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Mitos Transformados – ARDA

O texto final, entitulado Aman, é um manuscrito claro, escrito com
pouca hesitação ou correção. Eu o tomei como um ensaio independente, e
em dúvida do melhor lugar para inseri-lo deixei-o para o final; mas
quando este livro já estava completo e preparado para publicação me dei
conta de que ele de fato tem um relacionamento muito próximo ao
manuscrito de Athrabeth Finrod ah Andreth
[Nota do Tradutor] O texto em itálico a seguir e
de Christopher Tolkien. O texto normal é de J.R.R. Tolkien. O livro a
que se refere C. Tolkien no parágrafo abaixo é o The History of Middle-earth 10 e o final a que ele se refere é o final da seção Myths Transformed.
O
manuscrito inicia com uma seção introdutória, começando com a afirmação
de que alguns homens acreditavam que seus hroar não tinham vida curta
por natureza, mas assim tornou-se pela malícia de Melkor. Eu não
percebi a relevância de algumas linhas no cabeçalho da primeira página
do Athrabeth, que meu pai riscou: estas linhas começam com as palavras
“o hroa, e ele poderia continuar a viver, um corpo sem mente, nem mesmo
uma besta mas sim um monstro”, e terminava “… a própria Morte, tanto
em agonia quanto em terror, entraria pessoalmente em Aman com os
Homens”. Esta passagem é virtualmente idêntica à conclusão do texto
atual, cuja última página começa precisamente no mesmo ponto.

Fica claro, portanto, que Aman originalmente ficava no Athrabeth, mas
meu pai o removeu para uma forma estanque e copiou a passagem final em
uma folha em separado. Ao mesmo tempo, presumivelmente, ele deu ao
restante (o Athrabeth e sua introdução) os títulos de “Da Morte e dos
Filhos de Eru, e da Desfiguraçãodos Homens e A Conversa de Finrod e
Andreth[1].
Seria preferível colocar Aman com o
Athrabeth na Parte Quatro, mas eu acredito que seja desnecessário em
tal estágio tardio iniciar uma mudança ampla na estrutura do livro, e
assim o deixei aqui em separado.

Aman
Em Aman as coisas eram bastante diferentes da Terra-média. Mas elas
lembravam o modo de vida dos Elfos, assim como os Elfos se pareciam
mais com os Valar e Maiar do que os Homens.Em Aman a duração
da unidade de “ano” era a mesma da dos Quendi. Mas por uma razão
diferente. Em Aman esta duração era estipulada pelos Valar para suas
próprias necessidades e era relacionada ao processo que pode ser
chamado de “Envelhecimento de Arda”. Pois Aman estava em Arda e
portanto no Tempo de Arda (o qual não era eterno, seja ArdaDesfigurada
ou não). Portanto Arda e todas as coisas nela precisam envelhecer,
embora lentamente, enquanto parte do início para o fim. Este
envelhecimento pode ser percebido pelos Valar aproximadamente naquele
período de tempo (proporcional à duração total de Arda) ao qual eles
chamaram Ano; mas não em menor período[2].Mas para os
próprios Valar e também para os Maiar em certo grau: eles poderiam
viver em qualquer velocidade de pensamento ou movimento que eles
escolhessem ou desejassem[3] *.

* Eles podiam se mover para
frente ou para trás em pensamento, e retornar tão rapidamente que para
aqueles que estavam em suas presenças eles não pareceriam ter se
movido. Tudo que era passado podia ser totalmente percebido; mas
existindo agora no Tempo, o futuro eles apenas poderiam perceber ou
explorar tanto quanto fora feito claro a eles na Música, ou, tanto
quanto cada um deles estava especialmente interessado nesta ou naquela
parte dos desígnios de Eru, sendo Seu agente ou Subcriador. Nesta forma
de percepção eles não podiam prever nenhum dos atos dos Filhos, Elfos e
Homens, em cuja concepção e introdução em Eä nenhum Valar tomou
qualquer parte; em relação aos Filhos eles apenas podiam deduzir
chances, da mesma forma que os próprios Filhos, embora com muito maior
conhecimento dos fatos e dos eventos contribuintes no passado, e com
muito mais inteligência e sabedoria. Mas mesmo assim sempre restava
alguma incerteza sobre as palavras e feitos dos Elfos e Homens no
Termpo ainda não realizado.

A unidade, ou Ano dos Valar, não
era, portanto, relacionado às taxas normais de “crescimento ” de
nenhuma pessoa ou coisas que ficava em Aman. O tempo em Aman era o
tempo real, não apenas um modo de percepção. Assim, digamos, 100 anos
se passavam na Terra-média como parte de Arda e também 100 anos se
passavam em Aman, como parte de Arda. Foi, contudo, devido ao fato de
que a velocidade de “crescimento” dos Elfos estava de acordo com a
unidade de tempo Valariana + que tornou possível para os Valar levarem
os Elfos a residirem em Aman.

(+ não pelos desígnios dos
Valar, mas sem dúvida não por acaso. Ou seja, pode ser que Eru, ao
criar a natureza dos Elfos e Homens e suas relaçoes uns com os outros e
com os Valar ordenou que o “crescimento” dos Elfos deveria se dar de
acordo com a percepção Valariana da progressão ou envelhecimento de
Arda, assim os Elfos seriam capazes de co-habitar com Valar e Maiar.
Uma vez que os Filhos apareceram na Música, e também na Visão, os Valar
conheciam ou intuiam muito da natureza dos Elfos e Homens antes deles
virem a existir. Eles certamente conheciam que os Elfos deveriam ser
“imortais” ou de vida muito longa, e os Homens de vida curta. Mas foi
provavelmente apenas durante a viagem de Oromë entre os pais dos Quendi
que os Valar descobriram precisamente qual era o mode de suas vidas com
relação ao passar do Tempo).

Em um Ano dos Valar os Eldar
morando em Aman cresciam e se desenvolviam de maneira muito parecida
com os mortais em um ano na Terra-média. Aos registrar os eventos em
Aman, portanto, nós podemos fazer como os Elfos e utilizar a unidade
Valariana[4], mas não devemos esquecer que dentro de tal “ano” os Eldar
experimentavam uma imensa série de delícias e realizações que mesmo o
mais hábil dos Homens não poderia alcançar em doze vezes doze anos
mortais[5]. De qualquer forma os Eldar “envelheciam” à mesma velocidade
em Aman do que em seu surgir na Terra-média.

Mas os Eldar não
eram nativos de Aman, a qual não fora feita, pelos Valar, para eles. Em
Aman, antes da chegada deles, moravam apenas os Valar e seus parentes
menores, os Maiar. Mas para ser prazer e uso existiam em Aman também
uma grande quantidade de criaturas, sem medo, de vários tipos: animais
ou criaturas que se moviam, plantas que eram estáticas. Lá,
acredita-se, existiam contra-partes de todas as criaturas que existiam
ou haviam existido na terra, e outras feitas apenas para Aman. E cada
tipo tinha, como na Terra, sua própria natureza e velocidade natural de
crescimento.

Uma vez que Aman foi feita para os Valar, para
que pudessem ter paz e prazer, a todas as criaturas que foram
transplantadas ou treinadas ou criadas ou trazidas a existir com o
propósito de habitar em Aman foi dada uma velocidade de crescimento tal
que um ano de vida natural de suas espécies na Terra deveria ser um Ano
dos Valar em Aman.

Para os Eldar esta era uma fonte de
prazer. Pois em Aman o mundo parecia a eles como a Terra parecia aos
Homens, mas sem a sombra da morteà espreita. E na Terra para ele todas
as coisas em comparação a eles mesmos estavam murchando, rapidamente
mudando e morrendo, em Aman elas permanceiam e não enganavam tão cedo o
amor com suas mortalidades. Na Terra enquanto uma criança élfica
simplesmente cresce para tornar-se um adulto, em uns 3000 anos,
forestas surgem e somem, e toda a aparência da terra pode mudar,
enquanto inumeráveis flores e pássaros poderiam nascer e morrer dia
após dia sob o sol.

E por isso tudo Aman é também chamada o
Reino Abençoado, e nisso encontra sua benção: na saúde e na felicidade.
Por em Aman nenhuma criatura sofre nenhuma doença ou desordem em suas
naturezas; nem existe nenhum decair ou envelhecer além do da própria
Arda. Então todas as coisas chegam à sua forma completa e virtualmente
permanecem nesse estado, alegremente, envelhecendo e cansando-se da
vida não mais rapidamente do que os próprios Valar. E esta benção
também foi garantida aos Eldar.

Na terra os Quendi não
sofriam de doenças e a saúde de seus corpos era mantida pela força de
seu fëar longevo. Mas seus corpos, sendo da matéria de Arda, não era
tão resistente quanto seus espíritos; pois a longevidade dos Quendi era
derivada primariamente de seus fëar, cuja natureza ou “destino” era
habitar Arda até seu fim. Portanto, após a vitalidade do hröa ter se
expandido e alcançado o crescimento pleno ele começava a enfraquecer ou
ficar cansado. Muito lentamente, de fato, mas perceptivelmente para
todos os Quendi. Por um tempo ele seria fortificado e mantido pelo seu
fëa incansável e então sua vitalidade começaria a decair e seu desejo
pela vida física e felicidade nela passam cada vez mais rápido. Então
um Elfo poderia começar (como eles dizem agora, pois estas coisas não
apareceram completamente nos Dias Antigos) a “esvair-se”, até que o fëa
consumisse o hroa até que permanecesse apenas no amor e na memória do
espírito que o habitara.

Mas em Aman, uma vez que suas
bençãos se derramavam sobre o hroar dos Eldar, como sobre todos os
corpos, os hroar envelheciam junto com os fear e os Eldar que
permaneciam no Reino Abençoado aproveitavam na maturidade plena em em
pleno poder de corpo e espírito unidos por eras além de nossa
compreensão mortal.

Aman e os Homens Mortais[6]
Se
é assim em Aman, ou era antes da Mudança do Mundo, e nela os Eldar
tinham saúde e felicidade duradouras, o que podemos dizer dos Homens?
Nenhum homem jamais colocou os pés em Aman ou pelo menos nenhum
retornou após ter posto; pois os Valar proibiram. Por que? Para os
Numenorianos eles disseram que assim o fizeram porque Eru proibiu-os de
receber Homens no Reino Abençoado; edeclararam também que lá os Homens
não seriam abençoados(como imaginavam) mas amaldiçoados e poderiam ” se
apagar tão rapidamente como uma chama muito brilhante”.Além
dessas palavras não podemos ir a não ser em suposições. Mesmo assim
vamos considerar o assunto. Os Valar não foram apenas proibidos por Eru
de tentar, eles sequer podiam alterar a natureza ou “destino” de Eru,
de qualquer um dos Filhos, no qual estava inclusa a velocidade de seu
crescimento (relativamente ao total da vida de Arda) eà duração de suas
vidas. Mesmo os Eldar permaneceram imutáveis neste aspecto.Vamos
supor que os Valar também tivessem admitido em Aman alguns dos Atani, e
(assim podemos considerar toda a vida de um Homem em tal estado) que
crianças “mortais” lá nasceram, assim como os filhos dos Eldar. Então,
mesmo em Aman, uma criança mortal deveria crescer para sua maturidade
em cerca de vinte anos do Sol, e o período natural de sua vida, o
período de coesão de hroa e fea, não seria mais do que, digamos, 100
anos. Não muito mais, mesmo que seu corpo não sofresse de doenças ou
desordens em Aman, onde tais males não existiam (a menos que os Homens
levassem tais males consigo – por que não? Mesmo os Eldar levaram ao
Reino Abençoado alguma coisa da Sombra sobre Arda sob a qual eles
surgiram).

Mas em Aman tal criatura seria uma coisa
passageira, a de mais rápida passagem entre todas. Pois toda a sua vida
duraria pouco mais do que metade de um ano, e enquanto todas as outras
coisas vivas pareceriam a ela dificilmente mudar,permanecendo estáticas
em vida e felicidade com esperança não reduzida de anos infindos, ele
iria surgir e sumir – assim como na Terra a gramasurge na primavera e
murcha no inverno. Então ele se tornaria cheio de inveja, tomando-se
como vítima de uma injustiça, não tendo as graças concedidas a todos os
outros seres. Ele não daria valor ao que tem,sentindo que está entre a
menor e menos valorosa de todas as criaturas, cresceriam rapidamente
até se tornarem adultos, e odiariam àqueles mais bem dotados de
benções. Ele não poderia escapar do medo e tristeza de sua rápida
mortalidade que é seu quinhão sobre a Terra, na Arda Desfigurada, mas
seria assediado por eles até a perda de todo o prazer.

Mas
alguém poderia perguntar: porque a benção da longevidade não poderia
ser dada a ele, como a é para os Eldar? Isto deve ser respondido.
Porque isto traz felicidade aos Eldar, sendo sua natureza diferente da
dos Homens. A natureza de um fea Élfico é permanecer no mundo até seu
fim, e um hroa Élfico é também longevo por natureza; assim um fea
Élfico percebendo que seu hroa permanece com ele, também incansável e
permanecendo descansado em felicidade corporal, teria uma felicidade
maior e mais duradoura. De fato alguns dos Eldar duvidam que alguma
graça ou benção especial foi reservada a eles, além da entrada em Aman.
Pois eles afirmam que a falha de seus hroar em permanecerem em
incansável vitalidade tanto quanto seus fear – um processo não
observado até eras tardias – é devido ao Desfigurar de Arda, e veio com
a Sombra e a mancha de Melkor que toca toda a matéria (ou hroa)[7] de
Arda, se não toda Eä. Então tudo que aconteceria em Aman é que a
fraqueza do hroar Élfico não se desenvolveria à saúde de Aman e à Luz
das �?rvores.

Mas vamos supor que a “benção de Aman” também
fosse garantida aos Homens*. Então o que? Teria um grande bem sido
feito a eles? Seus corpos continuariam a atingir a maturidade
rapidamente. Na sétima parte de um ano um homem nasceria e se tornaria
adulto, tão rápido quanto um pássaro nasceria e voaria do ninho em
Aman. Mas então ele não iria enfraquecer ou envelhecer mas permaneceria
vigoroso e em felicidade de uma criatura corpórea. Mas e sobre o fea
desse Homem? Sua natureza ou “destino” não poderia ser mudada, nem pela
saúde de Aman nem pela vontade do próprio Manwë. Mesmo assim (como os
Eldar sustentam) é sua natureza e destino sob a vontade de Eru que ele
não permaneça em Arda por muito tempo, mas parta para algum outro
lugar, talvez retornando diretamente aEru para outro destino ou
propósito que está além do conhecimento ou suposição dos Eldar.

Muito
rapidamente então o fea e hroa de um Homem em Aman não mais estariam
unidos em paz, mas se oporiam, para grande dor de ambos. Sendo o hroa
pleno de vigor e felicidade da vida oprimiria o fea, uma vez que sua
partida traria a morte; e contra a morte ele se revoltaria como se
revoltaria uma grande besta cheia de vida contra o caçador ou partiria
selvagemente sobre ele. Mas a fea estaria como em uma prisão,
tornando-se mais e mais cansada de todos os prazeres do hroa, até
desgostar deles, desejando mais e mais ter partido, até que mesmo
aqueles assuntos de seu pensamento recebidos através do hroa e seus
sentidos se tornassem sem sentido. O Homem então não seria abençoado,
mas amaldiçoado; e ele amaldiçoaria os Valar e Aman e todas as coisas
de Arda. E ele não deixaria Aman de livre vontade, pois significaria
morte rápida, e com violência tentaria permancer. Mas se ele
permanecesse em Aman[8], o que ele se tornaria, até que Arda finalmente
se completasse e ele encontrasse alívio?

Ou o fea seria
completamente dominado pelo hroa e ele se tornaria mais como uma besta,
embora uma atormentada por dentro, ou, se seu fea fosse forte, ele
poderia deixar o hroa. Então uma de duas coisas ocorreria: ou isto
seria conseguido em ódio, através de violência, e o hroa, em plena
vida, seria rendido e morreria em súbita agonia; ou o fea desertaria o
hroa rapidamente e sem piedade, que continuaria a viver, um corpo sem
mente, nem mesmo uma besta e sim um monstro, um trabalho próprio de
Melkor no meio de Aman, que os os próprios Valar iriam destruir.

(*
Ou (como alguns homens sustentam) que seus hroar não eram naturalmente
de vida curta, mas assim se tornou através da malícia de Melkor sobre e
além da Desfiguração geral de Arda e esta ferida poderia ser curada e
desfeita em Aman).

Mas estas coisas não são nada além
suposições, e podem-ser; pois Eru e os Valar sob Ele não permitiram aos
Homens como eles são [9] que residissem em Aman. Pode ser que os Homens
em Aman não pudessem escapar das garras da morte, mas a teria em grau
maior e por longas eras. E além disso, parece provavel que a própria
morte, tanto em agonia e horror, poderia, com os Homens, adentrar a
própria Aman.

A este ponto Aman, como originalmente
escrito continuava com a aspalavras “Alguns Homens defendiam que seus
hroar não tinham por natureza, vida curta…” que são o começo da
passagem introdutória do Athrabeth.

Notas de Christopher Tolkien

[1] O número III e título adicional “O Desfigurar dos Homens” (os
outros títulos permaneceram) foi dado à segunda parte, enquanto Aman
foi numerada II. Nenhum escrito numerado I foi encontrado.

[2] Será visto que, como consequência da transformação do “mito
cosmogônico”, uma concepção inteiramente nova do “Ano Valariano”
surgiu. A elaborada computação do Tempo no Annals of Aman foi
baseada no “ciclo” ou “as Duas Árvores que cessaram de existir em
relação ao moviumento diruno do Sol que tinha surgido – surgiu um “novo
calendário”. Mas o “Anos dos Valar” é agora, como parece, uma “unidade
de percepção” da passagem do Tempo de Arda, derivada da capacidade dos
Valar perceberem tais intervalos do processo do envelhecer de Arda, do
seu começo ao seu fim. Ver nota 5.

[3] Meu pai escreveu a seguinte passagem (“Eles podiam se mover para
frente ou para trás em pensamento…”) no corpo do manuscrito a este
ponto, mas em uma pequena letra itálica, e eu preservei esta forma no
texto impresso; similarmente à passagem que interrompe o texto
principal às palavras “unidade de tempo Valariana”.

[4] “Nós podemos… utilizar a unidade Valariana”: em outras palavras,
presumivelmente, a antiga estrutura de datas na crônica de Aman poderia
ser mantida, mas o significado daquelas datas em termos de Terra-média
seriam radicalmente diferentes. Ver nota 5.

[5] Existe agora uma vasta discrepância entre os Anos dos Valar e os
“anos mortais”; ver também “toda a sua vida duraria pouco mais do que
metade de um ano” e “na sétima parte de um ano um homem nasceria e se
tornaria adulto”. Em notas não dadas neste livro, nas quais meu pai
estava calculando tendo como base o Despertar dos Homens, ele expressa
que 144 Anos do Sol = 1 Ano dos Valar (em conexão a isto ver Apêndice D
dO Senhor dos Anéis: “Parece claro que os Eldar na Terra-média…
contavam longos períodos, e apalavra Quenya yen… realmente
significava 144 de nossos anos”) colocando o evento “após ou à mesma
época do saque a Utumno, Ano dos Valar 1100″, um gigantesco intervalo
de tempo poderia ser visto agora entre o “surgir” dos Homens e sua
primeira aparição em Beleriand.

[6] O subtítulo Aman e Homens Mortais foi uma adição posterior.

[7] Com este uso da palavra hroa ver “o hroa, a “carne” ou matéria física, de Arda” (texto VIII do Mitos Transformados).

[8] Esta passagem, a partir de “E ele não deixaria Aman de livre vontade…” foi uma adição posterior. Quando o texto foi escrito ele continuava de “todas as coisas de Arda” para “o que ele se tornaria”

[9] As palavras “como eles são” são uma adição posterior, ao mesmo tempo que aquele da nota 6 e 8.

orcs_uruk-hai

Mitos Transfomados – Parte VIII – Orcs!!!

Sua natureza e origem requerem mais reflexão1. Elas não são fáceis de se trabalhar na sua teoria e o seu sistema.
[1] Como o caso de Aulë e os Anões mostra, somente Eru poderia fazer criaturas com vontades independentes, e com capacidade de raciocínio. Mas os orcs parecem ter ambas: eles podem tentar enganar Morgoth/Sauron, rebelar-se contra ele, ou criticá-lo.

[2] Entretanto, eles devem ser corrupções de alguma coisa pré-existente.

[3] Mas os homens não haviam aparecido ainda, quando os orcs já existiam. Aulë construiu os anões de sua memória da Música; mas Eru não sancionaria o trabalho de Melkor a fim de permitir a independência dos orcs. [A não ser que os orcs fossem ao final remediáveis, ou pudessem ser corrigidos e "salvos"?]

Também parece claro que embora Melkor pudesse corromper e arruinar indivíduos completamente, não é possível contemplar sua perversão absoluta de um povo inteiro, ou grupo de pessoas, e sua criação que afirma hereditariedade [Adicionado posteriormente: Este último deve[se um fato] ser um ato de Eru].

Neste caso os elfos, como uma fonte, são muito improváveis. E os orcs são “imortais” no sentido élfico? Ou os trolls? Parece claramente implícito no Senhor dos Anéis que os trolls existiam no seu próprio direito, mas foram “consertados” por Melkor.

[4] E o que dizer de feras falantes e pássaros com raciocínio e linguagem? Estes têm sido adotados levianamente por mitologias menos “sérias”, mas representam um papel que agora não pode ser cortado. Eles são certamente “exceções” e não muito usados, mas suficientemente para mostrar que eles são uma faceta reconhecida do mundo. Todas as criaturas aceitam-os como naturais, se não comuns. Mas criaturas “racionais” verdadeiras, “povos falantes”, são todas de forma humana/”humanóide”. Somente os Valar e Maiar são inteligências que podem assumir formas de Arda à vontade. Huan e Sorontar poderiam ser Maiar – emissários de Manwë. Mas, infelizmente, no Senhor dos Anéis é dito que Gwaehir e Landroval são descendentes de Sorontar [Thorondor].

Em qualquer caso, é provável ou possível que mesmo os menores dos Maiar tornariam-se orcs? Sim: tanto fora de Arda como dentro dela, antes da queda de Utumno. Melkor corrompeu muitos espíritos – alguns grandes, como Sauron, ou menores, como balrogs. Os menores poderiam ter sido primitivos [e muito mais poderosos e perigosos] orcs; mas, por procriar quando encarnados, eles [como Melian][tornariam-se] cada vez mais ligados à terra, incapazes de retornar ao estado de espírito [mesmo forma demoníaca], até serem libertados pela morte [assassinato], e eles definhariam em força. Quando libertados eles seriam, claro, como Sauron, “condenados”: isto é, reduzidos à impotência, infinitamente recessiva: ainda odiando, mas incapazes cada vez mais de fazê-lo fisicamente eficaz. [ou não seria o estado órquico muito definhado de morte um poltergeist?]

Mas novamente – Eru proveria fëa [espírito] a tais criaturas? Para as águias etc., talvez. Mas não para os orcs.

Entretanto, parece melhor ver o poder de corrupção de Melkor como sempre começando, pelo menos, no nível moral ou teológico. Qualquer criatura que o tomou por Senhor [e especialmente aquelas que blasfemamente chamaram-o de Pai ou Criador] logo tornou-se corrompida em todas as partes de seu ser, o fëa arrastando o hröa [corpo] em sua queda ao Morgothismo: ódio e destruição. Como para os elfos serem “imortais”: eles, na verdade, possuiam vidas excepcionalmente longas, e foram “cansando-se” fisicamente, e sofrendo um enfraquecimento lento e progressivo de seus corpos.

Em resumo: eu acho que deve-se assumir que “falar” não é necessáriamente o sinal da posse de uma “alma racional” ou fëa. Os orcs eram bestas de forma humanizada [para zombar de homens e elfos] deliberadamente pervertidos/convertidos em uma semelhança mais próxima dos homens. Sua “fala” era na verdade “gravações” recitadas, colocadas neles por Melkor. Melkor ensinou-lhes a fala e ao reproduzirem-se, eles herdaram isto; e eles tinham tanta independência como têm cães ou cavalos de seus mestres humanos. Sua fala era largamente ecoada [como papagaios]. No Senhor dos Anéis é dito que Sauron inventou uma linguagem para eles.

O mesmo tipo de coisa pode ser dito de Huan e as águias: eles aprenderam uma linguagem à partir dos Valar – e elevaram-na a um nível superior – mas eles ainda não tinham fëa. Mas Finrod provavelmente foi muito longe na sua afirmação de que Melkor não poderia corromper completamente qualquer obra de Eru, ou que Eru [necessariamente] interferiria para anular a corrupção ou para cessar a existência de Suas próprias criaturas, pois elas teriam sido corrompidas e voltadas para o mal.

Permanece, portanto, terrivelmente possível que houvesse uma linhagem élfica nos orcs. Estes podem então ter sido cruzados com feras [estéreis!] – e posteriormente homens. Seu tempo de vida seria diminuído. E morrendo eles iriam para Mandos e mantidos aprisionados até o Fim.

…as vontades dos orcs e balrogs etc., são parte do poder de Melkor “dispersado”. O espírito deles é de ódio. Mas o ódio é não-cooperativo [exceto sob medo direto]. Daí as rebeliões, motins, etc., quando Morgoth parecia estar distante. Orcs são feras e balrogs Maiar corrompidos. Também, Morgoth, não Sauron, é a fonte das vontades dos orcs. Sauron é apenas outro [senão maior] agente. Orcs podem rebelar-se contra ele sem perder sua própria fidelidade irremediável ao mal [Morgoth]. Aulë queria amor. Mas, claro, não pensava em dispersar seu poder. Apenas Eru pode dar amor e independência. Se um sub-criador finito tenta fazer isto, ele na verdade quer ardorosa obediência absoluta, mas ela vira servidão robótica e torna-se mal.

Isto sugere – embora não seja explícito – que os “orcs” eram de origem élfica. Sua origem é tratada mais claramente em outro lugar. Um ponto apenas é certo: Melkor não poderia “criar criaturas” vivas de vontades independentes.

Ele [e todos os "espíritos" dos "Criados–primeiro", conforme seus limites] poderia assumir formas corpóreas; e ele [e eles] poderia dominar as mentes de outras criaturas, incluíndo elfos e homens, pela força, medo, ou por engôdos, ou por pura magnificência. Os elfos de épocas remotas inventaram e usaram uma palavra ou palavras com uma base [o]rok para indicar qualquer coisa que causasse medo e/ou terror. Isto teria sido originalmente aplicado a “fantasmas” [espíritos assumindo formas visíveis] tão bem quanto a quaisquer criaturas existindo independentemente. Sua aplicação [em todas as línguas élficas] especificamente às criaturas chamadas orcs – assim devo escrevê-la no Silmarillion – foi posterior.

Uma vez que Melkor não poderia “criar” espécies independentes, mas tinha imensos poderes de corrupção e distorção daquelas que caíam em seu poder, é provável que estes orcs tivessem uma origem mista. A maioria deles claramente [e biologicamente] eram corrupções de elfos [e, posteriormente, de homens provavelmente também]. Mas sempre entre eles [como servos especiais e espiões de Melkor, e como líderes] deviam haver numerosos espíritos menores corrompidos que assumiram formas corpóreas semelhantes. [Estes apresentariam personalidades aterrorizantes e demoníacas]

Os elfos teriam classificado as criaturas chamadas “trolls” [no Hobbit e Senhor dos Anéis] como orcs – em personalidade e origem – mas eles eram maiores e mais lentos. Pareceria evidente que os orcs eram corrupções de tipos humanos primitivos.

A origem dos orcs é matéria de debate. Alguns chamavam-os de Melkorohíni, os Filhos de Melkor; mas os mais sábios diziam: não, os escravos de Melkor,  mas não seus filhos; pois Melkor não tinha filhos. De qualquer modo, foi pela malícia de Melkor que os orcs surgiram, e eles foram claramente pretendidos por ele para serem um escárnio dos Filhos de Eru, sendo criados para serem completamente subservientes à sua vontade e cheios de ódio implacável por elfos e homens.

Ora, os orcs das guerras posteriores, depois da fuga de Melkor-Morgoth e seu retorno à Terra-média, não eram “espíritos”, nem fantasmas, mas criaturas vivas, capazes de falar e de algumas habilidades e organização; ou pelo menos capazes de aprender estas coisas de criaturas superiores e de seu mestre. Eles procriavam e multiplicavam-se rapidamente, sempre quando deixados imperturbados. Até onde pode-se compilar das lendas que chegaram até nossos dias de antigamente, parece que os Quendi não haviam encontrado nenhum orc desse tipo antes da chegada de Oromë a Cuiviénen.

Aqueles que acreditam que os orcs surgiram de alguma espécie de homens, capturados e pervertidos por Melkor, afirmam que era impossível para os Quendi terem conhecido os orcs antes da Separação e da partida dos Eldar. Pois embora o momento do despertar dos homens não fosse conhecido, mesmo os cálculos dos mestres de tradição que determinavam-no o mais próximo possível, não designaram uma data antes da Grande Marcha começar, certamente não uma suficiente para permitir a corrupção dos homens em orcs. Por outro lado, é evidente que logo após seu retorno, Morgoth tinha sob seu comando um grande número dessas criaturas, com as quais ele começara a atacar os elfos. Havia ainda menos tempo entre o seu retorno e esses ataques para a procriação dos orcs e para a transferência de seus exércitos para o oeste.

Esta visão da origem dos orcs depara-se com dificuldades de cronologia. Mas, embora os homens possam encontrar conforto nisto, a teoria permanece de qualquer modo a mais provável. Ela concorda com tudo que é sabido sobre Morgoth, e da natureza e comportamento dos orcs – e dos homens. Melkor era impotente para produzir qualquer coisa viva, mas hábil na corrupção de coisas que não originaram-se dele, se pudesse dominá-las. Mas se ele tivesse de fato tentado fazer criaturas por sua própria conta em imitação ou zombaria dos Encarnados, ele teria, como Aulë, sido apenas bem sucedido em produzir fantoches: suas criaturas teriam agido apenas enquanto a atenção de sua vontade estivesse sobre elas, e elas não teriam mostrado relutância em executar qualquer comando seu, ainda que fosse para destruírem a si mesmas.

Mas os orcs não eram desse tipo. Eles eram certamente dominados pelo seu mestre, mas sua dominação era por medo, e eles estavam cientes desse medo e o odiavam. Eles eram de fato tão corruptos que eram impiedosos, e não havia crueldade ou perversão que eles não cometessem; mas esta foi a corrupção de suas vontades independentes, e eles tinham satisfação nos seus atos. Eles eram capazes de agir por si próprios, cometendo atos malignos para seu próprio divertimento; ou se Morgoth e seus agentes estivessem distantes, eles poderiam negligenciar seus comandos. Eles às vezes lutavam entre si, para o detrimento dos planos de Morgoth.

Além disso, os orcs continuaram a viver e se reproduzir, e prosseguiram no seu trabalho de destruição e pilhagem após Morgoth ter sido destronado. Eles também possuiam outras características dos Encarnados. Eles tinham linguagens próprias, e falavam entre si várias línguas de acordo com as diferenças de linhagem que eram discerníveis entre eles. Eles precisavam de comida e bebida, e descanso, embora muitos fossem treinados tão duros como os anões para suportar as adversidades. Eles podiam ser mortos, e eram alvos de doenças; mas à parte desses males, eles morriam e não eram imortais, mesmo de acordo com o modo dos Quendi; de fato, eles pareciam ter por natureza vidas curtas comparadas com a longevidade dos homens de raças superiores, tais como os Edain.

Este último ponto não era bem compreendido nos Dias Antigos. Pois Morgoth possuía muitos servos, dos quais os mais velhos e mais potentes eram imortais, pertencendo de fato, no seu início, aos Maiar; e estes espíritos malígnos, como seu mestre, podiam tomar formas visíveis. Aqueles cujo trabalho era comandar os orcs frequentemente tomavam formas órquicas, porém eram maiores e mais terríveis. Assim as histórias falavam de Grandes Orcs ou capitães-orcs que não eram mortos, e que reapareciam em batalha através dos anos muito mais longos que os períodos das vidas dos homens.

Finalmente, há um ponto irrefutável, embora horrível de se relatar. Tornou-se claro com o tempo que indubitavelmente os homens podiam, em poucas gerações, sob a dominação de Morgoth ou de seus agentes, ser reduzidos quase ao nível órquico em mente e hábitos; e então eles estariam, ou poderiam estar, prontos para cruzar com orcs, produzindo novas linhagens, frequentemente maiores e mais astutas. Não há dúvida de que muito mais tarde, na Terceira Era, Saruman redescobriu isto, ou aprendeu sobre isto em estudo, e em sua sede pela supremacia, praticou isto, seu ato mais maligno: o cruzamento de orcs e homens, produzindo tanto homens-orc, grandes e astutos, como orcs-homens, traiçoeiros e desprezíveis.

Mas mesmo antes dessa perversão de que Morgoth era suspeito, os sábios nos Dias Antigos sempre ensinaram que os orcs não foram feitos por Melkor e, portanto, não eram malignos na sua origem. Eles podiam ter se tornado irredimíveis [pelo menos por elfos e homens], mas eles continuavam dentro da Lei. Isto é, que embora sendo necessário [sendo os dedos da mão de Morgoth] serem enfrentados com a maior severidade, eles não deveriam ser tratados com os seus próprios termos de crueldade e traição. Cativos, não deviam ser atormentados, nem mesmo para descobrir informações para a defesa das casas de elfos e homens. Se quaisquer orcs se rendessem e clamassem por misericórdia, ela seria concedida, a qualquer preço. Este era o ensinamento dos sábios, embora no horror da guerra isto não fosse sempre considerado.

É verdade, claro, que Morgoth mantinha os orcs em horrenda escravidão; pois em sua corrupção, eles haviam perdido quase toda a possibilidade de resistir à dominação de sua vontade. De fato, tão grande era a sua pressão sobre eles que, antes de Angband cair, se direcionasse seu pensamento na direção deles, eles ficariam conscientes de seu “olho” onde quer que estivessem; e quando Morgoth finalmente foi removido de Arda, os orcs que sobreviveram no oeste se dispersaram, sem liderança e quase sem sagacidade, e estiveram por um longo tempo sem controle ou propósito.

Esta servidão à uma vontade central que reduziu os orcs a uma vida quase como a de formigas, foi vista mais claramente na Segunda e Terceira Eras sob a tirania de Sauron, tenente-comandante de Morgoth. Sauron realmente alcançou maior controle sobre seus orcs do que Morgoth jamais havia conseguido. Ele estava, claro, operando em uma escala menor, e ele não tinha inimigos tão grandes e tão ferozes como os noldor no auge de seu poder nos Dias Antigos. Mas ele também herdou destes dias dificuldades, tais como a diversidade de orcs em linguagem e linhagem, e as hostilidades entre eles; enquanto em muitos lugares da Terra-média, após a queda das Thangorodrim e durante a ocultação de Sauron, os orcs, recuperando-se de sua impotência, ergueram pequenos reinos por si próprios e tornaram-se acostumados à independência. Mas Sauron conseguiu em tempo unir a todos em ódio irracional a elfos e aos homens que associaram-se a eles; enquanto que os orcs de seus próprios exércitos treinados estavam tão completamente sob sua vontade que sacrificariam a si mesmos, sem hesitação, ao seu comando.

[Mas havia uma falha no seu controle, inevitável. No reino do ódio e do medo, a coisa mais forte é o ódio. Todos os seus orcs odiavam-se uns aos outros, e precisavam ser mantidos sempre em guerra contra algum "inimigo" para evitar que se matassem entre si] E ele mostrou-se também mais habilidoso do que seu mestre na corrupção dos homens que estavam além do alcance dos sábios, e em reduzí-los à vassalagem, na qual eles marchariam com os orcs, e rivalizariam com eles em crueldade e destruição.

É dessa maneira que provavelmente devemos olhar para Sauron para encontrar uma solução do problema da cronologia. Embora de poder natural imensamente menor do que seu mestre, ele permaneceu menos corrupto, mais audacioso e mais apto à prudência. Pelo menos nos Dias Antigos, e antes de ser privado de seu senhor e cair na insensatez de imitá-lo, e esforçando-se para tornar-se Senhor Supremo da Terra-média. Enquanto Morgoth ainda governava, Sauron não procurou sua própria supremacia, mas trabalhou e planejou para outro, desejando o triunfo de Melkor, que no início ele venerava. Ele, assim, foi frequentemente capaz de concluir coisas, primeiramente concebidas por Melkor, que seu mestre não completou ou não podia completar na pressa furiosa de sua malícia.

Podemos supor, então, que a idéia do cruzamento de orcs partiu de Melkor, a princípio talvez não tanto pela provisão de servos ou da infantaria de suas guerras de destruição, como pela profanação dos Filhos e escárnio blasfemo dos desígnios de Eru. Os detalhes da realização dessa depravação foram, entretanto, deixados principalmente às sutilezas de Sauron. Neste caso, a concepção [em pensamento] dos orcs deve ter surgido há muito tempo, na noite do pensamento de Melkor, embora o início da sua atual reprodução devesse esperar pelo despertar dos homens.

Quando Melkor foi feito prisioneiro, Sauron escapou e permaneceu escondido na Terra-média; e desse modo pode ser compreendido como a reprodução dos orcs [sem dúvida já iniciada] continuou com velocidade crescente durante a era em que os noldor habitavam Aman; então quando retornaram à Terra-média, econtraram-na já infestada por esta praga, para o tormento de todos que lá habitavam, elfos, homens ou anões. Foi Sauron, também, que secretamente reparou Angband para o auxílio de seu mestre quando este retornasse; e lá, os escuros lugares subterrâneos já estavam guarnecidos com exércitos de orcs antes de Melkor por fim voltar, como Morgoth, o Sinistro Inimigo, e os enviou para trazer ruína a tudo que era belo. E embora Angband tenha caído e Morgoth tenha sido removido, eles ainda saem dos lugares sem luz na escuridão de seus corações, e a terra é destruída sob seus pés impiedosos.

  1. Este texto corresponde ao Mitos Transformados, partes VIII a X, publicado no The History of Middle Earth 10  - maiores detalhes aqui []
Lúthien e Morgoth

Melkor Morgoth

Melkor deve ser feito muito mais poderoso em sua natureza original (cf. “Finrod e Andreth”). O maior poder abaixo de Eru (isto é, o maior poder criado).[1] (Ele devia criar/inventar/começar; Manwë (menos grandioso) devia aperfeiçoar, realizar, completar.

[Nota do tradutor: o uso constante e alternado do futuro e do presente dos tempos verbais no texto dá-se pelo caráter de "esboço ensaístico" do mesmo, pretendido como tal para elucidar a personalidade de Melkor em uma possível versão reescrita do Quenta Silmarillion.]

Posteriormente, ele não deve ser capaz de ser controlado ou “acorrentado” por todos os Valar unidos. Observe-se que, nos primórdios de Arda, ele foi capaz de, sozinho, expulsar os Valar da Terra-média, em retirada.A guerra contra Utumno só foi empreendida pelos Valar com relutância, e sem esperança de vitória real, mas deu-se como uma ação de proteção ou distração, para permitir-lhes retirarem os Quendi de sua esfera de influência. Mas Melkor já havia progredido de algum modo na direção do caminho que o tornaria “o Morgoth, um tirano (ou uma tirania e vontade centrais), mais seus agentes”.[2] Apenas o total continha o antigo poder do Melkor completo; de modo que, se “o Morgoth” pudesse ser alcançado ou separado temporariamente de seus agentes, ele estaria muito mais próximo de ser controlável e em um nível de poder tal como o dos Valar. Os Valar percebem que podem lidar com seus agentes (isto é,
exércitos, Balrogs, etc.) gradualmente. De forma que eles chegam, por fim, à própria Utumno e descobrem que “o Morgoth” não possui no momento “força” suficiente (em qualquer sentido) para defender-se do contato pessoal direto. Manwë finalmente encara Melkor mais uma vez, como ele não havia feito desde que entrou em Arda. Ambos assombram-se: Manwë por perceber o declínio em Melkor como uma pessoa, Melkor por também perceber isto a partir de seu próprio ponto de vista: ele agora possui menos força pessoal do que Manwë, e não pode mais intimidá-lo com seu olhar.Ou Manwë deve contar-lhe isso ou ele mesmo deve perceber repentinamente (ou ambas opções) que isso aconteceu: ele está “disperso”. Mas o desejo de possuir criaturas sujeitas a ele, dominadas, tornou-se habitual e necessário a Melkor de modo que, mesmo se o processo fosse reversível (possivelmente o era apenas pela auto-humilhação e arrependimento absolutos e verdadeiros), ele não pode realizá-lo por si próprio.* Assim como com todos os outros personagens, deve haver um momento de estremecimento no qual isso está em jogo: ele quase se arrepende – e não o faz, e torna-se muito mais cruel e mais tolo.* Uma das razões para esse seu auto-enfraquecimento é a de que ele deu às suas “criaturas”, Orcs, Balrogs, etc., poder de recuperação e multiplicação. De modo que eles irão se reuinir novamente sem ordens específicas adicionais. Parte desse poder criativo nativo perdeu-se ao criar um crescimento maligno independente, fora de seu controle.

Possivelmente (e ele acha isso possível) ele poderia, neste momento, ser humilhado contra sua própria vontade e “acorrentado” – se e antes que suas forças dispersas reagrupem-se. Portanto – tão logo tivesse rejeitado mentalmente o arrependimento – ele (assim como Sauron posteriormente do mesmo modo) faz um arremedo de auto-humilhação e arrependimento pelo qual, na verdade, sente um tipo de prazer pervertido como ao profanar algo sagrado – [pois a mera contemplação da possibilidade de arrependimento genuíno, se essa não viesse então especialmente como uma graça direta de Eru, ao menos foi uma última centelha de sua verdadeira natureza primordial.] Ele dissimula remorso e arrependimento. Ele realmente ajoelha-se diante de Manwë e rende-se – em primeiro lugar, para evitar ser acorrentado com a corrente Angainor da qual, uma vez sobre ele, teme jamais libertar-se. Mas ele também subitamente tem a idéia de penetrar na exaltada estabilidade de Valinor e arruiná-la. Assim, ele se oferece para tornar-se “o menor dos Valar” e servo de todos eles, para ajudar (por conselhos e habilidade) a reparar todas as perversidades e ferimentos que causara. É essa oferta que seduz ou ilude Manwë – Manwë deve ser mostrado como tendo sua própria falha inata (embora não seja um pecado)**: ele fica absorto (em parte por medo absoluto de Melkor, em parte pelo desejo de controlá-lo) na correção, cura, reordenamento – até na “manutenção do status quo” – levando à perda de todo o poder criativo e mesmo à fraqueza ao lidar com situações difíceis e perigosas. Contra o conselho de alguns dos Valar (tais como Tulkas), ele atende à súplica de Melkor.

** Cada criatura finita deve possuir alguma fraqueza: que é alguma incapacidade de lidar com algumas situações. Não é pecaminoso quando não ocorre voluntariamente e quando a criatura dá o melhor de si (mesmo se não for o que deveria ser feito) do modo como esta vê a situação – com a intenção consciente de servir a Eru.

Melkor é levado de volta à Valinor, indo por último (exceto por Tulkas***, que o segue carregando Angainor e fazendo-a ressoar para que Melkor lembre-se dela).

*** Tulkas representa o lado bom da “violência” na guerra contra o mal. Essa é uma ausência de todo compromisso que irá confrontar mesmo males aparentes (tais como a guerra) em vez de parlamentar; e não acredita (em qualquer tipo de orgulho) que qualquer um inferior a Eru possa reparar isso, ou reescrever o conto de Arda.

Mas no conselho, não é dada a Melkor liberdade imediata. Os Valar reunidos não tolerarão isso. Melkor é remetido a Mandos (para lá
permanecer em “reclusão” e meditar, e completar seu arrependimento – e também seus planos para a reparação).[3]

Ele começa então a duvidar da sensatez de sua própria política, e teria rejeitado tudo e irromperia em uma rebelião flamejante – mas ele agora está absolutamente isolado de seus agentes e em território inimigo. Ele não pode. Portanto, ele engole o amargo remédio (mas isso aumenta enormemente seu ódio, e posteriormente ele sempre acusou Manwë de ser desleal).

O resto da história, com a libertação de Melkor, e a permissão para estar presente no Conselho, sentando aos pés de Manwë (conforme o
modelo de conselheiros malignos em contos posteriores que, pode-se dizer, deriva desse modelo primordial?), pode então proceder mais ou menos como já contado.

Notas:

[1] Cf. as palavras de Finrod no Athrabeth: “não há poder algum concebivelmente maior que Melkor, salvo apenas Eru”.

[2] A referência mais antiga à essa idéia da “dispersão” do poder original de Melkor é encontrada nos Anais de Aman §179: “Pois ele cresceu em malícia e, transmitindo de si mesmo o mal que concebera em mentiras e criaturas ou perversidade, seu poder passou para elas e foi dispersado, e ele próprio tornou-se ainda mais ligado à terra, negando-se a sair de suas fortalezas sombrias.”

Cf. também Anais §128 – A expressão “o Morgoth” é usada várias vezes por Finrod no Athrabeth.[3] “seus planos para a reparação”: isto é, a reparação dos males que ele produziu.

Dos Anões e Homens

Importante texto da série HoME que trata dos Anões, seus clãs, suas alinças com os Homens e também relata sbre os Homens do Norte.
[Christopher Tolkien:Este longo ensaio não possui título, mas em uma página de rosto meu pai escreveu:

"Uma história e comentário extenso sobre a inter-relação das linguagens em O Silmarillion e em O Senhor dos Anéis, originadas de considerações sobre o Livro de Mazarbul, mas tentando clarificar e onde necessário corrigir ou explicar as referências a tais assuntos espalhadaos por O Senhor dos Anéis, especialmente no Apêndice F e na Fala de Faramir no SdA II"

´Fala de Faramir´ é uma referência à conclusão do capítulo A Janelasobre o oeste no As Duas Torres. Para um vago resumo do ensaio ele deu o título Anões e Homens, o qual adotei.

O texto começa manuscrito mas após três páginas e meia torna-se datilografado até sua conclusão (28 páginas ao todo). Ele foi escrito em papéis timbrados fornecidos pela Allen and Unwin, nos quais a última data é Setembro 1969. Uma parte do trabalho foi impressa no Contos Inacabados, Parte Quatro, Seção I, Os Drúedain, mas de outra forma pouco uso foi feito dele naquele livro. Infelizmente a primeira página do texto foi perdida (e já estava faltando quando recebi os papéis de meu pai) e inicia-se no meio de uma frase de um trecho discutindo o conhecimento da Língua Comum.

Em relação à primeira parte do ensaio, que se refere aos Anões Barbalonga, achei que seria útil primeiramente citar o que é dito sobre os Anões nas duas principais fontes anteriores. O texto a seguir é encontrado no capítulo Sobre os Anões do Quenta Silmarillion, como revisado e aumentado em 1951:

A língua-mãe dos Anões foi criada pelo próprio Aulë e suas línguas não tinham parentesco com aquelas dos Quendi. Os Anões não ensinavam de boa vontade suas língua para aqueles de outra raça; e no uso da mesma a tornaram dura e intrincada, assim daqueles poucos que foram recebidos plenamente em amizade poucos a aprenderam bem. Mas eles próprios aprendiam rapidamente outras línguas e em conversações eles podem usar as línguas dos Elfos e Homens com os quais negociam. Mas apenas em segredo eles utilizam sua própria fala e ela (como é dito) muda lentamente, dessa forma mesmo os reinos e casas que há muito se distanciaram podem se entender bem umas às outras. Nos dias antigos os Naugrim habitavam muitas montanhas da Terra-média e lá conheceram os Homens mortais (dizem eles) muito antes dos Eldar; por isso muitas das línguas dos Orientais mostram parenteco com a fala dos Anões ao invés de com a fala dos Elfos.

O segundo trecho é do Apêndice F, Anões.

Na Terceira Era, contudo, ainda se encontrava em muitos lugares uma profunda amizade entre Homens e Anões; e era compatível com a natureza dos Anões o fato de, viajando, trabalhando e comerciando pelas terras afora, como fizeram depois da destruição de suas antigas mansões, usarem as línguas dos homens entre os quais habitavam. Em segredo, porém (um segredo que, ao contrário dos Elfos, não revelavam voluntariamente, nem aos seus amigos), usavam sua estranha língua, pouco mudada pelos anos; pois tornara-se uma língua de tradição, e não de berço, e eles a cultivavam e guardavam como um tesouro do passado. Poucos membros de outras raças conseguiram aprendê-la. Nesta história ela aparece somente como topônimos que Gimli revelou aos companheiros e no seu grito de batalha no cerco do Forte da Trombeta. Esse, pelo menos, não era secreto, e foi ouvido em muitos campos desde que o mundo era jovem. Baruk Khazâd! Khazâd aimênu!" Machado dos Anões! os Anões estão sobre vós!"

O próprio nome de Gimli, porém, eos nomes de toda a sua gente, são de origem setentrional (Humana). Seus nomessecretos e "interiores", seus nomes verdadeiros, jamais foram revelados pelos Anões a quem fosse de raça alheia. Nem mesmo em seus túmulos eles os inscrevem.

Aqui segue o texto do ensaio que eu chamei Dos Anões e Homens.]

…apenas ao falar com outros de diferentes raças e línguas, a divergência poderia ser grande, e a intercomunicação imperfeita [1]. Mas este nem sempre era o caso: dependia da história dos povos relacionados e suas relações com os reinos Numenorianos. Por exemplo, entre os Rohirrim existiam muitos poucos que não compreendiam a Língua Comum e a maioria era capaz de falá-la bastante bem. A casa real, e sem dúvida muitas outras famílias, falavam-na (e escreviam-na) correta e familiarmente. Era de fato a língua nativa do Rei Théoden: ele nasceu em Gondor e seu pai Thengel utilizava a Língua Comum em sua própria casa mesmo após seu retorno a Rohan [2]. Os Eldar usavam-na com o cuidado e perícia que aplicavam a todos os assuntos lingüísticos, e sendo longevos e de longa memória eles tendiam, especialmente quando falavam formalmente ou sobre assuntos importantes, usar uma linguagem de certa forma arcaica [3].

Os Anões eram, de muitas maneiras, um caso especial. Eles tinham uma antiga língua própria da qual se orgulhavam bastante; e mesmo quando, como entre os Anões Barbalonga do Oeste, cessou de ser sua língua nativa e tornou-se uma “língua de livro”, foi cuidadosamente preservada e ensinada a todas as suas crianças bastante cedo. Servia, portanto, como lingua franca entre todos os Anões de todos os tipos; mas também era a língua escrita utilizada em todas as histórias e conhecimentos importantes, e no registro de todos os assuntos que não tinham intenção de serem lidos por outros povos. Este Khuzdul (como eles a chamavam), parcialmente devido à sua própria secritude natural, parcialmente por sua dificuldade inerente [4], raramente era aprendida por aqueles de outra raça.

Os Anões não eram, contudo, lingüístas hábeis – em muitos aspectos eles não era adapatáveis – e falavam com um notável sotaque anão. Eles também nunca inventaram nenhuma forma de escrita alfabética [5]. Eles, contudo, rapidamente reconheceram a utilidade dos sistemas Élficos, quando eles finalmente se tornaram suficientemente amigos com qualquer Eldar para aprendê-los. Isto ocorreu principalmente na convivência próxima de Eregion e Moria na Segunda Era. Em Eregion não apenas a Escrita Feanoriana, que há muito tornara-se um modo de escrita utilizado comumente (com várias adaptações) entre todos os povos “alfabetizados” em contato com as colônias Numenorianas [6], mas também o antigo alfabeto “rúnico” de Daeron elaborado[> usado] pelos Sindar era conhecido e utilizado. Isto se devia, sem dúvida, à influência de Celebrimbor, um Sinda que se dizia descendente de Daeron [7]. Em todo caso, mesmo em Eregion as Runas eram principalmente um “assunto de sabedoria” e raramente utilizadas informalmente. Elas, contudo, capturaram a maneira dos Anões; pois embora os Anões ainda morassem em seus próprios reinos populosos, como Moria, e saíssem em viagens apenas para visitar seus parentes, eles tinham pouco contato com outros povos exceto seus vizinhos imediatos, e necessitavam escrever muito pouco; embora fossem orgulhosos das inscrições, de todos os tipos, feitas em pedra. Para tais propósitos as Runas era convenientes, sendo originalmente utilizadas para tal.

Os Anões Barbalonga adotaram as Runas, modificando-as para seus próprios usos (especialmente a escrita do Khuzdul); e eles aderiram a ela mesmo ao final da Terceira Era, quando estavam esquecidas pelos demais exceto os mestres da sabedoria dos Elfos e Homens. De fato, era geralmente suposto pelos não estudados que ela haviam sido inventadas pelos Anões, e eram amplamente conhecidas como “letras dos Anões” [8].

Aqui estamos interessados apenas na Língua Comum. A Língua Comum, quando escrita de alguma forma, em seu início era expressa através da Escrita Feanoriana [9]. Apenas ocasionalmente e escritas não feitas com caneta ou pincel alguns Elfos de descendência Sindarin usavam as Runas de Daeron. Os Anões originalmente aprenderam a Língua Comum de ouvido o melhor que puderam e não tiveram oportunidade de escrevê-la; mas na Terceira Era foram obrigados, devido ao comércio e outros assuntos com Homens e Elfos, a aprender a ler a Língua Comum escrita e muitos acharam conveniente aprender a escrevê-la de acordo com os costumes gerais do Oeste. Mas eles apenas o faziam nos assuntos com outros povos. Para seus próprios propósitos (como dito) eles preferiam as Runas e aderiam a elas.

Portanto em documentos tais como o Livro de Mazarbul – não “secreto” mas direcionado principalmente a Anões, e provavelmente mais tarde tendo como intenção fornecer material para crônicas [10] – eles usavam as Runas. Mas a escrita estava misturada e irregular. Em geral e por intenção básica era uma transcrição da escrita corrente da Língua Comum em Runas; mas esta era freqüentemente “incorreta”, devido à rapidez e conhecimento imperfeito dos Anões; e isto misturado com os numerosos casos de palavras escritas foneticamente (de acordo com a pronúncia dos Anões) – por exemplo, letras que na pronúncia coloquial do final da Terceira Era cessaram de ter qualquer função eram algumas vezes omitidas [11].

Na preparação de um exemplo do Livro de Mazarbul, e fazendo três páginas rasgadas e parcialmente ilegíveis [12], eu segui o princípio geral mantido no todo: a Língua Comum era representada como o inglês de hoje, formal ou coloquial conforme o caso exigia. Consequentemente o texto foi feito na língua inglesa atual, modificada para parecer que os escritores estavam com pressa e tinham um conhecimento imperfeito da forma escrita e que estavam, também, (na primeira e terceira páginas) transliterando o inglês em um alfabeto diferente – um que, por exemplo, não empregasse qualquer letra em mais de um valor distinto, por isso a distribuição do inglês k,c – c,s foi reduzido a k – s; enquanto que o uso de s e z é variável uma vez que o inglês usa s frequentementem como se fosse z. Adicionalmente alguns documentos deste tipo quase sempre mostravam o uso de letras ou emformas peculiares ou nunca encontradas em outros lugares, algumas poucas das quais também foram acrescentadas: como os símbolos para os pares ingleses de vogais ea, oa, ou (sem relação aos seus sons).

Ficou bastante bom, e talvez dê alguma noção do tipo de texto que Gandalf tentava ler muito rapidamente na Câmara de Mazarbul. Também está de acordo com o tratamento geral das línguas em O Senhor dos Anéis: apenas as formas atuais dos nomes e palavras do período, que estavam nas línguas Élficas, foram preservados como supunha-se serem sua forma real [13]. Além disso, este tratamento foi imposto pelo fato de que, embora a Língua Comum tenha sido rascunhada em termos de elementos fonéticos e estrutura, e um certo número de palavras inventado, é impossível traduzir tais pequenos trechos em formas reais contemporâneas, se fossem visualmentee representados. Mas esta é uma extensão errônea do tratamento lingüístico geral.É uma coisa representar todos os diálogos da história em várias formas de inglês:  supôe-se que isto seja feito por “tradução” – da memória de sons não registrados ou de documentos perdidos e não impressos, seja assim afirmado ou não, qualquer que seja a narrativa lidando com tempos passados ou terras estrangeiras. Mas é outra coisa completamente diferente prover representações visuais de escritos ou gravações supostamente feitos à data da narrativa [14].

O real paralelo neste caso é o relance de Quenya dado no lamento de galadriel – seja na transcrição para o nosso alfabeto (para tornar o estilo da linguagem mais facilmente apreciável) ou na escrita contemporânea (com na The Road Goes Ever On) – seguida por uma tradução. Uma vez que, como dito, a provisão de um texto contemporâneo na Língua Comum não é possivel, o único procedimento adequado era produzir uma tradução para o inglês das palavras legíveis das páginas rapidamente examinadas por Gandalf [15]. Isto foi feito no texto; e pouco da contrução da Língua Comum, suficiente para permitir o texto estar na forma contemporânea, tudo que pôde ser legitimamente feito.

Uma dificuldade especial é apresentada pela inscrição no túmulo de Balin. Ela é efetiva em seu lugar: dando uma idéia do estilo das Runas quando gravadas com mais cuidado para propósitos solenes, e proporcionando um vislumbre de uma língua estranha; embora tudo que era realmente necessário para o conto são as seis linhas [16] (com a tradução da inscrição em letras maiores e mais fortes). A representação da inscrição, entretanto, caiu em alguns absurdos[17].

O uso, na inscrição, de valores e formas mais antigos e mais “corretos” das Argenthas, e não do posterior “uso de Erebor” não é absurdo (embora possivelmente seja uma elaboração desnecessária); está de acordo com a história das Runas como rascunhada no Apêndice E. As Runas mais antigas seriam utilizadas para tal propósito, uma vez que foram utilizadas em Moria antes da fuga dos Anões, e apareceria em outras inscrições afins - e Balin clamava ser descendente e sucessor dos antigos Senhores de Moria. O uso da língua dos Anões (Khuzdul) é possível em uma inscrição tão curta, uma vez que esta língua foi rascunhada em algum detalhe de sua estrutura e com um vocabulário bastante pequeno. Mas os nomes Balin e Fundin em tal contexto são absurdos. Os Anões, como já dito, tinham nomes em sua própria língua; estes eles apenas utilizavam entre eles mesmo (em ocasiões solenes) e os mantinham estritamente secretos a outros povos e portanto nunca os escreviam em textos ou inscrições que pudessem ser vistos por estranhos. Em tempos ou locais onde eles tinham assuntos, seja de negócios ou amizade, com seus vizinhos, eles adotaram “nomes externos” para conveniência [19].

Estes nomes tinham forma geralmente adaptada à estrutura da Língua Comum [> à estrutura da língua das quais derivavam]. Muito frequentemente eles possuíam significados reconhecíveis naquela língua ou eram nomes comuns na mesma; algumas vezes eram nomes [> comuns na mesma, sendo nomes] utilizados pelos Homens na vizinhança em que residiam, e eram derivados da línguas Humanas nas quais eles poderiam continuar a ter um significado, embora nem semprefosse o caso [esta frase foi riscada][20]. Se os nomes adotados que possuíam significados foram escolhidos por estes significados terem algumas relação com seus “nomes internos” não pode ser determinado. Os nomes adotados poderiam ser alterados e algumas vezes eram – geralmente em consequência de algum evento, como uma migração dos Anões os de seus amigos, que os separassem.

O caso dos Anões de Moria é um exemplo da adoção de nomes das línguas Humanas do Norte, não da Língua Comum[21]. Poderia ter sido melhor, nesse caso, dar os nomes em suas formas originais. Mas continuando com a teoria (necessária para reduzir o peso da invenção de nomes em diferentes estilos de linguagem) que nome derivados de línguas e dialetos Humanos do Oeste historicamente relacionados à Língua Comum deveriam ser representados por nomes encontrados (ou construídos de elementos encontrados em) línguas relacionadas aos inglês, os nomes dos Anões foram tomados do Norueguês, uma vez que as línguas humanas das quais eles os adotaram é bastante próxima da língua do sul da qual se derivou a língua de Rohan (representada pelo Inglês Antigo, devido ao seu grande arcaísmo se comparada àqueles elementos da Língua Comum derivados da línguas de mesmo parentesco). Em consequência nomes como Balin não apareceriam em nenhuma inscrição contemporânea utilizando Khuzdul [22].

Relacionamentos dos Anões Barbalongas e Homens [23]

Nas tradições dos Anões da Terceira Era os nomes dos locais onde cada um dos Sete Ancestrais “acordaram” foram preservados; mas apenas dois deles são conhecidos dos Elfos e Homens do Oeste: o mais ocidental, o local do acordar dos ancestrais dos Barbas-de-fogo e dos Vigalargas; e aquele do ancestral dos Barbalongas[24], o mais antigo a ser criado e o primeiro a acordar. O primeiro foi o norte das Ered Lindon, o grande muro leste de Beleriand, do qual as Montanhas Azuis da Segunda Era e eras posteriores são remanescentes; o segundo foi o Monte Gundabad (originalmente um nome Khuzdul), o qual era, portanto, reverenciado pelos Anões e sua ocupação na Terceira Era pelos Orks [N.T. escrito assim mesmo, com K] de Sauron foi uma das principais razões de seu grande ódio aos Orks [25]. Os outros dois locais eram a leste, a distâncias tão grandes ou maiores do que entre as Montanhas Azuis e Gundabad: a origem dos Punhos-de-Ferro e dos Barba-Bífidas e àquele dos Ferrolho-Negros e Pés-de-Pedra. Embora estes quatro pontos fossem bastante separados os Anões das diferentes famílias estavam em contato, e nas primeiras eras mantinham assembléias de representantes no Monte Gundabad. Em tempos de grande necessidade mesmo os mais distantes mandariam auxílio para qualquer um de seu povo; como no caso da grande Guerra contra os Orks (Terceira Era, 2793-2799). Embora não gostassem de migrar e fazer moradias permanentes ou “mansões” longe de suas casas originais, exceto  sob grande pressão de inimigos ou após alguma catástrofe como a ruína de Beleriand,eram grandes e resistentes viajantes e hábeis construtores de estradas; e também todas as famílias dividiam uma língua comum [26].Mas em dias distantes os Anões eram secretivos [riscado: - e nenhum mais do que os Barbalongas - ] e possuíam poucos negócios com os Elfos. No Oeste ao fim da Primeira Era os negócios dos Anões das Ered Lindon com o Rei Thingol terminaram em desastre e na Ruína de Doriath, a lembrança da qual continuou a envenenar as relações entre Elfos e Anões em Eras posteriores. Àquele tempo as migrações dos Homens do Leste e Sul trouxeram grupos avançados a Beleriand; mas não eram em grande número, embora mais ao leste em Eriador e Rhovanion (especialmente as áreas mais ao norte) seus parentes tenham ocupado a maior parte da terra. Lá os negócios entre Homens e os Barbalongas logo começaram. Para os Barbalongas, embora os mais orgulhosos das Sete Casas, também eram os mais sábios e os de visão mais longa. Homens mantinham-nos em temor e eram ávidos por aprender com eles; e os Barbalongas tinham grande interesse em usar os Homens para seus próprios interesses. Portanto cresceu a economia, naquela região, mais tarde característica dos negócios entre Anões e Homens (incluindo Hobbits): Homens tornaram-se os principais fornecedores de comida, comocriadores de gado, pastores e cultivadores, pela qual os Anões trocavam por trabalho como construtores, fazedores de estradas, mineradores e criadores de muitos artefatos, de ferramentas úteis a armas e muitas outras coisas de grande custo de habilidade. Para o grande proveito dos Anões. Não apenas para ser contado em horas de trabalho, embora em tempos iniciais os Anões devem ter obtido bens que eram o produto de maior e mais extenso esforço do que as coisas ou serviços que eles davam em troca - antes dos Homens se tornarem mais sábios e desenvolverem habilidades deles mesmos. A principal vantagem para eles era a liberdade de continuar com seus trabalhos sem obstáculos e de refinar suas artes, especialmente na metalurgia, à maravilhosa habilidade que alcançaram antes do declínio e do diminuir de Khazad.

Este sistema se desenvolveu lentamente, e foi muito antes dos Barbalongas sentirem qualquer necessidade de aprender a língua de seus vizinhos, muito menos adotar nomes através dos quais eles pudessem sem conhecidos individualmente para os “de fora”. Este processo não começouem trocas ou negócios, mas na guerra; pois os Barbalongas se expandiram para o sul nos Vales do Anduin e fizerem sua “mansão” e forte principalem Moria; e também a leste para as Colinas de Ferro, cujas minas eram a principal fonte de minério de ferro. Eles consideravam as Colinas de Ferro, as Ered Mithrim e as escarpas leste das Montanhas Nebulosas como de sua posse. Mas eles estavam sob ataque dos Orks de Morgoth. Durante a Guerra das Jóias e o Cerco de Angband, quando Morgoth precisou de toda sua força, estes ataques cessaram; mas quando Morgoth caiu e Angband foi destruída, hordas de Orks fugiram para o leste procurando moradia. Estavam agora sem mestre e sem qualquer liderança geral, mas eram bem armados e muito numerosos, cruéis, selvagens e sem piedade no ataque. Nas batalhas que se seguiram os Anões ficaram em menor número e embora fosse os guerreiros mais irredutiveis de todos os Povos Falantes eles ficaram satisfeitos em fazer aliança com os Homens.[27]

Os Homens com os quais eles então se associaram eram em maior parte aparentados em raça e língua com os homens altos e em sua maioria com belos cabelos povo da “Casa de Hador”, a mais renomada e numerosa dos Edain, os quais foram aliados dos Eldar na Guerra das Jóias. Estes homens, ao que parece, foram em direção oeste até encontrarema Grande Floresta Verde e então se dividiram: alguns chegaram ao Anduin e cruzaram-no em direção norte para os Vales; alguns cruzaram o norte da Floresta e as Ered Mithrim. Apenas uma pequena parte deste povo, já muito numeroso e dividido em muitas tribos, passou para Eriador e finalmente para Beleriand. Eles eram um povo bravo e leal, de bom coração, odiadores de Morgoth e seus servos; e a príncipio recusaram o pedido dos Anões, temendo que estivessem sob a Sombra (como disseram) [28]. Mas eles ficaram satisfeitos com a aliança, pois eles eram mais vulneráveis aos ataques dos Orks: eles residiram principalmente em vilas e agrupamentos espalhados, e se se uniam em pequenas cidades defendiam-na pobremente, no máximo comfossos e cercas de madeira. Também tinham apenas armamento leve, principalmente arcos, pois possuíam pouco metal e os poucos ferreiros entre eles não possuíam grandes habilidade. Estas coisas os Anões consertaram em troca do grande serviço que os Homens poderiam oferecer. Eles eram adestradores de bestas e aprenderam a maestria dos cavalos, e muitos eram cavaleiros hábeis e sem medo [29]. Estes freqüentemente cavalgavam longe como batedores e mantinham vigilância dos movimentos dos inimigos; e se os Orks ousassem se reunir em campo aberto para algum grande ataque, eles poderiam reunir uma grande força de arqueiros montados para cercá-los e destruí-los. Desta forma a Aliança dos Anões e Homens no Norte rapidamente veio a comandar uma grande força no começo da Segunda Era, rápida em ataque e valente e bem preparada na defesa, e naquela região cresceram o respeito e a estima entre Anões e Homens, e algumas vezes grande amizade.
Foi àquele tempo, quando os Anões eram associados aos Homens tanto na guerra quanto no ordenar das terras que eles obtiveram[30], que os Barbalongas adotaram a língua dos Homens para se comunicarem com eles. Eles não tinham desejo de não ensinar sua própria língua aos Homens com os quais tinham uma amizade especial, mas os Homens a achavam difícil e eram lentos a aprender mais do que palavras isoladas, muitas das quais eles adotaram e inseriram em seus próprias línguas. Mas em um ponto os Barbalongas eram tão rigidamente secretivos quanto todos os outros Anões. Por razões que nem os Elfos nem os Homens entenderam completamente eles não revelavam nenhum nome pessoal a pessoas de outra raça [31], nem mais tarde quando eles adquiriram as artes da escrita jamais permitiram que estes fossem gravados ou escritos. Eles então pegaram nomes em forma dos Homens, pelos quais poderiam ser conhecidos a seus aliados [32]. Este costume permaneceu entre os Barbalongas até a Quarta Era e além do escopo destas histórias. Aparentemente quando falando com Homens com os quais tinham uma amizade próxima, ao falar das histórias e memórias de seus povos, eles também davam nomes similares aos Anões lembrados em seus anais muito antes do encontro de Anões e Homens. Mas destes tempos antigos apenas um nome foi preservado na terceira Era: Durin, o nome que eles deram ao primeiro ancestral dos Barbalongas e pelo qual ele foi conhecido entre Elfos e Homens. (Parece ter sido simplesmente uma palavra para “rei” na língua dos Homens do Norte na Segunda Era) [33]. Assim não são conhecidos listas de nomes dos Barbalongas anteriores à ruína de Moria (Khazaddum), 1980 da Terceira Era; mas eles eram todos do mesmo tipo, isto é, em uma língua dos Homens há muito “morta”.

Isto apenas pode ser explicado supondo-se que estes nomes do início da Segunda Era foram adotados pelos Anões, e preservados com tão poucas alterações quanto sua própria língua, e continuaram sendo dados (e freqüentemente repetidos) por algo em torno de quatro mil anos ou mais desde que a Aliança foi destruída pelo poder de Sauron! Desta forma eles logo se tornaram, para os Homens de mais tarde, nomes especiais de Anões [34], e os Barbalongas adquiriram um vocabulário de nomes tradicionais peculiares a eles mesmo, enquanto mantinham seus verdadeiros nomes “internos” completamente em segredo.

Muitas mudanças aconteceram enquanto a Segunda Era prosseguia. Os primeiros navios dos Numenorianos apareceram às costas da Terra-média por volta de 600 da Segunda Era, mas nenhum rumor desse acontecimento atingiu o distante Norte. Ao mesmo tempo, contudo, Sauron saiu do seu esconder-se e se revelou com bela aparência. Por muito tempo ele deu pouca atenção a Anões e Homens e dedicou-se a ganhar a amizade e confiança dos Eldar. Mas lentamente ele voltou a seguir Morgoth e começou a buscar poder atarvés da força, tomando o comando novamente e direcionando os Orks e outras criaturas malignas da Primeira Era, e secretamente construindo sua grande fortaleza na terra cercada de montanhas, no sul, que mais tarde ficou conhecida como Mordor. A Segunda Era tinha atingido apenas a metade de seu curso (por volta de 1695) quando ele invadiu Eriador e destruiu Eregion, um pequeno reino estabelecido pelos Eldar que migraram da ruína de Beleriand e que também formaram uma aliança com os Barbalongas de Moria. Isto marcou o fim da Aliança entre Barablongas e Homens do Norte. Pois embora Moria continuasse inexpugnável por muitos séculos, os Orks, reforçados e comandados por servos de Sauron invadiram as montanhas novamente. Gundabad foi retomada, as Ered Mithrim infestadas e a comunicação entre Moria e as Colinas de Ferro cortadas por um tempo. Os Homens da Aliança foram envolvidos em uma guerra não apenas contra os Orks mas também com Homens estrangeiros malignos. Pois Sauron conseguiu domínio sobre muitas tribos selvages do Leste (corrompidas no passado por Morgoth), e ele agora os instigou a tomar a terra e saquear o Oeste. Quando a tempestade passou [35], os Homens da antiga Aliança estavam reduzidos e separados, e aqueles que permaneciam nas antigas regiões estavam empobrecidos, e viviam principalmente em cavernas ou nas bordas da Floresta.

Os mestres Élficos do conhecimento mantinham que, em matéria de línguas, as mudanças na fala (como em todos os aspectos de seus vidas) dos Povos Falantes foram muito mais lentas nos Dias Antigos do que se tornaram mais tarde. As línguas dos Eldar mudaram principalmente em aparência; a dos Anões resistia a mudanças pela própria vontade destes; as muitas línguas dos Homens mudavam sem atenção no rápido passar de suas gerações. Em Arda todas as coisas mudavam, mesmo no Reino Abençoado dos Valar; mas lá a mudança era tão lenta que não podia ser observada (exceto talvez pelos Valar) em grandes eras do tempo. A mudança na linguagem dos Eldarpoderia portanto ser parada em Valinor [36]; mas em seus dias iniciais os Eldar continuaram a aumentar e refinar sua língua, e a alterá-la, mesmo em estrutura e sons. Tais mudanças, contudo, para permanecerem uniformes requeriam que os falantes deveriam continuar em comunicação. Por isso aconteceu que as línguas dos Eldar que permaneceram na Terra-média divergiram das línguas dos Altos Eldar de Valinor tão grandemente que nenhuma delas poderia ser entendida por falantes da outra; pois elas foram separadas por tão grande espaço de tempo, durante o qual mesmo o Sindarin, a mais bem preservada delas na Terra-média, foi sujeita a grades mudanças nos anos que se passaram, mudanças que os Teleri estavam menos interessados  em conter ou direcionar que os Noldor.

 

II.
Os Atani e suas línguas[37]

Os Homens entraram em Beleriand ao final da Primeira Era. Aqueles com os quais estamos lidando e cujas linguagens tiveram anotações preservadas pertencem principalmente aos três povos, diferentes em fala e raça, mas conhecidos em comum pelos Eldar como os Atani (Sindarin Edain)[38]. Estes Atani era a vanguarda de grupos muito maiores das mesmas famílias migrando para oeste. Quando a Primeira Era terminou e Beleriand foi destruída e a maior parte dos Atani que sobreviveram passaram sobre o mar para Númenor, seus parentes mais atrasados estavam ou em Eriador, alguns estabelecidos, outros ainda vagando ou nunca cruzaram as Montanhas Nebulosas e estavam, espalhados entre as Colinas de Ferro e o Mar de Rhun a leste da Grande Floresta, ou nas bordas da qual, tanto a leste como a oeste, muitos se fixaram.Os Atani e seus parentes eram os decendentes de povos que nas Eras Escuras resistiram a Morgoth ou tinham renunciado a ele, e migraram para oeste de suas casas, localizadas no extremo Leste, buscando pelo Grande Mar, do qual rumores distantes os alcançaram. Eles não sabiam que o próprio Morgoth havia deixado a Terra-média[39]; pois eles estavam sempre em guerra com as coisas vis que ele gerou, e especialmente com Homens que fizeram dele seu Deus e acreditavam que não podiam prestar-lhe serviço mais prazeiroso do que destruir os “renegados” com todo tipo de crueldade. Foi no Norte da Terra-média, ao que parece, que os “renegados” sobreviveram em números suficientes para manter suas independências como povos bravos e duros; mas de seu passado eles preservaram apenas lendas, e suas histórias orais alcançavam no passado não mais do que umas poucas gerações de Homens.

Quando suas vanguardas finalmente alcançaram Beleriand e o Litoral Oeste eles desanimaram. Pois eles não podiam seguir adiante, mas também não encontraram paz, apenas terras engajadas na guerra com o próprio Morgoth, que havia fugido de volta à Terra-média. “Por eras esquecidas”, eles disseram, “nós vagamos, procurando escapar dos Domínios do Senhor do Escuro e de sua Sombra, apenas para encontrá-lo aqui à nossa frente” [40]. Mas sendo um povo tão bravo quanto desesperadorapidamente se tornaram aliados dos Eldar,foram instruídos por eles e tornaram-se enobrecidos e avançados em conhecimentos e artes. Nos anos finais da Guerra das Jóias eles proporcionaram muitos dos mais valentes guerreiros e capitães dos exércitos dos reis Élficos.

Os Atani eram três povos, independentes em organização e lideranças, cada um dos quais diferindo em fala e também em formas corpóreas dos demais – embora todos eles mostrassem traços de terem se misturado no passado com Homens de outros tipos. Estes povos os Eldar nomearam o Povo de Beor, o Povo de Hador e o Povo de Haleth, em razão dos nomes dos chefes que os comandava quando chegaram pela primeira vez em Beleriand [41]. O Povo de Beor foram os primeiros Homens a entrar em Beleriand – eles foram encontrados nos vales de Beleriand Oriental pelo Rei Finrod, o Amigo dos Homens, pois eles haviam encontrado uma passagem através das Montanhas. Eles eram um povo pequeno, tendo não mais, como é dito, do que dois mil homens adultos; e eles pobres e parcamente equipados, mas foram forçados a viagens duras e cansativas carregando grandes cargas, pois eles não tinham bestas de carga. Não muito depois, a primeira das três hostes do Povo de Hador veio do sul e  duas outras de quase mesmo tamanho se seguiram antes do outono daquele ano. Eles eram um povo mais numeroso; cada uma das hostes era tão grande quanto todo o Povo de Beor, e eles eram melhor armados e equipados; também possuíam muitos cavalos e alguns burros além de pequenos rebanhos de ovelhas e cabras. Eles cruzaram Eriador e alcançaram o sopé leste das Montanhas (Ered Lindon) um ano ou mais à frente de todos outros, mas não tentaram encontrar nenhuma passagem e voltaram atrás procurando um estrada através das Montanhas, as quais, como seus batedores a cavalo reportaram, ficavam cada vez menores ao sul. Alguns anos mais tarde, quando o outro povo estava fixado, o terceiro povo dos Atani entrou em Beleriand [42]. Eles eram, provavelmente, mais numerosos que o Povo de Beor, mas nenhuma contagem correta deles foi feita; pois eles vieram secretamente em pequenos grupos e se escondiam nas florestas de Ossiriand onde os Elfos não demonstravam amizade para com eles. Além disso eles possuíam dissensões  internas e Morgoth, agora ciente da chegada de Homens hostis em Beleriand, enviou seus servos para os afligir. Aqueles que eventualmente se deslocaram para oeste e entraram em amizade e aliança com os Eldar foram chamados de Povo de Haleth, pois Haleth era o nome da chefe que os conduziu para as florestas ao norte de Doriath onde lhes foi permitido viver.

O Povo de Hador sempre foi o maior em números entre os Atani, e em renome (exceto apenas por Beren, filho de Barahir, descendente de Beor). Em sua maior parte eles eram um povo alto, com cabelos amarelados ou dourados e olhos azuis-acinzentados, mas não existiam poucos dentre eles com cabelos escuros, mas todos belos [43]. De qualquer forma eram aparentados com o Povo de Beor, como o mostrava suas línguas. Não era necessário conhecimentos de línguas para perceber que elas eram bastante próximas, pois embora pudessem entender uns aos outros apenas com dificuldade eles possuíam muitas palavras em comum. Os sábios Élficos [44] eram da opinião de que ambas as línguas eram descendentes de uma que divergiu (devido à algum tipo de divisão do povo que a falava) no decorrer de, talvez, mil anos de lenta mudança na Primeira Era [45]. Embora o tempo possa muito bem ter sido menor e a mudança mais acelerada pelo misturar dos povos; pois a língua de Hador era aparentemente menos mudada e mais uniforme em estilo, enquanto a linguagem de Beor continha muitos elementos que eram estrangeiros em caráter. Este contraste em fala era provavelmente conectado com as diferenças físicas observáveis entre os dois povos. Existiam homens e mulheres de cabelos claros entre o Povo de Beor, mas a maioria deles tinha cabelo castanho (e geralmente olhos castanhos), e muitos tinham a pela menos bonita, alguns tendo, de fato, pele escura. Homens tão altos quanto os do Povo de Hador eram raros entre eles, e muitos eram mais troncudos e de compleição mais compacta [46]. Em associação com os Eldar, especialmente com os seguidores do Rei Finrod, eles tornaram-se tão desenvolvidos em artes e maneiras quanto o Povo de Hador, mas se estes os ultrapassavam em rapidez de mente e corpo, em generosidade nobre e agradável [47], o Povo de Beor eram os mais firmes nas resistência às dificuldades e tristezas, lentos nas lágrimas e nas gargalhadas; sua força não necessitava de esperança para mantê-la. Mas estas diferenças de corpo e mente tornaram-se menos marcantes com o passar das gerações, pois os dois povos tornaram-se muitos misturados por casamentos e por desastres da Guerra [48].

O Povo de Haleth eram estranhos para os outros Atani, falantes de uma língua diferente; embora mais tarde tenham se unido a eles na aliança com os Eldar, permaneceram um povo à parte. Entre eles aderiam à própria língua, e embora por necessitade tenham aprendido Sindarin para se comunicarem com os Eldar e os outros Atani, muitos o falavam com dificuldades e alguns daqueles que raramente se aventuravam além das bordas de suas próprias florestas não a usavam de forma alguma [49]. Eles de boa vontade não adotavam novas coisas ou costumes e mantinham muitas práticas que pareciam estranhas aos Eldar e aos outros Atani, com os quais eles tinham poucos negócios exceto na guerra. De qualquer forma, eles eram conhecidos como aliados leais e guerreiros irredutíveis,apesar das companias que eles mandavam às batalhas além de suas bordas serem pequenas. Pois eles eram e continuavam a ser um povo pequeno, preocupado principalmente com a proteção de suas próprias florestas, e eram excelentes em batalhas dentro delas. De fato por muito tempos mesmo aqueles Orks especialmente treinados para tal [batalhas em florestas] não se aproximavam de seus limites. Uma das muitas práticas comentadas era a de que muitos guerreiros eram mulheres,mas poucas destas lutaram nas grandes batalhas. Este costume era evidentemente antigo[50]; pois sua chefe Haleth era uma renomada amazona com uma guarda pessoal de mulheres.

[Christopher Tolkie: A este ponto um subtítulo foi escrito a lápis no texto datilografado: os Druedain (Homem Pukel); após isto não existem mais divisões com subtítulos inseridos. Junto com o paragráfo que conclui a seção II acima, o texto sobre os Druedain que se segue é dado no Contos Inacabados, terminando com a história chamada A Pedra Fiel; e não há necessidade de repeti-la aqui [51]. Ao final da história há uma passagem comparando Hobbits e Drugs, o qual é dado de forma reduzida no Contos Inacabados e colocado aqui completo; o texto atual então segue até o fim, ou melhor, abandono, do ensaio. ]

Este longo texto sobre os Druedain foiaqui colocadopois lança alguma luz sobre os Homens Selvagens que continuavam a sobreviver ao tempo da  Guerra do Anel no final leste das Montanhas Brancas e o reconhecimento de Merry deles como sendo as formas vivas dos Homens Pukel esculpidos em Dun Harrow. A presença de membros da mesma raça entre os Edain de Beleriand portanto faz outra conexão entre O Senhor dos Anéis e O Silmarillion, e permite a introdução de personagens de alguma maneira similares aos Hobbits de O Senhor dos Anéis em algumas das lendas da Primeira Era (por exemplo o velho servo (Sadog) de Hurin, na lenda de Turin) [52].

Os Drugs ou Homens Pukel não devem, contudo, ser confundidos com ou considerados uma mera variante do tema hobbit. Eles eram bastante diferentes em forma física e aparência. Sua altura média (1,20 m) era alcançada apenas por hobbits excepcionais; eles eram de constituição mais pesada e forte; e suas características faciais não eram agradáveis (julgadas por parâmetros humanos gerais). Fisicamente eles compartilhavam a ausência de pelos na face; mas enquanto o cabelo dos hobbits era abundante (mas próximo e encaracolado), os Drugs tinham apenas cabelo esparso e fino e nenhum pelo em suas pernas e pés. Em caráter e temperamento eles eram algumas vezes felizes e alegres, como hobbits, mas tinham um lado sinistro em suas naturezas em podiam ser sarcásticos e rudes; e eles possuíam ou acreditava-se possuírem poderes estranhos ou mágicos. (Os contos, como o “A Pedra Fiel”, que fala da transferência de parte de seus “poderes” para seus artefatos, lembra uma miniatura da transferência do poder de Sauron para as fundações de Barad-dur e o Anel Governante) [53]. Também os Drugs eram um povo frugal,comiam com parcimônia mesmo em tempos de paz e abundância e não bebiam nada exceto água. Em alguns aspectos eles lembravam mais os Anões: em constituição, estatura e resistência (embora não em cabelo); em suas habilidades em esculpir pedra; no lado sinistro de seus caráteres; e nos “estranhos poderes”. Embora as habilidades “mágicas” creditadas aos Anões fossem muito diferentes; também os Anões eram mais “sinistros” etinham vida longa, enquanto os Drugs tinham vida curta se comparados a outros tipos de Homens.

Os Drugs encontrados nos contos da Primeira Era – co-habitando com o Povo de Haleth, que era um povo das florestas - davam-se por contente em viver em tendas ou alojamentos leves contruídos ao redor de troncos de grandes árvores, pois eram uma raça dura. Para seus antigos lares, de acordo com suas lendas, eles utilizavam cavernas nas montanhas, mas principalmente as usavam como depósitos apenas ocupados como moradias e locais de dormir em climas severos. Eles possuíam refúgios similares em Beleriand para os quais todos excetos os mais duros se recolhiam em tempos de tempestade ou clima ruim, mas estes locais eram guardados e nem mesmo seus amigos mais próximos entre o Povo de Haleth eram bem-vindos lá.

Hobbits, por outro lado, eram em praticamente todos os aspectos Homens normais, mas de estatura muito baixa. Eles eram chamados “halflings” (N.T. “metade do comprimento/altura”); mas isto se refere à altura normal de Homens de descendência Numenoriana ou à altura dos Eldar (especialmente aqueles de origem Noldorin), que aparentemente seria de cerca de sete de nossos pés (N.T. cerca de 2,10 m) [54]. Sua altura referente aos períodos mencionadosera normalmente mais de três pés (N.T. 90 cm) para homens embora muito poucos excedessem três pés e seis polegadas (N.T. 1,05 m); mulheres raramente excediam 3 pés. Eles não eram tão numerosos ou variados quanto os Homens comuns, mas evidentemente mais numerosos e adaptáveis a diferentes modos de vida e habitat que os Drugs, e quando eles se encontraram pela primeira vez nas histórias já mostravam divergências de cor, estatura e constituição e em seus modos de vida e preferências por tipos diferentes de regiões de moradia (ver o Prólogo do O Senhor dos Anéis). Em seu passado não registrado eles devem ter sido um povo primitivo, mesmo “selvagem” [55], mas quando os encontramos eles tinham (em graus variados) adquirido muitas artes e costumes através do contato com Homens, e em menos extensão com Anões e Elfos. Eles reconheciam seu parentesco com Homens de estatura normal, mas consideravam Anões e Elfos, fossem amigos ou hostis, como estranhos, com os quais suas relações eram difíceis e nubladas pelo medo [56]. O comentário de Bilbo (O Senhor dos Anéis I) [57] que a co-habitação do Povo Grande e do Povo Pequeno no mesmo local em Bri era peculiar e não encontrada em nenhum outro lugar provavelmente era verdadeira a seu tempo (final da Terceira Era) [58]; mas parece que de fato os Hobbits gostavam de viver com ou perto de um Povo Grande de tipo amigável, que com sua grande força os protegiam de muitos perigos e inimigos e outros Homens hostis e recebiam em troca muitos serviços. Por isso é digno de nota que os Hobbits do oeste não preservaram traços ou memória de uma língua própria deles. A língua que eles falavam quando entraram em Eriador era evidentemente adotada dos Homens dos Vales do Anduin (relacionados aos Atani, em particular àqueles da Casa de Beor [> das Casas de Hador e Beor]); e depois de sua adoção da Língua Comum eles mantiveram muitas palavras daquela origem. Isto indica uma associação próxima com o Povo Grande; pois a rápida adoção da Língua Comum em Eriador [59] mostra os Hobbits sendo especialmente adaptáveis neste aspecto. Também a divergência dos Stoors, que se associaram com Homens de um tipo diferente antes de irem para o Condado.

A vaga tradição preservada pelos Hobbits do Condado dizia que eles haviam vivido nas terras à margem de um Grande Rio, mas há muito a deixaram e encontraram uma rota através ou ao redor de altas montanhas, quando não mais se sentiram bem em seus lares devido à multiplicação do Povo Grande e de uma sombra de medo que caiu sobre a Floresta. Isto evidentemente reflete os problemas de Gondor na parte inicial da Terceira Era. O aumento dos Homens não era o aumento normal daqueles com os quais viviam em amizade, mas o constante aumentar dos invasores do Leste, ao sul sendo detidos por Gondor, mas no Norte além dos limites do Reino perturbando os antigos habitantes “Atanicos” e mesmo ocupando a Floresta em certos locais e atravessando-a até o vale do Anduin. Mas a sombra de que a tradição fala não é somente devido à invasão humana. Claramente os Hobbits perceberam, antes mesmo dos Magos e dos Eldar se tornarem completamente cientes, o ressurgir de Sauron e sua ocupação de Dol Guldur [60].

Sobre as relações de diferentes tipos de Homens em Eriador e Rhovanion com os Atani e outros homens das lendas da Primeira Era e a Guerra das Jóias veja O Senhor dos Anéis III [no capítula "A janela para o oeste"]. Lá Faramir faz um breve relato da classificação atual em dos Homens em Gondor em três tipos: Altos Homens ou Numenorianos (de descendências mais ou menos pura); Homens Médios e Homens da Escuridão. Os Homens da Escuridão era um termo genérico aplicado a todos aqueles que eram hostis aos Reinos, e que eram (ou pareciam a Gondor serem) movidos por algo mais do que a ambição humana por conquista e saque, um ódio fanático pelos Altos Homens e seus aliados como inimigos de seus deuses. O termo não toma conotações de diferenças de raça, cultura ou língua. Com relação aos Homens Médios Faramir fala principalmente dos Rohirrim e atribuia a eles descendência direta do Povo de Hador da Primeira Era. Esta era uma crença geral em Gondor àquele tempo [61], e foi usada para explicar (para o conforto do orgulho Numenoriano) da cessão de tão grande parte do Reino para o povo de Eorl.

O termo Homens Médios, contudo, era de origem antiga. Foi cunhado na Segunda Era pelos Humenorianos quando começaram a estabelecer portos e assentamentos no litoral oeste da Terra-média. Surgiu entre os colonizadores no Norte (entre Pelargir e o Golfo de Lune) ao tempo de Ar-Adunakhor; pois os colonizadores dessa região se recusaram a se unir à rebelião contra os Valar e foram aumentados por muitos exilados dos Fiéis que fugiram da perseguição por eles e os demais Reis de Numenor. Foi portanto modelado na classificação pelos Atani dos Elfos: os Alto Elfos (ou Elfos da Luz) eram os Noldor que retornaram em exílio do Oeste Distante; os Elfos Médios eram os Sindar, que apesar do parentesco próximo aos Alto Elfos tinham permanecido na Terra-média e nunca viram a luz de Aman; e os Elfos da Escuridão eram aqueles que não viajaram ao Litoral oeste e não tiveram desejo de ver Aman. Esta não era igual às classificações feitas pelos Elfos, as quais não nos interessam aqui, exceto o fato de que “Elfos Escuros” ou “Elfos da Escuridão” era usado por eles, mas de nenhuma forma implicava em qualquer mal ou subordinação a Morgoth; se referia apenas à ignorância da “luz de Aman” e incluía os Sindar. Aqueles que nunca fizeram a jornada para o Litoral oeste eram chamados de “os Relutantes” (Avari).É duvidoso se qualquer dos Avari alguma vez tenha alcançado Beleriand [62] ou foi conhecido pelos Numenorianos.

Nos dias dos primeiros assentamentos de Numenor existiam muitos Homens  de diferentes tipos em Eriador e Rhovanion; mas em sua maior partemoravam distantes da costa. A região de Forlindon e Harlindon era habitada por Elfos e eram a parte principal do reino de Gil-galad, que se extendia ao norte do Golfo de Lune para incluir as terras a leste das Montanhas Azuis e oeste do Rio Lune tão longe quanto o Pequeno Lune [63]. (Além disso era território Anão)[64]. Ao sul do Lune ele não tinha limites claros, mas as Colinas das Torres (como mais tarde foram chamadas) eram mantidas como um posto avançado[65]. O Minhiriath e a metade oeste de Enedhwaith entre o Greyflood e o Isen ainda eram cobertos por uma densa floresta[66]. O litoral da Baía de Belfalas ainda era basicamente desolado, exceto por um porto e um pequeno agrupamento de Elfos na foz da confluência do Morthond e Ringlo [67].  Mas isso foi muito antes dos colonos Numenorianos das cercanias da Foz do Anduin terem se aventurado ao norte de seu grande porto em Pelargir e fazerem contato com Homens que residiam em vales em ambos os lados das Montanhas Brancas. Seu termo Homens Médios era portanto aplicado originalmente aos Homens de Eriador, os que moravam mais a oeste dentre todos da Humanidade na Segunda Era e conhecidos dos Elfos do reino de Gil-galad [68]. Àquele tempo existiam muitos homens em Eriador, principalmente, ao que parece, de parentesco original com o Povo de Beor, embora alguns fossem parentes do Povo de Hador. Eles moravam ao redor do Lago Evendim, nas Depressões Norte, na Colina do Tempo e nas terras entre elas, tão longe quanto o Brandywine, a oeste do qual eles frequentemente vagavam, porém não residiam lá. Eles eram amigáveis com os Elfos, embora sob temor e amizade próxima entre eles era rara. Também temiam o Mar e não olhavam para ele. (Sem dúvida rumores de seus terrores e da destruição da terra além das Montanhas (Beleriand) os alcançaram, e alguns de seus ancestrais podem de fato terem sido fugitivos, parte dos Atani que não deixaram a Terra-média mas fugiram para leste).

Portanto o termo Numenoriano Homem Médio é confuso em sua aplicação. Seu principal teste era o sentimento geral de amizade com relação ao Oeste (a Elfos e Numenorianos), mas era aplicado usualmente apenas a Homens cuja estatura e aparência fossem similares àquelas dos Numenorianos, emboraa definição de “amicabilidade” fosse mais importante e não confinada a povos de apenas um tipo racial. Era uma marca de todos ostipos de Homens que eram descendentes daqueles que abjuraram a Sombrade Morgoth e seus servos e vagaram para oeste para escapar da mesma- e certamente incluía ambas as raças de pequena estatura, Drugs e Hobbits. Também precisa ser dito que a “animosidade” com relação aos Numenorianos e seus aliados não era sempre devido à Sombra, mas em dias tardios às ações dos próprios Numenorianos, portanto muitos moradores das florestas do litoral sul das Ered Luin, especialmente em Minhiriath, eram, como reconhecidos por historiadores mais tardios, da raça do Povo de Haleth; mas eles tornaram-se inimigos amargos dos Numenorianos, devido ao rude tratamento e à devastação das florestas[69], e este ódio continuou não apaziguado em seus descendentes, fazendo-os se unir com qualquer inimigo de Numenor. Na Terceira Era seus sobreviventes eram o povo conhecido em Rohan como os Dunlendings.

Também existe o assunto da linguagem. Foi após seiscentos anos depois da partida dos sobreviventes dos Atani por sobre o mar para Numenor que o primeiro navio da Terra-média saiu do oeste e aportou no Golfo de Lune [70].

[Christopher Tolkien: A história que se segue recontando o encontro dos marinheiros Numenorianos com doze Homens de Eriador na Colina das Torres, seu mútuo reconhecimento de um parentesco distante e a descobertar de que suas línguas embora profundamente alteradas eram de origem comum, foi dada nos Contos Inacabados [71]. Seguindo-se à conclusão daquele trecho (que termina com as palavras “eles perceberam que compartilhavam muitas palavras ainda claramente reconhecíveis e outras que poderiam ser compreendidas com atenção, e eram capazes de conversar de com certa dificuldade sobre assuntos simples”) o ensaio continua como se segue.]

Então veio aos Numenorianos que o parentesco de linguagem, mesmo que reconhecível apenas sob estudos atenciosos, era uma das marcas dos “Homens Médios” [72].

Os sábios dos dias tardios mantinham que as línguas dos Homens na Terra-média, pelo menos aquelas dos Homens “sem sombra”, mudaram menos rapidamente antes da Segunda Era e da mudança do mundo com a Queda de Numenor. Visto que em Numenor ela mudava ainda mais lentamente devido à longevidade dos Atani. Ao primeiro encontro dos Marinheiros e os Homens de Eriador ocidental foi apenas seiscentos anos após os Atani terem partido sobre o mar, e o Adunaico que eles falavam poderia apenas dificilmente ter mudado; mas fazia mil anos ou mais que os Atani que alcançaram Beleriand haviam se separado de seus parentes. Mesmo agora em um mundo mutável línguas que foram separada há quinze séculos podem ser reconhecidas como aparentadas para aqueles não estudados na história das línguas.

Ao longo da passagem dos longos anos a situação mudou. O antigo Adunaico de Numenor tornou-se inusado pelo tempo – e por negligência. Pois devido à desastrosa história de Númenor ela não era mais mantida com honra pelos “Fiéis” que controlavam a Costa de Lune até Pelargir. Pois as línguas Élficas eram proscritas pelos Reis rebeldes e apenas o uso do Adunaico era permitido e muitos dos antigos livros em Quenya ou em Sindarin foram destruídos. Os Fiéis, portanto, usavam Sindarin, e naquela língua construíram nomes para todos os lugares que criaram na Terra-média [73]. Adunaico foi abandonado à mudança descuidada e corrupção como língua de uso diário, e a única língua dos não estudados. Todos os homens de alta linhagem e todos aqueles que eram ensinados a ler e escrever usavam Sindarin, até mesmo como língua diária entre eles. Em algumas famílias oSindarin tornou-se a língua nativa e a língua vulgar de origem Adunaica era apenas aprendida casualmente quando necessária [74]. O Sindarin, contudo, não era ensinada a estrangeiros, tanto porque era mantida como uma marca de descendência Numenoriana quanto porque se provou difícil de adquirir - muito mais do que a “língua vulgar”. Portanto aconteceu que enquanto os assentamentos Numenorianos aumentavam em poder e faziam contato com os Homens da Terra-média (muitos dos quais acabaram sob governo Numenoriano, ampliando sua população) a “língua vulgar” começou a se expandir amplamente como lingua franca entre os povos de muitos tipos diferentes. Este processo se iniciou no final da Segunda Era, mas tornou-se de importância geral principalmente após a Queda e o estabelecimento dos “Reinos no Exílio” em Arnor e Gondor, Estes reinos penetraram fundo na Terra-média, e seus reis eram reconhecidos além de suas bordas como senhores. Portanto no Norte e Oeste todas as terras entre as Ered Luin e o Greyflood e Hoarwll [75] tornaram-se regiões de influência Numenoriana nas quais a “língua vulgar” tornou-se amplamente corrente. Ao Sul e Leste Mordor permaneceia impenetrável; mas embora a extensão de Gondor ser limitada ele era mais populoso e poderoso que Arnor. As fronteiras do antigo reino continham aquelas terras marcadas nos mapas do fim da Terceira Era como Gondor, Anorien, Ithilien, Ithilien Sul e Rohan (anteriormente chamada Calenardhon) a oeste do Entwash [76]. Sobre sua extensão em seu pico de poder, entre os reinos de Hyarmendacil I e Romendacil II (Terceira Era 1015 a 1366) ver O Senhor dos Anéis Apêndice A [77]. As amplas terras entre Anduin e o Mar de Rhun nunca foram, contudo, efetivamente ocupadas ou assentadas e o único verdadeiro limite norte do Reino a leste do Anduin era formado pelas Emyn Muil e os pântanos a sul e leste das mesmas. Contudo a influência Numenoriana alcançava muito além destas fronteiras extendidas, passando pelos Vales do Anduin a suas fontes e alcançando as terras a lestre da Floresta, entre o Rio Celon [78] (Corredor) e o Rio Carnen (Água Vermelha).

Dentro das fronteiras originais dos Reinos a “língua vulgar” logo tornou-se a fala corrente e eventualmente a língua nativa de praticamente todos os habitantes de qualquer origem emigrantes aos quais foram permitidos se fixarem dentro das fronteiras a adotaram. Seus falantes geralmente a chamavam Westron (de fato Aduni, e Annunaid em Sindarin). Mas ela se espalhou muito além das fronteiras dos Reinos - inicialmente em negócios com “os povos dos Reinos” e mais tarde como uma “língua Comum” conveniente para o relacionamento entre povos que mantinham muitas línguas próprias. Os Elfos e Anões a usavam uns com os outros e com Homens

[Christopher Tolkien: O texto termina aqui abruptamente (sem sequer um ponto final após a última palavra, embora isso possa não ser significante), no meio de uma página]

Notas:

[1] Um caso notável é o da conversação entre Ghan, chefe dos Homens Selvagens, e Théoden. Provavelmente poucos dos Homens Selvagens além de Ghan usavam a Língua Comum e ele tinha apenas um vocabulário de palavras limitado aos hábitos de sua língua nativa.

[2] Os Reis e seus descendentes após Thengel também conheciam a língua Sindarin – a língua dos nobres de Gondor [vide Apêndice A (II), na lista dos Reis do Marco, sobre a estadia de Thengel em Gondor. É dito que após seu retorno a Rohan "a língua de Gondor foi usada em sua casa, e nem todos os homens acharam isso bom".]

[3] O efeito sobre faladores atuais da Língua Comum em Gondor sendo comparável àquele que sentiríamos se um estrangeiro, um linguísta tanto hábil quando estudado, ao ser cortez ou lidando com assuntos importantes usasse fluentemente um inglês de, digamos, cerca de 1600 D.C., mas adaptado à nossa pronúncia atual.

[4] Estrutural e gramaticalmente diferia grandemente de todas as outras línguas do Oeste àquele tempo; embora tivesse algumas características em comum com o Adunaico, a antiga língua “nativa” de Númenor. Isto deu origem à teoria (provável) de que em um passado não registrado algumas das línguas dos Homens – incluindo os elementos dominantes entre os Atani do qual o Adunaico foi derivado – teria sido influenciado pelo Khuzdul.

[5] Ele tinha, é dito, um complexo sistema próprio pictográfico ou ideográfico de escrita ou inscrição. Mas este eles mantinham resolutamente secreto.

[6] Incluindo seus inimigos tais como Sauron e seus maiores seguidores, os quais era de fato parcialmente de origem Numenoriana.

[7] [Christopher Tolkien: Como Gil-galad, Celebrimbor foi uma figura que apareceu inicialmente em O Senhor dos Anéis cuja origem meu pai mudou muitas vezes. A mais antiga referência ao assunto é encontrada no texto pós-Senhor dos Anéis "Sobre Galadriel e Celeborn" onde é dito (conforme Contos Inacabados):

"Galadriel e Celeborn tinham como companhia um artífice Noldorin chamado Celebrimbor. Ele era de origem Noldorin e um dos sobreviventesde Gondolin, onde fora um dos maiores artífices de Turgon - mas ele também havia adquirido alguma mancha de orgulho e uma obsessão quase "anã" com artefatos."

Ele aparece como um dos joalheiros de Gondolin no texto "A Elessar" (também do Contos Inacabados); mas contra a passagem no "Sobre Galadriel e Celeborn" acima citada meu pai anotou que seria melhor "torná-lo um descendente de Fëanor". Portanto na Segunda Edição (1966) de O Senhor dos Anéis, ao final das anotações antes do Contos dos Anos da Segunda Era, ele adicionou a sentença: "Celebrimbor era senhor de Eregion e o maior dentre seus artífices; ele era descendente de Fëanor".

Em uma de suas cópias de O Retorno do Rei ele sublinhou o nome Fëanor nesta sentença e escreveu as seguintes duas notas na página oposta (o começo da primeira diz, acredito eu: "Então qual era seu parentesco? Ele deve ser descendente de um dos filhos de Feanor, sobre cujas progênies nada foi dito").

"Como ele poderia sê-lo? Os únicos descendentes de Feanor foram seus sete filhos, seis dos quais alcançaram Beleriand. E nada foi dito sobre suas mulheres e filhos. Parece provável que Celebrinbaur (punhos-de-prata, > Celebrimbor) fosse filho de Curufin, mas embora herdando sua perícia ele era um Elfo de temperamento completamente diferente (sua mãe se recusou a tomar parte na rebelião de Feanor e permaneceu em Aman com o povo de Finarphin). Durante sua morada em Nargothrond como refugiado eleamou Finrod "e sua esposa, e estava contra as atitudes de seu pai e não iria com ele. Ele mais tarde tornou-se grande amigo de Celeborn e Galadriel"".

A segunda nota diz:

"Maedhros o mais velho aparentemente não se casou assim como os dois mais jovens (gêmeos, um dos quais por um maléfico infortúnio foi queimado com os navios); Celegorm também, uma vez que pretendia tomar Lúthien como esposa. Mas Curufin, o mais querido de seu pai e principal herdeiro de suas habilidades, era casado, e teve um filho que veio com ele para o exílio, embora sua esposa (não nomeada) não. Outros casados eram Maelor e Caranthir".

Sobre a forma Maelor, ver HoME X, pag 182 $41. A referência na primeira daquelas notas à esposa de Finrod Felagund é notável, uma vez que, há muito, nos Anais Cinzentos, a história que emergiu foi de que Felagund não tinha esposa e que "aquela a quem ele amou foi Amarië dos Vanyar, e não foi permitido a ela que partisse com ele ao exílio". Aquela história foi, de fato, abandonada, ou esquecida, mas agora retorna.

Estas notas sobre Celebrimbor filho de Curufin foram a base das passagens introduzidas editorialmente no Silmarillion publicado e no "Sobre os Anéis de Poder". Mas em escrito tardio (1968 ou mais tarde) sob o assunto de palavras Eldarin para "mão" meu pais
escreveu isso:

"Eldarin Comum tinha uma raiz KWAR "pressionar junto, amassar". Um derivativo era *kwara: Quenya quar, Telerin par, Sindarin paur. Esta pode ser traduzida "punho", embora seu uso principal seja em referência a uma mão fortemente fechada como quando no uso de um implemento ou ferramenta ao invés de "punho" no sentido usado em socar. Por exemplo o nome Celebrin-baur> Celebrimbor. Esta era uma forma Sindarizada do Telerin Telperimpar (Quenya Tyelpinquar). Era um nome frequente entre os Teleri, os quais em adição à navegação e construção de navios também eram renomados artífices em prata. O famoso Celebrimbor, heróico defensor de Eregion na guerra da Segunda Era contra Sauron, era um Teler, um dos três Teleri que acompanhou Celeborn no Exílio. Ele era um grande artífice da prata e foi para Eregion atraído pelos rumores do maravilhoso metal encontrado em Moria, prata-de-Moria, para o qual ele deu o nome mithril. No trabalhar desta ele se tornou um rival dos Anões, ou melhor um igual, pois existia grande amizade entre os Anões de Moria e Celebrimbor, e eles dividiam suas habilidades e segredos de artífice. Da mesma forma Tegilbor era utilizado para alguém hábil em caligrafia (tegil era uma forma Sinderizada do Quenya tekil "caneta", não conhecida dos Sindar até a chegada dos Noldor)".

Quanto meu pai escreveu isto ele ignorou a adição ao Apêndice B na Segunda Edição, afirmando que Celebrimbor "era descendente de Fëanor"; sem dúvida ele esqueceu que aquela teoria foi publicada, pois ele certamente se lembrariacaso se sentisse preso a ela. Sobre a afirmação de que Celebrimbor era "um dos três Teleri que acompanharam Celeborn no exílio" veja o Contos Inacabados.

E mesmo aqui neste presente ensaio, de mais ou menos a mesma época das palavras Eldarin para "mão" acima citadas, uma origem radicalmente diferente de Celebrimbor é dada: "um Sinda que afirmava descender de Daeron".]

[8] Elas não aparecem, contudo, nas inscrições no Portão Oeste de Moria. Os Anões diziam que em cortesia aos Elfos que as letras Feanorianas foram utilizadas naquele portão, uma vez que ele se abria para sua região e era principalmente utilizado por eles. Mas os Portões Leste, que foram destruídos na guerra contra os Orks, abriam-se para o mundo aberto e era menos amigável. Ele possuía inscrições Rúnicas em várias línguas: magias de proibição e exclusão em Khuzdul e comandos para que todos que não tivessem a permissão do Senhor de Moria deveriam partir escritos em Quenya, Sindarin, Língua Comum, línguas de Rohan, de Dale e de Dunland.

[Christopher Tolkien: Na margem ao lado do parágrafo a esta altura do texto meu pai escreveu:

“N.B. Foi dito por Elrond nO Hobbit que as Runas foram inventadas pelos Anões e escritas com canetas de prata. Elrond era meio-Elfo e um mestre do conhecimento e da história. Então ou devemos tolerar esta discrepância ou modificar a história das Runas, fazendo a Argenthas Moria grandemente um assunto de invenção dos Anões.”

Em notas associadas a este ensaio eles é visto ponderando o último curso, considerando a possibilidade de que de fato os Anões Barbalonga foram os originais criadores das Runas; e que foi delas que Daeron derivou suas idéias, mas uma vez que as primeiras Runas não eram bem organizadas (e diferiam de uma mansão dos Anões para outra) ele as ordenou em um sistema lógico.

Mas sem dúvida no Apêndice E(II) ele afirmou bastante explicitamente a origem das Runas: “As Cirth foram criadas primeiramente em Beleriand pelos Sindar”. Foi Daeron de Doriath que desenvolveu a “forma mais rica e ordenada” das Cirth, o Alfabeto de Daeron, e seu uso em Eregion levou à sua adoção pelos Anões de Moria, de onde o nome Argenthas Moria. Portanto a inconsistência, se existe uma, dificilmente pode ser removida; mas de fato não existia nenhuma. Eram as “runas da lua” que Elrond declarou (ao final do

 

Adivinhas no Escuro

Quando da publicação de O Senhor dos Anéis, Tolkien
reescreveu determinadas partes de O Hobbit, para que fechasse com a
narrativa da saga maior. Segue, também, em notas de rodapé, as
modificações feitas pelo professor, conforme a edição brasileira, além
de outros comentários acerca do capítulo. Agradeço ao Pandatur
Parmandil por ter encontrado este texto, que há muito procuro.
 
 
 
Quando Bilbo abriu seus olhos, ele pensou se
realmente o fizera, pois continuava tão escuro quanto quando estava com
eles fechados. Não havia ninguém perto dele. Imagine seu medo! Ele não
podia ver nada, ouvir nada ou sentir nada, exceto a pedra do chão.
 
Lentamente, se levantou e foi engatinhando, até que tocasse a parede do
túnel; mas nem para cima, nem para baixo, ele pôde encontrar alguma
coisa: nada mesmo, nem sinal dos goblins, nem sinal dos anões. Sua
cabeça rodava, e ele estava longe de ter certeza sequer sobre a direção
que corria quando caiu. Ele supôs da melhor maneira que pôde, e
engatinhou por um longo caminho, até que, de repente, sua mão encontrou
o que parecia ser um pequeno anel de metal frio caído no chão do túnel.
Era um ponto decisivo em sua carreira, mas ele não sabia disto. Ele
colocou o anel em seu bolso, praticamente sem pensar; ele certamente
não parecia ser útil naquele momento. Ele não foi muito além, mas
sentou no chão frio e entregou-se à mais completa infelicidade, por um
bom tempo. Ele pensou nele mesmo, fritando bacon e ovos em sua cozinha
em sua casa – pois ele sentia por dentro que era hora de alguma
refeição; mas isso apenas o deixou mais infeliz.
Ele não podia
pensar no que fazer; nem podia ele pensar no que aconteceu; ou por que
ele havia sido deixado para trás; ou por que, se ele tivesse sido
deixado para trás, os goblins não o haviam capturado, nem por que sua
cabeça estava tão dolorida. A verdade é que ele estava deitado e
imóvel, fora do alcance da visão e esquecido, em um canto muito escuro
por um longo tempo.
Depois de um tempo, ele tateou atrás de seu
cachimbo. Não estava quebrado, o que já era alguma coisa. Então ele
tateou atrás de sua bolsa, e havia algum tabaco ali, e isso era mais
alguma coisa. Então ele tateou atrás de fósforos, mas não pode
encontrar nenhum, e isso destruiu completamente suas esperanças. Era
melhor assim, acabou concordando, quando pensou melhor. Sabe-se lá o
que seria atraído pelo riscar de fósforos e pelo cheiro de tabaco em
buracos escuros daquele lugar horrível. Mesmo assim, naquele momento
ele se sentiu aniquilado. Mas, ao tatear seus bolsos e em si mesmo
atrás de fósforos, sua mão acabou tocando o punho de sua pequena espada
– a adaga que pegara dos trolls, da qual ele havia esquecido; tampouco,
felizmente, havia sido encontrada pelos goblins, já que a usava dentro
das calças.
Então ele a desembainhou. Ela brilhou pálida e fraca
diante de seus olhos. “Então esta é uma lâmina élfica também," pensou,
“e os goblins não estão muito perto, mas também não estão longe o
suficiente."
Mas de alguma forma, ele estava confortado. Era um
tanto esplêndido usar uma lâmina forjada em Gondolin para a guerra dos
goblins que muitas canções celebravam; e também ele percebeu que essas
armas causavam uma grande impressão nos goblins que atacavam de
repente.
“Voltar?" pensou. “Não adiantará nada! Ir para os lados?
Impossível! Seguir adiante? A única coisa a fazer! Adiante, então!"
Então ele se levantou e avançou a passadas largas, segurando sua
pequena espada em sua frente e com uma das mãos tateando a parede, e
seu coração batendo como um tambor.

Agora, certamente pode-se
dizer que Bilbo estava em um aperto. Mas você deve lembrar que o aperto
não era tão grande para ele como seria para mim ou para você. Hobbits
não são como pessoas comuns; e, afinal, se as tocas deles são lugares
alegres e devidamente arejados, bem diferente dos túneis dos goblins,
ainda assim eles estão mais acostumados a túneis do que nós, além de
não perdem facilmente o senso de direção debaixo da terra – não quando
suas cabeças já haviam se recuperado de uma pancada. Além disso, eles
podem se movimentar silenciosamente, e se esconder com facilidade, e se
recuperam maravilhosamente de quedas e ferimentos, e têm um cabedal de
sabedoria e ditados sábios que os homens nunca ouviram, ou há muito
esqueceram.
Eu não gostaria de estar no lugar do Sr. Bolseiro, de
qualquer forma. O túnel não parecia ter fim. Tudo o que ele sabia é que
seguia para baixo e mantinha a mesma direção, a não ser por uma curva
ou duas. De quando em quando, haviam passagens que conduziam para os
lados, pelo que podia notar pelo brilho da espada, ou podia sentir com
a sua mão na parede. E adiante ele foi, descendo cada vez mais; e ainda
assim não ouvia som algum, a não ser uma ocasional batida de asas de
morcego, o que o assustava no início, mas que depois se tornou
freqüente demais para se preocupar. Não sei por quanto tempo ele seguiu
dessa forma, odiando seguir em frente, não ousando parar, em frente e
em frente, até ficar mais que cansado. Era como correr todo o caminho
até o dia seguinte, e seguir para os dias além.
De repente, sem
aviso, estava caminhando pela água! Ugh! estava congelante. Aquilo o
fez estacar. Ele não sabia se era apenas uma poça no caminho, ou a
beira de uma corrente subterrânea que cruzava a passagem, ou a margem
de um lago subterrâneo negro e profundo. A espada mal estava brilhando.
Ele parou, e, quando prestou atenção, pôde ouvir gotas
pinga-pinga-pingando de um teto invisível e caindo na água: mas não
parecia haver nenhum outro tipo de som.

“Então é uma poça ou
um lago, e não um rio subterrâneo,"pensou. Mesmo assim, não ousou
atravessar na escuridão. Ele não sabia nadar; e também imaginava seres
nojentos e viscosos, com grandes olhos cegos e esbugalhados,
serpenteando na água. Existem coisas estranhas vivendo nas poças e
lagos nos corações das montanhas: peixes cujos antepassados entraram,
sabe-se lá quantos anos atrás, e nunca mais saíram novamente, e seus
olhos cresceram mais e mais e mais, de tanto tentar enxergar na
escuridão; também há coisas mais pegajosas que peixes. Mesmo nos túneis
e nas cavernas que os goblins fizeram para si, existem coisas que vivem
em segredo, que entraram furtivamente e se entocaram no escuro. Além
disso, algumas dessas cavernas existem desde eras antes dos goblins,
que apenas as ampliaram e as interligaram com passagens, e os
proprietários originais ainda permanecem lá em cantos escusos,
movimentando-se furtivamente e farejando tudo.
Lá no fundo, na
beira da água escura, vivia o velho Gollum, uma pequena criatura
viscosa. Eu não sei da onde veio, nem o que ele era. Ele era Gollum –
escuro como a escuridão, exceto por dois grandes olhos redondos e
pálidos em seu rosto magro. Ele tinha um pequeno barco, e remava pelo
lago quase sem nenhum ruído; pois era realmente um lago, largo e
profundo e mortalmente frio. Ele impelia o barco com seus grandes pés
pendendo nas bordas, mas nunca erguia uma onda na água. Não ele. Com
seus olhos pálidos como lamparinas, ele procurava por peixes cegos, que
ele pegava com seus dedos longos tão rápido como um pensamento. Ele
gostava de carne também. Gostava de goblins, quando podia apanhá-los;
mas ele cuidava para nunca ser descoberto. Ele apenas os estrangulava
por trás, quando algum descia sozinho até perto da água, enquanto ele
rondava por ali. Era raro acontecer, pois eles tinham o pressentimento
de que havia algo desagradável estava espreitando por lá, bem nas
raízes da montanha. Haviam chegado até o lago, quando estavam abrindo
os túneis, muito tempo atrás, e descobriram que não podiam mais
avançar; então o caminho terminava naquela direção, e não havia motivo
para irem até lá – a não ser que o Grande Goblin os mandasse. Algumas
vezes ele tinha vontade de comer um peixe do lago, e algumas vezes nem
o goblin e nem o peixe retornavam.
Na verdade, Gollum vivia em
uma ilha de pedra viscosa no meio do lago. Ele estava observando Bilbo
à distância, com seus olhos pálidos como telescópios. Bilbo não podia
vê-lo, mas ele imaginava um monte de coisas sobre Bilbo, pois ele podia
ver que ele não era nenhum goblin.
Gollum entrou em seu barco e
afastou-se da ilha enquanto Bilbo estava sentado na borda,
completamente atarantado, no fim do seu caminho e no fim de seu juízo.
De repente surgiu Gollum, sussurrando e chiando:
“Que beleza e
que moleza, meu preciossso! Acho que temos um lauto banquete, pelo
menos um bom bocado para nós, gollum!" E quando ele dizia gollum, fazia
um ruído horrível na garganta, como se estivesse engolindo alguma
coisa. Foi assim que ele conseguiu esse nome, apesar de sempre chamasse
a si mesmo de “meu precioso". 1
O hobbit pulou quase que
para fora de sua própria pele quando o chiado chegou-lhe aos ouvidos e,
de repente, viu os olhos pálidos e salientes voltados para ele.
“Quem é você?", perguntou ele, erguendo a adaga à sua frente.
“O que é ele, preciossssso?", sussurrou Gollum (que sempre falava
consigo mesmo porque nunca tinha ninguém para conversar). Era o que
vinha descobrir, pois, na verdade, não estava com muita fome no
momento, apenas curioso; do contrário ele teria agarrado primeiro e
sussurrado depois.
“Eu sou o Senhor Bilbo Bolseiro. Eu perdi os
anões e perdi o mago, e não sei onde estou; e não quero saber, se puder
sair daqui."
“O que ele tem nas mãoses?", sussurrou Gollum, olhando para a espada, da qual ele não gostou muito.
“Uma espada, uma lâmina que vem de Gondolin!"
“Ssssss!", disse Gollum, ficando muito educado. “Você pode sentar aqui
e conversar com nós só um pouquinho, meu preciosssso. Você gosta de
adivinhas, vai ver que gosta, não gosta?" Ele estava ansioso para
parecer amigável, pelo menos no momento, e até descobrir mais sobre a
espada e sobre o hobbit, se ele realmente estava sozinho, se ele
realmente era bom de se comer, e se Gollum estava realmente faminto.
Adivinhas era tudo o que ele conseguiu pensar. Propô-las e algumas
vezes adivinhá-las era o único jogo que já tinha jogado com outras
criaturas divertidas, sentadas em suas tocas, muito tempo atrás, antes
de perder todos os seus amigos e fosse expulso, e rastejasse mais e
mais para as profundezas escuras das montanhas.
“Muito bem",
disse Bilbo, que estava ansioso por concordar, até que descobrisse mais
sobre a criatura, se realmente estava sozinho, se era feroz, se estava
faminto ou se era amigo dos goblins.
“Você pergunta primeiro", disse ele, pois não teve tempo de pensar numa adivinha.
Então Gollum chiou:

Tem raízes misteriosas,
É mais alta que as frondosa
Sobe, sobe e também desce,
Mas não cresce nem decresce.

“Fácil!", disse Bilbo. “Montanhas, eu suponho."
“Ele adivinha fácil? Precisa fazer uma competição com nós, preciosso.
Se ele perguntar para nós, e nós não responder, nós dá um presente pra
ele, gollum!" 2
“Certo!", disse Bilbo, não ousando
discordar, e quase estourando os miolos tentando lembrar de adivinhas
que pudessem salvá-lo de ser devorado.

Trinta cavalos brancos na colina avermelhada
Primeiro cerceiam,
Depois pisoteiam,
Depois não fazem nada.

Foi tudo o que conseguiu lembrar para perguntar – a idéia de comida
ainda povoava seus pensamentos. A adivinha era bem velha também, e
Gollum sabia da resposta tão bem quanto vocês.
“Barbada, barbada," ele chiou, “Dentess! dentess!, meu preciosso; mas nós só tem seis!" Então ele perguntou a sua segunda:

Sem asas volita,
Sem vozes ele ulula,
Sem dentes mordica
Sem boca murmura.

“Um minutinho!’, gritou Bilbo, ainda incomodado pensando em comida. Por
sorte já ouvira algo parecido antes e, colocando a cabeça no lugar,
pensou na resposta. “Vento, vento, é claro.", disse ele, e ficou tão
satisfeito que inventou uma na hora. “Esta vai confundir essa
criaturinha subterrânea nojenta", pensou ele.

Um olho no azul dum rosto
Viu outro no verde de outro.
“Aquele olho é como este olho"
Disse o primeiro olho,
“Mas lá em baixo é o seu lugar,
Aqui em cima é o meu lugar."

“Ss, ss, ss", disse Gollum. Estivera debaixo da terra por um longo
tempo, e já começava a esquecer esse tipo de coisa. Mas exatamente
quando Bilbo começava a alimentar esperanças de que o patife não
conseguiria responder, Gollum trouxe memórias de muitas eras passadas,
de quando vivia com a avó numa toca na margem de um rio. “Sss, sss, meu
preciosso", disse ele. “Sol sobre as margaridas, é essa a resposta, é
sim".
Mas aquele tipo de adivinhas comuns, de cima da terra,
estavam começando a cansá-lo. Além disso, faziam-no lembrar de tempos
em que era menos solitário, furtivo e nojento, e isso o deixava
nervoso. Mas ainda, o deixavam faminto; então, dessa vez, tentou algo
mais difícil e desagradável:

Não se pode ver, não se pode sentir,
Não se pode cheirar, não se pode ouvir.
Está sob as colinas e além das estrelas,
Cavidades vazias – ele vai enchê-las.
De tudo vem antes e vem em seguida,
Do riso é a morte, é o fim da vida.

Infelizmente para Gollum, Bilbo já ouvira esse tipo de coisa antes, e,
de qualquer modo, a resposta o envolvia. “O escuro!", disse ele, sem
coçar nem quebrar a cabeça.

Caixinha sem gonzos,tampa ou cadeado,
Lá dentro escondido um tesouro dourado,

Perguntou ele para ganhar tempo, até que pudesse pensar numa
verdadeiramente difícil. Aquela ele considerava uma barbada,
terrivelmente fácil, mas acabou se tornando um grande desafio para
Gollum. Ele chiava para si mesmo, suspirava e balbuciava.
Depois
de algum tempo, Bilbo ficou impaciente. “Então, o que é?" disse. A
resposta não é uma chaleira fervendo, como dá a entender com esse
barulho que está fazendo."
“Dá uma chance pra nós, deixa ele dar uma chance pra nós, preciosso…ss…ss."
“Bem," disse Bilbo, depois de um longo tempo “qual é a sua resposta?"
Então, de repente, Gollum lembrou-se de quando roubava ninhos, há muito
tempo atrás, e sentava-se às margens do rio e ensinava a sua avó,
ensinava a sua avó a chupar – “Ovosos!", ele sibilou. “Ovosos é o que
é!" Então ele perguntou:

Como a morte, não tenho calor,
Vivo, mas sem respirar;
Sem sede, sempre a beber,
Encouraçado, sem tilintar.

Ele, em seu pensamento, achou que era uma adivinha terrivelmente fácil,
pois ele pensava o tempo todo na sua resposta. Mas não conseguiu pensar
em nada melhor no momento, de tão atrapalhado que ficou com a questão
do ovo. Mas mesmo assim era um grande desafio para o pobre Bilbo, que
não tinha nada a ver com a água, a não ser por obrigação. Imagino que
você saiba a resposta, e, caso não saiba, consiga adivinhá-la num
piscar de olhos, já que está sentado em casa, e não existe o perigo de
ser devorado para atrapalhar seus pensamentos. Bilbo sentou-se e limpou
a garganta duas vezes, mas não saiu resposta alguma.
Depois de um
tempo, Gollum começou a sibilar para si mesmo com prazer. “É bom, não
é, preciosso? É suculento? Deliciosamente triturável?" E começou a
espiar Bilbo, da escuridão.
“Um momento," disse o hobbit, tremendo. “Eu acabei de lhe dar uma bela chance, um minuto atrás."
“Ele deve se apressar, apressar!" disse Gollum, começando a descer do
seu barco na margem para chegar até Bilbo. Mas quando colocou seu
comprido pé de pato na água, um peixe se assustou e pulou para fora,
caindo nos pés de Bilbo.
“Ugh!", disse ele, “é gelado e viscoso!" – então ele adivinhou. “Peixe! Peixe!", gritou. “É um peixe!"
Gollum ficou terrivelmente desapontado; mas Bilbo perguntou outra
charada, tão rápido quanto pode, para que Gollum tivesse que voltar
para o seu barco para pensar.

Sem pernas ficou sobre uma perna, duas pernas sentou próximo em três pernas, quatro pernas ganhou alguma coisa.

Não era o momento ideal para esse tipo de adivinha, mas Bilbo estava
com pressa. Gollum poderia ter problemas para adivinhá-la, se tivesse
perguntado em outra ocasião. Naquela circunstância, falando de peixes,
sem pernas não era difícil, e, depois disso, ficava fácil de adivinhar.
“Peixe em uma mesa pequena, um homem à mesa, sentado em um banco e o
gato fica com as espinhas." era a resposta, e Gollum a deu rapidamente.
Então ele pensou que havia chegado a hora de se perguntar algo horrível
e difícil. Isso foi o que ele perguntou:

Essa é a coisa que a tudo devora
Feras, aves, plantas, flora.
Aço e ferro são sua comida,
E a dura pedra por ele moída;
Aos reis abate, à cidade arruína,
E a alta montanha faz pequenina.

O pobre Bilbo ficou sentado no escuro pensando em todos os nomes de
gigantes e ogros que ouvira em contos, mas nenhum deles tinha feito
todas essas coisas. Ele sentia que a resposta era totalmente diferente,
e que ele deveria conhecê-la, mas não conseguia pensar nela. Ele
começou a ficar com medo, e isso é ruim quando se está tentando pensar.
Gollum começou a sair do seu barco. Pulou na água e avançou até a
margem; Bilbo podia ver seus olhos vindo em sua direção. Sua língua
parecia presa em sua boca; ele queria gritar “Me dê mais tempo! Me dê
tempo!", mas tudo o que saiu num guincho repentino foi:

“Tempo! Tempo!"

Bilbo fora salvo por pura sorte. É claro que aquela era a resposta correta.
Gollum ficou novamente desapontado; e agora ele estava ficando com
raiva, e também cansado do jogo. Aquilo o deixara realmente muito
faminto. Desta vez ele não voltou para o barco. Ele sentou ao lado de
Bilbo na escuridão. Isso deixou Bilbo terrivelmente desconfortável e
atrapalhou o seu raciocínio.
“Tem que fazer outra pergunta pra
nós, preciosso, sim, ssim, sssim.Ssó mais uma pergunta pra nóss
adivinhar, sim, ssim." Disse Gollum.
Mas Bilbo não conseguia pensar
em nenhuma pergunta com aquela coisa nojenta, úmida e fria sentada ao
lado dele, apalpando e cutucando. Ele se coçava, se beliscava e mesmo
assim não conseguia pensar em nada.
“Pergunta pra nós! Pergunta pra nós!" Disse Gollum.
Bilbo se beliscava e se esbofeteava; ele segurou sua pequena espada;
ele até apalpou o seu bolso com a outra mão. Ali ele encontrou o anel
que pegara no corredor e do qual se esquecera.
“O que tenho em meu
bolso?", disse ele em voz alta. Ele estava falando consigo mesmo, mas
Gollum pensou que era uma adivinha, e isso o deixou terrivelmente
perturbado.
“Não é justo! Não é justo!", ele sibilou. “Não é justo,
meu precioso, é justo perguntar pra nós o que tem no bolsso nojento
dele?"
Bilbo viu o que estava acontecendo e, sem nada melhor para
perguntar, insistiu na sua pergunta: “O que tenho em meu bolso?", falou
ainda mais alto.

“Ssssssss", sibilou Gollum, “Tem que nos dar três chances, meu preciosso, três chancesss."
“Muito bem! Tente adivinhar!" disse Bilbo.
“Mãoses!", disse Gollum.
“Errado", disse Bilbo que, por sorte, acabara de tirar as mãos dos bolsos. “Tente de novo!"
“Sssssss", disse Gollum, mais decepcionado do que nunca. Ele pensou em
todas as coisas que levava em seus bolsos: espinhas de peixe, dentes de
goblins, conchas molhadas, um pedaço de asa de morcego, uma pedra
afiada para afiar as suas presas e outras coisas nojentas. Ele tentou
pensar em coisas que outras pessoas carregam em seus bolsos.
“Faca!", disse finalmente.
“Errado!", disse Bilbo, que havia perdido a sua há algum tempo. “Última chance!"
Agora Gollum estava em uma situação muito melhor do que quando Bilbo
lhe perguntou a questão do ovo. Ele sibilou, resmungou e balançou para
frente e para trás, batia os pés no chão, se contorcia e se entortava
todo; mas mesmo assim não ousava desperdiçar sua última tentativa.
“Vamos!" disse Bilbo, “Eu estou esperando!" Ele tentou soar corajoso e
confiante, mas não tinha muita certeza de como o jogo iria terminar,
quer Gollum acertasse, quer não.
“O tempo acabou!", disse ele.
“Barbante, ou nada!", guinchou Gollum, o que não foi muito honesto – tentar duas respostas de uma só vez.
“Errou as duas," gritou Bilbo, muito aliviado; e levantou-se
imediatamente, apoiando as costas na parede mais próxima e desembainhou
sua pequena espada. 3 Mas curiosamente ele não precisava ter se
assustado. Pois se havia uma coisa que Gollum tinha aprendido há muito
tempo atrás era que nunca, nunca se deve trapacear num jogo de
adivinhas, que é um jogo sagrado e de imensa antiguidade. E também
havia a espada. Ele simplesmente se sentou e sibilou.
“E o
presente?" perguntou Bilbo. Não que se importasse muito, mas ainda
pensava que havia vencido de forma justa e com muita dificuldade.
“Devemos dar a ele a coisa, preciosso? Ssim, nóss tem. Nós tem que
buscar, preciosso, e dar o presente como prometemoss.", disse Gollum,
remando de volta para o seu barco, e Bilbo pensou que seria a última
vez que ouviria falar dele. Mas não. O hobbit já estava pensando em
voltar pelo corredor – ele já tinha aturado o suficiente de Gollum e da
margem da água escura – quando o ouviu lamentando e guinchando na
escuridão. Ele estava em sua ilha (do que, obviamente, Bilbo nada
sabia), fuxicando aqui e ali, procurando e buscando em vão e revirando
seus bolsos.
“Onde está? Onde esstá?" Bilbo o ouviu guinchar.
“Perdido, perdido, meu preciosso, perdido, perdido! Droga e praga! Nós
não temos o presente que prometemos, e nós não temos nem pra nós
mesmos!"
Bilbo se virou e esperou, imaginando qual seria o motivo
de tamanha algazarra. Isso se provou um lance de sorte, no fim das
contas. Pois Gollum retornou e sapateou e sussurrou e resmungou, e no
fim, Bilbo concluiu que Gollum tinha um anel – um anel maravilhoso,
muito bonito, um anel que havia sido dado como presente de aniversário,
eras e eras atrás, quando tais anéis não eram tão incomuns. Algumas
vezes ele guardava no seu bolso; geralmente ele deixava em um buraco na
pedra em sua ilha; algumas vezes ele o usava – quando estava realmente
faminto e cansado de peixe, e se esgueirava pelos corredores escuros
atrás de goblins errantes. Então ele se aventurava até por lugares
iluminados por tochas que incomodavam seus olhos e os deixava
doloridos; mas ele estaria seguro. O sim! Seguro o bastante, pois se
você colocasse o anel em seu dedo, você ficaria invisível e só poderia
ser visto na luz do sol, e mesmo assim apenas sua sombra seria vista, e
seria uma sombra fraca e trêmula.
Eu não sei quantas vezes Gollum
pediu desculpas a Bilbo. Ele ficava dizendo “Nós sente muito; nós não
queria trapacear, nós queria dar nosso único, único presente, se
ganhasse a competição." Ele até se ofereceu para pegar uns peixes
suculentos para Bilbo como compensação.
Bilbo estremeceu só de pensar nisso. “Não, obrigado!", disse ele, o mais educadamente possível.
Ele estava pensativo, e lhe ocorreu a idéia de que Gollum devia ter
perdido o anel em algum momento e que ele devia tê-lo encontrado, e que
ele tinha aquele anel em seu bolso. Mas ele resolveu não contar para
Gollum.
“Achado não é roubado!", disse para si mesmo; e ,estando
em uma situação delicada ouso dizer, ele estava certo. De qualquer
forma o anel pertencia a ele agora.
“Não se preocupe.", disse. “O
anel seria meu agora se você o encontrasse, então você teria perdido
ele de qualquer forma. E eu vou deixar para lá com uma condição."
“Ssim, qual é? O que quer fazer, precioso?"
“Me ajude a sair deste lugar.", disse Bilbo.
Agora Gollum teve de concordar com isso, já que não costumava
trapacear. Ele ainda queria muito descobrir se o estranho era saboroso
ou não; mas agora ele tinha que desistir dessa idéia toda. Pois ainda
tinha a pequena espada; e o estranho estava bem desperto e atento, não
desprevenido como Gollum gostava das coisas que atacava. Então, talvez
era melhor deixar assim.

E foi assim que Bilbo descobriu que o
túnel acabava na água e não seguia adiante para o outro lado, onde a
parede da montanha era escura e sólida. Ele também descobriu que devia
ter passado por uma das passagens para a direita antes de chegar ao
fundo; mas ele não podia seguir as indicações de Gollum para encontrar
o caminho para fora novamente, e então ele obrigou a criatura infeliz a
lhe acompanhar e mostrar o caminho.
Enquanto caminhavam juntos pelo
túnel, com Gollum saltitando ao seu lado, Bilbo ia caminhando
delicadamente, pensando se devia experimentar o anel. Então o anel
escorregou para o seu dedo.
“Onde está? Para onde foi?", disse Gollum imediatamente, olhando ao redor com seus grandes olhos.
“Aqui estou, atrás de você.", disse Bilbo, tirando o anel de seu dedo e
se sentindo muito feliz por tê-lo e por descobrir que realmente faz o
que Gollum disse.
Agora retomaram a caminhada, enquanto Gollum
contava os túneis para a esquerda e para a direita. “Um à esquerda, um
à direita, dois à direita, três à direita, dois à esquerda", e assim
seguiram adiante. Ele começou a ficar mais e mais agitado e assustado
enquanto se afastavam mais e mais da água, mas finalmente ele parou
próximo a uma pequena abertura à esquerda (que levava para cima) –
“seis à direita, quatro à esquerda."
“Aqui está a passagem", ele
sussurrou, “tem que se espremer para entrar e andar abaixado. Nós não
vai junto, preciosso, nós não vai. Gollum!"
Então Bilbo se
esgueirou pelo arco e disse adeus à criatura nojenta, e ficou muito
feliz em fazê-lo. Ele não se sentiu à vontade até que tivesse certeza
de que ela tinha ido embora, e manteve a cabeça para fora no túnel
principal ouvindo até que não mais escutasse os passos de Gollum
retornando para o seu barco. Então ele entrou no novo túnel. Era um
túnel estreito e mal feito. Mas era perfeito para um hobbit, a não ser
quando, no escuro, batia o pé em pedras escuras e nojentas no chão; mas
devia ser um tanto baixo para goblins. Mas ele não sabia que mesmo os
goblins eram acostumados a esse tipo de coisa, e que se moviam
rapidamente, caminhando abaixados com suas mãos quase tocando ao chão.
Isso fez Bilbo esquecer do perigo de encontrá-los, então seguiu rápida
e temeráriamente.
Logo a passagem começou a subir novamente, e
depois de um tempo tornou-se íngreme, o que acabou atrasando Bilbo. Mas
por fim a subida acabou e o túnel fez uma curva e foi pra baixo
novamente, e lá, no fundo de um pequeno declive, ele viu,
infiltrando-se por outra curva – um vislumbre de luz. Não uma luz
avermelhada como da chama de uma tocha ou lamparina, mas uma luz pálida
de ar livre. Então ele começou a correr. Correndo tanto quanto suas
perninhas permitiam, ele fez a curva e chegou subitamente a um lugar
aberto onde a luz, depois de tanto tempo na escuridão, parecia
estonteantemente clara. Na verdade era apenas uma réstia de sol que
entrava por uma soleira, onde uma grande porta, uma porta de pedra,
fora deixada levemente aberta.
Bilbo piscou, e então subitamente
viu os goblins, goblins em armaduras completas com espadas
desembainhadas sentados logo na entrada, e observando com os olhos bem
abertos, vigiando a passagem que levava até ali! Viram-no antes que ele
os visse, e com um grito de deleite, partiram para cima dele.
Se
foi um acidente ou presença de espírito eu não sei. Acidente penso eu,
pois o hobbit não estava acostumado com seu novo tesouro. De qualquer
forma, ele colocou o anel em sua mão esquerda – e os goblins pararam de
súbito. Não conseguiam ver nem sinal dele. Então gritaram duas vezes
mais alto que antes, mas não de deleite. 4

“Onde está ele?", gritaram.
“Voltem para a passagem!", gritavam alguns.
“Por aqui!", berravam alguns. “Por ali!", berravam outros.
“Vigiem a porta!", gritou o capitão.
Soavam assobios, armaduras se chocavam, espadas tilintavam, goblins
praguejavam, xingavam e corriam de um lado para o outro, caindo uns
sobre os outros, cada vez mais furiosos. Azáfama terrível, tumulto e
desordem.
Bilbo estava terrivelmente amedrontado, mas teve o bom
senso de compreender o que acontecera e de se esconder atrás de um
grande barril que continha bebida para os guardas-goblins, saindo assim
do caminho e evitando que tropeçassem nele, que o pisoteassem até a
morte ou que o capturassem pelo tato.
“Preciso chegar até a
porta, preciso chegar até a porta!", dizia a si mesmo, mas demorou
muito até que se arriscasse a tentar. E então foi como um terrível jogo
de cabra-cega. O lugar estava cheio de goblins correndo de lá para cá,
e o pobrezinho do hobbit, esquivando-se para um lado e para o outro,
foi derrubado por um goblin, que não conseguiu descobrir no que
tropeçara, afastou-se de quatro, passou entre as pernas do capitão no
último momento, levantou-se e correu para a porta.

Ainda
estava aberta, mas um goblin a havia empurrado e ela quase se fechara.
Bilbo fez força, mas não conseguiu movê-la. Tentou esgueirar-se pela
fresta. Espremeu-se, espremeu-se e entalou. Foi horrível. Os botões de
sua roupa se engancharam entre a borda da porta e o batente. Ele podia
ver lá fora, o ar livre: havia alguns degraus que desciam por um vale
estreito entre altas montanhas; o sol surgia por trás de uma nuvem e
brilhava por trás da porta – mas ele não conseguia passar.
De repente, um dos goblins gritou lá dentro: “Há uma sombra ao lado da porta. Tem alguma coisa lá fora!"
Bilbo ficou com o coração na boca. Fez uma tremenda contorção. Os
botões voaram em todas as direções. Passou, com um casaco e um colete
rasgados, descendo os degraus aos saltos como um cabrito, enquanto os
goblins perplexos ainda catavam seus belos botões de latão na soleira
da porta.
É claro que logo vieram atrás dele, gritando, chamando
e caçando em meio às árvores. Mas eles não gostam de sol: ele deixa
suas pernas bambas e sua cabeça tonta. Não conseguiram encontrar Bilbo,
que estava usando o anel, e entrava e saía furtivamente das sombras das
árvores, depressa e em silêncio, e mantendo-se fora do alcance do sol;
assim, logo voltaram, resmungando e praguejando, para guardar a porta.
Bilbo tinha escapado.

NOTAS:

1. Na
primeira edição de O Hobbit (1937), Gollum usa a frase “meu precioso"
apenas para referir a si mesmo. Na segunda edição (1951), na qual o
papel de Gollum foi significativamente alterado, a frase pode ser
tomada como referência ao Anel, como acontece em O Senhor dos Anéis. A
palavra gull em norueguês arcaico significa “ouro". Nos manuscritos
mais antigos, aparece como goll. Uma forma flexionada seria gollum,
“ouro, tesouro, algo precioso". Também pode significar “anel", como
pode se perceber na palavra composta “fingr-gull", “anel de dedo" –
questões que podem ter ocorrido a Tolkien.

2. 1951: “e nós não responder, nós faz o que ele quer, que tal? Nós mostra o caminho da saída, sim!"

3.
A partir deste ponto, o livro original se diferencia em muito da versão
de 1951, publicada no Brasil. Não irei comparar as duas versões,
portanto segue só a versão de 1937.

4. Aqui termina o trecho que difere da edição de 1951.

Gil-galad

O Parentesco de Gil-galad

Meu pai originalmente supôs que Gil-galad era o filho de Felagund Rei de Nargothrond. Esta informação provavelmente é encontrada pela primeira vez no texto FNII da Queda de Númenor (HoME 5 pag 33); e continuou sendo sua crença até após o término de O Senhor dos Anéis, como visto no principal texto inicial do Conto dos Anos e no Sobre os Anéis de Poder, onde, no texto publicado (O Silmarillion) Fingon é uma alteração editorial de Felagund.

 

Em adições de data incerta feitas no Quenta Silmarillion (HoME 11 pag 242) é dito que Felagund enviou sua mulher e filho Gil-galad de Nargothrond para os Portos de Falas para garantir-lhes segurança. Deve ser notado também no texto do Conto dos Anos acima referido que não apenas Gil-galad era o filho de Felagund mas Galadriel era irmã de Gil-galad (e portanto filha de Felagund). Surgiu, contudo, nos Anais Cinzentos de 1951 (HoME 11 pag 44 $108) que Felagund não tinha esposa, pois à Vanya Amarië a quem ele amava não foi permitido deixar Aman.

 

Aqui algo deve ser dito sobre Orodreth, filho de Finarfin e irmão de Felagund, que  tornou-se o segundo Rei de Nargothrond. Nas árvores genealógicas dos descendentes de Finwë, que podem ser datadas de 1959 mas que meu pai continuava utilizando e alterando quando esreveu o texto sobre The Shibboleth of Feanor, a curiosa história de Orodreth pode ser traçada. Colocada o mais concisamente possível, Finrod (Felagund) a início tinha um filho chamado Artanaro Rhodothir (e portanto contradizia a história dos AnaisCinzentos de que ele não tinha esposa) o segundo Rei de Nargothrond e pai de Finduilas. Portanto “Orodreth” fora agora movido para uma geração abaixo, tornado-se o filho de Finrod ao invés de seu irmão. No próximo estágio meu pai (recordando, aparentemente, a história dos Anais Cinzentos) anotou que Finrod “não tinha filhos {ele deixara a esposa em Aman)” e moveu Artanaro Rhodothir para se tornar,

ainda na mesma geração, o filho do irmão de Finrod, Angrod (que com Aegnor manteve Dorthonion e foi morto na Batalha das Chamas Repentinas).

 

O nome do filho de Angrod (ainda mantendo a identidade de “Orodreth”) foi então alterado de Artanaro para Artaresto. Em uma nota isolada encontrada com as genealogias, escrita com grande rapidez mas ainda assim datada, Agosto de 1965, meu pai sugeriu que a melhor solução para o problema do parentesco de Gil-galad era encontrá-lo como “o filho de Orodreth”, ao qual aqui é dado o nome de Artaresto, e continua:

 

Finrod deixou sua esposa em Valinor e não tinha filhos no exílio. O filho de Angrod era Artaresto, que era amado por Finrod e escapou quando Angrod foi morto, e morou com Finrod. Finrod fez dele seu “regente” e ele o sucedeu em Nargothrond. Seu nome Sindarin era Rodreth (alterado pata Orodreth devido ao seu amor pelas montanhas ……. Seus filhos eram Finduilas e Artanaro = Rodnor mais tarde chamado Gil-galad. (A mãe deles era uma dama Sindarin do Norte. Ela chamou seu filho Gil-galad). Rodnor Gil-galad escapou e eventualmente chegou à Foz do Sirion e foi Rei dos Noldor lá.


 

As palavras que eu não consegui ler aparentemente contém uma preposição e um nome próprio, e este último pode ser Faroth (o Alto Faroth a oeste do rio Narog). Na última das tabelas genealógicas Artanaro (Rodnor) chamado Gil-galad aparece, com uma nota de que “ele escapou e morou na Foz do Sirion”. A única mudança posterior foi a rejeição do nome Artaresto e sua substituição por Artaher, Sindarin Arothir; e portanto nos apêndices Arothir [Orodreth] é nomeado como o “parente e regente” de Finrod, e Gil-galad é “o filho de Arothir, sobrinho de Finrod”.


A genealogia final era:

 

                              Finrod Felagund ---- Angrod
                                               |
                                   Artaher/Arothir [Orodreth]
                                               |
                                  Artanaro/Rodnor/Gil-galad

Uma vez que Finduilas permaneceu sem correção na última genealogia como a filha de Arothir, ela tornou-se irmã de Gil-galad.* 

Portanto não há dúvidas de esta era a última palavra de meu pai sobre o assunto; mas nada de sua concepção tardia e radicalmente alterada tocou as narrativas existentes e foi obviamente impossível incluí-las no Silmarillion publicado. De qualquer modo teria sido muito melhor deixar o parentesco de Gil- Galad obscuro [N.T. no Silmarillion publicado].

 

Também devo mencionar que no texto publicado sobre Aldarion e Erendis (Contos Inacabados) a carta de Gil-galad para Tar-Meneldur abre “Ereinion Gil-alad filho de Fingon”, mas o original era “Finellach Gil-galad da Casa de Finarfin” (onde Finellach foi mudado de Finhenlach, e este de Finlachen). E também no texto de Uma Descrição da Ilha de Númenor (Contos Inacabados) eu imprimi “Rei Gil-galad de Lindon” onde o original era “Rei Finellach Gil-galad de Lindon”; eu mantive, contudo, as palavras “sua parente Galadriel”, uma vez que Fingon e Galadriel eram primos de primeiro grau. Não há traços entre as muitas notas e sugestões escritas nas tabelas genealógicas da descendência proposta de Gil-galad a partir de Finarfin; mas de qualquer forma Aldarion e Erendis e o proximamente relacionado Descrição de Numenor precediam por algum tempo (eu agora sou inclinado a datá-los de cerca de 1960) a tranformação de Gil- Galad no neto de Angrod, com o nome Artanaro Rodnor, que aparece pela primeira vez como uma nova decisão na nota de Agosto de 1965 citada acima. Uma análise muito mais detalhada do admitidamente complexo material do que a que eu fiz vinte anos atrás torna claro que Gil-galad como filho de Fingon (ver HoME 11 pag 243) era uma idéia efêmera.

 

[Nota do Tradutor]* O texto acima é de Christopher Tolkien, com excessão do trecho em itálico, que é do próprio Tolkien. Interessante reparar nesse texto, além do mea culpa de Christopher quanto ao parentesco incorreto de Gil-galad publicado no Silmarillion, o número de “influências editoriais” exercidas por ele sobre os textos do pai.
Círdan

Círdan

CírdanEsse texto é retirado do HoME 12 e os comentários feitos por Christopher Tolkien ao texto de seu pai, J.R.R. Tolkien, encontram-se em itálico 
Este breve manuscrito também é associado com a discussão de Glorfindel: o rascunho• do mesmo é encontrado no verso de uma das páginas do texto Glorfindel II.

Está é apalavra Sindarin para ´Armador´, [29] e descreve sua função posterior na história das Primeiras Três Eras, mas seu nome ´próprio´,isto é, seu nome original entre os Teleri, dos quais ele fazia parte, nunca é utilizado [30]. É dito nos Anais da Terceira Era (c. 1000) que ele poderia ver mais longe e profundamente o futuro do que qualquer um na terra-média [31]. Isto não inclui os Istari (que vieram de Valinor), mas inclui mesmo Elrond, Galadriel e celeborn.

Círdan era um Elfo Telerin, um dos mais nobres daqueles que não foram transportados a Valinor, mas vieram a se tornar os Elfos-cinzentos[32]. Ele era parente de Olwë, um dos dois reis dos Telerin e senhor daqueles que partiram por sobre o Grande Mar. Ele é também parente de Elwë [33], o irmão mais velho de Olwë, aceito como Alto Rei de todos os Teleri em Beleriand, mesmo após ele ter se recolhido ao reino protegido de Doriath. Mas Círdan e seu povo permaneceram de muitas formas distintos do resto dos Sindar. Eles mantiveram o alntigo nome Teleri (em Sindarin tardio [34] Eorm Telir ou Telerrim) e permaneceram de muitas forma um povo à parte, falando, mesmo em tempos posteriores, uma língua mais arcaica [35]. Os Noldor os chamavam Falmari, “povo das ondas”, e outros Sindarin de Falathim, “povo da costa espumante” [36].

Foi durante a longa espera dos Teleri pelo retorno da ilha flutuante, sobre a qual os Vanyar e Noldor foram transportados sobre o Grande Mar, que Círdan direcionou seus pensamentos e habilidade para a construção de barcos, pois ele e todos os demais Teleri se tornaram impacientes. Apesar de tudo é dito que por amor e lealdade aos seus Círdan era o líder daqueles que procuraram longamente por Elwë quando este estava perdido e não foi ao litoral para partir da Terra-média. Assim ele adiou sem maior desejo: ver o Reino Abençoado e encontrar novamente Olwë e seus parentes próximos. Dessa forma ele não atingiu o litoral até praticamente todos os Teleri seguidores de Olwë terem partido.

Então, é dito, ele permaneceu abandonado olhando o mar, e era noite, mas muito distante ele podia ver o brilhar da luz sobre Eressëa antes desta desaparecer no Oeste. Então ele gritou alto: ´Seguirei aquela luz, sozinho se ninguém quiser ir comigo, pois o navio que eu estiveconstruindo está agora quase pronto´. Mas quando ele disse isso recebeu em seu coração uma mensagem, que ele reconheceu vir dos Valar, embora em sua mente ele tenha lembrado como uma voz falando em sua própria língua. E a voz o alertou para não tentar este feito: pois sua força e habilidade não seriam capazes de construir nenhum barco capaz de desafiar os ventos e ondas do Grande Mar ainda por longos anos. ´Permaneça até aquele tempo, pois quando ele chegar seu trabalho será da máxima importância, e será lembrado em canções por muitas eras´. ´Eu obedeço´, Círdan respondeu, e então pareceu a ele ter visto (em uma visão, talvez) uma forma como a de um navio branco, brilhando sobre ele, que navegou para o oeste através do ar, e enquanto diminuia ao longe parecia como uma estrela de brilho tão grande que lançava uma sombra de Círdan sobre a praia onde ele estava.

Como sabemos agora, esta era a previsão do navio que após os ensinamentos de Círdan e com seus conselhos e ajuda, Earendil construiu, e no qual ele finalmente atingiu as prais de Valinor. Daquela noite em diante Círdan recebeu um poder de previsão em todos os assuntos importantes, além da medida de todos os outros Elfos na Terra-média.

Este texto é extraordinário pois por um lado nada é dito sobre a história e importância de Círdan como aparece em outros lugares, enquanto por outro lado quase tudo que é dito aqui é único. Nos “Anais Cinzentos” é dito (XI.8, $14):

Ossë persuadiu muitos a ficarem em Beleriand, e quando o Rei Olwë e seu grupo embarcaram na ilha e passaram sobre o Mar eles permaneceram no litoral, e Ossë retornou a eles e continuou sua amizade com eles. E ele ensinou-os a arte da contrução de navios e da navegação, e eles setornaram um povo de marinheiros, os primeiros da Terra-média.

Mas de Ossë agora não existe menção, a construção de navios no litoral de Beleriand é dito ter começado nos longos anos de espera dos Teleri pelo retorno de Ulmo, e é mencionado como (ver nota 29) como uma evolução de uma arte já desenvolvida entre os teleri durante a Grande
Jornada.

Outras características deste texto que não aparecem em nenhum outrolugar (em adição, claro, da história do desejo de Círdan de cruzar o Mar até Valinor e sua visão do navio branco indo a oeste através da noite, acima dele) são o fato dos teleri terem se demorado nas costas do Mar de Rhun durante a Grande Jornada (nota 29) que Círdan era olíder destes que buscavam por Elwe Thingol, seu parente, e que Eärendil foi ´ensinado´ por Círdan, que o auxiliou na construção de Vingilot.

Notas

29. Mesmo antes de chegarem a Beleriand os Teleri desenvolveram a arteda construção de barcos: primeiro como balsas e logo como barcos com remos em imitação aos pássaros aquáticos dos lagos próximos às suas casas iniciais ou especialmente durante sua longa permanência nos litorias do ´Mar de Rhun´, onde seus navios se tornaram maiores e mais fortes. Mas em todos estes trabalhos Círdan sempre foi o principal e mais inventivo e hábil.

30. Apenas Pengoloh menciona uma tradição entre os Síndar de Doriath de que este era em sua forma arcaica Nowë, cuja significado original é incerto, assim como o de Olwë.

31. [Apêndice B (nota de topo da Terceira Era): ´Pois Círdan via mais longe e mais profundamente do que qualquer outro na Terra-média´ (dito no contexto da entrega de Narya, o Anel de Fogo, a Mithrandir). Esta afirmação aqui na qual é dita ´nos Anais da Terceira Era (c.1000)´ é confusa, mas presumivelmente relatada às palavras da mesma passagem do Apêndice B ´Quando talvez mil anos se passaram... os Istari ou Magos apareceram na Terra-média´.]

32. Um nome Queny dado pelos exilados Noldor, e primariamente aplicado ao povo de Doriath, povo de Elwë Capa-cinzenta.

33. [Que Círdan era um parente de Elwë é mencionado no "Quendi e Eldar"]

34. Este é usado como um termo geral para o dialeto Teleriano do Eldarin, para o que veio a ser depois das mudanças de longos anos em beleriand, embora não seja inteiramente uniforme em seu desenvolvimento.

35. ["Quendi e Eldar": ´Os Eglain tornaram0se um povo de alguma formaseparado dos Elfos do interior, e ao tempo da chegada dos Exilados sua língua era de muitas formas diferente´. (os Eglain eram o povo de Círdan)].

36. [Para Falatrhim ver "Quendi e Eldar"; e sonre Falmari: ´os Elfos do Mar se tornaram em Valinor os Falmari, pois faziam música junto às ondas quebrando na praia.´]