-Ernil
(Terra do Príncipe) e sem dúvida o nome [Gilrain] foi dado como
lembrança disto, ou conferido na forma Élfica de um nome mais antigo de
mesmo significado”. Também omitido foi o parágrafo que segue essa
oração, o qual lê-se: “A viagem de Nimrodel foi datada pelos
cronologistas como 1981 da Terceira Era. Um erro no Apêndice B aparece
neste momento. Na anotação correta lia-se (ainda em 1963): “Os Anões
fogem de Moria. Muitos dos Elfos da Floresta de Lorien fogem para o
sul. Desaparecem Amroth e Nimrodel�?. Em edições ou reimpressões
subseqüentes ‘fogem de Moria…�? para ‘Elfos da Florestas foram por
razões desconhecidamente omitidas “. A leitura correta desta anotação
foi restabelecida na edição mais recente (Sda:1151). Além disso, a
primeira oração do parágrafo seguinte, introduzindo a passagem com o
qual o extrato dado em Contos Inacabados (pág. 275) recomeça, lê-se:
“Naquele momento foi Amroth, na lenda, chamado Rei de Lorien. Como isto
está de acordo com a lei de Galadriel e Celeborn, será esclarecido em
um resumo da história de Galadriel e Celeborn”. Finalmente, a última
oração do último parágrafo dado em CI:276 foi omitida; lê-se: “ A
comunicação era mantida constantemente com Lorien “.

Uma
nota datilografada anexada depois da primeira oração em CI:277, sobre a
frase “os pesares de Lorien, que estava agora sem monarca” e
subseqüentemente cancelada por Tolkien, lê: “Amroth nunca tomou uma
esposa. Durante longos anos ele tinha amado Nimrodel, mas tinha buscado
o amor dela em vão. Ela era da raça da Floresta e não amava os
Intrusos, os quais (ela disse) trouxeram guerras e destruíram a antiga
paz. Ela falaria só a Língua da Floresta, até mesmo depois que tivesse
caído em desuso entre a maioria dos povos. Mas quando o terror saiu de
Moria ela fugiu sem rumo, e Amroth a seguiu. Ele a achou perto dos
limites de Fangorn (os quais nesses dias ficavam muito mais próximos a
Lorien). Ela não ousou entrar na floresta, as árvores (ela disse)
ameaçaram-na, e algumas moveram-se para bloquear seu caminho. Lá eles
tiveram uma longa conversa; e no fim eles ficaram noivos, Amroth jurou
que por ela ele deixaria seu povo até em hora de necessidade e com ela
buscaria um refúgio de paz. ‘Mas não havia tal’ “. A nota cancelada
termina aqui, em meio a oração. Como Christopher Tolkien observa
(CI:274), esta passagem é a semente da versão da lenda de Amroth e
Nimrodel dada em CI:272-74.

A discussão sobre Gilrain conclui (seguindo o primeiro parágrafo dado em UT:245) com esta nota:

O
rio Gilrain se relacionado à lenda de Nimrodel tem que conter um
elemento derivado de E.C. RAN ‘vagar, errar, seguir sem rumo´. Cf. Q.
ranya ‘viagem errante’, S. rein, rain. Cf. S. randír ‘errante’ em
Mithrandir, Q. Rána nome do espírito (Máya) que dizia-se morar na Lua
como seu guardião.

Ciril, Kiril

Incerto,
mas provavelmente do KIR ‘cortar’. Ele começava em Lamedon e corria
para o oeste por algum caminho em um fundo canal rochoso.

Ringló

Para
o elemento -ló ver discussão de Gwathló acima. Mas não há registro de
qualquer pântano ou charco em seu curso. Era um rio rápido (e frio),
como o elemento ring- implica.30 Suas primeiras águas vinham de um alto
campo nevado que alimentava uma pequena lagoa gelada nas montanhas. Se
esta na estação em que a neve derretia, se espalhava em um lago raso,
isso explicaria o nome, mais um dentre muitos que se referem à nascente
de um rio.

Cf. a anotação Ringló no índice de Contos
Inacabados. Esta explicação do nome que Ringló só surgiu no curso da
composição deste ensaio; para a discussão de Gwathló que Tolkien
cancelou ele tinha adicionado esta nota originalmente:

Este
[o elemento ló] também aparece no nome Ringló, o quarto dos Rios de
Gondor. Pode ser traduzido como Rio Gelado. Descendo gelado das neves
das Montanhas das Névoas em curso rápido, depois de sua união com o
Ciril e depois com o Morthond formava pântanos consideráveis antes que
atingisse o mar, entretanto estes eram muito pequenos comparados com os
pântanos do Cisnefrota (Nîn-em-Eilph) perto de Tharbad.

Na discussão revisada de Gwathlo (CI:294) esta nota foi substituída pela seguinte:

Um
nome semelhante é achado em Ringló, o quarto dos rios de Gondor.
Nomeado como vários outros rios, como Mitheithel e Morthond (raiz
negra), depois de sua nascente Ringnen ‘água-gelada’, ele era chamado
posteriormente Ringló, uma vez que formava um pantanal perto de sua
confluência com o Morthond, entretanto este era muito pequeno comparado
com o Grande Pântano (Lô Dhaer) do Gwathló.

Tolkien cancelou
então a parte posterior desta nota (de “uma vez que formava um
pantanal�? até o fim), substituindo-a com um objetivo de considerar a
explicação final de Ringló dada acima, na qual o elemento lo não é
derivado dos pantanais perto da costa (não há de qualquer pântano ou
charco em seu curso “) mas do lago que formava a nascente do rio “na
estação em que a neve derretia”.

Morthond

Semelhantemente
o Morthond ‘Raiz Negra�?, que surge em um vale escuro nas montanhas
exatamente no sul de Edoras, chamado Mornan,31 não só por causa da
sombra das duas montanhas altas entre as quais se deita, mas porque por
ele passava a estrada do Portão dos Mortos, e os vivos não iam lá.

Levnui

Não
havia nenhum outro rio nesta região, “ao longo de Gondor”, até que
chegasse ao Levnui, o mais longo e mais largo dos Cinco. Este era
represado para ser o limite de Gondor nesta direção; para mais além
repousar no promontório de Angast e no deserto da “Velha Terra Púkel�?
(Drúwaith Iaur) a qual os Númenorianos nunca tinha tentado ocupar com
povoados permanentes, entretanto eles mantiveram uma força de guarda
Costeira e faróis no final do Cabo Angast.
É dito que Levnui
significa ´quinto´ (depois de Erui, Sirith, Semi, Morthond), mas sua
forma oferece dificuldades. (está grafado Lefnui no Mapa; e que é
preferível. Mas embora nos Apêndices seja dito que f tem o som do f
inglês, exceto quando posicionado ao término de uma palavra,32 o f mudo
não acontece medianamente antes de consoantes (em palavras ou nomes não
compostos) em Sindarin; enquanto v é evitado antes de consoantes em
inglês).33 A dificuldade é só aparente.

Tolkien embarca
então imediatamente em uma longa e elaborada discussão dos números em
Eldarin, a qual foi transferida para um apêndice adiante.

Seguindo
com esta discussão, Tolkien (continuando para o oeste no mapa de
Levnui) reapresentou o nome Adorn, e repetiu o conteúdo das observações
anteriores: “Este rio flui do Oeste de Ered Nimrais para o Rio Isen,
combina em estilo ao Sindarin, mas não tem nenhum significado naquele
idioma, e provavelmente é derivado de um dos idiomas falado nesta
região antes da ocupação de Gondor pelos Númenorianos que começou muito
tempo antes da Queda de Númenor”. Ele continuou então:

Vários
outros nomes em Gondor são aparentemente de origem semelhante. O
elemento Bel- em Belfalas não tem nenhum significado apropriado em
Sindarin. Falas (Q. falasse) significava ´litoral´ – especialmente o
exposto a grandes ondas e arrebentações (cf. Q. falma ´uma crista de
onda, onda). é possível que Eel tivesse um sentido semelhante em uma
língua estrangeira, e Bel-falas é um exemplo do tipo de nome-de-local,
não incomum quando uma região está ocupada por um novo povo no qual
dois elementos de mesmo significado topográfico são unidos: o primeiro
sendo o mais antigo e o segundo no novo idioma.34 Provavelmente porque
o primeiro foi tomado pelos Intrusos como um nome próprio. Porém, em
Gondor o litoral da foz do Anduin para Dol Amroth foi chamada Belfalas,
mas na verdade normalmente referiam-se a ele como i·Falas ´a praia da
rebentação´ (ou às vezes como Then-falas ´praia curta´,35 em contraste
à An-falas ´praia longa´, entre a foz de Morthond e Levnui). Mas a
grande baía entre Umbar e Angast (o Cabo Longo, além de Levnui) foi
chamado a Baía de Belfalas (Côf Belfalas) ou simplesmente de Bel (Côf
gwaeren Bêl ´a ventosa Baía de Bêl´).36 Então é mais possível que Bêl
fosse o nome ou parte do nome da região mais tarde chamada normalmente
de Dor-en-Ernil ´terra do Príncipe´: talvez fosse a parte mais
importante de Gondor antes da colonização Númenoriana.

Christopher
Tolkien escreve: “Com ´a ventosa Baía de Bêl´ cf. o poema The Man in
the Moon came down too soon em The Adventures of Tom Bombadil(1962),
onde o Homem na Lua desceu ´para um banho de espuma na ventosa Baía de
Bel´, identificada como Belfalas no prefácio do livro. -Esta passagem
foi cancelada, presumivelmente de imediato, uma vez que o próximo
parágrafo começa novamente “Vários outros nomes em Gondor são
aparentemente de origem semelhante�?. Uma página com manuscrito curto
encontrada com o ensaio datilografado mostra meu pai esboçando uma
origem completamente diferente para o elemento Bel-. Eu me referi a
este texto e citei-o em parte em Contos Inacabados (pág. 281),
observando que representa uma concepção completamente diferente da
estabelecida para o porto élfico norte (Edhellond) de Dol Amroth
daquela dada em Of Dwarves and Men (XII:313 e 329 n. 67), onde é dito
que a razão de sua existência era ´a navegação dos Sindar provenientes
dos portos ocidentais de Beleriand que fugiram em três navios pequenos
quando o poder de Morgoth subjugou os Eldar e os Atani´. A página
manuscrita pertence obviamente ao mesmo período que o ensaio, como é
visto tanto pelo papel no qual é escrito e quanto pelo fato de que a
mesma página carrega o rascunho para o Juramento de Cirion em Quenya
(CI:340)”. Esta página manuscrita é dada abaixo na íntegra; duas notas
que Tolkien fez ao texto estão adicionadas a seu fim:

Belfalas.
Este é um caso especial. Bel- é certamente um elemento derivado de um
nome pré-Númenoriano; mas sua origem é conhecida, e era de fato
Sindarin. As regiões de Gondor tiveram uma história complexa no passado
distante, tão antiga quanto sua população podia se dar conta, e os
Númenorianos evidentemente encontraram muitos assentamentos de povos
misturados, e numerosas ilhas de povos isolados ou que permaneciam em
velhas habitações, ou em refúgios na montanha protegidos dos invasores
(Nota 1). Mas havia um pequeno (mas importante) componente em Gondor de
um grupo bastante singular: uma colônia Eldarin.37 Pouco é conhecido de
sua história até pouco antes de seu desaparecimento; para os Elfos de
Eldarin, talvez Exilados de Noldor ou Sindar à muito enraizados, que
permaneceram em Beleriand até sua desolação na Grande Guerra contra
Morgoth,; e então se eles não foram para o Mar e vagaram rumo ao oeste
[sic; leia "ao leste "] em Eriador. Lá, especialmente próximo a
Hithaeglir (em qualquer lado), eles acharam colônias dispersas dos
Nandor, Elfos de Telerin que nunca tinham completado na Primeira Era a
jornada para as costas do Mar; mas ambos os lados reconheceram suas
linhagens como Eldar. Porém, lá parece no princípio da Segunda Era, ter
sido um grupo de Sindar que foi para o sul. Eles eram remanescentes,
parece, do povo de Doriath que ainda nutria rancor contra os Noldor e
deixaram os Portos Cinzentos por isso e todos os navios lá eram
comandados por Cirdan (um Noldo). Tendo aprendido a arte de construção
naval (Nota 2) eles viajaram por anos buscando um lugar para seus
próprios portos. Finalmente eles povoaram a foz do Morthond. Já havia
lá um porto primitivo de uma colônia de pescadores; mas estes fugiram
para as montanhas com medo dos Eldar. A terra entre Morthond e Serni
(as partes costeiras de Dor-en-Ernil).

Nota 1.
Embora nenhuma das regiões dos Dois Reinos existissem antes (ou
depois!) das colônias densamente povoadas de Númenorianos como nós
deveríamos supor.

Nota 2:
Todos os Elfos eram naturalmente hábeis na construção de barcos, mas a
arte que era fazer uma viagem longa pelo Mar, perigosa até mesmo para a
habilidade dos Elfos uma vez que a Terra Média estaria para atrás,
exigia mais perícia e conhecimento.

A página manuscrita termina aqui, incompleta, e sem chegar uma
explicação do elemento Bel-. Christopher Tolkien escreve: “Era talvez
uma extensão puramente experimental da história, imediatamente
abandonada; mas a afirmação que Cirdan era um Noldo é muito estranha.
Isto vai contra toda a tradição que concerne a ele – ainda que seja
essencial à idéia esboçada nesta passagem. Possivelmente foi sua
compreensão disto que levou meu pai a abandoná-la pela metade”.
O
texto datilografado recomeça com uma substituição da passagem rejeitada
em Belfalas (e evitando agora discussão daquele nome problemático):

Vários outros nomes em Gondor são aparentemente de origem semelhante.
Lamedon não tem nenhum significado em Sindarin (se fosse Sindarin seria
atribuída a *lambeton -, *lambetân -, mas E.C. lambe- ‘idioma’ pode
dificilmente ser considerado). Arnach não é Sindarin. Pode ser
relacionado com Arnen no lado oriental de Anduin. Arnach era empregado
aos vales no sul das montanhas e suas montanhas menores entre Celos e
Erui. Existiam muitas áreas rochosas lá, mas geralmente muito piores
que os vales mais altos de Gondor. Arnen era um rochedo distante do
Ephel Dúath, ao redor do qual o Anduin, ao sul de Minas Tirith, fazia
uma curva larga.

Sugestões dos historiadores de Gondor que arn- é um elemento em algum
idioma pré-Númenoriano que significa ´pedra´ é somente uma suposição.38
Mais provável é a visão do autor (desconhecido) de Ondonóre Nómesseron
Minaþurie (´Pesquisa sobre os Nomes de Gondor´) preservado
fragmentadamente.39 Conforme evidência interna ele viveu na época do
reinado de Meneldil, filho de Anárion-nenhum evento posterior àquele
reino é mencionado – quando recordações e registros dos primeiros dias
das colonizações agora perdidos ainda estavam disponíveis, e o processo
de nomear ainda estava em curso. Ele destaca que o Sindarin não era bem
conhecido por muitos dos colonos que deram os nomes, marinheiros,
soldados, e imigrantes, embora todos aspirassem ter um pouco de
conhecimento dele. Gondor certamente era ocupada no começo pelos Fiéis,
homens do grupo dos amigos dos Elfos e seus seguidores; e estes em
revolta contra os ´Reis Adunaicos´ que proibiram o uso das línguas
Élficas deram todo os novos nomes no reino novo em Sindarin, ou adaptou
nomes mais antigos para a maneira Sindarin. Eles também renovaram e
encorajaram o estudo do Quenya, no qual documentos importantes,
títulos, e fórmulas eram compostos. Mas era provável que enganos fossem
cometidos.40 Uma vez que um nome tivesse se tornado comum ele era
aceito pelos administradores e organizadores. Então ele pensa que Arnen
originalmente queria dizer ´ao lado da água, sc. Anduin´; mas ar- neste
sentido é Quenya, não Sindarin. Embora como no nome completo Emyn Arnen
o Emyn é plural Sindarin de Amon ´colina´, Arnen não pode ser um
adjetivo Sindarin, uma vez que um adjetivo de tal forma teria o plural
Sindarin ernain, ou ernin. O nome deve ter significado então ‘as
colinas de Arnen’. É esquecido agora, mas pode ser visto nos registros
antigos que Arnen era o nome mais antigo da maior parte da região mais
tarde chamada Ithilien. Este foi dado à faixa estreita entre o Anduin e
o Ephel Dúath, principalmente para a parte entre Cair Andros e a ponta
meridional da curva do Anduin, mas vagamente estendia-se ao norte para
o Nindalf e sul em direção à Poros. Foi quando Elendil tomou como sua
residência o Reino Norte, devido à amizade dele com os Eldar, e confiou
o Reino Sul aos seus filhos, eles então dividiram-no, como é dito em
anais antigos: “Isildur tomou como sua própria terra toda a região de
Arnen; mas Anárion tomou a terra de Erui ao Monte Mindolluin e deste em
direção oeste à Floresta do Norte”, (mais tarde chamada em Rohan a
Floresta Firien), “mas o sul de Ered Nimrais de Gondor eles controlavam
em comum “.

Arnach, se a explicação
acima for aceita, não é relacionado então a Arnen. Sua origem e fonte
estão nesse caso agora perdidas. Geralmente era chamado em Gondor
Lossarnach. Loss é Sindarin para ´neve´, especialmente a caída e a
muito acumulada. Por que razão que isto foi anteposto à Arnach é
incerto. Seus vales superiores eram famosos por suas flores, e abaixo
deles havia grandes pomares dos quais na época da Guerra do Anel ainda
vinham muitas das frutas necessárias em Minas Tirith. Embora nenhuma
menção disto seja encontrada em qualquer crônica -como é freqüente no
caso de assuntos de conhecimento comum- parece provável que a
referência seja de fato às floradas. Expedições para Lossarnach para
ver as flores e árvores freqüentemente eram feitas pelas pessoas de
Minas Tirith. (Ver índice Lossarnach adendo III 36,140;41 Imloth Melui
“vale da flor doce”, um lugar em Arnach). Este uso de ´neve´ seria
especialmente provável em Sindarin, no qual as palavras para neve caída
e flor eram muito semelhantes, embora diferentes em origem: loss e
loth, o significando(posterior) ´inflorescência, um cacho de flores
pequenas. Loth é de fato mais freqüentemente usado em Sindarin para
coletivo, equivalente a goloth; e uma única flor indicada por elloth
(er-loth) ou lotheg.42

Com Imloth Melui “vale da
flor doce�? cf. a menção de Ioreth de “as rosas de Imloth Melui”, SdA:
916. Sobre as palavras Sindarin loss e loth Tolkien fez a seguinte
nota:

S. loss é um derivado de
(G)LOS ´branco´; mas loth é de LOT. Sindarin usa loss como um
substantivo, mas forma intensiva gloss como um adjetivo ´branco
(brilhante)´, loth era o único derivado de LOT que reteve,
provavelmente porque outras formas da raiz gramatical assumiram uma
forma fonética que parecia imprópria, ou era confundível com outras
raízes (como LUT ´flutuar´): por exemplo *lod, *lûd. loth é do
diminutivo lotse e provavelmente também derivado de lotta-. Cf. Q.
losse ´neve´, lossea ´branco- neve´; e late ´uma flor´ (principalmente
aplicado as flores grandes individualmente); olóte ´buque, conjunto de
flores de uma única planta´; lilótea ´tendo muitas flores’; lotse ´uma
única flor pequena´; losta ´florescer´, (t-t em inflexão> st.)
Quenya e Sindarin mantêm para ´neve´ só a intensiva loss- uma vez que o
s mediano entre vogais sofria mudanças que o fazia inadequado ou
conflitante com outras raízes.

Os Nomes dos Faróis das Colinas

O sistema completo de faróis que ainda operava na época da Guerra do
Anel não pode ter sido anterior ao estabelecimento dos Rohirrim em
Calenardhon cerca de 500 anos antes; a sua função principal era
advertir os Rohirrim que Gondor estava em perigo ou (mais raramente) o
contrário. Quão antigos eram os nomes então usados não poderia ser
dito. Os faróis eram instalados em colinas ou nos cumes altos de
cordilheiras que corriam por fora das montanhas, mas alguns não eram
objetos muito importantes.

A primeira parte desta declaração foi citada na seção Cirion e Eorl em CI:335 n.35.

Amon Dîn

Esta anotação é dada na íntegra em CI:500 n. 51 (último parágrafo).

Eilenach e Eilenaer

Esta anotação é dada na mesma nota em Contos Inacabados, mas neste caso ligeiramente reduzida. No original a passagem começa:

Eilenach (melhor grafado Eilienach). Provavelmente um nome estrangeiro;
não Sindarin, Númenoriano, ou Idioma Comum. Na verdade eilen de
Sindarin só poderia ser derivado de *elyen, *alyen, e seria escrito
eilien normalmente. Isto e Eilenaer (nome mais velho de Halifirien:
veja isso abaixo) são os únicos nomes deste grupo que são certamente
pré-Númenorianos. Eles estão evidentemente relacionados. Ambos eram
notavelmente importantes.

O
nome e nota parentética em Eilenaer começam aqui, assim como alterações
para o texto datilografado. Christopher Tolkien escreve: “O nome
Eilenaer de fato não ocorre relacionado a Halifirien neste ensaio: meu
pai pretendeu introduzí-lo, mas antes que o fizesse ele rejeitou aquela
relação em sua totalidade, como será visto”. Ao término da descrição de
Eilenach e Nardol como dados em Contos Inacabados, onde é dito que o
fogo em Nardol poderia ser visto de Halifirien, Tolkien adicionou uma
nota:

A linha de faróis de
Nardol para Halifirien se dispunha em uma curva suave dobrando um pouco
para o sul, de forma que os três faróis intervenientes não cortassem a
visão.

As declarações seguintes dizem respeito a Erelas e Calenhad, elementos os quais foram usados no índice de Contos Inacabados.

Erelas

Erelas era um farol pequeno, como também era Calenhad. Estes não eram
sempre iluminados; a iluminação deles como em O Senhor dos Anéis era um
sinal de grande urgência. Erelas é Sindarin em estilo, mas não tem
nenhum significado satisfatório naquele idioma. Era uma colina verde
sem árvores, de forma que nem er- ´único´ nem las(s) ‘folha’ parecem
aplicáveis.

Calenhad

Calenhad era semelhante mas bastante maior e mais alto. Galen era a
palavra comum em Sindarin para ´verde´ (seu sentido mais antigo era
´brilhante´, Q. kalina). -had parece ser para sad (com mutação comum em
combinações); se não grafado erroneamente este deriva de SAT ´espaço,
lugar, sc. uma área limitada naturalmente ou artificialmente definida´
(também aplicado para identificar períodos ou divisões de tempo),
´dividir, demarcar´, visto em S. sad ´uma área limitada naturalmente ou
artificialmente definida, um lugar, marca´, etc. (também sant ´um
jardim, campo, pátio, ou outro lugar em propriedade privada, se cercado
ou não´; said ´privado, separado, não comum, excluído´; seidia – ´posto
em separado, destinado a um propósito ou dono especial´); Q. satì -
verbo, com sentido de S. seidia – (< P etc. -); [Q. adj.] satya [com
mesmo sentido] said; [Q.] asta divisão ano, ?mês? (sati Quenya tempo
espaço).44 Calenhad significaria desta simplesmente ?espaço verde?,
aplicado cume plano gramado colina. Mas had pode representar (os mapas
usam este caso onde poderiam ser envolvidos dh, menos Caradhras
omitido, Enedhwaith está grafado errado [?ened]. 45 -hadh seria então
sadh (em uso isolado sâdh) ?relva, grama? – base SAD ?pelar, esfolar,
descascar?, 46>

Halifirien

O ensaio termina (inacabado) com uma discussão longa e notável sobre
Halifirien; As notas entremeadas de Tolkien estão juntadas ao término
desta discussão. Com este relato cf. CI:334-1, 335-1.

Halifirien é um nome no idioma de Rohan. Era uma montanha com fácil
acesso ao seu ápice. Aos pés das suas encostas do norte crescia a
grande floresta chamada em Rohan a Floresta Firien. Esta se tornava
densa no terreno mais baixo solo, para o oeste ao longo do Ribeirão
Mering e em direção ao norte para a planície úmida pela qual o Ribeirão
fluía para o Entágua. A grande Estrada Oeste atravessava por uma longa
trilha ou clareira através da floresta, para evitar a terra úmida além
de seus limites. O nome Halifirien (modernizado em grafia de
Háligfirgen) significava Monte Sagrado. O nome mais antigo em Sindarin
tinha sido Fornarthan ´Farol Norte´; 47 a floresta tinha sido chamada
Eryn Fuir ´Floresta Norte´. A razão para o nome de Rohan não é
conhecida agora com certeza. A montanha era considerada com reverência
pelos Rohirrim; mas de acordo com suas tradições na época da Guerra do
Anel foi porque em seu ápice que Eorl o Jovem encontrou Cirion,
Governante de Gondor; e lá quando eles tinham examinado a terra adiante
eles fixaram os limites do reino de Eorl, e Eorl fez a Cirion o
Juramento de Eorl – “o juramento inquebrável” – de amizade perpétua e
aliança com Gondor. Desde então em juramentos da maior solenidade foram
invocados os nomes dos Valar (Nota 1) – e embora o juramento fora
chamado “o Juramento de Eorl” em Rohan também foi chamado “o Juramento
de Cirion” (para Gondor foi empenhado ajudar Rohan igualmente) e ele
usaria termos solenes em sua própria língua – isto poderia ser
suficiente para sacramentar o local.

Mas o relato em anais contém dois detalhes importantes: que havia no
lugar onde Cirion e Eorl estavam o que pareceu ser um monumento antigo
de pedras irregulares quase da altura de um homem com um topo plano; e
que naquela ocasião Cirion para o espanto de muitos invocou o Um (que é
Deus). As palavras exatas dele não estão registradas, mas elas
provavelmente tomaram a forma de termos alusivos como Faramir usou
explicando a Frodo o conteúdo da reverência “silenciosa” (antes de
refeições comunais) isso era um ritual Númenoriano, por exemplo “Estas
palavras permanecerão pela fé dos herdeiros da Terra da Estrela que
mantém os Tronos do Oeste e daquele que está acima de todos os Tronos
para sempre “.

Isto consagraria de fato o lugar por tanto tempo quanto durasse os
reinos dos Númenorianos, e não havia dúvida que a intenção era essa,
não sendo de qualquer forma uma tentativa para restabelecer a adoração
ao Um no Meneltarma (‘pilar de céu’), a montanha central de Númenor
(Nota 2), mas uma lembrança dela, e da reivindicação feita pelos
“herdeiros de Elendil�? que desde que eles nunca tinham vacilado em sua
devoção ainda era permitido a eles (Nota 3) dirigirem-se ao Um em
pensamento e oração.

O “antigo
monumento” – que foi evidentemente o significado de uma estrutura feita
antes da vinda dos Númenorianos – é um detalhe curioso, mas não há
nenhuma sustentação à opinião de que a montanha já era em algum sentido
“sagrada” antes de seu uso na tomada do juramento. Se tivesse ela sido
considerada de significado “religioso�? isto teria feito de fato seu uso
impossível, a menos que pelo menos tivesse sido completamente destruída
primeiro (Nota 4). Para uma estrutura religiosa que era “antiga” só
poderia ter sido erguida pelos Homens de Escuridão, corrompidos por
Morgoth ou o criado dele Sauron. Os Povos Médios, descendentes dos
antepassados dos Númenorianos, não eram considerados como nocivos nem
inimigos inevitáveis de Gondor. Nada é registrado da religião deles ou
práticas religiosas antes que eles entrassem em contato com os
Númenorianos (Nota 5), e aqueles que se associaram ou mesclaram com os
Númenorianos adotaram seus costumes e crenças (incluído no
“conhecimento” que Faramir fala de como tendo sido aprendido pelos
Rohirrim). O “antigo monumento” não pode ter sido assim feito pelos
Rohirrim, ou reverenciado por eles como sagrado, uma vez que eles não
tinham ainda se estabelecido em Rohan na época do Juramento (logo
depois da Batalha do Campo de Celebrant), e tais estrutura em lugares
altos como lugares de adoração religiosa não fazia parte dos costumes
dos Homens, bom ou mal (Nota 6). Pode porém ter sido uma tumba.

As notas do autor ao relato de Halifirien

Nota 1: Cf. a Coroação de Aragorn.
Nota 2: Isso teria sido considerado sacrílego.
Nota 3: E, como geralmente era confiado a seus governantes, todos que
aceitassem sua liderança e recebessem suas instruções. Veja próxima
nota.
Nota 4: Para a visão Númenoriana dos habitantes anteriores
veja a conversa de Faramir com Frodo, especificamente SdA II 287.49 Os
Rohirrim eram de acordo com sua classificação os Povos Médios, e a
importância deles para Gondor em sua época dele era principalmente em
mente e modifica seu relato; a descrição dos vários homens dos “feudos�?
meridionais de Gondor, que eram principalmente de descendência
não-Númenoriana, mostrava que outros tipos de Povos Médios, descendia
de outras das Três Casas dos Edain, que permaneceram no Oeste, em
Eriador (como os Homens de Bree), ou mais adiante ao sul –
principalmente os povos de Dor-en-Ernil (Dol Amroth).

Nota 5: Porque tais assuntos tiveram pouco interesse pelos cronistas
Gondorianos; e também porque foi suposto que eles tinham em geral
permanecido fiéis ao monoteísmo dos Dúnedain, aliados e seguidores dos
Eldar. Antes da remoção da maioria dos sobreviventes das “Três Casas
dos Homens” para Númenor, não há nenhuma menção da reserva de um lugar
importante para adoração do Um e a proibição em todos os templos
construídos à mão que era característico dos Númenorianos até a sua
rebelião e que entre os Fiéis (dos quais Elendil era o líder) depois da
Queda e perda do Meneltarma tornou-se uma proibição em todos os lugares
de adoração.

Nota 6: Os Homens de
Escuridão construíram templos, alguns de grande tamanho, normalmente
cercados por árvores escuras, freqüentemente em cavernas (naturais ou
cavadas) em vales secretos de regiões montanhosas; como os corredores
terríveis e passagens sob a Montanha Assombrado além do Portão Negro
(Portão dos Mortos) em Dunharrow. O horror singular do portão fechado
antes do qual o esqueleto de Baldor foi achado provavelmente era devido
ao fato de que a porta era a entrada para um salão de um templo
maléfico para o qual Baldor tinha vindo, provavelmente sem oposição até
aquele ponto. Mas a porta estava fechada na face dele, e inimigos que o
tinham seguido em silêncio vieram e quebraram suas pernas e o deixaram
para morrer na escuridão, incapaz de descobrir algum modo de sair.

Nas palavras “Pode porém ter sido uma tumba.”. Tolkien abandonou este
texto, e (sem dúvida que imediatamente) marcando o relato inteiro de
Halifirien para cancelamento.

Christopher Tolkien escreve: ” Estas últimas palavras podem bem
significar o momento preciso a qual a tumba de Elendil em Halifirien
[cf. CI:339] entrou na história; e é interessante observar o modo de
seu aparecimento. O original ´Firien era a ´colina negra´ na qual
estavam as cavernas de Dunharrow (VIII:251); também foi chamado ´o
Halifirien´ (VIII:257, 262), e Dunharrow era ´ dito para ser um
haliern´ (inglês antigo hálig-ern ´lugar santo, santuário´) ´e para
conter alguma relíquia antiga dos velhos dias antes da Escuridão´;
enquanto Dunharrow, na palavras posteriores de meu pai, é ´uma
modernização de Rohan DÅ«nhaerg “o templo pagão na encosta”, denominado
porque este refúgio do Rohirrim… estava no local de um lugar sagrado
dos antigos habitantes (VIII:267 n. 35). O nome Halifirien foi logo
transferido para se tornar a último dos faróis-das-colinas de Gondor,
no final ocidental da cadeia (VIII:257) que tinha sido nomeado Mindor
Uilos primeiro (VIII:233); mas não há nenhuma indicação de tudo do que
meu pai tinha em mente, com respeito ao real significado expresso do
nome Halifirien, quando ele fez esta transferência. O relato dado
acima, escrito tão tarde na vida dele, parece ser a primeira declaração
no assunto; e aqui ele assumiu sem questionamento que (logo que a
colina surgiu os Sindarin a chamaram Fornarthan ‘Farol Norte’) foram os
Rohirrim que a chamaram ´a Montanha Sagrada: e eles a chamaram assim,
´de acordo com suas tradições na época da Guerra do Anel´, por causa da
profunda gravidade e solenidade do juramento de Cirion e Eorl assumido
em seu topo no qual o nome de Eru foi invocado. Ele se refere a um
registro nos anais que ‘um monumento antigo de pedras irregulares quase
da altura de um homem com um topo plano’ situado no cume de Halifirien
- mas ele imediatamente continua a discutir fortemente que sua presença
não pode ser ´nenhum apoio para a versão de que a montanha era em algum
sentido “sagrada” antes de seu uso na tomada do juramento´, uma vez que
qualquer objeto antigo de significado ‘religioso’ só poderia ter sido
erguido pelos Homens de Escuridão, corrompido por Morgoth ou seu criado
Sauron´ Mas: ´Pode porém ter sido uma tumba.´

“E assim a ´consagração´ da colina (antigamente chamada Eilenaer) foi
feita dois mil e quinhentos anos atrás antes do Rohirrim se
estabelecerem em Calenardhon: já no começo da Terceira Era ela era a
Colina da Admiração, Amon Anwar dos Númenorianos, por causa daquela
tumba em seu topo. Eu não tenho nenhuma dúvida que o relato dado do
Juramento de Cirion e Eorl, com os textos intimamente relacionados, em
Contos Inacabados, seguiram muito brevemente e talvez sem intervalo a
todo o abandono deste ensaio nos nomes dos rios e faróis-das-colinas de
Gondor.

“É
assim visto que não só o trabalho presente mas toda a história do
Halifirien e a tumba de Elendil surgiu a partir do breve questionamento
do Sr. Bibire.

“Este é um lugar
conveniente para notar uma fase no desenvolvimento da história da tumba
de Elendil que não foi mencionada em Contos Inacabados. Há uma página
de rascunho rejeitada para a passagem que reconta a definição dos
limites de Gondor e Rohan por Cirion e Eorl que ligeiramente difere do
texto impresso em Contos Inacabados até o início do parágrafo: ´Por
este pacto apenas uma pequena parte da Floresta de Anwar…. ´
(CI:342). Aqui o texto rejeitado lê:

Por este acordo originalmente só uma pequena parte da Floresta à oeste
do Ribeirão Mering foi incluída em Rohan; mas a Colina de Anwar foi
declarada por Cirion para ser agora um lugar sagrado de ambos os povos,
e qualquer deles só poderia ascender agora a seu topo com a permissão
do Rei dos Éothéod ou do Governante de Gondor.
Durante o dia
seguinte depois da tomada dos juramentos Cirion e Eorl com doze homens
ascenderam a Colina novamente; e Cirion deixou abrir a tumba. “Está
correto agora afinal,” ele disse, “que os restos do pai dos reis sejam
trazidos para ficarem a salvo nos santuários de Minas Tirith.
Indubitavelmente se tivesse ele voltado da guerra sua tumba teria
estado muito longe no Norte, mas Arnor definhou, e Fornost está
desolada, e os herdeiros de Isildur entraram nas sombras, e nenhuma
palavra deles veio a nós por muitas vidas de homens “.

“Aqui meu pai parou, e tomando uma nova página escreveu o texto como
está em Contos Inacabados, adiando a abertura da tumba e a remoção dos
restos de Elendil para Minas Tirith para um ponto mais adiante na
história (CI:346).”

Apêndice: Os numerais Eldarin

O texto seguinte foi removido do apontamento para o nome do rio Levnui (S. ´quinto´) anterior à este apêndice.

As raízes dos números em Eldarin Comum (o qual até 12 concordam
exatamente nos idiomas derivados) era: 1 ´único´ (não-consecutivo) ER;
´um, primeiro de uma série´ MIN. 2 TATA, ATTA. 3 NEL, NEL-ED. De 3 à
951 as raízes eram dissílabas (Nota 1) (triconsonantal, embora duas
delas não tinham nenhuma consoante inicial, como não era raro em
Eldarin Comum neste padrão): 4 kan-at. 6 en-ek(w) (o (w) só aparece em
Quenya). 7 ot-os. 8 tol-ot. 52 9 net-er. 10 kwaya, kway-am. 11
minik(w). 12 yunuk(w). 53 5 é omitido porque é raro. Teve a raiz lepen,
e uma suposta variante lemen(mas veja mais adiante) nenhuma das quais
nunca apareceria sem a terceira consoante.

Os números, como é habitual, não são na maioria dos casos
referenciáveis a outras raízes ou bases com certeza. A forma min
provavelmente é a mesma em origem como MIN que aparece em palavras que
se aplicam às coisas imponentes isoladas, como campanários, torres
altas, cumes montanhosos proeminentes, minya ´primeiro´ tanto
significava eminente, proeminente´, cf. Q. eteminya ´proeminente´;
também minde ´torre´, aumentada em mindon ´torre alta´, minasse, S.
minas: ´forte, cidade, com uma fortaleza e torre de vigília central´.
´Cinco´ era sem dúvida primordialmente um número especial em povos de
forma de élfica/humana, sendo o número dos dedos em uma mão. Assim
lepen está sem dúvida relacionada à raiz LEP ´dedo´ (Nota 2). Também é
certo que 10 kwaya, e kwayam (-m que também é de origem plural), é
relacionado a base KWA (kwa-kwa, kwa-t) ´cheio, completo, tudo, todo”,
e significava ´tudo, o lote inteiro, todos os dez dedos’.54 Mas já em
Eldarin Comum os múltiplos de três, especialmente seis e doze, eram
considerados especialmente importantes, por razões aritméticas gerais;
e eventualmente ao lado da numeração decimal um sistema duodecimal
completo foi inventado para cálculos, alguns dos quais, como as
palavras especiais para 12 (dúzia), 18, e 144 (grossa), usado em
geral.55 Mas desde então isto aparece ter sido um desenvolvimento
relativamente recente (só começado depois do Eldarin Comum [?Período]
com exceção da palavra para 12), 56 a vaga semelhança de nel(ed),
e-nek-we, net-er provavelmente não são significantes.

Em Eldarin Comum as formas cheias com ómataima (longo ou curto)57 foram
empregadas como cardinais: como Telerin canat, Sindarin canad 4 lepne
geraria lempe sem necessidade de substituir m. Veja mais adiante em
Ordinais.
O ordinais em Eldarin Comum parecem ter sido formados
por adição de – y�? adjetival a uma raiz na qual a segunda vogal estava
ausente. Não através de síncope, mas de acordo com os modos primitivos
de derivação de bases. Em Quenya o final -ea foi generalizado para 3º,
4º, 6º, 9º inclusive. Era a forma natural para Quenya em 3º, 4º, 6º,
9º, e excluía-se o oya próprio para 7º, 8º. As formas em Quenya eram:
1º minya; 2º tatya (Nota 4) logo substituído por attea; 3º nelya,
também neldea,; 4º kantea; 5º lemenya (a forma comum; lempea só aparece
mais tarde em Quenya); 6º enquea; 7º otsea; 8º toldea; 9º nertea; 10º
quainea. As formas em Sindarin eram cardinais 1 mîn, er; 2 tâd; 3 nêl;
4 canad; 5 leben; 6 eneg; 7 odog (a forma histórica odo
Nesta
colocação as anomalias Q. lemenya e S. levnui podem ser entendidas
melhor. A forma lemenya em Quenya claramente sustenta a opinião que o
número Eldarin Comum para 5 diferiu dos outros de 3 à 9: não era
originalmente uma raiz de triconsonantal, o final nasal era um inflexo,
e não havia nenhum ómataima além dele no momento primordial quando
estes adjetivos foram inventados; o -ya adjetival foi adicionado então
direto ao nasal. O m é porém uma alteração de Quenya baseada em lempe.
Em Telerin, em contraste com Quenya e Sindarin, o ordinais, sob a
influência de minya, tatya, nelya, e lepenya, generalizaram o padrão no
qual -ya foi somado direto à consoante final da raiz: assim T. 4º
canatya, 6º enetya, 7º ototya, 8º tolodya, 9º neterya, 10º paianya,.
Pode ser observado que 5º eram lepenya; desde que o cardinal era lepen
e não havia nenhuma forma tal como Q. lempe para induzir uma mudança
para lemen-. O Telerin, embora em muitas formas a mais arcaica das
línguas dos Eldarin, não era imune a mudanças analógicas como é visto
na forma ototya (com tya em vez de sya) depois de -tya em 2º, 4º, 6º;
mas não seria razoável supor que T. lepenya tem p depois de lepen em
vez de m como em Q. lemenya; desde que o m está isolado em Quenya e
satisfatoriamente explicável de lempe, enquanto que uma raiz variante
*lemen seria obscura em suas relações para lepen que tem conexões
etimológicas confiável.

O S. levnui não
sustenta *lemen. É verdade que *lemnui feito em um padrão semelhante
para os outros números geraria levnui; mas o mesmo faria uma forma-raiz
lepn- em Sindarin. Em Sindarin paradas mudas [i.e., p, t, k] antes de
nasais tornam-se sonoras > b, d, g, e então junto com as paradas
sonoras originais nesta posição tornam-se nasais antes de nasais
homorgânicas (tn, dn> nn; pm, bm> mm), mas antes de outras nasais
tornam geralmente fricativas como medianas (pn, bn> vn; tm, dm>
ðm, depois> ðv, ðw,; kn, gn> gn> em; km, gm> gm> im>
iv, iw). Como, entretanto, Quenya e Telerin mostram claramente que a
raiz lepen não é uma raiz primordialmente distinta capaz do
deslocamento da segunda vogal, a história real da anomalia Sindarin é
provavelmente esta: a seqüência do E.C. lepenya teriam produzido
*lepein(a) [cancelado: mais provavelmente lebein(a)], mas sua anomalia
em relação a seus vizinhos teria só o apoio do distante *neil(a) 3º,
que não era uma raiz triconsonantal; era então remodelada a lepni(a)
depois de enki(a) 6º e nerti(a) 9º e o padrão semelhante das raízes em
*kantaia 4º, otsoia 7º, toltoia 8º. O lepni seguiu o desenvolvimento
Sindarin normal então para levni e subseqüentemente adotando como todos
os outros vizinhos o final ui.

Uma folha rasgada ao meio colocada entre esta discussão de números em Eldarin lê:

Complicado demais. lemenya deve ser abandonado, o reflexo do Antigo
Quenya em Vanyarin era lepenya (como em Telerin). Em Noldorin Quenya
essa anomalia era corrigida por lempea (com -ea dos outros ordinais)
derivado de lempe, e antes do Exílio esta já era a forma habitual
falada de 5º em Quenya Noldorin, embora os Noldor todos conhecessem
lepenya desde que era usado em Vanyarin e também em Telerin.

Notas do autor para o relato dos numerais Eldarin

Nota 1: As mais simples, e provavelmente mais antigas, formas
bi-consonantais ocorrem, entretanto, em formas adverbiais ou prefixos:
como AT(A) ´

A Nova Sombra (The New Shadow)

Este conto se inicia nos dias de Eldarion, filho daquele Elessar de
quem as histórias têm muito a dizer. Cento e cinco anos se passaram
desde a queda da Torre Negra, e a história daquele tempo é pouco
lembrada pela maioria do povo de Gondor; mas existiam uns poucos que
continuavam vivendo e que se lembravam da Guerra do Anel como uma
sombra sobre o começo de suas infâncias. Um desses era o velho Borlas
de Pen-arduin. Ele era o filho mais novo de Beregond, o primeiro
Capitão da Guarda do Príncipe Faramir, que se mudara com seu senhor da
Cidade para Emyn Arnen.

 
"Realmente profundas são as raízes
do Mal", disse Borlas, "e a força negra é forte nelas. Aquela árvore
nunca será morta. Deixe os homens podá-las tão freqüentemente quanto
possam, elas lançarão brotos tão logo eles virem as costas. Nem mesmo
na Festa da Derrubada deverá o machado ser pendurado na parede!"

"Claramente você pensa estar falando palavras sábias", disse Saelon.
"Suponho isso pela melancolia em sua voz, e pelo balançar de sua
cabeça. Mas sobre o que é tudo isso? Sua vida parece bastante boa
sempre, para um homem idoso que agora não vai muito longe. Onde você
encontrou um galho de sua árvore negra crescendo? Em seu próprio
jardim?"

Borlas levantou os olhos, e enquanto olhava
penetrantemente para Saelon ele imaginou repentinamente se este jovem
homem, geralmente alegre e freqüentemente meio zombeteiro, tinha mais
em sua mente do que transparecia em sua face. Borlas não tinha intenção
de abrir seu coração a ele, e tendo os pensamentos carregados falou em
voz alta, mais para si mesmo do que para seu companheiro. Saelon não
retornou seu olhar. Estava sussurrando suavemente, enquanto cortava um
apito de salgueiro verde com um afiado canivete.
Os dois homens
estavam sentados em uma árvore perto da escarpada margem leste do
Anduin, onde este corria aos pés das colinas de Arnen. Eles de fato
estavam no jardim de Borlas e sua pequena casa de pedras cinzentas
podia ser vista entre as árvores acima deles na inclinação da colina,
voltada para o oeste. Borlas olhou para o rio, e para as árvores com
suas folhas de Junho, e então longe, para as torres da Cidade sob o
brilho do final da tarde. "Não, não em meu jardim", ele disse,
ponderadamente.

"Então porque você está tão preocupado?"
perguntou Saelon. "Se um homem tem um belo jardim com muros fortes,
então ele possui tanto quando qualquer homem pode administrar para seu
próprio prazer". Ele fez um intervalo. "Enquanto mantiver a força da
vida nele", ele acrescentou. "Quando esta falha, porque se preocupar
com qualquer outro mal menor? Pois então ele deverá deixar seu jardim
para sempre em breve, e outros deverão cuidar das ervas daninhas".

Borlas suspirou, mas não respondeu, e Saelon continuou: "Mas existem
com certeza alguns que não se darão por contentes, e ao fim de suas
vidas preocuparão seus corações sobre seus vizinhos, e a Cidade, e o
Reino, e todo o amplo mundo. Você é um deles, Mestre Borlas, e sempre
tem sido, desde que eu o conheci como um garoto que você pegou em seu
pomar. Já naquele tempo você não estava contente em deixar as desgraças
em paz: me deteria com uma surra ou fortaleceria seus muros. Não. Você
ficou pesaroso e quis me melhorar. Você me recebeu em sua casa e falou
comigo.

"Eu recordo disso bem. "Trabalho de Orcs", você
disse muitas vezes. "Roubando boa fruta, bem, eu suponho que não seria
pior do que trabalho de garotos, se eles estão famintos, ou seus pais
são muito libertários. Mas destruir maçãs que não estão maduras para
estragá-las ou jogá-las! Este é um trabalho de Orc. Como você veio a
fazer tal coisa, rapaz?""

"Trabalho de Orcs! Eu estava
irritado por isso, Mestre Borlas, e muito orgulhoso para responder,
embora estivesse no meu coração para dizer em palavras de crianças: "se
é errado para um garoto roubar uma maçã para comer, também é errado
roubar uma para brincar. Mas não mais errado. Não fale para mim sobre
trabalho de Orc, ou eu poderei lhe mostrar algum!""

"Foi um
erro, Mestre Borlas. Pois eu tinha ouvido contos sobre os Orcs e seus
atos, mas eu ainda não tinha me interessado por eles. Você voltou minha
mente para eles. Eu me afastei dos pequenos roubos [meu pai não era
muito libertário], mas eu não esqueci os Orcs. Comecei a sentir ódio e
pensar na doçura da vingança. Nós brincávamos de Orcs, eu e meus
amigos, e algumas vezes eu pensei: "Deveria eu com meu bando ir e
derrubar suas árvores? Então ele iria pensar que os Orcs realmente
retornaram". Mas isso foi há muito tempo atrás", terminou Saelon, com
um sorriso.

Borlas estava assustado. Ele agora estava
recebendo confidências e não fazendo. E existia algo de inquietante no
tom do jovem, algo que o fez perguntar-se se no fundo do coração, tão
profundo quanto as raízes das árvores negras, o ressentimento infantil
não perdurava. Sim, mesmo no coração de Saelon, o amigo de seu próprio
filho, e o jovem que nos últimos poucos anos tinha mostrado a ele muita
bondade em sua solidão. De qualquer modo ele decidiu não lhe dizer mais
nada de seus próprios pensamentos.

"Ah!" ele disse, "todos
nós cometemos erros. Eu não reivindico sabedoria, meu jovem, exceto
talvez aquela pequena que alguém pode acumular com o passar dos anos.
Sei muito bem a triste verdade de que aqueles que tem boas intenções
podem causar mais mal do que aquelas pessoas que deixam as coisas
acontecerem. Sinto muito agora pelo que eu disse, se provocou ódio em
seu coração. Embora eu continue achando o mesmo: fora de hora talvez,
mas ainda verdade. Certamente mesmo um garoto precisa compreender que
fruta é fruta, e não alcança seu pleno existir até estar madura; então
fazer mau uso dela antes de madura é pior do que apenas roubá-la do
homem que a está cuidando: pois rouba o mundo, impedindo uma boa coisa
de se concretizar. Aqueles que assim o fazem estão unindo forças com
tudo que está fora de ordem, com as geadas e feridas e os ventos ruins.
E este é o estilo dos Orcs."

"E é o estilo dos homens
também," disse Saelon. "Não! Eu não quero dizer dos homens selvagens
apenas, ou aqueles que cresceram "sob a sombra", como dizem. Quero
dizer todos os Homens. Eu não faria mau uso de frutas verdes agora, mas
apenas porque eu não tenho mais nenhum uso para maçãs verdes, nem para
suas orgulhosas razões, Mestre Borlas. E realmente eu acho que suas
razões são tão enfermas quanto uma maçã que ficou muito tempo na loja.
Para as árvores todos os Homens são Orcs. Os Homens consideram a
concretização da história da vida de uma árvore antes de cortá-la? Pois
não importa o propósito: para ter espaço para lavoura, para usar sua
madeira em construções ou como combustível, ou meramente para abrir a
vista? Se as árvores fossem os juízes, poderiam colocar os Homens acima
dos Orcs, ou realmente acima das geadas e feridas? O que é mais
correto, elas poderiam perguntar, ter Homens se alimentando de sua
seiva ou as geadas?

"Um homem," disse Borlas, "que cuida de
uma árvore e a guarda das geadas e muitos outros inimigos não atua como
um Orc ou uma ferida. Se ele come sua fruta, ele não comete um dano.
Ela produz frutas mais abundantemente que suas necessidades para seu
próprio propósito: a continuação de sua própria espécie."

"Deixe-o comer a fruta então, ou brincar com ela," disse Saelon. "Mas
eu falei de matar, cortando ou queimando; e por qual direito os homens
fazem estas coisas às árvores."

"Não, você não falou. Você
falou do julgamento das árvores nesses assuntos. Mas árvores não são
juízes. Os filhos do Único são os mestres. Meu julgamento como um deles
você já conhece. Os males do mundo não estavam a princípio no grande
Tema, mas entraram com as desarmonias de Melkor. Os Homens não surgiram
com estas desarmonias; eles entraram depois como uma coisa nova,
diretamente de Eru, o Único, e então ele foram chamados Seus filhos, e
como tudo que estava no Tema eles possuem, para seu próprio bem, o
direito de usar todas as coisas corretamente, sem orgulho ou malícia,
mas com reverência.

"Se o menor dos filhos de um lenhador
sente o frio do inverno, a mais orgulhosa árvore não ficará ofendida se
for ordenada a ceder sua madeira para aquecer com fogo uma criança. Mas
a criança não pode estragar a árvore com brincadeiras ou malvadezas,
cortar sua casca ou quebrar seus galhos. E o bom lavrador usará
primeiro, se ele puder, madeira morta ou uma árvore velha; ele não
derrubará uma árvore jovem e a deixará apodrecer, sem outra razão a não
ser em seu prazer em lidar com o machado. Isto é Órquico!"

"Mas é sempre como eu disse: as raízes do Mal são profundas, e de longe
vem o veneno que trabalha em nós; por isso, tantos fazem estas coisas
de vez em quando, e tornam-se então realmente como os servos de Melkor.
Mas os Orcs fazem estas coisas todo o tempo; ferem com prazer todas as
coisas que podem sofrer, e são refreados apenas pela falta de poder,
não por prudência ou piedade. Mas já falamos o suficiente sobre isto."

"Por quê!" disse Saelon. "Nós apenas começamos. Não era sobre seu
pomar, nem suas maçãs, nem sobre mim que você estava pensando quando
falou do reaparecimento da árvore negra. Sobre o que você estava
pensando, Mestre Borlas, eu posso adivinhar, apesar de tudo. Eu tenho
olhos e ouvidos, e outros sentidos, Mestre." Sua voz diminuiu e
dificilmente podia ser ouvida sobre o murmúrio de um repentino vento
frio nas folhas, enquanto o sol se punha além de Mindolluin. "Você
então ouviu o nome?" Com pouco mais que um sopro ele formou as
palavras. "De Herumor?"

Borlas olhou para ele com surpresa e medo. Sua boca fez alguns movimentos trêmulos de fala, mas nenhum som veio dela.

"Vejo que ouviu," disse Saelon. "E você parece supreso ao perceber que
eu ouvi sobre ele também. Mas você não está mais surpreso do que eu ao
ver que este nome chegou até você. Pois, como eu digo, eu tenho olhos e
ouvidos aguçados, mas os seus estão agora turvos mesmo para o uso
diário, e o assunto tem sido mantido tão secreto quanto os perspicazes
conseguem."

"Quais perspicazes?" disse Borlas, repentina e
impetuosamente. A visão de seus olhos poderia ser turva, mas eles agora
queimavam com fúria.

"Por quê, aqueles que ouviram o
chamado do nome, claro," respondeu Borlas sem se perturbar. "Eles não
são muitos ainda, para or contra todo o povo de Gondor, mas o número
está aumentando. nem todos estão contentes desde que o Grande Rei
morreu, e alguns agora estão com medo."

"Então, como eu
supus," disse Borlas, "e este é o pensamento que esfria o calor do
verão em meu coração. Pois um homem pode ter um jardim com muros
fortes, Saelon, e mesmo assim não encontrar paz ou satisfação ali.
Existem alguns inimigos que tais muros não manterão afastados; pois seu
jardim é apenas parte de um reino protegido, apesar de tudo. É para os
muros do reino que devemos olhar para sua defesa verdadeira. Mas qual é
o chamado? O que ele poderiam fazer?" ele clamou, colocando sua mão no
joelho do jovem.

"Irei fazer uma pergunta antes de
responder a sua," disse Saelon; e agora ele olhava de forma penetrante
para o velho homem. "Como você, que senta-se aqui no Emyn Arnen e
raramente sai mesmo para a Cidade – como você ouviu os sussuros do nome
dele?"

Borlas olhou para o chão e prendeu duas mãos entre
os joelhos. Por algum tempo ele não respondeu. Finalmente ele olhou
para cima novamente; sua face tinha se enrijecido e seus olhos estavam
mais desconfiados. "Eu não responderei esta pergunta, Saelon," ele
disse. "não antes de eu ter feito a você outra pergunta. Primeiro me
diga," disse ele lentamente, "você é uma daqueles que atenderam ao
chamado?"
Um estranho sorriso tremeluziu pela boca do jovem.
"Ataque é a melhor defesa," ele responder, "ou pelo menos assim nos
ensinou o Capitão; mas quando ambos os lados utilizam este conselho
existe um confronto de batalha. Portanto irei contra você. Não
responderei a você, Mestre Borlas, até que você me diga: você é uma
daqueles que atendeu ao chamado, ou não?"

"Como pode pensar isso?" gritou Borlas.

"E como você pode pensar isso?" perguntou Saelon.

"Quanto a mim," disse Borlas, "todas as minhas palavras não te deram a resposta?"

"Mas quando a mim, você poderia dizer," disse Saelon, "minha palavras
me fazem duvidável? Porque eu defendi um pequeno menino que jogou maçãs
verdes em seus companheiros de jogo em nome de Orcs? Ou porque eu falei
do sofrimento das árvores nas mãos dos homens? Mestre Borlas, não é
sábio julgar o coração de um homem pelas palavras ditas em argumento
sem respeito pelas suas opiniões. Ela podem ter sido ditas para
perturbá-lo. Arrogante talvez, mas possivilmente melhor do que mera
imitação. Eu não duvido que muitos daqueles que falam usam palavras tão
solenes quanto as suas, e falam reverentemente do Grande Tema e tais
coisas – na sua presença. Então, quem deverá responder antes?"

"O mais jovem deverá fazê-lo em cortesia ao idoso," disse Borlas; "ou
entre homens considerados iguais, aquele a quem foi perguntado
primeiro. Você é ambos."

Saelon sorriu. "Muito bem," ele
disse. "Deixe-me ver: a primeira questão que você fez e ficou sem
resposta foi: o que é o chamado, o que eles podem fazer? Você não pode
encontrar nenhuma resposta no passado com toda sua idade e
conhecimento? Eu sou jovem e menos instruído. Contudo, se você
realmente deseja saber, eu talvez possa fazer os sussuros mais claros a
você."

Ele se levantou. O sol tinha se posto por trás das
montanhas; as sombras estavam se aprofundando. O muro oeste da casa de
Borlas no lado da colina estava amarelado no vermelhidão do pôr-do-sol,
mas o rio estava escuro. Ele olhou para o céu, e então para o Anduin.
"É uma bela e tranquila tarde," ele disse, "mas o vento está mudando
para o leste. Existirão nuvens cobrindo a lua esta noite."

"Então, porque tudo isso?" disse Borlas, tremendo um pouco enquanto o
ar esfriava. "A menos que você apenas queira dizer a um velho homem
para se apressar para dentro de casa e poupar seus ossos da dor." Ele
levantou-se e viou-se para o caminho da casa, pensando que o jovem não
tinha intenção de dizer mais nada; mas Saelon parou junto a ele e
pousou uma mão em seu braço.

"Eu te previno para se vestir
bem após o anoitecer," ele disse. "Isto é, se você deseja aprender
mais; pois se deseja, virá comigo em uma jornada esta noite. Eu irei
encontrá-lo no portão leste, atrás da sua casa; ou pelo menos deverei
passar por aquele caminho tão logo esteja completamente escuro, e você
poderá vir comigo ou não, como quiser. Eu estarei vestido de preto, e
qualquer um que vá comigo deve estar vestido da mesma maneira. Adeus
por agora, Mestre Borlas! Aconselhe-se consigo mesmo enquanto a luz
perdura."

Por algum tempo depois de Saelon ter ido embora,
Borlas permaneceu parado, com os olhos fechados e descansando sua testa
contra a casaca de uma árvore ao lado do caminho. Enquanto permanecia
parado procurava em sua mente como esta estranha e alarmante conversa
tinha começado. O que ele faria após o cair da noite ele inda não
considerara.

Ele não estiva de bom humor desde a primavera,
embora suficientemente bem de corpo para sua idade, que o
sobrecarregava menos que sua solidão. Desde que seu filho, Berelach,
tinha se ido novamente em abril – ele estava nos Navios, e agora vivia
a maior parte do tempo perto de pelargir, onde seu trabalho estava -
Saelon tinha sido mais atencioso, a qualquer hora que estivesse em
casa. Ele viaja muito pelo reino atualmente. Borlas não estava certo de
seus negócios, embora ele compreendesse que, entre outros interesses,
ele negociava com madeira. Ele trouxera notícias de todo o reino para
seu velho amigo. Ou para o velho pai de seu amigo; pois Berelach tinha
sido sua constante companhia a certo tempo, embora aparentemente se
encontravam raras vezes hoje em dia.

"Sim, é isso," Borlas
disse para si mesmo. "Eu falei para Saelon de Pelargir, citando
Berelach. Ocorreram algumas pequenas inquietações no Ethir: alguns
marinheiros desapareceram, e também uma pequena embarcação da Esquadra.
Nada demais, de acordo com Berelach.
"A paz torna as coisas
frouxas," ele disse, eu me lembro, na voz de um sub-oficial. "Bem, eles
se foram em alguma brincadeira de si próprios, eu suponho – amigos em
um dos portos mais ocidentais, talvez – sem permissão e sem um piloto,
e afundaram. Serviu muito bem para eles. Nós temos tão poucos
marinheiros de verdade nestes dias. Peixe é mais rentável. Mas pelo
menos todos sabem que as costas ocidentais não são seguras para os
amadores."

"E foi tudo. mas eu falei disso para Saelon, e
perguntei se ele tinha ouvido alguma coisa disso no sul. "Sim," ele
disse, "Eu ouvi. Poucos ficaram satisfeitos com a visão oficial. Os
homens não eram amadores; eram filhos de pescadores. E não tem havido
tempestades fora do litoral há muito tempo.""

Enquanto
ouvia Saelon dizendo isto, repentinamente Borlas lembrou os outros
rumores, os rumores de que Othrondir falara. Era ele que costumava usar
a palavra "ferida". E então, meio que para si mesmo, Borlas falou em
voz alta sobre a �?rvore Negra.

Ele abriu seus olhos e
acariciou o formoso tronco da árvore onde tinha se apoiado, olhando
para cima para suas folhas sombrias contra o claro céu pálido. Uma
estrela brilhou por entre os galhos. Suavemente ele falou novamente,
como se para a árvore.

"Então, o que será feito agora?
Claramente Saelon está envolvido. Mas isto é claro? Existia o som de
zombaria em suas palavras, e escórnia da vida ordenada dos Homens. Ele
não responderia uma questão direta. As roupas negras! E ainda – porque
me convidar para ir com ele? Não para converter o velho Borlas!
Imprestável. Inútil tentar: ninguém poderia esperar vencer um homem que
se lembrava do Mal de antigamente, não importa quão distante. Inútil se
tiver sucesso: o velho Borlas não possui mais uso como ferramenta para
nenhuma mão. Saelon pode estar tentando bancar o espião, procurando
encontrar o que se esconde por detrás dos murmúrios. Preto pode ser um
disfarce, ou um auxílio para se esconder à noite. Mas novamente, o que
poderei fazer para ajudar em qualquer segredo ou missão perigosa? Eu
estaria melhor fora do caminho."

Com isso um pensamento
gélido tocou o coração de Borlas. Colocar fora do caminho – seria isso?
Ele seria atraído para algum lugar onde ele poderia desaparecer, como
os marinheiros? O convite para ir com Saelon foi dado apenas depois de
ter se assustado em revelar que sabia sobre os murmúrios – tendo até
mesmo ouvido o nome. E ele havia declarado sua hostilidade.

Este pensamento decidiu Borlas, e ele sabia que ele estava decidido
agora a fica de pe, vestido de preto, no portão, à primeira escuridão
da noite. Ele fora desafiado, e aceitaria. Ele bateu a palma de sua mão
contra a árvore. "Eu não estou caduco ainda, Neldor," ele disse; "mas a
morte não está tão longe que eu vá perder muitos bons anos, se eu
perder o jogo".

Ele aprumou suas costas e ergue a cabeça, e
caminhou pelo caminho, lenta mas firmemente. O pensamento cruzou sua
mente antes de pisar na soleira da porta: "talvez eu tenha sido
preservado por tanto tempo para este propósito: aquele que deve
continuar vivo, saudável em mente, que lembra o que se pasosu antes da
Grande Paz. O olfato possui uma longa memória. Eu acho que eu poderia
sentir o cheiro do antigo Mal, e conhecê-lo pelo que ele é."

A porta sob a varanda estava aberta; mas a casa atrás estava na
escuridão. Aparentemente não havia nenhum dos sons costumeiros do
anoitecer, apenas um silêncio frágil, um silêncio morto. Ele entrou, um
pouco surpreso. Ele chamou, mas não houve resposta. Ele parou na
estreita passagem que passava através da casa, e parecia que ela estava
envolvida em escuridão: nenhum vislumbre do crepúsculo do mundo lá fora
permanecia aqui. Repentinamente ele sentiu, ou assim pareceu, pois
vinha como se fosse de além dos sentidos: ele sentiu o cheiro do antigo
Mal e o conheceu pelo que ele era.

 
[tradução de Fábio 'Deriel' Bettega]